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Atualizada em: 04/04/2018




Prólogo


Respirou fundo e segurou a todo custo seu choro. Fechara os olhos por apenas vinte minutos no intuito de descansar, mas de novo, eles não deixaram. Os monstros em sua pobre cabeça a impedia de dormir sem que tomasse o medicamento. Levantou da cama e enxugou as lagrimas que novamente voltaram a cair. Sempre que seu cérebro percebia que ela estava acordada, uma carga de dor e luto era jogada sem o menor carinho diante de si. Ela estava exausta. Exausta daquilo; de viver.
Os delírios estavam cada vez mais vivos, e ela já não estava sabendo distinguir o que era real ou não.
Caminhou arrastando as pernas até a cozinha (estava fraca demais), mas não sentia fome. Comer, dormir e se divertir, era um luxo qual ela nunca mais iria provar.
Não estaria viva até estar completamente bem.
Encheu o copo com água indo até o banheiro, se seu irmão não queria mais vê-la tomar os remédios, ótimo. Ela tomaria escondida.
Depois de tomar três pílulas para dormir, olhou-se no espelho. Sua pele estava mais pálida que de costume, e ela com certeza, aparentava ter envelhecido dez anos em questão de meses.
Desde que John, seu irmão mais velho, descobrira que sua irmã estava com Depressão Nervosa, nada mais foi como antes. Não que antes tudo fosse uma maravilha para , mas pelo menos ela não tinha que ir a psiquiatras todas as semanas e em psicólogos todos os dias. Ela não queria sair de casa, não queria contar nada que se passava em sua cabeça a um desconhecido.
Ela apenas queria ficar sentada diante sua escrivaninha com seu diário aberto e com a foto de seus pais num porta-retratos ao lado; ela queria entender o que fizera para receber aquilo em troca.
era nova, apenas dezesseis anos (quase em seus dezessete), e já sofrera tão ou mais que alguém com oitenta. Os monstros dos quais se escondia com remédios à noite estavam todos em sua cabeça, prontos para atacarem quando ela menos percebesse. Prontos para mostrar o quão inútil e insignificante ela era. Prontos para mostrar a verdade: ela era culpada pela morte dos seus pais.
Deixou um soluço escapar e fechou os olhos com força, aquilo era muito mais do que ela poderia aguentar, nem se lembrava mais das vezes que estava acordada sem estar chorando.
Para uma pessoa comum, o dia tinha exatas vinte e quatro horas. Para , seu dia tinha de quatro a seis, nunca passava disso. Ela sempre estava dormindo, talvez por fraqueza ou por conta dos remédios, mas sempre, sempre, dormia. Dormia porque o sono amenizava a dor. Enquanto estava sobre efeitos de medicamentos super fortes, não sentia nada, se não o escuro.
Ela sentia o escuro, sentia o poder negro dele.
Nas poucas horas que era obrigada a estar acordada, o irmão a forçava a ir ao psiquiatra. Como se já não bastasse sentir tudo o que sentia, ela ainda tinha que falar com alguém que achava que pudesse entendê-la, que pudesse salvá-la. Não existia mais salvação para ela.

Ao se dar conta disso novamente, escorregou pela parede e sentou-se em meio ao corredor escuro daquele apartamento. E chorou. Chorou pela dor que se instalara em seu peito há oito meses, quando seus pais morreram. O luto ainda estava nela, ainda pior.
Ela tentava a todo custo conter seus soluços, mas nada lhe adiantou quando viu a porta do quarto do seu irmão se abrindo e ele saindo preocupado, procurando a dona daqueles soluços.
Não demorou muito e lá estava ele, abraçando-a como todas as noites.
- Eles estão aqui, John. Eles estão aqui. – Ela repetia em meio a lagrimas, apertando mais seu irmão contra si. – Tira eles daqui, por favor. Não deixa eles me tocarem.
- Shi... – Ele tentava acalmar a garota como todas as noites. E mesmo fazendo isso todos os dias, ele sempre chorava. Chorava em silencio, procurando forças para aguentar tudo aquilo. Aguentar por ele e por sua irmã. John tinha seus vinte e sete anos, cabelos negros, pele e olhos claros não muito diferente de sua irmã. Ele era jornalista, e pouco mais de oito meses estava trabalhando em casa, para tomar conta da irmã. – Eu estou aqui, não estou? – Sua voz era suave, o que contradizia a sua feição e sentimentos. John estava tão perdido quanto . – Não precisa ter medo, . Não vou deixar nada te acontecer. – Tentava a todo custo acalmar a garota.
- Não vai. Você não vai deixar nada acontecer comigo. – Repetia o que o homem lhe dissera há segundos atrás. Mas não repetia porque estava tendo um surto psicótico, e sim para acreditar. Queria acreditar no que ele estava lhe dizendo, mas algo em sua mente insana lhe dizia que aquilo era mentira.
estava sendo vencida pelo sono (causado pelas três pílulas que tomara minutos antes).
- Eu vou te levar para o meu quarto, tudo bem? Você vai dormir comigo hoje. Eu vou te proteger . – John disse percebendo o quão mole à garota estava ficando. Pegou-a em seus braços e calmamente deitou-a em sua cama. Aos poucos John via que o espanto da irmã estava perdendo a batalha para o sono em que ela se entregou minutos depois.
John estava cansado. Frustrado... Apavorado. Estava acompanhando durante esses oito meses e, nunca vira a garota tão perdida. estava piorando a cada dia, e há algumas semanas resolvera não ir mais a seu psiquiatra, admitindo não estar louca, e na semana seguinte negou a ida até o psiquiatra alegando não ter nada o que contar. Ela estava se isolando de tudo, não ia mais a escola, que com certeza iria repetir o ano, mas parecia que não ligava. E John estava chegando a um extremo de preocupação, desistira de si, mas ele não desistiria dela. Conhecia bem a irmã, sabia o quanto ela estava se sentindo perdida, mas se ele era sua única salvação, o único que faria de tudo para vê-la feliz de novo, não desistiria.
era tudo para ele. A única família, e ele não iria deixar sua baixinha naquele estado.
Convicto de que não deixaria mais naquela situação, John ligou seu notebook e pesquisou os melhores psiquiatras de toda Londres, e não demorando muito ele anotou o endereço, numero e nome daquele que ele a partir de agora, confiara tirar sua irmã daquele inferno. .

Betado por: Laura Aquino




Capítulo 1



Era cedo quando John acordou. Ele olhou para o lado e viu a garota que dormia sem expressão alguma. Não dava para saber se sonhava ou não, apenas estava de olhos fechados, descansado um pouco a mente, pois John sabia que quando sua irmã acordasse nada mais iria lhe distrair. Olhou as horas e vendo que ainda era um pouco cedo para ligar para o consultório do psicólogo, John foi à cozinha. Sua cabeça estava doendo, mal conseguira dormir e acordara cedo demais. Caminhou até a cafeteira, ligando-a e deixando que ela fizesse seu trabalho. A casa estava silenciosa, tão silenciosa que era possível escutar a respiração de do quarto. Suspirou derrotado e seguiu até o banheiro, já estava pensando na rotina que aquele dia iria ser quando notou que a porta do armário perto da pia de mármore estava aberto. Estranhou o fato de não lembrar de deixar aquilo aberto e chegou mais perto para fechar aquela porta, mas ao fazer isso notou um pequeno frasco em forma de cilindro caído no chão. Aquele era o remédio de , mas não tomou nenhum remédio, pensou.
Era isso. Pela segunda vez em uma semana estava tomando remédio escondido. Mentalmente John xingou a irmã de vários nomes por ser tão desobediente, e xingou-se também por ser burro o bastante por não ter escondido aquelas porcarias. É claro que iria recorrer aos remédios quando não conseguisse dormir por conta própria, John apenas fora burro o bastante para não perceber isso.
Tomado pela raiva, John saiu às pressas do banheiro e seguiu até o telefone do apartamento, discando os números do tal psicólogo a seguir.
não iria mais depender de remédio algum para porra nenhuma. Aquilo estava afundando mais sua garotinha.
- Consultório ’s, bom dia. – A voz da atendente soou pela linha telefônica.
- Bom dia. Eu queria marcar uma consulta com o Dr. . – Respondeu convicto. Ele levaria por bem o por mal.
- Um momento e eu lhe digo quando ele estará dispon...
- Você não entendeu senhora, eu quero marcar uma consulta para hoje. – Esclareceu. A mulher respirou fundo tentando manter a calma, o dia já não começara bem para ela, e ainda mais isso.
- Senhor, hoje ele está com todas as consultas agendadas, sinto muito mais terá que marcar outro dia. – Explicou melhor.
- Por favor. – Implorou. John queria marcar agora porque sabia que sua irmã negaria qualquer outro dia, e sendo pega de surpresa não tinha por onde correr. – Ele está ai? Eu posso falar com ele? Diga a ele que é caso de emergência. – Pediu numa súplica. A mulher do outro lado da linha mordeu o lábio inferior confusa, ainda não havia chegado, na verdade ele só chegaria quarenta minutos depois.
- Olhe senhor, o Dr. ainda não chegou, mas se é tão urgente assim falar com ele eu... Eu posso retornar-lhe a ligação e passar a linha para o mesmo. – Jenny sabia que não iria gostar daquilo, mas ela sentia que a urgência na voz do homem era verdade. – Só me diga seu nome.
- , John . – Falou sorrindo. – Obrigada.
- Não me agradeça agora, Sr. . – Jenny disse num tom de ironia.
- Estarei esperando a ligação. – E então desligaram.
Depois de finalizar aquela ligação John foi até seu quarto novamente e observou dormir, ela não movera um músculo sequer desde que ele acordara. Pegou seu notbook e depois de liga-lo foi até seu e-mail para saber sobre seu trabalho, a pior parte de trabalhar em casa era, com certeza, o tanto de trabalho que se acumulava. John era um dos melhores escritores da redação em que trabalhava, talvez fosse por isso que seu chefe não o demitia por não comparecer sempre ao emprego. Ele tinha prazos de entrega, e como passava a maior parte do tempo em casa, ele deixava aquilo para depois, e ia acumulando, acumulando, até chegar a um ponto em que ele tinha que enviar tudo para sua assistente uma hora antes do prazo acabar. Aquilo realmente estava acabando com ele. Mas naquela manhã algo lhe pareceu estranho, não tinha nenhum e-mail do chefe sobre um próximo evento, elogio ou critica. Tinha uma recomendação.
Paul conhecia os pais de John, conhecia o próprio John e . Então, obviamente, tinha conhecimento também sobre tudo o que aqueles dois irmãos estavam passando, principalmente .

“Vejo que mesmo tendo que tomar conta da nossa mascote seu trabalho continua incrível, . Parabéns. Mas me diga, como vai a ? Você nunca mais me mandou notícias dela como antes e eu também fiquei fora por uns tempos, Martha ficou doente e acabou indo para o hospital, mas agora ela já esta bem melhor. Bom, vamos pular o assunto de mulherzinha, o que eu tenho para você hoje não é um trabalho, . É mais uma recomendação, conheci um psiquiatra enquanto estava no hospital e citei um pouco a para ele, ele me recomendou levá-la a um centro de reabilitação, é como se fosse uma colônia de férias. Teria vários adolescentes com que ela pudesse interagir e lá eles ainda iriam trabalhar para que nossa pequena melhorasse. Eu sei que você sempre negou a possibilidade disso, mas pense bem John já se passaram oito meses e ela só piora. Tenha um bom dia.”

Era exatamente isso que continha do e-mail de Paul, e era verdade: só piorava e ele sempre negava o assunto reabilitação.
John pensou bem sobre o assunto e uma coisa lhe veio à cabeça: sua não iria melhorar sozinha. Ele tinha de fazer algo.
E foi com isso na mente que seus pensamentos foram cortados pelo barulho do telefone. Era do tal psicólogo, tinha certeza.
- Alô? – A urgência na sua voz podia ser sentida de longe.
- Sr. ? É do consultório que o senhor ligou mais cedo. – Jenny informou.
- Sim, eu sei. – Disse.
- O Dr. acabou de chegar, espere apenas dois minutos que eu já irei passar a linha para ele, tudo bem?
- Sim. Obrigada, muito obrigada. – Então uma musica começou a tocar no telefone, John estava ansioso, mesmo não conhecendo os comentários sobre o psicólogo era um dos melhores, nos blogs dez em cada onze pessoas o recomendava. Ele tinha que ajudar .
- Sim? – A voz grossa do homem soou tirando John da sua linha de pensamentos.
- Dr. , aqui é John . – Respirou fundo e continuou. – Sua assistente me disse que o senhor não teria como agendar mais nenhuma consulta para hoje, então eu pedi para falar diretamente com o senhor já que meu caso é um tanto delicado. – John esclareceu. Do outro lado da linha acabou se interessando mais pelo assunto a partir daquele momento.
- Delicado? Explique melhor, Sr. . – Mostrou aparentemente o quão aquilo estava lhe chamando atenção.
- É a minha irmã. – Suspirou, olhando para a garota que ainda dormia ao seu lado. – Faz oito meses que ela esta com depressão nervosa e eu não se mais o que fazer. – Lamentou de si mesmo.
- Quantos anos sua irmã tem? – não queria admitir, mas estava oficialmente se interessando por aquilo.
- Vai fazer dezessete próximo mês.
- Você já a levou em algum psicólogo?
- Sim, mas eles nunca a acompanham, sempre dizem que ela é um caso perdido.
- Um caso perdido? – Perguntou confuso.
- Dr. , veja bem... Ela não quer melhorar, entende? Ela simplesmente não consegue melhorar. – Ao vociferar aquilo, John percebera o quão grave estava se tornando a situação de . sentia toda a frustração do homem. Era inevitável não sentir.
- Venha aqui hoje as nove da manhã, Sr. . E traga sua irmã, irei falar com Jenny para marcar seu horário.
- Muito obrigada, Dr. . – Agradeceu.
- Não se atrase.
Quando desligou aquele telefone, suspirou. Mais um caso em que todos simplesmente desistiam e sobrava para ele mostrar como as pessoas desistiam rápido das coisas. Ele odiava esse tipo de pessoa. Se você é psicólogo, seu dever é insistir para que seu paciente fale tudo o que está se passando em sua cabeça.
Para , não existia perigo maior do que uma mente insana.
Relaxou um pouco mais em sua cadeira e chamou Jenny que, em menos de dois minutos estava lá. Ele avisou-a sobre a vinda dos ’s e mandou também que desmarcasse todas as consultas que teria para aquele dia. Era realmente um assunto delicado, teria que se empenhar. Riu consigo mesmo, é claro que ele se empenharia, não era a toa que era um dos mais procurados em Londres. Ele não desistia de ninguém até estar totalmente satisfeito com o resultado e com aquela garota não seria diferente.
John levantou e olhou para em um misto de pena e iniciativa. Não queria acordar a irmã pois sabia que minutos depois que fizesse isso ela iria adotar aquela expressão de sempre: vazia, mas cheia de dor.
Deu a volta na cama e agachou-se ficando a altura do rosto de , pôs-se a alisar o rosto dela com tanta delicadeza que por um milésimo de segundo jurou ter visto um sorriso escapar por seus lábios. Era comovente e triste vê-la sorrir depois de tanto tempo, céus!
resmungou alguma coisa ao notar que estava sendo acordada, mexeu um pouco o corpo e virou para o lado oposto da pessoa que estava tentado chamá-la para a cruel realidade de um vazio coberto de dor.
- , acorde. – John sussurrou tocando as costas de sua irmã.
- Por que, John? – Resmungou.
- Temos que ir a um lugar. – Simplesmente disse. juntou as sobrancelhas em confusão, John sabia que ela não saia para lugar algum.
- Que lugar? – Indagou desconfiada. Mas agora, estava sentada na cama, com o rosto todo amassado e um cansaço enorme.
- Um psicólogo, . – Informou, levantando-se ainda a tempo de vê-la revirar os olhos.
- Não preciso de psicólogo, John. Eu estou bem. – Disse convicta de que aquela era a pior mentira que contara.
- Bem? , ontem mesmo você estava chorando alegando que eles queriam te pegar! Você vai comigo querendo ou não. Senão...
- Senão, o quê? – Gritou. Outra coisa que aquela depressão estava causando na garota era, com certeza, a irritação. não conseguia segurar a raiva que crescia em si e acabava descontando nas pessoas, só para depois se martirizar.
- Senão eu vou ter por em uma clinica de reabilitação. – O tom de John subiu oito casas a mais e a garota se encolheu sobre o colchão.
- Reabilitação? – Sussurrou. Naquele momento teve mais vontade de chorar do que todas as outras vezes, sabia que a reabilitação só iria ser indagada pelo irmão como uma de suas ultimas opções, e vendo John falar sobre o assunto agora provava que ele estava desistindo. Desistindo dela.
- Sim, . Reabilitação. Eu não sei mais o que fazer para tentar te ajudar, me sinto inútil vendo como você esta ficando e não tá nem ai... Eu já perdi pessoas demais. – Concluiu. John estava nervoso como há tempos não ficara com sua irmã. – Então, o que vai ser? – Perguntou visivelmente cansado. engoliu o nó em sua garganta e com um fio de voz, respondeu.
- Que horas saímos?
- Em dez minutos.

***


O caminho até aquele consultório não podia ser mais silencioso, não queria falar com o irmão porque ele a estava obrigando, mesmo que indiretamente, a ir num psicólogo. E John, bom... John apenas queria se manter no controle para sua irmã achar que ele estava realmente no controle agora. Que a partir de agora seria do jeito dele.
não estava sentindo-se bem, sabia o que estaria vindo a seguir. Provavelmente um velho sentado em sua cadeira a esperando falar o quão queria melhorar e que todos deveriam ter pena da pobre garotinha que perdera os pais e não soube aguentar a dor que aquilo estava lhe causando. Ótimo, pensou. Nem se lembrava da última vez em que teve de vestir uma roupa que não fosse pijamas. Não era boa o suficiente para sair a qualquer lugar e se arrumar. Nunca seria.

“O que está fazendo ai mesmo, garotinha? Querendo adiar sua morte? Sua idiota. Quanto tempo mais adiar, mais eu vou fazer doer. Mas você é uma vadiazinha masoquista, não é? Afinal, matou os pais, é chegada em dores.”


assustou-se com a voz em sua mente
Olhou para o irmão que continuava dirigindo e percebeu que era mais uma de suas alucinações.
“Não são reais. Não são reais. Está tudo bem, John está aqui e ele não irá deixar nada acontecer” Suas palavras vazias não adiantavam mais, John nunca iria protegê-la de si mesma. Porque o monstro não estava com ela, o monstro era ela.
Apertou a mão em sua coxa com força, pelo menos se sentisse a dor que suas unhas causariam ela poderia esquecer um pouco seus pensamentos. À noite mal dormida, a fome que não vinha e a indisponibilidade para ter vontade de fazer algo estava cada vez maior. Cada vez a consumindo mais.
O trânsito da cidade não estava ajudando muito naquela situação em que se encontrava, pois cada vez que achava que estava perto paravam por conta de um engarrafamento.

John sabia que tinha algo incomodando a garota, pois sempre que ficava nervosa, ela tinha a maldita mania de apertar suas unhas em sua perna, não importava se arranharia ou não, se sangraria ou não, John sabia que agora não importava mais para ela. E isso o assustava, sua irmã não ligava para mais nada que lhe acontecesse, já havia dito para ele que qualquer dor física era melhor do que aquelas que ela sentia há todos os minutos.
Impotente. Era assim que ele era em relação à , ele não podia fazer nada a não ser sentar e assistir de camarote a irmã morrer aos poucos.
Maldita depressão!
Observava a menina pelo canto dos olhos e via de relance o quanto ela estava nervosa. Nervosa porque depois de três meses ela iria estar com outras pessoas sem ser o irmão, nervosa porque há três meses não saia de casa e agora estava sendo arrastada para uma sala com um desconhecido que estaria sendo pago para escuta-la, e isso só provava mais ainda a ideia de que ela estava solitária a tal ponto de pagar alguém para lhe ajudar a lidar com problemas que não queria resolver.
não queria acabar com os problemas, queria que os problemas acabassem com ela.

