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Escrita por Honey B
Betada por Lara Scheffer


Ice

Londres nunca fora exatamente uma cidade "quente" e eu demorei um pouco até me acostumar com o clima não muito diferente da França. Deixei meu país para buscar meu sonho, abandonei minha família para buscar meu sonho. Mas, considerando que eles nunca apoiaram minha vontade de escrever, não me senti muito abalada por ter que deixá-los do outro lado do continente. Eu estava sozinha em um lugar desconhecido, sim, mas, como sempre, eu consegui me virar sem muita ajuda. A única certeza que eu tinha na terra da rainha era que eu teria meu emprego na filial da Rolling Stone Magazine daqui me esperando de braços abertos.
Eu poderia ter ficado no meu país natal, trabalhando na Rolling Stone de lá, mas essa oferta era tudo o que eu precisava para sair daquele lugar com uma ótima desculpa para cobrir o remorso, o qual eu não tinha, de fato.
É, sou um ser humano sem escrúpulos. Que posso fazer se fui criada num espaço emocionalmente negligente a ponto de me fazer adiquirir a filosofia: se eu não me importar comigo mesma, quem vai? E foi isso que eu fiz: coloquei meus interesses a frente das pessoas com quem eu me importava.
Sim, havia pessoas na minha vida com quem eu me importava. Minhas duas melhores amigas, e , esta que me acompanha desde minha infância, ainda no país dos croissants, e , que se mostrou totalmente fiel, carinhosa e divertida, dando-me suporte mesmo sem me conhecer muito bem, quando me mudei para Londres. Nós três éramos inseparáveis.
"Éramos"... Essa palavra vai me assombrar até meu último suspiro. Nessa mesma conjugação. O pretérito imperfeito do infinitivo na primeira pessoa do plural. Eu larguei minha vida cheia de "nós" para a solidão cheia de "eu", acompanhando meu egoísmo. Este que não me deixava nem ao menos me arrepender dos abandonos que eu fiz, mesmo que o maior de todos ainda martele na minha mente a quase todo segundo, invadindo meus sonhos, meus devaneios e até as aulas de ioga que eu passei a praticar.
Não que aquele sorriso fosse fácil de esquecer. O brilho que emanava dos lábios sorridentes dele ficava tatuado na sua memória instantaneamente. Mas como eu era a toda poderosa , superar a perda de um amor - mesmo que tivesse sido o mais puro de todos que já tivesse sentido - seria fácil. Afinal de contas, quem precisa de sentimentos?
Outra das minhas filosofias que ele fez questão de contrariar. Eu precisava de sentimentos. Eu precisava dos sentimentos dele, dos sentimentos de . A parte ruim é que eu só me dei conta disso quando ele já estava longe o suficiente para não poder ouvir meu grito mais agudo, pois, acredite, se ele ouvisse, eu gritaria com todas as (poucas) forças que me restam.
Nunca pensei que diria isso, mas me arrependo de ter afastado todos que me amavam. Eu não acreditava no calor emanado pela aura das pessoas que me rodeavam até que eu as perdi. É torturante o jeito que a vida ri ironicamnete na minha cara, apontando para mim e me chamando de otária. Porque é exatamente isso que eu sou.
E, de novo, algo que todos nós já sabemos: não adianta chorar pelo leite derramamdo. O que está feito, está feito.
Não que eu fosse recusar uma segunda chance.
Oh, céus, como esse espírito natalino afeta a visão das pessoas. Até ontem, 23 de dezembro, eu mal estava me importando com a neve lá fora e agora aqui estou eu, sozinha, na sala de estar, enrolada em cobertores, tomando meu chocolate quente, ouvindo meu cd só de músicas tristes. Deprimente, deplorável e decadente. Esta sou eu.
Olhei para minha bela árvore de Natal, toda enfeitada... Pra nada. Lembrei-me do ano anterior em que ela estava cheia de caixas, já que minha casa era a escolhida por nós sete - eu, , , e seus amigos (meus também!) , e - para celebrarmos o feriado exepcionalmente capitalista, camuflado de espírito religioso. Hipócrita, combinava comigo.
Na verdade, eu nem sei ao certo o que me levou a montar uma árvore de Natal. Eu devo ser algum tipo de masoquista no meu subconsciente e por isso fiz questão de montá-la só para vê-la vazia, esfaqueando meu peito friamente.
Nunca realmente achei árvores de Natal bonitas, mas comparada à desse ano, a do ano passado era magnífica. Era como se ela não estivesse tão verde - mesmo sendo feita de tecido sintético -, como se as esferas douradas não brilhassem tanto, como se as luzes brancas demorassem mais a piscar ou como o canto em que ela estava parecia tão mais escuro hoje, mesmo que a lareira estivesse acesa.
Oh, ver o fogo queimar era revigorante, mesmo no estado psicológico em que me encontrava. Coloquei minha caneca enorme de chocolate quente - agora vazia - em cima da mesa de centro e me pus deitada no sofá, olhando fixamente para o fogo consumindo a madeira naturalmente. Era isso que acontecia com a gente quando estávamos juntos: nós nos consumíamos mutuamente, rindo, nos abraçando, fazendo coisas que nós fazíamos, aturando os defeitos e elevando as qualidades dos outros. Nós éramos... Nós.
Senti minha bochecha coçar e ao passar minha mão sobre ela, sinti-a úmida. Eu estava chorando como se tivessem me machucado fisicamente. Eu estava chorando, haviam rompido a represa que eu contruíra ao longo dos meses nos meus canais lacrimais. Não podia mais controlar meus próprios olhos ou o que escorria deles. Os soluços foram somados e meu corpo começou a tremer.
Então era assim que doía de verdade.

