What Goes Around


"O amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho."
Agatha Christie


Chapter One

Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o peitoral extraordinário de . Era a primeira coisa que eu via há alguns meses atrás. Estava deitada em seu peito, em nossa cama. Olhei para o relógio do outro lado do quarto e percebi que já devia ter acordado, pois seu trabalho é cedo e geralmente ele faz de tudo para poupar atrasos. Distribuí beijos por seus músculos, tentando fazê-lo acordar.
- Bom dia – ele se espreguiçou e beijou o topo de minha cabeça.
- Bom dia, dorminhoco. Sabe que horas são? – ri deliciosamente e beijei sua bochecha.
- Tarde? – perguntou, de um jeito no mínimo bonitinho.
- É, bem tarde – apontei pro relógio. – Você dormiu um pouco demais.
- Se toda noite fosse como a noite passada... Eu nunca acordaria cedo – falou com um sorriso malicioso de canto e beijou meu pescoço, passando a mão por meu corpo de lingerie. Selei nossos lábios e deixei sua língua brincar com a minha, abruptamente. Sentei em cima de sua cintura e pressionei seu membro, só para provocá-lo. Ele entendeu e não deixou barato. Me virou, deixando-me por baixo e desabotoou meu sutiã. Foi fazendo um caminho com a boca, dos meus seios até meu umbigo, ficando embaixo do cobertor. Brincou com minha calcinha, descendo-a um pouco e subindo-a. Distribuiu beijos delicados pela região. De certo, minha excitação já era presente. Subiu a calcinha de novo e refez o caminho com os dedos, chegando até minha boca e mordendo meu lábio de leve. Ah, ele me deixava louca... – Mas, como tudo que é bom dura pouco, tenho mesmo que ir trabalhar – falou, com um biquinho e se levantou da cama, caminhando em direção ao banheiro e piscando para mim antes de fechar a porta.
- Porra, , você vai me deixar assim? – gritei, rindo. Ele não respondeu. Deveria estar resolvendo algo importante... Suspirei e me ajeitei na cama. Minha vida estava tão perfeita que desafiava a lógica. Um marido perfeito, uma filha linda, uma bela mansão. Apesar de tudo, eu não me sentia completa. Sabia eu faltava algo. E também sabia que esse algo estava relacionado a tiroteios e roubos. Estava relacionado a . Ah, eu não admitia para mim mesma, mas a saudade que eu sentia dele era incontrolável. E ainda mais nas circunstâncias que estava. Lembrar dele era como respirar. Eu fazia e nem percebia. Era essencial.
Fiquei imersa em pensamentos até a hora que saiu do banheiro, com a toalha enrolada na cintura. Ele era tão lindo, mas ganhava em alguns aspectos. Observei-o procurar sua roupa, pensativo.
- Isso é tão estranho – ele sibilou e sentou-se na beirada da cama.
- O quê? – perguntei, com um sorriso delicado.
- Você fica me observando desse jeito, sem falar nada.
- Gosto de te olhar – dei de ombros. E era verdade. Eu poderia não amar-lo, mas eu nutria um sentimento verdadeiro e forte por ele.
- Hum – andou até mim e selou nossos lábios, num beijo calmo e gostoso. – Tenho que viajar hoje – anunciou – Depois do almoço – murmurei ‘uhum’ e continuei a beijá-lo. Brincando com nossas línguas. Ah, era a hora de dar o troco. Deitei-o na cama e retirei sua toalha, jogando-a em algum lugar do quarto. Ele sorriu malicioso e me puxou para cima, selando nossos lábios. Me livrei da minha calcinha e encaixei seu membro e mim, com força. A respiração dele ficou rápida e falha. Comecei com movimentos lentos e profundos, mas fui aumentando a velocidade de acordo com que ele gemia. Fomos interrompidos pelo toque de seu celular. – Droga – riu abafadamente. Parei com os movimentos e tirei seu membro de dentro de mim. – Não, , você não vai fazer isso. Continue. Não importa quem está ligando. Por favor. Estou quase lá.
- Ah, meu amor, é melhor você atender seu celular. E se for algo tão importante quanto tomar banho? – falei, debochando. – E além do mais, tudo que é bom dura pouco, não é? – beijei sua bochecha e me encostei no travesseiro. – O que você tá esperando? Atende logo! – sorri brincalhona, adorando a expressão dele de ‘você vai ver ’ e o vi atender. – . Ah, oi – levantou-se, vestiu sua boxer, colocou o roupão e saiu do quarto. Era sempre assim quando ia falar sobre negócios. Ele ia para seu escritório e não saia de lá até terminar. Nunca misturava família e trabalho.
Levantei-me da cama, vesti o robe e segui para o quarto de Sophie.
Sophie é o meu anjo, meu bem mais precioso, a coisa mais importante da minha vida. Ela é minha filha, que agora tem três anos de idade. Entrei no cômodo, quase todo cor de rosa e abri as cortinas, deixando a luz do sol iluminar o ambiente. Aproximei-me da cama, dando-lhe um beijinho no nariz.
- Soph, meu bem, tá na hora escola.
- Não, mamãe, sono ainda. – ela disse, cobrindo o rosto com a coberta colorida.
- Você não quer ver os seus amiguinhos hoje? – ela descobriu a cabeça, me olhando por uns segundos.
- Sono, mamãe. – ela disse, num tom engraçado, quase impaciente e cobriu a cabeça mais uma vez.
- Então eu pedirei pra Charlotte dar para outra criança, aquele bolo de chocolate maravilhoso que ela fez. Aquele com bastante cobertura, sabe? – ela descobriu apenas os olhos. – Hum, até eu fiquei com vontade de comer esse bolo agora. – comecei a caminhar até a porta.
- Hey, bolo sem mim não. – ela disse pulando da cama e correndo até mim. Eu a peguei no colo, a girando no ar.
- Mas, antes do bolo, temos que nos arrumar, certo? – perguntei, colocando-a no chão.
- Certo! – ela gritou, correndo para o banheiro.
Saímos as duas do banheiro, Sophie com o roupão amarelo preso ao corpo e eu completamente molhada. Eu a ajudei a colocar o uniforme e quando ia pentear seu cabelo, ela tirou a escova da minha mão, tratando de pentear ela mesma.
- Não quer que a mamãe arrume seu cabelo?
- Não, eu sei arrumar. – ela disse, passando a escola cuidadosa e desajeitadamente pelos fios de seu cabelo. Sentei na cama, esperando ela precisar e pedir ajuda, sabia que não demoraria. Durante esse tempo, fiquei observando minha filha, cada traço de seu lindo rosto. Seu cabelo, liso e castanho, que ia até a altura dos ombros. Todos diziam que a forma de seu rosto lembrava o meu, e era verdade, eu estava presente em todos os traços de seu rosto, como se fosse uma cópia em miniatura, mas a cor de seus olhos era exatamente como a do pai.
- Mamãe. – ela me chamou, fazendo-me acordar de meus pensamentos. – Preciso de ajuda, não consigo prender daquele jeito que você prende. – ela disse, fazendo um bico.
- Senta aqui. – dei umas batidas na cama, ao meu lado. Prendi seu cabelo da maneira que ela queria, duas tranças, uma de cada lado da cabeça, com um elástico azul em cada ponta. – Pronto, tá linda.
- Bolo de chocolate agora? – ela perguntou e eu afirmei com a cabeça, em seguida ela correu para fora do quarto, em direção a cozinha.

Voltei para o quarto, tomando um banho rápido e me trocando. Passei uma maquiagem leve, fui até o quarto de Sophie, peguei seu material e desci para tomar café com a minha família. Da sala de estar, pude ouvir Sophie falando algo com , rindo algo em seguida.
- Posso saber o motivo dos risos?
- Papai falou que vai trazer um monte de presente.
- Sério? Será que a mamãe também vai ganhar?
- Não. – ela respondeu séria. Eu a encarei por alguns segundos e ri, sendo seguida por ela.
- Mocinha, tá na hora da escola. Despede-se do seu pai.
- Tchau, papai. Não demora, tá? – ela disse, o abraçando com força.
- Não vou demorar, querida. – ele deu um beijo demorado no alto de sua cabeça. – Papai te ama.
- Eu também amo o papai. – ela disse, com um sorriso, dando-lhe um beijo estalado na bochecha. Eu o beijei, antes de sair e escutei seu sussurro “Quando voltar de viagem, eu vou me vingar. Se prepare.” Sophie deu tchau para Charlotte e me seguiu até o carro. Coloquei-a sentada em sua cadeirinha, apertando bem o cinto ao seu redor. Entrei pelo lado do motorista, seguindo para a escola.

