Eu não aguentava mais ficar trancada no quarto. Sentia-me em um mundo ao qual não pertencia. Apesar de tudo, o Brasil não era mais o meu lar. Desde que cheguei aqui, ninguém havia falado nada. Nenhuma pergunta de por que ou como foi feita. Meus pais fingiam que não sabiam da minha gravidez e eu disfarçava que não sabia que eles tinham conhecimento de que estava grávida.
O fato era que minha barriga já estava tomando forma e eu sentia os olhares de reprovação da vizinhança conservadora. Por isso não queria sair de casa. Na verdade, minha vida se resumia a ficar no quarto relembrando os anos que passei ao lado do McFly. Sentia falta de cada detalhe que pudesse passar despercebido. Seja como null sempre esquecia seus pertences nos camarins das casas de shows, null com a mania dele de colecionar coisas estranhas, das palavras que null falava toda vez que eu precisava ouvi-las, e de null. Como eu sentia falta do null. De cada detalhe, de cada coisa que ele fazia e me irritava. Quando o cara deixava de propósito a toalha molhada em cima da cama só pra me ouvir gritar o seu nome de forma autoritária. Ou quando eu preparava algo para comermos e ele chegava de mansinho para me abraçar por trás. Aqueles minutos pareciam horas quando eu sentia o carinho de null sobre o meu ventre e a respiração pesada me arrepiando na nuca.
Dedilhei meus próprios dedos de forma delicada sobre minha barriga. Eu podia sentir aquela vida pequenina crescendo dentro de mim. Gostaria que null também sentisse aquilo. Sentia-me sozinha, apesar de agora ter alguém que estava comigo vinte e quatro horas por dia. Não sabia se podia contar com meus pais para criar aquela criança. Eu mal sabia se continuaria ali naquela casa. Talvez estivesse pedindo demais. Havia saído de casa querendo ser independente, viver minha vida em um país distante, e, quando as coisas ficaram feias, simplesmente volto trazendo um problema como este para eles me ajudarem. Não era certo. Era eu quem devia lidar com isso.
Meu celular começou a vibrar no criado-mudo ao lado da cama. Só o olhei antes de me deitar na cama, fitando o teto. Havia perdido as contas de quantas vezes rejeitei ligações de um dos garotos. Todos me ligavam o tempo inteiro nesses cinco meses que eu já estava no Brasil. Estava numa situação em que eu ficava tentada a atendê-los só para saber como estavam.
Será que null estava se lembrando de não comer frutos do mar?
Eu me sentia cansada. Não sabia se isso tinha algo a ver com a gravidez ou com o fato de eu não parar de pensar naqueles quatrro (ou em um em especial) por um segundo sequer. Como será que null andava? Será que estava com Juliet? Eles estavam juntos no dia que fui embora, não estavam? Provavelmente estão juntos. Tenho certeza disso. Talvez fosse melhor mesmo. Apesar de todos os defeitos dela, Juliet nasceu para viver sob os holofotes. Eu não. Mal sabia lidar com o título "esposa de null null do McFly" que aparecia junto ao meu nome em tudo quanto que é lugar. Na verdade, eu dispensava isso.
Tudo seria tão mais fácil se null fosse ninguém, assim como eu. Ele podia ser bancário. Acordaríamos todos os dias às seis e meia da manhã. Eu prepararia o café com torradas e bacon, como o rapaz gostava de comer. Ligaria a televisão para assistirmos às notícias, enquanto tomávamos o café da manhã. null, como de costume, derramaria um pouco de café quente na gravata e eu diria que ele nunca deixaria de ser desajeitado. Depois de trocar a gravata, null me daria um beijo de despedida e pediria alguma coisa especial para o jantar. Eu passaria o dia cuidando da casa e das crianças. Talvez até arranjasse um trabalho de meio período para ajudar nas despesas. Eu passaria para pegar as crianças na escola às seis da tarde e chegaria a casa a tempo de preparar o jantar e esperar null com o meu melhor vestido de cetim. Jantaríamos em família e, depois de ele contar uma história para as crianças dormirem, ficaríamos namorando um pouco na sala, antes de irmos para o quanto e fazermos amor. Talvez, se trabalhássemos o suficiente durante o ano, poderíamos juntar dinheiro e levar as crianças para conhecer a Disney nas férias de verão.
Quando dei por mim, havia fantasiado toda uma vida perfeita ao lado de null. Mas ela nunca aconteceria. Não éramos pessoas comuns. Ou melhor, null não era. Eu não o via fazendo outra coisa a não ser cantar e criar aquelas melodias perfeitas. null tinha nascido para ser artista e eu nasci apenas para viver. E nada que eu fizesse, ou o quant desejasse, mudaria isso.
1. If You Ever Come Back
null estava sentada na cama, dobrando algumas peças de roupas. O quarto já não era o mesmo. Ela estava de costas, mas pôde ouvir alguém abrindo a porta do quarto e dar passos lugar adentro. A mulher nem precisou se virar para saber quem era, pois já sentiu duas mãozinhas pequenas taparem os seus olhos.
– Adivinhe quem é, mamãe! – a pequena garotinha, dona das mãos tão pequeninas, perguntou de forma óbvia. null deixou a toalha de lado e colocou as mãos sobre as dela.
– Deixe-me pensar. É a Cinderela? – perguntou, entrando na brincadeira da filha.
– Não sou! – a pequena deu risada de forma sapeca, ainda tomando cuidado para que a mãe não abrisse os olhos.
– É a Branca de Neve? – null tentou novamente adivinhar quem ela seria hoje. É uma brincadeira que sempre faziam todo fim de semana. Elas podiam ser quem quisessem, apenas por diversão.
– Claro que não, mamãe! – null sentiu Stella tirar suas mãozinhas dos seus olhos e então pôde se virar para fitá-la. A menina ainda estava de pijama de ursinhos e com sua pelúcia do Linguado nos braços.
– A Pequena Sereia! – falaram juntas com um sorriso no rosto. Era óbvio. A Pequena Sereia era incrivelmente a personagem preferida de Stella. Será que esse tipo de coisa vinha no DNA?
– Que tal você tirar esse pijama e comermos alguns waffles de chocolate? – null perguntou, já guardando as últimas peças de roupa na cômoda.
– Yey, waffles! – Stella saiu comemorando do quarto com o Linguado acima da cabeça. A mãe sorriu, observando-a. Ela achava a filha linda, mas estava um pouco decepcionada por a garota se parecer tanto com ela. Os cabelos castanhos claros e os olhos azuis que null possuiu até os oito anos de idade. Talvez Stella tivesse sorte e ficasse com eles por toda a vida. A única coisa que lembrava null, ou qualquer um dos garotos, era a pele branquinha dela, quase transparente. Poderia dizer que Stella era tipicamente britânica.
null caminhou devagar até a cozinha para começar a preparar os waffles. Pegou os ingredientes e uma vasilha de Inox para misturá-los. Stella chegou ali já trocada. A pequena vestia um short jeans e uma camiseta da Minnie. Ela conversava animada alguma coisa com o bichinho de pelúcia.
– Mamãe, eu e o Linguado estamos com saudades da vovó – Stella disse, sentando-se na cadeira em frente à bancada da cozinha. Fazia umas boas semanas que null não visitava a sua mãe. A vida sempre fica mais corrida quando estamos de férias do trabalho e achamos que deveria ser ao contrário.
– Eu sei, querida. Que tal passarmos o dia de amanhã lá com ela e o vovô? – decidiu, enquanto colocava algumas colheres de chocolate na vasilha e misturava com o restante da massa. Stella assentiu, concordando, e já voltava a atenção à pelúcia em suas mãos. Logo quando o bebê nasceu, as duas saíram da casa dos pais de null. A garota não aguentava mais os olhares tortos da vizinhança conservadora. Ela só queria respirar, criar a filha em paz. Alugou um apartamento pequeno no subúrbio da pequena cidade onde moravam.
– Eba! – Stella tamborilou os dedos sobre o balcão, enquanto null retirava um waffle da máquina e o colocava sobre o seu prato. A mãe a ajudou a cortá-lo em pequenos pedaços para que ficasse mais fácil de ela comer.
Stella contava sobre um episódio de Bob Esponja quando ouviram batidas na porta da sala. O prédio não era luxuoso, ou seja, não estranharam ninguém anunciar a visita, porque não tinham porteiro. Quem seria logo cedo? Provavelmente a senhora Martins, a vizinha. Ela era muito simpática e sempre cuidava de Stella quando null precisava sair e não podia levá-la. Mas não foi a senhora Martins que ela viu quando abriu a porta de madeira da sala. null null estava lá, parado, escorado na madeira antiga do batente.
null estava diferente. Os cabelos estavam bem curtos, algumas tatuagens a mais. Há alguns anos, null não diria que aquele era o null que andava com as calças nos joelhos, mas o brilho de seus olhos ainda era o mesmo. A garota ficou muito tempo parado, catatônica, apenas encarando o passado batendo à porta. null também não disse nada, mas a observava de volta com a mesma intensidade. Ela também estava diferente. Os cabelos castanhos estavam de volta. null não usava mais as cinco cores nos cabelos que cultivava desde o casamento. A moça havia adquirido provavelmente algumas olheiras que não tinha há seis anos.
null despertou do transe quando sentiu Stella se agarrando à sua perna de forma envergonhada. Os olhos azuis da garotinha saltavam em curiosidade, observando null.
– Quem é ele, mamãe? – a pequena perguntou, ainda encarando null à sua frente. Só a voz de Stella que o fez desviar os olhos de null e encarar a criancinha, com a expressão curiosa por provavelmente não entender o que ela falava em português.
– É ela, null? – null finalmente se pronunciou, ainda sem sair do lugar. E a mulher não conseguia respondê-los. Ainda não conseguia despertar e acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.
– Sou eu o quê? – Stella respondeu null, em inglês. Um pouco mais confiante, já saía de trás da mãe para visualizá-lo de perto. Essa atitude da pequena fez null arregalar os olhos e abrir a boca descrente.
– Querida, por que você não termina de assistir a Bob Esponja enquanto a mamãe conversa com ele? – null disse em português, colocando uma das mãos sobre o ombro da filha, quando viu que ela iria se aproximar de null. Ela não podia deixar as coisas fugirem de controle. Stella apenas assentiu e deu meia volta em direção à sala.
– Você não vai entrar? – null perguntou a null, indicando o interior do apartamento com a cabeça. Ele seguiu direto até a bancada da cozinha e se sentou em um dos banquinhos como o que estavam sentadas há pouco.
– Ela tem seis anos? – null perguntou assim que null se sentou à frente dele.
– Cinco – a mulher respondeu enquanto servia um waffle com mel para null. null não ligava para o fato de que ele deveria saber quantos anos a filha dela tinha. Afinal, estamos falando de null null. Ele não é bom com contas ou qualquer outra coisa do tipo.
– E já fala inglês fluente? – ele já colocava um pedaço considerável do doce na boca.
– Conversamos em inglês diariamente desde que ela começou a falar – ela remexeu no meu próprio waffle, enquanto falava. Era uma desculpa boa para não encará-lo nos olhos.
– Também pudera... Filha do null – null girou os olhos nas órbitas. null levantou o próprio olhar do prato para encará-lo, mas, ao contrário dele, a moça não sorria. Era como se tudo de que ela tentara se esconder esse tempo todo estivesse bem ali, sentado em sua cozinha.
– null... – null deixou o garfo ao lado do prato e segurou a mão da mulher que estava sobre a bancada. – Você não sabe o que tive que fazer para encontrá-la aqui.
– Pensei que vocês tinham desistido. As ligações pararam faz alguns anos – ela apertou os dedos em sua própria mão. Era bom sentir que eles ainda pensavam nela tanto quanto null pensava neles todos os dias.
– Isso nunca aconteceu. Mas por que você sumiu assim, escondeu-a da gente? – null já estava com seus braços sobre o balcão e com o tronco projetado em direção à garota. Ela encolheu os ombros de forma defensiva.
– Seus waffles vão esfriar, null – foi o que null conseguiu dizer. Estúpido, eu sei.
– null, não atravessei o oceano e vim aqui depois de seis anos para comer waffles.
Ela se forçou a encará-lo. Ao fundo, atrás dele, null podia ver Stella balançando os pezinhos para fora do sofá, enquanto cantava com Linguado o tema de abertura de Hamtaro.
– Eu não pertencia àquele lugar, null, e só me dei conta disso quando vi que null poderia se apaixonar tão facilmente por outra mulher. Até uma que ele nem conhece pessoalmente – era difícil verbalizar uma coisa dessas. null se sentia estúpida falando aquilo, sendo que aquela mulher sempre fora ela mesma.
– Você era Stella, null! – null sentenciou incrédulo, como se dissesse que dois e dois eram quatro.
– Mas poderia não ser. Essa é a questão, null. Eu e null sempre fomos diferentes demais. Seria impossível durar para sempre. Decidi me afastar antes que nos machucássemos demais – null fitou as próprias mãos sobre o colo.
– Você decidiu isso e então foi embora? Sem nem dizer adeus? Com uma filha dele crescendo dentro de você?! – as palavras de null eram duras e tudo que ela fez parecia tão sem sentido quando ele a julgava dessa forma.
– Eu só queria o melhor para o null, null. Queria que ele pudesse ser um rockstar com todo o glamour que merece, com alguém que saiba lidar com isso ao lado dele. Talvez Juliet seja mesmo a pessoa indicada para null. Acredito que eles estejam bem juntos – mentira. Ela não queria. Quer dizer, queria que null estivesse, bem... Estivesse feliz. Mas não queria que ele e Juliet estivessem juntos. Não com Juliet. Talvez esse fosse um dos motivos de null ter se isolado de qualquer notícia de McFly todo esse tempo. Não suportaria ver uma foto dos dois juntos e felizes.
– null, do que você está falando? – a voz de null soou depois de algum tempo, fazendo a garota levantar a cabeça e fitá-lo com a expressão confusa. – Você não sabe de nada do que aconteceu todos estes anos. Não é mesmo?
– Como assim?
null depositou um grosso livro sobre a bancada e o empurrou até que ele ficasse sob a visão de null. Ela piscou duas vezes, enquanto se decidia se olhava para o garoto ou para o livro. Só agora a moça se dava conta de que o cara havia trazido aquilo com ele.
– Não existe mais McFly, null – null completou, observando o rosto incrédulo da garota. Os olhos dela saltavam, enquanto lia o título do livro que possuía uma foto da banda na capa. ?Unsaid Things: Nossa História?.
2. Words Don’t Come Easy
null estava sentada no sofá, com as pernas cruzadas sobre o assento. Fazia alguns minutos que ela encarava o grosso livro de capa dura que null havia trazido mais cedo sobre a mesinha de centro da sala. Já era início de noite e a pequena Stella dormia em seu quarto, cansada por ter brincado a tarde inteira. Depois da conversa de meias palavras que se travou entre null e null, ele não demorou muito mais por ali. Com o consentimento da garota, trocou algumas palavras com a pequena Stella, que lhe apresentou Linguado como seu melhor amigo. Tudo o que o rapaz disse antes de ir embora foi para que ela lesse o livro e, assim que o fizesse, ligasse para ele.
Era por esse motivo que null encarava sem coragem o objeto sobre a mesa. Ela sabia que dentro dele teria mais informações como aquela que o “McFly já não existia”, as quais ela não suportaria saber mais. Mas era algo que tinha que saber e entender cada detalhe da história da qual não fez parte por estes seis anos.
null se curvou, esticando-se o necessário até que sentisse a capa dura do livros sob as pontas de seus dedos. Agarrou os mesmos no objeto e o colocou sobre suas pernas. Perdeu alguns minutos dedilhando o rosto de null na fotografia até tomar coragem de abrir na primeira página.
Quando null deu por si, já era de madrugada e ela continuava devorando cada página daquele livro. Deitada no sofá, com a cabeça sob o braço do móvel, parou por um momento quando notou o seu nome escrito como título do próximo capítulo. Até então, os relatos só tratavam dos primeiros anos da banda e da vida de cada um dos integrantes antes de conhecerem uns aos outros. A essa altura da história, a banda estava em seu auge e a garota devia imaginar que seria citada, mas ter um capítulo só pra si era pretensão demais para alguém como ela.
