ATENÇÃO!
Não leve em consideração a veracidade de nenhum fato histórico escrito abaixo.
As cidades, guerras e costumes narrados nessa história não tem ligação com a história mundial.
- Quantas você amou antes de mim?
- Nenhuma.
- E depois de mim?
- Nenhuma.
(Tristão e Isolda - William Shakespeare)
“He saved me, in every way a person can be saved.”
- Titanic
# 01
null desviou o olhar do céu claro, assim que ouviu a porta ser aberta. Ouviu barulho de movimentos contínuos, alguém arquejando, armaduras contra o chão, e a porta sendo fechada novamente.
Odiava fazer aquilo. Nunca adiantava, de qualquer jeito. Eles apenas se sacrificavam mais para defender um país sem honra nenhuma. Era desgastante.
Colocou a mão na bainha da espada e se virou para encarar o prisioneiro algemado e ajoelhado ao chão.
E então estacou surpreso.
Conhecia esse cavaleiro em particular. Havia lutado com ele na batalha mais cedo e quase havia sido derrotado. Conseguiu reconhecê-lo pela armadura diferente, com alguns detalhes em vermelho, símbolo de classe social alta.
Aquilo divertiu null, o fazendo abrir um sorriso cínico. Aquele homem em questão havia lutado bravamente, conseguindo desferir em null, dois cortes profundos na coxa, e ferindo gravemente null, seu braço direito. E agora ele estava ali, debaixo das garras da Inglaterra. De que havia servido de sua fúria afinal, além de mostrar a mediocridade da força Francesa?
null deu um passo a frente, observando o olhar intenso do prisioneiro acompanhar seus movimentos. Seu olhar não era furioso, null percebeu. Eram tão profundos que causavam mal estar ao homem. Não havia dor ou raiva, e sim uma sinceridade avassaladora. Uma impertinência desafiadora estampada em suas íris.
- Bem vindo à Inglaterra. – ele disse observando atentamente o prisioneiro ao chão – Qual é a sensação de se tornar agora, servo eterno do maior exército britânico?
O homem aprisionado passou o olhar pelo redor sem responder. null percebeu que ele avaliava suas chances, seus recursos para uma possível fuga.
- Não encontrará muitas chances por aqui. – ele avisou previamente, andando em volta do prisioneiro – Sua fúria de nada adiantará. Será respondida com violência, e agora você não é nada mais do que um simples servo britânico, mais miserável que um escravo. Precisamos de informações e você, um guerreiro francês fraco, não é nada mais que uma fonte de informação.
Para sua surpresa, viu o prisioneiro assentir.
- Você não fala, soldado? – null perguntou o observando.
A maioria dos prisioneiros respondiam com arrogâncias e ofensas contra à Inglaterra, juravam morte em honra da França, do que vida miserável servindo os ingleses.
Mas este prisioneiro continuou calado, e null deu vários passos a frente, puxando o capacete da armadura que o soldado usava.
Uma cascata de cabelos null caíram de dentro do capacete. null deixou o capacete cair, e se afastou perturbado.
- O que é isso? – ele perguntou fracamente.
Ele encarou aquele rosto feminino de traços delicados e se sentiu estático.
- A França está alistando suas mulheres? – null perguntou chocado.
- Pelo menos elas lutam mais bravamente que os guerreiros ingleses. – a mulher respondeu pela primeira vez.
null se ofendeu com a resposta, se lembrando de null machucado devido à sua batalha com aquela exata pessoa à sua frente.
- Lutam bravamente? Elas são pegas prisioneiras pelos guerreiros ingleses. – ele respondeu agressivamente. – Faz alguma idéia do que vai acontecer com você nessas masmorras?
Ele perguntou se referindo aos lugares onde eles guardavam os prisioneiros, infestados de guerreiros a beira da morte, ou extremamente violentos.
- Não tenho medo. – ela respondeu com indiferença.
null levantou as sobrancelhas.
- Tudo isso é amor a pátria?
A mulher soltou uma risada sem humor e desviou os olhos.
- Ou você não tem medo de todas as práticas que vão aplicar em você?
- Isso é uma ameaça? – ela voltou a levantar o rosto, erguendo uma sobrancelha desafiadoramente.
null abriu um sorriso cínico.
- Ameaça? Isso é a realidade. – ele disse como se cuspisse as palavras à mulher - Não imaginou que poderia ser presa, quando se alistou secretamente no exército francês? Não
se preocupou em se esconder de seus próprios comandantes, e não imaginou o quanto poderia ser pior se fosse pega pela nação inimiga?
- Cale a boca. – ela respondeu com a voz carregada de fúria. – Não há nada mais nojento do que a prepotência inglesa.
null num impulso puxou a espada da bainha, fazendo o assovio do metal soar por alguns segundos. Impulsionou a ponta da espada contra o pescoço da mulher ao chão, e a forçou levantar o queixo.
- E agora você serve a essa prepotência inglesa. Portanto respeito é a primeira das regras. Você é uma prisioneira. Encare o conceito dessa palavra. – ele disse observando com nojo a pele da mulher brilhar contra a luz clara que entrava pela janela.
- Vão me queimar com aço em brasa? – ela murmurou ainda desafiadora.
- Ou pior.
#02
- Ela atacou Earl, e matou dois prisioneiros com um pedaço de madeira. – Trist resumiu. – Ela está machucada, é verdade. Andou apanhando de alguns caras.
- Apanhando? – null perguntou visivelmente alterado.
- Bom, sim. Ela ameaçou muitos. E eles não são bem o tipo que aceita uma mulher ameaçá-los com um pedaço de pau. Alguns poucos soldados franceses que estão por lá pareceram conhecê-la. – Trist informou intrigado – A chamam por algo parecido com “null”.
null assentiu.
- Isso era de se esperar. A armadura que ela usava era de um nível superior. Uma armadura de general, ou comandante.
- O senhor sabe quais são as regras para mulheres que se intrometem no mundo dos homens. – Trist disse depois de alguns segundos. – E além de tudo ela é francesa, já machucou gravemente dois de nossos homens, e está causando confusão entre os prisioneiros. Só preciso de uma ordem sua, senhor.
null observava o chão enquanto ouvia. Por fim, negou com a cabeça e encarou os olhos claros de Trist.
- Não. Vou cuidar disso pessoalmente.
A mulher estava deitada a um canto de sua cela, com um longo vestido branco e ralo, que haviam dado a ela depois que a despiram de sua armadura. Quando null se aproximou da grande porta de ferro, viu a mulher levantar os olhos e fitá-lo por entre a cortina de seus cabelos null.
Em sua testa havia um machucado com aparência feia, e ela possuía arranhões pelos braços. Não esboçou expressão ou reação assim que null entrou em sua cela.
Trist adentrou a cela também, logo atrás de null, e a mulher desviou seu olhar para o objeto que Trist carregava. Era uma garra de gato que a mulher reconheceu na hora como instrumento usado para arranhar e arrancar a pele dos prisioneiros.
A isso ela esboçou reação. Encolheu as pernas e forçou seu corpo contra a parede, como se esperasse ser absorvida pelo concreto.
null observou seu rosto se contrair em uma feição de dor e angústia. Pela primeira vez, ela pareceu tão humana como ele e todos os outros.
- Soube que você andou dando problemas. – ele disse, tentando descobrir o que se passava na cabeça da mulher.
Ela não respondeu, como de costume, mas manteve sob o controle de seus olhos os movimentos que a Garra de Gato fazia nas mãos do outro homem.
- Nós temos tempo, e só vamos sair daqui, quando tomarmos uma decisão sobre o que fazer com você. Quer você colabore ou não. – Trist rosnou satisfeito.
A mulher cerrou os dentes puxando o ar com dificuldade e fez movimentos involuntários com os braços.
null se sentiu mal quando Trist a puxou pelos cabelos até o meio da câmara. A mulher caiu em cima do próprio braço, e quando tentou arrumar seu próprio corpo, Trist a empurrou de volta ao chão com violência.
- Você é fraca, não durará muito tempo, portanto colabore logo. – null observou o outro homem dizer rodando o instrumento que segurava em suas mãos.
- Eu não sou fraca. – a mulher se arrastou pelo chão tentando se levantar.
Trist a respondeu com um tapa. null desviou os olhos. Ouvia longe de sua mente o barulho de pancadas e gemidos. Sempre preferia encarar a parede numa hora dessas. Havia combinado com Trist que usariam a Garra de Gato apenas se fosse terrivelmente necessário. O objeto estava presente naquele momento apenas por intimidação. Ouviu Trist perguntar a ela como havia ido parar ao exército, porque usava aquele tipo de armadura, quem ela matou para conseguir o cargo, e tantas outras perguntas que não eram respondidas.
- Pare. – pode se ouvir depois de longas horas.
null se virou e observou o rosto ensangüentado da mulher ao chão, os hematomas por todo a extensão da pele. Seu vestido estava rasgado, e ela parecia exausta.
- Por favor. – ela murmurou novamente – Eu falo o que vocês quiserem.
- Pode começar – ordenou Trist se aproximando dela, e a fazendo se contrair imediatamente.
- Trist. – null disse em tom autoritário. Viu o homem se calar, e então se concentrou na prisioneira. – Como conseguiu se infiltrar no exercito francês? – ele perguntou a observando respirar com dificuldade sobre o chão.
- Me infiltrei no meio dos soldados quando as tropas marchavam na direção do Canal da Mancha. – ela respondeu com a voz fraca.
- Está com eles desde então?
A mulher assentiu puxando o braço junto ao corpo.
- Quem matou para conseguir a armadura?
- Ninguém.
- Onde conseguiu a armadura?
Ela não respondeu.
- Onde conseguiu a armadura? – null perguntou novamente elevando a voz.
Trist se aproximou lhe dando um chute no braço machucado.
A mulher rolou para o lado expressando sua dor num alto volume.
- Era de meu pai. – ela murmurou depois de alguns segundos.
null e Trist trocaram um olhar por milésimos de segundos e Trist ergueu a voz:
- Onde está seu pai?
- Está morto. – a mulher respondeu com os dentes cerrados, respirando com dificuldade.
- Qual era o cargo de seu pai? – null perguntou focando os olhos apenas no rosto dela.
- Comandante das tropas do Leste Francês.
Trist abriu um sorriso cínico e olhou radiante para null.
- Ótimo, você terá grandes coisas para nos contar. – Trist sorriu, agarrando a mulher novamente pelos cabelos.
- Não. – null ordenou dando um passo a frente. – Largue-a Trist. – o outro homem ergueu os olhos confusos. – Já chega por hoje.
null deu as costas, abrindo a porta da cela e esperando pelo outro. Cerrou os olhos quando viu Trist relutar em largar a mulher.
- Agora, Trist. – null ergueu a voz.
O homem passou bufando por null e fechou a porta da cela com força.
- Senhor, o que está fazendo? – ele disse tentando controlar a raiva em sua voz. – Tem idéia do quanto podemos descob...
- O que você pensa que está fazendo? – null sibilou – Questionando minhas ordens? – Trist abaixou a cabeça imediatamente. – Já disse que vamos deixá-la, e a interrogaremos depois. Depois, Trist. – ele repetiu ao ver o soldado levantar a cabeça furioso.
Trist deu as costas saindo da masmorra rapidamente e null lançou um ultimo olhar a cela da mulher.
Já passava da uma da manhã, quando null se aproximou a cavalo da sede do exército britânico. Havia guardas em todos os lados, e alguns cumprimentaram null com um aceno de cabeça.
O comandante avançou com seu cavalo para dentro dos portões e desceu de sua montaria. Ele carregava uma bolsa de couro atravessada ao corpo, e vestia uma calça de couro simples, uma camisa branca de mangas longas, e um colete também de couro marrom por cima.
Ao entrar na sede, ele se dirigiu as escadas que levavam às masmorras, e viu os guardas abrirem passagem a ele quando se aproximou. A porta de ferro continuava como null se lembrava, quando a visualizou no dia anterior com Trist.
Não pudera parar de pensar no modo como Trist desejara o sofrimento daquela mulher, e o quão machucada ela estava ao final do dia. Suspirou em frente a porta de ferro, se sentia totalmente inseguro ao que estava prestes a fazer. Tirou uma das tochas do corredor de seu suporte, e sem pensar no que estava fazendo, destravou todas as trancas que haviam na porta de ferro.
Quando abriu a porta, não pode enxergar nada devido à escuridão. A tocha que segurava era fraca, e sua luz não alcançava todo o interior da cela.
Conseguiu discernir a sombra da mulher ao chão, se arrastando contra a parede. Levou a tocha em direção a ela, e viu seu rosto invadido pelo medo e terror. Seus ferimentos pareciam mais doloridos do que antes.
- Não vou machucar você. – null disse fechando a porta atrás de si. Encaixou a tocha no suporte dentro da cela, e se ajoelhou ao chão.
A mulher pareceu não acreditar, ainda se arrastando pelo chão tentando ficar o máximo longe de null.
- Escute, eu trouxe coisas que podem te ajudar. – ele disse abrindo a bolsa que carregava.
Tirou de lá uma bolsa de água, algumas ervas que sabia que tinham poderes cicatrizadores, e podiam atenuar a dor.
- Falo a verdade. – null repetiu, enxergando a sombra da mulher encolhida ao canto da câmara. – Posso deixar aqui no canto para você se cuidar. Depois eu retorno e pego a bolsa, prefere assim?
Ela não respondeu, e o silencio tomou conta da sala enquanto null esperava por uma resposta.
- Porque está fazendo isso? – ela finalmente perguntou.
E null não sabia o que responder. Porque estava fazendo aquilo?
Nunca interceptara por nenhum prisioneiro. Nunca se envolveu com um prisioneiro, ou nem sequer se preocupara. Mas ela era uma mulher, certo? E estava fraca, e eles precisavam dela, era uma fonte de informações preciosa. null precisava assegurar que ela estaria sã e saudável. Saudável? Ela não estaria saudável ali, ele tinha certeza.
- Essas ervas têm poder de amenizar sua dor. – ele disse não respondendo ao que ela perguntou. – Eu trouxe água para você também. Vou esperar ali fora.
E se levantou, pronto para se retirar.
- Como você se chama? – ela perguntou antes que null pudesse se retirar.
- null null.
- É general?
- Comandante.
- Porque está fazendo isso, null? Se souberem o que está fazendo...
null não escutou mais, mas se virou novamente para sair, mas mais uma vez, a voz dela o interrompeu:
- Espere. – ela lutou para aprumar o corpo, mas desistiu quando doeu demais.
null a observou fazer caretas de dor ao se sentar, e se aproximou dela.
- Venha aqui. – ele arrastou a bolsa para mais perto dela, e molhou as ervas na água que havia trago. – Me dê seu braço.
O lugar que Trist havia chutado interminantemente apresentava muitos hematomas e cortes. A mulher esticou o braço com dificuldade, e ajudou null a cobrir toda sua pele com as folhas úmidas amassadas.
- null, - ela disse enquanto tomava um grande gole de água. null ergueu os olhos encarando seu rosto de perto. – Meu pai foi morto por ajudar prisioneiros.
null permaneceu sério por longos segundos.
- O mataram por isso?
- Bom, não. – ela desviou os olhos para as pernas arranhadas – Mas foi a gota d’água, pois ele estava desafiando muito os superiores.
- Porque está me falando isso?
Ela deu de ombros.
- Não sei ainda se você faz idéia do que está fazendo.
- Eu tenho muita noção dos meus atos. – null disse carrancudo, limpando um ferimento no joelho da mulher.
Ela deixou seus braços penderem ao lado do corpo, e olhou profundamente aos traços do homem a sua frente.
- Eu não ligo.
null ergueu os olhos questionadores.
- Não ligo de lhes dar informações. – ela completou a frase sem desviar seus olhos. – Mas não usem a expressão servir à Inglaterra para cima de mim.
- E acha que nos dando informações, estará fazendo o quê? – null perguntou cético.
- Vingando meu pai.
null curvou as sobrancelhas sem entender.
- O exército francês está imerso na corrupção, estavam prendendo nossos próprios soldados que tentavam interferir. Meu pai não aprovava a estratégia de invadir a Inglaterra. Desafiou todos os superiores, e acabou tendo suas conseqüências. – ela explicou concentrada em limpar o próprio rosto do sangue que havia grudado.
- Me dê isso. – null ordenou pegando a flanela que estava em suas mãos.
Se concentrou em limpar os ferimentos dela na base da testa, na sobrancelha, e no maxilar.
Não conversaram, até null segurar no queixo dela, e encarar sua boca.
- Dói? – ele disse depois de alguns instantes e tocando o lábio dela.
- Sim. – ela desviou o rosto das mãos dele e o encarou nervosa. – Posso me cuidar agora. – ela disse amassando as folhas e pousando em seus machucados do rosto.
null a observou, e quando ela terminou com um suspiro, ela lhe lançou um olhar diferente dos demais. Um pouco mais íntimo de todos os olhares que eles já haviam trocado.
- Qual seu nome? – Foi a vez de null perguntar.
- null null.
- null. – ele repetiu seu nome.
Soava bonito na voz dele, os dois observaram.
- null, amanhã eu e o general viremos aqui te visitar novamente. – a mulher arregalou os olhos assustada com o que viria a seguir. – Não faremos nada demais, mas você me falará novamente que será nossa informante. Ninguém pode desconfiar da visita desta noite, entende?
A mulher assentiu totalmente consciente do que null falava. O homem recomeçou a juntar todas as coisas que haviam espalhadas pelo chão – a flanela já suja de sangue, a bolsa d’água, as ervas que haviam sobrado...
- Você se sente melhor? – null perguntou voltando a olhá-la.
null assentiu e logo depois acrescentou:
- Como explicarei estar livre da maioria dos ferimentos amanhã?
- Não estarão totalmente curados. Apenas menos doloridos e sem risco de se agravarem. Trist e o general não sabem observar esses detalhes, não se preocupe.
null se levantou e olhou para a mulher no chão que também o fitava.
- Preciso deixar claro, null, que nem eu, e nem os superiores confiaremos em você em primeiras vistas. Se você der um passo em falso, as conseqüências não serão controladas por mim. Trist é encarregado dos castigos, e nessas questões o general é quem dá as ordens.
null pareceu abalada por um instante, e logo depois assentiu.
- Eu não sou totalmente ignorante nesses assuntos, null. Não tenho mais nada a perder. Não pense que estou interessada no sucesso da Inglaterra, só não tenho mais amor pela minha própria pátria. Posso liberar informações sem precisar ficar apanhando numa cela.
null assentiu desviando o olhar.
- Seja como for. Se livre das ervas mais tarde. Jogue-as pela janela. – ele olhou para uma fenda horizontal que havia no alto da parede da cela.
- Janela? – null perguntou com sarcasmo, também olhando para o que null chamava de janela.
O homem deu um sorriso mínimo com o canto da boca e então deu as costas a mulher, uma ultima vez, se dirigindo à porta de ferra.
- Obrigada, null. – ele pode ouvir antes de começar a lacrar todas as trancas da porta.
#03
Dale havia recebido ordens. Carregava na mão esquerda um saco, em que ele desconfiava que havia roupas, o que deixava sua mente mais tomada pela confusão. Trist, ao seu lado, caminhava com sua pose imponente e não deixou que o soldado perguntasse muita coisa. Chegaram às masmorras e Dale seguiu o outro homem até uma grande porta de ferro. Um prisioneiro numa cela solitária? Ele não havia ouvido falar de nenhum prisioneiro recente que precisasse ir para uma dessas celas.
Trist destravou todas as trancas da porta, fazendo o barulho das ligas metálicas ecoarem por todo o aposento. Dale não enxergou muita coisa quando a porta foi aberta, e demorou um pouco até que suas pupilas acostumassem com a falta de luz no interior da cela, para que ele pudesse enxergar a silhueta de uma... Mulher? Sentada no chão, no canto da parede.
Trist ao seu lado abriu um sorriso malicioso.
- Bom dia, francesa, o general e o comandante disseram que você se promoveu hoje, é verdade? – ele perguntou com a voz carregada de uma diversão pervertida.
Dale desviou seus olhos para a silhueta ao chão e esperou por uma resposta, que não veio. Trist pareceu se contrariar com o fato, arrancando da mão do outro homem a saca branca e atirando sobre a mulher ao chão.
- Troque-se, você tem uma reunião com o general.
A francesa ergueu os olhos questionadores e olhou dentro da saca, curvando as sobrancelhas. Logo depois voltou a olhar para Trist, esperando por algo mais. O homem sorriu se recostando sobre a porta e cruzando os braços.
- E nós vamos assistir. – ele disse maldoso.
null vestia um vestido longo marrom, que parecia manchado de óleo em várias partes, e emanava um cheiro forte de mofo. Ela preferia ainda estar usando seu vestido ralo, já que ela tinha certeza que tampava todas as partes de seu corpo, não emanava um cheiro daqueles, e afinal era seu vestido.
Dale havia acorrentado seus pulsos e seus calcanhares, e o último impedia que a mulher andasse normalmente, dando uma desculpa para Trist estar a todo momento segurando em seu braço, como se a guiasse.
Trist, porém, não procurara desculpas para encarar longamente o busto de null, que o vestido realçava. Dale também havia trocado alguns sorrisos malévolos com o acompanhante, e cutucava null com a garra de gato cada vez que ela tropeçava.
Seu coração batia disparado, e a insegurança tomava conta dela a cada passo. O pânico que a havia preenchido a partir do momento que percebeu que havia sido prisioneira, parecia poder explodir em seu peito, tamanha a intensidade. Respirava fundo e se concentrava em seus passos, tentando ignorar o sentimento crescente em seu corpo, o medo dos dois homens ao seu lado, e o que a aguardava no final daquela trajetória.
Dale finalmente encostou a garra de gato na barriga de null, indicando que a mesma deveria parar. Estavam em frente a uma porta de bronze de duas faces. Trist bateu três vezes, e a porta foi aberta por null.
null. O nome ecoou na mente de null, a partir do momento que seus olhos se encontraram. Ele não fez nenhuma menção de reconhecimento a ela, apenas afastou seu corpo da entrada, abrindo espaço para os três recém-chegados. null reconheceu a sala onde esteve na primeira vez em que viu null; onde ele descobriu que na verdade o rápido soldado com quem havia lutado mais cedo era uma mulher.
- General, a prisioneira. – null entoou com sua voz grave, fazendo novamente os olhos de null correrem até ele.
Um homem grande usando uma farda azul escuro, parado perto da janela, se virou lentamente e mirou null nos olhos. Seu rosto era largo e barbudo, seus cabelos cor de rato eram ondulado e ralos, dando-lhe uma aparência mais velha do que deveria ser na realidade.
- Francesa. – ele rosnou com nojo, deslizando os olhos para o corpo dela.
null não pode evitar o tremor que tomou conta de seu corpo.
- Nos encontramos novamente. – ele rosnou sorrindo divertido. – Gostou de suas novas roupas? Não se acostume, é a única coisa que receberá de nós. Além, é claro, dos restos de comida que sobrarem dos empregados. – ele riu se achando engraçado.
Passou algum tempo observando o rosto da mulher tentando absorver alguma pista. null teve certeza que sua feição não expressava nada.
- Está com fome? – o general perguntou apontando para a bandeja de frutas que havia sobre a mesa.
null não olhou, tentando manter a fúria de seu estomago adormecida. Não resolveu muita coisa, porém. O barulho do general abocanhando uma maçã penetrou os ouvidos da mulher, fazendo suas entranhas urrarem de fome.
Ela suspirou calmamente e novamente, não esboçou reação.
- As tropas francesas se reagruparam. – o general informou depois de alguns segundos, ainda mastigando de boca aberta, com gosto, a maçã. – Estão tomando a direção do rio Escalda.
- Achei que vocês já tinham controlado o canal. – null se pronunciou enfim.
E null finalmente ergueu os olhos para o rosto dela ao ouvir sua voz.
- Ainda não totalmente. – o general se pronunciou.
Abocanhou o resto da maçã e deixou o caroço sobre a mesa.
- Quer uma? – ele perguntou arremessando uma maçã contra null.
Ela foi pega de surpresa, erguendo os braços a tempo, mas acabou tropeçando nas correntes, fazendo Dale a empurrar de volta para o lugar com violência.
O general e Trist riram alto.
- Pelo visto não está querendo comer, tsc. – ele suspirou, parecendo uma grande morsa. – Vamos ter que trabalhar muito com você.
Trist aprovou com um sorriso, girando a garra de gato nas mãos.
- O que me diz comandante? – o general perguntou energicamente, realmente interessado em ouvir a resposta de null.
- Ela pareceu absorver muito bem a mensagem na reunião que eu e Trist tivemos com ela ontem, general. – ele respondeu trocando um olhar com Trist.
- Qual é a chance de ser presenteado pela sorte com um prisioneiro cheio de informações?
– o general riu, mal se importando com a resposta de null. – Bom, francesa... – ele suspirou pegando mais uma maçã sobre a mesa. – Vamos apenas lhe relembrar a razão de ter aceitado ser nossa informante. Só para ter certeza que você não se esquecerá. – ele deu um passo em direção a saída. – Faça seu trabalho bem, Trist. Você me acompanha, null.
null não se mexeu ao encarar o olhar de null.
- null? – o general ergueu a voz, já do lado de fora da sala.
null se forçou a desviar os olhos e saiu sem dizer mais nada.
O corpo de null doía horrivelmente. Ela estava de volta a seu vestido branco fino, mas o sentia encharcado nas costas. Sua mão tinha movimentos involuntários, e ao respirar suas costelas doíam. Sentiu uma vontade imensa de chorar, e virou a cabeça observando a fenda horizontal no topo da parede de concreto. A luz do luar entrava fracamente por ali, e null ouvia os barulhos do vento contra as folhas das arvores.
O barulho das trancas de metal se abrindo a fez pular de susto, logo depois se arrependendo, pela dor excruciante que sentiu nas costas. Uma tocha iluminou o interior da cela, e o rosto perfeitamente moldado de null surgiu nas sombras.
Ele não disse nada, assim como ela, que permaneceu imóvel. null fechou a porta, apoiou a tocha no suporte, e se ajoelhou ao lado da mulher.
- Eu digo que vou ajudá-los, e vocês resolvem me agradecer com violência. – ela disse com a voz mais sã do que null imaginava que estaria.
- Não vai acontecer de novo sem motivos. Foi só um reforço. Faça o disse que fará. – ele respondeu, abrindo a bolsa de couro, que novamente havia trago consigo.
null soltou um riso sarcasticamente.
- Como se algum dia vocês fossem ser complacentes comigo.
null não respondeu, puxando algo de dentro da bolsa.
- Eles te deram algo para comer?
- Algum pão duro, com uma carne estragada. – ela disse com descaso.
null estendeu a ela um embrulho, que null abriu descobrindo ser um pão de ló com algumas uvas ao lado.
Mas ao invés de atacar a comida, ela ergueu os olhos inexpressivos.
- Porque está fazendo isso? – ela colocou o embrulho ao chão e encarou null. – Do mesmo modo que vocês não confiam em mim inteiramente, eu não confio em você totalmente. Sabe que se descobrirem o que faz, além de mim, você também será castigado? O que quer com isso, null? O que espera que eu faça por você? Não entendeu até agora o que eu sou? Não tenho mais nada a dar a ninguém, o que você quer de mim? – null perguntou apressadamente com impertinência, deixando seu olhar penetrar ao de null.
- Quero que você coma. – ele disse depois de alguns segundos, apontando para o embrulho ao chão. – Não está envenenado. – ele terminou de dizer voltando a se concentrar em sua bolsa de couro.
- Eu preferia que estivesse. – null disse em bom som, pegando o pão ao chão e abocanhando o máximo que sua boca permitia.
O resto do pão e das uvas sumiram rapidamente para dentro do estomago de null, e null a obrigou parar de beber tanta água para poder sobrar alguma com que limpar seus ferimentos.
Neste momento, null se calou, e se encolheu levemente.
- Não é preciso de fazer isso hoje, null.
- Trist me disse o que fez a você. – ele respondeu sem se alterar. – Já te disse que não vou te machucar. Se preferir, eu me viro para você... bem... – ele se embaraçou, e foi salvo por null, que assentiu com a cabeça.
null, ainda sentado no chão, se virou de costas para null, e encarou o escuro por alguns momentos.
- Pronto. – ela disse fracamente.
Ele respirou fundo e se virou. null estava sentada de frente para a parede, deixando suas costas nuas de frente a null. Ele reprimiu o som que forçava sair de sua garganta. As costas de null estavam arranhadas, raladas e com alguns roxos espalhados sobre a pele. null se apressou a molhar as folhas da erva na água, e entregou algumas para null, enquanto ele próprio se encarregava de limpar e tampar os ferimentos de suas costas. Percebeu null tratando de seus ferimentos sobre o rosto e os braços. null roçava sua pele na dela de leve, tentando não machucá-la. A pele dela era incrivelmente macia e quente, e null deixou pairar em sua mente o fato de que nunca faria algo daquele tipo a nenhuma mulher, por mais que ela fosse da nação inimiga, ou mesmo se ela fosse traidora de sua pátria. O rosto de uma outra mulher pairou sobre seus olhos, e ele suspirou alto, mordendo o lábio inferior.
null virou o rosto levemente para o lado, tentando enxergar o rosto de null.
- Você não tem que fazer isso. – ela disse com indiferença, voltando a se concentrar em seus machucados.
- Quando é que você vai entender? – null disse virando os olhos. – Estou aqui porque quero, null, sem nenhuma segunda intenção.
Permaneceram calados analisando o efeito do nome dela dito na voz de null. Ninguém falou nada até null começar a tirar as folhas das costas de null, soprando com cuidado, tentando aliviar a dor na mulher. Quando ela encostou a testa sobre a parede, null percebeu que ela estava sonolenta.
- Vou deixar você agora. – ele disse baixinho, e começando a organizar sua bolsa.
Quando voltou a olhar null, ela estava deitada sobre o chão, com o vestido branco lhe tampando apenas os seios, e de olhos fechados, respirando calmamente.
- Amanhã isso não acontecerá. – null prometeu, sentindo vontade de se agachar e tocar seus cabelos que estavam espalhados como leque pelo chão.
null assentiu levemente e murmurou um ‘obrigada’ fraco.
#04
null observou null caminhar até ele mancando e ergueu os olhos para o amigo. Ele não ficaria nada feliz quando soubesse. Muito menos quando soubesse o que null andava fazendo.
- Axel falou algo sobre um prisioneiro francês. – null começou, se sentando no banco de madeira ao lado de null. Ele estava com uma caneca de alumínio na mão, e olhou para o amigo a procura de mais alguma novidade.
- Não é uma coisa que se está divulgando entre as tropas. É informação restrita. – null disse, se fingindo distraído.
null assentiu, tomando um gole de sua bebida.
- Foi pego na batalha do canal não é? Quem é ele?
null permaneceu calado. Depois de alguns segundos encarando a superfície da mesa, tomou ar para falar:
- O mesmo soldado que te feriu.
Não ousou olhar para o amigo.
- Aquele... – null rosnou depois de alguns segundos. – Mas Axel disse que ele havia concordado em dar informações... E ele parecia tão furioso na luta que... Vocês bateram muito nele, não foi? – ele aprovou com um riso na voz.
- null... – null respirou fundo, e encarou o amigo. – Aquele soldado ele... Na verdade era uma mulher. Ainda é uma mulher. Disfarçada de soldado e infiltrada nas tropas. E sim, ela concordou em nos dar informações.
null se chocou ao ouvir a informação e permaneceu calado por longos minutos.
- Uma... Francesa?
null assentiu.
null foi quem passou a examinar a superfície da mesa, tentando assimilar a informação de que havia sido derrubado na batalha por uma mulher.
- Nos dois primeiros dias, eu a visitei na cela. – null começou a dizer. null não expressou reação. – À noite. – null completou vendo o amigo levantar os olhos questionadores. – Ela estava machucada, null.
- Vocês realmente bateram nela? – o outro homem perguntou, dessa vez, cético.
- Trist. – null rosnou.
null suspirou e tomou mais um gole da bebida.
- Você disse que... A visitou na cela? – ele perguntou pela primeira vez percebendo o efeito do que null havia dito.
null porém não respondeu imediatamente. Fez desenhos aleatórios sobre a superfície da mesa e então desviou os olhos para encarar null.
- Eu me preocupei. – ele se justificou.
- Qual é o seu problema? - null se indignou se debruçando sobre a mesa e olhando para o amigo.
- Espere até ver ela. – null disse suspirando e não se importando com a reação do homem ao seu lado. – Acho que você vai me entender.
- Como? – null a olhou confuso.
null, em sua frente, sentava-se sobre uma cadeira de espaldar reto, com os pulsos e calcanhares acorrentados. null estava ao lado de null, encarando null intensamente, mal ousando desviar o olhar do rosto da francesa.
- Eles vão esperar vocês pelo oeste, null. Eles sabem que é o caminho mais rápido. A tropa que ficará esperando a leste será mais fraca.
- Você sabe o quanto temos que nos desviar para chegar pelo leste? – Axel bufou chocado encarando a francesa.
- Eles sabem. Por isso que não esperarão vocês pelo leste. – null explicou com uma feição de tédio.
- E qual é a vantagem nisso? – o general mostrava sinais de não gostar nem um pouco do que a mulher acorrentada falava.
- Nós avançamos em linha reta, os pegamos por trás, e de surpresa. Além do risco de perdermos nossos homens ser pequeno. – null explicou desenhando uma linha reta pelo mapa, seguindo do leste para o oeste. Para ele, o plano parecia bom. E claramente óbvio, de uma forma que Axel parecia não conseguir perceber.
- Além de que se formos pelo leste, encontraremos o ancoradouro deles. Podemos impedir qualquer tentativa de recuo. – null acrescentou.
- Não importa que fujam! – Axel berrou, se levantando e balançando o corpo feito um leão-marinho – Precisamos nos encontrar com a maior tropa deles, para massacrá-los, matá-los, os fazer se arrepender de terem ousado conquistar nossas terras! E vamos deixar o ancoradouro inteiro para que fujam e alardem para toda a França que não conseguiram nos dominar. Mas não daremos a volta para pegá-los por trás como covardes!
- Mas não é questão de covardia! – null alterou a voz encarando o superior – É questão de estratégia! Eles estão em nosso território! Não temos homens o suficiente para...
- Quem disse? – Axel berrou de volta – Nem sabemos quantos soldados franceses vieram!
- Muitos, é claro. – null afirmou. - Esse era o plano para conquistar o Canal.
null e Axel olharam para null, focados em suas palavras.
- São vocês que decidem se querem ver seus soldados serem dizimados ou não. – a francesa deu de ombros encarando o general.
- Como se você entendesse algo de guerra, francesa. – ele cuspiu como se a xingasse. – Escute, null. – ele se virou para null, que ainda estava focado em null. Imediatamente ele desviou sua atenção para o general. – Quero tropas organizadas para enfrentá-los pelo oeste. Mas eu concordo, - ele suspirou passando os olhos por Trist e null, que também estavam ali – Que com tantas invasões francesas, nós precisamos reforçar nossas alianças. Vamos precisar de todos unidos. Trist, - o soldado se aprumou imediatamente – Acha que conseguimos resposta de Brighton para nos cobrir, antes das tropas partirem?
null se inquietou, incomodado.
- Senhor... – ele começou a dizer.
- Cale-se, null. – Axel ordenou.
- Farei com que o senhor de Brighton ouça sua mensagem, general. Eles nos cobrirão, com certeza. – Trist respondeu satisfeito por ter tido mais atenção que null.
O general assentiu e se virou para null e null.
- Tropas prontas para marchar para Dover em uma semana. Vamos proteger nosso território. – Axel disse lançando um olhar nojento a null, e se retirou da sala logo em seguida.
null e null trocaram um olhar e Trist deu um passo a frente.
- Senhor? – ele perguntou olhando diretamente para null, ao perceber que a reunião havia acabado.
Porém, foi null quem se virou para responder Dale:
- Pode levá-la. – ele assentiu apontando discretamente com a cabeça para null.
Quando os dois saíram, null murmurou fingindo indignação:
- Quem é o comandante aqui?
null riu, null voltou a se concentrar no mapa a sua frente.
- Não estou satisfeito, null. Não estou. – ele murmurou.
null suspirou incomodado.
- Eu sei. As tropas de Brighton não farão muita diferença, se o plano deles for o que null descreveu.
null assentiu, permanecendo em silêncio e estudando o mapa sobre a mesa.
- Você acredita nela? – null perguntou, se recostando sobre a mesa e observando o céu pela janela.
null ergueu os olhos apenas para confirmar que o amigo falava com ele.
- Hum. – ele fez. – Ainda não sei. Vou descobrir depois da batalha.
null se aproximou, pegando no ombro do amigo.
- null, escuta. – null o olhou e seus olhos se encontraram por longos segundos – Eu sei o que a francesa provavelmente está representando a você, e sei muito bem como deve ter sido perturbador a ver apanhar... Digo... – null soltou uma risada anasalada sem nenhum humor – São muito parecidas... Até o jeito como fala...
null abaixou o rosto sorrindo triste.
- Mas ouça, - null forçou o amigo a levantar o rosto novamente – Não confunda quem ela é. Ela é francesa, prisioneira e tem muita informação, você viu.
null assentiu fechando os olhos e tentando manter o foco.
- Ela foi simpática com você quando foi à cela dela? – null perguntou, voltando a se recostar sobre a mesa.
null concordou sério.
- Ficou com medo no começo e ela desconfia de mim.
- É lógico que sim, igualmente, ainda não confio nela. – null se apresentou carrancudo.
- Não acha que o que ela disse faz sentido? – null ponderou.
- Pode ser que sim. Mas acho que Axel sabe o que faz.
Eles permaneceram em silêncio por longos minutos, até null resolver agir.
- Mova sua bunda, null. Temos tropas para organizar.
null começou a enrolar o mapa enquanto null já seguia para a porta.
- Vou dar instruções a Dale, e vou aos cochos depois. Axel com certeza vai encher a pança, nós deveríamos também...
null desviou os olhos para a janela.
- Depois que supervisionar tudo por hoje, te encontro na taberna. – null disse já abrindo a porta. – E ah, - ele parou se virando para null novamente. - Não visite a francesa.
null suspirou fazendo careta.
- Vá trabalhar, null. – ele murmurou dando as costas ao amigo.
Não visite a francesa.
Porque ele deveria visitar a francesa, afinal?
Eles iam partir no outro dia para a batalha. Tinha muitas coisas para se preocupar do que pensar na francesa.
Não a viu por uma semana. Uma semana inteira. Porém estava informado. Dale lhe dava comida uma vez por dia. null sabia que a comida era insuficiente para ela, mas não achava tempo para socorrê-la. Trist estava longe, em Brighton, então null não se preocupava. Enquanto Trist e suas idéias malvadas estivessem longe, Dale não era perigoso.
Mas ele nem sequer deveria se dar ao luxo de pensar sobre isso. Por Deus! Ele fechou os olhos com força. Ela era uma prisioneira, francesa. “Prisioneira francesa”, ele repetiu em sua mente. Ela não era a pessoa a quem ela lembrava. null suspirou e deixou o rosto da outra mulher pairar em sua imaginação. E com a imagem misturada de null e a outra moça, ele adormeceu em paz. Mal podia imaginar a batalha que se seguiria.
#05
- Certo. Me ataque como se eu fosse o cara que me matou na guerra. – Frank disse endireitando a espada e esperando um movimento de null.
- O que? – ela perguntou confusa.
- É. – Frank soltou uma risada – Finja que você veio vingar minha morte. Me ataque.
null soltou um suspiro pesado, deixando a ponta da espada encontrar o chão.
- Frank, se eu vou matar a pessoa que te matou, eu vou realmente matar. Pode ser perigoso. – a mulher avisou o irmão.
- Não tenho medo. – o rapaz disse aprumando o corpo, empinando os glúteos duma forma cômica, que fez null rir.
Sem avisar Frank, ela atacou com a espada. O irmão levantou sua lâmina imediatamente, fazendo soar o tinido de metal contra metal.
- Minha esquerda está livre! – ele cantarolou enquanto null voltava a atacar, e ele voltava a se defender. – Mexa os pés, null! Mexa seus pés!
A mulher curvou as sobrancelhas no esforço da concentração e da contração dos músculos. Eles giraram em torno de si mesmos, enquanto as espadas se encontravam, atacavam e defendiam por cerca de vários minutos, até a espada de Frank voar de sua mão, enquanto ele próprio soltava um grito de triunfo.
- Você está cada vez melhor, irmãzinha. – ele sorriu, enquanto se abaixava e recolhia a espada caída.
null ofegava levemente, e mexeu em seu cabelo despreocupadamente.
- Sou em quem deveria ir para a guerra, e você ficaria em casa procriando.
Frank gargalhou.
- Não agüentaria ficar trancado em casa, sabendo que há tropas de batalha por aí. – o irmão murmurou, descordando.
- Agora você sabe como eu me sinto. – null disse, embainhando a espada.
- Cale-se, null. Você é uma mulher. Não foi criada para batalhas.
- Eu fui criada feito macho. – a mulher disse, coçando o órgão entre as pernas e imitando o andar do irmão.
A gargalhada de Frank ecoou novamente pelos jardins.
Um assovio agudo cortou o ar, e os dois irmãos olharam imediatamente para a casa à esquerda deles, reconhecendo tal som: o pai os chamava.
Correram lado a lado e subiram as escadas para dentro do lar. Anton andava de um lado para o outro dentro da cozinha.
- Frank, se apresse. Vamos para Potiers logo depois do jantar. null, você protegerá a casa e Ângela.
Frank saiu imediatamente do cômodo, e null encarou o pai assustada.
- O que aconteceu, papai?
Anton soltou um longo suspiro.
- As tropas decidiram atravessar o canal.
null arregalou os olhos assustada. Ela sabia o que isso significava. A França iria tomar a costa inglesa a força. Iriam violar o acordo travado com a Inglaterra e invadir suas terras a procura de mais domínio.
- Eles pretendem manter comando sobre o Estreito de Dover e as cidades litorâneas. Assim que organizarem suas forças, avançarão pelo território Inglês com fúria. – o pai explicou amargurado enquanto discordava com a cabeça.
- Mas... E os Castelhanos? – Ângela, a cunhada grávida de null, saiu das sombras, falando com o sogro.
Anton bufou.
- Eu vou interceder por eles.
null ofegou.
- Isso é perigoso. – ela sussurrou assustada. – Pense melhor, meu pai...
- Eles são nosso próprio povo!
- Mas...
- Pensar no que, null? Estamos vivendo no absolutismo, o rei não consegue organizar o próprio território, massacra sua própria população e tentará dominar o território inglês?
A mulher se calou, assustada com a voz do pai.
Frank interrompeu tudo, entrando de volta ao cômodo e assentindo silenciosamente para o pai. Anton encarou o filho durante alguns segundos.
- Vamos partir depois do jantar. – o pai saiu do cômodo.
null ouviu seus passos ecoarem na escada, e trocou um olhar carregado de medo com Ângela.
- null,me ouça. – Frank disse com urgência, arrastando a irmã para o canto da varanda.
O pai estava no jardim terminando de carregar os cavalos.
- Se algo acontecer... Qualquer coisa, comigo ou com nosso pai... Me ouça, null! Se algo acontecer, você monta em um cavalo, pega Ângela e suma daqui, me ouviu? Vá pra a casa dos nossos tios, no sul.
null arregalou os olhos.
- Frank, o que... O que você está falando?
- null, preste atenção. Papai vai tentar interromper uma batalha que já começou.
- Frank...
- Eles matam os castelhanos, porque eles não concordam com as estratégias de governo estipuladas pelo rei. O que acham que vão fazer com papai?
O choque passou pelo rosto de null, e ela apertou os dedos contra o pulso do irmão, tentando conter o desespero que tomou conta de si.
- Porque eles viriam atrás de nós? – sua voz tremeu.
- Porque eu vou apoiá-lo nessa briga. – Frank suspirou – O que significa que a família inteira será considerada traidora. Não fique aqui esperando até que algum deles te reconheça.
null engoliu em seco quando Frank avançou um passo para mais perto dela.
- Prometa que não vai trás de nós. Prometa! – Frank disse procurando a sinceridade nos olhos da irmã.
A mulher fitou o olhar de Frank por um bom tempo. Sentiu um soluço subir por sua garganta e bloqueou-o. Então assentiu silenciosamente.
- Prometa que vai se proteger, e manter Ângela e meu filho seguros.
- Prometo. – ela disse sombriamente. – E prometo matar quem quer que ameace nossa família, seja ele inglês ou fr...
- Acorde! – Frank disse brutalmente. – A ultima pessoa de quem você tem que desconfiar é dos ingleses.
null estava tentando reter todas as informações e iria contestar o irmão, quando o barulho dos passos do pai de aproximaram.
Anton apareceu e fitou os dois filhos por um tempo. null correu de encontro ao pai.
- Não faça nada estúpido, papai. – ela murmurou apertando os olhos, tentando guardar o abraço do pai.
- Porque eu faria, querida? – Anton disse brincalhão, passando as mãos pelos cabelos da filha. – Sabemos que consegue manter Ângela e você seguras. Mandamos noticias. – ele finalizou com um beijo na testa de null.
Quando Frank e Anton montaram seus cavalos, Frank soltou alguma piada idiota, que fez o riso do pai esquentar o ar ao redor de null. Era a última vez que ela ouvia a gargalhada dele.
A mensagem chegou com o mensageiro oficial. Chegou junto da mensagem que a França estava se preparando para atravessar o canal. O embrulho pesado e grande foi entregue a Ângela, que não conseguiu segurar o pacote, e null teve de ajudá-la.
Quando abriu o papel pardo, ficou um tempo a contemplar a enorme armadura do pai, tentando compreender qual era a mensagem por trás daquilo.
Ângela lhe entregou um pequeno papel com o nome de null que estava dentro do pacote. As duas reconheceram a letra de Frank, e as mãos da cunhada tremiam.
null abriu lentamente o bilhete, e leu em letras apressadas.
Não venha me encontrar, não queira vingar papai. Ele sabia o que estava fazendo.
Você prometeu. Saia daí. Não vá para casa de nossos tios, e se meta em outro lugar.
Sei que você consegue.
Se você deixar Ângela morrer ou se você morrer, eu te mato.
Saia daí, AGORA!
F.
