null, uma menina pobre, de classe inferior, sempre lutou com seus estudos por um lugar melhor no mercado de trabalho, onde ela pudesse ter um nível de escolaridade maior e mais estruturado. Então fez um exame para o colégio mais caro e requisitado dos Estados Unidos, o colégio interno Renaissance Military School.
Era começo das férias escolares de verão, ela estudou durante sete meses para essa avaliação. Realizou-a e dois meses depois os resultados saíram. Ela teria que disputar a vaga com mais 300 jovens de classe médio-baixa e fez muitos amigos durante os grupos de estudos que se formaram. Ela gastou todo o dinheiro que economizou com a inscrição e não restava mais nada, a não ser esperar. Nos primeiros dias de fevereiro, os resultados sairiam e ela estava lá, cedo, muito cedo, vindo de longe para saber seu futuro. Abriram-se as portas do “Mice” (apelido dado ao colégio, por alunos) e lá estavam os resultados pregados numa borda elegante de ouro. Procurou desesperadamente seu nome e não o encontrou. Saiu chorando até um banco e logo depois escutou um grito por seu nome, do local onde estavam os resultados. Era Julio, seu amigo do grupo de estudo.
- null, nós fomos aceitos, somos uns dos dez! Não acredito! – Gritava ele.
Incrédula, null levantou-se com lágrimas no rosto. Julio compreendeu sua confusão, apontando para o local onde seu nome estava elegantemente escrito e lá estava: “null foi aceita”. Ela deu pulos de alegria, correndo pelos corredores e gritou:
- Julio, que maravilha! Esse é nosso resultado e o nosso esforço foi provado aí! Não acredito – ofegava ela.
- Sim, null. Este não é o último dia que nos vemos, eu lhe disse, nós fomos aceitos. Parabéns para nós, então.
- Claro, Julio, daqui a um mês estaremos aqui, com nossos novos colegas... No futuro teremos possibilidades de ser alguém, eu não acredito! – falava ela, contente, ainda sem se dar conta de que foi aceita.
- Tenho que ir, nos vemos daqui um mês, obrigado por tudo – disse Julio sorrindo e saiu feliz.
- Tchau, obrigada – gritou null.
null pegou o metrô correndo e foi para a pensão, onde havia alugado uma peça de quarto para poder ir aos grupos de estudos e esperar as aulas particulares que pagava, trabalhando na Starbucks no centro da cidade.
Alguns alunos selecionados teriam um treinamento para serem monitores e morar em cabanas separadas, um luxo. Era feito para alunos ricos também, na lista de nomes estavam vários e só ela, dos alunos que entraram com bolsa, foi escolhida. Aquilo era uma alegria só. Na lista constavam alguns nomes que ela memorizou: “null null, null Knowles, null null, null Gucci, null Garcia null, etc.”. Ela sabia que eram nomes conhecidos, filhos de donos das marcas mais famosas do mundo, mas estava lá para estudar e esse era o seu objetivo.
A menina caiu no sono naquela noite, pensando no dia seguinte e no treinamento com os “ricos mimados”. Ela aguentaria aquilo por tudo que lutou e acreditava que dias melhores viriam.
02 de fevereiro, 2008
- Arrume suas coisas, null. Agora! – disse o pai de null, quando passou rapidamente pela porta do quarto da garota.
- Já vou! – ela gritou relutante. Levantou-se, abriu as cortinas e sentou olhando para as malas que Consuelo, a governanta, havia preparado para sua partida.
11 de julho, 1998
Melborne
- Filha, liga o rádio.
- Claro, mãe – disse null, ligando-o. Tocava, animadamente, Vanessa Carlton em uma das estações.
Depois do feriado de 4 de julho, null e sua mãe voltavam da casa de praia na costa da Austrália, em Melborne. Sua mãe dirigia o carro e flutuava sob a rodovia. Elas estavam indo em direção ao aeroporto para embarcar no vôo de volta para New York. O pai de null voltou alguns dias mais cedo, pois tinha alguns compromissos e os Estados Unidos enfrentava uma crise econômica baixa, porém, ele sempre tomava muito cuidado com suas ações.
Elas cantavam alegremente a música que contagiava o interior do carro. null admirava a mãe que sorria e cantava algumas palavras da música, enquanto olhava a estrada a frente. O que aconteceu depois... Foi rápido demais. Um barulho forte, uma dor intensa e algumas sirenes.
null tinha quatro anos e sua mãe trinta. Eram como unha e carne, faziam passeios maravilhosos e cuidavam uma da outra. O pai de null, Evandro null, as amava muito. Eram suas maiores preciosidades e todo o momento em que ele podia estar presente, ele estava.
null acordou sobre uma cama confortável, mas seu rosto latejava e havia uma máquina irritante que dava pequenos bips. Tudo era tão branco e limpo, porém ela ficou com medo. Tentava lembrar-se do que havia acontecido e não conseguia. Alguns minutos depois, uma moça com um jaleco branco entrou no lugar, a examinou e foi correndo chamar alguém.
- null, minha querida! Você acordou! – Gritou Consuelo. null queria que seu pai e sua mãe estivessem ali, mas nenhum dos dois apareceu.
- O que aconteceu, Consu? – perguntou a menina, assustada.
- Então, minha querida... Sua mãe foi para o céu junto com os anjinhos...
02 de fevereiro, 2008
New York
Depois daquele acidente, a vida de null nunca foi a mesma. O pai a tratava como um animal e vivia como um fantasma que se escondia na mansão em que viviam, no norte de New York City. A garota sentia a falta da mãe constantemente, mas já tinha quinze anos e havia escutado poucas e boas do pai, que apelidara de pai-monstro.
Uma noite ele a chamou de “assassina”, na outra “destruidora de sonhos”, nas outras variava entre “garota dos infernos” e “eu te odeio”. No começo foi tão difícil pra ela, mas depois se acostumou e a única pessoa em quem confiava plenamente era em Consuelo, sua governanta.
- Consu, você acha que eu vou ficar bem na Mice? Eu serei monitora e morarei com um menino, vai ser tão diferente! – a menina falou rápido, enquanto se arrumava para o primeiro dia de aula no internato.
- Claro, meu amor. Você é muito sociável e, até que enfim, terá uma oportunidade de viver realmente. Eu gosto muito de seu pai, mas você não merece isso, null – Consuelo confessou à null.
- Eu sei, Consu, mas eu não quero pensar nisso. Quero que ele fique bem e me deixe em paz. Aliás, marque logo uma consulta para mim na estética.
Evandro, o pai-monstro, acusava null de ser a culpada por matar o amor de sua vida, de matar a própria mãe. E quando as coisas fugiam do controle, ele batia nela. Ele a queimava com cigarro, dava tapas em seu rosto, puxava suas orelhas e a beliscava os braços. Ela não suportava mais as agressões. Perdeu as contas de quantas vezes foi à estética para apagar as marcas de tudo o que ele a fazia.
Ela se sentia forte, mas não sabia quando esse pesadelo acabaria.
Capítulo Dois
03 de fevereiro, 2008
Em uma parte isolada e afastada do centro de New York
No dia seguinte, os monitores chegaram ao colégio todos com seus choferes e carros de alta classe. Eram dez, cinco meninas e cinco meninos, com cinco cabanas. Dois pra cada, misturado. A lista com cada casal estava na parede, em folha de papel grosso, elegante, com borda dupla, que continha as informações de cada um deles, mas estava tapada.
Eles se sentaram em bancos no saguão, com malas e infinitas malas, as meninas ricas todas maquiadas, com caras emburradas. null era a mais simples, mas estava radiante porque gostava de conhecer pessoas diferentes. Notou que a única que sorriu para ela foi null null, conhecida por seu temperamento frágil e seu pai extremamente rico. Naquela sala enorme estavam os dois herdeiros mais ricos dos Estados Unidos, null e null. A diretora entrou na sala, destapou a folha e desprendeu-a do mural.
- Bem-vindos alunos, sou a Senhora Professora Natasha, a diretora nos próximos quatro anos que vocês passarão neste local. Apresentei-me, agora são vocês – ela sorriu, era uma mulher simpática, de aproximadamente cinquenta anos, com uma aparência jovem para sua idade, elegante e usava roupas formais. Um dos meninos se levantou de boa vontade e disse:
- Oi, meu nome é null Gucci, herdeiro da Companhia Gucci. – em uma série surgiram vários outros se levantando um a um e se apresentando.
- Meu nome é null, mas podem me chamar de null e sou filha de Gregório null. Prazer.
null constatou que null era a mais simpática de todas as outras quatro meninas. null, null, Pedro, Lucas, Alyssa, Melinda, Bernardo, que se apresentou como Ber, todos se apresentaram, só faltava null, então ela levantou-se e disse:
- Olá, meu nome é null e sou bolsista, muito prazer, colegas.
null foi à única que se manifestou quanto a isso, pois todos, com exceção de null, se entreolharam e ficaram espantados. null levantou-se e disse:
- Prazer. Gente, e mais uma coisa, gostaria de conhecer meu colega de cabana, sim?
Em um gesto de agradecimento, null olhou para null sorriu significativamente e ela piscou em reconhecimento, null percebeu e sorriu, sem que ninguém notasse.
- Sim, senhorita null, irei lhes apresentar a formações no quadro nesse exato instante – então, a diretora levantou a folha e sorriu. – As duplas são mistas e, como todos sabem, monitores não trocam de quarto nos primeiros três meses, só em casos especiais.
Ela retirou a película que cobria a folha e sorriu. Um alvoroço começou, parecia uma manada de elefantes.
null e null – 103
null e null – 104
null e Pedro – 105
Alyssa e Bernardo – 106
Melinda e Lucas – 107
Esse era o simples conteúdo da folha. Um olhava o outro. Já estavam todos nervosos para sair dali, conhecer as cabanas e seu par.
- Por favor, alunos, dirijam-se as suas respectivas cabanas, descarreguem suas malas e acomodem-se. Em cada cabana tem um mural, lá haverá uma carta, leiam e façam o que informamos, sejam bem-vindos novamente – a diretora apontou para um corredor com uma porta grande no fundo do saguão e todos a seguiram.
A luz do sol brilhou quando todos saíram do saguão para se deparar com um lugar muito, muito grande mesmo. Com muitas árvores, quatro prédios imensos e em uma área reservada que havia cinco cabanas-padrão lindas por fora, elegantes e iluminadas, mesmo àquela hora da manhã. Ela os liberou e todos saíram correndo para conhecer o lugar.
Xxxx
03 de fevereiro, 2008
Mice null
Cada cabana era dividida por um jardim, onde havia uma fonte no centro do espaço das cinco, com bancos de pedra em sua volta. Para chegar a cabana, havia caminhos feitos de cimento em forma de onda até cada uma e eles nasciam da fonte. Era magnífico.
Então, peguei minhas malas e andei até a cabana que indicava o número 103 ao lado da porta. null estava atrás de mim, calado, seguindo meus passos. Vi pelo canto do olho que os outros faziam a mesma coisa. Eu estava mais lenta que todos, que estavam agitados e não conseguiam colocar a chave na fechadura com ansiedade. No lado de fora, uma varanda em volta de toda a cabana, com um telhado de madeira, muito elegante, mas simples ao mesmo tempo. Nela, havia balanços, bancos e uma mesinha, e em cima dela, existiam duas chaves exatamente iguais. Alcancei uma das cópias para null, dei um sorriso maroto e virei para abrir a porta da minha nova casa simples, por três anos.
Assim que o fiz, me surpreendi com o que havia dentro e escutei null hesitando atrás de mim, ao ver o interior luxuoso daquela cabana simples por fora. Dentro havia duas camas de solteiro enormes, de lados opostos, na ponta de cada cama estavam duas escrivaninhas, com computadores da mais alta tecnologia. Papéis, canetas, livros didáticos, tudo para se estudar. Nos pés da cama havia baús grandes e arrojados. As camas estavam cobertas por lençóis de seda claros, o piso era de madeira falsa e as paredes de tons diferentes e muito belos. Sobre as camas estavam várias mudas de uniformes e alguns formulários de conduta.
- Oi, null, prazer, desculpe não lhe cumprimentar anteriormente, estava curiosa para ver a cabana.
- Olá, null, digo o mesmo, muito prazer.
- Me chame de null, null é muito formal – nós dois rimos e naquele instante, constatei que ele seria uma pessoa fácil de conviver.
- Vamos ver o resto da cabana, o que será que há na parte de trás? – ele fez uma cara de nervoso e nós rimos novamente. A primeira impressão que tive: simpático.
Então eu o segui, por um corredor curto, de um lado havia dois banheiros com banheira de hidromassagem, os dois eram enormes e revestidos de azulejos brancos com detalhes em um tom pastel. No lado de fora dos banheiros, havia uma mesa para seis lugares, grande, com um lustre de cristal sobre ela. Um balcão de canto a canto, fechava uma parte e definia a cozinha, que eu amei. Era diferente, temática, retro. A geladeira era vermelha, grande, mas parecia ser último modelo, o microondas do mesmo modelo e cor, tudo combinava e fazia a cozinha ser chamada “anos sessenta”. Na copa, havia um som antigo, daqueles que escolhemos os discos.
- Nossa! Adorei esta parte da cabana! É menor, gosto disso... É mais aconchegante. Minha casa é imensa e a maioria das coisas é automática. Gosto dessa simplicidade com luxo – eu disse.
- É verdade, null, teremos bons cafés da manhã – ele estava na cozinha abrindo um armário cheio de pães, bolos, café em pó. – Quanta coisa!
- Vou confessar uma coisa... Não sei cozinhar nada.
- Eu sei algumas coisas que vi na televisão em meus tempos livres, podemos pedir alguns livros de culinária – nós rimos, pois ninguém sabia preparar nada direito.
- Comer pronto é uma opção também – eu disse.
- Estamos esquecendo alguma coisa...
- O bilhete do quadro, no hall – lembrei-o.
Dirigimo-nos até a entrada e lá havia um mural gigantesco, com vários imãs e uma carta somente, ele pegou-a e leu para mim:
- Sejam bem-vindos, alunos! Convidamos todos para uma fogueira de apresentação nesta noite. Dirijam-se às 20h para a parte leste do pátio. Obrigado.
- Nossa, já temos compromissos.
- Conturbado. Estou cansado, null, vou desfazer as malas – ele disse.
- Eu também, parece que não vamos descansar muito.
Coloquei a mala rosa, que comprei dois dias antes, em cima da cama e coloquei todas as roupas dobradas dentro das gavetas e cabides do armário. Nesta hora agradeci à Consuelo por ter dobrado tudo, pois insisti antes de sair de casa que não precisava dobrar nada. Sorri ao lembrar-me da minha governanta amável e sensível que sempre me ajudou com meu pai problemático. Descarreguei tudo, olhei no relógio da escrivaninha e já eram sete horas. Corri, peguei uma muda de roupas bem leve e entrei no banheiro. O chuveiro era quente e me fez relaxar. Enquanto tomava meu banho, comecei a pensar nas pessoas que eu vi ali naquela tarde. Sentia-me tão independente, sem fotógrafos por perto, pessoas que tinham o mesmo dinheiro que eu e não eram interesseiras.
Um pensamento me pegou: null, meu colega de quarto pareceu ser simpático e quieto, seria uma boa pessoa pra se conviver? Ele era lindo, tinha o cabelo castanho claro, olhos claros, pele tabaco e um sorriso rosinha, era um deus grego. Tentei não pensar nisso, pensei em null, a menina da bolsa de estudos, que me pareceu assustada e querida. Gostaria de revê-la esta noite, mas não sabia se estaria lá. Meu banho tinha chegado ao fim, por mais que tentasse prolongá-lo. Queria curtir minha liberdade, na minha casa nova, com pessoas desconhecidas que vou aprender a conviver por três anos. Pensei em meu pai, será que tudo que eu vivia desde a morte de minha mãe continuaria a existir no colégio? Eu não sabia, mas olhei as marcas no meu braço e me reprimi, precisava visitar minha médica e seu laser, novamente.
Vesti-me, colocando as roupas vagarosamente, penteei o cabelo, apliquei uma maquiagem básica, pois não era muito boa em fazer as coisas sozinhas. Pensei em meu cabelo, liso feito seda, que era ótimo, pois não precisava me preocupar em chapinhas ou tratamentos. Quando saí, vi null na mesa, me esperando. Corei, não esperava que ele ainda estivesse ali.
- Desculpe a demora, não precisava ter esperado – eu disse.
- null, você está linda. Vamos? – Ele disse, ignorando minhas desculpas, que eram inúteis. Ele esperava determinado por mim. Talvez por não querer ir sozinho até a fogueira.
- Obrigado – corei. – Vamos sim.
Andamos até a porta, fechando-a e quando saímos, as luzes estavam acesas, já anoitecera e estava tudo iluminado por milhares de postes, por todo o campus. Seguimos duas pessoas que não identifiquei de primeira, mas depois vi que eram null e null, os donos da cabana ao lado. Eles andavam como nós em direção ao encontro dos professores. null olhou para trás e sorriu, aquilo me deixou feliz. Muito feliz, ela cutucou seu colega e ele virou, olhou para o null e para mim, dizendo:
- Ei, vamos juntos! - null chamou.
Nós nos juntamos a eles e estávamos nos dando bem, era bem diferente do que eu pensava que seria. Olhei para null, que me olhou esperançosa, os meninos estavam conversando e falando coisas aleatórias e nós duas rimos bastante com eles. Eu estava admirando null, ele era diferente de tudo o que falavam, aliás, todos eram diferentes. Caminhando, chegamos abaixo de um arco escrito: “Listen to the Music”. Logo avistamos mais duas pessoas e um conselho de cinco professores e a diretora, sentados em um tronco, como bancos. A fogueira lampejava faíscas, eu olhei encantada e percebi que não fui só eu que tive essa reação.
null e null passaram pelo arco e logo depois eu passei, e enquanto caminhava eu olhei para trás e percebi que null me analisava e sorria. Eu corei e virei o rosto antes que ele pudesse notar que eu percebi a sua análise.
Os professores pediram que nós nos acomodássemos no bancos estilo troncos-de-árvore-cortados. null sentou ao meu lado e null sentou no outro. Ficamos observando a fogueira que irradiava calor e brilhava jorrando suas faíscas. Era algo lindo de se ver.
- Boa noite, monitores. Eu sou o professor do ano passado de música. Eu estou me aposentando esse ano, mas antes recebi um convite para trazer pra vocês essa banda que faz alguns covers incríveis no YouTube.
Nós batemos palmas e esperamos que eles sentassem em um banco comprido de madeira. A banda era constituída por uma menina e quatro garotos. A menina não tinha nada nas mãos e presumi que ela fosse a vocalista. Os meninos seguravam um violão, um baixo e uma caixa como se fosse um tambor, respectivamente.
- Boa noite, meu nome é Megan e nós vamos embalar a noite de vocês. Estamos muito felizes pelo convite. Eu estudei aqui quatro anos atrás e foi a melhor escolha que eu tomei na minha vida. Conheci meus melhores amigos e meus companheiros de banda.
- E aí pessoal? Meu nome é Trevor, estes são Heitor e Antônio – ele apontou para o menino do baixo e depois para o menino do tambor. – Agora nós vamos tocar para vocês. Espero que vocês gostem e aproveitem. A primeira música que vamos tocar é Wild Horses da Natasha Bedingfield.
I feel these four walls closing in Eu sinto essas quatro paredes que me rodeiam Face up against the glass Meu rosto contra o copo I'm looking out Estou observando Is this my life I'm wondering Esta é a minha vida, estou desejando saber It happened so fast Aconteceu tão rápido How do I turn this thing around Como eu viro essa coisa de volta Is this the bed I chose to make Esta é a aposta que escolhi fazer There's greener pastures I'm thinking about Estou pensando sobre estes pastos verdejantes Wide open spaces far away Espaços escancarados bem longe
All I want is the wind in my hair Tudo o que eu quero é o vento no meu cabelo To face the fear, but not feel scared Encarar o vento, mas não ter medo Wild horses I wanna be like you Cavalos Selvagens, eu quero ser igual vocês Throwing caution to the wind, I'll run free too Jogando a precaução para o vento, eu correrei livre também Wish I could recklessly love like I'm longing to Queria poder amar impulsivamente, como eu desejo também I wanna run with the wild horses Correr com os cavalos selvagens Run with the wild horses Correr com os cavalos selvagens
Eu sentia as lágrimas prontas para caírem, prontas pra se libertarem. Mas a única que precisava ser libertada era eu. Eu estava cansada de lágrimas, de quatro paredes, de comodidade e de sofrimento. Eu queria viver mais do que intensamente. Queria ser a realização da música. Eu não queria que o medo me pertencesse.
null segurou a minha mão calmamente, eu o encarei, mas ele continuava a observar a banda tocar aquela música. Aquilo foi um tanto estranho, mas eu não conseguia parar de observá-lo. Até que enfim ele me olhou e sorriu. Simplesmente levantou a mão livre e secou uma lágrima pequena. Como ele sabia disso? Como ele sabia do que eu precisava?
Resolvi voltar a escutar o fim da canção e esquecer um pouquinho as minhas dores. Afinal nem tudo é tão horrível assim, às vezes me sentia uma protagonista de novela mexicana, e o pior? Quem me colocava nessa situação era eu mesma.
As músicas continuavam a tocar pela banda, eles tocaram mais umas quatro músicas e depois agradeceram.
- Pessoal, agora vocês podem conversar, se conhecer. Daqui a uma meia hora voltem aos seus lugares, pois teremos a segunda parte da noite. A melhor parte. E se despeçam da banda... Eles vão tocar em um pub no centro de New York – ele fez um biquinho e sorriu logo depois.
Os monitores começaram a levantar. null puxou minha mãe até a sua boca e beijou-a carinhosamente. Sorriu para mim, levantou-se puxando null consigo. Eu e null continuamos no mesmo lugar, olhando a crepitante fogueira.
- Eu os adorei – null falou.
- Eu também, são muito talentosos e o repertório foi bem... Bonito – tentei disfarçar, mas o que eu realmente queria falar era “forte”.
- Com certeza. Então, null, o que você está achando do lugar, do null, dos monitores, da cabana?
- Pelo visto você está bem animada, não? – Nós rimos. Foi fofo. – Do null? Como assim? Foi normal, não nos falamos muito, pois ficamos guardando nossas coisas. E me chame de null, por favor. Os monitores eu, por enquanto, só falei com você, o null e o , e eu gostei muito de vocês. A cabana é linda, morri com todos aqueles móveis.
- É verdade, que coisas lindas.
- Faço as mesmas perguntas, null.
- Então... Eu não guardei absolutamente nada na minha cabana nem o . Nós ficamos conversando e depois fomos tomar banho.
- Juntos? – Eu fiz cara de tarada e nós caímos na gargalhada.
- Claro que não, sua louca. Você entendeu.
- Rolou clima, rolou clima, rolou clima – comecei a cantarolar e null se fez de desentendida.
- Shiu! Fica quieta, null. Estou frita se ele escuta isso – ela riu. – Mudando de assunto, também só falei com vocês e tenho uma leve impressão de que seremos bem amigos.
- Uau! Temos alguém que prevê o futuro. Eu vou me casar? – Fiz careta e estendi a palma da minha mão, dando a entender que ela deveria lê-la.
- Bobalhona. Claro que não. É só um pressentimento. Dãr.