Deixei Sophie na escola e fui para a academia, para passar o tempo. Desde quando eu me casei com , vivia assim, arrumando coisas para passar o tempo, já que eu tinha saído do meu ‘trabalho’ e não entendia nada de papeladas. E também adorava que eu fosse esposa em tempo integral. Quem diria... depois de tantos anos no mundo do crime, eu nunca imaginara que um dia teria uma filha, tempo livre...
- Alô? – parei de malhar e atendi o celular, que indicava um número desconhecido.
- Olá, bonita – eu conhecia aquela voz até no inferno.
- O que você quer, ? – perguntei, indo direto ao ponto.
- Hum... Para que a pressa?
- – falei, impaciente.
- Você ainda me deve uns favores... Da última ajuda. Aquela Ferrari era uma das minhas preferidas.
- Eu te devolvi, . Não tenho nada mais para falar com você.
- É aí que você se engana.
- O que você quer dizer com isso? – tentei usar uma voz que há muito não usava. Destemida e fria.
- Você me deve favores, queridinha. E desta vez não vai ser na cama que você vai pagá-los.
- Se você tem alguma sujeira para limpar, o problema é seu. Não tenho nada a ver com isso.
- É aí que você se engana novamente.
- Não estou te entendendo, – e realmente não dava para entender. Como ele podia chegar depois de três longos anos e cobrar favores?
- Por que você não vai buscar sua filha no colégio? Acho que hoje não é um bom dia... o tempo está frio. Ela pode adoecer. Como é o nome mesmo? Sofia? Sophie? – Num impulso, coloquei todas minhas coisas que estavam na mesinha dentro da bolsa e saí correndo em direção ao carro.
- Se você... Se você encostar um dedo nela...
- Calma, meu bem, primeiro vá à escola, depois nós nos falamos – e desligou, simples assim.
Eu nunca acreditei em Deus, até porque ele nunca fez nenhuma diferença na minha vida, mas naquele momento, eu rezei mentalmente. Com uma fé que nunca tinha tido.
Sempre soube do que era capaz. E não queria que ele demonstrasse sua capacidade com minha pequena. Eu o mataria.
Joguei o celular dentro da bolsa e entrei no carro. Em menos de dez minutos, freei o veículo na frente da escola, deixando as portas abertas e saindo em disparada.
- Oi, sou a mãe da Sophie. Eu a deixei aqui, uma hora antes. Posso vê-la? – as orações se misturaram numa só, enquanto eu falava com uma rapidez e preocupação evidente.
- Um momento – uma senhora, de cabelos grisalhos e dentes amarelos, falou e digitou alguns números no telefone. - Qual a sala de Sophie? Espera... – Olhou para mim. – Sophie o quê?
- Sophie – falei rápido.
- Sophie – completou. Meu coração se acelerava de acordo com que ela fazia um barulho com as unhas no balcão de madeira, esperando. – Ah, sim. Tudo bem – colocou o celular no gancho e esboçou um sorriso simpático. – Seu irmão já veio buscá-la, Senhora.
Não precisava dizer mais nada. Senti que meus órgãos borbulhavam dentro de meu corpo. A fúria me dominou completamente.
- COMO ASSIM MEU IRMÃO, SUA IMBECIL? – gritei, descontroladamente.
- Senhora...
- EU. NÃO. TENHO. IRMÃO. – falei, parecendo que ia explodir. – Como vocês entregam minha filha para qualquer um? – bati na mesa com tudo, fazendo uns papeis caírem. – Eu vou foder vocês. Vão ver. Se acontecer alguma coisa com Sophie... – a essa hora, já tinha perdido a noção do tempo, do lugar, da vida.
A senhora ficou boquiaberta, sem ação. Tentei manter um ritmo normal quanto a respiração, já que o coração ficou incontrolável. Desafoguei-me dos pensamentos quando algo vibrou em minha bolsa. Sem pensar, atendi o aparelho.
- Seu filho da...
- Calma, calma, zinha. Algo me diz que Soph não pode ouvir palavra feia – senti uma repulsa indomável por aquele homem. – Soph, por que você não dá um oi para a mamãe?
- Mamãe? – quando escutei sua voz, meu coração se acalmou, por ela estar bem. – Você já experimentou sorvete de morango com chocolate? É delicioooso.
- Você está bem, querida? – tentei me manter calma.
- Está, por enquanto. – e sua desprezível capacidade de ser agradável. – Mas, acho que se a mamãe não cooperar, a bebê não vai ficar tão bem.
- Diga o que quer. – era simples, ele queria algo e eu iria dar. Mesmo que fosse contra meus princípios voltar a atuar naquele meio, eu faria tudo por Sophie.
- É simples. Junte sua equipe e espere minha próxima ligação.
- Mas, ... – tum, tum, tum, tum, tum... Como assim juntar minha equipe? Isso era loucura! Fazia anos que eu não via , Debra... Eu dei um tiro nela! Por que ela iria querer me ajudar? E o nem se fala... Por que eles me ajudariam?


Chapter Two

’s pov

- Vai se foder – a loirinha disse, me empurrando.
- Depois não se arrependa, minha linda – pisquei de um jeito sedutor e a vi mostrando o dedo do meio. A loira deu as costas e saiu, rebolando. Ah... aquele quadril... – Um uísque, por favor – falei para o barman e sentei no banco à frente do bar. Ele começou a servir minha dose de imediato e colocou na minha frente. Sorri, agradecido e beberiquei o conteúdo do copo.
- Tentando seduzir mais uma frágil donzela? – escutei a voz de Debra e sorri, sentindo sua mão em meu ombro.
- Não tão frágil...
- Ah... Eu pude perceber. Ela resistiu aos seus encantos.
- Ela corresponde a um por cento da população feminina.
- Menos, . – ela riu – Tenho uma proposta, ou melhor, um convite.
- Uma proposta indecente?
- Você não muda, não é mesmo?
- Mudar pra quê? – tomei um gole da minha bebida.
- Enfim - ela suspirou – Aceitará meu convite?
- Claro, só me diga quando e onde. Estarei lá.
- Preciso que você venha comigo agora.
- É tão urgente assim?
- Você não imagina o quanto.
- Tudo bem – eu disse me levantando e deixando uma nota no balcão – Vamos.
Segui Debra até o estacionamento. A rua estava deserta, afinal já passava das duas da manhã. Ela seguiu para o seu próprio carro, apertando a chave automática em sua mão, abrindo as portas dianteiras.
- O quê? Não vamos no meu carro?
- Claro que não, você nem sabe onde estamos indo. – bufei.
- Mas você dirige tão mal. – disse, enquanto ela entrava no lado do motorista e dava partida.
- Cala a boca e entra, .

Seguimos em silêncio por alguns minutos, quer dizer, não completamente em silêncio. Debra murmurava alguma música que eu não reconhecia, enquanto batia os dedos no volante. Depois de mais alguns minutos, percebi que entramos na auto-estrada.

- Debra, onde exatamente estamos indo?
- No momento certo você saberá, não confia em mim?
- Claro, mas é que...
- Sem ‘mas’, ligue o rádio, durma, aprecie a vista – ela olhou para o lado de fora, onde a escuridão tomava conta de todo o lugar – Faça qualquer coisa, mas fique quieto.
- Ok, mas me responda uma coisa.
- O quê?
- Vai demorar muito ainda? – ela pisou fundo no acelerador, me lançando para a frente.
- Não mais. – um sorriso surgia em seus lábios, conforme o ponteiro do velocímetro subia rapidamente.

Me ajeitei no banco, ficando numa posição confortável e fechei os olhos, seguindo o conselho de Debra. Quando acordei, os fracos raios do sol já eram o bastante para incomodar. Me sentei, tentando me localizar. Foi quando eu vi um grande letreiro luminoso, que mesmo a luz do dia era possível ver.

WELCOME TO LAS VEGAS


- Bom dia, dorminhoco. – ela disse rindo.
- Debra, você pode me dizer que diabos estamos fazendo em Las Vegas?
- Você já saberá. – ela disse diminuindo a velocidade para entrar na cidade. Pegou o telefone na bolsa, discando rapidamente um número. – Chegaremos em cinco minutos.
- Com quem você está falando? Merda, Debra, me diga o que está acontecendo.
- Calma, . – ela parou no sinal.
- Calma porra nenhuma. Você já nos traiu uma vez, quem pode me garantir que não nos trairá de novo?
- Nos traiu? Ainda somos uma equipe, ? – ela riu e depois suspirou – Eu nunca traí você, e falando desse jeito você parece a .
- Não me compare com aquela piranha. Ela me abandonou, todos vocês me abandonaram. Eu não sei o que estou fazendo aqui, eu não deveria ter te seguido. – tentei abrir a porta do carro, mas ela a trancou.
- , para com isso. Eu já te provei, mais de uma vez nesses três anos, que você podia confiar em mim. O que você acha que eu vou fazer com você?
- Eu só quero saber o que estou fazendo em Las Vegas.
- Em um minuto você saberá. – ela parou o carro e precisei de um segundo para reconhecer o lugar.
- Cassino Fleurt? – ela não respondeu, apenas saiu do carro e seguiu para local, agora, abandonado. Ele nunca mais de reergueu depois do que aconteceu anos atrás. – Debra! Debra! – gritei, e por fim a segui.
- Será que agora você pode me explicar o que estou fazendo aqui? – perguntei, tentando encontrá-la no escuro. De repente as luzes se acenderam e uma pessoa que eu não vi há anos, estava novamente em minha frente. – ?
- Hey, , quanto tempo. – ele disse sem jeito. Ele se levantou e veio em minha direção, estendendo a mão.
- O que você está fazendo aqui?
- Você não contou a ele, Deb?
- Se eu contasse, ele não viria. – ela respondeu, fechando a porta e ficando na frente da mesma, impedindo que eu saísse.
- Contar o que? – virei meu corpo em sua direção – Fala porra!
- Tem uma pessoa que precisava muito falar com você.
- Quem?
- Eu. – quando aquela voz entrou pelos meus ouvidos, meu sangue ferveu, mas não apenas de raiva, era como se fosse uma melodia que ao mesmo tempo me matava e me elevava.

/’s Pov

Eu já estava à uma hora encarando o telefone. Uma hora que a minha Sophie estava nas mãos daquele babaca, mas o que eu poderia fazer? Teria que seguir suas instruções, por mais difícil que fosse. Respirei fundo, discando um telefone conhecido.

- Alô?
- Debra, é a .
- ? Nossa, que surpresa.
- Debra eu preciso de ajuda. Eu sei que não tenho o direito de te procurar, ainda mais depois do nosso último encontro, mas eu não tenho escolha.
- , o que aconteceu?
- Minha filha, o sequestrou a minha filha.
- Filha? Eu não sabia que você tinha filha. – ela disse surpresa. – Mas porque ele fez isso? O que ele quer com isso?
- Eu não sei, ele falou que eu estava devendo uma a ele e que eu precisava reunir minha antiga equipe.
- Eu não sei...
- Debra, eu te imploro, eu preciso que você me ajude, não por mim, mas pela minha menina. Ela só tem três anos e eu tenho muito medo do que o possa fazer com ela. – ela se manteve em silêncio. – Por favor, Deb, pelos velhos tempos...
- Ela tem quantos anos?
- Três.
- E aquele covarde a sequestrou? – ela respirou fundo – Vamos pegá-la.
- Eu não sei como te agradecer.
- , eu sou seu menor problema, você sabe que será difícil com o...
- Será praticamente impossível, mas eu preciso tentar.
- Eu falo com ele, arrumo uma forma de fazê-lo ajudar ou pelo menos parar para ouvir. Você fala com o e nós nos encontramos amanhã.
- Ele ainda tem o nosso número de emergência?
- Se eu ainda tenho, ele provavelmente terá. A última vez que eu o localizei, ele estava de volta aos Estados Unidos, morando em algum lugar perto da Flórida.
- Ok, onde nos encontramos?
- Cassino Fleurt. – ela riu – Sei que não temos boas lembranças desse lugar, mas está abandonado. Ninguém nos verá.
- Amanhã no Cassino Fleurt. Obrigada, Deb, não sei como te agradecer.
- Tente me perdoar de verdade, será a melhor forma de agradecimento. Até amanhã.
- Até.

Eu consegui entrar em contato com o com facilidade. Ele estava morando na Flórida e trabalhando numa empresa de publicidade. Ele conseguiu realizar seu desejo de ter uma família, pelo menos por um tempo. Ele estava separado e tinha três filhos. Alguma coisa como não conseguir ficar no mesmo lugar por muito tempo, foi o estopim para a separação e a minha ligação foi como uma luz no fim do túnel. Ele queria uma aventura e sabia muito bem como eu estava me sentido. Mexer com os filhos de alguém não é uma atitude muito prudente, ainda mais se essa pessoa tiver tantas mortes no currículo. Eu estava de volta a ativa e com uma vontade jamais vista. Eu passaria por cima do que quer que fosse, mas teria minha menina de volta.

