Eu conheci há um ano e meio atrás, em um dos melhores hospitais de Londres. Ela estava nervosa, isso era possível perceber de longe, não tomei coragem de falar com ela no primeiro dia que a notei, mas depois de semanas indo ao hospital e vendo-a lá resolvi puxar uma conversa. Ela se mostrou apreensiva de começo mas aos poucos foi se soltando e a conversa foi fluindo naturalmente, demorei muito tempo para descobrir o motivo da sua frequencia naquele lugar. Ela tinha um tipo leve de paralisia cerebral, que é devido ao um trauma no dia de seu parto, mas por sorte não a afetou de forma tão drástica, mas claro, existiam riscos de uma amnésia retrógrada.
Não pensei que isso me afetaria tanto, éramos apenas colegas que se encontravam por causa de compromissos em comuns. Apesar de morarmos próximos, durante 4 meses, não trocamos visitas. Era apenas ali, naquele local com mais cores pálidas que o normal e com cheiro de naftalina, que construímos uma amizade que mais tarde se transformaria em algo muito maior.
Os riscos, o futuro... Não importavam naqueles momentos.
Capítulo 1 Junho de 2011
- , o táxi já chegou - gritou .
- Já estou indo, mãe - respondeu, descendo as escadas já atrasado. Mandou um beijo no ar para sua mãe e saiu porta afora.
Não era mais obrigação ir ao hospital, ele poderia ficar em casa curtindo sua tarde, mas ele ia ver Helena, o tratamento dela só acabaria na semana que vem. Não que ela soubesse que o motivo dele estar ali era ela, mas não era um segredo que Jeremy guardava, ele só omitia. Não se conheciam nem há dois meses, ele não queria que ela pensasse que tinha um maníaco atrás dela.
Entrou no táxi e nem precisou passar o endereço, até aquele senhor que ele não sabia nem ao menos o nome, sabia qual era o caminho que seguia todas as tardes.
Pagou o senhor e agradeceu, mal tinha a visto e já estava sorrindo. Até se sentia culpado por estar feliz em um lugar tão deprimente.
- - gritou assim que o viu virando o final do corredor em encontro a ela. Sem conseguir reprimir a felicidade ela apressou o passo, quase correndo, e assim que estavam próximos o bastante, ela o abraçou. Era a primeira vez que se abraçavam e se cumprimentavam de forma tão calorosa, geralmente se reprimia a um "oi" ou um sorriso. percebeu isso, mas não comentou. - Você não vai acreditar - Falou se separando do rapaz. Ele jurou ter visto as bochechas da menina corar ao perceber o quão desesperada ela pareceu. - Adiantaram o final do meu tratamento, só precisarei vir aqui amanhã para a última semana. - Disse e os dois voltaram andando a recepção, onde a mãe da garota se encontrava. - E você? - perguntou.
- Bem - começou se sentindo envergonhado por ter que mentir. - Vim hoje acertar as coisas, acho que me liberam hoje. - Acabou e se sentou nas cadeiras para esperar ser chamada. Ela respondeu um "Que bom" animado e ficou em pé, parada olhando para a paisagem que as paredes de vidro proporcionavam.
- - Chamou a secretária e as duas se levantaram para ir a consulta.
- Tchau - Disse sorrindo. O próprio manteve só um sorriso e um aceno.
Logo que a porta foi fechada ele se levantou, já poderia ir para casa. Ele nunca a esperava sair do consultório, achava melhor assim. Mal ele sabia que todos os dias saía do consultório procurando aquele sorriso entre os milhares de rostos desconhecidos. Bom, todos os dias era uma total desilusão, ele já não estava mais ali.
Chegou em casa e foi tomar um banho, era uma quinta-feira, a semana já estava acabando. Ano passado esse era o dia da organização, resolviam para onde sairiam no final de semana, sua cabeça ia dormir a mil por hora.
Mas agora as coisas não eram mais assim, ele tinha perdido o contato com seus amigos no final do colegial e além do mais, ele não tinha o pique de antes.
Desceu para jantar e comentou por cima que amanhã acabaria as sessões de , sua mãe disse alguma coisas, mas 30 segundos depois, ele mal se lembrava, seus pensamentos iam longe.
- Você se vira sozinho? - perguntou, mas seu filho nem prestava atenção. Ele forçou a mente para tentar se lembrar qual era o assunto, mas nada.
- Como, mãe? - perguntou e sua mãe bufou revirando os olhos, odiava os devaneios de seu filho.
- Vou viajar, sua tia me pediu para ajudar a cuidar das filhas dela, já que seu marido foi internado com infecção e ela passa praticamente 24h ao lado dele.
- Claro - respondeu e levantou-se para colocar o prato na pia, sua mãe já tinha acabado então recolheu o dela também e foi lavar enquanto ela acabava de retirar as outras coisas da mesa.
- Vou dormir, vê se não demora - Ela falou e foi dar um beijo de boa noite em seu filho como de costume e subiu para seu quarto.
logo finalizou e foi para a sala assistir algum programa.
Passou por todos os canais, parava em alguns mas nada muito interessante para prender sua atenção. Cansado da total monotonia, se deu por vencido e foi dormir.
acordou mas não estava se sentindo muito bem, a vontade de ficar na cama e não levantar de lá tão cedo era grande. Tomou o seu banho como de costume e desceu para tomar café com sua mãe.
- Quando você vai viajar? - Perguntou sentando-se.
- Amanhã pela tarde, não consegui marcar para hoje. - Respondeu, e logo o silêncio se instalou na casa pelo resto da manhã.
Ele resolveu subir e procurar na internet algumas faculdades. Estava tentando adiar aquilo, mas não tinha motivos. Nunca gostou muito de estudar, mas não poderia ficar as custas de sua mãe para sempre.
Depois de mais ou menos duas horas procurando e anotando informações necessárias, resolveu deitar, o almoço ainda não estava pronto.
Acordou um tempo depois assustado e sentindo frio. Achou esquisito, mas mal pode pensar sobre isso, o relógio indicava que já passava das 14 horas.
Desceu apressado, .
Uns 20 minutos depois Helena saiu do consultório cabisbaixa, o rapaz não tinha estado ali mais cedo, alimentara esperanças à toa, ele não ia ali para vê-la, ela era só uma consequência. O pensamento logo foi deixado de lado assim que o viu levantando e indo em direção a ela.
Ela o abraçou novamente, como no dia anterior, estava ficando mais boba do que o necessário.
- Pensei que não viria - Falou assim que se separaram. Sua mãe que estava atrás dela logo saiu, querendo dar mais espaço para conversarem.
- Eu só me atrasei - Respondeu sorrindo para a garota a sua frente, sem conseguir conter a felicidade que era vê-la.
Conversaram por algum tempo enquanto a Sra. resolvia as coisas na recepção. Logo que acabou acenou para a filha querendo mostrar que já estava na hora de ir.
- Nos vemos por ai? - Perguntou esperançosa.
- Claro, eu poderia ir te visitar - Respondeu - Se você quiser - Completou.
- Quero sim, você pode ir lá amanhã. Podemos combinar de ir na sorveteria, ou alguma coisa. - Falou sentindo-se envergonhada pelo convite.
- Com certeza - Concordou e abraçou , que logo saiu a encontro de sua mãe, sorrindo mais abertamente ainda com a idéia de um reencontro.
A dor atingiu em força assim que entrou no táxi, agradeceu mentalmente por estar sentado, senão era capaz de ter caído.
O caminho pareceu mais longo do que o normal, sentiu-se quente e com o corpo mole, sem acreditar que conseguiria sair do carro. As imagens rodavam em sua cabeça e não se lembrava a última vez que se sentiu daquele jeito. Talvez nunca tivesse ficado naquela situação alguma vez.
Pagou o senhor e sussurrou um fraco "pode ficar com o troco" e saiu as pressas.
Não se lembra muito bem como conseguiu abrir as portas e muito menos como conseguiu subir as escadas.
Só se lembrava de ter desfalecido em sua cama e tudo ter ficado escuro.
, por favor.
...
Acorda , não faça isso comigo.
Por favor, mande uma ambulância.
Por favor.