“Era inverno. Tanto o McFly quanto o frio estavam em seu auge na Inglaterra, quando null passou a fazer parte da banda. A princípio, eu mal olhava pra ela. Como vocês sabem, não estava na minha melhor fase e não me envergonho de admitir isso. Eu era um merda. Fletch me odiava, os caras me odiavam. Posso dizer que até eu mesmo me odiava. Mal sabia como ainda tinha fãs. Porém, ela nunca me abandonou totalmente, apesar de eu sempre ser sarcástico e fazer dos dias dela um inferno. null sempre era a primeira a cuidar de mim quando eu mais precisava.
Eu me lembro exatamente do dia em que a bomba estourou de vez. Fletch me chamou para uma reunião só nós dois e dei por mim que estava ferrando com tudo. O McFly estava a ponto de terminar e mais da metade da culpa era minha e da minha péssima imagem pública. Eu disse péssima? Na verdade, nem tinha mais imagem alguma. Faltava em coletivas, entrevistas, quando não aparecia bêbado ou falava mais do que devia. Foi naquele dia que notei que não tinha a menor ideia da aonde eu queria chegar fazendo aquilo.
Simplesmente desapareci em uma das escadas de incêndio do prédio e fiquei lá durante horas, fumando e relendo uma das piores matérias de jornal a meu respeito. null me surpreendeu quando apareceu ali e, apesar de tudo que eu sempre fazia para atingi-la, a garota simplesmente se sentou ao meu lado e me abraçou, dizendo que ficaria tudo bem.
É aqui que admito que tudo foi armado.
O casamento foi ideia de Fletch para eu parecer ser um cara legal e para que ela pudesse continuar na Inglaterra. Bem, toda essa brincadeira saiu do controle. Preciso dizer que o que achava que seria a pior coisa que eu faria na vida foi na verdade a única da qual não me arrependo ter feito: casar-me com null.
A princípio, cada dia foi como sobreviver no inferno. Éramos duas pessoas opostas, que eram obrigadas a viver sob o mesmo teto. Pensei muitas vezes em desistir, em apenas sair na rua e gritar para quem quisesse ouvir que não éramos casados e que aquilo tudo havia sido um erro. Aposto que null também pensava isso às vezes, mas não demorou muito para as coisas mudarem de situação.
Depois de falhar muitas vezes, dei por mim que não poderia mais viver sem ela. null passou a ser a única pessoa com a qual eu me importava. Mais do que comigo mesmo – e acreditem que isso era demais para alguém egoísta como eu.
Aquela brincadeira de casinha foi se tornando naturalmente coisa de gente grande. Porém, como tudo o que tive até hoje na vida, deixei escorrer pelos meus dedos. Toda aquela felicidade e a realidade que parecia ser perfeita demais para existir simplesmente se foram e já não sei mais o que fazer para concertá-la. Talvez ela não possa ser refeita, por mais que você implore e deseje isso... Alguém uma vez me disse que desculpas são apenas palavras.”
null mal tinha terminado de ler o capítulo e já sentia as lágrimas escorrendo por seu rosto de forma desesperada. O livro escapou por seus dedos e fez um barulho oco quando se chocou com o chão, virando algumas páginas de forma aleatória. Ela podia sentir a tristeza e a culpa percorrendo cada parte de seu corpo, preenchendo seu coração de forma insuportável. Como se sentia estúpida por ter tomado decisões precipitadas e ainda mais por só ter se dado conta disso agora, tantos anos depois, tantas vidas destruídas mais tarde.
Ler aquelas palavras, de como null se sentia depois de tudo que aconteceu, deixou a garota atordoada e com os sentimentos vagando em um misto de saudades e arrependimento. Podia sentir a mágoa dele em cada palavra que leu, em cada vírgula que sentenciou. Talvez o rapaz nunca a perdoasse. null mal sabia se ela mesma a perdoaria por tanta estupidez. Quem queria enganar? Passou os últimos seis anos se escondendo e escondendo Stella das pessoas que mais amava no mundo. Era óbvio que não sabia o que estava fazendo, que não sabia mais viver sem null ao seu lado, porém era tarde demais.
A garota passou as mãos pelo rosto, proibindo-se de chorar mais. Era isso. Ela já havia lido o suficiente. Não conseguiria perder mais tempo sem tomar alguma atitude sobre aquilo.
Era domingo. null havia deixado Stella com seus pais, mas não passaria o dia com eles como prometera. Não se permitiria fazer isso quando seus pensamentos estavam inundados de coisas ruins, acusando-a por ter tomado decisões precipitadas. Foi por esse mesmo motivo que correu o mais depressa que pôde quando ouviu algumas batidas na porta. Desta vez, não se admirou por ver null ali esperando ser convidado para entrar, porque havia sido ela mesma que o convidou desta vez.
– null... – null o abraçou forte e, quando deu por si, as lágrimas já caíam sem pedir nem uma permissão sequer.
– Você terminou de ler? – o cara já estava sentado no sofá da sala, com a garota andando sem paciência à sua frente.
– Não consegui. Não consegui esperar depois de ler aquele capítulo – null ainda chorava, um pouco mais controlada do que antes.
– O seu capítulo? – null continuou, quando ela assentiu concordando. – É, imaginei que isso fosse acontecer. null também escreveu sobre você, mas foi vetado. Fletch achou que não era uma boa idéia contar que vocês se envolveram antes do casamento.
– Meu Deus! – foi tudo o que a menina conseguiu dizer, finalmente se sentando ao lado do garoto, enquanto escondia o rosto entre as mãos.
– null, você precisa voltar – null abaixou o tom de voz, observando a garota desvencilhar das próprias mãos e olhá-lo nos olhos. – As coisas saíram mesmo do controle. null e null passaram a culpar um ao outro por você ter ido embora... Até que a convivência da banda ficou insuportável. O resto você já sabe.
– E então o McFly se... Separou? – ela forçou a garganta para que as últimas palavras fossem pronunciadas. null ainda não acreditava que aquilo era verdade. Como o McFly não existia mais? A banda que sempre foi tão unida, os caras sempre tão irmãos e... Mas espere. Levantou o rosto e encarou null de forma incrédula, como se só agora houvesse processado as palavras que ele havia dito. – Por minha causa?
– Eu não diria que foi por sua causa, null... Porém, null realmente surtou depois que você foi embora. Eu não diria que foram os anos mais fáceis de conviver com ele – apoiou os braços sobre os joelhos e envergou o corpo sobre eles, tentando retirar um pouco do peso que sentia sobre suas costas. Depois que as coisas deram a desandar, null se sentiu responsável por tentar colocá-las novamente nos eixos. Ele foi o único que não se conformou com o fim da banda.
– null e null estão tocando em uma banda de um amigo deles, mas null praticamente não sai de casa, null – null levantou um pouco a cabeça para fitá-la nos olhos, tentando notar a reação da garota. Não foi das melhores. Os olhos dela voltaram a marejar e ele podia jurar que ela voltaria chorar a qualquer momento. – Agora ele escreve músicas para boybands, como o One Direction, e preciso dizer que nem parecem que é o null quem escreve.
Ninguém disse nada por um bom tempo. null observava, atento, os olhos marejados da garota, que encarava catatônica a parede branca do outro lado da sala. Ele pousou as mãos sobre as dela, tentando confortá-la.
– Você é a única que pode me ajudar a consertar toda essa bagunça, null. O que me diz? – a moça encarou null, quando esse continuou o assunto inacabado de minutos atrás. Demorou um pouco para que ela apenas assentisse com a cabeça, o que resultou em um null a abraçando com toda a força que podia.
– Vou voltar com você para Londres, null. Vamos resolver isso. Eu vou... Consertar todos os meus erros – null encarou os olhos do garoto e recebeu um “obrigado” em troca, ciente de que dessa vez faria as escolhas certas.
3. I’ll be Your Man
O céu londrino estava nublado. null lembrava que ele também estava assim no dia que foi embora. Stella dormia quietinha no banco ao seu lado e com os braços agarrando Linguado, seu amigo inseparável. null não quis acordar a filha, quando anunciaram que logo o avião pousaria. null a cutucou do banco de trás, fazendo com que ela virasse um pouco a cabeça para fitá-lo sorrindo. Fazia tempo que não via null sorrindo daquela forma.
– Já estamos chegando... E obrigado mais uma vez, null – foi o que ele disse, remexendo-se inquieto em seu assento.
– Já disse que não precisa me agradecer. Preciso consertar toda essa bagunça, null, ou não conseguiria continuar vivendo – sussurrou com a preocupação de não acordar a garotinha ao seu lado.
Quando o avião finalmente pousou, null se ofereceu para carregar a pequena Stella no colo, já que ela parecia dormir tão profundamente que nenhum dos dois teve coragem de acordá-la. Na verdade, null sentiu saudades de tudo aquilo. Do ar londrino, de como a cidade ficava linda toda iluminada à noite ou do movimento das pessoas. Nenhum lugar do mundo era igual a Londres e nunca seria. Se algum dia null já teve dúvida de se ela pertencia àquele lugar ou não, agora não tinha uma sequer. Ali era o seu lar, onde se sentia verdadeira, onde havia amadurecido e aprendido a viver por si só. Era onde tinha cometido o maior erro de sua vida, mas os maiores acertos também. null era de Londres, Londres era null.
Ela estava tão distraída com Stella em seu colo, enquanto observava a cidade pela janela do carro, que nem percebeu quando chegaram à casa de null. Ele havia oferecido para que elas passassem algum tempo por ali, já que ela não tinha mais seu apartamento. null também não sabia muito o que fazer. A única coisa que tinha planejado de imediato era que deveria resolver o “problema McFly” para só depois resolver os seus próprios.
– Mamãe, já chegamos? – Stella resmungou, coçando os olhos com as mãos fechadas em punho, remexendo-se na cama em que null a havia colocado instantes atrás.
– Chegamos, sim, querida. Agora descanse. Está bem? – aproximou-se da filha, cobrindo-a até os ombros. A pequena assentiu e fechou os olhos, encolhendo-se dentro das cobertas. null deu um beijo tenro no topo da cabeça da garota. Teria certeza de que ela custaria a se acostumar com o frio da cidade.
– Ela já dormiu? – null sussurrou na porta do quarto, fazendo com que null se levantasse da cama com cuidado para encará-lo. A mulher levou o indicador até os lábios, incitando silêncio do rapaz, enquanto caminhava a passos largos até a porta.
– Não consigo acreditar que estou aqui de novo – os dois já desciam as escadas, quando null finalmente se pronunciou. Essa respirou fundo, prendendo os cabelos em um rabo-de-cavalo antes de se sentar no sofá. null se sentou ao seu lado, recostando-se ao encosto e colocando os pés sobre a mesinha de centro.
– Nem eu. Consigo ver um fio de luz no final desse pesadelo – ele inclinou a cabeça um pouco para o lado, conseguindo fitá-la nos olhos. null conseguia reconhecer a mesma garotinha que cuidava dele anos atrás. Ele tinha certeza de que a essência dela ainda estava ali, em algum lugar, sob os olhos cansados que ela agora exibia com frequência. – O que você vai fazer agora, null?
A mulher demorou um bocado para responder. O silêncio perdurou na sala por um tempo que null nem sabia definir o quanto durou. O garoto quase cochilava, convencido de que a resposta para sua pergunta não viria, quando null se pronunciou.
– A única coisa que sei agora é que preciso ver null – a voz dela soou fraca, como um segredo contado com receio de quem o ouvisse, mas null não reagiu mal. O rapaz apenas reabriu os olhos com a certeza de que aquilo era o que a menina deveria realmente fazer.
Aquilo era real?
Quando null saiu do táxi e seus olhos focaram a fachada daquele prédio, era aquilo que se perguntava sem parar. Aquilo era mesmo real? Ela já havia parado de contar quantas vezes tinha sonhado com aquele momento. Dez, vinte vezes já havia se imaginado naquela situação. Tudo que precisava fazer era respirar fundo e apertar o botão do elevador que indicava a cobertura. Não se admirou quando o porteiro não pediu para que fosse anunciada ou viu o olhar de surpresa que ele lançou em sua direção. Mal acreditava que aquele senhor a reconhecia depois de tanto tempo.
Suas mãos tremiam e foi por isso que ela se permitiu recostar ao metal gelado que revestia o elevador, enquanto observava os andares passando pelo visor digital. Era ali. null prendeu a respiração quando sentiu o elevador parando no andar que ela conhecia de olhos fechados. Ao que a porta se abriu, demorou alguns minutos, com as mãos impedindo que elas se fechassem. A moça encarava a porta além do hall de entrada como se pudesse enxergar o seu interior, com null sentado no sofá passando pelos canais da televisão sem se interessar realmente pelo conteúdo de algum deles. Como sentia falta destes detalhes rotineiros...
null deu mais um passo, permitindo com o que o elevador fechasse suas portas e seguisse seu rumo. Continuou com os pés sobre o capacho de entrada com os dizeres de “Bem-vindo” que ela se lembrava muito bem de quando havia comprado.
A garota levantou o braço, fechando as mãos em punho, preparada para bater na porta de madeira, porém viu sua mão parando no meio do caminho. Onde estava aquela coragem de vê-lo que a consumia durante todo o trajeto até ali? Mal havia dormido quando por fim decidiu que o visitaria na manhã seguinte. Agora nem conseguia raciocinar o que dizer quando null abrisse a porta. E se ele não estivesse em casa? Ou pior: e se estivesse acompanhado por alguém do sexo oposto?
null balançou a cabeça de forma negativa, como se aquele gesto pudesse expulsar esses pensamentos de dentro dela, por fim dando três batidas na madeira antes que desistisse de vez.
Não demorou muito para que a porta fosse aberta. Mal passaram dez segundos, mas para null aquilo havia durado uma eternidade. Os olhos de null estavam pesados. As olheiras saltavam em contraste com a pele branca de seu rosto. Os cabelos mais longos do que o natural e a barba por fazer combinavam com a camiseta velha e a boxer que ele vestia. A garota mordeu o lábio, encarando-o frágil daquela forma. Não era assim que se lembrava de null, sempre com um sorriso maliciosos nos lábios e um brilho infantil nos olhos.
– null, é você mesma desta vez? – o garoto sussurrou, com medo de que sua pergunta soasse tão ridícula em voz alta quanto parecia em seus pensamentos. null havia imaginado este reencontro de tantas formas diferentes, mas nenhuma delas se resumia a ele vestindo pijamas velhos depois de uma noite mal dormida.
null só conseguiu assentir confirmando, pois as lágrimas já não lhe permitiam falar mais nada. Ela esticou uma das mãos trêmulas e tocou as pontas dos dedos, contornando o rosto de null. Esse fechou os olhos quando sentiu os dedos delicados de null roçando sua barba por fazer.
Been all around the world.
(Estive ao redor do mundo.)
I never met a girl
(Nunca conheci uma garota)
That does the things you do
(Que faz as coisas que você faz)
And puts me in the mood.
(E me deixa com vontade.)
Ela não podia acreditar que null estava daquela forma por sua culpa, por conta da sua negligência e infantilidade. Maldita seja! Havia fodido com tudo de novo e de novo. Era só isso o que ela sabia fazer?
– Perdoe-me, perdoe-me, null... – null implorou aos sussurros, com as lágrimas impedindo que a voz soasse mais forte. A esta altura, ela já tinha a outra mão embrenhada nos cabelos da nuca do garoto como garantia para que ele não se esvaísse por entre seus dedos.
null a observou com os lábios entreabertos, sem acreditar que a menina era mesmo real. Repousou uma das mãos sobre a de null que ainda lhe tocava o rosto e a deslizou até o pescoço nu da garota, em que dedilhou sua clavícula com delicadeza. null sorriu pelo toque caloroso de null sobre sua pele. Nenhum dos dois se lembrava de quanto tempo passaram dessa forma, apenas sentindo um ao outro.
To love you and treat you right.
(De amá-la e tratá-la bem.)
So come here and close your eyes.
(Então venha aqui e feche os olhos.)
Lie back, release your mind
(Relaxe, liberte a sua mente)
And let the world fall down,
(E deixe o mundo desabar,)
While I'm by your side.
(Enquanto eu estou ao seu lado.)
null deu um passo a frente, roçando os lábios na bochecha da garota e depois no queixo, até encostá-los aos dela, apenas os deixando unidos por alguns instantes. null abriu os olhos vagarosamente, com a cortina de lágrimas a impedindo de vê-lo por completo. Uma de suas mãos deslizou minuciosa sobre os pelos por fazer da barba dele. Os lábios ainda estavam encostados um no outro sem segundas intenções. Ao menos até ali.
