Never Want to Say Goodbye



Não pensou – sinceramente – que viveria o bastante para ver esse dia chegar. Tinha a certeza absoluta de que iria antes deles. Eles. Pessoas tão importantes para ela, amigos de infância, namorados, confidentes. Todos a haviam deixado, ela estava sozinha. Outra vez. Talvez ela devesse começar a se acostumar a viver sozinha. Todos sempre acabavam deixando-a, de um modo ou de outro.
Pisou no pedal do freio levemente – Harry havia ensinado-a a dirigir, segundo ele “Como um cavalheiro.” – e recordou das lembranças daquele lugar. Tantas risadas que ela ainda podia ouvir. A paisagem estava cinza. O píer estava vazio – se é que aquilo podia se chamar píer -, e a neblina cobria todo o lago, deixando visível apenas a pequena paisagem para o mar. As montanhas pareciam mais escuras, quase sem vida. E a vegetação, antes cheias de flores em um tom de lilás convidativo, agora estava em uma cor de verde morto. Engraçado que tudo parecia morto, assim como eles.

Ela pode ver a paisagem se iluminar e a imagem dos cinco ali, preencher o vazio. Danny tentava pescar, enquanto Tom fingia vomitar olhando as minhocas no balde. Harry beliscava Dougie, falando que estava espremendo algumas espinhas que pareciam vermes, de tão grandes, e ela só ria.
Danny jogou a linha para trás e enganchou o anzol em uma árvore, puxando a mesma pela vara de pescar, fazendo-a chacoalhar e ele não perceber o porquê de sua linha não voltar. Em uma das vezes que ele puxou, um pêssego caiu no colo de , fazendo a mesma dar um berrinho e se jogar em cima de Harry e Dougie, atrapalhando o plano do garoto de beliscar Dougie sem culpa. Uma das pernas da garota bateu no balde, derrubando todas as minhocas em cima de Tom, que gritava com medo de alguma delas o morder. Todos começaram a gargalhar do garoto, enquanto o Sol se punha. Como esquecer coisas tão perfeitas e simples assim?

A paisagem começou a escurecer de novo, voltando ao cinza e a neblina. começou a andar em direção ao píer. Ouvia seus passos e o barulho do vento, apertou suas mãos no bolso sentindo um arrepio por causa do frio. Fechou os olhos, tentando voltar para aquele tempo. Tempo onde eles não tinham preocupações, eram apenas eles. Um som começou a atingir seus ouvidos, e pode ouvir a conversa de quando os cinco foram passar o verão ali. Apenas eles, sem o mundo ao redor.

- ! Você é uma garota, cubra suas pernas antes que o Jones tenha um ataque! – Tom resmungou quando viu a garota de shorts e biquíni.
- A é minha irmã de consideração, não consigo ver ela como uma... uma... – Danny engasgou no meio da palavra, e ficar pálido.
- ...Uma mulher? – Dougie completou enquanto ria da cara de tacho de Danny, sua voz saíra estranha, numa tentativa de imitar o Jones.
- Garotos, vocês sabem que eu só tenho olhos para o Harry! – Ela sentou no colo do garoto e os dois começaram a fingir que estavam se agarrando.
- Vão para um quarto! – Tom tampou seus olhos e Harry começou a chorar de rir.
Nenhum deles via sua amiga como uma mulher. Ela seria para sempre , a pequena deles.

Fechou os olhos, tentando memorizar o timbre de voz deles, e sentou-se na beira o píer. Encarando a água parada por entre a neblina. As lágrimas começaram a cair com vontade, e ela teve que encarar um fato, que não queria encarar: Seus amigos estavam mortos. Todos eles. Um por um estava enterrado no espaço vazio antes do píer. Um do lado do outro. Ela nunca mais os veria sorrir, nem fazer palhaçadas para ela se sentir melhor. Nunca mais sentiria o abraço quente dos quatro, nem choraria no colo deles. Nunca mais veria seus rostos tão diferentes, cada um com uma característica marcante.

Nunca mais veria o sorriso acanhado de Tom, que mostrava uma covinha única, na bochecha esquerda. Nunca mais veria as sardas de Danny cobrirem toda sua pele, da qual ele odiava. Nunca mais veria o sorriso de canto de Dougie, que ele mostrava quando estava tímido. Nunca mais veria os olhos azuis de Harry brilharem, quando uma boa notícia chegava. Nunca mais os veria. Nunca, nunca, nunca e nunca.