Abra os olhos
Não me deixe.
1. Amnésia retrógrada: A pessoa consegue recordar-se dos eventos que ocorreram após o trauma, mas não consegue lembrar-se de eventos que lhe eram familiares antes do trauma ocorrer.
não apareceu no outro dia, nem no outro, muito menos na outra semana, ou mês.
já tinha desistido. Ela tinha aguardado ansiosamente o sábado inteiro, mas ele não deu notícias.
No outro dia acordou com o pensamento de que ele apareceria lá com uma boa desculpa, mas nada disso aconteceu.
Esperou a semana inteira, e depois o outro final de semana. Até chegou a passar no hospital para ver se ele estava lá, mas ele não estava.
Ela tinha medo de perguntar para a mãe sobre ele, e no final de tudo, ele ser só uma invenção de sua cabeça. Mas isso seria possível? Ela estava ficando louca?
Achou melhor deixar as perguntas de lado.
A verdade era que tudo era drama demais da parte dela, sem perceber depositou todas as esperanças em um cara que ela só sabia o nome.
Que patético, ela nem sabia o motivo de ele estar lá durante todo esse tempo. Era bom demais para ser verdade.
Pensou que teria uma vida social depois que acabasse o tratamento, pensou que todo aquele sentimento que ela tinha dentro dela seria correspondido por ele. Ela estava apaixonada, e só depois de ele ter sumido ela percebeu isso.
Ele e todo aquele sentimento só poderiam ser um efeito colateral. Era a única explicação.
Resolveu dar atenção ao que sua mãe falava, mas era tarde demais, ela já tinha fechado a porta e saído.
Abriu e fechou a geladeira umas 15 vezes, desligou e ligou a TV umas trinta. Até resolveu ir fazer os deveres de casa, mas só quando já tinha chegado ao quarta ela lembrou que não estudava mais. Deu um tapa em sua própria testa pela total desatenção de sua parte. Pegou seus fones de ouvido e deitou para dormir, era o melhor a se fazer.
Acordou com a companhia tocando. Não era sua mãe, ela tinha a chave de casa.
Desceu apressada e com um certo pavor, quem seria? Ela e sua mãe não recebiam visitas. Olhou pela parte de vidro da porta e logo viu uma emburrada do outro lado.
- O que você faz por aqui? - Foi a primeira coisa que se passou pela cabeça.
- Estou sem paciência. - Respondeu entrando e ignorando a pergunta feita por . Sentou no sofá e ficou encarando a tv que estava desligada. Nenhuma palavra foi dita por quase um minuto, então Helena pigarreou para ver se a "intrusa" lhe explicava o motivo da aparição.
- Você não responde meus e-mails, meus telefonemas, minhas mensagens. Você sumiu, fiquei preocupada - falou se levantando para ir abraçar a amiga.
- Eu não entro no computador há séculos, e meu celular está jogado em algum lugar da casa, nunca foi muito utilitário para mim. - Respondeu dando ombros.
- Isso não é um bom motivo. Eu demorei um certo tempo para tomar coragem de pegar o carro escondido da minha avó e viajar mais de uma hora, e ainda por cima, correndo o risco de ninguém estar em casa.
- Você falou que me avisaria quando viesse para a cidade. Já que passaria um bom tempo no interior. - Retrucou , indo se sentar e puxando a amiga.
- E eu avisei! - exclamou. - Milhares de mensagens e chamadas não foram atoas.
- Desculpe - finalizou o assunto dando por vencida. - Que tal colocarmos as fofocas em dia? - Perguntou, percebendo que a amiga estava cabisbaixa e aquilo com certeza melhoraria o seu humor.
Depois de muito tempo conversando resolveram sair e ir no parque passear. deixou um bilhete avisando para sua mãe que com certeza ficaria preocupada se não a encontrasse em casa. Sem antes, claro, a arrastar para o andar de cima e ressuscitar o celular.
Foram andando, o clima era ótimo, nem muito frio e nem muito calor, perfeito para uma caminhada.
não era muito fã de parque de diversões e mesmo se gostasse, aquele momento não era muito bom, se sentia para baixo, queria ficar deitada e quieta.
Chegaram e foram direto comprar um algodão-doce, resolveram que apenas andariam mais um pouco e mais tarde voltariam para casa.
Mas o que viu com certeza acabou com o pouco de humor que ela tinha.
passou pelo portão do parque e entrou em um carro falando e rindo ao telefone.
Depois de dois meses ele estava ali, na frente dela, ele não era uma ilusão de sua cabeça, se sentiu feliz por isso, mas triste também, porque o que quer que seja, ele não tinha a procurado por vontade própria.
- - chamou carinhosamente . - Vamos embora, por favor!
- Você é chata, não faz nem uma hora que chegamos. - Reclamou - Mas fazer o que.
não viu mais o carro, não que estivesse preocupada com isso, mas ela se sentia pior agora, tinha recebido um balde de água fria, porque por mais remota que fosse a possibilidade, alguma coisa poderia o estar impedindo de vê-la. Mas não foi isso que pareceu.
- Dorme aqui em casa - Pediu pela décima vez.
- Não posso , tenho que voltar.
A verdade é que ela não se importava muito com a decisão de , mas não queria se sentir abandonada novamente, já passava das 19 horas e sua mãe ainda não tinha chegado.
Depois da despedida, entrou. Iria ligar para sua mãe, estava ficando preocupada. Mas assim que viu o calendário na parede da cozinha se lembrou. Fazia 12 anos hoje, doze anos que ele tinha partido, ela tinha esquecido completamente, como pôde? Sentiu-se suja, havia prometido a si mesma que nunca o deixaria partir, e era exatamente isso que ela tinha feito. Ela não se lembrou, não chorou, não se lamentou. Mas a dor que sentia agora era insuportável, a dor da traição, do esquecimento.
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Flashback on - 11 anos atrás
- , venha aqui agora - Meu pai gritou novamente, eu estava enrolando para ir tomar banho, mas apesar disso ele não estava com raiva, um sorriso escapava por seus lábios toda vez que passava por ele com minha roupa do batman fingindo que voava. - Última chamada ! - Alertou.
- Ah não, o Robin vai me pegar! - Gritei e saí correndo e esbarrei na minha mãe que estava vindo da cozinha com um bolo.
- Não é Robin, Batgirl burrinha, é coringa! - Me corrigiu e veio me seguindo.
- Ih, esqueci! - Falei rindo da minha própria confusão sem parar de correr pela cozinha. Depois de uma correria lá e cá meu pai me pegou e foi me arrastando até o banheiro me fazendo cosquinhas.
- Vem aqui mãe ver o que a está fazendo. - Chamou minha mãe e começou a bater a mão na água molhando o banheiro todo.
- Crianças! - Exclamou desesperada, mas logo depois entrou no meio da bagunça.
Flashback of.
Achava incrível tudo isso, os dias eram sempre recheados de risadas e bagunça, minha mãe chamando eu meu pai de criança e ele chamando ela de mãe. Mas realmente era o que parecia, ele sempre se juntava para fazer bagunça, e ela sempre preocupada com o que fazíamos.
Sempre pensei que aquele seria o meu final feliz, eu e meus pais, mas tudo foi arrancado de mim de uma hora para outra, em um dia ele estava pulando nos sofás comigo e no outro ele estava desfalecido em uma cama qualquer de um hospital.
Flashback on - 10 anos atrás
Não estava entendendo nada, não tinha nem cinco minutos que mamãe tinha atendido o telefone e já estávamos no carro indo para algum lugar, eu estava de pijama pronta para dormir, fui arrastada para o carro do mesmo jeito. Ela estava desesperada, sussurrando coisas sem sentido algum, duvidada que ela realmente sabia o que estava fazendo. Sem perceber eu já estava chorando, não sabia o que tinha acontecido, mas o desespero ali me fazia chorar por conta própria.
Adentramos o local e logo barraram minha mãe, uma enfermeira segurou minha mãe e a levou para sentar em um banco e um senhor fez o mesmo comigo.
- Eu quero ver ele, eu quero ver ele, por favor, por favor - Implorava minha mãe apertando a mão da enfermeira. Eu comecei a soluçar sem saber o que fazer, meu coração doía de uma forma que eu não sabia que era possível.