As mãos de null, que descansavam no corpo da garota, percorreram o caminho até sua cintura, puxando null para mais perto de si. Ela cambaleou um passo para frente, entreabrindo os lábios de surpresa. Não esperava uma proximidade tão rápida. Ela sentiu os pelos de sua nuca se arrepiarem quando null encostou o nariz ao seu pescoço, fazendo com que a respiração pesada dele lhe amolecesse as pernas.
A garota mal percebeu quando null fechou a porta atrás dela. Só conseguiu notar que não estavam mais no corredor do prédio, quando sentiu uma pontada de dor pelo contato brusco de suas costas com a maçaneta.
I'll be your man through the fire.
(Eu serei o seu homem pelo fogo.)
I'll hold your hand through the flames.
(Segurarei a sua mão nas chamas.)
I'll be the one you desire.
(Serei o seu único desejo.)
Honey, ‘cause I want you to understand
(Querida, pois quero que você entenda que)
I'll be your man,
(Eu serei o seu homem,)
I'll be your man.
(Eu serei o seu homem.)
null sentiu falta de ar quando notou a densidade do olhar de null a fitando. Ela não se lembrava de tê-lo visto daquela forma. Poderia jurar que era uma mistura de desejo e mágoa, mas não queria pensar naquilo agora. Não quando a sensação do toque quente dos lábios dele em seu pescoço lhe deixavam em êxtase como há tanto tempo não ficava.
A garota fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás, deixando o espaço livre para que null fizesse o que queria. null prendeu alguns dedos entre a gola da camiseta que ele vestia e os cabelos de sua nuca. null não parecia raciocinar. Quem observasse aquela cena diria que não era real. Todos os movimentos pareciam sincronizados o suficiente para um casal que não se tocava há mais de cinco anos.
Os corações de ambos começaram a bater mais compassados, quando as bocas se encontraram verdadeiramente. null podia sentir o gosto de álcool nos lábios dele, o gosto da tristeza transbordando naquele momento.
I can make it through the days,
(Posso sobreviver aos dias,)
The years can pass away.
(Os anos podem passar.)
There's lipstick on my face
(Tem batom no meu rosto)
And I love the way you taste
(E eu adoro o seu sabor.)
Ela soltou um gemido involuntário quando null a ergueu do chão. Envolveu os braços e pernas em volta do corpo dele para que null os conduzisse até o quarto. Chegando lá, o rapaz a deitou na cama e os dois retiraram as roupas sem mais delongas. null sentia as lágrimas brotando em seus olhos. Os lábios de null tocando cada centímetro de seu corpo, a barba rala lhe provocando arrepios e o êxtase que a invadia só de tê-lo novamente lhe despertavam sentimentos contraditórios: uma alegria incontrolável e uma mágoa que cultivava de si mesma por saber que era quem causara todo aquele sofrimento, toda aquela falta. Agora todos aqueles motivos plausíveis para ter ido embora pareciam tão... Banais e infundados.
Dedilhou com cuidado cada músculo do braço do garoto, lembrando-se de como ele soava prepotente com sua aparência. Agora null estava abatido, porém null se impedia de pensar na palavra “doente”. Não se perdoaria se o menino estivesse com uma anemia sequer. Não demorou muito para que ele a encarasse novamente nos olhos e iniciasse mais um beijo cheio de desejo e desculpas subentendidas.
And I'm right here, so lock the door,
(E estou bem aqui, então tranque a porta,)
‘Cause you need me, but I need you more.
(Pois você precisa de mim, mas eu preciso mais de você.)
And I don't care about your mistakes,
(E não me importo com os seus erros,)
‘Cause they all went away when I found you, Katie.
(Pois todos eles sumiram quando a conheci, Katie.)
Não demorou muito para que null se posicionasse entre as pernas de null. Normalmente, nenhum dos dois tinha tanta pressa para o ato em si, mas parecia que todos aqueles anos de tensão sexual reprimida faziam com que cada toque e sensação fossem multiplicados por mil. Ela mordeu os lábios quando sentiu null a penetrando vagarosamente. Os olhos do rapaz estavam vidrados nos dela e as mãos passeavam pelas curvas dos seios da garota sem nenhum pudor. null já podia sentir.
Naquele momento, com a garota sussurrando seu nome em seu ouvido, null era apenas a amante apaixonada de que null tanto sentiu falta. Sem arrependimentos, sem rancor, sem erros ou mentiras. E null, para null, era apenas o seu null. Talvez aquele bancário que imaginava, sem todo o glamour e problemas os quais ela não soube lidar. Ali, eles eram apenas dois amantes, sem palavras ou promessas que talvez nunca pudessem ser cumprida, o êxtase começando a se espalhar pelo corpo como há muito não sentia.
I'll be your man through the fire,
(Eu serei o seu homem pelo fogo,)
I'll hold your hand through the flames,
(Segurarei a sua mão nas chamas,)
I'll be the one you desire.
(Serei o seu único desejo.)
Honey, ‘cause I want you to understand
(Querida, pois quero que você entenda que)
I'll be your man,
(Eu serei o seu homem,)
I'll be your man.
(Eu serei o seu homem.)
4. If U C null
Já havia passado tempo o suficiente para que conseguissem controlar suas respirações. As roupas estavam jogadas por todos os cantos do quarto. Um fino lençol cobria os corpos nus dos dois. null mal conseguia piscar. Os seus olhos registravam cada traço do rosto anguloso de null. Ela não se perdoava por ter esquecido a forma com que ele fechava os olhos quando sorria ou as pequenas pintinhas que tinha nas bochechas.
null girou o corpo com cuidado para não acordá-lo. Colocou as pernas para fora da cama e juntou suas peças de roupas espalhadas pelo chão. A garota já havia colocado a calça e a blusa, quando notou null se revirando na cama. Prendeu a respiração, paralisando com os braços esticados para alcançar seus sapatos aos pés da cama. null se virou de lado, coçando os olhos com uma das mãos, enquanto tateava com a outra a cabeceira da cama, em busca de seus óculos. Assim que a armação preta emoldurou seu rosto, ele piscou algumas vezes, olhando em sua direção.
– Então você é mesmo real? – o rapaz disse em um sopro de voz, sentando-se na cama com os braços largados ao lado do tronco. Não podia ser verdade.
null ainda estava travada no mesmo lugar. O tom de voz que o garoto usou a fez estremecer de uma forma bem diferente da do dia anterior. Estava apavorada.
– Por que, null? Por que você fez isso?
Os ombros dela caíram em derrota. Mágoa. Era isso o que a voz de null transbordava e ela sabia que ele tinha todo o direito. null desistiu de calçar seus sapatos e girou o corpo, obrigando-se a encarar o garoto, mesmo que com o olhar baixo. Apesar de tudo, o menino estava terrivelmente lindo, sentado sobre os joelhos e com os lençóis cobrindo suas pernas. A pouca iluminação que ultrapassava a grossa cortina do quarto lambia a pele clara de seus ombros e reluzia dentre os fios de cabelo. Ela queria observá-lo daquela forma o dia inteiro se pudesse. Ali, sem roupas ou rótulos, ele era apenas o null pelo qual ela havia se apaixonado. O null que um dia a menina já chamou de seu.
null expirou o ar lentamente, sentindo as lágrimas acumulando em seus olhos. O que diria? Como se desculpar por tantos anos de mentiras, tantas pessoas feridas e vidas destruídas? Meu Deus, ela era o motivo do fim do McFly! Tudo que conseguiu fazer foi negar com a cabeça, desvencilhando do olhar do dele, quando sentiu as primeiras lágrimas molhando seu rosto.
– E o meu filho? Você o teve. Não teve, null? O que você me disse na carta... – null levantou o tronco para fitá-la mais de perto. Uma de suas mãos agarrava a raiz dos cabelos. Ele estava nervoso e não era pra menos. – Fale-me! Você sumiu cinco anos, aparece na minha porta de repente... Eu! null, eu mereço explicações.
– Eu... – ela levou as mãos até os olhos, impedindo de observar a raiva tomar o lugar do brilho esperançoso nos olhos de null. O que a menina deveria dizer? Desculpas não pareciam o suficiente agora. Todas as palavras que havia ensaiado dezenas de vezes pareciam voar soltas dentro da sua mente. null continuava jogando perguntas no ar, enquanto a moça tentava processar algo digno de resposta. Nunca imaginou que doeria tanto ouvir aquelas palavras da boca dele quanto estava doendo.
– null! – null elevou a voz mais uma vez, na tentativa de fazer com que ela o encarasse novamente. A garota retirou as mãos do rosto, sem conseguir controlar o choro que insistia em continuar. Qual era o problema consigo?
– Desculpe-me, null... – foi o que conseguiu dizer dentre as lágrimas, pegando enfim seus sapatos aos pés da cama e andando com passos apressados até a porta do quarto.
– Não vá embora, null! – o rapaz gritou quando percebeu qual era a intenção da garota. null jogou as cobertas para o lado e foi o mais depressa que conseguiu atrás dela, mas já era tarde. Só chegou a tempo de ouvir o barulho da porta batendo, quando chegou ao corredor entre os quartos.
Ele continuou parado no meio do apartamento, encarando a grande porta de madeira pela qual a garota havia saído. O cara não se importava de só vestir suas boxers ou de ainda nem ter acordado completamente. Tudo que mais desejava era que o que acabara de acontecer fosse mais um dos sonhos com null que sua mente insistia em criar todos esses anos. Mas ele sabia que desta vez era real. null ainda sentia o perfume cítrico que ela usava impregnado na sua pele desde o início do dia.
– Não vá embora de novo... – null murmurou, tal como um desejo que esperava que null cumprisse desta vez.
A garota andava apressada pelas ruas de Londres. Mal se importava de ter os sapatos nas mãos e as lágrimas caindo dos olhos. Só queria andar o mais depressa que podia para longe dali, para qualquer lugar. A avenida estava movimentada. Todos a observavam correr descalça, com olhares curiosos, imaginando o que a menina havia feito para andar daquela forma no meio da rua. Seus joelhos fraquejaram e ela caiu no chão, quando seu corpo se chocou com o de um homem alto. null não se moveu. Apenas se encolheu próximo à parede de tijolos de uma das grandes lojas dali e abraçou os joelhos, sentenciando-se culpada por qualquer que seja o crime.
Precisou tirar os fios de cabelo que tampavam seus olhos, quando ouviu alguém falando com ela.
– Você está bem? – um senhor bem vestido, aparentando certa de cinquenta anos de idade, carregava uma pasta de couro escura, quando se aproximou dela. Ele franziu o cenho, encarando-a preocupado. null balançou a cabeça algumas vezes, confirmando um fato que ela mesma sabia ser mentira. A menina não estava bem. A verdade é que os problemas eram maiores do que a capacidade dela lidar com eles. null só queria consertar as coisas, a sua vida, a de null, mas achava que, sobretudo, precisava consertar a vida das outras pessoas que prejudicou. Tinha que fazê-los voltar com o McFly. – Quer ajuda? Posso ligar para uma ambulância... – o senhor continuou a encará-la, tateando os bolsos do casaco à procura de algo.
– Será que eu poderia usar o seu telefone? – ela perguntou, levantando por fim os olhos para observar de verdade o rosto do homem. Ele se parecia tanto com o seu pai: traços fortes, um bigode grisalho sobre os lábios e uma marca de preocupação que nunca saía do meio da testa.
O homem nada respondeu. Estendeu o aparelho para a garota que digitou rápido os números que nunca esqueceria.
– Alô. Sou eu... – null respirou fundo, desviando os olhos do senhor em pé à sua frente.
Nenhum dos dois falou nada no caminho até em casa. null estava preocupado por ter encontrado a menina naquele estado, mas sabia que não devia perguntar nada. Imaginava o que havia acontecido. O trajeto foi curto. Nem o rádio foi ligado. null estava encolhida no banco do passageiro com a testa grudada no vidro do carro. As casas na rua passavam tão rapidamente quanto seus pensamentos vagavam pela sua mente.
Ela demorou um pouco de tempo para assimilar que haviam chegado ao seu destino. Isso porque null só desligou o carro e ficou ali, parado em frente à mansão que ele chamava de casa. Quando null deu por si, as casas haviam parado de passar rápido pelo vidro. Então se desencostou da porta e girou o corpo para observar um null pensativo com as mãos ainda no volante.
– Desculpe-me, null. Eu não devia ter deixado você vê-lo ainda. Não agora – confessou, encarando-a com os olhos tristes.
– Isso foi uma decisão minha, null. Mesmo se você quisesse impedir, não teria conseguido – null fez uma careta com os lábios. Ela tinha certeza disso. Se tivesse que voltar atrás, tinha certeza de que vê-lo era a primeira coisa a fazer. Toda essa dor, culpa e tristeza eram inevitáveis. A menina sabia. – Por favor, não faça eu me sentir mais culpada ainda.
– Está bem – o cara concordou. null esperava que ele descesse do carro, mas null não se moveu. Encarou-o por mais alguns segundos até desviar seu olhar para a rua novamente, esperando que o garoto continuasse a falar, porque deveria ter algo a mais para dizer, já que não saía do veículo.
– null, de quem é esse carro? – ela perguntou quando seus olhos caíram sobre o automóvel preto estacionado na frente do carro deles. – null?! – null repetiu seu nome, quando ele não respondeu prontamente.
– Eu estava pensando como lhe falar isso... – o rapaz suspirou fundo, tirando uma das mãos do volante para bagunçar alguns fios de cabelo. null evitou o olhar da garota. Estava com medo do que ela diria. – ...Não sabia como você iria reagir e, bem...
– null, quem é que está lá dentro com Stella? – a voz de null saiu uma oitava mais alta. Já não eram problemas demais por um dia só? O que será que aguardava agora atrás daquela porta?
– ...Eu precisava deixar Stella com alguém para poder pegar você... – o menino continuou, mas null não o esperou dizer quem era. Quando deu por si, já tinha descido do carro e subido a pequena escada que dava para a grande porta de madeira branca. null saiu do carro, apertando o botão do alarme e a seguindo o mais depressa que podia.
Quando null abriu a porta da casa, seu coração ficou pequenininho, apertado dentro do peito com a cena que seus olhos captaram. A pequena Stella estava sentada no tapete felpudo da sala, com uma infinidade de bichinhos de pelúcia a cercando. null não se lembrava de ter trazido tantos assim na bagagem. Na verdade, tinha certeza de que muitos daqueles não eram da sua filha. A garotinha estava agarrada ao seu Linguado como de costume, observando uma parede de travesseiros mais à frente, do outro lado do cômodo, onde um teatro de fantoches acontecia. Dali da porta, null só conseguia enxergar o boneco de dinossauro sendo movimentado por alguém que estava abaixado atrás dos travesseiros, porém ela reconheceria aquela vozinha distorcida em qualquer lugar do mundo.
– Mamãe! – Stella se levantou correndo do meio do mar de bichos de pelúcia e correu, arrastando o Linguado até próximo à porta onde null e null ainda estavam parados. Ela esticou os bracinhos em direção à mulher que abaixou para pegá-la no colo, dando um beijo estalado em sua bochecha.
De trás dos travesseiros – e do pequeno dinossauro –, surgiu um garoto com um sorriso contagiante e um brilho nos olhos.
– null! – null murmurou, sentindo as lágrimas embolarem novamente em sua garganta. null fechou a porta, enquanto null se aproximava dos outros.
– Mamãe, não chore! Não fique triste. Eu e o tio null nos divertimos muito enquanto você estava fora! – a pequena resmungou, tocando com as pontas dos dedos no rosto da mãe. A moça sorriu doce para a filha, concordando com a cabeça.
– Eu sei, querida. A mamãe não está triste. Ela só estava com saudades do tio null – acariciou os cabelos de Stella e falou o final da frase observando o garoto que já estava próximo as duas.
– Ei, Pequena Sereia, que tal pedirmos uma pizza? – null chamou Stella, quando null a colocou de volta no chão. A pequena gritou “pizza!”, enquanto corria com Linguado acima da cabeça, atrás de null que observava o cardápio com os sabores já na cozinha.
– Eu também senti a sua falta, null – null disse com a voz abafada nos cabelos da garota, quando os dois trocaram um abraço apertado.
***
– Eu acho o Nemo um peixe muito mais legal do que o Linguado. Você não acha, null? – null implicava com Stella, que exibia um beiço enorme e cujas mãozinhas cobriam os dois lados da cabeça do bichinho de pelúcia para ele não escutar as atrocidades que o null falava a seu respeito. A garotinha, null e null estavam sentados sobre o tapete da sala, em meio de todas aquelas pelúcias que compraram para Stella.