Sua respiração se alterou. Sentiu espasmos começarem pelo seu corpo, e sua trêmula mão deixou o bilhete de Frank cair.
Não podia acreditar que haviam matado seu pai. Lembranças de toda a vida que passaram juntos, e a criação divertida e diversificada que ele lhe dera, sempre dizendo que estava deixando null para ser o orgulho das mulheres francesas. Aquele pai, o homem de todas as suas lembranças, jamais voltaria a pisar naquela casa, assoviar para chamá-la, ou separar as brigas de null e Frank. Quando menos percebeu, ela estava se debruçando e soluçando sobre a armadura do pai.
Ângela, ao seu lado, estava totalmente confusa e alterada, segurando nos dedos o bilhete do marido. null percebeu o olhar questionador que esta lhe lançava.
Isso pareceu despertar a mulher. Ainda com o peito sangrando, ela se ergueu de cima da única coisa que restou do pai, e encarou a cunhada.
- Frank está bem, e nós vamos ficar. Mas você precisa sair daqui.
Ignorando as perguntas desenfreadas de Ângela, ela deu ordens de que a mulher juntasse o mínimo de coisas necessárias em uma trouxa, e fosse encontrar com ela imediatamente nos cochos.
null apeou dois dos cavalos mais velozes, e correu para dentro de casa, arrumando sua própria trouxa. Quando estava carregando o cavalo com seus pertences e os de Ângela, ela adicionou a armadura do pai. Iria precisar daquilo.
- Prometa que vai voltar. – Ângela havia chorado para null, três horas depois, quando estavam se separando. – Prometa que mandará me avisar quando achar Frank.
null suspirou querendo também cair no choro como a mulher a sua frente.
- Angie, não deixem saberem quem você é. Eu te amo, ok? – ela murmurou dando um beijo na testa da mulher. – Cuide de meu sobrinho.
Sorrindo pela última vez para Ângela, ela desviou seu cavalo para o caminho contrário ao que a cunhada seguiria.
A França já devia estar pronta para atravessar o canal. Ela precisava se apressar.
Estava quebrando a promessa que havia feito a Frank, mas ela não estava nem um pouco afim de receber também a armadura do irmão como a informação muda da morte de Frank. Não enquanto ela ainda estava em poder de impedir.
#06
null sentia fome. Agora mais que nunca.
Ela estava sendo levada para trabalhar – acorrentada - com as outras mulheres que serviam à sede bucólica. Pelo que Dale havia murmurado, o general havia dado ordens de que null deveria ficar sob vigilância máxima; o que irritava a mulher, pois sentia os olhos dos soldados sobre si, e desconfiava que eles não estavam observando apenas as ações dela. Ela não podia olhar para os lados, conversar, ou dar mais que três passos em falso. Seu trabalho era a única coisa em que poderia se focar, e depois era levada de volta a sua cela solitária. Seu nível de comida permanecia o mesmo, o que fazia seu estômago urrar com mais desespero do que o costume.
A água era escassa, e no período da noite seus olhos ardiam constantemente e suas costas doíam, a fazendo pensar pela milésima vez que era melhor estar morta, a estar presa naquele lugar. Ela tentava relembrar o dia da batalha, e se perguntava onde estava seu erro. Quem a havia derrubado, quem a havia capturado? Ela se lembrava de poucas coisas, e que freqüentemente não passavam de borrões.
A batalha de Dover. Ela se perguntava quando as tropas voltariam, se eles teriam conseguido expulsar os franceses das terras inglesas...
Mas na verdade as tropas haviam caído. Metade dos soldados estavam mortos, e a Inglaterra havia recuado. Os franceses estavam em terras inglesas, invadiram os portos de Dover, e os britânicos não haviam conseguido impedir. Era o que Dale murmurava dias depois, enquanto guiava null pelo corredor já conhecido, a caminho do que a mulher estava acostumando-se a chamar de “sala de reunião”.
A porta de bronze de duas faces estava na frente de null e Dale, quando Trist a abriu e revelou o interior da sala. As únicas pessoas ali eram Axel, o general; e null, curvado a um canto, apertando a lateral do corpo.
null manteve seus olhos no comandante, esperando que ele levantasse os olhos para encontrar aos dela, mas isso não aconteceu.
Dale se retirou da sala em silêncio, e Trist voltou a fechar a porta. null então se perguntou o que eles queriam com ela, visto que os três homens permaneceram em profundo silêncio. Iriam eles culpa-la por sua derrota? Até onde ela sabia seu conselho havia sido exatamente o contrário do plano que Axel estipulara.
- Você já sabe. – o general murmurou se virando finalmente para encarar a prisioneira.
null assentiu.
- Precisamos saber qual será o próximo passo deles.
A mulher permaneceu em silêncio.
- Brighton também recuou. Crawley está vindo nos ajudar. Precisamos de um plano. – Axel terminou e esperou finalmente uma resposta da francesa. Ela continuou em silêncio. - O que tem a dizer? – o general perguntou energicamente.
- Vão me ouvir desta vez? – null perguntou ironicamente.
- Você não faz perguntas, francesa. Você as responde. E eu decido o que levar em conta. – Axel deu um passo ameaçador na direção da mulher.
- Pare de achar que eu me importo com algo. – null desviou o olhar rapidamente para null, que continuava em um canto da sala. A mulher pensou ter visto sangue entre os dedos do rapaz. Axel bufou, e ela voltou sua atenção para o general. – Eu não amo a França, mas isso não significa que eu me importe com a Inglaterra. Não me importo com o maldito plano de vocês.
null não viu o que a atingiu, apenas se sentiu cambaleando para o lado com a força do tapa que levou, sentindo o rosto em chamas. Viu o vulto de Trist ali perto, e sentiu que seu mesmo atacante a segurou, a fazendo recuperar o equilíbrio necessário por causa das correntes.
- Não se esqueça onde está, sob o controle de quem está! – Axel berrou do mesmo lugar em que estava antes. – Você é apenas uma prisioneira v...
- Eu dei meu voto de confiança! – null gritou de volta tentando tirar os cabelos da frente de seu rosto em chamas – Vocês não me ouviram. Vocês resolveram não confiar em mim. Não ousem me bater como se fosse minha culpa. – quando Trist fez menção de avançar novamente, null se virou para ele o enfrentando – E não ouse encostar a mão em mim novamente!
null levantou os olhos observando toda a cena. E com a voz mais firme do que null imaginava, ele ordenou:
- Tristan, você só age perante ordens.
Axel ainda encarava null, respirando como um rinoceronte.
- Ouça francesa. – ele disse finalmente, parecendo mais tolerante. – Não é a toa que estamos te incluindo em um plano tão importante. Tropas de quatro províncias vão se reunir. Você é nossa fonte de informações. – ele disse a última frase com a voz mais grave.
null percebeu aonde ele queria chegar.
- Não penso com fome. – ela disse com sarcasmo.
Axel a olhou com olhos perigosos.
- O que você quer é comida?
null assentiu.
- Comida você terá. E espero que quando formos nos concentrar em toda a estratégia, você tenha em mente todas as informações possíveis. Não queira me deixar aborrecido, francesa. – Axel finalizou, deixando seu olhar pender ameaçadoramente sob null durante um bom tempo.
E então o general acenou para Trist, e null foi guiada de volta a cela. Sentiu o pânico crescer dentro de si quando Trist a empurrou para dentro da cela e a seguiu, fechando a porta atrás de si.
null sentia a fisgada contra o corpo, onde ele sabia que estava sangrando profusamente.
- Você deveria ir tratar disso, null. – Axel disse alheio ao comandante ao lado.
- Tenho coisas a fazer. – ele disse se erguendo com dificuldade e mancando até a porta.
- Posso contar com você para dar as ordens necessárias? – o general perguntou antes que null sumisse pela porta. – Volto no final do dia, amanhã.
null assentiu, e se virou novamente para sair.
O homem se perguntava quanto tempo lhe restava para conseguir fazer tudo que tinha em mente, antes que fosse obrigado a tratar do ferimento. Ele precisaria dar algumas ordens para se sentir livre a ir se curar.
- Dale! – ele gritou assim que viu o soldado no corredor – Onde está Tristan?
- Foi levar a francesa à cela, senhor.
null assentiu impacientemente.
- Sim, mas onde ele está agora?
Dale apresentou uma cara confusa.
- Ele ainda está nas masmorras, senhor.
null respirou fundo, o que provocou mais uma pontada aguda na lateral do corpo. Fez sua mente bloquear a dor, e se voltou para o soldado:
- Vá as cozinhas e peça uma ceia pequena para a francesa. Ela vai estar presente no conselho nos próximos dias.
Sem parar para dar explicações a Dale, null seguiu o corredor, descendo os lances de escada necessários, e adentrando as masmorras.
Quando a porta alta de ferro apareceu em sua frente, null viu que estava destrancada. Com certa ansiedade, ele a abriu rapidamente.
Dentro da cela, Trist se assustou com a porta sendo aberta de repente. Virou-se alarmado, e encarou seu superior, null, parado no portal, assistindo à cena. Trist estava com o lábio cortado e sangrando. null estava no chão, ofegando, encontrando a primeira oportunidade para se arrastar para longe de Trist.
- O que está fazendo? – a voz de null soou tão grave que assustou null.
- Ela me atacou, comandante. – Trist justificou, apontando para a própria boca. – Tentava fugir.
Um gemido de indignação veio de algum canto da cela.
- Saia, Trist. – null ordenou, dando passagem para o soldado. Ele obedeceu, não olhando mais para a prisioneira.
Quando null fechou a porta de ferro atrás deles, ele deu um empurrão em Trist.
- Não me engane, Tristan. –ele apontou o dedo para o soldado. – É a terceira vez no dia que você desobedece as ordens. Não me faça ter que te lembrar qual é a hierarquia que funciona aqui. Ambos sabemos que ela não te atacou. Sua ordem era de trazê-la e deixá-la aqui. Você obedece, e não faz nada mais do que isso.
A voz de null era assustadora, e Trist se lembrou da razão por aquele homem ter sido escolhido comandante. O homem a sua frente parecia ter crescido vários centímetros, e seus olhos refletiam um perigo do qual Trist se lembrava poucas vezes de ter visto.
- Jamais ouse fazer algo parecido, com quem quer que seja. – null voltou a falar, fazendo sua voz ecoar pelas masmorras – Um soldado sujo é uma vergonha. E nada me impedirá de te punir da próxima vez.
Trist controlou a raiva, e com grande dificuldade assentiu, se proibindo de dizer qualquer palavra contra o comandante.
- Agora suma da minha frente; você sabe as milhares de coisas que ainda temos que fazer. – null ordenou, e em um piscar de olhos, viu o soldado obedecê-lo, sumindo na curva do corredor.
Com um suspiro, e com mais uma fincada no pulmão, null encarou a porta de ferro ao seu lado. Finalmente esticou a mão, e a empurrou, voltando a adentrar seu interior.
null estava ajoelhada, e massageava seu tornozelo quando levantou os olhos assustada. O alívio percorrer sua íris quando viu que se tratava de null.
- O que ele fez? – a voz do homem pareceu ecoar pela câmara, e null sentiu um temor seguir pelo seu sangue.
- Acho que ele não gostou da forma como falei com o general, e resolveu me punir, porque ele...
- Trist é o tipo de cara que gosta de bater. – null a interrompeu, justificando.
null soltou uma risada sarcástica.
- Oh, não me diga. – e ela tentou se levantar, fazendo careta ao colocar o peso do corpo sobre os joelhos.
null fez menção de ajudá-la, mas desistiu, ao sentir outra pontada de dor do lado direito do corpo. Prensou a mão contra o machucado, e curvou o corpo. A dor era maior, seu queixo batia. Percebeu que estava suando frio, e quando estava se virando para sair da cela, sentiu duas mãos sobre seus ombros, e o hálito de null bateu contra seu rosto.
- null? Você está bem? – ela perguntou com urgência.
O comandante sentiu seus joelhos dobrarem, e ele tentou segurar o peso do corpo, mas não conseguiu, se ajoelhando no chão de pedra e sentindo como se suas costelas pudessem se abrir de dor.
- Você está machucado! – ele ouviu a voz urgente de null ali perto. Sentiu suas mãos sobre sua costela do lado direito, e se encolheu com medo da mulher encostar no ferimento. – Deus, null, há quanto tempo você se feriu? Você deveria... Olhe para mim, olhe para mim.
- Estou bem. – ele se forçou a falar. – null, se afaste.
- Você está quente, null. A ferida precisa ser limpa. Você consegue se levantar?
null se estressou. Ele não precisava de ninguém cuidando dele, estava muito forte ainda, e não gostava daquela preocupação exagerada. Quem era ela, afinal?
Empurrou null e ela perdeu o equilíbrio por estar agachada, caindo de bunda sobre o chão.
- Estou bem. – Ele afirmou quase agressivamente. Apoiou-se na parede e se forçou a levantar. null o encarava sem expressão.
null se virou sem dizer mais nada, e saiu pela porta de ferro. Não a trancou, saiu apressado para sair das masmorras; e distraído, deu ordens para que qualquer guarda voltasse e lacrasse a cela da mulher.
Tentou caminhar apressado, mas sentia muito frio, e seu queixo batia violentamente. Respirou fundo, e tentou apertar a ferida, mas percebeu que não conseguia, devido a dor.
Se apoiou sobre uma parede, e olhou para a lateral do corpo. Suas costelas estavam inchadas, e ele sentiu os joelhos cederem novamente.
Dois braços o seguraram pelo ombro novamente. Muito longe dali, ele conseguiu ouvir a voz de null.
- Droga, null.
#07
Logo foi esclarecido por que a ceia de null estava vindo farta. “Farta” para os padrões em que a mulher estava se acostumando a comer.
Dale havia explicado que os generais e comandantes de quatro províncias inglesas se reuniriam ali no dia seguinte para darem inicio aos planos de defesa.
A noite adentrava, enquanto null tentava armazenar em sua mente todas as informações importantes a que ela tinha conhecimento. Repassou mentalmente todas as dezenas de vezes que presenciou uma reunião de tropas que seu pai comandara. E ao pensar no pai, levantou os olhos para a fenda horizontal que havia no topo de uma das paredes de concreto, ficando a observar a luz do luar que penetrava à cela, e as partículas de poeira que subiam em espirais pelo ar.
Seu pai provavelmente jamais aprovaria o que null estava fazendo. Por mais que desaprovasse o comportamento do exército francês, ele nunca trairia sua nação. Igualmente, ele jamais quebraria as promessas que fizera a um irmão. Pensando em Frank, a mulher imaginou o que ele diria se soubesse que null havia ido atrás dele, e que ela não havia ficado para proteger o que restara de sua família.
O barulho das trancas de ferro se abrindo fez a mulher desviar o olhar, curiosa e apreensiva, imaginando o que Trist ou Dale estariam fazendo em sua cela em tão alta madrugada.
Porém foi o rosto de null que apareceu quando a porta se abriu. Sem registrar exatamente o que estava fazendo, null se levantou imediatamente.
- Boa noite. – null entoou sua voz grave.
null permaneceu calada, estupefata pela presença do comandante. Ela reparou que sua blusa comprida branca estava estufada, o que a fez pensar que ele ainda usava bandagens por seu ferimento recente. Havia pouco mais de uma semana que null não via null, e curiosamente, agora ela se sentia intimidada pela sua presença.
null também não parecia a vontade, e encarou a mulher de volta, esperando que ela falasse algo.
- Está se curando? – null perguntou baixinho, indicando a lateral do corpo de null.
- Estou bem. – ele respondeu assentindo formalmente.
Então ele pigarreou, e disse algo que deixou null momentaneamente de pernas bambas:
- Vim te convidar a um passeio.
A garganta de null se travou, enquanto ela abria a boca sem conseguir emitir nenhum som.
- Uh... C- Como?
null não demonstrou nenhum sinal de insegurança, apenas observou a mulher tentar formar uma frase completa.
- Eu não posso sair da cela. – ela balbuciou – Está louco?
null esboçou um pequeno sorriso, quase invisível naquela escuridão de dentro da cela.
- Sou comandante, null. Lhe dou permissão para caminhar comigo esta noite. Não quer sair e andar livremente sem nenhuma corrente te incomodando?
O corpo inteiro da mulher tremeu de excitação só de pensar naquela possibilidade. Há quanto tempo não podia aproveitar o ar puro, flexionar as pernas, observar a imensidão do céu, sem sentir nenhuma dor, ser cutucada, ou ter alguém gritando consigo?
- Vamos. – null disse ao observar o rosto da mulher e perceber toda a agitação que passou por seus traços.
Ele abriu a posta de ferro que rangeu, e olhou para os lados.
- Me siga. – ele sussurrou, e sumiu na escuridão.
null permaneceu parada no vão do portal, ainda observando o espaço por qual null desaparecera.
O que ele estava fazendo? Porque ele estava fazendo? Aonde iria levá-la?
E então a irritação percorreu seu corpo. De todos, o que menos havia dado motivos para a desconfiança dela, havia sido null. Lembrou-se das duas noites nas quais o homem apareceu disposto a tratar de seus ferimentos, e balançou a cabeça confusa.
Não tinha nada a perder. As coisas não podiam piorar, afinal.
E sem pensar duas vezes, deu um passo em direção a escuridão, e deixou a cela para trás.
null lhe mostrou um corredor alternativo que não passava pela entrada principal das masmorras e não tinha guardas de prontidão. Mostrou a ela como abrir a porta metálica, e como segurá-la para que não rangesse. Disse a ela para que tomasse cuidado e não escorregasse enquanto eles andassem sobre a lama, mas ainda assim a segurou pela cintura quando inevitavelmente, seu pé deslizou sobre o barro.
Quando finalmente passaram a pisar sobre a grama verde e fofa, null suspirou e passou a mão pelos cabelos, o desarrumando de uma forma totalmente despojada, que null nunca havia visto antes. Por um momento ela não conseguiu parar de observar seu perfil, e sentiu o rosto corar quando null se virou para olhá-la.
- No que Axel colocou você para trabalhar? – o homem perguntou a pegando de surpresa.
- Lavo alguns panos imundos, e andei carregando as carroças que saíam de vez em quando com as tropas. - A mulher respondeu sem graça.
Ele assentiu parecendo interessado.
- Onde estamos indo? – null perguntou, observando o caminho por onde passavam.
Nunca tivera a chance de observar a geografia da Inglaterra, e naquela noite sem nuvens tudo parecia bonito pela primeira vez aos seus olhos. Havia urzes maravilhosas e de diferentes cores por todo o caminho.
null deu de ombros.
- Nada em mente. Há um lugar logo a frente muito bonito, você tem uma vasta vista das turfeiras.
null levantou as sobrancelhas, curiosa. Eles permaneceram em silêncio por um bom tempo, caminhando lado a lado, enquanto null a guiava por entre as árvores, numa trilha que ele parecia já ter conhecimento.
Quando null sentiu o solo se inclinar, null a avisou para tomar cuidado novamente para não escorregar; mas como a última experiência não havia sido bem sucedida para null, null se manteve atrás dela, ficando atento aonde a mulher pisava.
null logo então se viu sobre um barranco, e lá embaixo havia o solo feito de turfa. A mulher puxou o ar sentindo o cheiro desconhecido, e abriu um pequeno sorriso diante da sensação de liberdade que passou por ela durante alguns segundos.
null ao seu lado se sentou, deixando suas pernas balançarem no ar, passando os olhos pela paisagem já conhecida. null o observou, e então, vagarosamente, se sentou ao lado do homem.
- É bonito, não é? – null perguntou depois de alguns segundos.
- Sim. – a mulher respondeu baixinho.
null respirava suavemente, com um braço apoiado sobre o joelho dobrado, deixando que os milhares de pensamentos o percorressem.
- Sua situação está evoluindo sabe, null. – null disse sem olhá-la.
A mulher porem, se virou para fitá-lo, curiosa sobre sua fala.
- Você já pode sair da cela. Sim, acorrentada e para trabalhar, mas prisioneiros como você não costumam ter isso. – null explicou.
null não o respondeu, e abaixou a cabeça para engolir suas palavras. Para ela, aquelas experiências continuavam sendo horríveis, e ela não conseguia enxergar onde estava a “evolução” que null citava.
- Você vai participar de uma reunião oficial das tropas amanhã. Pode parecer que Axel não considera nada em você, mas ele percebeu que suas informações não são totalmente falsas.
- Ele é um bruto, que age como um at... – null começou a protestar, mas null a interrompeu.
- Ele é um general, null. É como ele tem que ser. – o homem suspirou voltando a olhar o horizonte. – Ele não é mal como Tristan, e não é fraco como eu. Axel é um general. Seu pai era um general, é de se admirar que você...
- Meu pai não era assim.
- Porque você o encarava como um pai.
null se calou absorvendo tudo em sua mente. Ela não era orgulhosa para brigar com null. Ela sabia que era um pouco verdade. Já havia visto seu pai gritar e ser grosso com muitas pessoas, mas sempre achara que ele tinha razão. Mas a consciência disso não mudava seus sentimentos quanto a Axel.
- Você não é fraco. – ela disse se virando para null.
- O que? – ele foi pego de surpresa, imerso em pensamentos.
- Você não é fraco. – ela repetiu.
O homem não respondeu, desviando seu olhar do dela.
- Você é bom, null. Você é justo e sincero. Não vê prazer na dor das pessoas, não faz coisas que não aprova, e...
- Você não me conhece. – ele se virou para ela – Não diga isso.
null se calou novamente, abaixando os olhos, intimidada. Ela não conseguia ser valente com ele, não conseguia enfrentá-lo. Aquilo a desestruturava, a deixando insegura boa parte do tempo em que estava perto dele.
- null... Eu realmente gostaria de saber por que faz isso.
- Isso o que?
- Porque se importa comigo? Porque ameaça seu cargo por causa de mim?
null desviou os olhos para um novo ponto abstrato, e então olhou para null. Deslizou os olhos por toda a cascata de cabelos null dela, e o jeito como ela o encarava.
- Você me lembra alguém. E sua semelhança com ela é tão grande, que eu não posso evitar pensar nela... Quando olho pra você. – ele disse enfim.
A mulher foi pega pela surpresa da resposta, e fitou longamente os olhos null do comandante.
- Eu te lembro um antigo amor? – ela perguntou com certo receio.
null sorriu.
- Não. – e então suspirou, voltando a olhar a paisagem. – Você me lembra... minha mãe.
null não conseguiu impedir sua boca de se abrir em surpresa redobrada.
- Eu lembro sua mãe? – ela repetiu vagamente, apenas para confirmar.
- Sim. – null respondeu sorrindo.
- E... – null abaixou a cabeça, buscando confiança – Onde ela está?
- Ela teve o mesmo destino que seu pai. – ele respondeu calmamente.
- Ela... ela... – a mulher começou a dizer assustada.
null se virou para olhá-la, divertido.
- Ela não foi morta por trair o exército. Ela morreu depois de adoecer muito.
null assentiu, sem graça, e assim como null, voltou a fitar o horizonte.
- Então às vezes você pensa que eu sou sua mãe?
- Não. – ele respondeu imediatamente – Eu não penso isso. Só que... – ele puxou o ar com força – O fato de você parecer com ela, me afeta. Me faz desejar que... Você não sinta dor. E minha mãe jamais admitiu alguém sofrer diante de seus olhos, e ficar sem fazer nada. Às vezes penso que ela não gostaria que você sofresse. – null parecia perturbado, e fechou os olhos com força. – Esse, porém, não é o meu trabalho. Não sou treinado para sentir dó, ou pensar com emoção. Isso me faz ser fraco.
- Então eu te faço pensar que você é fraco. – null concluiu num sussurro.
null se virou para ela com os olhos retraídos.
- Você me faz pensar em muitas coisas, na verdade. – a mulher inconscientemente prendeu a respiração, se pendurando sobre o olhar intenso do homem a sua frente – Mas não te culpo. – ele quebrou o contato de seus olhos, e os fixou na escuridão.
- Não quero ser um empecilho para você, null. – null se recompôs – Nunca pedi que você me visitasse, que você se importasse.
- E não vou parar de fazer isso. – ele respondeu ríspido.
Levantou-se rapidamente, e ergueu a mão para a mulher.
- Vamos voltar, já é tarde.
null abaixou os olhos. Não queria voltar. Por um momento considerou sair correndo.
- Você está fraca, não conhece a geografia daqui, e por muitas milhas adiante, ainda é território de tropas inglesas. Não faça uma besteira, null. – null disse como se lesse os pensamentos da mulher.
Ela suspirou derrotada, e segurou na mão dele.
O primeiro contato que tinha com a pele lisa de null. Ele apertou seus dedos em volta da mão de null, e sustentou o peso de seu corpo sem o menor esforço. A mulher se pôs de pé, e por um momento ficaram realmente próximos, antes que null se virasse, e seguisse andando, puxando a mulher junto dele.
Um tempo depois, passou a segurar seu braço, apenas por precaução, e intimamente, desejou não interromper o contato que estava tendo com a pele dela.
#8
null deveria permanecer calada, a menos que alguma pergunta fosse dirigida a ela. Seus olhos vagavam para cada dono das grossas vozes que ecoavam na sala. A mesa de madeira comprida era ocupada em toda sua extensão por homens fortes, que socavam a mesa a todo instante. null estava distante, logo ao lado de Axel, que estava na ponta esquerda da mesa.
Longos pergaminhos também estavam esticados sobre a superfície de madeira, alguns continham esquemas desenhados pela metade, e outros apresentavam mapas amadores do território inglês.
Até agora, eles haviam decidido que precisavam cercar os franceses. Os portos de Dover já estavam sob o controle absoluto dos invasores, e a situação pedia urgência.
- Mais tropas francesas devem estar chegando, e vão atacar os meus portos! – O general de Brighton bradou. – Se não arranjarmos um bom plano, precisaremos pensar em uma evacuação de nossa população. Depois do que nos foi mostrado em Dover fico apreensivo com o poder dessas tropas francesas.
- Vamos cercá-los, já decidimos isso. – Axel disse ofendido.
- Como? Fomos atacados de surpresa! Achei que o Rei tinha feito um acordo com a França.
- Ele havia feito. – null soltou, e quando todos os olhos se viraram para ela, o aviso de que só podia falar quando lhe dirigissem a palavra lhe voltou à mente. Se arrependeu imediatamente e abaixou a cabeça apreensiva.
Mas a voz de null soou calma no meio de todas as feições repreensivas, e estranhamente null se acalmou ao ouvir a voz dele.
- Sim, nós tínhamos um acordo com a França, o que faz esse ataque ser mais repulsivo ainda. O que sabe sobre isso, null?
O fato de null a chamar pelo primeiro nome na frente de todos aqueles homens importantes fez todos os olhos se virarem para ele, surpresos.
- O acordo de Livre Passagem pelo Canal da Mancha foi um pacto apenas para amaciar o território inglês. Eles já planejavam um ataque antes de selarem o acordo, que depois de feito, lhes daria livre marcha pelo Canal até Dover sem desconfianças, e a invasão do território inglês de surpresa. – ela respondeu se forçando a levantar a cabeça e encarar null.- E pelo plano inicial, os portos e o controle do Canal da Mancha são apenas o começo da invasão.
A informação manteve todos os generais em choque, até Axel bufar assustadoramente.
- Deixem vir. – o senhor de Crawley disse, lançando um olhar estranhamente sereno para null. – Será interessante mostrar a eles o que podemos fazer.
- Vamos atacar os portos de Dover pelos dois lados, com todo o exercito que tivermos. Sim, com todos os soldados que tivermos. – Axel repetiu quando o general de Brighton pareceu realmente descontente. – Só assim teremos chances de dominar os franceses. E então voltaremos toda nossa atenção para os portos de Brighton, e concentramos nossas forças lá.
- Brighton ficará sem seus soldados, totalmente vulnerável...
- Não sabemos quando eles atacarão! Nos focarmos em Brighton é perigoso e incerto, e se algo der errado vamos ter dois dos nossos maiores portos sob o comando francês! – null falou alto, com tanta determinação que todos os olhares da mesa estavam concentrados nele.
Axel pigarreou para lembrar a todos que ele era o general, caso alguém confundisse o cargo de null, e assentiu com certa pompa:
- Temos um plano?
- Minhas tropas lhe seguirão. – o general de Crawley disse olhando diretamente para null.
- Igualmente as nossas. – concordou o general de Portsmouth.
Os olhares de todos foram ao senhor de Brighton, e ele afirmou relutantemente:
- Dois terços de minhas tropas seguirão com vocês. – e quando todos os olhares foram questionadores, ele justificou, impassível – Não vou deixar meus portos vulneráveis.
Axel se preparou para inchar novamente, bufando com um rinoceronte, quando a voz calma de null quebrou todo o pré-climax.
- É justo.
E ninguém mais o questionou.
O povoado estava em festa. A colheita da estação havia sido farta, e tudo indicava que a próxima safra estava próxima.
null podia ouvir a música que soava por todo o povoado, enquanto as pessoas (livres, a mulher repetia em mente), caminhavam de um lado para o outro, tagarelando, cantando e carregando sempre em mãos as cestas carregadas de beterrabas.
null então abaixava os olhos e mirava as correntes atreladas a seus calcanhares. Seus braços estavam livres para que ela pudesse se concentrar no lençol que lavava em sua frente na bacia de pedra rústica. Ao seu lado, mais duas mulheres lhe acompanhavam.
Ela havia conhecido Erin e Shaunee, mãe e filha, respectivamente. Elas prestavam serviços ao exército local a fim de pagar o pecado de Joseph, marido e pai, que havia adquirido dívidas exorbitantes com o senhor feudal. Joseph havia fugido um mês atrás, deixando para a mulher e a filha, o triste destino de pagar por suas desmazelas. As duas ouviram Dale com atenção, quando ele disse que null era uma prisioneira francesa, e estava ali para servir ao exército, como elas próprias. E no instante que a mulher se sentou sobre o pedaço de madeira que servia de banco, com os tornozelos envolvidos por grossas correntes, Shaunee ergueu os olhos e lhe deu um sorriso gigante. Ela tinha longos cabelos loiros escuros, e olhos castanhos que irradiavam uma alegria que null não compreendia. Erin já era velha e parecia ter emagrecido muito em pouco tempo. Ela também tinha um sorriso bondoso e mostrou a null a maneira certa de como esfregar os lençóis e logo depois como esticá-lo sobre as pernas a fim de melhorar o espaço para a lavagem. E era por tudo isso que null estava ,pela primeira vez, feliz e relaxada, mesmo estando com os pés acorrentados, má vestida, má alimentada e em terra desconhecida.
Quando mais um grupo de garotas sorridentes e saltitantes passou por ali com seus carrinhos de mãos carregados de beterrabas, null percebeu que elas cantavam uma canção alegre. Algo sobre como elas estavam voltando para um campo florido, onde seu amor as esperava, havia algo sobre amoras e a chuva... Quando um guarda moreno cutucou as costas de null, rosnando:
- Concentra, francesa.
E ela percebeu que estivera prestando atenção nas garotas que haviam passado ali, e cujas vozes ainda podiam ser ouvidas. Quando null voltou a esfregar o lençol branco, Dale reapareceu, caminhando com seu gingado desengonçado.
- Mande as mulheres trazerem o carregamento de beterraba. Está anoitecendo e a casa está cheia de generais e comandantes.
E assim null, Shaunee e Erin caminharam sobre o crepúsculo durante uns trinta minutos, passando por muitos habitantes sorridentes, e foram apresentadas a três enormes sacos de beterrabas na frente de uma estalagem.
- Como se eles fossem comer isso tudo. – Shaunee guinchou enquanto tentava, sozinha, carregar um dos enormes sacos.
null segurou em um, e o puxou para cima, percebendo que era ele era realmente, realmente pesado. Dale apareceu com um carrinho de mão, e as deixou, ordenando que se apressassem. Com esforço, as três mulheres se revezaram em empurrar o carrinho, e caminharam cansadas, por um caminho alternativo ao que vieram.
Foi quando Shaunee guinchou novamente, correndo a frente das outras duas. null descobriu que elas estavam passando por um lago incrivelmente lindo, que ela nunca tinha visto antes. O rosto suado de Erin ao seu lado se iluminou com um sorriso.
- Há quanto tempo não passamos por aqui! - ela disse ofegando.
- Será que nos atrasaríamos muito se eu tomasse um banho? – Shaunee perguntou esperançosa.
null ficou tensa, assim como Erin.
- Não, Shaunee. Saia daí. Será ruim demais se alguém vir que estamos paradas olhando para um lago em vez de levar a comida para os porcos.
null concordou com Erin, mas não pode deixar de sentir também uma vontade enorme de entrar no lago. Qual fora a última vez que tomara um banho? Ela olhou para o vestido sujo e manchado, que não lhe pertencia, mas que era seu por obrigação do exército.
- Sim, os porcos precisam comer, e você tem outra hora para tomar um banho. – a voz masculina que soou fez as três mulheres ofegarem imediatamente.
Erin soltou um lamento carregado de medo (“Ooh-oh”) quando null saiu das árvores ali perto e encarou as três mulheres. Seu olhar registrou null, e então se virou para Shaunee.
- Se bem sei, você e sua mãe não trabalham aos domingos. E eu lhe dou permissão para vir aqui tomar um banho. – e então curvou as sobrancelhas – Não é oferecido a vocês um barril de água a cada semana?
Shaunee abriu a boca para responder, mas sua mãe foi mais rápida.
- Sim, senhor, é. Shaunee pensará se merece vir aqui no domingo, estamos satisfeitas com nosso barril.
O olhar que a Shaunee lançou a Erin foi de um ultraje tão grande que null se sentiu incomodada. Mas null continuou sereno.
- Venha, Shaunee. – ele novamente usou o primeiro nome de uma pessoa rebaixada para falar com ela. – Os guardas saberão que você pode vir se banhar aqui.
A loira assentiu sem graça, ainda olhando para a mãe, quando null percebeu o olhar de null sobre si. Ela o encarou fracamente, pensando no que dizer, quando ele desviou o olhar.
- Apressem-se senhoras. Os generais - ele frizou a palavra olhando para Erin – precisam se alimentar. – ele disse com um traço de diversão. E com um aceno de cabeça, deu as costas e voltou a se embrenhar nas arvores.
- Estamos satisfeitas com o nosso barril de água? – Shaunee atacou a mãe quando depois de alguns segundos. – Aquela água nojenta que parece ter sido usada para lavar o chão das masmorras? A senhora me diz que aquilo é o tipo água com que estamos satisfeitas?
Erin suspirou fechando os olhos, e compartilhando com a filha o sentimento.
- O que queria que eu falasse? Acha que eles vão ter alguma, alguma complacência conosco? Se reclamarmos é capaz deles nos tirarem o nada que temos!
null não quis ficar observando a briga intima de mãe e filha, e assumiu ela mesma o controle do carrinho de beterrabas. Com um esforço dobrado, pois era mais difícil com os pés acorrentados, ela começou a dar alguns passos na direção da sede do exercito, quando Shaunee e Erin voltaram a se juntar a ela.
Visto que as duas estavam em silêncio, null tomou liberdade de perguntar:
- Onde vocês moram?
- Numa coisa que o exercito chama de casa, que eles ofereceram a nós, dividendos, visto que eles tomaram a nossa própria, como parte da quitação da divida. – Erin respondeu amarguradamente. – É um lugar horrível onde dividimos os quartos com vários outros que perderam tudo por deverem muito. Quando chove é um pesadelo... – ele balançou a cabeça tentando tirar as memórias de sua mente.
- Mas então, muito legal o comandante null, não? – Shaunee disse alegremente como se sua mãe tivesse acabado de introduzir um assunto muito interessante. – Vou poder vir me banhar no lago no domingo. – ela parecia poder morrer de felicidade.
Antes que null pudesse responder qualquer coisa, Shaunee continuou sua tagarelice.
- E ele é tão... bonito! – ela deu um risada. – Porque eu realmente nunca tive um contato grande com o comandante? Era sempre aquela bosta mole do Dale, ou aquele horrível soldado Trist... – null estremeceu. – Mas... Será que o comandante null não topa vir tomar banho comigo no domingo?
null olhou tão imediatamente para Shaunee que seu pescoço estalou.
- Shaunee! – Sua mãe a repreendeu horrorizada.
- O que? Ele é realmente, realmente bonito. Quem me dera ser rica, e ter um status ao nível do dele. – ela se lamentou, e automaticamente null pensou o mesmo.
Arregalando os olhos de surpresa por seus próprios pensamentos, null mal ouviu a outra parte da tagarelice de Shaunee.
- O fato dele não ser casado com ninguém me alivia muito. Gostaria de ver a cara do general quando o comandante recusou a filha dele.
- O que? – foi a vez de null perguntar.
- Sim! A filha do general Axel. Ela era a prometida para o comandante null. Mas, sabe se lá Deus o porquê, ele a recusou.
null guardou essa informação à mente, e Shaunee foi obrigada a calar a boca quando foi a sua vez de carregar o carrinho, e o esforço tomou todo seu fôlego.
- Eu costumava conhecer a família de null. – Erin comentou caminhando ao lado de null. – Quando estava grávida de Shaunee eu me lembro do pequeno null correndo por aí, fingindo travar guerras contra os troncos de arvores. Eu nunca conheci uma mulher que fosse mais benevolente e pura que Meg null. Uma das ações que vimos hoje de null null foi influencia de sua mãe. Até que... – com um suspiro Erin pareceu inflar, e desinflar – a peste chegou, parecia que o mundo estava acabando. E Meg null se foi.
null estava vidrada na historia, ignorando Shaunee arfando como um cachorro transpirando ao seu lado.
- Você tem os longos cabelos null de Meg, sabe. – Erin se dirigiu a null, e a mulher abriu a boca para responder “Já me disseram isso”, mas percebeu o que estava prestes a fazer no meio do caminho. Fechou a boca e sorriu, passando a tentar imaginar o passado de null.
Sua mãe havia morrido com a peste. Exatamente como a mãe de null. Ela observou o céu escuro acima delas, e suspirou.
Então ouviu a voz de Dale berrando algo sobre atraso, e null foi varrido de sua mente.
#9
null estava cansada quando se sentou em sua cela solitária e escura. Havia um copo de barro com água, dois pedaços de pães e uma metade de uma beterraba em um prato sujo. Ela se sentou em frente a refeição e comeu tudo.
Adormeceu instantaneamente, exausta pelo dia. Mas acordou um tempo depois com o barulho das trancas de ferro. Não se surpreendeu ao ver o rosto de null, e antes que pudesse se refrear, ou pensar o quão estúpida estava sendo, ela abriu um sorriso verdadeiro.
Parece que se sentia mais intima dele depois de tudo que ouvira de Erin mais cedo. E não pode se impedir de sorrir mais ainda, quando null murmurou um “saia em silencio”.
null o seguiu apressada, e dessa vez não escorregou na lama em frente o portão lateral que saía das masmorras. null estava a sua frente, e parou logo depois para esperá-la chegar até ele.
Eles caminharam um ao lado do outro, sem dizer nada, como se esse outro passeio já estivesse programado pelos dois de uma forma estranha e psíquica.
null ouviu a música no feudo. Eles ainda estavam comemorando a safra farta! Ainda haviam pessoas por ali, era extremamente perigoso.
- Não se preocupe. – null disse quando ela lhe expressou seus pensamentos – Eles estão ocupados, e não freqüentam onde nós estaremos.
E para a surpresa de null, eles seguiram pelo caminho que a mulher seguira mais cedo, e em um tempo depois, eles estavam em frente o lago no qual Shaunee queria se banhar.
null pensou nela, e pensou no quanto o lago estava bonito à noite, tendo o reflexo da lua desenhado em sua superfície ondulante.
- Pensei que você também gostaria de se banhar.
null arregalou os olhos quando ouviu null dizer isso.
- O que? – ela perguntou nervosa.
- Percebi seu olhar ao lago, e logo depois como você olhou para si mesma, e para o lago novamente. – um sorriso mínimo e quase invisível nasceu no canto dos lábios de null. – Lhe trouxe aqui hoje para isso. Mas não se preocupe, não vou olhar. – e apontou para uma pedra na lateral, onde ele caminhou e se sentou, de costas para a pedra, de costas para o lago.
null ainda estava estática, tentando entender que null realmente queria dizer aquilo, mas era surpreendente demais para ela. E ela percebeu que surpreende-la já era uma das especialidades que null tinha.
A mulher, porém, continuou parada encarando o lago, tentando decidir o que fazer, no que acreditar.
- O que te impede, null? – null perguntou ali perto.
Ele não olhava para ela. Continuava sentado com as costas escoradas na grande pedra e encarava exatamente a floresta à sua frente, deixando claro que ele não pretendia se virar para espiar null.
A mulher voltou a olhar para a água, e se aproximou devagar, encostando a mão na superfície. A temperatura estava morna, dando uma sensação familiar a sua pele, fazendo cada parte de seu corpo desejar entrar naquela água. Ela olhou mais uma vez para a pedra onde null estava, e pelo ângulo de sua visão ela não conseguia vê-lo, e ele não conseguia vê-la.
Silenciosamente, ela desabotoou o vestido, e o retirou completamente de seu corpo. O deixou ali perto, e pulou as gramíneas ao redor do lago. Entrou rapidamente no lago, não querendo se demorar ali, e foi invadida por um incrível sentimento de relaxamento quando sentiu a água tocar sua pele. Fechou os olhos, mergulhando na água, molhando o cabelo, e logo depois respirando fundo. Nada podia ser melhor. Ela passou a mão pelo cabelo, tentando desembaraçar os fios, e passou um bom tempo fazendo isso.
- null? – ela ouviu null lhe chamar e ergueu os olhos esperando vê-lo a observando. Mas ele ainda estava escondido atrás da rocha.
- Sim?
Ele fez um barulho estranho e ela ouviu:
- Achei que tinha se afogado, não estava ouvindo nenhum barulho.
null ergueu as sobrancelhas e então resolveu perguntar:
- O que aconteceu hoje mais cedo? Porque você apareceu àquela hora?
- Quando vocês estavam carregando as beterrabas?
- Sim.
- Eu estava passando a cavalo, e precisei parar na estrada para falar com Earl. Então ouvi suas vozes, e por entre as arvores eu te reconheci. Se um guarda visse vocês três paradas, conversando, e pensando em entrar num lago em hora de servir, não seria nada bom... Você deve ter uma idéia disso.
null ficou calada durante um tempo interpretando a resposta de null.
- E você quis nos apressar? – a mulher perguntou querendo uma resposta completa.
- Vocês ficariam amedrontadas quando me vissem, então imaginei que vocês voltariam a fazer o que foram mandadas a fazer.
null não pode impedir que sua mente analisasse o que null havia acabado de dizer. Ele era tão diferente. Diferente de todos que ela havia conhecido ali. Percebeu que ele era bom, de uma forma melhor do que ela imaginara que ele fosse. Bom e bonito como Shaunee descrevera, e surgiu um sorriso maroto em seus lábios. Mas null claramente não era para o mundo em que vivia. Ele não podia fazer parte do grupo que mata, luta, ameaça... A memória de null na reunião das tropas repassou na mente da mulher e ela mudou de idéia. Talvez ele fosse. Ele sempre soava tão confiante em tudo que dizia. Era tão forte, intimidador, e o modo como ele pronunciava seu nome, naquela voz grossa e...
Um calafrio percorreu o corpo de null, e ela se mexeu inquietamente na água.
- Você já terminou? – a voz de null soou do outro lado da pedra.
- Sim. – ela respondeu passando os dedos no cabelo, os sentindo deslizar no cabelo completamente desembaraçado. – Só um minuto.
Ela saiu do lago com certa pressa, recuperando seu vestido imundo do chão, e o colocou novamente. Ela poderia perguntar a Shaunee se ela não tinha um vestido extra para emprestar a ela.
Caminhou lentamente até a rocha onde null estava, e o viu olhando para o céu. Como um instinto, ela também levantou o olhar, percebendo, com certa exclamação, a quantidade de estrelas que havia naquela noite.
- É lindo, não é? – null perguntou sorrindo.
- Sim. – ela respondeu, e andou até ele, se sentando ao seu lado e se escorando na pedra. – Meu irmão dizia conseguir ler as estrelas.
null ergueu as sobrancelhas a olhando.
- Não sabia que você tinha um irmão. – ele exclamou.
- Eu tenho. – null assentiu com um sorriso, encostando a cabeça na rocha a procura de apoio e ficou a contemplar as estrelas.
- O que ele conseguia ler nas estrelas?
- O clima, a colheita daquele mês...
- E funcionava?
null bufou rindo.
- Quando ele realmente lia as estrelas, sim. Mas ele era um charlatão a maior parte do tempo, prevendo desgraças à minha cabra, que nunca aconteciam.
- Você tinha uma cabra? – null perguntou não contendo a gargalhada.
- Sim. – null abriu mais um sorriso verdadeiro – Alyona. Era tão branca que se fundia com a neve nas noites de nevasca e você não conseguia enxergá-la, a não ser por um par de olhos negros flutuando no interior do cercado.
null teve vontade de expressar em voz alta o fato de que null era linda enquanto sorria. Seus cabelos úmidos caindo sobre suas costas lhe davam um ar mais natural e inocente, que o encantava totalmente.
Ele se forçou a desviar o olhar dela e se deitou sobre a grama, mantendo o olhar fixo no céu, pensando que seria interessante saber ler as estrelas e descobrir se amanhã iria chover.
Sentiu null se deitando ao seu lado, e isso fez algo dentro dele se remexer inquietamente.
- Erin me contou hoje que conheceu sua mãe. – null disse apreensiva ao esperar uma resposta de null.
- O mundo dá voltas não é? – ele respondeu serenamente. – Erin costumava ser nossa vizinha até tudo desandar.
- Ela disse coisas maravilhosas sobre sua mãe.
null abriu um sorriso triste.
- Ela era maravilhosa.
Eles permaneceram um tempo em silêncio, e um vento começou a soprar forte fazendo as gramíneas ao redor de null e null se curvarem sobre eles.
- Consegue ver aquele aglomerado de estrelas ali? – null perguntou apontando para um ponto ao céu.
- É Ursa Major, não é? - null perguntou confiante.
null abaixou a mão hesitante.
- É? – ela perguntou interessada.
- Não, mas poderia ser. – ele deu de ombros a fazendo rir – O que você iria dizer sobre elas?