- Pegue um copo de água para a senhora . - Pediu o doutor que me acolhia para uma outra enfermeira que passava por ali.
- O que está acontecendo? - perguntei para o senhor apertando sua mão mais forte por medo da resposta. Ele hesitou, parecia que iria me responder, mas logo desistiu.
- Que tal você ficar com essa minha amiga aqui enquanto eu levo sua mamãe para se acalmar? - perguntou carinhosamente. Concordei e logo a enfermeira que estava com a minha mãe veio se sentar ao meu lado.
- Estou com sede - disse para a enfermeira, mas era mentira, na verdade eu queria ficar sozinha.
Levantei da cadeira assim que a enfermeira me virou as costas e fui andando pelo corredor por onde minha mãe tinha entrado com o doutor.
Havia várias portas brancas, todas elas entreabertas por causa do grande fluxo de médicos que entravam e saíam das salas de pacientes.
Continuei andando e logo encontrei onde meu pai estava, era ele o motivo de toda aquela confusão, no fundo eu já imaginava que era isso, eu só não queria abrir os olhos e ver a realidade. Realidade esta que despencou sobre mim assim que fixei o olhar sobre ele, a palidez e os vários fios que o ligava a máquina deixava bem claro que a situação não era fácil. Havia cortes em sua face, queimaduras pelo braço direito e o esquerdo engessado.
- Papai - Falei assim que o vi e fui abraçá-lo, mas a posição em que estávamos não me deixava fazer a tarefa direito.
- Oi, Batgirl – respondeu, com a voz fraca.
- O que você tem, papai? - Perguntei, sentindo um bolo formar em minha garganta, mal conseguia respirar.
- Papai está mal, não é um bom momento. - Respondeu acariciando minha bochecha.
- Você vai melhorar? - Segurei sua mão.
- Talvez não, , mas você vai ficar bem com a sua mãe, ela vai cuidar direitinho de você. - passei a mão por seu rosto limpando as lágrimas do choro que tinha acabado de se iniciar. - Me desculpe .
- Pelo que papai?
- Por não poder te ver crescer, por não estar mais com você, por não poder te dar almoço e levá-la para a escola e falar que tudo ficará bem quando você reclamar que está com medo - Parou e me deu um beijo no rosto - Me desculpe por não estar lá quando for apresentar o seu namorado e lhe dizer se ele é um bom partido, mas eu sei que você vai escolher alguém que nem o papaizão aqui! - riu fraco, mas logo parou e seu olhar voltou a ser sério e emotivo - ou por não poder te dar mais o beijo de boa noite, ou cantar e contar histórias. Me desculpe por não ser eu que vai te acompanhar até o altar e chamar seus filhos de netos e ensinar a eles tudo sobre super heróis. Me desculpe por, infelizmente, não poder participar mais da sua vida daqui para frente. Eu sentirei muito sua falta, do seu sorriso, da sua gargalhada, dos seus pequenos olhinhos brilhando, do seu abraço toda vez que chegava do trabalho, que era a minha parte preferida do dia - Finalizou.
Meu mundo estava despencando, metade de mim poderia ser perdida e nunca mais recuperada. Meu choro se tornou alto descompassado, estava tudo arruinado.
- Eu te amo pai, mais do que tudo, tudo, tudo.
- Eu também, para sempre minha Batgirl.
- E você para sempre meu Robin do mal - Respondi e o abracei mais uma vez.
- É Corin... Tudo bem, seu Robin.
- Me promete que vai tentar melhorar? - Perguntei. Esperança de mais.
- Vou tentar o máximo que puder. - Respondeu fechando os olhos e sussurrou outro "eu te amo".
Mas ele não melhorou, ele sequer tinha aberto os olhos mais uma vez, era a última vez, não haveria mais momentos felizes ao seu lado.
flashback off.
A cicatriz não havia fechado, ela estava ali. A dor não estava passando com o tempo, ela só piorava. Eu mal me lembrava mais de seu rosto, do timbre da sua voz e do som da sua gargalhada, seu rosto já não era vivo com eu sempre me lembrava, ele tinha falhas, brancos, eu não me recordava mais. Eu estava o apagando da memória e não lembrar dele era o maior dos pecados que eu poderia cometer.
Capítulo 3
estava exausto, tinha chegado da casa de sua tia no dia anterior pelo final da tarde, tinha adiado a viagem há dois meses, e por fim, resolveu levar seu filho consigo.
Ele, com certeza não tinha gostado muito da notícia, mas era perca de tempo discutir com sua mãe.
Acordou tarde, e por este motivo nem tomou café da manhã, tomou um banho e ajeitou as malas, e quando viu a hora, percebeu que já deveria ter decido para almoçar.
Acabou de almoçar e decidiu fazer o que já estava pensando desde o dia em que partiu: faria uma visita.
Foi caminhando até o final da quadra de onde morava a garota, pensando no que falaria.
Teria que ser algo realmente bom, ou um pedido de desculpas, ou um "Prazer, eu sou o , você se lembra de mim?".
Não conseguia saber qual era pior.
Respirou fundo, deu três toques na porta e aguardou, logo a Sra. o atendeu.
- Boa tarde Sra. , sua filha está em casa? - perguntou, tentando definir o tom da voz, que saia trêmulo, e tinha razão para isso, a feição da mulher para ele mostrava perfeitamente que ela não estava de acordo com aquela visita inesperada.
- Vou chamá-la, um minuto. – Respondeu e encostou a porta, chamando a filha logo em seguida.
fixou o olhar em seus tênis, sem saber como reagir quando a visse, ou como reagir se ela se negasse a falar com ele.
- Você está alguns minutos atrasado. – Falou assim que abriu a porta, com um sorriso fechado que se contradizia todo com a feição que ela tinha, uma das sobrancelhas levantadas em sinal de "desafio". Talvez fosse melhor correr, pensou .
- Um pouco, me desculpe por isso. – Disse, realmente arrependido. – Talvez eu possa te recompensar com alguma coisa. – Sorriu.
- Pagar um sorvete bem grande para mim parece uma boa ideia. – Respondeu, e fechou a porta atrás de si. – E assim, acho que mereço alguma explicação, ao menos um "Eu não estava afim".
puxou-a pelo braço, descendo os três degraus da entrada da casa.
- Bem, com certeza essa não será minha explicação. – Ele respondeu, e ela sorriu. E sem nem reparar, ele a acompanhou só pelo motivo dela estar ali com ele.
~~*~~
- Eu tenho que ir para casa agora, . - disse, assim que conseguiu conter as gargalhadas que ele a tinha causado.
- Eu te levo. – Respondeu, e os dois se levantaram do banco em que estavam na praça há mais de uma hora. Por acaso, hora magnífica essa em que ficaram conversando e falando bobagens um para o outro. não via a hora de ter outro encontro desses, só desejava que não demorasse mais dois meses. Foram andando até a casa da garota, algumas palavras foram trocadas, mas nada relevante.
- Nos vemos depois, então. – falou, assim que pararam na frente de casa.
- Prometo não demorar dois meses. – Ele disse, e ela se limitou a apenas rir, não sabia muito bem o que fazer na hora de se despedir, ainda mais se fosse um garoto. E igualmente, então resolveu segurar a mão dela, mas não tinha certeza se era uma decisão sábia. – Eu poderia passar aqui amanhã cedo para decidirmos alguma coisa.
- Um encontro para marcar um encontro? Muito ilógico isso. – Riu, e agora a situação piorara, não conseguia decidir entre soltar sua mão da dele ou deixar aquele conforto momentâneo.
- Nunca falei que eu agisse pela lógica. - Retrucou calmamente, agora olhando para o céu - Vai chover. – Concluiu, e voltou a fitar . A mesma agora fitava os pés, e balançava o corpo em um vai-e-vem contínuo. achou extremamente fofo da parte dela, como um tique nervoso.
Pingos de chuva começaram a cair, a garota sorriu lembrando do que ele tinha acabado de falar, e ele apenas a olhou sorrindo convencido.