Hold on, hold on
Don't be scared
You'll never change what's been and gone

May your smile (may your smile)
Shine on? (shine on)
Don't be scared (don't be scared)
Your destiny may keep you warm

'Cause all of the stars have faded away
Just try not to worry, you'll see them some day
Take what you need and be on your way
And stop crying your heart out

Get up (get up)
Come on (come on)
Why you scared? (I'm not scared)
You'll never change what's been and gone

'Cause all of the stars have faded away
Just try not to worry, you'll see them some day
Take what you need and be on your way
And stop crying your heart out

'Cause all of the stars have faded away
Just try not to worry, you'll see them some day
Just take what you need and be on your way
And stop crying your heart out

We're all of the stars, we're fading away
Just try not to worry, you'll see us some day
Just take what you need and be on your way
And stop crying your heart out
Stop crying your heart out
Stop crying your heart out
Stop crying your heart out


Eu cantava junto com a música que começou a tocar de repente, uma das minhas favoritas do Oasis, e acho que nunca a entendi tão plenamente como agora. O gosto salgado das minhas lágrimas se misturavam e contrastavam com as imagens bonitas que eu tinha dos meus dias felizes que agora pareciam estar a vidas de distância, mas ao mesmo tempo eu sentia o poder de tocá-las. A angústia do erro, a morbidez da solidão, o remorso da dor e a impotência que eu sentia ao olhar para a foto de todos nós, em cima da lareira, empurrava todas as minhas lágrimas para fora, com velocidade altíssima, convencendo-me de que eu merecia ser ferida tanto quanto eu havia os ferido.
Ouvindo Noel Gallagher dizendo "Just try not to worry. You'll see them some day", eu caí no sono, ainda com alguns soluços invadindo minha garganta.