- Eu diria que elas formam um desenho... – ela respondeu virando o pescoço para observar sua teoria sob um novo ângulo. – Um cisne.
- Para mim parece uma árvore. – null devolveu, a fazendo rir.
Mas seu sorriso desapareceu quando sentiu sua mão encostando à de null. Sua mão formigou levemente, e ela tentou afasta-la, mas para sua maior surpresa null envolveu sua mão à dela, a impedindo de separá-las.
null respirou fundo, enquanto seu coração disparava, e virou a cabeça lentamente, para observar null.
Ele já a olhava de forma tenra, mas null conseguia perceber o quê de nervosismo no fundo de seus olhos. Tanto ele quanto ela sabiam que queriam mais proximidade, e ter as mãos dadas não era nem perto do suficiente. Mas era tão proibido, tão errado, tão tentador...
E permaneceram se olhando de mãos dadas, por longos minutos sobre o luar. Seus dedos se acariciavam timidamente, fazendo null ter gostosas ondas de calor que subiam por todo seu braço.
Até que null não podendo mais se conter, se virou de lado e encaixou uma mão no rosto da mulher. O corpo de null formigou completamente, e ela pode sentir o desejo se irradiar em ondas, se espalhando para cada parte de seu ser.
null pareceu lutar com algo interno, e suas sobrancelhas se curvaram quando seu rosto se aproximou do de null. O hálito do rapaz bateu contra a boca de null e ela sentiu a própria respiração se descompassar. Apertou a mão de null involuntariamente, e sem saber o que fazer, por puro instinto, encostou sua boca a dele.
O choque percorreu todo seu corpo, eletrizando cada músculo, a deixando enfeitiçada sob o toque dos lábios de null.
Mas o que se fazia agora?
null não a deixou pensar sequer um minuto a mais. Puxou a garota pelo pescoço e encaixou suas bocas. null se viu descobrindo que os lábios de null eram incrivelmente macios e quentes, e que quando ele mordiscava os seus, e movimentava seus lábios sobre o dela... Nada poderia ser tão delicioso, tão intoxicante.
Levou suas duas mãos à nuca de null e ali entrelaçou seus dedos, deslizando-os pela nuca e pescoço do rapaz, enquanto a outra mão de null puxou null pela cintura fazendo seus corpos de chocarem pela primeira vez.
Com surpresa, ela sentiu null encostar a língua levemente sobre seus lábios, e naturalmente abriu a boca, permitindo que as duas línguas se encostassem. Ambos os corpos tremeram sobre o toque do outro, e ela permitiu que a língua de null massageasse a sua, reprimido um pequeno gemido de desejo, e receando que null pudesse sentir o quanto seu coração estava descompassado.
E continuaram se beijando, até null se perder em sua consciência, e entrelaçar suas pernas, se deitar sobre null, apertar e friccionar seu corpo contra o dela... Seus beijos se tornaram mais quentes, mais cheios de desejo... até que o estalido de um beijo null fez voltar à tona.
Ele se afastou bruscamente do corpo de null, assustado, com as sobrancelhas curvadas, pressionando os dedos sobre os lábios, onde podia senti-los úmidos.
null também se assustou com a ação inesperada do homem. Viu null ajoelhado a observando e se sentiu imediatamente tão mal que achou que fosse chorar. Por um momento havia amado ter o calor do corpo de null pressionado contra o seu, sentir seu gosto e seu beijo intenso, coisas que ela jamais experimentara antes.
E então quando ele se afastou o ar se encheu de compreensão de ambos os lados.
Quem ele era. Quem ela era.
null se sentou totalmente abalada e envergonhada, mantendo seus olhos abaixados, com o coração extremamente acelerado. null ali perto não se moveu, apenas ficou a observar o rosto da mulher corar violentamente, e tentou achar algo para falar, mas nada lhe vinha em mente. Passou as duas mãos sobre os cabelos, consciente de que estava o bagunçando ainda mais, e então sentiu uma vontade imensa de estar de volta sobre o corpo de null.
Ao invés disso, ele se levantou em silencio e ofereceu a mão a ela.
null ergueu os olhos para fitá-lo, e encarou a mão estendida dele. Mas não a segurou. Se levantou sozinha, e não o olhou nos olhos novamente.
- Vamos embora. – null murmurou, e null o seguiu até a cela, onde ele a deixou sem falar mais nada. #10
Tudo estava uma bagunça. As carroças com armamentos e mantimentos estavam sendo carregadas, e um grande número de pessoas perambulava, gritava, ordenava, e trabalhava por todos os lados. null estava concentrada em carregar a carroça mais próxima, com enormes pedaços de lenha com o qual o exercito provavelmente faria suas fogueiras. Podia sentir o suor escorrendo por suas costas e colo. Shaunee a havia emprestado um novo vestido, e esse a possibilitava respirar mais facilmente neste tipo de trabalho. null havia ela mesma lavado o antigo vestido e o entregado para Shaunee guardá-lo em sua casa.
Os grandes pedaços de lenha eram pesados, e o soldado ali perto estava ocupado tratando de alguns cavalos, deixando todo o trabalho duro para null; a não ser pelo fato de regularmente se virar e palpitar no trabalho da mulher.
Todos ali perto, incluindo soldados, prisioneiros e servos, estavam tão concentrados e ocupados, que demorou longos minutos até que todos percebessem a presença do general e do comandante ali. Todos os trabalhadores continuaram seus serviços, porém permanecendo em silêncio por respeito à presença dos dois homens. Axel e null andavam lado a lado com Trist e null. Eles lhes passavam um relatório completo sobre o carregamento de cada carroça, e Axel analisava cada lugar que Trist apontava.
null, porém, estava com os olhos fixos nas costas molhadas de certa mulher mais a frente. Ela estava com a boca entreaberta para ajudar em sua respiração ofegante, e havia prendido seu cabelo em um nó mal feito, que deixava mechas caírem constantemente sobre seus olhos. Ela vestia um vestido branco que deixava seu busto apertado, e isso fez null curvar as sobrancelhas, sentindo uma alteração estranha no baixo ventre.
null então, como se pressentisse olhos sobre si, se virou para olhar null. Seus olhares se encontraram imediatamente, e a mulher sentiu o rosto corar. Não gostava que null a visse naquela situação.
Desde o ultimo dia em que estivera com null no lago, ela teve longas noites para refletir sobre o que aconteceu. null não a procurou mais, e ela também não conseguiu vê-lo pelas redondezas nos dias que se seguiram. Sabia que ele estava ocupado, mas não conseguia se impedir de olhar ao redor sempre que ouvia vozes diferentes, ou sempre que era obrigada a carregar algo de um lado para o outro pela província. null simplesmente não aparecia.
Inicialmente aquilo a frustrou. Sempre o via. Ele era comandante, e se envolvia com toda a preparação para a guerra. Ela queria vê-lo. Desesperadamente. Era como se algo estivesse crescendo dentro dela durante todas as horas que permaneceu remoendo o beijo e a sensação que sentiu deitada sobre a grama, com null parcialmente sobre ela.
Não esperava que ele a procurasse. Ela sabia que aquilo era proibido, e isso era totalmente irrefutável. Era um absurdo, um escândalo. Fora desde o principio, desde quando null penetrara em sua cela nas altas madrugadas apenas porque se importava com ela. E agora eles haviam ultrapassado um limite bárbaro, e ela sabia que null tinha plena consciência disso. Muito mais que ela.
Mas não podia se refrear. Pelo menos tinha sua liberdade em pensamentos. E em sua liberdade mental ela sonhava que null a tivesse visto quando ainda morava na França. Quando era bonita, bem cuidada, bem vestida, bem nutrida, tão diferente da miserável que era agora.
Por essa razão desviou os olhos quando viu null. Desejava tanto que ele não a visse daquela maneira. Porém seu coração batia freneticamente, pois finalmente o vira. E ele não estava sério e bruto como Axel e Trist ao seu lado. Ele estava sereno, e ajudou dois ou três servos com seus manuseios enquanto caminhavam entre os trabalhadores.
null começou a sentir que seu corpo estava liberando um suor extra quanto mais null e os outros se aproximavam dela. E então para seu horror, deixou uma lasca de lenha cair aos seus pés, no momento que pode ouvir Axel rosnando a menos de um metro dela.
Se abaixou imediatamente, e pegou o pedaço de madeira com as mãos (que já ardiam a um tempo do esforço de carregá-las). null deu um passo a frente, e tocou a lenha no mesmo lugar para qual null esticara a mão. O toque mínimo fez os dois levantarem os olhos, deixando seus olhares se cruzarem mais uma vez por pequenos segundos.
null abaixou o rosto então, e tirou o pedaço de madeira da mão da mulher, colocando ele mesmo no carregamento da carroça. Ele respirou fundo fechando os olhos com força, e então se virou para voltar a acompanhar Axel, não olhando novamente para null.
null estava pensando que pelo menos o fato de ter visto null de dia, lhe daria forças para agüentar o futuro incerto que seria ter as tropas partindo logo pela manhã em direção a Dover. Mas tinha confiança em null, e sabia que ele era mais esperto que Axel, mais esperto que Trist.
Ela ouviu o barulho das centenas de cavalos trotando para fora da cidade quando as tropas partiram. Manteve seus olhos abaixados enquanto Shaunee falava coisas, e manteve-se concentrada em mandar todas as orações e pensamentos positivos para a batalha de null. Não importava quanto tempo ele ficaria fora, ela tinha certeza que ele voltaria intacto.
Mais tarde naquele dia, Erin foi levada para limpar o castelo, Shaunee e null, esta última com os tornozelos acorrentados, foram escaladas para a cozinha. O castelo estava reduzido a poucos nobres que não foram para as batalhas, portanto o trabalho era mais leve. Depois de se esforçar com Shaunee para cortar carnes, e picar batatas, null comeu uma refeição horrível que lhe foi oferecida, e então ela e Shaunee foram dispensadas para trabalhos no campo.
Com uma habilidade excepcional, null observou Shaunee driblar três guardas que estavam de prontidão nas saídas do fundo do castelo, e arrastar null vários metros à frente.
- Está louca? E se nos pegarem? – null perguntou desesperada olhando para trás.
- O que poderão fazer? Esqueceu que os principais guardas e carrascos estão todos na batalha? Vamos lá, null. Trist está longe, quem poderá nos castigar se fizermos algo errado? Usufrua da pouca liberdade que tem!
null refletiu sobre isso durante poucos segundos. Trist estava longe. Isso lhe causava uma segurança incrível. Jamais se esqueceria de tudo que aquele homem a fizera passar.
Depois de vários minutos andando e conversando, null percebeu que Shaunee parara e começara a tirar a roupa. Então percebeu que estavam em frente ao grande lago. A enorme pedra aonde uma vez null null se escorara, também estava ali. null desejou poder compartilhar com Shaunee todos seus sentimentos e lembranças que aquele lugar a proporcionava. Mas mal teve tempo de pensar, já que a água que Shaunee espalhou por toda a margem do lago fez null sair de perto, e se concentrar em procurar um lugar seco. Ela não estava com vontade de se banhar.
Observando a amiga, null se perguntou o que a movia. Shaunee não tinha pai, não tinha terras, casa própria, e tinha uma liberdade limitada. E em todos os dias em que já haviam se encontrado, null havia encarado o sorriso e o brilho nos olhos estampado nas faces de Shaunee. Por quê?
Uma alegria que ela não compreendia. Talvez porque Shaunee ainda tinha esperanças, ainda tinha vida, ainda tinha sua mãe.
- Não é legal ser calada e ranzinza assim, sabe. – a garota disse acordando null de seus devaneios.
Ela sorriu de lado, e suspirou.
- Qual sua motivação de todos os dias, Shaunee? – null resolveu perguntar, enquanto escalava e se sentava sobre a rocha na beira do lago.
Shaunee pensou durante alguns instantes brincando com a água.
- Não sei. – ela respondeu sinceramente, levantando os olhos para encarar os da amiga.
- Você ainda tem sua mãe. – null argumentou dando de ombros.
- É, mas mesmo assim, não somos diferentes de você, null.
A mulher abriu a boca de indignação.
- Como se atreve a falar isso? Vocês não são prisioneiras ou nasceram na nação inimiga! Não vivem numa cela, não são torturadas para...
- Você acha – Shaunee a interrompeu, totalmente despreocupada, se ocupando em esticar seu cabelo sobre a superfície do lago – Que algum dia eu e minha mãe seremos livres?
null se calou. Sim, claro que ela já havia imaginado Shaunee e Erin livres.
- Você pensa que Trist nunca nos ameaçou, ou entrou em nossa casa com homens do exercito para estraçalhar e pegar tudo que tínhamos, logo depois de baterem em minha mãe? Você acha que algum dia o Império dirá que a divida de meu pai está quitada? – Shaunee suspirou como se aquilo não a incomodasse. – Sei que pergunta isso porque tem medo, null, porque você está sozinha em terras desconhecidas. Mas você está viva. E isso basta. Você pode fugir dessa realidade cruel às vezes, e se refugiar no mundo que você conhecia. Porque por mais que as coisas atuais estejam ruins pra você, as coisas mudam e o mundo dá voltas.
null permaneceu calada, olhando com olhos admirados para a mulher loira encoberta pela água do lago logo abaixo de si. Shaunee rodou entre as águas, e ergueu a cabeça olhando de forma certeira para null.
- Você pode se martirizar para sempre com as coisas que você poderia ter feito, ou em como as coisas poderiam ser diferentes. Mas isso não vai te levar a lugar nenhum. null, perceba que você já pode sair da cela e ver a luz do Sol, participar de reuniões importantes das Tropas de Guerra, não há nada mais excitante que isso! Você pode ter fé que você não será infeliz para sempre. Tenha fé em qualquer coisa ou fato que vai te mover nessa vida. Porque nós não nascemos para sermos sofredores, e mesmo que a vida seja dura, sempre existirá felicidade nas mais difíceis situações em que você estiver. Você consegue acreditar nisso?
null sorriu para a amiga, e desviou o olhar para as gramíneas logo ao redor da rocha em que ela estava sentada. Gramíneas que em outra noite proporcionaram a null seu cheiro doce, e sua maciez enquanto a mulher estava deitada sobre elas. Não nascemos para sermos sofredores. Mesmo que a vida seja dura, sempre existirá felicidade.
- Sim - ela disse com um sorriso – Eu consigo acreditar.
- Posso ver que você será a diferença na nossa vitória ou na nossa derrota. – Shaunee disse com um sorriso meigo.
null deu uma gargalhada cética.
- Verdade, você é vai ser quem salvará a Inglaterra.
#11
null estava suada, como em todos os dias que se passaram daquele mês. Se sentia impregnada e suja, necessitada de um banho. Passava a mão pela testa de minutos em minutos, e tinha a boca entreaberta no esforço de obter fôlego. Ela afastou a saia imunda do vestido e se abaixou novamente para colher os nabos.
- null! – A voz de Shaunee veio de longe.
A mulher se levantou, tampando o Sol de seus olhos com a mão imunda, e avistou a amiga correndo entre o campo.
- As tropas chegaram! – ela gritou sorrindo e parando no meio do caminho. – Precisamos trabalhar!
null perdeu o ar.
- As tropas... voltaram? Todos... todos eles? – ela perguntou enquanto saia correndo atrás de Shaunee pelo campo de colheita, passando pelos servos que estavam ocupados demais para as notarem.
- Como todos eles? – Shaunee perguntou impaciente. – Com certeza muitos morreram, mas há muitos soldados machucados, muitos cavalos que nós precisamos cuidar e carroças para descarregar.
Correram por quase quinze minutos, quando chegaram à avenida principal da província. null parou ofegante, procurando um rosto conhecido no mar de pessoas. Os cavalos e carroças tomavam toda a rua, e a bagunça de vozes e mulheres que corriam atrás de seus filhos e maridos atrapalhavam a visão de null. Havia muitos soldados, e a visão da massa escura das armaduras que rangiam fez a esperança reascender no coração da mulher. Ele estava ali, ele com certeza estava ali. Ele havia retornado. Ela precisava vê-lo, urgentemente.
- Ande logo! Se ficar parada vai se dar mal. – Shaunee gritou batendo nas costas de null.
A mulher correu para a carroça mais próxima e começou a guiar os cavalos para o caminho certo do descarregamento, quando a segunda voz chamou por ela.
- Francesa!
A voz era masculina, e a mulher quase não a reconheceu por tê-la ouvido raras vezes. Ela se virou na direção de seu locutor e se surpreendeu ao ver null.
- O general deseja vê-la.
null, ainda ofegando, encarou confusa o homem.
- Me siga. – null disse gentilmente e se virou.
null segurou com as duas mãos na saia do vestido e obedeceu. Andaram por entre as centenas de pessoas, crianças, bagunça de cavalos e carroças, e passaram por muitos soldados feridos, que estavam sendo atendidos naquele exato momento.
Quando se aproximaram do castelo, null se desviou do caminho, dando a volta pela edificação até chegar aos fundos do castelo. Ele apontou para um barril de água que havia perto de uma pequena horta e disse:
- Talvez você queira se lavar. Logo vamos estar na presença do general e do rei.
null arregalou os olhos, terrivelmente assustada com qual acontecimento poderia conceder a vontade do rei e do general em vê-la. Ela assentiu silenciosamente e caminhou sem pressa até o barril. Esfregou as mãos, o antebraço e passou as mãos molhadas pelo rosto. Respirou fundo desejando pela milésima vez naqueles dias que null estivesse ali.
Se virou para olhar null, e ele já a esperava em uma porta na lateral do castelo. Ele acenou para que ela voltasse a segui-lo, e sumiu pela porta.
null o seguiu, e encarou uma longa escada de pedra bruta que subia quase verticalmente para o interior do castelo. Levantando o vestido, ela seguiu o vulto de null logo mais a frente. Os degraus continuaram por vários minutos, até eles chegarem a um corredor. null não a apressou nenhuma vez, nem se preocupou em vigia-la de perto; esperou até a mulher estar ao seu lado, e com um olhar de permissão, ele colocou a mão em seu cotovelo e conduziu null até uma porta alta de ferro.
- Não se sinta intimidada. Está tudo bem.
Embora a intenção de null fosse acalmar null, a mulher ainda pressentia o pânico em seu peito. Assentiu sem deixar sua expressão lhe trair, e vestiu sobre seus olhos um brilho indiferente.
null bateu duas vezes, e abriu a porta, interrompendo as grossas vozes que estavam dentro da sala. A primeira visão da mulher foi o enorme general Axel parado no meio do aposento. Ele estava sujo e machucado em vários lugares, mas ainda sustentava seu porte forte e superior. null forçou null a dar vários passos para dentro da sala, e a mulher percebeu que o aposento estava cheio. Ao lado da porta estavam Trist e Dale; mais ao fundo, lado a lado, null reconheceu os generais de Portsmouth e Crawley e vários soldados que ela não conhecia. Todos estavam parados olhando para alguém no lado oposto da sala. null levou null até o fundo do aposento, para aonde ela seguiu com a cabeça baixa, e se posicionou ao lado dele. Quando finalmente ergueu a cabeça, viu a quem todos focavam sua atenção.
O Rei estava em pé sobre um plano mais alto, ainda vestia sua armadura desnecessariamente mais nobre que as outas, e andava de um lado para o outro. null nunca o havia visto e percebeu que este era um detalhe estranho. Ela era uma peça importante, sabia disso, e mesmo assim sempre havia sido designada a Axel ou a null. O Rei tinha um rosto fino e não aparentava ser muito velho. Com olhos cinzas e uma barba rala, ele tinha o queixo levantando num sinal superior e ouvia atentamente ao general Axel. Passando os olhos ao redor, null prendeu respiração quando finalmente o viu.
Seu rosto estava tão machucado, ela percebeu compartilhando a dor dele. null tinha longos cortes pela sobrancelha e seu pescoço estava machucado em vários lugares. Ele estava encostado na parede logo ao lado da janela, e era o que estava mais próximo do Rei em toda a sala. Mantinha uma mão na bainha da espada, e sua camisa estava entreaberta, mostrando sua pele clara do abdômen. Ele mantinha seus olhos em null, como se conseguisse compartilhar pensamentos com o amigo; eles trocaram um rápido aceno de cabeça quanto a algum assunto em particular e null voltou a se focar no rei. null olhou para null, e se surpreendeu ao ver o olhar dele já sobre ela. Corou imediatamente, mal conseguindo forjar suas emoções, e agüentou o contato ocular, enquanto percebia seus olhos null brilharem para ela e sua boca se retorcer num quase sorriso.
Tão rápido quanto começou, terminou. null voltou sua atenção ao general e ao Rei. Então null se sentiu na obrigação de entender sobre o que eles conversavam.
Os franceses haviam batido em retirada. Muitos foram mortos, mas restava o bastante para recuar e fugir pelo mar. Dover estava fora da ocupação, mas o Rei planejava enviar tropas de segurança para Brighton, já que a cidade estava sob ameaça por se encontrar muito perto do Canal da Mancha; e já que os franceses estavam planejando atacar vários portos ingleses, assim como a informante francesa havia confirmado – e nessa hora todos os olhos foram para null ao fundo da sala.
Mais alguns minutos de reunião, e os vários soldados e generais começaram a se retirar, e então Axel resolveu citar null. Informou ao Rei que o comandante havia liderado as tropas pelo portão leste da cidade, e ainda sob o comando dele, os soldados conseguiram impedir que um dos navios franceses escapasse, deixando-o em cinzas. null reparou, reprimindo o sorriso, null foi muito modesto quando o Rei lhe elogiou e lhe agradeceu.
A sala se esvaziou rapidamente, e null começou a se indagar porque estava ali quando se sentiu observada. Olhou imediatamente para null, mas este conversava com null. E então para seu espanto, a mulher percebeu que o Rei a fitava. Mas ao contrário de ruborizar, ela sustentou o olhar do Rei e percebeu que ele a analisava minuciosamente. Primeiro tentando desvendar seus olhos, e depois desceu seu olhar por todo o corpo da mulher. Ela, incomodada, deu alguns passos para trás, e acabou esbarrando em null ao lado. Ele e null a olharam questionadores, mas o Rei foi mais rápido:
- Esta é a francesa da qual me falou, Axel. Se tornou prisioneira na batalha e consentiu em nos dar informações?
Ele falou como se null nem estivesse na sala. Ela se forçou a levantar a cabeça, praguejando por ter se sentido intimidada, e encarou o general enquanto ele respondia:
- Correto, majestade.
- E foi ela quem ofereceu informações que poderiam culminar em mais outra vitória nossa, se o senhor a tivesse ouvido... estou certo, general Axel?
null observou a sala ficar em silencio enquanto o general umedecia os lábios com a língua, e respondia com má vontade:
- Correto, senhor. Nossa vitória em Dover foi influenciada por ela.
O Rei assentiu uma vez, e voltou seus olhos para null.
- Comandante null, o senhor esteve a acompanhando de perto. Diria que a francesa merece uma recompensa?
null ficou surpresa ao ver null levantar as sobrancelhas, admirado. Alguns segundos sem fala até que ele respondeu:
- Claro, majestade.
O Rei deu um pequeno sorriso satisfeito, observando null durante mais alguns segundos.
- Tirem-na da cela. – ele disse vagarosamente, surpreendendo a todos na sala – Levem-na para os quartos servis do castelo, onde ela continuará sendo útil e os criados poderão vigiá-la. Será mais difícil fugir estando rodeada de ingleses.
Ninguém disse nada chocado com a ordem. null inclusive.
Como o silencio permaneceu, o Rei olhou ao redor com as sobrancelhas levantadas.
- Eu preciso repetir alguma ordem para ser atendida?
- Não, senhor. – o general Axel disse prontamente. – Acharemos um quarto vago para ela.
- Posso fazer isso agora, senhor. – Trist deu um passo a frente, e null automaticamente deu mais um passo para trás e conseqüentemente para mais perto de null.
- Não. Você fica, porque eu e o general precisamos falar com você, Tristan. – o Rei disse provocando alivio imediato em null. – null pode arranjar o quarto para a francesa. – ele disse olhando para null, que assentiu. – Os outros estão dispensados.
Dale foi o primeiro a sair enquanto null o seguia. null, sem olhar para null, pousou a mão suavemente em suas costas, e a conduziu para fora da sala. Uma vez do lado de fora, null tirou sua mão do corpo da mulher, e andou ladeado por ela e null.
- Cuide de seus ferimentos, te vejo em algumas horas. – null murmurou para null antes de sumir por uma porta lateral, e null começar a descer as escadas ao lado de null.
Agora que estava ao lado dele, null sentia as mãos tremerem a todo instante, e lhe lançava olhares com o canto do olho, esperando por alguma atitude da parte dele. Indiferente, null caminhava silenciosamente, fitando apenas o chão. Intimidada demais e sem nenhuma idéia para fazer null falar, null virou a cabeça especialmente para observá-lo, e fez uma careta ao ver os hematomas em seu pescoço, e adentrando mais para dentro da camisa.
- Você vai cuidar disso, certo? – ela perguntou baixinho, erguendo os olhos para o rosto de null.
- Sim. – ele respondeu com um pequeno sorriso educado, ainda sem olhar para ela.
O rapaz conduziu null por mais alguns corredores, até chegarem numa parte mais rústica do castelo, onde não havia tapetes no chão ou quadros nas paredes.
null conversou com várias pessoas que encontraram, e por fim levou null para um corredor adjacente, com teto baixo e portas de todos os lados. A mulher vislumbrava quartos abarrotados e sujos em cada porta, embora alguns quartos parecessem ser aconchegantes, tão pequenos, preenchidos com pertences alheios e pequenas janelas ao fundo.
- Esse está vago desde que perdemos Lexi. – uma senhora murmurou ali.
- Por favor, traga um vasilhame de água e roupas de cama. – null pediu educadamente, mas a senhora lançou um olhar mal humorado a null antes de assentir e se retirar.
null abriu uma porta de madeira leve à sua direita, e finalmente olhou para null.
- Acho que esse vai ser seu.
A mulher deu alguns passos a frente e olhou para dentro do cômodo.
Havia uma cama com um colchonete nu e gasto, um criado mudo bastante antigo, um cabideiro igualmente velho, e a janela embaçada ao fundo. O chão estava empoeirado e engordurado, indicando que o quarto não era usado há várias semanas.
- Temo que você vá precisar equipá-lo e prepará-lo a seu modo. – null disse entrando no cômodo antes de null. A mulher entrou atrás dele.
- É melhor que sua cela, certo? – o homem perguntou esperando por uma reação positiva de null, mas ela ainda analisava o quarto.
- Por quê? – ela perguntou baixinho erguendo os olhos para ele.
null suspirou parecendo preocupado.
- Porque você se comportou bem e foi realmente muito útil a todos nós. – ele explicou se sentando sobre o colchonete e encarando o vácuo. – Temo que aqui sua situação não irá mudar. Ainda vai ser vigiada, você ouviu o Rei – ele lhe lançou um olhar de compreensão – E ainda serão exigidos de você as mesmas tarefas e informações que antes.
null assentiu olhando pela janela e dando um longo suspiro.
- Eu consigo. – ela disse mais para si mesma do que para null.
Neste instante a senhora apareceu de volta ao quarto carregando tudo que null havia pedido. Ela os deixou em silencio no quarto, e com uma reverencia ao comandante, se retirou.
Ficaram longos minutos em silencio, até null voltar a olhar para o comandante, e perceber que ele lhe observava com os olhos brilhantes. E ela percebeu que havia sentido falta daquele olhar que ele lhe lançava. Um relance da última noite no lago veio a sua cabeça, e ela fechou os olhos com força, interrompendo seu contato ocular com null.
Bloqueando a dor desconhecida em seu peito, null se virou e fechou a porta silenciosamente, antes de se assegurar que não havia ninguém no corredor. Virou-se para encarar null e viu que ele lhe lançava um olhar desconfiado. Ela o ignorou, e marchou até o vasilhame d’agua, pegando também um lençol ao lado deste.
Se sentou, então, ao lado de null na cama e rasgou um longo pedaço de tira do lençol. Primeiramente não conseguiu dizer nada ao ver que os olhos do rapaz esperavam por ela, observando e aguardando o que ela estava prestes a fazer. Ele continuava sendo mais alto que ela até mesmo sentado.
- Posso ser eu agora a cuidar de seus ferimentos? – null então perguntou baixinho.
A surpresa passou pelo rosto do rapaz, e ele fechou os olhos, suspirando.
- Você fez isso demais por mim. – null argumentou, antes que null pudesse dizer algo – Eu tenho obrigação.
- Você não tem nenhuma obrigação para comigo. – ele respondeu abrindo seus claros e null olhos, fazendo null se sentir vulnerável.
- Eu tenho. Muitas. – ela disse o contradizendo, e cruzou as pernas sobre o colchonete.
Molhou um pedaço da tira de pano que segurava e se concentrou primeiramente no corte da sobrancelha de null. Ela encostou a ponta dos dedos na bochecha do rapaz, e com a outra mão limpou o corte vagarosamente. Ele não esboçou nenhuma reação, apenas manteve seus olhos abertos e vidrados no rosto concentrado de null.
Assim que os cortes nas duas sobrancelhas estavam limpos, a mulher rascou mais um pedaço do lençol. Limpou então o sangue batido em tornou de um longo rasgo no queixo de null, pressionou levemente o trapo encharcado contra vários machucados no pescoço dele e quando afastou sua camiseta para deixar seu ombro musculoso descoberto...
- Oh! – ela exclamou de surpresa, e null sorriu. Havia um grande hematoma azulado cobrindo seu ombro. – Como fez isso?
- Bati com ele contra um escudo. Está tudo bem. Há ervas que curam isso em dois dias. Você sabe disso.
null ergueu seus olhos ainda cheios de preocupação até os do rapaz.
- Então creio que sem as ervas nada posso fazer.
null assentiu desviando seus olhos, cobrindo seu ombro novamente e suspirando levemente.
- Espero ter te ajudado, comandante. – null sussurrou se levantando, e sabendo que não havia feito grande diferença. Levou, então, o vasilhame de água de volta ao criado mudo.
- Desde quando você me chama de comandante? – null perguntou com a voz leve, mas com tom questionador.
null piscou os olhos primeiramente.
- Porque te admiro por tudo que já fez até agora. – ela respondeu sussurrando.
O rapaz a encarou um pouco confuso, e então também se levantou. null abaixou a cabeça envergonhada, até sentir a mão de null sobre seu queixo.
- Você quem deve ser admirada, null. – ele disse observando toda a face da mulher ao alcance de seus olhos – Porque você tem sido corajosa e forte como nenhuma mulher francesa jamais foi.
A mulher sentiu suas bochechas ruborizarem e tentou pensar racionalmente ao ouvir a voz de null pronunciar tais palavras para ela.
- Senti sua falta enquanto estava fora. – ela sussurrou sentindo coração disparar. – Senti medo por não saber como você estava ou quando voltaria.
null ousou esticar a mão levemente e tocar o peito descoberto de null com a ponta dos dedos. Sentir a pele dele sobre seus dedos, fez correntes gostosas circularem por seu corpo e implorarem por um contato maior.
- Mas eu voltei. – null disse, abrindo um sorriso doce e acariciando o queixo da mulher – E eu não poderia receber um tratamento melhor.
null retribuiu seu sorriso com uma pontada de dor.
- Não lhe curei totalmente. – argumentou deslizando a ponta dos dedos pela pele do rapaz.
null pressionou sua outra mão contra a mão de null, a fazendo esticar os dedos e espalmar toda sua palma contra a pele de seu abdômen descoberto. null então fechou os olhos com força e suspirou como se estivesse cansado.
- Você sabe que isto é errado, não sabe?
- Sim. – null disse amedrontada com o que estava para vir.
null assentiu e abriu os olhos.
- Ótimo. Jamais se esqueça disso. – ele murmurou aproximando seu rosto do da mulher e encostando suas testas.
null sentiu seu corpo responder positivamente àquele toque. Com o coração disparado, e as gostosas correntes passando por toda sua pele, a mulher ergueu levemente a cabeça, permitindo que seu nariz se encostasse ao de null.
A respiração dele bateu contra a boca da mulher e ela pode sentir seu hálito quente. Em questão de segundos, null sentiu seus lábios serem pressionados pelo do rapaz num beijo mínimo e então null permaneceu com seus lábios grudados sem fazer nenhum movimento. Os dedos do rapaz deslizaram novamente pelo pescoço da mulher, lhe causando pequenas cócegas, e suas mãos grossas apresentaram uma delicadeza que null jamais poderia esperar. null encaixou melhor seus lábios, e mordiscou levemente o lábio superior da mulher. null não pode reprimir um sorriso, e se inclinou mais para frente, querendo ter mais contato com o corpo de null. null encostou sua língua levemente nos lábios da mulher e agora null sabia o que fazer. Acariciou os cabelos do rapaz assim que permitiu que sua língua encontrasse a dele. null a beijou com uma ardência contida, enquanto null se deliciava com o gosto do rapaz, o qual ela não se lembrava de ser tão bom.
null percebeu que havia uma harmonia em seus beijos e gostava de pensar que null gostava tanto daquilo quanto ela. Aos poucos, uma nova sensação cresceu em seu corpo, borbulhando instintos para cada célula de seu ser, a fazendo desejar null mais perto, mais intensamente. Inconscientemente ela encostou seu corpo totalmente ao dele procurando por mais contato.
null porém se afastou, segurou nas laterais do rosto de null e a forçou se afastar dele. Ele parecia visivelmente assustado.
- Não podemos fazer isso. – ele disse bruscamente dando um passo para trás – Desculpe, eu não deveria estar aqui.
Ao ouvir isso a tristeza transbordou sobre os olhos de null, mal acreditando que ele havia cortado um contato tão intenso entre os dois novamente. E de uma forma que estava começando a doer.
- null, por favor... – sua voz saiu falha.
- Você sabe que isso trará conseqüências para você e para mim. – ele fixou seu olhar sobre o dela – Eu não sei onde estava com a cabeça quando...
- Quando deu suporte a uma prisioneira da nação que os atacou? – null perguntou ignorando sua voz trêmula. – Se pudesse voltar atrás, jamais teria se aproximado de mim?
- Não é isso. – null disse um tanto alarmado. – Não me arrependo. Mas... Não podemos nos querer assim, null. – ele justificou passando a mão pelos cabelos.
- Você me provocou naquele lago. – null apontou um dedo para ele – Você me quis primeiro e eu não posso evitar sentir o mesmo. Que me matem ou façam o que quiserem, não me peça para não te querer, null.
null pareceu totalmente abalado. Ele relaxou os ombros e olhou para o teto com uma expressão de sofrimento.
- Desculpe por ter feito isso com você. – ele murmurou – Só não quero que eu ou você morra por isso que estamos fazendo. Não quero fazer disso um inferno.
- Não existe inferno quando estou com você. – null disse anulando a distância entre eles.
null a fitou carinhosamente, e guardando sua auto repreensão, ele juntou seus lábios novamente.
#12
[Música para o capitulo: Untouchable – Taylor Swift. Se você não a tem pode ouvir no YouTube ou pode baixar. Coloque para tocar quando chegar o aviso. Aconselho baixar a música pois é mais comprida. Caso opte pelo youtube a música vai acabar no meio da cena, portanto a coloque para repetir!]
null se cansou rapidamente de trabalhar na cozinha, onde os outros criados pareciam ter sido ameaçados ou alertados quanto a presença da mulher. Todos a vigiavam 24 horas por dia, mantendo seus olhos fixos em cada movimento dela. Aquilo a embravecia, lhe fazendo corresponder com olhares furiosos. Além disso, não havia mais visto null ou Shaunee. Estava começando a desejar poder estar de volta ao ar livre, colhendo frutos ou trabalhando com os outros homens, mesmo que isso acarretasse o uso das correntes nos pés.
Foi por isso que naquele terceiro dia, ela ficou feliz ao perceber que não estava sendo útil na cozinha e foi levada novamente para os campos. Ineditamente sem correntes em seus tornozelos. Ela se colocou alegre ao lado de Shaunee para cortarem as folhas dos nabos e os separarem por tamanho.
Logo que o crepúsculo se aproximou e os guardas do castelo trocaram seus turnos, se posicionando ao redor de todo o prédio, null se levantou espanando a sujeira do vestido e se preparou para voltar para seu quarto. Assim que o caminho dela e de Shaunee se separou grandes vultos a sua direita a distraíram. Se virou assustada quando viu null se aproximar sobre a cela de um cavalo, e percebeu que ele puxava junto de si uma égua branca com a cela vazia.
null olhou curiosa para o rapaz. null sorriu e lhe apontou a égua branca.
- Suba, preciso te levar há um lugar.
null arregalou os olhos e olhou assustada para os guardas ao redor do castelo ali perto. Eles não pareciam muito interessados nela ou em null.
- Já falei com eles. – null explicou.
- Aonde vai me levar? – a mulher perguntou e logo depois mordeu o lábio, imaginando se null ficaria bravo pelo atrevimento.
- Você vai ver. – ele respondeu aproximando a égua de null. – Mas não podemos demorar, suba.
null o fez, subindo na cela de couro e segurando as rédeas do cavalo branco. null nada respondeu, apenas cavalgou na frente, e a mulher supôs que deveria segui-lo.
Os cavalos seguiram por um caminho perpendicular ao castelo, e não demorou até que algumas árvores os encobrissem. null parou seu cavalo logo no começo de uma trilha que serpenteava um pequeno bosque.
- A trilha vai subir, null te espera ao final dela. – null explicou se virando para null.
A mulher não pode evitar que o sorriso invadisse seu rosto e assentiu com energia já guiando a égua para dentro do bosque.
- null - null disse, pela primeira vez a chamando pelo nome. A mulher se virou curiosa. – Diga ao null que não sou pombo correio. – o rapaz resmungou acenando com a cabeça e null reprimiu o sorriso.
- Me desculpe. Eu vou dizer. – ela respondeu antes de se virar novamente e seguir com seu cavalo para dentro das arvores.
Como null dissera, a trilha começara a se inclinar e a luz do crepúsculo deu lugar a uma luz lunar fraca, que assustou null por não conseguir enxergar muita coisa entre as árvores. Estava confiando extremamente nos instintos da égua embaixo de si.
As árvores pararam abruptamente e a mulher ficou feliz em poder voltar a enxergar. Ela estava em uma clareira na ponta de um penhasco, e o vento ali bagunçou completamente seu cabelo. Ela desceu do cavalo pisando sobre a grama extremamente verde e olhou ao redor.
Avistou mais um cavalo amarrado perto de uma arvore e se perguntou onde estava null. Levou sua égua até a mesma árvore e a amarrou ao lado da montaria do rapaz. E então a visão de null ao seu lado a assustou completamente. null deu um pulo para trás com o coração disparado.
null lhe deu um sorriso estranho.
- Me desculpe.
null fechou a cara.
- Onde você estava?
- Aqui perto das árvores. – ele explicou a ajudando a amarrar sua égua. – Você está bem? Fizeram muitas perguntas quando null levou você?
- Não a mim. – null explicou o observando – null talvez tenha dito algo muito convincente. E ele mandou lhe dizer que não é pombo correio.
null não sorriu.
- Ok. Converso com ele depois. Hoje é a sua vez. – e então ele se virou para a mulher.
Se aproximou lentamente dela, e passou um braço por sua cintura. null sorriu, erguendo o rosto e fazendo seus olhos se encontrarem.
- Você gostou da vista? – null perguntou a guiando até a ponta do penhasco.
Assim que null estava à beira do penhasco, ela prendeu a respiração. Ela podia ver tudo. As montanhas ao leste, a cidade ao oeste com suas fracas luzes brilhando na escuridão da noite, e embaixo de si, a enorme planície que se estendia pelo horizonte até que ela não pudesse enxergar mais nada. Dali era possível ver as centenas de trilhas que cruzavam a planície, a maioria das plantações e, num dia bem iluminado, seria possível identificar qualquer pessoa cruzando aquelas terras.
- Isso é precioso, null. – null disse depois que terminou de admirar a paisagem – Como um lugar como este fica deserto? Vocês conseguem observar quase o território completo daqui!
null assentiu também passando os olhos por cada ponto da paisagem
– O Rei acha que é perda de tempo manter uma base aqui por enquanto, já que não estamos ameaçados.
null ergueu as sobrancelhas, cética. null riu sarcasticamente.
- Mas não viemos aqui conversar sobre isso. – ele suspirou e null percebeu que seu rosto estava triste.
null se sentou sobre a grama, apoiando um cotovelo sobre a perna dobrada. null sentou-se ao seu lado, esperando pelo o que ele iria falar. Eles estavam sentados perto um do outro, seus braços roçavam, assim como a coxa quente de null estava pressionada contra a coxa de null.
A mulher adorava aquela aproximação, adorava sentir o calor que emanava do corpo do rapaz. Sentia seu corpo todo tremer de excitação àquele toque indireto e sua barriga deu voltas quando null se virou para olhá-la.
- Como tem sido seus dias? Os criados têm te tratado bem?
null curvou as sobrancelhas enquanto respondia.
- Sim. Mas eles foram avisados sobre mim, então me vigiam o tempo inteiro. Sinto falta de quando eu era observada de longe pelos guardas e todos os outros criados me ignoravam.
null bufou levemente voltando a olhar para o horizonte.
- Você ficaria feliz se sua situação melhorasse? Se ganhasse novos vestidos, um barril em seu quarto para se banhar?
null arregalou os olhos assustada.
- C... como isso seria possível? – ela riu sem humor – Digo, olhe quem eu sou, null.
null permaneceu em silêncio por um longo tempo, apenas olhando o horizonte e mordeu o lábio algumas vezes.
- O que está acontecendo, null? – null perguntou preocupada, pousando sua mão sobre o joelho do rapaz.
null então disse antes de olhar para a mulher:
- O Rei lhe chama para um jantar, null.
null permaneceu calada, esperando algum complemento.
- Um jantar? – ela perguntou confusa.
- Só você e ele. – null assentiu.
- Mas... – ela balançou a cabeça extremamente confusa – Como assim?
- Não é um convite ao qual você possa renunciar. – null explicou se virando para olhá-la. – O Rei está te reivindicando, null.
A mulher permaneceu sem fala durante um bom tempo, vagando seus olhos por qualquer lugar, tentando entender.
- Ele quer que eu vá jantar com ele?
null suspirou.
- E mais.
- O que? – ela perguntou um tanto alto.
- Ele... te quer. Ele é o Rei e você é uma prisioneira que acabou de ser promovida a criada. Ele tem o poder de querer que você faça o que quiser por ele, ninguém pode desobedecê-lo. – null explicou lentamente medindo as palavras.
- Ele quer que eu... – ela sussurrou.
E então ela entendeu. O Rei a queria em sua cama.
Ela já havia ouvido falar disso antes na França. Sabia que era possível, para um homem de grande status, ter o poder de trazer qualquer mulher para seu quarto nas longas noites frias.
Seu pai fora um deles. Mas as mulheres sempre estavam dispostas, eram mulheres que viviam disso. null nunca havia encarado um rosto de uma delas, embora pudesse ouvi-las com seu pai durante noite. E ela jamais poderia imaginar que alguém a usaria com o mesmo propósito. Que alguém a desejaria dessa maneira.
E então nada poderia explicar o pânico que subiu por seu peito, e a sufocou lentamente num horror agonizante.
- Eu... Eu não posso. – ela sentiu sua voz falhar, enquanto seu peito subia e descia numa respiração desenfreada. – Eu não quero. Por favor, não deixe que ele me leve. Eu não... Eu não posso.
Ela se afastou do corpo de null inconscientemente enquanto o medo a dominava.
- Eu nunca fiz isso. – ela sussurrou – Ele é casado... e pode ter todas as mulheres que quiser, por que eu?
null a fitou com os olhos amargos e uma raiva contida que ele mal conseguia esconder.
- Eu também não quero. – ele sussurrou de volta para ela. – Não quero que ele te encoste, eu mal posso... – ele apertou o punho contra os lábios e fechou os olhos. – Mas eu não posso impedi-lo. – ele disse implorando com os olhos.
null sentiu seus olhos encherem de lágrimas.
- Por que eu? – ela repetiu a pergunta com a voz falhando.
- Olhe para você, null. Você não é o tipo de mulher que passa despercebida aos olhos de um homem.
A mulher balançou a cabeça ainda horrorizada e escondeu o rosto nas mãos. Seu coração bombeava medo para cada pedaço do seu corpo, e ela pensava o que iria fazer quando estivesse na companhia do Rei. E pela segunda vez, cogitou a possibilidade de fugir dali.
Enojava-se em ter que fazer sexo com um homem a que ela não conhecia, não tinha a mínima intimidade e por quem não nutria nenhum sentimento. Com esse último pensamento, sua mente a levou até null.
Com mais um tremor, ela se perguntou novamente porque sua vida tinha que ser tão cruel.
Sentiu os braços de null se fecharem ao seu redor. Momentaneamente ela se sentiu segura, aninhou-se nos braços do rapaz, deixando que ele acariciasse seu cabelo e pressionasse a boca em sua testa. null estava a apertou contra si num sentimento de possessão e por um momento ela não conseguiu respirar.
null fechou os olhos com força e sussurrou sem pensar:
- Me mostre como é.
Ela sentiu o corpo de null se retesar e o rapaz ficar tenso. Ele afrouxou os braços ao redor da mulher e perguntou cético.
- O que?
Ele observou o rosto molhado de null e se perguntou se havia ouvido corretamente.
- Eu nunca fiz isso antes. – a mulher explicou sussurrando – Me mostre como é.
Foi a vez de null se afastar.
- Não. – ele balançou a cabeça – Não posso fazer isso, null. – ele disse tanto para ela quanto para si mesmo.
- null... – ela murmurou – Me escute. – ela se ajoelhou em frente null e tocou o rosto do rapaz com a ponta dos dedos. – Você foi o único aqui que alguma vez demonstrou alguma bondade a mim. – ela explicou analisando cada pedaço do rosto dele – Você foi o primeiro homem a quem eu beijei, e se há alguém com quem eu faria isso, seria com você. Seria sempre com você.
null segurou a mão dela contra seu rosto, mas assim mesmo murmurou:
- Não diga isso. Você não está pensando racionalmente.
null fechou os olhos e se afastou. Magoada, sussurrou mais para si mesma do que para ele:
- Está tudo bem se você não me deseja como ele. – e se viu incrivelmente triste ao encarar tal fato.
null soltou um riso sarcástico e nervoso. Pousou as duas mãos sobre os cabelos de null e aproximou os dois rostos.