– Pare de implicar com ele. Linguado é um cara legal. É o melhor amigo do Lars – null riu da piada do amigo, mas se dispôs a defender o sujeito. Stella estava sentada entre os dois, com os olhos correndo de um para o outro, tentando acompanhar a conversa.
– E quem é Lars? Posso saber? – null descruzou os braços e pegou um Mickey nas mãos, brincando com as orelhas do boneco.
– É o dinossauro que o tio null me deu de presente – Stella se pronunciou, esticando o braço até alcançar o bichinho que estava aos pés do garoto. Era um Tiranossauro Rex engraçadinho na cor laranja, com os olhos esbugalhados e os bracinhos pequenos em comparação com as pernas. Ela balançou o boneco na frente dos olhos de null que deu uma risada alta.
– Você está o mimando muito. Escutou? – o garoto falou para Stella que piscou os olhos, recolhendo Lars para próximo de si novamente. null girou os olhos e falou um “idiota” mudo em direção ao amigo.
– Não quero ninguém mimando Stella! – null falou, descendo as escadas. Seu cabelo ainda estava molhado e agora ela vestia um conjunto de moletom.
– Mas é ela quem está mimando o null! – null girou o corpo para observá-la rindo. A campainha tocou e a garota se prontificou a atender.
– Deve ser a pizza! – a menina comentou, deixando a toalha que secava os cabelos sobre o encosto do sofá, e caminhou até a porta da sala. null convenceu a pequena a se vingar de null por não gostar do Linguado, então os três travavam uma guerra de cócegas que enchia a sala de gargalhadas.
– null? – ela desviou o olhar dos três para observar o entregador, quando abriu a porta. A garota já estava com a carteira nas mãos para pagar o jantar, mas não foi preciso. Era null quem estava ali.
5. Yesterday
O silêncio perdurava na sala. A única que ainda falava alguma coisa era a pequena Stella, que não sabia direito o que é que acontecia ali. null e null trocavam um olhar assustado, enquanto observaram a figura de null parado à porta.
– Meu Deus, não acredito que é você – null sorriu minimamente com as mãos agitadas, querendo tocá-la apenas para conferir se ela estava mesmo ali. Apesar dos anos a mais, ao contrário de null que o cansaço o consumia, null estava o mesmo, com cada músculo anguloso em seu devido lugar. Parece que os anos não passaram para ele como passaram para os demais.
– Chegou a pizza, mamãe? – foi o que Stella perguntou, aproximando-se sorrateira, escondendo-se por entre as pernas da mãe como costumava fazer.
Os olhos de null saíram do rosto pálido de null para encarar a pequena aos seus pés. Um sorriso largo brotou nos lábios do homem. Então ele se abaixou para encontrar os olhos brilhantes da garotinha.
– Oi. Tudo bem? Eu sou null... – esticou uma das mãos e Stella a encarou por um tempo, antes de esticar sua própria para apertar o dedo indicador de null entre sua pequena mãozinha. – E você, quem é?
– Stella – a pequena respondeu, soltando o dedo de null para ajeitar o Linguado em seus braços. Ninguém disse nada por um bom tempo. Os olhares apenas vagavam de um rosto ao outro. Todos estavam desconfortáveis por estarem ali. Tirando null e null, nenhum dos outros se via há um bom tempo e não esperava um encontro tão repentino quanto este.
– Olá, null – foi null quem disse, porque null ainda estava ali, perplexa e sem saber como agir. Os dois homens se encararam por um momento, mas null desviou o olhar, apenas acenando com a cabeça em resposta. null soltou o ar, pesaroso pela situação em que se encontrava.
– Que tal levarmos todos esses bichinhos lá para o seu quarto, Stella? – null apareceu debruçado no encosto do sofá com algumas das pelúcias já em suas mãos. A garotinha deu uma última olhada em direção a null, com os olhos curiosos observando cada traço de seu rosto, antes de segurar na mão de null para subirem as escadas atrás de null.
null não esperou ser convidado para entrar. Assim que os três desapareceram no final da escada, fechou a porta atrás de si e caminhou até um dos grandes sofás da sala de null. null se forçou a segui-lo, sentando-se o mais afastado que o assento permitia.
– Você está mesmo aqui... E não me procurou? – ele perguntou, levantando finalmente os olhos em direção à garota.
– Faz poucos dias, null... Eu estava ajeitando as coisas em seus devidos lugares, ou tentando... – ela deixou a frase morrer por si só. Não precisava de um ponto final. Na verdade, talvez precisassem de outras palavras além daquelas. O que a moça tanto tentava resolver que só parecia se complicar cada vez mais?
– Ele você já foi ver. Tenho certeza – null resmungou entre dentes, passando as mãos pelos cabelos curtos. Ela piscou os olhos com dificuldade de entender o que havia perdido naquela história toda. Estavam mesmo naquele ponto de mal se olharem, de se odiarem e dizerem o nome um do outro com um sarcasmo exagerado? null havia notado que ele e null não se encararam. null pareceu relutante até em acenar em resposta ao cumprimento do ex-colega de banda.
null sorriu, observando-a sem precisar de uma resposta sonora. Ele sabia. Só o silêncio da garota já confirmava que eles já haviam se encontrado. Não era justo. Na cabeça dele, foi por causa de null que ela se foi. Logo, não seria por ele que a menina voltaria.
– Eu precisava vê-lo, null. null disse que ele estava decadente – null entortou a boca, arrependendo-se de ter colocado o amigo no meio daquela história. Pela pequena menção do nome de null, null soltou um riso sarcástico seguido por um “É claro”. – O que aconteceu entre vocês?
– Você aconteceu... – o cara respondeu um tanto quanto ríspido, com a voz carregada de angústia para se arrepender em seguida. null levou as mãos até as têmporas, na tentativa de se acalmar antes de continuar. – Quando você foi embora, null, fiquei sem saber como agir. Vi-me sem ter onde pisar. Ainda mais quando soube que você estava grávida... – null continuou com a voz quase em um sussurro, tão macia que não parecia ser o mesmo homem que havia dito palavras tão duras há pouco para a garota.
– Mas, null...
– O jeito como ela franziu as sobrancelhas enquanto me analisava... – ele sorriu, encontrando os olhos brilhantes dele com os densos de null. O que o rapaz queria dizer com aquilo?
– Como? – foi o que null conseguiu perguntar, mas ela não conseguiu concluir seu raciocínio. null, null e a pequena Stella já desciam a escada em meio a algumas risadas. Os olhos dos dois correram para observar uma garotinha sorridente sentada nos ombros de null. Suas mãozinhas agarravam com força a gola da camiseta dele com medo de que pudesse cair dali.
– Acho que estamos atrasados para o ensaio da banda. Não é, null? – null se aproximou dos dois, dando dois pequenos tapinhas nos ombros do amigo. null desviou o olhar de Stella para assentir, concordando. null esperou que o amigo fosse se despedir da pequena para cochichar para null: – Desculpe-me por isso. Quando o avisei que estava aqui porque null havia me chamado, eu não sabia do que se tratava... Ou nunca teria contado ao null – disse com um tom de súplica na voz. Era óbvio de que ele se sentia culpado pelo que havia acontecido, porém não. null sabia que a única pessoa culpada por toda essa confusão era ela mesma.
– Não se preocupe com isso, null. Está tudo bem. Teríamos que nos encontrar uma hora ou outra – a garota se levantou para abraçá-lo em despedida. null sorriu com os lábios fechados, depositando um pequeno beijo na testa dela.
– Até logo, null – null só disse, já próximo à porta, preparado para ir embora. Ela respondeu um “Até logo” com um nó na garganta, ao perceber a mágoa que ele transbordava por seus olhos.
– E a pizza ainda não chegou – null simplesmente disse quando a porta foi fechada, colocando a pequena Stella sentada no sofá. A garotinha pegou o controle remoto para começar a zapear pelos canais, à procura de alguma coisa que lhe interessasse.
– É, não chegou – null repetiu as mesmas palavras, enquanto observava as imagens passando depressa pelo televisor.
– Você está bem? – null perguntou, sentando-se mais próximo à garota para que Stella não pudesse escutá-los.
– Acho que sim... – ela suspirou, tirando os olhos da TV para encarar o amigo ao seu lado. – Ele nem ao menos olhou para você, null! Como isso chegou a esse ponto? – null continuou com a voz afetada, sem ainda conseguir assimilar que aqueles eram os mesmo quatro rapazes que pareciam uma família ao invés de colegas de banda.
– Segundo null, eu fiquei ao “lado do null na história”... Só porque não quis deixá-lo sozinho no meio desse caos – respondeu com as mãos perdidas entre os fios de cabelos.
– Meu Deus... – null suspirou desapontada, apoiando a cabeça ao encosto do sofá na tentativa de esclarecer as ideias.
– Você gosta mesmo disto, Stella? – null exclamou ao seu lado, fazendo com que null voltasse à posição inicial para entender sobre o que o amigo falava.
A pequena havia finalmente se decidido por um dos canais da televisão, no qual passava “One Way Or Another”, com cinco garotos fazendo palhaçadas em frente à câmera.
– One Direction? Você só pode estar brincando. Ela adora! Quer deixá-la entretida por uma hora? Coloque o DVD deles – null sorriu divertida, enquanto observava a filha balançando as mãos e os pés, imitando a coreografia dos garotos enquanto cantava a parte do “I wanna hold you, I wanna hold you tight” junto com a televisão.
– Definitivamente, essa garota é filha do null – null fez uma careta quando null retirou o celular que tocava do bolso, dizendo um “Falando nele”. – Oi, null... – disse animado, esperando alguns segundos antes de continuar. – A null...? – ele lançou um olhar significativo para ela, como quem pedisse permissão para dizer algo. A garota arregalou os olhos, balançando a cabeça em negativa quase que instantaneamente. Não queria encarar null. Ao menos não agora, logo depois de toda informação confusa que havia recebido de null. – Não. Não sabia que ela havia voltado, dude... – null continuou, apoiando a cabeça sobre uma das mãos. Não gostava nem um pouco de ter que mentir. Ainda mais para null, que era seu melhor amigo. Sentia-se muito desconfortável por saber o que essa mentira poderia causar futuramente, mas ele havia prometido que ajudaria null e era isso o que deveria fazer. – Está bem... Se souber de algo, eu lhe digo... Até mais. Cuide-se – foi o que ele disse antes de desligar o celular. null não o encarava mais. Ela fingia observar as imagens dos canais passando rapidamente mais uma vez. Já que o clipe havia terminado, Stella teria que achar outra coisa pra assistir.
null abriu a boca para dizer algo, mas a campainha o interrompeu antes mesmo de ele começar. A pequena garotinha largou o controle remoto no sofá e ergueu os braços acima da cabeça, gritando: “Pizza!”. Sim, desta vez só poderia ser a pizza.
6. Sorry’s Not Good Enough
O sol havia acabado de nascer e null já estava de pé. Ela mal havia pregado os olhos durante toda a noite pensando em qual seria o próximo passo que tinha que dar. Era como se pisasse em ovos. Cada movimento que dava deveria ser muito bem pensado para que não estragasse as coisas mais do que já estavam estragadas.
A garota retirou a chaleira com água do fogo e preencheu o coador lentamente para que o pó que estava ali virasse café. Quando o bule já estava cheio, deixou a chaleira de lado para colocá-lo sobre a mesa de café. A toalha já estava posta, então se preocupou em abrir os armários, à procura de alguma coisa comestível. Por sorte, encontrou pão de forma e algumas geleias. Se ela e Stella fossem continuar ali, a garota definitivamente teria que ir às compras. null se lembrava muito bem que nenhum dos garotos se preocupava em encher a geladeira, ainda mais com coisas saudáveis.
null entrou na cozinha assim que ela colocou um pouco de café em sua própria xícara. Ele se curvou para dar um pequeno beijo no topo de sua cabeça, antes de se sentar ao seu lado.
– null, pelo amor de Deus, vá vestir uma roupa! Stella deve acordar daqui a pouco – null resmungou, referindo-se à falta de roupa que todos eles sempre sofriam pelas manhãs. Não era como se uma boxer fosse o suficiente. Ao menos não nessa situação.
– Ela é uma criança, null. Aposto que nem se importa com isso... Ao menos que você esteja se incomodando – observava a garota servindo o café para ele, enquanto comia uma fatia de pão. – Incomoda você eu ficar sem camisa, null? Hein, hein? Incomoda? – null riu, enquanto cutucava null apenas para irritá-la.
– Por Deus, null. Não fale essas coisas nem de brincadeira. Já tenho problemas demais com dois McFly. Não gosto nem de pensar na hipótese de três. Por mim, você pode andar pelado pela casa que nem vou olhar – ela fez uma careta engraçada com a boca, passando geleia em uma fatia de pão.
– É verdade. Não quero entrar no meio dessa briga de null e null quando o assunto é você – null concluiu o raciocínio de boca cheia. Por que mesmo que null não havia se apaixonado por ele? Era um gentleman!
– Agora, null, era sobre isso que eu queria falar com você – começou incerta, desenhando com a colher as figuras florais sobre a toalha de mesa.
– Sobre sua paixão por mim? – o garoto continuou sorrindo presunçoso, já colocando a xícara vazia sobre a mesa. null apenas o encarou com a sobrancelha erguida.
– Sobre null odiar você e o null... – ela respondeu, ignorando simplesmente a brincadeira que o amigo havia feito. Não era tempo de brincar. Não mais. Eles já não tinham mais vinte anos. As brigas não se solucionavam mais com uma guerra de travesseiros.
– Ah... – o sorriso brincalhão de null murchou, dando lugar ao semblante preocupado que null já havia acostumado a ver no rosto dele. – Não acredito que seja ódio, null – ele fez uma pausa para prender os dedos entre o cabelo bagunçado. Seus olhos encararam o tampo da mesa, na tentativa de encontrar as palavras certas. – Nós conhecemos o null. Ele só está magoado por ter perdido a mulher que ama de uma vez por todas.
– Achei que ele tinha superado isso. Estava saindo com outras garotas e... – null entortou a boca, lembrando-se das festas que foi acompanhando null. null sempre estava com uma garota diferente.
– Nós também achamos. Mas não é o que parece. Não é mesmo? – null riu sem humor algum, observando o interior de sua xícara vazia.
A garota piscou os olhos, estalando os dedos de forma compulsiva. Ela já havia notado que null ainda a amava. Ficara evidente no dia anterior, na maneira como ele a observava, com o olhar ferido. Porém, ouvir aquela sentença dos lábios de null tornava aquilo ainda mais real. Como sempre, ao invés de concertar as coisas, ela só conseguia quebrá-las mais e mais e em pedacinhos menores, mais difíceis de serem unidos novamente.
– Não vamos falar disso agora, null. O problema que temos que resolver agora é o McFly. Precisamos trazer a banda de volta – ela soltou o fim da frase quase em um sussurro. Ainda não acreditava que aqueles quatro amigos, tão unidos, estivessem nessa situação.
– Você não entende. Não é, null? – ele finalmente largou a xícara de lado e girou o corpo e a cadeira para sua atenção se voltar completamente para a garota. Seus dedos se entrelaçaram na madeira rígida do assento, enquanto null se forçava a ser o mais verdadeiro possível com a moça. Talvez aquilo soasse ríspido demais. A verdade era tão dura quanto um pedaço de diamante, mas não havia mais tempo para lapidá-la. – A sua vida e a de Stella estão diretamente ligadas ao McFly. A única e remota chance que temos de voltar com a banda é você resolvendo o seu ponto com estes dois. E, se tudo der muito certo, talvez e só talvez, tenhamos a sorte de tudo voltar como era antes.
Os olhos da garota embaçaram e só então ela percebeu que estava chorando. As mãos de null seguraram as suas e ela não conseguiu mais encará-lo. Ele tinha razão. null não podia mais adiar a resolução de seus problemas. Ela já estava ali. Não estava? A vida dela, de Stella, de null e de seus melhores amigos dependiam disso.
– Você tem razão, null – null limpou as lágrimas com as costas das mãos e endireitou as costas, levantando-se em seguida. – Será que você poderia me fazer um favor?
– Claro. Qualquer coisa – ele também se levantou, ajudando-a a colocar as xícaras usadas dentro da pia da cozinha.
– Você pode pedir para o null vir aqui? – null respondeu, escorando-se ao mármore da pia.
“RAWWWWWR.”