Water

Meus sonhos me levavam para o mesmo lugar de sempre. Para o passado, onde eu e meus amigos estávamos jogando futebol sem nenhum tipo de preocupação, rindo, gargalhando, beijando e eu beijando ; e partindo ao meio, exigindo a atenção dela... Tudo do jeito que era. Mas então eu acordava e tudo voltava para o lar do meu subconsciente.
Dessa vez foi diferente. Eu acordei, mas continuei sonhando.
Os olhos dele estavam mais perto do que eu me lembrava de já terem estado alguma vez. Pisquei os olhos algumas vezes, mas meu sonho ainda estava lá. Afastei-me para focalizar o rosto que eu já reconhecera e só consegui a confirmação definitiva de que eu estava sonhando com .
- Você... - esforcei-me para falar, mas minha voz saiu rouca. Tentei limpar a garganta e começar de novo - Como... - ele me interrompeu, encostando o indicador nos meus lábios.
- Ainda tenho a cópia da sua chave - sorriu para mim e nem ao menos precisei sentir para saber que estava sorrindo junto. Eu sabia que estava porque isso sempre acontecia quando sorria, mesmo que eu esteja dormindo.
olhou para o lado com uma expressão que não pude decifrar e virei meu pescoço na mesma direção, tentando seguir o foco de seus olhos, mas, novamente, ele me impediu.
- Não se esforce muito - levantou-me pelos ombros até que eu estivesse sentada no sofá - Você sempre fica dolorida quando dorme aqui, por que fez isso?
- Só dormi... - a verdade era que o meu mais recente instinto masoquista obrigara-me a dormir no sofá para que eu me sentisse mal ao acordar.
- Vou te ajudar a subir. Você vai tomar um banho, lavar esse rosto - passou o polegar em uma das minhas bochechas - e escovar os dentes. Não vou te beijar com esse bafo - riu daquele jeito que eu simplesmente amava, arrancando uma risada minha também. Logo tapei minha boca, imaginando que realmente meu hálito não estava no seu melhor momento.
Mas ouvi-lo dizer que me beijaria foi o suficiente para me motivar a subir as escadas e só sair do banho depois de duas horas.
Meu impulso foi rápido e forte demais, de modo que quando levantei, minhas pernas não acompanharam. Caí sentada e sentindo minha casa rodar como se eu estivesse em algum programa de treinamento para astronautas.
- Calma... - ele falou, segurando-me, mesmo eu estando sentada.
- Desculpe - disse, apoiando minha mão na cabeça como se isso fosse amenizar a dor. Minha cabeça sempre doía depois que eu chorava.
Como eu poderia sentir dor se eu estava...?
Impossível.
- Não diga nada, apenas...
- Não - dessa vez, eu o interrompi - Desculpe... Por tudo. Eu fui extremamente cega e não os vi ao meu lado. Eu amo você.
Ele estava ali. estava ao meu lado, no sofá da minha sala, olhando-me como se eu fosse a coisa mais estupenda do planeta, mesmo que eu estivesse de pijamas, com o cabelo bagunçado e a cara amassada. Eu perdia até a habilidade de falar quando ele me olhava assim.
- Você sempre esteve perdoada por mim e por eles... Só você não se perdoava - voltou a me ajudar a ficar de pé - E você sempre soube que eu também te amo e nunca deixei de amar. Eu disse muita coisa, mas era tudo mentira.
- Eu mereci ouvir.
- Vamos... Deixa isso de lado, não é hora para falarmos disso - me segurou pela cintura e apoiou meu braço direito em seus ombros. Levou-me rapidamente para meu quarto e trancou a porta atrás de si.
Fiz tudo o que ele me mandou fazer e mais de uma hora depois eu havia finalmente terminado meu banho - com os dentes devidamente escovados. O condicionador de ar fora ligado, eu pude sentir a casa mais quente do que estava ontem. ainda me esperava no quarto, olhando atentamente as fotos que estavam na escrivaninha do meu quarto. Avistei minhas folhas espalhadas por lá e gelei, imaginando que ele pudesse ter lido algo que eu escrevera sobre como me sentia sem eles.
Aparentemente ele não percebeu quando saí do banheiro e entrei meu closet, ou então fingiu que não. Fui rápida ao me trocar e, sem saber o motivo que o trouxera de volta, coloquei uma roupa que poderia ser adequada para qualquer situação. Era só um vestido cinza de veludo que marcava minha cintura e era levemente rodado abaixo dela. Amarrei o laço que era preso a ele e saí, descalça, do meio das outras roupas. Desta vez, virou-se assim que eu botei meu pé no carpete e, como se soubesse a reação que a curvatura dos lábios dele tinha sobre mim... Não, ele sabia. Inúmeras vezes disse a ele.
Não contive meu sorriso ao vê-lo sorrir.
- Você está linda - disse, devolvendo um dos porta-retratos à mesa.
- É só um vestido - comecei a secar meu cabelo com a toalha e ele ainda me olhava daquele jeito que me olhou quando acordei.
- Senti sua falta - ele se aproximou, parando a minha frente - Todos nós sentimos.
Minha garganta apertou e eu senti que poderia cair e chorar a qualquer momento, mas tudo que me permiti fazer foi suspirar. Queria poder falar, mas sabia que, se abrisse a boca, apenas soluços sairiam dela.
me abraçou pelos ombros e então bateram na porta.
Havia mais gente na minha casa?
- Vamos - sorriu com aquela animação de um garoto de sete anos de idade.
- O que...? - se estava animado, eu estava completamente oposta.
- Só vem. Você nunca vai parar com suas perguntas? - ele rolou os olhos e começou a me puxar pela mão.
abriu a porta pra mim e, no mesmo instante, eu pude sentir cheiro de comida no ar e alguns murmúrios, misturados ao som do meu cd de ontem à noite e alguns talheres chocando-se.