Eu e a minha nova amiga, null, ficamos conversando durante a meia hora determinada pelo professor. Falamos bobagens e ficamos contando nossas vidas. Os cinco garotos monitores se reuniram e lançavam um papo animado sobre bobagens do outro lado da fogueira. No banco em que a banda havia cantado estavam null, Alyssa e Melinda fofocando do mesmo jeito que eu e null. Não gostei muito daquilo, não. Achei meio que uma divisão de grupos. Por que será que os meninos estavam todos juntos e as meninas haviam formado dois grupinhos? Quando eu assistia os seriados na televisão, era assim que as meninas se tratavam nos colégios.
- Eu não fui com a cara da null – null disse com expressão de desgosto.
- Você é das minhas! Somos duas! – Eu falei rindo.
- Temos muito em comum, então.
- Voltem aos seus lugares, por favor – o professor quase aposentado pronunciou alto para que todos escutassem.
- Ah! – Todos os meninos disseram desanimadamente.
- Sem “ah” nem “eba”. Voltem agora! – O professor falou brincando com os garotos, mas os meninos voltaram.
null sentou ao meu lado, mais perto do que antes. Seu corpo colado de lado ao meu. Arrepios não faltaram. Eu queria tocar sua pele macia, queria sentir seus braços em minha volta. “Que isso, null? Volta pra cá? O que você pensa que está fazendo?”, eu pensei.
- Você está melhor? – null sussurrou em meu ouvido. Sua respiração batia na minha bochecha. “Chegue mais perto”, eu desejei cruelmente.
- Melhor de quê, null? Eu não tenho absolutamente nada – falei rispidamente, aterrorizando a minha mente por pensar aquelas bobagens.
- Que pena, pois eu poderia fazer você ficar melhor – ele sussurrou quente. “O que foi isso?”, eu me perguntei mentalmente. Não sabendo se havia gostado ou não. Só sabia que foi absurdamente sexy e que eu tive vontade de beijá-lo.
- Não, não, eu estou bem. Obrigada – eu disse e me afastei rapidamente do corpo de null.
- Tudo bem, é você quem sabe... – Ele disse e bateu as mãos nos joelhos voltando a se aproximar de mim. – null, eu não mordo... – Ele voltou a sussurra em meu ouvido. – Não mordo, se você não quiser.
- Para com isso, null. Você está louco? – “Deus, o que ele está fazendo?” Eu o queria, mas só havia passado algumas horas com ele. Que loucura! Não me afastei como havia feito antes, porém fiquei quieta e olhei para o professor que se preparava para falar.
- Luzes! – O professor falou e as luzes do local foram apagadas. “Ótimo, professor. Bem conveniente com esse louco null do meu lado. Querendo me morder?”
xxxx
Só as luzes da fogueira que iluminavam os rostos que sorriam em volta da fogueira. Estavam todos em silêncio, os dez monitores, o professor quase aposentado e a diretora. O professor jogou um pó na fogueira que fez com que as chamas diminuíssem.
- Hoje eu estou aqui pra falar sobre “A Lenda da Fonte”. Você gostaria de começar, Diretora?
- Não, professor. Você é melhor em contar essa história, prossiga, por favor...
- Tudo bem. Pois bem – o silêncio tomou conta do lugar e as pessoas prestavam atenção, com seus olhos apertados ansiadas por ouvir mais -, alguns bons anos atrás houve uma geração revolucionária na Mice. Os números de monitores era bem menor do que hoje em dia e só havia dois casais em duas cabanas – o professor contava em um tom de suspense.
- Evandro e Sophie null... – O coração de null disparou e todos a encaravam, menos null que continuo olhando pra frente. – Os dois queriam que a Mice fosse menos autoritária e que os alunos, que não tivessem condições de estudar aqui, pudessem ganhar bolsas. Hoje em dia nós temos bolsistas aqui por causa destes dois malucos. Eu fui monitor com esse casal. Eles se amavam demais e faziam tudo juntos. Um dia a Diretora chegou para eles e disse que se eles não parassem de anarquizar, eles seriam expulsos. Mas para eles aquilo não era anarquia, era expressão, eram apenas direitos que eles defendiam. No meio de uma noite eles bateram em minha cabana e propuseram que construíssemos uma fonte no meio do pátio dos monitores.
- Planejamos tudo por muito tempo, trouxemos o material com muito esforço e escondemos na floresta. Até que um dia resolvemos construí-la e foi isso que fizemos. Em uma noite nós conseguimos que a fonte funcionasse e que expressasse tudo o que sentíamos. Na fonte nós escrevemos cada um uma frase que representasse o que quer que seja, mas escrevemos. Foi um ato muito rebelde aos olhos do conselho da Mice. Fomos expulsos. Depois disso eu perdi contato com os dois. Mas hoje, quando eu vi a null – ele apontou pra mim e meu coração apertou. Eu já não aguentava mais segurá-las, mas as pessoas não paravam de me olhar. Eu odiava quando me olhavam.
- Não entendi, professor. Qual é a moral da história? – Melissa perguntou.
- Depois que eu saí da Mice, alguns anos depois para ser mais preciso, eu encontrei o Evandro. Ele sorriu pra mim e nós conversamos por muito tempo. Ele disse que teria uma filha. Ele estava tão feliz... – null se contorcia e null sentiu que ela iria desabar. – No ano seguinte eu encontrei minha parceira de cabana e ela me contou que a Mice já não era mais a mesma depois do que fizemos. Abriram vagas para bolsistas e o número de monitores era maior. O que eu quero dizer é que vocês serão a nova geração da Mice pelos próximos três anos aqui. Aproveitem tudo ao máximo, esse colégio, e eu não sei o porquê, é muito intenso. Deixem marcas na história deste lugar. Não estou dizendo para derrubarem muros ou destruírem o refeitório... Pelo contrário, peço que vocês deixem a Mice marcar vocês.
As pessoas batiam palmas e comentavam sobre a história. Alguns monitores já haviam ido embora, inclusive null e null. null estava acabada. Queria chorar, queria ir embora. Quem aquele professor achava que era para falar sobre sua família? Como ele pode dizer que Evandro-pai-monstro estava feliz? Ele nunca foi feliz, era um hipócrita que destruiu a vida da garota. Ela não aguentava mais. Ela estava sentada ao lado de null e os dois não se mexeram nem um centímetro. Por fim as lágrimas caíram e ela não conseguiu resistir, mesmo depois de se irritar com a atitude anterior do garoto, e acabou se deixando levar... Deitou sua cabeça no ombro de null que hesitou um pouco, mas logo passou o braço pelas costas da menina e a abraçou ternamente.
- Vamos? – Ele perguntou.
- Por favor – ela sussurrou fraco.
Ele levantou cuidadosamente e estendeu a mão para que ela pegasse. Ela pegou e ele a puxou até ela ficar de pé, mas as mãos continuavam unidas durante o percurso da fogueira até a cabana. Mas antes eles passaram pela fonte. null soltou a mão do menino e foi até lá, abaixou-se e leu as frases que estavam escritas. As frases estavam escritas em gesso.
“Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Por Anna.” Deve ser a colega de cabana do professor aposentado.
“Ó beleza! Onde está tua verdade? Por Julio” Deve ser o professor aposentado.
“A vida é maravilhosa se não se tem medo dela. Por null.”
“As pessoas entram em nossas vidas por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem. Por Sophie.”
As lágrimas voltaram a habitar o rosto de null. Que hipocrisia! Que ridículo. A raiva era inexplicável. Ela queria que aquela noite não existisse nem a Mice, muito menos Evandro.
- Você está bem? – null flexionou os joelhos e desceu, ficou na altura de null que agora estava sentada no chão com as costas escoradas na fonte.
- Vai embora! Você já me viu chorar o bastante por hoje.
- Não tenho nada melhor pra fazer. Mesmo.
- O que você quer, null?
- O que eu quero, null? Seus ouvidos não podem escutar. O que eu quero, só seu corpo pode sentir – ele falou calmamente como se aquilo fosse “normal”.
- Eu quero que você morra com essas suas indiretas diretas. Eu quero que você saiba que eu não acredito no amor, não acredito nas pessoas, eu quero que você saiba que eu entrei aqui querendo sair ou querendo morrer... Whatever, não faz muito diferença.
- Eu entrei aqui, null, querendo absolutamente nada. Agora eu quero mudar essa sua opinião imbecil.
- Imbecil é você que acha que me conhece!
- Mostrarei quem é o imbecil nessa história. Espera pra ver, null. Espere – ele saiu gritando e foi pra cabana. null observou a cena de longe até a porta da sua cabana se fechar.
xxxx
A garota dormiu no chão, foi acordar às seis horas da manhã quando os primeiros sinais de luz solar começaram a surgir no céu. Foi pra sua cabana, mas não tinha a chave. Ficou batendo na porta incessantemente, até que conseguiu com o mau humor de null acordasse e levasse o corpo do menino até a porta.
- Filha da puta, me deixa dormir! – Ele disse pra ela. Tudo aconteceu tão rápido, ela estava com dor e só queria algo quente, pois estava tremendo e queria chorar de novo. Mas ele não facilitou. Ofendeu sua mãe e ainda foi grosso. Ela lhe deu um tapa bem dado na cara.
- O que você pensa que fez? Idiota! – Ele xingou bravíssimo.
- Me deixa entrar, seu idiota. Eu estou morrendo de frio e você ofendeu a minha mãe – o lábio inferior da menina tremeu e ela sabia o quê isso significada: Chorar.
- Entra – ele disse tirando o corpo da frente.
- Desculpe-me, null. Por ontem e por hoje, eu estou muito triste e estou descontando em você.
- Pelo menos é em mim e não nos outros. Mas você me deve uma e eu vou cobrar. Agora vai dormir – ele empurrou a menina até a cama e ela se deitou, ele a cobriu e depositou um beijo na testa. Ela fechou os olhosnull sentou na beirada da cama e pôs a mão na cintura da menina. Ela continuou de olhos fechados.
Lights will guide you home Luzes vão te guiar até em casa And ignite your bones E aquecer teus ossos I will try to fix you Eu tentarei, consertar você
Ele cantou baixinho. null aproveitou para ouvir cada palavra da música, ela amou. Achou lindo. Achou fofo. Seu coração aqueceu rápido e um sorriso subiu a superfície, com dificuldade, mas subiu. Ela abriu os olhos e olhou para seu rosto pleno e lindo.
- Que lindo. Que música é essa, null?
- Fix You, Coldplay.
- Por que você cantou ela?
- Sabe qual é o seu problema null? Você quer saber sempre um porque, onde, quando, como. Mas você já parou pra pensar que nem tudo tem uma explicação? Durma bem.
null levantou e desligou a luz da cabana. null não sabia o que falar. Ela não entendeu por qual razão ele ficou daquele jeito. O que foi aquilo? Mas, mesmo assim, ela o ouviu cantar e a última pessoa que cantou pra ela foi sua mãe. Não conseguia parar de sorrir. E assim ela dormiu...
Capítulo Quatro
Mice
09 de fevereiro, 2008
A semana passou rapidamente. Os professores e o conselho da Mice solicitava o tempo todos os monitores, eles nunca paravam. Quase nunca se viam e quando os eventos, aulas, preparações, atividades eram em conjunto, eles não podiam conversar ou se trocassem uma simples palavra, perdiam as informações necessárias.
Os alunos do currículo – os quatro prédios que iriam abrigar os alunos “cursistas”, ou seja, aqueles que não eram monitores – chegariam no dia seguinte e os monitores já não aguentavam mais as aulas de orientação. O papel dos monitores era simplesmente cuidar do espaço em que estavam, seja na sala de aula, no refeitório e no pátio. Eles simplesmente não faziam nada, mas na cabeça dos alunos, os monitores eram uma figura autoritária e que exigia respeito. Os monitores e os alunos se misturavam muito pouco, por isso o fato de que os monitores eram bem mais unidos.
null estava sentada em sua classe na pequena sala de orientação que durante o ano se tornava sala de detenção e, acredite, a sala era usada muito frequentemente pelos alunos cursistas. Até contrataram uma professora para cuidar dos alunos em detenção.
- Psiu! – null chamou null.
- O que é? – null sussurrou. null lhe passou um pequeno pedaço de papel.
Na verdade não era um pequeno pedaço de papel, era uma folha A4 bem dobrada. null desdobrou aquilo e leu. “O que vocês acham, de fazermos uma última noite da Mice sendo só nossa? Hoje à noite na fogueira, pedi autorização para a diretora e comprei coisas para que pudéssemos comemorar. Quem vai? Ass.: Pedro.” null leu as assinaturas, a dela era a última que faltava. Ela assinou e passou para Melissa que passou para Pedro discretamente. Pedro leu e sorriu, guardando a folha no caderno.
- Monitores, eu sei que vocês vão fazer uma festa esta noite, mas não exagerem, pois amanhã vocês terão que subir no palco na frente de todos e apresentarem-se formalmente à todos os alunos cursistas no auditório – a Diretora disse.
- Ah, Diretora! Temos mesmo que fazer isso? – Pedro resmungou.
- Sim. Como você quer interagir com os alunos senão fizer uma apresentação?
- Fazendo uma festa! – Pedro gritou e todos os monitores riram.
Xxxx
null e null quase não se falaram na semana em que se passou depois que ele cantou para ela. O clima ficou estranho. Ele cozinhava e a chamava. Depois das atividades cada um ia para seu banheiro, fazia o que tinha pra fazer e iam dormir. null estava ficando cansada disso, dessa distância. Sentia falta de quando ele conseguia decifrar ela, mesmo que eles tenham passado poucas horas juntos. Foram horas bem intensas. null resolveu acabar com durante a tarde, pois os monitores seriam liberados para poderem descansar para o dia seguinte e até mesmo para as garotas se arrumarem para a “Última noite de Mice só nossa”.
Os monitores haviam almoçado todos juntos e se dirigiam as suas cabanas para dormir, assistirem televisão ou fazer qualquer coisa até o horário da festa organizada por Pedro. null andava atrás de null, eles subiram as escadas e null abriu a porta, deixou aberta para que null entrasse e foi logo se jogar em sua cama. “Como começar uma conversa com ele?”, ela pensou.
- Quer dormir comigo, null? – Ele perguntou. Ela esqueceu até o que estava começando e enrubesceu.
- O que você disse?
- Foi isso mesmo o que você ouviu. null, eu não estou pedindo pra você transar comigo, imbecil. Só estou dizendo pra dormir comigo, bem abraçada, colada ao meu corpo – ele se levantou e foi caminhando em sua direção, falando aquelas coisas pra ela. – Eu aquecendo você e você me aquecendo.
Ele parou de falar quando já estava a sua frente. Ela fechou os olhos e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela imaginou tudo o que ele falou e pensou: “Sabe que não é uma má ideia?” Mas logo acordou de sua luxúria e o encarou.
- Acho que isso não será certo, null.
- Como se eu ligasse pra isso.
- Mas eu ligo.
- null... – ele ficou de joelhos e colocou as mãos nos joelhos da menina. Quando ele fixou os olhos na menina, ela sentiu que ele conseguia captar sua alma em um piscar. – Eu ainda vou conseguir derrubar todas as suas barreiras, todos os seus medos e, então, você vai desejar nunca ter dito não pra mim.
- Eu não disse não. Eu disse que não está certo.
- E isso significa?
- Que você é um idiota que fala essas coisas sem nem me conhecer – ela falou. Se null pudesse fugir naquele momento, ela não fugiria.
- Um idiota, sim. Que não te conhece, não. Eu te conheço.
- Prove – ela disse. “null, null, não provoca que vai piorar”, ela pensou, mas já havia feito a burrada. Ele levantou e fez com que a garota o acompanhasse, colando seus corpos.
- Antes de dormir você se pergunta como alguém como o idiota do null consegue mexer tanto com você – ele disse fixado em seus olhos e a cinco centímetros de distância. – Você quer tanto que eu beije você agora, mas isso não acontecerá. Você gostou tanto de mim em poucas horas que quer enganar a si própria e você só consegue fazer isso me ignorando ou brigando.
- Cala a boca, null. Você não sabe porra nenhuma da minha vida! Do que eu sinto ou deixo de sentir! Você não me conhece e eu quero que continue assim. Eu quero que você saia da minha frente agora! – null gritou quase cuspindo na cara de null. Ela estava possuída e sabia que tudo o que ele havia dito era verdade, por isso ela ficou tão brava. Mas ele ficou ainda mais com a reação da garota.
- Você é uma infeliz! Não consegue aproveitar absolutamente nada. Não há como alguém gostar de você, não há como eu gostar de você. Você não deixa. Se você quer sair, pode sair, pois o caminho está livre – null observou e viu que bastava ela dar um passo para o lado e todo o contato acabaria. – Você fica assim, pois não sabe se defender.
- Acabou? – Ela perguntou com a cabeça baixa e ele saiu porta fora tão rápido como chegou ali. null ficou ali, querendo bater no garoto, querendo agarra-lo e beijá-lo até que ele morresse por falta de ar. Ela queria tantas coisas daquele imbecil que mal a conhecia.
xxxx
Festa? Até parece. null nunca iria nessa festa idiota do Pedro idiota onde o idiota do null estaria comemorando sua idiotice. Simples assim. null ligou a televisão em um programa bem bobinho de entrevistas e acabou pegando no sono. Acordou quando a porta da cabana foi fechada, mas ela não se moveu, pois o único que poderia ser era o null e ela não queria vê-lo. Ela olhou para a televisão e estava passando um programa sobre mulheres que não sabiam que estavam grávidas, aliás, o nome do programa era “Eu não sabia que estava grávida”. Só uma mulher muito sem sentido não sabe que está grávida.
- Você não vai para a festa? – null perguntou abatendo seus pensamentos sobre mulheres grávidas e que não sabem.
- Não. – Ela respondeu simplesmente, porém não foi ríspida.
- Isso se deve ao fato de que...?
- Eu não quero, simples assim.
- Tudo bem, curta essa sua noite patética – ele foi para a parte de trás da cabana, na cozinha. null o seguiu.
- Agora é que eu vou mesmo!
null saiu esbaforida da cozinha e foi direto para o banho. Lavou os cabelos calmamente, depois ficou brincando de caretas no espelho do banheiro e por fim saiu da banheira. Quando ela pisou no tapete ao lado da banheira, ela percebeu que não havia pegado nenhuma roupa. “A pressa é inimiga da perfeição”, ela pensou.
Ela enrolou a toalha no corpo e abriu o armário para pegar outra e, assim, prensar os cabelos na segunda. Saiu pé por pé do banheiro olhando para os lados pra ver se null já tinha saído ou se estava na parte de trás. Como ela não viu ninguém saiu correndo em direção à cômoda. Quando chegou ao seu destino e abriu a primeira gaveta à procura de uma blusa dourada e perfeita, escutou passos vindos da cozinha.
- Como eu adoro essas suas pernas – ele falou debochadamente.
- Como eu adoro essa sua carinha depois que eu dou uma bofetada – ela falou mais debochada ainda.
Ele voltou calado para a cozinha. null até estranhou o comportamento dele, esperava por algo como “vadia” ou “vá se catar”. Ignorou o sentimento estranho de compaixão e voltou a se vestir. Cinco minutos depois ela já havia se vestido e estava passando uma maquiagem básica. Arrumou os cabelos e pôs uma rasteirinha.
- Você está linda. Vamos? – Ele falou de uma forma “triste”?
- Está tudo bem?
- Sim, sim. Vamos logo.
Eles foram lado a lado até a festa. Todos os oito monitores já estavam lá, eles que foram os atrasados. null sem hesitar foi direto ao encontro de null e a abraçou. null viu que null foi ao encontro dos quatro garotos que esperavam ansiosos por contar algo pra ele.
- Preciso te contar uma coisa – null e null falaram juntas. E riram.
- Conta você primeiro – null falou.
- Então, eu não te vi por muito tempo e quanto te vi não pude te falar nada. Mas lá vem... Eu e o null estamos meio que “juntos” – ela desenhou aspas no ar com os dedos.
- Como. Assim. Conta. Mais. null.
- Então, nós ficamos por muito tempo nos conhecendo e hoje, com esse tempo livre, aconteceu! Estávamos fazendo algo pra comer a tarde e ele me agarrou. Foi muito lindo e que pegada!
- null, null! Sem detalhes sórdidos, por favor.
- Tá. E daí nós ficamos e ficamos, disse que eu só poderia contar pra você e eu disse que ele só poderia contar para o null, pois são nossos amigos mais próximos.
- Ai, como vocês são fofos conosco!
- Nem me fale. Morri com tudo isso. Ai, não mereço isso!
- Claro que merece, null! Merece mais que todos esses riquinhos mimados, ainda mais com sua história e o tanto que você se esforçou pra estar aqui dentro da Mice.
- Own! – ela abraçou null forte. – Mas me conta, amiga.
- Não é nada de mais, só queria saber se você leu as frases da fonte – mentira pura! null queria contar sobre null. Mas não conseguiu, não foi por falta de confiança, ela só não conseguiu.
- Li, que coisas lindas. A da sua mãe é a mais bonita e a do seu pai é incrível. Eles devem ser legais.
- null, minha mãe morreu há muito tempo e eu tenho um péssimo relacionamento com o meu pai.
- Sério? Sinto muito.
- Tudo bem, amiga. Eu estou bem e isso já é passado. Não vamos falar disso, nunca mais. – Idiota! null burra, agora ela nunca mais poderia falar sobre esse assunto com a null e se ela precisasse?
- Como foi hoje? – null perguntou. null se sentiu meio estranha, achou aquela pergunta intencional, mas deveria ser coisa da sua cabeça.
- Normal, dormi a tarde toda – o que não deixa de ser verdade, porém ela teve vários momentos com null.
null se sentia sozinha, não conseguia contar nada a ninguém e a pessoa que ela mais contou coisa foi pro null. Mas foi o que mais brigou com ela, o que mais mexeu com ela, o que mais se aproximou dela. A garota já havia namorado com Bruno, VJ da MTV. Ele era legal, mas o namoro foi arranjado por Evandro. Ele achava Bruno um ótimo partido e achou certo que os dois se envolvessem. De tanta pressão, null cedeu e acabou ficando seis meses com Bruno. Eles nunca tiveram nenhuma relação sexual e muito menos afetiva. Bruno amava null, mas null não o amava. Era uma briga de gato e rato, onde null não queria ser nenhum dos dois. Até que um dia ela se livrou dele.
Quando null olhou para os seus colegas percebeu que null caminha em sua direção. Olhou para os outros. null e null estavam se beijando. Melissa e Lucas não estavam mais no local da festa. Angélica e Pedro estavam abraçados conversando com Alyssa e Bernardo que estavam de mãos dadas.
- O que é isso? Meu Deus! – null falou inconscientemente.
- Pois bem, me pergunto a mesma coisa. Só sobramos nós dois.
- É – null falou sem jeito.
- Eu acabei de saber de outra lenda da Mice bem legal – null falou.
- E qual é?
- Vem cá – null puxou null pela mão e eles caminharam até a fonte. Fora da vista dos outros monitores nem eles conseguiam ver a fogueira apagada. Eles sentaram nos bancos de gesso que foram feitos a volta da fonte lendária. – A história é muito simples.
- Desembucha!
- Ih, já começou!
- Desculpa. Conta logo, então.
- Tá bom. A lenda da Mice, que é mais antiga que a da fonte, diz que todos os casais de monitores namoraram.
- Você está me dizendo que se a lenda é verdade, eu e você vamos namorar?
- Exato.
- Cruz credo! Saí pra lá – null levantou e saiu andando. null foi mais rápido e a segurou pelo braço. Teve que fazer um pouco de força para trazê-la para os seus braços. Ele abraçou a menina. null pôs as mãos no peito do garoto e o encarou.