Passei a noite inteira argumentando comigo mesma o porquê de ter feito isso com minha filha. Canalha, foi uma das palavras que eu consegui descrevê-lo. Canalha, sem coração, egoísta e psicopata. É, acho que psicopata é um bom adjetivo quando se seqüestra a filha de alguém. Já pela manhã, além de ter que mentir para os empregados, dizendo que Sophie estava na casa de uma Tia avó, tive que mentir para meu marido, pela fofoca que algum empregado infeliz resolveu contá-lo. Ótimo, a gente contrata esses idiotas, paga a quantia certa e justa no fim do mês e ainda tem que aturar falações sobre seu dia-a-dia.
- Bom dia, meu amor, você dormiu bem? – a voz de , pelo telefone, era um pouco diferente. Ficava mais rouca, um tanto sexy.
- Dormi – menti. Na verdade, eu não tinha dormido... – E você? – tentar fazer com que tudo parecesse normal era meu maior objetivo. não precisaria saber sobre Sophie, aliás, se tudo desse certo, logo ela estaria sã e salva ao meu lado, não é mesmo? E além do mais, isso só resgataria meu passado negro que ele pouco conhecia. Ele sabia sobre minha parceria com , sobre coisas eticamente erradas que eu tinha feito e também sabia que eu tinha saído desse mundo. Mas existiam coisas que eu preferiria que ficassem na sombra do meu passado. Existiam segredos. Eles sempre existem.
- Também. E Soph? Liguei ontem à noite e disseram que ela tinha ido dormir na casa de uma tia avó...
Oh, droga.
- Tia avó? Não... ela está na casa de uma amiguinha. Aquela que já dormiu aqui em casa algumas vezes. Acho que ouviram errado...
- Ah, tudo bem. Liguei para avisar que vou ter que estender minha viagem até depois de amanhã. Aconteceram uns imprevistos aqui. Tudo bem?
- Tudo. – deixei um suspiro inaudível escapar. Ainda bem que ele não voltaria antes. Eu teria tempo...
- Preciso desligar agora. Vou tomar um banho para ir para uma reunião. Beijo. Amo você.
- Tchau. Também amo você. – falei e desliguei o celular. Agora só precisava me arrumar, me encontrar com meus antigos parceiros e ir atrás do meu bebê. Seja o que as forças do universo optarem, pensei e me levantei da cama.

Como previsto, já estava no cassino, me esperando. Nos cumprimentamos com um abraço carinhoso e demorado. Ele murmurou um ‘vai ficar tudo bem’ enquanto alisava meus cabelos. Mesmo depois de tantos anos, era como se ele ainda fosse o velho , como se a gente nunca tivesse se separado. Ou como se aquela amizade ainda estivesse intacta e sólida. Mas acho que era isso. Nossa amizade, apesar de tudo, estava intacta.
- Eles estão chegando – ele avisou.
Toda a curiosidade que me invadiu se esvaiu quando meu celular tocou no meu bolso. Como de costume, me afastei para atender a ligação. Mas era uma mensagem de texto.

Vejo que você conseguiu juntar a equipe. Aproveite esse tempo para provar o doce reencontro, ligo em cinco minutos. .

- Você não contou a ele, Deb? – ouvi a voz de um pouco afastada, mas coando no Cassino abandonado.
- Se eu contasse, ele não viria. – A mesma voz que eu falara ao telefone, no dia anterior.
- Contar o que? – essa voz era reconhecível em qualquer lugar do mundo. Era a voz que eu escutava em alguns dos meus sonhos mais secretos.
- Tem uma pessoa que precisava muito falar com você.
- Quem?
- Eu – andei um pouco, voltando para o lugar que eu deixara e falei, tentando parecer confiante.
- O que porra ela está fazendo aqui? Isso é uma brincadeira? – se alterou.
- ... – Debra tentou intervir.
- Caralho... Isso é muito para mim... – ele falou, levando as mãos ao cabelo, nervosamente.
- Por favor, . Tente compreender. Deixe-a se explicar – disse, tentando acalmá-lo.
- Que seja... – olhou para mim. Seu olhar era carregado de fúria e curiosidade.
- Eu... Eu tenho uma filha. – saiu tudo errado... não era esse o começo do que eu tinha praticamente ensaiado a noite inteira.
- Mas que porra... Estou aqui pra saber que você tem uma filha? Se isso te deixa menos nervosa, eu já sabia que você tem uma filha.
- Quem... – as frases saiam pela metade. Aquilo estava sendo, no mínimo, um desastre.
- Quem me contou? Ah, seu marido. Lembra-se, daquele cara que era meu amigo... que eu te apresentei e que agora fode você diariamente? Sim... seu marido. E ele contou no mesmo dia que me convidou para seu casamento! Olha só, imagine como seria divertido, você entrar na igreja e quando olhasse para a platéia, lembrasse de quantas vezes te comi no carro, em hotéis... e ah, naquela capelinha... Naquele dia que matamos o padre que molestou a filha daquele deputado... Que ironia, não é? Entrar na igreja e se lembrar da capelinha...
- Seu desgraçado – sim, eu avancei em cima dele, numa tentativa falha de socar seus belos olhos azuis... Ele me derrubou no chão e só não me bateu, porque o impediu.
- Vamos lá, . Controle-se. – ordenou, o segurando. – Não somos mais crianças.
Me levantei, atordoada com o que tinha acabado de acontecer e o que me tirou de um transe, foi meu celular vibrando no bolso.
Número desconhecido.
- Quem é? – perguntou Debra, ao ver meu estado.
- É ele.
- Ele quem? – perguntou. Tocou mais uma vez.
- . Ele está com a filha dela. – disse, antes de eu atender o aparelho.
- Você tem dez minutos para ir ao banco LVC. Quando chegar lá, terá um envelope na lixeira direita. A senha é 896023. – não era , mas uma voz grossa e determinada, talvez de um homem mais velho. Essas foram suas únicas palavras antes de desligar a chamada. Os três à minha frente me olharam, curiosos.
- Temos que ir ao LVC. Vai ter um envelope na lixeira direita.
- Você só pode estar brincando... – falou, me olhando com escárnio.
- Olha... – me aproximei dele, baixando a guarda. – É da minha filha que estamos falando, . Eu sei que o que eu fiz com você é o bastante para você não me ajudar, mas por favor. Eu preciso de você. Eu preciso de vocês. – minha voz saiu delicada. – Posso contar com vocês?
- Claro – Debra e disseram em uníssono. Olhamos para , que encarava o chão.
- Que seja... – disse ainda sério.
- Então, temos que ir – falei.
- Vamos no meu carro – Debra disse. – Eu dirijo.
Andamos até o carro dela e entrou no banco de carona. Eu e entramos atrás. Ele passou o braço por meu ombro e repetiu o que tinha dito antes. “Vai ficar tudo bem”. Balancei a cabeça, afirmando. Era isso que eu esperava. Que tudo ficasse bem.

Chegamos ao Banco Las Vegas City pouco tempo depois. e ficaram no carro, nos esperando. E provavelmente, aproveitaria para dar um sermão em . Debra me entregou uma de suas armas e eu a coloquei no cós da calça. No caminho do estacionamento para o LVC, tentei puxar assunto.
- E aí, como anda sua vida?
- Normal. Você sabe... se resume a tiros, chutes e ficar bêbada por aí.
- Você... – pensei em como perguntar. – Você está com o ? Quer dizer... Você tem o visto?
- Nós saímos de vez em quando... Mas ele meio que parou de trabalhar por dinheiro. Ele faz um trabalho de vez em quando, mas passa a maioria dos dias drogado em um motel barato. E você?
- Ah... Eu parei de trabalhar. Sabe como é... Casei, tive Sophie.
- Como você consegue? – falou, com uma risada abafada. – Digo, deixar essa vida.
- Eu sei o que você está falando... foi difícil. No começo, eu me sentia deprimida, por não fazer o que eu já era acostumada. E com o tempo, aprendi a conviver com o vazio.
- E em relação a ele? Tenho certeza que você gostava dele.
- O tempo é a resposta. De acordo com ele, você consegue mexer no psicológico do coração. E então, o superficial se torna o que você quer, não o que realmente sente.
- Profundo. – falou, com uma voz de quem não tinha entendido nada e sorrimos. – Qual é a lixeira? – perguntou, já em frente ao banco.
- Direita. – Caminhamos em direção à lixeira de metal.
- Achei – ela disse, tirando um envelope creme de dentro. Começou a abri-lo. – É uma chave. – retirou a pequena chave dourada de dentro e me entregou.
- Tudo bem. Deixa que eu assumo a partir daqui.
- Vou ficar te esperando – avisou, antes de eu dar as costas e entrar no banco. Caminhei até uma atendente e ela esboçou um sorriso acolhedor.
- Posso ajudar? – seu sotaque era claro e explicativo.
- Acho que sim. – mostrei a chave.
- Ah! – exclamou. – Me siga. – se levantou e saiu detrás do balcão. Segui a moça, conforme ela pediu. Paramos em frente a um homem do atendimento especial e ela pediu que eu sentasse na cadeira em frente ao balcão dele e saiu, depois de dizer um ‘obrigada’. Ele tinha um sorriso metálico e um cabelo ruivo. Perguntou se podia ajudar do mesmo jeito que a moça tinha perguntado e quando lhe entreguei a chave, sorriu.
- Nome. – pediu.
- Sinto muito. Só tenho a senha. Creio que não esteja em meu nome.
- Ah, tudo bem – digitou algumas coisas em seu computador e me olhou, esperando a senha. – Não se preocupe. Nesses casos, toda vez que um cliente vem pegar algo do cofre, recebe uma nova senha.
- 896023. – falei, em dúvida. Será que era isso mesmo?
- Ah, consegui. – falou. – Tem uma encomenda em aberto. Vou pegá-la. – se levantou e levou a chave. Entrou numa em uma porta que tinha escrito “Só é permitido a entrada da gerencia”.
Esperei ansiosa, pensando no quanto eu queria ter minha filha de volta.
- Aqui está. – ele disse e me entregou uma caixa dourada e um envelope com a logomarca do banco. – Dentro deste envelope tem a próxima senha de seu cofre e a próxima chave. Mais alguma coisa?
- Não... – falei, controlando o impulso de abrir o envelope. – Obrigada.
- Por nada. – falou e voltou a mexer no computador. Saí do banco e encontrei Debra lá fora, encostada na parede.
- E aí? – perguntou. – O que era?
- Um envelope.
- Você já recebeu o envelope? – ouvimos a voz de e viramos. Ele estava andando em nossa direção, com em seu encalce.
- Sim. – mostrei. – Como você sabe que é um envelope?
- Por causa disso. – mostrou a tela de seu celular, que continha uma mensagem.
“Bom trabalho. O caminho para o alvo está no envelope, agora é com vocês.”
O alvo. Isso quer dizer que teremos que eliminar alguém. Uma vida. Alguém com família. Por breves segundos, cheguei a repensar se valia a pena fazer tudo isso. Matar alguém não é roubar um carro. Matar alguém é lidar com vida. Algo que eu já não fazia há muito tempo atrás. Mas foram só por breves segundos, porque quando pensei no rostinho angelical de Sophie, vida nenhuma importava. Só a dela.


