Give Your Heart a Break
Escrita por: MsBea
Betada por: Vanessa


1.

Não tinha realmente me dado conta do quanto eu estava com saudade de ficar com o pessoal do Sonny With a Chance até vê-los. Mesmo não sendo um tempo tão grande assim, parecia uma eternidade, ainda mais por que costumávamos nos ver todos os dias por conta das gravações. Mas é a vida, dizem que tudo muda conforme as nossas escolhas e depois que eu decidi procurar ajuda, eles tiveram que continuar a série de alguma forma. Por isso o nome do programa mudou para So Random. Dei e continuo dando todo o meu apoio para que esse projeto continue indo bem, fazendo tanto sucesso quanto o antigo.
Apesar de já fazer um tempo desde que eu saí da clinica de reabilitação, foram poucas as vezes em que me encontrei com os meus antigos colegas de trabalho. O Brandon e o Doug organizaram uma festinha na casa da Tiffany, com toda a galera para a gente colocar a conversa em dia e rir com as piadas bobas que os meninos faziam e de forma alguma eu perderia essa oportunidade de me divertir novamente com eles. Tudo lá estava muito simples, mas nem por isso deixava de ser divertido e aconchegante. A sala não era muito grande e possuía paredes brancas. Tinha pouca iluminação, no entanto, era o suficiente para enxergarmos uns aos outros. Uma musica divertida soava baixinho, vinda de uma caixa de som ao lado direito, mas estávamos tão entretidos, que provavelmente ninguém se deu o trabalho de identificar qual era, pareciam somente ruídos. Havia também alguns aperitivos em uma mesa longa, encostada na parede à esquerda. O papo rolava solto e a coisa mais audível eram as risadas do Brandon, que estava tirando uma da cara do Doug ao lado da Allisyn.
Todos estavam num momento de descontração, vestidos despojadamente. Tiffany estava trajando uma calça jeans preta e uma simples regata rosa. Não tinha muitos acessórios, apenas algumas pulseiras e um colar. O Brandon estava como sempre, camiseta listrada, calça preta, tênis e um chapéu. Doug também não estava produzido para matar, vestido com uma camiseta xadrez e bermuda cor cáqui, simples como a Allisyn. Senti-me aliviada por ter colocado somente o meu short jeans claro, a minha grande camiseta do AC/DC, e minha jaqueta de couro, e não um vestido. Wow, sem vestidos por hoje. Parei de reparar nas roupas assim que me chamaram para conversar numa rodinha que fizeram no meio da sala.
Entre uma risada e outra, senti o meu celular vibrar com algumas mensagens. Pedindo licença, aproveitei para entrar no twitter, então varri a sala com os olhos, procurando algum lugar para sentar. Ao fundo, quatro ou cinco pufes jaziam graciosamente vazios. Com um levantar de sobrancelhas e um sorriso de canto, caminhei lentamente e me joguei em um deles.
“@ddlovato: aqui na casa da Tiff, rindo numa noite divertida com a galera do elenco”.
Não tive nem a oportunidade de terminar de digitar meu segundo tweet quando uma voz brincalhona soou ao meu lado.
- Você quebrou meu coração saindo dessa nova temporada, doce Sonny.
Não pude evitar rir ao levantar o rosto e encontrar um Sterling com as feições dramáticas, típicas de seu personagem Chad Dylan Cooper.
- Quem mandou ser um idiota, Chad? O seu ego e a sua falsidade foram os causadores de tudo isso.
- Não, você está mesmo insinuando que estou mentindo para você? Sério mesmo?
E então decidi entrar de vez na brincadeira, cantando um trecho na música que a Sonny compôs na ultima temporada.
- Oh, Chad, “Tell me what to do about you, I already know I can see in your eyes when you're selling the truth”.
Depois de alguns segundos sem mudar a expressão, ele desistiu e riu junto comigo, sabendo que nossas palavras eram somente parte da brincadeira.
- Certo, vamos parar com isso, você está começando a ferir o meu tão amado orgulho. – disse, rindo-se novamente – Mas e aí, Demi? Como vai a vida? Tudo está voltando ao normal?
Continua indo, lentamente, receosamente, sabe? As coisas não estão tão fáceis depois do término não muito amigável com o Joe. Muita pressão por parte dos fãs. E também tem a clínica, os rumores impossíveis, a imprensa tornando tudo um pouco pior. Mas eu supero isso. Pelo menos eu acho que supero. – terminei, tentando dar um sorriso de descontração, mas saiu como um suspiro meio engasgado em um riso irônico.
O silêncio pairou desconfortavelmente, o loiro ao meu lado olhava para o chão, brincando com os próprios dedos e eu girava o celular entre as mãos, forçando-me a apaziguar a agitação interna da minha mente, estômago e coração. A noite estava boa demais para ser atrapalhada agora por assuntos desagradáveis, então eu mesma decidi descontrair com a primeira recordação que me veio à cabeça.
- Lembra de quando a gente se conheceu? Você tinha o cabelo um pouco grande ainda.
- E você tinha uma franja menor. Não diga que não. Eu me lembro. – disse com o olhar vago, parecendo recordar-se de algumas coisas.
- Quando conversamos, parecíamos colegas há muito tempo. – continuei, tentando achar algum assunto que me levasse para longe dos tópicos “Jonas” e “reabilitação”.
- É verdade, falamos até de relacionamentos.
- E você disse que nunca iria se apaixonar. – ressaltei a parte do nunca, dando um sorriso descrente.

“Não é um dia qualquer, estamos aqui, em um pequeno anfiteatro que parece improvisado, fazendo testes para os papéis dos personagens de Sonny With a Chance. Já tinha abrandado meus nervos com relação à ansiedade, mas ainda estava inquieta. Em algum momento que eu não consegui descobrir, um garoto loiro, um pouco mais alto que eu, aproximou-se e me cumprimentou.
- Olá.
- Hey.
- Você está pensando em fazer que papel no seriado?
- Eu ainda não sei, eu acho. E você?
- Eles não definiram ainda o que o personagem vai ser, mas pretendo ser o Chad.
Começamos a achar assuntos que vinham do além, porque a conversa durou um bom tempo. Já tínhamos até sentado no chão, e ele gesticulava alegremente enquanto falava. Eu só ria e acrescentava algumas frases que ele não conseguia terminar de falar por ficar enrolado com as palavras. Ele até interpretou alguns personagens de filme. Depois de um tempo em silêncio, voltamos a tagarelar, dessa vez menos espalhafatosamente.
- E então? Gosta de alguma atriz famosa?
- Gostar de gostar da atuação, ou gostar de uma forma não profissional?
- Como uma paixonite aguda.
- Eu nunca vou me apaixonar.
- Por artistas? O que, ela é tão inalcançável assim? Casada? – digo, com um riso.
- Não, eu digo que nunca vou me apaixonar mesmo, por ninguém. – diz ele sorrindo, como se estivesse falando de como cachorros quentes, batatas fritas e hambúrgueres não tem gosto sem ketchup.”


Uma sombra estranha pareceu ter surgido em seu olhar, o que me fez franzir o cenho, em dúvida, mas logo ele riu. Não estava convencida, mas não tinha tanta intimidade assim para sair perguntando da sua vida pessoal. Mesmo que tenhamos um relacionamento amigável.
- E ainda digo o mesmo. Que coisa mais desnecessária. Já sou realizado, trabalho com o que gosto, com pessoas divertidas. Não preciso de mais nada.
- Sério? Está bem, essa é a parte que eu deveria pelo menos fingir que essa sua afirmação não passa de uma enorme mentira, mas estou em um momento tão bom – ironicamente falando – em relação a sentimentos, que eu não vou nem questionar a sua frase.
- Wow. Lovato, é melhor você parar para respirar enquanto fala, sabia? Porque deve fazer mal de verdade falar assim sem pausas.
Ri com ele, concordando com um menear de cabeça.
- Não se preocupe, eu tenho fôlego. Estou viva até hoje, não está vendo? Estou bem aqui.
- E isso é ótimo! Só que sempre há uma primeira vez. – sorriu marotamente.
- Vou tentar me lembrar da sua dica, Knight.
- Acho que é válido, vai que você morre tentando falar alguma coisa importante.
O olhar que era para ser repreensivo soou mais como divertido. Dou, então, um tapa fraco em seu braço, julgando que isso seria mais como uma censura nesse momento. E é claro que ele fez uma ceninha. Se ele não tivesse dramatizado, ele não seria realmente o Sterling.
Conversamos por mais um bom tempo, rindo de coisas que tirávamos das gravações ou dos erros que a gente cometia quando eu fazia a série. Ríamos tanto em algumas cenas que mal conseguíamos dizer as nossas falas. Tirando as vezes em que os objetos não colaboravam e sempre caíam na hora errada. Quando olho ao redor, momentos mais tarde, noto que não está tão cheio quanto estava no começo. Algumas pessoas já tinham ido embora e outras estavam indo pelo mesmo caminho.
- Eu acho que vou embora agora. Talvez eu assista algum seriado, já que é muito cedo para dormir.
- Pois é, Dems, acho que a Tiff vai querer ter um longo sono de beleza. – ele riu e se levantou. – Também acho que vou indo.
Levantei-me também e dispensei um beijo em seu rosto, dizendo algo como “nos vemos por aí”. Despedi-me de todos com promessas e cobranças de um novo encontro, e assim que entro no carro, o meu celular vibra. Coloquei o cinto antes de ler a mensagem.

S. Knight
Não vai bater com o carro se lembrar do meu lindo rosto.


Solto uma risada. Mal terminamos de nos despedir e ele já está me enchendo com suas piadas? Olho através da janela e encontro ele rindo na porta, ao ver minha expressão. Aceno e mando um “pode deixar, estou usando o cinto” por mensagem, mas não fico para ver sua reação.
Realmente lembrei-me dele no caminho, o que me fez dar risada. Mas outra pessoa que vem sendo um tabu nos últimos meses para mim também me veio à mente, e isso sim quase me fez bater. Começa com “Jo” e termina com “e”. Ligo o rádio, deixando tocar uma música alta e dançante, cantando aparentemente alegre, convencendo a mim mesma de que isso não tinha importância. Mesmo que minhas mãos estivessem tremendo ao segurar o volante.