- De hoje não passa.
- Eu não quero – ela disse de cabeça baixa. Ele segurou o queixo de null e puxou seu rosto pra cima. Fazendo com que ela o encarasse novamente.
- Eu odeio quando você mente. Eu odeio quando você é tão durona, mas quando é pra falar de sentimentos você abaixa a cabeça e sussurra. Que medo é esse? – Ele perguntou de uma forma fofa, tentando entendê-la.
- Eu odeio quando você me obriga a fazer essas coisas, null.
- Que coisas?
- Ficar tão perto.
- Você não gosta? – Ele chegou mais perto, impedindo que ela abaixasse a cabeça.
- Não é esse o caso...
- Responde – ele disse a interrompendo.
- Gosto, porra! – Ela falou braba e já ia sair, mas ele não permitiu.
I can be tough Eu posso ser dura I can be strong Eu posso ser forte But with you, It’s not like that at all Mas com você, isso não é assim.
Ele cantava cada letra vagarosamente, despertando coisas.
- Porque você foge? – Ele perguntou ainda abraçado a ela.
- Eu não estou pronta ainda.
- Como você sabe?
There's a girl Há uma menina That gives a shit Que dá a mínima Behind this wall Atrás dessa parede You just walk through it Você simplesmente atravessa
- Eu vou te mostrar – ele parou de cantar e disse isso. Só isso.
Ele colou uma mão em cada bochecha da garota e fixou seu olhar nela. Eles só conseguiam sentir os corpos fundidos e as respirações falhas. Ele aproximou os lábios dos dela e depositou um selinho. Ela não fugiu, não bateu nele, só ficou parada. Ele decidiu intensificar o beijo.
- Te entrega pra mim... Eu não vou poder fazer isso, se você não fizer o que eu estou pedindo – null disse com os lábios colados aos dela.
- Eu não posso me entregar. Pra ninguém. Devolvem-me em pedaços depois... – Ela falou triste e descolou seus lábios dos dele bem pouco.
- Eu prometo...
- Não, não prometa nada. Eu não quero promessas – “eu quero atos”, ela completou em sua mente.
- Eu quero tanto te beijar, cuidar de você.
null não falou nada, só lhe beijou a bochecha e recolheu-se no conforto da cabana. Ela sabia que quando null voltasse, ela já estaria dormindo. Ela entrou no banheiro, tirou a maquiagem, colocou um short e uma camiseta, prendeu os cabelos, mas as lágrimas estavam na superfície. Ela levantou os olhos para o espelho e a primeira gota solitária caiu.
And I remember E eu me lembro All those crazy things you said Todas aquelas coisas malucas que você disse You left them running through my head Você as deixou correndo pela minha cabeça You're always there Você sempre está lá You're everywhere Você está em toda parte But right now I wish you were here Mas agora eu queria que você estivesse aqui
A música que ele havia cantado não saía da sua cabeça. Ele tinha uma voz linda, uma beleza incrível. Na verdade, null amava o jeito de null... Como ele a enfrentava, como ele tentava destruir tudo o que ela construiu em seu entorno para se defender, como ele fazia as coisas sem medo. E mesmo assim, não estava certo. Ela não poderia se entregar a nenhum homem.
All those crazy things we did Todas as coisas loucas que fizemos Didn't think about it Não pensamos sobre elas Just went with it Só fomos com elas You're always there Você está sempre lá You're everywhere Você está em todo lugar But right now I wish you were here Mas agora eu queria que você estivesse aqui
Essa música se encaixava exatamente em tudo o que null estava passando. A garota não queria mais pensar, queria parar de funcionar, queria que suas entranhas parassem de pulsar. Ela saiu do banheiro, apagou todas as luzes e deitou, puxou o cobertor até não sobrar nenhuma parte dela pra fora. null tinha apenas uma certeza aquela noite: Ela não culpava a Mice em nada do que estava acontecendo ou aconteceu e isso significava que ela não pensava em sair daquele lugar.
null chegou à cabana depois de ter conversado horas com null e null na cabana deles. Uma conversa amigável e que em nenhum momento envolveu o nome de null. Ele não queria isso, ele não queria prejudicá-la, ele não estava bravo. Quando ele chegou e ligou o abajur, viu que ela estava tapada dos pés a cabeça. Ele foi até a cama dela e puxou um pouco o cobertor até que seu pescoço aparecesse. Ela dormia tranquila.
- Boa noite, gordinha – ele disse ternamente e foi se deitar em sua cama.
Capítulo Cinco 10 de fevereiro, 2008
Mice
Os dez monitores estavam sentados em poltronas azuis um do lado do outro em cima do palco. A Diretora estava falando algo muito chato e ninguém prestava atenção, null estava aflita pra falar em público. Ela não é tímida nem envergonhada, mas não gosta de se expor e aprendeu isso sendo filha de um homem como Evandro. null estava ao lado dela e seria o último a se apresentar. Antes dela vinham Pedro e null, aquela garota insuportável não parava de mexer nos cabelos. null queria que null estivesse ali.
- Não fica nervosa, pois você está parecendo um pimentão. – null sussurrou para null rindo.
- É, é. – null falou sem querer discutir, ela estava nervosa e não conseguia pensar direito naquele momento.
- Agora começaremos as apresentações dos nossos queridos monitores. – disse a Diretora, até que enfim. Ela sorriu para null, que era o primeiro a se apresentar, depois veio null, Melissa, Alyssa, Bernardo, Pedro, null... E eu? null já voltava para o seu lugar e eu estava sentada. Até que consegui me levantar.
- Boa tarde, cursistas. Meu nome é null null, mas podem me chamar de null. – e pronto, foi isso. null vibrava de felicidade quando conseguiu acabar sua apresentação. Foram quatorze palavras tudo o que ela disse, mas pareceram bem mais, tipo umas cinquenta.
null levantou e foi lá falar a parte dele.
- Sejam bem vindos, cursistas. Meu nome é null null e todos nós queremos que vocês sejam muito bem recebidos na Mice. – ele foi aplaudido e voltou para o seu lugar. Quando a apresentação dos professores ia começar, alguns dos organizadores os tiraram de lá - finalmente.
Os monitores ficaram no saguão esperando os alunos saíssem, pois a instrução foi essa: “Fiquem no saguão depois da apresentação, pois se algum aluno quiser falar com vocês, a disponibilidade e o acesso serão bem melhores. Pois vocês sabem que o acesso deles a área dos monitores não é permitido”. Então os dez ficaram lá embaixo esperando o bando de “pirralhos” descerem. Depois de vinte minutos, os monitores escutaram alguns burburinhos e logo a pirralhada apareceu e tomou conta do espaço. null e null estavam juntas e se alguém viesse falar com elas, teria que ser uma conversa tripla. null e null estavam perto delas e optaram pela mesma estratégia.
Uma garota simpática começou a conversar com null, algo sobre aulas de música e a comida da Mice. null não escutou direito, estava mais interessada em ouvir a conversa que null estava tendo com uma gostosa do segundo ano.
- Qual a definição de bem recebidos? – A garota abusada perguntou. null começou a dar alguns passos pequenos para trás, para poder escutar melhor.
- Depende, o que você entende por isso? – “Um cafajeste e uma biscate, só o que me faltava”, null pensou.
- Hm, eu acho que é se conhecer melhor e particularmente. – A biscate disse. null já estava com ódio. Quem ela achava que era? E o respeito naquele local? Não era porque ela estava com o null. Não! É porque ela estava se jogando pra um monitor no primeiro dia de aula.
- Gostei da ideia. - null notou que null se aproximava de costas. – Qual o seu nome?
- Bianca.
- Então, Bianca, quero te apresentar a minha amiga null. – ele falou e chamou null pra que ela fosse conversar com eles. Quando a garota escutou seu nome, ficou estática. Mas quando ela virou e viu que null sorria, ela achou que ele não percebeu nada e foi se juntar aos dois.
- Oi, qual seu nome?
- Bianca.
- Hm, esse é o nome da minha ex-vizinha. Ainda bem que ela se mudou, muito chata. – null fez papel de besta dizendo aquilo, mas precisava dar uns cutucões.
- Não conheço nenhuma Bianca chata. – a biscate falou.
- Eu conheço. O pior não é ser chata, é ser biscate. Se vocês me derem licença, eu preciso ir. Encerrei meu turno amigável por hoje. Tchau. – null saiu de nariz empinado. “Eu sou foda, é isso aí”, null pensou. Bianca ficou de queixo caído e null abriu um sorriu malicioso.
Xxxx
null estava na cabana vendo televisão e jogada no sofá quando escutou a porta da cabana bater. “Que saco!”, ela pensou. null pegou o controle da mão da garota, que retrucou, e desligou a televisão. Puxou a mesinha de centro e sentou bem de frente pra null. Ele a olhava intensamente. O que ele queria com ela? A garota se ajeitou no sofá até ficar ereta e esperou que ele se pronunciasse.
- O que foi aquilo, null?
- Aquilo o quê? – null um, null zero.
- Aquele ataque de ciúmes no saguão. – null um, null um.
- Não sei de nada.
- Me deixa lembrar você... É melhor ser chata. – ele imitava a voz dela – do que ser biscate. – null zero, null cem.
- Nada a ver, eu só falei. As cursistas precisam entender que os monitores tem que ser respeitados. Elas não podem chegar aqui achando que mandam e podem fazer o que querem, null. E você já deveria saber disso. Você fica dando corda para essas meninas e logo se enforcará. – null falou, já sem fôlego. Ele sorriu pra ela.
- Então, você está querendo dizer que foi defender a integridade dos monitores e não a mim?
- Você é bem grandinho e já sabe se cuidar, null. Eu não tenho nada a ver com as suas escolhas, mesmo que sejam biscates de última categoria.
- Agora eu entendi. Você sabe, não é? No fundo do teu coração você sabe que foi um ataque de ciúmes.
- Se você acha isso, quem sou eu pra discutir. Eu não vou mudar a sua opinião.
- Ai que coisa mais linda essa minha gordinha braba! – null falou, apertando as bochechas de null.
- O que foi isso? Eu não sou gorda!
- Não, não é. Mas é muito linda e vai ser minha. – null saiu correndo de lá antes que ela resolvesse discutir alguma coisa.
null voltou a ligar a televisão e acabou dormindo no sofá.
[...] Ela estava em um lugar muito lindo, onde só existiam mar e rochas. Ela estava sob uma rocha e as ondas colidiam pertinho. Alguém lhe apertou a mão e ela olhou para o lado. Era null sorrindo pra ela. “Eu te amo”, ele disse. “Eu te amo ainda mais”, null disse. Mesmo que ela não quisesse dizer, apenas escapou. “Eu preciso ir”, ele falou. “Não vá”, ela disse chorosa. Mas ele se foi e ela ficou lá sozinha. [...]
Ela acordou suando e procurando por null. Quando viu, ela estava no sofá e a televisão ainda estava ligada. Sentiu cheiro de chocolate e correu pra cozinha. null estava se sentindo desesperada. A garota chegou à cozinha e viu null de costas, ele estava cozinhando algo. Algo estranho aconteceu... Todo aquele desespero que ela sentia desapareceu. Ela ficou feliz. “Feliz?”, ela pensou. Ela queria tanto falar com ele, não aguentava mais brigas, muito menos a distância que estava começando a afetar seriamente a convivência.
Ela caminhou até entrar na cozinha e sentou-se no banco do balcão americano.
- Oi, null. – ela disse calma. Ele largou a frigideira que segurava e virou pra ela sorrindo.
- Oi. Dormiu bem? – “Ele está sendo simpático?”, ela se questionou.
- Sim. O que você está fazendo? Tem um cheiro maravilhoso de chocolate.
- Panquecas salgadas e doces. Eu fiz algumas de queijo com tomate e orégano, e fiz algumas de chocolate com morango.
- Uau! Amo esses sabores. Você quer ser chef? – Ela perguntou rindo.
- Não. – Ele fechou a cara e voltou a mover a frigideira com a massa que ganhava uma cor mais dourada. – Faça o que quiser, quando estiver pronto eu chamo você.
- Tudo bem. – ela foi sem discutir à frente da cabana.
Xxxx
O relógio marcava que a hora do jantar já estava chegando. null estava com muita fome, mas queria aumentar essa fome em mil pra poder saborear as panquecas que null continuava fazendo. A garota estava em sua cama, lendo uma revista sobre fofocas de celebridades, nada viu de muito interessante na revista, talvez nada do que leu fosse verdade. Jogou a revista no chão e se deitou. O silêncio do campus, o silêncio da cabana, ela só escutava a frigideira sendo movida sob o fogão.
null queria que aquela sensação que ela sentia fosse embora. Ela se sentia solitária, triste, incompleta. Queria poder mudar tudo, queria não estar arrependida naquele momento. Ela deveria deixar null tentar ou talvez até conseguir.
Toque, toque, toque. Foi esse o barulho que fez com que null esquecesse tudo o que estava pensando. Bufando, a garota foi atender a porta. Ela destrancou a porta da cabana e, quando puxou a porta contra si, viu o que não queria ter visto em milhares de anos.
- Não vai me deixar entrar? – Ele perguntou ironicamente.
- Entre. – null falou baixo. “null está lá atrás”, pensou, a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
- Eu vim aqui pra lhe dizer que você será transferida.
- Como assim? – Ela perguntou incrédula. O pai-monstro estava a uns três metros de distância bem no meio da sala principal da cabana.
- Esse colégio é muito ruim. Fui pedir a Diretora que transferisse você pra ala dos cursistas e ela não aceitou de forma alguma. – ele disse debochado, zombando da expressão que a garota fazia. null estava abalada.
- Por quê?
- Porque eu sei bem o que acontece entre monitores nesse campus. Você esqueceu que eu já fui aluno da Mice? A Diretora me comentou o que eles contaram sobre a minha geração. Então é isso, arrume suas coisas, null.
- Não vou arrumar droga nenhuma! – null gritou. Evandro ficou surpreso com a revolta da garota, afinal, ela nunca gritou com ele daquela maneira.
- Não fale assim comigo, garota insolente! – Ele gritou mais alto. “Pegue suas coisas”, martelavam na mente da garota essas três palavrinhas idiotas.
- Não vou. Você não me obriga a mais nada! Nada! Ouviu bem? Você quer me tirar daqui porque sabe o que esse colégio representa pra você! Minha mãe! – null gritava e as primeiras lágrimas começavam a escorrer. Ela não queria ir embora. Ela não queria abandonar aquele lugar, aquelas pessoas... Ela não queria abandonar o null.
As coisas aconteceram muito depressa depois do que null disse. A garota escutou alguns passos da parte de trás e logo escutou os passos ao seu lado. null correu e se colocou em frente ao corpo de null. null viu a mão de null segurar o pulso de Evandro e os dedos do garoto ficarem brancos de tanto fazer força. null não pestanejou e abraçou null por trás. Ela estava com muito medo que Evandro fizesse algo a ele. null sentia que null ofegava, sua barriga subia e descia muito rapidamente. Ela não se arriscava a ver a expressão de Evandro.
- Por favor, meu Deus! Por favor! Que nada de mal aconteça ao null! Ao meu null. – null pediu baixinho para que ninguém escutasse. Só Deus escutou.
- Quem é você? – Gritou Evandro pra null. null viu que null não segurava mais a mão do pai-monstro.
- O namorado da null. – null falou. E no exato momento em que ele falou isso, null teve a certeza de que null piorou totalmente as coisas. Ela sabia que isso irritaria seiscentas vezes mais o pai dela.
null foi arrancado do abraço da garota que não conseguia ver nada. A visão dela demorou um pouco pra voltar e quando voltou ela viu null suspenso pelas mãos do pai-monstro, esse ofegava e dava socos na barriga do garoto. Até que null foi arremessado contra o sofá em que null dormia uma hora antes. A garota acompanhou ele cair desacordado e começou a chorar.
- Eu ainda não terminei... – Evandro caminhou até chegar perto de null e lhe depositou uma bofetada na cara. A garota rodopiou e caiu no chão. Ela ainda estava acordada e olhou pra cima onde Evandro a observava. – Eu voltarei! Aguarde-me. – ele falou e foi embora, batendo a porta.
null respirou algumas vezes e se levantou. null ainda estava desacordado e ela chamou por ele, mas ele não acordou. A garota pegou as duas mãos de null e começou a carregá-lo, ele era muito pesado e ela não estava tendo resultado, porém continuou carregando-o até que chegaram à cama da garota. Essa foi a parte mais difícil porque ela teve que levantá-lo. Ele não era gordo, mas era pesado pra uma garota com poucos músculos como ela. Enfim, ela conseguiu que ele deitasse, mas quando estava o ajeitando, percebeu que sua camisa estava toda rasgada na parte das costas. Ela o virou de costas e viu que ele estava com as costas arranhadas e machucadas. Ela correu para o banheiro e pegou a caixinha de primeiros socorros.
Ele estava respirando tranquilamente, ainda desmaiado. Ela cortou a camiseta dele e começou a limpar as feridas e a fazer curativos. Depois que acabou, o virou de frente e o deitou carinhosamente. Foi correndo na cozinha buscar uma aspirina e um copo de água para deixar ao lado da cama quando ele acordasse. Ia ser difícil. Quando ela não tinha mais o que fazer, só bastava esperar, null ligou o rádio e o deixou tocando. Sentou nos pés da cama e colocou os pés de null sob suas pernas.
“O que foi isso? Vai ser difícil explicar tudo isso pra ele. Vai ser difícil até olhar pra ele cheio de machucados que meu pai-monstro fez. Por que essas coisas têm que acontecer?”, null pensava. Ela sentiu que null começou a se movimentar e o olhou esperançosa. Ele abriu os olhos vagarosamente e gemeu um pouco de dor. Quando os seus olhares se encontraram, null fez uma careta.
- Seu rosto está bem roxo. – ele falou baixo.
A música do rádio tocava e o silêncio tomou conta do lugar. null abaixou a cabeça sem conseguir olhar pra ele, sem conseguir encará-lo.
I drift away to a place Eu me mudei para um lugar Another kind of life Outro tipo de vida Take away the pain Deixei a tristeza de lado I create my paradise E criei meu paraíso
- Me desculpe, null.
Everything I've held Tudo que eu segureibr>
Has hit the wall Bateu na parede What used to be yours O que era seu Isn't yours at all Não é seu mais
- Eu não queria que isso estivesse acontecendo, mas eu não pude controlar. Desculpa-me mesmo! – null disse, chorando. Ela chorava de dor, nada dava certo e ela só queria um pouquinho de sossego.
Falling apart and all that I'm asking Caindo aos pedaços, e tudo que eu pergunto Is a crime? Am I overreacting? É se isso é um crime ou eu estou exagerando?
null pegou o controle do rádio e o desligou. Aquela música a estava torturando. O silêncio de null a estava torturando ainda mais. null se moveu e null observou o que ele ia fazer. Ele percebeu que sua camiseta estava rasgada e tocou suas costas, depois olhou pra garota, que deu um pequeno sorriso.
- Eu não suportei saber que você estava machucado depois de tudo o que aconteceu, então eu tive que fazer esses curativos.
- Me desculpe por não poder ter te defendido mais. – ele falou triste.
- Mais? Você me defendeu, null.
- Olhe o seu rosto.
- Eu ainda não tive coragem de procurar um espelho. – ela disse. E mais uma vez o silêncio tomou conta da cabana. Algumas gotas de chuva começaram a cair e a telha fazia um barulho bom.
- Eu amo chuva, pois parece que nada de ruim pode me acontecer... – null falou. null se moveu até conseguir sentar e apoiar suas costas no encosto da cama.
- Vem cá. – ele chamou e bateu a mão na cama onde havia um espaço entre ele e a parede. Ela vagarosamente foi até lá e se encostou também, mas o que mais a surpreendeu foi o fato de ele pedir pra que ela deitasse a cabeça em seu ombro e que ele abraçou sua cintura.
- Obrigada, null.
- Por quê? Eu não fiz mais do que o meu dever, eu não poderia ver aquilo calado.
- Mesmo assim. Aliás, por que você disse que era meu namorado? No momento em que você disse aquilo, eu sabia que ele ficaria mais irritado ainda.
- Não importa, já passou. Foi a primeira coisa que me veio a cabeça, eu só queria te defender. – ele falou. “Morri, morri, morri. Que coisa mais linda”, null pensou. – null?
- Fala.
- Eu não sei se a intenção foi que eu escutasse, acredito que não, mas eu escutei o que você disse. – “Opa, opa, opa. null boca grande!”, ela se censurou mentalmente. Ela sabia do que ele estava falando, mas não iria ceder.
- O quê eu falei? – Ele olhou pra ela sorridente.
- Não faz isso, não. Você sabe o que você disse. Mas pra refrescar sua memória... Você disse “meu null”.
- Eu esperava que você não escutasse isso, sinceramente.
- E por que não? – Ele ficou sério.
- Depois sou eu que quero uma explicação pra tudo. Seu idiota, eu pedi pra Deus te proteger. Só isso!
- Só isso? Só isso o caramba. Você disse que eu sou seu e eu quero saber porquê. Você sempre me evita, diz que não é certo, mas na hora em que as coisas apertam eu sou o melhor do mundo, o suprassumo. Isso me irrita muito, null.
- Eu não consigo te evitar, eu não consigo parar de pensar em você, eu odeio brigar com você, eu odeio quando você fica chateado comigo e passa a semana inteira sem falar comigo, eu queria mesmo falar aquilo, tá? Pronto, eu assumo! – Ela falou e cruzou os braços, fazendo biquinho.
- Até que enfim! Morreu por isso?
- Não! – Ela sussurrou.
- Posso te beijar, null? – Ele sussurrou lindamente no ouvido dela. Em um impulso ela o encarou e ele a fitava sério.
As mãos dele subiram até suas bochechas, como na noite da festa, só que dessa vez elas estavam mais quentes, mais aconchegantes. null queria mergulhar logo nessa loucura, ela queria experimentar o gosto de null. A garota fechou os olhos e ele assumiu o controle, colando os lábios aos dela. Ela exigiu por mais, mas ele negou. Ele foi paciente, foi devagar, ele queria tocar cada parte do rosto dela, queria memorizar aquelas linhas de expressão, queria tê-la por mais tempo, ele não sabia se ela fugiria depois. E quando ela exigiu a segunda vez, ele cedeu e deixou que seus gostos se misturassem, deixou que os arrepios e os desejos aflorassem. Ela queria mais e ele concedeu isso a ela. Os dois ficaram se beijando por um bom tempo, aproveitando cada sensação, cada toque, cada suspiro. Até que ele finalizou o beijo com um selinho e a observou abrindo os olhos que estavam brilhando como nunca. Ele sorriu.
Capítulo Seis
Mice
21 de fevereiro, 2008
- Amiga, o null me convidou pra jantar. Eu preciso da sua ajuda. – null disse, invadindo a cabana 103. – E sabe do pior? O jantar é daqui a algumas horas.
- Calma. Eu te ajudo. Tenho roupas, maquiagem e hoje é sexta-feira! – null disse sorridente.
