SEM VESTÍGIOS

Autora: Thami Sgalbiero
Beta: Abby (capítulo 1) e Bia

CAPÍTULO 1

Era dia 3 de Agosto do ano de 2003. Um dia comum para as outras pessoas de todo o mundo, menos para mim. Eu tinha apenas 9 anos de idade, e tinha acabado de voltar da escola. Abri a porta e encontrei minha sala totalmente desorganizada, vidros em pequenos cacos espalhados por toda a casa, então subi as escadas para o quarto dos meus pais e aí que tive uma surpresa inesperada e nunca passada pela minha mente.

Meus pais estavam deitados no chão do quarto sob uma poça de sangue. Entrei em estado de choque, não sabia o que fazer, afinal... eu era apenas uma criança.

Depois de 30 minutos, chegou uma viatura da polícia, eu escutei alguém entrando, mas não estava em mim mesma. Meu corpo estava naquele ambiente, mas minha alma... perdida pela casa.

Logo depois, chegou uma ambulância, e os médicos subindo as escadas desesperados a procura dos corpos, enquanto a policia procurava pistas sobre o que aconteceu. Minha vizinha Zelda, entrou junto com os médicos.

– Samatha?! O que você está fazendo aqui, meu anjo? - disse Zelda, que logo me pegou no colo e saiu correndo comigo para a casa dela.
– O que aconteceu tia Zelda? - perguntei com os olhos cheios de lagrimas. Embora eu fosse uma criança, entendera muito bem sobre a morte.

Minha mãe ficou grávida de mim com apenas 15 anos, minha vó e meu avô a puseram para fora de casa. O mesmo aconteceu com meu pai, mas tinha uma pequena diferença entre eles. Papai tinha 17 anos e trabalhava como “empregado” em uma loja (e foi lá que conheceu mamãe). Então, ele comprou uma pequena kitnet com seu dinheiro guardado para a faculdade e simplesmente largou tudo pela minha mãe. Nunca conheci minha família.

– Meu amor, seus pais foram fazer uma viagem eterna para o paraíso. - Zelda tinha seus 48 anos e morava apenas com seu gato chamado Thomas.

Como eu, literalmente, não tinha família, a minha vizinha Zelda conseguiu minha guarda. E eu fui morar com ela, embora a casa dos meus pais ficasse em frente com a placa gigante em letras vermelhas “VENDE-SE”, ainda me perturbava só de ver me fazia lembrar-se do acontecido.

Zelda nunca teve filhos, mas sempre quis. E eu sou a felicidade dela nesse momento. Zelda, agora, minha “mãe”, me trocou de escola para não sofrer bullying e me colocou em uma escola mais próxima de nossa casa.

Nessa nova escola, fiz amizades que me acompanharam até hoje nos dias atuais. E a mais verdadeira amizade que eu tenho é a Victoria. Ela me ajuda sempre que eu preciso e me conta tudo, mesmo sabendo que a verdade vai me machucar ela sempre conta. Temos muito segredos guardados juntas.

– Sami, você tem que acreditar em mim! Eu vi, com meus próprios olhos o Pedro dando em cima da Julia, ela nem deu bola pra ele, mas... ele quer pegar ela e todo mundo sabe! – disse minha melhor amiga Victoria. Nós estávamos no meu quarto esperando Zelda, terminar o almoço. Eu tinha faltado e Victoria estava me contando tudo o que tinha perdido.

Era sexta-feira, e todo mundo do nosso colégio e do outro, tinham sido convidados para a festa da Annie. Annie era linda, rica e popular. Fazia as melhores festas da escola toda. Ou seja, eu não ia perder de jeito nenhum.

– Tive uma idéia, Vic! Você sabe se ele vai na festa? – eu disse entusiasmada.
– Não sei, mas... com certeza vai e ainda vai tentar pegar a Julia. Mas... qual é a sua “fabulosa” idéia? – perguntou Vic, dando ênfase no “fabulosa”.
– Estava pensando em ir super bonita e dar em cima de um garoto muito gato.
– Adorei a idéia, amiga! Vou te ajudar com tudo, ok? – ela estava realmente animada com a idéia. Vic odiava o Pedro, achava ele muito mulherengo.
– MENINAS, O ALMOÇO ESTÁ PRONTO! – disse minha mãe gritando lá de baixo. Saímos correndo. A fome era fatal.


Depois que a gente almoçou, já tinha explicado para minha mãe o lance da festa e ela me deu uma quantia certinha de R$500,00 para comprar roupa, acessórios, maquiagens no shopping. Então... passamos na casa da Vic para ela pegar o dinheiro dela.

Victoria morava na mesma rua que eu, era literalmente minha vizinha. Morava logo ao meu lado. Fomos para o shopping exatamente às 15:13 e voltamos 17:40. Sim, ficamos praticamente 2 horas dentro do shopping.

A festa iria começar 21:00 na mansão da Annie. Então... para passar o tempo ficamos na minha casa, fuxicando o pessoal no Facebook da Vic. Quando entramos no meu Facebook tinha alguém me adicionando, alguém desconhecido para mim. Então... cliquei no perfil da pessoa e ali só estava identificando-a como Anônimo. Olhei para Vic meio confusa. Confirmo ou não?