’s Pov

Mas que porra de brincadeira era essa? Ela vai embora, muda sua vida completamente, se casa com meu amigo e depois de anos aparece nada arrependida com a conversinha idiota de “Preciso salvar minha filha”? Só pode mesmo ser brincadeira. E o pior, é que eu cedi. Sim, eu cedi. Cedi porque ela pediu. Simplesmente.
Em todos esses anos eu tentei fugir daquilo que sentia. Daquele sentimento agonizante e completo. Que me tomava e me cegava. Guiava-me.
- Abre isso logo. – falei numa voz seca para ela, tentando deixar minha curiosidade implícita.
Ela me encarou com um olhar de desespero logo quando o abriu.
- Temos que viajar. – disse, mostrando-nos o que tinha dentro. Era um comprovante de pagamento e reserva em um hotel de Gardnerville. Na verdade, se me perguntassem onde era esse lugar, eu não saberia sua localização. Apenas que fica a algumas horas de Las Vegas.
- Então... é melhor irmos. – Debra disse, lançando-me um olhar que advertia um “Não vacile”. Esbocei um sorriso forçado e rolei os olhos.
- Seja o que Deus quiser. – disse, suspirando.
Deus... Desde quando ela acredita em Deus?

O sol quente do começo da tarde já se pronunciava no céu. estava cabisbaixa e a viagem foi silenciosa. A placa que indicava que tínhamos chegado a Gardnerville era de uma madeira velha e desbotada. Nada muito diferente da cidade em si, que tinha, no máximo, cinco ou seis bairros. Bairros nobres, para falar a verdade, porque os poucos carros estacionados na rua, eram dos mais caros. Como se fosse uma espécie de esconderijo de ricos. É, mais ou menos isso.
- Que porra de lugar é esse? Isso é uma cidade ou uma vila? – perguntei e percebi um riso reprimido em , que não o fez por consideração à .
- Cale a boca, . – Debra falou, com aquele tom de “Você sempre fala a coisa errada na hora errada”.
- Só estava perguntando... – ri de propósito e percebi me fuzilando com o olhar.

Chegamos ao hotel e mostramos o comprovante na recepção. Tínhamos realmente um quarto reservado em nome de . Subimos e nos acomodamos. Logo em cima do criado-mudo, tinha um recado escrito à mão. “Agora vocês só precisam se preparar e esperar o próximo passo”. E foi isso que eles fizeram. Sentaram na cama e pensaram em possíveis possibilidades sobre o que estávamos envolvidos. Deitei em uma cama de solteiro, respirando fundo e tentando cochilar.
E então, droga, meu celular tocou. Tirei do bolso e coloquei no ouvido, falando o mesmo “ ” de sempre.
Minhas pernas tremeram quando ouvi a voz do outro lado da linha. Me levantei da cama e falei um ‘volto já’ para todos. Saí do quarto e caminhei por alguns corredores do hotel, certo de que ninguém poderia ouvir.
- O que você quer? – perguntei com a voz fria e calculista de sempre.
Esperei e escutei. Quando a ligação foi encerrada, andei em passos longos e rápidos até a recepção do hotel e disse à recepcionista que precisava alugar um carro. Ela disse que no momento estava ocupada e que depois me atenderia. Eu não tinha tempo.
Saí do hotel, à procura de um táxi, mas também não tinha nenhum. Então, o jeito era fazer o que já não fazia há muito tempo atrás. Andei até o fim do quarteirão e entrei no primeiro conversível que vi. Conversíveis sempre foram mais fáceis. Fiz o que só eu sabia fazer com agilidade e o carro ligou na mesma hora que meu celular começou a tocar de novo.
- E aí? – ouvi a voz novamente.
- Já estou a caminho. – falei e desliguei. Acelerei o automóvel e desejei mentalmente que ele não tivesse rastreador. Eu acabei de roubar um carro. E isso foi melhor do era antes.

/’s Pov

Já fazia algumas horas que havia saído e isso estava no mínimo estranho. O que ele estava fazendo? Essa cidade não tem nada, nenhum cassino, bordel ou qualquer lugar que faça o tipo dele. Por incrível que pareça, eu estava ficando preocupada com ele, com o que possa ter acontecido. Olhei para o lado de fora da janela pela décima vez... Nada. Fui até a porta e a abri, olhando para o corredor... Nada. Essa espera já estava passando dos limites, eu já estava no meu limite. Alguma coisa de ruim aconteceu e eu não agüentaria mais uma pessoa perdida, mais uma pessoa importante perdida. Sim, infelizmente ele era importante.

- Já chega, não agüento mais esperar, eu vou atrás dele. – eu disse, levantando pela milésima vez.
- , daqui a pouco ele chega. – disse , sentado numa das poltronas do quarto.
- , ele saiu há seis horas. E se aconteceu alguma coisa ele?
- Simples, nós vamos sem ele. – Debra disse, dando de ombros.
- Vamos simplesmente deixá-lo para trás? O que aconteceu com vocês? – perguntei, enojada. Eles se olharam e continuaram em silêncio – Nós éramos uma equipe e, pelo menos agora, voltamos a ser. Se fosse eu no lugar dele, eu também ficaria para trás?
- Não, , é diferente... – Debra começou a dizer.
- O que é diferente? Eu fui mais filha da puta que ele, na verdade, ele foi o único correto todo o tempo, ou o menos errado. – eu bufei, passando a mão nervosamente pelo cabelo – Me dá a porra da chave do carro.
- ...
- Eu quero a porra da chave do carro, . Agora! – ele estava de volta. O tom autoritário, firme, que sempre foi minha marca registrada, estava de volta. Tom esse que fazia qualquer um tremer, desde o mais forte até o mais valente.
- Você não vai dirigir nesse estado, eu vou atrás dele. Você vem comigo, Deb?
- Você vai ficar bem sozinha? – ela perguntou, preocupada.
- Eu sempre fiquei bem sozinha. – disse, seguindo para o banheiro.

Mesmo com a porta fechada, pude ouvir os dois saindo do quarto. Encarei-me no espelho e tive noção do estado deplorável que estava. Modéstia a parte, eu sou uma mulher bonita - ou pelo menos costumava ser. Mas há uns anos, já não me sinto eu mesma, era como se eu estivesse agindo como alguém deseja, era como se eu estivesse sido reprogramada. Programada para ser mãe, esposa, dona de casa. Por que esses pensamentos não saem da minha cabeça? O que estava acontecendo comigo? Será que essa carga extra de adrenalina no meu sangue, fez com que antigas recordações voltassem e assumissem o lugar prioritário em minha vida? Mas isso não podia acontecer. Agora eu tenho Sophie, ela é e sempre será a minha prioridade. Joguei uma água no rosto, respirando fundo algumas vezes antes de sair. Segui novamente para a janela, tentando enxergar alguma coisa da rua, mas já estava escuro o suficiente para impedir a visão. Encostei a cabeça no vidro, batendo com a mesma na janela, tentando tirar alguns pensamentos de minha mente. Em todos eles e Sophie estavam em perigo, enquanto eu estava nesse quarto de hotel, praticamente de mãos atadas. O barulho da porta batendo me tirou de meus devaneios. Virei-me rapidamente, encontrando me encarando. Ele estava são e salvo afinal. Porém, algo em seus olhos me dizia o inverso, era como se ele estivesse perturbado, transtornado... Praticamente possuído. Eu nunca tive medo dele, mas nesse momento, nada me apavorava mais do que ele. Era como se não houvesse mais nada no quarto, mais nada no universo. Somente eu e ele. A forma que ele me encarava, parecia que ele não me veria nunca mais. Será que ele teria desistido de me ajudar e iria embora, será que ele jogaria tudo pro alto. Será que ele me abandonaria de vez?

- E agora, o que vai acontecer? – ele balbuciou com a voz falha, andando em minha direção. – É dessa forma que isso vai acabar?
Tentei entender o que ele tentava dizer, mas foi em vão. Nada tinha sentido. Ele continuava vindo até mim e eu comecei a me afastar, temendo pelo o que ele poderia fazer. Até que o espaço acabou, eu me vi entre ele e a parede. Seus olhos, agora quase negros, me fitavam diretamente. Seu olhar era invasivo, anestesiante... Excitante. O silêncio dominava o quarto. Era como se o mundo não existisse mais. Era como se eu estivesse enfeitiçada. Desejada. Desejada por ele.
É dessa forma que isso vai acabar?, refiz a pergunta para mim mesma, tentando refletir sobre isso. Enquanto tentava entender tudo isso, ele se aproximava cada vez mais, até não existir espaço nenhum entre nossos corpos. E mais rápido do que um sorriso se esboça, nossas bocas se juntaram. Sua língua se movimentava em minha boca com coragem. Ela pressionava minha língua, buscava novos caminhos e ritmos diferentes. Ele segurou em meu cabelo com força, como se fosse rasgar. E de vez em quando, mordia meus lábios ou meu pescoço.
Eu não posso..., ouvi meu consciente dizer. Eu só não posso. Era praticamente impossível parar, nada que eu dissesse a mim mesma me impediria. Eu sentia uma revolução de desejos dentro de mim. Era como um renascimento, uma renovação. A antiga , que estava presa em algum lugar, procurava uma forma de escapar, de romper qualquer barreira existente e tomar novamente o controle. Ela estava conseguindo e uma vez no controle, nada pode contê-la. Quando dei por mim, minhas unhas cravaram em sua nuca, enquanto eu passava a língua por seu queixo, de forma bruta. “Eu preciso de você, caralho.”, imaginei tê-lo ouvido sussurrar, antes de se livrar de minha blusa e meu sutiã. Enquanto ele acariciava meus seios e beijava meu ombro, nos atirei em direção à cama, ficando por cima. Ele apertou meu quadril com força e me olhou profundamente. Ambos ansiávamos por mais. Nossos corpos ansiavam por mais. E não podíamos esperar.


Chapter Three

abriu o zíper de suas calças e a tirou, ainda com a boca colada em meu corpo. Conhecendo , eu sabia que o próximo passo aconteceria rápido. Ele daria um jeito de acabar com minha calça. Mas tinha algo diferente. Ele estava diferente. me ajeitou na cama e deslizou suas mãos do meu rosto ao zíper de minha calça jeans. Ele o abriu com cautela e desceu a calça até meus joelhos. Fez um caminho com a boca em minhas coxas acima e parou na minha intimidade, beijando-a por cima da calcinha.
Uns gemidos escaparam de minha boca quando ele retirou minha lingerie que restava, aproximando seu rosto de minha intimidade. Minha excitação era tão evidente quanto a dele. E quando ele encostou os lábios sem a calcinha, senti meus olhos lacrimejarem. Seu toque me fazia sentir isso. Tinha esse efeito sobre mim.
Abruptamente, ele penetrou sua língua e meu corpo enlouqueceu. Senti meu coração dormente, meus braços eletrizados e meu corpo quente. Ele movimentou sua língua dentro de mim e quando retirou, eu já estava ofegante. alisou minha coxa, me deitando na cama com cuidado e ficando por cima. Mas do nada, ele hesitou, pausou tudo o que fazíamos e me olhou profundamente, com um olhar doce e desesperado. Algo o preocupava. Passou as costas das mãos em meu rosto e selou os lábios aos meus de leve, de um jeito quase... quase... romântico.
Quando não havia mais roupa entre nosso corpo quente, ele me penetrou, enquanto beijava meus lábios e passava a mão em meus cabelos.
- Eu estava preocupada. - falei entre gemidos baixos, eu não iria demonstrar tudo o que sentia. Demonstrar a vontade de gemer feito uma louca, de gritar e dizer ao mundo que se foda, pois o que importava era aquilo, aquele momento.
- Eu sei. – sussurrou em meu ouvido e beijou meu pescoço. Aumentou a velocidade de acordo com que estávamos mais perto do ápice. O prazer foi intenso e celestial. Foi a mesma sensação de quando coloquei Sophie nos braços pela primeira vez, ou quando eu aprendi a mexer com a arma pela primeira vez. O que não se encaixava, era que não era a primeira vez que fazíamos isso, mas sim, a melhor de muitas outras que foram suficientemente boas se comparando a uma transa normal.