O tempo passou rápido desde a visita indesejada de Evandro na Mice, há mais de uma semana que ela não sabia lidar com tudo o que havia acontecido. null desapareceu na manhã do dia 11 de fevereiro em uma viagem com a Diretoria da Mice para representar o colégio em uma competição de futebol no Canadá. “Ele volta amanhã”, ela pensava isso umas cinquenta vezes por dia. Ela não recebeu nenhuma noticia dele (e achava que nem deveria, pois não tinha nada a mais com ele), mas sentia falta daqueles olhos. Sentia falta da companhia e da comida.
null tinha medo de pensar o que poderia acontecer, ela sabia que Evandro estava atento a tudo o que os dois faziam e provavelmente saberia que null estava fora da cidade, fora do país, mas dentro de seus pensamentos e de seus sonhos 24h por dia.
- Acorda! Eu preciso de você!
- Oh, desculpe, estava pensando na roupa perfeita. – null desconversou.
- E aí, já sabe qual será ela?
- Sim! Acompanhe-me, por favor.
- Eu quero algo bonito, mas simples. Com pouco decote, mas nada muito fechado. Quero algo com classe, mas nada até os pés. Quero algo com brilhos, mas sem sirenes.
- Quer mais alguma coisa, senhorita? – null debochou, pois a garota fazia mais exigências que a Britney Spears em seus shows no Brasil.
- Sim, um café, por favor. – disse ela, imitando a voz de uma velha rica dos filmes que assistia.
- Aguarde um minuto, senhora. – null saiu rindo e deixou null sentada em sua cama por o que pareceu uma eternidade.
No closet, ela abriu uma mala que levou para Mice, mas nunca teve a oportunidade de abrir, pois nunca houve uma ocasião para usufruir daquelas roupas. Buscou o vestido que achava ideal, depois foi para a estante de sapatos, não achou nenhum decente. Olhou para o outro lado e botou os olhos em um que nunca havia usado. “Perfeito”, ela pensou. Colocou os sapatos junto com o vestido sob o banco e foi procurar pelas maquiagens, após isso, achou o esmalte. E então, o perfume, que para ela era uma peça chave para qualquer noite em que precisasse arrasar. Quando ela queria espantar as pessoas, ela escolhia uma fragrância mais cítrica, mais arrogante. Pra ela, perfume tinha personalidade.
Ela levou todas essas coisas pra onde null se encontrava. A garota roía as unhas e já estava sentada de pernas cruzadas sob a cama. Quando null avistou a amiga com todas aquelas coisas, seu olhar se iluminou e ela deu um salto pra fora da cama.
- Isso tudo é pra mim?
- Claro! Aproveite que hoje estou magnânima. – null deu uma risada boa e entregou tudo com dificuldade para os braços ainda mais magros de null.
- Obrigada por tudo, você salvou minha noite! – null já disparava porta fora.
- Ei! Espere! Você não se arrumará aqui comigo?
- Não, eu não quero te incomodar. – null voltou até ficar próxima de null e a encarou profundamente. – Olha, você sente falta dele, né? Dá pra ver nos seus olhos que você não é a mesma, null. Dá pra ver que você sente falta dele e eu não quero ficar aqui completando sua paciência com felicidade, enquanto eu sei que você quer paz.
- Mas... – null tentou protestar.
- Não. Eu sei como é. – null sorriu.
- Obrigada. – null a abraçou, agradecendo pela compreensão. E dessa vez null se foi.
E talvez todas aquelas palavras, tudo aquilo o null tinha dito, mesmo não sabendo de nada do que havia acontecido, fazia sentido. Talvez ela o quisesse ali, talvez aquela chuva que estava pronta pra se armar, como na noite em que o pai-monstro os feriu, fosse um refugio... Ou um aviso. Ela só queria estar segura. Onde ele estava? O que ele queria? Ele a queria? O que ele estava sentindo? E quando ele voltar, o que vai ser?
null preparou uma massa muito ruim e comeu mesmo assim, sentia tanta falta dos pratos elaborados dele. Sentia falta do cheiro da comida, mas também sentia falta do cheiro dele. Para se ocupar, ela lavou a louça atrasada de dias que estava mofando na pia. Quando não havia mais nada pra fazer, ela foi para o sofá e puxou seu cobertor, excluindo o frio de seus pés. “Cadê você, null?”, ela pensou. A televisão não foi ligada, nenhuma gota caiu de seus olhos, mas dos céus caiu. Muitas gotas que protestavam ao fato da solidão de null e a noite que começava. Ela apenas dormiu.
xxxx
22 de fevereiro, 2008
- Oi, gordinha. – ele disse. Seu rosto estava perto, seu cheiro estava forte, seus cabelos molhados, seu sorriso presente.
- O que você está fazendo aqui? Que horas são? – Disse null, esfregando os olhos, e se sentou no sofá, jogando o cobertor nos pés.
- Seis horas da manhã, então, bom dia. Eu acabei de chegar do Canadá e vi você aqui toda encolhida, não quer ir pra sua cama? Está frio. – ele disse, sorrindo fraco.
- Você tem que ir tomar um banho, está todo molhado e vai pegar uma gripe forte. Vamos, vou cuidar de você. – ela disse, levantando-se e o empurrando até o banheiro. Ele entrou resmungando e ela fechou a porta. – Você só sai daí de banho tomado, null!
Enquanto ele tomava banho, ela foi buscar algumas roupas confortáveis pra ele, afinal, o dia que se seguia era sábado e certamente ele ia querer ficar na cama dormindo. “Oi, gordinha”, ela se lembrou. E sorriu. Sentia tanta falta de tudo aquilo dele, sentia a sua falta.
Escutou um barulho vindo da porta do banheiro.
- Você pode pegar algumas roupas pra mim? – ele sussurrou.
- Aqui. – ela entregou as roupas rapidamente.
- Obrigado. – ele fechou a porta novamente e ela se sentou no sofá, ligando a televisão. Quando achou algo decente pra assistir, ele saiu do banheiro e tirou toda a sua concentração no programa. Ela a analisou: Lindo, com sempre, cabelos molhados e olhos penetrantes. Ele a olhou e sorriu.
- Sabe de uma coisa? – ele chegou mais perto e sentou ao lado dela, podendo olhá-la nos olhos apenas com a luz da televisão.
- O quê?
- Eu senti a sua falta. – ele sussurrou tão baixo que ela jurou não ter escutado. Mas não importava se ele havia dito ou não, ela o abraçou forte por longos minutos. Deitada em seu peito, null respirava calmamente e sorria.
- Eu senti a sua falta também, null.<>
- Quanta falta? – ele perguntou. “Como assim?”, ela pensou.
- O bastante pra até a null notar e dizer que iria me deixar em paz. E você?
- Eu queria estar aqui o tempo todo, gordinha.
- Gordinho. – ela disse e o abraçou mais forte, rindo.
- Minha gordinha. Eu estava com medo que ele voltasse e você estivesse sozinha. Não quero me perder de você, acho que foi em você que me encontrei. – ele disse.
E isso foi o necessário para que null chorasse. null a carregou até sua cama e os dois dormiram abraçados, assim, juntos. Feitos um para o outro, ou não.
Xxxx
22 de abril, 2008
- Feliz dois meses de namoro, gordinho! – disse null, abraçando null.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. – ele era um bom mentiroso.
Os dois estavam na cabana em um dia tranquilo, dois meses depois da conversa que tiveram e decidiram tentar um relacionamento. null não queria nada como alianças de compromisso ou pedidos por enquanto, null aceitou, odiando a ideia. Hoje eles combinaram de fazer um jantar romântico em um lugar próximo da Mice e foi ela quem organizou tudo.
- Te encontro a noite, gordinho. – ela disse.
- Até mais tarde. – ele disse, mas a puxou pelo braço quando a viu indo embora. – null, não esqueça nunca de que o que eu sinto por você nunca vai acabar. Você ouviu?
- Como posso esquecer algo que eu sinto da mesma forma? – ela sorriu e saiu após selar seus lábios com os dele.
null tremia e suas mãos estavam suadas. Seu celular tocou novamente como naquela manhã. O número desconhecido que ele sabia a quem pertencia.
- Ela já foi?
- Sim.
- A diretora já autorizou a sua saída da Mice, estou lhe esperando no pórtico de entrada.
- Estou a caminho. – null disse e finalizou a chamada no celular. “O que eu estou fazendo? É para o bem dela, certo?”, ele pensou, mas não conseguiu responder àquela pergunta. Ele caminhou durante alguns longos minutos, torturando-se por estar fazendo aquilo.
Naquela manhã, null acordou com um número desconhecido ligando para aquele número que ele havia acabado de adquirir com a operadora. Ele mudava muito de número. Poucas pessoas sabiam daquele número e se um número desconhecido estava ligando, era importante. E era.
Evandro disse, naquela manhã, que precisava conversar com o garoto. Ele disse que não queria, mas Evandro disse que se ele não fosse, as consequências para null seriam piores. Ele foi. Ele estava indo. Estava se sentindo um traidor da pior espécie, pois não sabia o que ela pensaria sobre isso. Ou pior... O que poderia acontecer depois disso.
- Boa tarde, meu querido. – disse Evandro sarcástico.
- Pode começar a falar.
- Acalme-se. Pode seguir. – Evandro dirigiu a segunda frase ao motorista.
Depois de algum tempo, eles chegaram ao estacionamento de um prédio grande que deveria ser empreendimento de Evandro. Eles entraram no elevador e subiram até o nono andar em silêncio, entraram em um dos escritórios. Parecia um escritório de médico, Evandro sentou na cadeira que pertencia ao médico e null na do paciente. Um de frente pro outro. null esperou.
- Então, vou ser breve. Você tem que terminar com ela, pelo seu bem.
- Por quê?
- Coisas ruins vão acontecer se vocês continuarem juntos.
- Vai partir pra ameaça agora? – null alterou seu tom de voz.
- Vou ser direto. Vou te fazer uma proposta bem simples. Eu paro de bater na null, de falar com ela se você quiser. Porém, você tem que terminar com ela e mudar de cabana. Você não poderá mais falar com ela. Eu inclusive cogito a possibilidade de contratar alguns seguranças para mantê-la longe de você.
O mundo de null desabou. Ele queria o bem de null, mas a queria mais que tudo. Mesmo assim ele não tinha nenhuma saída, ele não podia fazer nada. Mas ele podia contestar algumas coisas ainda.
- Você acha que fará algum bem pra ela?
- Eu não me importo!
- Ela é sua filha! – null gritou, levantando-se.
- Você aceita ou não? – Evandro disse da mesma maneira, calmo e sentado na mesma posição.
- Com uma condição.
- E qual é?
- Que você faça um acordo com a Direção da Mice para que eu não seja substituído de forma alguma na cabana. Mesmo que ela fique sozinha. – ele sabia que ela iria sofrer, ele iria mais ainda. Ele estava sendo egoísta, mas ela tinha que ser só dele.
- Acordado, então?
- Sim.
- Então, adeus. E que a null não saiba de nada disso.
null deu as costas e saiu. As portas do elevador se fecharam e as suas pálpebras também, mas essas carregavam um conteúdo muito pesado: Suas lágrimas de solidão e tristeza. “O que eu vou fazer sem ela?”, ele pensou.
null chegou devastado a cabana. Ela não estava lá, deveria estar esperando por ele no lugar em que combinaram para comemorar os dois meses juntos. Mas ele não iria. Esperaria ela se cansar de esperar e quando ela chegasse à cabana, já um pouco triste, ele a destruiria. Esse era o destino deles, não?
Demorou mais do que ele esperava. Eles marcaram às 20h e ela só foi chegar à cabana por volta das 23h. Ela chegou chorando e o olhou decepcionada. Ele estava sentado em sua cama com uma feição tranquila. null jogou os sapatos no chão e o encarou brava.
- Onde você estava?
- Aqui. – ele disse, simplesmente. E ela percebeu que algo de muito errado estava acontecendo.
- Por que você não foi?
- Eu não quis ir, será que não deu pra perceber? – ele disse ríspido, sem olhá-la nos olhos.
- Não deu pra perceber, mas será que dá pra você me explicar?
- Com toda a certeza, querida. – disse sarcástico.
E nada doía mais em null do que fazer aquilo com ela. Nada doía mais do que ver aquelas lágrimas caindo dos olhos da garota que ele amava e não poder fazer nada a não ser contribuir mais ainda pra isso. Ele queria destruir a si mesmo. No fundo ele sonhava que um dia tudo se resolveria e ela o perdoaria, mas ele já tinha pensado em tudo. Era tudo tão convincente, tão frágil, que quebraria o coração de uma garota em pedaços. Ele construiu aquela mentira pra que ela não perguntasse: “Você não me ama, null?” Pois se ela perguntasse, ele não seria capaz de mentir. Não mesmo.
Capítulo Sete Mice
22 de abril, 2008
- Eu estou indo embora. – null disse firmemente.
- Pra onde? Como assim? Pra fora do país? – null perguntava desesperada e as lágrimas começavam a cair grossas por suas bochechas.
- Não, mudar de cabana. Eu pedi.
- Mas por quê?
- Eu não suporto você. Eu não aguento mais ficar aqui. Essa cabana é amaldiçoada, você e a sua família colocaram uma maldição nesse lugar. – e ele sabia que, falando isso, estava tocando no ponto fraco de null: A família.
- Cala a boca!
- Cala você. Garota insuportável!
- Eu achei que você gostasse de mim, que talvez... Talvez... – null gaguejava.
- Talvez o quê? Namorássemos? Eu não vou ser aquele que vai salvar você do seu pai maldito. Não sou seu príncipe encantado, null. – Ele falava tão sarcasticamente que a garota não estava conseguindo acreditar naquilo.
- Você só pode estar brincando comigo, null, não? Onde estão as câmeras?
- Ingenuidade da sua parte. – ele gritava. “Vamos, null! Acabe logo com isso, acredite em mim! Por favor!”, ele pensou. Como ele amava aquela garota, como aquilo machucava nele. E nela? O quanto machucava?
- Vai embora, por favor. – null disse chorando.
- Amanhã eu peço para que o null venha recolher as minhas coisas. – ele disse e saiu correndo de lá.
null
Meu Deus! O que aconteceu agora? Ele não me quer mais? O que eu fiz? Eu jurava que ele me pediria em namoro esta noite. Eu nunca pedi um príncipe encantando, só queria alguém. Eu só o queria. Queria seus sorrisos, seus abraços, seu cheirinho, seus beijos, só queria que ele estivesse ao meu lado. Eu nunca exigi mais do que isso.
Estava doendo demais. Vamos lá, null! Admita! Eu amava cada coisa nele e estava aprendendo a amar o que eu nem poderia. Eu me abri pra ele, eu confiei nele e aquele desgraçado quebrou o meu coração.
Lágrimas, por que vocês existem? Pra quê? Eu não conseguia parar de chorar. Estava com medo de ficar sozinha naquela cabana que, naquele momento, parecia tão imensa e fria. Eu só queria me esconder e nunca mais sair debaixo das cobertas. Deitei-me e dormi chorando, por ali mesmo. Jogada aos prantos da solidão daquele imbecil do null.
null
Fui correndo pra Direção sem pensar no que eu acabara de fazer, sem pensar no que eu acabara de destruir, em quem eu acabara de destruir. As luzes do pequeno prédio estavam ligadas e eu entrei as pressas. Avistei a secretária fechando algumas gavetas e passei sem comunicar a minha entrada ao gabinete.
- Pra onde eu vou agora? – Entrei perguntando isso. A mulher me olhou assustada e prontamente procurou alguns arquivos.
- Esta noite você ficará no quarto de hospedes deste prédio, mas amanhã mesmo você já se encaminhará para a cabana 105, com seus colegas null e Pedro. Tudo bem?
- Eu preciso fazer uma ligação. – eu disse amargo. Eu não queria explicações. Só queria me esconder, queria esconder o monstro em que me tornei.
- Seja rápido. – ela apontou o telefone sob a mesa e saiu do gabinete silenciosamente.
- Certo.
Disquei alguns números que eu havia anotado pela manhã em minha mão, estavam meio apagados, mas eu ainda conseguia vê-los. Procurei por algum lugar que indicasse as horas e achei o relógio grande de parede. 23h48min.
- Quem fala? – Evandro perguntou, visivelmente irritado.
- null. Serei breve. Então, está tudo feito e ela acreditou. Só vou lhe avisar uma coisa, se o senhor quer que ela não suspeite que você esteja envolvido nisto, não mande os seguranças pra cá.
- Isso é uma decisão minha. Boa noite e bom trabalho. – Evandro disse rápido e já ia desligando o telefone...
- Não se esqueça. Se você machucá-la de qualquer forma, eu abrirei a boca. Boa noite. – null disse e desligou. Suas mãos tremiam.
E agora, meu Deus? O que eu farei sem ela? Eu a amo. Esse quarto é uma bosta sem ela, eu odeio dormir sozinho. Eu pretendia criar o hábito de dormir com ela todas as noites, observá-la dormindo ao amanhecer. Mas não. Não foi dessa vez e eu não sei como eu conseguirei olhar pra ela mais uma vez. Eu não queria chorar, mas essas lágrimas estúpidas insistem em cair. Só quero dormir e esperar pra ver o que vai acontecer.
Xxxx
O raiar do dia deu o ar da graça e essa estava faltando na Mice. As fofocas de que null havia mudado de cabana correram rápido pelos monitores e null correu pra ver como null estava. null estava dormindo e não pretendia acordar tão cedo.
As batidas insistentes na porta fizeram com que null se desse por vencida e fosse atender a porta. Bufando, ela abriu a porta e viu a expressão de pena que null carregava, só ela não sabia o porquê.
- Amiga, como você está?
- Bem, dentro do possível. – null disse, abraçando-a.
- null foi transferido para a cabana da cobra da null. – null disse, fazendo careta. – O que aconteceu?
- Entra. – a garota disse, dando liberdade pra que a outra entrasse e se sentasse na cama.
- Você está péssima, parece que passou a noite toda chorando.
- E foi isso mesmo que aconteceu. – null decidiu que ela tinha que abrir o jogo com null, pois agora ela era a única pessoa que ela podia contar. – Ele foi embora. Ele decidiu ir embora. – null começou a chorar e caiu nos braços de null. Por algum tempo não se escutou mais nada além dos soluços de null.
- E agora? – null perguntou.
- Não sei. Ele foi embora, me deixou, e eu não sei os motivos. Foi do nada, eu estava tão esperançosa com o nosso jantar. Ele ia me levar para jantar ontem à noite, mas me deixou plantada esperando e quando eu cheguei aqui ele disse coisas horrendas pra mim. Deixou bem claro que não queria mais me ver. – ela disse, caindo aos prantos novamente.
- Calma, meu amor. Tudo vai melhorar, espera ele esfriar a cabeça. A verdade sempre aparece, não é? Vou falar com o null pra ver se ele sabe de algo, está bem?
- Sim. – null disse, fungando e tentando sorrir. Ela não tinha a mínima vontade de ir tomar café da manhã com todas aquelas pessoas a encarando. – Mas me conta uma coisa, como assim ele foi pra cabana da null?
- Sim, pelo visto a cabana da null e a do Pedro é a maior. Então ele vai morar lá temporariamente.
- Bom pra ele. Ele me destruiu.
- Eu não entendo.
- Nem eu, null.
- Vamos?
- Não. – null resmungou.
- Você não pode parar agora, amiga. – null disse, passando suas mãos nos cabelos de null.
- Vou pegar minha mochila.
As duas entrelaçaram seus braços e já estavam saindo da cabana 103 quando se depararam com dois gorilas de terno preto. null deu alguns passos para trás, mas null insistiu que ela continuasse onde estava. As duas ficaram encarando os seguranças.
- Quem são vocês? – Perguntou null.
- Seus novos seguranças.
- Mas quem mandou vocês? Eu não preciso disso.
- Seu pai. Precisa sim, você está sob algumas ameaças e ela preferiu que nós não deixássemos ninguém suspeito chegar perto de você. – O maior deles falou calmamente. null suspeitou daquilo e resolveu perguntar.
- Por acaso, quem seria o suspeito em questão?
- null null. – o mais baixo respondeu rapidamente e eles se entreolharam, depois olharam para as garotas a sua frente e as analisaram.
- Hum. – foi só o que null conseguiu concluir no momento. Ela puxou null pelo braço e seguiu para o refeitório. Quando fez isso, percebeu que os seguranças não estavam de brincadeira e que estavam mesmo a protegendo.
null acordou com dor de cabeça e o rosto todo vermelho da choradeira da noite anterior. Correu logo pra tomar um banho demorado e infelizmente teve que botar as mesmas roupas do dia anterior. Saiu pelo campus da Mice, ainda vazio. Primeiro ele tinha que falar com null, pegar suas coisas na cabana e saber como null estava. Depois ele precisava enfrentá-la.
Ele avistou null de longe, saindo de sua cabana, e correu até lá.
- null!
- null, onde você estava? O que pensa que está fazendo?
- Nada de mais, eu só mudei de cabana. Eu tenho meus motivos, amigo. Mas eu preciso que você me ajude.
- Eu espero que você saiba o que está fazendo, pois as coisas não estão boas pro teu lado.
- É, eu sei. Você soube?
- Você irá para a cabana da null e do Pedro. A null acabou de me mandar uma mensagem dizendo que foi falar com a null e que ela estava em pedaços. O que você fez? A garota ainda está andando de escolta por dois grandalhões de terno.
- Eu não acredito! – “Ele fez isso mesmo”, null pensou. “Evandro se arriscou ao ponto de dar uma dica para null do que poderia ter acontecido, eu estou ferrado”.
- No quê?
- Nada não. Você me ajuda?
- Claro, fala aí!
- Eu preciso que você recolha tudo o que é meu na antiga cabana e leve pra nova. Por favor, null. – null implorou para o amigo.
- Está bem, obrigada. Vamos.
Os dois estavam indo para o refeitório calmamente e passaram pela frente da nova cabana de null, nenhum dos dois falou nada. Mas null suspirou. Quanto mais a distância do refeitório diminuía, mais nervoso ele ficava. Ela estava lá. Ele sabia disso. “O que eu vou fazer? Com que cara eu vou olhar pra ela?”, null pensou.
O barulho costumeiro do local acalmou null até ele encarar as costas de null e ver null ao lado dela. null estava toda desajeitada. E os dois seguranças marcavam presença, era impossível não notá-los. Eles eram gigantes e ficavam olhando pra tudo e todos. null notou que algumas pessoas, inclusive null, sua nova colega de cabana, o encaravam. Eles foram pra fila pegar coisas para comer.
- null, eu não posso ir pra lá! Você me entende?
- Claro. Eu fico com você. null entenderá, ela ficará com a null hoje também.
- Valeu, irmão! – null abraçou null de lado e eles escolheram algumas frutas.
- Vamos sentar.
Infelizmente, a mesa que sobrou no refeitório exigia que os dois passassem necessariamente pela frente da mesa das garotas. Surgiu um frio na barriga de null. Como ele queria que aquilo não estivesse acontecendo, eles poderiam estar juntos naquele momento. Ela não sabia, mas estava mais segura sem ele.
Dois olhares se encontraram, dois corações palpitaram e se perderam em batidas incontroláveis, duas pessoas entenderam que naquele momento nenhum dos dois pertenceria ao outro. Porém, ambos sabiam que estavam perdidos e só poderiam ser encontrados juntos. Náufragos de suas decisões.
Capítulo Oito
Mice
02 de maio, 2008
Como era difícil pra null passar por tudo aquilo sozinha. Ela não queria incomodar null, ainda mais que agora a mesma estava namorando null e eles estavam nas alturas. Nos primeiros quatro dias após a ida de null, ela chorou incessantemente durante as noites. null não se sentia bem, não se sentia viva. Ela ia pras aulas, fazia os exames, estudava o necessário e voltava pra cabana acompanhada dos dois seguranças. Durante esse tempo, ela descobriu que os seguranças se chamavam Juan e Charlie, até que ela gostava deles, pelo menos não se sentia tão sozinha e eles não eram uns chatos.