- , entre. – Gritou a mãe da menina, provavelmente na cozinha, arrumando o café da tarde, porém era inútil. Além do sorvete que tomara, ainda tinha o frio no estômago causado pelo garoto a sua frente. Seria impossível pensar em comida, ou em qualquer outra coisa que não fosse ele.
- Estou indo. – Alarmou, subindo os três pequenos degraus que os separaram, estavam próximos o suficiente. pensou uma, duas, três vezes, e então preferiu não arriscar. Beijou a bochecha dela, que adquiriu um tom rosado no mesmo segundo, e foi para casa, sem esperar por alguma resposta ou um aceno. Preferia assim.
~*~
chegou em casa pensando no ocorrido, assim que tinha dado um passo no sentido contrário de , arrependeu-se, pelo simples motivo de que deveria ter feito algo mais, ter tido mais coragem de enfrentar seus medos, e também os dela.
Se fosse possível, faria qualquer coisa por aquela garota. Ela invadia seus pensamentos e modificava suas ações, e ele não suportava mais toda essa submissão que tinha a ela.
Deitou e enrolou-se em suas cobertas perfeitamente dobradas por sua mãe, e postas ali há poucos minutos, quando foi dormir.
Sem sono algum, ele pegou um livro qualquer para ler, algum que ele já tinha desistido de ler anteriormente, e logo fez o mesmo, deixando-o de lado e fechando seus olhos para uma noite de sono.
acordou naquela manhã com sua mãe batendo em sua porta, chamando-o para tomar café com ela, que já estava arrumada para ir trabalhar naquele último dia da semana.
Sentia-se cansado, e teve vontade de ficar na cama, mas sua mãe não dava trégua, e logo voltou a bater na porta.
Levantou-se, bufando por sua mãe ser tão insistente e não deixá-lo em paz.
- Você tem alguma coisa programada para hoje? - Ouviu sua mãe perguntar, e ele logo balançou a cabeça negativamente.
- Hm, a noite eu estava pensando em irmos a um restaurante. O que você acha?
- Acredito que seja uma boa ideia, mãe. – Afirmou. - Vou passar agora na casa da , tudo bem? – Comunicou, levantando-se da cadeira e ajeitando a roupa. Sua mãe copiou o movimento, e sorriu, eles eram idênticos.
- Quer uma carona, ?
- Eu vou andando, obrigado. – Respondeu, deu um beijo na bochecha de sua mãe e saiu de casa.
Andou lentamente até a casa de , não porque queria adiar o momento, muito pelo contrário, a ansiedade de vê-la era grande, apesar de não fazer muito tempo desde a última vez.
Apertou a companhia e esperou pacientemente, poucos segundos depois, abriu a porta sorrindo. Estava vestindo um shorts jeans desfiado e uma blusa de alguma banda que ele não reconheceu no momento. O rosto e os cabelos não deixavam a dúvida que, apesar de devidamente vestida, não tinha muito tempo que havia acordado.
- Veio cedo! - Concluiu a garota, fechando a porta atrás de si.
- Pensei em irmos dar uma volta pelo bairro, para espairecer. – Explicou , puxando a menina pelo pulso, fazendo-a descer os degraus.
- Acho uma ótima ideia. - Sorriu , e entrelaçou os seus dedos com os dele.
Foram andando por algumas ruas até chegarem em uma meio deserta, afastada das casas e condomínios. Apenas uma ou outra se encontrava ali.
Apesar das perguntas frequentes de , querendo saber onde ele a estava levando, nada foi pronunciado da parte dele.
entrou por uma pequena trilha no meio de várias árvores, e em menos de dois minutos chegaram ao local.
Tinha um extenso gramado, que acabava quando alguns prédios apareciam. De lá, os arranha-céus eram do tamanho de um poste qualquer da cidade.
Dispensaram um banco que tinha, e sentaram em uma pequena ponte construída há muito tempo, que se localizava em cima de um lago, também não muito grande.
Ficaram algumas horas ali conversando, o tempo estava aberto, mas nada que os atrapalhassem. Quando deu a hora do almoço, comentou que precisava ir embora, e eles levantaram e foram caminhando de volta.
Assim que chegaram, parou em frente aos degraus, e os subiu, ficando depois de frente para ele. Como tinha acontecido nos dias anteriores.
ficou encarando-a, e ela baixou o rosto quando sentiu suas bochechas arderem, sentia-se envergonhada quando qualquer pessoa fixasse o olhar sobre ela por mais tempo que o comum. Logo ele desviou o olhar.
pigarreou assim que percebeu que , que estava com os olhos perdidos no céu, tinha a atenção em outro lugar.
A atenção não estava muito longe dali, especificamente, estava no que iria acontecer alguns segundos depois. Ele tinha calculado cada movimento e reação, saberia como reagir. Menos se recebesse um "não", porque mesmo que tivesse pensado nisso, nunca estaria devidamente preparado.
Ele subiu os degraus, e deu meio passo para trás, apenas para dar espaço para que ficassem de frente um para o outro.
passou seus dedos frios por uma das maçãs do rosto de , logo descendo, tocou a boca dela e a desenhou com a ponta do dedo. tremia, e sua boca se entreabriu por vontade própria. Ele olhou em seus olhos, vendo aquele misto de cores e sentimentos, profundos e rasos, e a olhou cada vez mais perto, e agora bastava fechar os olhos para desfazer todo o contato visual e começar. Os lábios encostaram-se por milésimos de segundo, os separou e voltou a fitá-la, especialmente os lábios vermelhos, por onde um ar pesado ia e vinha, e um perfume, já conhecido por ele, preenchia o ambiente. Então, sua mão procurou afogar-se nos cabelos dela, e juntou os lábios novamente, agora pronto para beijá-la.
~*~
não conseguia parar de pensar no ocorrido pela manhã, não conseguia omitir nem o fato que ficara horas com um sorriso brincando em seus lábios. A manhã tinha sido magnífica, e se pudesse voltar ao tempo, não iria tirar nem por. Ou talvez, colocaria alguns fatos a mais...
Já era hora de dormir, não que sua mãe a obrigasse a cumprir um horário, não na prática, mas a própria sentia um enorme cansaço, tanto psicológico quanto fisiológico; porém a sua mente não conseguia desligar-se. Rolou horas e horas pela cama até conseguir dormir, e quando o fez, sua mente foi invadida pela imagem dele, mais nítida do que em qualquer pensamento anterior dela.
mal acreditava que o final do mês já estava chegando. Quer dizer, tinha passado tão rápido e as coisas estavam evoluindo muito depressa, e por isso, às vezes percebia-se um pouco apreensiva quanto a isso. A felicidade tinha prazo final? Rezava que não existisse, ou que pelo menos, ainda faltasse muito para a dela acabar.
Ajeitou o vestido florido que usava e tirou o casaco que tinha posto apenas para ver como ficava e dobrou-o, aproximou-se da cama e pegou sua maxi-bolsa e colocou o casaco ali, para mais tarde, quando anoitecesse.
Respirou fundo, preparando-se psicologicamente para sair do quarto, afinal, tinha um certo medo do que poderia acontecer hoje à noite. Talvez não tenha sido uma boa ideia aceitar sair com ele.
Desceu as escadas e despediu-se de sua mãe, que estava na cozinha já começando a preparar o jantar, apesar de saber que não voltaria cedo bastante para isso. E assim que saiu de casa, como já previra, aguardava do lado de fora.
- Vamos? - Perguntou ele estendendo a mão para encontrar a de Helena. E ela, apenas sorriu de volta, concordando.
Não era surpresa aonde os dois iriam, mas a garota surpreendeu-se ao levá-la para um carro, provavelmente o de sua mãe, e os dois entraram. dispensou diálogos e perguntas sobre o carro e resolveu apenas encostar a cabeça na janela e sorrir uma vez ou outra para . O mesmo percebeu que a garota não estava muito a fim de conversar e preferiu ficar quieto.
Parou o carro e apressou-se a sair para abrir a porta para , e logo depois abriu a porta traseira para retirar o que tinha trazido para um pequeno piquenique que ele tinha organizado.