– Será que é algum perfil com as fofocas do colégio?
– Mas então... porque o “Anônimo” não me adicionou também? Eu sou do seu colégio e sou da sua turma. E ele não tem ninguém adicionado, ou ninguém aceitou ele. - Vic estava preocupada.
– Talvez ele me adicionou agora e vai pegar todas as pessoas do meu Face para adicionar o resto das pessoas. Ou ninguém aceitou ele mesmo.
– Entra no meu Face e vê se alguém me adicionou, esse alguém que no caso seria “ele”, se é que é mesmo um homem. – disse Vic, entrando no Facebook dela.

E...

– Nada. – eu disse, olhando pra ela.
– Nada, viu? Estranho... – Vic saía do Facebook dela e agora estava entrando no meu novamente. Nós duas sabíamos as senhas uma da outra, e aquilo estava meio estranho.
– Sami, desculpa te perguntar isso, mas... você já sabe quem matou os seus pais biológicos ou o que aconteceu naquele dia da morte deles, antes de você ter chegado da escola?
– Bom... Zelda só me contou que ouviu os gritos da minha mãe pedindo socorro depois olhou pela janela e aí viu o vidro se quebrando e decidiu não ir lá ajudar pois estava arriscado dela se machucar. E... depois que todos os vizinhos estavam do lado de fora de suas casas olhando, saiu dois homens estranhos vestidos totalmente de preto, eles correram até um carro preto também e com vidros escuros. Daí ela ligou para a polícia e a ambulância, enquanto ela se arrumava para ir lá vê se estava tudo bem, durante esse tempo que ela estava se arrumando eu tinha chegado lá em casa, e tal. – soltei um leve suspiro e Vic percebeu.
– Calma, amiga. E se você soubesse quem os matou? – disse Vic me abraçando forte
– Eu iria matar as pessoas com a mão, sufocando-a, deixando-a sem ar suficiente para se desculpar. –enquanto eu dizia, lagrimas de muito ódio escorriam pelo meu rosto. Victoria me abraçou novamente, um abraço mais forte, de amiga.
– Nós vamos descobrir, amiga. Conte sempre comigo.
– Obrigada, Vic. Tenho que te agradecer por você ser essa grande amiga para mim. Realmente devem ter muitos invejosos e ciumentos com a nossa amizade, porque é difícil achar amigos de verdade hoje em dia. – dizia eu enquanto levantava da cama pulando de alegria.

Recusei o convite do anônimo e olhei para Vic, começamos a rir. Liguei a TV e coloquei na MTV, estava passando vídeo clipes.

– Vamos tentar imitar a Beyoncé dançando? – disse Vic com os olhos brilhando. Vic adorava dançar e por causa dela comecei a gostar também, mesmo dançando muito mal, afinal... era divertido.
– Vamos! Enquanto eu danço igual o bonecão do posto, você dança igual a Bey. – comecei a ri e aumentei o som da televisão.

E conforme foi passando os vídeos clipes, nos íamos dançando e tentando imitar. Quando deu o comercial, botei a TV no mudo e voltamos para o computador. Atualizei minha página da rede social em que estávamos para ver as novas atualizações e...

– De novo? –disse Vic assustada.
– O quê?
– Aqui ô. – ela apontou para os novos convites. – O anônimo. De novo.
– Mas parece que dessa vez “ele” deixou uma mensagem... – Vic me cortou.
– Mensagem?! – Vic disse, me cortando.

Cliquei na parte de mensagens e lá estava uma mensagem deixada em anônimo.

Anônimo: Olá Samantha. Não vai me aceitar não?

Respondi que “não”. Afinal... eu nem sabia quem era, e... era um anônimo. Mandei, com medo, mas mandei.

– “Ele” está online, Sami. Tenta descobrir quem é! – disse Vic.

Anônimo: Ora, ora dona Samantha. Não seja mal educada. Sei de coisas que você quer saber.

CAPÍTULO 2

Eu e Victoria lemos duas, três e quatro vezes o recado. Olhamos uma para a outra.

– Aceita logo, Sami. É estranho, é perigoso mas... aceita logo! Vai que tem algo a ver com seus pais biológicos? – Vic disse, apressada e com os olhos arregalados. Fui lá e aceitei. Afinal... O que seria? Até eu estava curiosa para saber.

Anônimo: Muito bem... Boa menina. Precisamos conversar em uma página mais privada. Aceite-me no MSN.

– De uma coisa eu sei. Ele não me aparenta ser velho... – Vic riu.
– Como? – fiz uma cara de, tipo, que comentário mais inconveniente para o momento.
– “Ele” tem todas as redes sociais.
– E...?
– Fala sério, Sami. Nenhum “velho” atualmente tem cadastro em redes sociais. O máximo que podem ter é celular de última geração, que na verdade nem sabem como utilizar.
– Bom... é verdade. Só espero que seja um novo e bonito, né? – eu disse e nós duas rimos.

Aceitei “ele” no MSN. Realmente estava online e eu com medo.

Anônimo diz: Boa menina.

Samantha diz: O que você tem para me contar? Quem é você? O que quer comigo? E para de dizer que sou boa menina, já sei disso.

Anônimo diz: Vamos com calma, menininha... Eu sou um anônimo. Não posso me identificar, mas... posso te ajudar.

Samantha diz: Então fala logo o que você quer, ou melhor... ESCREVA!

Anônimo diz: Eu sei quem matou os seus pais.