- Chegamos. – John informou assim que parou o carro. sentiu seus músculos ficarem tensos e olhou apreensiva para o irmão. – Vai ficar tudo bem, . Ele é só um psicólogo. – Confortou a irmã com palavras que para ela eram vazias, mais uma vez. Afinal, só o vazio lhe preenchia. Saíram do carro em silêncio e em passos curtos , andou até a entrada do consultório. Realmente o tempo não a ajudava, pois quando queria demorar a chegar dentro daquele local, mais rápido as coisas aconteciam. Num minuto estava saindo do carro com seu irmão, no outro estava na sala da assistente do tal psicólogo enquanto seu irmão falava com ela. A assistente parecia ter uns trinta anos e lançou um sorriso confortante para a garota, por mais que tenha se sentido bem com aquele sorriso, ela não conseguia simplesmente o retribuir. Há muito tempo não sorria, eles a baniram disso também.
- O Dr. está esperando por você, mocinha. – Falou. aproximou-se da mulher e leu seu nome no pequeno crachá. Jenny. Era o que estava escrito. – Vamos? – Chamou sua atenção. concordou, sabendo que mesmo que não quisesse entrar ali ou negasse, de nada adiantaria. Seguiu a mulher por um curto caminho até que olhou para trás e viu que seu irmão não estava a seguindo também. Parou de imediato, fazendo Jenny olhar para trás confusa. – Vamos, querida?
- Cadê o meu irmão? – Perguntou com um fio de voz, já podia sentir o bolo em sua garganta novamente.
- Ele não pode entrar com você, . O Dr. prefere que suas consultas sejam apenas entre o paciente e ele. – Explicou, se aproximando da garota que recuou um pouco. Estava desacostumada a proximidade de outra pessoa que não fosse seu irmão. – Podemos ir agora? – Engoliu em seco ao ouvir aquela pergunta.
- Pode, por favor, chamar meu irmão? – Sua voz já era estrangulada por seu choro. Jenny olhou preocupada para a situação a sua frente e não soube o que fazer. Certo que lidava com pessoas com problemas psicológicos, mas nunca em seus cinco anos trabalhando ali um paciente chorava pedindo educadamente para chamar o irmão. Por um momento Jenny sentiu pena daquela pobre garota. Agora era possível sentir a aura de dor que a envolvia tão bruscamente que qualquer pessoa que estivesse ao seu lado também sentiria.
- Eu vou chamá-lo, tudo bem? – Perguntou com cautela e a menina concordou de cabeça baixa. – Pode esperar aqui? – Ela novamente concordou e aquela mulher saiu. encostou-se à parede e abraçou o próprio corpo sentindo um frio repentino.
“Eu estou aqui . Eu sempre estarei aqui para te atormentar.”
Aquela voz soou em sua mente. Rapidamente seu choro se transformou em soluços, não queria estar ali, aquele lugar lembrava o hospital que seus pais morreram.
“Morreram por sua causa”. Novamente aquela voz falou, dessa vez mais alto que antes. A garota fechou os olhos e esperou até que seu irmão chegasse. Ele era o único motivo que trazia sua pouca sanidade.
- ? – A voz preocupada de John soou no local, afastando automaticamente a voz que segundos atrás estava lhe atormentando. – O que aconteceu, ? – Perguntou preocupado.
- Eu... Eu não consigo John. – Abraçou o irmão que ficou surpreso. Os surtos de sua irmã estavam ficando pior. – Sozinha eu não consigo. Por favor... Peça para entrar comigo. Eu... Eu não quero ficar sozinha lá dentro com um desconhecido. Eu não consigo sem... Sem você. – John a apertou mais contra seu corpo e olhou até o fim do corredor onde um homem com uma calça jeans preta e uma camisa vinho olhava a cena com curiosidade. – Me tira daqui, por favor! Eles estão aqui! Você prometeu me proteger! – Seus soluços estavam cada vez mais altos. John suspirou ao perceber quem aquele homem era. Na placa ao lado da porta onde o homem estava encostado estava escrito, .
- E se eu entrar com você, ? – Perguntou para ela quando confirmou com um aceno entrando na sala e deixando a porta aberta. – Tenho certeza que o Dr. não irá se importar. Posso entrar com você até se familiarizar com ele e conseguir entrar sozinha... Tudo bem? – Deu um sorriso reconfortante para ela que agora o encarava enxugando as lágrimas que caiam sem pudor por seu rosto, mais pálido que o normal.
- Tudo bem. – Murmurou, fungando um pouco. John olhou para trás e deu um sorriso triste para Jenny que também olhava a cena, porém não via curiosidade em seu olhar, via pena. Como todos os outros, Jenny também sentia pena de sua irmã.
abraçou a cintura do irmão com força, como se quisesse ter certeza de que ele não fugiria. John apenas passou o braço pelo ombro da irmã e em silencio caminharam até o final do pequeno corredor. Ao chegarem a frente à porta entreaberta respirou fundo e soltou-se do irmão para entrar.
até podia imaginar como era seu mais novo psicólogo: velho, careca, gorducho e mal humorado.
Por isso que talvez quando entrou dentro da sala, surpreendeu-se com o homem que estava encostado sobre a parede de lado a uma janela ampla, a sua espera. Ele vestia uma calça jeans preta um pouco justa e uma camisa social vinho que deixava seus ombros largos e braços mais definidos.
Por um momento ela até sentiu-se desconfortável por estar ali com uma roupa qualquer... Apenas por um momento.
“Você acha mesmo que ele se interessaria por você, ? Você não vale a pena. Ninguém perderia tempo com você.”
A voz soou outra vez. Ela olhou assustada para seu irmão que fechou a porta da sala.
- Está melhor? – Foi à primeira coisa que perguntara. apenas confirmou e sentou-se na cadeira ao seu lado.
- É um prazer conhecê-lo, Dr. . – Seu irmão cumprimentou o homem com um aperto de mão. Ambos os homens sentaram e ficaram se encarando, o clima estava tenso. estava encolhida na cadeira em que estava e de segundos em segundos olhava para os cantos da sala a procura de algo. Estava incomodada com todo aquele silencio.
estava a estudando antes de começar a falar e perguntar, primeiro ele precisaria saber com o que estava lidando para depois começar a agir. Não gostava que ninguém além de seus pacientes participasse da consulta, mas ao ver o espanto da menina desde que ela parara no meio do corredor e sussurrar algo para Jenny e a mesma sair, ele viu que o caso era mais complexo do que imaginara. Quando John havia dito a idade da garota, logo imaginou que era apenas uma adolescente que precisava de atenção e aquele era o único modo de consegui-la. Porém mudou de ideia assim que a viu chorar daquele jeito com o irmão a abraçando. A partir de agora se empenharia ao máximo para tentar ajudá-la.
- , não é? – Perguntou tentando ter uma conversa normal com a garota. Ela apenas confirmou. – Como está se sentindo? Quer dizer... O que há de errado? – Novamente perguntou, ela suspirou.
- Eu... – “Eu costumava ser tão boa na escola, mas eu não sou mais. Quer dizer, nem para escola vou mais.” – Eu... É... – “Eu sinto que tudo o que faço dá errado” – Confuso. – “Estou constantemente me sentindo sozinha.” – Não há resposta... – “Me olho diferente e nada é mais a mesma coisa” – Quer dizer... – “Eu sinto que vou falhar em tudo o que eu fizer.” – Na verdade acho que não deveria estar aqui. – “Eu tenho vontade de chorar e não posso por causa do meu irmão, ele sofre com isso, eu sei. Tudo sempre será minha culpa. Não tenho vontade de sair do quarto, não tenho comido muito e nunca tenho fome. Eu sinto que ninguém se preocupa comigo e que sou apenas mais um problema ao meu irmão. Só queria poder dormir o dia todo, e talvez nunca mais acordar.” – Eu estou completamente... – “Confusa. Solitária. Vazia. Deprimida... Morta” – Bem.
- Você está bem? – perguntou com um “quê” de ironia. Ele tinha visto exatamente tudo o que fizera minutos atrás, e sabia também que se a garota não estava assumindo que estava mal, era porque de fato, ela não queria estar ali. Só que não contava com o fato de ser um psicólogo e entender bem as pessoas. concordou firme com aquela pergunta irônica do seu mais novo psicólogo e lhe sorriu de uma forma assustadoramente maliciosa. – Então se está tão bem não se importa de seu irmão sair, não é? – A desafiou.
engoliu em seco. Uma, duas, três vezes. Não queria de jeito algum que seu irmão saísse dali e a deixasse sozinha com aquele completo desconhecido, porém sabia que agora não tinha como voltar atrás. Não queria mais ficar ali, queria ir pra casa, mostrar ao seu irmão que estava bem do modo dela... Mas sabia que não estava.
John olhou a irmã com cautela e ficou esperando o próximo passo de ambos, não estava jogando verde, e John sabia exatamente o que ele estava fazendo. Manipulando sua irmã para que ela ficasse a sós com ele, como ao certo era. John sabia também o quanto sua irmã era orgulhosa e mesmo com aquela depressão ela não havia deixado de lado tamanho orgulho.
Sabia que iria ceder.
- Tudo bem por mim. – Ela pronunciou com a voz fraca, engolindo em seco logo em seguida. John olhou para que mantinha o sorriso maliciosamente vitorioso no rosto e virou em direção de sua irmã que estava prestes a correr daquela sala o mais rápido possível. Ele levantou da cadeira e lançou um olhar sugestivo e repreensor para o psicólogo em questão, sentindo o olhar de sua irmã sobre si.
- Eu vou ficar na sala de espera, tudo bem? – Murmurou para ela que apenas concordou. – Foi um prazer conhecê-lo Dr. .
- O prazer foi todo meu. – Respondeu, e assim John saiu do local deixando uma nervosa e com medo ali. – Então , sobre o que quer falar? – Perguntou novamente, numa nova tentativa de iniciar outra conversa. Porém do mesmo jeito que estivesse gostado da saída de John para que pudesse trabalhar melhor, havia odiado.
“Pobre garotinha... Agora que seu irmão não está aqui o que vai te puxar para a realidade que você tanto precisa, mas teme?”
Ajeitou o cabelo em uma mania que havia pegado quando ficara muito nervosa. Era isso, ela estava mais que nervosa. Iria pagar uma de louca ali se saísse correndo? Claro que sim.
percebeu o desconforto da garota e mais uma vez ficou a lhe encarar. Estava estudando cada “tique” de nervosismo dela. estava inquieta naquela cadeira, há todo momento se movimentava procurando uma posição confortável, mas nada de fato a confortava. Não com aqueles olhos sobre si, a estudando, vendo tão fundo que ela podia imaginar ir além de sua alma. Era como se o Dr. a desarmasse, como se ele conseguisse ver o quão estraçalhada a alma daquela garota estava.
- Eu não quero falar sobre nada. – Respondeu quando sentiu que conseguiria fazer tal ato sem precisar pigarrear. Seu olhar estava indiferente, exatamente como o do psicólogo a sua frente.
- Você tem ido à escola? – Se ela não tinha nada pra falar, ele iria perguntar e insistir na obtenção das respostas. Um dos grandes motivos para a fama de ser o melhor psicólogo e agir melhor que um psiquiatra com as pessoas, era que ele se dedicava demais. Havia perdido a conta de quantas vezes deixava de viver sua própria vida, de resolver seus próprios problemas para simplesmente ir lá e obter uma solução para alguém que ele só conhecera por seus problemas. Perdera a conta também de quanto tempo estava sozinho, porque não havia mulher no mundo que suportasse a ideia de que seu namorado preferisse dar atenção a estranhos que no próprio relacionamento. era sozinho... Assim como .
- Não. – Murmurou. não ia à escola desde o começo de sua depressão e até tinha esquecido o significado da palavra. Não precisava estudar se não iria viver mais que aquele ano.
- Vejo que não quer falar muito. – Ironizou. – Veja bem, ... Sei o quanto você não quer estar aqui, então facilite o meu trabalho e converse comigo. – Explicou. não esperava aquela reação de seu mais novo psicólogo, por isso foi inevitável sua surpresa ao escutar aquilo.
“Viu, menina. Nem ele te quer aqui. O que ainda esta fazendo mesmo?”
Fechou os olhos e respirou fundo, engolindo toda a vontade que tinha de chorar. Aquela voz em sua mente tinha de parar com aquilo.
Depois de dez minutos em total silêncio dos dois, bufou impaciente.
- Tudo bem, . – Suspirou cansado. – A consulta está encerrada. – levantou daquela cadeira aliviada e até podia jurar que em seu rosto havia um pequeno sorriso. – Por hoje.
Ela nada disse. Não questionou ou coisa parecida. Apenas continuou o caminho até a porta, mas antes de fechá-la escutou mais uma vez aquela voz lhe chamando a atenção.
- Preciso falar com seu irmão, . Chame-o aqui. Por favor. – disse. A garota estava de costas para ele, e ainda assim confirmou e saiu para segundos depois seu irmão entrar.
- Algum problema? – Perguntou preocupado.
- Sua irmã precisa voltar a frequentar a escola. – Era simples. Na concepção de se voltasse a fazer coisas que ela fazia antes, ela iria preencher a cabeça e com o tempo iria esquecer aos poucos as coisas. – E ela irá ter consultas comigo quatro vezes por semana. – John apenas concordou. Preço não era um problema uma vez que sua família tinha demais, o único problema que ele via naquela situação toda era convencer sua irmã a voltar para escola e voltar para .




Capítulo 2



’s POV

Ele só poderia estar brincando comigo.
Desde quando meu irmão dava ouvidos a alguém que dizia saber o melhor para mim?
Eu sabia o que era melhor, e com certeza voltar àquele local não iria me fazer bem. Quem aquele psicologozinho achava que era para querer mudar minha rotina assim? Eu já estava acostumada com tudo a minha volta, e voltar a escola era no mínimo, ruim. Eu não queria socializar com ninguém, apenas a presença de John me bastava, o quão difícil entender isso era?
- Eu não vou! – Falei assim que entramos em casa. Era obvio que aquela discussão toda não iria me levar a lugar algum, mas eu tinha que persistir. Eu não podia simplesmente me submeter a o que aquele homem dissesse que eu tinha que fazer. Eu sentia a raiva florindo a cada célula do meu corpo, a dor não era mais existente em mim, mas em compensação, a sensação de querer quebrar tudo o que via pela frente também não me agradava...
Depois que sai daquele psicólogo de merda, nada me agrada mais.
Não que agradasse antes, porque não agradava, mas as coisas eram mais simples e fáceis.
Eu iria chegar em casa alegando estar com dor de cabeça e em seguida tomaria dois comprimidos e só acordaria na manhã seguinte, ou até depois, quem sabe.
Agora não! Depois que saímos daquele lugar meu irmão me levou até a escola e me fez entrar com ele para uma conversa amigável com a diretora, que aceitou que eu voltasse a estudar mesmo todos sabendo ali que eu repetiria de ano.
Eu ainda procurava entender qual o sentindo daquilo tudo. Procurava saber se aquele tal acampamento de reabilitação não seria melhor que passar todos os dias na escola e quatro dias por semanas indo até meu novo psicólogo.
Será que não é muito tarde para a reabilitação? Sim, era.
- , eu sou o responsável por você. Você ainda é menor de idade, então se eu estou dizendo que você vai voltar à escola... Você vai! – John esclareceu.

“Ele só está tentando se livrar de você. Não percebeu ainda que a escola é o primeiro passo para uma vida sem ? Cuidado, garotinha, você só está deixando tudo mais fácil para mim e pior para você mesma.”

Aquela voz. No minuto em que eu sabia que estava com raiva de tudo a minha volta, outra onda de sentimentos me tomou, era o desespero. John não podia fazer isso comigo, ele sabia todo o meu sofrimento, sabia tudo o que eu passava e sabia exatamente como eu ficava quando não estiva medicada (por mim mesma) ou perto dele. Eu podia não ser louca, porém já era considerada uma. Era dependente de mim e da minha mente fraca e insana. E só em pensar que eu ficaria em um local por cinco horas com pessoas que me olhariam estranho, eu me desesperava.
Meus olhos já estavam produzindo lágrimas que eu nem sentia caindo, eu estava dormente. Minha pele toda formigava e minha cabeça estava pesada.
Eu tinha certeza de que não aguentaria as três primeiras horas naquele local.
- Você não pode fazer isso comigo... Não sabendo tudo o que eu estou passando. – Sussurrei. Pude ver John se esforçar para entender o que eu havia dito e seu olhar mudou de rígido para pena. Ele não aguentava a ideia de me ver chorando, eu sabia disso e estava usando isso ao meu favor. Não que eu estivesse fingindo estar chorando, porque eu realmente não estava. Todas as lágrimas caídas ali eram reais, o desespero também. Eu só estava chorando na frente do meu irmão mais velho para conseguir o que eu queria. Não era mimada, só não queria sair da minha zona de conforto.
- ... Isso é para o seu bem. – Suspirou. – Eu não faria nada que fosse ruim para você. – Confessou. Porém aquilo não estava me ajudando, eu queria que ele desistisse daquela ideia absurda de me por numa sala com prováveis 30 alunos mesquinhos e com olhares curiosos sobre mim. Não falei nada, enxuguei as duas ultimas lágrimas que caíram dos meus olhos e andei rapidamente até o meu quarto. Fechei a porta com toda a força possível que ainda me restava e deitei na cama, eu estava com raiva, furiosa, zangada.
Joguei todas as coisas que estava sob a cama no chão, quebrei os quadros que estavam na parede. Virei a escrivaninha de cabeça para baixo, assim derrubando tudo.
Não era possível sentir tanta raiva assim, tanto sentimento ruim assim. Me faria mal hora ou outra, mas eu estava sentindo.
As lágrimas não pararam de cair por um só segundo, o vazio que havia em mim agora fora preenchido com a dor, e sinceramente eu não sabia o que era pior. Sentir tudo o que há de ruim dentro de si, ou não sentir nada e pedir por um pouco de sentimentos. Ambas as escolhas eram péssimas, eu queria descansar. Queria poder deitar, fechar os olhos, mas com a certeza de que nunca mais iria abri-los novamente, porque eu não merecia tamanho privilégio que era a vida.
Afastando o colchão da cama eu pude pegar uma cartela de remédios para dormir que eu sempre escondia. Três pílulas eram o bastante. E com isso em mente, tomei o remédio sem me importar de estar novamente me viciando e me medicando sozinha. Deitei na cama pouco me importando com a bagunça que tinha acabado de fazer, nada mais importava a não ser o ódio.
Ódio do meu irmão, ódio daquela atendente.
Ódio do meu psicólogo.

***


Eu podia sentir o vento gélido bater em meus cabelos, mas eu não me importava. Estava feliz, eles estavam ali comigo de novo. E por mais irônico que fosse, estava fazendo sol naquela manhã de frio. Não era o sol capaz de esquentar a todos, porém eu me sentia feliz com aquela indecifrável temperatura que vinha dentre o frio do vento e o calor do sol. Porque era assim que eu me sentia naquela manhã: indecifrável.
O parque estava cheio de crianças, casais, adolescentes, famílias.
A minha família.
Lá estava John com mais uma de suas namoradas perto de um lago trocando carinhos. Sorri ao ver meu irmão tão feliz, Melanie era com certeza a mulher certa e de sorte, sabia que homem mais carinhoso e cuidadoso que meu irmão, só meu pai.
Ah, meu pai.
Girei minha cabeça e lá pude vê-lo. Irradiante como sempre, estava escorado em uma arvore e mamãe deitada com a cabeça sob sua perna, e o mesmo fazia carinho em seus cabelos.
A típica família feliz com o típico casal eternamente apaixonados. Era uma coisa linda de se ver. Eu gostava de ver como a vida da minha família estava.
Sabia que naquela noite John pediria Melanie em casamento, porque ele havia treinado comigo o que iria dizer no jantar que o mesmo fizera. Sim, meu irmão era o incorrigível apaixonado, assim como meus pais. Posso confessar que eu também era. Suponho que era de genes, não sei.
Sentei na grama olhando diretamente para o céu claro, com poucas nuvens. O sorriso que eu continha era algo maior que meu rosto, mas eu não me importava, porque o sorriso que eu carregava era exatamente tudo o que estava sentindo. Não estava sorrindo por obrigação, estava sorrindo porque eu não tinha motivos para não o fazer.
Minha família não era perfeita, tinha seus altos e baixos, porém nós sempre fazíamos de tudo para que o clima de união e amor nunca acabasse. E isso fazia minha família perfeita para mim.
- Raio de sol. – Meu irmão cantarolou sentando-se ao meu lado e me tirando dos devaneios de como eu estava feliz. – Em que está pensando, ? Nunca te vi tão pensativa assim, esta até perdendo o dia. – Brincou.
- Não estou pensando, John. Estou apenas olhando. – Esclareci lhe lançando o meu melhor sorriso.
- E por que precisa tanto olhar, ? – Perguntou curioso. Eu o olhei procurando também uma resposta para minha repentina vontade de observar meus pais juntos, meu irmão com sua namorada que estava a poucas horas de ser noiva e a poucos meses de ser esposa. Eu nunca fui muito de olhar as coisas, de ver a felicidade das pessoas de fora. Eu era a felicidade, entende? Sempre fazia com que todos ficassem felizes, gostava de aproveitar cada momento como se fosse um dos meus últimos.
- Eu... Eu não sei John. – Respirei fundo tentando reorganizar meus pensamentos, porém no mesmo instante em que eu sabia o quão imensa era minha felicidade por estar ali, eu sabia que algo iria acontecer para que eu sofresse duas vezes pior. – Eu sinto que preciso olhar como vocês estão felizes. – Expliquei, mas o mesmo ainda não conseguia entender. – Alguma coisa me diz para gravar absolutamente você e a Mel felizes ou as feições do papai e da mamãe juntos...
- Por que, ? – O que eu estava sentindo não era bom, era um sentimento de perda.
- Porque algo me diz que isso não durará por muito tempo, John. – Sussurrei.


E então o barulho de panelas caindo me acordou.
Aquilo não fora um sonho, aquilo era uma lembrança.
A lembrança do fim da minha vida e do começo da minha existência. Duas semanas depois daquele dia e meus pais morreram, era como se nada daquilo de fato já tivesse existido.
Eu só via aquilo como uma lembrança falsa que minha mente criou. Porque se alguém me perguntar o que eu sentia, eu não iria saber o que responder. Não lembraria nem se tentasse.
Me remexi na cama com o intuito de voltar a dormir, mas novamente o barulho que agora era o da porta do meu quarto abrindo não deixou.
- , você já está atrasada. Levante. – John disse, abrindo as cortinas do meu quarto. Pelo silêncio que se instalou no local, percebi que ele estava olhando tudo o que eu tinha feito noite passada, e automaticamente eu me senti culpada por ter feito aquilo. Sabia que quem arrumaria aquilo era ele. John não tinha culpa por meus surtos.

“A culpada aqui é você, . Sempre você.”