O assunto “null” ainda era um assunto delicadíssimo para a garota. Ela o via poucas vezes e, quando via, sentia que ele estava péssimo. Sentia ele perto, mas ao mesmo tempo mais distante impossível. null contou que null não desistia de ficar com ele, mesmo sabendo de tudo o que aconteceu entre null e null. Mas ele negava e sempre se esquivava.
null estava na cabana, acabara de ter sua última aula do dia e estava estudando um pouco para o exame de biologia da semana seguinte, ela definitivamente não gostava de deixar as coisas pra última hora. Ela escutou algumas pessoas falando alto e, depois de ouvir alguns passos na sua escada, correu pra porta para atender. Chegou à porta e a abriu, null já estava batendo para chamá-la.
- Vem comigo agora! – null vociferou.
- O que está acontecendo? – null perguntou assustada.
- Olha lá! – null apontou pra perto na fonte e parou no meio da escada, fazendo null parar ao lado dela.
A cena que null viu era no mínimo grotesca. null e . Sim, . O ex-namorado de null, aquele que ela foi forçada a namorar pelo pai. Os dois se encaravam com as expressões tensas e punhos serradas. As pessoas já os cercavam.
- Juan e Charlie, me sigam. Agora! – null disse e seguiu correndo em direção aos dois com null em seu encalço. Ela andou o mais rápido que pôde e foi empurrando as pessoas que formaram uma roda em volta do que parecia ser uma briga.<>br
- Não encoste mais os pés na Mice! – Gritou null.
- Dona null, você não pode se aproximar muito. Você sabe disso. – Sussurrou Juan.
- Eu sei, Juan, eu sei o que vou fazer. Pode deixar comigo, vocês não vão precisar fazer nada – null sussurrou de volta e voltou a observar a briga.
- Você sabe, meu querido null – disse gargalhando. – Tenho todo o direito, afinal, qual o problema? Eu vou ver sua ex-namorada? Ela não pertence a você, garoto.
- Não toque no assunto! Não toque nela, você sabe que ela me ama e que ela me pertence. Você só veio aqui pois o Evandro te mandou, não é? Pois bem, não adiantará nada, ela me ama! – Eles gritavam todas as palavras, exaltando-se mais e mais. null partiu pra cima de . Foi tudo tão rápido, eles começaram a se socar e o sangue começou a escorrer da boca de null. null não conseguia vê-lo machucado.
- Juan e Charlie, separem-nos!
Prontamente, os seguranças apanharam os dois garotos e os separaram em uma distância grande o bastante para que não pudessem se tocar. Os dois ainda tentaram revidar, mas quando perceberam que não poderiam fazer mais nada, desistiram.
- Tá, o que vocês estão olhando ainda? Já acabou a briga! Podem ir! – Gritou null rude, fazendo com que a platéia se dispersasse.
- Obrigada, null – disse null e ele só concordou. – O que você quer aqui, ?
- Oh, meu amor, eu vim te buscar. Disseram-me que você precisava de alguém e eu estou aqui! – Ele disse orgulhoso e já recuperado. null bufou e deu uma risada sarcástica do outro lado.
- Eu não preciso de você e não me chame de amor, eu nunca te amei. Tudo acabou entre nós, . E você sabe! – null falou calmamente. O silêncio tomou conta das sete pessoas que se encontravam ali ao lado da fonte.
- Pode me soltar, seu brutamonte! – Ele falou para Charlie que o soltou imediatamente. – Que pena, null, pois é você quem perde.
disse isso e se foi. null tinha a sensação de que ele não voltaria mais, de que ele tinha entendido e que ela conseguiu falar aquilo para ele sem humilhá-lo, diante das circunstâncias. null encarou null e ela não pôde deixar de falar com ele, afinal, ele tinha defendido ela de uma forma ou de outra. “o Evandro te mandou”, ela pensou. “Meu Deus! O que está acontecendo?”
- Obrigada – ela agradeceu de forma neutra e se virou de volta para a cabana, sendo seguida pelos seguranças.
- Eu infringi alguma regra?
- Não. Você está bem, Dona null? – disse Charlie.
- Vou ficar. Obrigada, Charlie e Juan. Boa noite – ela entrou na cabana e, pela primeira vez em muito tempo, ela sorriu. Só não sabia o porquê, mas deixaria pra pensar nisso no dia seguinte.
Xxxx
03 de maio, 2008
Mice
“O que estava acontecendo?”, null dormiu e acordou pensando nisso. Mas o tempo que ela teve para pensar foi pouco, pois no momento em que a garota colocou os pés no chão, ela desmaiou.
- null, abre a porta! Abre a porta! – null gritava na varanda da nova cabana do garoto.
- Calma, já vou! – Ele abriu a porta e encontrou uma null pálida.
- Eu não... Eu não consigo... Meu Deus! null!
- Se acalme! O que está acontecendo? – Ele segurou os ombros da menina.
- null... – Ela falou mais calma, porém ofegante. – Eu estou tentando falar com a null já faz um tempão! Liguei para o celular dela e não atende! Os seguranças disseram que ela está na cabana, mas ela não atende. Estou muito preocupada!
- Vamos! – null disse, batendo a porta da cabana e acompanhando null até a cabana 103. Nesse momento, ele não se importava com nada, só com null. Ele faria qualquer coisa por ela.
“Por que eu fiz isso? Como eu me arrependo! Eu preferiria ter passado todo esse tempo com ela. Ai de Evandro se alguma coisa acontecer com ela!”, null pensou. Quando eles chegaram ao caminho que adentrava a varanda da cabana de null, viram os seguranças desesperados. Juan estava com o celular na mão. Os dois correram até os seguranças.
- O que aconteceu? – A porta da cabana estava escancarada e não havia nenhum sinal de null. null entrou sem precedentes em seu antigo lar.
- null! – Ele gritou ao se deparar com a garota desmaiada na cama, ela estava muito pálida. O coração de null apertou e ele correu em direção a ela. Os seguranças, acompanhados de null, entraram na cabana.
- Já chamamos uma ambulância – anunciou Charlie.
- null – null chamou e a garota foi ao seu encontro -, cuide de null. Por favor. Eu preciso resolver algumas coisas, mas eu preciso que você não a abandone.
- Tudo bem – ela disse com lágrimas nos olhos.
null beijou os lábios de null e saiu da cabana. Foi correndo até o estacionamento da Mice e pegou seu carro. Cantando pneu, ele saiu de lá, sem pedir permissão. E quando ele estava no portal de saída, ele viu a ambulância chegando e se tranquilizou um pouco. Não fazia a mínima ideia do que havia acontecido a null, mas ele sabia muito bem o que fazer. Na verdade, ele se culpava por não ter feito aquilo desde o começo. O caminho até a mansão dos Altervallo.
03 de maio, 2008
Mansão dos Altervallo
Ao chegar àquela mansão, ele entrou no pórtico e pediu pra falar com Evandro. Sendo atendido, ele estacionou o carro e correu até a porta de entrada. Foi Evandro que abriu a porta.
- Deve ser algo muito importante, pois você está aqui? – Ele disse indeciso.
- Estou. null está a caminho do hospital – null disse e observou a expressão de Evandro passou de irônica para preocupada, pela primeira vez.
- Entre – Evandro disse relutante.
Eles foram até o escritório principal, no primeiro andar da mansão. null observou o lugar, que mais parecia uma biblioteca. Evandro sentou e apontou para que null sentasse na sua frente.
- Eu quero desfazer o acordo – null disse.
- Vá com calma!
- Calma o caramba! – null se levantou e o olhou bem fundo, seus olhos eram de uma fúria inimaginável. – Eu não acredito que eu aceitei deixá-la! Ela me odeia! Sabe de uma coisa? Depois de tudo o que você fez, ela ainda ama você, ela ainda acha que um dia você voltará ao normal e não será um canalha com ela. Como você pode? Ela está no hospital! Você quer perdê-la como perdeu sua esposa? – Evandro estava pensativo e olhava o garoto incrédulo. null ofegava.
- Eu a quero de volta. Por favor, eu nunca quis tanto algo na minha vida. Mas eu a encontrei desmaiada e eu sei como é saber que posso ter estragado tudo. Por favor, Evandro!
- null , eu era como você. Apaixonado. Até que eu perdi a minha tão preciosa esposa... E dói muito, até hoje. Eu só quero o melhor para null, pode parecer que não, mas a quero bem. Eu nunca quis causar tanto mal a ela e eu só pude perceber isso agora. Você me acompanha até o hospital?
- Claro – disse null. O garoto não entendeu qual foi a decisão de Evandro, mas, pela primeira vez, ele pôde perceber um lado mais humano de um monstro. Que talvez não fosse tão monstro assim. Mas no momento aquilo não importava, ele queria ver null e dizer pra ela que havia mentido. Que ele a amava.
03 de maio, 2008
Hospital
- Você tem alguma notícia? – null perguntou quando viu null na sala de espera do hospital. null também estava com ela. Os dois se levantaram, Evandro foi falar com a recepcionista.
- Não, levaram-na há mais de meia hora e não nos disseram nada até o momento – null disse pesaroso.
- null, ela acordou em algum momento?
- Não. – Ela respondeu seca.
- null! – Evandro chamou junto à recepção, do outro lado da sala. O garoto foi ao encontro do pai da garota que estava com uma expressão mais tranquila.
- Ela está consciente. Eu preciso falar com ela, pedir perdão. Ela vai receber alta amanhã à noite. Será que você e seus amigos poderiam preparar uma festa surpresa em minha mansão para recepcioná-la?
- Sim, claro – null disse. – Eu vou poder falar com ela?
- Meu caro, peço que todos vocês falem com ela só amanhã na festa. Ela está fraca e o médico disse que ela não pode se estressar. Ela não comeu durante essas últimas duas semanas e precisa se recuperar. Eu vou explicar a situação.
- Tudo bem. – Ele disse de má vontade e voltou para falar com null e null.
- Como ela está? – nullperguntou apreensiva.
Capítulo Nove
Hospital
04 de maio, 2008
null acordou naquela manhã se sentindo um pouco fraca e com algum desconforto dentro de sua cabeça. Demorou pra identificar o lugar onde estava. A primeira coisa que sentiu foi seu corpo deitado em algo mais duro que sua cama da cabana e um de seus braços suportando uma agulha pregada com esparadrapo. Ela seguiu o fio da agulha e chegou a uma embalagem com um liquido incolor. “Soro”, ela pensou de imediato. “Mas o que eu estou fazendo aqui, meu Deus?”
O quarto era todo branco, sem exceções. Suas vestes e suas roupas de cama eram brancas. Tudo muito hospitalar. E quando concluiu isso, chegou ao resultado de que ela estava mesmo em um hospital. Mas não foi como nos filmes em que havia alguém ao lado dela incansavelmente, chorando para que ela acordasse. “Não deve ter sido grave, então”, ela pensou de má vontade. No momento em que ela pensou levantar, a porta foi aberta.
- Filha! – Disse Evandro, sorridente ao adentrar aquele quarto que, de forma estranha, também tinha o número “103” na porta. “Meu Deus, o que está acontecendo? Acho que eu quase morri! Por que meu pai está assim tão simpático comigo? Não estou entendendo nada!”, null pensou.
- Espera aí! Como assim “filha”? Por que você está sorrindo pra mim? – Ela perguntou e no fundo Evandro sentiu que ela perguntava aquilo ressentida.
- Vou te explicar tudo, null. – Ele chegou mais perto e sentou ao lado da garota, de uma forma terna. null não estava entendendo absolutamente nada. – Por onde você quer que eu comece?
“Pelo começo”, ela pensou, mas não quis ser grosseira no seu primeiro contato amigável com seu pai depois que a mãe de null morreu.
- Bom, por que eu estou aqui?
- Você deixou de comer por duas semanas e eu presumo que isso tenha acontecido quando o null terminou contigo. – Ele disse calmamente. “Espera um pouquinho! Como meu pai sabe disso?”
- Como você sabe disso?
- Eu preciso te contar muitas coisas, mas preciso que você me escute primeiro, se você tiver qualquer pergunta é só me interromper, tá bom?
- Tá. Por que você está sendo tão legal comigo?
- Calma, null. Eu ainda nem comecei e essa é uma das últimas partes da história.
04 de maio, 2008
Mice
null, null e null estavam reunidos na cabana do casal preparando a festa de boas vindas para null. null ficou encarregada de arrumar o Buffet e a decoração. null ficou encarregado de todos os detalhes e da organização da festa. null se encarregou de fazer os convites e enviar para quem achava que null ia gostar de encontrar nesse momento.
- Bom dia. Gostaria de saber se vocês têm jantar para cento e cinquenta pessoas para esta noite? Para a família null. – null falava ao telefone em um lado isolado da casa.
Eles combinaram de se encontrar na hora do almoço para tomar conhecimento do que cada um já tinha conseguido. null saiu da cabana atrás do que precisava e null pegou o computador, chamando alguém que desenhasse o tal do convite. Ele não teria tempo de entregar os convites pessoalmente, por isso enviaria por e-mail. Ele só iria entregar em mãos os convites para os monitores.
04 de maio, 2008
Hospital
- Pode começar, então. – ela esperava nervosa, tinha a sensação de que nem tudo o que sairia da boca do pai seria “perdão” e que esse “nem tudo” seriam coisas ruins.
- Um dia, duas semanas atrás. – ele olhou pra ela sério. – Eu chamei o null dizendo que tinha uma proposta irrecusável. Ele foi até a Fundação null comigo. Aquele garoto te ama demais.
- Mentira! Seja direto e rápido, por favor. – ela disse friamente.
- Não é mentira, me escute simplesmente.
- É fácil falar quando não é você que está deitado na cama de um hospital só porque não comeu! – Lágrimas começaram a cair de seus olhos. Na verdade, o fato de ela estar ali era o de menos. Ela só estava com medo de escutar o nome dele novamente. Ela morria de saudade dele, de seus braços, de seus olhos, de seu sorriso, de sua voz, de seu cheiro. E enquanto ela pensava nisso, fechou os olhos e sentiu mais algumas lágrimas rolarem por suas bochechas.
- Eu sei que não é fácil, null. – ele parou e ela o olhou. Ele estava sofrendo.
- Continue, por favor. – ela disse mais calma. – Qual foi a proposta?
- Simples, ele tinha que terminar com você de qualquer forma e eu nunca mais encostaria um dedo em você. Ele resistiu um pouco, mas no fundo ele percebeu que não tinha escolha. Ele tentou argumentar, mas eu estava decidido. Ele aceitou, porém, impôs que eu fizesse uma exigência à Direção da Mice... Ele disse que eu não poderia substituí-lo na cabana. – Evandro parou de falar e os únicos sons que eram audíveis, eram os de null chorando.
- Pai, eu preciso ficar sozinha. – ela o encarou e ele soltou uma lágrima.
- Desculpa por tudo o que eu te causei, durante todos esses anos. Você é forte como a sua mãe. E eu prometo que mudarei, não suporto saber que posso ter te perdido. – ele disse choramingando.
- Você não me perdeu. Eu só preciso de um tempo só pra mim.
- Tudo bem, mas antes as enfermeiras precisam examinar você.
- Tudo bem. – ela disse, secando as lágrimas, e ele beijou a testa de null.
04 de maio, 2008
Mice
Depois de algumas horas, null pediu duas pizzas pra eles e refrigerantes. null já estava de volta à cabana. E os três sentaram no chão pra almoçar.
- E então, eu desenhei os convites e enviei para as pessoas. Só falta entregar pessoalmente aos monitores. O cara da gráfica vai me entregá-los logo. – null disse, mordendo um pedaço de pizza.
- Da minha parte, já está tudo pronto! – null falou animado.
- Contratei os jantares, garçons, bebidas, decoração, mesas. Mas eu precisava saber de alguns detalhes e liguei para o pai da null. – ela olhou a reação de null, que no exato momento em que ouviu aquele nome, ficou nervoso.
- O que ele disse? – null perguntou. null concordou, querendo saber a mesma coisa.
- Ele disse que a null tinha acordado e que acabara de sair do quarto. Disse também que contou tudo pra ela. E null, ele disse que você saberia o que isso significa.
- Hm. – foi só o que null conseguiu dizer.
- Ah, ele disse também que você pode ligar pra ele, se quiser saber mais.
- Vou fazer isso. – null levantou e foi até a parte posterior da cabana. Pegou o celular e procurou pelo número de Evandro. Alguns momentos depois, ele atendeu.
- Oi null, tudo bem? – Ele cumprimentou simpaticamente, por mais estranho que isso soasse.
- Tudo, e você?
- Tudo bem.
- null acabou de me dar o recado e resolvi ligar pra saber mais detalhes. – se null ainda tivesse unha, ele roeria. Estava pronto pra dar pulos de tão nervoso.
- Eu contei tudo pra ela. Sobre o dia em que você foi me ver.
- E o que ela disse?
- Ela chorou muito e disse que precisava ficar sozinha. – Evandro informou pesaroso.
- Eu preciso vê-La. – Mauricio disse com o coração apertado. Não aguentava mais ficar longe de null.
- Não complique mais as coisas, por favor. Você poderá vê-la na festa daqui a algumas horas.
- Eu sei, mas isso é muito difícil.
- Eu sei, sinto o mesmo. – Evandro disse. null ouviu a campainha tocar e presumiu que fosse o cara da gráfica.
- Preciso ir agora. – ele disse quase desligando.
- null! – Evandro chamou alto e null voltou a pressionar o celular no ouvido.
- Estou ouvindo.
- Eu... Eu só quero te agradecer por tudo. – Evandro disse hesitante. null sorriu fraco e desligou o telefone indo ao encontro de null e null. Era mesmo o cara da gráfica.
- Estão prontos. – o homem entregou um envelope pardo a null e sorriu.
- Obrigada.
xxxx
null bateu na porta da cabana de Melinda e Lucas para entregar o convite pessoalmente aos monitores. Ele sabia que null gostaria muito que todos eles fossem, mas não tinha certeza se ela gostaria de vê-lo.
- Oi, null! – Falou Lucas. – O que te traz aqui? Faz muito tempo que não o vejo.
- Pois é cara, estou numa correria danada! Enfim, a null vai sair do hospital hoje e vamos fazer uma festa surpresa pra ela na mansão. Vim aqui pra te entregar isso. – ele puxou um convite do envelope e entregou a Lucas.
- Iremos com toda a certeza. E como ela está? – Ele perguntou, olhando para os pés.
- Acho que melhor. – null meio que respondeu em um sussurro.
- E como você está? – Era assim, os monitores se relacionavam muito bem uns com os outros na Mice, mas as monitoras nem tanto.
- Sinceramente? Nem parei pra pensar em como eu estou. Só quero que ela volte. – “Pra mim”, ele completou mentalmente.
- E logo, né? – Lucas sorriu.
- Claro! Bom, tenho que ir e entregar o resto dos convites. Vemo-nos lá, então?
- Até lá! – Lucas deu um abraço em null que saiu um pouco mais feliz.
Faltavam duas cabanas ainda. Ele estava indo em ordem decrescente pelos caminhos de cimento ao redor da fonte. Bateu a porta de Alyssa e Bernardo. Dessa vez quem atendeu foi Aly, que sorriu e o beijou no rosto.
- Como vai, null?
- Bem. Aliás, vim aqui pra dizer uma coisa boa. Cadê o Bernardo?
- Só um pouquinho, que vou chamá-lo. – ela disse voltando e gritou: - Bernardo! – Algum tempo depois ele veio até a porta com uma cara de sono.
- O que é, amor?
- O null tá aqui. – ela disse, dando um selinho nele. null assistiu aquela cena e quis fazer o mesmo com null, mas simplesmente não podia. Bernardo olhou pra porta e viu null parado o olhando contente.
- Entra aí! – Bernardo disse.
- Não, mas valeu. Eu só vim fazer um convite pra vocês dois.
- Ai que lindo! Adoro convites! – Aly disse.
- Pois é. A null recebe alta do hospital hoje e iremos fazer uma festa surpresa pra ela.
- Ah que maravilha! Estou duplamente feliz pela festa e pela melhora da minha amiga! – Aly comemorou. null entregou o convite a eles e se despediu rapidamente. Foi em direção à varanda de null e Pedro.
- Oi, null.
- Oi null, como você está? O Pedro tá aí? – Ele perguntou calmo.
- Não, ele está na piscina. Você quer falar com ele? – Ela dizia com uma voz sedutora e se aproximava cada vez mais dele.
- Sim e não. Pode ser com você também. – ele disse e notou que ela não estava bem intencionada. Queria falar logo e sair dali logo. – Então, a null vai receber alta do hospital e resolvemos fazer uma festa surpresa pra ela. Aqui estão todas as informações, espero vocês lá. – ele disse, entregando de uma vez o convite.
- Espera, null!
- O que é? – Ele perguntou de má vontade.
- Você não desiste, não é? Você irá ver que a perdeu. Você já estragou tudo. – null disse, sorrindo de uma forma estranha.
- Do que você está falando? Você é louca? Só pode! – Ele disse, aumentando seu tom de voz. null se jogou nos braços de null e ele a empurrou. – Me deixa em paz! – Ele gritou e saiu de lá correndo. Ele só queria o seu lar, sabia pra onde correr.
null subiu as escadas da cabana e jogou o envelope pardo fora. Estava igual ao que ele se lembrava, mas a varanda já não tinha mais o jeito de null. Estava tudo frio, escuro e vazio. Ele girou a maçaneta da porta e abriu. O interior não estava diferente, mas por um milagre o perfume de null ainda estava impregnado no lugar. Ele sentou na cama dela e começou a chorar.
Sentia falta dos beijos, dos sorrisos, das conversas, da simples companhia dela. Sentia falta de guardá-la em seus braços. Pensou que poderia ter aproveitado mais, pensou que poderia ter errado menos. Ele começava a aceitar a ideia de que eles não estavam destinados a ficarem juntos. Lágrimas finas rolavam de seus olhos.
“No que null estava pensando?”, ele pensou. Ele ficou muito surpreso com o ataque da garota alguns minutos atrás. Mas não queria pensar nisso, queria pensar nos olhos da garota que amava. Ele queria correr para o hospital e dizer pra ela que a amava. Porém, sabia que isso não era o certo, sabia que o certo era se corroer até a noite e fazer tudo acontecer.
Capítulo Dez
04 de maio, 2008
- Vamos? – Evandro perguntou depois que null saiu do banheiro. Ela estava de vestido branco, sandálias e uma maquiagem leve.
- Claro. Já estou liberada?
- Sim, totalmente. E suas coisas já estão no carro.
- Obrigada. – ela disse e saiu do quarto. Despediu-se das enfermeiras e de seu médico que recomendou tranquilidade.
Evandro e null saíram do hospital pelo estacionamento. A garota respirou profundamente e algumas lágrimas caíram de seus olhos.
- Por que você está chorando?
- Não sei. Estou feliz de sair do hospital e quero ver meus amigos. – ela disse cabisbaixa.
- Com certeza você os verá logo! – Ele disse, escondendo o rosto para que ela não notasse nada. Evandro sabia que null havia herdado a característica “observadora” de sua mãe.
- Pra onde vamos?
- Pra casa.
- Ainda bem. Quero ver a Consuelo.
- Oh, nem me fale! Aquela mulher me importunou o tempo todo. Você ficou uma noite no hospital tomando soro e sendo analisada, mas pra ela parecia que você estava prestes a morrer.