Fiquei paralisada, simplesmente gelei. Victoria deu um pulo, já digitando por mim. Tinha ficado sem reação.

Samantha diz: Quem foi?

Anônimo diz: Só digo pessoalmente.

Samantha diz: Desculpe, mas... você é um estranho, eu não te conheço.

Anônimo diz: Você não vai me ver, vai apenas... saber quem matou os seus pais. Quer mesmo saber?

Samantha diz: É óbvio que quero.

Anônimo diz: Fiquei sabendo que você tem uma festa para ir hoje. Encontre-me em frente a sua escola, exatamente às 21h21min, antes de você ir para a festa.

Samantha diz: Posso levar uma amiga?

– Vic! Você é maluca? Vai que acontece alguma coisa, vai que ele é um sequestrador? Não quero te meter nessa. – eu disse desesperadamente, depois de ler o que ela tinha digitado. Vic estava digitando para mim calmamente e eu desesperada.

Anônimo diz: Pode. Como já disse, você não irá me ver.

Samantha diz: Ok. Estaremos lá.

Ficamos sem entender. Como assim não iríamos vê-lo se a gente iria se “encontrar” com ele? Olhei para Vic, meio sem entender.

– Sami, você deve ter esquecido do: Amigas PARA SEMPRE. – Vic abriu um sorriso e eu sorri também.
– Obrigada por me lembrar, A-MI-GA!

Olhei para o relógio e já eram 19h40min.

– Cara, olha que horas são. Passou muito rápido! Sami, vou me arrumar e vamos sair daqui às 21h, ok?
– Tá bom, Vic. – mandei beijinho para ela e ela retribuiu. Fui correndo me arrumar, aumentei o som da televisão e fui tomar banho.

Eu tinha comprado um vestido incrivelmente lindo, que me deixava muito bonita. Era um vestido soltinho, lilás, com alguns detalhes na parte do tronco, era uma alça grossa e os detalhes eram prateados. Usei um salto prateado também, para combinar com os detalhes.

Victoria chegou lá em casa e já eram 20h29min, terminamos de nos arrumar e maquiar, tudo dançando e cantando ao som de Lady GaGa. Vic estava muito linda também, eu a ajudei a escolher, porque ela estava em dúvida entre vestido e saia, mas acabou ficando com a saia de cós alto.

– Vamos ver a reação do Pedro quando te ver. – disse Vic, rindo e me ajudando com a maquiagem.

Pedro era o meu namorado. Bom... ERA. Porque ele é muito galinha e dá em cima de todas. Digo todas, literalmente. A única coisa que eu gosto no Pedro são os olhos dele. O jeito que ele olha seduz profundamente, parece que ele te hipnotiza completamente.

– De uma coisa eu sei.
– O quê? – Vic não entendeu.
– Quando eu for falar com ele não vou poder olhá-lo nos olhos. – eu disse, rindo.
– Do anônimo?
– Não, Vic! Do Pedro.
– Ah, é. Com certeza. Você sempre vai cheia de atitude e quando chega na hora fica toda derretida. – Vic me acusando por ser fraca em relação ao Pedro.
– Ai, Vic, o olhar dele é penetrante e seduz.
– Só para você, Sami. – Vic caiu na gargalhada.
– Sami! O anônimo! Temos que estar lá às 21h21min, lembra?
– Sim, sim. Só não entendi porque tinha que ser às 21h21min e não às 21h, sabe. – eu tentava explicar.
– Ah, dizem que quando você olha o relógio e tem o mesmo número tanto nas horas quanto nos minutos, é porque tem alguém pensando em você.
– Ai, que lindo, amiga. Vou olhar SEMPRE para o relógio agora!

Peguei meu celular e coloquei na minha bolsinha, junto com o dinheiro que sobrou das “compras” para, no caso da gente sair tarde, não correr nenhum risco e chamar um táxi.

– Mãe, estamos indo.

Minha mãe, que estava vendo sua novela favorita na sala, colocou a televisão no mudo e foi falar aquelas coisinhas que toda mãe fala antes do filho sair de casa para alguma festinha.

– Olha, minha filha, toma muito cuidado. Qualquer coisa me liga que eu vou correndo te buscar.
– Tá bom, mãe. – disse eu, em voz de “ai que saco!”
– Tchau, dona Zelda. – disse Vic, educadamente.
– Tchau, meninas, divirtam-se!

Acariciei o Thomas, que estava no colo de mamãe. E me dirigi à porta, abri e esperei Vic sair para fechar.

– Ai, Vic, estou com muito medo agora.
– Ai, vamos logo, ninguém sabe o que pode acontecer, vai que acontece alguma coisa boa nesse encontro?
– Não sei não... – eu estava com suspeita de que iria dar alguma coisa errada.

Como nossa escola era próxima dali, fomos andando mesmo. A única coisa que incomodava era o salto. A rua estava um pouco escura, havia poucos carros passando, mas isso era normal naquela vizinhança, eu já estava acostumada.

Chegando perto da escola, realmente não havia ninguém. Estava tudo escuro e só os letreiros da escola acesos, iluminando a frente da escola. Olhamos para dentro da escola e nada. Então ficamos paradas ali, de costas para a escola, olhando a rua.