- ? Você está bem? – ouvi a voz melodiosa de Debra ao abrir os olhos. Ela estava ao meu lado, sentada na cama e em pé, olhando pela janela. Toquei em meu corpo, já que eu deveria estar despida. Sim, eu deveria, mas não estava. Estava com minha camisa de botões e minha calcinha. Sem sutiã, sem calças, ou seja, não fora apenas um sonho o que aconteceu.
- Estou. – Falei e balancei a cabeça, desconfiando de que ela sabia sobre o que tinha acontecido. – Estou bem. – repeti, olhando para . – Onde está ?
- Está nos esperando lá em baixo. Nós o encontramos no bar do hotel, há uns vinte minutos, acredita? Depois de procurarmos por toda a cidade, lá estava ele. – Ah, ainda bem que ela não sabia o que aconteceu.
- Vindo dele eu espero qualquer coisa. – Levantei-me e vesti minhas calças que estavam na mesinha ao lado da cama.
- Acho melhor você se trocar, recebemos as informações de nosso alvo.
- Onde estava? – perguntei, interessada.
- A recepcionista nos entregou um pacote. Contém um endereço, um horário e um símbolo. Aliás, isso te diz alguma coisa? – mostrou-me uma folha com uma impressão qualquer em preto e branco. O símbolo era de um time de basquete pouco conhecido de Las Vegas, cujo mascote é uma águia da cor de uma girafa, o que simboliza a altura e a agilidade dos jogadores. O time era pouco influente e não ganhava muitas partidas, então decidiram entregar os melhores jogadores para outros times que concorreriam na estadual e saíram das competições, fazendo do time só uma diversão para alguns jogadores ricos que juntos o bancavam. – É o mascote dos American Gpe. American Giraffe Plus Eagle. Eu já fui a algumas partidas. O time não é bom e só serve para diversão dos ricos.
- Então isso não nos leva a nada. Leva? – neguei com a cabeça e continuei a pensar.
- Acho melhor irmos logo. Temos poucas horas até o sol nascer. – disse e se levantou, abrindo uma mochila preta que estava em cima do criado mudo e retirando balas para carregar sua arma.
- Me dêem alguns minutos. – pedi e entrei no banheiro. Tomei uma ducha rápida, vesti a mesma roupa e prendi o cabelo num rabo-de-cavalo alto. Quando saí do banheiro, já tinha descido e Debra me esperava, também com o cabelo preso e duas armas carregadas.

- Carreguei essa arma para você – ela disse enquanto descíamos as escadas, pois nosso andar era o primeiro. Entregou-me o revólver, insegura.
- Tudo bem, Debra. Eu estou bem. – Estava bem mesmo? – O que importa é Sophie, não é? Tudo por ela.
- Tudo por ela. – ela repetiu com um meio sorriso.

Chegamos no hall do hotel e vimos e dentro de um carro preto, com as janelas abaixadas. Entramos atrás e eu perguntei como tinham conseguido aquele carro e por que não estávamos no carro de Debra. não falou nada quando entramos, apenas ligou o som num volume baixo.
- Adivinha em nome de quem estava reservado esse carro... – disse com uma excitação implícita. Claro que era excitante fazer aquilo depois de tanto tempo.
- ? – perguntei, já sabendo a resposta.
- Ponto para você – resmungou , implicando. Ou ele era muito bom ator ou bipolar, disso eu tinha certeza.
- Vai se foder. – devolvi num tom irritado. Quem ele pensava que era?
- Opa. – ele disse e na mesma hora meu celular começou a tocar. Tirei do bolso e o nome estava na tela, para minha infelicidade.
- Droga. – resmunguei. – Abaixa o volume, por favor. – pedi e apenas fingiu que não ouviu. – Caralho, se você não abaixar esse volume agora... Por favor, .
- Ok. – disse e desligou o som, rindo.
- Oi? – atendi o celular.
- Oi, amor. Eu te acordei?
- Não. – falei e engoli em seco. – Eu não estou conseguindo dormir.
- Tudo bem. Eu também não. Por isso liguei. Queria ouvir sua voz.
- Hum. Boa noite então. – Falei num tom relapso. Não estava com tempo pra ficar de conversa com . – Dorme bem. Amo você.
- Eu também te... – desliguei a chamada e o telefone de uma vez só. Eu poderia depois falar que descarregou. Então, não havia problemas.
- Amo você – falou numa voz irritante e ligou o som de novo. Na verdade, eu queria muito ter respondido e continuar aquela briga. Mas aonde aquilo me levaria? E tinha mais, ele estava me ajudando. O mínimo que eu poderia fazer era ficar calada até chegarmos ao alvo. E foi isso que eu fiz.

Chegamos ao endereço do papel e paramos em frente a um estádio dos Gpe. Parecia meio abandonado, pois estava descuidado.
- É aqui? – perguntou. Era tão na cara assim aquele símbolo?
- É. – Debra responde por mim. – E acho que achamos nosso alvo. – falou, olhando para o primeiro andar do estádio. Havia uma janela com uma cortina creme e alguém escorado nela, de costas. A única coisa que dava para deduzir é que era um homem, o resto nós saberíamos só em seguida.

- Eu acho melhor fazer isso sozinha, não quero envolver vocês. – eu disse, ajeitando a arma no cós da calça.
- Não é um pouco tarde para isso? – perguntou, ironicamente.
- Eu preciso fazer isso sozinha, é a minha filha. Se não fosse pelo , eu nunca teria envolvido vocês nisso. Minha filha, meu problema.
- , eu vou com você até a entrada e eles ficam dando cobertura daqui do carro. – Debra disse, me lançando um olhar solidário.
- Tudo bem. – respirei fundo e sai do carro. Caminhei atentamente até a entrada, estranhando o sentimento que me dominava. Desde quando eu ficava nervosa por ter que matar alguém? Eu estava realmente mudada.
- Qualquer problema, você grita, sei lá. Não tente enfrentar tudo sozinha, não dê uma de . – Debra disse, com um pequeno sorriso nos lábios.
- Quando isso terminar, espero que você possa esquecer os últimos acontecimentos. Ficarei feliz de te ter por perto mais uma vez.
- Que acontecimentos? – ela perguntou, forçando uma expressão confusa.
- Vai demorar muito com esse papo ainda? – perguntou do carro. Ignorei seu comentário, encarando o portão entreaberto. Você consegue. foi a última coisa que passou pela minha cabeça, antes de entrar e encarar meu alvo.

Tentei não fazer barulho durante o pequeno trajeto até a tal sala. Minha respiração estava falha e minhas mãos tremiam. Segurei mais firmemente a arma, para que a mesma não escapasse por entre meus dedos. A porta da sala estava aberta, deixando que a luz do aposento iluminasse o pequeno corredor a frente da escada. Ao me aproximar, ouvi uma conversa, parecia uma briga pelo telefone, pois eu só conseguia ouvir uma voz.

- Você disse que estaria aqui, Alfred, não tenho tempo a perder.

Essa voz me era familiar até demais. Senti meu coração acelerar e corri até a sala, abrindo a porta num rompante. Quando vi a pessoa que me encarava com a mesma expressão aterrorizada, deixei minha arma cair no chão e precisei escorar-me na parede. Aqueles olhos que tanto me encantaram um dia, me olhavam com confusão e terror. Meu marido. O meu estava em minha frente. Quando poderia passar pela minha mente que o meu alvo, a pessoa que eu deveria matar era o meu marido? Que a família que eu teria destruir era a minha? Eu não podia fazer isso, não tinha forças para isso.

- O que... o que você está fazendo aqui? – ele perguntou, guardando o celular no bolso de qualquer maneira – , o que está acontecendo? Você deveria estar em casa com a nossa filha.
- É exatamente por causa dela que eu estou aqui. Ele a pegou, , ele a levou e disse que só a soltaria, se eu reunisse minha equipe e fizesse um último trabalho. – eu disse me aproximando, ainda hesitante.
- Que equipe? Que trabalho?
- , Debra e , minha antiga equipe.
- E qual seria o trabalho? – ele perguntou e eu senti um nó sendo formado em minha garganta.
- Você. – disse, quase num sussurro. Nisso, ouvi sons de passos ecoarem pelo prédio e estavam cada vez mais próximos.

E então tudo pareceu se conectar para ele, que sacou uma arma de sua cintura e se aproximou de mim, passando seus braços por minha cintura, colocando meu corpo atrás do dele. Andou para trás, até que meu corpo estava escorado na parede. Apontando a arma em direção a porta, ele ficou esperando nosso acompanhante.