Foi o que null ouviu quando abriu a porta do quarto de hóspedes que dividia com a filha. A pequena estava de pé na cama, com o dinossauro que null havia lhe dado travando uma batalha contra um boneco que, se null bem se lembrava, era um dos garotos do One Direction.
– Então você já está acordada, pequena sereia? – ela se aproximou da filha para dar um beijo estalado no topo de sua cabeça. Stella parou de brincar para rodear os braços no pescoço da mãe.
– Bom dia, mamãe! – a menina sorriu, desfazendo o abraço e se sentando na cama com perninhas de índio. – Niall e Lars estavam se estranhando ali na cômoda. Você sabe como Nainai é ciumento, mamãe. Ele achou que, porque Lars chegou, ele não seria mais o meu preferido... Mas não é como se o Lars conseguisse cantar e dançar. Ele é apenas um dinossauro, não é? – Stella se explicou com os olhos curiosos, encarando os dois bonecos que eram grandes demais para suas mãos pequenas.
– Bem, Barney é um dinossauro que canta e dança. Talvez Lars também possa ser um desses. Porém, eu pensava que Linguado era o seu preferido, querida – null comentou, enquanto abria o guarda-roupa para retirar algumas peças de roupas para a filha vestir. Ela se virou quando Stella soltou uma exclamação.
– Ele é, mas eles não precisam saber disso ou ficarão magoados comigo! – a pequena andou até a ponta da cama para ficar na ponta dos pés e cochichar no ouvido da mãe.
– Então, talvez por hoje, você possa deixar o Linguado de lado e dar um pouco de atenção para um deles. Assim não ficarão magoados. O que acha? – as duas trocaram um sorriso cúmplice e null ajudava a pequena a trocar o pijama pela roupa que havia escolhido. Um conjunto do Mickey que se resumia a uma camiseta com o rosto do personagem e uma calça legging roxa com pequenas silhuetas brancas do formato dele.
– É uma boa ideia, mamãe. Obrigada! – Stella sorriu animada, dando um beijo no rosto de null em agradecimento.
– Por nada. Agora vamos terminar de se trocar porque teremos visita hoje – null apanhou a escova de cabelos sobre a cômoda para pentear o cabelo da filha.
– Visita de quem, mamãe?
null estava cansado. Ele mal sabia com quais forças ele havia se arrastado até a casa de null, ainda mais tão cedo. A barba por fazer e as olheiras deixavam o cansaço bem claro e davam a impressão de que ele não dormia já há algumas semanas. Por que null o havia chamado ali afinal? Há quanto tempo ele falava para o amigo que não queria sair de casa? Ficava tão bem dentro do seu apartamento, jogado com suas lembranças e a bagunça do seu próprio mundo.
Ele tocou a campainha e colocou as mãos dentro dos bolsos do moletom, com os olhos pesados quase fechando sozinhos. Não demorou muito para que a porta fosse aberta e null aparecesse ali para recepcioná-lo.
null murmurou algumas sílabas, na tentativa de saber o porquê precisava estar ali, mas, antes que pudesse dizer algo, uma pequena garota apareceu agarrando as pernas de null. Seus olhos surpresos piscaram em direção a null, com os bracinhos segurando firme o boneco de Niall junto a si.
– Quem é, titio null?
7. Lived A Lie
Os olhos de null estavam surpresos em direção à pequena garota enroscada nas pernas do amigo. Quem era ela? O que fazia na casa de null? E por que ele estava ali? A vida dele havia se tornado uma completa bagunça, desde o dia em que null bateu à sua porta. Ou melhor, desde que ela havia o abandonado, null já não sabia mais o que seria do dia seguinte. Tudo parecia confuso e fora do lugar. Era como se ele vivesse uma vida a qual não lhe pertencia, porque a verdadeira era ao lado daquela mulher que o cara amava e desaprendera a viver sem.
Ele entreabriu os lábios, umedecendo-os com a ponta da língua, tomando a coragem necessária naquela fração de segundos para colocar em palavras sonoras todos aqueles porquês que rondavam seus pensamentos. Mas, antes que null formasse a sentença, passos ecoaram na sala silenciosa. Os três pares de olhos ali presentes foram direcionaram para a figura da mulher descendo as escadas. null sentiu um frio na barriga quando seu olhar cruzou com o de null. Então era isso. Aquela era a hora. Ela estava determinada em colocar os pingos nos “is”, enquanto ele estava completamente exacerbado. Então era isso? null estava ali, na casa do seu melhor amigo o tempo todo e… Então aquela pequena era a sua pequena?
Ninguém disse nada durante o trajeto de null até a garotinha aos pés de null. Ela pegou a filha no colo que, imediatamente, escondeu o rosto dentre os longos cabelos da mãe.
– Então é isso? – null conseguiu finalmente expulsar as palavras da boca, deixando um sorriso sarcástico no lugar. – Você, null, quem eu nunca esperava, mentiu para mim. Obrigado. Você era a única pessoa no mundo que eu ainda confiava. Agora já não me resta mais ninguém.
– Desculpe-me, null. Eu não queria decepcioná-lo – null sussurrou, mal conseguindo encarar o amigo. Ele sabia que havia errado, sabia muito bem que aquela seria a reação dele, mas fez da mesma forma.
– Ah, não se preocupem. Digam-me… Qual é a de vocês dois? Ela está dormindo com você também, ou a coisa toda era só com o null? – as palavras eram duras, porém null merecia. A menina sabia disso.
– null! – null tentou interceder, mas a garota o interrompeu.
– Ele não teve culpa, null – ela respondeu, ajeitando a pequena nos braços, fazendo-o encará-la nos olhos pela primeira vez desde que havia chegado. Os olhos dele estavam tão brilhantes que null podia jurar que o rapaz choraria a qualquer momento. Mas null não chorava. Não era? – Eu implorei para ele que guardasse segredo. Estava tão confusa… Não sabia o que fazer.
– Você não sabia o que fazer, null? Teve cinco anos para pensar no que fazer, mas não! – ele ergueu o tom de voz, cerrando os olhos em direção à garota. A pequena Stella se encolheu mais nos braços da mãe, que a abraçou junto a si na tentativa de protegê-la do que quer que fosse. Só aí que null se deu conta do que havia feito. Ele a havia assustado. Deu um passo para trás, como se aquilo anulasse todo o resto.
– Venha, Stella – null se aproximou, pegando a pequena no colo. Ela também se escondeu na curva do pescoço do garoto o mais depressa que pôde. Não queria encarar null. Ele tinha uma aparência estranha e gritava muito. Stella não gostava que gritassem. – Vamos ver se tem alguma besteira para comer na cozinha, enquanto eles conversam – o cara completou, enquanto se distanciava a passos largos até a cozinha. Os olhos de null não se desgrudaram da garotinha em seu colo até que os dois sumissem atrás da grande porta de madeira que dividia os dois cômodos.
– null? – null pensou em se aproximar, mas desistiu. Os olhos dele continuavam fitando a porta da cozinha, mesmo sem conseguir ver nada através dela. – null? – ela o chamou mais uma vez, porém percebeu que era inútil. O rapaz estava em um transe do qual não sairia tão cedo. Só ele mesmo sabia os milhares de pensamentos que passavam pela sua cabeça naquele momento. Qual foi a primeira palavra dela? Qual era o sorvete preferido? O que gostava de comer de café da manhã? Qual era o brinquedo favorito? O quanto da vida daquela pequena garota ele havia perdido até agora? Meu Deus, agora era ela quem era a Stella na vida dele! – Desculpe-me, null. Eu fui infantil… – a garota continuou, mais desabafando para si mesma do que falando com o rapaz, já que ele parecia não prestar a menor atenção em uma palavra do que ela falava. – …Quando vi você e Juliet naquele lugar, eu sabia que ela era a pessoa certa para você. Tão segura de si na frente dos holofotes, tão preparada para tudo que pudessem falar a seu respeito. Mas eu sei que errei por ter me escondido esse tempo todo. null! – null elevou a voz mais uma vez, na tentativa de fazê-lo prestar atenção em uma palavra sequer do que ela dizia. Ele parecia vidrado na porta pela qual null e Stella haviam saído e a garota se sentia estúpida falando tudo aquilo para alguém que não se importava.
O rapaz finalmente a encarou, com os olhos casados e a expressão fria. Ela estremeceu, abraçando a si mesma na tentativa de se reestabelecer do desprezo que jorrava em sua direção.
– Era esse o motivo...? Esses foram os motivos que a fizeram escondê-la de mim por cinco anos e nem ao menos atender alguma das minhas ligações, null? – o tom de voz do garoto era controlado, como se ele já não quisesse brigar, já não tivesse mais forças para uma discussão como aquela que sabia aonde levaria. – Sinceramente, eu achei que a conhecesse…
– null, perdoe-me. Só consegui notar que havia estragado tudo e colocado os pés pelas mãos quando li o livro que null me entregou – ela respondeu com a voz carregada de culpa, os ombros retraídos. Era null agora quem não queria encará-lo nos olhos.
– Isso já não importa mais. Eu só quero vê-la, null. Só quero ficar perto da minha filha – ele levou uma das mãos até as têmporas, apertando ali por algum tempo na tentativa de amenizar aquela dor aguda que o acompanhava há tanto tempo. Mas null sabia que aquela dor era muito mais do que física. Era a dor da perda, que a cada segundo que se passava só crescia mais e mais.
– null…
– Não era isso o que você queria, null? – ele a interrompeu. null não a deixaria se explicar agora, não. Ela já havia tido a sua chance de explicações e tudo que fez foi fugir. Agora já não tinha mais tempo para aquilo. O garoto já havia perdido tempo demais. – Não disse que nós não éramos certos um para o outro? Sinceramente, agora acho que tem razão. Eu estava enganado sobre você… – encarou-a ríspido, aproximando-se alguns passos, fazendo com que a garota recuasse por instinto. Por mais que ela soubesse que merecia aquelas palavras, elas soavam tão duras que não podia aguentá-las de queixo erguido. Não vindas de null. – Aquela null que sempre esteve comigo todas as vezes que precisei, que acreditava em mim quando mais ninguém fazia… Que me conhecia tão bem que me descrevia cada detalhe que nem eu mesmo percebia em uma revista para todo mundo saber… – ele riu sem humor algum, afastando-se novamente e dando as costas para a garota. – Você tem razão, null. Não somos certos um para o outro. Eu estava enganado sobre isso e passei seis anos acreditando em uma mentira. Mas minha filha… Ela você não pode me tirar. Não mais.
Quando se deu conta, null havia caído sentada, dando graças que o sofá estava atrás de si naquele momento. As lágrimas caíam sem permissão e a dor era tanta que ela podia jurar que não existia mais coração algum dentro do seu peito. Era isso. Ela havia o perdido. Definitivamente, null nunca mais seria seu.
Ele caminhou a passos vagarosos até aquela grande porta de madeira da qual não havia tirado os olhos. Suas mãos suavam, a cabeça latejava, então teve que respirar algumas vezes, tomando a coragem suficiente para empurrar a madeira e entrar na grande cozinha.
null estava sentado na bancada com Stella ao seu lado ocupada em fazer o pequeno boneco de Niall rodopiar ao som de “Kiss You” que ecoava nas paredes. null abaixou o rádio assim que notou a presença do amigo e Stella, mais do que depressa, deixou o boneco de lado para se fingir altamente interessada em seu cereal colorido dentro da tigela de cerâmica. null e null trocam um olhar silencioso, enquanto o primeiro se aproximava temeroso e se sentava no pequeno bando próximo à garotinha. Ela o encarou com os olhos curiosos, mas, assim que null sorriu, a menina deu um pequeno pulo para se esconder no colo de null. O amigo o encarou com um pedido de desculpas silencioso, sem saber como agir diante daquilo tudo. Seria tão mais fácil se Stella tivesse gostado de null, porém era claro que não. Tudo estava tão complicado que era mais do que óbvio de que as coisas não se acertariam com facilidade.
– Olá! – null sorriu mais uma vez, na tentativa inútil de interagir com a pequena garota, contudo Stella não pareceu muito propícia em fazer amizade, escondendo o rosto mais do que depressa na camiseta de null. Ele respirou fundo, com o coração apertado. O que ele podia fazer? Aquela era sua filha. A primeira vez que eles se encontravam e ela já o odiava…
Seus olhos caíram sobre o boneco Horan sobre a bancada e ele esticou os dedos, pegando-o em sua mão.
– Você gosta do Nialler? – foi o que ele perguntou despretensiosamente, enquanto analisava a cópia de plástico mal feita de seu amigo. – Ele é bem engraçado, sabia? – null então dobrou as pernas do boneco para que esse ficasse sentado em direção à garota.
– Você conhece o Nainai? – Stella perguntou com uma voz ainda tímida, enquanto ela levantava o pequeno rosto dentre os braços de null.
null estava no quarto, preparando a pequena Stella para dormir. Depois de um dia tão agitado quanto aquele, tudo que ela queria era deitar a cabeça no travesseiro e acordar no próximo milênio, se fosse possível. Mas ela sabia que não era assim que as coisas funcionavam. Tudo o que ela passava agora eram consequências das atitudes impensadas que havia tomado no passado e agora precisava enfrentá-las, por mais que tudo que quisesse fazer fosse fugir para longe dali.
– Por favor, filha. Só cinco minutos! – null sentenciou, enquanto ouviu um resmungo em resposta, quando pediu para ela largar o boneco por alguns minutos para que pudesse colocar o pijama. – Niall não vai fugir, se você deixá-lo ali um pouco.
– Tio null disse que conhece o Nainai, mamãe – a pequena comentou, enquanto passava os braços pelas mangas da camiseta do Bob Esponja.
– Sério, querida? E você gostou dele? Digo, do tio null? – null perguntou receosa, mordendo os lábios, ao que penteava cuidadosamente os cabelos da filha.
– Bem, mais ou menos… Gostei mais do titio null – a pequena respondeu, já com Niall em seus braços, ajeitando-se sob as cobertas.
– Oh, puxa… Por que você não gosta dele? – null a cobriu, afofando o travesseiro em seguida. Por que ela não gostaria do null? Ele era tão… Apaixonante. Talvez não agora, mas ela tinha a completa certeza de que, se Stella conhecesse o null pelo qual havia se apaixonado anos atrás, ela também se apaixonaria.
– Ele tem cara de bravo… Gritou com você! Ele fez você chorar, mamãe! – a pequena Stella fez uma cara emburrada, enquanto esfregava os olhinhos com as mãozinhas fechadas.
– Querida, não se preocupe com isso – null sorriu, tirando alguns fios de cabelo do rosto da pequena antes de lhe dar um beijo estalado na testa. – null não tem culpa de a mamãe ter chorado. Não fique brava com ele por minha causa. Está bem?
Stella apenas assentiu, concordando, enquanto observava a mãe desligar a luz e se deitar ao eu lado.
Aquele apartamento estava uma zona. Há quanto tempo ninguém lavava um copo sequer? Dez, quinze dias? Caixas de pizza sobre a mesa de jantar, pedaços de papéis amassados pelos cantos. Roupas usadas misturadas com as que chegavam da lavanderia… É, talvez fosse mais tempo do que aquilo, mas null definitivamente não se lembrava, e também não faria diferença. Ninguém o visitava, ninguém se importava com ele, a não ser os dois únicos seres no planeta que não o abandonaram sob hipótese alguma. Porém, eles não se importavam com limpeza.
Ringo e Elvis estavam deitados próximos ao dono no sofá. O gato ronronava sobre a barriga do cachorro que mal cabia na pequena poltrona preta. null estava jogado no sofá maior, trajando apenas uma cueca e um roupão, com o violão e dedilhando alguma melodia que não se lembrava de onde havia surgido. Era ele quem havia composto aquilo ou havia ouvido em algum lugar? null tinha certeza de que estava a ponto de enlouquecer.
Elvis choramingou baixinho, o que levou o gato a também resmungar pela inquietude do cão. null levantou um pouco a cabeça para encará-los.
– O que foi? Eu dei comida pra vocês hoje. Não dei? Ou será que foi ontem? – bufou antes de deixar o violão no sofá e se levantar. Definitivamente, ele precisava começar a anotar as vezes em que os alimentava.
A campainha soou antes mesmo que o cara pudesse atravessas o mar da bagunça e chegar à dispensa. Quem poderia ser? Alguém conhecido, já que o porteiro não anunciou ninguém. Provavelmente era a velha insuportável do 416. Não importava se havia outras pessoas no prédio. Ela insistia em ir até a cobertura para reclamar a ele de qualquer coisa que fosse.