Pegou as duas cestas que tinha levado com comida e pegou a toalha, só para não sair com nada e deixá-lo levar tudo, apesar de saber que levar uma toalha não era um grande favor.
estendeu a toalha ao chão e sentou-se para retirar a comida das cestas postas imediatamente por Jeremy.
Por ser noite de Halloween e a maioria das pessoas estarem fora de casa, o local não estava vazio como geralmente, mas se restringia a apenas uns três casais e uma pequena família, dois adultos e uma criança.
olhou para a toalha, e ao ver tanta coisa posta sobre ela, tirou a conclusão de que fome eles não passariam de maneira nenhuma.
Deitou-se num pedaço da toalha que estava vazia e logo migrou para seu lado, deitando-se junto.
Ficaram observando ao redor e riram juntos ao ver um homem, que não tinham a mínima ideia da idade, por causa da iluminação fraca, rodar com uma mulher em seu colo de mais ou menos sua altura e depois caírem no chão, segundos depois um "Eu te amo" gritado provavelmente pelo rapaz, pôde ser ouvido.
- Eu morreria de vergonha se fosse ela. - comentou ainda rindo.
- E eu teria vergonha de fazer o que ele fez. As pessoas costumam julgar muito as outras por seus momentos patéticos.
- Fraco, medroso. - Acusou rindo da expressão que ele fez com o rosto.
- Eu poderia provar meu amor de várias maneiras, menos protagonizando uma cena romântica para outras pessoas. - Defendeu-se, mesmo sabendo que não se importava muito com isso.
- Todo mundo faz algo bobo e patético na vida por causa de uma outra pessoa. Até você mesmo, pode não ser hoje ou semana que vem, mas um dia você sentirá essa necessidade.
- Sou uma exceção à regra então. - afirmou deixando de olhar para o céu e virando de lado para olhar Helena.
- Eu apostaria com você, só para saber se no final de tudo vai mentir pra mim só para ganhar uma aposta.
- Então está convicta disso? - Perguntou e ela assentiu rindo novamente do rosto dele. - Então está apostado.
- E eu aposto também que se demorarmos mais para comer, meu estômago demorará mais ou menos... - parou de falar e olhou em seu relógio - Cinco minutos para roncar.
- Bom, essa eu não quero pagar para ver. - sorriu e sentou-se para comerem.
Serviu o suco, que tinha feito um pouco antes de buscar em casa, e entregou a ela o copo. Ele, logo pegou um pedaço de bolo de cenoura com chocolate e comeu, e optou por um pedaço de sanduíche natural, mas claro, não deixaria de comer um de seus bolos preferidos também.
Os dois logo acabaram de comer e resolveram ir até a beirada do lago, o sol estava se pondo e dali poderiam ter uma vista mais do que perfeita. entrelaçou os dedos com os de e ele selou os lábios dos dois rapidamente.
sentou-se em uma das caixas de som que havia por todo o gramado e ficou em pé ao seu lado.
Quando o sol estava quase sumindo no horizonte, sorriu ao ouvir o toque de uma das músicas que gostava e sorriu de volta.
agachou-se e procurou na caixa de som decorada o botão de volume para aumentar, já que mal podia-se ouvir a música. Com isso, as poucas pessoas que estavam ali por perto tiveram a atenção desviada para os dois.
tentou ignorar toda a atenção que recebia e puxou delicadamente, colocando-a em sua frente. entrelaçou sua própria mão atrás do pescoço de , e ele também fez o mesmo na cintura da garota.
Play!
She thinks I'm crazy (Ela pensa que eu sou louco) Judging by the faces that she's making (Julgando pelas expressões que ela faz) And I think she's pretty, (E eu acho ela linda) But pretty's just part of the things she does that amaze me (Beleza é só uma parte do que ela tem que me deixam fascinado) She calls me sweetheart (Ela me chama de querido) I love it when she wakes me (Eu amo quando ela espera por mim) When it stills dark (Quando ainda está escuro) And she watches the sun (E ela observa o sol) She's the only one I have my eyes on (Ela é a única que eu tenho em meus olhos)
sussurrou a primeira estrofe da música para , ele sabia que a garota adorava esta música.
Sabia que estava sendo ridículo no ponto de vista dos outros, mas também que deveria parar de se importar um pouco com isso. Mas era difícil, se havia alguma coisa que seu pai havia ensinado, era a ser machista, e com certeza não era uma coisa de que tenha se orgulhado a aprender um pouco.
You know I need you (Você sabe que eu preciso de você) Just like you need me (Apenas como você precisa de mim) Can't stop, won't stop (Não pode parar, não vai parar) I must be dreaming (Eu devo estar sonhando) Can't stop, won't stop (Não pode parar, não vai parar) I must be dreaming (Eu devo estar sonhando)
sentia-se maravilhada, agora se arrependia de cada dúvida que teve mais cedo sobre ir ali. Temia uma aproximação ainda maior com e isso estava claro, mas neste momento sentia-se mal por ter duvidado do quanto aquela noite seria perfeita ao lado dele. Ele não merecia qualquer desconfiança da parte dela, ele merecia uma garota melhor e que não o subestimasse como ela fez com ele e com todas as outras pessoas ao redor dela. Levantou o olhar para vê-lo e os brilhantes dos olhos do garoto a cercaram por um momento, e ela sentiu todos os muros que tinha construído ao longo da vida desmoronarem assim que ele sorriu.
O sol já havia sumido por completo, aos poucos as pessoas que estavam ali foram se dispersando e seguindo seus caminhos longe dali.
finalizou o beijo, virou-se e foi andando até a toalha que eles estavam mais cedo, mas parou no meio do caminho assim que percebeu que continuava parada com uma feição inexpressiva, e então ele voltou entrelaçando sua mão com a dela, e a trouxe consigo até a toalha.
Ele foi deitando e levando-a devagar para não assusta-la, não queria de forma alguma que ela tivesse a impressão que ele estava querendo apressar muito as coisas. Deitados, intensificou o beijo e ela o correspondeu no mesmo momento.
Tell me that you love me (Me diga que você me ama) And it'll be alright (E tudo ficará bem) Are you thinking of me? (Você está pensando em mim?) Just come with me tonight (Só venha para mim esta noite) You know I need you (Você sabe que eu preciso de você) Just like you need me (Apenas como você precisa de mim) Can't stop, won't stop (Não pode parar, não vai parar) I must be dreaming (Eu devo estar sonhando) Can't stop, won't stop (Não pode parar, não vai parar) I must be dreaming (Eu devo estar sonhando)
- . - cortou o beijo para falar, mas ele ao menos notou e voltou a beijá-la, mas insistiu e novamente partiu o beijo. - Eu acho melhor nós pararmos por aqui. - Completou assim que percebeu que estava lhe dando a atenção onde ela queria, em suas palavras.
- Tudo bem, . - Respondeu o garoto, sentando-se e bagunçando o cabelo, nervoso.
- Me desculpe, eu acho melhor eu ir para casa.
- Tudo bem. - Respondeu novamente agora em pé para ajeitar as coisas. também levantou-se e começou a colocar as coisas dentro da cesta.
Assim que juntaram tudo, foram encaminhando-se para o carro, sentou-se no banco do carona apenas esperando ele acabar de ajeitar as coisas na parte de trás do carro.
- Eu sinto muito. - Pronunciou a menina assim que ele sentou no carro.
- Não tem problema nenhum, . Não quero que se sinta pressionada a nada. - Falou e pela primeira vez depois que tinham partido o beijo, ele a encarou. Mas logo desviou o olhar e deu partida no carro.
Chegaram a casa da menina e desligou o carro para esperá-la sair. Pegou um pedaço de papel e uma caneta que sempre deixava na porta do carro, escreveu rapidamente e entregou para .
Antes dela sair do carro, ele a segurou para poderem se despedir melhor. A beijou, mas milésimos depois, separou novamente. Ela o encarou em dúvida, sem entender o porquê.
- Sua mãe. - explicou ainda com a boca muito próxima a dela.
bufou irritada com a cara de pau de sua mãe e bateu a porta do carro indo para casa.
Subiu direto para o seu quarto, ignorando o questionário que sua mãe insistia em fazer sempre que ela chegavam em casa. Como se ela fosse idiota de contar tudo, sabia que sua mãe não aprovava os dois juntos.