– Pois é, quando ele disse que a gente não iria vê-lo, realmente ele estava certo. – disse Vic, olhando para os lados.
– Já são 21h25min e nada. Vamos embora, Vic. – disse eu, enquanto pegava o braço de Vic para sairmos logo dali.
– Deixa de ser medrosa, garota. – disse Vic, puxando-me para perto dela.
– Tá vendo que ele não vai aparecer? Vamos logo embora, quero ver o Pedro.
– Mentira. Você tá é com medo, isso sim.
– Eu quero ir logo para a festa, dançar e me divertir, vamos logo. – disse eu, fazendo birra.
– Nem adianta fazer esse biquinho que eu não vou sair daqui enquanto não acharmos algo, pelo menos uma pista. – disse Vic, convencida.
– Tá bom. Você fica aqui e eu vou para a festa. – eu disse e saí andando.
– Nem pensar. Olha... tive uma ideia. – disse Vic, puxando meu braço novamente – Você fica aqui do lado de fora, eu tento entrar no colégio. Se eu gritar, você chama a polícia e se eu vir alguma coisa eu trago aqui para você ver ou coisa do tipo.
– Você tá maluca? Comeu merda antes de vir para cá? – disse eu, entrando em pânico com a ideia maluca de Vic.
– Não tô maluca, não. Tô te ajudando. Vamos ali pelo portão de trás, deve estar aberto. – disse Vic, que saiu me puxando junto com ela.

Atrás do colégio estava mais escuro ainda, porque não tinha nada que iluminasse. Chegando perto do portão, vimos que ele estava com um cadeado.

– Viu? Tá fechado, agora vamos embora.
– Não, peraí. Segura minha bolsa aqui. – ela disse, já jogando a bolsa em cima de mim.
– Espera aí, maluca, o que você vai fazer?
– Vou pular o portão da escola.
– Mas você tá de saia!
– E daí? A rua tá deserta, ninguém vai ver nada.
– Mas... – Vic me interrompeu.
– Aaaai, fica quieta.

Vic já estava lá em cima do portão, quase pulando para o outro lado. Eu estava olhando para todos os lados para ver se não tinha ninguém, e de repente vi um vulto correndo, passando pela entrada principal do colégio (a frente do colégio), que era onde a gente estava antes. Minhas pernas tremiam mais do que a água do mar. Então eu dei um grito.

– Aaaaaaaaaaaai, Vic, eu vi um vulto. Aaaaaaai! Socorro! – eu gritava de olhos fechados.
– Shiiiu, garota! Já estou aqui dentro.

Quando eu abri os olhos, Vic já estava dentro do colégio, depois não ouvi mais nada. Só os passos do salto dela lá dentro do colégio.

– Nossa, esse colégio é largadão à noite. Se vir alguém assaltar isso aqui vai pegar tudo e ninguém vai saber, não tem nem alarme.
– Para de falar, Vic. Tá vendo alguma coisa?
– Vou falar para a minha mãe que esse colégio é assim e... – cortei Vic, porquê, do jeito que ela era, não iria parar de reclamar nunca.
– Para de reclamar. Encontrou alguma coisa?
– Vou até o portão de grade ali na frente, vai para lá também. – disse Vic, gritando de dentro do colégio.

O portão de trás do colégio era de madeira e muito alto. E o da frente era de grade, então dava para ver lá dentro, na parte da frente. A entrada do colégio era cheia de flores, fazendo uma passagem no meio. Do lado direito e do esquerdo havia um canteiro de flores genistas amarelas. O colégio era nas cores azul bebê e branco. O portão de grade dava vista para o corredor da direção e secretaria. E, em volta desse canteiro de passagem, era o pátio da escola.

Quando cheguei na frente do portão, havia um envelope azul colado na grande com uma simples fita durex.

– Ih, olha o que eu achei aqui na frente, Vic! – disse eu, curiosa e ao mesmo tempo espantada, afinal... O vulto que eu tinha visto era verdadeiro e parecia sim ser um homem.
– O quê? – Vic veio caminhando até o portão.
– É um envelope, mas você só vai abrir quando eu chegar aí fora.
– Posso pelo menos pegar o envelope, pantera poderosa? – eu disse, entre risos.
– Sem graça. Me ajuda aqui.
– Como vou te ajudar, sua louca?
– Ai, quando eu entrar no seu MSN vou falar poucas e boas para esse anônimo, ele vai ver só. Que brincadeira de mal gosto.
– Ele deve ter visto sua calcinha.
– Para de brincar. – Vic já estava lá em cima, olhando para mim lá embaixo.
– Vic, tira o salto.
– Segura aí.
– Aaaaaaaai! – eu gritei, porque o salto quase caiu em cima de mim. – Quer me matar ou o quê?
– Queria te matar, mas já vi que vou deixar minha raiva para o anônimo.

De repente escutamos uma risada vindo de trás de um canteiro de uma casa em frente ao colégio. Suspirei fundo.

– Você ouviu isso? – falei assustada para Vic.
– Sim, mas não tem ninguém aqui de cima.
– Ôh pantera, dá para descer logo daí?

Fui olhar para os lados e, quando fui virar a cabeça para cima, para olhar para Vic, só a vi voando em cima de mim. E, sim, ela caiu em cima de mim.

– Ai, meu vestido. Vou aproveitar que estou aqui no chão para calçar logo o salto. – disse Vic, pouco se importando comigo.
– Primeiro a senhora vai sair de cima de mim. AGORA!
– Desculpa, amiga. – disse Vic, levantando-se e estendendo a mão para me levantar.