- Isso é impossível.
null observou os olhos da mulher brilharem e seus lábios quando ela lhe disse:
- Eu faria qualquer coisa que você me pedisse.
- Eu não lhe pediria para fazer algo assim. – null sorriu verdadeiramente pela primeira vez naquela noite, o que refletiu um sorriso no rosto de null também. – Eu não faria algo que você não quisesse. – ele acariciou delicadamente sua bochecha com as costas de sua mão. [Música a partir daqui!]
null sorriu fechando os olhos e acolhendo tais palavras. E se impedindo de falar qualquer outra coisa, ela juntou seus lábios ao de null e o sentiu corresponder.
Foi um beijo mínimo, que durou longos segundos, proporcionando a null uma calma momentânea por ter null próximo a ela.
null pressionou seus lábios novamente produzindo um estalo e a mulher segurou o rosto do rapaz entre suas mãos. Desejou que sua vida pudesse ser reduzida àquele ato.
Mais uma vez demonstrando uma delicadeza jamais vista, uma das mãos quentes do rapaz deslizou até a base das costas da mulher, e usando apenas a força necessária, deitou o corpo de null – já submisso a ele – sobre a grama macia.
As duas bocas se descolaram, e null observou null sob ele. Seu cabelo caía em leque ao redor de sua face e a mulher ainda segurava seu rosto com as mãos. As mãos de null acariciaram as bochechas do rapaz e dedilharam as curvas de seu rosto, decorando as linhas que formavam as delineações de suas sobrancelhas, seu nariz, seus lábios e queixo. null mantinha os olhos fechados, sorrindo de lado.
Ele curvou novamente seu rosto e deixou que seus lábios se encaixassem, iniciando um beijo calmo, enquanto null entrelaçava seus dedos aos cabelos de null, proporcionando ao rapaz o arrepio já conhecido em sua espinha. null adorou sentir novamente o gosto de null invadir sua boca e deixou que suas línguas se acariciassem de uma forma que ainda a deixava entorpecida. null pressionou levemente seu corpo ao dela e deslizou lentamente a mão por toda a extensão da lateral do corpo da mulher. null levou suas mãos levemente trêmulas ao colete de couro que null usava e o deslizou por seus ombros. O rapaz moveu seus braços e ajudou que tal peça fosse retirada de seu corpo.
null percebeu que, inevitavelmente, tremia. Tremia por receio daquela intimidade desconhecida, daquele desejo desconhecido.
As mãos de null subiram lentamente pelo abdômen da mulher, suas mãos pararam entre seus seios, onde havia cordões que, enlaçados, deixavam aquela parte do vestido fortemente presa. null separou suas bocas, puxou os cordões, os desamarrando, e deixando o colo da mulher mais a vista. O rapaz deixou seus olhos se perderem pela extensão descoberta da pele dela, e lentamente encostou seus lábios ali, sentindo a maciez da pele de null. Ela acariciou os cabelos de null e encarou o céu estrelado acima deles, percebendo sua respiração se alterar a medida que o desejo irracional irradiava para cada pedaço de seu ser. Percebeu o homem afastar os beijos de seu colo e a olhar com ternura.
- Está tudo bem? – ele sussurrou.
null assentiu sorrindo levemente, e deslizou sua mão num carinho pelos braços e ombros de null. null puxou null pela mão, a fazendo se sentar ao lado dele, e lhe deu um leve beijo sobre a testa. Moveu seu corpo para trás de null, e com as duas mãos, afastou seu longo cabelo ondulado de suas costas. Ela ofegou silenciosamente quando sentiu null abriu o primeiro botão de seu vestido.
null esticou uma mão até tocar a de null e a ela entrelaçou seus dedos. Com a outra a mão, ele desabotoou todos os botões restantes, e observou maravilhado, a pele que aparecia lentamente por baixo do vestido. null sentiu o hálito quente do rapaz se aproximar e apertou sua mão num reflexo; em seguida sorriu ao sentir os lábios e, algumas vezes, a língua de null deslizar por suas costas descobertas.
Pela primeira vez null sentiu a necessidade de ter um corpo tão perto do seu. Quando null se aproximou novamente para beijá-la, a mulher encostou seu tronco ao de null, afundando os dedos em seus cabelos e sentindo a mão do homem entrar por dentro do seu vestido desabotoado. Ela foi deitada mais uma vez sobre a grama e com sua ajuda, null conseguiu tirar a propria camisa fina de algodão.
A primeira reação de null ao ver o tronco nu de null foi perder o fôlego. Perdeu-se por toda a extensão da pele do rapaz e não pode se impedir de acariciar cada curva que havia esculpida em seu abdômen. Seus olhos e mãos vagaram desde os ombros largos até as formas perfeitas dos músculos em seus braços, seu abdômen definido e pararam sobre o cós de sua calça. Nesse momento null sentiu uma pressão exercida por dentro da calça do rapaz e ouviu null ofegar, quando ela mexeu a mão confusa. Mordeu os lábios apreensiva, ao sentir que ele começara a puxar seu vestido. Moveu seus braços para ajudá-lo na retirada da roupa, e ficou totalmente nervosa ao senti-lo terminar de tirar seu vestido e jogá-lo em algum lugar ali perto.
null sorriu carinhoso à mulher e acariciou a coxa quase nua dela, enquanto lhe dava um beijo rápido. Em seguida a olhou por longos segundos, procurando por algum sinal de hesitação, mas null não mostrou nenhum ao encará-lo de volta e deslizar os dedos por suas costas. Com um suspiro e mais um olhar de permissão para a mulher, null abaixou a alça da simples veste que null usava por baixo do vestido, como uma camisola. A mulher fechou os olhos, extremamente envergonhada, enquanto deixava o rapaz retirar a última peça de seu corpo. Sentia gradativamente que estava sendo exposta a null. Não ousou abrir os olhos para observá-lo. Pensava se null iria tocá-la ou acariciá-la de um jeito que ela temia, mas ao contrário disso o rapaz tocou seu rosto e acariciou seu queixo, lhe dando um beijo doce sobre os lábios.
- Não quero te machucar ou te magoar. – null sussurrou deslizando os dedos da outra mão pela barriga da mulher.
null abriu os olhos com a respiração alterada, passou os dois braços ao redor de null, o abraçando e forçando o contato entre seus corpos.
- Você não vai. – ela sussurrou de volta, forjando confiança.
Sem quebrar o contato de seus olhos, null desceu as mãos até os botões da calça de null e os desabotoou rapidamente. O próprio null terminou de tirar suas calças junto de sua peça íntima. null tentou não olhar, e se focalizar no rosto do rapaz sobre ela. Viu que ele procurava por alguma reação ou permissão dela, então sorriu. Passou os braços pelos ombros e pescoço de null e mordeu os lábios ao senti-lo lentamente penetrá-la.
Percebeu que null havia pressionado os lábios contra o pescoço dela, forçando-se a se acalmar. Ela tentou aproveitar a sensação que era ter null em contato tão profundo com ela.
Não queria sentir nada a não ser seus corpos friccionados, os braços de null ao seu redor e seus olhos sobre ela, enquanto ele lhe dava tudo que ela jamais imaginara sentir.
#13
null encarou Dale na porta de seu quarto. Olhou o vestido que estava usando - vermelho rodado, com bordados em dourado e prata. Aquilo não era justo, pensou ela. Fechou os olhos forçando-se acalmar. Havia refletido muito desde a noite anterior e resolvera parar de pensar após perceber que seus pensamentos não mostravam nenhuma melhoria para seus fantasmas mentais. Com um suspiro nervoso ela abriu os olhos e se aprumou ao ouvir o pigarro impaciente de Dale.
Escondeu dentro de si qualquer sentimento que insistia em vir à tona e andou em poucos passos até o soldado. Deixou que ele a guiasse pelas entranhas do castelo e logo percebeu que o interior da edificação passava a ficar mais luxuoso, decorado e requintado. Havia um maior numero de quadros pendurados, tapeçarias ricamente bordadas cobrindo paredes inteiras e ela percebeu que estavam se aproximando do aposento real quando cresceu o número de cavaleiros guardando cada curva do corredor.
Dale a levou até o fim do corredor em uma enorme porta de duas faces e lhe deu um sorriso afetado.
- O agrade, francesa, que ele também lhe agradará. – o soldado riu maliciosamente com uma piada interna e lhe deu as costas, sem dizer mais nada.
null olhou a redor assustada e imaginou se deveria entrar ou bater na porta. Não queria fazer nenhuma das duas opções, mas sair correndo não poderia ser cogitado. Por isso ergueu a trêmula mão e bateu com o nó dos dedos na madeira polida. Um minuto depois a porta foi aberta pelo Rei Henrique em pessoa. Ele levantou uma sobrancelha enquanto analisava o corpo da mulher de cima a baixo e por fim lhe deu um sorriso caloroso. null tremeu da cabeça aos pés, desejando ser qualquer outra pessoa estar em qualquer outro lugar. Suspirou procurando por forças e deu um passo nervoso para dentro do quarto do Rei.
Shaunee a olhava com hesitação ao que null mordeu os lábios, nervosa e irritada com aquela atitude. A notícia da escolha do Rei por null e a noite que passaram juntos havia se espalhado entre os criados. Parecia não ser uma traição tão chocante uma serviçal jovem e bonita passar a noite com o Rei – desde que ela não fosse da nação inimiga. Portanto todos passaram a olhar para null com o julgamento a queimar nos olhos. Assim como Shaunee.
null desviou o olhar e continuou andando carregando a cesta entre os braços, ignorando a presença da loira ao seu lado.
- Você não havia me contado que ele havia lhe escolhido. – Shaunee disse após certo tempo.
null deu de ombros.
- Eu soube um dia antes.
A amiga assentiu e continuou caminhando ao seu lado. Havia uma carranca em sua expressão, o que confirmou à null os boatos que havia ouvido sobre todas as moças da província torcerem para que um dia o Rei as escolhesse para uma noite.
Aquilo pareceu à francesa uma grande incoerência, uma vez que em sua opinião não havia nada de honroso ou prazeroso em passar uma noite na companhia de um homem que não gostava, mesmo que ele fosse o Rei da Inglaterra.
Shaunee limpou a garganta, hesitante.
- Então uh... quer conversar sobre?
null suspirou sentindo o coração disparar com as lembranças e uma sensação ruim tomar conta de seu estômago.
- O que quer saber?
- Não sei, o que quer me contar? Você ficou... feliz?
null parou imediatamente de andar e olhou cética para a amiga. Não iria aceitar que pensassem que ela era como todas as outras moças.
- Como pode pensar assim? – ela sentiu sua voz fraca. – Porque alguém ficaria feliz ao não ter autoridade sobre seu próprio corpo, suas próprias escolhas, seus próprios sentimentos? Eu me senti usada, como se não passasse de uma prostituta! Todos sabem que o Rei é casado, ninguém se move ao vê-lo escolher a dedo as mulheres que deseja e vocês todas ficam felizes ao... – ela foi incapaz de continuar e ergueu as mãos em sinal de impaciência. E tal pensamento lhe ocorreu pela primeira vez: talvez todas as pessoas da província esperassem que ela se sentisse feliz e honrada; e estariam encarando aquilo como uma traição adicionada ao fato do Rei ter escolhido logo a ela, uma traidora de sua nação.
- Ok. – Shaunee a interrompeu assustada. – Eu entendo como se sente. Não sei como me sentiria...
null sentiu o gosto de bile na boca e um nó se formou em sua garganta. Voltou então, a andar sem olhar para a amiga outra vez.
Shaunee correu para se colocar ao seu lado novamente e alguns minutos depois prendeu a respiração em surpresa. null se virou assustada para ver o que causara tal reação na amiga e deixou escapar em suspiro de irritação - Shaunee encarava maravilhada um pé de miosótis. É verdade que eles eram particularmente bonitos, se destacando no que era apenas um amontoado de ervas daninhas e gramas ao redor das arvores de grande porte, mas null imaginara algo mais grave.
- Miosótis nesta época do ano! – a loira exclamou admirada – Me ajude a colher alguns para minha mãe? – ela perguntou se virando para null.
A mulher hesitou antes de colocar sua cesta no chão, dizendo:
- Claro!
Juntas elas fizeram um pequeno buquê para Erin e amarravam todas as flores juntas com um fiapo de barbante, quando Trist apareceu a cavalo indo de encontro a elas. null se assustou, dando vários passos para trás ao vê-lo parar em sua frente e Shaunee deixou o buquê cair com o pânico espalhando os miosótis colhidos aos seus pés.
- Mas que cuidadoso de sua parte, Cole! – Trist disse ironicamente para Shaunee, usando seu sobrenome.
A mulher se manteve silenciosa e abaixou a cabeça. Trist levantou os olhos encarando null. Ele deu um sorrisinho maldoso e levantou uma sobrancelha.
- Vocês não deveriam estar usando a estrada principal? Porque estão passando por esta trilha?
null prendeu a respiração. Elas estavam caminhando por um atalho que levava das plantações até o depósito do castelo. Mas pelo que lhe constava elas nunca haviam sido proibidas de usar tal trilha. Era verdade que era mais escondida, circundava um pequeno vale e geralmente estava deserta, mas null preferia aquilo a enfrentar as dezenas de olhares lançados a ela caso caminhasse pela estrada principal.
- É proibido andar por aqui? – null perguntou com impertinência.
- Cuidado com a língua, null. – Trist disse elevando a voz e fazendo seu cavalo avançar na direção dela. O animal pisoteou todas as flores caídas e o cavaleiro disse com impaciência. – Eu proíbo vocês de andarem por aqui. É uma trilha deserta e pessoas como vocês – ele cuspiu aos pés da moça – não deveriam estar seguindo por aqui. Meia volta e peguem a pista principal. Vou avisar Earl que se não aparecerem em cinco minutos, que ele venha lhes pegar e serão castigadas.
Com um ultimo olhar de aviso, Trist virou a rédea de seu cavalo e sumiu galopando pela trilha atrás delas.
- Desgraçado. – Shaunee rosnou com raiva concentrada na voz.
null fechou os olhos tentando se acalmar e se virou na direção que Trist havia seguido.
- Ele é a pessoa mais odiável que já tive o desprazer de conhecer. E contando o general Axel. – ela negou com a cabeça e então olhou para o chão - É uma pena. – murmurou observando as flores amassadas e despetaladas.
- Será que não há mais alguma muda dentro da floresta? – Shaunee perguntou esperançosa espiando por entre as árvores. – Eu poderia pegar algumas bem rápido...
- Não é uma boa idéia... – null começou a dizer, mas a amiga já estava adentrando e sumindo por entre as arvores – Temos que partir imediatamente! - Ela gritou largando a cesta de nabos mais uma vez e entrando na floresta atrás da amiga.
- Shaunee! – ela gritou novamente ouvindo sua voz ecoar entre as arvores.
Bufando novamente, null andou entre os pinheiros chamando pela mulher, quando ouviu seu nome ser dito baixinho ali perto.
Se virou e viu Shaunee olhando para o chão entre as raízes de uma arvore.
- Ande logo com isso, Trist disse que...
A voz de null morreu ao ver o que a amiga havia encontrado.
Dois corpos de possíveis soldados estavam estendidos sobre chão, frios e duros como pedra.
null foi a primeira pessoa de confiança que null conseguiu enxergar ao longe, ao virar correndo a curva da trilha. Shaunee a acompanhava mais atrás, visivelmente não tão apressada quanto a amiga. Ela havia suplicado a null segundos antes para que não contassem a ninguém, para que dessem as costas, seguissem seu caminho e esperassem que um dia, talvez, um soldado achasse tais corpos no meio da floresta.
null teve menos de um segundo para se decidir. Sabia as implicações daquelas mortes e, mais do que qualquer outra razão, as implicações daquela informação e de sua honestidade para null.
Por isso havia dado as costas a Shaunee, ignorado o pânico de sua amiga e o seu próprio e correra o caminho de volta até a cidade.
null estava saindo de uma ferraria, onde do lado de fora, várias lanças, foices e arcos pendiam do teto para a venda. Por alguns segundos null pareceu alheio ao seu redor; montou seu cavalo e só após bater uma vez as esporas contra a barriga do animal ouviu seu nome ecoar ao longe.
Ele se virou desinteressado e viu null se aproximar dele, pálida.
Ela estava sem ar; não parecia ser devido à corrida, mas simplesmente por estar nervosa demais e quando falou, sua voz tremeu.
- Há algo dentro do vale que circunda as estradas... Ach.. Eu... Onde está null?
- Ele está nos estábulos organizando expedições. O que vocês acharam? – null disse curioso e descendo do cavalo, andando até null. – O que aconteceu?
Uma rapariga alta, de cabelos louros escuros os alcançou, parecendo tão pálida e nervosa quanto a amiga.
- O que há lá? – null perguntou, mas a loira parecia amedrontada demais para pronunciar algo - null! – ele sacudiu a outra mulher a sua frente pelos ombros a procura de respostas.
- Dois soldados. – ela respondeu frouxamente. – Estão mortos. Não são daqui.
null a soltou, agitado.
- Mortos? Dentro do vale?
null assentiu, sentindo seus músculos formigarem.
- De que província eles são?
- Não faço a mínima idéia. – ela respondeu imediatamente.
null fixou seu olhar firmemente ao da mulher por alguns segundos, como se desafiasse encontrar um sinal de mentira neles; e por fim disse num sussurro enérgico:
- Me esperem aqui.
null não ousou desobedecer e trocou um olhar rápido com Shaunee, que continuava amedrontada por demais para produzir algum som.
Em dez minutos null estava de volta com null e mais um soldado.
A falta de ar voltou a assolar null; não era em uma situação dessas que esperara reencontrar null. Mas apesar disso suas pernas amoleceram e ela precisou dominar o impulso de sorrir para aquele rosto magnificamente bonito.
null trazia um cavalo consigo, tinha uma feição tão séria e concentrada quanto null. Quando se aproximaram realmente, null montou seu cavalo e, sem cerimônias, puxou null para cima do animal com ele.
- Você fica aqui com Earl, Shaunee, até voltarmos. – ele murmurou para a outra moça.
O cavalo começou a trotar e null passou um braço sobre a cintura de null. Seus corpos bateram um no outro e nenhum dos dois fez nada para impedir. A respiração da mulher bateu contra a nuca de null e com um sorriso ela percebeu que ele se arrepiara, para logo depois segurar a mão dela que repousava em sua cintura.
null os guiou para a trilha conhecida, até chegarem ao ponto em que os restos de miosótis, mais cedo apanhados, ainda jaziam pisoteados sobre o chão de terra batida.
- Parem aqui. – ela disse e desceu do cavalo de null – Estão lá dentro. – ela murmurou logo entrando na floresta, sem antes ver o olhar que os dois rapazes trocaram.
- Por Deus, null, o que estavam fazendo aí dentro? – null desceu do cavalo e caminhou com null para o interior das arvores – Vocês jamais deveriam estar aqui.
null rapidamente explicou a razão de Shaunee ter entrado e o fato de que ela a seguira, até chegarem ao lugar exato em que os dois soldados jaziam. Ela se afastou para que os homens pudessem ver melhor.
null se ajoelhou aos seus lados e disse imediatamente:
- São mensageiros. – e ao observar as fardas, murmurou com a voz mórbida: – São de Brighton. – e ergueu os olhos para null.
null também se ajoelhou e estudou um dos corpos.
- Mortos há mais ou menos... dois dias. O que acha? – perguntou ao amigo.
- Não há sinal de luta. – null observou.
Apalpou então o corpo do cadáver mais próximo a procura de algo que justificasse a morte. null fez o mesmo. Eles ergueram as fardas, viraram os soldados de costas, até null concluir, segurando o tornozelo de um deles:
- Picada de cobra.
E null – que também havia se ajoelhado para observar melhor - realmente percebeu a marca meio arroxeada onde dois caninos extremamente finos haviam perfurado a pele do homem.
- Este também. – null expôs a canela do outro corpo.
Ele deu um suspiro enquanto negava com a cabeça.
- O que eles estavam fazendo aqui dentro? Onde estão seus cavalos? Não há sinal de nenhuma carta ou mensagem em seus bolsos... eles foram roubados. – null se levantou. – Isso está totalmente errado.
null suspirou e trocou um longo olhar com o amigo. null se sentiu incomodada imediatamente. null então se virou e olhou para ela. Seus olhos não tinham brilho e ele os fechou logo depois, dando as costas para a mulher e saindo da floresta de cabeça baixa, deixando os dois para trás.
null suspirou novamente.
- Desculpe por isso. – ele murmurou antes de segurar os dois braços de null por trás de seu corpo e amarrar seus pulsos com um nó.
- Não fomos nós. – null repetiu pela enésima vez a Axel, que andava de um lado para o outro.
- Então me explique novamente o que estavam fazendo na floresta. – ele repetiu se sentando pela primeira vez e cruzando os braços.
- Estávamos naquela trilha porque era mais rápida para chegar ao castelo. – Shaunee recomeçou – Então Trist apareceu e nos mandou dar meia volta e pegarmos a pista principal.
- Quando estávamos voltando... Shaunee parou para procurar flores. – null completou.
Axel bufou e se levantou.
- E então por acaso acharam os dois corpos? – ele perguntou cético.
- Sim. – Shaunee respondeu fracamente.
- Onde vocês estiveram nos dois últimos dias? – Axel perguntou e se virou para Dale que acabara de chegar com relatórios.
- As Coles estiveram nas lavagens e a francesa esteve colhendo nas plantações leste, senhor. – o soldado respondeu.
null se mexeu no fundo da sala.
- Se me permite, senhor... – ele interrompeu a discussão pela primeira vez.
null ergueu os olhos para ele. Ela havia percebido desde o começo que ele estava impaciente, virava o olhos para o teto e muitas vezes tentou argumentar antes de Axel começar a gritar.
- Os soldados foram mortos estrategicamente. Quem quer que seja que os matou, teve tempo e conhecimento do local para fazer tal coisa. Primeiramente, nenhuma das duas mulheres estava por perto no tempo aproximado do assassinato. Depois elas não teriam força para fazer algo assim. Devemos lembrar que os soldados estavam viajando e para tê-los encontrado era preciso estar de vigia na estrada, além de ter o conhecimento necessário de que eles eram mensageiros e que além de suas notícias eles traziam também mais de um documento comprobatório em suas bagagens. Foi tudo muito planejado e organizado. Eu sugiro que estamos procurando por alguém do nosso próprio exército.
Após isso, a sala mergulhou num enorme silêncio. null olhou para null com alívio, orgulho e paixão ao vê-lo imponente ao lado do general.
Axel pareceu pensar o mesmo, que finalmente concordou murmurando:
- Você talvez tenha razão... – e então elevou a voz - Brighton queria se comunicar conosco. Precisamos saber o que é. null, preciso saber o que Brighton nos alerta. null, preciso saber quem do nosso esquadrão não queria que essa informação chegasse até nós. Comecem.
E sem olhar novamente para ninguém, deu as costas a todos e deixou a sala. Dale e Trist o seguiram como cachorros obedientes.
null se adiantou e se apressou para desamarrar null e Shaunee.
- Me desculpem por isso, foi necessário às vistas do general. – ele explicou enquanto null se levantava, já que ela e Shaunee estiveram ajoelhadas.
A amiga balbuciou algo para null ali perto, mas null só tinha olhos para null. Ele se aproximou vagarosamente e parou próximo a ela, deixando seus olhares se aprofundarem. null chegou a esticar a mão em direção a null, mas parou no meio do caminho.
Ouviram null e Shaunee deixarem a sala e desviaram os olhares, os seguindo para fora. Mas não chegaram a descer as escadas para a parte inferior do castelo.
null a empurrou silenciosamente para dentro de um armário de vassouras e fechou a porta atrás de si. Tudo havia mudado rapidamente desde que passara a noite com null sob a grama fofa do penhasco. Havia um nova intimidade entre eles, um novo sentimento e sensação tão forte no peito de null que era algo quase sólido e inchava cada vez que null se reaproximava.
Dentro do armário null não precisou de luz para ver o quanto null estava próximo a ela. Ela sentiu suas respirações se misturarem e logo depois seus corpos se encontraram em um abraço. Os sentidos da mulher se aguçaram ao toque de null e sua pele contra a dela causou arrepios mais fortes, desejar mais contato.
- Pare de estar nos lugares errados na hora errada. – o rapaz murmurou com a boca entre seus cabelos – Foi exatamente assim que foi pega prisioneira.
null sorriu com o rosto apertado contra o pescoço dele.
- Não faça piadas. O que isso tudo significa?
null demorou um pouco para responder e afrouxou seu abraço.
- Brighton é um dos nossos maiores portos comerciais; estava em alerta esperava ataques. Aqueles mensageiros não vieram à toa. E não morreram a toa.
Um silêncio modorrento surgiu entre eles.
- Vocês deveriam mandar batedores imediatamente até lá para descobrir o que está acontecendo. – null o aconselhou.
- Sim. Mas uma viagem até lá leva dias. Se a cidade foi mesmo atacada corre mais risco dos batedores serem interceptados e até percebermos que algo aconteceu, Brighton já estará sobre controle total dos franceses. – null explicou em meio a pensamentos.
null permaneceu em silencio enquanto pensava numa solução e se surpreendeu ao sentir os lábios de null sobre os seus. Foi um beijo voraz, que null correspondeu avidamente, uma vez que o tempo que passaram distantes fora o suficiente para a mulher suspirar de saudades àquelas sensações que apenas null a fazia sentir.
Afundou os dedos em seus cabelos e as enormes mãos de null passearam por sua cintura e costas, a apertando contra ele. Seus gostos se misturaram e null a pegou no colo, apoiando suas costas na parede enquanto a mulher encaixava suas pernas ao redor da cintura dele. Uma mão de null viajou por baixo da saia de seu vestido, subiu pela parte interior de sua coxa... null suspirou audivelmente, mas null a calou, pressionando sua língua contra a dela e deixando seus quadris se encontrarem por breves momentos.
Um barulho de passos no corredor às suas costas os trouxe de volta à realidade.
null reprimiu um riso e ajudou null a fica em pé novamente, afundando suas mãos no cabelo da mulher e respirando fundo com o nariz em seu pescoço.
- Você é uma ótima distração nesses momentos de animosidade bélica. – ele sussurrou.
null riu baixinho.
- Pare. É uma guerra séria, ao contrario eu não estaria aqui.
null se afastou para encará-la, mas era impossível naquele breu.
- Eu diria que você foi a melhor parte desta guerra, mas não serei tão egoísta. Sei que você sofre, mais do que consigo imaginar ou entender. – null abaixou o rosto, não por vergonha, já que eles não se enxergavam; mas este era um assunto que ela não gostaria de expor em voz alta, ainda mais nesses momentos em que null a fazia esquecer de toda a realidade. – Eu não esqueci... – ele abaixou mais a voz – Tenho medo de saber a verdade, mas... O Rei a tratou bem noite passada?
null tentou se afastar. O assunto a perturbou.
- Não quero pensar nisso quando estou com você. – ela murmurou dando um passo para o lado.
- Ele foi gentil com você? – null a ignorou.
- Isso não importa. Jamais importará. E nem eu ou você podemos fazer nada.
null respirou fundo e passou seus braços novamente ao seu redor, a apertando num abraço quente.
- Isso vai acabar um dia. Prometo. – ele murmurou ardentemente.
Embora seus olhos estivessem marejados e ela tivesse certeza que null não podia vê-los ele beijou cada uma de suas pálpebras antes de procurar novamente sua boca.
#14
- Uma viagem sem parar daqui a Brighton dura um dia e meio – null disse a null enquanto se sentavam nas mesas da taverna – Se aqueles mensageiros já estavam mortos há mais de um dia isso significa que eles foram enviados há no mínimo três dias. E isso nos leva ao fato de que até enviarmos o nosso mensageiro a Brighton, e até ele voltar com as notícias, teríamos aí quase quatro dias.
- E se eles estão sobre ataque, não tem muita coisa que podemos fazer até recebermos nosso mensageiro de volta e termos certeza do que está acontecendo. – null completou.
- Mas eu sugiro que já estejamos preparados para enviar as tropas. Nosso único e grande problema é o nosso comandante alienado, sempre pensando numa mulher de longos cabelos null. – null disse sem mudar o tom de voz, como se o novo tópico fosse tão digno de atenção quanto os outros assuntos.
null fechou a cara para o amigo, batendo a caneca de cerveja com força sobre a mesa.
- Não estou alienado.
null levantou as sobrancelhas com descaso.
- Então por acaso ainda está ciente de seus outros compromissos como homem?
null pareceu ainda mais aborrecido.
- Não preciso que você me lembre disso. – ele se recostou na cadeira fitando a caneca que segurava na mão.
- Se eu não lhe lembrasse, Axel o faria. O que acharia melhor? – null o provocou. Visto que null permaneceu calado, ele continuou. – Seu prazo para dar uma resposta à filha de Axel pela uh... terceira vez? Está acabando. Afinal, por que é que Axel insiste tanto em fazer de você o genro dele?
null suspirou tomando um longo gole da cerveja.
- Porque a junção da minha família com a dele o deixaria mais forte frente a todos na comunidade. Respeitado e temido. As duas maiores famílias representantes bélicas da província, juntas... – ele suspirou com tédio.
- E então no final do mês você dirá para a filha dele que está apaixonado por uma francesinha muito mais corajosa e valente que ela, e que para perpetuar a raça dos valentes null é preciso alguém como a francesa; já que a família de Axel não parece tão arrojada quanto ele. Você não vai ter filhos com o Axel, e sim com a filha molenga dele. Sempre acho que ela aparenta estar sonolenta...
null riu do amigo, enquanto dava mais um gole na caneca.
- Você sabe que é louco, não é? – null perguntou com o contínuo descaso.
- Não vou me casar com alguém que não quero. Não tenho nenhuma família para honrar, e meus pais sequer estão vivos para assistir meu casamento.
- Não estou falando disso. – null ergueu os olhos para o amigo e esperou. – Estou falando da francesa.
- Acha que eu deveria realmente dizer a Axel que gosto de null? – null levantou as sobrancelhas surpreso.
null pareceu chocado.
- Você enlouqueceu? Não posso acreditar que você... você sequer cogitou esta idéia! Não sei o que está acontecendo com você...
null sorriu, enquanto o amigo continuava a esbravejar, mas então voltou a fechar a cara logo que ouviu o que veio a seguir:
- Eles nem sequer podem descobrir o que você e ela têm juntos! Será considerado traição, e você, melhor do que ninguém, sabe disso! Ela é uma criada que nasceu na nação inimiga, a qual você está combatendo! Além do mais, o Rei já deixou claro que ela servirá a ele nas horas de descontração.
null bufou e apertou a caneca. Logo depois entortou a boca ao olhar para null.
- Você sabia que na França ela era tão importante quando a filha de Axel é para nós? E que ela, como qualquer mulher de honra, estava esperando para um dia se casar? Que ela era pura quanto qualquer outra mulher inglesa da classe alta? O que os faz pensar que ela pode ser diferente apenas porque foi-
- Hei! – null o interrompeu – Eu não disse nada quanto a isso! Só estou te lembrando que se descobrirem, vocês terão problemas. Não acredito que nem tentei te dissuadir dessa idéia...
null rangeu os dentes, enquanto fechava a mão em punho sobre a mesa.
- Posso te lembrar de outra coisa? – null perguntou com cautela.
null permaneceu em silêncio, e o amigo tomou isso como o consentimento.
- Eles ainda desconfiam que ela tenha algo a ver com o assassinato dos mensageiros.
Ninguém disse nada e null enfim suspirou.
- Por isso que eu digo que a hierarquia do exército devia ser hereditária. Você substituiria seu pai mil vezes melhor que Axel...
null não respondeu. Ele não queria ser general. Nem quando seu pai morreu, ou agora, e não tão cedo.
null sorria a cada passo. null segurava sua mão enquanto a guiava pela escuridão da floresta, e a mulher conseguia ver apenas o vulto de suas costas largas andando a sua frente. null havia sido mais esperto e astuto do que ela jamais imaginara, conseguindo tirá-la de seu dormitório de dentro do castelo sem que ninguém percebesse.
Agora null pensava que estava reconhecendo a trilha. A terra inclinada lhe dava a impressão de estar subindo um monte arborizado, e da onde ela não podia ver o cume. Então quando as árvores pararam abruptamente, ela se viu no mesmo penhasco em que estivera com null dias atrás. Pisando na mesma grama fofa em que estivera deitada com null, se tornando mulher pela primeira vez.
Olhando para o céu null teve a impressão de estar estranhamente perto da Lua. A luz prateada iluminava a estranha clareira na ponta do penhasco, e lhe deu uma incômoda sensação de paz.
null ali perto suspirou e se sentou. Puxou a mão de null sem olhá-la e fitou o horizonte. A mulher se sentou ao seu lado e o observou. Achava incrível como null simplesmente se importava tanto com ela.
- Você esteve distante durante a caminhada. – null comentou, cruzando as pernas em forma borboleta e deixando parte de seu corpo se encostar a null. – Está preocupado?
Ele assentiu.
- Com muitas coisas.
null abaixou os olhos para seus dedos que roçavam na grama.
- Quer conversar?
Ele demorou alguns segundos para responder.
- Estamos em guerra iminente. Você deve ter percebido.
- Alguma notícia de Brighton?
- Ela está sendo atacada, com certeza. Mas Axel se recusa a mandar tropas para lá, ignorando o fato de que Brighton nos ajudou quando precisávamos deles. - null suspirou novamente e passou a mão nos cabelos. – E Axel consegue ser o cara mais persuasivo que já conheci.
O silêncio após essa fala deu a null a impressão de que havia coisas não ditas.
- Eu soube que você era prometido à filha de Axel. – ela disse cautelosamente.
null mordeu o lábio pelo lado interno.
- Eu ainda sou. – ele falou sem fitar null.
A mulher ergueu as sobrancelhas tentando disfarçar os sentimentos e desviou os olhos novamente para a grama embaixo de si.
- Então você... vai se casar com ela. – sua voz saiu mais fraca do que pretendia, mas forçou-se a procurar pelo olhar de null.
- Não. – ele respondeu virando o pescoço e deixando seus olhos se encontrarem – E já disse isso a Axel, mas ele sempre arranja desculpas e me coloca em situações piores, me faz inúmeras propostas e sou forçado a receber sua filha, deixando parecer, de alguma forma, que ainda vamos nos casar.
null abriu a boca surpresa e então engoliu em seco, confusa.
- E por que não se casa com ela? – ela sussurrou curiosa.
null esboçou um sorriso brincalhão.
- Porque não gosto dela. Porque não quero fazer parte da família de Axel. Porque o que eles desejam não é o que eu desejo.
- O que você deseja? – ela perguntou sem se refrear.
null pareceu um tanto relutante a responder, e então abaixou a cabeça, envergonhado.
- Cresci vendo o casamento de meus pais. Perdidamente apaixonados um no outro. Dividindo uma vida e sonhos e fui ensinado a procurar por isso. – nesse momento ele deixou que seus olhos null encontrassem os de null. – Não viverei a vida e sonhos de Axel, enquanto puder escolher o que quero para mim.
null se sentiu indefesa ao escutar tais coisas. Novamente a força da personalidade de null a atingiu intensamente, lhe fazendo crescer um sorriso no rosto que expressava sua admiração pelo homem sentado ao seu lado. null novamente pareceu envergonhado e abaixou os olhos enquanto sorria serenamente.
- Onde está seu pai? – null perguntou baixinho.
- Ele era comandante antes de Axel. Morreu quando estava guerreando contra os irlandeses. Eu tinha 19 anos e havia perdido minha mãe há dois.
- Mas eles conseguiram fazer um trabalho maravilhoso com o filho deles. – Ao ouvir, null se virou sorrindo humildemente para null, deixando seus olhos brilharem.
- Não tanto quanto os seus fizeram com você.
null negou antes de começar a falar:
- Perdi minha mãe quando era muito nova, então meu pai me criou como se eu e meu irmão fossemos iguais. – a mulher mordeu os lábios com as lembranças e curvou as sobrancelhas – Ele deixava para que eu e Frank julgássemos nossos pretendentes, e nunca me forçou a me casar. Quando disse a ele que queria guerrear ao lado dele e de Frank, ele ficou preocupado. – ela riu fraquinho – Então me forçou a fazer coisas de mulher, como bordar e costurar. Logo então Frank se apaixonou, e eu me senti sozinha pela primeira vez na vida... Eu sempre fui a sombra de meu irmão. – ela fechou os olhos bloqueando os sentimentos que a torrente de lembranças trazia. – Foi quando decidi que também queria me casar. Mas não houve tempo, porque então papai e Frank ficaram muito ocupados e envolvidos no reino, e logo depois saíram de casa para enfrentar a própria França, e nunca mais os vi.
- O que aconteceu com Frank? – null perguntou sério.
null deu de ombros.
- Não sei.
- Não chegou a descobrir? – ele pareceu surpreso.
- Não. A família null era um assunto vedado para os soldados. Tentei perguntar a vários quando me infiltrei, mas nenhum deles quis contar nada abertamente, era quase como se tivessem medo. Mas... – null olhou para o chão preocupada – todos pareciam saber de algo. E havia uma expressão muito usada por todos, que não sugeria nada otimista.
Ela se calou, mas assim que seus olhos encontraram os de null novamente ela percebeu que ele ainda esperava a última parte não narrada.
- “Não quero ser tratado como um null”. – null citou com os olhos presos ao horizonte.
null suspirou e então null sentiu sua mão na dela novamente. A palma de null envolveu a sua, e ele deslizou os dedos até seu pulso, indo e voltando, até finalmente entrelaçar seus dedos aos dela.
- Então no final disso tudo – null recomeçou, sussurrando – Você foi o primeiro homem com quem me envolvi.
null não a olhou imediatamente. Fitou o horizonte por mais alguns instantes e então se virou lentamente para a mulher ao seu lado.
- Eu jamais acharia nenhum homem mais digno de tal coisa a não ser eu. – ele deu um sorriso brincalhão enquanto esticava sua outra mão e a pousava no pescoço de null.
Os olhos da mulher marejaram naquele mesmo instante, enquanto ela procurava por sua voz.
- Acha mesmo? Eu? Enquanto você pode ter facilmente mulheres melhores?
- Melhores em que sentido? – null perguntou intrigado.
- Acha que nunca desejei que você me visse como uma dama? Bem nutrida, bem vestida, com uma boa família, prometendo a você um futuro comigo? Como pode querer ser digno de mim quando não tenho nada a te oferecer?
null virou o corpo totalmente de frente para null, deixando suas pernas dobradas ao redor dela antes de começar a falar:
- Você me faz te desejar de uma forma como nunca desejei ninguém. Você me atrai, e me faz querer estar perto de você, conhecer você e te proteger. Você me faz me sentir... vivo. – ele riu baixo – Você me mostrou ser capaz de um amor enorme pela própria família para ter chegado aonde chegou, e sua coragem me inspira de uma forma que você não faz idéia. – null procurou por seu olhar - Não se peça para ser uma dama, com vestidos lindos e bens materiais para mim, quando você já consegue me fazer ser e sentir milhões de coisas que outras mulheres não conseguem.
Seus olhos transbordaram novamente antes que ela pudesse evitar. Nas palavras de null tudo aquilo parecia muito bonito, mas era completamente utópico.
- Mas não será assim sempre, você sabe disso. Não me desejará para sempre. Você vai se casar, porque tem uma vida para formar e um futuro brilhante que te espera. – null recomeçou a falar, mas null não o deixou continuar – Eu não serei a mulher que te terá como marido. E mesmo que isso não seja o seu desejo, é o meu. – ela mordeu o lábio inferior com força. – Cuidar de você, e te conhecer como mais ninguém; saber de seus segredos e seus medos. Mas nunca vou representar nada a você, a não ser um relacionamento secreto e perigoso que pode nos matar se for descoberto.
Assim que ela terminou, eles permaneceram se olhando sem nada dizer, até null fechar os olhos deixando lágrimas, que haviam se acumulado em suas pálpebras, escorrerem pela face.
- Porque você não sabe o que representa para mim. – a voz da mulher tremia enquanto ela apertava os olhos - O quanto estive consumida pelo medo desde que cheguei aqui; como cada pessoa, lugar e a cada respiração faz eu me sentir sufocada, por não saber o que acontecerá comigo. E você foi o único – ela abriu os olhos procurando pelos dele - o único que demonstrou compaixão comigo. E foi um idiota me dando conselhos, me levando para passear e me beijando enquanto eu estava tão suscetível. – null tentou lhe dar um tapa no ombro, mas por não conseguir colocar força na mão só fez null rir – Eu sinto algo tão forte por você, que não consigo explicar nem a mim mesma. – ela colocou as mãos em suas têmporas, confusa – E eu não posso ter esperanças, null. Nem com você... Jamais poderei ter esperanças.
E quando seus olhos se fecharam novamente, null a puxou contra seu peito, a abraçando com força. null agarrou sua camiseta na força do abraço, e enterrou o rosto no na base do pescoço do rapaz, aproveitando o contato das peles, o cheiro que emanava do pescoço de null.
- Eu não poderei simplesmente me afastar de você. E não vou. – o peito de null vibrou sobre o rosto de null enquanto ele falava – Você me superestima. Não sou tudo que você me considera, acredite. Mas fui ensinado a lutar pelo que eu quero. E vou lutar por você.
null ofegou ao ouvir aquilo. Levantou o rosto procurando pelo olhar de null e se surpreendeu com a sinceridade e calmaria estampada nele.
- Quando esta guerra acabar, e expulsarmos todos os franceses de nosso território, você não será mais necessária como informante. Será apenas uma serviçal do Império. Então nós vamos nos mudar, para alguma vila no interior, onde não nos conheçam e onde não irão nos julgar. – null segurou com as duas mãos o rosto de null. – E então nos casaremos.
- Você não acredita realmente nisso...
- Por que não? – ele perguntou petulante.
- Jamais aceitariam uma coisa dessas, o Império nunca me deixará em paz...
- Ninguém vai tirar você de mim. – null curvou as sobrancelhas.
E antes que null pudesse questioná-lo, selou seus lábios aos dela. Entrelaçou seus dedos aos longos cabelos dela e quando suas línguas se encontraram null se agarrou à camisa fina de null; e num beijo mais ardente do que estavam costumados, eles se deitaram sobre a grama. O peso de null a sufocou, mas não a importou. null apertou seus corpos, e suas pernas se encaixaram. Os dedos de null percorreram seus cabelos, lhe causaram arrepios; e a mulher sussurrou um gemido fraco quando null puxou seu lábio inferior com os dentes e deslizou sua língua por sua extensão. null passou um braço pela cintura de null e deixou sua mão se introduzir por dentro da camisa dele, deslizando seus dedos na altura de sua bacia, subindo por suas costas, entre seus ombros, sentindo seus músculos rijos.
null desceu suas mãos pela lateral do corpo da mulher e pousou uma mão sobre seu quadril. Sua outra mão deslizou até sua coxa e até a barra de seu vestido. null dobrou sua perna e a encaixou na cintura de null, lhe dando livre acesso para deslizar sua mão para baixo de sua saia e sentir todas as curvas de sua perna, sua coxa, sua cintura... null afundou suas unhas nas costas de null e sentiu o conhecido ardor de desejo se acentuar embaixo de seu quadril. A mão livre de null subiu até a base de seu seio e ele mordeu o queixo de null antes de voltar a beijá-la e deslizar um dedo para pressionar levemente seu mamilo.
null ofegou e contorceu seu corpo sob o de null, usou seus braços para levantar sua camiseta de algodão e o rapaz se afastou apenas o necessário para que a peça de roupa fosse retirada. null se perdeu novamente no físico de null e respirou fundo diversas vezes, enquanto decorava com as mãos as curvas do peito dele. null, por outro lado, puxou null pela mão, a fazendo se sentar para lhe dar livre acesso aos cordões em suas costas que prendiam seu vestido.
Nesse momento, null a olhou. Suas mãos se ocupavam em desatar seu vestido, mas manteve contato visual com null, que possuía os lábios vermelhos, ofegava levemente, e lhe dava um olhar tão tenro que incendiava lentamente algo dentro de si. Então quando todos os laços estavam soltos e a mão de null encontrou a pele macia das costas de null, ela aproximou seus rostos, seguindo o lábio inferior de null com a ponta da língua. Ele lhe sorriu, e a puxou pela nuca para outro beijo.
Se deitaram sobre a grama mais uma vez e null se afastou para puxar o vestido de null por seus ombros enquanto deslizava a mão por sua pele e levava a roupa junto. null o deixou comandar seu corpo, apenas deitada o observando a despir. null mantinha um sorriso no canto da boca, e assim que conseguiu retirar completamente o vestido da mulher, se deitou novamente sobre seu corpo, enquanto os braços dela o rodeavam. Se olharam por vários segundos antes de null fitar sua boca e recomeçarem a se beijar.
Ambas as mãos de null desceram sobre as costas de null até seus glúteos e onde ela colocou as mãos para dentro da calça de couro do rapaz. Afundou suas unhas na pele de null e rodeou as mãos até a frente do quadril de null, onde os dois juntos se esforçaram para abrir os botões que mantinham a calça presa. null, sozinho, terminou de retirá-la, e também tirou sua peça de roupa intima, ficando completamente nu sobre null.
null guardou um momento para observar a nudez completa de null, e sorriu quando seus olhos encontraram seu membro. null, nesse momento, levantou seu rosto com a mão em seu queixo e null se surpreendeu ao ver que ele estava corado.
- Qual o problema? – ela sussurrou enquanto a mão dele mantinha seu rosto erguido, olhando em seus olhos – Você é lindo!
null negou silenciosamente com a cabeça, e antes que null pudesse contradizê-lo, ele colou suas bocas outra vez. Desceu a alça da ultima peça de roupa que null usava, e sem descolar seus lábios, a desnudou completamente.
Completamente ciente do que deveria esperar desta vez, null acolheu null carinhosamente em seus braços, o observando ofegar e como seus cabelos caíam sobre a testa. Havia tantas coisas que ainda queria dizer a null... Tantas coisas que precisava que ele soubesse e que ele entendesse; mas nada importava agora. Nada importava enquanto null estivesse sobre ela, nela.