2.

Assisti CSI a noite inteira, apegando-me aos detalhes, pensando em toda e qualquer coisa relacionada a crimes, formas de matar uma pessoa dolorosamente e sangue. Rios de sangue. Quase ri com meus pensamentos sádicos, mas ainda estava tentando manter o controle deles, então não tentei esboçar nenhuma expressão.
Tomei um longo banho, aproveitando para meditar embaixo do chuveiro, e só depois tentei dormir. Apesar de não ter percebido, eu estava mesmo exausta, já que não fiz muito esforço até pegar no sono. No entanto, já era bem tarde, ou muito cedo, dependendo do ponto de vista, então acordei às onze e meia na manhã seguinte. Levantei um pouco mais animada. Minha blusa do Mickey estava toda amassada, mas não me importei com isso. Ninguém ia me ver assim mesmo. Prendi o meu cabelo num coque frouxo e parti para a cozinha, em busca de cereais, morangos, leite e mel. Comi lentamente o meu café-da-manhã-quase-almoço, assistindo a alguma coisa na televisão, que eu não prestei realmente atenção. A minha mente já traçava coisas para se fazer em um sábado à tarde. Talvez, eu devesse chamar as garotas e passar o dia no shopping.
Troquei de roupa, colocando uma calça de moletom preta e uma camiseta de manga curta, branca. Correr, por que não? È uma ótima opção para começar bem o dia. Isso se tornou parte da minha rotina após a reabilitação, fez-me entrar em forma e virou um bom vício. Nunca acreditei quando me diziam que esportes eram como chocolate, que você não vive sem depois de um tempo fazendo, ou comendo. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo, coloquei meus óculos Wayfarer vermelho e peguei meu Ipod. Decidi ir até o parque, que não costumava ser cheio tão cedo. Fiz um leve alongamento perto das grades e fiquei correndo por lá durante uns cinquenta minutos, tentando ignorar claramente algumas lentas alheias. Sem chance, não estava com muita paciência para ficar aguentando muitas fotos, então decidi sair dali. Durante a volta pra casa, esbarrei distraidamente em uma pessoa e, quando me viro para pedir desculpa, notei olhos claros me observando com uma das sobrancelhas erguidas. Apoiei-me em uma das pernas e coloquei as mãos na cintura, revirando os olhos na tentativa de parecer aborrecida.,br> — Você? Caramba, por que não me deixa em paz, garoto?
Ele sorriu e eu também. Soltei uma risada engrandecida por minha vontade de deixar clara a divertida ironia contida nela. O tom da voz dele parecia sempre o de uma atuação. Meneei a cabeça, ainda sorrindo.
— Até parece, Knight. Mas e aí? O que está fazendo aqui? Está me perseguindo ou é só impressão?
— Na verdade, Lovato, eu estava indo ao cinema. Tem um filme ótimo em cartaz. Só que aí você esbarrou em mim e atrapalhou os meus horários, sabe?
— Filme? Eu estava mesmo precisando fazer alguma coisa hoje.
— Não, você não foi convidada, mocinha.
—Não? Então está bom, eu procuro assistir a um filme com outra pessoa. Uma pessoa mais legal, mais divertida.
Girei nos calcanhares para voltar à minha caminhada pra casa, reprimindo o sorriso, de modo que ele não visse, e comecei uma contagem regressiva. 3, 2, 1...
— Calma, Demi, eu estava brincando. Venha, eu estou te convidando.
Virei o rosto para trás, encontrando-o de braços cruzados em uma expressão forçadamente azeda. Era clara a vontade que ele tinha de rir, o canto de sua boca estava tremendo.
— Vai esperar eu tomar banho, me trocar e tudo?
— Se você demorar mais que uma hora, eu te abandono.
Sorri e voltei até ele, puxando-o pelo pulso até a minha casa, que já não estava tão longe. Assim que entramos, disse para ele ficar à vontade e liguei a televisão, jogando o controle em sua direção.
— Assista o que quiser, mas se você quebrar alguma coisa, eu vou fazer você consertar com suas próprias mãos.
— Pode deixar, amiguinha. – respondeu ele com um quê de diversão, sem parecer prestar realmente muita atenção. Tirei a camiseta no corredor, esquecendo, por um momento, que tinha visitas. Entrei rapidamente no quarto. Não me prendi muito a isso, então fui logo para o banho. Coloquei um short jeans claro, uma larga camisa branca e o meu Ray-ban preto. Sequei os cabelos e prendi novamente, deixando a franja solta. Converse, pulseiras, colares, bolsa e celular. Voltei pra sala, rindo ao ver ele jogado no meu sofá.
— Nem demorei tanto, não é?
Ele me olhou de cima a baixo com um sorriso e olhou no relógio em seu pulso. Deu de ombros e se levantou. — Isso tudo ai é só pra ir ao cinema comigo? – ele riu.
— Claro que não, seu idiota. É sempre bom estar apresentável. Câmeras, cliques, você sabe.
— Tudo bem, então. Eu não ligo para o que você veste, fica linda de qualquer jeito.
Soltei uma risada tímida e empurrei-o levemente quando ele dispensou um piscar de olhos galanteador.
— Você está muito engraçadinho pro meu gosto. – vesti a minha melhor expressão de falso desprezo. – Vamos logo, a gente vai perder os horários das sessões.
— Na realidade, a gente já perdeu uma das sessões.
— Sério? Ah não...
— Eu estava brincando, mas bom saber que você confia em minhas palavras. – desdenhou com outro sorriso.
— Argh, Knight, vamos logo! – não o esperei ter alguma reação, somente peguei o controle e desliguei a televisão, puxando-o para fora de casa em seguida.
Já estávamos dentro do carro, a caminho do shopping, quando ele soltou uma piadinha que me deixou um tanto quanto surpresa.
— Eu costumo tirar a roupa no quarto, sabe? Com a porta fechada. – e assoviou um ritmo qualquer, despreocupadamente.
— Por que é que você está falando isso? – perguntei cinicamente, já sabendo o motivo de tal brincadeira. Apertei as mãos no volante, pensando em coisas que não me fizessem enrubescer.
— Não sei, vai ver é por que você saiu arrancando a camiseta lá sua casa, sem nem se preocupar com o seu inocente convidado que estava sentado no sofá.
Ele virou o rosto em minha direção com um sorriso e, olhando de esguelha, ele não parecia nada além de divertido. Relaxei um pouco e ri desconcertada. Com ele era tudo tão simples.
— Eu não tenho culpa. Minha casa está sempre vazia, não fico me preocupando com essas coisas. Já me acostumei a fazer o que eu quero, onde e na hora que eu quero.
Estacionei o carro e rapidamente descemos, adentrando o shopping despreocupadamente. A diferença de luz me fez fechar os olhos assim que tirei os óculos.
— Acho melhor a gente se apressar, o filme daqui a pouco deve começar. – Disse Sterling, olhando em seu relógio.
Dirigimo-nos para o lado esquerdo do shopping, ele me puxando repetidamente de algumas lojas que eu insistia em entrar para ver as coisas. Assim que paramos em frente ao cinema, ele se encaminhou para uma das três cabines de venda que tinha ali.
— Por que você não compra os tickets e eu vou pegar a pipoca?
— Nossa, e não é que você pensa, Lovato?
Ri e dei um soco fraco em seu braço, seguindo para a pequena fila que ficava do lado direito do cinema, na parte externa. Encontramo-nos depois de uns três minutos.
— Vamos?
— Você não vai nem querer saber qual é o filme? – ele perguntou com um olhar descrente.
— Não, isso não importa muito. Vamos entrar logo, senão vou comer essa pipoca aqui mesmo.
Ele me olhou por mais um tempo, mas não me importei, somente o peguei pela mão e o levei para dentro do cinema. Ficamos mais ao fundo e ele não pareceu se importar com os olhares curiosos que as pessoas lançavam para nós. Eu já estava até acostumada, mas ainda incomodava um pouco. Quando o filme começou, eu estava mais entretida com a cor das poltronas na frente do que com qualquer outra coisa.
— É realmente um filme muito bom, não acha, Dems? E não faz nem três minutos que começou.
— Uhum. – respondi, mesmo sem ter escutado mais que duas ou três palavras.
Depois de um pequeno silêncio, tive a impressão se ouvir novamente a voz do Sterling.
— Que bom que você gosta de beber gasolina com hambúrgueres queimados.
E, então, minha mente vagou em espaços que eu não sabia que existia. No meio de tudo isso, sentia-me num mundo diferente. Um furacão de pensamentos começou a rodar em minha cabeça e eu literalmente fiquei tonta. Só depois de um tempo é que me dei conta de que deveria dar alguma manifestação de vida e, como ainda estava meio alienada, só confirmei novamente.
— É. – demorou alguns segundos para que eu juntasse suas palavras e elas não fizeram muito sentido em minha cabeça. – O quê?
Quando me virei em sua direção, ele riu e pegou um pouco da pipoca que estava entre nós dois.
— Você quer ir embora? Sério, eu não vou me importar.
Voltei meus olhos para os dele, que brilhavam com o reflexo das luzes coloridas que vinham da tela. Não seria justo ir embora agora. Ele me convidou, me esperou e me fez rir como eu não ria já havia um tempo. Meneei a cabeça, dando um meio sorriso e pegando mais algumas pipocas.
— Não, sério. Só estava um pouco distraída, vamos voltar a assistir.
No fim não, acabei prestando muita atenção. Era algo sobre um casal, que no começo eram somente amigos, mas que se envolveram em uma relação meio colorida. Era uma comédia, mas eu só ria quando o loiro ao meu lado também o fazia, para dar uma leve impressão de que estava mesmo entretida. Na realidade, eu ria de sua risada. Chame-me de louca, mas o som que fazia me contagiava.