Sentia o gosto salgado das lágrimas, e começou a cantar a musica dos cinco. A trilha sonora deles, como eles sempre diziam.

- When you're down and troubled and you need a helping hand. – Começou, em meio a soluços e fungadas, tentar cantar o que só saiu um sussurro. - And nothing, Oh nothing is going right... – Sua voz foi morrendo, e ela soluçou alto sentindo falta dos amigos. Eles sempre cantavam essa música quando iam para lá.

- Close your eyes and think of me – Ela fechou seus olhos, levantando-se vagarosamente, cantando baixinho devido ao choro. - And soon I will be there – Ela fechou os punhos, aumentando um pouco a voz. - To brighten up even your darkest night... – Assim como a voz dela aumentou, no final da frase voltou a ser baixa. Ela não agüentaria aquilo, não agüentaria viver sem eles, viver sozinha.

- You just call out my name... – Sua voz tremia, e ela não conseguia pensar direito. Apenas estava dançando sozinha no píer, enquanto sofria. - And you know wherever I am... – Teve certeza que sentiu a voz de tom se juntar a dela. E então parou de repente, abrindo os olhos assustada. - I'll come running to see you again... – Sentiu a mão quente dele em sua cintura, enquanto cantava em seu ouvido. Eles começaram a dançar, enquanto a garota, muda, apenas olhava o rosto de Tom, tentando decorar tudo.

- Winter, spring, summer or fall – Harry surgiu do lado de Tom, e os dois sorriram para ela. Ele pegou sua mão, deixando Tom parado, e começou a rodopiá-la levemente, como uma bailarina. - All you got to do is call... – Ele a parou e beijou sua testa, como se a protejesse. - And I'll be there, yeah, yeah, yeah. – Ele sussurrou enquanto a abraçava, e pode jurar que eles estavam mesmo ali. – You’ve got a friend.

- If the sky above you – Danny estava, de repente, atrás dela, segurando em sua cintura com o queixo encostado em seu ombro - Should turn dark and full of clouds... – Eles sempre ficavam assim, por horas, apenas juntos. Amigos para sempre seria muito clichê? - And that old north wind should begin to blow – Ele a virou de frente para ele, e sorriu, como sempre sorriu em suas lembranças. - Keep your head together... – Ele grudou suas testas, e a encarou nos olhos, enquanto dançavam. - And call my name out loud, yeah! – Ele a rodopiou para o vazio, dizendo sua ultima frase. - Soon I'll be knocking upon your door...

- You just call out my name – Ouviu Dougie sussurrar, enquanto esbarrou no meio de seu rodopio, em um corpo quente. - And you know wherever I am – Ele sorriu torto para ela, como se pedisse desculpas - I'll come running, oh yes I Will... – Eles andaram e pararam no meio, entre os outros três garotos. - To see you again... – Ela ficou lá, no meio, sozinha. Girando, para conseguir ver os quatro e não perder nenhum detalhe. Sua mão direita foi para a boca, enquanto a esquerda passava a mão no rosto de cada um. Sentindo seu calor pela última vez.

- Ain't it good to know you've got a friend? – Ela sussurrou, dando um abraço em todos ao mesmo tempo, como sempre fez. Suas lágrimas pareciam nunca acabar, enquanto ela sentia o calor diminuir. Não queria que eles fossem embora, queria ir com eles!

Apertou mais forte os garotos, sentindo eles a apartarem mais forte ainda. O ar faltou mais ela não ligou. O calor sumiu, assim como os garotos, e seus braços abraçaram o vazio. Suas pernas fraquejaram ao ver o vazio, e ela caiu de joelhos na ponta do píer. Se abraçando, e sentindo as lágrimas caírem enquanto ela gritava. Seu choro doía nela mesma, enquanto seus soluços aumentavam. Uma brisa quente passou, e tirou seus cabelos de seu rosto. Ela se jogou de costas no píer, deitando na madeira velha. Apenas sentindo a brisa quente passar por ela.

- Não me deixem... - Ela sussurrou baixinho, levantando uma mão para o céu.

Apenas sentindo seus amigos, pela última vez.

Fim

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