- Eu podia ter morrido. – ela sussurrou.
- Mas não morreu. null! – Ele chamou.
- Fale. – ela parou no meio do estacionamento, o carro já os esperava.
- Eu não posso perder você como perdi sua mãe. Nunca me deixe, por favor. Pode parecer absurdo o que estou te pedindo, mas eu sei que errei.
Ela correu para abraçá-lo e mais lágrimas escorreram de seus olhos já inchados. Os dois caminharam até o carro e então Evandro autorizou para que o mesmo partisse. null não conseguia parar de pensar nas pessoas, no que havia acontecido e no que ela havia descoberto. No fundo, no fundo, ela não queria admitir, mas sabia que a pessoa que mais queria ver no momento era null.
null acordou de seus pensamentos quando o celular de Evandro tocou.
- Alô?
- Oi Evandro, aqui é o null. Finge que você está falando com a Consuelo.
- Tudo bem. – Evandro disse contendo o sorriso. – Pare de me atucanar, mulher!
- Não sei do que você está falando, mas você deve atuar bem. – null riu. – Vocês já saíram do hospital?
- Sim.
- Em quanto tempo vocês chegam aqui?
- Quinze minutos. Até logo. – Evandro desligou, ele estava nervoso. Não queria que ela suspeitasse de nada.
- Era a Consu? – null perguntou rindo.
- Sim, ela está louca pra ver você! – “Ela e mais cento e cinquenta pessoas”, ele pensou.
04 de maio, 2008
Mansão Altervallo
Quando o carro parou na entrada, a barriga de null começou a borbulhar de nervoso. Queria ir para o seu quarto ou para a sua cabana. Ela não parava de pensar nele e em como estava magoada com tudo o que ele havia feito. “Poderia ter sido diferente”, ela pensou. Um empregado foi até o carro para buscar as malas e null observou Consuelo correr até ela chorando. Consu a abraçou como se não a visse há muitos anos.
- Que bom que você voltou, menina! – Ela disse, chorando, ainda abraçada à null.
- Estava morrendo de saudade sua!
- Ah, eu também! Minha menina. Você está se sentindo bem?
- Só um pouco cansada. – null disse.
- Vamos entrar? – Evandro perguntou e null concordou.
A casa estava perfeita, como ela sempre amou. Por mais que tenha passado momentos complicados na mansão, null adorava aquele lugar, mas não mais que a cabana. Ela adorava o cheiro, a textura do carpete quando andava de pés descalços, os sofás gigantes e confortáveis, os cômodos bem distribuídos e iluminados. Ela amava tudo naquela casa.
- Eu quero te mostrar uma coisa no jardim. – Evandro disse.
- O que é? Eu sou muito curiosa, odeio suspense. – null resmungou.
- Pare de se queixar, null. Você já vai ver.
null foi à frente, Evandro e Consuelo estavam seguindo ela. A garota abriu a porta da varanda e seu queixo caiu. Havia no mínimo umas cem pessoas ali, ela reconhecia todos. A maioria estava com roupas claras e quando a viram, gritaram: “Surpresa!” Seus olhos encheram de água, mas ela controlou aquele sentimento no mesmo instante. O jardim estava iluminado por estrelas de luz e as mesas cobertas com toalhas brancas. De um lado as pessoas mais velhas sentavam-se à mesa. Do outro, o pessoal da Mice estava sentado sob troncos de árvore em roda. Uma fogueira leve estava no centro da roda de troncos. Como no primeiro encontro oficial de monitores.
- Quem foi que preparou tudo isso? – Ela perguntou aos dois que estavam atrás dela.
- null, null e null. – Evandro respondeu. – Eles prepararam isso de um dia para o outro, por isso não foram te visitar. Na verdade, eu não autorizei. Você tinha que se recuperar.
- Obrigada, vocês são demais! – null disse, abraçando-os, e desceu as escadas até as pessoas que a esperavam.
null falou com muitas pessoas. Escutou tantos “que bom que você está de volta”. Agradeceu, beijou, tirou foto, sorriu, agradeceu, beijou, tirou foto, sorriu, agradeceu e escutou muitas coisas boas. Ela queria ver null e null logo. Quando conseguiu parar um pouco, foi surpreendida pelos dois que apareceram do nada.
- Amiga! – null gritou, abraçando-a. Depois deixou que null a abraçasse.
- Obrigada, eu amei! – null disse sorrindo.
- Que isso! Fizemos isso porque te amamos e queríamos que você ficasse feliz. - null disse.
- E eu estou. Obrigada mesmo.
- null! – Chamou Pedro da fogueira.
- Então meninas, o dever me chama. – deu um beijo em cada uma e saiu pra falar com Pedro. As duas ficaram sozinhas e essa era a hora de null tirar suas duvidas com a null.
- Cadê o null? – Ela perguntou baixo.
- Não sei, ele estava aqui até agora pouco. Deve ter ido ao banheiro ou até a cozinha ver se estava tudo certo. Ele fez grande parte de tudo isso, nós o ajudamos. Mas surgiram alguns problemas e ele que resolveu tudo. – Depois das palavras de null, o coração de null bateu forte. Ela queria tanto falar com ele, sentir o cheiro dele, beijá-lo.
- Eu quero falar com ele, se você o vir, me avise! Agora eu preciso ir ao banheiro, porque depois eu preciso cumprimentar mais algumas pessoas.
- É assim que se fala, amiga! E ah, vou mandar servir o jantar.
- Perfeito! – null disse e sorriu. null a abraçou forte e saiu em direção ao namorado.
xxxx
null lavava as mãos quando percebeu que não estava sozinha no banheiro. Ela pegou uma toalha descartável e secou suas mãos. Quando se virou para sair do banheiro, deu de cara com que sorria diabolicamente.
- Oi null, como você está se sentindo? – perguntou de um modo sarcástico.
- Muito bem. – ela respondeu orgulhosa, mas se sentia fraca e cansada.
- Então, eu preciso de um minuto do seu precioso tempo.
- Pode falar. Meu precioso tempo está sendo desperdiçado com você, então desembucha! – null falou. Ela não gostava mesmo de null, pois bem.
- Ui, ela está mostrando as garrinhas. – Disse null debochando.
- O que você quer comigo, garota?
- Com você nada. Eu quero com o null.
- E o que eu tenho a ver com isso? – null perguntou, mas estava com medo da resposta. Ela não estava entendendo nada, mas não podia desmoronar agora.
- Eu quero que você o deixe em paz. Eu quero mais uma noite ao lado dele, deitada em seu peito, beijando a sua boca. Eu o quero de novo. – null disse e parecia que ela se deliciava com aquelas palavras. null tinha vontade de vomitar literalmente. “null dormiu com null?”, ela se perguntou. O sangue de null fervia e parecia que ela estava com febre.
- De novo? – Ela perguntou.
- Sim. De novo. Mil vezes de novo. Por que, querida? Ele nunca se entregou pra você do jeito que se entregou pra mim? – Ela perguntou e null não respondeu, apenas abaixou a cabeça. null queria chorar e bater em null, bater muito nele.
- Pobrezinha. Você é um lixo. Rejeitada pelo papai, pelo namoradinho e agora traída.
null não conseguiu aguentar os insultos e pulou em cima de null. null começou a gritar e a se defender. As duas caíram no chão e rolaram. null acertou uma bofetada na cara de null. Os cabelos de null eram puxados por null de forma bruta. Agora as duas gritavam como animais. Tapas, socos, puxões de cabelo, gritos, tudo acontecia muito rápido. Elas não paravam de se engalfinhar.
- Sua vadia! – null gritou, empurrando null.
- Vadia? Eu? Vadia é a senhora sua mãe que criou uma puta de esquina. – gritou null.
- O que é isso? – Perguntou Evandro a null do lado de fora do banheiro. Os convidados ouviam tudo e o jantar foi interrompido.
- Não sei.
- A null está lá! – Disse null quando chegou correndo ao lado dos dois.
- Precisamos saber o que está acontecendo. Juan e Charles, me sigam! – Disse Evandro.
- Eu vou junto! – Disse null, seguindo-os.
- Não, você fica. – null gritou pra ela. null parou no mesmo instante onde estava, ela e os convidados assistiram os quatro homens entrarem no banheiro. A música que tocava de fundo na festa também havia parado.
Os gritos no banheiro continuavam. O nariz de null sangrava e a boca de null estava cortada. null, Evandro, Charles e Juan entraram no banheiro e se depararam com aquela cena grotesca: Duas garotas brigando como verdadeiros animais.
null não sabia o que estava acontecendo. Só foi entender quando seu corpo foi puxado e ela não alcançava mais null, ela queria destruir aquela garota. Ela viu seu pai e Juan segurarem null, que se contorcia pra continuar a briga. null não sabia quem a estava segurando, mas não se importou. Pensava apenas em destruir a vadia em sua frente.
- Chega! – Gritou Evandro. O silêncio se deu no banheiro e eles escutaram a música voltar a tocar na festa, inclusive escutaram as pessoas voltarem a conversar normalmente. - O que está acontecendo aqui?
- Aquela vaca não aceita! – null gritou e apontou pra null.
- Quem você pensa que é pra chamar a minha filha assim? – Evandro perguntou bravo. null continuava se contorcendo nos braços do homem que a segurava. – Levem-na daqui!
null saiu, sendo segurada por Charlie e Juan. Ela mostrou a língua para null que apenas observou ela sendo expurgada do banheiro.
- No que você estava pensando? – Disse Evandro e saiu bufando do banheiro. Ele foi tentar acalmar os ânimos dos convidados.
- Será que dá pra me soltar agora? – null gritou e os braços que a seguravam soltaram. Ela virou e viu que era null, no momento ela queria matá-lo.
- Eu te odeio! – Ela gritou e começou a socar o peito dele. Ele não impediu, só ficou assistindo a garota se acabar de tanto bater nele. As pancadas começaram a doer no peito de null e ele segurou os punhos de null. A garota o olhou assustada.
- Acabou? – Ele perguntou.
Ele percebeu que ela estava prestes a cair em prantos e não iria aguentar vê-la assim. Ele apenas a puxou para um abraço apertado. null deitou a cabeça no peito de null e começou a chorar no mesmo instante. Ela chorava incessantemente e ainda batia fracamente no peito dele.
- Eu te odeio! Eu te odeio! Eu te odeio! – Ela dizia quase como um sussurro. null só a abraçou mais. Depois de algum tempo ela se acalmou um pouco mais e resolveu que deveria sair dali. Ela se desvencilhou do abraço de null. Ele a olhou profundamente.
- Eu preciso cuidar de você. – ele disse e passou a mão na boca cortada dela. O sangue já estava seco, mas estava escorrido pelo queixo de null.
null fez com que null sentasse em um banco estofado do banheiro e foi procurar por uma caixa de primeiros socorros. Procurou nas gavetas, no balcão, atrás das portas de vidro e só foi achar dentro do armário de papel higiênico. Ele caminhou até onde ela estava e sentou. Pegou o algodão e o spray antisséptico, umedecendo um pouco o algodão. Ele a encarou, então tocou em seu rosto e aproximou mais o rosto dela. Depois passou o algodão pra tirar o sangue e na boca. Não foi um corte preocupante, mas o sangue que saiu não foi pouco. Ele acabou de limpar o estrago e jogou tudo fora. Ela continuava sentada e ele apoiou-se no tampo de mármore da pia.
- O que aconteceu?
- Ela me contou toda a verdade. – null disse, chorando novamente. Ele chegou mais perto, puxou ela para si e a segurou em seus braços, fazendo com que seus olhares se encontrassem.
- Que verdade?
- Que vocês... – null hesitou. – Vocês transaram.
null não alterou sua expressão em nada. Ele esperava uma coisa pior até, do tipo “ela me contou que você ficou com trezentas garotas depois que terminamos e que uma delas está grávida”.
- E você acredita nisso? – Ele disse calmo e ela o olhou em dúvida.
- E não é verdade?
- Não. Eu nunca nem beijei a null. – ele disse sério.
- Então por que ela diria todas essas coisas? – Ela choramingou e algumas lágrimas caíram de seus olhos. Só Deus sabe como o coração de null estava apertado.
- Eu simplesmente não sei.
Os dois ficaram se olhando por um bom tempo. As lágrimas não paravam de cair dos olhos de null. Ele respirou fundo.
- Eu nunca tocaria ninguém do jeito que eu te toco. – null disse, segurando o rosto de null entre mãos. Ela fechou os olhos, aproveitando a sensação boa do toque dele. – Eu nunca olharia pra ninguém do jeito que eu te olho – ele disse e ela abriu os olhos instantaneamente. – Eu nunca beijaria ninguém do jeito que eu quero te beijar. – Ele não deu tempo pra null seque pensar. Invadiu a boca dela de uma forma intensa. null sentia saudade daquilo, daquele gosto, daquele cheiro, daquelas mãos e daquele toque. Ele a segurava com confiança e se deleitava a cada novo contato de suas línguas. O beijo foi tão bem correspondido.
- null. – ela sussurrou, parando o beijo. Ele ficou tão próximo dela. Ele não queria distância nenhuma.
- Fala, gordinha.
Quando null o escutou a chamando de gordinha, uma felicidade e uma tristeza enorme a invadiram. Ela amava quando ele a chamava assim. Tão fofo e tão null.
- Eu amo quando você... – Ela parou.
- Quando eu? – Ele perguntou aflito.
- Nada, deixa pra lá. Eu preciso descansar e comer. E pensar, também. – Ela queria ficar com ele o resto da noite. Queria que eles dormissem abraçados, mas ela não podia se permitir.
- Eu sei.
- Você vai me soltar? – Ela perguntou e null não a soltou. Ele ainda segurava o rosto de null em suas mãos e a olhava de uma forma apaixonada.
- Vou. Só promete que me procura quando você estiver pronta?
- Prometo. – ela disse e enfim ele a soltou. Mas null não gostou tanto de deixá-lo como imaginava.
05 de maio, 2008
Mansão Altervallo
Depois do acontecimento com null no banheiro, ela não o viu mais. Ela ficou na festa por mais algumas horas. Todos torraram a paciência dela, até ela decidir se empanturrar de comida.
- Pai, eu preciso ir. Estou com dor de cabeça, irritada e com sono. – ela disse, rindo um pouco.
- Vai lá, mas se você se sentir mal, me chama imediatamente.
- Claro. Boa noite e juízo. – ela disse a ele e entrou na casa.
As luzes internas da casa estavam acesas, mas nenhum sinal de vida lá dentro. null subiu as escadas e foi direto pro seu quarto. Ele estava intacto, cheirava bem e... Ela se sentia bem lá. Era o seu lar. Depois de trocar suas roupas e desligar as luzes, apenas deixando a luz do abajur ligada, null foi até seu mural e pegou uma foto dela com null. Eles sorriam abraçados sentados na fonte da Mice. Ela sorriu no momento em que analisou a foto.
Ela pegou a foto e levou consigo até a cama. Quando puxou a coberta para se jogar na cama, percebeu um papel.
“A única coisa que justifica o que eu fiz é o amor que sinto por você. E sim, ele é o bastante pra suportar qualquer coisa que aconteça. Procure-me, eu falo sério. Eu te amo, minha gordinha – null.”
Capítulo Onze Mice
05 de maio, 2008
null havia ido direto pra Mice depois que deixou a festa. Ele não sabia mais o que fazer e só o tempo poderia responder todas as questões que pipocavam em sua mente. Ele mal sabia o que poderia acontecer, mas fez o que achou certo.
Ele já havia sido autorizado para retornar à cabana 103, mas faltava uma coisa ali que fazia toda diferença: null. nullainda precisava pegar suas coisas na cabana de null, porém depois do que aconteceu, ele estava receoso.
05 de maio, 2008
Mansão Altervallo
- null, acorda! – Disse Consuelo, sacudindo a garota que ainda dormia. – Acorda! Acorda!
- O que é, Consu? – perguntou ela, ainda sonolenta e esfregando os olhos.
- Você precisa voltar pra Mice, pros seus amigos e pro null– disse ela sorrindo.
- Já estou indo! – Ela disse, resmungando, e Consuelo saiu do quarto.
- O café da manhã está pronto, desça logo. Escutou, null? – Gritou Consuelo.
- Sim – gritou null.
null tomou um banho demorado com muita espuma e conseguiu relaxar o bastante pra pensar no que fazer. Tinha certeza de que ela não estava pronta pra sair de casa e muito menos enfrentar seus amigos e o null. A noite anterior tinha sido surpreendente. E ela decidiu que ficaria mesmo em casa, ela queria um dia de calma, de descanso.
06 de maio, 2008
Mice
null estava atucanado com a ideia de que null não havia ido à Mice no dia seguinte da festa, na verdade ele ficou arrasado. Ele esperava por tantas coisas, pra dizer coisas a ela, pra tê-la novamente... Mas ele tinha que tomar conta de sua vida que ficou jogada na última semana depois de tudo o que aconteceu. Ele pretendia buscar suas coisas na cabana de null naquele mesmo dia, só precisava tomar café da manhã.
No momento em que null bateu na porta da sua antiga cabana e null abriu a porta já se insinuando, um pequeno pensamento passou por sua mente: “Eu definitivamente não deveria estar aqui”.
- Bom dia, null! – Cumprimentou null sorridente e linda àquela hora da manhã. Ninguém se vestia impecavelmente, com maquiagem perfeita e cabelo superficialmente brilhoso às oito horas da manhã.
- Bom dia, eu vim buscar minhas coisas – ele disse seco.
- Pode entrar – ela disse, virando o corpo um pouco. null entrou e pegou a mala mais a mochila.
- Obrigada, null – ele disse, virando-se um pouco pra ela antes de descer as escadas.
- null! – Ela chamou e ele se virou novamente pra ela com a mala nas mãos.
- O que é?
null saiu correndo na direção de null e o abraçou pelo pescoço; E em questão de segundos a garota já colava os lábios nos dele. Fica bem claro que o null não abriu passagem para a interação de suas línguas. Ele largou a mala no chão e a empurrou.
- O que pensa que está fazendo?
- Eu achei que você queria – ela choramingou tentando atingi-lo, mas no momento ele não estava nem aí se ela chorasse.
- Você nunca desiste, não é? – Alguém disse do pé da escada. Esse alguém era null e ela subia a escada furiosa. Nenhum dos dois entendeu se aquilo foi para a null ou para o null. Ninguém respondeu. Ela chegou ao fim da escada e parou ao lado de null, que estava a dois passos de null.
- Do que você está falando? – Perguntou null. null estava apreensivo, por que ela tinha que chegar na pior hora?
- De você, é claro! Já não chegou a surra que eu te dei ontem? Você quer mais?
- Surra? Quem está com a boca cortada é você, garota.
- Quem está rebocada aqui é você e aposto a minha unha quebrada que você está escondendo alguns muitos hematomas – null riu baixo satisfeita.
- Deu? – Perguntou null.
- Não deu! – Respondeu null, olhando-o, brava e voltou a olhar null. – Se você fizer mais alguma coisa comigo ou com o null, você vai se ver comigo. E acredite, você não vai querer descobrir quais são as consequências! – null disse e segurou o pulso de null, que pegou a mala, e a seguiu pelo campus.
null foi até a sua cabana com o seu null. Depois que ela o soltou e ele colocou a mala no chão perto de sua cama, null o encarou. As sensações que a assolavam eram avassaladoras e nem como agir ela sabia. Eles ficaram se olhando por um tempo, parecia que nenhum dos dois tomaria a iniciativa de pelo menos falar algo. Até que o silêncio se tornou insuportável e a garota disse:
- E agora? – Ela perguntou e nullhesitou antes de falar.
- Não sei – ele disse simplesmente. E a situação pode ser deixada de lado, apenas por algum tempo, após a campainha soar. null levantou da cama e foi anteder. Eram null e null.
- null! – Ela gritou, atirando-se nos braços da amiga. null beijou null e foi ao encontro de null. – E então como você está? Co-como vocês estão? – Ela perguntou incerta.
- Eu estou bem e... Não sei, eu acabei de chegar e a gente estava... Conversando – null disse insegura.
- Oh, me desculpe! Nós só viemos ver como você estava e avisar que depois de amanhã é a viagem para a sede campestre da Mice. Vocês vão, não é? – A garota perguntou esperançosa, olhando de um lado para o outro e analisando a expressão da amiga.
- Acho que sim – null disse. – Nem parei pra pensar nisso, ainda.
- Pense, então. Vamos jantar juntos hoje à noite? Na nossa cabana? – null perguntou.
- Boa ideia, as coisas nessa cabana devem estar velhas e a gente não se ambientou ainda – respondeu null. Eles agradeceram o convite e combinaram o jantar, depois disso o casal de amigos foi embora para que se instalasse novamente O Silêncio Constrangedor.
- Chega disso! – null disse com raiva da situação.
- O que você quer que eu faça?
- Me diga o que você quer fazer – ele disse, aproximando-se dela restando apenas uma fresta entre eles. Ele a olhava intensamente.
- Eu quero que você saiba que eu pensei muito sobre tudo o que aconteceu. Depois que eu descobri que você rompeu nosso namoro por causa de um pedido do meu pai, as coisas ficaram mais claras. E eu briguei com a null na minha festa, aliás, obrigada por ter organizado aquilo – ela disse sorrindo e ele sorriu junto. – Eu não vim ontem, pois eu realmente precisava de um descanso e colocar as ideias no lugar.
- E você conseguiu?
- Na verdade, não muito. Ainda mais depois do que eu vi hoje pela manhã. Eu não sei se confio mais em você. Eu sou muito grata pelo que você fez por mim, sabe? Mas eu não consigo lidar ainda com tudo o que eu passei. Talvez, no começo, eu idealizasse que o nosso amor fosse intocável. Intocável pelos outros, mas eu não imaginava que o primeiro que pudesse tocá-lo fosse você. E não apenas tocasse ele, mas o danificasse – ela disse, com lágrimas nos olhos, e percebeu que pela primeira vez ela pode dizer o que queria com clareza.
- E agora? – Ele repetiu o que ela disse com a voz embargada. A última vez que null havia visto o olhar de null daquele jeito foi no refeitório da Mice depois que eles terminaram.
- Eu preciso de um tempo. É isso, eu preciso de um tempo. Mas saiba que não é um tempo de incertezas, na verdade, é um tempo de muita certeza. Certeza de que eu só preciso desse tempo pra reconstruir minha confiança e, com isso, deixar esse medo de lado.
- Medo de quê, gordinha? – Ele disse, aproximando-se mais e segurando o rosto de null entre mãos.
- De você.
O null demorou pra cair na real depois do que ela disse, mas depois que caiu ele a puxou pra perto. Acomodou-a em seu peito e começou a cantar.
I love this place, but it's haunted without you Eu amo esse lugar, mas ele é assombrado sem você My tired heart is beating so slow Meu cansado coração está batendo tão devagar Our hearts sing less than we wanted Nossos corações cantam menos do que nós queríamos We wanted Nós queríamos Our hearts sing 'cause we do not know Nossos corações cantam porque nós não sabemos We do not know Nós não sabemos
Quando null parou de cantar e olhou o rosto de null, viu que as lágrimas escorriam pelo rosto da garota e no mesmo momento ele prometeu pra si mesmo que ele deveria fazer algo pra que ela parasse de sofrer de uma vez por todas. Porém não era o momento ainda.