- Tem algumas coisas sobre mim que eu acho que você deveria saber. – ele admitiu, meio contrariado – Eu não gosto de misturar trabalho e vida pessoal, mas parece que os meus concorrentes não pensam da mesma forma.
- Do que você está falando, ?
- Há um tempo eu me envolvi com umas pessoas não muito aconselháveis e acabei entrando no ramo do .
- ! – eu disse um pouco mais alto.
- Porra, , fala baixo.
- , você se meteu com o ? Por acaso você não o conhece? Não sabe que aquele filho da puta é capaz de qualquer coisa?
- E sou mesmo. – entrou lentamente na sala, ostentando um sorriso vitorioso nos lábios e a expressão superior de sempre – Sou capaz até de destruir uma família feliz com apenas um ato.
- Você é um cretino. – eu disse, mal conseguindo conter minha raiva.
- Ora, , nunca pensei que fosse te ver nessa situação, tão... inofensiva.
- Vou te mostrar quem é inofensiva. – eu disse, empurrando e me colocando frente a frente com . Ele sorriu, puxando uma arma e apontando em minha direção.
- Em que situação você se veria desarmada numa hora dessas? Tão vulnerável. – ele destravou sua arma, dando um sorriso. Fechei meus olhos, esperando pela dor. Ouvi o barulho da bala atingindo a parede e uma gargalhada – Você acha mesmo que eu a mataria sem antes você cumprir com a sua missão? – ele perguntou, chutando minha arma, que estava no chão, para perto dos meus pés. Ouvi barulho de passos, pessoas correndo dentro prédio. Imaginei que ouvindo o barulho do tiro, meus acompanhantes viriam ao meu encontro.
- Eu não posso, . Ele é meu marido.
- E a Sophie é sua filha, o que é mais importante pra você? – me vi sem saída, eu teria que escolher. Abaixei, pegando a arma do chão. Minhas mãos tremiam tanto, que ela caiu algumas vezes, antes que eu pudesse segurá-la com firmeza. Olhei para a porta e encarei os olhares assustados de Debra e , vendo a cena em sua frente. Já olhava para o chão, evitando olhar em minha direção. Mas por quê? – Eu deveria saber que você não é mais a de antes, não consegue realizar um mísero serviço. Você costumava ser firme, corajosa, imponente, agora não passa de uma mulherzinha fraca. – ele balançou a cabeça lentamente, com cara de nojo – Talvez eu mesmo precise fazer o seu trabalho, não é mesmo? – ele perguntou, voltando a apontar a arma em minha direção e depois para o . Como reflexo, levantei-me rapidamente, apontando minha arma para ele.
- Eu não sou fraca. – disse entre os dentes.
- Não? Então prove. – olhei para Debra por alguns segundos, pedindo que ela entendesse o que eu faria. Logo depois virei meu corpo na direção do , respirando fundo ao olhar em seus olhos e comecei a me aproximar, até ficar a centímetros dele. Coloquei o cano do meu revólver na curva do seu pescoço, fazendo com que ele andasse até perto da janela que estava aberta.
- Preciso que você confie em mim. – movi meus lábios, para que os lesse.
- Sempre. – ele respondeu e então eu o empurrei pela janela. Sabia que a queda não o mataria e assim eu conseguiria, pelo menos, tirá-lo daquele lugar. Assim minha filha teria alguém, porque eu sabia que não sairia daquele prédio viva. Só não esperava que seriam aquelas mãos que tirariam minha vida.

’s Pov

Eu não conseguia olhar para ela, não sabendo o que eu teria que fazer em seguida. Mas eu tinha que fazer.

- Eu não sou fraca. – a ouvi dizer, com a mesma agressividade de anos atrás.
- Não? Então prove. – a desafiou. Levantei minha cabeça, olhando atentamente cada movimento que ela fazia. Virando seu corpo, ela se aproximou do marido, colocando a arma em seu pescoço e fez com que ele chegasse perto da janela. A cada passo que ela dava para frente, eu a acompanhava e já estava dentro da sala quando ela imprensou contra a janela, o empurrando num movimento rápido. correu para a janela, conseguindo ver se levantando e fugindo do local. Antes que ela pudesse ter qualquer reação, deu o sinal para que eu pegasse minha arma e apontasse diretamente para , que olhou em meus olhos nesse momento. Eu podia ver a decepção passar por eles.
- . – ouvi a voz de Debra em algum lugar, mas eu não conseguia quebrar o contato visual.
- Não se meta, Debra. – disse, seco – Você também já estragou tudo uma vez, sinta-se feliz por não ser você no lugar dela.
- , você não pode fazer isso. – tentou se aproximar, mas eu o empurrei, fazendo com que o seu corpo chocasse contra a parede. Ele caiu meio tonto no chão.
- Por que você vai fazer isso? – ela perguntou, da forma mais calma que conseguiu.

Flashback

Estacionei o carro roubado na frente do estádio dos Gpe. já estava a minha espera em seu carro. Entrei no automóvel preto e ele me entregou dois envelopes.
- O alvo. – disse, com um meio sorriso. – Esse é o alvo principal. Esse – apontou para um envelope branco. – É só seu.
- Então, deixo um envelope na recepção, em nome de e o outro abro ao sair daqui.
- Perfeito. – estendeu a mão. – Sabia que não iria me desapontar.
- Sempre fiel. – falei e apertei a mão dele.
- Então nos vemos mais tarde? – assenti e saí do carro.
Parei com o carro a duas quadras do hotel, travei-o e joguei a chave em uma lixeira no caminho. Parei numa pracinha e abri o envelope branco. Meus olhos se encheram de lágrimas, na mesma hora que vi a foto que havia dentro dele. Meu coração congelou e eu sabia que ele já tinha planejado isso perfeitamente. Não era só de que ele queria se vingar, eu também só era mais uma peça de seu tabuleiro.
Coloquei a foto no bolso e terminei o caminho até o hotel. Paguei a um guardador de carro para entregar o envelope na recepção e subi. Eu estava com vontade de chorar, de gritar, de bater em qualquer pessoa que passasse pela minha frente. Estava com ódio e ao mesmo tempo frustrado. Abri a porta e estava lá, tão doce, tão linda. Eu estava com raiva dela, pelo que teria que fazer. Pelo jeito que eu ficava quando ela estava perto. A porra do tempo estava se fechando para meu lado. E eu a queria tanto, a desejava tanto.
- E agora, o que vai acontecer? – perguntei para ela e para mim mesmo. De uma coisa eu tinha certeza, eu nunca deixei de cumprir uma missão. E se dependesse de mim, não haveria uma primeira vez.

Flashback off

- Por quê? Você ainda tem coragem de perguntar por quê? – gritei. – Você fodeu com a minha vida, você estragou tudo.
- Eu estraguei tudo porque quis tentar ter uma vida normal?
- Você nunca quis nada disso, nunca. – eu me aproximei um pouco, ficando de costas para todos na sala. Percebi como a à minha frente estava diferente daquela na foto em meu bolso. Na imagem ela estava sorrindo com seu jeito sexy de ser. E naquele momento, a vulnerabilidade a dominava.
- Sempre há uma primeira vez para tudo... Até para o amor, .
- Amor? Quem é você para falar de amor? Onde está aquela que falava que o amor não existe?
- Talvez ela não exista.
- Então foi tudo mentira? Todos aqueles anos, em que fomos só nós dois, foi tudo mentira?
- Nada era mentira – ela segurava o choro – Eu lembrei de você todos os dias durante esses três últimos anos.
- Lembrou de mim quando? Enquanto dividia a cama com o ? O cara que se dizia meu amigo?
- Que lindo, que romântico... – batia palmas, ironizando – Mas não é pra isso que eu estou aqui.
- Cala a boca, . – eu disse entre os dentes – Quando você lembrava de mim? – gritei para .
- Sempre que eu olhava para a nossa filha. – Deixei meu braço cair ao lado do meu corpo, sentindo o choque passar pelas minhas veias.
- O quê? – perguntei, sentindo minha cabeça girar.
- Sophie é sua filha, . – De repente a minha cabeça não estava mais ali, eu viajei de volta ao passado, para cada momento que passamos juntos. Cada beijo, cada toque, cada noite. Lembrei-me da forma que ela me olhou no dia que me deixou e de tudo que vivi nesses últimos três e longos anos.
- O que foi, ? Também perdeu o jeito de matar? Virou um fraco como a sua parceira? Pelo visto terei que matar todos vocês. – balançou a cabeça negativamente, pegando novamente sua arma – Que desperdício, minha melhor equipe se transformou nisso.
- Eu já disse pra você calar a boca! – gritei.
- O quê, decidiu virar homem de novo?
- Eu sou homem, homem o suficiente para fazer qualquer coisa. – apontei novamente a arma na direção da , destravando a mesma em seguida. Ela me olhou serenamente, esperando para o pior. Mirei em meu alvo, apertando o gatilho, com uma certeza que nunca tinha sentido antes.

/ ’s Pov

Capítulo betado por Sofia Queirós


Chapter Four

- Eu já disse pra você calar a boca! – gritou . - O quê, decidiu virar homem de novo? - Eu sou homem, homem o suficiente para fazer qualquer coisa. – apontou novamente a arma e minha direção, destravando a mesma em seguida. Eu o encarei por alguns segundos, esperando para o pior, depois fechei fortemente os olhos, prevendo a dor. Então o som de um tiro quebrou o pequeno silêncio, mas ele não veio acompanhado da dor que eu esperava, aliás, não havia dor. Abri lentamente os olhos e vi os de focados nos meus. Mantive o contato por algum tempo, antes de desviar o olhar para caído no chão e a arma recém-disparada sendo assoprada por .
- Seu filho da puta, miserável! – falou entre gemidos.
- Onde está Sophie? – perguntou se ajoelhando ao lado dele e apontando a arma para sua cabeça.
- Vai se foder! – gritou, cuspindo na cara de .
- Você está morrendo, . – falei, deixando uma lágrima escapar. – Pelo menos uma vez na vida faça a coisa certa. Por favor.
- No vestiário masculino. – ele disse, me olhando feio. Na mesma hora, saí correndo em direção ao vestiário. Pude escutar dizendo “Boa sorte no inferno, seu filho da puta” seguido por um tiro. Mas naquela hora, pouco me importava se ele tinha o matado. E sinceramente, isso seria a única coisa que me faria dormir sossegada novamente, deixar minha filha ter uma vida tranquila sem medo daquele mau caráter.
Desci as escadas correndo e só diminui a velocidade quando cheguei ao lugar desejado. E então, para meu azar, um som que também não ouvia com tanta adrenalina há alguns anos ecoou no estádio. A polícia. Eu tinha que achar Sophie.
- Sophie? – gritei já desesperada e chorando.
- Mamãe? – gelei, ao ouvir sua voz. Ela estava em pé, vindo em minha direção. Sorria como um anjo e segurava um ursinho bege e velho. – O nome dele é Tedd. – disse mostrando o urso e continuou vindo em minha direção. Aquilo parecia um sonho e eu já não conseguia controlar minhas emoções. Minhas lágrimas desciam com tanta facilidade e meu coração estava batendo tão, mas tão forte.
- Soph – andei, diminuindo a distância entre nós até que... Até que escutei dois tiros seguidos. Caí, levando a mão à perna e sentindo uma dor tão forte que me fazia esquecer o mundo. Minha perna queimava. Virei à procura de Sophie, mas só encontrei um corpo caído ao meu lado. Claro que não a deixaria sem um de seus capangas. Eu tinha acabado de levar um tiro de um deles, mas quem o matara?
- A polícia está aqui. – ouvi uma voz ao meu lado. – Dougie e Debra já fugiram e nós precisamos ir. – disse e tentou me levantar. Eu também ouvia um choro. Choro do meu bebê.
- Onde está Sophie? – perguntei.
- Está aqui. – mostrou uma criança em seus braços. – Precisamos ir, . Você consegue se levantar? – eu tentei. Mas a dor era tão insuportável que eu não conseguia nem me mexer. Tentei olhar para minha perna, mas só conseguia ver o sangue, muito sangue. Eu me sentia fraca, uma vontade insana de fechar os olhos e descansar me dominava. – ? – chamava e me balançava. Pude escutar os policiais falando que iam invadir o estádio.
- Vá. – pedi. – Leve-a.
- Eu não vou deixá-la aqui... – ele disse – Eu não vou sem você.
- Salve-a, . Por favor... – e eu não estava mais consciente.