3.

Quando saímos do shopping já tinha escurecido. O fiz dar voltas por várias lojas que não tinham nada a ver com ele e carregar algumas sacolas de compras para mim. Foi demasiadamente divertido, a cada dois passos, ele soltava três piadas, não seria normal se não fosse dessa maneira, afinal ele fazia parte de um programa de comédia. As brincadeiras rolavam soltas, e a maioria delas foi por minha parte, pelo fato de ele estar carregando sacos de uma cor rosa, que eram bem chamativos, por sinal. Conversamos sobre coisas superficiais, do tipo que cor ele pintaria a unha se fosse uma garota, e também sobre histórias de como quando éramos pequenos e não largávamos dos ursinhos de pelúcia, ou de até que idade tomamos mamadeira. Ambos sabíamos que tudo isso repercutiria de alguma forma na mídia, mas não era como se realmente estivéssemos nos importando com isso. Quem não deve, não teme, não é assim que o ditado diz? Sem preocupações com aparências, por hora.
No caminho de volta ficamos um tempo em um silêncio confortável, onde só a musica do rádio se fazia soar. Como já tinha anoitecido, as ruas estavam bem menos movimentadas, mas ainda tinha uma considerável quantidade de carros, o suficiente para causar uma pequena lentidão.
— Hey, quer que eu te deixe em casa?
— Olha, se você não se importar, eu adoraria. Estou com uma grande coisa dentro de mim, algo que não me deixa andar, sabe do que eu estou falando?
— Oh, é claro que sei. Isso se chama p-r-e-g-u-i-ç-a. – rio, divertida, fazendo uma curva oposta à rua da minha casa.
— Ou, quem sabe, é só vontade de sentir o cheiro do seu cabelo por mais tempo – ele prende o riso, vestindo novamente sua máscara dramática e falsamente sedutora.
— Você está mesmo caçoando de mim hoje, não é? Se você acha que sou tão passiva assim, estás enganado. Vai ter vingança. – descolo uma das mãos do volante para dispensar um tapa em seu ombro, enquanto ele ri descrente.
Não demorou muito para que eu estacionasse na frente da casa do Sterling. Todas as luzes estavam desligadas, o que me fez pensar se ele morava sozinho. Mais um item a adicionar na lista de coisas que eu ainda não sabia sobre o meu mais novo amigo. Antes de sair ele disse algo como um tchau cheio de modéstia, ironicamente, dizendo o quanto deve ter sido bom passar o dia ao lado dele e um monte de baboseiras falsamente presunçosas. Eu ri, mas assim que liguei o carro e acelerei, notei o quão vazio e gigante ele ficou, com a saída de um certo loiro. Cheguei em casa não muito animada, internamente eu sabia que a diversão do meu dia tinha acabado por ali. Talvez, se eu apenas comesse alguma coisa e fosse assistir algumas séries, o meu dia ainda pudesse fechar com alguma parcela de entretenimento.
Mais alguns episódios de CSI e eu adormeço sem nem tirar a roupa. Ultimamente, eu tenho somente reparado na letargia quando estou de fato na cama, porque só acordei umas nove horas da manhã, mesmo tendo dormido relativamente cedo. Levantei da cama ainda meio atordoada, e desliguei a televisão, que tinha ficado a noite inteira ligada, pelo fato de eu ter caído no sono sem perceber. Tomei um banho, colocando uma roupa qualquer para tomar café. Minha mente já traçava planos para um dia de domingo, mas nada realmente me animava. Já estava pensando em voltar para o meu tão querido leito, quando meu telefone começou a tocar. A voz animada e a proposta me deixaram animada por alguns segundos. Era a Hannah convidando-me para um dia de meninas. Compras, fofocas e piadas feministas. Já fazia algum tempo que não saía com elas, então realmente considerei a opção. Acabo decidindo por ir me arrumar, sabendo que eu não acharia mais coisas para fazer.
Passei na casa de Hannah para pegar as garotas que já estavam lá, e partimos para o salão. Atravessamos horas e horas conversando sobre os garotos que não tinham nenhuma noção de estilo, música e sapatos. Apesar de parecer fútil, as brincadeiras que elas faziam eram tão engraçadas e renderam boas risadas. O Halloween foi um dos assuntos que mais falamos, já que estava chegando e todas nós queríamos uma festa arrebatadora para ir. Só depois de muito tempo enrolando, decidimos ir para o shopping e, mesmo eu sabendo que já tinha feito a festa ontem com Sterling, decidi comprar mais algumas roupas. Digo, a culpa não é minha que algumas peças chamem tanto a minha atenção.
Paramos em uma lanchonete e eu estava imersa em pensamentos enquanto tomava um milk-shake de chocolate, quando a Hannah cutucou o meu ombro e apontou para a TV. Estava passando um programa que falava sobre os famosos, e para a minha surpresa, tinha uma montagem de foto, comigo de um lado e o Sterling do outro. O som estava muito baixo, mas ainda conseguia escutar algumas palavras. Logo após uns segundos, apareceu um vídeo de nós dois no shopping, ontem. Parecia bem mais íntimo do que foi realmente, pelo ângulo que foi gravado. Estávamos na fila para pagar as minhas coisas quando ele pegou um ursinho amarelo, que estava numa prateleira próxima, e começou a brincar próximo ao meu rosto, rindo fofamente. Eu acompanhava com uma risada meio escandalosa. De longe parecia mesmo um momento romântico, mas só eu ouvi as piadas maldosas que ele estava fazendo naquele minuto. E elas não eram nem de longe romanescas. Mais alguns segundos e a tela muda para a apresentadora que desatou a fazer comentários sem nexo e a lançar falsos rumores, para o delírio dos fofoqueiros. Eu podia até ver a minha expressão agora.
— Hum, que isso, hein, Demi? Pegando o garoto e nem conta para as amigas. – Hannah sorriu de canto, batendo seu ombro no meu.
Demorei um pouco para processar as palavras porque estava ocupada demais jogando o espanto para longe da minha mente.
— O quê? Calma, isso não é verdade! – e por algum motivo, eu sentia que estava corando.
— Como assim? Ali parecia realmente verídico. – a Kim completou risonha.
— E admita que ele é um pedaço bem grande de mal caminho – acrescentou a Lauren, piscando na minha direção.
— A gente só saiu juntos, qual é o problema? Ele é meu amigo.

Depois de algum tempo encarando inocentemente cada uma das meninas, elas desistiram de implicar e dispensaram palavras amigáveis, mas ainda estava estampada em seus rostos a vontade de rir.
— Tudo bem, a gente te deixa em paz, mas guarde o que eu digo minha querida Dems: isso vai dar pano para muita história. Refiro-me a vocês dois. – disse Hannah.
Isso me fez revirar os olhos em descrença, mas ela parecia estar falando sério. Levei-as para casa algumas horas depois disso, e assim que atravessei o meu portão, quis regressar ao começo do dia. Normalmente é bom voltar e ter o silêncio aconchegante do seu lar, mas ultimamente tem sido um martírio para mim. Algo dentro de mim desejava que houvesse o barulho de uma companhia, ou sua bagunça. Ligo todas as luzes assim que entro, convencendo a mim mesma que isso deixava o ambiente mais vivo. Largo a bolsa e as chaves no sofá, indo para o quarto e me jogando de roupa e tudo na cama. Apesar de ter me divertido, senti o dia todo falta de uma coisa que eu não sabia o que era. Foi como se eu estivesse fazendo uma coisa, mas esquecendo de outra. Aquela impressão de ter deixado alguma coisa passar. Não dei por falta de nenhum objeto o dia todo e mesmo assim aquela sensação continuava.
Lutei comigo mesma por alguns segundos, encorajando-me a deixar a preguiça de lado e levantar logo para trocar de roupa. Quando por fim me apoiei em meus cotovelos, o celular vibrou e logo em seguida começou a tocar. Atendi, estava fazendo um barulho muito grande do outro lado da linha, algo como música alta e conversas misturadas a risos. Não olhei o número, mesmo assim o timbre da voz me ajudou a reconhecer a pessoa.
“Demi?”
“Sterling? Oi.”
“Hey, girl, tudo bom?”
Sorri, piscando lentamente. Parecia fazer um ano que não nós nos falávamos. Pelo menos para mim. A constatação nem me fez perceber que aquele lance bizarro que eu senti o dia todo tinha sumido. Ele tinha a voz calma e estava falando um pouco baixo.
”Claro, e você? Que barulheira, onde você está?”
Antes que eu obtivesse a resposta, uma voz feminina gritou o nome do Sterling, irritantemente. Por alguns segundos o celular dele pareceu estar rolando, fazendo um barulho incômodo que me fez afastar o meu telefone do ouvido. Ouvi risadas e a voz dele pareceu voltar sem fôlego para falar comigo. Levantei uma das sobrancelhas, fechando a mão que repousava na cama em punho. Ele ria também.
“Estou numa festa. Eu te liguei porque eu queria saber se você queria vir.”
Meneei a cabeça, sentido uma impaciência sem sentido crescendo em mim. Respirei fundo antes de responder, como se eu estivesse tranquila.
“Na verdade, eu não posso. Estou muito cansada, passei o dia fora hoje. Mas obrigada pelo convite.”
“Ah, tudo bem então.”
“Aproveite a festa por mim” – deixo soar uma risada irônica, que ele provavelmente não percebeu.
“Eu irei. Boa noite, Dems”.
Seu timbre lançou indícios de desanimação por um momento, mas logo em seguida a voz dele pareceu estar longe, como se tivesse afastado o celular ao desligar. Pude o ouvir gritando o nome de uma garota a seguir. Trinco os dentes e jogo o telefone no outro lado da cama, afundando a cabeça em um dos travesseiros brancos. Fecho os olhos com desnecessária força, soltando um suspiro frustrado. Evito me xingar, ao constatar que eu ainda continuava sentindo falta dele.