E como um ato de mecanismo de defesa, meu corpo inteiro se encolheu de forma fetal. Aquela voz sussurrando em meu ouvido estava ficando mais frequente e forte. Antes era apenas sussurros, agora eu realmente podia escutar em bom som o que ele me falava. E não importava se estava falando baixo como estava agora, a voz era nítida o bastante.
- John me desculpe pela bagunça... Eu... – Não me dei nem o trabalho de dar os tão falsos “bom dia” que eu sempre lhe dava. Era melhor pedir logo desculpas por toda aquela bagunça que eu tinha feito. Ele respirou fundo e me olhou lançando um sorriso compreensivo.
- Não se preocupe com a bagunça, . Vá se arrumar, precisamos ir antes que você se atrase mais. – E dizendo isso ele saiu.
Claro, eu precisava ir para escola.
Como se lá eu fosse aprender alguma coisa que realmente me interessasse. Por favor, eu já sabia ler e escrever, o que vinha a seguir era pura e realmente desnecessário.
Tinha certeza de que nenhuma professora ou professor iria fazer uma palestra mostrando o quanto éramos sortudos por temos nossos pais por perto, ou que o escuro pode ser acolhedor quando a luz não lhe é mais necessária.
Outra coisa que eu tinha certeza sobre a escola? Uma prisão sem grades.
Ao entrar no banheiro me despi e evitei me olhar no espelho. Meu reflexo não me agradava mais, meus olhos estavam foscos, meu cabelo sempre bagunçado, a pele mais que pálida. Realmente aparentava ter 40 anos e não apenas 16. Demorei o necessário no banho para que eu perdesse o primeiro tempo e o segundo tempo das aulas, não queria aprender. A vida já tinha me ensinado muita coisa, mesmo que ironicamente.
Não era do tipo de garota que diz “Ah, eu peguei a primeira roupa que vi pela frente”, porque a primeira roupa que vi foi outro par de pijamas.
O primeiro jeans e a primeira blusa que eu encontrei foi exatamente o que eu vesti. Não estava ligando para aparências, eu não queria ir para aquele lugar e pronto, não tinha “pra quê” me vestir bem se eu iria para um lugar indesejado. Porém isso eu tinha deixado bem na cara de todos, quer dizer, sumir da escola por oito meses era um aviso um tanto quanto direto demais para que entendessem que eu não estava dando à mínima mais para nada.
- , já está pronta? – John apareceu novamente. Murmurei um sim e saímos do quarto, era estranho estar acordada tão cedo. – Pegue alguma fruta, não temos mais tempo.
- Não precisa John. Não estou com fome. – Dizendo isso, passei direto para a porta. Por outro lado, ele não disse nada. Por mais que oito meses tenham se passado, John ainda não sabia como lhe dar comigo.
E lá estava eu pela segunda vez em dois dias dentro daquele carro, a caminho de um lugar onde eu realmente não queria ir.
Patético.

***


- É aqui que você fica. – Desligou o carro chamando minha atenção. Eu não tinha percebido, mas acabei dormindo enquanto estávamos no terrível transito de Londres. Havia tomado remédio para dormir, e não dormir o tanto que o efeito forçado me proporcionaria me dava enjoos, dores de cabeça.
Nada com o que eu não esteja acostumada, para falar a verdade.
- Até depois. – Sussurrei. Oh, não. Ele não iria me levar ate a porta ou qualquer coisa parecida.
Desci do carro sem ao menos esperar um “tchau” ou “boa sorte”. Eles não iriam mesmo ser reais, tinha certeza disso. Olhei o meu relógio e vi que era tarde. Tarde o bastante para eu ter perdido quase metade da terceira aula também.
Ótimo, as portas do inferno estavam abertas e eu estava prestes a ver a qualquer momento uma besta.
Os corredores estavam vazios e isso comprovava minha hipótese de que a terceira aula já tinha começado. Suspirei aliviada quando me dei conta de que se eu fingisse passar mal no intervalo eu iria para casa.
Claro, como se a vida cooperasse muito com tudo o que eu planejava. Ao subir as escadas que davam acesso ao primeiro andar, na porta da sala onde eu iria entrar estava a Diretora Meredith falando ao celular, e eu não duvidaria nada se aquela mesma pessoa não fosse meu irmão com medo de que no mínimo eu tivesse fugido e me matado.
Ao notar minha presença, a senhora desligou a ligação com um breve “Não se preocupe, ela está aqui.” E me olhou sorrindo.
Vadia falsa.

- , querida! – Pronunciou ao me abraçar. Era só o que me faltava. Sorri amarelo para ela e tratei de me soltar daquele abraço. – Vamos entrar na sala. – Ela mal havia esperado alguma resposta minha, no segundo seguinte lá estava a diretora abrindo a porta da sala e atrapalhando a aula do professor. Nesse momento a atenção foram todas para ela, eu ainda não tinha tomado coragem o suficiente para entrar ali. Reviver todo aquele passado, não. Eu não era mais a mesma . Porém acho que ninguém sabia disso, ninguém sabia o porquê eu sai da escola sem mais nem menos, pelo que Meredith me disse ontem, todos os alunos da minha sala achavam que eu tinha mudado de escola. Não sabiam do meu estado. Patéticos. – Serei breve professor... – Ela deu uma pausa para que o homem percebesse que seu intuito não era demorar. – Quero que deem as boas vindas a uma colega de classe de vocês, espero que sejam hospitaleiros com a nossa querida . – Estava feito. Ela tinha anunciado meu nome, aquela vadia. Meus instintos me diziam para correr, mas quando pensei em fazer aquilo, Meredith pegara em minha mão e me puxara para dentro da sala. A atenção estava toda para mim.

“Vai ser muito interessante você ter um surto psicótico aqui, querida. Adoraria ver seus amigos perceberem como você é louca. E tudo por minha causa...”

Meu sangue gelou, eu devia estar branca. Sentia minhas mãos tremerem, estava paralisada. Meredith falava alguma coisa comigo, mas eu não conseguia entender o que ela falava. Dei um passo para trás me sentindo um pouco enjoada. Ao ver todas aquelas pessoas que um dia marcaram minha vida, de uma forma boa ou ruim, eu percebi que aquele não era mais o meu lugar. Que, na verdade eu não tinha mais um lugar. Eu não pertencia mais aquele mundo. Vi ali as pessoas que eu chamei de melhores amigos, que me ligaram durante seis meses após a morte dos meus pais e tudo começara a acontecer. Eu não atendia nenhum deles, não conseguia... E então, eles pararam. Por que era muito mais fácil desistir de uma alma perdida do que insistir em sua salvação.
- Eu não consigo. – Murmurei olhando para a mulher a minha frente que estava preocupada, pude perceber o telefone em seu ouvido, provavelmente ela deveria estar chamando meu irmão. – Eu não consigo fazer isso. – O ar naquele local era quase inexistente, eu não conseguia respirar.

“Está sentindo isso, ? Sou eu! Eu estou impedindo seus pulmões de receberem oxigênio. A brincadeira acabou, garotinha. Agora eu vou te matar.”

Ao escutar aquilo meu desespero se tornou eminente, toda aquela situação estava me agonizando de forma absurda. Dei mais um passo para trás e ao chegar à porta novamente, girei meus calcanhares e comecei a correr. Eu estava apavorada com tudo aquilo, todos aqueles pares de olhos me observando como se eu fosse um animal enjaulado. Corri desesperadamente pra algum lugar que eu não sabia onde era, minhas pernas doíam, minha cabeça doía... Tudo em mim doía.

... Não adianta correr, eu vou pegar você.”

Eu não deveria ter aceitado essa proposta idiota de voltar para essa porcaria de escola. Meu coração batia tão freneticamente que eu mal ouvia meus pensamentos, minha visão estava ficando turva, em um breu meio escuro e meio cheio de lagrimas, eu nunca iria saber. Avistei ao longe três pessoas correndo em minha direção e só agora eu percebi que estava parada, encostada com a cabeça na parede ofegando. Olhei para o lado e vi que se tratava da diretora, do meu irmão... E do meu psicólogo.

“Vão internar você, sua louca.”


- Cala a boca. – Murmurei batendo forte na parede. – CALA A PORCARIA DA BOCA! – Gritei ao ouvir o som estridente da gargalhada em minha mente. Escorreguei com as costas na parede e sentei-me no chão abraçando as pernas, meu corpo inteiro tremia e eu sentia que estava tendo um ataque de pânico. O ar ainda faltava em meus pulmões. Foi quando a primeira pessoa aproximou-se de mim, meio afobada. Era meu irmão.
- ! – Tocou em mim, mas meu instinto fez com que eu encolhesse mais. – , fala comigo! – Ele estava preocupado, eu podia saber pelo seu tom de voz.
- Eu... Eu não consigo respirar. Ele não tá me deixando... – Ofeguei, buscando ar, olhando para todos os lados e vendo que o Dr. e a diretora Meredith estavam agachados juntos com meu irmão. Uma lufada de ar saiu de meus pulmões e eu os senti queimarem. – Respirar!
- Vão para trás agora, dêem-na espaço. – Pude escutar a voz do meu psicólogo soando um pouco mais agitada que o normal. – concentre-se na minha voz. – Ele murmurava de frente para mim, eu buscava ar a todo custo, não conseguia me concentrar em mais nada. – Escute apenas o som da minha voz, vamos... Você consegue.
- Eu preciso respirar... Por favor. – Supliquei, temendo perder os sentidos. Coloquei a mão no meu peito e apertei com força, no mesmo instante, a mão dele ficou sob a minha.
- Concentre-se apenas na minha voz, eu sei que você consegue. – Murmurou novamente, mas dessa vez me olhando nos olhos. – Assuma o controle! Volte, . Não o deixe te controlar. – Enquanto ele dizia aquilo para mim, eu tentava a todo custo assumir o controle. – Viu? Já está ficando mais fácil, não é? – Ele estava ficando mais calmo quando viu meus primeiros suspiros, o ar estava entrando em meus pulmões, eu sentia aquilo. – Ótimo, agora me responda umas perguntas... Qual o nome do seu irmão?
- John... John . – Ainda era difícil de falar, mas ele me entendia.
- Onde você está?
- Estou na escola, tendo um ataque de pânico enquanto estou sendo salva pelo meu psicólogo meio maluco. – Suspirei tomando mais uma lufada de ar, eu era irônica até mesmo nessas situações.
- E o mais importante, ... – Ele voltou a dizer. – Quem está no controle?
- Eu... Eu estou no controle. – Falei, mais para mim do que para ele, e pela primeira vez pude vê-lo sorrir com aquilo. Vi também a alegria do meu irmão e da diretora.
Não queria admitir, mas era realmente bom no que fazia.




Capítulo 3


Dois dias se passaram desde aquele incidente na escola e não voltou para lá por recomendação de . Segundo o psicólogo, eles precisavam conversar sobre o ocorrido. John entrava em contato com ele pelo menos duas vezes ao dia. Só porque ela tinha assumido o controle não queria dizer que ela já estava melhor. Aquilo queria dizer que sim, sabia como ajudar sua irmãzinha. Levantou-se da cama e rumou para o banheiro, teria que deixar no consultório em uma hora.
Por outro lado, já estava acordada há mais o menos duas horas, presa no banheiro. Ela estava vomitando há exatas duas horas. Tudo isso porque no dia anterior ela comeu um pedaço de pizza sob os olhos atentos do irmão. A garota não tinha mais forças para vomitar, mas a ânsia estava presente, como um lembrete de que isso só acabaria quando ela pusesse tudo para fora.

“Você sabe que isso não é ânsia, garota burra. Isso sou eu. Sou eu te castigando por ter tentado lutar contra mim. E só vai piorar a medida que você resistir.”


O que veio a seguir foi mais deprimente que nojento. não tinha mais o que por pra fora, o que saia de sua boca era apenas um liquido verde que queimava tudo, fez força mais duas vezes e viu que não iria sair mais nada, quando estava prestes a tentar levantar, escutou uma batida na porta.
- está tudo bem ai? – John perguntou.
- Sim, acordei mais cedo para não nos atrasarmos. – Mentiu, sentindo a garganta queimar. É claro que o irmão não acreditou, até porque sabia que sua irmã de uma hora para outra não iria de boa vontade ao psicólogo, mas era o momento dela. Ele precisava respeitar.
- Tudo bem. Esteja pronta em vinte minutos.
Ela não precisou murmurar resposta alguma, e aquilo fora uma deixa para John. Vinte minutos depois, estava devidamente pronta, vestia uma calça jeans e uma blusa xadrez que ia até seus pulsos, nos pés ela tinha um all star branco. Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo alto e um perfume doce emanava no lugar. Por um momento, apenas por um mísero momento, John esqueceu a realidade que lhe atingia. Ver sua irmã daquele jeito lhe fez lembrar quando ela saia com os amigos, quando se arrumava para ir a festas, quando tentou dirigir o carro pela primeira vez e quase atropelou um policial. parecia normal, mas ambos sabiam que ela não estava. Por mais que aquelas roupas lhe dessem um ar melhor, seu rosto parecia cansado, parecia sempre estar sentido dor.
Desceram até a garagem em completo silêncio, ambos absortos demais em seus pensamentos. Alguns moradores que passavam por eles sorriam, mas conseguia ver nos olhos deles o sentimento de pena, de piedade. Ela não estava pedindo a porra da piedade, tampouco a pena de nenhum deles! Estava ficando irritada de todos sentirem isso por ela.
O caminho até o consultório de foi num silêncio devastador também, John até tentava fazer com que sua irmã falasse, mas parecia que a mesma havia entrado em seu casulo, sendo assim, ele optou por ligar o rádio.

“Você acha que se fechando de novo fará com que eu fique menos bravo com você? Não seja ridícula, garota. Seu inferno particular está apenas começando.”

Fora com essas frases, sussurradas ao sopro perto de seu ouvido, que fechou fortemente os olhos. Estava com medo, medo do que poderia acontecer agora, automaticamente suas mãos foram em direção as suas coxas e lá apertaram o local com força. Nenhuma pequena dor era suficiente para espantar aquela voz de sua cabeça, mas ela tentava. Ao perceber aquilo, John colocou a mão livre por cima da mão da menor, que se assustou com o ato repentino.
- Estou aqui, raio de sol. – Ele disse da forma mais descontraída que conseguia fingir. – Assuma o controle, lembra? – Ótimo, agora todos iriam ficar repetindo aquela maldita frase para ela?
- Fácil dizer isso, já que não é você que tem uma voz na sua cabeça sussurrando em como pensa em te matar lentamente. – Soltou em disparada e ao ouvir aquilo, John freou o carro bruscamente, mas ela não se importava, eles já estavam na porta do consultório, tudo o que fez foi soltar um risinho sarcástico antes de descer do carro.
Ao entrar na sala de espera, Jenny lhe lançou um sorriso simpático e confortante, ela quase sentia-se bem.

“Gostaria muito de te ver sangrar até a morte.”

pôs a mão na cabeça e olhou para os dois lados, seu irmão acabara de entrar no consultório e logo foi falar com a recepcionista, que lhe informou que dentro de dez minutos iria atendê-la.
John sentou ao lado da irmã que ainda segurava fortemente a cabeça, não estava sentindo dor, mas receava começar a sentir de um momento para outro, ela sabia exatamente como eram aquelas dores... Eram agonizantes.
- , querida. – Jenny chamou, levantando de sua cadeira e dando a volta do balcão de mármore. – Vamos, meu amor? O Dr. está te aguardando. – não disse nada, apenas acompanhou a mais velha até o fim do corredor, onde abriu a porta e entrou na grande sala de .

“Que seu pesadelo comece, querida.”

- Está melhor? – perguntou, atencioso.
- Já percebeu que é a segunda vez que entro aqui e você me faz a mesma pergunta? – Ela retrucou enquanto sentava na cadeira à frente ao homem.
- Vai ficar me respondendo com outra pergunta?
- Isso te incomoda? – Dobrou as pernas e abriu um sorriso falso, suspirou. Visivelmente frustrado, achava que depois daquele dia as coisas seriam um pouco mais fáceis entre eles.
Estava enganado.
- Você precisa voltar para escola, . – Disse num tom sério e pôde ver que toda a pose de garota confiante tinha desabado. estava com medo novamente.
- Não! – Verbalizou, com medo. – Por favor, senhor , não me faça voltar aquele lugar. – Seu desespero era visível.
- Me chame apenas de . – Ele repreendeu sua formalidade.
- Tanto faz. Mas senho... ! Por favor, não me faça voltar lá, . – Implorou novamente.
- Me diga porquê não quer ir, . – Ele pediu.

“Conte a ele que eu pretendo te matar lá, . Eu não me importo.”

- Você está me deixando maluca. – Murmurou, de cabeça baixa.
- O que você disse? – Perguntou interessado. levantou a cabeça e o olhou meio incerta do que deveria fazer. – , você está ciente de que só estamos nós dois nessa sala, não é?
- Não estamos a sós. – Sussurrou, abraçando as pernas e olhando para o vazio. observava todo o comportamento da garota. – Ele está aqui, . – Ela sorriu deixando algumas lágrimas escaparem. – Ele está aqui e nada do que você faça vai fazê-lo se afastar de mim.
- Ele quem? – Perguntou preocupado com as reações da garota.
- O sofrimento. – Murmurou.

***


Estava sentada naquela cadeira de frente para Jenny há mais de meia hora. havia chamado seu irmão assim que a garota saíra e desde então ficaram conversando. Jenny até tentava falar alguma coisa com a menina, mas visivelmente deixava claro que não queria papo com a recepcionista, Jenny Marshall apenas continuou seu trabalho.
Olhando para o nada, imaginava coisas abstratas... Em como tinha esquecido as sensações mais lindas da vida. Ela amava sair de casa e andar observando tudo, e sempre que encontrava alguém, dava um jeito de fazer amizade e conversar no intuito de fazer a pessoa sentir-se bem.
Fora desse jeito que ela conheceu o ex-namorado, mas isso já fazia tanto tempo, que ela não achava realmente necessário lembrar-se dele agora.

“Ele te esqueceu. Foi embora assim que você mostrou ser uma louca. Ninguém te ama, . Ninguém.”

Encolheu-se na cadeira ao ouvir aquilo. Era verdade, a garota sentia que ninguém a amava, que todos sentiam apenas pena dela. Pena por ela ser esse peso na vida do pobre irmão que não tivera culpa de ter que aguentar aquele fardo que ela se tornara. Ela estava quebrada de uma maneira inimaginável, sua alma estava tão perturbada quando sua cabeça. queria paz.
Minutos, ou horas depois, ela não soube distinguir, seu irmão saiu da sala com em seu alcance, eles estavam conversando sobre alguma coisa e ao verem a menina, ambos se calaram.
não estava gostando nada daquilo.
- venha aqui. – John a chamou. Ela parecia assustada com as coisas que estava vendo e escutando, mas mesmo assim resolveu atender ao irmão. O seguiu de volta a grande sala, junto com seu psicólogo.
- Então... – Ela incentivou a falarem logo o que tinham decidido. John olhou para meio receoso e o médico respirou fundo antes de falar.
- John e eu decidimos que você vai continuar a ir para escola. – Ao escutar aquilo, o semblante da garota ficou horrorizado. – Vai te ajudar a ficar mais perto da realidade, . E sempre que se sentir mal ou sempre que escutar vozes, você pode me ligar e conversaremos até você se acalmar. – Ele tentava sorrir de um jeito acolhedor, porém aquilo não estava adiantando para a menina, que cada vez continuava mais amedrontada.
- Por favor! Por favor, John! – Ela sussurrava olhando para o irmão que tentava manter-se firme na decisão. – Você sabe que eu não vou aguentar, por favor! Não deixe que ele faça isso comigo! Eu só quero ficar em casa, no quarto. Por favor! – assistia a cena atentamente, e tentava a todo custo não ter pena da menina, ele não podia simplesmente ter. Pena era um sentimento medíocre, que ele sabia que ninguém gostava quando sentiam por si.
- Já está decidido, . – John disse em um tom confiante, dando fim aos pedidos da irmã.
- Vou te dar meu número e tudo ficará bem. – disse para ela.
- Nada vai ficar bem. Você ainda não entendeu seu psicologozinho de merda! – Ela esbravejou sentindo toda a raiva tomar conta da sua seriedade. John arregalou os olhos em pura surpresa com o comportamento da irmã, apenas a olhava intrigado. – Qual o seu problema? – Gritou. – Você não viu o estado que eu fiquei? Acha que eu estava fingindo tudo aquilo, caralho! – Suas mãos tremiam, seu corpo também.

“Isso, querida. Perca o controle que eles acham que você tem.”

- Cala a boca! Sai da minha cabeça, me deixa pensar! – Ela gritou, pois ao escutar aquilo toda a sua raiva fora intensificada. Suas mãos foram direto para a sua cabeça, assim que uma pancada forte a atingiu. Seu irmão e psicólogo fizeram menção de se aproximar e ela afastou-se. – Saiam de perto de mim! É tudo culpa de vocês. – Novamente gritou. Seu corpo tombou para trás até que ela sentiu encostar-se à parede. Respirou fundo, uma, duas, três vezes. Tudo só piorava.
- , me escute. – A voz de estava cada vez mais próxima. Ele estava começando a entender o porquê de todos os outros psicólogos acharem aquela garota um caso perdido. Além de estar com uma depressão nervosa em alto estágio, ela desenvolveu algum tipo de alucinação associada a dor que sentia por perder os pais. Não existia voz alguma na cabeça da garota, era apenas o seu cérebro brincando com sua mente.
- EU NÃO QUERO TE ESCUTAR, PORRA! DA ÚLTIMA VEZ QUE EU FIZ ISSO, PASSEI DUAS HORAS VOMITANDO COMO PUNIÇÃO! – Gritou de olhos fechados, as lágrimas já caiam. Num canto da sala, John assistia aquela triste cena calado, ele também chorava. Ver sua irmã daquele jeito estava quase o enlouquecendo. sabia que aquilo era um transtorno de raiva, e não passaria até a paciente em questão escutar aquilo que queria, mas ele não iria ceder tão fácil. Ele via um futuro para , e não deixaria nada lhe impedir de ajudá-la, talvez fosse por isso que ele deu a volta indo até sua mesa, abriu a segunda gaveta e de lá tirou uma seringa com 7ml de sedativo. Voltou novamente para a garota que chorava em alto e bom som. – Cala a boca, por favor! – Ela falava em pura agonia.
- Mantenha os olhos fechados, . Eu irei fazê-lo te deixar em paz. – murmurou alisando o braço dela.
- Do que você está falando? – Perguntou sem entender o que aquilo significava. Quando viu o que o médico estava prestes a fazer, ela se assustou. – Saia de perto d... – Já estava feito. O liquido calmante já havia entrado em suas veias e era tão forte que no mesmo segundo o corpo mole da garota ia caindo no chão. Ia, pois a segurou.
- O que você fez com ela? – John perguntou, aterrorizado.
- É um calmante, John. – Ele explicou. – Sua irmã poderia ter outro ataque de pânico aqui, e pelo que ela confessou... Não sei se conseguiria controla-la agora.
- Meu Deus! – John sentou na cadeira e cobriu o rosto com as mãos e chorou por incontáveis minutos.
- Você precisa ir para casa, meu caro. Ela não vai acordar mais hoje, e talvez só acorde amanhã a noite. Esse calmante já é forte o bastante para alguém disposto, e pelo que pude entender, está fraca. – disse, chegando perto de John. – Vá para casa e descanse. Qualquer coisa que acontecer, você sabe o meu número. – E dizendo isso, entregou para John o corpo mole da irmã que dormia tão calma que ele mal podia acreditar.