Enfim, não nos machucamos, graças a Deus. Mas o que eu estava querendo mesmo era abrir o envelope, para ver o que tinha dentro.

– Vamos abrir o envelope agora? – eu perguntei ansiosa.
– Vamos pegar um táxi para ir à festa. Dentro do táxi a gente abre, melhor do que nessa rua escura que não vai dar para ver nada.
– É.

Enquanto Vic tentava ligar para algum táxi, eu estava batendo o pé de tão nervosa e curiosa para saber o que tinha dentro do envelope. Finalmente iria descobrir quem matou os meus pais e finalmente iria dar o troco para a pessoa, só que com mais vingança.

– Pronto, conseguimos, Sami. Daqui a pouco tá chegando.
– Tá. – eu disse, batendo o pé e roendo as unhas.
– Para de roer as unhas. – Vic deu um tapa na minha mão.
– Ai, quase que eu arranquei um pedaço dos meus lábios.
– Bem feito. Eu ainda acho melhor a gente abrir esse envelope quando chegar na sua casa.
– Vamos fazer o seguinte... Vamos para a festa, nos divertimos e esquecemos o envelope, você dorme lá em casa e aí a gente abre e vê tudo.
– Ótima idéia.

Escutamos um barulho vindo de trás do canteiro da casa em frente ao nosso colégio, novamente. Ficamos em silêncio para ver se dava para ouvir mais alguma coisa, mas parece que a pessoa havia parado de se mexer ou tinha ido embora.

– Ai, que medo. – eu disse, tremendo de medo.
– Deve ser um vira lata.
– Aham, o vira lata sabe dar risadas da gente.
– Ah, devia ser alguém dentro de casa. Aqui tem várias casas.
– É, vou fingir que é isso para não ficar com mais medo.
– Olha o táxi ali, faz sinal para ele saber que é a gente.
– Ele vai pensar merda. – eu comecei a rir. – Rua escura, duas garotas sozinhas...
– ECA! Nem pense nisso. Sei que sou atraente, mas nem tanto, ok? – Vic disse, rindo.

CAPÍTULO 3

Entramos dentro do táxi e fomos rumo à mansão de Annie. Chegando lá, tínhamos que passar os nossos convites como se fossem cartões de créditos, e aí o portão se abria. A festa estava realmente cheia, muita gente bonita. A festa era do lado de fora da mansão, os pais de Annie não estavam em casa, mas deixaram a garota fazer a festa. Na piscina, haviam bolas coloridas, estava cheio de equipamentos de luzes e um globo em cima de uns ferros que montaram lá em cima. A festa era ao ar livre, mas com estilo balada.

– Nossa. – disse Vic, com a boca aberta.
– Isso que eu chamo de festa.
– Beleza, agora vamos procurar o Pedro. – disse Vic, segurando no meu braço e me puxando para entrar no meio de todos que estavam dançando ao som de Usher e Pitbull com a música DJ Got Us Falling In Love Again.

Tinham pessoas de tudo quanto é tipo e estilo. Mas o importante naquele momento era encontrar o Pedro. Não via a hora de encontrar ele e ver realmente o que estava acontecendo entre a gente. Vic conhecia todos daquele ambiente, afinal... ela era meio que “amiguinha” de Annie e já foi titulada inúmeras vezes a garota mais bonita do colégio. E ra mais fácil perguntar: quem não conhecia Victoria Miller?

Enquanto Vic falava com todos, meus olhos ficavam procurando ansiosamente o Pedro. Até que, de repente, Vic soltou meu braço para abraçar uma garota e eu fui levada pela multidão para frente do DJ. Quando me dei conta, já estava de frente para o DJ, com as mãos para o alto e dançando. Começou a tocar a minha música favorita, One More Night, da minha banda favorita, Maroon 5, e... Já sabe, né? Parece que nossa alegria aumenta e a gente fica tentando sair do chão pulando e cantando.

– Ai, me desculpa. – eu não sabia onde enfiar o meu rosto. Não estava nem aí para quem estava a minha volta, dei com o braço no copo de um garoto que estava atrás de mim, o copo voou com a bebida em cima dele, molhando a blusa dele toda.
– Não, tudo bem. Nem era para eu estar com essa bebida aqui, no meio da galera.
– Peraí, vou te dar o dinheiro para comprar outra blusa nova. – eu disse, pegando a bolsa e abrindo para dar o dinheiro. Mas ele segurou minha mão, não me deixando pegar o dinheiro dentro da bolsa.
– Não, que isso. Não precisa. Tá maluca? É só uma blusa.
– Claro que precisa, eu sujei toda sua blusa. Essa bebida mancha, sabia?
– Eu tenho mais de mil blusas, essa não vai me fazer falta.
– Ah... – eu disse, meio sem graça.
– Então... qual é o seu nome?
– Samantha, mas pode me chamar de Sami ou como preferir. – eu falei, gaguejando. Sim, estava nervosa, fazia tempos que eu não falava com algum garoto a não ser o Pedro.
– O meu nome é Thiago. Foi bom te conhecer, Agitadora.
– Como?
– É, agitadora. Agitou tanto que agitou até meu copo e fez cair tudo em cima de mim. Vou lá pegar outra bebida, vai querer também?
– Nossa, hein, obrigada. Quero sim! – eu disse, rindo.
– Nossa, hein, você tem um sorriso muito bonito.
– Obrigada. Er... você não ia pegar a bebida?
– Sim. Vamos ficar em outro lugar, fora dessa agitação, Agitadora.
– Tá bom, só vou se você parar de me chamar assim.
– Ué, você disse que era para eu te chamar como eu preferir.
– Mas... Ah, esquece. – não contive o sorriso.