A porta se abriu e era null quem estava ali, com as mãos nos bolsos e um cigarro nos lábios.
– O que você quer? – foi o que null disse, antes de girar nos calcanhares e entrar novamente no apartamento, deixando a passagem livre para o colega.
– Bem, eu ia perguntar se você se importava que eu fumasse aqui dentro, mas, depois de ver o estado disso aqui, acho que alguém fumando aqui dentro é o menor dos seus problemas – ele fechou a porta, virando-se a tempo de fazer um agrado em Elvis e Ringo que se aproximaram para dizer boas-vindas. Eles sentiam falta de gente. Essa era a verdade. – O que aconteceu aqui? – o rapaz perguntou, enquanto observava null colocar um pouco de ração para os pets que, mais do que depressa, foram se alimentar.
– Sinceramente, tanto faz. Você não veio aqui para falar dos meus hábitos de limpeza. Tenho certeza disso… – null não estava com paciência para papo furado. O fato era que ele e null não se falavam há uns bons anos. Ele não ia simplesmente convidá-lo para tomar uma cerveja, como se ainda fossem amigos do peito.
– Ou da falta deles, você quer dizer! – null riu, mas null pareceu não estar muito a fim de piadas. O garoto acendeu então o cigarro, retirando algumas coisas do sofá para conseguir se sentar. – null me pediu para vir até aqui ver como você estava.
– null? – foi a vez de null rir. Sem humor nenhum, é claro. – Incrível vocês ainda se falarem depois de tudo que aconteceu – o cara cruzou os braços e se recostou à parede, um pouco afastado do sofá.
– Nós sempre nos falamos, null. Quem causou tudo aquilo entre a gente foram você e o null. Eu e null continuamos os mesmos – null respondeu, encarando-o, e só ali ele notou o quanto o amigo parecia decadente. Olheira sob os olhos, os cabelos mal cuidados. Até a barba havia passado muito do ponto de ao menos apará-la.
– Você nunca me ligou, null.
– Você deixou de ir ao meu casamento, null, sabendo o quanto isso era importante para mim. Você era o meu padrinho! – o garoto respondeu com a voz carregada de mágoa, porém deveria esquecer aquilo. null sabia que null precisava de ajuda. Aquilo não era um simples capricho de garoto mimado, como ele havia pensado durante todos aqueles anos.
– Deixei de ir e fazer muitas coisas nos últimos anos, null, e de que me adiantou? Minha filha me odeia – null sentiu a voz embargar, então levou uma das mãos até os olhos para impedir que aquelas lágrimas estúpidas caíssem. Era verdade. Ele já estava no fundo do poço, mas não se permitira chorar de forma alguma.
– null me falou sobre isso também… – null sentenciou, dando uma tragada no cigarro e expelindo a fumaça, fazendo com que null o encarasse. – Mas olhe para você. Como uma garotinha de cinco anos pode gostar de alguém assim, null? Você está horrível… – o garoto se levantou e caminhou alguns passos até o amigo. null então passou um dos braços sobre os ombros de null, em um abraço desengonçado, na tentativa de animá-lo. – Precisa gostar de você mesmo primeiro para que ela possa gostar. Essa é a verdade, meu amigo.
– Obrigado, null. Eu precisava de uma dose de realidade – null retribuiu o abraço, dando alguns soquinhos nas costas do amigo.
– Não me agradeça por isso, mas… Você pode muito bem começar isso com um banho, cara.
8. Patience.
Era sábado de manhã. A pequena Stella estava jogada no tapete da sala de null, rodeada por algumas peças de Lego e com Linguado trajando uma pequena tiara de princesa em seu colo. null estava atrapalhada na cozinha, imaginando o que poderia fazer para o almoço com meio pacote de farinha e dois ovos. Eram os únicos ingredientes que tinha por ali e null havia saído bem cedo, sem dizer aonde ia. Talvez ela fosse com a filha até o mercado mais próximo para comprar alguma coisa comestível e uns poucos suprimentos para sobreviver por mais alguns dias.
A campainha tocou. Stella gritou um “ding dong”, imitando o barulho da campainha, e null secou as mãos no pano de prato o mais depressa que conseguiu para caminhar até a porta da frente. Era null quem estava ali, parado com um saco marrom que null podia jurar conter alguns cupcakes deliciosos. E o homem ao seu lado era null? A boca da garota formou um “o” de exclamação e a sua visão pareceu ficar turva de repente. Ele estava tão diferente. Ou melhor, aquele sim era o null que ela conhecia. Seu sorriso doce nos lábios podia ser identificado sem a grossa barba que o homem vinha cultivando nos últimos meses. Os olhos estavam claros, transbordando confiança. null não evitou sorrir.
– Nós podemos entrar antes que os bolinhos esfriem? Seria um desperdício – null resmungou, balançando o saco em suas mãos e fazendo que enfim a garota abrisse espaço para eles entrarem.
– Tio null! – a pequena Stella apareceu correndo por entre as pernas da mãe e pulou no colo de null, trazendo Linguado junto consigo.
– E ai gafanhota. Tudo bem? – o rapaz sorriu, depositando um beijo estalado na testa da garotinha. Só então ela notou a presença de null ali com ele. Seus olhinhos piscaram algumas vezes, curiosos em direção ao homem que mexia as mãos de forma nervosa.
– Oi – foi o que null conseguiu dizer, socando as mãos dentro dos bolsos da calça. Se ele não fizesse isso, provavelmente puxaria a criança para o seu colo e a abraçaria o mais apertado que conseguisse. Mas essa ideia soava estúpida até na sua cabeça. Imagine se ela realmente acontecesse.
– Você está bonito – Stella murmurou, esticando o corpo para que suas pequenas mãozinhas conseguissem tocar o rosto macio de null pela barba recém-feita. E então os dois trocaram um sorriso cúmplice, segundos antes de null colocar a garota no chão e ela correr de volta para seus brinquedos. null seguiu a criança mais do que depressa e null continuou ali, perplexa por ter soado tão invisível aos olhos dele.
– Apenas dê tempo ao tempo, null – null aconselhou, tocando levemente o ombro da mulher para que ela o encarasse. – Tudo vai se acertar. Eu sei disso.
– Só espero que você esteja certo.
– Lego! – null sorriu animado, sentando-se ao lado de Stella e encaixando algumas peças na tentativa de montar uma torre.
– Você gosta de brincar de Lego, tio null? – a criança questionou, enquanto pegava algumas peças e entregava a ele para a montagem da torre.
– Eu adoro! Tenho mais peças do que poderia caber no seu quarto.
– No meu quarto? – Stella arregalou os olhos, impressionada. – Isso não pode ser possível.
– Então eu lhe mostro qualquer dia. Combinado? – ele perguntou, colocando já duas peças que formavam o telhado irregular da pequena torre. A garota assentiu a cabeça, concordando, já entretida demais com a torre que o cara havia montado para continuar com a conversa. – Que tal um passeio?
Stella deixou a torre de lado e puxou Linguado para o seu colo, abraçando-o com tanta força que null tinha certeza de que o bicho sufocaria se não fosse de pelúcia.
– Eu vou dar um passeio com Stella – foi o que null disse quando entrou na cozinha, onde null estava mexendo alguma coisa no interior de uma grande panela.
– O quê? – ela deixou de dar atenção à receita para girar o corpo e encará-lo nos olhos. null estava magoada. A indiferença de null a deixava desnorteada. Todas as frases feitas e palavras que rodeavam sua mente o tempo todo pareciam desaparecer e a garota se sentia completamente indefesa, frágil.
– Vou dar uma volta com Stella. Voltamos logo – null já girava nos calcanhares para deixar a cozinha, quando null o interrompeu.
– Não sei se é uma boa ideia, null. Talvez seja muito recente… – ela mordeu o lábio, com as mãos inquietas torcendo a beirada do avental que vestia. Nervosa demais com a situação. Sabia que não poderia impedir que null convivesse com a filha, e nem queria isso. Mas tinha tanto medo de que alguém, que não fosse ela mesma, saísse ferido dessa história.
– É uma boa ideia, sim, null, e você sabe disso. Nós dois sabemos – null respondeu simplesmente, com os olhos impacientes e os lábios rígidos.
null suspirou fundo. Ele tinha razão.
– Está bem, mas eu vou com vocês – a garota já desfazia o laço do avental, quando null saiu da cozinha, já anunciando a Stella que eles iriam fazer um passeio.
null observava null e Stella brincando na gangorra. Ela estava sentada em um dos bancos do pequeno parquinho próximo à casa de null, longe o bastante para que a conversa dos dois se resumisse apenas a risadas e palavras como “sorvete” e “bonecos de neve” desconexas.
A garota cruzou as pernas, fazendo com que elas ficassem sobre o banco, e as abraçou, apoiando o queixo nos joelhos. Há tempos que não observava um sorriso daqueles surgir nos lábios de null. Os dois pareciam felizes. Por um lado, ela estava feliz, por finalmente poder reparar os estragos que havia causado. Mas, por outro, nunca havia se sentido tão só em toda sua vida. Não tinha mais null e temia perder sua filha aos poucos. Talvez soasse egoísta da sua parte, porém era isso ao que ela se resumia: uma garota medrosa e egoísta que sempre magoava todos por ter medo de enfrentar os seus problemas.
Observou a pequena Stella sair da gangorra e correr rindo até o escorrega, enquanto era seguida por null. Ele a ajudou a subir na escada, para logo em seguida ela escorregar com as mãos para o alto e dizer um “De novo!” animado.
Era por isso que null não queria mais aquilo. Tudo que devia fazer era trancar aquele sentimento bem fundo no seu peito e deixar que as duas pessoas que a moça mais amava no mundo fossem finalmente felizes, mesmo que isso significasse que ela mesma talvez nunca mais fosse. Tudo o que queria era uma nova chance de ser feliz com null, com Stella. Serem uma família. Ela tinha direito de pedir aquilo?
O barulho irritante do toque do seu celular fez com que ela parasse com a análise que fazia da própria vida. Esticou as pernas para pescar o celular do bolso dos jeans e então demorou um pouco, encarando o visor na tentativa de adivinhar a quem pertencia aquele número.
– Alô? – perguntou enfim, apertando o send quando deu conta de que não conhecia aquela sequência numérica.
– null, é você?
– null? – null reconheceria aquela voz áspera em qualquer lugar. Endireitou o corpo para se recostar ao banco e desviar os olhos para algumas árvores mais adiante.
– Até que enfim consegui falar com você. Não sabe como foi difícil eu conseguir esse seu número novo – ele suspirou pesado do outro lado da linha e tudo que recebeu em resposta foi o silêncio. – Nós precisamos conversar, o quanto antes.
– Ahn – ela voltou a observar null e Stella, agora se divertindo no balanço. null ajudava no impulso e a garotinha segurava as correntes com toda força que podia, enquanto balançava alto. – Desculpe-me, mas não posso sair de perto de Stella agora, null. Vamos deixar para outra oportunidade – mordeu o lábio, sabendo que estava mentindo ou contando uma meia mentira, no fim das contas. O fato é que a garota não queria conversar com null, pois sabia exatamente as palavras que ele diria e não estava preparada para ouvi-las.
Um silêncio perdurou entre os dois, até que null sibilasse seu nome. null e Stella andavam a passos rápidos em sua direção – em especial a pequena, que corria direto para o seu colo –, impedindo que ela trocasse outras palavras, mesmo que quisesse. Tudo o que fez foi dizer um “Preciso desligar agora. Até logo”, antes de finalizar a ligação e pegar a filha no colo sob os olhos curiosos de null.
Não demorou mais do que cinco minutos de carro até a porta da frente da casa de null. null desceu do veículo e, assim que abriu a porta traseira, Stella saiu correndo em disparada até a porta da frente que já era aberta por null. A mulher desviou os olhos dali para encarar null que estava parado com as mãos perdidas dentro do bolso do casaco a alguns largos passos da entrada. E, quando voltou o olhar, nem a filha, nem null estavam mais lá.
null separou os lábios, parando em frente a null, enquanto colocava uma pequena mecha de cabelo atrás da orelha, mas não sabia o que deveria dizer. Havia tanto para ser dito, porém tão pouco que ela realmente soubesse que seria o certo a dizer.
– Vocês não podem ficar na casa do null para sempre… Deveriam vir morar comigo – foi ele quem quebrou o silêncio, conectando os olhos densos nos seus. null demorou um pouco para responder aquela afirmativa, rastreando cara centímetro do rosto de null na tentativa de entender o sentido real daquelas palavras. Mas ele estava sério. Os olhos decididos, os lábios unidos em uma linha tênue.
– Você quer dizer que…? – ela segurou a respiração por alguns segundos. Seria tola demais se dissesse aquilo em voz alta? – É o que estou pensando?
– Não, null. Não é – o rapaz desviou os olhos dos dela quando respondeu. null ficou imensamente agradecida por isso, pois assim ele não pôde notar o quão marejados ficaram os seus. Aquelas palavras soaram como uma adaga perfurando o que restara de seu coração. – Vocês vão precisar de um lugar para morar e quero ficar o mais próximo possível da Stella.
null assentiu com a cabeça, mordendo a ponta dos lábios na tentativa de soar um pouquinho mais forte que fosse.
– Você nunca vai me perdoar. Não é, null? – ela continuou em um fio de voz, tomando coragem de levantar a cabeça para encará-lo.
– Até logo, null – ele girou nos calcanhares, retirando as chaves do carro do bolso e abrindo a porta do carro. null o observou dar a partida e sumir na curva da rua, para então entrar na casa.
9. Sweater Weather
Incrivelmente, o apartamento de null estava limpo e organizado. Era provável que ele tenha feito uma faxina por ali ou contratado alguém para limpar o lugar, assim que null disse que concordava em se mudar para lá com a filha. A porta foi aberta e null entrou, arrastando algumas das malas das duas, com null e Stella ao seu encalço. A pequena estava agarrada às pernas da mãe, com Linguado aos seus braços como de costume. Seus pequenos olhos passeavam curiosos por cada canto do lugar, até que ela notou Ringo e Elvis na varanda do lugar e soltou um gritinho de animação, correndo até próximo à porta de vidro para observá-los de perto.
– Meu Deus, Ringo! – null largou no chão a pequena mala que carregava para seguir a filha até a porta e abri-la. Os dois bichanos pularam em cima delas mais do que depressa, fazendo festa. Ela fez um carinho entre as orelhas de Ringo, recebendo uma lambida de Elvis em resposta. Como havia sentido falta daquelas duas bolotas de pelos!
– Você colocou uma grade na varanda! – null pontuou, levantando-se com Ringo se embolando entre algumas mechas de seu cabelo.
– Eu não podia deixar Ringo fugir. Ele é uma boa companhia – null respondeu, depositando as malas restantes próximas ao sofá da sala. null sabia que ele não havia falado aquilo na tentativa de atingi-la. O seu tom de voz era suave e aquele antigo brilho nos olhos estava lá. Mas, mesmo assim, uma pontada de angústia surgiu no seu peito. Talvez aquilo a perseguisse pelo resto da vida.
Ringo pulou de seu colo, caminhando manhosamente até o de null que havia se sentado no sofá. O bichano ronronou algumas vezes, ansiando por um carinho. null sorriu, iniciando um afago ritmado no pescoço do gato. Stella se aproximou com Elvis ao seu encalço. A pequena se sentou no outro sofá e Elvis a imitou, sentando-se ao seu lado para depositar a cabeça sobre o colo da garota.
– E então... Gostou daqui, Stella? – null questionou, esticando as pernas sobre a mesinha de centro da sala. null se sentou no braço do pequeno sofá em que a filha estava.
– É bem legal! Agorei os bichanos. Como se chamam? – ela perguntou curiosa, agarrando Elvis pelo pescoço, mas ele não parecia estar incomodado. O seu rabo balançava animado. Quem não se apaixonava por Stella?
– Ele é o Elvis e este é o Ringo – null respondeu, erguendo o gato do colo que miou longamente quando ouviu seu nome ser pronunciado. A garotinha sorriu, repetindo os dois nomes várias e várias vezes, enquanto acariciava a cabeça do cachorro.
– Mamãe – Stella perguntou manhosa, girando o corpo para encarar o rosto da mãe que estava ao seu lado. Elvis se remexeu em seu colo, como quem reclamasse por ela ter parado com o carinho. – Por que nós viemos morar com o tio null?
null não respondeu de imediato. Ajustou a sua postura, dividindo o olhar entre null e a filha. Por fim, respirou fundo, decidida em ajustar de vez as coisas.