- Eu preciso me recompor antes do jantar – null disse, olhando-o no fundo dos olhos, limpou as lágrimas na manga da blusa e foi para o banheiro.
xxxx
- Acho que a gente precisa de algumas explicações – null disse. Os quatro jantavam na cabana de null e null. Eles estavam sentados no chão da cabana em uma roda comendo frango à xadrez do China In Box.
- Que tipo de explicações? – null perguntou.
- Ah, nem eu sei! Só sei que estamos meio perdidos nessa história com o pai da null e você – null disse.
- É, eu não entendi direito o que aconteceu! – null disse frustrada.
- É meio longa a história, mas vocês precisam prometer que não vão contar pra ninguém sobre isso.
- Nós prometemos, null. – null disse e null se preparou pra ouvir o que ele já sabia, mas ele queria escutar da boca dela.
- Então... – Ela olhou rapidamente pra null, que não esboçou nada contra ela contar. – Minha mãe morreu em um acidente de carro e eu estava com ela, mas só ela morreu. Meu pai sempre me culpou pela morte dela e depois de um tempo até eu comecei a acreditar nisso. Eu cresci com um pai volúvel e que me machucava. Ele brigava comigo a qualquer hora, me batia e sempre me deixou pra baixo. Eu sabia que ele sofria muito sem ela, mas eu nunca achei que merecesse. Enfim, eu vim pra Mice e vocês sabem a história da lenda, da fonte e dos meus pais. Meu pai apareceu um dia aqui querendo que eu fosse pra ala comum da escola e deixasse a monitoria. O null interveio antes que ele pudesse me bater, ele machucou o null e depois me machucou também. – Ela respirou fundo e pensou um pouco. – Acho que essa parte você pode contar melhor.
- Tudo bem – null disse. – Depois de algum tempo, o Evandro me chamou, impôs que eu terminasse com a null e eu perguntei o porquê disso. Ele disse que se eu fizesse o que ele estava pedindo, ele nunca mais tocaria na null. Eu fiz o que ele disse, eu cheguei um dia em casa e fiz com que ela acreditasse que foi usada por mim. Que eu não a amava – ele olhou para a garota que respirava pesado, tentando controlar o choro. – Mas era tudo mentira. Enfim, o depois vocês sabem. Eu briguei com o Bruno, estava morando com a null.
- Pois é. Eu não me alimentei direito, eu estava muito deprimida por tudo o que aconteceu. Eu realmente havia me entregado ao null – e depois dessas palavras, ela não pode conter as lágrimas silenciosas. – Eu tive essa merda de doença. No hospital, meu pai veio me procurar arrependido. Eu nunca havia visto o Evandro daquele jeito. Ele estava destruído, mas eu estava mais. Eu o perdoei por tudo o que ele fez e ele sem dúvida nenhuma mudou – null deu um sorriso breve e encarou as expressões estupefatas dos amigos, mas não teve a coragem de olhar pro null.
- Eu não imaginava tudo isso. E como você fazia pra esconder os machucados da imprensa?
- Ah, é aí que se esconde o meu truque! – Ela deu uma risada mais animada. – Eu tinha uma clinica que assinou um contrato com a minha mentora, a Consuelo, para que eles apagassem os machucados e não contassem para ninguém o que viam. Funcionou muito bem durante todos esses anos.
- Você é muito forte, minha amiga – null disse emocionada. – Nunca pensei que você pudesse passar por isso e ainda perdoar.
- Talvez.
- null, vou te perguntar uma coisa e quero que você não se ofenda. Não estou correndo em defesa do null. Se você consegue perdoar o seu pai, depois de tudo, por que não consegue perdoar o null?
null pensou por um tempo. Você é muito forte, “você está enganada null, eu sou tão fraca a ponto de não conseguir perdoar a pessoa que conserva amor por mim”, null pensou. Mas ela simplesmente não conseguia quebrar aquela barreira. Ela olhou null e ele sorriu fraco pra ela. Os dois sabiam que aquilo levaria um tempo, mas ela sentia muita falta dele.
- São coisas do meu coração – ela disse e a conversa foi encerrada dessa maneira.
Após voltarem para a cabana e tomarem seus respectivos banhos. null e null se jogaram no sofá, um em cada ponta, para assistir ao programa da Ellen.
- Eu adoro a Ellen, morro rindo quando ela dança e o jeito dela. Admiro-a!
- Pois é, ela é fodona! – null disse e os dois caíram na gargalhada.
07 de maio, 2008
Mice
null acordou sorrindo por dois motivos: O primeiro era que ela não acordou no sofá, mas sabia que havia pegado no sono lá e concluiu que o null tinha carregado ela até sua cama. O segundo era porque ela sabia que no dia seguinte todos os monitores iriam viajar. Ela sabia também que aquela viagem seria de arromba e isso não era motivo de felicidade, ela sabia que muitas coisas poderiam acontecer.
Capítulo Doze
Mice
08 de maio, 2008
null estava com a testa encostada no vidro do micro-ônibus enquanto todos os monitores dormiam. Seria normal se a galera estivesse tocando violão, cantando e falando sobre a viagem, mas era muito cedo. Tipo, seis horas da manhã. Depois que todas as malas foram depositadas no andar de baixo do veículo e os monitores já estavam devidamente instalados com suas duplas, eles puderam iniciar a viagem que teria duração de 4h.
A garota estava surpresa porque seu pai ligou alguns minutos antes dela embarcar. Ele disse: “Boa viagem, minha filha. Aproveita o máximo e eu sentirei a sua falta.” Afinal, eles não podiam levar celulares e nem aparelhos eletrônicos para a sede campestre, era quase como um retiro. Só não era retiro, pois lá eles iriam assistir televisão. Ela ficou surpresa por ele ter ligado, mas ao mesmo tempo ficou feliz por ter esse tipo de carinho.
- null?
- Oi, null – null cochichou baixinho para null, que estava sentada ao seu lado. null e null sentaram juntos no fundo do ônibus, eles resolveram assim pra não forçar a situação já de inicio. – O que você quer? Pode voltar a dormir, amiga, ainda falta muito.
- Você não vai dormir?
- Por enquanto, não. Quem sabe mais tarde? Se algo acontecer eu te chamo, tá?
- Tá bom, obrigada, amiga. Vê se desliga essa mente um pouco – null disse, sorrindo fraco, e encostou-se ao banco que estava reclinado. Ela suspirou uma vez mais e voltou ao seu sono profundo.
null pôde voltar à sua mente, que realmente não desligava, para estabelecer algumas regras pré-viagem.
1. Não chorar.
2. Não brigar.
3. Não beijar.
Pois é, essas eram as regras e ela sabia que teria dificuldades em cumpri-las, mas eram necessárias. Aliás, extremamente necessárias.
xxxx
07 de maio, 2008
Sede campestre
- Monitores, sejam bem-vindos! – Os dez monitores observavam a Diretora e o professor de história falar. – Primeiro, queremos dizer que esse será um passeio interessante. Vocês poderão fazer o que quiserem até a hora do almoço, depois, as atividades que planejamos começam. Não serão atividades, na verdade nós só planejamos alguns lugares para que o grupo fique unido.
- Agora, antes de qualquer coisa, vou dizer algumas regras simples: Proibida a entrada de meninos na ala feminina e vice-versa. Proibido beber, fumar e bagunçar. Os quartos serão divididos em duplas e vocês só vão saber seus colegas quando chegarem às alas. Proibido brigar, fugir e usar celular. Espero que você aproveitem os próximos três dias! – Disse a puta da Diretora com todas aquelas regras, mas null queria saber com quem iria dividir o quarto.
Os monitores correram para os quartos. Para a surpresa das meninas, os professores “mesclaram” bastante e dividiram os grupos. Melinda ficou com a Diretora, null com null e null com Alyssa. Nem preciso dizer que foi pânico e certeza de coisa ruim pra todos os lados, não é? Então, elas entraram nos quartos e se deparam com camas grandes, dois banheiros, bar com café e refrigerantes, televisão e um DVD que disponibilizava alguns filmes.
As meninas só largaram as malas e já voltaram para o saguão, encontrando null, null e Lucas lá.
- Como ficou a distribuição dos quartos de vocês? – null perguntou para null.
- Eu fiquei com o null! Isso aí! – Os dois fizeram high five e sorriram contentes, pelo menos eles. – O Lucas ficou com o Pedro e o Bernardo com o professor. Ficou tranquilo, e vocês?
- Ih, não posso dizer o mesmo! Juntaram a null e a null... – null disse apática.
- Sério? – null perguntou perplexo. – O mundo inteiro sabe da confusão que isso pode dar.
- Foi isso o que eu pensei, mas vamos esperar pra ver. Nenhuma das duas reclamou.
- Isso sim é estranho! – null disse.
O almoço passou tranquilamente, os monitores e professores sentaram à mesa juntos. As conversas eram animadas e todos comentavam sobre a trilha e o banho de cachoeira que aconteceria na parte da tarde. null estava quieta e null não deixou de notar, mas sabia que era porque ela ainda estava um pouco deslocada. Ele sentia falta de poder falar com ela naturalmente, sem a sensação de o simples ato de iniciar um diálogo já ser algo fora das regras. Parecia que existia uma barreira entre os dois. Ele sentia falta de dormir com ela em seus braços e principalmente de não falar nada, porque os dois tinham uma comunicação sutil. null odiava essa distância, mas não deixaria assim por muito tempo.
null pensava na razão pela qual os professores colocaram a null e ela no mesmo quarto. Que tipo de besteira eles tinham na cabeça? Porém, ela não ia deixar que aquilo abalasse a viagem que ela tanto esperou, ela esperava por isso antes de tudo o que aconteceu. Agora ela pretendia esquecer o que passou e recomeçar.
- Monitores, vão para os seus quartos e se preparem para uma tarde muito divertida! – A professora falava, enquanto os alunos não conseguiam parar seus corpos nos bancos. – Os guias já estão nos esperando. Vão e não esqueçam a roupa de banho!
Ela não precisou dizer duas vezes. Os monitores prontamente se levantaram e correram para os seus quartos. null vestiu o biquíni que havia ganhado de uma fã do México e, por cima, colocou um vestido com estampas do verão. null retocou a chapinha e a maquiagem.
- null, por que você está retocando a maquiagem se a gente vai pra cachoeira?
- Não, minha querida. Você e seus amiguinhos vão pra cachoeira, eu vou curtir minha viagem com um tipo de diversão que você nem conhece.
- É sério? – null disse debochada. – Vai brincar nos tobogãs?
- Não, sua idiota! – Ela chegou mais perto querendo intimidar a outra garota, mas null não se moveu e a encarou. – Olhe aqui, eu não quero mais me meter na sua vida e nem na do null, eu só quero distância de pirralhos como vocês. Então, vai cuidar da sua vida! – null ameaçou.
- É null, pena que você não pensou nisso antes de fazer tudo o que fez. E saiba que quem quer distância sou eu, então, aproveite! – null disse, pegou sua toalha e saiu do quarto.
Ela pensou que por um lado seria bom, porque ficou claro que null não queria nem mais saber do null, mas null não achava a garota tão ruim assim. Na verdade, null achava que a víbora podia ter um lado bom, só que foi tão rejeitada pelos pais que não se permitia confiar em alguém. Se bem que null não teve o pai por muitos anos, por mais que ele estivesse vivo, e ela sempre fora maltratada, mas nunca descontou isso em ninguém.
Quando a garota chegou ao longe da sede campestre, todos os outros monitores já estavam devidamente vestidos e saltitando.
- null, você sabe onde está a null? – Perguntou a professora.
- Ela disse que iria demorar um pouco e que depois pediria para outro guia levá-la à cachoeira.
- Tudo bem – concordou a professora e reuniu os monitores em uma roda em torno do tal monitor. O cara era o tipo brega antigo que sabe biologia, ele usava um colete vermelho, bermuda caqui, botas de escalada, óculos laranja e, pra melhorar a aparência, uma pochete.
- Meu Deus! O que é isso? – null cochichou no ouvido de null e as duas riram baixinho, enquanto o guia que “prefere ser chamado de John” dava instruções de como andar na mata. Afinal, quem se importava em como chegar?
- Não sei, só sei que eu quero ir logo para a cachoeira. Ouvi falar que uma parte da trilha é molhada – null comentou baixo.
- Adoro essas aventuras comedidas! – As duas riram novamente. – Então, como foi com a null?
- Ela disse que tem coisas melhores pra fazer do que ficar andando com pirralhos como nós. Ainda disse que vai deixar eu e o null em paz! – null disse em tom de desdém.
- Ah amiga, eu acho essa garota muito problemática! Vamos aproveitar os nossos três dias de descanso com nossos garotos.
- Nossos não – null corrigiu rapidamente.
- Não me venha com essa! Sei que você está louca pra agarrar o null e ficar grudada nele pelo resto da viagem – null sussurrou e viu que a amiga ficou tristonha. – Ei, o que aconteceu?
- Quem me dera poder ficar assim com ele, mas não é bem assim.
- Deixa de ser complicada! – null falou alto e a professora as repreendeu, fazendo com que as duas parassem de fofocar e prestassem atenção no guia-brega.
A trilha foi muito apavorante, parecia que nunca terminava. Talvez porque eles quisessem chegar logo à cachoeira. null ia atrás dos professores e null a segurava pela cintura quando ela escorregava. null ia logo atrás do casal e null estava à sua espreita. Os dois não conversavam, mas null escorregou algumas vezes nas pedras molhadas e o null prontamente a segurou em todas as situações. Ela agradecia e continuava envergonhada. null não apareceu.
07 de maio, 2008
Cachoeira
Depois de meia hora, eles chegaram a uma clareira e ao lado havia uma cachoeira forte. null achou aquele lugar um santuário. O silêncio, os pássaros, a água em abundância que caía direto em um grande rio que era cercado e contido de pedras grandes. Tudo naquele lugar era mágico. Os monitores não hesitaram e foram logo se jogar na cachoeira, deixando as roupas jogadas nas pedras secas. null ficou os observando com um pouco de vergonha de tirar a roupa.
- Não precisa ter vergonha – null passou por ela e sussurrou. “Como ele sabe?”, ela se perguntou.
Ela sorriu e tirou o vestido por cima, correndo para junto de seus amigos. Os professores e o guia se sentaram em uma pedra grande para conversar e fiscalizar o que os monitores faziam. A água não estava gelada. A primeira diversão foi se jogar de uma pedra alta que tinha na parte da frente da cachoeira. Depois eles descobriram que dava pra entrar em uma caverna atrás da queda d’água, era só mergulhar fundo e passar a queda. Um por um eles foram até que todos estavam na caverna. Era lindo ver a luz bater contra a água e brilhar, só que era muito frio dentro da caverna e as garotas já estavam batendo queixo. null, null, Melinda e Alyssa voltaram para a parte calma do rio. Os meninos demoraram mais, mas voltaram. Eles criaram uma rodinha que incluía conversas, afogamentos e cuspe de água. Até briga de galo eles fizeram, os ganhadores foram null e null.
- Monitores, venham comer!
Ninguém esperava pelo piquenique que os professores organizaram, mas estava delicioso. Morangos frescos, empadas, sanduíches, sucos de caixinha e brigadeiros. Comeram até não aguentarem mais.
- Água? – Falou Lucas, olhando para o resto dos garotos, que correram novamente para o rio e ficaram brincando sob a cachoeira. As garotas ficaram conversando e mais tarde foram mais uma vez para a margem.
Quando começou a escurecer, os professores os chamaram para voltar à sede, porque eles ainda precisavam tomar banho para o jantar. Os monitores se vestiram e, quando iam voltar para a trilha, escutaram gemidos e passos. O guia disse que iria verificar o que era e fez pose de macho, mas null notou que suas mãos tremiam. A luz já não estava mais tão forte e a noite começava a se aproximar. Os monitores e professores seguiam o guia em silêncio. Quando eles chegaram a uma parte de mata aberta, eles se depararam com null agarrada a um homem de trinta e poucos anos, vestido da mesma forma que o John.
- O que é isso? – Perguntou a professora. “O que será que é?”, pensou null irônica.
Quando null se deu conta de que uma platéia a assistia, ela pegou suas roupas no chão e cobriu os seios. O homem tapou as partes baixas, pois alguma coisa aconteceu com o seu órgão genital. null tentava conter o riso e viu que null também. A cena era grotesca, os dois pelados no meio do nada, excitados e gemendo. null não sabia onde colocar a mão.
- Direto para a sede, null! Agora! – O professor tomou as rédeas da situação, pois a professora não saía de seu estado de perplexidade. – E vocês, acompanhem o guia! – Nem o guia sabia o que fazer, ele endureceu o corpo e nos olhou como quem quer amenizar a situação. Aliás, ninguém sabia o que fazer, alguns riam, outros contorciam a cara de nojo.
- Eu não estou acreditando! – null disse para os amigos, que gargalharam.
- Acho que você vai acabar ficando sem colega de quarto – null disse.
- Será que é pra tanto? – Eu perguntei desconfiada, pois eles sempre diminuíam as loucuras que null aprontava.
- Com certeza, essa garota não é certa da cabeça! – null riu e correu até a entrada da trilha molhada. – Amor, vem me ajudar! – Ela gritou para null que correu na direção dela. Restaram null e null, que caminhavam um ao lado do outro calmamente. Não era estranho, era apenas calmo.
- Quer jantar comigo hoje? – null perguntou e viu o sorriso que surgiu no rosto da garota, fazia muito tempo que ele não a via sorrir daquele jeito.
- null, por favor, não começa! E hoje a gente vai jantar junto, aliás, todos os monitores – ela disse com uma feição de tristeza e impotência. “O que eu faço?”, ela pensou.
- Depois do jantar, então – ela sabia que ele não desistiria tão fácil.
- Eu só vou se você me prometer uma coisa – null declarou, parando de andar na trilha molhada e quase caindo. Ele a segurou pelos cotovelos até que ela se firmasse novamente. – Obrigada – ela disse envergonhada.
- Prometer o quê? – Ele perguntou, ainda a segurando em seus braços.
- Que não a gente vai ir com calma.
- Eu prometo – ele disse, beijando a testa de null e voltando a andar na trilha, puxando a garota, pois eles estavam ficando para trás.
xxxx
07 de maio, 2008
Quarto de null
null não deu sinal de vida e as coisas dela já não estavam mais no quarto quando null chegou. Ela chegou a pensar que a garota tinha sido trocada de quarto, mas preferiu pensar que os professores tinham sido justos e a mandado pra casa. Porém, null tinha coisas muito mais urgentes pra organizar.
“Eu não sei o que fazer, eu não sei se estou preparada pra enfrentar todos os sentimentos que eu tenho deixado de lado”, ela pensava. No fundo, ou nem tanto assim, null sabia que o dom de null era despertar os mais fortes sentimentos na garota, desde ódio até paixão. Ele sabia exatamente como fazer isso e ela sabia que não tinha como resistir, mas também sabia que podia adiar.
A batida na porta do quarto a despertou de seus devaneios e ela correu para preparar sua muda de roupa para o banho.
- Quem é? – null perguntou do banheiro.
- null!
- Entre!
- Agora você está livre! – null gritou num ímpeto ao entrar no quarto de null, que se assustou e ficou se perguntando o que aquilo significava.
Capítulo Treze
Em um dos quartos da sede 08 de maio, 2008
null fez uma cara esquisita, como se não estivesse entendendo nada, e null gargalhou.
- Do que você está falando? – null perguntou.
- Você ainda não soube? – A amiga perguntou e null negou balançando a cabeça. – A null foi embora! E o melhor é que você vai ser transferida pro meu quarto, pois não pode ficar aqui sozinha. – null comemorava.
- Depois do que ela fez, isso é o mínimo! – null dizia, entrando no banheiro e deixando a porta aberta. – O que foi aquilo? Foi nojento! – As duas riram e se olharam fazendo cara de quem vai vomitar. – Então, eu posso recolher minhas coisas e ir para o seu quarto?
- Pode, foi isso que vim fazer aqui. A professora me deu essa missão!
- Depois do meu banho eu vou. E tem espaço?
- Isso é o de menos. O mais importante é que a gente vai te encobrir hoje à noite – ela falou com sorriso de vitória no rosto e null a encarou com um misto de espanto e segurança nos olhos.
- Do que você está falando? – Perguntou ela tentando demonstrar frieza.
- Você sabe, mas só conto se você admitir que sabe do que está falando – null disse e null sabia que a curiosidade era o ponto fraco dela.
- Admito. Ele me pediu pra sair com ele.
- Eu sabia! – null gritou rindo e depois de um longo tempo se acalmou. null entrou no banho e fechou a porta do Box. null sentou na privada, que estava com a tampa fechada, para que as duas pudessem conversar.
- Será que dá pra me falar logo? – null perguntou impaciente.
- O null disse pro null, simples. Só que eu lembrei que depois do jantar a gente não pode sair e deu tudo certo, fiz a cabeça da professora pra não te deixar sozinha no quarto e a Alyssa concordou em nos ajudar. – null disse e null ficou encarando ela com a porta do box aberta, com um olhar de admiração. – O que é, sua louca?
- Não sei – null saiu de seu transe. – Mas você mudou, parece mais feliz.
- E você mais triste – null sussurrou e não percebeu o que tinha falado. null já estava com os pés descalços sobre o tapete, uma toalha enrolada nos cabelos e outra no corpo. As duas ficaram se olhando até que null saiu do banheiro quieta e foi sentar em uma das camas. null se vestiu, sem conseguir parar de pensar no que null disse.
null escutou os passos da amiga que saía do banheiro e a olhou. Quando percebeu, lágrimas caiam dos olhos de null. Ela não sabia o que fazer e nem se a garota estava chorando pelas coisas que ela falou.
- Desculpe, eu não quis falar aquilo.
- Claro que você quis. Será que eu posso ficar sozinha? – null disse em tom sarcástico enquanto secava as lágrimas.
- Quem é você, garota? Eu não te conheço mais! Eu estava apenas tentando te ajudar! – null se sentiu ofendida e ficou magoada com as palavras da amiga.
- Eu nunca pedi ajuda, eu nunca disse que você poderia se meter na minha vida – null disse brava e, quando percebeu, já tinha falado o que não queria falar, foi entender a merda que havia dito quando observou a expressão de null passar de magoada pra raivosa.
- Eu, definitivamente, não preciso disso e nem de você! Não fale as coisas como se eu te devesse algo e não fala mais comigo! – null saiu do quarto batendo a porta.
xxxx
07 de maio, 2008
Jantar dos monitores
O local do jantar era lindo. Tinha muitas mesas e alguns casais, afinal, qualquer sócio da Mice poderia trazer quem quisesse para a sede campestre. Havia um palco onde um homem tocava violão e cantava uma música calma. null chegou e a maioria de seus colegas já estavam sentados. null, quando a viu, virou a cara e cochichou com null algo que não deu pra entender. null respirou fundo e deu alguns passos até chegar à mesa.
- Sente-se, garota! – Disse a professora, visivelmente alterada por ter ingerido alguns copos de vinho junto com o professor. Ela estava com um vestido decotado e sorria sensualmente para o professor, que correspondia.
null se sentou ao lado de null, na ponta da mesa, e à frente de null, que sorriu abertamente para ela. A garota só queria fugir dali, estava cansada, morrendo de vontade de chorar e não sabia o que estava sentindo. Ela sabia que precisava de uma boa noite de sono para que seus sentimentos se aquietassem.
- A professora está ficando bêbada – null comentou rindo.
- Ela e o professor ainda vão ficar juntos – null disse.
- Licença – null pediu, saindo da mesa e indo na primeira direção que apareceu.