Chegando em seu quarto, deitou na cama e xingou-se mentalmente de todas as palavras que lembrou. Não perdoaria se estivesse chateado com ela, deveria ter sido mais calma e menos direta para falar com ele, ou talvez simplesmente não deveria ter dado a entender que queria aquilo.
Minutos depois, levantou-se para tomar banho e começou a retirar seu casaco e logo lembrou-se do papel que ele havia lhe entregado.
Desdobrou o papel e sentiu seu coração parar. A simples frase que ele havia escrito às pressas a fez esquecer todas as preocupações anteriores que tinha.
You're my only Sunshine.
Go on and tell him that you love me (Continue e lhe diga que você me ama) And it'll be alright (I must be dreaming) (E tudo ficará bem (eu devo estar sonhando)) Are you thinking of me? (I must be dreaming) (Você está pensando em mim? (eu devo estar sonhando)) Just come with me tonight (I must be dreaming) (Só venha para mim esta noite (eu devo estar sonhando)) She moves in closer (Ela se move perto demais) Can't stop, won't stop (Não pode parar, não vai parar) I must be dreaming (Eu devo estar sonhando)
bateu na porta mais uma vez e aguardou alguns minutos.
Já faziam dez minutos desde que chegara ali e ainda ninguém havia aberto a porta.
O rapaz sentia-se culpado, havia saído cedo de casa e não tinha ligado para para informar, não que tivesse que dizer tudo o que fazia à ela. E para piorar um pouco a situação, por cerca das 15h, ele viu duas ligações perdidas no celular, dela.
E agora ela não entendia o telefone e ninguém tinha atendido a porta ainda.
até entenderia dela ficar um pouco chateada, já que eles tinham o costume de falar um para o outro. Mas era tão imatura a este ponto?
Não queria tirar conclusões precipitadas.
O dia já não começara bem, sua mãe o cobrou atenção e fez drama que estava sendo largada de lado.
E bom, pela hora do almoço, foi em busca dos presentes de natal. Dezembro já estava quase na metade, era uma boa hora. Comprou o presente dos seus pais, da sua avó e para sua querida tia historiadora havia encomendado uma pequena escultura de Octavio Augusto. Para ele ainda não tinha acabado, mas tudo se resumia em uma caixa e doces palavras.
levantou-se da escada e seguiu seu caminho para casa e, durante ele, tentou ligar para , mas nada conseguiu.
- Mãe? - Ele perguntou assim que entrava em casa e ouviu ruídos.
- Ei, , sou eu. Cheguei mais cedo do trabalho hoje. - A mãe do rapaz informou descendo a escada caracol na lateral da sala, que dava acesso aos quartos. - O que acha da ideia de eu fazer pipoca enquanto você escolhe um filme para assistirmos? - Perguntou sorrindo e aproximou-se para dar um abraço no filho.
- Acho uma ótima ideia. - Respondeu tentando sorrir. Sentia um estranho aperto no peito, e o que é que tenha acontecido com ? Sentia que a relação entre eles não estava se encaminhando bem.
assistiu De volta para o futuro sob reclamações de sua mãe. Não que ela não gostasse do filme, na verdade adorava. Porém não queria assistir novamente, mas no final da pequena discussão, foi convencida. E a tarde cheia de sorrisos e gargalhadas foi ótima para os dois.
Mas para um deles, apenas antes de receber uma ligação.
- Alô. - falou ao atender o telefone, ainda tentando conter sua gargalhada, o motivo era sua mãe, novamente fazendo piadas passadas. Mas logo o sorriso desapareceu e os olhos cheios de brilhos foram substituídos por dois outros frios e preocupados.
- Oi, . Quem fala é a mãe de . - O silêncio mórbido do outro lado da linha o deixava preocupado. Onde estava , e por qual motivo ela não tinha ligado para ele, e sim sua mãe? - A notícia que venho te dar não é muito boa...
~*~
Horas antes...
- Eu nunca te disse que a vida era fácil, . - A discussão entre mãe e filha começara cedo. já pensava em voltar para a antiga casa deles há muito tempo. Na verdade, nunca deveria ter saído, ela tinha resolvido mudar de lá pelo simples motivo: Não conseguiria viver no mesmo local depois da morte de seu marido. E acreditava que nem .
Tudo ali lembrava ele: as fotos, os quadros, seu cheiro estava ali. Mas a lembrança mais vívida era a das gargalhadas que ela deu com ele quando foram comprar a casa e os móveis, tudo era motivo de riso entre os dois. A lembrança daqueles dias era radiante, não que as outras não fossem. Mas aquela era diferente, era o começo de uma vida, um futuro inteiro pela frente. Ela gostaria de compartilhar um pouco daquelas memórias com , mas não queria falar sobre ele. Queria ter comentado com ela quando ele ainda era vivo. Depois da morte dele, ela sentia remorso por nunca ter falado com ele ou comentado com as simples coisas que tinham passado juntos e que agora pareciam tão distantes.
Voltar para lá seria reviver a dor de forma mais intensa. Mas ela tinha que fazer isso, era para o bem das duas. Ainda mais agora depois que tinha se envolvido com . Não queria que a filha cometesse o mesmo erro, se apaixonar, casar e construir toda uma vida com o marido. não deveria prender-se a ele de forma alguma, deveria ser forte e independente. Com toda a certeza o maior e melhor erro dela foi ter se casado tão cedo e sem estrutura alguma. Mas não poderia ver a filha cometer o mesmo erro, largar faculdade, família e amigos para trás e viver só para o marido. Talvez se não cometesse o mesmo erro que ela, sofreria menos quando ele partisse. Só talvez.
A garota teve seus braços segurados pela mãe, que a levou até o carro contra sua vontade.
- Quanta infantilidade, . - gritou com a menina assim que entraram no carro e as portas estavam fechadas. - Você não tem vergonha, garota? - Baixou o tom de voz para perguntar, mas ainda assim deveria estar uma oitava acima do normal.
- Você que deveria ter vergonha! - Gritou de volta . - Parece que está fugindo! E o pior, me levando com você! - indignada buscou seus inseparáveis fones de ouvido dentro de sua bagagem de mão e tratou de colocá-los bem alto e ignorou o resto do sermão de sua mãe. Atitude infantil, ela sabia, mas não daria o braço a torcer, sabia que sua mãe naquele momento estava sendo imatura.
Não sabe-se bem o que aconteceu, mesmo através dos fones ouviu um barulho alto e desencostou a cabeça da janela lateral para olhar a sua mãe e saber o motivo do barulho. Mas era tarde demais, um forte clarão já tinha lhe invadido os olhos.
~*~
sentia-se um pouco mal, não por causa do acidente que ocorrera mais cedo.
Mas de certa forma, sentia-se alegre, havia batido em um caminhão e por sorte estavam todos sem correr riscos de vida.
Ela havia sido socorrida pela ambulância ainda acordada, mas não. Em uma tentativa de desviar do caminhão que trafegava na contramão, jogou o carro para o acostamento, e nisso o caminhão bateu mais na lateral do carona.
Por sorte, estava bem, apenas dormindo e teria que passar por uma série de exames. Não diferente de sua mãe, que estava indo para o consultório agora. Assim que fechou a porta pôde ouvir a voz de do outro lado. Seria melhor assim, que ele falasse com algum médico e ficasse ciente dos últimos acontecimentos. Não queria falar sobre o assunto com ninguém, muito menos com ele.
Deitou-se no equipamento e logo sentiu-se mexer, ficou quieta por mais ou menos cinco minutos, assim como pedido anteriormente pelo doutor. Logo saiu da sala despedindo-se e foi aguardar em seu quarto até que o resultado saísse.