Ele pegou na minha mão e aí fomos para uma mesa, ele me pediu para esperar lá enquanto pegava as bebidas. Então recebi uma mensagem de texto da Vic.

“Foi só sair um segundo de perto de mim e já encontrou um gato?”

Sabia que ela não tirava os olhos de mim, Vic era meu anjo. Respondi ela, ao mesmo tempo olhando aos arredores, mas era impossível encontrar alguém ali.

“Ah, safada, você tava olhando, né? E nem pra me ajudar. Onde você tá?”

E ela não me respondeu mais. Enquanto eu olhava para os lados, vi alguns casais se beijando. E mesmo assim continuei procurando Vic, depois que eu fui me tocar de que um dos casais que estavam lá se beijando era o Pedro com a Luana. Luana era uma garota que vivia solteira, dizia ela que namorar era a mesma coisa que ficar dentro de uma gaiola. Eu não estava acreditando no que estava vendo, logo mandei uma mensagem de texto para Vic.

“Você não sabe quem eu acabei de ver. Quer saber? Vou fingir até que eu não vi. Vou fingir que ele nem está na mesma festa que eu. Afinal, tem um garoto aqui comigo, agora.”

Vic me respondeu com um simples “(:”. Logo depois, vi o Thiago vindo com 2 bebidas. Sorri ao vê-lo. Ele devolveu com um sorriso sincero.

– Então, er... Você estuda onde? – ele me perguntou, meio que sem graça.
– Estudo no mesmo colégio da Annie.
– Quero saber o nome do colégio.
– Ah, então você não conhece a Annie? Da onde ela te chamou pra vir até essa festa?
– É porque eu sou o primo dela.
– Ah tá. – respondi sem graça.
– E então... Qual é o nome do colégio?
– Colégio São Vicente.
– Eu estudo no colégio Jaghut, conhece?
– Sim. – respondi, olhando para o Pedro. E, sim, ele ainda estava dando em cima daquela garota, ele estava beijando ela ainda e isso estava me deixando desconfortável.
– E aí, curtindo a festa?
– Peraí, rapidinho. Já volto, tá?
– Tá. – Thiago falou, sem entender, e foi me seguindo com o olhar.

Fui andando até o Pedro, cutuquei ele, afinal... Ele ainda estava beijando ela. Ele não parou. Então, puxei a blusa dele, ele olhou pra mim e a Luana também ficou olhando para mim, como se eu estivesse fazendo algo errado. E estava.

– Não é isso que você tá pensando amor, é que... – Pedro tentava se explicar, com a boca toda lambuzada de batom vermelho, provavelmente de Luana.
– Nem precisa se explicar. Eu nem quero saber, eu só vim aqui mesmo pra te avisar que eu estava ficando com o seu amigo essa semana toda que passou. E, nossa, como você é realmente otário, nem reparou. Mas tudo bem, pode continuar beijando ela aí. – eu falei, com um tom de despreocupada. Então me virei e aí ele puxou meu braço. A festa tinha parado, o som tinha abaixado, senti todos os olhares se voltando a mim.

– Como é que é?
– Não entendeu ainda o recado? Quer que eu seja mais clara? Ok, então serei. Eu te chifrei essa semana toda que passou.
– Como você teve a coragem de... – Vic chegou, graças a Deus, me salvou.
– Como você teve coragem de ficar com uma garota na frente da minha amiga? Vocês eram namorados. Se bem que eu nunca fui com a sua cara, mas... Ficar com uma garota dessas, na frente da sua atual ex-namorada? – então cortei a Vic.
– Coragem? – comecei a ri. – Coragem é uma das coisas que ele NUNCA teve.

Pôde-se ouvir os uivados de todos da festa. Todos estavam adorando ver aquilo. Annie então, era a mais orgulhosa, olhava para mim e para Vic como se fossemos as salvadoras da festa.

– Beleza, agora voltem aí a dançar e festejar. Afinal, isso é uma festa, para quem consegue se divertir sem fazer merdas. – Vic falou, olhando profundamente nos olhos de Pedro.
– Opa! Mas antes... Gostaria de declarar uma coisa aqui, atenção, por favor? – disse Annie, olhando para Vic e rindo, e Vic ria também e eu não entendia nada. Olhei para Thiago e ele estava rindo e olhando para mim com cara de “você é foda” e ainda balançava a cabeça em gesto de negação. E Pedro me olhava com cara de ódio.

– Pedro, sai fora da minha festa. Aqui é uma festa de humanos e não de animais. – disse Annie, com a melhor cara de desprezo que, com certeza, ela sabia fazer de melhor e eu continuei sem entender nada. Pedro olhava para o rosto de Annie com ódio.

CAPÍTULO 4

Depois dele ter sido humilhado, finalmente saiu da festa. E todos voltaram a dançar como estavam dançando antes e se divertindo como antes do acontecimento.