4.

A semana passada inteira Sterling e eu saímos para algum lugar diferente, mesmo eu ainda estando um pouco nervosa pelo telefonema de domingo passado. O que não fazia acepção nenhuma, é claro. A semana não podia ter sido melhor, no entanto. Quando ele me ligou na segunda de manhã eu não consegui recusar o pedido de uma corrida no parque, já que eu também estava pensando em fazer isso. Combinamos de levar algumas coisas e logo depois que demos algumas – várias – voltas, nos sentamos na grama e comemos alguns sanduíches. Ficamos lá por uma ou duas horas, sem perceber que o tempo estava passando rápido demais, conversando como sempre fazíamos e brincando com os talinhos de gramas que arrancávamos do chão. Foi entre uma risada e outra que percebi as câmeras. Tirei-o dali comigo, começando a ficar estressada com a ideia de novos rumores que fariam as garotas olharem para mim com um ar de “eu sempre tenho a razão”.
Nos dias seguintes decidimos ir para alguns lugares menos notórios. E eles realmente não eram públicos, porque eu insisti em ficar longe de fotógrafos e qualquer coisa do tipo. Alternávamos entre reuniões íntimas na casa de colegas meus e dele. Mantendo o padrão da semana, iríamos fazer uma sessão de filmes essa noite, dessa vez na casa do Andrew, “seu maior parceiro”, como Sterling dizia. Tínhamos a escolha de filmes no estilo comédia romântica ou terror. Provavelmente seriam as comédias, já que a gente já tinha assistido a quase todos os filmes paranormais existentes na quinta-feira passada. Certo, dizer que foram todos foi um belo exagero, mas com alguma sorte o convenceria a deixar o medo – que ele parecia querer esconder - de lado e talvez pudéssemos completar a lista. Deixo soar uma risada e aperto a campainha. A namorada do amigo dele abriu a porta com um sorriso e me cumprimentou alegremente. Logo que entro, vejo Sterling passar, com certa dificuldade, carregando dois baldes enormes de pipoca, o que me faz rir mais ainda.
— Wow, vai ter mais que quatro pessoas hoje? – pergunto, ajudando a levar as coisas para a sala.
— Não, ora. Só que o meu querido colega disse para eu me prevenir hoje. Sabe, quando eu contei que da ultima vez você comeu quase toda a pipoca que eu fiz ele ficou assustado. – ele riu falsamente sarcástico, o que lhe resultou um tapa meu em seu braço. Consegui ouvir o grito que veio da cozinha, desmentindo a história.
— Isso é mentira! – logo vejo Andrew surgir pela porta ao lado, abraçando sua garota por trás. — Hey, Demi.
— Olá, Andrew – sorrio.
— Hey! Você o cumprimentou com um sorriso! Agora, quando é comigo, são só tapas, não é? Tapas e socos.
Franzi o nariz, tentando evitar o riso que queria vir quando o vi com ares de indignação.
— Você pede. No dia que você pedir outra coisa, eu te dou.
Ele olhou de um lado para o outro, de uma maneira típica dele, quase erguendo as mãos em rendição e é só aí que eu percebo o quão idiota tinha sido a minha frase. Reviro os olhos e me jogo no sofá ao lado dele após apagarem a luz. Ouço-o falar.
— Então, o que vamos ver hoje?
— Qualquer coisa com muito sangue. – respondo desenganchando a pulseira que ficou presa em uma das almofadas felpudas.
— Você está muito macabra ultimamente – ele riu, mexendo nos DVDs que estavam na mesinha.
— Pois é. Prevenção de desapontamento. O sangue nunca me decepciona.
— Hey, isso foi profundo. – ele me olha, admirado.
— Estou com essa garota. Nada de comédias por hoje. — Concordou And.
Rio, pegando um dos CDs que ele espalhou.
— Vamos assistir esse. Que tal? – viro para que eles possam ver a capa.
— Eu acho que a gente já assistiu isso.
Encaro Sterling por alguns segundos com um sorriso desafiador.
— É? Pelo que eu observei, você não prestou muita atenção.
— Sério? Acho que não foi bem assim.
Deixo um riso escapar antes de sentar-me sobre uma das pernas e apoiar o cotovelo no joelho, olhando-o curiosamente.
— Sério que você tem medo, Sterling?
— Eu? O que, medo de filmes? Ora, não brinque comigo. É claro que não.
— Então vamos ver esse mesmo. – bato palmas como uma garotinha de cinco anos que acaba de ganhar um doce. – Concordam?
Os outros dois dão de ombros e Andrew levanta do sofá para colocar o filme.
— Eu estava pensando em uma coisa mais light hoje...
Olho para o lado, desejando que Sterling visse que a decisão já estava tomada. Sento com as pernas em cima do sofá, de modo que pudesse abraçá-las. De esguelha, vi o Knight pegar algumas almofadas e se agarrar fortemente a uma delas. Tive que conter o riso para tentar não deixá-lo envergonhado, mas não pareceu funcionar muito, porque senti a atenção dele em mim.
O filme ia avançando e a todo minuto ele procurava alguma coisa pra fazer – já que eu tinha roubado o celular dele. Eu, Andrew e a namorada dele estávamos realmente sendo malvados, mas as cenas mais fortes nem eram tão assustadoras assim. Pelo menos, eu não acho que elas sejam. Quando o loiro ao meu lado sentiu que uma delas estava chegando, ele levantou, dizendo algo como ter que ir ao banheiro, porém não conseguiu mover nem um músculo a mais, porque eu o segurei pelo pulso. A essas horas só estávamos eu e ele na sala, já que os outros dois arranjaram coisa melhor pra fazer no corredor que dava no quarto.
— Só admita. Fica muito mais fácil se você admitir.
Ele me olhou estranhamente por um momento, moveu a cabeça em direção à televisão e depois voltou, com as sobrancelhas erguidas.
— Você está falando do filme?
— É claro. Vaaaamos, admita que você tem medo e eu tiro ele agora.
Ele riu, com um tom de superioridade, mas tenho certeza que tinha um quê de alivio também. Só não entendi bem o porquê.
— Lovato, Lovato. Com quem você acha que está falando? Me passe essa pipoca aqui. Tenho certeza que quem vai correr de temor será você.
Somente rio, batendo no espaço vago ao meu lado. Ele senta confiante, mas toda essa falsa prepotência não durou nem um minuto. A grande quantidade de sangue só faltava escorrer da tela, transbordando, escorregando pelo chão. Senti o tremor vindo do corpo dele. Por um momento, senti um gosto de vitória por ter a confirmação, mesmo que não verbal, de seu medo, mas logo veio uma vontade de tirar o filme e abraçá-lo, com pena e pontadas de divertimento incrédulo. Simplesmente porque nunca imaginei que, com todo esse tamanho, ele pudesse ter mesmo medo de filmes.
— Come um pouco, Ster, quem sabe isso faz você relaxar. – digo, com a voz calma.
— Não vou comer nada.
Viro o rosto lentamente em sua direção, erguendo uma das sobrancelhas. A ignorância dele morreu na última palavra e o canto da sua boca tremia. Ele queria rir. Ou chorar. De medo. Reprimo um sorriso.
— Como é?
— Eu não vou comer.
— E aonde toda essa pipoca vai parar? Caso você não tenha reparado, eu não vou comer isso sozinha.
— Se vira, garota.
Olho-o, sem reação.
— Ah, você vai comer. – digo em uma afirmação, sem paciência.
Ele dá de ombros, como se dissesse sem palavras que eu não poderia fazer nada. Mas eu sabia que podia, então, com um sorriso maquiavélico, encho uma das mãos com pipoca, apoiando os joelhos no sofá, inclinando o corpo para cima de um surpreso Sterling e tentando, sem muito sucesso, forçá-lo a comer. Em algum momento entre as nossas risadas, ele também conseguiu pegar munições, e a essas horas, já tinha sal para todo lado. Eu não queria admitir, mas estava claro quem estava vencendo a brincadeira. Eu nunca fui realmente uma boa perdedora, então em um dos instantes em que ele parou para respirar, empurrei-o e sentei sobre sua cintura, forçando algumas pipocas em sua boca. Aparentemente, ele estava atônito, o que facilitou tudo. Mesmo vendo-o daquela forma, eu não pude frear as palavras que saíram da minha boca.
— Quem está vencendo agora? – e o tom era jocoso.
Ele riu nervosamente, mantendo-se parado e me olhando cautelosamente. Toquei-me, então, percebendo a posição em que estava. Saí de cima dele com a certeza de estar corando. Olhei em volta, procurando sinal do Andrew e da namorada dele, antes de voltar o rosto para a televisão. O filme há muito já tinha sido esquecido, mesmo que a nossa atenção tenha se voltado para a tela.

5.