~*~
- Eu sei que a notícia não é das melhores. Mas irá precisar de muitos cuidados neste começo, eu sei que é difícil olhar para uma pessoa que conheceu a vida inteira e pensar que ela não lembra-se de nada. Com o tempo tanto ela quanto vocês conseguirão acostumar-se com a situação e as coisas irão melhorar com o passar do tempo. Ela voltará a fazer as sessões conosco, agora pós-traumático, e com o tempo ela poderá começar a lembrar de algumas coisas da infância, porém as chances são pequenas, e praticamente nulas para que ela consiga recuperar mais de 50% da memória. As instruções já foram passadas para a mãe dela, mas qualquer coisa que você quiser saber e não quiser perguntar a ela, eu e minha equipe estaremos à disposição. - Finalizou o doutor levantando-se e estendendo a mão para um cumprimento formal com , e o mesmo ele fez.
sentia-se perdido, era muita informação para apenas um dia. Sentou-se em uma cadeira na recepção e aguardou, não sabe bem o quê, talvez um milagre ou um anjo que caísse do céu e aparecesse em sua frente para passar as instruções à risca para ele.
Lembrou-se de uma tarde que passou com e eles conversaram sobre o amor em geral. Ela já tinha se mostrado apreensiva por ter um relacionamento, achava que dar um título ao que sentiam fazia com que eles estivessem sujeitos a situações do cotidiano de qualquer relacionamento. As brigas, discussões, a falta de vontade...
Ele em parte concordava com ela, mas vendo a situação de agora, não conseguia parar de desejar que o relacionamento deles acontecesse a mesma coisa. Que a cada briga houvesse uma reconciliação, que a cada discussão, eles acabassem com um beijo, e que a cada falta de vontade, eles fizessem nascer um desejo maior ainda. E não aquilo que estava acontecendo, seria demais pedir para que não houvesse situações trágicas entre eles?
suspendeu o olhar e encontrou imediatamente os olhos de . Sentiu-se incomodado, mas talvez ela só quisesse falar com ele. No momento em que ia se levantar para ir até ela dizer que estava à disposição de qualquer coisa para ajudá-la, ela virou-se e adentrou no corredor, provavelmente indo para seu quarto, já que no momento estava impossibilitada de receber visitas.
Lembrou-se de ter sentido o celular vibrar quando estava conversando com o médico e logo foi buscar seu celular em algum de seus bolsos. Assim que pegou, observou uma chamada perdida de sua mãe e uma mensagem da mesma apenas perguntando se estava bem.
A resposta para a pergunta de sua mãe ele não sabia bem qual era a alternativa certa, então resolveu apenas ir para casa e conversar com ela. Voltaria mais tarde para visitar .
Chegou em casa e sua mãe estava à sua espera, mas preferiu não estender a conversa. Logo subiu para seu quarto e ficou por lá, precisava urgentemente decidir o que iria fazer daqui para frente. Não era uma situação simples de se viver, as coisas cada vez ficavam piores, e com assim, seria seu álibi para fugir de tudo e poupá-la.
Olhou a caixa roxa no fundo do seu guarda roupa e suspirou fundo. Tudo se resumia a ela, em tudo que ele mirasse, lembrava-se dela.
Nada estava saindo como o planejado, por que tudo não poderia ser mais simples?
Olhou o relógio e já passava das 20h, pegaria um táxi e visitaria . Falaria tudo e mais do que deveria, e no final rezaria para que ela não tivesse ouvido nem metade de suas baboseiras.
Aquela seria a última vez que a veria na situação em que estava.
A decisão estava concebida e nada o faria olhar para trás ou pensar duas vezes.
Pena que a confiança era uma coisa temporária.
poucos minutos depois já estava novamente no hospital, demorou um pouco até achar mas assim que fez, direcionou-se imediatamente a ela.
- Boa noite - cumprimentou e , ainda desconhecida por ele. - Alguma noticia de ?
- Ainda nenhuma - respondeu e seu telefone retornou a tocar, era do seu trabalho mais uma vez. - Eu vou atender, volto logo mais - Informou atendendo o celular e dirigiu-se para a parte externa do hospital.
- Prazer, - Apresentou-se a garota.
- - Apertou a mão da garota - Desculpe-me a indelicadeza.
- Não tem o que se desculpar, também tenho um certo receio quando a mãe da está por perto - disse rindo.
- Está tão na cara que eu também tenho?
- Talvez um pouco - Sorriu para o garoto.
- Me chame de .
- E me chame de . - Deu uma pausa, e o garoto não se pronunciou mais. O silêncio permaneceu no local e incomodada, retornou a falar. - Então, não comentou de você pra mim.
- Hum - ficou desajeitado. Assim que percebeu, tentou reparar o erro.
- Quer dizer, eu também não sou mais próxima dela. Fui morar no interior com a minha avó e não há vejo tem uns meses.
- Tudo bem.
O médico que havia conversado com mais cedo aproximou-se dos dois com sua prancheta.
- Boa noite - Cumprimentou - Onde está a Sra. ?
- Foi resolver uns problemas do trabalho, mas já deve estar voltado - Pronunciou . - Mas pode falar conosco que passamos a informação se quiser.
- Só para avisar que deve acordar daqui a mais ou menos duas horas. Para qualquer caso, voltarei mais tarde para conversar com a Sra..
- Hum, Doutor - Chamou - A pode receber visitas agora?
- Acredito que eu posa abrir uma brecha para o senhor. - Respondeu sorrindo cúmplice e retornou ao corredor de onde tinha saído.
- Importa-se? - Perguntou a .
- Claro que não, depois eu vou. - Sorriu a menina e sentou-se em uma das cadeiras.
seguiu no corredor e foi ao quarto 503 onde se encontrava. Abriu a porta lentamente para verificar se estava mesmo dormindo e entrou, fazendo o menor barulho possível.
- Ei , bom, eu não sei muito bem o que dizer, mas vou tentar ser breve. - Suspirou - Eu tomei uma decisão, uma difícil decisão devo enfatizar. Eu sei que normalmente uma pessoa espera a outra acordar para dar noticias, mas não há o porquê disso. Eu sei que este é o momento em que mais vai precisar de apoio, mas na verdade farei ao contrário. Eu estou indo embora, não no sentido denotativo da palavra, no literal. Foi uma decisão árdua, mas necessária. Um dia queria poder ter a oportunidade de te explicar o motivo deste meu ato tão cafajeste, mas acredito que não será possível, e isso dói em mim. Desculpe-me estar sendo tão egoísta neste momento, mas saiba que irei pagar por isso, todos os dias da minha vida. Mas tem o lado positivo - riu fraco - você não irá se lembrar de nada, e isso com certeza muda as coisas. Eu não quero te ver mais ferida ainda, dói em mim e eu me sinto culpado por cada lágrima que você deixa cair. - O garoto encostou os lábios delicadamente sobre os de . - Eu te amo, mesmo nunca tendo a chance de te dizer isso.
~*~
Duas Semanas depois.
jogou-se na calçada do outro lado da casa de , ela estava indo embora. O garoto sentiu seu coração apertar e a sua garganta instantaneamente queimou.
despedia-se da menina com lágrimas escorrendo dos olhos. E apesar de não consegui ver, tinha lágrimas em seus olhos e uma profunda vontade de chorar lhe invadia por inteiro, apesar de ao menos lembrar-se da amiga direito. Quer dizer, não lembrava-se de nada, sabia de alguns momentos já que tinha retirado as duas últimas semanas desde que tinha saído do hospital para contar e mostras as fotos das histórias, algumas engraçadas e outras um tanto esquisitas.
Deu um último abraço em e entrou dentro do carro.
- Eu vou sentir sua falta - gritou assim que o carro deu partida, mas não obteve resposta, eles já estavam longe o suficiente.
se levantou da calçada e, com as mãos, tentou limpar um pouco sua calça.
- Ei - Cumprimentou quando atravessou a rua. O garoto limitou-se a dar um meio sorriso. - Como se sente com tudo isso? Poupando a de parte da sua própria vida? - Criticou .
- Eu vou ótimo, e você? - Perguntou de volta, ignorando a acusação.
- Deixa de ser hipócrita - Levantou o tom de voz, apontando o dedo na cara do menino - É muito fácil estar por perto quando tudo está bem, mas na hora que as coisas se apertam é tão mais fácil fugir não é?
- Sabe o que eu acho muito fácil? - Perguntou tentando manter a voz calma - Julgar as pessoas por seus atos e gestos superficiais, quando não se sabe um terço dos motivos verdadeiros. - As acusações doíam em , mesmo que por fora não demonstrasse. Virou-se pronto para ir embora, mas antes que distanciasse tanto, pronunciou-se.