- null! – null a segurou pelo braço e a puxou até que ficassem com os corpos colados. Quando seus olhares se encontraram, null sabia que só estava perdida daquela forma porque estava longe dele.
- O que é? – Ela sussurrou, sentindo a respiração de null na sua bochecha.
- O que está acontecendo?
- Eu só quero ficar sozinha, apenas isso! Será que ninguém entende? – Ela disse bufando e já não aguentando mais.
null a puxou contra seu peito e ela deitou a cabeça no peito dele. Eles se abraçavam como se aquilo fosse algo muito necessário. null sentia suas forças cederem e as barreiras começarem a caírem aos poucos. O cheiro dele, o calor, as mãos, não havia nada nele que ela não sentisse falta. null o sentia relaxar sob seus braços, ela se sentiu deixar levar pela saudade. A garota escondeu o rosto no abraço de null e ficou ali respirando.
- Vai pro quarto e a gente janta junto amanhã, pode ser? – Ele sussurrou, beijando a testa dela.
- Eu estou com medo – ela disse, agarrando-o ainda mais, a última coisa que passava pela cabeça de null era soltá-lo.
- Medo de quê?
- De ficar sozinha – ela suspirou.
- Eu tenho medo de ser tarde demais – ele disse calmamente como se aquilo fosse algo que se encaixasse no contexto.
- Não é – ela disse se afastando. – Boa noite, gordo.
- Boa noite, gordinha – ele sorriu, mostrando todos os dentes. Ele queria morder ela, morder suas bochechas que mostravam covinhas por ela estar sorrindo. Porém, ele sabia que não era o momento certo e deixou-a ir.
xxxx
08 de maio, 2008
Em um dos quartos da sede
null sabia que precisava consertar as coisas quando acordou naquele quarto sozinha. Nem tudo estava no lugar certo na mente dela, mas o sono ajudou a clarear os pensamentos. Ela pensou que já estava na hora de os monitores estarem se arrumando para o penúltimo dia de viagem. null se vestiu e foi direto ao quarto de null. Ela bateu na porta e aguardou até que viu Alyssa abrir a porta.
- Bom dia, null – a garota cumprimentou abraçando-a com um sorriso imenso no rosto.
- Bom dia – null disse retribuindo. – Posso falar com a null?
- Pode, eu vou deixar vocês conversarem e vou encontrar meu amor.
- Obrigada – null estava realmente grata pela ajuda de Aly.
null viu que a amiga estava tomando banho e decidiu esperar para que elas pudessem conversar diretamente. A garota demorou a sair do banho, mas quando saiu, viu que null estava sentada em uma das camas à sua espera. null acabou de se vestir e sentou na cama desocupada, de frente para null.
- O que você quer? – null disse impaciente.
- Conversar e te pedir desculpas, eu não deveria ter falado aquilo – null disse nervosa.
- Mas falou, null! O problema é que você está virando outra pessoa, o null está virado em um trapo de tão deprimido que está. Só você não consegue enxergar como ele muda quando você chega, parece que ele brilha. Se permita amar novamente. Eu não estou brava com você, só estou triste. Eu estou perdendo meus amigos aos poucos – null se levantou e andou de um lado para o outro falando e gesticulando com as mãos. – Minha amiga, por favor, você sabe que as coisas não estão bem.
- O que você quer que eu faça? – null perguntou frustrada. Ela sabia que tudo o que null disse era verdade, mas não via nenhuma saída para a situação.
- Não quero que você faça nada. Eu amo o null e sei que ele fará o possível e o impossível pra ter você, você só precisa acreditar nele. Por que é tão difícil? – null perguntou, ajoelhando-se e se apoiando nos joelhos de null. As duas se olhavam e null pôde perceber os olhos da amiga acumularem lágrimas.
- É que quanto mais a gente ama, mais a gente sofre. Eu passei por momentos terríveis sem ele, eu cheguei a acreditar que ele nunca me amou. Aceitar isso não foi fácil, e não tem nada a ver com o meu pai. Estou falando de nós dois. E você não tem noção da falta que eu sinto dele todos os dias! – null disse, já chorando.
- Se você não quer passar pelas mesmas coisas o resto da sua vida, acredita nele. Sabe o que é tudo isso? Medo. Medo de ele fazer as mesmas coisas outra vez, medo de perdê-lo tão bruscamente como você perdeu.
null não sabia o que falar, porém, sabia que null estava totalmente certa. Ela tinha medo de se entregar ao null e ele quebrar seu coração novamente. Ela não queria ser uma daquelas garotas que dá o troco, porque não fazia o tipo dela. null então resolveu aceitar o conselho de null. As duas ficaram abraçadas por algum tempo.
- Eu estou com fome – null sussurrou, ainda abraçada com a amiga, e as duas riram.
- Só você consegue estragar um momento como esse, não é? – null disse e as duas gargalharam, indo direto para o café da manhã oferecido pela sede campestre.
xxxx
- Estou morrendo de medo – null comentou.
A atividade programada para aquele dia era tirolesa. Uma delas, a mais alta, era composta por uma parte onde a pessoa caminhava em uma grua até chegar ao outro ponto da montanha e de lá ela saltava na tirolesa. A segunda era a mais simples: Ir de tirolesa na ida e na volta, pois essa a altura era bem menor. Os únicos que quiseram a com a grua foram null, null, null e null, o professor teve que acompanhá-los contra a vontade dele. Os cinco andavam na trilha em torno da montanha que estava montada a base dos saltos.
O professor ia à frente, null e null andavam de mãos dadas na frente enquanto null e null iam atrás, um ao lado do outro. “Por que eu aceitei vir?”, null pensou. Porém, quando ela sentiu null segurar a sua mão, após ela falar que estava com medo, ela sorriu fraco, sentindo a estranha sensação de que aquilo era o certo. Ela o olhou para tentar entender o que se passava e ele apenas sorriu de lado quando viu que ela o olhava, voltando a conversar com null.
- Está sentindo falta da professora? – null perguntou ao professor, que imediatamente ficou vermelho e nervoso.
- Não, garoto – ele disse gaguejando e os monitores começaram a rir.
- Ah não? Vou contar pra ela – null disse rindo.
- Não faça isso, null. Não me ponha na berlinda – o professor disse mais descontraído, percebendo que eles estavam apenas brincando.
- Não estou fazendo nada – null disse segurando o riso.
- Eu vou ir e voltar milhares de vezes! – null disse extremamente animada.
- Chegamos, garotos! – O professor anunciou e eles puderam ver algumas pessoas em um pórtico mais à frente.
Quando eles chegaram ao pórtico alguns homens os recepcionaram. null olhou para o vale que existia entre as duas montanhas e um arrepio subiu pela sua espinha. Sua mão começou a tremer e null a encarou, ele não a soltou por um minuto.
- Eu não vou – ela disse com o olhar suplicante enquanto null e null já estavam sendo equipados com a cadeirinha, mosquetões e todas aquelas cordas de proteção.
- Não precisa ter medo – null disse, puxando-a pra perto, ela pôde sentir a respiração dele bem perto.
Ela concordou com a cabeça e ele a puxou até que um homem os parou para começar a colocar todos os equipamentos em suas cinturas. null continuava tremendo e null já não poderia mais saber disso. null e null já estavam na metade da grua.
- Cadê a minha null corajosa? – null gritou da grua para a namorada que tremia e não conseguia dar mais nenhum passo, pois olhou para o vale sob seus pés.
- Me salva, amor! – Ela disse nervosa e null andou até ela segurando a sua mão.
- Vem comigo – ele disse e deu um passo, ela o seguiu e eles continuaram.
null e null entraram na grua, já devidamente equipados e seguros, mas a garota estava com muito medo. Ela se segurou nas barras de metal e começou a andar lentamente. null ia acompanhá-la levasse o tempo que precisasse. Eles já tinham conseguido andar vinte metros, mas ainda faltavam quarenta metros. null e null já estavam em terra firme na outra montanha e acenaram para que outro casal se apressasse.
- Eu não vou conseguir – null disse gaguejando, parecia que ela estava fazendo muitos abdominais, pois sua barriga não parava de tremer.
- Eu estou aqui – null se soltou das barras de ferro e, com cuidado para não pisar em falso, foi até onde null estava. – Não olha para o chão, olha pra mim.
Ele pegou na mão dela e ela fez exatamente o que ele pediu. null se distraiu nos traços do rosto de null e nem percebeu que estava caminhando na grua, o perfume dele intoxicava a saudade que ela sentia. Ele pigarreou e ela acordou do transe, olhando para frente.
- Eu disse que podia me olhar, mas não precisa secar – null brincou e ela ficou mais nervosa, pois a vergonha que sentiu ao notar que, se essa fosse a vontade de algo maior que os dois, eles ficariam juntos novamente.
- Ah, me desculpe.
- Gorda – ele parou no meio da grua, forçando ela a encará-lo. Quando ele a chamou pelo apelido, seus pelos se eriçaram. – Eu estava brincando, pode me olhar o quanto quiser. Se eu pudesse, ficaria te olhando o dia inteiro.
Ela sorriu, escondendo a vontade que tinha de agarrá-lo ali mesmo, e, ao se lembrar de que estava à muitos metros de altura, voltou a andar e logo chegou ao outro lado. null soltou a mão de null. null e null ainda esperavam por eles e os quatro desceram a trilha que dava ao segundo pórtico, o professor havia amarelado e não quis praticar o esporte.
- Obrigada – null sussurrou para null, que apenas concordou com a cabeça sorrindo.
null estava mesmo se sentindo corajosa e se ofereceu pra ser a primeira a saltar. Ela saiu correndo e se jogou ao ar com apenas aquelas cordas de segurança. Ela gritava e fazia sinais durante o tempo em que deslizava pelo cabo de aço. Depois dela null foi e se divertiu, ele não gritou enlouquecidamente como null, apenas emitiu uns “uhul”. null empurrou null para que o instrutor a preparasse para o salto, ele balançou a cabeça dando força a ela. O garoto ficou cuidando do instrutor, que tocava demais as coxas de null.
- Menos contato, amigo! – null disse para o instrutor e as bochechas de null ficaram vermelhas. Ela achou mesmo que o instrutor estava passando dos limites e agradeceu mentalmente ao null. E não deixou de notar o quão fofa foi a ação dele. “Como eu amo esse garoto”, ela pensou antes de correr para o salto.
null gritou nos primeiros segundos até perceber que era maravilhoso fazer aquilo. Ela olhou todo o vale sob seus pés e não ficou com medo. Depois de parar no pórtico da outra montanha ela queria ir novamente e, mais uma vez, e mais uma. null chegou tranquilo ao encontro dos outros. Eles queriam ir novamente, mas o professor os vetou, pois eles ainda tinham que caminhar até a sede.
- Eu amei fazer tirolesa – null disse enquanto eles voltavam para a sede. Começava a escurecer.
- Você estava com medo, se não fosse pelo null, você ainda estaria na grua – null falou e null o cutucou, insinuando que ele não deveria ter falado aquilo. – O que foi? Eu não falei nada de mais, é a verdade. – null disse e null não soube onde se enfiar.
- Por favor, parem com isso. Vocês estão agindo como se a minha história com o null fosse um assunto proibido. Eu sei que pode parecer estranho pra vocês dois, mas pra nós é mais ainda – null disse, soltando o ar, como se falar aquilo tirasse um grande peso de suas costas e ela percebeu que estava a ponto de chorar, mas se controlou.
- Vocês vão indo na frente – null disse e segurou null que, sem entender nada, esperou que os outros se distanciassem e encarou o garoto sem entender nada.
- Não demorem! – O professor falou de longe.
- O que é?
- O que foi aquilo? – null perguntou, chegando mais perto de null, seus corpos quase se tocando. – Foi desnecessário o que você falou. Como você acha que eles podem falar sobre nós dois, se quando eles falam você dá esses ataques e quase chora? – “Ele está furioso?”, null se perguntou sem entender.
- Eu não dei nenhum ataque, null! – null disse voltando a caminhar e deixando null para trás. Ele a segurou pelo braço e a trouxe pra mais perto, a envolveu com os braços e ficou olhando pra ela.
- Eu não quero que você vá – ele sussurrou bem perto do rosto dela e null entendeu o que estava acontecendo. Os dois sentiam o mesmo. Ela baixou o rosto sem conseguir encará-lo. – Eu não aguento mais essa distância, eu acho que já paguei por tudo de errado que fiz, null. Por favor, me perdoa.
- Não é assim que as coisas funcionam – null disse por dizer, pois o que ela queria é que ele lutasse por ela. Ela queria que ele a tomasse e nunca mais soltasse, pois era disse que ela tinha medo. Ela tinha medo de que ele fosse embora.
- Então como elas funcionam?
- Eu não sei.
- Mas eu sei.
Ela sabia exatamente o que ele ia fazer e não tinha a pretensão de impedi-lo. null a segurou com a certeza de que ela não ia fugir e a tomou. Quando seus lábios se tocaram, a sensação de que aquilo era a coisa mais certa a se fazer os dominou. null não tinha mais medo. null segurou o rosto de null entre as mãos e abriu os olhos. Ele sorria como há muito tempo a garota não via.
- null...
- Shhh, não fala nada – null falou, dando vários selinhos nela, ele não tirava o sorriso do rosto. – Depois do jantar a gente conversa, vamos aproveitar esse momento.
null sorriu e concordou, abraçando-o. Ela sentia falta de poder fazer isso, sentia falta de abraça-lo e saber que não tinha nenhum problema, pois o coração dele era dela. E assim eles voltaram para a sede, abraçados e sem falar absolutamente nada. Antes de chegar a área dos quartos, null a puxou para um último beijo.
- Te vejo no jantar, gordinha.
- Até lá. Promete que não vai fugir? – null perguntou.
- Prometo que isso não vai nem passar pela minha cabeça.
Capítulo Quatorze
Cabana
11 de dezembro, 2010
- Eu estou muito nervosa, mas até que enfim acabou – null disse para as garotas que estavam se arrumando na cabana.
- Ainda não acabou – null riu alto e subiu em uma das camas. – Acaba essa noite! – E todas as outras davam gritinhos e comemoravam.
Depois de três anos como monitores, naquele dia eles entregariam seus postos e terminariam a educação escolar. Muitos já estavam com suas mentes na faculdade e não agüentavam esperar pelo ano seguinte, outros só queriam aproveitar a vida antes de assumir algumas responsabilidades.
A formatura aconteceria dali a algumas horas no Centro de Eventos da Mice e os monitores estavam se virando pra ficarem perfeitos para a noite. No dia onze aconteceria a formatura dos monitores e no dia dezoito, a dos alunos. Um clima de nostalgia misturado com ansiedade. O campus estava todo decorado com luzes penduradas entre as árvores.
Nesses três anos muitas coisas aconteceram. null e null finalmente ficaram juntos, eles ainda brigavam, mas por algumas horas apenas. Agora nada mais os separava e eles haviam ficado noivos com a maior aprovação do pai de null. A mansão de família iria ser vendida e os pombinhos iriam morar em uma mansão recém construída em um condomínio de luxo. null fez questão que o pai morasse com eles, a mansão teria três andares e o segundo andar seria apenas para o casal.
null e null iriam para a mesma faculdade e o namoro dos dois era muito sólido. null pretendia pedir null em casamento após eles concluírem seus cursos e ela queria ter três filhos. null iria cursar Psicologia e o namorado faria Engenharia Química.
null, depois de muita briga, resolveu se firmar e começou a namorar Bruno, ex-namorado de null, que, quando soube, ficou muito feliz. Assim os dois iriam parar de azucrinar a vida dela com o null. Mas null foi embora da Mice e foi estudar em um colégio na Escócia, onde comprou um apartamento com o Bruno. Os dois se viam aos finais do dia e aos finais de semana pegavam o carro e saiam pra conhecer as cidades vizinhas. null ficou realmente muito feliz por eles. Os outros monitores estavam seguindo suas vidas; Pedro iria cursar Medicina em Oxford e Melinda iria viajar para a África do Sul em um trabalho voluntário de um ano.
- Está quase na hora – Alyssa disse. – Venham garotas!
Elas estavam lindas em seus vestidos de gala. Elas combinaram de não usar as mesmas cores, então null usava um vestido lilás, null estava esbelta em um vestido branco de renda, Melinda optou pelo laranja e Alyssa usava um Valentino preto. Todas as monitoras ficaram prontas e se uniram em uma roda.
- Temos que prometer não chorar, mas acho que vai ser meio difícil – null disse sorrindo amarelo e já quase chorando.
- Eu não quero acabar com tudo isso, eu não quero ir embora da minha cabana. Foi aqui que vivi os melhores momentos da minha vida e conheci pessoas que a mudaram de forma irreversível. – null chorava silenciosamente enquanto falava.
- Eu não quero esquecer o que passei aqui, conheci o meu grande amor e minha melhor amiga. Aqui a minha vida mudou por completo – null disse sorrindo e ao mesmo tempo chorando, null a abraçou e elas voltaram para a roda.
- Aqui eu pude ser eu mesma e conheci a minha melhor amiga também – Melinda olhou para Alyssa e elas sorriram cúmplices. – A Mice me ensinou a amar e me fez livre de tudo o que eu achava que era responsável.
- Eu não queria ir embora daqui e deixar tudo isso pra trás, não sei como será o meu futuro, mas a Mice fez do meu passado o mais bem vivido. Fui muito feliz aqui – Alyssa disse chorando.
- Somos umas bobonas! – null disse chorando e elas se abraçaram eternizando aquele momento. – Mas temos que prometer uma coisa.
- E o que é? – Alyssa perguntou.
- Que nós não vamos perder o contato.
- Combinado – as quatro colocaram as mãos no meio da roda, uma em cima da outra, e depois jogaram as mãos para cima. Como um grito de guerra.
xxxx
- null! – A Diretora chamou e ele foi receber seu diploma. Os monitores estavam sentados em um conjunto de cadeiras sobre o palco. A platéia aplaudia e a turma que null monitorou gritava animada do fundo do salão. E foi assim até que todos os monitores foram chamados. As garotas não paravam de derramar lágrimas. – Agora chamo aqui a nossa oradora: null null. – null se levantou e foi até o púlpito. Ela respirava pesadamente por causa do nervosismo.
- Boa noite. No dia 03 de fevereiro de 2008 eu entrei pela primeira vez na Mice e desde aquele dia eu soube que a minha vida mudaria. E mudou. Aqui conheci meus melhores amigos e companheiros pra vida toda, aqui conheci meus grandes mestres que me ensinaram a lidar com a vida, aqui conheci meu lar e minha história e, por fim, aqui eu conheci meu grande amor. Dá vontade de nunca mais sair desse lugar, porque aqui eu vivi os melhores anos da minha vida e que com certeza as compartilho com meus colegas. – null respirou fundo antes de continuar. A platéia escutava calada a tudo o que ela dizia. Não havia nada mais naquele salão além do silêncio. - Quero agradecer a cada um de vocês e às pessoas que contribuíram nessa caminhada, nossos pais, nossos, irmãos, nossa família, nossos professores e nossos amigos. Obrigada por cada abraço de consolo ao final do semestre, obrigada por cada palavra de apoio a cada fraquejar que enfrentávamos. Monitores, amigos, companheiros, essa mensagem é pra vocês e quero que a escutem com o coração aberto:
Desejo que você não tenha medo da vida, tenha medo de não vivê-la.
Não há céu sem tempestades, nem caminhos sem acidentes.
Só é digno do pódio quem usa as derrotas para alcançá-lo.
Só é digno da sabedoria quem usa as lágrimas para irrigá-la.
Os frágeis usam a força; os fortes, a inteligência.
Seja um sonhador, mas una seus sonhos com disciplina,
pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas.
Seja um debatedor de idéias. Lute pelo que você ama.
Augusto Cury
A platéia bateu palmas de pé e null voltou para o seu lugar. Depois do fechamento da cerimônia, a música final começou a tocar e os monitores jogaram seus capelos para o alto, correndo para abraçar uns aos outros.
- Acabou? – null sussurrou para null que a abraçava pela cintura.
- Acho que sim – ele sorriu amarelo e ela enfiou o rosto na curva de seu pescoço chorando. – Gordinha, pensa pelo lado bom, a gente vai casar e vai ser muito feliz.
- Vai, não é? – Ela o olhou com os olhos vermelhos e ele concordou, beijando a testa da garota.
Por mais que null o amasse, ela estava com medo de todas essas mudanças que iriam acontecer em sua vida. A casa em que ela cresceu seria vendida e ela teria que dividir a vida com outra pessoa, mesmo sendo null, ela estava com medo. Mas naquele momento ela só queria aproveitar a festa.
xxxx
A mansão estava linda e os convidados começavam a chegar. Os monitores resolveram usar o imenso jardim da mansão de null para fazer a festa de formatura. Tudo estava maravilhoso. Duzentas mesas, cobertas com toalhas brancas e velas no centro, lotavam um canto do jardim que foi podado especialmente para aquele dia. Havia uma pista de dança com uma estrutura de metal que suportava as luzes e os efeitos. Além disso, havia um palco mais afastado onde uma banda tocaria música ao vivo durante algumas horas.
Os monitores chegaram e encontraram suas famílias e amigos sentados conversando. As risadas e conversas eram escutadas de qualquer lugar. A entrada principal já havia sido servida e a carta de vinhos já estava rolando pelas mesas. Os garçons estavam atordoados com tantas pessoas, mas tudo transcorria em sua máxima naturalidade.
- null! – null cumprimentou enquanto a null descia as escadas da varanda para abraçá-la. Antes de null ir morar com Bruno, as duas tiveram uma conversa longa e se entenderam. Elas agora eram boas amigas, com suas recordações ruins, mas se davam bem.
- null! A festa está linda.
- Obrigada, ficamos meses organizando e discutindo o que faríamos. Nunca imaginei que a festa seria aqui.
- Está realmente muito bonita! – null disse e null sorriu. – E o null? – null sentiu um embrulho tomar o seu estomago com aquela simples pergunta e se lembrou do que já havia acontecido entre ela e null. Ela não conseguiu disfarçar a feição de espanto e hesitou. – Desculpe pela pergunta, mas eu achei que já houvéssemos superado essa fase.
- Eu acho que sim – null disse incerta -, mas eu ainda tranco quando o assunto é ele.
- Falando nele – null disse e null sentiu null atrás de si. Ela sabia que ele tinha escutado. – Olá null, como vai?
- Vou bem e você? Bom te ver! – Ele disse sincero, abraçando null, e depois voltou para abraçar null de lado.
- Então, já demorei demais aqui e vou lá abraçar minhas queridas amigas monitoras. Faz muito tempo que não as vejo! – null disse, saindo da visão do casal.
- Eu sei que você escutou, não fica bravo comigo, amor – null disse, virando para olhá-lo, e ele a encarou sorridente.
- Eu entendo que você esteja com medo. Mesmo. Porque eu também estou.
- Está? – null perguntou espantada com a resposta e sorriu.
- Vamos jantar? – Ele perguntou, selando seus lábios aos dela.
N/A: Muito lúdico esse meu capitulo, não? Ahahah Entendam-me, essa é uma fase decisiva de Say When e antes que vocês comecem a desistir de ler, saibam que não está no fim. Na verdade, é agora que começa a parte boa. Então não se desesperem que eu vou começar a enviar capítulos regularmente, tipo uns dois por semana. Obrigada pelo carinho nos comentários e no twitter! E muito, mas muito obrigada a Sarah, minha beta linda que me agüenta everyday. Tweet me!! @alanabochenek