E null tinha razão, nada a tiraria a dele.
#15
Prendeu o ultimo das dezenas de lençóis limpos que havia estendido sob o calor da manhã e olhou ao redor. Poucas pessoas estavam nas redondezas. O dia santo na província havia liberado grande maioria dos criados do serviço. Ela era uma exceção. Ela trabalharia em dias santos. Ela trabalharia mesmo se estivesse sem forças; enquanto eles mandassem, ela deveria obedecer. Quantas voltas o mundo deu para que ela chegasse ali? O quão irônico e injusto era o fato de que uma parcela de sua felicidade deveria estar no mesmo lugar em que estava a grande parcela de sua ruína?
A testa de null se encheu de rugas quando ela levantou os olhos para o céu que havia começado a se encher rapidamente de nuvens carregadas e escuras. Surpresa e contrariada a mulher bufou. Ainda estava longe do meio-dia, e a manhã estivera linda antes daquelas malditas nuvens aparecerem. Ela odiava chuva. Sentia-se limitada, e detestava olhar para o céu e não ver o Sol quando ele deveria estar ali.
Encarou seus lençóis recém estendidos e olhou ao redor para se certificar que poderia escapulir antes de...
- Você só entra quando todos os lençóis estiverem a salvo da chuva. – Mormont, um guarda desdentado de quem ela não gostava muito, ordenou ali perto.
Com um suspiro de derrota, a mulher começou a refazer seu caminho por entre os varais.
A chuva despencou em menos de cinco minutos e null correu a fim de salvar os lençóis já recolhidos. Os deixou sobre um pequeno muro na lavanderia do castelo e voltou correndo ao campo aberto. Ensopou-se em questão de segundos e se sentiu enregelada até os ossos, batendo o queixo enquanto tentava segurar lençóis o máximo que seus braços permitiam.
Quando voltou ao abrigo da lavanderia, seu corpo inteiro tremia e ela dava suspiros entrecortados. Mais uma investida embaixo da chuva para recuperar o restante das roupas, e quando voltou à lavanderia quase foi ao chão ao escorregar sobre a água que pingava dela mesma.
- null! – ela reconheceu a voz de null.
Virou-se assustada e o viu confuso a observando. Com o pensamento rápido, null pegou uma grossa colcha de lã que estava ao seu alcance no meio das roupas estocadas e se aproximou, envolvendo-a na roupa quente.
- Porque estava lá fora? – ele perguntou com urgência enquanto esfregava os braços ao redor do corpo da mulher, a fim de esquentá-la. – Você está congelando! Você precisa de um banho quente...
Levou alguns segundos até que null conseguisse falar.
- Tive que retirar os lençóis às pressas por causa da chuva. Estavam todos limpos, já secando há alguns minutos. – ela lamentou e logo depois se assustou. – null, essa lã é dos aposentos do castelo! Não posso me enrolar...
- Shh, vamos sair daqui. Vou cuidar de você. – null murmurou.
null pediu perdão por trazer null de volta à chuva, mas em menos de cinco minutos sobre seu cavalo e embaixo do aguaceiro, o casal chegou à casa de null. null nunca havia ido lá, e embora já tivesse caminhado ali por perto em seus trabalhos, nunca havia tido consciência que era a casa de null.
Era mais afastada da província, e muito rodeada por árvores frutíferas, o que dava à casa um aroma muito agradável.
- Vou arranjar roupas quentes para você. – null avisou deixando null em frente a lareira e sumindo entre os quartos.
Assim que voltou, ele segurava roupas masculinas e se embaraçou.
- É única coisa que tenho aqui... Mas você já se passou por soldado, então não vai se importar... certo? – ele perguntou fazendo a mulher sorrir.
- Claro que não. – null se levantou e ele se adiantou para ajudá-la.
Desabotoou seu vestido nas costas, e a mulher escorregou a roupa sobre seus ombros, logo depois a retirando completamente. null deslizou suas mãos das costas frias de null até suas coxas, e subiu lentamente sua mãos, levando sua veste íntima junto, até chegar na área próxima aos seus seios, e a mulher ergueu os braços, deixando null retirar sua ultima peça de roupa.
Estava completamente nua na frente dele, corou levemente e null lhe deu um sorriso carinhoso, depositando um beijo em seu pescoço logo depois. Ajudou-a então a colocar uma camiseta fina de algodão, e uma calça de couro - a que null fez questão de abotoar enquanto afundava o rosto nos cabelos de null.
A força da tempestade aumentou e o vento assobiou por entre as frestas de janelas e portas. null se sentou em frente à lareira enquanto null buscou um cacho de uvas. Ao voltar, null parou para observar null esticar as mãos para esquentarem à lareira, e percebeu que sua camiseta larga demarcar as formas dos seus seios, com mamilos enrijecidos devido ao frio recente. null apertou os lábios e sentou-se perto de null. Muito perto, de modo que ele poderia colocar as pernas ao redor de seu corpo. Colocou o cacho de uvas no colo dela e arrancou uma fruta, colocando-a na boca enquanto null o seguia com os olhos.
- Essa era a casa de seus pais? – a mulher perguntou também esticando uma mão para a fruta.
- Sim, cresci aqui. – null respondeu atiçando a lareira e permanecendo um tempo em silêncio antes de continuar - Às vezes tenho a impressão de ainda ver o vulto da minha mãe na cozinha, ou de ouvi-la cantar no pomar... – ele acrescentou mais baixo.
null percebeu que aquilo eram sentimentos omitidos há muitos anos e ele não parecia acostumado a compartilhar tais pensamentos.
Ela suspirou, assentindo com um sorriso triste.
- Meu pai tinha um assovio característico para chamar eu e o Frank. Todas as noites antes de dormir, tenho a impressão de ouvir o eco de seu assovio soar pelo campo.
null fitou-a, interessado:
- Como era esse assovio?
null o imitou e correspondeu o sorriso que null lhe deu.
- Tudo bem se eu usar esse assovio para te chamar de agora em diante?
A mulher hesitou surpresa.
- Claro que sim. Posso passear pelo pomar e cantar pra você quando a chuva parar?
null sorriu verdadeiramente.
- Pode. Sempre que vier aqui, pode fazer isso.
- Acha que vou vir aqui outras vezes?
- Sempre que puder vir aqui sem ninguém te ver, claro. – ele deu de ombros – Mas sim, gostaria de ter aqui outras vezes.
Ela sentiu seu rosto esquentar e sorriu.
- Hoje demos a volta pelos fundos do castelo, e imagino que as janelas já estavam embaçadas o bastante para ninguém reparar em quem estava sobre o cavalo. – ele explicou, lendo a pergunta nos olhos da mulher.
null pegou uma uva e colocou, ele mesmo, na boca de null, que lambeu o dedo do rapaz propositalmente. Eles trocaram um olhar intenso e fugaz, antes dela recomeçar:
- Não acha que irão sentir falta de mim?
- Verão que você recolheu os lençóis, de acordo com seu dever, e imaginarão que fugiu da chuva para se esquentar. Vamos voltar antes que se dêem conta que você sumiu.
Isso significava que não ficariam muito tempo juntos ali, e aquilo a entristeceu por alguns minutos. null, porém, se aproximou mais, a puxando para perto, entre suas pernas, e entrelaçou os dedos em seus cabelos úmidos.
- Não pense em nada por enquanto, não enquanto conseguimos ficar isolados de todo o mundo. - o rapaz murmurou massageando seus cabelos - Eu sempre quis te trazer aqui, sabia? - ele lhe deu um beijo no canto da boca.
null riu fraquinho de olhos fechados aproveitando o carinho.
- Mesmo? Por quê?
null demorou um pouco a responder. Levou outra uva à boca de null, esperou que ela mordesse uma metade e enfiou na própria boca a metade que sobrou.
- Bom, - ele umedeceu os lábios com a ponta da língua e colou seus lábios ao da mulher por alguns segundos - Eu queria te mostrar o lugar onde eu cresci, e o lugar onde eu também passo o maior tempo pensando em você...
- ... geralmente quando vai dormir? - ela completou com uma pergunta, em meio sorrisos.
null riu.
- Sim... geralmente quando vou dormir.
- É o que acontece comigo. - ela suspirou encostando suas testas - Mas também penso em você quando escapo para tomar banho no lago. - eles riram juntos.
- E quando acordo... - null contou.
- E quando a noite está estrelada o bastante para enxergarmos Ursa Major.
null riu alto e colou seus lábios novamente, permitindo que suas línguas se encontrassem numa harmonia já conhecida, sabendo exatamente quais movimentos executarem, encaixando perfeitamente corpo e lábios ao outro.
null afastou minimamente suas bocas, levantando e puxando null junto a si.
- Eu realmente não gosto de te ver em roupas de homem. Eu poderia te mostrar meu quarto?
Quando null gargalhou null memorizou aquele som com carinho especial.
E na verdade não houve tempo de conhecer o quarto dele. Estavam de olhos fechados quando entraram no aposento, se concentrando no beijo um do outro, nas mãos de null que já haviam adentrado a blusa fina de algodão que null usava, e acariciava de forma tenra suas costas lisas.
Deitaram na cama se beijando e null abriu as pernas, encaixando null entre elas, deixando seus dedos viajaram por entre os cabelos do rapaz, dedilharem sua curva do pescoço, seus ombros retesados, seus braços fortes... null acariciou a barriga de null e subiu a mão lentamente pela lateral de seu corpo, encaixando a mão na base de seu seio. Os lábios da mulher se moveram instintivamente para o pescoço dele, o beijou ardentemente, mordeu seu queixo, e suspirou alto perto de sua orelha quando a mão quente de null se fechou completamente sobre seu seio, o apertando.
Não eram sensações inéditas a null, mas ela percebia que a cada vez podia senti-las mais intensas, mais sinceras, e já não havia mais o nervosismo e a hesitação; não havia mais nada que a impedisse de sentir null exatamente como ela deveria.
Ela puxou a blusa do rapaz para cima, expondo completamente o físico musculoso e absurdamente lindo que null tinha aos seus olhos. Ele não percebeu a expressão no rosto de null, e apenas se afastou o suficiente para também retirar a blusa fina que ela vestia. Seus abdomens nus se chocaram, seus corpos se moveram juntos e null friccionou seu quadril ao dela. null se encarregou de desabotoar ambas as calças, e com a ajuda de null logo ambas haviam se perdido no chão do quarto. null sentiu nova e nitidamente a pressão rígida do quadril de null contra o dela. Mas não houve surpresa naquilo. Esboçou um sorriso em meio aos beijos ao perceber que estava certo. Tudo aquilo que estavam fazendo, o que ela sentia, e o que ela queria - tudo estava completa e inquestionavelmente certo.
Ainda chovia, mas não havia barulho de trovões, não havia força das águas, e o vento frio havia amainado.
- Adoro suas pintinhas nas costas. – null murmurou passando a mão nas costas nuas de null que estavam viradas para ele. Ela sorriu sem ele ver. – Adoro a curva de seu quadril, a curva de suas coxas... – ele passava a mão por onde ia falando, e por fim escorregou a mão até sua bunda e a apertou gentilmente.
null riu audivelmente, null se ergueu nos cotovelos e encaixou seu corpo completamente ao dela. Deu-lhe um beijo no ombro e um no pescoço. Passou o braço pela cintura dela e brincou com as pontas dos dedos sobre sua barriga.
null dobrou o braço e acariciou os cabelos de null. Sabia que aquilo era despedida, e seu tempo ali havia acabado. Ela precisaria voltar para o castelo.
Após um pequeno tempo de carícias null se levantou e murmurou:
- Vou tomar um banho rápido, então teremos de ir embora.
null assentiu e assim que null sumiu no corredor ela se levantou e foi até a sala pegar seu vestido ainda molhado e vesti-lo. Caminhou pela casa então até achar a porta que dava para o pomar.
Caminhou até lá, não ligando para os muitos, porem finos, pingos de chuva que ainda caiam do céu. Caminhou entre as arvores cantarolando baixinho, e então suspirou para criar coragem. Começou então a cantar num tom de voz normal, para se assegurar que null ouviria. Cantou a única musica inglesa que conhecia – a musica que havia ouvido tanto tempo atrás quando a província estava em festa pela farta colheita. Ela estava voltando para um campo florido onde seu amor a esperava, e onde havia amoras no caminho... Se sentiu estranhamente livre.
Passou então a registrar as árvores que havia. Macieiras, pessegueiros, ameixeiras, e dois pés de romãs. Pegou duas ameixas, suas favoritas, e voltou para dentro de casa enquanto já mordia em uma das frutas, úmida pela chuva. Então estacou chocada.
Ouviu o barulho da porta da frente da casa se abrir e fechar. Alguém havia entrado na casa de null.
Ouviu os passos das botas, o tilintar baixo de uma espada na bainha. null prendeu a respiração e sentiu as pernas tremerem.
Olhou ao redor e sobre a mesa da cozinha estava o cinto de null, com sua própria espada embainhada. A mulher a pegou sem pensar.
- Quem está aí? – null se exaltou dando um passo a frente e segurando a espada de null com as duas mãos.
Os passos pararam, null ouviu o barulho de água e mais passos num quarto vizinho - null havia acabado seu banho.
- Você quase me aleijou uma vez, e eu te perdoei por carinho a null. - null saiu das sombras e usou um tom de voz que null não conhecia. - Mas se me ameaçar mais uma vez, eu juro que esqueço que null é meu amigo, francesa.
Com a respiração presa de perturbação, null abaixou a arma e ofegou.
- Desculpe, null... Não sabia que era você, poderia ser... – ela se justificou, mas null a interrompeu:
- Onde está null? – ele perguntou sem rodeios, e a mulher não pôde culpá-lo. Sabia que todos do exército desconfiavam dela.
Antes, que null pudesse responder, null apareceu no portal atrás dela. Ele estava com a toalha na cintura, o tronco nu, e ofegava como se tivesse vindo às pressas.
- null? – ele perguntou surpreso e aliviado – Achei que fosse... – seus olhos pousaram na mão de null que ainda segurava sua espada.
null curvou as sobrancelhas pelos poucos segundos antes de null largar a arma rapidamente.
- Não sabia que era null. – ela explicou um tanto nervosa e olhou de relance para null, que também ainda mantinha a mão posicionada na bainha de sua espada. Ele bufou impaciente e perguntou um tanto grosso para null enquanto indicava null com a cabeça:
- Há quanto tempo ela está aqui?
A curva entre as sobrancelhas de null se acentuou.
- Algumas horas após o meio dia. O que diabos você está fazendo aqui?
null fez um careta estranha. Olhou de relance para null, e finalmente se virou para null, pronto para responder sua pergunta.
- Acabaram de achar o corpo de Axel esfaqueado. Ele foi assassinado.
#16
- Precisamos achar um álibi para vocês dois. – null disse rouco enquanto ele e null observavam null andar de um lado para o outro, se vestindo. – E rápido.
null se sentou numa poltrona e tampou o rosto com as mãos. null limpou a garganta e disse:
- Eu posso ir com null e colocá-la dentro do castelo, e digo que eu a mandei ficar no quarto se secando até a chuva passar. Estão reunindo todos os criados nesses momentos, precisamos ir... null! Me ouça! – null levantou os olhos desfocados, e com as duas mãos no queixo. – Deixe para refletir sobre o que aconteceu depois. Precisamos agir agora!
null não esboçou reação.
- Certo, vamos para o castelo, null. – null disse enérgica. – Eu posso ir agora se quiser, vou pelos bosques e entro pelas lavanderias que são perto do meu quarto.
null a olhou.
- Certo. Vamos todos juntos e nos separamos no castelo, eu devo chegar com null, já que sai para avisá-lo. Estamos perdendo tempo, vamos.
null então se ergueu e agarrou null pelos ombros.
- Porque matariam Axel? – ele sussurrou – Qual é a lógica? Ele era contra ir a Brighton. Se temos um intruso francês dentro do castelo Axel era sua vantagem.
- Eu sei. – null sussurrou de volta – É o que andei pensando. Mas Axel estava numa reunião com o Rei antes de ser assassinado. Ninguém ainda entendeu o que aconteceu. Mas precisamos voltar para o castelo, null, agora!
Ele agarrou as costas do amigo e o empurrou para fora de casa, enquanto null os seguia. Ela montou no cavalo atrás de null, e juntos adentraram no meio do bosque que ladeava a estrada para o castelo.
- Como você ficou sabendo? – null perguntou a null assim que as arvores os encobriram.
- Eu estava no castelo. Sabíamos que o general e o rei estavam numa reunião particular para tratar dos ataques, e ficamos presos dentro do castelo por causa da chuva. Decidimos que esperaríamos pelo fim da reunião, caso houvesse novas ordens.
- Você está dizendo no plural. – null o interrompeu - Quem mais estava lá?
- Nós, soldados. Deveria haver uns dez de nós. Eu, Earl, Trist, Dale, Warren... – null assentiu e ele continuou – Vimos que você não estava lá, então achamos que não era algo muito urgente, nos sentamos então, e ficamos jogando cartas e xadrez até Axel sair. Todos nós o vimos, e ele avisou que ele e o Rei estavam estudando as investigações do assassinato dos mensageiros de Brighton, e que deveríamos no arrumar para batalha porque iríamos marchar para o litoral.
null suspirou e negou com a cabeça silenciosamente.
- Todos nos dispersamos então, haveria uma reunião com toda a tropa mais tarde... Eu fui embora embaixo do chuvisco... Não sei mais o que aconteceu até Earl chegar a minha casa e me avisar. Eu disse que avisaria você... É tudo que sei até agora. Não tenho a mínima idéia de quem possa ter feito algo assim.
null deu um ultimo suspiro e continuaram em silencio até chegarem na parte de trás do castelo. Estranhamente estava tudo muito quieto, e null e null trocaram um olhar intrigado.
- null, vá para o quarto, quieta, e troque seu vestido por algo seco. – null começou a dizer enquanto levava seu cavalo para perto da porta dos fundos. - Prenda o cabelo, e lembre-se de parecer surpresa.
null desmontou com a ajuda dele, e se virou imediatamente para encará-lo, quase colidindo com os quartos traseiros do cavalo.
- O que vai acontecer, null? – ela perguntou preocupada.
- Não sei. – ele respondeu rápido demais, e null percebeu que ele estava muito mais desorientado do que aparentava.
- Não tenha medo. – ela sussurrou apertando o joelho de null, que estava mais próximo do alcance de sua mão.
Ele assentiu, distraído, e guiou o cavalo para onde null se encontrava, a caminho da estrada para o castelo real.
null virou as costas e correu para dentro do castelo.
null estava calado. Permaneceu calado durante toda a confusão, não respondeu perguntas e rumou diretamente para a sala onde informaram que o Rei estava. Ele não precisou de autorização – ele era exatamente o homem que o Rei Henrique queria ver.
O homem estava abatido, ligeiramente pálido e chocado. Havia conselheiros na sala, e todos os rostos olhavam preocupados para null.
- null, hoje mais cedo estávamos em uma reunião com Axel por que... recebemos um batedor francês com uma mensagem.
null arregalou os olhos surpreso. Ninguém havia comentado isso com ele, e provavelmente nem os soldados estavam cientes disso.
- O que ele dizia?
O Rei não respondeu, mas deu a null um pergaminho que estava enrolado sobre a mesa. O rapaz o abriu e passou os olhos rapidamente.
O Rei Francês havia escrito um longo texto no pergaminho reivindicando as terras inglesas, aparentemente, porque a França era uma nação mais rica, sábia e potente; tento portanto direito em administrar terras vizinhas para melhor prosperidade de todos os reinos. Ele dava à Inglaterra a opção de se render e se tornar uma colônia francesa, onde ele listava certo número de condolências a que ele cederia ao Rei Henrique; caso contrário eles iriam guerrear pelo território. E, no ultimo parágrafo, ele revogava o direito sobre a mulher de descendência francesa mantida sobre seu território, contra sua vontade e à serviço forçado à Inglaterra.
null encarou, por mais tempo que o aconselhável, tal frase, até que o pergaminho começou a tremer em sua mão, e ele o abaixou, confuso e nervoso.
- O... O que isso significa? Vamos guerrear por nosso território, mas o que eles querem com null? Sob os olhos deles ela cometeu um crime, enganou seus comandantes, lutou em seu exército clandestinamente... – null balbuciou.
- Eles provavelmente querem fazer justiça por suas próprias mãos, e sabem que a... a francesa – o Rei olhou para null, inseguro quanto a usar o nome da mulher – está nos fornecendo informações sobre a organização e estratégia deles. Assim, acredito que eles aproveitaram o fato de estarmos usando um deles como mais uma razão para nos atacar. – ele suspirou pesadamente, e apoiou a testa em uma mão, deixando seu rosto escondido por alguns segundos. – Enfim... – ele olhou para null não preocupado em esconder o quão abalado estava – conversamos entre o conselho e mandamos seu batedor de volta com nossa resposta. Recusamo-nos a nos entregar ou a entregar a francesa, que por direito, é nossa prisioneira e útil para nós. Portanto, null, podemos nos preparar para uma guerra, finalmente. Não haverá mais batalhas espalhadas para expulsar os franceses do nosso território, vamos guerrear declaradamente, enfim.
null absorveu cada pedaço do que o Rei Henrique disse, e suspirou lentamente. Ele sabia que iriam chegar a este ponto. Mas não esperava que fosse estar tão... sozinho.
Axel era seu superior, Axel lhe dava ordens, Axel comandava.
O que aconteceria agora?
- Majestade, se me permite perguntar... Quando o batedor chegou? Porque não fomos informados disso? Digo, isso requeria uma reunião com outros generais, outras províncias... Porque apenas Axel participou?
- Como Rei, se digo que vamos à guerra para defender o território todo o Reino irá me seguir. – a majestade respondeu com um claro ponto final na questão. null nada fez a não ser assentir. Após um momento e um suspiro, o Rei completou - Axel e eu estávamos antes em reunião para concluirmos a investigação do assassinato dos mensageiros de Brighton. Todos eram suspeitos... até hoje a tarde, em que as coisas ficaram piores.
Ele e null trocaram um olhar carregado de tensão. O comandante sabia qual era o assunto que se seguiria.
- Nosso general foi assassinado no meu castelo, embaixo de minha asa. – o Rei disse pausadamente – A pessoa que fez isso não só passou informação, como possivelmente contou que a francesa é nossa informante, e agora também matou um de nós.. Não sei como conseguiremos guerrear com tal traidor entre nós, mas isso deve ser feito, e com toda cautela, null. Entretanto – ele suspirou – não temos tempo para uma investigação minuciosa. Por isso precisamos de uma pessoa íntegra, digna de confiança, e sagaz no comando. Precisaremos nos focar na guerra e manter um olho calculista sobre todos que nos rodeiam. – ele lançou um olhar penetrando a null - Nossa opinião, isto é, minha e dos conselheiros, foi unânime. Nesses tempos perturbados não temos tempo para burocracias; por isso apenas com a minha palavra e as testemunhas aqui presentes, eu lhe transfiro de cargo, null. Você é nomeado General Integral das Tropas Inglesas. Todos os soldados ingleses irão te seguir. Confiamos que conseguirá sucesso em seu cargo.
O rapaz permaneceu chocado por alguns minutos. Encarou todos os conselheiros, um a um, anciões, com olhares vagos, outros concentrados, alguns olhares confiantes... Já ele não confiava nem um pouco em si mesmo.
Em um momento estava em casa com a mulher por quem estava apaixonado, estava a ouvindo cantar... Agora precisava comandar soldados, levá-los à morte, salvar um país, expulsar invasores, achar e punir um traidor – ou quem sabe até mais que um.
Mas não se nega nada a um Rei.
- Sim, alteza. – ele disse vagarosamente, com um olhar vago, e então fez uma pequena reverência – Manterei sua confiança incólume.
O Rei assentiu sério.
- Sei que sim. Neste momento estou mandando mensageiros a todas as províncias do país. Na próxima semana eles devem se reunir a nós, e vamos marchar. Enquanto isso, por hoje, reúna apenas os mais confiáveis, null. Todos os habitantes dessa província têm de ter um álibi aceitável, alguém deve ter uma informação ou ter visto algo.
O rapaz assentiu, e com mais uma reverência pediu licença e foi se retirar. Quando estava à porta, o Rei o chamou novamente.
- E lembre-se, não haverá tolerância com ninguém.
Assim que null fechou a porta atrás de si os pensamentos e planos se juntaram numa formação retilínea, como se estivessem ali o tempo todo esperando para virem à tona.
O único que enxergou no mar de soldados foi null. O chamou com um aceno de cabeça e entrou na sala de reunião com ele.
- Quero um álibi de todos os soldados. Todos. – null ia falando enquanto andava em círculos pela sala – Prepare um escrivão. Vamos refletir sobre o que todos falarem.
- E quanto aos criados? – null perguntou.
- Soldados primeiro. – null respondeu pensativo – Dale me confirmou que todos sabiam que estava havendo uma reunião importante; a ordem era de que nenhum criado se dirigisse à ala até anoitecer. É dia santo, não havia nenhum criado aqui até pouco tempo, todos estavam reclusos, e vocês teriam visto alguém. As únicas pessoas vistas dentro e fora do castelo foram soldados, e é claro, ninguém estranharia a presença de algum deles. É alguém de nós, null. Interrogaremos os criados apenas por precaução.
null suspirou pouco convencido, mas assentiu com lealdade e se virou para sair da sala de null.
- Mais uma coisa, null. Sei que esse é um trabalho chato, mas eu não o confiaria em mais ninguém.
O amigo olhou para null e assentiu novamente antes de sair da sala.
Toda a província explodiu em insegurança, desconfiança e fofocas. Havia frases sobre a guerra, soldados... e sobre como o Rei Henrique jurou o pior castigo já imaginado para o assassino de Axel. null tentou se manter longe disso e permaneceu no quarto desde que fora interrogada por null. Não houve muito que inventar, já que null sabia onde ela havia estado àquele dia, e foi ele quem a ajudou a montar seu suposto álibi. Então ela havia se sentado na frente de null e do escrivão, e repetido que após a chuva ela se retirara para seu quarto, e lá permanecera para se secar – e porque também não possuía liberdade para fazer outra coisa - até chamarem-na para o interrogatório. E não se preocupou caso algum furo aparecesse na historia. Ela sabia que com null e null no comando ela não estaria sob suspeitas, a não ser que viesse uma ordem diretamente acima de null, o que ela duvidava.
Foi então que ouviu a porta de seu quarto ranger ao abrir. Imaginou ser null, com noticias apaziguadoras. Se virou, despreocupada, e sufocou um grito.
Trist estava parado no portal, escorado de forma confortável, braços cruzados, a encarando com uma expressão perigosa.
- Não vou fingir acreditar em uma palavra que você disse ao null. – ele disse sem rodeios.
O estomago de null afundou de medo, e ela sentiu seu coração disparar.
- Onde você estava durante esta tarde, francesa? – a pergunta soou inocente, mas o olhar ameaçador do rapaz chegou a intimidar a garota.
- Já dei meu depoimento, não preciso prestar contas a você. – ela respondeu firmemente.
Trist levantou uma sobrancelha, deixando sua expressão insolente.
- Você acha... – ele perguntou baixinho, dando um passo para dentro do cômodo – que só porque não está mais presa a uma cela você não me deve mais respeito, assim como o deve a todos aqui?
null respirou fundo, pensando rapidamente.
- Estive exatamente onde disse estar.
- Eu posso te relembrar os tempos de solitária, francesa. – ele deu mais um passo em direção a ela – Como nada mais serve tão bem para a punição como o punho de um homem.
null deu dois passos para trás e engoliu em seco.
- Não ousará me bater. Não tem motivos.
Trist permaneceu alguns segundos em silencio avaliando o rosto da mulher a sua frente, e quando falou, sua voz era baixa e contida de arrogância.
- Eu sei que você não estava em seu quarto esta tarde. Aqui foi o primeiro lugar em que vim quando soube do assassinato; e que surpresa foi descobrir que você não estava aqui! – null abriu a boca para respondê-lo, mas o soldado continuou. – Como acha que o Rei vai lidar com a informação de que eu vi que você não estava em seu quarto, que você mentiu em seu depoimento, e que o null simplesmente encobriu isso? - ele falou pausadamente, clarificando que a mulher entendesse cada uma de suas palavras - E eu não acho que só porque o Rei pode te ter em sua cama signifique que você seja digna de qualquer exceção. Portanto saiba que eu não tenho tolerância para mentiras. Se null se recusa a ver o que está diante de seus olhos não significa que eu não estarei aqui, a vendo pelo o que você realmente é.
null fechou as mãos em pulso e levantou o rosto, se recusando a deixar que tais palavras lhe atingissem.
- O que você quer, Tristan?
- Saber o que você estava fazendo fora do castelo quando nosso General foi assassinado. – ele lhe deu um sorriso irônico que fez null ter o pior tipo de arrepio – Você sabe de algo que não está contando, francesa. Vou certificar que seja eu mesmo a te entregar ao Rei quando descobrir o que está fazendo.
- Já percebeu que ninguém dá a mínima para o que você pensa?
- É o que você acha? – ele revidou.
- Posso precisar te respeitar, mas não sigo suas ordens. – null ergueu o queixo – Não estou fazendo nada de errado, vá em frente e perca seu tempo.
Em uma fração de segundos as duas mãos do soldado estavam ao redor da garganta de null, apertando e sufocando-a lentamente. A garota agarrou as enormes mãos numa tentativa fraca de solta-las. Um nó surgiu em sua garganta a impedindo de respirar. Pontos pretos piscaram em sua visão, seu coração acelerou lutando para bombear oxigênio para seu corpo. Os músculos ao redor de seu pescoço doeram com a pressão exercida sobre eles. Todo seu corpo esquentou, e ainda assim não conseguia respirar.
Trist aproximou sua boca de seu ouvido, sussurrando:
- Certifique-se que null esteja por perto da próxima vez que eu lhe encontrar sozinha.
E tudo ficou escuro.
#17
FRANK
O general francês possuía uma barbicha que chegava quase ao seu pomo-de-adão. Apresentava o físico de alguém que havia sido preenchido pelos mais rijos músculos em idades passadas, mas aos longo dos anos tais músculos foram se afrouxando consideravelmente. Seus olhos negros carregavam um rigor contido, e seu andar era calmo e calculado. Gritos e insultos eram ouvidos durante seu progresso pela fria e suja masmorra. Ignora-los já era mais que hábito.
A última cela era uma das dez solitárias que a prisão possuía. A porta de ferro rangeu quando o general a destrancou e a abriu. Esfarrapado e mórbido, o preso ergueu os olhos. Ele estava em pé, com os pulsos acorrentados pendendo dos dois cantos da parede, sujo, e embora magro, ainda possuía músculos rígidos saltando das roupas em farrapos. Um par de olhos, outrora jovem, encarou o general por trás dos cabelos bagunçados.
- null. – o general chamou com um sorriso quase sincero.
A resposta foi um olhar mal humorado desviado.
- Acho que já passou tempo suficiente nesta cela para repensar seus atos... o que acha?
Frank permaneceu em silencio sem se dar o trabalho de fitar o general.
- Estarei te removendo da prisão esta tarde, e temos uma reunião com o Rei Rodrik amanhã cedo – eu, você, o Rei, e todo o conselho de guerra.
O rapaz acorrentado ainda não desviou o rosto, mas suas sobrancelhas se curvaram em surpresa e uma semente de medo brotou ao fundo de seu estomago.
Não respondeu. Já havia aprendido que de nada adiantava suas respostas, suas opiniões, seu antigo cargo, o nome de sua família... Desconfiava até que sua vida já não adiantava até Kauffman aparecer ali.
- Trataremos para que esteja apresentável ao conselho, e voltaremos a nos ver esta tarde para uma conversa particular. – ele lhe deu um sorriso penoso – Só você e eu. – e virou-se para sair.
Vieram buscar Frank algumas horas depois. Ele não se moveu, não olhou o rosto de seus carcereiros, não emitiu grunhido algum; apenas se deixou ser levado.
Foi lhe dado uma ceia, um barril para se lavar e roupas novas e limpas. Fez o que lhe foi mandado e se manteve calado e sentado – com pulsos e tornozelos acorrentados – esperando pelo que viria.
Era quase noite quando o general Kauffman reapareceu. Não possuía mais o ar de superioridade, parecia cansado e desanimado. Sem falar nada, ele caminhou até o banco de ferro em frente Frank e se sentou com um suspiro.
- Frank – ele começou e o rapaz ergueu o rosto, olhando em seus olhos pela primeira vez no dia – vou ser bem direto e honesto com você esta noite. – o mais novo assentiu desinteressado e esperou. – É muito triste termos chegado a essas situações. Seu pai era meu amigo, eu vi você e sua irmã crescerem, eu esperava o dia em que seu pai seria nomeado o meu superior... e no entanto chegamos aqui. – Kauffman suspirou mais uma vez. – O Rei Rodrik reivindica a sua presença nas tropas que marcharão para a Inglaterra nas próximas semanas.
Frank o olhou descrente, com uma raiva surgindo fraca em algum lugar do corpo.
- Não lutarei pelo homem que matou meu pai. - sua voz saiu rouca devido a falta de uso – Não lutarei por um Rei que não sabe o que faz, que não sabe governar seu próprio povo.
- É verdade que o país está passando por uma fase turbulenta... – Kauffman assentiu olhando para o chão - Mas o Rei acredita que uma vez que fizermos a Inglaterra se curvar a nós teremos um maior território para cultivar, permitirá que a França cresça mais e que possamos colocar um fim à tormenta de nosso povo.
Frank bufou.
- Você não acredita realmente que Rodrik promoverá a prosperidade ao ter um território maior nas mãos para gerenciar.
- Tudo o que aconteceu à população francesa não foi culpa do Rei. Tempestades, geadas, o surto da doença nos rebanhos... O Rei está desesperado, Frank!
- Mesmo assim, todo o dinheiro que ele possui e que investe em armamentos e navios para a guerra poderiam ser investidos em novas plantações e colheitas! Em comprar recursos de outros países! Em guardas para conter a onda de furtos dos que passam fome! – Frank falou erguendo as mãos, tentando gesticular e sentindo novamente o peso das correntes. – Nenhum de seus argumentos me convencerá que atacar a Inglaterra é a saída para nossos problemas. – ele disse por fim e se recostando às costas frias do banco.
Kauffman o fitou por um momento em silencio.
- Há muitas coisas em jogo Frank, não peça para o Rei lançar mão delas.
Frank não respondeu, e o general atacou.
- Os ingleses têm a sua irmã.
O rapaz ergueu uma sobrancelha não acreditando no que havia ouvido. Ele soltou uma resposta sarcástica:
- Como é? null? – ele soltou outra risada – Eu não sei onde null está nesse momento, mas vocês com certeza também não, para inventarem tal ment-
Kauffman o interrompeu:
- Achamos que null tinha o intuito de vir até nós e de alguma forma impedir-nos de matar você, assim como matamos seu pai. – ele fez uma pausa para suspirar – Ela usou a armadura de seu pai, se infiltrou nas tropas; foi esperta o bastante para saber aonde ficar para que as pessoas certas não percebessem o tipo de armadura que ela usava. Isso soa como sua irmã, para você?
Frank manteve os olhos grudados aos olhos do general ainda processando o que havia ouvido. Não poderia ser verdade, null não poderia ter feito isso. Ela não pensaria que poderia ter mais autoridade de enfrentar o Rei Rodrik do que seu pai, que era um general de tão alto cargo. Mas se isso era verdade...
E Ângela? E seu filho?
Durante todo esse tempo Frank mantivera a esperança de que, não importava o que estivesse acontecendo com ele, null cumpriria sua promessa. Sumiria do mapa para proteger Ângela e seu sobrinho. E embora ele soubesse a onda de miséria que assolava o país, acreditava que elas sobreviveriam – null caçava, era forte, era esperta. Ângela se adaptava fácil, era resistente... Mas se null a abandonara... o que... O que havia acontecido?
- Frank? Está me ouvindo? – a voz de Kauffman despertou Frank de seus pensamentos. Ele piscou os olhos tentando colocá-los em foco, tentando se acalmar. Se segurou para não se levantar e avançar sobre aquele general, fazê-lo sentir um pouco de seu desespero, sair gritando pelo castelo atrás do Rei para fazê-lo pagar, e em seguida achar Ângela, achar seu filho... – null chegou atrasada à província, e as tropas já estavam marchando. Acho que sua única opção era seguir em frente, e ela foi pega prisioneira numa batalha em Dover. – Kauffman procurou os olhos do rapaz – Ela está viva. É o que importa, e se conseguirmos subjugar a Inglaterra, você poderá conseguir sua irmã de volta.
O coração do rapaz batia rápido. Precisava perguntar. Daria a eles outra vantagem sobre si, mas precisava saber...
- E minha mulher?
Kauffman o fitou por alguns instantes como antes. Frank se preparou para a resposta.
- Ela também está viva. Se me permite dizer, você tem um adorável garotinho que já engatinha. – Frank mordeu o lábio não querendo demonstrar fraqueza, mas sentindo seu coração inchar e desinchar a cada batida. Kauffman leu a próxima pergunta nos olhos do mais novo. – Ela está livre, mas sabemos onde está, é um desejo particular do Rei manter sua mulher e seu filho sob monitoramento.
Frank soltou a respiração pela boca emitindo um grunhido quase animalesco.
- Que tipo de jogo é esse? Não precisam de mim. Não confio em vocês. Me ameaçarão para ir buscar null na Inglaterra e quando isto tudo acabar seremos todos considerados traidores! Vocês pouparão a vida de minha mulher e meu filho agora, mas quando eu voltar matarão todos para nos fazer de exemplos como fizeram a meu pai!
- Frank, você já é o exemplo. Seu pai está morto, ainda pendurado no pátio onde todos possam ver. Você está aqui preso enquanto sua mulher e filho estão passando fome enfrentando toda a miséria lá de fora. Seu pai e você foram os últimos a irem contra a vontade do Rei, as pessoas ficaram assustadas. Ninguém mais ousa falar abertamente suas opiniões sobre a guerra.
Tal informação não fez nenhuma diferença a ele, apenas aumentou seu desgosto.
- E minha família?
- Você pode falar ao Rei Rodrik que lutará por ele se fizerem um acordo escrito e testemunhado de que ele poupará a vida de toda sua família quando a guerra terminar.
Frank fez uma careta.
- Certo, o mesmo Rei que selou e quebrou o acordo com a Inglaterra de ter livre passagem pelo Canal da Mancha.
Kauffman suspirou e mexeu nos cabelos desconfortavelmente.
- Exato, mas é a melhor oferta que vai conseguir. Se você se recusar, viverá com o fato de que nem sequer tentou salvar a vida de sua família; sentou-se aqui acreditando que nada podia salva-las.
Frank fechou os olhos com força e amaldiçoou o reino francês com toda sua força. Kauffman não esperou por resposta.
- Você ainda irá à reunião de guerra amanhã pela manhã. Confio que não vá fazer nenhuma escolha equivocada, null. – o general se levantou e se retirou.
Frank não dormiu naquela noite. Seus pensamentos se mantiveram borbulhando por cada segundo na madrugada adentro.
Assim que o dia clareou vieram buscá-lo. Ele já não fazia mais idéia de como se organizava a rotina das tropas, quais eram as coisas a fazerem; ficou completamente confuso enquanto caminhava ao lado de Lorch e observava todos aqueles soldados que não conhecia, todo aquele armamento massivo estocado e sendo levado para os navios, as armaduras rangendo com a marcha de um exercito que ele não sentia mais fazer parte.
Lorch havia sido um de seus melhores amigos ali, e agora caminhavam em silencio enquanto o mais velho era forçado a carregar uma lança para vigiar Frank. Entraram na sede bélica da cidade e enquanto subiam juntos as escadas em caracol, Frank resolveu dar vazão aos seus pensamentos.
Se precisava da verdade jamais duvidaria que Lorch a daria a ele; e melhor ainda ali entre duas paredes justas, onde não havia ninguém para ouvi-los.
- É verdade o que Kauffman me disse? Sobre minha irmã? Ou é só o que Rodrik quer que eu ouça?
Lorch suspirou e olhou para o amigo.
- Quer realmente ouvir o que aconteceu com sua irmã? Quer ouvir como a surraram por horas até que ela contasse de quem era filha; e quando perceberam o valor dela e se suas informações a mantiveram acorrentada e esfomeada por dias; fizeram dela uma criada, ofereceram-na para dar prazer ao Rei Henrique...
- Chega. – Frank levantou as mãos e apertando os olhos impedindo que enchessem de lagrimas. – Não consigo acreditar que... Que null tenha tido a coragem de abandonar a França, abandonar Ângela... Ela sabia todos os riscos, o que estava pensando?
- Ela não iria a guerra, Frank. Ela viria aqui te salvar. Sabe-se lá como, mas era o que planejava.
- E como sabemos tudo isso? – Frank limpou a garganta ao perguntar.
- Rodrik anda prometendo títulos franceses a um soldado inglês em troca de informações... e também o titulo de carrasco da província.
- Isso é serio?
Lorch assentiu, prestando atenção por onde andavam.
- Por causa disso estamos tendo acesso a certas informações preciosas de dentro do castelo. E boatos andam dizendo que tal soldado anda mudando os rumos da guerra: matou alguém dentro do Castelo Britânico.
Os olhos de Frank se arregalaram de surpresa. Jamais poderia imaginar que Rodrik lançaria mão de traições e surdinas para vencer uma guerra tão abertamente declarada. Respirou fundo enquanto ainda subia os vários degraus, e perguntou:
- O que ele quer? – Lorch o olhou indagador – O que Rodrik realmente quer me mandando para a guerra? O que ele espera que aconteça?
O soldado mais velho abaixou os olhos por alguns segundos antes de responder:
- Acho que ele espera que, de alguma maneira, você e null acabem mortos. Seria o final perfeito para a família que se rebelou contra ele.
Frank suspirou novamente quando o peso em seu coração aumentou. Poderia ter imaginado. Claro que sim: o que os Deuses permitiram que acontecesse com a família que ia contra o Rei.
O exemplo perfeito para a província.
O pânico que ameaçava tomar conta de si finalmente explodiu em suas entranhas. O que faria, como escaparia, como traria null a salvo para a França? Como, e quando, encontraria sua mulher e filho?
Chegaram ao topo da escada, numa porta escura por qual Frank estava pronto para passar quando Lorch segurou seu braço.
- Tudo isso são idéias do Rei. – ele sussurrou – Nenhum dos conselheiros realmente percutiu sobre suas decisões. Sabe quantos anos o príncipe tem?
Frank o olhou, confuso, e negou com a cabeça.
- 17. E não entende realmente de política, se preocupa mais com as causas sociais. – Lorch completou e deu um passo para abrir a porta. Então Frank entendeu.
Frank segurou seu pulso enquanto respondia com o mesmo sussurro urgente:
- Não posso matar Rodrik aqui.
O soldado passou pela porta escura, e a segurou aberta enquanto esperava o outro.
- Não aqui. Mas e no campo de batalha?
- FRANK -
#18
- Hoje é o último dia em que estamos em trégua. – null falou alto o suficiente para que toda a massa escura de soldados a sua frente o ouvisse – Nesta noite, façam amor com suas mulheres, abracem seus filhos, festejem com suas famílias, porque a partir de amanhã não saberemos se os veremos novamente. Não saberemos se voltaremos para casa, e se voltarmos, se os encontraremos sãos e salvos. Amanhã, mudaremos o futuro, portanto aproveitem o que em breve será passado. – ele tomou fôlego, levantando a espada no ar – Amanhã, partiremos com nascer rubro do Sol. Mataremos pela nossa pátria. Mataremos pelas nossas famílias. Mataremos para viver!
Um brado de guerra se fez ouvir na multidão. Espadas, arcos e escudos se ergueram sobre as cabeças, e a feição de vários homens se transformou em um esgar assustador frente os dias negros que os aguardavam. Coragem e bravura emanaram da aglomeração de soldados, e null, satisfeito, assentiu com a cabeça, erguendo sua espada às outras. O clamor durou vários minutos, e, ainda bradando, a multidão se dispersou aos poucos, vários homens passando por null e lhe expressando suas esperanças, lhe prometendo suas forças e audácias, confiantes de que nenhum francês passaria por suas defesas.
null enfim suspirou defronte um grande espaço de terra batida, e enfim guardou sua espada.
Encarou o chão pensativo. Centenas de milhares de homens estariam indo à guerra sobre sua responsabilidade, não poderia deixar que nada acontecesse à sua pátria enquanto ele estava em tão alto cargo.
Um tanto taciturno, ele se virou e se encaminhou com null e Earl de volta à sede bélica.
Assim que adentraram as portas duplas, null ignorou todo o movimento que havia ao redor dele. Armas e armaduras sendo organizadas, ordens sendo dadas e obedecidas, a poeira que subia em espirais a partir das centenas de pés sobre o chão... null rumou diretamente para uma minúscula sala ao final do recinto, e lá se jogou sobre a cadeira de madeira, apoiando os dois pés sobre a mesa em frente.
Embora a batalha que despontava no horizonte estivesse sendo o primeiro combate em que todos os soldados – sem uma única exceção – deveriam seguir suas ordens; essa não era nem de longe sua primeira batalha. Não era como se ele fosse um iniciante no ramo. Então por que estava tão apreensivo, irrequieto e soturno?
Nesse momento null adentrou a sala. Parou por um momento na porta observando o amigo. Mas não perguntou nada, apenas murmurou com uma voz rouca:
- Mandaram te avisar que todos estarão na Taberna do Ned depois que o Sol se pôr. Você sabe... uma última despedida de tudo o que conhecemos antes de amanhã... – null fez uma pausa esperando que null respondesse, mas como não o fez, ele finalizou em um murmurar – Eu acho seria algo bom a você... E a todos os soldados, você realmente os motivaria se aparecesse por lá.
Apesar de nada a dizer, null levantou o rosto para o amigo e se limitou a assentir. Mas quando null se retirou, null jogou a cabeça para trás, a apoiando no espaldar da cadeira e mirou o teto. Permaneceu daquele jeito por um longo tempo até ver que a luz do Sol já havia desaparecido há muito.
Não iria para a Taberna do Ned, jamais precisara de tal conselho. Ele tinha outro tipo de terapia que se intitulava null.