- Então – o delegado olhou o papel em sua frente – Senhora , o que tem a me dizer? – ele encarou.
- Nada. – respondi simplesmente.
- Nada? A senhora foi encontrada inconsciente, com um tiro na perna e ao lado de um corpo. E não sabe nada sobre isso? – ele perguntou forjando uma expressão confusa. – Sabe que mentir e esconder fatos não leva a lugar nenhum, certo? – ele insistiu. Ele aparentava ter uns 30 anos de idade, era bonito, se vestia bem... Era o tipo de cara que eu seduziria e usaria apenas para me ver livre da prisão. Mas essa parte de mim não existia mais, eu protegeria minha filha de qualquer ameaça que existir. Nesse momento ela está em segurança com o pai, eu sei que cuidará bem dela.
- Eu já disse que não tenho nada pra falar.
- Essa pessoa que está acobertando vale tanto assim. Talvez seja seu marido, ? – ele pegou outra folha e começou a ler algumas coisas em voz alta – Roubo, desmanche de carro, venda de peças roubadas, troca ilegal de placas... Seu marido tem uma vida muito agitada, não? – ele me encarou, esperando por alguma reação ou explicação, mas me mantive em silêncio. – Tudo bem, talvez um tempo na cela faça você falar alguma coisa. – ele chamou os guardas que me acompanharam até a cena feminina. Minha coxa direita estava ocupada por um grande curativo, o médico que me atendeu disse que eu tive sorte. A bala atingiu a artéria femoral e me fez perder muito sangue, se a ambulância demorasse mais alguns minutos eu não resistiria. Sentei num canto vazio e encarei as demais ocupantes do lugar. Uma delas andou em minha direção, sentando ao meu lado.
- Fez algo muito pesado?
- Não. – respondi seca.
- O que então? Assalto, estelionato, tráfico... Qual é a sua? - mantive meu silêncio, então ela continuou – Eu apanhava do meu marido, um dia cansei e contratei um cara para matá-lo. Não me arrependo nenhum pouco. É claro que ficar aqui é ruim, mas as pessoas acabam fazendo o que eu mando. - ela fez questão de mudar a entonação, como uma ameaça. Eu olhei ao redor e não tinha ninguém, me aproximei de seu ouvido, dizendo baixo:
- Eu já matei mais pessoas que você pode imaginar. Já as fiz pedir por clemência, implorar pela vida. Com um telefonema eu saio daqui, assim como com uma ligação eu faço da sua vida um inferno. Então não tente se impor, porque você nunca será sequer significante pra mim.
- , você tem direito ao seu telefonema agora. – um dos guardas disse.
- Fique ciente disso. – eu disse antes de levantar e seguir mancando até o guarda.


- Você tem cinco minutos. – ele me disse antes de sair e me dar privacidade. Pensei por alguns minutos para quem ligar.
- Alô - ele atendeu rapidamente.
- – eu disse baixo.
- Graças a Deus, . Onde você está? E Sophie? Eu voltei e o lugar estava cercado de policiais, não consegui entrar...
- Eu estou na delegacia, . Eu levei um tiro e não consegui fugir. Sophie está com o .
- Você está presa? – ele perguntou chocado – Eu vou te tirar daí agora, vou ligar para o meu advogado.
- Eles estão com a sua ficha, se aparecer aqui, é você que vai preso, entendeu? Então trate de fugir, fique bem longe por um tempo. Sophie ficará bem com o .
- Eu não posso fazer isso, . Não depois do que você fez por mim. Eu vou dar um jeito nisso.
- O que você vai fazer?
- Você confia em mim? - ele perguntou.
- Sempre. – repeti suas palavras. E então o telefone ficou mudo.

Horas depois


- , me acompanhe. – o mesmo guarda que me acompanhou até o telefonema me chamou.
- O que foi dessa vez? – murmurei, me levantando com dificuldade. Entrei novamente na sala de interrogatório e me assustei com quem estava me esperando.
- , o que você tá fazendo aqui? Eu disse pra você fugir.
- Eu não podia deixar que você levasse toda a culpa por mim. Afinal, tudo isso foi porque eu me envolvi nos negócios do , certo? Então eu devo sofrer as conseqüências.
- O que você tá falando?
- Eu me entreguei, . Quando você sair por essa porta, estará livre mais uma vez.
- Por que você fez isso? Eu daria um jeito, eu sairia daqui.
- Eu fiz isso porque você é minha esposa e eu faria qualquer coisa por você. Acredite, qualquer coisa.
- Ah, ... – me aproximei, sentindo seus braços se fecharem ao meu redor – Eu tenho agido errado com você durante todo esse tempo e você me trata assim. Eu não mereço nada disso.
- Você merece ser livre, criar a sua filha junto com o pai dela. – ele disse a última parte da frase com num tom mais baixo – Eu sei de tudo, . Eu sempre soube. Mas é impossível não amar Sophie, é impossível não olhar seu lindo rosto e ficar totalmente em suas mãos. Mas também é impossível olhar em seus olhos e não ver a semelhança. Eu amava, não, eu amo demais vocês duas para deixar que isso atrapalhasse. – senti lágrimas brotarem em meus olhos e me apertei mais contra o seu corpo – O que é isso? Não, a minha versão feminina do James Bond não pode chorar. – ele secou uma gota que escorria.
- Talvez você não acredite, mas eu te amo. – eu disse sinceramente.
- Claro que eu acredito, se não acreditasse não estaria fazendo isso. – ele respirou fundo – Agora vá, tem uma pessoinha desesperada pela sua presença lá fora. – levantei meus olhos, olhando fundo nos dele – Cuide bem da nossa menina.
- Cuidarei. – prometi e beijei de leve seus lábios. Nosso beijo de despedida. Segui para porta e ele me lançou um belo sorriso, antes que eu saísse pela mesma.

O sol me cegou momentaneamente, apesar de ter ficado apenas um dia presa, era como se eu não sentisse o calor do sol em minha pele há anos. Forcei minha vista e me deparei com a imagem que eu via em meus sonhos. estava apoiado no carro, segurando a mão de Sophia, que sorria abertamente pra ele. Era como se ele tivesse se dado bem instantaneamente, talvez o sangue deva falar mais alto nesses casos. abaixou, ficando da altura de Sophie e fez com que ela olhasse para frente.
- Mamãe! – Sophie gritou quando me viu. Deixei meus lábios se repuxarem num sorriso largo e segui em direção a minha família. Ela correu e me abraçou fortemente.
- Cuidado, Soph. A mamãe está machucada, lembra? – a lembrou.
- Ah! É verdade. – ela disse com cara de sapeca – Me desculpe.
- Não precisa se desculpar, querida. Eu quero outro abraço forte desse.
- Mamãe, é verdade que o papai não vai voltar com a gente? – ela perguntou, fazendo bico.
- Papai ? – perguntei confusa.
- É, ele me explicou que agora eu tenho dois pais: ele e o papai . – olhei para o , que não conseguia conter um sorriso.
- Sim, querida. Ele não vai agora, mas nós vamos encontrá-lo em breve. – respondeu, pegando-a no colo e a colocando em seu ombro.
- Então quer dizer que vocês se deram bem? – perguntei.
- Sim, o papai é legal. – ela disse, apertando seus bracinhos levemente envolta dele, da maneira que a posição permitia.
- Eu sou legal, é? Só legal? – ele perguntou quando chegamos ao carro. Ela pensou por alguns segundos antes de responder:
- Muito legal. – ela sorriu e ele beijou o topo de sua cabeça, antes de fechar a porta do carro.
- Obrigada. – eu murmurei, me aproximando dele.
- Pelo o que? – ele perguntou confuso, abaixando um pouco o corpo, para olhar em meus olhos.
- Por cuidar dela.
- Ela é minha filha. Minha filha. Já passei muito tempo longe dela, agora eu quero aproveitar todo o tempo que tiver.
- Só com ela? – perguntei baixo e ele selou nossos lábios com desejo. Foi um beijo diferente, começou acelerado, mas foi se acalmando até tornar-se um beijo apaixonado. Ele era um diferente. Eu era uma diferente. Talvez nós conseguíssemos fazer uma história diferente dessa vez.
- Para onde vamos? – perguntei, quando ligou o carro. Ele olhou para Sophie de forma cúmplice.
- Segredo! – eles disseram ao mesmo tempo.

- ... - deixei escapar quando saí do helicóptero. - Isso é...
- Sim, seja bem-vinda a ilha de Sophie.
- Nossa... eu... eu não sei o que falar, . Tudo está... perfeito.
- Vamos, você precisa conhecer tudo.
Andamos pela ilha e eu fiquei cada vez mais maravilhada. disse que comprou a ilha e colocou o nome de Sophie como homenagem à nossa bebê. Entramos e minhas coisas já estavam lá em uma suíte. A babá de Sophie estava a nossa espera com o leite dela pronto.
- Mamãe, estou com fome. - ela choramingou.
- Hora do leite, Soph. - a babá falou com uma voz engraçada e pegou a menina no colo, levando-a para alguma parte da mansão.
Respirei fundo e observei a casa. Era tão, mas tão linda. Senti um aperto no coração por não estar conosco. Ele tinha se jogado no abismo para me tirar de lá e eu devia muito a ele.
- No que está pensando? - me desafogou dos meus pensamentos e segurou minha mão, entrelaçando meus dedos nos seus.
- Nada de mais. - claro que eu não falaria que estava pensando no . O momento era inapropriado para essa declaração.
- Não se preocupe, , o vai ficar bem - olhou profundamente em meus olhos. Ah, , se você soubesse o quanto meu desejo por você ainda prevalece...
- Sabe... você mudou tanto. - ele colocou uma madeixa de meus cabelos atrás da orelha. - Está mais madura, menos imprudente. Gosto do seu jeito de ser agora.
- A vida nos faz isso.
- É... - deu de ombros. - talvez eu mude também.
- Ora, ora, amadurecendo? - brinquei.
- Hmm, você não me conhece mais, senhora .
- Prefiro o . - eu disse e rimos.
- Você deve estar muito cansada, deveria dormir agora.
- É, acho que vou. - soltei um sorriso simpático e andei até a porta de minha suíte. - Você não vem? - perguntei, sem malícia.
- Vou sim. - respondeu com uma expressão indecifrável.
- Estou te esperando. - sorri.