– Agora sim você pode ir lá e conhecer uma coisa bem melhor. – disse Annie, apontando para o primo, Thiago, que, por sua vez, olhava para mim, sorrindo.
– Vai lá amiga. Você não tem mais um encosto. – disse Vic sorrindo e me empurrando.

Voltei para a mesa onde Thiago estava e me sentei à mesa. Ele me olhava com uma cara de bobão, então eu não me segurei.

– Para de me olhar com essa cara de idiota, tá parecendo um abestado.
– Pedro era o seu namorado?
– Ficou afim de saber da minha vida agora?
– Bom... Já sei o colégio que você estuda, agora tenho que saber o resto, né?

O sorriso dele me confortava. Quando ele sorria parecia que o mundo que estava em nossa volta ficava todo embaçado, como nas fotos, e só existia eu e ele ali conversando. Um papo bom, até.

– Ok. Vamos começar tudo de novo então, pode ser? – eu disse sorrindo.
– Tá bom. Como você preferir.
– Foi bom ter jogado bebida em você. – eu disse entre risos.
– Sabia que tinha gostado disso. De ver agora minha blusa completamente manchada, né?
– Nem adianta, a oferta já passou. Nem vou comprar outra agora.
– Mas eu... – cortei-o.
– Tarde demais, já disse. – comecei a rir.

Thiago, então, levantou-se e estendeu a mão para que eu levantasse e fosse com ele há algum lugar o qual eu não fazia ideia. Bom... afinal, ele era primo dela, talvez conhecesse muito bem a casa.

Estendi minha mão até segurar a dele. Sorri. E me levantei e fui seguindo seus passos de mãos dadas com ele. Entramos dentro da casa de Annie, não podíamos entrar, ela deu ordens para ninguém entrar dentro de casa, afinal, já tinha tudo o que precisava lá fora. Então parei e o puxei para trás.

– Tá maluco? Annie disse para ninguém entrar dentro da casa dela.
– Se esqueceu que eu sou primo dela?
– Tá, mas... – olhei para o lado e vi que Annie fazia um sinal de positivo com as mãos, então olhei para ele e continuei seguindo-o de mãos dadas.

Entramos na gigante mansão de Annie, era tudo perfeito. Dava para se ver no chão de tão limpo que era, refletia como um espelho. Os lustres eram de cristal. O corredor tinham grandes quadros de vários artistas famosos, aposto que eram quadros originais.
– Esses quadros são... – sim, eu fui cortada, como sempre!
– São originais sim.

Passei a mão de leve sobre os quadros, sentindo cada imagem, olhando bem de perto cada detalhe da obra mais famosa de Leonardo da Vinci, Mona Lisa. Eu simplesmente adorava arte, adorava fazer quadros. Nos meus tempos livres eu gostava de pintar quadros. E acho que ele percebeu isso.

– Gosta da arte de Leonardo da Vinci? – Sim.

Então, ele pegou minha mão que estava deslizando pelos quadros e eu olhei para ele que, por sua vez, me olhava com um olhar penetrante, dentro dos meus olhos. Os olhos dele eram azuis bem claros, tinha o cabelo liso e bagunçado castanho claro. Ele foi se aproximando do meu rosto, soltou uma das minhas mãos que estava segurando e colocou a mão em meu rosto e foi se aproximando. Abaixei meu rosto, olhando diretamente para baixo, ele segurou em meu queixo e levantou meu rosto, então eu sorri.

– Seu rosto é tão bonito, pra que esconder?
– Não estou escondendo, só estou... er... – sorri novamente, sem respostas.

Ele voltou a segurar em minhas mãos, afastou-se e foi andando na minha frente. Eu fiquei parada, não sabia se seguia. “Para onde ele estava me levando?”, e a pergunta ecoava em minha mente.

– Vem comigo. Pode confiar. – disse ele apertando minha mão

Acabei indo com ele. Subimos as grandes escadas da mansão, fomos parar em um corredor onde tinha várias portas nos lados, deviam ser os quartos. Mas ele continuou seguindo, porque bem no fim desse corredor tinha uma varanda que dava para ver tudo lá de cima. Vimos a festa toda lá de cima, todo mundo.

– Pra que olhar pra festa? Olha o céu.

Então eu levantei minha cabeça e vi o céu. Com muitas estrelas brilhando e uma lua cheia enorme, parecia que nós estávamos pertinho dela, pois ela estava muito grande.

– Realmente, muito bonita a visão.

Ele olhou para mim, sorriu. Acho que estava meio tímido, porque se fosse outro garoto já teria me beijado. Mas ele percebeu que depois da briga que eu tive com o Pedro só queria descansar um pouco a mente, parar para pensar mais em quem escolho antes de começar outro romance. Então... Preferimos sermos somente amigos.

Depois ficamos um conhecendo o outro lá em cima na varanda, sentamos lá e ficamos conversando. Quando já eram 2 horas da manhã, Vic me ligou para saber onde eu estava, então decidimos descer para ir embora, ele iria dormir na mansão mesmo, mas eu teria que ir para casa. Ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar, segurei as mãos dele com força e levantei.

– Então... Te vejo segunda, pode ser? Eu passo lá no seu colégio na hora da saída, e quem sabe a gente não toma um sorvete juntos ou vai em alguma lanchonete.