Steam

Uma pergunta: O que estava acontecendo?
- Pronto - disse quando descemos o último degrau da escada, virando-me para a direita, em direção à sala de jantar.
Eu entrei em estado de choque no mesmo momento. Meu cérebro não aceitava tal imagem, não acreditava que era real. Eu queria tocá-los, queria sentir a matéria formada para ter a certeza de que não era um sonho ou de que eu não tenha adquirido esquizofrenia. Era praticamente impossível a imagem captada pelos meus olhos.
Avancei um passo, esticando o braço, mas então me toquei que se isso fosse uma mera projeção, eu não queria destruí-la, mesmo que eu fosse muito boa nisso. Eu queria viver nesse sonho onde tudo a minha volta me fazia sorrir.
Eles estavam lá, bem a minha frente. Sorrindo...
- ? - minha imaginação lembrava-se perfeitamente do timbre suave de , chamando pelo apelido.
Algumas gotas começaram a cair, mas nem isso pode me impedir de ver meu círculo de paz, por tanto tempo longe de mim.
, , e estavam parados à frente da mesa de jantar, vestindo roupas vermelhas e brancas com desenhos tipicamente natalinos, sorrindo para mim. estava alguns passos à frente e por isso eu pude ver seus olhos marejados também. Ela estendeu a mão para mim e, hesitando um pouco por medo de tudo desaparecer em um vulto, finalmente segurei aquela mão que tantas vezes me ofereceu apoio, tantas vezes me segurou, tantas vezes me impediu de fazer burradas.
Segurar as mão não foi o suficiente.
Ela me puxou para abraçá-la e talvez se nós nos apertássemos mais poderíamos machucar uma a outra, mas eu não estava me importando com isso e aposto que ela também não. E acho que não preciso explicitar que ambas estávamos caindo em prantos.
- Desculpa, me desculpa... - afagava meus cabelos enquanto eu insistia em lutar contra minha voz embargada para lhe pedir desculpas e eu tenho certeza que eu nunca fui tão sincera antes. Era como se meu coração cuspisse pedidos de perdão, não apenas para , mas para todos na sala.
- Shh... Estamos aqui. Todos nós te perdoamos - ela apartou um pouco o abraço - Nós estamos aqui por você, . Todos aqui te conhecem bem o suficiente para saber que o que tem aqui dentro - tocou o lado direito do meu colo - é inúmeras vezes maior que sua ambição. Ninguém aqui vai ou pode te julgar. A verdade é que... Não dá pra gente ficar separados - nós terminamos num riso fraco e meio estranho, devido às lágrimas.
- , eu amo você! - ela também veio me abraçar, com os olhos vermelhos. Não disse nada e eu sabia que era por que ela não conseguia falar quando estava com vontade de chorar. era meu bebê sensível e eu adorava ter que cuidar dela, porém, algumas vezes, os papéis se invertiam.
- Sentimos muitas saudades suas, - ela finalmente disse - Você não sabe como seu sarcasmo faz falta! - beijou-me a testa, levando nós duas ao riso.
- Garoto! - e pularam em cima de mim, abraçando-me naquele abraço duplo e sufocante que eu conhecia tão bem, chamando-me pelo apelido que me deram há tantos anos atrás (só porque jogo futebol melhor que eles). Era reconfortante sentir a alegria desses dois em rodeando de novo.
- Moças! - eu suspirei. É, não tinha deixado esse apelido barato - Prontas para perderem no futebol? - beijei cada um na bochecha.
- Não tenha tanta certeza disso, - tentou me amedrontar.
- Nós andamos treinando - disse e... Céus, ele estava chorando!
, o machão que menosprezava filmes românticos, estava chorando...
- , você está...? - arrisquei.
- Não! Eu não estou chorando! - passou o dedo em baixo dos olhos - É que a me obrigou a ajudar na cozinha e eu tive que usar a pimenta então...
- Ok, já entendi - abracei-os novamente, um de cada vez.
- Tem um pouco da pro ? - ele andou devagar na minha direção, com as mãos nos bolsos, olhando para baixo, extremamente fofo, como sempre foi.