Capítulo 4



Ao chegar em casa, sentiu todo o peso de um dia cansativo lhe atacar. Ele estava exausto, e não poderia fazer nada. Havia uma mulher em seu quarto, ele sabia disso ao julgar pelo barulho do chuveiro sendo usado. Sua namorada estava em casa, oh céus. não queria sua namorada na sua casa naquela noite. Luci, na maioria das vezes, só pensava em sexo, não que ele não gostasse, claro que gostava. Porém não era o sexo de e sua namorada que iria ajudar a ficar bem.
Oh, havia finalmente começado! Era hilário o que estava viria a seguir... tinha se envolvido no caso. Estava feito. Não daria mais um mês até que Luci cansasse daquilo tudo e fosse embora como todas as outras. O fato era que se tinha um nome honrado até hoje e com tão pouca idade para aquilo, era por que ele se empenhava mais do que o saudável. E era exatamente aquilo que ele estava prestes a fazer, pois para saber a insanidade de Gonçalves, ele teria que provar dela.
não tinha noção do campo minado que estava prestes a cruzar.
Chegou ao seu quarto e foi direto para a cama, onde pegou o notebook e pesquisou sobre depressão nervosa. Claro que ele já sabia do que tratava aquilo e o que causava, mas ele queria mais informações. O primeiro site lhe chamou atenção:

”Depressão Nervosa pode ser descrita como um sentimento de tristeza, desânimo, infelicidade ou angústia. A maioria de nós sente-se assim uma vez ou outra por curtos períodos de tempo. Alguns tipos de depressão são familiares. Morte ou doença de alguém próximo a você pode influenciar o aparecimento da depressão; É comum nesse estado que os pacientes ouçam vozes.”

Havia mais alguma coisa escrita sobre os sintomas, porém não conseguiu terminar de ler tudo uma vez que sua namorada tinha fechado a tela de seu notebook, chamando a atenção para si. Naquele momento, começara a ficar furioso. Odiava quando Luci fazia aquilo, e ela continuava a fazer mesmo que soubesse da preferência do seu namorado.
- Estou trabalhando, Luci. – Verbalizou um pouco rígido.
- Você trabalha o dia e a tarde toda, amor. – Disse num tom que julgou meloso demais para os seus próprios ouvidos. – Estou com saudades. – Ela murmurou fazendo bico.
- Não tenho tempo para isso agora, Luci. – Mais uma vez ele tentava desvencilhar-se dos braços de sua namorada. Sem sucesso.
- Deixe esses malucos para depois, . – Disse brincalhona e subiu no colo do psicólogo. – Venha brincar comigo. – Sussurrou aquilo no ouvido do homem e logo após beijou o local. Luci definitivamente não deveria ter feito aquilo.
- Pra começar... – Ele tentou em vão ponderar a sua voz. – São esses malucos que pagam minhas contas e que me fazem te dar todo o luxo de presentes e joias que você sempre exige de mim. E segundo, você não é mais criança para brincar, Luci. Cresça! Só por que você não tem obrigações, não quer dizer que eu também não tenha. – Após dizer tudo aquilo, indelicadamente tirou a garota de seu colo, a colocando de qualquer jeito na cama ao seu lado. Luci não reconhecia o homem ao seu lado. Ela estava sem palavras diante daquele comportamento.
- ... Eu... O que foi isso? – Perguntou com a voz baixa.
- Vá embora por hoje, Luci. – Encarou a mulher ao se levantar da grande cama de casal. – Isso foi sua deixa.
E dizendo aquilo, rumou para o banheiro, sabendo que quando voltasse sua namorada não estaria mais lá. Ele ao menos esperava que ela não estivesse, pois caso contrário, outra discussão viria. Raras eram as vezes que ele e Luci brigavam, e isso era um fato a se vangloriar. Luci entendia o trabalho de e até ficava na dela, não cobrava muito do homem na sua relação. Mas em compensação, ela queria suprir toda a falta que sentia de em jóias e presentes caríssimos.
Voltando ao seu pensamento anterior...
A partir de agora, ele não daria um mês (dois, no máximo), até que Luci se cansasse de tudo aquilo e fosse embora.

***


John dormiu bem naquela noite, mesmo tendo acordado com um peso na consciência ao ver sua irmã ainda sob os efeitos do sedativo que lhe aplicara. Ele não sabia o que fazer a seguir, se ficaria esperando a garota acordar para saber o que iria acontecer, ou se simplesmente tentasse pelo menos uma vez não se preocupar com sua irmã, que provavelmente só acordaria horas depois.
A verdade era que John passou tanto tempo cuidando da irmã e a observando, que ele não sabia mais o que fazer com o tempo livre. Mas ao notar que teria que ter algo para fazer, ele optou por ir até seu escritório e adiantar coisas de meses depois para poder ter mais tempo sobrando para .
E tudo girava em torno dela, afinal.
Minutos depois, ele escutou seu telefone tocar, era .
- Olá. – Mesmo que tivesse dormido bem naquela noite, a voz de John permanecia cansada.
- Oi, John. Bom dia. – o cumprimentou. – Liguei apenas para saber sobre a . – Explicou de forma meio intrigante.
- Ela ainda está dormindo, . – Ele informou-lhe.
- Tudo bem. Não precisa trazê-la aqui hoje quando a mesma acordar. Venham depois de amanhã, tudo bem? – queria dar tempo para eles se acostumarem.
- Certo. – Ele murmurou, massageando as têmporas. – Se ela tiver algum ataque? – Perguntou receoso.
- Você me liga e o mais rápido que eu puder chegarei ai. – O psicólogo vociferou sem ao menos pensar.
- Okay, . Muito obrigada. – Então finalizaram a ligação.
Seria apenas ele, sua irmã e seus monstros por dois dias.

***


acordou com uma dor de cabeça insuportável, e seu corpo latejava. Virou-se na cama, procurando coragem para levantar. Estava claro, mas ela não sabia que horas eram. Caminhou calmamente até o seu banheiro e lá jogou uma boa quantia de água gelada em seu rosto, escovou seus dentes com a mesma expressão monótona de sempre. Com um nó tão conhecido na garganta, ela foi em direção à cozinha, notando no meio do caminho que seu irmão dormia no sofá enquanto a televisão estava em algum canal de filme. Suspirou com os olhos lacrimejando, ver seu irmão daquele jeito lhe trazia tantas recordações, ela quase podia escutar sua mãe reclamando baixo para não acordá-lo sobre sua mania de dormir ao assistir filmes.
Apressou seus passos até a cozinha, lembrar daquilo só a faria chorar mais. Abriu a geladeira e lá tirou suco e uma maçã, colocou os mesmos sob a bancada, deu as costas e foi até o armário pegando um pacote de biscoito. Sentou-se na cadeira e despejou o suco no copo, bebericou um pouco e começou a comer calmamente seus biscoitos.
Todo aquele silêncio estava deixando-a desconfiada, ela ficava olhando para os lados como se estivesse sendo observada, olhava para trás constantemente como se esperasse algum ataque acontecer, mas não acontecia nada.
Enquanto mastigava, começou a lembrar de uma época em que ela frequentava a escola, que tinha amigos e namorado.

18 meses atrás - Ponto de vista da
Eu definitivamente estava atrasada para a festa da Hayley. Caminhei apressada pelo meu quarto procurando meus sapatos. A música alta invadia meus ouvidos e eu pude escutar papai reclamando por isso. Sorri com aquilo e ao colocar meu scarpin preto, desliguei o som. Eu estava vestida, mas não estava pronta. Faltava alguma coisa.
- , Sam chegou! – Ele gritou da sala. Samuel era meu namorado há dois anos, acho que ele me conhecia o suficiente para saber que eu não estava pronta, afinal, dois anos não são dois meses. Sorri com aquilo. Continuei olhando meu reflexo pelo grande espelho e eu me agradava com o que via: vestido rodado rosa um pouco acima do joelho, meia calça preta e scarpin preto. Meu cabelo estava preso num coque alto e bem feito, meus olhos marcados e minha boca nude com um gloss.
Realmente meu reflexo me agradava. Porém faltava algo, mas eu já sabia o que era. Sorri com meu momento de descuido e fui até minha penteadeira. Lá peguei o colar que havia ganhado do meu namorado. Agora sim poderia dizer que estava pronta e sorri ao constatar aquilo.
Sai do meu quarto antes que alguém gritasse outra vez. Caminhei até a sala, onde estavam todos reunidos, obviamente passando as famosas regras para o coitado do Samuel, que pelas vezes que ele saiu comigo, já deveria ter decorado aqueles monólogos.
- ... Nada de bebidas para ela e você também já que vai dirigir, Sam. – Pude ouvir que minha mãe dizia da forma materna que ela sempre falava com ele.
- Sim, senhora. – Ele respondeu, sorrindo pra ela.
- Vocês não acham que ele sabe muito bem cuidar de mim? – Perguntei divertida, chamando a atenção de todos para mim. Assim que me viu, Sam levantou e sorriu, ele estava lindo. Meus pais e meu irmão também levantaram e mamãe sorriu, vindo até mim.
- Você está linda, meu amor. – Ela disse, tocando meu rosto.
- Obrigada, mamãe.
- Já sabe as regras. – John disse, chegando perto de mim. Revirei os olhos com aquilo.
- Sim, John... Eu já sei. Tenho que ir agora, estamos atrasados. – Disse, já abraçando meu pai antes de sair com Samuel.
A preocupação toda era que, veja bem, Sam era mais velho que eu. Apenas três anos, mais era. Isso amedrontava um pouco meu pai e meu irmão sempre estava de olho na gente. Eu tinha dezesseis anos, e ele iria fazer dezenove. Mas eu não ligava, Sam nunca tinha feito nada que eu não quisesse, me respeitava, e eu o amava.
- No que está pensando, ? – Ele perguntou, colocando a mão na minha perna e automaticamente sorri, colocando minha mão por cima da dele.
- Em você. – Cantarolei, olhando pra ele.
- Como assim em mim, amor? – Questionou sorridente.
- Estava pensando em como mesmo depois de dois anos de namoro, meus pais e meu irmão ainda ficam receosos em me deixarem sair com você, principalmente quando você vem de carro. – Expliquei. – Acho que eles descobriram que você reprovou quatro vezes para tirar a carteira. – Gargalhei, lembrando-me como Samuel tinha ficado frustrado.
- Entendo a preocupação deles, meu amor. – Sam confessou, rindo da minha piada. – A preocupação maior deles é a questão de nossas idades. Quando começamos a namorar, você era muito nova e eu muito velho para você, . – Uma das coisas que eu mais amava nele, era sua compreensão.
- Eu te amo. – Disse sorrindo para ele.
- Eu também te amo, . – Assim que estacionou o carro, ele me beijou.

Assim que entramos na festa de Hayley, o som estridente do local invadiu nossos ouvidos. Havia pessoas por toda a parte, algumas da escola, outras desconhecidas por mim, e alguns familiares da Hayley. Sam me deixou ir à frente, mas eu sentia a mão quente dele em minha cintura, ele não deixava ninguém chegar perto o suficiente de mim. Sorri ao ver minha melhor amiga e segurei a mão do meu namorado, entrelaçando nossos dedos e indo em direção a ela, não queria me perder dele.
- Até que enfim vocês chegaram! – Ela gritou perto de nossos ouvidos quando aparecemos. – Achei que vocês não iriam vim.
- Culpa da , Hay. – Samuel disse, levantando os braços como se estivesse se rendendo. Dei uma tapa no braço dele, rindo daquilo. – Ouch.
- Eu não perderia essa festa por nada, idiota. – Gritei pra ela, sorrindo.

Não fazia exatos vinte minutos que estávamos naquela festa, mas eu poderia dizer que o número de pessoas havia dobrado, se não, triplicado. Mas eu não ligava.
Estava no meio da pista dançando como se o amanhã não existisse. Minha melhor amiga estava na minha frente dançando com o peguete dela, e meu namorado estava atrás de mim, com suas mãos largas e quentes em minha cintura, dançando comigo, com o corpo tão colado ao meu, que eu sentia seu coração bater.
Virei rapidamente de frente para ele e rodeei meus braços em seu pescoço, ele sorriu para mim e eu o beijei. Minha mãe não sabia, mas sempre que íamos para festas, bebíamos. E como eu era mais fraca que ele, sempre acabava um pouco alegre de mais.
- Sam, eu te amo! – Gritei, rindo pra ele. Ele gargalhou de mim e me beijou de novo, logo após me abraçou.
- Eu também te amo, . – Sam disse em meu ouvido, um arrepio bom tomou conta do meu corpo e minhas mãos foram até sua nuca.”


lembrava-se bem daquela noite. Respirou fundo, sentindo saudades de tudo aquilo, e abraçou seu corpo frágil como se tentasse se reconfortar.
Nada daquilo voltaria, Hayley não voltaria a ser sua melhor amiga e, com certeza, Samuel não voltaria a ser seu namorado.
Porque era um empecilho, ela era o que todos denominavam como efeito colateral...
E ela queria morrer por isso. não iria mais lutar contra a voz que dizia em sua cabeça que iria matá-la.
Naquele momento, havia aceitado a sua morte.




Capítulo 5



Ao acordar aquela manhã, sentiu a preguiça matinal lhe acompanhar. Sorriu irônico com isso, não importava quantos anos tinha... Certas ações sempre seriam de um garoto.
Remexeu-se um pouco mais na cama e esticou o braço para pegar seu celular, eram dez da manhã, mas não foi o horário que lhe chamou atenção, e sim a quantidade de ligações perdidas: Oito.
Seu desespero ficou eminente! Sua mente começou a trabalhar rapidamente e tudo que ele podia pensar era que John havia ligado e alguma coisa havia acontecido com . Desbloqueou a tela do celular rapidamente e seu desespero se tornou raiva ao ver quem havia ligado. Era Luci.
Sua insistente namorada, Luci. Tudo bem que ele tinha mandado ir embora daquele jeito, mas ligar oito vezes era um sinal de desespero e odiava isso. Talvez fosse por esse motivo que ele simplesmente ignorou aquilo, bloqueando a tela do celular e em seguida levantando para tomar café.
Ao passar pela grande sala, ligou a televisão e deixou num canal onde passavam as notíciais matinais, pegou uma garrafa de uísque, gelo e um copo. Minutos depois, lá estava um preguiçoso tomando uma forte dose de álcool enquanto assistia um jornal qualquer.
era um homem jovem, entrara na faculdade cedo e se formado ao auge de seus vinte e dois anos, agora com quase vinte e quatro ele realmente se orgulhava do que fazia. Mas nunca poderia esquecer o que lhe ocorrera dois anos atrás, quando ainda estagiava para um amigo de seu pai.
havia se apaixonado pela filha de seu chefe, Sophi. Ela tinha vinte anos na época, e era uma moça linda, simpática, extrovertida e caridosa. Ela era tudo o que ele desejara. Começaram então um relacionamento, mas com o passar do tempo, percebeu que Sophi sofria um grave problema: depressão e distúrbio alimentar.
Sim, a jovem e adorável Sophi Yang sofria como jamais havia visto alguém sofrer. E ela fingia tão bem na frente dos outros, na frente do próprio pai que era um psiquiatra que ele não entendia. tentou ajudá-la de todos os jeitos possíveis, mas Sophi não queria ser ajudada. Ele chegou a perguntar se o amor que sentia por ela não era o suficiente para que ela quisesse viver, a resposta vinda da garota, no entanto fora simples: “Eu abracei a escuridão, . E em troca ganhei a morte. Não há nada que você possa fazer, a não ser assistir a minha destruição.”
Dois dias depois daquilo, Sophi Yang fora encontrada morta em sua cama, ela teve uma overdose seguida de convulsão.
estava sozinho a partir dali. Sozinho e sem nenhuma esperança na vida.
Talvez fosse por isso que ele se dedicava tanto. Porque além de ser bom no que fazia, ele se empenhava ao máximo para salvar seus pacientes. A ideia de que alguém que você ama possa se suicidar e o motivo eminente é que você não foi o suficiente, não é uma dor que se possa superar. Depois de dois anos, ainda não tinha superado.

***


Havia uma aura estranha e vazia na casa quando John acordara. Ele viu que tudo estava calmo demais, não poderia estar dormindo ainda. Era impossível ela ainda estar dormindo, por isso ele caminhou calmamente até o quarto da garota. E lá estava , de olhos fechados, abraçando os joelhos e chorando baixinho, no fundo do quarto. John quase podia sentir a dor que aquele local emanava, a dor que sua irmã emanava. estava tão absorta em seus pensamentos suicidas, que ao menos percebeu a presença do irmão, que caminhou até a estante de livros da menina e lá pegou um de seus livros favoritos. Calmamente John foi até o encontro daquele corpo pequeno e frágil e sentou-se do seu lado, pôs sua mão no ombro da irmã para chamar sua atenção, essa por sua vez deu um pequeno pulo assustada com a presença do irmão.
- Sou apenas eu, raio de sol. – Murmurou baixinho. olhou para o irmão e sorriu fraco, seus olhos estavam cheios de lágrimas e seu rosto lavado por elas. – Há quanto tempo está acordada? – Perguntou em tom carinhoso, afagando os cabelos da menor.
- Tempo o bastante. – Sua voz rouca e esguichada pelo choro soou baixo.
- Você poderia ter me acordado, ficaríamos juntos. – John repreendeu a menina.
- Você estava dormindo tão bem que não queria atrapalhar. Não mais do que eu já te atrapalho. – E então ela abraçou novamente os joelhos e voltou a chorar.
- ! olhe para mim. – John pediu, depois de um tempo a garota o obedeceu. – Você nunca vai me atrapalhar ou sequer atrapalha, está me entendendo? – Sua voz estava grave. John sentia o peito queimar, queria chorar tanto quanto a irmã. O medo de perdê-la lhe perseguia, mas ele tinha que ser forte por ela. – Você é minha irmãzinha e é meu dever cuidar de você.
- Se... – Tossiu. As palavras engasgando em seu choro. – Se eu morresse, tudo seria mais fácil para você. Se eu morresse você não teria que me aturar, eu sou um problema pra você.
- , você não acha que eu já perdi gente de mais para acabar perdendo a única família que eu tenho? – Perguntou. Sua garganta fechara, ele iria chorar a qualquer momento.
- Se não fosse por mim, mamãe e papai ainda estariam aqui, Mellanie estaria com você e Sam ainda estaria comigo, tudo isso é minha culpa, você não vê?
- Sabe, eu lembro quando você nasceu... Eu não tinha gostado muito da ideia de ter uma irmã, mas ai o papai me levou pra te ver no berçário, e no momento em que eu te vi, eu sabia que você seria uma pessoa maravilhosa. Você ainda não estava dormindo, então eu coloquei meu dedo em suas mãozinhas e você o apertou. Papai olhou pra mim e disse que você era o nosso tesouro, e que deveríamos te proteger. Então eu pedi para escolher seu nome. – John lembrava-se muito bem daquele dia. Lembrava-se de como os pais brigavam antes da chegada da irmã, que eles aparentavam não se amar, então quando souberam que a gravidez de Elisabeth era de risco, e que apenas uma iria sobreviver as coisas mudaram repentinamente.
- Por que escolheu esse nome pra mim, John? – A menina não sabia mais o que sentia, era uma mistura de saudades, remorso, culpa... Tudo misturado em seu pequeno coração.
- Porque meu amor, a gravidez da mamãe não foi comum... – Virou-se de frente para a menina e alisou seu rosto. – O médico disse que na gravidez da mamãe, só uma iria sobreviver, raio de sol. Mamãe escolheu você, ela queria que você vivesse. Mas então aconteceu um milagre, meu amor. Mamãe não morreu no parto, . Você trouxe luz para essa casa, meu amor. E eu ainda vejo essa luz em você, ela pode estar fraca agora, mas eu não vou deixá-la apagar, está me entendendo? – Ela negou com a cabeça, era informação demais. – Você pode ter desistido de tudo, , mas eu ainda não desisti de você. Eu não vou desisti de você.
E com isso se abraçaram, compartilhando uma dor que pertenciam apenas aos dois. e John unidos por uma perda, por um acidente, mas acima de tudo, unidos por sangue. Afinal de contas, qualquer coisa poderia acontecer, mas no fim, a única coisa que prevalecia era a família. John dissera palavras verdadeiras, ele não iria desistir da irmã, porém o que o pobre homem não sabia era que a garota já havia desistido de si.
E essa seria uma batalha maior do que ele imaginava.
Como salvar alguém que não queria ser salvo?

***


Assim que o despertador informou as horas de uma maneira nada discreta, John abriu os olhos e se espreguiçou um pouco. Estava cansado e queria dormir mais um pouco, mas ao lembrar-se de que sua irmã iria de novo para a escola, todo o seu corpo entrou em estado de alerta. Ele ainda tinha o gosto da memória do último ocorrido, e temia que algo pior acontecesse a sua irmãzinha.
Levantou de uma vez, temendo que se enrolasse mais, pudesse voltar a dormir. Passou pelo quarto da irmã e a acordou, que de muito mal grado levantou e foi tomar banho. Ele caminhou até a cozinha e lá fez o café para ele e sua irmã.
Naquela manhã, estava calada, mas seus pensamentos eram barulhos que não conseguia organizar em uníssono. John a observava atentamente, temendo que qualquer reação fosse perder sua irmã.
- John, eu to bem. Não precisa me olhar assim. – Aquela frase não soava verdadeira nem em seus próprios ouvidos, mas não podia alarmar mais o irmão. Já estava sendo um enorme problema, não queria aumentar mais a preocupação do irmão. Sorriu amarelo para ele e caminhou até a porta. – Vamos, logo. Quero acabar com isso o mais rápido possível. – Reclamou.