Domingo era um dos meus dias de semana favoritos, pelo simples fato de eu sempre conseguir estender a minha preguiça até tarde, sem compromissos ou reuniões importantes, e tudo o que eu fazia era deitar e assistir televisão até me cansar, como estava fazendo algumas horas atrás. Esse começo de semana foi diferente em seu final de dia, entretanto. Recebi uma ligação da minha tão antiga amiga e, bem, devo admitir que essa festinha na casa da Selena estava bem animada, e era um programa aparentemente muito melhor que o meus planos de permanecer mofando no sofá. Fiquei surpresa com o convite, é claro, pela razão de não termos nos falado muito ultimamente, mas nem por isso deixei de ficar feliz. Assim que cheguei, ela veio me receber com aquela tão típica animação de quando era criança. Sempre que nos encontrávamos depois de um tempo sem nos vermos, ela me recebia daquela forma, dando um longo abraço acompanhado de pulinhos de alegria. Apesar de termos crescido, não mudamos nossas velhas manias nem um pouco. Sentamos, sorridentes e entusiasmadas num canto, tagarelando sobre tudo dos últimos meses. Saltamos de tópicos em tópicos, que variavam de carreira e tipos de comida até shows e garotos.
— Fiquei sabendo que você finalmente achou seu príncipe encantado. – digo, em um cantarolar.
Ela parou para piscar e sorrir, olhando algum ponto distante. Eu nunca imaginei como seria o namoro de Selena com o Justin até vê-los juntos pela primeira vez, ainda como amigos. Eles negaram veementemente um envolvimento, apesar de sempre mostrarem um carinho imenso um pelo outro quando estavam juntos.
— Talvez ele seja mesmo. – trocamos um sorriso acalorado. – Agora só falta o seu.
— O meu não vai chegar tão cedo. – devolvi, rindo com falso desdenho.
— Talvez ele já tenha aparecido e você insiste em fechar os olhos.
Reviro os olhos, meneando a cabeça. Já fazia um tempo desde que deixei de me importar com essas coisas. A experiência sempre nos traz aprendizados importantes, e foi com ela que aprendi que “ou você aprende a brincar com os anjos, ou dança com o capeta”.
— Eu não acredito mais nessas coi... – mas a frase morreu em meus lábios ao avistar Sterling do outro lado da sala, conversando com algumas garotas. Não pude evitar o franzir de cenho.
— O que foi, Demi?
— Hã? Nada. – levanto rapidamente – Eu já volto.
Ponho-me a andar de encontro ao Knight. Faltavam uns dez ou doze passos para alcançá-lo quando ouço meu nome ser chamado. Viro o rosto na direção da voz, confusa por não reconhecê-la, então sou brindada com um sorriso conhecido. Fico embasbacada ao reconhecer Cameron Mitchel, ninguém mais, ninguém menos do que o meu primeiro namorado de todos. Permaneço sem reação por alguns segundos enquanto ele me olha sorridente.
— Hey, D.
— C-Cameron? – minha expressão era puramente surpresa – Nossa, você é você!
— Pois é.
— Digo, você por aqui! – ele riu da forma que eu falei.
— A Selena assistia ao programa que seleciona talentos para participar de Glee. Eu estava na competição. – ele deu de ombros, mantendo os olhos em mim.
— Wow, nossa! Desculpe-me os maus modos, é que eu estou realmente surpresa.
— Eu te perdôo se você vier me cumprimentar como antigamente. – ele sorri novamente.
Não hesito nem um segundo antes de me afundar em um abraço que me remetia toda a minha infância. Namoramos quando eu ainda era uma garotinha sem muita noção da vida e do mesmo modo foi uma das relações mais divertidas da minha vida.
Afasto-me dele, ainda descrente, mas animada com a visão de um velho amigo. Quando vejo pessoas que há tempo não via, sinto um sentimento nostálgico, que de alguma maneira me trazia uma sensação boa. Foi com esse pensamento que nos embalamos em uma conversa animada, dizendo o quanto a vida tinha aprontado conosco e o quanto isso tinha nos levado para longe de casa. Trocamos números de telefone também.
Ele se despede de mim um bom tempo depois, dizendo algo como ter que encontrar uma pessoa e me beija o rosto, indo para algum lugar que eu não prestei atenção. Minha pele formigou com a sensação de estar sendo observada. Olho ao redor para encontrar Sterling me encarando com um ar questionador. Encaminho-me para a cozinha, chamando-o com um leve aceno de cabeça. Ele me segue silenciosamente, deixando as garotas com quem estava falando. Apoio-me na pia e ele faz o mesmo com o balcão a frente.
— Não sabia que você estaria aqui. – digo, com um tom sereno.
— Nem eu. – responde ele, um pouco seco, e acrescenta um tempo depois, como uma exigência - Quem era o seu amigo?
— Quem eram as suas amigas? – devolvo, no mesmo tom.
Ficamos um tempo em silêncio, apenas desviando os olhares que de quando em quando se encontravam forçosamente. Senti vontade de agredi-lo verbalmente, jogando contra ele que, se ele podia ter amigas, eu também podia ter amigos, mas isso não era ético da minha parte. Afinal, não tenho que dar satisfação de nada que faço para ele, e esse pensamento parece ser recíproco. No entanto, eu não podia ficar brigada com ele, porque eu não conseguia e nem mesmo queria isso.
Tudo estava muito confuso dentro da minha cabeça, e não só por hoje. A cada dia que nos encontrávamos, ele quebrava um tipo de tabu dentro de mim, chegando perigosamente perto de algo que eu ainda não aprendi a definir. E eu não podia simplesmente fingir que nada disso tinha sido estranho. Eu sabia, e tenho certeza que ele também, que estávamos bem mais próximos do que costumávamos ser. Até porque sempre mantemos uma distância saudável, e nos últimos dias isso não tem servido como uma barreira de precaução. Parecia que a tínhamos pulado como se ela não existisse, brincando muito com as palavras arriscadas. Mesmo sabendo que elas não eram verdadeiras, ainda estava frágil emocionalmente, ainda me sentia assim. Vulnerável a sentimentos e opiniões.
De qualquer forma, algo repelia-nos para outro caminho, um mais seguro, talvez pelo fato de estarmos próximos demais e isso acionar algum alarme com relação a nossos traumas. Eu sabia o motivo para toda essa repulsa que ele tinha a relacionamentos. Num desses dias, ele me contou o porquê de nunca querer se apaixonar, e eu podia muito bem entender seus motivos e ainda concordar com ele. Eu sei que medo é o que realmente é. Nossas experiências não eram nem de longe agradáveis.
Agora estamos aqui, tão perto e ainda tão longe. Não pude evitar agarrar as costas da camisa dele, e o apertar com mais força contra o meu corpo. Ele pareceu hesitar por um tempo, mas depois devolveu o afago com a mesma intensidade. E droga, eu odiava ter consciência disso. Ter consciência de seus braços me rodeando, de estar sentido a respiração falha e ritmada dele, sentir o tecido de sua camisa, e ainda sentir que a tensão nos separava, como uma grossa parede que se formou num pequeno intervalo de tempo, e que ainda não superamos. Que poderíamos não superar. Dentro de mim, eu sabia que as coisas seriam diferentes com ele a partir de agora, mesmo que nós não tenhamos falado disso ainda.
Tentar esvaziar a mente não estava funcionando, porque, bem, estava tudo um grande caos. Não era um pensamento, eram vários. Não era uma sensação, eram várias. Entretanto era apenas um sentimento. Mesmo sabendo que admitir e por tudo em pratos limpos era a melhor opção, eu não conseguia o fazer. Ele não iria me dar abertura para nada, eu sabia. Criar expectativas nunca é uma escolha sadia.
— Quando você vai perceber?
Senti o corpo dele se tencionar, mas já era tarde para voltar atrás. E eu não queria, porque já estava aceitando a ideia, mesmo que inconscientemente, de estar divagando demasiadamente na relação que estávamos tendo nos últimos dias. No entanto, as simples palavras deixaram a tensão mais palpável do que nunca. O ar tornara-se pesado, mas não era só por esse motivo que eu não conseguia respirar direito.
— Demi, você sabe que...
— Não. Você sabe. Eu não sou como o resto. – tudo estava tão oculto nas palavras ditas por nós e ainda assim tão explicito. - Eu sei que no fundo você sabe.
Nada era mais alto que nossos sussurros agora, mesmo com a música explodindo na sala, fazendo o chão tremer quase que imperceptivelmente. O fato de estar agarrada a ele não me dava a oportunidade de ver sua expressão, no entanto, senti a pressão de suas mãos em minha cintura aumentar, em uma comunicação silenciosa. Tenho certeza de que ele me sentiu estremecer. Um segundo após isso, senti-o se afastar para me olhar.
— Não quero partir o seu coração – apesar de não passar de um murmúrio, minha voz era tão firme que nem eu mesma reconheci.
Ele estava imerso em pensamentos, seus olhos não tinham um ponto fixo, vagavam pela cozinha rapidamente, porém se fixaram em mim ao ouvir minha frase. Por um momento, seu olhar pareceu derreter docemente e, no outro segundo, ganhou um brilho estranho. Percebi, com horror, que não era estranho, e sim o tipo de brilho que sempre me acometia. Eram lágrimas presas. Tentei puxá-lo de volta e retirar tudo aquilo que tinha dito, mas já era tarde, ele já estava passando pela porta da cozinha. Chamo o nome em vão, andando rapidamente numa tentativa de alcançá-lo. Sou parada pelos olhos preocupados de Selena, que de alguma forma apareceu na minha frente.
— Demi, está tudo bem?
Olho em volta à procura dos cabelos loiros de Sterling, mas tudo o que encontro são vários pares de olhos curiosos. Balanço a cabeça, voltando a olhar para a confusa amiga a minha frente.
— Sim. Olha, eu tenho que ir, sinto muito, Sel.
Senti o meu nome ser chamado por ela, mas não parei de caminhar para escutar. Quando chego do lado de fora, tudo o que encontro é o ar frio dando sensações de corte em meu rosto.

6.