Não foi difícil acha-la. A cidade estava vazia. Os soldados estavam em casa aproveitando suas famílias, ou na taberna, bebendo e escolhendo uma mulher para se passar a noite uma última vez. null estava observando de longe uma roda de música e dança ao lado da Taberna. null reconheceu Trist no meio da roda, rindo um tanto alterado e apalpando o traseiro de uma dançarina. null desviou os olhos para observar a reação de null à tudo aquilo e viu a mulher franzir a sobrancelha, um instante depois desviando os olhos.
Seu olhar recaiu sobre os pés de null. Ela levantou o rosto e seus olhos se comunicaram. Apenas assim. Desnecessário um aceno de cabeça, uma piscadela, sobrancelhas arqueadas... Tudo havia acontecido numa fração de segundo, em apenas um olhar. null virou as costas e andou calmamente até onde havia deixado seu cavalo, estrategicamente na lateral de um armazém sem janelas, por onde ninguém perambulava no momento. Alguns minutos depois null apareceu vindo pelo outro lado do prédio. Um olhar muito sereno dançava em seu rosto, e durante alguns segundos null não disse nada, apenas a fitou em silêncio.
- O que foi? – ela sussurrou, surpresa pela falta de atitude do rapaz.
null sorriu, balançando a cabeça.
- Sabe onde fica a estrada que segue para as plantações de milho? – ele perguntou apressadamente.
null concentrou-se vasculhando a memória.
- É virando na rua das estalagens, correto?
- Certo. – null deu um passo em sua direção abaixando a voz e falando rápido – Agora você me precisa me ouvir com atenção, está preparada?
null se aprumou, fixou seus olhos aos dele e assentiu.
- Vá para seu dormitório e permaneça lá por alguns minutos. Depois saia silênciosamente pela porta das lavanderias, como já fizemos antes. Na estrada do lago haverá um cavalo te esperando, pegue-o. Você vai seguir durante algum tempo na estrada que leva aos milharais, mas não vai passar o portal que delimita as plantações; haverá uma estrada estreita a sua esquerda, e é por onde você seguirá. Logo a frente surgirá uma bifurcação: pegue a estrada da esquerda novamente, a estrada das roseiras. Cavalgue mais um pouco e a estrada fará uma curva para a direita, mas é aí que você para. Logo na curva haverá uma série de gameleiras na beirada da estrada. Procure atrás das gameleiras uma trilha apagada, mas que te levará ao nosso destino, um casebre onde te encontrarei em uma hora. – null parou para recuperar o fôlego – Consegue se lembrar de tudo?
null suspirou piscando as pálpebras rapidamente, e então recitou para null todas as informações corretamente, duas vezes, até que ele estivesse satisfeito.
- A estrada estará escura e deserta, você tem medo? – ele perguntou cautelosamente.
null riu baixinho.
- Não. – e deu de ombros.
null riu junto:
- Eu sabia.
Deu-lhe então um beijo rápido no canto da boca e subiu em seu cavalo. Ele sussurrou algo que ela não ouviu, mas, quando deu um passo à frente, null já havia virado as rédeas e seu cavalo avançava para a escuridão. null permaneceu um instante confusa com a despedida apressada, mas em seguida também se virou, voltando pelo mesmo caminho.
Fez exatamente o que ele havia lhe dito. Uma égua já a aguardava nas arvores circundantes ao lago, a montou e trotou devagar durante algum tempo para se assegurar que ninguém ouviria. Quando chegou à estrada para os milharais deixou o animal galopar; e permitiu que sua consciência vagasse por um tempo, imaginando que estava se afastando daquele lugar em que tivera momentos horríveis, e ignorando o fato de que teria de voltar alguma hora.
A lua estava alta no céu, e boa parte das estradas estava iluminada. O único problema foi encontrar a trilha escondida. As gameleiras foram plantadas ali justamente para esconder o caminho, mas, uma vez olhando com atenção, a trilha era reconhecível. As arvores cresciam altas e juntas, então null precisou descer do cavalo e arrastar a égua consigo pelo trajeto.
Quando a trilha e a floresta acabaram, null estacou boquiaberta. Paraíso. Era a única palavra que aparecia em sua mente. A única definição que poderia encontrar para aquele lugar. Ela achava que null já havia esgotado a cota de paisagens naturais para levá-la, mas esse... Esse lugar onde estava agora era realmente um paraíso.
Havia um lago. Também.
E havia uma cabana na beira do lago. Ervas e trepadeiras cobriram seu telhado com o passar dos anos, e apenas algumas paredes podiam ser vistas na cor original.
null não sabia o que significava aquilo. De quem era aquela cabana? O que null queria a mandando ali? Será que queria escondê-la? Mantê-la longe de tudo agora que a guerra havia sido declarada? Será que alguém já vivia ali? Era algo que null já vinha escondendo há algum tempo e havia decidido contar a ela?
Caminhou lenta e cautelosamente sobre a grama, puxando a égua consigo, olhando para os lados para se certificar que estava sozinha. Chegou a frente à cabana e amarrou o cavalo. Bateu, então, com os nós dos dedos contra a madeira da porta e esperou. Nada.
Nem um som. Apenas o som da floresta em volta. Grilos, vento, algum morcego na escuridão...
null se virou para o lago, e olhou para o redor mais uma vez. Não haveria maldade em tomar um banho rápido no lago... Haveria? Estaria se deixando mais limpa para null... E fazia algum tempo desde a última vez que escapara para um banho.
Sem pensar novamente, a mulher caminhou até a superfície da água e tirou a roupa rapidamente. Jogou-se no lago, fazendo suas bordas ondularem e o barulho de água espirrando ecoar.
Mergulhou, esfregou os cabelos, se massageou, contou pedras na ponta do lago, caçou peixinhos coloridos com a mão, e quando finalmente estava boiando sobre a superfície, ouviu algo bater na água.
Aprumou-se imediatamente, nervosa e assustada; mas a única pessoa que vislumbrou foi null. Parado sobre a grama, de braços cruzados, a observando com um sorriso doce e brincalhão.
- Espero não a ter deixado esperando muito tempo. – ele se aproximou calmamente da beirada da água e se ajoelhou, pegando com as duas mãos as roupas deixadas pela mulher sobre a grama.
null deu de ombros.
- Tudo bem, não me importei.
Um vento frio passou e null estremeceu. Suas bochechas estavam rosadas e os cabelos úmidos caiam sobre os seios descobertos. null se levantou.
- Posso me juntar a você? – ele perguntou já retirando seu colete e em seguida a blusa de longas mangas – Posso te esquentar.
null sentiu um prévio arrepio subir sua espinha e assentiu silênciosamente com a cabeça. null retirou as botas e as calças, ficando completamente nu na sua frente. A mulher respirou fundo, enquanto observava null entrar no lago. Em poucos segundos ele estava na sua frente, e em um movimento rápido afundou sobre as águas, se molhando todo e submergindo. Aproximou-se completamente de null e de uma forma quase bruta, as mãos de null foram para sua nuca, fazendo seus lábios se chocarem.
null parou de respirar momentaneamente ao sentir a língua dele mais uma vez encostar-se a sua boca. Deslizou uma mão pelo ombro do rapaz, abrindo a boca e deixando que sua língua se encontrasse à dele. O toque de null a deixou tonta, seu gosto rapidamente se espalhou por sua boca numa maravilhosa sensação que a fez gemer minimamente. null a apertou firmemente contra ele, fazendo seus corpos se encaixarem. null esticou a mão até os cabelos do rapaz, e sentiu seus fios macios, fazendo sua unha deslizar por toda sua nuca. O beijo se tornou mais intenso, e null apoiou suas mãos contra os joelhos de null, a fazendo dobrá-los e encaixar-se contra sua cintura. Seus lábios se descolarem por alguns segundos e o rapaz fitou os olhos de null lentamente, então, baixou os olhos para o colo nu da mulher. null corou imediata e violentamente, agarrando os fios de cabelo de null que já estavam entre seus dedos, e o forçando a levantar a cabeça.
null encostou suas testas e riu da reação tímida da mulher. Permaneceram assim durante alguns segundos, null roçou levemente seus lábios ao pescoço e colo de null, acariciando sua cintura e sua nuca. Naqueles segundos, null baixou um braço em direção às costas de null, deixando seus dedos deslizarem por toda sua extensão. E então o cheiro de null foi a atingindo lentamente. Ela encostou levemente o nariz no pescoço de null, puxando para si o cheiro de homem que exalava de null. O cheiro de sua pele, do suor molhado pelas águas do lago, cheiro de suas roupas impregnadas com o cheiro masculino. Aquilo a ensandeceu lentamente, atingindo um ápice que a fez mordiscar e chupar o pescoço do rapaz. null parecia sentir o mesmo, porque correspondeu a altura. Puxou null pela nuca, grudando seus lábios novamente, deixando suas línguas se massagearem de forma intensa, e a apertando contra ele.
null afundou as unhas nas costas de null, para puxá-lo mais para si. Sentiu um gemido crescer no fundo de sua garganta quando suas intimidades se encostaram levemente. As mãos da mulher foram para o pescoço do rapaz quando null a penetrou devagar. Desejo estava queimando em cada parte de seu ser, desejando null de uma forma insana. O rosto de null se afundou ao pescoço dela, enquanto ele usava sua força para ajudar a mover o quadril de null contra o seu. A vontade de ter null perto de si, dentro de si, fez a mulher apertar seu corpo contra o dele, deslizando a mão por suas costas, gravando cada curva, cada delineação.
null começou a gemer baixo contra seu ouvido, e null sorriu, afundando o rosto no cabelo dele, puxando seu cheiro o máximo possível. Sentia null se movimentar dentro dela de uma forma que a estava deixando louca, fazendo com que ela mesma movimentasse seu quadril inconscientemente. Quando menos percebeu, ela também gemia contra os cabelos de null, pedindo coisas sem sentido, repetindo o nome dele baixinho.
Não saberia dizer quando seu ápice chegou, apenas sabia que seu corpo estava mole. Tremia.
null entrelaçou seus dedos ao dela e, ainda unidos, afundaram na água morna.
null ainda estava sentada à beira do lago. Estava de costas para null, de forma que ele só via sua pele nua das costas curvadas. Os ossos de sua espinha dorsal espetavam sua pele e null quase podia contá-los.
Entoou o assovio que ela havia lhe ensinado. O assovio de seu pai.
null se virou imediatamente. null estava deitando sobre a grama, a observando. Caminhou até ele e pegou suas roupas no caminho, vestindo-as rapidamente.
Vestida, se sentou sobre a grama em frente null, e suspirou.
- Vai me contar a história dessa cabana? - null perguntou olhando ao redor.
null ergueu as sobrancelhas, sorrindo.
- Acredito ter sido o refúgio de algum lavrador tempos atrás. Achei no ano em que meu pai morreu. Costumava vir aqui passar um tempo sozinho e nadar no lago para colocar minha cabeça no lugar.
- Alguém mais conhece isso aqui? - a mulher questionou.
- Não que eu saiba. Costumo vir aqui quando estou preocupado, ou atormentado... - null curvou as sobrancelhas enquanto falava – Nunca vi ninguém aqui além de mim.
null o observou lentamente. Percebeu então que null tinha muitos refúgios: esta cabana com o lago, o topo do penhasco onde fizeram amor pela primeira vez, o barranco onde a levara no seu primeiro passeio fora da cela... Era estranho o que tudo isso lhe podia dizer sobre a personalidade dele. Novamente se viu perguntando que parte dele gostava de ser comandante - e agora, general.
- E você está preocupado agora. - não era uma pergunta.
null ergueu os olhos. Seus olhos null encontraram os dela, e ele não respondeu.
- Não preciso que você me diga tudo o que sente. Percebi o medo em você no dia em que Axel foi morto. Como seus músculos ficaram retesados, como você não conseguiu fitar null nos olhos, como você tem estado reservado... - null desviou os olhos de null e assumiu um semblante sério.
Não falava do que sentia. Jamais. Só falara com ela das mortes de seus pais. E mesmo assim... Ela percebera. null sempre percebeu tudo. Ela simplesmente conseguia ler seus pensamentos por mais que ele os omitisse.
Voltou a olhar para ela. E no momento seguinte não conseguiu parar de falar.
Falou sobre Axel, sobre a viagem, a guerra, os franceses. Disse como odiava os franceses, como queria vê-los expulsos, mas sabia que não conseguiria chegar até o final vivo, que tinha medo de não conseguir proteger tudo que conhecia. Toda a confiança que depositavam nele, as expectativas que ele sabia não ser capaz de corresponder. E por fim tampou os olhos com os punhos e disse o quanto amava null, como não sabia como haviam chegado a esse ponto, como conseguiram passar por toda essa bagunça e ainda estarem juntos, e como ela havia sido a única mulher, desde sua mãe, que ele amara.
E que ele não poderia protegê-la da guerra.
- Sou capaz de me proteger sozinha, null. – ela revidou sem se alterar – E isso só vai ser necessário se a guerra explodir na província.
null não respondeu inicialmente. Após alguns minutos respondeu, muito lentamente:
- O Rei Henrique planeja te levar junto na guerra.
- O... – null ergueu uma sobrancelha desconfiada – O que quer dizer com planeja? Vocês partem amanhã!
null suspirou conformado. Seus olhos estavam vermelhos.
- Eu sei. E você vai junto.
null se levantou imediatamente.
- E quando você iria me contar? Amanhã antes da partida?
- Eu iria te contar hoje. – ele disparou a se explicar - Eu tentei persuadi-lo, você sabe que sim. Mas os franceses reivindicaram as terras e você. O Rei quer que a guerra seja decidida no litoral, não deve chegar à capital. Mas em quaisquer circunstancias ele poderá usá-la.
null tinha os olhos arregalados e deu alguns passos para trás. null se levantou também e andou até ela.
- Não precisa me dizer o que isso significa. Não vou deixar que te peguem. Precisa acreditar em mim. – ele tentou segurar seus ombros, mas null se afastou.
- null... De toda a minha família, minha traição foi a mais hedionda. Se eles me pegarem vão me sentenciar ao pior tipo de julgamento. – Mas antes que o rapaz pudesse responder, ela se deu conta – Mas de qualquer jeito, a única coisa que pode me esperar é a morte. Aqui ou lá. – ela hesitou por alguns instantes - E não tenho medo. Na verdade, vou me sentir melhor porque estarei te acompanhando.
- Pare de falar bobeiras. Eu não v... – null recomeçou por pouco tempo.
- Você mesmo disse que não vai poder estar lá por mim.
- Mas vou fazer questão de você também não estar lá pra eles.
- E como vai fazer isso? – null perguntou ironicamente – Vai se preocupar comigo enquanto precisa manter seus homens vivos? – null a fitou sem responder – Não pode me colocar sobre suas responsabilidades.
- Está me dizendo pra deixá-la de lado?
- Estou te dizendo para não morrer por mim.
null ficou em silêncio. Baixou os olhos para as pontas molhadas do cabelo de null por alguns instantes, e então murmurou voltando a olhá-la nos olhos:
- Mas eu faria isso.
null suspirou, e ele a abraçou. Encaixou uma mão em sua nuca e a apertou como nunca tinha feito antes.
- Você tem outras coisas mais honradas para morrer por. – null disse em seu ouvido. Eles se separaram e null se preparou para revidar, mas a garota continuou. – Não pode se distrair comigo. E eu já guerreei. Não me trate como se eu fosse indefesa.
null deu um sorriso triste.
- Nunca pensei em você como tal. – e a beijou.
#19
null encarou boquiaberta o mar de soldados que se deslocava sobre os campos ingleses. Se não soubesse, nunca imaginaria que aquela mancha escura era composta de pessoas – soldados armados com espadas, machados, escudos, protegidos por três de camadas de armaduras que rangiam a cada passo de cada um deles. O Rei Henrique ordenara que todo jovem e adulto capaz de lutar deveria servir no exército. No final, null não imaginara que a Inglaterra possuísse tantos combatentes. E todos aqueles infinitos soldados não eram tudo – eram apenas a parte do exército que estava partindo com null . O Rei Henrique partiria para a batalha com o resto da tropa dois dias depois, varrendo de todo o território qualquer velho, homem, rapaz, ou criança do sexo masculino.
Isso justificava a onda de nervosismo que percorreu null por míseros segundos quando se viu como a única mulher, desprotegida e desarmada, no meio de tantos homens. Mas sabia que isso não duraria muito. No primeiro vilarejo que passassem, concubinas surgiriam em cada curva da formação. Já vira isso acontecer quando se juntara ao exército francês.
Mais cedo naquele dia, null se despedira de Erin e Shaunee após contar que estava sendo levada junto na guerra, e vira estampado em seus rostos a compreensão da abominação que aquilo significava. null , no entanto, assegurou às duas que não era algo novo para ela – viajar no meio de soldados – e que estava preparada para o que quer que tivesse de enfrentar – matar ou morrer. Mas abaixara os olhos logo depois por não conseguir encarar o horror e a tristeza estampados no rosto de mãe e filha.
E ao começar a marchar com as tropas, null percebeu que naquele momento não havia nada que ela pudesse fazer. Por isso apenas mastigou o lábio, entediada, e se pôs a caminhar.
Não demorou muito para começar a ouvir todos os comentários dirigidos a ela. Deveria ter previsto.
“O que ela está fazendo aqui?”
“Não sabiam que mulher no meio da guerra traz má sorte?”
“Ela só está aqui para nos ajudar a relaxar antes da batalha.” E a esse comentário muitas gargalhadas foram ouvidas.
“Ela é francesa! Dizem que a matarão para irritar o exército francês quando as batalhas começarem!”
Desviou os olhos após esta última observação.
null sabia que estar partindo com as tropas lideradas por null era um privilégio que o próprio deveria ter arranjado para ficar de olho e protegê-la melhor. Ela estava sob a vigilância de um cavaleiro desconhecido, chamado Warren. Ela havia ouvido null lhe dar estritas ordens de não deixar que os outros soldados a tocassem ou a importunassem. Mas Warren nada fez para calar os comentários que a acompanharam por quase todo o dia.
Ao anoitecer, os soldados se instalaram sobre o terreno e começaram a montar suas barracas. null passou alguns momentos confusa, não sabendo ao certo o que fazer, quando Warren se aproximou e a segurou pelo braço.
- Durante a noite você muda de pelotão. – e sem mais nenhuma palavra a guiou vários metros a frente, por entre soldados, montarias e tralhas, até um círculo de barracas já montadas, onde uma fogueira já estava sendo acesa. - null ! – Warren rugiu. – Ela é sua responsabilidade agora. – e sacudiu null pelo braço como um saco de batatas. – Ordens do general.
null , que estudava um mapa aberto sobre seu escudo, levantou os olhos e fitou null . Depois assentiu, e quando Warren a deixou, null se levantou. Deu um sorriso fechado e puramente educado a null e falou em voz baixa:
- Você ficará aqui por questões de segurança, caso você esteja planejando alguma fuga. – ele lhe deu uma piscadela – Pode nos ajudar com os mantimentos enquanto isso?
null assentiu, e null lhe deu as instruções gerais do que fazer. Naquele pelotão havia soldados mais velhos e/ou experientes, o que implicava neles não darem a mínima para a garota, tão concentrados em treinar e discutir táticas e planos como estavam. null gostou da pouca atenção que lhe davam e descobriu que fazia suas tarefas muito mais rapidamente quando era deixada em paz. Ela estava picando e cozinhando uma série de vegetais que null lhe dera, quando ouviu a voz de null . Levantou os olhos, e encontrou os dele por meros segundos antes de abaixá-los novamente. Aquela era uma das raras vezes em que os dois precisavam ficar frente a frente no meio de várias pessoas, mas não se incomodou. Ela sabia exatamente onde era seu lugar, e null era profissional demais para se deixar trair.
Tudo correu sem mais imprevistos. Uma sopa foi feita com ajuda de alguns soldados veteranos, as selas foram retiradas dos cavalos e esses foram tratados, e null se manteve a um canto, silenciosa. Comeu sua parte da refeição, e curiosamente não se sentiu temerosa em nenhum momento – nem sequer lhe ocorreu aonde iria dormir.
Quando enfim a noite já avançava e os mais velhos foram se retirando para suas barracas, sobraram apenas null e null à beirada da fogueira. Havia uma garrafa de rum entre eles, que foi oferecida a null por null poucos segundos depois.
- Quer um gole?
null também se virou para olhá-la. null expressou um sorriso, e balançou a cabeça.
- Ora, vamos. – null murmurou. – Há quanto tempo não bebe aguardente?
null suspirou inconformada. A verdade era que sempre fora muito fraca para bebidas alcoólicas, e sempre bebia escondida de Frank, porque o irmão nunca lhe deixava beber mais do que dois goles. Mas já havia feito tantas coisas que Frank jamais aprovaria...
A garota se levantou e foi se sentar em frente aos dois rapazes. Deu um gole direto no gargalo na garrafa que null lhe passou e acolheu de bom grado o calor que a bebida espalhou a seu corpo. Devolveu a garrafa a null e se encolheu para perto da fogueira.
Era uma sensação gostosa. Ao redor deles havia barulhos e confusões de soldados, mas em seu circulo de barracas só havia eles, e não havia fingimentos. Não sabia se era a quantidade de goles que passou a tomar da garrafa, ou a historia que null contava sobre uma prostitua perneta que conhecera, mas tudo de repente pareceu extremamente cômico. Ao final null já não bebia, só falava, e null e null dividiam o que sobrara do resto da bebida. Durante uma parte erótica em que null soltava risinhos, null solto um sonoro arroto que fez todos caírem na gargalhada e null desmontou para trás da pedra em que estava sentado.
null se levantou e distribuiu socos no amigo até que esse fosse se arrastando para sua barraca. null enxugava lágrimas no canto dos olhos quando null se aproximou novamente. A pegou pelo braço e a puxou para a barraca mais distante de todas. Alguma música boêmia podia ser ouvida sobre as barracas, mas quando null mergulhou embaixo da lona azul com null ao seu lado, parou de ouvir qualquer coisa extra. Seus ouvidos zumbiam, estava mole e preguiçosa. O pano em que estava deitada em cima era fofo e emplumado – o melhor que estava dormindo em meses. Nem sequer tinha pulgas, ela reparou passando a mão sobre sua extensão. null , que estivera se despindo do que restara de suar armadura, se esparramou ao seu lado passando um braço sobre ela.
- Acho que... Hm... – null passou a mão sobre o rosto porque seus sentidos pareciam dormentes – Nenhuma dama deveria beber assim. – Os dois riram antes que a garota completasse com um assombro – Mas já deixei de ser dama há algum tempo.
null curvou as sobrancelhas parecendo sério, o que não convinha com seu estado naquele momento.
- Para mim você sempre foi uma dama.
- Hum. – null sorriu de olhos fechado, antes de adormecer.
Talvez null estivesse ficando doente, ela não saberia dizer. Sua cabeça doía, o estômago revirava, seu corpo parecia pesado. A última coisa que precisava agora era ficar doente. Mas então teve um vislumbre de null antes dele se juntar à sua formação, e ao perceber que o rapaz parecia muito pior que ela, passou a pensar que a culpa era do rum – ela já vira seu pai e Frankie daquela maneira outras vezes.
Quando acordara naquela manhã, null não estava ao seu lado. Não o havia visto desde então, mas desejava ter. Antes suspeitava estar atraindo olhares por causa de sua aparência nada boa de enferma; mas quando o dia já chegava à metade, passou a dar mais atenção a certos comentários que estava ouvindo. Comentários que envolviam null e ela.
Caso fossem apenas especulações e observações fúteis, como geralmente eram as opiniões dirigidas a ela, null apenas teria colocado de lado em sua mente. Mas ouvira muito claramente, quando dois rapazes mais novos que ela conversaram ao seu lado, como se fizessem questão de que ela os ouvisse:
- Talvez apenas a realeza possa comer ela. O Rei, e agora o general...
- Ora, posso pintar meu pinto de ouro se isso me der uma noite com ela.
null apertou o maxilar e prendeu os olhos ao chão.
Acontecera. Todos sabiam agora. A conversa geral era que o general levara a francesa para sua cabana durante a noite. Não era exatamente o que null sempre temera – que as pessoas soubessem que ela e null tinham um caso amoroso. Sabia que essa ignorância dos fatos fazia tudo mais aceitável, e isso a enojou até o fundo das entranhas.
Não sabia se, depois dessa mudança nos eventos, null a recolheria para sua barraca novamente naquela noite. Caso isso acontecesse, null ficaria um tanto vulnerável, principalmente à margem das noticias que viajavam entre os homens. Com um aperto no estômago, null apalpou discretamente sua coxa direita a procura da fina adaga que fixara ali com um pedaço de couro. Surrupiara a adaga duas noites antes, quando null a avisara que iria à guerra. Não pensara muito em nenhum plano, ou nas consequências de esfaquear um soldado inglês, mas sabia muito bem que não iria ser tocada facilmente.
Mas nenhuma das previsões dramáticas de null se tornaram verdade. null havia sim ouvido os boatos. Não fizera nenhum esforço para omiti-los, e até confirmou quando um de seus colegas veteranos viera perguntar-lhe. E mais ainda, quando aquele segundo dia acabou, Warren, sem uma palavra a mais, carregou null novamente para o pelotão do general, onde a garota ajudou na montagem do acampamento, no cozimento da janta, e ao final de tudo ela e null foram os últimos ao redor da fogueira novamente.
null confirmara seus pensamentos de que, naquele lugar, naquela situação, não importava realmente com quem, ou com quantas mulheres, null , ou qualquer dos soldados, dormissem. E também não havia muita coisa que os dois pudessem fazer para esconder de todos a noite que passaram juntos.
- Sei que haverá desconfianças. - null murmurou observando o fogo - Principalmente quando o Rei souber, mas não quero pensar nisso agora. Estamos rumando para a guerra.
- Você continua falando da guerra como se estivesse caminhando para a morte. – null rebateu, olhando para ele ao seu lado.
- E não estamos todos?
Dormiram juntos novamente naquela noite. Era a primeira vez que null passava a noite com null – considerando uma noite em que estava sóbria e da qual se lembrasse.
Acordou no meio da madrugada por razão nenhuma, e passara um bom tempo observando null dormir. O semblante calmo que null reservava apenas para ela estava ali novamente, estampado quando o rapaz não tinha nada no mundo para se preocupar.
Quando acordou novamente com a luz da aurora, null já estava sentado ao seu lado se espreguiçando. null observou os músculos retesados de suas costas se destacarem contra sua pele, e o ouvir de ossos se estalando. Esticou uma mão para tocá-lo.
Aquelas abençoadas e maravilhosas costas.
null olhou para o lado quando sentiu seu toque e sorriu.
- Bom dia. – ele se curvou sobre ela para encostar seus lábios.
null devolveu o sorriso quando ele se afastou e também se sentou. Eles se olharam por alguns segundos até que null murmurou:
- Bom trabalho para você hoje.
- Te vejo ao anoitecer. – null completou com um sorriso fechado, e se levantou para sair da barraca.
Após o assassinato de Axel e a chegada do batedor francês para deflagrar a guerra, não houve mais duvidas que a província e o porto de Brighton estavam sob o comando francês. E era para lá que todos os ingleses marchavam para tomar seu porto de volta e expulsar os invasores de uma vez.
Brighton não era muito longe da capital; mas a marcha lenta de milhares de soldados provocou uma caminha de três dias. A caminhada de null foi preenchida pelos atos de andar em silêncio, ignorar todo o resto, e esperar pela noite, quando teria seu momento agradável do dia.
Para os colegas de pelotão de null , null não era nada mais que uma mariposa sobrevoando a fogueira que estava ali apenas para foder o chefe deles durante a noite, e, como ninguém tinha nada a ver com isso, ele preferiam se retirar para suas barracas ou sacos de dormir mais cedo a fim de guardar energia para as batalhas. Por isso null passou a última noite mais uma vez com null e null ao redor da fogueira – conversando desde suas frutas favoritas, até táticas de guerra e luta.
Na última noite antes de se juntarem às tropas do Rei Henrique, null se retirou mais cedo para sua barraca acompanhado de uma loira avantajada, que já havia passado uma noite atrás gemendo de barracas em barracas pelos pelotões.
null abaixou o rosto rindo, quando null sumiu pela lona branca apalpando o traseiro da moça, e null ao seu lado fez uma careta cética. Eles comeram o que restava das maçãs assadas, e enquanto null chupava a ponta dos dedos null afundou o rosto na curva de seu pescoço, murmurando contra seu ouvido:
- Deveríamos tornar verídicos os boatos que andam contando por ai sobre eu e você.
null riu alto e se levantou. Quando null esticou os braços para rodeá-la, ela saiu correndo até entrar na barraca. null correu logo atrás, e os dois caíram abraçados sobre a manta que cobria o chão. Seus olhos se cruzaram rapidamente antes que suas bocas se chocassem e eles começassem a se beijar.
null colocou uma de suas mãos na nuca de null e lentamente começou a levantar a saia de seu vestido, deixando sua coxa descoberta. Passou a mão por toda a pele da mulher até passar a acariciar a parte de dentro da sua coxa. Subiu a mão lentamente até sua virilha, e null contraiu a barriga sentindo o calor a rodear e contrair suas entranhas. Desceu as mãos até o quadril de null e o pressionou contra o dela - queria sentir aquela conhecida rigidez de null contra si.
O rapaz levantou completamente a saia de null e moveu seus beijos para o pescoço da garota. null agarrou os cabelos de null , afundando a unha sobre sua nuca. Quando ele lhe deu um chupão particularmente dolorido no pescoço, null lhe deu um tapa no braço, e aproveitando que sua mão já estava por ali, começou a trabalhar em tirar a blusa de null .
null , por sua vez, moveu seus beijos para a parte descoberta do colo de null . Ela não sabia como ele sabia, mas a verdade era que era exatamente nesse ponto que null perdia toda a noção do raciocínio. As mãos de null rodearam um de seus seios, e lentamente ele passou um dedo sobre ele, fazendo null expirar alto, e automaticamente fechar as pernas ao redor do quadril do rapaz. null procurou com as mãos os botões do vestido de null , e precisou de muita paciência para simplesmente não arrancá-los em fúria.
No fundo de sua mente, onde ainda raciocinava, null sabia que aquela poderia ser a última noite que passaria sentindo o corpo de null tão perto e tão tenro a ele. Por isso, quando conseguiu abrir seu vestido, e desnudá-la completamente, ele passou longos minutos beijando cada pedaço do corpo da mulher. Beijou seus ombros, seus mamilos, desceu a boca por suas costelas, beijou seu umbigo, os ossos salientes de seus quadris, suas coxas, joelhos, até chegar à suas canelas.
null mantinha os olhos fechados com a respiração completamente descompassada, acariciando os cabelos de null até ele sair de seu alcance. Quando ele se afastou, ela observou enquanto ele tirava sua própria blusa, e se deitava novamente sobre ela, deixando que seu peso a pressionasse. null acariciou seus ombros nus com a ponta dos dedos e recebeu com um sorriso a boca de null novamente sobre a sua. Deslizou as mãos pelas costas nuas dele até apalpar sua bunda e forçar sua calça de couro para baixo. null a ajudou com as pernas a retirar completamente sua última peça de roupa, e os dois se encararam por meros segundos.
Eles sabiam, ambos sabiam que aquela poderia ser a última noite de amor que teriam. Mas null percebeu nos olhos de null a calma que ela sentia; a paz, de que nada no mundo significaria mais para ela do que todas as noites e momentos que tinham compartilhado juntos. Quando a beijou, e suas línguas se encostaram, null a penetrou.
Sentiu as costas de null arquearem, e ela emitir um ruído mínimo. Ele se afastou para observá-la. Queria olhá-la, gravar cada expressão sua, cada linha de suas emoções da última noite tranquila que teriam juntos.
# 20
A tenda montada para a última reunião formal da guerra ficava ao lado da barraca do Rei Henrique, e era espaçosa o suficiente para caber confortavelmente quinze pessoas. Mas em um momento, null contou vinte soldados por ali, e foi quando pediu licença para se retirar, pois o calor começou a ficar insuportável. Isso não foi muito indicado, ele era o general, nada corria muito certo sem ele por perto.
Em menos de cinco minutos fora da tenda null se aproximou por trás dele e o chamou de volta, o Rei precisava dele. Assim que voltou para a tenda viu que o Rei havia percebido qual era o problema, e estava dispensando um número de soldados que era desnecessário ali.
Todos os soldados estavam sentados em bancos ou tocos de madeira, rodeando uma tábua improvisada de mesa. Sob ela havia uma quantidade inesgotável de mapas, rascunhos, esquemas, desenhos, números... No meio deles, null sabia, estava a lista completa de todos os detalhes e informações que null havia passado a eles um dia; detalhes que foram revisados mil vezes com ou sem a presença da mulher. E null igualmente sabia que era baseado nessas anotações que estava toda a estratégia da luta que eles iriam oferecer.
null caminhou até se posicionar atrás do Rei, que explicava concentrado como funcionariam as linhas de ataque, e quais tropas estavam designadas para manejar as catapultas e as torres de cerco . Por fim, uma vez que a muralha e os portões de Brighton estivessem caídos, passou a explicar como as tropas deveriam se organizar para aprisionar o Rei francês e seus altos comandantes. Nessa parte, ele tinha um relato detalhado da separação dos batalhões franceses, que haviam sido minuciosamente descritos por null.
Todos assentiram, e enquanto o Rei buscava entre os papéis um mapa qualquer, o comandante de Nottingham comentou, intrigado:
- De onde todas essas informações do exército Frances vêm?
null o olhou imediatamente, e com a sobrancelha enrugada, respondeu:
- Temos uma informante em nosso poder.
O comandante o olhou:
- E quem disse que podemos confiar nela?
- Eu digo. – respondeu o Rei, sobrepondo null, que já estava para responder. – Ela é o único trunfo que temos, e a usaremos, como já usamos antes.
O comandante soltou um riso cético.
- Aquela mulher francesa magrela? Que anda por aí desacorrentada entre nossos soldados, dorme com nosso general, e é trazida para a batalha sem nenhuma justificativa visível? Vocês acreditam nela?
Reações diferentes se seguiram a essa fala.
Dois soldados avançaram para o comandante, que se levantara, bradando:
- Como se atreve a falar assim com o seu Rei?
Enquanto outros comandantes se entreolhavam e murmuravam:
“Ele tem razão.”
null assumiu o semblante sério, e o Rei lhe virou:
- Você andou dormindo com a francesa?
O silêncio preencheu a tenda e todos encararam o general null. null lançou um última olhar de fúria ao comandante de Nottingham, e encarou o Rei. Em um único aceno de cabeça, ele assentiu. Jamais passara por sua cabeça mentir ou inventar uma desculpa.
Uma tensão correu entre os presentes que aguardaram por alguma explosão pela parte do Rei, mas este apenas levantou uma sobrancelha irônica e disse em meio uma risada:
- Andou dando algumas trepadas, general? – a sala acompanhou o riso, mas null trincou os dentes e desviou o olhar. Percebeu null se aproximar vagarosamente dele para alguma emergência, e aquilo apenas o enfureceu mais ainda. – Tudo bem, todos os homens têm suas necessidades. Ainda mais o grande e introvertido null. – o Rei bateu a mão no ombro do rapaz.
Ele se virou para o resto dos homens presentes. Concentrou-se no comandante de Nottingham e assumiu o semblante sério.
- A francesa, a quem o senhor se referiu, já passou por testes anteriores para comprovar seu valor e sua sinceridade. E não interessa ao senhor da onde vêm as informações que lhe passo, uma vez que fará o que eu digo, de um modo ou de outro. Mas se não acha que consegue encarar todas essas informações, pode ceder seu cargo para outro soldado de confiança. – e com isso fez um gesto indiferente com a mão, em seguida sentando-se novamente em seu banco, deixando claro que não gostaria de ouvir nada mais sobre o assunto.
Todos se mantiveram calados enquanto o Rei Henrique retomava à sua procura por algum mapa em especial. Quando enfim o achou, se curvou novamente sobre a tábua central e recomeçou a falar por toda a manhã e a tarde.
Quando enfim a reunião terminou, e todos os comandantes seguiram tensos para preparar seus guerreiros, null foi o último a ficar com o Rei. Antes de se retirar, se aprumou em frente a ele e se permitiu perguntar:
- Senhor, qual é o seu plano para a francesa?
O Rei levantou os olhos de seus papeis lentamente, e se recostou na cadeira para observar o general. Com um suspiro, ele respondeu:
- Pensei que tê-la aqui vai confundi-los, vão querer saber para que propósito ela está aqui; como também alguns ficarão enfurecidos, pois estarei esfregando na cara deles que tenho a filha de um importante general francês nas minhas mãos, e que ela permitiu que ganhássemos de todos eles. – Rei Henrique suspirou passando os olhos por toda a tenda vazia, viajando em seus pensamentos. Por fim, se voltou a null. – O que acha?
O rapaz não se deixou dizer tudo que pensava sobre aquela questão, então só apertou os dentes e assentiu, voltando a perguntar:
- Mas o que faremos com ela quando estivermos lutando?
- Enquanto a batalha durar, a manteremos no acampamento, acorrentada e guardada, para quaisquer futuros planos.
null sabia exatamente quais futuros planos eram aqueles, e precisou de toda sua vontade para permanecer neutro em frente ao Rei, não fazer perguntas demais. Pediu licença à majestade e lhe deu as costas para sair. Ele era o general – seu desejo, opinião e influência eram importantes para todos; e ele precisaria analisar tudo calmamente para saber o que fazer para que null não ficasse em perigo.
E naquela noite, apesar de tudo, null levou null para sua barraca mais uma vez. Agora que todos faziam comentários inapropriados sobre eles não havia sentido se manter afastado da garota, até mesmo pela própria segurança dela.
Naquela noite, porém, não dormiu. null sentia e ouvia todo o acampamento inquieto com a aproximação da batalha; havia conversas sussurradas em volta a fogueira, alguns soldados entoando alguma oração de última hora, outros se revirando sobre seus sacos de dormir incapacitados de acalmar suas mentes, e outros ainda perambulando pelo acampamento sem rumo ou objetivo.
null ao seu lado freqüentemente lhe fazia uma carícia na esperança de relaxá-lo, mas era impossível. Os únicos minutos em que null relaxou foram quando abraçou null por trás, e afundou o rosto em seu pescoço e cabelos. Quando ela cantarolou a única musica inglesa que ela conhecia, null conseguiu cochilar. Ainda assim despertou assustado, já esperando se ver na batalha, para então perceber que a única novidade era a fraca luz do Sol aparecendo. Completamente sem esperanças de que iria voltar a dormir, ele e null se levantaram.
null pediu que ela se mantivesse afastada de todos os preparativos técnicos para a batalha, para que não desse razão aos outros soldados desconfiarem dela. Enquanto null se afastava do acampamento para encontrar o Rei, null então instruiu null para ajudar a desmontar as barracas, e carregar as carroças com os mantimentos que não seriam mais usados. Ela não teve muito tempo de fazer qualquer coisa, já que Dale se aproximou, repetindo as ordens do Rei Henrique de levar null para o canto mais afastado do acampamento, e a deixar amarrada lá.
null levantou os olhos, surpresa, para null, mas ele nada disse para contrariar as ordens; apenas assentiu, e deixou que Dale a levasse. Enquanto andavam entre os soldados, a mulher perguntou em voz baixa para Dale:
- O que vão fazer comigo?
Desconfiava sinceramente que confiná-la amarrada a uma carroça era um eufemismo.
- Faremos com você o que quisermos – Dale respondeu bruto. – Até que chegue o momento estratégico de usá-la.
Sua imaginação estava a mil esperando que eles a usassem como isca, ou que fosse matá-la e jogar seu cadáver aos pés dos franceses. E não estava disposta a deixar que nada disso acontecesse sem resistência. Seu coração disparou e ela olhou ao redor a procura de null – porém a única coisa que viu foram soldados entrando em formação, os arqueiros empurrando as torres de cerco, escudos sendo levantados, elmos sendo colocados...
Dale e null caminharam por vários minutos até a extremidade leste do acampamento, onde, realmente, havia uma carroça recheada de barracas já desmontadas. Dale a fez sentar sobre uma extremidade vazia e se pôs a amarrar, meticulosamente as mãos da garota ao redor de uma madeira lateral na carroça.
null ficou quieta, analisando suas opções. Observou de perto todos os movimentos que Dale efetuou com a corda, e quando achava que ele estava se afastando, o soldado se pôs a amarrar seus tornozelos.
Ela não teve muito tempo em pensar ou ter alguma reação, porque vindo pela mesma trilha que eles, surgiu outro soldado que null não conhecia. Cumprimentou Dale com um aceno de cabeça, lançou a null um olhar de desprezo, e se pôs ao lado dela com a mão na bainha da espada. Dale então se posicionou igualmente do outro lado de null e um silêncio surgiu entre os três.
Vários minutos transcorreram e a única coisa que eles ouviam era o ranger cada vez mais distante das tropas se posicionando para atacar. null mastigou a parte interna da bochecha e olhou para Dale:
- Por que você não está lá para guerrear?
Ninguém a respondeu.
- Não é nada honrado para um guerreiro guardar a prisioneira, enquanto a guerra está rolando lá fora.
Ninguém a respondeu. null voltou a morder a bochecha, contou até cem, tentou contar a quantidade de voltas que tinha a corda em sua mão, até voltar a perguntar:
- Nós vamos ficar aqui até os franceses nos alcançarem e nos matar?
Dale permaneceu calado, enquanto o outro soldado se virou para ela e rosnou:
- Não me faça ter que calar a sua boca.
null o olhou indiferente e ergueu uma sobrancelha.
- Quem é você?
O soldado se virou rapidamente e lhe deu um tabefe no lado direito do rosto. null teria tombado para trás se suas mãos não estivessem amarradas à madeira da carroça. Ela se recompôs, cuspiu algumas gotas de sangue, e limpou a boca no vestido.
Estava disposta a descobrir qual era o plano principal da guerra, o que ela estava fazendo ali, e, principalmente, o que teria que fazer para continuar viva. Olhou ao redor mais uma vez, sempre na esperança de ver null se aproximar, mas lhe ocorreu que, como todos agora sabiam que eles haviam dormido juntos, talvez o Rei preferira impedir null de lidar com ela diretamente. Aquilo a preocupou, porque ainda queria ter um último momento com null antes que ele partisse para a batalha.
Mas logo percebeu que isso não seria possível, pois ouviu ao longe o barulho das tropas começando a marchar.
Quando null reapareceu ao seu pelotão, a única pessoa que avistou foi null, sumindo atrás de seu elmo e caminhando para sua formação. Ele olhou ao redor a procura de null. Sabia que havia demorado, pois quase todos os soldados já estavam em formação, mas era ele quem designaria o local aonde null ficaria amarrada.
Desceu de seu cavalo e foi atrás de null para perguntar em voz baixa:
- Quem tirou null daqui?
- Dale. – ele respondeu enquanto subia em seu cavalo – A levou para o lado leste do acampamento, próximo ao bosque.
null olhou naquela direção, mas logo a sua frente uma trompa de guerra soou. Segundos depois outras trompas, em cada formação de guerreiros, responderam ao chamado, soando imponentes e ecoando ao redor.
Os soldados começaram a marchar, e null subiu em sua montaria, trotando até ficar frente ao seu pelotão, ao lado do Rei.
Lançando mais um olhar em direção ao bosque, tudo que pode fazer foi enviar seus pensamentos a null, enquanto uma esperança retorcida apertava seu coração.
#21
Ao longe todos avistaram a imagem da Brighton, e atrás dela, a imensidão do mar. Navios franceses eram discerníveis contra o céu claro, e sobre as muralhas perceberam também arqueiros vigiando e os observando. Era do conhecimento de todos que as muralhas da cidade voltadas para dentro do continente não eram muito reforçadas, já que Brighton era um grande porto inglês e todas suas melhores defesas haviam sido construídas para enfrentar um ataque vindo do mar. Mas isso também significava que os franceses, ao conquistarem Brighton, haviam conseguido quebrar essa maior proteção da cidade com seus navios de guerra, o que fazia todos os ingleses se perguntarem como seria enfrentar tal poderio sobre terra.
Assim que todas as tropas se posicionaram a uma distancia razoável da cidade, Rei Henrique deu um sinal de que todos deveriam parar. null olhou para os lados e viu centenas de soldados os acompanhando, se posicionando, formando a longa linha de ataque. Ao lado deles estavam os três aríetes que foram trazidos e que estariam no controle de null. Torres de cerco estavam logo atrás, e ainda mais atrás as catapultas sendo empurradas e posicionadas.
Assim como null sabia, um batedor seria enviado até o portão da cidade para ordenar, em nome do Rei Henrique, que os franceses depusessem suas armas e desocupassem a cidade e o porto de Brighton, e assim o Rei permitiria que todos partissem sem maiores danos. Caso contrário, o Rei avançaria e expulsaria a todos, sem pretender deixar qualquer um vivo.
Trist se voluntariou para ser o batedor.
null o observou de longe, cavalgar a distancia que os separava de Brighton, e parar em seus portões, gritando, àquela distancia, palavras ininteligíveis aos guardas que o observavam por trás dos portões. Todos aguardaram impacientes, sabendo que tudo aquilo eram apenas formalidades irônicas, quando no fundo, tudo que diziam era: “Essa é nossa cidade, e nós vamos atacá-los”. Ninguém se admirou quando, após vários minutos, Trist se virou e trotou de volta para onde o exercito inglês estava. Quando se aproximou, Rei Henrique foi de encontro ao soldado para obter a resposta.
Trist negou com a cabeça, indiferente, e murmurou:
- Nem se dignaram a responder propriamente. Soltaram alguns insultos, e disseram que estão preparados para nos enfrentar e dominar nossa terra.
A expressão do Rei se formou num esgar de fúria e ele se virou imediatamente, sobre o cavalo, para encarar a mancha de soldados que se estendia à sua frente.
- Que hoje seja marcado como o dia da ruína da ambição francesa. – o Rei Henrique gritou com toda a força de seus pulmões, os músculos em seu pescoço se retesaram, sua voz ecoou no silêncio dos soldados estupefatos. – Faremos que eles se arrependam por terem tentado, por terem ousado nos desafiar. – o cavalo do Rei trotava em frente à multidão – Não me importo com a destruição da cidade. Que as muralhas de Brighton caiam, joguem tudo ao chão, e joguem-nos juntos! – o Rei se colocou no centro da formação dos soldados, ergueu sua espada e gritou uma última vez – Mandem todos para o inferno!