Os dois fizeram o mesmo caminho de alguns dias atrás, já sentia o incomodo de sempre no pé da barriga, suas mãos suavam e sua cabeça começava a latejar. Por mais que tentasse disfarçar o próprio nervosismo, John percebera como sua irmã estava, o que não era nem um pouco distante de como ele estava sentindo-se. O caminho todo até a escola foi um enorme silêncio, não aqueles silêncios apreciáveis, mas daqueles que te corta a alma a cada suspiro, e o único som existente era o do rádio em volume baixo. estava com a cabeça encostada no vidro, sonolenta demais para qualquer coisa, e John desviava o olhar do trânsito para a menor a cada dez segundos. E tudo só piorou quando ele avistou há poucos metros de distância, a escola.
- , acorde. – Chamou-a. – Chegamos. – balbuciou alguma coisa e depois abriu os olhos sonolenta. Bocejando ela abriu a porta do carro e desceu, percebendo o quanto estava ficando difícil continuar de pé. Estava tão fraca, estava com tanto sono. – Aqui, você vai precisar disso. – Falou baixo. olhou para as mãos do irmão e o viu lhe entregar algo que não usava há meses.
- Meu celular... – Disse num suspiro. A tela bloqueada pela senha impedia o irmão de ver qualquer coisa, mas ao desbloquear, a menor viu uma coisa que ainda não estava preparada. Sequer saberia se um dia estivesse, mas lá estava a bomba. Várias chamadas perdidas de Samuel, Hayley e de outros amigos, mensagens, fotos, músicas, anotações... Era como se ela pegasse na sua antiga vida e sentisse um mísero gosto do passado. nunca estaria preparada para aquilo. Puxou o máximo de ar que conseguiu e prendeu a respiração ao sentir os pulmões cheios, abriu a última mensagem que Samuel havia lhe mandado.

, eu preciso de você!”

Isso fora há seis meses atrás. Seis meses.
Sua cabeça girava, tinha noção de que John estava em sua frente e que falava alguma coisa que não compreendia, mas não ligava. Encostou-se ao carro, e seu corpo quase sem vida fora cedendo, assim como no dia em que tivera o primeiro ataque de pânico. Sentia as lágrimas caírem, a dor estridente em seu coração, que flamejava sua alma, domava seu ser e palpitava seu cérebro, era como se tudo estivesse conectado. Em um minuto, havia desabado.
- Hey. – John a chamou, conseguindo sua atenção. – Eu sei que deve ter muitas informações ai para uma manhã só, e que é muito pra você. Mas precisa me prometer uma coisa, tudo bem? – Falou de forma devagar, com medo de sua irmã não compreender o que lhe era dito.
- O quê? – Perguntou, mesmo sem forças para falar.
- Por essa manhã, não mexa em nada que está no seu telefone. Você só precisa dele para me ligar ou ligar para o caso estiver em pânico.
- John? – O chamou temerosa.
- Estou aqui. – Respondeu de forma suave.
- Eu estou em pânico o tempo todo. – Confessou. O mais velho respirou fundo e sentou ao lado da menina. Encostou as costas no carro assim como ela, e ambos ficaram olhando para frente.
- Mas você continua. – Riu sem humor. – Você sempre arruma um jeito de continuar, . É isso que eu estou lutando para que você não perca... Sua força. – Ele a olhou e seu interior aqueceu-se ao ver pela primeira vez em meses, um sorriso frouxo escapar de sua irmã. Talvez, o que precisasse era apenas que seu irmão não desistisse. E então ele sorriu também. – Preciso ir, raio de sol. Te vejo daqui a pouco. – E dizendo isso, John levantou, sendo seguido por sua irmã.

***


Sentia-se num circo de horrores, sendo a atração principal de um. Assim que pôs os pés dentro da escola, olhares foram lançados a pequena e frágil menina. Todos comentavam sobre o acontecimento ocorrido há dias, e apontavam para a garota em questão. Ela apressou os passos, querendo fugir de algo que temia ser a si mesma. Estavam todos falando dela, dela e do seu ataque. Respirou fundo, temendo não ter mais ar nos pulmões. Sua visão estava nublada, o corpo mole, os sentidos nulos.
sentia-se dormente.
Apertou as unhas na mão, vendo os nós ficarem amarelos pela força. Respira. Inspira. Expira.
Foi para um lugar afastado, quase não tinha alunos vagando pelo local, e os poucos que estavam, não lhe davam atenção. Segundo o relógio mostrava, ainda faltava um bom tempo até que a aula começasse, mas ela não se importava. Pela segunda vez na manhã, viu seu corpo encostar-se num local sólido e ceder no mesmo instante. Tirou o celular do bolso com as mãos um pouco tremulas e suadas. Estava tão claro assim que estava nervosa?
Prendeu a respiração ao desbloquear novamente o aparelho, era difícil não fazer isso uma vez que seu papel de parede era uma foto dela e Samuel juntos.
Samuel.
Ao vasculhar o aparelho de cabo a rabo, ver quantas ligações perdidas e mensagens de meses atrás. Finalmente criara coragem e fora até onde suas fotos estavam armazenadas.
Fotos e vídeos eram lembranças que não se apagavam.
E lá estava. Uma pasta repleta de fotos. Fotos com seu namorado, com suas amigas, com John, com seus pais...
Precisou colocar a mão na boca e reprimir um gemido sôfrego que fora silenciado, não detido. Seus dedos trêmulos, tocaram a tela do telefone, precisamente, na foto onde seus pais estavam. Ela até podia sentir o cheiro de jasmins da sua mãe, e o agridoce do pai. Fora só ai que percebera que estava chorando. Era informação demais.

“Não consegue lidar com o fato de ser a causadora da morte dos seus pais?”

Aquela voz emergiu em sua mente como um tiro que atravessara um corpo. Tentou não focar no que aquilo lhe dizia. Optou por continuar a ver as fotos.
Infelizmente, com aquilo, começara a lembrar-se de momentos...

“15 meses atrás - Ponto de Vista da
- Vamos, mãe! – Chamei-a pela terceira vez. Não havia uma partícula em mim que não estivesse animada com o fato de que os pais de Sam haviam viajado e ele dormiria na minha casa hoje.
- , tenha calma. – Ela reprimiu, rindo da minha ansiedade. – Sei que não preciso falar isso, mas filha, você sabe que ele não vai dormir no seu quarto com você. – Disse num tom sério e eu tive que rir... Gargalhar na verdade.
- Mãe, por favor! – Falei entre os risos. – Não estou assim por isso. É só que, vou passar mais tempo com o Sam e com vocês também. Finalmente Sam, papai e John vão ter que conversar, se conhecer. Tá mais do que na hora deles aprovarem meu namoro também. Assim que cheguei em casa, Sam já estava lá, junto com meu pai e meu irmão. Não poderia ser tão difícil assim para que eles confiassem de uma vez por todas que Sam era uma boa pessoa. Levei minha bolsa até meu quarto e respirei fundo, já podia imaginar meu pai o expulsando e John me proibindo de vê-lo. Isso não poderia acontecer de jeito nenhum. Prendi meu cabelo em um coque apertado, de modo que sentia uns fios sendo muito puxados, mas eu não ligava. Só a mera suposição de que na sala ao lado estava minha família e meu namorado que iria passar a noite aqui, me dava enjoos. Eu realmente não me sentia sequer um pouco confortável com isso. Cruzei a porta em direção a sala e lá estavam eles, conversando um pouco mais animadamente desde que havia saído, e isso com certeza me acalmava mais. Sentei ao lado de Sam no sofá, na poltrona a frente estava meu irmão e logo ao nosso lado, meus pais. A televisão fazia apenas um papel de preenchimento harmônico. Minha mãe tinha começado a puxar assuntos com Sam, que chamaram a atenção do meu pai, e logo em seguida de John também... E assim o tempo fora passando, finalmente podia ver que estava tudo se acertando. O sorriso estava estampado em meu rosto ao ver que horas depois, meu pai tinha finalmente aceitado meu namorado.
- Eu quero uma foto disso aqui. – Fiz gestos com as mãos. – Para que sempre que eu veja lembre esse dia. – E todos concordaram. Coloquei meu telefone a frente e com todos apertados no mesmo sofá, o temporizador tinha registrado esse momento. O momento “em que tudo estava completo.”

O som estridente do sinal tocando havia feito que a garota voltasse à tona. Ainda apertava o aparelho com força nas mãos, onde mostrava a mesma foto: Sua família, ela e o namorado num sofá apertado sorrindo como se aquele tivesse sido o melhor dia. E pra ela realmente fora.
Guardou novamente o celular no bolso e limpou as lágrimas de seus olhos, sabia que notariam que estava chorando, mas não se importava. Sua cabeça não estava ligando para isso no momento, a única coisa que pendia em sua cabeça era o fato de que o celular em seu bolso esquerdo, que agora pesava mais que o devido, tinha lembranças dos seus pais... Lembranças do que ela era antes de tudo, e ela queria ir a fundo. Queria explorar até a última dor que aquelas memórias lhe proporcionariam.




Capítulo 6



Sentou-se na mesa mais distante de todos os alunos logo quando a diretora deixou-lhe novamente na porta, e mesmo sendo uma das primeiras a entrar na sala, qualquer um ali lhe observava como se observasse um animal feroz preso apenas por uma gaiola de madeira. Tinham medo de que a qualquer momento, tivesse outro ataque. Não só eles, a própria também estava amedrontada com isso, a ideia de que sua mente poderia brincar com sua realidade lhe assustava.
era só uma menina de quase dezessete anos que estava assustada com tudo o que sua mente projetava a sua volta. Sua mente era um abismo infinito, por mais que procurasse uma saída para aquilo, era como se afundasse cada vez mais profundo, como se perder cada vez mais rápido num lugar conhecido. Era isso, sentia-se perdida num local conhecido. Não era como se ela estivesse realmente perdida, mas a mente estava tão assustada que projetava aquilo como um novo caminho desconhecido. não enxergava que a saída era se deixar esquecer, porque ela não queria esquecer. Para a pequena , lembrar era algo doloroso, que ela fazia a todo instante como forma de punição. Punição por matar seus pais.
- “Às vezes, quando sentimos a falta de alguém, parece que o mundo inteiro está vazio de gente.”, Lamartine. – Fora a primeira coisa que o professor disse assim que entrou na sala, chamando assim a atenção para si. engoliu em seco com aquele comentário. O que era aquilo? Uma brincadeira de mau gosto? – Abram seus cadernos e... – Sua voz sobressaltou-se novamente, mas parou logo que viu a pequena encolhida como um animal com medo e ferido, no fim da sala. – Você é aquela garota nova, não é mesmo? – Olhou-a novamente, sorrindo e a garota só encolheu-se mais. Todos na sala a olhavam novamente, ela odiava a sensação de que todos poderiam estar com pena. – , meu nome é Thomas, mas todos aqui me chamam de Tom. Meredith havia me falado sobre você, vi seu histórico escolar. Garota, você vai longe. Mas tire a curiosidade desse velho professor de filosofia e me responda... Por que saiu da escola tão repentinamente? – Seu tom beirava a sede por respostas que não queria e nem iria responder. Ele estava falando dela em voz alta! Todos dentro daquele local a reconheciam, claro que sim! Eram seus antigos colegas, parceiros de encrencas. Claro que a reconheciam, e depois do que ela passou aquele mísero professor falava dela assim?

“Não deixe esse idiota te menosprezar, . Mostre a ele que eu te ensinei a se defender.”

A garota riu irônica, ao mesmo tempo em que sentia seu peito doer por seu mais novo professor falar com ela assim. Ela sentia ódio pelo mesmo motivo. Era como uma válvula de escape. O escape para a dor era a raiva, rancor, ressentimento... Ódio.
- Suponho-me que não é da sua conta. – Respondeu fria. Seus olhos brilhavam de lágrimas dolorosas que ela não permitiria escapar. Aquela voz que a tinha deixado em paz por um tempo, era a mesma que agora gritava para que ela revidasse. E nesse momento, era só a aquela voz que escutava.
- Eu entendo seus problemas, querida. – Ele disse amigável, e aquilo só aumentou a raiva. Ela não queria que ele fosse compreensível com ela, queria brigar com ele. Queria gritar com todos que estavam olhando para ela... – Meredith também me contou sobre seus pais... Realmente sinto muito, . – Mas a única coisa que fez foi desabar.
- Cala a boca. – Murmurou. As lágrimas que tanto lutara para não deixar escapar, finalmente estavam caindo. – Você não tem o direito de falar isso. Não na frente de todo mundo! – Gritou.

“Você é tão fraca, . Deixou que um mísero professor te fizesse chorar! Menina idiota! Merece todo o sofrimento e vergonha que está passando agora!”

- Me desculpe... Eu realmente não sabia q... – O professor tentava desculpar-se, porém nada resolvia sua situação. estava sentada, apertando as unhas nas pernas, o olhando com tanta dor, tanto sofrimento, tantas lágrimas... Era como se quase por um segundo toda a sua dor transpirasse para a pessoa a sua frente. Quando Thomas ia dizer mais alguma coisa, a pequena saiu correndo pela segunda vez em lágrimas daquela sala.
Era realmente engraçado como todo o sofrimento que sentia, intensificava-se quando ela colocava os pés dentro daquela escola. Já não bastava as memórias que aquele pequeno aparelho lhe trazia, seu professor ainda fazia questão de lembrá-la de como seus pais morreram.
A garota sentou-se em um dos bancos que tinham no jardim da escola e obrigou-se a observar o lugar. Retirou o celular do bolso e ficou apertando-o com tanta força que parecia que ele iria fugir a qualquer momento. Olhando para os lados, observou um casal em meio aos risos se beijando e foi quando percebeu quem era o casal que ela literalmente parou de respirar. Ali, há poucos metros de distância, estavam Samuel e Hayley se beijando. Isso mesmo, seu ex-namorado e sua melhor amiga, se beijando!
Por mais que pensasse que nada fosse capaz de intensificar sua dor, o baque surdo e vazio que sentiu em seu coração só provara o contrário. Era como uma bala em seu estômago frágil. Como viver em um filme de terror, presa, sem conseguir sair. Claro que ela iria ver Samuel e Hayley qualquer hora, poderia esbarrar com qualquer um a qualquer momento.
Só quando seus pulmões deram uma pequena pontada aguda, que a garota veio perceber que não tinha respirado desde que vira tal cena. Quando seus fracos pulmões entraram em um estado de emergência e ela respirou com tanta rapidez que acabara tossindo por não saber com qual ordem por o oxigênio dentro de si, sua fraca voz cessou o silêncio no local, chamando atenção das duas pessoas para si, e foi quando seus olhares se cruzaram que seu estômago gelou. Hayley ficou branca ao ver sua melhor amiga ali, e Samuel não sabia o que fazer, apenas olhava para a garota com um espanto eminente, mas podia ver que em seu olhar havia mais alguma coisa, ela só não sabia exatamente o que era.

"Eventualmente, todos te trocam. Eu sou o único que permanecerá contigo até a sua morte"


Despertou de seu transe ao escutar novamente aquela voz. Abaixou a cabeça, querendo cessar o contato entre aquelas pessoas que já fizeram parte de sua vida. Eles já haviam seguido em frente, estavam em outro livro, e a pequena havia empancado na mesma página.
Determinada a não assistir mais nenhuma aula, desbloqueou seu celular e mandou uma mensagem para seu irmão.
"John, está ocupado? Quero ir pra casa, Meredith me liberou. XxClair"
Sabia que estava mentindo, mas seu irmão não precisaria saber disso, a garota só não queria acabar esbarrando novamente com alguém do seu passado e acabar comparando com seu presente.
", estou no meio de uma reunião. Não posso passar ai agora, me desculpe. Pegue um taxi. XxJohn"
Para seu irmão lhe negar qualquer pedido, ele realmente teria que estar ocupado, por isso não se importou com isso.

"Ele não liga para você, sua idiota. A primeira desculpa de muitas para não ficar perto de você."


Colocou a mão em sua cabeça, iria acabar enlouquecendo, isso se já não estivesse louca. Levantou-se com uma rapidez e foi em direção ao banheiro, chegando lá, molhou o rosto, nuca e pescoço. Tudo ao redor dela estava quente demais, novamente eram muitas informações de uma vez. Ainda estava com a cabeça abaixada com sua respiração ainda ofegante quando ouvira a porta do banheiro abrir e consequentemente alguém entrar, mesmo que seu estado fosse deplorável, não queria que ninguém além de si presenciasse aquilo. Levantou a cabeça e olhou para o espelho, vendo o reflexo de uma garota alta, magra e ruiva ainda na porta a observando como se ela fosse um fantasma. Olhando fixamente para a silhueta de e também para o reflexo do seu rosto no espelho, lá estava Hayley.




Capítulo 7


respirava ofegante, ainda olhando para o reflexo da garota que estava atrás dela. O tempo havia parado ali e nada mais importava, aquela era Hayley, sua antiga melhor amiga... Sua antiga melhor amiga que estava aos beijos com seu ex-namorado! Com toda certeza eles haviam seguido em frente, e Samuel havia encontrado conforto nela. A cabeça de não podia trabalhar de forma mais dolorosa, flashes das duas passavam em sua mente, como um filme antigo, porém, conhecido.
- ... - Quando aquela antiga, entretanto, conhecida voz soou atrás da pequena , a mesma fechou os olhos com força, incapaz de distinguir o que sentia. Era muita coisa para um dia só, não estava apta a receber tantas informações de uma só vez, como se a vida jogasse e esfregasse em sua cara que todo mundo mudou, menos ela. - ), eu... Quando você voltou? - Mais uma vez Hayley tentou falar com , que agora estava com a cabeça abaixada, seus braços estavam abertos e suas mãos seguravam fortemente a bancada. - Por favor, ... Fale comigo, não me deixe no escuro de novo. - Lágrimas já tinham brotado e estavam caindo pelo rosto de Hayley, ela lembrava concretamente do que tinha passado com , toda a amizade e como a perda dos pais da garota fizeram com que tudo mudasse.
- Como vai o Samuel? - perguntou em tom sarcástico. Hayley não esperava por aquilo, talvez por isso, quando escutou, prendeu sua respiração. - Desde quando estão juntos? - voltou a perguntar, agora se virando de frente para sua antiga amiga. Olhando em seus olhos, Hayley pode ver o quão vazio e conturbados aqueles olhos estavam. não expressava emoção alguma, ela apenas continuava perguntando coisas que estavam machucando a si mesma e a pessoa a sua frente. - Aposto que não esperou nem um mês que tudo aconteceu para transar com ele. - Se aproximou de Hayley. Agora sua voz expressava raiva. estava com raiva. - Puta! - Silabou quando estava há míseros centímetros da garota a sua frente, que apenas a encarava estática e com os olhos amedrontados. Depois que disse aquilo, a pequena foi em direção à porta, esbarrando propositalmente em sua antiga amiga, que após a saída da , continuara parada da mesma forma, ainda tentando entender o que acabara de acontecer.

Assim que chegara ao corredor principal, refez o mesmo caminho de mais cedo, indo para a parte mais deserta daquela escola. Encostou-se em um escombro qualquer e passou a mão diversas vezes em seu cabelo. Sentia-se frustrada com o que vira, com o que passara, com o que tinha dito! Levantou a cabeça e cravou o olhar no teto daquele local, em busca de uma resposta que nunca viria. Queria chorar, sentia vontade de chorar, mas não tinha lágrimas para cair. Em vez disso, a garota tirou o celular do bolso e dava continuidade ao que havia sido atrapalhado pelo sinal da aula. Ela sabia que isso só a faria sofrer mais, entretanto, era exatamente isso que ela queria... Sofrer.

“Menina idiota. Você merece cada parte da dor que está sentindo agora. E o mais engraçado é que não sou eu que estou causando isso.”

Aquela voz em sua cabeça não havia a assustado como nas outras vezes, já estava ciente de que estava ficando louca, agora ela estava aceitando esse fardo. Estava mais uma vez com aquele aparelho em mãos, e olhava cada parte de tudo o que ele guardava. As fotos de uma vida que não a pertencia mais, as anotações de um amor agora não mais correspondido, os programas esquecidos... Tudo ali se resumia em uma vida de meses atrás, vida essa que a garota não fazia mais parte. Era como querer encaixar um pedaço de laranja em um alho. Seu corpo não mostrava nenhum sinal de força, porque a pobre garota estava fraca e cansada de tudo. Queria um refúgio de tudo isso, queria simplesmente apagar, não sentir mais nada, ficar entorpecida! Sabia que os remédios para dormir não causariam mais esse efeito, uma vez que seu fraco organismo já se acostumara com tais procedimentos feitos pela mesma em seu banheiro.
- É nova aqui? – Uma voz soou ao lado de e ela se assustou, pois não esperava encontrar ninguém àquela hora e naquela parte da escola. Levantou o olhar até encontrar um garoto, aparentava ter 18 anos, era alto, magro, cabelos negros e de olhos num azul piscina, quase verde. – Tudo bem. Só não conte a ninguém que me viu aqui, ou que viu o que eu vou fazer. – Ele simplesmente disse ao notar que não o responderia. Sentou-se um pouco mais distante da garota, começou a tirar da bolsa um saco plástico na cor preta, enfiou a mão dentro do saco e tirou de lá uma colher, um cartão magnético, um canudo médio e um pacotinho pequeno cheio de remédios. observava tudo da distância entre os dois, mas ao ver o que ele havia tirado e o que estava prestes a fazer, ficou curiosa. Forçou o corpo a levantar e chegou perto do garoto, que ao perceber a curiosidade eminente da menina a sua frente, sorriu. – Quer provar? Essa é das boas. – Ele disse, olhando para uma que estava cada vez mais tentada a aceitar. Ela apenas sentou ao lado do garoto sem dizer uma palavra, e ele já havia entendido o que aquilo queria dizer. – Eu vou fazer e você faz exatamente o que eu fizer, ok? – Ele perguntou e mesmo incerta daquilo, ela assentiu.