A minha cama nunca fora tão desconfortável antes. Tentei ligar várias vezes para o celular do Sterling, mas ele não atendia. Mandei mensagens tão ridículas e desesperadas que se eu fosse capaz de voltar no tempo, nunca as mandaria. Passei metade da noite acordada, encarando a pintura branca do teto, reparando em cada detalhe, cada falha. Depois do desabafo de ontem, eu tinha de admitir que eu estava me sentindo muito mais leve, mas em compensação, o sentimento ruim de tê-lo feito se afastar era infinitamente pior. Eu sempre conseguia deteriorar tudo de bom que a vida me dava. Estava se repetindo, como um ciclo desagradavelmente sem fim, uma história já narrada. Um conto que eu já sabia por inteiro, que já havia decorado. Primeiro eu estraguei minha amizade com Joe, que era muito importante para mim, por querer arriscar um relacionamento com ele. Foi bom, mas no final senti que não valeu a pena perder um amigo para o ressentimento-pós-término. E agora isso voltava à tona com Sterling. Que tem sido meu melhor amigo. Amigo.
Arrasto-me pesarosamente da cama, odiando mais uma vez acordar tão cedo. Não posso evitar olhar receosa para o relógio que jazia no criado mudo. Odeio manhãs, acho que já disse isso algumas milhares de vezes. E hoje eu não poderia perder nenhum minuto do dia. Mais tarde teria uma reunião com o pessoal da gravadora e eu não tinha ensaiado simplesmente nada de música nenhuma que eles me pediram. Talvez eu pudesse juntar um pouco da minha agilidade e colocar para fora tudo o que tenho sentido nos últimos meses em forma de voz e emoção. Isso não parecia uma má ideia. Entro no banho com um suspiro, prevendo como o dia seria longo e cansativo.
Deixo a “super produção” para ir ao estúdio, optando por um short preto e uma larga camisa cinza com o Mickey estampado para ficar em casa. Olho a cama, que ainda me parecia muito atraente, pelo reflexo do espelho, só notando um pequeno amontoado de pelos marrom e preto após alguns instantes. Sorrio ao virar e caminhar lentamente até ele, pegando-o no colo. O pequeno Oliver nem parecia tão sapeca e bagunceiro quando estava dormindo. Me pego conversando baixinho com ele, enquanto acaricio levemente atrás de suas orelhas.
— Sabe, Oli, você é o único macho que tem um relacionamento tranquilo comigo. Isso me deixa feliz, sabe? Porque se eu posso confiar em você, com certeza vou poder confiar em outro rapaz também. Não é possível existir só uma criatura do sexo masculino confiável. Você concorda comigo, não é?
Rio e o beijo suavemente antes de colocá-lo de volta na cama. Ele apenas se acomoda no colchão e volta a ficar imóvel, respirando preguiçosamente. Parto para a cozinha e começo a procurar algo nos armários para comer, antes da fome vir me atormentar. Jogo-me no sofá com uma tigela de cereais coloridos e começo a comer assistindo Two And a Half Men. Tinha me esquecido do quanto eu ria assistindo esse seriado. Ultimamente tenho me apegado somente a coisas sangrentas. Tanto que tinha até esquecido o que era uma comédia. Eu realmente tentei prestar atenção, mas apesar de ter os olhos fixos na televisão, minha mente vagava muito longe. As minhas próprias palavras ecoavam dentro da minha cabeça. “Não quero partir o seu coração”. Se ao menos eu pudesse mostrar isso com riqueza de detalhes, talvez ele confiasse em mim. Eu sabia que, no fundo, eu poderia mostrar pra ele. O problema é que eu não tinha como fazer isso agora, e nem poderia, porque ele não queria. Talvez eu devesse me conformar, enfim. Eu já perdi muita coisa por tentar mudar algo que já estava bom. Melhor dar tempo ao tempo. Dão dizem que ele é o que conserta tudo?
Tentando pensar em outras coisas, me toco que tenho estado sumida para os meus fãs ultimamente. Antes eu costumava me comunicar tanto com eles, passando horas em live chats, conversando em Meet And Greets e já tinha um bom tempo que eu não fazia nada desse tipo. Eu estava em falta com eles, definitivamente. Senti-me mal com tal indagação, então algum tempo depois, começo a tirar fotos com a câmera do celular. Uma do pote quase vazio do meu café da manhã, uma foto do desenho que estava assistindo momentos antes e uma minha deitada com o Oliver no tapete da sala. Postei todas no Twitter e aproveitei para falar com meus Lovatics. Eles, de alguma forma, conseguiram me colocar para cima, como só eles fazem, e isso me deu vontade de cantar. Despeço-me deles e me levanto para pegar o violão de cor clara, que estava encostado no canto da parede. A nostalgia pareceu passar das cordas para mim. Era o violão que eu usava para tocar as músicas do filme Camp Rock. Não evito um sorriso ao voltar a me sentar no tapete, começando a tocar a sequência dos primeiros acordes da musica It’s Not Too Late.

Here I am
Feels like the walls are closing in
Once again
It's time to face it and be strong

I wanna do the right thing now
I know it's up to me somehow
I've lost my way


Senti minha voz ir morrendo na garganta ao chegar ao refrão. If I could take it all back I would now, I never meant to let you all down. As palavras pareciam soar tão estranhamente irônicas agora. Encaixavam-se tão perfeitamente na minha situação atual, que pensei que estavam pregando uma peça em mim. Agora tenho que dar a volta por cima e descobrir como consertar isso. E eu vou dar a volta por cima, porque foi o que eu acabei fazendo com os meus problemas mais obscuros, não é? Tudo é uma questão de saber fazer as escolhas certas, no tempo certo. Como uma vez uma amiga me disse: ''A vida não é sobre como sobreviver à tempestade, é sobre aprender a dançar na chuva''. E assim eu faria. Eu vou limpar a bagunça que fiz, talvez não seja tarde demais. Pego o celular e respiro profundamente, num tipo de encorajamento interno. Começo a digitar rapidamente, endereçando a mensagem ao motivo da minha noite mal dormida:

Sterling, a gente tem que conversar. Preciso muito falar com você.

7.

Eu sabia qual era o motivo que estava me impedindo de ir dormir, mas tentei convencer a mim mesma que era apenas falta de vontade. Ele me respondeu pouco tempo depois, com uma pequena mensagem, dizendo apenas para passar em sua casa amanhã no final do dia. Foi o suficiente para me fazer palpitar. Só ai que consegui pegar no sono, mas mesmo assim, dormir não foi exatamente a palavra certa, já que acordei mais cedo que o habitual na manhã seguinte. Meu dia todo caminhou em função de expectativas que eu sabia que tinha que frear, para o meu próprio bem. Mesmo assim, meus pensamentos pareciam agir sozinhos e toda vez me pegava distraída com eles. Em algum momento, entre a troca de programas na televisão ligada na sala, eu me dei conta de que meus devaneios eram somente direcionados às reações que ele teria com a minha decisão. Tudo dependeria da forma que ele levaria para resolver as coisas. Eu tinha a solução, pelo menos parecia uma, agora cabia somente a ele decidir o que fazer com... Isso que eu estava sentindo. Não havia nada mais que ansiedade em mim agora. A vontade de resolver tudo isso de uma vez parecia querer sair saltitando, correndo para perto dele e acabando com isso de todas as formas. Talvez assim ainda pudéssemos voltar a nos falar amigavelmente e ainda, com sorte, poderíamos voltar a ser os amigos imbatíveis que vínhamos sendo na última semana.

Para o meu horror, o dia se arrastou lentamente, como se em vez de ir para frente, os ponteiros do relógio simplesmente voltassem dois minutos a cada dez segundos avançado. Nada me pareceu interessante, nem mesmo o comercial que promovia o novo episódio de CSI – e, se isso não me animou, não sei mais o que me animaria. Nos últimos dias eu fechava os olhos às nove e um e quando abria novamente já eram dez horas. O tempo passava voando. Essencialmente hoje, isso pareceu apenas um fantasma inexistente. Por vezes eu tive quase certeza que nunca passaria das três horas da tarde. Alguém algum dia me disse que a melhor forma de passar o tempo é dormir. Bom, eu verdadeiramente tentei, no entanto, consegui apenas olhar para o teto e as paredes do meu quarto, evitando roer as unhas com a aflição. Reviro os olhos pouco antes de levantar e praticamente cambalear até o piano negro que estava num canto da sala. Passo os dedos pelas teclas, levemente, sem tentar prender um sorriso de canto. Música, um dos poucos métodos de relaxamento que funcionam. O mais eficiente de todos, penso, enquanto sento-me e preparo alguns acordes para aquecer. Não demorou muito até eu começar a deslizar os dedos rapidamente, tocando a introdução de Until You’re Mine. Junto minha voz ao som doce do piano, e começo a cantar os primeiros versos da música. Ultimamente tenho me identificado tanto com o sentido das minhas velhas letras de músicas que parece até brincadeira mordaz. Solto um suspiro cansado, engasgando com minhas palavras.

Só algumas horas mais tarde é que eu me arrependo de ter ficado tão ansiosa com a chegada do fim desse dia tão longo. Agora tudo o que sentia era pavor e um aperto enorme na garganta. Sem falar as borboletas na barriga, que pareciam ter virado garras. Isso não me parecia uma coisa muito boa de sentir. Sabe aquela coisa que você espera muito e, no final, quando tem a chance de pegar ou realizar, bate um medo de não ser como você esperava ou planejava? Porque geralmente as coisas costumam sair dos eixos e trilham para lugares bem perigosos. Toda aquela experiência que aprendi forçosamente devido aos fatos do final do ano passado abriu muito os meus olhos, e finalmente eu conseguia aplicá-la em algo no meu dia a dia complicado. Mesmo que seja ruim, no final, as decepções com pessoas que menos esperamos sempre trazem algum ensinamento importante, que você vai levar para a vida toda. Por exemplo, você tem que aprender em quem pode confiar. Eu ainda uso isso como lema, e tem sido uma das coisas mais úteis na minha vida. A questão agora é entender por que eu sentia que podia confiar tão cegamente em Sterling. Do tipo, deixá-lo me guiar pelas bordas de um precipício enquanto mantenho meus olhos firmemente vendados, ao ponto de acreditar nas maiores maluquices e nas histórias loucas que ele podia possivelmente contar. De fazer sua verdade, minha verdade.