– Querida, lembra quando você se perguntava sempre por que os seus coleguinhas tinham pais e você não? – null começou e, sem que percebesse, ela encarava null quando dizia aquilo. Os olhos dele estavam surpresos, como quem não esperasse que ela fosse dizer aquilo ali, naquele segundo. Bem, nem a garota mesma havia planejado aquilo, mas já estava na hora, não é? Stella balançou a cabeça, concordando com o que ela havia dito e prestando atenção a cada detalhe sem nem ao menos piscar. – Bem, null é o seu pai, querida…– ela continuou, prendendo a respiração.
Alguns segundos de silêncio perduraram na sala. null podia dizer que aqueles instantes duraram horas. Ninguém se pronunciou. Até mesmo os animais estavam quietos, curiosos, atentos a cada movimento. Stella tirou os olhos da mãe para encarar null sentado no outro sofá. Essa piscou os grossos cílios algumas vezes antes de descer do sofá e pular em cima de null, abraçando-o com toda a força que pôde.
– Isso é tão legal! – ela comemorou, ainda com os pequenos braços agarrados ao pescoço de null. Ele encarou null, com a filha nos braços. null exibia um sorriso tão imenso nos lábios que a mulher nunca havia presenciado. Ele sibilou um “obrigado”, mas a garota não respondeu. Estava feliz pelos dois, estava feliz por si mesma.
XXX
Os dias passavam rápido. null e Stella haviam se instalado no quarto que pertencia a ela antes de partir. null e Stella pareciam tão entrosados, tão felizes como null jamais havia visto em toda sua vida. Tinha valido a pena ter colocado todos os seus medos de lado, todo o seu egoísmo, e ter pensado um pouco neles do que em si mesma.
A chaleira apitou, avisando que a água já havia fervido e estava pronta para o chá. Então null logo deixou de observar pai e filha que assistiam a “Madagascar” na televisão para caminhar até o fogão e girar o dispositivo para desligar o fogo.
– Eu meu remexo muito… Eu me remexo muito… – null gesticulou, imitando a dancinha do personagem na televisão, e Stella entrou na brincadeira, ficando de pé sobre o sofá para ficar quase na mesma altura que o pai.
– Mexendo... MUITO! – os dois gritaram juntos junto com a televisão e Stella caiu na gargalhada, quando null a derrubou no sofá para fazer cócegas na sua barriga. A risada gostosa da garota ecoava pelas paredes. null nunca havia se sentido tão feliz.
– Pare, pare! Pare! – Stella suplicava e então null se rendeu, sentando-se cansado no sofá novamente.
– Ei, pequena, sabe quem está na cidade este fim de semana? – ele perguntou, recostando-se ao sofá, enquanto Stella apoiava a cabeça em seu colo, trazendo Linguado consigo.
– O Bob Esponja? – Stella disse com o cenho franzido, como quem realmente pensasse quem é que poderia ser.
– Oh, não, querida! – null riu, bagunçando os cabelos da garota. – Ele atende pelo nome de Horan. Conhece?
– AH, MEU DEUS! O NAINAI?! – ela gritou animada, levantando-se mais do que depressa do colo de null para ficar em pé no sofá mais uma vez.
– É! O que você acha de nós irmos a um show e dar um alô para esse irlandês? – o rapaz deu risada. Achava tão engraçado que a pequena se animasse tanto com Niall Horan, o cara mais desajeitado que ele conhecia.
– Ahhhhhhhh! – Stella pulou em seu pescoço, abraçando-o apertado antes de sair correndo até a cozinha gritando: “Mamãe, eu vou conhecer o Nainai!”. null se debruçou no sofá para observar as dupla animada na cozinha, quando a campainha soou. Ele se arrastou preguiçoso até a porta, mas se arrependeu de ter saído do lugar assim que se deu conta de quem estava ali.
– Olá, null – null disse com o semblante sério, mas sem obter resposta. Os dois ficam ali, apenas se encarando por algum tempo, até que null apareceu e decidiu que seria melhor tirar null dali antes de que alguém se machucasse.
Eles caminharam até a escada de incêndio e null pareceu contrariado, quando se sentou ao lado da garota com o cenho franzido e uma carranca no rosto.
– Não acredito que você voltou mesmo a morar com ele. Eu simplesmente não consigo acreditar nisso… Faz um mês desde que você voltou e que tem me evitado. Então vou procurá-la no null e fico sabendo que está aqui? – o cara resmungou, sentando-se ao lado da garota e apoiando os cotovelos sobre os joelhos.
– null, ele é o pai da minha filha. O que eu podia fazer? O cara tem seus direitos e eu não podia ficar lá no null para sempre – null disse simplesmente, encarando a parede branca do outro lado da pequena escada. Estava tão cansada de ter que lutar desarmada nessa guerra entre eles que parecia que não teria nunca um fim.
– Então… null é mesmo o pai da Stella?
– É, sim, null… – ela correu os olhos para observá-lo com os dele densos, fixos ao chão. null realmente nutriu esperanças nessa história?
– Era isso o que… Eu estava tão desesperado. Achei que… – ele tentava achar palavras, mas parecia que nenhuma era adequada para desengasgar o que havia sentido todos esses anos. Tudo o que o atormentava todos esses anos agora parecia tão patético. Em dois minutos, todos esses anos de ódio e revolta pareceram errados para null.
– Era por isso que você e null brigavam? Por essa incerteza?
null afirmou e, então, null passou as mãos pelos cabelos, observando-o quando notou que ele não havia terminado.
– Eu pensava que ela era minha, null… E null falava deste filho que você teria com tanta certeza… Eu não podia ignorar isso dentro de mim. Tinha raiva dele falando daquela forma, sem saber o que aconteceu entre a gente antes de você ir embora... E tudo o que eu queria era mandá-lo calar a boca, porque esse filho também poderia ser meu – null desabafou o que parecia estar engasgado em sua garganta todo esse tempo. Ele não poderia compartilhar aquelas dúvidas com ninguém mais além dela. Nem mesmo com null. Ele sabia disso. Agora tudo parecia ser tão sem sentido.
– Desculpe-me, null – null segurou em sua mão, forçando-o a encará-la. Seus olhos estavam sinceros em direção aos dele. Se ela pudesse voltar atrás, faria tudo diferente. Completamente tudo, cada detalhe. – Grande parte de tudo que aconteceu aqui… Com vocês, foi culpa minha, da minha fuga sem explicações.
– Ela é tão linda, null…– null sorriu verdadeiro pela primeira vez em muito tempo.
– É, sim – null concordou, orgulhosa da filha. Talvez a única coisa a qual ela não se arrependia naquela história toda era de Stella. Não saberia como seria o mundo sem a filha para lhe alegrar os dias. – E o que você tem feito, null? – ela perguntou. null se preocupava muito com null, como se preocupava com null e null também. Eles eram uma parcela muito importante da vida dela. Não poderia negar.
– Eu e null estávamos em uma outra banda, mas ela terminou tem alguns meses – resmungou envergonhado, apoiando as mãos no degraus acima do que estavam.
– Você sente falta deles? Do McFly?
null demorou um certo tempo para responder. O silêncio foi tanto que null inclinou um pouco a cabeça para observar se ele continuava ali. Mas, sim, o rapaz não havia se mexido.
– Sinto a sua falta – a voz dele soou tão baixa quanto um sussurro, fazendo com que null se afastasse um pouco dele sem ao menos notar.
– Não vamos misturar as coisas desta vez. Está bem? Eu… Não quero cometer o mesmo erro duas vezes. Não quero mais magoar o null. Ele não merece. Desculpe-me por isso – ela se levantou, constrangida demais por ter que dizer coisas daquele tipo. null não gostava de repelir as pessoas. Ainda mais quando se tratava de null. Mas a garota sentia que, se não deixasse isso claro, talvez colocasse tudo a perder novamente.
Nenhum dos dois se olhou por um bom tempo. null já pensava que não havia mais nada a dizer naquela conversa e ponderava em subir as escadas de volta para o apartamento, quando null finalmente se pronunciou:
– Sinto a falta deles também.
XXX
null se sentia confiante pela primeira vez desde que botara os pés novamente no Reino Unido. Aquilo poderia dar certo, aquilo teria que dar certo. Ela sabia que sim.
– null, estou entrando na sua casa sem ao menos bater na porta. Eu não espero que você se importe – ela cantarolou, surgindo na sala para observar o garoto jogado no sofá assistindo a um programa qualquer na televisão.
– Não é como se eu não estivesse acostumado à sua falta de educação – null retrucou, girando o corpo para se apoiar no encosto do sofá. null mostrou a língua e, por um instante, pensou que ela estava fazendo algo que Stella fazia quando aprontava.
– Bem, eu trouxe visita – a menina disse simplesmente, fazendo sinal para alguém que estava além da porta de entrada. null deu um passo para o lado, revelando null ali, parado, encarando null. Os dois se encararam por um bom tempo, com olhares perplexos e expressões que null não sabia decifrar. Ela sabia que null sentia falta do amigo e agora tinha certeza de que o sentimento de null era recíproco. Não tinha por que aquilo continuar. Ela precisava ajudar esses dois cabeçudos.
– Venha, null. Tem uma coisa que tenho certeza de que você vai adorar aqui na cozinha – a garota estendeu a mão, puxando o garoto que hesitou em sair do lugar.
– O quê?
– Geleia de framboesa… – null segredou com um sorriso surgindo nos lábios. Seus olhos correram do rosto de null para o de null que pareceu sem graça por um instante.
– Mas... O null odeia isso – null murmurou algo que para ele era óbvio e olhou curioso para o ex-companheiro de banda.
– Mas é a sua preferida… – null sentenciou, dizendo aquilo como se falasse que dois mais dois eram quatro. Era óbvio, não era? Uma amizade como aquela do McFly nunca poderia se desfazer. null separou os lábios e sua mão se soltou vagarosa da de null.
Era isso. Apesar de tudo o que havia acontecido, de todos esses tempos brigados, null ainda se lembrava dele e comprava as coisas que ele gostava, mesmo sabendo que o rapaz não iria aparecer por ali.
null soltou um muxoxo e deu alguns passos adiante, enquanto null fazia o mesmo. Os dois trocaram um abraço desajeitado, dizendo palavrões desconexos que para null não faziam sentido nenhum em um momento como aquele.
– Desculpe-me por ser um idiota, null…
– Você foi mesmo… – null riu, afastando-se um pouco do amigo para dar alguns soquinhos no ombro dele. – Senti a sua falta, dude.
– Está tudo muito legal, está tudo muito bonito… Mas precisamos pensar em alguma coisa para trazer o McFly de volta! – null se aproximou, ficando entre os dois e passando um braço sobre o ombro de cada um dos amigos.
– Que tipo de coisa? – foi null quem questionou, arqueando uma das sobrancelhas.
– Não sei. Qualquer coisa – null rolou os olhos. Ela tinha que pensar em tudo por ali.
– Espere aí. Você deixou a Stella sozinha com o null? – null se afastou para encará-la perplexo. Como se fosse o maior sacrilégio do mundo deixar a filha aos cuidados do pai.
– Ué, deixei – null por fim desfez o abraço desajeitado para se encostar sobre as costas dos sofá. – Eles estavam uma animação só com esse show do One Direction no sábado.
– Você disse show do One Direction? – null repetiu para saber se havia entendido direito. null o encarou com a boca entreaberta e null olhava de um para o outro, tentando acompanhar o raciocínio estranho que rondava aquela conversa. – Eu acho que já sei o que fazer!
10. All Our Lives
– Tem certeza de que você já está pronto, null? – null o questionou quando viu o homem encostado ao batente da porta do quarto que ela dividia com Stella. A garota terminou de pentear os cabelos da filha para depositar a escova sobre a penteadeira e encará-la sorrindo. – Agora vá escovar os dentes, querida. Não queremos nos atrasar, não é? – ela continuou, dirigindo-se agora para Stella que correu mais do que depressa até o banheiro para fazer o que a mãe havia pedido.
– Estou. Por quê? – null comentou, desencostando-se da parede para encarar por um instante a própria roupa e depois voltar a fitar a mulher. Ele estava de jeans e camiseta. Para o rapaz, parecia o suficiente para um show. – Para que se arrumar bem só para ir ao backstage? Já perdi a conta de quantas vezes fiz isso no show desses garotos…
– Eu entendo… – ela assentiu, enquanto guardava alguns dos objetos que usou para arrumar Stella dentro da gaveta da penteadeira. – Mas é um dia especial para Stella. É a primeira coisa que vão fazer realmente juntos – null completou, apenas a alguns passos de null. Os dois se encararam por alguns instantes até que ele girou nos calcanhares, convencido em colocar uma roupa um pouco mais apresentável.
O lugar estava lotado. null nunca havia visto tantas pré-adolescentes juntas. Nem mesmo quando trabalhava com o McFly. Pais carrancudos carregavam as filhas pelas mãos para que elas não se perdessem na grande multidão. Mas para os três parecia diferente. null trazia Stella nos seus ombros e eles observavam a multidão através do grande vidro que envolvia o corredor antes dos camarins da arena.
A pequena vestia uma camiseta branca com uma grande foto da boyband e os dizeres “One Direction” em vermelho.
– Ei, filha, está animada? – null se aproximou, erguendo a cabeça para que pudesse fitá-la.
– Só pode estar! Ela não falou de outra coisa a semana inteira – null riu, retirando a filha dos ombros para colocá-la no chão. null sorriu e Stella deu língua em direção ao pai. – Posso jurar que ouvi a menina falando sobre hoje com o Linguado ontem, quando fui desejar boa noite – null inclinou um pouco o corpo para falar baixinho próximo a null para que a pequena não escutasse. null deu risada. Era típico de Stella. Ela ficava tão ansiosa às vezes que conversava com os brinquedos sem parar.
Um dos vários seguranças que estavam na porta do camarim se aproximou, cortando a conversa deles para anunciar que a entrada estava autorizada. null sentiu a mão de Stella apertar a sua e deu alguns passos, tomando a frente até o camarim. null estava bem atrás deles. O próprio segurança deu algumas batidas na porta e disse algumas palavras, anunciando que null null estava ali para vê-los, o que fez com que dois garotos parassem o que estavam fazendo para encarar a porta.
– Ei, null! – o garoto de cabelos cacheados e olhos claros se aproximou deles com um largo sorriso estampado nos lábios. – Nós pensamos que você não viria hoje.
– Alguém me mataria se eu não viesse – null respondeu, soltando a mão da filha para cumprimentar Harry Styles.
– Pode apostar que sim. Da próxima vez, deixaremos o Louis assar o churrasco. É a morte mais lenta e dolorosa que posso imaginar – foi Niall quem respondeu com um sotaque carregado e um sorriso sapeca.
– Não, por favor – null riu, sendo seguido pelos outros dois.
– Mas entrem, pelo amor de Deus. Olhe o tamanho desse lugar para vocês ficarem aí na porta – Harry resmungou, jogando-se no sofá, enquanto null, null e Stella o acompanhavam.
– E quem são essas mulheres lindas com você? – Niall correu os olhos de Stella no colo de null até null sentada ao seu lado.
– Essa é Stella, minha filha. E essa é null… – null indicou cada uma das duas e, quando disse o nome de null, sua voz morreu, sem saber a nomenclatura que colocaria ao lado do nome da garota. “Ex-mulher”? “Mãe da minha filha”? Nada parecia adequado o suficiente, então ele preferiu simplesmente não dizer nada.
– Oh, então essa é a princesinha de quem você me falou null? – Niall sorriu, ajoelhando-se próximo à pequena que o encarava com os olhos curiosos. – Tudo bem com você? – ele perguntou à garotinha, mas não obteve resposta. Stella apenas se aconchegou mais no colo de null, envergonhada.
– Vamos, Stella. O gato comeu sua língua? Fale com Niall. Você gosta tanto dele – null a incentivou, acariciando alguns cabelos no topo do cabelo da garota. Ela levantou a cabeça, encarou a mãe por alguns segundos, depois Niall e finalmente null.
– Papai… – Stella começou, com a voz fininha fazendo um enorme sorriso brotar nos lábios de null. Era a primeira vez que ela o chamava de pai. Aquilo soava como melodia para os seus ouvidos.
– Diga.
– Ele é o Nainai de verdade! – a garota concluiu, com as bochechas enrubescendo e fazendo com que todos presentes caíssem na gargalhada.