“Vai se drogar, ? Você sabe que eu odeio quando você não está sã para que eu possa te atormentar, não é? Sabe que eu vou ficar furiosa com isso.”

- Eu não ligo para o que você diz. – Ela balbuciou de olhos fechados. – Cala a boca. – Ao abrir os olhos, notou que o garoto estava a observando. – O que foi? – Perguntou rude. Ele simplesmente deu de ombros e continuou o que estava fazendo, enquanto prestava bastante atenção. Primeiro ele pegou dois comprimidos e os colocou no chão. Em seguida os amassou com a colher até que tudo virasse apenas pó. Logo depois pegou o cartão magnético e fez três fileiras com o pó do remédio, segurou o canudo, o colocando perto o bastante de uma de suas narinas e o apontou na direção de uma das fileiras. Tampou a outra narina e puxou o ar, sua mão seguia completamente o caminho em que o pó se encontrava. Logo após isso, ele levantou a cabeça de olhos fechados, apertou o nariz com força e voltou a abrir os olhos, olhando para que ainda o observava.
- Pronto, princesa. – Ele disse, sua voz grave pronunciou. – Sua vez. – Falou, entregando o canudo para ela. Na mesma hora, o pegou, meio incerta daquilo. Ela pousou o canudo em uma de suas narinas e apertou a outra, posicionou o canudo na fileira e antes de sugar, escutou mais uma vez aquela tão conhecida voz em sua cabeça.

“Eu vou te matar, sua estúpida. Vou te fazer sofrer, te fazer implorar para morrer, e no final você não vai ser capaz de tirar a própria vida, porque você não é o suficiente nem para isso. Por isso Samuel te trocou por Hayley, porque você nunca foi o suficiente e você sabe disso... Você nunca foi o suficiente.”


Ao escutar aquilo fechou os olhos com força e puxou o ar com força, fazendo o trajeto da fileira, nem dando tempo de nada, apontou para a última fileira e puxou o ar com rapidez. Olhou para cima com os olhos cheios de lágrimas, sentindo o pó queimando em seu nariz. O apertou com força e limpou as lágrimas que insistiam em cair.
- Vai com calma, princesa. – Ele disse em tom de surpresa e ao mesmo tempo zombeteiro. – Isso ai é forte, e você não é muito acostumada.
- Como você sabe disso? – Ela retrucou de forma antipática. E antes que ele pudesse responder, ela o repreendeu. – Só cala a boca e me dá mais disso ai. – Sua voz já estava ficando um pouco rouca, e ela o olhou sorrindo. Sorrindo de forma dopada, uma vez que não era nem um pouco acostumada com aquilo. Mas para ela, a sensação era boa e nova. E ela já estava cansada das velhas e mesmas sensações de melancolia que pairavam seus ombros. Naquele momento, estava se sentindo em paz, aquilo estava lhe dando um pouco de paz no meio da confusão que a vida dela se tornara. E era só aquilo que ela precisava no momento. Paz.
- A propósito, me chamo Thomas. – O garoto ao seu lado disse, sorrindo maroto para ela que sorriu de volta, mas um sorriso de falsa simpatia. Quando ele tinha amassado mais uma vez o comprimido, mal esperou que ele terminasse e já pousou o canudo em seu nariz e inspirou todo aquele pó. Sua cabeça tombou pra cima, ela fechou os olhos com força, sentindo todo o seu nariz queimar e uma sensação estranha se espalhando por todo o seu corpo. Ela sorriu gostando daquilo, abaixou a cabeça e olhou para Thomas, que a observava.
- . – Respondeu a ele.
- Um prazer te conhecer, princesa. – Ele disse rindo e já preparando mais uma vez o comprimido, enquanto olhava para cima, entretida demais com alguma coisa no teto.

***


Ao chegar em casa e notar o silêncio que o local emanava, olhou para o relógio em seu pulso e constatou ser sete da noite. Quando sua irmã mandou a mensagem era antes do meio dia, ela deveria estar há um bom tempo em casa. John suspirou cansado, tendo a certeza de que já estaria dormindo. Foi em direção ao seu quarto, parando de frente ao espelho e olhando seu reflexo de lá. Ele tinha a aparência de quem estava exausto, de quem não dormia bem há dias. E de certo era isso que estava acontecendo com ele. Respirou fundo, tirando sua roupa e indo para o banheiro, tudo o que ele precisava agora era de um banho e depois ver com sua irmã estava.

havia acabado de sair do taxi e estava indo em direção ao prédio, ela não fazia ideia de que horas eram, mas ao constar pelo céu escuro, já era alguma hora da noite, mas ela não se importava. Passou pela portaria, onde fez questão de ignorar o porteiro que a olhava com pena, era só isso que ela sentia quando os outros a observavam: pena.
Estava cansada de todos sentirem pena dela, ela estava bem, ela só queria morrer.
Entrou no elevador e apertou o botão indicando o décimo andar, não estava com muita vontade de ir para casa, preferia ficar com Thomas, se drogando. Mas sabia que se não voltasse para casa, seu irmão iria ficar preocupado e acabaria chamando até a policia. revirou os olhos com a possibilidade do pensamento se tornar real. Adentrou sua casa com muito cuidado para não fazer nenhum barulho, pois percebeu que seu irmão estava em casa, mais precisamente, em seu quarto. ainda estava sob efeitos das drogas, e estava sentindo muita fome no momento. Rumou para a cozinha e abriu a geladeira, retirando de lá uma lasanha congelada, onde a mesma colocou no micro-ondas. Sentou-se na bancada de pedra a sua frente e abaixou a cabeça, tentando em vão não pensar no que tinha acontecido. Sua mente trabalhava de forma rápida, de modo que ela não sabia o que pensava direito, apenas sentia-se enjoada, com náuseas, prestes a vomitar.

“Garota estúpida, eu mandei você não se drogar. Você é uma estúpida, , por isso ninguém liga pra você. Ninguém sentirá sua falta. Sua vadia!”

Depois de ouvir aquilo, a pontada em seu estômago foi forte. Uma dor jamais sentida por ela, como se alguém tivesse lhe dado um murro no local. pôs seu corpo para frente, fazendo pressão sobre o local recém dolorido, e vomitou ali mesmo. Suas pernas fracas cederam no mesmo momento em que o pouco em que ela havia ingerido fora posto para fora. Agora ela estava de joelhos, tanto sua boca, quanto o chão e sua própria roupa estavam sujos. Ela respirou fundo e com as costas da mão limpou o local.
Assim que o micro-ondas apitou, fazendo seu usual som, John percebeu que tinha alguém em sua cozinha. Saiu de seu quarto e passou pelo da sua irmã, abriu a porta e percebeu que a mesma não estava lá, e como sua cama ainda estava arrumada, bem como estava quando ele terminou de arrumá-la, o mesmo constatou que sequer tinha chegado a entrar naquele quarto por horas a fio. Curioso e intrigado com aquilo, foi para a cozinha e lá encontrou sua irmã deitada no chão da cozinha, ela respirava de forma rápida, como se o ar não quisesse ficar em seus fracos pulmões. Ela estava em cima de uma poça de vomito, com as mãos trêmulas em cima de seu estômago. Ao notar aquilo John correu em direção ao corpo fraco da sua irmã, abaixando-se ao lado dela e colocando sua cabeça em cima de suas pernas.
- ! – A chamou preocupado. – , fale comigo. O que aconteceu? – Ao perguntar aquilo, já era tarde demais, havia desmaiado. Estava fraca demais para qualquer coisa, e a droga que ela usou, só a enfraqueceu mais. John não tinha ideia do que fazer, estava desesperado com tudo aquilo, limpou as lágrimas que teimaram em cair de seus olhos e com as mãos tremulas pegou o celular, ligando para .
- ! , por favor, eu preciso de ajuda! – Mal esperou o psicólogo atender, e já foi soltando tudo.
- John, o que está acontecendo? – perguntou, preocupado com o tom da voz do mesmo.
- É a ! – Sua voz denunciava desespero.
- O que aconteceu com ela? – Agora ele estava preocupado também.
- Não sei, ! Ela não estava em casa a tarde inteira, acho que chegou agora a pouco e a encontrei desmaiada na cozinha. – Ele explicava de forma rápida e afobada.
- Eu estou saindo do meu escritório agora. Fique calmo. Já estou chegando ai. – tentava passar calma para John do outro lado da linha, mas era impossível, uma vez que nem ele estaria calmo depois do que soubera.

Mesmo depois de ter desligado, John ainda estava com o telefone em seu ouvido, atônico demais com toda a situação, ele não sabia como reagir aquela situação. Ele tirou a cabeça da irmã de sua perna e a pousou cuidadosamente no chão. John pegou um pano e limpou o vomito do local, limpou também da sua irmã, e ao constar que tudo estava limpo, ele novamente voltou a colocar em seus braços, com um pouco mais de força, levantou seu peso com o da sua irmã e a colocou deitada no sofá. Ele não sabia o que tinha, e estava apavorado com isso. Depois de alguns infinitos minutos, o interfone do prédio tocou, com o porteiro informando que tinha um homem exigindo subir, dizendo que John sabia quem era. E realmente, ao escutar aquilo ele disse para o porteiro o deixar subir.
- Graças a Deus você chegou! – Pronunciou quando viu entrando em seu apartamento. – Ela estava caída no chão da cozinha e tinha vomito por toda parte. Eu a coloquei no sofá e limpei tudo, ela está ali! – John não deixava o psicólogo falar, ele apenas tagarelava de forma desesperada, enquanto andava de um lado para o outro.
- John, se acalme! – Fora a única coisa que disse, e foi em direção a que ainda estava inconsciente no sofá. – Você disse que ela não tinha passado a tarde em casa... – Ele falava enquanto sentia a pulsação de : fraca. – Ela não estava na escola?
- Eu não sei onde ela estava! – Ele afirmou cansado. – Ela me mandou uma mensagem antes do meio dia, dizendo que não estava se sentindo bem, e que queria vir para casa. Eu disse para ela pegar um taxi e vir, mas quando eu cheguei a casa estava silenciosa, achei que ela estava dormindo. Só que o quarto dela estava do mesmo jeito que eu deixei quando saímos, foi quando escutei o barulho e vim aqui, onde a encontrei desse jeito. – John explicava olhando para sua irmã.
- Você não tem ideia de onde ela podia ter estado? – perguntou enquanto as costas da sua mão tocava na testa da pequena . olhou para o homem a sua frente que negou veemente com a cabeça.




Capítulo 8



pedira para John pegar um pouco de álcool e algodão, e assim que ele o trouxe molhou o liquido na superfície fofa e o colocou em cima do nariz da pequena , que continuava inconsciente. Ele estava preocupado com o estado em que a garota se encontrava, mas não podia demonstrar isso, uma vez que John estava nervoso pelos dois. A pulsação de continuava fraca e ele não sabia o que fazer, mas aos poucos a viu recobrar a consciência, relutando contra o cheiro forte do álcool que o mesmo continuava passando embaixo do seu nariz. A pequena recobrou total consciência como um baque, e pulou do sofá, com medo do que estava acontecendo.
- ! – John exclamou assim que a viu sentada. – , você está bem? – Ele perguntava preocupado, enquanto corria em direção da menina e a inspecionava, procurando em vão algum machucado. Durante o tempo em que seu irmão conferia se tudo estava bem com ela, não tirara os olhos do de desde que notara sua presença. Era desconfortável para ela tê-lo ali, observando tudo aquilo, como se fosse da família. – ! – John voltou a chamá-la, dessa vez tocando seus braços para ter sua atenção, que logo em seguida obteve.
- Hum. – Ela apenas murmurou, incapaz de dizer qualquer outra coisa. Sua garganta estava seca e com um gosto amargo. – O que ele está fazendo aqui? – Sua fraca voz proferiu ao mesmo tempo em que novamente olhava para . Fora a única questão que estava passando por sua cabeça e que conseguira pronunciar. Por outro lado, ele também a olhava, a olhava com curiosidade de um profissional. Seu olhar penetrava no da garota de uma forma nada confortável para ela. Era como se ele soubesse exatamente o que ela tinha feito e as consequências que haviam acontecido. A diferença era que não ligava, ela só não queria que mais ninguém se intrometesse em sua vida e a deixasse em paz.
- Estou aqui porque seu irmão me chamou, . – pronunciou de forma calma, como se há segundos atrás a garota não estivesse desmaiada.
- , o que aconteceu com você? Onde você estava? – John disparou as perguntas rapidamente. observava atento as ações da menina, e pode perceber que olhava para o irmão de maneira... Tediosa.
- Eu estava com um amigo, John. – Ela deu de ombros, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Seu irmão a encarava estático, aquela com certeza não era a resposta que ele estava esperando. A menor levantou-se do sofá e foi em direção a cozinha, onde tirou um prato, abriu o micro-ondas, retirou uma lasanha de lá e logo pôs-se a comer, ignorando totalmente tanto a presença do seu psicólogo, quanto a do seu irmão. olhou para John que ainda estava estático, e depois de alguns segundos ele pareceu voltar a si, com uma expressão de raiva. Fez o mesmo caminho que havia feito com ao seu encalço.
- Com um “amigo”? – Ele repetiu a última palavra, com a voz um pouco alterada. – Que amigo, ? – Novamente perguntou, olhando para a mesma que rebatia o olhar com descaso e indiferença. – , estou falando com você! – Ele gritou e bateu a mão na mesa, causando um barulho alto. A garota a sua frente se assustou com a repentina atitude do irmão que sempre fora tão calmo e compreensivo com a mesma.
- John, me deixe falar com ela. – Dr. proferiu no mesmo tempo em que colocava a mão no ombro do homem a sua frente, numa falha tentativa de acalmá-lo. Exausto de toda aquela situação que não poderia controlar, John suspirou, se dando por vencido. Olhou mais uma vez para sua irmã, que também o olhava, porém seu olhar continuava assustado, e seguiu para a sala, deixando e sozinhos naquela cozinha. – Você está se sentido bem? – perguntou, sentando na cadeira de frente para ela. Ele colocou as mãos sobre a mesa e juntou suas mãos.
- Eu nunca o vi tão irritado comigo. – murmurou incerta, ignorando completamente a pergunta do homem a sua frente. Havia um nó em sua garganta impedindo a passagem de qualquer coisa.
- Ele não fez por mal, . – disse e respirou fundo. – Ele só está assustado com o que vivenciou. – A menina concordou com a cabeça de forma automática e continuou olhando para o lugar onde seu irmão estava minutos atrás. – Agora... – falou, chamando sua atenção. – Me diga, você está se sentindo bem?
- Sim. – Ela mentiu olhando-o e pode ver quando Dr. revirou os olhos.
- Onde você estava? – Mesmo sabendo que ela poderia mentir como anteriormente, voltou a perguntar. Queria passar a a sensação de que ela poderia confiar nele, que ele só queria ajudá-la.
- Eu já disse. Estava com um amigo. – novamente repetiu o que havia dito a seu irmão. bufou, mesmo começando a ficar impaciente o médico respirou fundo e continuou a conversar com a pequena .
- , por favor. – Suplicou de forma impaciente. – Estou tentando te ajudar. Seu irmão estava aos prantos quando eu cheguei. Só estou pedindo que me diga onde esteve. – Ao proferir aquilo, a garota se deu por vencida, vendo que se continuasse enrolando, eles iriam continuar ali a noite inteira.
- Estava na casa do Thomas, meu amigo. – Respondeu, olhando para a lasanha em seu prato enquanto mexia com o garfo em cima do mesmo, já não estava com tanta fome como a que estava quando chegara em casa. Entretanto, forçou-se a comer, com tantos problemas que o psicólogo a frente sabia que ela tinha, não podia dar mole e ele alistar anorexia a lista. continuou olhando para a menina que comia forçadamente, ele esperava mais alguma resposta dela, como onde esse garoto com quem ela estava morava, por exemplo, mas ao ver que ela não falaria mais nada, suspirou cansado.
- Descanse um pouco, . – Disse quando a garota terminou de comer. – Preciso falar com seu irmão. – Ela assentiu sem nada a acrescentar. Os dois caminharam lado a lado até a sala onde John estava sentado no sofá, com os cotovelos escorados em suas pernas, e com a cabeça baixa, enquanto suas mãos puxavam seus cabelos. Ao notar a presença de pessoas ali, ele levantou na mesma hora. o olhou com angustia e seguiu para o quarto, ao mesmo tempo em que sentava novamente no sofá, o chamando para uma conversa.

entrou no seu quarto sentindo o peso do mundo em suas costas, o estado em que seu irmão estava quando entrou na sala era deplorável. E fora ela que fizera isso com ele. Por Deus! Ela era tão estúpida a esse ponto? Fechou a porta de seu quarto e se escorou na mesma, não tinha forças para aguentar seu peso. Ao chegar ao chão lágrimas já invadiam seus olhos, o nó em sua garganta havia voltado e ela só queria gritar! Gritar porque estava frustrada com tudo aquilo, porque sempre era um empecilho na vida de seu irmão e das pessoas ao seu redor! Porém sabia que não podia fazê-lo agora, uma vez que poderia preocupar mais seu irmão e seu (não) querido psicólogo. Sentiu seu estômago embrulhar com o alimento que ela acabara de por no mesmo. Estava cansada e sua cabeça começara a doer, com toda certeza o efeito do remédio tinha completamente acabado. Foi então que mais uma vez, ela escutou a voz em sua cabeça.

“Você sabe que merece ser castigada, não é mesmo?”

afirmou com a cabeça, umas poucas lágrimas caindo por seus olhos cansados.
- Eu sei que mereço ser castigada. – Repetiu o que havia escutado em sua mente.

“Levante-se, escrúpulo!”

Aquela voz agora gritava em sua mente! Obedientemente ela levantou-se.

“Vá ao banheiro.”

Sem pensar duas vezes ela foi, olhou-se no espelho e seu reflexo não a agradava. Ela via apenas um reflexo de uma pessoa que já vivera, e que hoje apenas existia. Seus olhos estavam fundos e com enormes roxos ao redor, sua pele abatida, sua boca ressecada, notara também o quão magra estava ficando. Doente. Esse era o aspecto que sua aparência transparecia.

“Você é doente, sua imbecil”

Riu com a voz em sua cabeça, já não se importando com o que parecia. Ela estava finalmente aceitando sua loucura.

“Ajoelhe-se de frente ao vaso”

Assim que aquela rancorosa voz soou em sua mente, ela fez exatamente o mandado.

“Abra a tampa do vaso”

Ela abriu.

“Você sabe que merece ser castigada.”

Aquela voz repetiu a mesma frase e a menina afirmou com a cabeça.

“John não aguenta mais sua presença, . Seu psicólogo, que é pago para te aturar, não te suporta. Hayley está fodendo com Samuel que não dá a mínima pra você, e agora você é uma drogadinha de merda.”

- John não aguenta mais minha presença. – Ela repetiu o que escutara, com uma dor enorme no coração, que estava se alastrando cada vez mais por seu corpo. – Meu psicólogo não me suporta. – A cada frase repetida, ficava mais difícil falar, uma vez que seu choro a impedia. – Hayley está fodendo com Samuel que não dá a mínima pra mim, e agora eu sou uma drogadinha de merda. – Suas palavras saiam de forma abafada, pois suas mãos estavam tampando sua boca, na inútil tentativa de conter o barulho. – Eu sei que mereço ser castigada. – Falou, olhando para cima. Quem olhasse a cena de fora, choraria junto com a menina. Estava tão na cara o quanto estava perdida e como sua mente (que aos poucos começava a ficar insana) brincava com ela. – Por favor, me castigue! – Implorou com os olhos fortemente fechados. E o que veio a seguir não foi nem um pouco confortável para ela. Sua barriga se contraiu a medida que seu estômago fazia força contraria aquela em que o alimento fizera. Novamente estava vomitando, colocando tudo para fora até não sobrar mais nada. E quando acabou, ainda forçou-se a vomitar mais e como não tinha absolutamente nada, a única coisa que saíra de sua boca fora bile. Deitou-se amargamente no chão e abraçou seu corpo que agora estava em posição fetal. – Eu sei que mereço ser castigada, por favor, me castigue. – Repetia baixinho enquanto chorava e entregava-se a insanidade que sua mente havia se tornado.