Suspirar agora me pareceu uma coisa certa. Pareceu aliviar alguma coisa estranha dentro de mim. Como se tirasse um peso da minha garganta. No entanto, não foi o suficiente para me acalmar. Já estava quase na hora de ir encontrá-lo, e do mesmo modo que queria muito o ver, sentia que estava indo para uma guerra num país desconhecido. No entanto, os inimigos me eram bem familiares. O medo, a dor, os sentimentos. E o local em que eu travaria essa batalha era um solo tão íntimo, mas mesmo assim tão complexo que nem parecia uma parte de mim. Digo, tem lugar mais óbvio que a minha própria mente? E eu estava travando uma luta com outra parte. Meu corpo inteiro parecia se recusar a se levantar – isso tem realmente acontecido muito ultimamente, digo essa letargia – do chão para começar a me arrumar. Com uma força de vontade desconhecida, eu me levanto e caminho em direção ao banheiro, convencendo a mim mesma de que um longo banho de banheira me ajudaria a relaxar e ainda me ajudaria a escolher as palavras certas para usar.

Parada em frente ao espelho eu me recusava a pensar que estava tentando ficar bonita para Sterling. Ele nunca pareceu ligar para esse tipo de coisa, ou pelo menos nunca demonstrou que se importava, mas foi involuntário quando minhas mãos deslizaram de gaveta em gaveta procurando por roupas certas. No final, eu estava vestindo apenas uma calça jeans escura, uma longa camisa branca e um cinto negro por cima, delineando a cintura. Tanta bagunça e roupas jogadas em cima da cama para somente escolher um simples conjunto como esse. Parecia apenas certo estar assim. Não era muito chamativo, mas não era um trapo dos piores. Não era nem desprezível ou fora de moda. Era... Casual, básico, o tipo de roupa para se usar em um passeio até a casa de um amigo. Olho no grande relógio prateado que estava pregado na parede antes de pegar minha bolsa, o celular e desligar as luzes da casa, deixando somente as do jardim acesas. Antes de sair, mandei uma pequena mensagem para Sterling, avisando que estava indo.

Fiz todo o trajeto do corredor para o jardim lentamente, tentando atrasar os segundos. Tirei o carro, tendo mais cautela do que de costume e acelerei assim que vi a pista livre de carros. Maldisse a falta de trânsito, não teria desculpas se eu chegasse tarde. Tarde o suficiente para ele já ter dormido, ou saído para a gente adiar essa conversa. No entanto, em menos de quinze minutos eu já estava estacionando na frente de sua casa. Somente quando saio do carro é que percebo que ele tinha respondido a minha mensagem, dizendo para entrar assim que eu chegasse, a porta já estava aberta. Bom, isso tornava as coisas um pouco fáceis. Ele parecia querer me dar a liberdade de me sentir em casa, sem tensão, cobrança, complicações. Mas o medo ainda estava ali, pendendo entre a minha garganta e meu peito, fazendo meu estômago dar voltas e voltas com a ansiedade acumulada.

Travo o carro e saio respirando o ar fresco da noite. O céu estava limpo, sem nuvem alguma, mas enegrecido de uma forma encantadora. Sem lua. Desço os olhos até o jardim da casa de Sterling. Era pequeno, a grama aparentava ter sido cortada há pouco tempo e ao canto tinha algumas plantas que eu não fazia ideia de qual espécie pertenciam. Abro o portão e caminho lentamente por cima da trilha reta de pedra, tentando enxergar por de trás das cortinas que cobriam as janelas pela parte de dentro. As luzes estavam ligadas, mas eu não conseguia identificar nenhum barulho. Tento tocar a campainha antes de entrar, por educação, mas depois de dois minutos sem resposta, eu apenas abro a porta cautelosamente, chamando-o antes de entrar. Fecho a porta atrás de mim, e com o ambiente fechado, abafando os barulhos da rua, posso escutar o som baixo e suave de um violão. Olho ao redor, procurando por sinais de vida. A casa era moderna e bonita, de um jeito diferente. Não tinha muitas cores, branco, preto e marrom escuro prevaleciam. O chão tinha um piso lustroso, e as paredes eram claras. Os móveis tinham tons escuros e apesar de tudo reluzir, podia se notar uma pequena bagunça espalhada pelos cantos. Parecia uma típica casa de homem solteiro. Não evito um sorriso ao constatar isso.

—Sterling? – chamo um pouco mais alto dessa vez.

Com uma das sobrancelhas levantadas, procuro o cômodo de onde o único som que se fazia soar vinha. Viro à esquerda, tentando, sem muito sucesso, abafar ao máximo o som irritante que o meu salto preto fazia no assoalho. Paro abruptamente ao ver finalmente os cabelos loiros e brilhantes do rapaz que eu estava procurando. Ele estava sentado no chão da sala, uma das pernas flexionadas e o violão no colo, numa pose relaxada. Tocava alguma musica que eu não consegui identificar – eu nem tentei realmente – enquanto acompanhava com seu Ipod ligado num volume alto. Não quis atrapalhar, apenas senti vontade de ficar ali observando os músculos de deus braços e costas trabalhando preguiçosamente enquanto ele trocava os acordes. A camiseta preta que estava grudada em seu corpo não me atrapalhava em nada. Prendo um suspiro, temendo que ele pudesse ouvir, e mordo o canto do lábio inferior, piscando lentamente. Todo o meu esforço pareceu ser em vão por que depois de alguns segundos ele aparentou sentir meus olhos sobre ele e se virou. Eu podia sentir que estava corando ao ser pega, mas dispensei somente um sorriso envergonhado. Ele me observou por alguns momentos antes de rir docemente. E o som de sua risada misturada à sua expressão tranquila me fez esquecer o que tanto ensaiei para falar.

8.

Pisquei algumas vezes antes de voltar à realidade. Eu estava de pé, atrás do sofá, com os braços cruzados e com toda a minha atenção direcionada para o sorriso do Sterling. Era bom ver que ele estava bem depois de ter fugido de mim ontem à noite. Não tinha vestígios de preocupação ou receio em seu rosto. Havia somente seu jeito largado e seu sorriso preguiçoso. Tenho notado que algumas horas longe dele têm sido cruéis de se passar. Eu ficava preocupada e cheia de vontade de ligar para ele, e o fato de termos meio que discutido ontem só aumentou a minha ansiedade de falar com ele. O incrível é que eu estou aqui me remoendo e ele parecia estão tão em paz, como se nada tivesse acontecido e isso fosse somente mais uma sessão de filmes que estávamos fazendo. Senti-me estúpida e imbecil por me preocupar tanto com uma coisa que nem tirava um pingo de sua atenção. Evito um revirar de olhos como demonstração de repreensão a mim mesma e deixo escapar um suspiro desanimado. Preocupar-me de mais com as coisas sempre me causou problemas, mas mesmo sabendo disso não é como se eu pudesse simplesmente bloquear esse instinto. É tão natural quanto corar, que é o que provavelmente eu estou fazendo agora. Nesse caso, por timidez, talvez pelo fato de ele me dispensar um olhar estranho – que eu interpretei como repulsa em relação ao meu comportamento estranho – e me chamar para sentar ao lado dele no tapete. Não é como se eu quisesse manter distância, mas não sentei muito perto. Ele pareceu estranhar de novo as minhas ações e me lançou um olhar com ares de quem queria uma explicação. Como eu iria dizer que era apenas um ato de precaução? Afinal, como ele pode agir com tanta simplicidade e calma? Porque quem saiu quase aos prantos ontem a noite não fui eu.

Tudo estava soando de forma tão desconexa. Talvez eu só estivesse criando sentimentos imaginários em lugares que eles não podiam simplesmente existir. Sinto como se a cor do meu rosto estivesse se esvaindo aos poucos agora, perdendo o rubor da timidez, dando lugar a brancura da incredulidade. Ontem as minhas palavras foram tão sinceras, pareciam fazer todo o sentido do mundo para mim. Então a raiz do problema talvez estivesse aí. Elas faziam sentido somente para mim. Procuro desviar dos olhos claros dele, sentindo-me incapaz de encará-los. No fim eu apenas tenho sido uma grande ingênua. Uma típica boba romântica e sem escrúpulos algum, criando situações e imaginando coisas sem eira nem beira. Tudo fica mais difícil quando descubro que sou facilmente decifrada por ele, tão exposta quanto um livro aberto. Isso ficou claro quando o ar dele mudou de questionador para um olhar preocupado.

— Demi, você pode, por favor, me falar o que, diabos, está acontecendo? – ele praticamente sussurrou, colocando o violão de lado.

No entanto, eu estava imersa em demasia na minha redoma de pensamentos para me preocupar em esboçar alguma expressão amigável ou falar palavras tranquilizadoras. E ele ainda mantinha o olhar atento sobre mim. Frear meus instintos estava tão difícil que pensei apenas em me render e deixar o meu modo irracional agir. Quando ele ousou falar mais alguma coisa eu já tinha me jogado em um abraço. Com a rapidez da minha ação ele caiu para trás, cingindo minha cintura protetoramente. Resultado não foi nada menos do que nós dois jogados no chão, eu sobre ele, abraçados sofregamente.

— O que foi...?
— Sterling, só cale a boca, okay? – ele riu como se estivesse descrente, o que me fez relaxar – Você me assustou ontem.
— Eu... Me desculpe.
Nunca mais faça isso. – eu não sabia se ele tinha escutado, saiu mais baixo que um sussurro. No entanto, a forma como ele respirou profundamente, cingiu minha cintura e acariciou os meus cabelos dizia que ele tinha entendido perfeitamente.
— Olha, eu sei que a gente precisa conversar. Só não vamos tornar isso muito difícil, tudo bem? Eu não quero brigar com você, Dems.
— Eu sei, eu sei. Eu só quero falar que a gente não precisa se desentender por essa coisa estranha que eu tenho sentido ultimamente, mas você talvez tenha percebido que isso não é culpa minha. Por Deus, eu não quero perder a sua amizade de jeito nenhum. Você é uma das pessoas mais importantes para mim agora. E se você quiser um tempo para pensar, tudo bem. Só não esqueça que eu estarei esperando você, para sairmos e brincarmos como temos feito nos últimos dias. Eu estou totalmente disposta a esperar o quanto você quiser.
— Por que você pensou que eu iria querer passar um tempo longe de você? – riu, meneando a cabeça – Nem tinha passado pela minha cabeça essa possibilidade.