– É, sim, querida. Eu sei que ele parece mais bonito naquele seu boneco, mas… – null comentou, ganhando um soquinho no braço de Horan que ainda estava próximo dos dois.
– Ei, Stella, Louis e Zayn estavam jogando vídeo game… Você quer ir lá na outra ganhar deles? – Niall perguntou, estendendo a mão para a garota que antes de mais nada olhou para os pais questionadora. Quando notou que eles concordaram, ela deu um salto do colo de null e agarrou a mão de Niall para irem até a porta.
Uma hora ali havia passado voando e, quando se deram conta, os garotos já precisavam se arrumar para o show. Stella, que a princípio estava tímida, já estava chamando o irlandês de “Nainai” e contando sobre Linguado para ele e os outros garotos. null só conseguiu tirar a pequena dali na promessa de que voltariam outras vezes.
O show foi maravilhoso. Não tinha dúvidas de que o One Direction era uma boyband de sucesso e que sabia mesmo fazer um bom espetáculo e animar a plateia. null, null e Stella ficaram no backstage próximo a saída do palco, onde tinham uma visão privilegiada. “Best Song Ever” terminou e Harry agradeceu ao público, dizendo que foi um show maravilhoso.
– Mas, antes de irmos embora, temos alguns convidados especiais que prepararam uma coisa para vocês hoje – Niall completou, enquanto girava o corpo para o lado oposto do backstage em que null estava e fez um sinal para que alguém entrasse.
null, null e null caminharam até o centro do palco, trocando apertos de mãos e dando tapinhas nas costas de cada um dos garotos do One Direction. Logo depois, tomaram lugar em seus respectivos instrumentos.
– Eu acho que está faltando alguém nessa banda. Não está, não, Zayn? – Liam riu, enquanto ele e os outros companheiros fitavam null, incitando-o a subir no palco.
– Vocês sabem quem é? – Zayn perguntou para o público que começou a gritar o nome de null em uma só voz.
– Pai? Eles estão chamando você… – Stella puxou a barra da camisa que ele usava, tentando chamar a atenção do homem que tinha os olhos fixos no palco, em seus colegas de banda.
– null, vá lá! – null o empurrou de uma só vez, fazendo com que ele entrasse no campo de visão do público, ainda que cambaleante.
A plateia ficou ensandecida ao vê-lo no palco e os garotos do One Direction o direcionaram para perto da banda. O McFly se entreolhou por alguns instantes. Todos sorriram confiantes para null que ficou sem reação. Mas só até a contagem da bateria começar e a introdução da música denunciar que aquela era “The Heart Never Lies”. Aquela música não podia ser mais propícia.
A primeira estrofe começou e null se juntou aos amigos, confiante. Como havia sentido falta daquilo! De estar no palco, de cantar, de estar com seus amigos. Era tudo o que ele sabia fazer, era o que ele fazia de melhor!
Todos cantavam animados. O coração de null parecia que saltaria pela boca a qualquer instante. Não podia acreditar que estava vendo o McFly junto de novo. Stella fazia passinhos ao ritmo da música, batendo palmas no refrão, enquanto null fazia questão de cantar cada estrofe. Ela não conseguiu segurar as lágrimas no final quando, como de costume, a letra era modificada para “but McFly is here forever”. A garota lançou um olhar para os garotos da banda e também notou que todos estavam emocionados, principalmente null.
Quando a música terminou, todos foram à loucura. A plateia começou a gritar “McFly” em coro, enquanto null, null e null se levantaram para um abraço em grupo em meio as lágrimas. null fez questão de sair do meio dos outros dois e puxar null para se juntar a eles. null foi o primeiro a abraçar o amigo, dando soquinhos em seus ombros, como quem se desculpasse. Coisas de homens.
Antes que null pudesse dar conta, Stella saiu de perto dela, correndo para dentro do palco e pulando no colo do pai que deu um beijo no topo da cabeça da garota.
– Pai, você é muito mais maneiro que o Nainai! – a pequena disse, fazendo com que null a enchesse de beijos.
XXX
– Prontinho, filha! – null disse, assim que terminou de fatiar o pedaço de pizza de Stella. Elas e o McFly estavam em um restaurante, comemorando a volta da banda. Ela mal podia acreditar que estava tudo entrando nos eixos. A pequena agradeceu e começou a comer, enquanto engatava em uma conversa sobre gatos com null.
null correu os olhos até a entrada do estabelecimento, onde podia ver a imagem de null através da porta de vidro. Já fazia alguns minutos que ele havia saído para atender uma ligação e até agora não voltara.
– Vocês podem ficar de olho em Stella um instante? Quero conversar algo com o null – null parou de conversar com a pequena para observá-la. – É sobre a casa e tudo o mais… – null completou, deixando claro sobre o que era o assunto. Apesar de ter aceitado morar com null novamente, não achava certo continuar morando sob o mesmo teto que ele apenas por Stella. Se o rapaz não a amava mais, ele tinha o direito de conhecer e se relacionar com outras pessoas. E, por mais que isso doesse, não seria ela quem iria atrapalhar.
– Ainda acho que ele vai surtar sobre isso, mas boa sorte – null disse, apertando mais a esposa contra si. null se levantou da mesa, enquanto null e null ajudavam Stella com o guardanapo, e atravessou a porta do restaurante, parando na calçada a alguns centímetros de null.
– Sim, mãe, foi inacreditável. Eu nem consigo acreditar ainda! – null virou-se com um sorriso gigantesco que fez null sorrir automaticamente. Ele pediu um minuto quando a viu ali. – Sim, estamos todos aqui no restaurante comemorando. Sim, mãe, Stella e null estão também – o rapaz riu. – Minha mãe mandou um beijo.– disse a null.
– Diga que mandei outro.
– Ela retribuiu. Ok, mãe. Preciso ir. Vou falar com null e aviso. Pode deixar. Também amo você. Tchau – ele desligou o telefone, ainda sorrindo. – Minha mãe nos chamou para almoçar amanhã lá. Uma comemoração em família para a volta do McFly. Tentei explicar a ela que ainda não temos nada definido, mas você a conhece. Fora que a mulher insistiu fervorosamente que quer ver a neta – null sorriu.
– Estou tão feliz por vocês – ela disse verdadeira, cruzando os braços em frente ao corpo.
– Eu também estou. Você viu a carinha da Stella? Estava tão orgulhosa – null bagunçou os próprios cabelos, mostrando uma expressão de pai babão. Era isso o que ele era.
– Como não estar, null? – null se aproximou um pouco de null, com o corpo gelado pela brisa da noite. Estava nervosa.
– Acho melhor irmos para casa… A baixinha já passou demais da hora de dormir – o rapaz disse, olhando a filha pelo vidro. Stella acenou animada, mostrando sua casinha de batatas fritas.
– null, antes de ir… Eu andei pensando bastante nos últimos dias. Sobre Stella, sobre nós… Sei que não fui a melhor das pessoas afastando Stella de você, deixando toda essa confusão… Quer dizer, fui responsável pelo fim do seu maior tesouro e não há nada que eu possa fazer ou dizer que retire todos os danos que causei. Eu realmente sinto muito e espero que você possa me perdoar um dia, que as coisas possam ficar bem. Afinal, aquela coisinha lá dentro vai nos unir pela vida toda. Vou fazer o que for necessário para que a Stella sempre tenha os seus pais com ela. Foi um erro afastá-la de você ou qualquer coisa parecida – null disse, encarando seus sapatos e abraçando o seu corpo pelo frio. O silêncio de null a deixava ainda mais nervosa. Ele não falava nada, não expressava nada. Não gritava com ela ou a ofendia. A visível indiferença ao seu pedido de desculpas era pior do que se ele estivesse gritando e a xingando.
– É só isso, null? – o cara disse calmo e suave. Se não fosse impossível, null poderia até dizer que um sorriso leve estava nos lábios de null. E ela desejava tanto aqueles lábios… Foco. Ela precisava de foco.
– Na verdade, não… Comecei a procurar uma casa, ali no bairro mesmo, onde eu e Stella possamos ficar – ele a encarava sem reações, de braços cruzados. A garota ainda estava esperando pelo escândalo. – Não me entenda mal. Eu aprecio muito mesmo nos deixar ficar na sua casa, mas você tem sua vida e não quero atrapalhar nada. Acho que você merece alguma privacidade e minutos de paz – ela riu amarelo, enquanto null sorria nasalado, encarava os pés e voltava a olhar para ela. – Que fique claro que não vou afastar você da Stella. Poderá vê-la sempre que quiser, sem restrições. Só não é legal um cara ter sempre a filha e a ex-mulher como bagagem o tempo todo. Quer dizer, você tem uma vida…
– Você sabe que, legalmente, nós ainda somos casados e, até agora, moramos sob o mesmo teto. Certo? – ele interrompeu a mulher, descruzando os braços e dando mais um passo em direção a ela.
– Sim… – null mordeu o lábio inferior e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, sem saber o que fazer com as mãos. A verdade é que não queria se separar definitivamente de null e ela tinha entendido o que ele queria dizendo isso: o rapaz queria o divórcio. Por mais que mal existisse, a esperança era a única coisa que ela ainda tinha.
– Então talvez eu tenha que exigir os meus direitos de marido… – null completou, extinguindo a distância que restava entre os dois para selar os lábios com o da garota. null foi pega de surpresa, mas logo deu passagem para que ele aprofundasse o beijo. Eles sentiram falta do calor do toque do outro em sua pele. Nunca mais havia sido o mesmo. Todos estes anos separados, era como se faltasse um pedaço de si mesmo em algum lugar no coração. A garota entrelaçou os dedos por entre os cabelos da nuca de null e esse apertou mais os braços em volta do tronco dela para aproximá-la mais de si.
Depois de um tempo, ouviram algumas risadas ao fundo e batidinhas no vidro do estabelecimento, fazendo com que se separassem ofegantes. Stella estava no colo de null e os dois batiam no vidro e faziam corações com as mãos em direção ao casal. null enrubesceu, escondendo o rosto no peito de null que a abraçou de lado e depositou um beijo no topo da cabeça dela.
– Vamos para casa.
Epílogo
Eu senti saudades de vocês.
Na verdade, não de vocês exatamente falando, porque, afinal, não conheço todos os meus leitores. Mas senti falta de escrever, de despejar cada pedaço de mim nessa folha de papel que será reimpressa milhões de vezes. Aqui consigo ser simplesmente eu, traduzida em um conjunto de palavras.
Depois de anos sem escrever uma linha sequer, a primeira coluna não será sobre celebridades, porém sobre alguém que você conhece melhor do que ninguém, caro leitor: Você. Você é feliz? Já parou por um momento e se perguntou se é feliz sendo quem é, fazendo o que faz?
Eu descobri que sou extremamente feliz, porque a primeira coisa que faço quando acordo é sorrir. Sorrio porque sei que, segundos depois disso, vou receber um beijo de bom dia do meu marido e então minha filha vai entrar correndo quarto adentro, dizendo que quer waffles de chocolate para o café da manhã.
A minha vida não é perfeita. Longe disso. Mas já passei por tantas coisas esses anos. Cometi tantos erros que me fizeram pensar que eu nunca mais sentiria esse calor no peito chamado felicidade. Então não preciso mais que isso na minha vida.
Então, tudo que eu tenho que dizer hoje para você é: dê segundas chances. Para si mesmo, para as outras pessoas. Para a felicidade. Sem uma segunda chance de null, da minha filha e do McFly, que me perdoaram por todas as escolhas erradas que fiz na vida e que os afetaram diretamente, nós nunca seriamos felizes. Nenhum de nós.
– Ei, null, o que está fazendo ainda nesse computador? – null se aproximou da mulher, abaixando o suficiente para depositar um beijo em seu pescoço e entrelaçar seus braços por ali.
– Estou terminando a coluna. Quero enviar logo para entrar na próxima edição da revista – ela tirou as mãos do teclado e girou um pouco a cabeça para poder selar os lábios com os do marido.
– Não sei quem está mais ansioso: Stella ou null. Ele não para de ligar para perguntar por que estamos demorando tanto para chegar ao hospital – null comentou, enquanto fazia null se levantar da cadeira para abraçá-lo.
– Ao mesmo tempo em que quero conhecer logo a pequena Joanna, estou tão cansada com essa festa de última hora que Kathe decidiu preparar – ela afundou a cabeça no peito do marido, sentindo os dedos dele lhe fazendo um pequeno carinho em seus cabelos.
– Só podia ser ideia da namorada do null mesmo fazer uma festa de boas-vindas para um bebê – null riu, tocando com delicadeza o queixo de null para guiar seu rosto até o dele para um pequeno beijo.
– É um gesto bonito da parte dela – a garota sorriu para fazer uma careta logo em seguida. – Só não imaginava que uma festa desse tipo desse tanto trabalho para organizar. E também, com a coluna de volta e Stella no colégio… São tantas coisas para lidar ao mesmo tempo.
– Você se esqueceu de mencionar a parte em que você cuida do seu querido marido.
– Você sabe se cuidar, null. Já está bem grandinho – null respondeu zombeteira.
– O que vocês estão fazendo aí parados? – Stella apareceu na porta do quarto com as mãos na cintura e uma cara emburrada. – Titio null já ligou três vezes e ele pediu para dizer que, se não chegarmos em dez minutos, vai pedir para Joanna voltar para a barriga da titia Sarah e então eu não vou poder vê-la!
null e null se aproximaram da pequena em meio a risadas.
– Você sabe que isso não tem como acontecer. Não sabe, Stella? – null questionou a filha, entrelaçando a mão com a dela.
– Não sei. Titio null parecia bem sério no telefone – Stella respondeu com os olhos apreensivos em direção à mãe.
– Então é melhor irmos logo. Não querermos perder Joanna de vista – null completou, pegando as chaves do carro sobre a cômoda para então fechar a porta do quarto assim que as duas deixaram o lugar.
O computador em que null estava escrevendo a coluna ainda continuava ligado, com o monitor estampado pelas últimas palavras que ela havia digitado:
“Agora, aqui, eu sou feliz.”
FIM
Nota da Rav (11/12/2013): Que frio na barriga. Insegurança é o meu segundo nome e eu sei que nenhuma de vocês queria o fim de Stella. Mas tudo na vida tem um fim, infelizmente. Espero que tenha atendido à expectativa de vocês, de verdade. Queria agradecer imensamente às setecentas leitoras que eu sei que esta fic tinha (ou mais. Setecentas só no grupo do facebook) e dizer que vocês são muito especiais para mim. Só espero que vocês não me abandonem depois daqui. De verdade. Agradecimentos especiais à Thy e à Su. Que, sem elas, Stella 2 nunca teria realmente acontecido. Só elas sabem o quão desesperada fiquei a cada capítulo. Obrigada à Ana, esta beta querida que se tornou minha amiga e me acompanha desde 2010 pacientemente em todas minhas aventuras neste mundo imaginário. Obrigada a todas vocês leitoras, que de uma forma ou de outra mandam palavras de carinho (e alguns xingamentos também). Vocês são muito importantes para mim. Por fim, com uma dor no peito e lágrimas nos olhos, queria agradecer a Thomas Fletcher. Sem ele, essa fanfic nunca teria ao menos sido criada ou desenvolvida. Quando eu penso nisso, lembro que foi em 2009, por aí, que a primeira parte dessa fic começou. Às vezes, não paramos para pensar em quanto tempo se passou ou em quanto amadurecemos e quanto as pessoas mudam em um conjunto de anos. Desculpem-me vocês, as quais decepcionei pela fanfic ter chegado ao fim e talvez por não ter tido um final satisfatório (sei que nunca na vida vou agradar a todos e aceito isso de bom grado). Juro que tentei dar o meu melhor, como tudo que faço na vida. Obrigada, obrigada e obrigada. A todos que de alguma forma disponibilizaram um segundo sequer do seu tempo para dar atenção à minha fic, sendo lendo, indicando, betando, comentando, reclamando, que seja. Por fim, gostaria de convidar vocês para lerem minhas outras fanfics. É só clicar no link ali embaixo que terá a listagem de todas. Se você gosta de McFly, indico Finders Keepers. Leia que vale a pena. Eu prometo. Aproveitem que é a última fanfic de McFly que vou escrever. Se quiserem se manter atualizada com as fanfics que escrevo, sugiro entrarem no grupo das minhas fanfics lá no facebook. E 2014 finalmente vou ter meu primeiro livro em mãos, publicado independente. Espero que vocês gostem dele tanto quanto eu. Amo vocês. Sempre e sempre. Xxx @ravfletcher.