- Queria saber que motivo no mundo é bom o suficiente - gritou.
- É ai que você se engana , ele não é bom. É ruim, e me corrói todo dia mais um pouco. Mas, um dia quando eu ver sorrindo novamente, mesmo que não seja para mim, eu vou perceber que todo o sofrimento valeu a pena. Não vou priva-la de ser feliz quando tenho a melhor oportunidade de poupa-la da tristeza que viria por minha causa. - Justificou, parando de andar.
- Eu nunca vou te entender .
- Talvez porque não seja - Virou-se e encarou a garota - Eu vou embora agora, mas claro, se você não tiver mais nenhuma acusação.
~*~
sentia-se fraca, sua vida estava no mínimo esquisita. Era um baque emocional muito forte não se lembrar de nada. Da sua infância, escola... Algumas coisas básicas já sabia, sua mãe e trataram de te falar.
Neste período tinha visto muitas fotos e, segundo sua mãe havia vídeos para ela assistir também, feito por eles e pela própria garota.
Neste momento, sentada no sofá da sala seria o primeiro a assistir, tinha achado aquele dvd acidentalmente na estante da sala, ela estava sozinha em sua nova casa e tinha preferido assim, já bastava ter toda a sua história contada pela boca de outra pessoa, queria um momento de intimidade, só dela.
Deu play e sentiu todos os seus músculos se contrairem, tinha a péssima impressão que assistir o cd de gravação feito pelos seus pais seria o pior.
, nascimento. - Olá - acenou para a câmera seu pai, que também estava filmando - Eu sou e essa é a mais nova mamãe do pedaço - Falou virando a filmadora mostrando deitada em uma cama de hospital segurando um recém-nascido. - E esta é - Informou dando um zoom, mostrando nitidamente o rosto da pequena menina.
- Nós estamos muito felizes com a chegada dela - Anunciou alegre .
- É, muito mesmo. - Suspirou - , se um dia no futuro ver este vídeo lembre-se que te amo muito mesmo, apesar de todas as burradas que você provavelmente fará.
A imagem foi cortada ao som das risadas do casal e logo tornou-se tudo escuro.
, primeiro dia em casa. - Já colocou para filmar? - Perguntou novamente .
- Já - respondeu - Estamos entrando na nossa nova casa neste exato momento pela primeira vez com a pequena . - Informou.
- Vamos subir as escadas agora e mostrar o quarto dela, que eu decorei! - Sorriu orgulhosa .
- Corrigindo, nós decoramos - Olhou para a esposa fazendo uma feição de magoado, que logo arrancou uma gargalhada dos dois.
- Ok, acho que posso mentir sobre o "nós decoramos" em frente as câmeras.
- E aqui está - Abriu a porta branca do quarto, com certeza tinham feito um bom trabalho. Tudo muito delicado, havia um berço branco enfeitado com flores rosas e um trocador/cômoda branco encostado na parede. Paralelo a ele, havia um guarda roupa branco com os puxadores rosa em forma de flor e em uma das paredes havia um mural de madeira pintado de branco, era de uma boneca de chapéu e cesta e havia algumas flores e gramas em baixo de seus pés.
- Acho que ela vai gostar - suspirou pensativa , olhando a garotinha adormecida em seus braços.
- Claro que vai - falou abraçando com cuidado a esposa.
Com isso, a imagem da filmadora foi desfocada e ouve outro corte.
, primeiros passos (11 meses) - Vou soltar - Avisou - Tem certeza que esta filmando pai?
- Claro meu filho, não perderia a oportunidade de ver minha neta milhares de vezes dando seus passinhos.
soltou , mas manteve seus braços perto dela, em caso de desequilíbrio.
logo começou a dar seus passos totalmente desequilibrada em busca da mãe, que estava bem próxima a ela. Assim que deu mais ou menos três passinhos, um abraço apertado de sua mãe a envolveu e a menina deu um sorriso largo, totalmente desprovido de dentes, fazendo todos a sua volta rirem.
, aniversário de 1 ano. - Aqui é o , essa ao meu lado é minha querida esposa e essa adorável criança em meu colo é a nossa pequena - Informou, sorrindo abertamente. - E esses são os convidados - Ao falar isso, a câmera profissional girou 180 graus e mostrou um amplo campo totalmente decorado e várias pessoas, algumas sentadas, outras em pé.
- Querida, fala papai.
- Papai - repetiu e sorriu todo bobo.
- Agora, mamãe.
- Papai - riu e deu um leve tapa em seu braço.
- Dá um beijo no papai - pediu e aproximou-se da bochecha do pai e deu assim como pedido. - E na mamãe também se não ela fica chateada. - E repetiu o gesto, mas agora em sua mãe. - Agora dá tchau para o moço e manda beijo. - fez entendo o pedido do pai. Uma época adorável com certeza.
- Daqui a 15 anos se eu pedir para ganhar um beijo é capaz dela me bater, adolescentes são esquisitos - Reclamou inconformado com .
O som foi diminuindo, os ruídos das conversas desaparecendo e logo fez o mesmo a imagem.
Durante o vídeo mal se tocou do que estava acontecendo consigo mesma, e quando a sala tornou-se um breu total, ela pôde ouvir o som dos próprios soluços. Ela queria lembrar de sua vida inteira, dos momentos felizes, dos abraços, dos sorrisos, das viagens. Mas não conseguia, sua mente estava vazia, julgava a própria garota que sua cabeça estivesse mais vazia do que ela mesmo por dentro.
- Cheguei filha - Avisou destrancando a porta - Onde você está?
- Aqui no sofá mãe - Avisou ainda com a voz chorosa.
- O que aconteceu querida? - Perguntou largando as compras no meio do caminho e indo sentar-se no sofá com , que logo abraçou-a.
- Eu vi uma fita de quando eu nasci - Explicou tentando manter a voz estável. - Mãe, porque eu não me lembro dele? Você esta aqui para eu saber como a senhora é, e ele? Como vou poder me lembrar? - Perguntou sentindo o choro voltar mais ritmado novamente.
- Eu quero lhe mostrar uma coisa, venha comigo - pegou na mão da filha fazendo-a acompanha-la.
Chegaram ao quarto de hospedes e numa estante que tinha, retirou uma caixa que continha várias cartas, a maioria enviada de para ou vice-versa.
- Eu quero que leia, seu pai costumava me mandar quando ainda namorávamos. - Falou entregando a caixa para . - Mas apenas se quiser e pode demorar o tempo que for.
sussurrou um obrigada e ia para seu quarto, mas foi parada por sua mãe.
- Quero que leia também outra coisa - Falou e mais em cima na mesma estante tirou uma outra caixa, bem menor e continha uma senha de combinações que sua mãe colocou rapidamente.
A caixa continha duas cartas, ainda lacradas. pegou uma e sentiu e uma lágrima solitária desceu por seu rosto.
- É sua - Disse entregando a carta para .
- É sobre o que? - Perguntou curiosa.
- Eu não sei , eu nunca li. Seu pai a escreveu quando você tinha um ano e meio e descobrimos as consequências de seu trauma no parto. Nós dois escrevemos uma carta individual, a minha não há razão para ser entregue. Você entendera quando começar a ler.
Sem mais palavras, seguiu para o seu quarto.
Sabia que ler aquelas cartas não seria uma tarefa fácil, não era apenas o seu passado, mas também de seus pais.
Colocou a caixa de lado e prometeu a si mesma ser forte independente do conteúdo delas. Limpou os olhos, que estavam um pouco embaçados por causa do choro, com as costas das mãos e pegou a carta que mais lhe interessava momentaneamente.
Mas assim que seus olhos fixaram nas letras escritas no envelope por uma caligrafia completamente desconhecida, sentiu suas pernas fraquejarem e seus olhos molharem novamente.
De todo o amor possível, de seu pai.
Para a amada .
Continua...
NOTA DA BETA: Encontrou erros que provavelmente passaram despercebidos pela desastrada aqui?      
P.S: A opção "descontar na autora através dos comentários" foi desativada pela eminente injustiça que representa.