Ele voltou a sorrir, e sua expressão tinha algo como um alívio misturado com diversão. Sorri de volta, me sentindo leve, prestes a flutuar. Todo o peso invisível que parecia estar nas minhas costas sumiu num piscar de olhos. Tudo aparentava estar voltando a se encaixar nos lugares certos. Saí de cima dele cuidadosamente, sentando-me a seu lado. Em minha mente, pensamentos piscavam em uma afirmação: adeus, drama desnecessário. Que voltem os filmes de comédia, quero um longo tempo longe de lágrimas e preocupação. Sterling também não parecia mais tenso. E, oh, isso era tããão bom.

Fiquei na casa dele até o final do dia, e fizemos tudo como uma semana atrás. Primeiro fomos para a cozinha tentar fazer qualquer coisa para comer assistindo filmes. A minha sugestão de fazer uma simples pipoca de microondas foi rejeitada, e em seu lugar veio uma proposta de bolo do chocolate. Insisti para que ele pegasse a receita já que não queria a minha ajuda, mas o orgulho masculino dele negou até o ultimo minuto de preparo. Acabei ficando apenas como uma mera ajudante e no final já tinha farinha e açúcar para todos os lados. Deixei o cabelo preso, porque era a única parte intacta e limpa que eu ainda matinha. Os cabelos dele estavam mais brancos do que loiros, o que resultou em muitas piadas e risadas da minha parte. Minha camiseta estava simplesmente imunda de calda de chocolate por culpa das brincadeiras do Sterling, mas ele não ficou muito atrás. Ambos concordamos que não era nem um pouco sensato nós ficarmos sujos, então eu fui até seu quarto e escolhi uma camisa xadrez de cor vermelha para mim, que mais ficou parecendo um vestido, e uma branca sem estampa para ele. Fui me trocar no banheiro e quando voltei, ele já estava trocado, a blusa preta estava jogada no braço do sofá. Apesar de toda a desorganização, o bolo acabou ficando bom, e nós dois devoramos metade assistindo o filme "Se Beber Não Case" dois. Fiquei em negação ao olhar o relógio e constatar que já estava tarde demais, apesar dele negar e me pedir para ficar. Quase aceitei, mas eu precisava ir embora. Não fazia sentido eu dormir aqui, até porque não é como se não estivéssemos sendo observados e, além de tudo, tínhamos acabado de nos acertar, uma pequena recaída poderia destruir muita coisa.

— Foi muito bom passar o dia com você, Ster. Eu já estava com saudades disso tudo. – digo, sorrindo de canto.
— Eu sei. Eu sou mesmo muito bom em fazer bolos, não é? – ele riu e me abraçou, completando logo após – Estou brincando. Também adorei ficar aqui em casa com você, rindo e sujando você de farinha de trigo.
— Está ficando engraçadinho de novo. – desdenho rindo – Você também não ficou muito atrás em questão de sujeira.

Já estava quase saindo quando me lembro que tinha deixado a minha blusa suja em cima do sofá dele, então me viro, no entanto, sou parada pelo corpo do Sterling, que me olhava com ares inquisidores. Dei de ombros, fazendo uma típica cara de casualidade.

— Minha camiseta. Ela está no sofá. – Desvio dele e me encaminho até a blusa, mas novamente sou parada, dessa vez pelas mãos dele puxando minha cintura para trás, me colocando de frente para ele. Digo as palavras cheias de falsa indignação, apesar de meu coração estar quase subindo pela minha garganta – O que é? Me deixa ir pegar a minha blusa, garoto!
— Não, nada disso.
— Oras, mas por quê?
— Ela simplesmente vai ficar comigo. – ele responde rindo.
— Mas ela está suja de calda de chocolate! – devolvo, revirando os olhos.
— Eu não me importo com isso.
— Isso não está fazendo sentido pra mim.
— Simples. Você está com uma camisa minha, e eu quero a sua para mim.
— Não seria mais fácil pegar uma limpa? Olha, me devolve que eu compro uma nova pra você. – digo, tentando passar, ficando na ponta do pé para tentar enxergar a camiseta por cima do ombro dele.
— Claro que não, Dems. Eu quero uma com o seu cheiro.

Voltei rapidamente meus olhos para os dele, a boca entreaberta em uma mistura de surpresa e descrença. Senti-me derreter por dentro, mesmo com a minha mente gritando para me afastar o mais rápido possível. Queria ter forças para dizer que ele não podia ficar fazendo isso comigo, porque apesar de ser, de certa forma, inquebrável, eu me machucava facilmente com decepções amorosas. E o meu amigo já estava querendo arranjar um espaço maior no meu peito. Meneio a cabeça e puxo a nuca dele para dar um lento e macio beijo em sua bochecha, dizendo um pequeno tchau. Em poucos segundos eu já estava acelerando o carro, fugindo da vontade de voltar lá e me afundar nos braços dele.

9.

Quer saber? Já estou cansada. É difícil, sim, frear instintos que eu queria simplesmente libertar, e talvez uma pausa seja o que eu precise no momento. Começo a sentir a necessidade de viajar, fugir da realidade e voltar um longo tempo depois, com a cabeça fria. É exaustivo pensar, antes de tudo, que tenho que fazer ou falar perto dele. É uma preocupação que não devia existir, já que somos amigos. Eu devia me sentir confortável o suficiente para me largar ap seu lado e falar o que me viesse à cabeça, no entanto, uma palavra ou ação impensada da minha parte pode acabar com uma prezada amizade. Por que, afinal, só eu pareço me preocupar em manter firme e livre de conturbações essa nossa relação? Sterling não parecia nem um pouco preocupado com isso.

Deixo um suspiro se fazer soar ao sair de casa para caminhar. Ultimamente a minha vida tem sido tão ligada e tem girado somente em torno do Knight que até tinha esquecido que há um mês eu evitava sair na rua para não encontrar certas pessoas. Reviro os olhos, aumentando a volume da música no Ipod. O caminho a minha frente parecia turvo, só conseguia prestar atenção nas coisas que aconteciam há menos de cinco metros eu meu redor, de modo que não vi uma pequena fila de garotos andando na minha direção. Fui de encontro ao corpo de um, e voltei para trás alguns passos pelo impacto da batida. Olho ao redor, aturdia a procura da causa da minha quase queda, quando focalizo grandes olhos castanhos me observando, também surpresos. Pisco lentamente, desamassando a roupa com as palmas das mãos. Paro por um momento, tentando entender o que estava acontecendo dentro de mim. Não era algo ruim, mas não era exatamente bom. Uma nostalgia estranha me acometeu quando ouvi a voz de Nick.

— Wow. Cuidado, Demi. – ele arregalou os olhos, acrescentando rapidamente – Quero dizer, olá.
— Nick, quanto tempo. – Espio por de trás do ombro dele e encontro Kevin e Joe me olhando. – Olá, meninos.

Nada de abraços, nenhum grande sorriso, sem piadas. Realmente as coisas não estavam tão normais assim. Encontramo-nos no VMA e foi agradável revê-los, trocamos algumas palavras amigáveis, mas não foi uma coisa natural. Depois de tanto tempo, nos falarmos em frente a câmeras e fotógrafos fizeram com que a pressão aumentasse, e que não fosse um momento franco. Eu já havia seguido em frente, assim como os Jonas, mas não tínhamos voltado a ser os amigos de antes. Os amigos que cantavam até altas horas, que faziam batidas na mesa enquanto estávamos almoçando. Bem, eu não almoçava realmente. Meneio a cabeça para espantar esses pensamentos e me forço a voltar à atenção para os três rapazes a minha frente. Ainda me observavam atentamente, o que me fez erguer uma das sobrancelhas.

— O quê? Tem algo de errado no meu rosto? Minha roupa? – não consigo frear a brincadeira, e o fato deles rirem dela me fez relaxar um pouco.

Não estava sendo tão ruim assim. É claro que minha imaginação fértil já tinha imaginado brigas, tapas, gritos e choros no reencontro com eles, mas minhas expectativas ruins não foram correspondidas. Reprimo a vontade de erguer as mãos e agradecer aos céus.

— Vejo que está tudo bem com você. Fico feliz por isso, Dems. – diz Kevin, sorrindo sinceramente. Retribuo o sorriso.
— A gente faz o que pode, não é mesmo? Vocês também parecem ótimos.
— Fiquei sabendo que você está trabalhando em um novo CD. Vou garantir o meu assim que você lançar.
— Vou ficar realmente lisonjeada se o fizer – sorrio novamente. Dou de ombros, olhando o relógio. – Bom, eu preciso ir agora.
— Tão rápido? – a voz de Kevin tinha uma pontada de desânimo.
— Compromissos – mentira – Eu procuro vocês por aí. – mentira – Ou, quem sabe, a gente se vê por aí?
— De qualquer forma, foi bom te ver, Mc DLove. – Nick pisca para mim marotamente.

Rio ao lembrar-me do meu antigo apelido. Aproximo-me e dou um abraço em cada um, hesitando muito mais do que eu queria ao chegar em Joe. Ele me segurou mais no abraço também, e algo nele emanava um pedido de desculpas silencioso. Suspiro e me afasto, distribuindo um sorriso fraco para eles antes de continuar a andar. A cada passo que me distanciava, conseguia entender melhor o que tinha acontecido. Dentro de mim, eu sabia que não morava mais nem um ressentimento, mas a sensação incômoda que ficou tinha um significado diferente. Não ciúmes, ódio ou arrependimento, conforme a mídia pensaria, e sim uma tristeza por não ter dado certo. Por ter estragado uma amizade por um sentimento fútil e desprovido de racionalidade pela minha parte. Meus pés mudaram o rumo, caminhando para uma direção oposta a do parque. Mudança de planos.

Continua...



Nota da Beta: Erros na fiction? Comunique-me por email. Xx.

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