***


descia de seu carro com a cabeça meio perturbada com o que vira na casa de sua mais nova paciente. Pelo pouco que ele observava , pode perceber o quão perdida a menina aparentava estar. E aquilo claramente atrasaria qualquer chance de melhora, visto que tudo dependia apenas dela. teria que querer melhorar para que de fato isso acontecesse. pensava que aquele seria apenas mais um caso de uma adolescente revoltada que queria chamar atenção de seus pais, mas existia alguma coisa naquela garota em especifico que ele não conseguia decifrar, e era isso que lá no fundo o amedrontava. Ele sempre fora bom em ler as pessoas, orgulhava-se de seu trabalho justamente por conta disso, consequentemente quando não o conseguia, afundava-se intensamente no paciente até que de um modo ou de outro, pudesse entender o que se passava na mente da pessoa em questão. Para , a mente humana era uma coisa engraçada, que pregava peças, um local que hora estava alegre, outra sombrio. Ele nunca ousou desafiar a capacidade de alguém que não estava em sua sã consciência, pois sabia que as consequências poderiam ser inimagináveis.
Colocou a chave na porta e a girou, destravando a mesma. Entrou em casa exausto do dia trabalhoso que teve, e para completar ainda teve que fazer uma visita a domicilio na casa de John. Não que isso fosse problema, pois o mesmo deixou claro que ele pagaria o que fosse preciso para ter sua irmã de volta. suspirou aliviado quando o irmão pediu para que ele a trouxesse sua irmã de volta, e não chegasse lá pedindo para que ele a consertasse... Sim, ainda existiam pessoas que iam até seu escritório procurando ajuda para consertar parentes, amigos, maridos, filhos, esposas. No ponto de vista de aquelas pessoas nunca estariam aptas para ajudar ninguém, pois a cabeça humana não era um brinquedo que dava defeito e ele tinha a obrigação de ajeitar. Era tudo mais complexo que isso! Era sempre um quebra cabeças, e ele tinha que está ciente de que não poderia se envolver nos problemas dos pacientes, ou que deveria ter a capacidade de chegar em casa e não pensar no trabalho, pois isso interferia sua vida pessoal. Todavia, isso nunca acontecia com Dr. .
Após tomar seu banho, ele pôs-se a fazer anotações com base no comportamento de : seu comportamento estranho, sua cara de desdém, a culpa repentina; era tudo complexo demais, como tentar montar um quebra cabeças sem olhar a caixa para ter um exemplo de como ele seria. Sim, era mais complicado desse jeito, mas não seria coisa impossível. Ele daria um jeito de fazer enxergar isso.
Minutos se passaram e ele continuou de frente ao seu notebook com um copo de uísque em sua mão, precisava urgentemente dormir, tinha uma viagem de negócios a Bolton no dia seguinte e não poderia se dar ao luxo de faltar. Até desmarcara a sessão de do dia seguinte, com a promessa de atendê-la assim que voltasse da viagem. Levantou-se da poltrona fechando o aparelho a sua frente. Respirou fundo e foi até seu escritório, começou a mexer em uma das gavetas da escrivaninha e de lá tirou uma pasta enorme. Eram documentos. Abriu aquela pasta receoso e prendeu a respiração ao ver a foto de Sophi. Ali estavam todos os documentos sobre a morte da mulher, junto também com várias cartas e poemas que ela sempre escrevia para ele. já tinha lágrimas em seus olhos e não lutou para que elas não caíssem. Pegou a garrafa de uísque e bebeu da boca, sentindo o líquido descendo e queimando tudo dentro de si. Encostou-se na estante cheia de livros ali e continuou olhando todos os documentos ali presentes como sempre fazia quando sentia saudades da sua amada. Não se dera conta de que o uísque estava menos que a metade pois sua visão estava turva e a mente em outro lugar, mas ele ainda continuava centrado naqueles papeis, ainda estava centrado em Sophi. Foi então que ele pegou um laudo existente ali há tempos, mas que ele sempre o ignorava, porém ele estava gritado para ser lido e mesmo com dificuldades o leu. Era o laudo de um psiquiatra/psicólogo que Sophi ia escondido, pois não sabia mais como lidar com tamanha dor que sentia. Ele leu aquele pedaço de papel atentamente e prestou bastante atenção na discrição que o médico dizia sobre sua Sophi.
Tudo desenrolou-se de forma muito rápida, ao ler aquilo lembrava vagamente do que escrevera para o laudo de ! Ele deu um pulo de onde estava e foi procurar o mesmo, achando-o minutos depois. O álcool em seu sistema não ajudava muito nessa questão, contudo não deixou de procurá-lo. Voltou ao seu escritório e colocou os dois papéis lado a lado, circulando o que cada caso tinha em comum e riscando os diferentes. Era isso! Para era quase noventa por cento Sophi ali.
Uma segunda chance de salvá-la.
- Eu vou te salvar, ! – Pronunciou enquanto bebia o último gole do uísque. – Eu vou te salvar! – Gritou! – Sophi, eu vou te salvar! – Balbuciou sonolento pelos efeitos a longo prazo do álcool. Não se importando em arrumar toda a bagunça que fizera, levantou-se e com muita dificuldade fora para seu quarto, onde jogou-se na sua cama e nem se passando um minuto, já havia caído no sono.




Capítulo 9



Dias se passaram desde que se entregara completamente ao deslumbre de sua mente quase insana. A voz em sua cabeça estava ficando cada vez mais alta e, consequentemente, frequente também. Ela não sabia mais distinguir exatamente o que era real e o que sua mente inventava. Estava ficando cada vez mais difícil para qualquer pessoa chegar até ela. não se abria com ninguém, havia se prendido em um casulo de dor e drogas. Sim, ela continuara se drogando. Cada dia um pouco mais, ela já estava ficando dependente. Vez ou outra saia de casa com a desculpa de que iria ver uma colega, logicamente John permitia pois acreditava na falsa melhora da irmã.
Claro que, para , não havia melhorado nenhum pouco. Nas consultas, ela ficava envolta a uma aura estranha, olhando para o relógio de segundo em segundo. Seu comportamento já não era mais o mesmo, não que o de antes fosse melhor, entretanto, a pequena estava instável, qualquer coisa já a fazia explodir em raiva. não queria admitir para John, mas ele estava preocupado. Preocupado, pois as semanas seguintes não foram exatamente como ele havia esperado e nem as melhores, havia sim voltado a escola, entretanto, não aconteceu nada do que ele imaginava, ela tinha piorado depois daquilo e ele não sabia mais o que fazer. Suspirou com a frustração eminente em seu semblante, aquele dia tinha sido exaustivo e ele ainda teria a última consulta da noite com . Era pouco mais das seis da noite quando Jenny avisou que John e a menina chegaram, sendo logo autorizada a entrada da mesma pelo doutor.
- Boa noite, . – Ele saudou assim que viu a menina entrar em seu escritório. Ela apenas sorriu sem lhe mostrar os dentes e sentou na poltrona como de costume. respirou fundo e passou as mãos em seus cabelos que estavam visivelmente mais bagunçados que o normal. o olhava com desinteresse, ela estava cansada. – Bom, , como foi hoje? – Fez a mesma pergunta que fazia quase todos os dias para ela, e já estava até imaginando a resposta. Que era sempre a mesma, como se ensaiado.
- Foi bem, obrigada. Desenhei um castelo de princesas, com um príncipe. Minha vida realmente tem melhorado bastante, Dr. – Respondeu-lhe num falso sorriso. revirou os olhos, visivelmente cansado com tudo aquilo.
- Pode ir embora, . – Disse de repente. Ela o olhou sem entender. – Preciso repetir? Desenhar? – Estava jogando verde com a garota, claro que não iria mandá-la embora assim, não havia terminado com ela ainda. Mas gostaria de saber como ela reagiria com uma rejeição. – Vá embora, garota! – Aumentou o tom de voz, vendo-a franzir o cenho.
- Não estou aqui nem há dois minutos, Dr. – Disse receosa. Por dentro sentiu um alívio ao ver que estava dando certo. Lembrava que, quando Sophi era viva ela odiava rejeições. Ela já tinha dito a ele que era como se você quisesse se punir por isso, como se mesmo você não querendo estar ali, inconscientemente e ao mesmo tempo, você queria.
- Não quero saber quantos minutos você está aqui. – Declarou com desdém. – Quero que saia do meu escritório. Agora! – Pronunciou em alto e bom som. Mesmo sem entender o que diabos estava acontecendo ali, a menina levantou e quando virou de costas em direção a porta do local, escutou mais uma vez a voz do seu médico e gelou ao entender o que aquilo queria dizer. – Não serei mais seu psicólogo, . Acabamos por aqui. – Na mesma hora em que pronunciou isso com um sorriso de lado, pôde perceber que a menina parou de andar e ficou ali, parada. estava orgulhoso de como estava manipulando aquela garota, não se importando em como o faria, mas iria sim colaborar com ele.
respirou fundo de olhos fechados ao escutar aquilo. Seu coração batia rápido em seu peito e ela não sabia o que aquilo significava. Afinal, não era isso que ela realmente queria? Se livrar do psicólogo? Então por que será que ao escutar aquilo fora como se seu coração parasse por um segundo e agora voltasse a bater de forma dolorida?

“Menina tola. Acho que ele não te suporta mais, . Ninguém te suporta mais.”

Ao escutar aquilo, ela girou os pés de forma rápida, ficando de frente ao Dr. que lhe encarava com o olhar sério... Desafiador.
- Por que está me dizendo isso? – Perguntou com a voz um tanto quanto fraca. estava orgulhoso daquela reação.
- Eu não quero mais você aqui. – Falou, dando de ombros. – Você não quer estar aqui. Estou te fazendo um favor.
- Você não suporta mais estar comigo? – Sua voz agora estava mais confiante, o que contradizia a todas as suas ações. estava de braços cruzados e tinha uma de suas mãos na boca enquanto andava de um lado para o outro. – Você não me suporta mais? – Pronunciou mais uma vez. apenas a observava e fazia anotações em sua mente. Aquele comportamento não era nada saudável. – RESPONDE! – Foi tirado de seus pensamentos ao notar que ela tinha gritado e o quão perto estava de seu corpo.
- , se acalme. – Disse calmamente. Mas nada parecia acalma-la, pois no mesmo momento começara a estapear o homem a sua frente que não sabia como reagir aquilo. Visivelmente assustado com a atitude da menina, pegou por seus braços, tentando contê-la.
- VOCÊ É UM IDIOTA! –Gritou, absorta demais em sua raiva. – SEU INÚTIL. EU TE ODEIO! – Gritava enquanto ele a segurava. Por ser mais forte e alto que ela, logo conseguiu controlar a garota a sua frente, que vez ou outra debatia-se na falha tentativa de se soltar.
- , por Deus! – Sua respiração ofegante denunciava o tamanho do esforço que o homem estava fazendo. – Se controle, ! – Sim, sabia o que a rejeição poderia causar a ela, mas não conseguiu conter o instinto prepotente em si. ainda se debatia em seus braços, cada vez mais cansada de tais esforços.

“Escrúpulo, pare de se debater!”

Assim que escutou aquilo, parou. Aprendera de uma vez por todas que, se obedecesse aquela voz, sua dor não seria tão grande e sua morte mais rápida. ainda a segurava enquanto ofegava por oxigênio. Vendo que realmente a menina parara de debater-se, aos poucos ele foi soltando seus braços até que estivesse completamente solta.
Seus pulsos estavam doloridos pela força que o homem colocara, seu corpo inteiro formigava em combustão e ela não sabia o que fazer com tanta adrenalina circulando em sua corrente sanguínea.

“Por que você voltou, idiota? O inútil do Dr. disse que não cuidaria mais de você, era só ir embora e estava tudo certo! Você é um ser desprezível. Está na hora de você castigar seu irmão,

De costas para o médico, sua expressão foi de puro horror ao entender o que aquilo significaria. Não! De jeito nenhum ela faria mal ao seu irmão. Pôs as mãos segurando fortemente a cabeça, não aguentando o peso que a mesma estava se tornando.
- Você enlouqueceu? – Balbuciou para si mesma. – Não! Eu não vou fazer isso com ele, tá me ouvindo? – Dizia de forma desesperada. Preocupado com aquilo, a observava atentamente, querendo saber com quem ela estava falando. Aproximou-se um pouco da mesma e notou que ela olhava para o nada enquanto falava.

“Você vai pegar uma faca e quando seu irmão dormir vai cravá-la em seu peito. Você já foi responsável pela morte dos seus pais. Mate seu irmão também.”

riu em desespero e começou a bater freneticamente em sua cabeça. Tinha noção de que ainda estava dentro daquele consultório, mas não se importava. A única coisa importante para ela no momento era não deixar aquela voz lhe convencer de fazer aquilo com seu irmão.
- . – a chamou preocupado, dando a volta e ficando de frente para ela. – , pare. Está se machucando. – Seu cenho estava franzindo olhando as reações da menina. Tocou suas mãos tremulas e novamente as segurou. – , pare. – Sua voz estava calma novamente, o que a instigava a acalmar-se também, entretanto aquilo não seria o suficiente para que acontecesse. Desespero era a única coisa que a menina conseguia sentir. começara a se arrepender de ter dito aquelas coisas a menina, pois sabia que fora as suas palavras que desencadearam tais acontecimentos. Ele tentava a todo custo que parasse de se estapear, porém, quando viu que falava com ela e parecia que a mesma não escutava, ele novamente segurou suas mãos, dessa vez com delicadeza, como se ela fosse feita de porcelana: frágil e quebradiça.
Respirou fundo, percebendo que mesmo que a garota tivesse cessado os movimentos, seus olhos ainda estavam confusos e desnorteados. Perdidos numa tempestade sem fim. Ele puxou a menina e a fez sentar mais uma vez na poltrona, logo ajoelhou-se de frente para ela com sua expressão séria e observadora.
- Tudo bem em me achar louca, Dr. – Ela pronunciou aquilo sorrindo e isso fez com que ele cerrasse os olhos. – Eu também acho. – Assumiu. Todo aquele comportamento era idêntico ao que Sophi tivera semanas antes de se matar, reconhecia aquele olhar perdido em meio há uma tempestade, pois já estivera preso nela. Fechou os olhos com força, vendo a personificação de sua falecida namorada a sua frente.
- Você não é louca, Sophi. – Disse de forma rápida.
- Sophi? – perguntou confusa e então percebeu o que havia dito. Arregalou um pouco os olhos com tamanha incerteza de como agir.
- Desculpe, confundi os nomes. – Sua insegurança ficara eminente. – , você não é louca. – Tentando controlar novamente a situação, ele voltou a falar. Mesmo ficando curiosa para saber quem era Sophi e o que fizera o homem a frente confundir dois nomes completamente distintos, ela continuou calada, quieta, ouvindo apenas o barulho da confusão que sua cabeça se tornara.
- Não? – Perguntou de forma irônica. – Bom, então você é o único que acha isso. – Riu da frase que acabara de falar, e foi então que lembrou que segundos atrás o homem havia lhe colocado para fora de sua sala. – Eu sei... – Pronunciou de forma incerta ao mesmo tempo que a fitava. - Eu sei que estou perdendo a cabeça. Eu já aceitei isso, deveria fazer o mesmo, Dr. – Admitiu de forma brincalhona e triste ao mesmo tempo. Levantou-se da poltrona e foi em direção a porta onde saiu sem nem mesmo olhar para trás, deixando um absorto demais em seus pensamentos para contrariar qualquer ação. Sua cabeça ainda estava em Sophi e em como ele não percebera seus problemas antes, pois, estando ali com era possível notar que eles existiam e que estavam estampados na cara da mesma. Ele nunca notara nenhum comportamento desses em sua falecida amada, a não ser pela rejeição. Esse era o único comportamento compulsivo e agressivo que ela tinha. Sophi não suportava ser rejeitada por nada e nem ninguém, e se tornava uma completa estranha quando isso acontecia.
Levantou-se e pegou o telefone da sala, ligando para o ramal de Jenny. Mandou-a avisar a John que a próxima consulta de seria há uma semana. Sim, ele sabia os riscos, mas tivera que cancelar as outras quatros sessões da semana com a garota alegando a si mesmo que poderia não estar mais apto a ajudá-la por hora. Pegou as folhas que separara da paciente em questão e começara a escrever tudo o que acharia importante a partir de agora. Todo o comportamento e as falas de seriam anotados e ele começaria a gravar suas consultas com ela a fim de estudá-la melhor.

“Comportamento agressivo compulsivo por rejeição. Pelo que pude notar, a paciente mesmo não querendo estar mais aqui comigo apresentou um comportamento completamente destrutivo quando fiz menção de não ser mais seu psicólogo. A paciente teve um surto e começou a me bater como se isso fosse me punir e me fazer mudar de ideia. Seu comportamento destrutivo é instável, hora ou outra começa a discutir sozinha, como se escutasse uma voz que mais ninguém escuta. Típico de depressão nervosa, a paciente deverá sessar todos os tipos de medicamentos usados pela mesma para conseguir dormir, pois isso pode estar causando a instabilidade emocional.”

continuava a anotar coisas sobre sua paciente. Mesmo cansado ele não iria parar agora, precisaria chegar num consenso onde ele e sairiam ganhando.

***


Ao notar que sua irmã havia saído mais cedo de sua consulta, John ficou intrigado com o que tinha acontecido. Percebeu que sua irmã também estava mais agitada que o costume, ela passou direto por ele e foi para o carro. John suspirou e levantou-se, indo em direção a saída e ao passar pela simpática secretaria Jenny, ela o chamou.
- Sr. , o Dr. mandou lhe avisar que as quatro consultas de essa semana estão canceladas. Ele só a atenderá daqui oito dias.
- Ele disse o motivo disso, Jenny? – Perguntou curioso. A mesma negou com a cabeça e nada podendo fazer, John seguiu em direção ao seu carro, esperando obter respostas da sua irmã.
- Dr. cancelou suas consultas dessa semana. – Comentou colocando o cinto. – Pode me dizer o que diabos aconteceu lá dentro? – Perguntou direto, olhando a irmã que mexia no celular. – , ouvi gritos vindo de lá. – Confessou preocupado.
- Está tudo bem, John. Não tem com o que se preocupar. – Disse de forma automática e como seu irmão prestava bastante atenção no que ela dizia, percebeu que essa era sua resposta para tudo nos últimos dias. – Você pode me deixar na casa da Liza? – Perguntou de forma angelical. – Tenho um trabalho da escola e mesmo não gostando, já que estou lá, fazer o quê? – Disse, dando de ombros. Não existia Liza nenhuma ou trabalho nenhum, a pequena inventara essa desculpa para que pudesse sair sem preocupar o irmão sempre que quisesse. Ele seguiu o caminho que a menina indicara uns dias atrás e a deixou na frente de uma casa bem iluminada. Antes de descer, o olhou e falou. – Não sei se vai dar tempo terminar tudo hoje, posso dormir aqui?
- , não sei não. Eu ainda não sei se você está boa o bastante para dormir na casa de alguém. – John disse sincero. bufou com o comentário do irmão.
- Você diz que é para eu sair de casa e fazer amigos, e quando eu os faço você vem com isso de “você não está boa o bastante.”. Eu estou tentando, John. – Disse num falso drama. John suspirou cansado e admitindo que sua irmã estava certa.
- Tudo bem, . Mas por favor, tome cuidado. – Suspirou, dando um beijo no topo de sua cabeça. Sim, acabara de manipular seu irmão.

Sorriu para si ao perceber o quão boa estava ficando naquilo. Viu o carro de seu irmão virar na esquina e desaparecer rua a fora. Ela virou-se, ficando mais uma vez de frente a casa e caminhou até a porta, tocou a campainha e uma garota atendeu. Sorriu amarelo para a menina que a deixou entrar sem problemas. subiu as escadas e foi para um quarto já conhecido por ela pelas várias vezes em que ficara ali.
- Achei que você não viria mais, princesa. – A voz de Thomas soou quando viu passar pela porta, fechando a mesma em seguida.
- Tive uns problemas com meu irmão. – Falou de forma irônica para o jovem ao seu lado. – Você pegou algo novo? – Ela perguntou, olhando para ele enquanto tirava seus sapatos e seu casaco, deitando de qualquer forma na cama.
- Acabou de chegar. – Thomas respondeu rindo. Ele olhava para ela de forma promiscua, mas nem se importava. Mostrou a menina a sua frente um pacote cheio de remédios e outro cheio de pó branco, levantou da cama e fora pegar um dos saquinhos, mas Thomas tirou rapidamente sua mão de vista. – An, na – Fez um sonoro barulho de "não" com a boca e a menina o olhou sem entender. – Isso custa muito sabia, princesa? – Perguntou retoricamente enquanto andava pelo quarto, parando na porta do banheiro. – O que eu ganho em troca te dando minhas coisas? – Olhou maliciosamente para que, como num estalar de dedos, entendeu completamente o recado. Levantou da cama e tirou de seu casaco um bolinho de dinheiro, jogando o mesmo para o garoto em sua frente.
- Foi a única coisa que eu consegui encontrar na carteira do meu irmão. Deve ter umas quinhentas libras ai. – Novamente tentou pegar o saquinho e ele o tirou. – Mas que porra! – Irritada com os joguinhos, o olhou.
- O dinheiro cobre metade do pagamento, princesa. – Thomas voltou a falar. – A outra metade tem que vir de você. – Suas intenções já estavam a vista para a menina que rolou os olhos com a insinuação. Sem pensar duas vezes foi até o rapaz, o beijando rapidamente. Thomas sorriu durante o beijo enquanto suas mãos faziam o caminho até a blusa da garota, puxando o tecido para cima. Seria uma longa noite.




Capítulo 10



As cortinas balançavam de modo que faziam com que uma parte da claridade se chocasse em seu rosto. Abriu um dos olhos e olhou o local onde se encontrava. Estava deitada em uma cama não mais desconhecida e ao seu lado Thomas ainda dormia pesadamente. Tomou impulso e levantou, seu corpo demonstrava sinais de leves roxos por sua pele. Ainda sentia-se entorpecida pelos efeitos duradouros do que quer que fosse aquilo que havia ingerido a madrugada inteira. Analisou o quarto em que estava e viu o tamanho da bagunça que se encontrava ali, mas não se importou muito uma vez que não era da sua conta, pois seu quarto estaria do mesmo estado. Caminhou pesadamente em direção ao banheiro do local e chegando lá, lavou seu pálido rosto para em seguida observar-se sob aquele imenso espelho. Seu cabelo estava todo bagunçado e embaraçado, havia marcas roxas em sua barriga, peitos, pescoço e coxas, não fazia ideia de onde sua roupa tinha parado. Suspirou, parecendo realmente cansada e rolou os olhos, prendendo seu cabelo com um elástico que por acaso tinha encontrado. não sabia distinguir o que estava sentindo no momento, ela só sentia-se imunda. Suja de todos os modos possíveis. Ela havia mesmo feito sexo em troca de drogas?

“Sim! Sua vadia de merda. Você não vale o chão que pisa, sua estúpida.”

A reconhecida e frequente voz soou em sua mente. apenas piscou os olhos com mais força, pois mesmo tendo aceitado aquela situação em sua vida, a garota ainda não tinha se acostumado a aquilo. Beirava a loucura até para si, era impossível uma voz tão nítida soar assim em sua cabeça sem que ela se taxasse como louca ou esquizofrênica.

“Você é tão louca quanto acha que é, querida. Sempre fraca para qualquer influência, . Você sempre foi a vítima, chega a ser ridículo. Mas dessa vez, nenhum cavalheiro vai te salvar.”