Enquanto um brado ensurdecedor subia da multidão de armaduras, null, assim como todos que ainda berravam, desembainharam suas espadas, agarraram seus escudos, e numa marcha coordenada, começaram a avançar em direção às enormes muralhas de Brighton.
null estava para trás para comandar as catapultas, e após alguns minutos de marcha, um zumbido característico pode ser ouvido. null não precisou olhar, apenas continuou trotando, encarando o portão de ferro exatamente à sua frente, e soube que o pedregulho lançado havia acertado algo extremamente sólido: o barulho de uma colisão se ergueu, e depois dele vários se seguiram, causando, ao longe, a reação dos arqueiros sobre as muralhas. Quando a primeira flecha passou zumbindo sobre a cabeça deles, null ergueu o rosto e berrou:
- Flechas! Protejam-se!
O general pode ouvir o som de milhares de escudos se posicionando, e o mar de soldados se tornou como uma grande carapaça de algum animal furioso, se aproximando cada vez mais da muralha da cidade.
Um soldado a esquerda de null foi atingido por alguma flecha, quando seu corpo tombou, os companheiros simplesmente o pularam e continuaram a marchar, mantendo os ombros colados para se protegerem melhor com os escudos. Segundos depois o rapaz da esquerda não havia sido a última baixa do exército, e null começou a ansiar para que saíssem logo daquela marcha exposta na frente da cidade. As pedras lançadas contra a muralha haviam erguido uma fina poeira de destroços e criado um grande rombo na parte de cima, onde muitos arqueiros se encontravam. As torres de cerco trazidas por eles também tentavam revidar e atrasar os arqueiros franceses, mas, com um aperto no estômago, null viu o momento em que um pedaço caído da própria muralha, foi arremessado por uma catapulta francesa contra uma torre de cerco deles, que se despedaçou completamente e atingiu todos os soldados ao redor. Precisavam imediatamente alcançar o portão da cidade, null temia que os franceses pudessem destruir os aríetes, e sem eles, seria impossível quebrar o portão da cidade. Gritos se ergueram da multidão inglesa quando mais pedregulhos foram arremessados contra eles, e null resolveu sair da formação.
Abaixou o escudo e trotou na frente de todos, gritando ordens:
- Apertem o passo! Mais rápido! – ele deu meia volta com o cavalo e se dirigiu ao outro lado do exército – Mais rápido! Apontar lanças, preparar as toras! – ele viu que se aproximavam do portão de ferro, a poeira de destroços cobriu sua visão por alguns minutos. – Aríetes na frente! Ataquem o portão!
Ele trotou para o outro lado para dar espaço para os três aríetes que se moveram juntos, aproveitando o declínio do terreno para tomar impulso, e se arremessarem contra o portão. O maior aríete seria o central, e os outros dois planejavam atacar a muralha ao redor, tentando colocar abaixo as estruturas que seguravam o portão. Uma fileira de soldados se colocou à postos contra o portão, com toras mais grossas que o corpo de null, e tochas acesas para incendiar tudo que se pusesse no caminho. null ouviu ao longe o Rei Henrique instruindo as torres de cercos a irem de encontro à muralha, ordenando que os soldados a escalassem, alcançassem o topo, e tentassem destruir o portão pelo lado de dentro. null ainda estava para trás com o resto do exército e as catapultas, que precisavam de distância para uma boa precisão.
Uma flecha caiu bem ao lado de null, e seu cavalo pateou o chão de surpresa. Um peso surgiu no fundo de seu estômago – eles precisavam sair logo dali, eram alvos muito fáceis. Porém colocar o portão ao chão poderia levar tempo sem ajuda chegando pelo outro lado.
- Preparem-se! – null berrou para seus homens que se posicionavam para comandar o aríete. O aríete central era tão grande que precisava de mais de uma dúzia de homens para guiar o tronco preso a ele – Todos juntos agora! EMPURREM!
O choque dos três aríetes fez o portão estalar, rachaduras surgiram na muralha ao redor. null não deixou pararem e analisarem o efeito. Voltou a gritar:
- Mais uma vez! – os três aríetes se arremessaram juntos novamente.
Enquanto as colisões e choques contra o portão e a muralha continuavam sobre a instrução de null, ele ouviu gritos serem transmitidos das torres de sitio aos soldados até chegarem a seus ouvidos:
- Começaram a barricar o portão!
- Estão reforçando-o por dentro!
Seus homens o olharam inquietos e duvidosos e null berrou:
- Continuem! Não lhes deem tempo!
null desceu de seu cavalo e se juntou à equipe no aríete central.
- Se barricarem o portão demoraremos muito mais! Outra vez, JÁ.
Juntando sua força à de seus soldados ele deixaram a madeira ser arremessada ao portão e um rombo do tamanho da cabeça de null se abriu.
- AGORA! - o general berrou.
Com todas as rachaduras e as estruturas do portão completamente abaladas, apenas mais uma colisão do aríete central foi necessária. Depois que null deu a ordem, metade do portão foi abaixo, fazendo voar lascas e escombros para todos os lados.
null gritou para que todos avançassem. Com lanças, machados e espadas em mãos os soldados investiram para dentro da cidade. null também fez os aríetes entrarem na cidade para tentar desorganizar a formação dos franceses.
Um exército maciço já os esperava no pátio da cidade, e as duas facções se chocaram em completa desordem, subindo pelos ares os barulhos de armas e berros. Havia arqueiros posicionados nos telhados das casas, e catapultas estavam posicionadas nas partes mais altas da província, voltadas diretamente para eles.
Sem cavalo para ultrapassar a multidão, null escalou um dos aríetes e de lá pulou para o meio do exército francês. Caiu em cima de um soldado, quebrando lhe o pescoço; uns cinco já se voltaram para ele, lhe dirigindo as espadas. No último minuto null conseguiu erguer o escudo para se proteger. Deu um salto para cima e arremessou a borda do escudo contra o rosto de um guerreiro; uma lança tentou perfurar seu ombro, mas a armadura o protegeu. null se virou, rodou a espada no ar sentindo penetrar em seus alvos. Um soldado se aproximou dele berrando, e null desviou, o fazendo tropeçar e cortando lhe a cabeça antes que ele pudesse se equilibrar novamente.
Eles haviam chegado ao meio do dia, e com o sol a pino a armadura de null o queimava e o suor atrapalhava sua visão. Algo o atingiu na cabeça, deixou o tonto tempo o bastante para que alguém lhe desse um chute no peito. null caiu, porém rolou sobre o chão, enquanto uma lança se afundava no mesmo local em que ele estivera. null arrancou o capacete que lhe fazia doer as têmporas, e com um urro de fúria, se pôs de pé, arremessando o capacete no peito do próximo soldado que vira; em seguida girou a espada ao seu redor decepando o braço de um francês que se preparava para atacá-lo.
Mais soldados ingleses conseguiram abrir caminho até onde null estava, e agora cada vez mais corpos se estendiam sobre o chão, o deixando escorregadio de sangue. null tentou usar isso a seu favor, forçando os soldados a se movimentarem rápido para se defenderem; funcionou, e eles acabaram escorregando ou tropeçando nos corpos ao redor, tornando fácil para null matá-los com apenas um golpe de espada.
Barulhos altos o indicaram que as catapultas de null estavam finalmente fazendo as muralhas fraquejarem e desabarem. Olhando para oeste, null viu quando um pedaço descomunal de tijolos se soltou de cima da muralha e desabou ao chão carregando junto soldados de todos os lados.
- Levem-nos para perto da muralha! – null berrou para seus homens – Conduzam-nos de costa para a muralha! – Ele cortou a cabeça de um francês que tentou atingi-lo com o escudo e correu para o aríete mais próximo dele. Escalou-o e gritou com todos seus pulmões – Coloquem-nos na direção da grande parede!
Não foi a estratégia mais rápida de se executar. Obviamente vários soldados franceses também haviam ouvido a ordem de null, e se recusavam a mudar de rota, e havia também o problema de que, enquanto as muralhas não tombassem, o exercito francês ainda estava muito mais numeroso que os ingleses. Mais um pedaço da muralha tombou, caindo em cima de prédios construídos ali perto, fazendo subir pelo ar a poeira dos destroços.
null, enfim, apenas empurrando com o escudo, e se defendendo de ataques, conseguiu empurrar uma linha inteira de ataque na direção da muralha no exato momento que um pedregulho monstruoso a rompeu, deixando parte da parede com apenas metade de sua altura original. Os escombros dizimaram todos os soldados que null havia conduzido a ela, e serviu para inspirar o resto de seus homens, que, seguindo o exemplo e as ordens do general, conseguiram liderar alguma parte do exército francês para a mina de arrombamentos que a muralha se tornara.
null então, colocando seu plano momentâneo de lado, voltou-se para o plano que era sempre o mais bem sucedido: lutar e matar quantos ele conseguisse. Ele avançou com a espada em punho – seu escudo há muito se partira em pedaços – e atacou quantos homens ele viu pelo caminho.
Lutou, chutou, arremessou, decepou e matou, matou, matou até se ver sem fôlego sem mais nenhum soldado ao seu redor. Havia um rastro de sangue e cadáveres por onde null havia andado a medida que seus oponentes caíam. Ele havia chegado a uma rua da cidade em frente ao portão principal; olhou adiante e viu que, descendo a avenida da cidade vinha um pelotão francês gigante marchando em direção a eles.
null deu meia volta e correu o mais que conseguiu até chegar à muralha parcialmente caída. Ali já estava tendo luta com os soldados ingleses que tentavam adentrar a cidade, a passagem estava completamente obstruída pelas linhas de ataque. null então berrou para ninguém em particular.
- ARQUEIROS!
Ele olhou ao redor e viu que ninguém lhe deu atenção. Procurou sobre as partes da muralha que ainda se mantinham firme ate avistar uma de suas torres de cerco recheada de arqueiros. Se pôs a berrar novamente para todos até conseguir chamar atenção do Rei Henrique, que estava no comando.
- POSICIONEM OS ARQUEIROS! – ele gritou e ouviu a mensagem ser passada para frente pelos soldados sobre as escadas – Ataquem a rua principal, vem vindo um novo pelotão! Dêem cobertura na rua principal! – ele gritou mais uma vez antes de se voltar para todos os homens espalhados pelo pátio da cidade.
Reorganizou a maioria que já havia conseguido invadir a cidade, fosse pelo portão, descendo das passarelas já tomadas da muralha, ou pelos buracos feitos pelas catapultas, em frente o novo pelotão francês que avançava, e viu logo que os arqueiros haviam recebido seu recado. Uma chuva de flechas voou sobre os soldados que avançavam a rua, fazendo os tombar feridos, derrubarem seus colegas na linha, e criar um caos na marcha que já era dificultada pela rua estreita. Aproveitando a bagunça que se seguiu, null berrou para seus homens:
- AVANCEM!
Por um momento olhou para trás pensando em como poderia comunicar-se com null, mas então não foi preciso. Uma catapulta atirou em um prédio no meio da rua principal, fazendo o desabar em cima do pelotão francês, soterrando a metade central do pelotão sobre os escombros, e fazendo a metade que havia ficado para trás se perder sem ordens do líder.
- Fiquem alerta, eles darão a volta pelas ruas laterais! – null gritou, correndo sobre as linhas de ataque.
Ele agora procurava um cavalo, procurou com os olhos e achou um garanhão fugindo em uma das ruas acima. Seus arreios indicavam que ele havia pertencido a um guerreiro francês, mas null arrancou com um safanão a bandeirola francesa que era presa à sela, e subiu no cavalo.
Voltou para perto de seus homens apenas para gritar mais uma vez:
- Mantenham a retaguarda em alerta!
null então guiou o cavalo para o outro lado e seguiu o limiar da muralha. Sua intenção era ter uma noção geral do estado que a batalha se encontrava. Corpos, membros e sangue estavam espalhados por todos os lados, a balburdia de armas se encontrando, gritos e lutas se ouviam para todo lado; uma fumaça de sujeira e estragos moldava sua visão, e o caos tomava conta do lugar.
A rua principal onde null conseguira liderar seu homens há poucos instantes não era a única rua por onde os pelotões franceses vinham descendo. Todas as ruas laterais que acabavam no limite da muralha estavam lotadas de franceses marchando em direção aos ingleses que, aos poucos, invadiam a cidade. Precisamos ser mais rápidos, null pensou em desespero, ou eles precisam ficar mais devagar.
E em seguida soube qual seria a solução, mas ele teria que se afastar da batalha. Virou a direção de seu cavalo bruscamente e voltou em direção ao portão principal, por onde uma enxurrada de ingleses não para de avançar.
- Se dividam entre as ruas! – null berrou para eles assim que se aproximou – Rodeiem as muralhas e parem o avanço deles!
Imediatamente os comandantes nomeados se dividiram ao seguir as ordens de null, e ele avançou em direção a uma parte da muralha caída.
Nesse momento, uma flecha, vinda de lugar nenhum, atingiu o garanhão de null na perna, fazendo o cavalo tropeçar e lançar null para frente sem qualquer aviso. Ele voou de cima do animal, caiu de costas sob uma pilha de escombros; sentiu todo o ar ser expulso de seus pulmões e luzes piscaram sob seus olhos.
Por um breve momento null tentou erguer o rosto, gritar. Viu os arqueiros franceses sob o telhado dos prédios, ele apontou, mas ninguém o viu. E então, apagou.
Quando null acordou, o Sol já havia se posto e a Lua se erguia baixa no céu. null não soube discernir o que o havia acordado - poderia ter sido o barulho da batalha, poderia ter sido a poeira que cobria a cidade e que despertou um acesso de tosse nele, ou ainda poderia ser o fogo. Algumas casas mais perto da muralha estavam em chamas, e a alameda que as margeavam ainda estava repleta de pessoas e fulgor da luta. Agora tudo estava mais espalhado, corpos estavam por todas as ruas e havia sons altos de armas se cruzando, gritos e desabamentos mais para o interior da cidade.
null se levantou lentamente, cheio de dores nas costas e sentindo sua cabeça girar. Pôs-se de pé e testou seus sentidos. Tudo parecia bem, a não ser pela tonteira que sentiu quando deu seu primeiro passo. Ele havia perdido sua espada, provavelmente na queda, então olhou ao redor a procura de qualquer arma que pudesse usar. Apanhou um escudo caído no meio dos corpos e uma espada perdida no meio da bagunça. Mas não avançou para a batalha, ele precisava primeiro entender o que havia acontecido.
Olhou ao redor cautelosamente tentando não chamar atenção de nenhum soldado francês. A maior parte frontal da muralha havia desabado, e null percebeu que havia sido um milagre nenhum escombro ter caído em cima dele. Havia sobrado apenas uma torre de cerco inglesa em pé, mas mesmo assim null não viu nenhum sinal de arqueiros em cima dela. Ele decidiu ir atrás do ponto mais quente da batalha, principalmente para ver até onde seus soldados haviam conseguido avançar. Mas infelizmente ele não precisou andar muito, e aquilo o assustou. Todos estavam espalhados, não havia ordem nas linhas de ataque, e as tropas haviam se chocado de tal maneira que null mal conseguia discernir quais eram seus homens e quais não eram.
Não era assim que deveria ser; o objetivo principal era capturar o Rei Rodrik, e os ingleses estavam avançando de modo completamente desordenado. null deu um passo a frente sem saber o que fazer, tentando entender quem havia ficado no comando, quando um soldado francês apareceu de repente em sua frente segurando um machado de guerra. null desviou na primeira vez, ergueu o escudo se protegendo da próxima estocada, e sem querer escorregou no chão vermelho e caiu, completamente tonto. Viu difusamente o machado se dirigindo exatamente para sua cabeça, e rolou sobre no chão no último minuto. Quando o guerreiro francês ergueu sua arma mais uma vez, null ergueu a espada, afundando a completamente no estômago do soldado. Ele largou o machado, que quicou para trás, e caiu sobre null, manchando de sangue suas mãos que seguravam a espada. null rolou para o lado, empurrando para longe o corpo morto do francês e arrancou a espada de suas entranhas.
Num relance, ele conseguiu avistar alguém que parecia null, travando um duelo de espada com um enorme soldado francês. null não conseguiu imaginar porque ele estaria sem seu elmo, e o observou se desviar e atacar por duas vezes, antes de ter completa certeza que era null. Mas ele não deveria estar ali, ele deveria estar lá de fora, comandando as máquinas de guerra...
null avançou para o amigo, e se aproximou por trás do soldado com quem ele lutava; num giro rápido com a espada decepou-o, e quando seu corpo despencou ao chão, null encarou null boquiaberto.
- null! – ele berrou cético – Achei que o havíamos perdido!
E numa ação completamente desapropriada para o momento e lugar, ele puxou null para um abraço.
- O que esta acontecendo? – null o empurrou bravo - Olhe esse caos, null! O que vocês...
Eles foram interrompidos por um soldado que avançou para null, mas null o rechaçou, afundando o escudo contra seu rosto.
- O Rei Henrique se feriu, e o levaram para o acampamento. – null explicou rapidamente – Todos acharam que você estava morto, não havia ninguém para liderar os homens. Estamos tentando avançar, mas eles são muito numerosos. – eles se desviaram de mais dois soldados e se encararam novamente – Está tudo errado null, não era para isso que estávamos preparados. As tropas deles estão organizadas completamente diferentes, não há sinal do Rei Rodrik, eles estão nos dizimando! – null completou com urgência.
null olhou ao redor em pânico. Ainda havia muitos soldados ingleses de pé, mas sem uma orientação e formação estreita do que fazer, logo todos estariam mortos.
- Vamos recuar. – ele murmurou olhando ao redor, novamente procurando um cavalo.
- O que? – null sussurrou em horror.
- Vamos recuar. – null falou novamente.
- Recuar para onde? Precisamos tomar a cidade! Você enlouqueceu? – null agarrou null pela armadura e o sacudiu.
- Eles virão atrás de nós. – null explicou, afastando o amigo mais uma vez – Eles querem nos dominar, se fugirmos eles virão atrás, talvez se acharem que nos acovardamos o Rei Rodrik também apareça. E poderemos nos reorganizar. – null encarou o amigo – É crucial que nos reorganizemos, null.
null assentiu, concordando aos poucos, e por fim deu um suspiro.
- Recuem para o acampamento. Será mais fácil acabar com eles se não tivermos essas construções em nossos caminhos. – null completou e se preparou para afastar.
- Te encontro no acampamento. – null disse, e também se virou para o lado contrário.
E então os gritos começaram, partindo principalmente de null.
- RECUAR!
Ele avançou para o meio dos soldados, matando dois no caminho, e continuou a berrar.
- RECUEM! RECUEM PARA O ACAMPAMENTO!
À medida que os soldados entendiam o recado eles começaram a debandar. null, ao contrário, se meteu mais ainda na batalha, continuando a gritar suas ordens, matando quem se metesse na sua frente. Então alguém surgiu ao seu lado numa fúria tamanha que quase derrubou null.
- RECUAR? VOCÊ ENLOUQUECEU?
Com o elmo null não o reconheceu, mas a voz era inconfundível.
- VOCÊ NÃO PODE...
null não o deixou continuar. Com a mão livre ele agarrou o elmo de Trist e o puxou para perto, entortando sua cabeça.
- Estou mandando você recuar. – null gritou na fenda em que encarava os olhos de Trist – Volte para o acampamento, AGORA.
Trist se afastou num urro de raiva, e deu as costas para null, desaparecendo nas ruas que levavam para fora da cidade. Aos poucos a mensagem chegou a todos os ingleses e todos começaram a se virar e correr; os franceses foram pegos de surpresa e, sem ação, lhes concederam segundos de vantagem para ganharem terreno na corrida.
null foi um dos últimos a se virar e debandar. Quando chegou ao portão e muralhas destroçados, ele teve uma noção geral de quantos soldados eles ainda tinham, e com uma dor no fundo do estômago, correu. Correu como nunca tinha feito antes.
null havia ficado em constante agonia desde que começara a ouvir os barulhos da batalha ao longe. E seu sentimento se tornava pior quando Dale e o outro soldado decidiam especular o que estava acontecendo.
“Destruíram o portão.”
“As muralhas devem ter caído.”
“Um catapulta provavelmente atingiu uma torre de cerco.”
null mastigava o interior da boca com tanta aflição que em meia hora já sentiu o gosto de seu sangue. Não lhe foi oferecido nenhum alimento ou bebida durante todo o dia, mas seus guardas tampouco se alimentaram também. null podia perceber que ambos estavam tensos, e conforme o dia avançou eles começaram a esquecer para que estavam ali.
Dale já não se preocupava em manter a mulher sob seus olhos, e o soldado desconhecido frequentemente se afastava para tentar ver algo no horizonte. null contorcia os pulsos e os tornozelos de quando em quando tentando afrouxar as cordas para qualquer eventualidade, mas isso apenas serviu para lhe dar a dimensão do quanto firmemente amarrada ela estava. Após algum tempo tentou apalpar a adaga que trazia atada à sua coxa, e conseguiu tateá-la, mas para agarrá-la ela teria que levantar suas saias, e aquilo estava fora de cogitação por enquanto. null se manteve alerta todo momento, tanto que foi a primeira a perceber que alguém se aproximava do acampamento.
Ela levantou a cabeça como uma raposa, mantendo os olhos fixos onde sabia ter ouvido movimentos, e nesse momento o soldado desconhecido veio correndo de algum ponto à frente.
- O Rei foi ferido.
Dale se levantou imediatamente e correu ao seu encontro. Eles se mantiveram alguns metros à frente da carroça que null estava amarrada, e conversaram apressadamente em voz baixa. null tentou ouvir, ler lábios, ver qualquer outro movimento alem dos soldados, mas nada conseguiu. Porém teve certeza de ouvir a palavra muralha. Todos haviam concluído, devido ao barulho, que as muralhas haviam caído, portanto qualquer ferimento relacionado a ela certamente era grave.
O soldado desconhecido se afastou e logo depois sumiu, Dale voltou para seu posto ao lado de null. Ela o olhou com indiferença e perguntou:
- O que houve?
Dale não lhe respondeu.
- Ele morreu, foi?
Dale lhe lançou o olhar cortante, dizendo:
- Mais uma palavra e eu te penduro numa árvore pelo pescoço.
A mulher ergueu as sobrancelhas e se calou. O Sol estava se inclinando e aquilo não era nada bom. Alguma noticia mais concreta da batalha já deveria ter chegado além de que o Rei Henrique havia se ferido gravemente.
As coisas continuaram monótonas para null até o crepúsculo. Quando tudo começou a ficar escuro e nada emocionante havia acontecido, o soldado desconhecido retornou. Chamou Dale a um canto, e null se inclinou novamente para ouvi-lo. E então, ela teve certeza da intenção daquelas palavras.
Os soldados apontaram para ela durante a conversa, e Dale lhe lançou um olhar rápido antes de assentir silenciosamente. O guerreiro desconhecido se afastou e Dale desembainhou a espada, a mantendo pendida ao seu lado como se esperasse por ordens.
null, num ímpeto de nervosismo e confusão começou a torcer os pulsos e puxá-los tentando se soltar. Não sabia o que estava acontecendo, e a falta de movimentos e noticias lhe davam o péssimo agouro que a batalha estava indo mal, o que deixava o exército inglês com seu único trunfo na manga: ela. E aquela última conversa entre seus guardas não melhorou em nada seu otimismo. Mas nesse momento ela teve certeza de ouvir uma agitação de folhas no bosque a seu lado. Ela parou de se contorcer e olhou assustada para o meio das arvores. Permaneceu longos segundos quieta, tentando ouvir qualquer outra coisa, mas como não aconteceu, ela voltou a se concentrar nas cordas.
Torceu seus pulsos com toda a força que tinha, sentiu sua pele se repuxar, seu músculo protestar, um vergão latejar dolorido, mas não afrouxou a mão. Balançou os braços, fincou as unhas por entre as voltas que a corda dava em seu pulso e a puxou, tentando lacerar, romper as fibras... Foi quando Dale se deu conta do que ela estava fazendo.
- Ei! – ele gritou se aproximando – Pare com isso agora!
null nem sequer levantou o rosto para olhá-lo.
- Estou avisando! Vou amarrá-la a uma pedra e arremessá-la sobre a cabeça de seus compatriotas.
A pele de null ardia, e ela percebeu que pequenas gotículas de sangue já começavam a minar de seus pulsos. Dale então se aproximou num rompante e a agarrou pelos cabelos, erguendo sua cabeça.
- Talvez eu precise te matar mais cedo do que eu esperava. – ele rosnou tão perto que null pode sentir o cheiro de seu hálito.
A mulher o olhou com desprezo e sem que Dale esperasse, chocou sua testa contra o nariz dele. Dale cambaleou para trás com um urro de dor e agarrou o nariz quebrado tentando impedir o sangue de escorrer livremente para sua boca, escorrer por seu queixo, molhar sua armadura... null mal lhe deu atenção, se inclinou para trás e ergueu os tornozelos amarrados; sua saia escorregou deixando suas pernas a mostra, e null se mexeu, dobrou as pernas, inclinou-as para o lado, se contorceu e esticou a mão o máximo que conseguia, apalpando com a ponta dos dedos sua adaga presa à coxa. Não era o suficiente para agarrá-la. Dale pareceu se recuperar do ataque e se aproximou novamente furioso. Quando ele estava perto o suficiente, null moveu com força os pés amarrados em sua direção e acertou-o em cheio na têmpora - o soldado tombou novamente. null então se desesperou, precisava se soltar e parecia não conseguir. Novamente se inclinou o máximo que conseguiu, dobrando as pernas, esticando os braços, sentindo os músculos em câimbras, e com toda a paciência que conseguiu reunir naquele momento, deslizou devagar, com a ponta dos dedos, a adaga da tira de couro que a prendia à sua perna.
A mulher voltou a se endireitar na carroça e olhou ao redor. Ninguém havia aparecido e Dale parecia estar inconsciente sobre o chão. Ela então se pôs, meticulosamente, a friccionar a adaga sobre as cordas que prendiam seus pulsos. Aos poucos as fibras foram se rompendo e se soltando. null sentiu o suor a impregnar, escorrer de seu rosto, e seus cabelos lhe caírem sobre os olhos. Mas ela não se deixou desconcentrar. Durante sofrido minutos, com sua força e disciplina vacilando, ela continuou a cortar o que a prendia. Quando enfim sentiu seus pulsos livres, ela pulou da carroça. Foi direto ao chão, pois seus calcanhares também estavam presos um ao outro num laço firme. Mas null se arrastou até atrás de uma das rodas enormes da carroça e ali se sentou, se encurvou para frente, e recomeçou o processo de romper a corda que lhe prendia os pés. Manteve-se no mesmo método, tentando apressar seu ritmo, sentindo seu coração bater alto no ouvido. Então ouviu algo se mexendo atrás dela.
O pânico pareceu subir pelo seu peito, e ela olhou para trás assustada. Viu que Dale se mexia no chão onde estava caído. null lhe virou as costas e, mais do que antes, apressou os movimentou sua adaga, talhando a corda aos poucos. Dale se levantou no momento que null se livrava dos últimos fios em volta de seus tornozelos.
Em questão de segundos, Dale estava ao seu lado, rosnando como um animal atiçado e a espada em punho. null se jogou ao chão, se arrastou por baixo da carroça para tentar atingir o lado oposto, mas uma mão de ferro agarrou seu tornozelo já ferido, e a puxou de volta.
null gritou de susto e medo e, quando se virou para encarar Dale, ele já se erguia alto sobre ela com a espada levantada. Seu rosto estava descomunal, cheio de raiva e manchado de sangue. A espada desceu sobre ela, e no último minuto null girou para o lado. Quando a ponta da arma afundou sobre a terra, null aplicou um chute na canela do soldado e se arrastou para o lado antes de se levantar e sair correndo.
Não parou para olhar para trás, e não correu pelo acampamento, mas adentrou o bosque que estava ao seu lado. Os galhos de arvore bateram em seu rosto, agarraram-se em seus cabelos e roupa, e ela continuou correndo. Não fazia a mínima idéia para onde estava indo; queria se manter perto da orla para conseguir ver alguma coisa, por isso mudou sua rota, olhando para o lado, tentando discernir o acampamento. Tudo estava vazio. Parecia ao longe haver sinal de fogo, mas deveria ser a cabana onde o Rei Henrique estava sendo tratado. null silenciosamente se aproximou o máximo que pode das árvores da borda, e espiou por trás de um tronco, tentando ver algo a mais, ouvir algo da batalha, ou ao menos pensar em algum plano de última hora.
Mas seu raciocínio se perdeu quando viu alguém se aproximar pela trilha do acampamento, a pessoa já a encarava. Ela se virou para olhar assustada e prendeu a respiração.
Frank.
Frank estava ali, na sua frente, parado e hesitante.
Eles se encararam em silêncio durante longos segundos enquanto null tentava processar o que estava vendo. Seu irmão... Não poderia estar ali. Ele... ele estava morto. Ela achava que ele estava morto.
null arquejou e tentou dar alguns passos em direção a ele. Esticou suas mãos, precisava tocá-lo, precisava provar para si mesma que... ele estava vivo, que ele não era uma mera brincadeira de sua imaginação. O irmão também caminhou em direção a ela, e justamente quando seus joelhos despencaram os braços grandes de Frank a rodearam.
null o olhou maravilhada, pasma... Passou os braços sobre o pescoço dele, o apalpou, cheirou, apertou... Era seu irmão, cansado, abatido, ferido e mais magro - mas era Frank. Como ele estava ali? Da onde veio, onde estivera todo esse tempo?
Com coração aos pulos, sem ousar desgrudar os olhos do irmão, null sentiu as lágrimas começarem a escorrer por seu rosto, e não fez o mínimo esforço para impedi-las.
Chorou por estar com Frank. Chorou por saber que ele estava vivo e bem, tão perto dela novamente. Chorou por ter chorado a morte equivocada dele. Chorou por saber que havia quebrado a promessa de Frank. Chorou por ter perdido seu pai para a guerra. Chorou por estarem onde estavam. Chorou por ter se tornado uma mulher que o irmão não reconheceria mais. Chorou por estar patética, por ter se tornado miserável.
Chorou por estarem em guerra, por estarem lutando em facções contrarias. Chorou por estar contra seu país. Chorou porque o homem por quem se apaixonara estava no último lugar em que ela gostaria de estar. Chorou por amar null mais do que podia suportar. Chorou por não agüentar mais ser si mesma.
Chorou porque, embora quisesse, não conseguiria fugir com Frank.
Chorou com tanta dor e amor como jamais choraria novamente.
#22
null chorou por tanto tempo que, se não fosse por Frank, ela continuaria a se debulhar em lágrimas durante toda a noite. Mas o irmão a sacudiu de leve e murmurou:
- Vamos, pare com isso. Precisamos sair daqui.
null levantou os olhos, mas não conseguia mais enxergar normalmente. As lágrimas embaçavam sua visão de tal forma que ela precisou se afastar, limpar os olhos e respirar fundo várias vezes para se controlar e conseguir responder:
- Frank... me perdoe.
- Temos tempo para isso depois, null. – null observou que ele estava muito corado, e provavelmente guardando suas lágrimas para depois. Frank a sacudiu novamente e se levantou, puxando a irmã junto de seus braços fortes.
null se firmou, ainda encarando Frank.
- Eu achei que você estava morto. – a garota se apressou a explicar – Me disseram que você já era. E ninguém queria me dizer mais do que isso. – null ofegou tentando clarear a mente – Se eu soubesse... Se soubesse que haviam te mantido vivo, se eu tivesse percebido a menor pista que poderia te salvar, eu...
- null, você não poderia me salvar. Você nunca pode. – Frank segurou a irmã pelo rosto – Não poderíamos lutar contra eles lá. – meia dúzia de lágrimas voltaram a cair dos olhos de null, e o irmão a abraçou, murmurando - Por favor, vamos sair daqui primeiro e então poderemos esclarecer tudo. – Frank começou a puxá-la para a trilha do acampamento – Também quero saber como você veio parar aqui.
null, porém, olhou para o lado, murmurando:
- Não... Há um soldado atrás de mim, e provavelmente daqui a pouco muito mais.
- Ninguém virá te procurar por algum tempo, eu cuidei disso.
null o olhou, assustada.
- Você... Você viu...
- Eu estava logo atrás de você quando conseguiu fugir da carroça. Matei aquele que estava tentando te pegar.
null encarou assustada seu irmão por meros segundos, enquanto processava que ele havia matado Dale. E então assentiu firmemente.
- Ótimo, menos um então. Mas Frank... – ela hesitou novamente – Eu não posso... Não posso sair daqui agora.
- Como não? – o rapaz a olhou impaciente. – null, a batalha mal começou, temos que dar o fora agora!
- Você não entende. – null olhou ao redor, pensando em como poderia explicar – Frank, o general inglês, ele... eu...
Frank negou com a cabeça, segurando os dois braços da irmã:
- O general deles caiu há muito tempo, e o Rei também não demora muito nesse mundo...
null sentiu o chão sumir sobre os seus pés. null.
- O... o que?
- Eles mal conseguiram avançar até a Praça Central, e... null?
Ela sentiu o irmão a segurar pelos ombros. Sentia-se febril. null.
- Não... – ela murmurou, enquanto sentia espasmos tomarem conta de seus músculos.
null não podia estar... Não, não podia. Doía em seu peito, em seu pensamento, embrenhava-e em seu corpo consumindo qualquer objetivo que restava em sua vida.
Sentiu Frank a arrastar para dentro do bosque e se deixou levar, completamente sem forças para resistir. Frank poderia ter confundido quem era o general ou... ‘O general deles caiu’ poderia não significar que null estava...
Algo quente se agitou em sua barriga, subiu pelo seu peito como uma febre que corrói todos seus órgãos vitais e lhe tira o ar. null estava morto.
- null, olhe para mim agora! – Frank agarrou seu rosto, pressionando suas bochechas com uma mão e a forçando a olhar em seus olhos – Qual é o problema? Olhe para mim!
null percebeu que eles haviam entrado no bosque até uma pequena clareira onde um brilho fraco da Lua conseguia adentrar, iluminando precariamente o rosto de Frank. Mas null o conhecia bem o bastante para saber que ele estava bravo, impaciente e confuso com aquela sua atitude infantil. Só alguns ressentimentos a mais depois de tudo o que ela já havia feito para decepcioná-lo...
Mas ao encarar o semblante tenso de Frank algo se acendeu no peito de null. Ela havia passado meses constantemente ciente que Frank estava morto, e que ela jamais o veria novamente. E, no entanto, Frank estava ali...
- Como você sabe que null está morto? – null perguntou.
- Quem? - O irmão respondeu inquieto.
- O general. null.
Frank respondeu prontamente.
- Foi o que nos disseram. Já passava do meio do dia quando nos avisaram para avançar com tudo, que não havia mais liderança, o general inglês havia tombado.
Isso era tudo que ela tinha tido de Frank também, notícias equivocadas, passadas de boca em boca. null soltou uma respiração entrecortada enquanto tomava sua decisão.
- Não posso ir agora. – ela disse sem encarar o irmão. – Me espere, eu o alcançarei, mas antes preciso ter certeza.
Ela se virou, ele porem, lhe prendeu pelo braço.
- O que você está fazendo? – Frank a olhou como se estivesse maluca.
- Vou tirar essa informação de algum soldado inglês, aproveitarei que o acampamento tem poucos soldados e...
- Não! – Frank ergueu a voz e avançou para ela – Não vai fazer mais nenhuma burrice na sua vida, não quando atravessei o oceano para vir lhe pegar e te levar de volta para casa.
Mas null não o ouviu. Soltou seu braço do aperto do irmão e caminhou depressa pelo caminho tortuoso do vale. Ouviu Frank gritar, reclamar, mas não se abalou. Haviam trago o Rei de volta, talvez também tivessem trago null, ou alguém deveria ter visto null...
null enfim saiu do meio das árvores para a trilha batida do acampamento, e respirou o ar livre da umidade abafada das árvores. Olhou para os lados para continuar a ver ninguém, mas percebeu que, ao longe, uma grande multidão se movia. Ela analisava o horizonte, quando Frank surgiu ao seu lado e seguiu seu olhar, e após alguns instantes prendeu a respiração.
- Infelizes! Eles estão batendo em retirada.
- O que? – null se virou imediatamente para ele. – Eles não podem bater em retirada! Eles...
- Claro que sim. – Frank murmurou, ainda olhando a mancha de soldados se aproximar ao longe. – Os franceses virão atrás deles. Aqui eles estarão em terreno livre, de costas para o leste. Se conseguirem segurar até o amanhecer...
Frank divagava em voz baixa, enquanto null tentava raciocinar. Eles estavam voltando. Ela devia, sim, dar o fora dali o mais rápido possível. Mas...
- O que houve? – ela perguntou em voz baixa – Eu lhes disse tudo o que sabia, toda a hierarquia francesa, onde Rodrik estaria e...
Frank a olhou com complacência.
- null, eles sabiam o tempo todo que você estava aqui. Eles mudaram tudo, todas as linhas de ataque e defesa. Rodrik não estava na batalha, estava dentro do castelo esperando os ingleses serem dizimados antes de sair porta afora.
null observou o irmão, boquiaberta, e sentiu um peso enorme sobre os ombros. Tudo pelo que ela havia sofrido e dito... Havia sido em vão. null...
O recuo dos ingleses só lhe demonstrava que eles estavam sim sem ninguém no comando, e só deveria lhe provar que null estava, realmente, morto. Mas depois de ter a prova viva de Frank, ela não viraria as costas novamente para quem amava sem qualquer prova concreta de sua morte.
- Frank. – null se virou apressada – Você precisa entender. Eu preciso saber se null está morto ou não. Eu não posso cometer o mesmo que erro que cometi com você. – ela acrescentou, segurando o rosto do irmão ao perceber que ele lhe interromperia. – Eu irei atrás de você. Eu prometo. Acredite em mim agora. – ela sentiu seu coração acelerar em nervosismo, seus olhos se encheram de lágrimas outra vez – Frank, eu o amo...
O rapaz parou de tentar interrompê-la. Olhou para irmã em silêncio, e a única coisa que null percebeu a encarando de volta foi pena.
- Não pode amar um general inglês que a prendeu e a torturou. – Frank respondeu devagar, como se caminhasse cuidadosamente na mente irracional da irmã.
- Não foi ele. Ele... cuidou de mim, me tirou da prisão, me deu vida novamente.
Ela percebeu pelo olhar do rapaz que ele não havia acreditado, e que alguma parcela dele estava começando a desconfiar que null havia perdido o juízo.
- null... – ele murmurou, hesitando – Não pode acreditar que isso seja verdade. Você é uma francesa, nenhum general inglês poderia... – Frank se calou. ... te amar.
As palavras nunca foram ditas, mas ambos as ouviram claramente, e os olhos de null, que nunca chegaram a secar de verdade, voltaram a se encher. Ela negou silênciosamente quando as lágrimas caíram, e respirou fundo. Se aproximou novamente de Frank.
- É a última coisa que te peço. E então faço o que você quiser, onde e quando você quiser. Apenas... Me dê um tempo para descobrir a verdade.
- Não temos tempo! Não pode ficar aqui. Seu guarda está morto, você está solta e eles estão perdendo. – o irmão apontou para o horizonte, e null viu que os soldados recuando estavam agora muito mais próximos. - null, pelo amor de Deus, esqueça esse homem e vamos embora!
- O que vamos fazer, Frank? Voltar para Brighton, entrar em um dos navios e nos escondermos? Fugirmos e vivermos foragidos na Inglaterra?
- Eu tenho um acordo com Lorch. Ele nos contrabandeará para dentro de um dos navios de volta para França e...
Mas null interrompeu o irmão com urgência.
- Quais são as chances disso dar certo?
- NÃO SEI! – Frank se descontrolou dando um passo em direção a ela - Não pensei nisso, ok? Me forçaram a vir lutar e você estava aqui, presa, surrada, esfomeada. – ele a apontou com as mãos - O que queria que eu fizesse? Te desse as costas? Te esquecesse? Te abandonasse como você abandonou meu filho e mulher? – Frank se inclinou para ela com malicia - Te deixar aqui para fazer loucuras por um general qualquer que não faz a mínima ideia de quem você é? Perdi minha família e você é a primeira chance que tive de recuperá-la, então é melhor você vir comigo.
Um longo silêncio se seguiu a essa falha onde ambos se encararam. Frank perscrutou os olhos da irmã atrás de qualquer fraqueza, mas a conhecia bem demais para saber que se alguma hora chegara perto de convencê-la a acompanhá-lo sem olhar para trás, esse momento já havia passado. Ele podia ver em seus olhos, naquele instante, que null não voltaria atrás. Que nenhum de seus argumentos haviam atingido-a como ele pretendia, e que aquele general, quem quer que fosse, era tudo o que restara de dignidade na irmã.
O barulho dos soldados ingleses chegou a seus ouvidos quando o começo da tropa atingiu o acampamento.
Frank enfim, deu um passo para trás. null esticou o braço numa última tentativa de justificar-se.
- Frank, eu... – ela murmurou, sentindo as lágrimas escorrerem - Eu juro que te encontrarei.
O irmão negou silênciosamente e devolveu com a mesma voz embargada.
- Acho que você já fez essa promessa a si mesma tempos atrás.
Ele não a deixou responder. Deu-lhe as costas e sumiu entre as árvores.
- Frank! - null chegou a dizer no meio de soluços. – Frank!
Mas o irmão se fora.
As árvores da orla onde ele estava segundos atrás lhe pareceram mais negras, mais embaçadas, tremeram em sua visão enquanto null soltava um esgar de dor.
Ela sabia que todos os soldados ingleses já estavam ali. O barulho, a balburdia, o cheiro, o calor... Ela precisava se mover e sair dali. Mas não houve tempo. Quando se virou viu alguém logo atrás de si. Uma mão duramente enluvada lhe cobriu a boca, puxou sua cabeça para trás enquanto a outra segurou seus braços, e ela descobriu que não queria mais lutar.
Era sendo levada que ela descobriria onde estava null.
null estava empapado em suor e com os músculos em câimbra quando finalmente atingiu o local do acampamento. Via seus homens em todas as partes, estirados ao chão, tomando fôlego, tentando cuidar de seus ferimentos às pressas, bradando argumentos uns com os outros, se justificando, se enraivecendo... Muitos os olharam, esperaram por ordens, mas sua voz havia sumido soterrada pelo cansaço e a necessidade de tomar ar. Tentando não mostrar a seus homens que não sabia o que fazer, null lhes virou o rosto e se encaminhou para a parte mais iluminada do acampamento, onde as tochas já estavam acesas a mais tempo – a tenda do rei Henrique.
Entrou sem anunciar sua presença já sabendo o que iria encontrar. A tenda estava cheia de soldados da guarda do rei e os comandantes nomeados. Todos ergueram os olhos e respiraram aliviados quando null entrou. O rei estava em pé, andando de um lado para o outro, sem camisa e com faixas brancas manchadas de sangue enroladas em seu peitoral o fazendo ficar levemente encurvado de dor e desconforto. Ele parecia muito pálido, mas pelo olhar que lançou a null, ele percebeu que o rei ainda estava determinado e firme. E ele foi o primeiro a se manifestar:
- Espero que esteja inteiro, ao contrário de mim, general null.
null soltou um suspiro e assentiu com a cabeça.
- Ainda está inteiro, majestade. E o manteremos assim para ver nossa vitória.
O rei assentiu, não se dando o trabalho de devolver a cortesia.
- Me fale de números. – ele ordenou – Me diga quantos homens ainda temos para distribuirmos em linhas de ataque.
null se pôs imediatamente a fazer estimativas, e em corridos minutos os dois, juntamente com os comandantes restantes, conseguiram fazer um pequeno esquema da estratégia mais forte e apressada que conseguiram montar. null enfim deixou a tenda, e logo nos primeiros passos gritou com toda sua voz para chamar a atenção dos soldados.
Pela primeira vez no dia estava começando a sentir sua garganta em carne viva depois de tantos brados e ordens berradas. Mas em momento algum isso lhe afetou. Olhou ao redor enquanto passava as novas coordenadas a seus homens: arqueiros nas árvores, a linha da retaguarda comandada por Warren, e o ataque seria liderado por null. Com a noite, null não conseguia visualizar o rosto de todos seus soldados, e os poucos archotes nada lhe davam além de uma mínima visão. Por isso ele deu a ordem de acenderem quantas tochas fossem possíveis e atá-las no limite frontal do terreno para proporcionar a máxima visão possível aos arqueiros. Quando null explicitava exatamente quais pelotões seguiriam com os respectivos comandantes, uma confusão no meio dos soldados lhe chamou a atenção.
Trist emergiu do meio dos homens, caminhando tranquilamente em direção à tenda do rei, sendo seguido por Earl e null, e entre seus braços estava um vulto imobilizado que, com um pânico no estômago, null percebeu ser null. Ela estava pálida, encardida, e machucada, com rastros de sangue na testa e nos pulsos.
O rei não havia dado a null ordens nenhuma em relação à null, e com tantas coisas para se preocupar a segurança dela havia sido varrida de sua mente. Mas agora null sequer raciocinou ou considerou qualquer coisa que fosse, e num rompante, acabou ele mesmo com a distancia que havia entre ele e Trist:
- Tire as mãos dela. – murmurou com raiva contida, já esticando os braços para arrancar sua mulher dos braços do outro soldado.
- Acho que não. – Trist respondeu para que todos os ouvissem - Dessa vez, general null, - ele disse ironizando-o - Me reportarei diretamente ao rei.
E se virou sem mais nenhuma palavra, se dirigindo à tenda real. Reprimindo qualquer vontade de socar o soldado até a morte, null correu atrás dele, entrando na tenda logo atrás de Trist. Este caminhou até em frente o rei, e empurrou null com desprezo diretamente ao chão.
- Como ordenado, majestade, a apanhei.
O rei Henrique, que havia se sentado, voltou a se erguer de imediato exibindo no olhar algo que deu medo a null. O rei poderia apresentar complacência, mas não era exatamente o homem que null escolheria para desafiar. Confuso e amedrontado, ele resolveu agir antes que Trist piorasse a situação.