's Pov

- Vou sim. - falei enquanto todo meu corpo tremia com o convite.
- Estou te esperando. - ela disse. Caralho, o que aquilo significava? Como assim ela me convida para seu quarto e insiste numa expressão pura?
Porra, puta que pariu. O que eu faço agora? Entro lá e deito ao seu lado? Beijo seus lábios e dou um boa noite normal? Eu simplesmente não sei lidar com isso.
Ela entrou no quarto e eu fui atrás a passos lentos e indecisos.
- Vou tomar um banho. - ela disse. Será que ela me convidaria para o banho? Ou será que eu estava querendo precipitar as coisas? - Volto logo.
Tudo bem, não vou negar que eu fiquei bem tenso com o volto logo. Eu deveria deitar e dormir simplesmente? Sentei na cama e o banho soou demorado demais. Vamos logo, , não me mate de ansiedade. E então eu deitei e tentei focar meus pensamentos nela. Tão linda, tão amadurecida e doce. Mas a mesma pessoa decidida e capaz de sempre.
- ? - sua voz ao meu lado me acordou de um cochilo. Acho que estava sonhando com ela.
- Oi. - sorri e sentei. Então percebi que ela estava lá, na minha frente, totalmente despida e vulnerável.
- Obrigada por estar em fazendo tão feliz agora. - Ela sorriu sinceramente e me deu um selinho calmo. Aproximou-se mais do meu corpo e beijou minha bochecha.
- Você não vem? - me tirou do transe enquanto deitava na cama.
- Sim. – respondi e a acompanhei. Por alguma razão, eu estava nervoso. Digo, era sexo, cara. Só sexo... Errado. Era mais do que isso. Eu sentia aquilo dentro de mim, aquilo... não sei descrever. Só sei que sentia sempre quando ela estava pro perto. E aquilo estava acentuado naquele momento. Puta que pariu. Será que eu vou brochar? Será que isso é o sinal do inferno masculino? Mas aquela boca... Aquele olhar... Como alguém podia ser tão perfeito? E aquele cheiro... Caralho. Caralho. Eu não vou conseguir. Estou nervoso demais.

/'s Pov

- Venha aqui. – eu disse com meu coração a mil por hora. Ele subiu na cama e veio em minha direção. Parou na metade da cama e jogou a cabeça pra trás.
- Eu não sei o que fazer, . – segurei o riso e apenas sorri.
- Não sabe mais usar? – olhei para o membro dele.
- Há-há. Muito engraçada. – ele retrucou bem bravo.
- Talvez a gente possa só... conversar. – falei e sorri maliciosa.
- Foda-se – ele disse rindo e avançou para cima de mim. Começou a beijar meu pescoço, passando a mão em meu corpo. Quando chegou em minha intimidade já descoberta, apertou-a, fazendo-me deixar escapar um gemido baixo.
- Você pode fazer melhor, meu bem. - sorri. Não conseguia conter a malícia em meu sorriso. Ajudei-o a tirar sua roupa
e ele ficou só com a boxer branca da Calvin Klein. Ai, meu Deus. é extremamente gostoso. é lindo, tudo bem, mas ... é algo tão surreal, tão orgástico, tão sexy. Ele deslizou mais as mãos em meu corpo, parando em meus seios e acariciando-os. Voltou a colocar a boca em meu pescoço. Sua boca tinha a temperatura perfeita para dar arrepios. Sugou meu pescoço com vontade, subindo para meu queixo, em seguida meus lábios, minha língua. Desceu para meus seios e distribuiu beijos carinhosos. Entrelacei suas mãos nas minhas com força e beijei seus lábios com voracidade. Ele era meu. Meu . Coloquei meus cabelos ainda molhados para trás e olhei para , para ele fazer logo o inevitável. Ele me teve com tanta bravura e decisão que era quase uma iniquidade para a humanidade. Toda mulher deveria se sentir daquele jeito. Não, não com meu , mas sentir aquele prazer glorioso e de tanta magnitude. Eu poderia me alimentar daquela sensação, viver com aquilo todos os segundos de minha vida. Se toda mulher é levada ao paraíso ao chegar no orgasmo, eu estava em um lugar bem melhor. Eu estava embriagada e enlouquecida. Seus movimentos eram determinados e na velocidade ideal. Quando cheguei ao ápice, senti-me mais leve do que uma pena. Como se tivesse morrido e estivesse flutuando. Como se tivesse morrido de prazer. Satisfação era pouco pra o que eu sentia e quando olhei nos olhos dele, ele também parecia bem satisfeito. E assim passamos a noite. Fizemos amor várias vezes até o dia clarear. E então eu lembrei o porquê de meus sentimentos por ao revivê-los. Eu poderia escolher o certo pra mim, que seria voltar a minha antiga vida com e Sophie. Tudo era tão perfeito. Mas com é diferente. É mais do que eu possa explicar. É como se minha vida perfeita estivesse de um lado e do outro, mas o lado dele é mais forte, mais encantador, mais mágico, mais alucinante. Como se com ele, eu pudesse ser mais do que eu mesma, eu pudesse viver em plena adrenalina e insanidade. Com , eu posso respirar calmamente, em segurança. Já com , eu não tenho fôlego, mas de um jeito bom. Esse sentimento me sufoca, me atormenta, me dá vida. E agora eu sei. Eu quero ficar com porque ele é minha utopia, meu tudo.

Epílogo

Eu não sabia bem há quanto tempo estávamos na ilha. Dez ou treze dias provavelmente. Tudo era tão calmo e surreal. E aí, para me tirar do surrealismo, um barulho de helicóptero surge na ilha. Levantei-me do sofá, onde assistia um filme qualquer de suspense e fui atrás do barulho. se encontrava lá fora, também olhando para o céu.
- O que está acontecendo? – perguntei, mas ele não me respondeu. Logo que o helicóptero parou, ele começou a andar em sua direção e eu o segui.
- Bonjour. - ele saiu do helicóptero com um sorriso enorme e veio em nossa direção.
- ? - perguntei perplexa. - Como você saiu de lá? - andei em sua direção e aceitei seu abraço. Seu cheiro era confortante.
- Não foi tão difícil. Tenho meus métodos... - sorriu e tirou os óculos de sol. - E aí, , está tudo em cima? - apertou a mão de . Eu nunca imaginei ver aquela cena de novo.
- Claro. Só tem um problema. - olhou para mim.
- O que diabos está acontecendo e você ainda não me disse, ? - perguntei.
- Sophie vai voltar comigo, . É melhor para ela, para mim e para você. - disse.
- Como assim? Você tá enlouquecendo? Vocês estão?
- Não, eles não estão. - Uma voz feminina saiu do helicóptero. Eu conhecia muito bem. Era Debra.
- Considere isso como um presente. - Agora . Eles saíram e vieram em nossa direção, ambos sorrindo. - Queremos que você faça parte do nosso grupo de novo, . Queremos que vocês dois façam.
- Sinto muito, mas vocês estão perdendo a noção da realidade. Eu tenho uma filha agora.
- Eu posso cuidar dela, . Você sabe que eu posso. - disse de um jeito que não tinha como dizer não.
- , eu confio em você, mas... ela é minha filha. Como eu vou poder viver sem ela?
- Você não vai viver sem ela, . Vai poder vê-la a qualquer hora. Todos os dias, se quiser. Tanto você quanto ele. Mas esse é seu destino, é sua vocação. Nada pode impedi-la de fazer o que gosta. Só quero ajudá-la.
A babá já estava trazendo Sophie enquanto conversávamos. Quando ela chegou, me entregou minha filha. Sophie simplesmente enlouqueceu quando viu e pulou nos braços dele.
- Papai! - ela o abraçou. - Senti sua falta. - disse carinhosamente.
- Eu também, meu amor. - ele beijou sua testa e a abraçou mais forte.
- Sophie, querida, você vai viajar com o papai . - eu falei, aceitando a situação. Todos esboçaram um sorriso.
- Obrigado - ele sussurrou.
- Obrigada a você, . - sorri sincera. - Vou visitá-la toda semana, ok? Não a deixe dormir tarde e TV só até as oito.
- Pode deixar comigo - ele riu. - Estaremos te esperando. - os acompanhamos até o helicóptero e ele a entregou a mim para entrar primeiro. Beijei sua cabeça e falei que a amava. fez o mesmo. Quando fui entregar Sophie a , ele disse baixo:
- Nós te amamos e te acolheremos a qualquer hora que precisar. Se cuida. - e beijou meu rosto. Distribuí mais alguns beijos em minha bebê e observei o helicóptero indo embora.

- E agora? - perguntei entusiasmada aos meus parceiros.
- Nossa primeira missão é em duas horas, um helicóptero virá nos buscar e nos levar a Cancun. - Debra disse.
- Nada como a bela Cancun para nos dar inspiração, não é? - disse enquanto ia em direção a casa e nós o seguíamos. - Vamos entrar e informá-la tudo. E só para você ficar calma, estamos trabalhando para uma pessoa do bem agora. Nada de mortes. - riu. - Nada de mortes de inocentes.
Eles foram entrando na casa e me puxou num abraço, ainda fora.
- Obrigado. - ele pediu no meio do abraço demorado.
- Pelo quê, ?
- Por me escolher. - se afastou delicado e olhou profundamente nos meus olhos. - Eu não posso prometê-la que iremos viver para sempre, não posso nem prometer que isso é pra sempre, que nosso amor nunca vai acabar. Eu não posso te oferecer nada além do que você está vendo aqui. Só quero que me prometa que se você não conseguir se adaptar de novo a essa rotina, que se você sentir saudade da sua antiga vida, eu te apoiarei, independentemente da escolha. Entendeu? - passou a mão em minha boca, carinhosamente.
- Vou ficar bem, . Não sou outra pessoa, ainda sei atirar melhor do que você. - ri.
- Ah é? - fez uma careta indignada. - Isso é o que veremos, tive bastante tempo para treinar.
- Você vai ver. - beijei seus lábios de leve ainda rindo e entramos na casa. Talvez fosse um erro não ter ido com minha filha, talvez sim. Mas eu espero que ela me perdoe. Espero que ela me entenda um dia. Ah, sim, ela vai entender. Isso é o que eu sou. Minha verdadeira essência e o que eu sinceramente quero. Estou feliz agora e não me importa o futuro nem o passado. Ou talvez eu também não tenha errado. Mas quem se importa? Que se foda.


Nota da Bia: Hola, Bia bitch is back! Parei. E aí, anjos, gostaram do The end? Espero que sim porque eu tive que lutar com meu bloqueio HAUAHUA. Anyway, espero que tenham gostado. :*** Não esqueçam de comentar, viu? Nem de olhar as atts porque a qualquer momento WGA 3 pode aparecer HAUHAUH. Obrigada por lerem e pelos comentários maravilhosos. Encontrem-me aqui: www.evilway.tumblr.com e pra quem tem instagram @biaguim. Foi muito boa a sensação de finalizar mais uma fic. E pra a That, eu nunca vou me estressar nem te xingar HAUHAUHA sou uma boa parceira. Beijos pra todos e fiquem com Deus.

Nota da That: Gente, essa fanfic é tipo: 'Meu Deus, o que eu estou escrevendo? Eu vou o ápice da ação, matando os personagens, para uma cena meio romântica na sala de interrogatório de uma delegacia. WTF?
Enfim, WGA II está finalizada e estou com a sensação de dever cumprido. Sério, essa fic é muito especial para mim, principalmente pela minha parceira, a Bia. Ela é uma baita escritora, além de ser uma linda.
AH, já ia me esquecendo! WGA foi short do mês, suas lindas. Tudo bem que a votação não foi aqueeeeeeeeeela, mas mesmo assim. Pela primeira vez eu ganhei alguma coisa! \o/
Será que conseguimos um bicampeonato? Vocês votariam em WGA II para short de dezembro? Só depende de vocês, hein.
É isso, obrigada pelos comentários e tudo mais. Beijos e até uma próxima! xx


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