Não sabia que era possível chorar mais até começar a ver tudo embassado. Eles só podiam estar querendo me desidratar.
- Vem cá, ! - chamei-o com um soluço no meio e não pude contar um segundo até sentí-lo me apertando contra seu peito. Beijou o topo da minha cabeça, tirando mais alguns soluços de mim, e passou as mãos nas minhas costas, tentando me acalmar.
Toda as vezes que ele já me vira chorar, fez isso para que eu me controlasse.
Tudo estava do jeito que era antes, do jeito que eu amava. Eram eles ali, meus amigos, as pessoas mais importantes da minha existência, as pessoas com quem eu realmente me importava.
- Você é o único garoto que eu amo de verdade - passou a mão nos meus cabelos, colocando-os atrás dos meus ombros.
- Ei! - e reclamaram, postos atrás da mesa de jantar.
Aquela era minha mesa de jantar?
- Calados, vocês são moças! - ouvi dizer enquanto meu queixo atingia o subsolo.
A mesa estava perfeitamente linda. Decorada com um vaso de flores que combinava com o ar "vermelho" do Natal e com a toalha em baixo desse. O cafá-da-manhã estava posto, servindo desde torradas e chocolate quente até o típico bolo de frutas e vários tipos de sucos.
Imaginei há quanto tempo eles estavam aqui para terem preparado tudo isso e quanto trabalho eles tiveram.
E, pior: meu sinal de masoquismo me obrigava a me sentir desmerecedora.
- Vocês não deviam...
- , eu vou mesmo ter que te mandar calar a boca na manhã de Natal? - perguntou.
- Mas...
- , sente-se nessa cadeira agora e coma como se tivesse passado um ano no deserto - colocou as mãos na cintura.
Eu senti falta disso, mas não é muito recomendável contrariar quando ela estava com as mãos na cintura. Então eu fiz o que ela pediu. Limpei um pouco meu rosto com a mão e sentei-me na cadeira mais próxima, divertindo-me ao ver , e brigando por comida, como se fossem crianças. E lhes dava broncas, como se fosse a mãe deles.
Estava faltando alguma coisa... Não que eu estivesse em posição de reclamar ou até mesmo de exigir algo. Eu só podia ser eternamente grata por tê-los como meus amigos e que eles ainda se importassem comigo depois de ignorá-los como eu fiz, mas tinha uma lacuna que faltava ser preenchida...
- Onde está ? - ouvi minha voz perguntando.
Todos olharam para mim e depois entre si, deixando-me ainda mais confusa. Minha nossa, onde está ?!
- Ele... - começou, sem ter uma frase formada
- Ele deve ter ido pegar alguma coisa no carro - tomou a fala.
É, ninguém mudou nada. Eles ainda achavam que eu era burra.
- Tudo bem, então - decidi não forçar.
Eu não podia me sentir mais leve. Nós estávamos ali, comendo, falando besteira e rindo das palhaçadas dos meninos como fazíamos antes. Meu rádio estava ligado e ao invés das músicas depressivas de ontem à noite, agora tocavam canções de pop rock por toda a casa. Era lindo vê-los tão felizes, rindo por nada, provando-me que o passado estava enterrado na neve lá fora e que derreteria com ela quando a primavera chegasse.
- Noite feliz! Noite feliz! - cantava desafinando a voz propositalmente, tirando o fôlego de todos nós de tanto rir, zoando os grupos que costumavam sair por aí cantando na porta das pessoas.
- Já está de manhã, - disse, tentando controlar as risadas.
- Não importa, eu... - a responderia, mas logo parou, olhando para algo atrás de mim.
Virei-me e pela segunda vez no dia me deparei com os olhos que mais me cativavam.
- Onde você estava? - perguntei, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
- Estou vendo que não parou com a mania das perguntas - revirou os olhos - Vá até seu quarto com e olhe pela sacada - disse e rapidamente saiu pela porta da frente.