- O que está acontecendo aqui? – null deu vários passos até a frente do rei, e se curvou, ajudando null a se levantar; quando ela se firmou, porém, null procurou não olhá-la diretamente, e procurou a explicação nos olhos do rei.
- Perceba você mesmo o que sua protegida fez, general. - foi Trist quem lhe respondeu, insolentemente – Dale está morto e ela estava foragida nos arredores... Até agora a pouco. - ele se virou para responder ao rei – A apanhei tentando fugir pelo bosque com um soldado francês qualquer.
- Eu não acredito no que está dizendo. – null revidou imediatamente. Não poderia ser verdade. Tudo estava caminhando para o caos. Se null havia mesmo matado Dale, não havia muito que null podia argumentar para livrá-la de alguma punição.
- Não está duvidando de mim, general. – Trist o fitou com desprezo – Está duvidando do seu rei.
- É verdade, null. – Rei Henrique tomou a palavra – Dale havia recebido ordens de trazê-la há um tempo, e não apareceu, foi quando descobrimos que jazia morto e a francesa não estava em nenhum lugar perto.
- Dale não recebeu ordens para me levar para lugar algum. – null respondeu para ninguém em particular, sua voz feminina contrastando estranhamente com todas as vozes ao redor – Ele estava se preparando para me matar. – null percebeu que ela se justificava para ele. Seus olhos o procuraram e por rápidos segundos ele se olharam, antes que Trist a agarrasse pelos cabelos e a fizesse se dobrar.
- Cale a boca se não quiser morrer mais rápido.
- Tire as mãos dela. – null bradou, dando um passo em direção a ele. Mas o rei os interrompeu.
- Chega! Ela não falará mais nada, null. – a voz do rei era tão poderosa que todos na tenda se mantiveram calados, o olhando estupefatos – Ela já nos logrou o bastante com todas suas informações falsas e deturpadas, nos enviando para a batalha mais inútil que já travamos. Enviei meus homens para a morte sob as coordenadas dela, e a única coisa que conseguimos foi trazer os franceses para mais dentro do nosso território!
- NÃO! – null gritou, se contorcendo para se soltar do aperto de Trist sem sucesso – Eu lhe dei informações que eram verdadeiras quando eu estava infiltrada! Eu não sabia...
- Não me importa mais as suas razões. – rei Henrique a interrompeu – Você já não serve mais para nada. – ele deu um passo para trás, procurando sua cadeira para voltar a se sentar – Levem-na daqui.
Mas null deveria saber que null não iria pacificamente. Quando Trist passou o braço sobre seu corpo para imobilizá-la, ela arremessou seu cotovelo diretamente no rosto dele, e se contorceu como uma enguia para fugir do aperto do soldado.
Quando Trist cambaleou com o golpe, null e mais outros tantos presentes na tenda deram passos em direção a ela. Tudo que null precisava fazer era chegar nela primeiro, convencê-la a ficar quieta para que ninguém pudesse machucá-la mais. Com um passo, null já estava sobre null. A segurou por trás, e ela imediatamente se virou arremessando um soco em direção a null, mas ele segurou seu pulso antes que este lhe atingisse o maxilar. Na agitação, null se virou e seus olhos se encontraram, e ela percebeu o que estivera prestes a fazer. Seu corpo perdeu a tensão nos braços de null, e seu pulso pendeu molemente ao lado do corpo. Seus olhos encheram-se de lágrimas quando null murmurou:
- Pare com isso.
Mas nesse momento todos os outros soldados já os alcançavam. Alguém agarrou os pulsos de null e os amarrou novamente em voltas de corda. Seguraram-lhe a cabeça para trás e alguém arrancou seu corpo dos braços de null. Ele se virou em fúria, antes de perceber que era null. Com um suspiro de alívio deixou que o amigo levasse null para longe dele, levando-a para fora da tenda. Foi quando null começou a gritar:
- Eu não matei Dale! – ela se sacudiu nos braços de null, lágrimas começaram a escorrer por suas bochechas – Era ele quem ia me matar se eu não escapasse! Eu não pretendia fugir, permaneci nos bosques esperando... null, Por favor! – null a virou em direção à saída, e um último grito dela pode ser ouvido – Por favor!
null abaixou a cabeça quando eles desapareceram. Entendeu que havia pedido a null para parar de resistir e de lutar por sua vida, que havia sido tudo que ela fizera desde que chegara ali. E ela pendera inerte em seus braços simplesmente porque fora um pedido seu, já que aquilo não eram as características de sua natureza. Não podia deixar que nada acontecesse com ela. Não agora.
null ergueu os olhos e andou em direção ao rei.
- Não a mate. – ele murmurou – Ela não sabia que as tropas francesas haviam mudado sua formação. Ela disse a verdade. – o rei ergueu a mão para que null se calasse, mas ele continuou – Ela sempre cooperou conosco, majestade. Ela nunca havia atacado nenhum soldado nosso antes, ela...
- Basta. – a voz do rei soou poderosa novamente. – Não me interessa o que você tenha a falar a favor dela, general. No seu cargo eu esperava que você mostrasse mais cautela ao se tratar de uma traidora francesa.
- Ela não nos traiu, majestade! – null ergueu a voz em revolta.
- Desculpa, null, mas traiu sim. – Trist apareceu a seu lado com um corte no supercílio – Já disse que a vi na orla do bosque em companhia a um soldado francês.
null se alterou, preenchido pela raiva de Trist que lhe inflamava cada pedaço da alma.
- Acontece que eu não acredito em uma palavra do que você diz, Tristan. Suas informações são tão...
- Ele não foi o único, general. – uma voz o interrompeu.
null se virou com raiva para fitar quem havia falado.
- Todos nós havíamos recebido ordens de procurar a francesa. – Earl continuou – Todos nós a avistamos na presença de um soldado estrangeiro antes que Trist a alcançasse.
null se virou mais uma vez e Trist o olhava novamente com o olhar insolente e arrogante, desafiando null a dizer algo mais. Mas null permaneceu resoluto.
- Majestade, tem de confiar no meu julgamento.
O rei permaneceu em silêncio, fitando null. A voz de Trist soou zombadora:
- Não me diga que você se afeiçoou a ela, null.
null o ignorou e continuou fitando o rei Henrique.
- Ela diz que não matou Dale, e ela nunca nos deu razão para desconfiarmos dela. Eu confio nela.
- Me poupe, null! – Trist se alterou – Não enxerga o que aconteceu aqui? Nada do que ela nos disse aconteceu! Todas as formações das tropas estavam diferentes, metemos os pés pelas mãos, Dale está morto. Como ainda pode confiar nela? Ela traiu sua própria pátria, passou informações a nós, o que o faz pensar que ela não faria o contrário?
null estava se vendo encurralado, sem palavras para argumentar. O pânico lhe subia pelo pescoço, seu coração martelava alto enquanto ele tentava encontrar argumentos.
- Eu era o encarregado de monitorá-la. Eu a conhecia...
- Depois do que vimos hoje eu sugiro que ela seja considerada traidora. – Trist se virou para o rei, desprezando as fracas frases que null havia conseguido articular – Ou uma dupla traidora, sabe-se lá quantas caras tem. Não a entregue aos franceses – o soldado adicionou com uma felicidade feroz no rosto – Mate-a, e deixe o corpo para eles verem do que somos capazes.
- Nós não somos esse tipo de bárbaros! – null se alterou - Vamos defender nosso território, expulsá-los daqui, e deixar null fora disso tudo.
- Ela é isso tudo. Eles a reivindicaram! Eles acabaram com nossos portos e nosso litoral, e você está defendendo a única francesa a que tem controle: a francesa que eles querem. – Trist tomou fôlego antes de anunciar com toda sua voz – Mate-a de uma vez!
null finalmente avançou sobre Trist agarrando-lhe o pescoço com as duas mãos. Gritou todos os insultos que lhe passaram pela cabeça, o amaldiçoou em todas as gerações, e antes que alguém pudesse dizer algo, afundou o punho no rosto de Trist. Teve a impressão de sentir alguns dentes quebrarem sobre o peso de sua mão, e mais do que rapidamente terminou de empurrar o soldado para trás e lhe pisou sobre o pescoço. Desembainhou uma espada qualquer que havia conseguido na batalha e a espetou sobre o queixo do soldado.
- Peça por uma morte novamente. Será a sua.
- BASTA! – a voz do rei pareceu reverberar por mais de uma milha. Uma dúzia de soldados alcançou null e o seguraram de todas as maneiras possíveis e ele não resistiu. – Vocês não nos farão perder o território por causa de uma MULHER! – o rei rugiu – Fiquem a vontade para se matarem, mas fora da minha tenda. – o rei se curvou para a frente apalpando suas bandagens já completamente vermelhas por causa de seus variados movimentos – Quanto à francesa, Earl, enforque-a.
#23
Trist foi o primeiro a deixar a tenda real. Sabia que null estaria muito ocupado com a francesa para dar qualquer atenção a ele. Ignorou a correria de formação entre soldados durante o caminho, e se dirigiu apressadamente até o canto leste do bosque vizinho.
Fora quase ali que encontrara null mais cedo conversando com o que, ele supunha, fosse seu irmão. Inicialmente quando o viu conversando com a francesa e não o reconheceu, um frio lhe percorreu o estômago ao pensar nas possibilidades de deixar null escapar por entre seus dedos e não ter o desfecho programado pelo Rei Rodrik.
Revivendo os últimos momentos do dia, uma parte dele desconfiava que null iria interceder pela francesa. O modo como suplicara ao Rei Henrique no final, “Ao menos me deixe fazer isso. Eu era seu superior, eu devo executá-la”, lhe dava ânsias. O quão fraco ele era para cair nas graças de uma mulher daquela maneira? Incapaz de esconder seus sentimentos, incapaz de se lembrar qual era o foco de toda aquela guerra. Earl deveria ter sido mantido como o carrasco da francesa; será que ninguém percebera o perigo que seria deixar null enforcá-la? Trist quase gargalhara, era claro que ele a deixaria escapar! Quase gritara isso a todos, mas então pensara melhor. Era mais tentador pensar em null como um prêmio que ele mesmo ofereceria ao exército francês, e então receber uma recompensa muito maior. null null, Trist cuspiu ao chão ao pensar. O rancor de Trist por null só aumentara ao vê-lo sendo nomeado general. Ele fora a pessoa mais errada a ser promovido a tal cargo – prova disso era que, até agora, eles estavam perdendo a guerra. Eles, os ingleses. Porque ele, Trist, estava do lado vencedor. Não fisicamente, já que nesse momento caminhava pelo bosque para encontrar seu contato, mas em breve estaria do outro lado do Canal da Mancha, recebendo seu título de comandante francês.
Um pigarro a sua esquerda lhe chamou atenção, e então ele se virou.
- Kauffman. – ele comprimentou.
A figura de capuz encostada a uma árvore se mexeu e deu alguns passos à frente.
- Estamos todos muito decepcionados, Tristan. – um momento de silêncio se passou – Eles não deveriam ter recuado, não deveríamos estar nesse impasse agora.
Trist assentiu, incomodado.
- Eu sei, mas está tudo sob controle. Todos estão fatigados, não durarão muito tempo, além de que Rei Henrique não lutará por causa dos ferimentos. – ele percebeu que era o que Kauffman queria ouvir, então continuou – Haverá arqueiros nas árvores, então imagino que o mais prático seja colocar fogo nelas; o pessoal da dianteira estará...
- E quanto ao general? – o francês interrompeu.
- null vai estar muito abalado na luta, não acho que ele será problema. É verdade que estamos a leste, e ele vai segurar o exército até que o Sol nasça para que vocês não consigam enxergar...
- Por que é que ele está vivo, Tristan?
Trist puxou o ar, atrapalhado.
- Me pegou de surpresa, também. Eu achava que ele havia caído sob os escombros da muralha, mas ele...
- Isso parece ser um trabalho para você.
- Não vou matar outro general! – Trist se alterou – Não num lugar tão apinhado de soldados, embaixo do nariz do Rei! Vamos esperar até a batalha e...
-Será muito ruim – Kauffman o interrompeu outra vez – se null sair correndo e conseguir reunir todo o exercito outra vez. Não estamos dispostos a ir Inglaterra adentro correndo atrás do rabo de vocês. Ou quebramos todos eles agora, ou será muito triste para você.
Trist tentou recomeçar a falar, mas Kauffman o impediu.
- Se parecer a você que o melhor é que null não esteja lá para comandar o exército, é melhor que assim o seja. Um líder forte pode reanimar um exercito em frangalhos. Mas sem um líder eles não terão nada.
O francês procurou nos olhos do outro algum sinal de afirmação, mas Trist parecia abalado. Matar Axel era uma coisa, porém matar null seria perigosíssimo. E ainda tinha aquela francesa desgraçada...
A francesa! Trist se lembrou que tinha esse trunfo na manga.
- Mande seu rei olhar para a orla direita do bosque quando a batalha começar. Haverá um prêmio pendurado para ele. – Trist disse.
Kauffman, pela primeira vez, pareceu satisfeito. Sem dizer mais nada lhe deu as costas, e com sua capa escura, sumiu nas sombras das árvores num piscar de olhos.
Trist também se virou e considerou o que tinha que fazer.
Mataria a francesa, mesmo se null entrasse no meio. Mataria o Rei se fosse preciso, mataria quem quer que se colocasse entre ele e seus títulos franceses.
Ainda não saíra completamente do bosque quando null apareceu a sua frente. Havia um esgar de fúria em seu rosto, um sorriso macabro que Trist não conhecia. Viu o punho de null vindo em sua direção, e então não viu mais nada.
null havia parado de chorar assim que saíram da presença de null, e assumiu um semblante que null não conhecia, mas que o fazia lembrar vagamente de um soldado com quem lutara em batalha há meses atrás. Ela não falou, nem suplicou. Porém ela se sacudia de tal maneira sobre os braços de null que ele foi forçado a parar de andar e tentar imobilizá-la. Em um ponto, null lhe arremessou o cotovelo sobre o maxilar, e quando null cambaleou para trás, outros três soldados na área tiveram que avançar com cordas para segurá-la antes que ela fugisse.
Amarrada, null levou null para um local calmo, longe da balburdia dos soldados, e depois que estavam lá, ela foi a primeira a dirigir o olhar a uma luz bruxuleante que surgiu em meio à penumbra. Eles vieram a descobrir que era Earl se aproximando com uma tocha e voltas de corda penduradas ao ombro. null notou aquilo, assim como o soldado também notou as cordas enroladas ao redor do corpo dela.
- Deu trabalho, foi? – ele perguntou a null.
Este não respondeu, mas ergueu as sobrancelhas em duvida.
- Qual é a ordem? – null questionou.
- Pendurá-la em alguma árvore pelo pescoço. O general deve estar a caminho – deixou a corda ao chão e continuou – E então você já deve ir para a formação, os franceses devem avançar em breve.
Após aquelas frases null permaneceu encarando as cordas no chão, confuso. Pendurá-la em alguma árvore . Ele deveria fazer isso? Ou deveria esperar null chegar? E depois disso ele deveria ir para a formação?
- null... – ouviu null murmurar e ergueu os olhos para ela, que estava igualmente confusa.
Como ele não respondeu, e sua expressão era vazia, a mulher continuou:
- Você deve esperar para que eu fale com null primeiro. – ela falou em voz baixa, mas seu rosto estava controlado – Eu só preciso explicar... Por favor.
O que mais preocupava null era que eles não tinham tempo. Earl avisara, os franceses logo marchariam, e ele estava ali no escuro com uma mulher sentenciada a morte. E onde estava null?
- Eu não vim para cá para causar nenhum mal, null. – ela prosseguiu – Eu nunca quis fazer parte da guerra, eu só queria achar meu irmão.
- Fique calada. – null lhe respondeu. – Não vou te soltar, se é o que quer.
- Não quero. – null disse, sua voz estava fraca. – Só quero que entenda, caso eu não tenha a chance de falar com null... O homem com quem você e Trist me viram era o meu irmão.
null levantou os olhos surpreso com a nova informação.
- Você tem um irmão, vivo, lutando pelos franceses? – ele perguntou admirado.
null, porém, abanou a cabeça tentando se livrar da trama que virara sua vida.
- Precisa contar isso a null. Eu nunca traí vocês, eu não matei Dale.
null permaneceu calado.
- null não desconfiou de você nem por um momento. – ele disse por fim.
null pareceu respirar aliviada, e passou a fitar um ponto logo perto de seu pé. As cordas a apertavam, e seu corpo doía tanto ao final de todo aquele dia, e ela queria tão desesperadamente poder descansar, que por um momento até a morte pareceu ser bem vinda. Aquela espera, a falta de ordens diretas, o sumiço de null... Tudo parecia ferver dentro do corpo de null, sentia choques por ele todo. Nunca imaginou que alguém poderia se sentir tão encurralado dentro de si próprio.
Por fim, null quebrou seu torpor ao se aprumar atento, fazendo null se assustar, e mal tendo tempo de perceber que alguém se movia entre as folhagens.
null surgiu, andando estranhamente e com menos desenvoltura que o natural, mas antes que null pudesse compreender o que estava acontecendo, null bufou:
- O que está fazendo? O que... null?
null estava arrastando um corpo, o qual ele largou ao chão e, sem responder null, caminhou em direção a null. null estava olhando espantada para o chão onde havia uma pessoa desacordada, mas aos mãos de null no seu rosto a fizeram desviar os olhos. O rapaz estava muito perto dela, e apesar da escuridão causada pelas copas das árvores, ela conseguia distinguir o brilho dos olhos de null.
- Você está bem? – ele sussurrou, e null assentiu. – Tem certeza? Não está machucada? – as mãos de null tremiam mais que as dela, e se abaixaram pelo corpo da garota, tateando as cordas, procurando uma brecha. Ele então se virou para null, arrogante. – Por que a amarrou?
null, porém, o ignorou:
- Você perdeu o juízo? – ele perguntou, dando vários passos em direção ao amigo. – O que fez com Tristan?
null tinha tanta coisa para dizer a null, e queria tanto se explicar, mas tudo aconteceu tão rápido que, ao ouvir a pergunta de null, ela congelou. Aquele era Trist? Ela olhou novamente para o corpo inconsciente ao chão, mas não saberia confirmar. Estava escuro, ela tremia, null estava cortando todas as voltas de corda ao redor do seu corpo. null procurou pelos olhos de null e encontrou ali o mesmo ceticismo que refletia nos seus.
Quando todas as cordas caíram no chão ao seu lado, ela chamou:
- null.
O rapaz estava disperso, ofegava, e imediatamente começou a falar:
- Você precisa fugir. – ele segurou nos ombros de null – Precisa dar o fora daqui o mais rápido possível, você t...
- Não! – ela o interrompeu. – Pare, null. O que está acontecendo?
null também se adiantara, pegou no braço do amigo e o virou.
- null. – null, porém, se livrou do aperto de null. – ! – Ele berrou para finalmente alcançar a atenção dos olhos de null. – Pelo amor de Deus, explique o que você está fazendo. O que Trist está fazendo aqui caído ao chão?
null respirou alto e começou a bradar raivoso:
- Era ele, null! Sempre foi ele! Ele extraviou nossos planos, nossas informações, ele contou que nós tínhamos null, ele matou Axel! Eu o encontrei há pouco tempo recebendo ordens de me matar, de impedir que nosso exército se reorganize. – null deu vários passos para trás, assustado, enquanto null abria a boca, em choque. – Você precisa ir embora. – null continuou, se dirigindo ao amigo – Precisa voltar agora para a formação, procurar manter a liderança, avisar a todos, avisar o Rei. Tire os arqueiros das árvores, mantenha o exercito lutando até o Sol nascer, isso é importante. As primeiras horas do nascer do Sol são cruciais, eles estarão cegos e conseguiremos nossa vantagem de volta.
- E você? – null gritou para interrompê-lo, e não o deixou responder – Não está planejando matar Trist, está? Já sabe em que tipo de merda você vai se meter por soltar null? Leve-o ao Rei, e...
- Eu sei exatamente o que estou fazendo. – os olhos de null pareceram perdidos ao olhar para null – Eu vou soltá-la, e nada vai me absolver disso. Não vai haver mais volta, null. Então vou fazer isso direito.
Eles ficaram em silêncio. null lutava para achar uma outra solução, tirar todos dali, acabar com aquela situação esmagadora. Foi quando Trist se mexeu, ao chão. Os três o olharam, surpresos, e antes que alguém pudesse fazer algo, null deu um passo à frente e, com um chute na cabeça do soldado, o fez desmaiar novamente. Virou-se para null uma última vez:
- Mas você vai vir lutar?
null assentiu.
- Assim que null estiver segura. Vou te ajudar a expulsá-los daqui.
null confirmou em silêncio, cumprimentou null com um aceno de cabeça, e se virou, sumindo no escuro do bosque logo em seguida.
Quando null desapareceu, null correu até null para abraçá-lo. Rodeou seu corpo com seus braços, apertou-o, procurou sentir o calor dele em si mesma, mas a armadura que o rapaz usava atrapalhava, deixando o abraço duro. null afundou as mãos nos cabelos de null, e levantou seu rosto. Viu que a garota chorava.
Não perguntou o porquê, nem precisava que ela se explicasse. Apenas a beijou, uma vez, duas, no canto da boca, em suas bochechas, em seu pescoço... Sentia null soluçar em seu choro, e a puxou para perto de si.
- Me perdoe. – ele sussurrou contra seus cabelos.
null negou, discordando de tal pedido.
- Me perdoe por não conseguir mantê-la a salvo, por deixar que as coisas saíssem do meu controle.
null apoiou as duas mãos no pescoço descoberto de null, acariciou sua pele com a ponta dos dedos.
- Não vou embora. Não vou fugir e te deixar aqui para arcar sozinho com as consequências.
null não se alterou, havia previsto essa reação.
- O que você acha que ainda resta para você aqui?
- Você. – ela respondeu prontamente. E então se lembrou – E Frank.
null curvou as sobrancelhas.
-Qu..?
- Meu irmão. Está vivo. – null respondeu com fervor – Era com ele que eu estava conversando, ele me achou, implorou para que eu voltasse para França com ele.
null se afastou imediatamente, músculos retesados, olhos em alerta.
- Você não pode voltar para a França. Eles te querem morta!
- E aqui também. – lágrimas voltaram a escorrer no rosto de null – Não posso ir embora, null, mas também não posso ficar aqui.
- Pode. – null a contradisse – Eu vim aqui justamente te soltar e te falar para ir para a cabana do lago. Foi o lugar mais seguro e abandonado que consegui pensar, por enquanto. Quando isso acabar eu me juntarei a você, e então pensarei em algo.
- Não vou fugir enquanto você e Frank ainda estiverem por aqui! Não tenho medo da guerra, null, eu não...
- Pare! - null a segurou – Não temos tempo. Por favor, você tem que ir embora. – ele suplicou – Não me importo onde você fique, desde que fique longe daqui.
- Mas você não pode pensar que algo acabará dando certo, null! – null se exasperou – Você está me soltando de uma ordem direta do Rei de...
- Exato. – ele a interrompeu. – E vou enforcar um soldado nosso no seu lugar. Isso significa que serei tão foragido quanto você...
- Não! - null deu um passo a frente e afundou os dedos nos braços de null. – Não pode matá-lo, null. Ele está desacordado, e você vai simplesmente pendurá-lo pelo pescoço? – uma onda de fúria pareceu percorrer null, então null esticou o outro braço, segurando assim os dois pulsos do rapaz, numa tentativa de fazê-lo focar-se e entender seus argumentos. – Você não vai virar um foragido e traidor por causa de Tristan, null. Você é o braço direito do Rei, o privilégio da dúvida chegará até você quando perceberem que eu estou livre, mas não piore mais a situação matando um soldado inglês indefeso! Deixe-o aqui. Deixe-o, null! Vá para a batalha e conte tudo que ouviu e sabe sobre Trist, assim, quem finalmente eliminá-lo será herói.
Ela não soube dizer se alguma vírgula do que disse penetrou na cabeça de null, já que ele se livrou de suas mãos que o seguravam e respondeu:
- Vá embora.
null deu um passo para traz, tentou ler a expressão de null e só encontrava sua determinação rígida em cada linha de seu rosto.
- null, esc...
- Vá embora, null. Fuja, e eu vou lhe encontrar.
Havia centenas de possibilidades, argumentos e cenários passando na cabeça de null, mas alguma parte dela finalmente entendeu a urgência de null. Não era hora de se contra argumentar, pois jamais haveria a opção certa e fácil para os dois.
Ela assentiu silenciosamente , e com um último roçar de dedos entre eles ela deu as costas a null. Segurou com as duas mãos as saias do vestido e correu.
Ao correr de uma sombra de árvore para a outra, a garota concluiu que, mesmo tendo chegado à Inglaterra na pior das situações, ela conseguira fazer sua vida afundar ainda mais no lamaçal de desgraças.
De todos os futuros possíveis que imaginara estando ali sozinha, prisioneira e traidora, ela nunca visualizara estar novamente no meio da guerra, divida entre os dois territórios e ao mesmo tempo indesejada nos dois. E com aquela tamanha dor no coração, em que ela não sabia se seguia as palavras de null ou de Frank.
null caminhava silenciosamente entre as sombras, e se afastou o suficiente para que já não distinguisse mais quem ou quê eram aqueles pequenos pontos se movendo sobre o terreno. Ela viu as chamas começarem, partindo primeiramente das flechas em chama, e depois se alastrando pelas árvores da orla do terreno. De longe ela podia distinguir o barulho de gritos masculinos e ainda o relincho de cavalos em dor... Ela encarou todo aquele horizonte completamente sem expressão.
Fechou os olhos e viu sua vida inteira em um flash. Seu pai, seu assovio, sua infância com Frank... Frank estava lá. Frank estava na guerra logo a frente dela.
E null novamente estava dando as costas a ele, correndo para longe dele outra vez - e completamente ciente de que ele ficava para trás.
Como foi que chegara naquele momento em que tivera que escolher entre null e Frank?
E quando foi que ela fizera aquela escolha?
No passado, quando ela tivera os dois homens da sua vida ameaçados e em perigo ela decidira enfrentar a guerra – e agora ela estava... fugindo?
null engoliu em seco e respirou fundo antes de dar um passo a frente e voltar correndo pelo mesmo caminho que acabar de percorrer.
null havia perdido um precioso tempo carregando o corpo e planejando a morte de Trist, e depois longos minutos discutindo com null. Quando ele finalmente dera as costas aos bosques, vestira seu elmo e cavalgara até o choque entre os dois exércitos, o momento de gritar as novas ordens já havia passado. Ele percebeu que null havia realmente tirado os arqueiros das árvores, pois agora eles se alinhavam na retaguarda - um plano extremamente bem sucedido, porque um segundo depois um chuva de flechas em chamas voaram para as árvores na orla do terreno. Era null quem também estava à frente, na vanguarda, liderando o exército, sua voz bradando orientações se perdia nos barulhos de colisões entre armas.
null estava com uma espada sobressalente, e um escudo já parcialmente rachado. Piorando a situação, o fogo das flechas se espalhou pelas copas das árvores, e null sabia que incêndio de copa era o pior que existia. Seus soldados, embora longe das árvores, rapidamente ficariam intoxicados com a fumaça. Eles precisavam avançar sobre os franceses, empurrá-los de volta pelo terreno que vieram.
null esporeou seu animal e cavalgou de encontro à batalha, mais uma vez.
Agora, entretanto, ele estava exausto, assim como tinha certeza que todos seus homens estavam. O levantar de escudo e o brandir da espada pesava sobre todos os músculos, seus membros estavam lentos, seus desvios e reflexo mais ainda. Precisava do dobro de sua força e determinação para conseguir fazer a lâmina atravessar alguma armadura francesa.
Gritou algumas ordens sobre saírem de perto da fumaça, avançarem... Mas sua voz já cansada não propagava mais do que dez metros. null percebeu que os soldados franceses estavam mais determinados: para cada um guerreiro que null abatia, ele ganhava pelo menos dois golpes que o desnorteavam - em tal ponto ele recebeu uma pancada tão forte no rosto que seu elmo entortou, atrapalhando sua visão, e ele precisou o jogar fora.
Os cavalos que sobraram, se não estavam feridos, já estavam completamente estressados, gerando um caos ainda maior sobre a luta. Foi exatamente um desses cavalos desnorteados que tropeçou e caiu sobre null e sua própria montaria.
Na confusão gerada de corpos e massa em queda, null pulou. Caiu de mal jeito, e o escudo, já torto em sua braço, caiu sobre sua mão. Ele soltou um grito de dor ao sentir um ou dois dedos quebrarem. Caído sobre a terra, inspirando poeira em sua dor e exaustão, ele viu soldados se aproximando, e sabia que estava na mira deles.
Numa fração de segundo, sem ter a mínima noção de onde vinha o golpe, null levantou o braço machucado, erguendo o escudo sobre o seu corpo bem a tempo. Um martelo de guerra desceu sobre seu escudo, e a força do golpe fez null gemer.
O rapaz se arrastou para trás, e ouviu o deslocamento de ar quando o mesmo machado de guerra se impulsionava contra ele outra vez. null girou sobre o chão, e o martelo afundou sobre o solo onde ele estava momentos antes. Ao girar, null havia se livrado do escudo, o jogando ao seu lado, e finalmente tendo uma visão clara de quem estava sobre ele o atacando. Rei Rodrik.
Era o próprio Rei, de pé, impotente sobre o corpo caído de null, com a armadura sequer empoeirada, e levantando, acima de sua cabeça, um martelo de guerra tão grande quanto a cabeça de qualquer um dos dois.
A barriga de null esfriou, ele impulsionou o corpo para trás, tentando inutilmente se afastar do atacante, mas o Rei deu passos a frente acompanhando o corpo de null. Com um rugido de agitação no ar, o martelo voltou a descer, e afundou na terra com tal força que cavou um buraco de vários centímetros – null havia conseguido escapar mais uma vez, virando o corpo no último minuto para longe da mira do Rei. E dessa vez, conseguiu levantar. Cambaleou sobre os próprios pés, antes de conseguir equilíbrio e olhou seu atacante, finalmente estando no mesmo nível que ele. Ergueu a espada, consciente de que ela não o protegeria daquela massa enorme na mão do Rei francês. E ele avançou, tentando acertar o martelo em null.
null desviou uma, duas vezes. Na terceira, o martelo afundou sobre seu ombro direito. null berrou, lascas de ferro furaram sua carne, a dor fria inundou seu braço inteiro e ele deixou a espada cair. Esticou a mão com dois dedos quebrados e tentou segurar seu outro braço ferido e inútil, cambaleou para trás, mas não caiu.
O rei deu mais dois passos em direção a null, ergueu o martelo, preparando o golpe final. null avistou sua espada ao chão, e no milissegundo em que pensava em abaixar e pegá-la, aconteceu.
Um soldado surgiu na frente de null, com elmo encaixado e espada empunhada. Sem hesitar com o machado erguido do rei, ele avançou, e com um único golpe, afundou sua espada garganta acima do Rei Rodrik.
Sangue brotou e esguichou de sua armadura real, uma expressão de espanto e dor congelada em seu rosto, e seu enorme martelo foi ao chão.
null ofegou, ainda segurava o braço ferido. O soldado em questão ainda estava de costas para ele, puxando de volta sua espada da carne real francesa.
- Você precisa avisar a todos para que fiquem longe da fumaça! – null gritou para ele sentindo seus joelhos fraquejarem. – Corra, ajude-os a avançar para longe da...
Mas o soldado se virara, e encarou null com olhos desdenhosos.
null se assustou. Ele era... francês. Olhou de novo para ele e para o Rei caído morto atrás dele e se horrorizou.
- O que... Você...?
O soldado o olhou, de cima a baixo, registrou sua falta de armas e seu braço ferido. null percebeu algo de familiar em seu rosto, mas antes que qualquer um dos dois pudesse pronunciar algo, barulhos de ambos os lados os distraíram. null olhou de relance e viu soldados e cavaleiros franceses se aproximando correndo. Gritaram em fúria ao ver seu rei caído, bradaram sobre traição e num piscar de olhos, o soldado desconhecido e regicida que estivera na frente de null segundos antes, estava igualmente morto ao chão, decapitado.
O choque de null só crescia a cada momento. Os soldados franceses agora rodeavam seu rei, e null sabia que seria o próximo. Ele alcançou sua espada ao chão, segurou-a debilmente com a mão de dedos quebrados e deu vários passos para trás.
Então sentiu um corpo se chocar levemente ao dele, e olhou para o lado. Era null, com o maxilar travado, espada em punho, e os olhos fixos nos franceses a frente. E junto a null vinham mais, pelo menos uma vintena de soldados ingleses se alinhando ao seu lado, entre eles o Rei Henrique. null respirou aliviado e, nos últimos segundos que eles tinham, null se virou para olhá-lo, e também registrou os ferimentos nos braços de null.
- Não vai conseguir lutar. – null murmurou.
null ergueu uma sobrancelha e lhe deu um sorriso:
- Observe.
E nessa hora os franceses finalmente deram as costas ao cadáver de seu rei, e encararam seus inimigos à frente. Como um soco no diafragma que lhe tira o ar, null viu que um deles era Trist. Se erguia a sua frente com uma lança na mão, ao lado de seus colegas franceses, e todos eles, sem hesitar, avançaram.
Trist partiu para cima de null, e suas armas, lâmina e lança, se chocaram no ar. Ele se afastou e lhe aplicou um chute na altura do quadril, fazendo Trist cambalear para trás. Recuperou o equilíbrio em dois segundos e atirou a lança outra vez contra null. Tudo o que podia e conseguia fazer, era se defender dos golpes direcionados a ele. Percebeu, com o passar da luta, que não tinha mais forças para atacar, e quando seu reflexo voltou a falhar, a lamina de Trist bateu em sua têmpora, e o derrubou.
Sua visão embaçou, mas ainda conseguir divisar Trist se ajoelhando sobre ele com um sorriso maldoso. Ele pegou a própria espada de null, e lentamente, a espetou em seu queixo.
- null, você deveria ter me matado quando teve a chance.
null arfou, havia levantado o queixo tentando fugir da ponta afiada da espada, e agora encarava o céu logo acima de si. O primeiros raios solares do novo dia já podiam ser vistos. Ele deu um sorriso a Trist e forçou seu rosto para baixo, procurando os olhos do outro. Sentiu a espada furar sua pele quando o fez.
- Vá para o inferno.
Uma espada brotou o peito de Trist, fazendo-o largar a lâmina que ele segurava contra null, e os dois trocaram o mesmo olhar de espanto. Trist ergueu as mãos para o ferimento em seu tórax e abriu a boca em dor, sem conseguir pronunciar nenhum som. Um filete de sangue escorreu de seus lábios abertos e null ergueu uma perna e empurrou seu corpo para trás, onde ele tombou e não se mexeu mais.
Ao erguer os olhos null a viu.
null estava em pé logo acima dele, mais machucada do que antes, mas ilesa. null soltou uma risada, deveria ter percebido que ela não iria fugir. Ela correu para ele e se ajoelhou sobre seu corpo, exatamente como Trist havia feito. Colocou uma mão sobre o rosto de null e murmurou:
- O Sol está nascendo, eles ficarão cegos.
null esticou uma mão para segurar a dela:
- Você tem que sair daqui.
- Acabei de salvar sua vida, não me mande embora.
null riu e apertou levemente seus dedos.
- Então é melhor que esteja a salvo quando eu acordar.
null disse alguma coisa que ele não ouviu, mas foi seu rosto a última coisa que null viu antes de se deixar apagar.
null veio a descobrir um tempo depois, que em algum momento da última batalha null ou null haviam informado o Rei Henrique de onde estava a real lealdade de Trist. Muita coisa se esclareceu quando ela soube disso.
Quando null ferido desmaiou em seus braços no final da guerra, os franceses, já em desvantagem e sem seu Rei para liderá-los, começaram a bater em retirada. E no meio de toda desordem da fuga null realmente não se importava com o que fosse lhe acontecer, desde que conseguisse tirar null daquele terreno batido embaixo do Sol.
Mas quando toda a balburdia passou foi o Rei Henrique se aproximou dela primeiro. E apesar de ter ficado apreensiva no momento que o viu, parado a menos de um metro dela, null não abaixou os olhos e não se afastou.
O Rei estava branco como leite, e a lança que ele outrora empunhava estava agora apoiada no chão para ajudá-lo a manter-se em pé. Ele encarou null completamente sem expressão, antes de baixar os olhos para null, registrar seus ferimentos e curvar as sobrancelhas austeramente.
- Vi o que você fez. – ele falou, voltando seu olhar para null a sua frente.
Ela não soube dizer ao que ele se referia, e de qualquer maneira continuou calada, esperando o que viria em seguida.
- Não me interessa mais o que aconteça a você, desde que eu nunca mais precise ouvir sobre sua existência.
null imediatamente tomou aquilo como um aval de liberdade. Assentiu, com um estranho sentimento no peito que quase se aproximava de alívio. Mas continuou parada no mesmo lugar, o que fez o Rei completar:
- null será levado para tratamento.
Ela voltou a assentir, e ainda não saiu do lugar. O Rei enfim lhe deu as costas.
Apenas quando, poucos minutos depois, soldados se aproximaram com macas improvisadas, null se afastou do corpo de null e o assistiu sendo levado para longe dela. Ele voltaria para ela. Sabia disso, ele prometera.
Mergulhada na indiferença que tomava seu ser naquele momento, ela se sentou sobre o chão e encarou as muralhas caídas de Brighton ao longe. Para lá das ruínas da cidade estava o mar. E para depois dele estava sua terra. Para onde Frank iria agora sem esperar por ela.
Muita gente passava por ela pegando os feridos, enfileirando os corpos dos que pereceram – e logo mais viriam os franceses. Rei Henrique estava negociando a permissão para que eles recolhessem seus mortos e enfermos, era uma das raras cortesias de guerra. Mas antes que null pudesse observar os franceses avançarem humildemente sob o terreno para recolher os seus, null sentiu alguém se aproximar, e tocar seu ombro. Ela se virou:
- Lorch! – ela murmurou imediatamente, se virando para observá-lo.
Havia uma mancha de sujeira e fuligem na linha de seus olhos onde estivera a abertura de seu elmo, e ele se ajoelhara na altura de null, com sua enorme armadura de general, olhos injetados a boca em uma linha reta.
- Você viu meu irmão? – null imediatamente perguntou.
Lorch assentiu sem dizer nada, e tomou ar antes de responder:
- Ele matou Rodrik. – null abriu a boca lentamente em surpresa e já esperava o que veio a seguir. – E então outros o mataram.
null tampou a boca com as mãos, e seu coração explodiu em dor.
Não queria acreditar que eles haviam assassinado outro membro de sua família. Ela compreendia todas as razões por Frank ter ido tão longe e o quão justificado seu ato era – ela mesma estivera disposta a matar Rodrik quando tivesse a chance. Mas ainda assim, era inacreditável que seu irmão, tão audacioso e muito mais resistente do que ela jamais imaginara, tivesse caído agora. Agora que a guerra terminara, agora que amainara todo o inferno que a vida de null tinha sido. De alguma maneira, ao rever Frank, ao descobrir que depois de todo aquele tempo ele estava vivo, sua mente atribuíra algum tipo de imortalidade a ele.
Novamente a realidade se chocara com ela. Frank estava morto.
E chorar sua segunda morte parecia muito mais dolorida do que fora outrora.
- null. – Lorch segurou em seu pulso, a fazendo abaixar as mãos – A permissão inglesa para nós recolhermos nossos mortos já foi sancionada. Logo os franceses estarão aqui, e não é nada bom você continuar aqui como se não tivesse nada para se preocupar. Você consegue entender isso, não é?
null enxugou as lágrimas e assentiu.
- Mas meu irmão...
- Será levado com os outros. Você não pode fazer nada.
- E Angela, ela...
- Ela está com a mãe. Agora que Rodrik está fora do trono as coisas ficarão mais fáceis.
null fungou uma última vez, mas ainda não conseguia se mover.
- Eu posso vê-lo uma...
- Você não vai querer vê-lo, null. – Lorch a interrompeu – Guarde para si a última imagem que tem dele, não há razões para deturpá-la.
Ele se levantou e estendeu uma mão para ajudar null a levantar. Assim que ela o fez, Lorch a fitou novamente:
- Eu posso contrabandeá-la de volta a França. Prometi isso a seu irmão. Só não lhe garanto que será uma viagem confortável.
null negou. Se Angela ficaria a salvo não havia mais nada para ela na França. Acreditava que, por mais miserável que fosse sua vida na Inglaterra, ao menos teria null para amenizá-la.
- Eles não estão querendo te matar? – Lorch perguntou indicando com a cabeça os ingleses mais próximos.
null deu de ombros, indiferente.
- Matei o traidor deles.
- Você matou Tristan? – Lorch se surpreendeu, e soltou uma risada amarga – Realmente, é mais seguro pra você ficar aqui na Inglaterra.
null não sorriu, apenas fitou o chão. Sentia tanta amargura no coração que não conhecia mais nenhuma força para chorar.
- Espero que saiba o que está fazendo, null. – Lorch sussurrou e pousou a mão em seu ombro. – Te desejo sorte.
null sentiu um arrepio no corpo, seus olhos arderam, e ela o olhou, assentindo.
- Espero que as coisas melhorem por lá. – ela devolveu.
- Graças a Frank. Agora você devia ir. – Lorch fitou o horizonte – Eles não vão demorar a chegar, temos menos de duas horas para dar o fora daqui.
null voltou a assentir, e sem dizer mais nada, lhe deu as costas, e caminhou sem rumo.
Epilogo
null afundou os pés na água fria do lago e pousou a mão na barriga – andava fazendo muito isso ultimamente. Gostava de sentar-se ali e observar os enormes pinheiros que circundavam o lago e a cabana, como grandes muralhas os protegendo do exterior. Logo null estava ao lado dela, ele sabia que ela procurava o lago nas horas que as memórias do passado pareciam sufocá-la. Ele esticou o braço atrás da mão dela, e entrelaçou seus dedos.
- Avisei hoje ao Rei que não voltarei mais. – null falou.
null o olhou, permitindo-lhe um sorriso.
- Não é o maior escândalo da província você estar abandonando tudo por mim?
- Não disse que é por você. Eu preciso de um tempo no campo para me recuperar dos horrores da guerra. – os dois riram.
É verdade que aquela casa no lago inicialmente estava inabitável. Mas null já havia dormido em lugares piores, e com o tempo ela e null estavam ajustando-a a suas necessidades. Eles estavam construindo um telhado novo, embora null tivesse tentado proibi-la de ajudar depois que sua barriga começara a inchar. Ainda assim faltava muito para aquela cabana se aproximar da confortável casa a que null estava abrindo mão, mas ele não se importava.
Virou-se para olhar null, o modo como seus olhos estavam franzidos para evitar a luz do Sol, seus cabelos null lhe escorrendo pelas costas e sua outra mão pousada na barriga. null esticou o braço, e com a mão livre afastou seus cabelos e a encaixou em sua nuca. null jogou a cabeça para trás, aproveitando o carinho, e encarou null de volta.
Nunca realmente acreditara que eles terminariam juntos. Nunca imaginara que iria acabar morando num lugar como aquele. Mas nunca imaginara tanta coisa que acabou lhe acontecendo... Nunca imaginara que trilharia aquela sua jornada, e mesmo assim, que sobreviveria a ela, que sobreviveria ainda com todas aquelas sequelas que trazia junto ao peito.
E null.
null sempre estivera além de sua imaginação.
E era ele, sempre fora ele, a melhor parte de tudo aquilo. O único que fizera tudo valer a pena.
F I M
N.a.: Antes de tudo, eu preciso assumir que meu sentimento quanto a finalmente acabar essa fic, é esse. Acho também que essa Nota da Autora vai ser maior que o capítulo, mas vamos lá.
Enquanto vocês se recuperam do final da fic eu vou compartilhar uma história. Desde que eu era criança (até os dias de hoje) meu filme favorito da Disney era/é (surpresa!) Mulan. E nos tumblrs de hoje em dia onde se exalta a Disney às vezes eu fico rancorosa porque Mulan nunca é devidamente apreciado e/ou incluído entre os clássicos. O fato é que, ao longo dos anos (rere) que ITC ficou em andamento muita gente veio dizer que a fic lembrava Mulan. Mas no final da Disney a Mulan voltava pra casa onde estava todo mundo vivo, e o gostosão do general vinha atrás dela. Não consegui aplicar um final tão lindo assim à fic, mas dei o melhor que pude, sério. Sei que fui uma autora extremamente filha da puta por ter demorado tanto a finalizar, sem mencionar os hiatus em que ela entrava de vez em sempre. ITC foi um dos meus maiores desafios, e estou imensamente feliz em não ter mais ninguém me enchendo o saco pra atualizá-la. Mas não estou reclamando. Vocês foram importantes, vocês foram inspiradoras, vocês foram TUDO que a fic precisou pra conseguir chegar até aqui.
Agora eu vou pra parte dos agradecimentos. Às minhas amadas Rafa Julich e Nat Puga que ouviram e apoiaram essa historia desde o início dos tempos quando ela ainda tinha outro nome; àquela que um dia me mandou um e-mail implorando por uma atualização e acabou virando a melhor cobaia da história da nação, Loh Pradella; pelo carinho, paciência e competência, e por ser a maior diva de todas, minha beta That; e a VOCÊÊÊÊS, suas coisas gostosas, lindas, que ficaram comigo até o final, que insistiram e não desistiram de ITC, que sempre me faziam rir e me colocavam pra cima com seus comentários (quanto eu estava muito down eu vinha aqui ler os comentários de vocês, hihi) – a TODAS VOCÊS, meu mais imenso obrigada. Queria poder explicar meu agradecimento de outro jeito, mas acho que o jeito mais sincero é pelo sentido mais literal da palavra, mesmo. Então, outra vez, obrigada!
Nesse momento eu tenho oito histórias começadas no meu computador, então um dia ou outro nós talvez nos esbarremos de novo aqui no Obssession. Aqui embaixo vou deixar minhas redes sociais para que vocês não precisem mais encher o saco da pobre da That. Eu gostaria de ouvir tudo o que vocês têm para dizer da fic. O que gostaram, o que não gostaram, como gostariam que tivesse sido... Podem me xingar também, é importante pra mim! Comentem, me mandem emails, me adicionem por aí, vamos bater uns papos!
Beijões!
Roberta.