– Tá, pode ser. –sorri

Fomos embora de táxi, eu fui levando a Vic apoiada nos meus ombros, porque esse ser não se aguentava em pé de tanto que havia bebido. Dentro do táxi ela ficou rindo à toa e conversando coisas sem sentido com o motorista. E eu não parava de rir.

Chegando em casa, vi minha mãe dormindo no sofá com a televisão ligada, com certeza ela estava me esperando chegar. Aproximei-me dela e dei um beijo em sua testa, ela sorriu, mas continuou dormindo. Desliguei a televisão da sala e subi para o meu quarto. Estava morrendo de sono, mas ao mesmo tempo pensando naquele ser que surgiu em minha vida nessa noite no momento certo. Aproximei-me da minha cama, ajoelhei e abri um pouco a cortina da janela do meu quarto e fiquei observando o céu estrelado. A janela do meu quarto se localizava em cima da minha cama, sorte a minha, porque dava para dormir observando aquela noite linda. Então só tirei o salto e joguei no chão, estava ocupada demais observando o céu para ir tomar banho. Então, daquele jeito mesmo em que eu estava, simplesmente adormeci. Olhando para o céu pela janela do meu quarto e me perguntando como ele surgiu. Será que isso fazia parte da minha vida? Do meu destino? Como será daqui pra frente a minha vida, depois que terminei com Pedro? Éramos o casal do ano, já estava ficando uma coisa meio falsa de uns tempos para cá.

Acordei no dia “seguinte” (porque, na verdade, quando eu fui dormir já era o dia seguinte, enfim) 13h30 da tarde. E eu me senti diferente e me lembrei do que tinha acontecido, peguei a bolsa que tinha levado para a festa porque tinha esquecido meu celular dentro dela. E foi aí que vi a carta, sim, aquela carta do “Anônimo”, tinha esquecido completamente dela, nós - eu e Vic - iríamos abrir ela dentro do táxi, mas foi tudo tão rápido que acabei me esquecendo. Então peguei o meu celular e liguei direto para a casa dela, porque se ela estivesse dormindo alguém iria acordá-la.

Chamava, chamava, chamava... e ninguém atendia. Será que ela saiu? Então... decidi ligar para o celular dela. Deu um toque, deu o segundo toque...

– Saaaaami, ai, que bom que você me ligou! Você não sabe o que aconteceu!
– Onde você tá, Vic?
– Estou aqui na lanchonete perto do colégio, vem pra cá, tá todo mundo aqui.
– Cara, sabe o que eu achei dentro da minha bolsa?
– Não. O quê?
– A carta. Lembra?
– Aaaaaaaai, meu Deus, eu tinha me esquecido completamente. Peraí, tô indo ai pra sua casa já, correndo.
– Tá, vou te esperar aqui. Você almoça aqui, tá?
– Beleza, uhul... vou comer às custas da Sami de novo.
– Vou começar a cobrar.
– Tá, tá, juro que parei.

Nós duas rimos e desligamos o telefone. Desci as escadas e fui para a cozinha falar com a minha mãe.

– Boa tarde, mãe! – abracei e dei um beijo nela enquanto ela estava na cozinha cortando tomates.
– É, boa tarde, né? Pensei que tinha morrido.
– É que a noite ontem foi super cansativa e ao mesmo tempo muito legal.
– Me conte.

Peguei uma maçã na geladeira e sentei no banquinho da bancada da cozinha e então comecei a contar. Eu sempre contava TUDO para a minha mãe, eu achava que ela teria que ser a primeira a saber, afinal... ela é minha mãe e minha melhor amiga também.

– Eu terminei com o Pedro, eu o vi beijando outra lá na festa, descaradamente.
– Que safado!
– É, aí fui e terminei com ele, e depois a Annie e a Vic humilharam ele na frente de todo mundo, a música até parou de tocar.
– Sério, filha? Nossa, se eu fosse ele nunca mais entraria no seu caminho.
– Pois é, né? E depois a Annie expulsou ele da festa. Mas antes, eu estava sentada na mesa junto com o Thiago, ele é tão fofo, ele é primo da Annie. Eu me esbarrei com ele na entrada da festa, porque estava procurando a Vic, que havia sumido no meio da galera.
– Como sempre, né?
– É, aí começou a tocar minha música favorita, eu fui dançar feito uma louca e esbarrei no Thiago, que estava com uma bebida na mão, aí sujou a blusa dele toda.
– Nossa, que forma bonita de se conhecer um garoto.
– Ah, mãe, mas ele é fofo e nem ligou muito. Depois eu entrei na mansão da Annie com ele, nossa... lá é muito grande e tem muitos quadros famosos e originais!
– Em falar nisso, tenho que comprar mais quadros para você pintar.
– É, né? Mas, enfim, aí a gente foi pra varanda da Annie e lá dava pra ver tudo, o céu estava lindo ontem.
– Eu fiquei te esperando, mas aí fiquei com sono e acho que dormi.
– É, quando eu cheguei você estava esparramada no sofá. – eu disse rindo e ela riu também.
– Mãe, vou tomar meu banho porque a Vic tá vindo aí, tá? Ela vai almoçar com a gente, se importa?
– Não, não. Vic já é de casa.
– Obrigada!

Levantei, dei um beijo na bochecha da minha mãe e subi as escadas para tomar um banho. Meu dia estava perfeitamente bem. Tinha acordado bem, estava tendo uma bela “manhã” (que na verdade era tarde, já).

Continua...


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