Aquilo me gelou completamente por dentro. Ele foi embora. De novo.
- Vem - me puxou pela mão. Minhas pernas se mexiam, mas eu não estava ciente disso. Tudo o que eu conseguia pensar era no aperto em que meus órgãos se encontravam por terem visto deixar minha casa novamente. As lembranças do dia em que ele atravessou aquela mesma porta começaram a me estapear.
Eu estava com medo. Morrendo de medo.
abriu a porta do meu quarto, guiando-me até a pequena varanda, que dava para o jardim dos fundos. Parou a minha frente e só alguns segundos depois abriu a porta transparente. Ergui uma sobrancelha, ainda confusa - e com medo -, mas apenas recebi um sorriso de apoio. Andei lentamente até o lado de fora, que contrastava fielmente contra o calor de dentro da minha casa. Abracei-me, esfregando as mãos em meus braços como se o pouco atrito fosse me aquecer, até que olhei para baixo.
"Wanna be mine?"
As palavras estavam escritas tortas na neve, rodeadas de pegadas, e ao fim da última letra, lá estava , olhando para cima - para mim -, com as mãos nos bolsos e com pontos brancos de neve em seu casaco.
Como eu já não tinha mais fluidos para chorar, eu começei a gaguejar, soltar palavras desconexas e sons esquisitos que eu nem ao menos sabia que era capaz de emitir. Eu comecei a tremer e o único ato racional que pude executar foi balançar minha cabeça para cima e para baixo, afirmando aquela pergunta retórica.
Mas é óbvio que eu era dele.
Saí do meu quarto o mais rápido possível e desci as escadas ao tropeços e ao, finalmente, chegar ao andar de baixo de novo, estava voltando, abrindo a porta. Não o dei nem um minuto e pulei em seu pescoço, abraçando-o como se eu nunca mais fosse o largar. Na verdade, eu nunca mais o largaria. Nunca.
Ele me apertou do mesmo jeito e eu pude ouvir o suspiro de alívio dele em meu pescoço, arrepiando todos os pêlos da região. Passei a mão em seus cabelos sem me importar com os flocos de neve gelados que ainda permaneciam ali. Não era como se alguma coisa ou qualquer coisa fosse atrapalhar isso.
- Eu te amo - era tudo o que conseguia dizer.
- Eu também te amo - respondeu ao meu ouvido.
Eu sentia como se o planeta, após um longo período fora de órbita, tivesse voltado ao seu lugar. Como se tudo que acontecera tivesse a intenção de engrandecer os sentimentos que sentíamos uns pelos outros. Como se fosse uma lição. Uma lição que machucou, mas que curou a todos, abrindo nossos olhos - principalmente os meus - para enxergarmos o nosso redor, para vermos que não estamos sozinhos.
Nós aprendemos... Na verdade, eu. Eu aprendi que não é todo dia que se encontra amigos ou um amor de verdade e que sempre que puder, devo agradecer por tê-los na minha vida.
Aliás, não é sobre tudo isso que o Natal é?


n/a: Bom, eu sei que eu terminei essa fic de Natal já em 2012, mas vocês devem saber que Dezembro é um dos meses mais corridos, né? Principalmente quando se tem família grande e tals, mas aqui está. Eu sei, não é nada excepcional, mas eu escrevi num momento em que eu tava meio perdida e, sei lá, oficialmente eu não acredito nessa coisa de "espírito natalino", mas eu fico em dúvida às vezes. Quer saber? Do que é que nós temos certeza absoluta?
Aproveitando a deixa, quero desejar um FELICÍSSIMO 2012 para todo mundo do Fanfic Obsession e um especial para você, que está lendo ;D
E claro, não posso faltar com os agradecimentos, né? Valeu, Lara Linda, tamo junto, rs. Gabs, Nina, Cris e Fê - que não leram, mas serão obrigadas.
Bom, é isso. Obrigada por ler.
xx, Honey B.
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Nota da Beta: Qualquer erro nessa fanfic é meu, então me avise por email ou mesmo no twitter. Quer saber quando essa fic vai atualizar? Fique de olho aqui. Obrigada. Xx.