Abaixou a tampa do vazo e sentou em cima do mesmo. Abaixou a cabeça e pôs suas mãos sobre seus cabelos. Tentava respirar fundo, porém, de alguma maneira, só ao soar daquela voz, ela já se apavorava. Não era como se ela nunca tivesse a ouvido, só que a cada vez a pequena tinha certeza de que seu irmão estava mais próximo de ir para o seu funeral. Pois ela sabia que era só questão de tempo até querer que tudo aquilo acabasse. Era apenas questão de tempo para que a pobre não aguentasse mais aquilo e se entregasse ao sono mais profundo e eterno.

“Ainda bem que sabe que seus dias estão contados, vadia!”

Seu corpo estremeceu ao escutar a risada fria e vazia que veio em seguida. Instantaneamente suas mãos tamparam seus ouvidos na falha tentativa de conter aquele barulho em sua mente. Estava ficando cada vez mais difícil pensar nitidamente com tamanha confusão entre seus pensamentos, as suas memórias também não estavam ajudando em nada. Várias foram as vezes em que a garota pegou-se lembrando de coisas do seu passado, coisas com Hayley e Samuel, pois foram eles que fizeram com que ela lembrasse do que tinha deixado para trás, e eram eles que não saiam de forma alguma de sua cabeça, como uma memória viva do quão inútil e patética ela era.
Livrou-se rapidamente da lingerie, sentindo cada vez mais nojo de si. Ligou o chuveiro a sua frente e esperou que a água que caísse pudesse lavar não só seu corpo, como também toda a sua alma. Antes de ficar embaixo do mesmo, em um ato masoquista desligou o aquecedor, permitindo-se entrar debaixo da mesma completamente gelada. Assim que o fez teve que conter um grito abafado pela baixa temperatura da água e respirou fundo, tentando continuar ali. Não era água que batia em sua pele, aquilo estava tão gelado que pareciam facas, ou melhor, milhões de navalhas afiadas penetrando todo o seu corpo e cortando sua alma cada vez mais escura. Porém não saiu, continuou parada no mesmo lugar tentando conter a súbita vontade de correr para o lado oposto. Seu cabelo virara uma massa lisa e fofa perante o cair da água, suas pequenas e já tremulas mãos abraçavam seu tronco numa investida de se aquecer um pouco. E era obvio que foi um total fracasso. Agora não só suas mãos, mas também todo o seu corpo tremia em busca de calor, entretanto, não o oferecia em forma de punição. Era apenas quando se punia que a voz em sua cabeça se dava por satisfeita e ficava calada, contida, até que fosse necessário outra punição. Sorriu enquanto algumas lágrimas escapavam por seus olhos e se misturavam com a gelada água que caia sobre todo o seu corpo. Não sabia o porquê do choro, só sentia vontade de fazê-lo. era a definição de perdida! Não sabia onde estava, para onde estava indo, ou o que o futuro lhe reservava. Se lhe perguntassem uns meses atrás, ela iria dizer toda a sua vida programada, mas agora era diferente. A garota mal sabia se sobreviveria até a semana seguinte. Pensar no futuro agora era algo totalmente desnecessário. Ela não queria ter um futuro, não mais. Olhou para cima, sentindo aquele liquido bater de forma agressiva em seu rosto. Ainda sentia o nojo presente em seu corpo, e isso fez com que, em um ato rápido a menina pegasse uma esponja de banho e começasse a esfregar sobre todos os seus braços, passando para o pescoço, barriga, pernas, face. E ela esfregava com tanta força que, por sua pele ser clara demais, vergões vermelhos já estavam se formando por toda a sua pele, no entanto ela não estava se importando com isso. Sua pele estava dormente demais pelo frio para sentir qualquer coisa. A garota não parava de esfregar a esponja na frustrante tentativa de tirar todo aquele peso de seu pobre corpo, de tirar os toques de Thomas, de tirar todas as nojeiras que passara.
Precisava de mais drogas, contudo sabia que para isso teria que transar mais uma vez com Thomas. Ainda não estava pronta para aquilo novamente. Por hora, ela apenas queria limpar-se de tamanha imundice que sua cabeça insistia em dizer que ela estava.
- ? – Thomas chamou do outro lado da porta com uma voz de sono, tirando a garota de seu transe mórbido. Fez um som com a boca, incentivando o mesmo a prosseguir. – Seu telefone não para de tocar.
- Eu já estou saindo. – Sua voz fraca e rouca pronunciou. Terminou seu banho com mais pressa do que imaginara e enrolou-se na toalha. Pegou suas roupas intimas e saiu do banheiro. Thomas estava sentado na cama, com o tronco escorado na parede, seu olhar subiu ao ver a garota sair do banheiro. Estava sorrindo maroto ao pensar em saindo só de toalha, entretanto seu olhar mudou para preocupado quando percebeu como a pele da garota estava vermelha e que em algumas partes tinham vergões muito mais escuros. Levantou na mesma hora e foi em direção da menina, tentou desviar das mãos curiosas do homem a sua frente, no entanto fora impossível. As mãos ágeis de Thomas já estavam tocando em uma das marcas vermelhas e notara o quão gelada a menina estava.
- O que aconteceu, princesa? – Tentava manter o tom brincalhão em sua voz, porém sabia que ele estava ficando preocupado. E ela estava tão cansada de todos se preocuparem com ela.
- Nada. – Respondeu seca enquanto se enxugava e colocava as roupas que tinha tirado de sua mochila. Thomas continuava olhando sem entender. – Deve ser alergia, ou algo do tipo. – Voltou a falar quando percebeu que ele ainda a olhava. – Você agora é meu pai? – Perguntou rude ao notar que ele não tinha acreditado na mentira que contara. Thomas levantou as mãos em sinal de rendição. Observou a garota terminar de colocar a roupa e percebeu que ela procurava por algo em sua escrivaninha. – Thomas, eu preciso de mais. – Balbuciou meio desconexa.
- Calma, princesa. – Seu tom brincalhão estava lá novamente, não ligava, apenas queria mais drogas. O seu corpo voltara a esquentar e ela começava a sentir a pele latejar sob suas carnes. Pensava que não conseguiria fazer de novo para conseguir mais drogas, mas ela conseguiria sim. E estava tão disposta a isso que andou rapidamente em direção ao homem e lhe beijou de forma rápida e desajeitada, ele o retribuía ferozmente. – Eu preciso de mais, Thomas. – Repetiu a mesma coisa enquanto o beijava. Mesmo gostando do que ela estava fazendo, ele afastou seu corpo, deixando-a confusa.
- Não vou gastar tudo agora, princesa. – Disse por fim, indo em direção ao banheiro. – Temos todo o tempo do mundo para nos divertir, vamos com calma. – A cabeça de pesava a cada minuto e ela sabia exatamente o motivo e o que faria passar. Ela tinha que ter mais. Enquanto Thomas estava no banheiro, a garota começará a procurar os pacotinhos da noite anterior em seu guarda roupa, sabia que se o homem visse o que ela estava fazendo ele surtaria, sua mente assimilava que precisa ficar mais uma vez entorpecida. Ela precisava daquilo para se livrar de todo peso da sua existência. Sentia-se frustrada ao notar que não encontraria a droga ali, e que apenas Thomas sabia onde encontra-la.

“Pobre ! Você acha mesmo que aquilo que você vez no banheiro é considerando punição?! Garota idiota, você sabe que pra me agradar você vai ter que sofrer mais que aquilo, você sabe o que quero que você faça. Quero que mate seu irmão assim como matou seus pais!”


O barulho estridente do seu celular tocando lhe despertou dos seus pensamentos. Caminhou até sua mochila tirando-o de lá e viu que o nome escrito na tela era de seu irmão. Continuou olhando para tela do mesmo até que a chamada finalizasse, a garota não estava com condições de falar com seu irmão agora. Ao notar que seu irmão não ligaria mais, a pequena encostou-se na mesa atrás de si, olhou atentamente para cada canto daquele ambiente e sorriu de lado ao perceber que encontrara as drogas de Thomas, metade do saquinho estava visível dentro do tênis do garoto, onde seu lacre vermelho estava à amostra. Caminhou apressadamente em direção a ele e tirou o pacotinho. Lá estava ela mais uma vez, seu corpo já dava claros sinais de abstinência, por isso não pensando duas vezes pegou sua mochila e saiu correndo do quarto de Thomas carregando consigo as drogas do garoto. Desceu as escadas apressadamente, indo em direção à porta nem percebendo que a irmã do mesmo estava na sala quando ela passou. correu em direção a rua e pegou o primeiro táxi que vira. Ela precisava se drogar mais uma vez, ela precisava sentir seu corpo todo dormente. Cada segundo em que passava sã era uma tortura, sua mente pregava peças, qualquer pessoa que a olhasse ela já via um olhar reprovador, como se todos e até ela mesma falassem em alto e bom som o quão insuficiente e inútil ela era. E o engraçado era que a garota concordava e aceitava isso.

***


O caminho para casa fora silencioso, olhava os borrões que várias casas faziam com a velocidade do taxi. Sua cabeça ainda estava pesada e confusa. Segurava fortemente sua bolsa contra seu corpo, mais precisamente, segurava o saco plástico preto dentro de sua bolsa. Ao chegar em casa notara que seu irmão já tinha ido para o trabalho, a garota agradeceu mentalmente por isso. Não queria seu irmão por perto no momento. John fazia com que fraquejasse e quisesse voltar a ser como antes, mesmo que pouco, mas o homem fazia isso com a menor. Seguiu para seu quarto e jogou-se em sua cama, deitada de barriga para cima observou o teto com uma falsa concentração. Estava tentando ignorar o fato de que sua mente estava a direcionando para o conteúdo dentro de sua bolsa. Direcionava o olhar para sua mochila e o desviava logo em seguida. Os vergões acima de sua pele ainda latejavam numa fisgada forte, como se a todo segundo alguém a beliscasse. Levantou os braços até a altura dos seus olhos e os observou com admiração. Estava admirada com o que pudera fazer para saciar um pouco a voz dentro de sua cabeça, que mesmo dizendo que não era o bastante, por hora estava calada. A garota permitiu um pequeno sorriso vitorioso, se deixando levar pelo sentimento de trégua. Levantou da cama e foi em direção de sua mochila sem se importar, poderia sentir toda a culpa e dor quando o barulho em sua mente retornasse, por hora ela só queria aproveitar o silêncio.
Suas mãos foram em direção ao saco de plástico preto e o abriu, diante de tantas coisas ali dentro, não sabia o que fazer com a maioria. Não podia fumar no apartamento, não estava com paciência de fazer fileiras com o pó que tinha, então apenas pegou uns dos comprimidos e o engoliu. Escondeu o plástico em uma de suas gavetas e voltou a deitar de barriga para cima. Em poucos segundos já começava a sentir os primeiros efeitos dos comprimidos que ingerira, suas mãos estavam ficando dormentes, assim como seus pés. Riu seco diante disso e fechou os olhos, aproveitando daquele momento o máximo que conseguira. Seu corpo estava formigando e ela não tinha mais noção de nada, levantou-se cambaleando e seguira em direção ao banheiro, tropeçou em seus próprios pés e caiu, rindo da situação tentou levantar mais uma vez, dessa vez mais difícil que a primeira. Deu-se por vencida na quinta tentativa (sem sucesso) de se levantar, ficar deitada parecia mais fácil e era isso que ela iria fazer. A paz em seu interior e a alegria que estava sentindo era algo que julgara incapaz de vivenciar novamente, sua mente estava quieta e ela podia jurar que estava tranquila naquele momento. Fechou novamente os olhos e ficou apenas escutando a própria respiração enquanto o comprimido fazia o efeito perfeito. Sentia como se estivesse flutuando em seu quarto, não importava o vazio que estava sentindo, aquele comprimido o preenchera. Suas risadas sem motivos eram agora o único barulho em todo apartamento e continuou assim por mais alguns (muitos) minutos, até que o corpo e a mente cansados da garota caíram no sono.

***


- Doutor , o Doutor está lhe esperando na sala dele. – Mia, secretária de , grande amigo de , avisou assim que vira o homem entrar no escritório. O psicólogo apenas a cumprimentou com um aceno e seguiu para a sala do outro.

havia pedido a Jenny para desmarcar todas as suas consultas, não apenas com , mas com todos os seus pacientes. Ele precisava de outra opinião sobre a condição da pequena . Por isso ele recorrera ao seu antigo amigo. Fazia um bom tempo que não via . Desde que o mesmo se mudara para Bristol, ver o amigo com frequência fora ficando cada vez mais raro. A viagem de cento e setenta quilômetros não cansara em nada o psicólogo, Bristol ficava apenas duas horas de viagem de Londres, já tinha dirigido por mais tempo. Caminhou em passos largos até a sala do amigo, onde entrou sem sequer bater na porta. Sabia que lhe esperava.
- , achei que não viria mais. – Fora a primeira coisa que disse e logo depois abraçou o amigo. – Quanto tempo não nos vemos? Dois anos? Três?
- Apenas oito meses, . – disse, retribuindo o abraço e rindo do exagero do amigo. – Não estou aqui a passeio, . – Verbalizou ao finalizar o cumprimento. , que estava rindo, mudou o semblante para sério e encarou o amigo o incentivando a falar. – Preciso de sua opinião com uma paciente.
- Ok, isso é sério. – Disse, sentando em sua cadeira. “Sério” pelo simples fato de que nunca pedira ajuda com seus pacientes, na verdade acontecia ao contrário, e olhe que era psiquiatra e um psicólogo. apenas ligava para o amigo pedindo que o mesmo passasse receitas para seus pacientes, pois, mesmo não sendo formado em psiquiatria, doutor entendia muito bem do assunto uma vez que seu pai era psiquiatra e trabalhava com Rick Yang, pai de Sophi.
- Tenho uma paciente que desenvolveu depressão nervosa. – Disse, suspirando ao lembrar do estado de . – A mente da garota está brincando com ela, . – Sentou de frente para o amigo que lhe encarava sério. – Ela escuta uma voz dentro da cabeça dela. – Era difícil para imaginar o que estava passando, mesmo tendo ajudado tantas pessoas, ainda sim, não tinha ideia de como era aquilo, saber na teoria ele sabia, entretanto, o assunto era bem diferente quando se torna real e não apenas meras páginas em um livro qualquer da faculdade.
- Quantos anos ela tem? – como um bom psiquiatra já começava a anotar coisas em seu bloco de receitas. – Esse remédio deve ajudar. Deve parar com a voz que ela escuta.
- , eu não vou dar nenhum remédio a ela. – Seu tom era calmo e convicto. – A garota não tem nem dezoito anos. – Passou as mãos por seus cabelos.
- E o que exatamente você veio fazer aqui ? – O amigo perguntou confuso.
- Ela parece com Sophi. – Murmurou cansado. – Digo, não fisicamente. Mas, todos os principais sintomas batem com o de Sophi. Batiam... – Seu rosto agora era um misto de rancor e sofrimento. Revirou os olhos, estava cansado dessas velhas sensações que agora lhe invadiam sem pedir permissão.
- , amigo, Sophi se foi. – A voz de havia caído uns três tons assim que verbalizou aquilo, ele sabia o quanto havia sofrido e ainda sofria com aquele assunto. – Eu recomendaria que você não atendesse essa paciente. – Voltou a falar minutos depois, o encarou com total surpresa, não esperando aquilo do melhor amigo.
- Eu posso salvá-la, . Eu posso salvá-la dessa vez. – A cabeça de tornara novamente a virar uma nevoa onde ele não sabia mais separar de Sophi. – Eu não vou deixar que ela se mate outra vez. – Do outro lado da mesa, encarava o amigo com tristeza. Sophi fora o amor da vida de , mas ele não havia sido nem de longe o maior amor da mulher. Ele sabia disso, e também.

***


O barulho da televisão ligada servia apenas para preencher o silêncio que aquele quarto fazia. A cabeça de estava dispersa. A conversa com o amigo não fora da forma com ele havia imaginado em sua cabeça.
Levantou da cama com uma impaciência já habitual, não queria dar o braço a torcer. Não podia admitir que estivesse certo em pedir para ele largar o caso de . Sim, estava certo, mas isso não queria dizer que iria deixar isso para lá. Uma total indecisão tomou conta de seus pensamentos desde o momento em que saíra do consultório do amigo, ele não saberia como poderia seguir depois de admitir tantas coisas para o loiro. Andou de um lado para o outro no quarto, até que pegou sua carteira e celular, e depois saiu.
ainda estava em Bristol, a pedido do amigo para que ficasse por mais alguns dias. A brisa fria da cidade chocava-se contra seu corpo fazendo com que cada parte que o vento tocasse se arrepiassem em protesto, e a falta de agasalhos não importava para o psicólogo.
Entrou no primeiro bar que encontrou pelo caminho, ele não queria pensar, seus pensamentos eram um borrão cego que estava o deixando confuso. Ele não poderia ser assim, tinha que se recompor. Afinal, como poderia tratar alguém daquele jeito, como se parecesse que ele quem precisasse de tais tratamentos.
Sentou no banco de frente para o balcão e ali pediu sua primeira cerveja, sua cara de poucos amigos espantava qualquer mulher que tentava conversar com o moreno. Não se importando com isso, a primeira cerveja se transformou na oitava, não estava mais em condições de sequer ficar em pé. O telefone do doutor tocara no momento em que ele discutia com o bartender por mais uma cerveja.
- Alô? – Atendeu com sua voz embolada e rouca.
- Caralho, , onde você tá? – A voz de soou do outro lado da linha.
- Num bar. – Olhou ao redor do lugar, procurando o nome e não achando chamou o bartender. – Eu não entendi muito o que o cara falou, mas é algo como Bristol Fringe. – Balbuciou e tomou o resto de sua cerveja.
- , você tá bêbado. – disse revirando os olhos, não acreditando que iria ter que ficar de babá. – Não saia daí, estou indo te buscar.
Depois que a ligação fora desligada, deu de ombros, gritando pelo homem que estava do outro lado do balcão. A discussão sobre o chope ainda continuava e o psicólogo se esforçava para aparentar completamente sóbrio. Minutos seguiram assim até que o bartender se deu por vencido entregando outra garrafa para o homem. Fazia tempo que não bebia cerveja, a maioria das bebidas alcoólicas em sua casa eram bem mais fortes que aquilo e ele com certeza já estaria bêbado no segundo copo, por isso talvez ele tivesse gostado de lembrar como era beber demais. Seus olhos já estavam pesando mais do que o normal e ele sentia o corpo suar de forma frenética. Era como se do lado de fora não estivesse em uma das noites mais frias da cidade, porque dentro dele tudo estava quente.

Poucos minutos depois, estava estacionando o carro de frente ao bar e respirou fundo antes de entrar. Correu o olhar por todo o estabelecimento que estava cheio, achar seu amigo ali seria um pouco mais difícil do que pensara. Começou a caminhar entre as pessoas para o meio do bar, haviam garotas dançando e olhando para ele e se fosse em outra hora, ele com certeza iria falar com elas, mas agora ele tinha alguém para encontrar com mais urgência. Parou perto de um dos escombros do ambiente e forçou o olhar mais uma vez por todo lugar e sorriu a achar o homem. Lá estava , sentado de frente para o balcão do bartender. Se o homem não estivesse tão bêbado, ficaria e beberia mais com ele, e talvez quem sabe eles não iriam falar com as mulheres que estavam dançando. Sorriu com essa ideia. Fazia muito tempo desde que tivera uma noite assim com o amigo. Eram tempos em que isso não mais acontecia. Desde a morte de Sophi, seu amigo nunca mais fora o mesmo. A mulher já o fazia mal o suficiente quando viva, depois de morta, ela apenas terminou de quebrar completamente o rapaz. tinha completa certeza disso.
Sophi Yang envenenou durante o tempo em que estava viva e o arruinou após morta.
Mesmo o psicólogo não vendo isso, vira. Vira todas as vezes que a mulher simplesmente manipulava o pobre homem, mentia para ele e o enganava, jurando amor eterno, para que, horas depois, fizesse o mesmo com outro homem.
nunca admitira isso para ninguém, mas ele já chegou a estudar os comportamentos da mulher. Sophi era doente, isso era um fato. Ela tinha um distúrbio, e não era apenas alimentar. Sophi Yang queria ser enaltecida por todos os homens, ela queria que todos os homens a quisessem. Sentia a necessidade de ser desejada por todos. Ela sofria de autoafirmação. O loiro tinha perdido as contas de quantas vezes a ruiva tentara, em vão, lhe seduzir. Talvez fosse por isso que ele tinha se mudado, por não aguentar mais Sophi por perto. Coisa que deveria ter feito enquanto ainda tinha tempo: se afastar do jogo doentio e manipulador da moça.
Caminhou tranquilamente em direção do amigo, tocando-lhe o ombro assim que estava perto o suficiente. nada fez, apenas olhou para o companheiro e deu-lhe um sorriso frouxo, estava cansado demais. sentou do lado do homem e o olhou de perto, as olheiras sob seus olhos estavam pesadas, a aparência de alguém exausto tomava conta de sua face. tinha 24 anos, mas aparentava ter 40. E mais uma vez pegou-se suspirando.
- Vamos? – Perguntou, pois sabia que se mandasse, não iria.
- Vamos. – Repetiu a palavra. Pegou a carteira em seu bolso e tirou algumas notas de lá, colocando-as acima da bancada. Não sabia exatamente quanto sua conta tinha dado, mas tinha certeza de que aquilo pagaria e ainda deixaria uma boa gorjeta para Geoger, o bartender brutamontes. Levantou da cadeira com certa dificuldade, sentindo logo em seguida seu amigo passando o braço por baixo de seu ombro, o ajudando a andar. sorriu em agradecimento a , sentindo falta de momentos assim com o mesmo. – Admita que você sentiu falta de mim. – Disse com voz embolada. Chegaram de frente ao carro, onde o soltou para abrir a porta e o moreno entrar.
- Oh, claro. Morri de saudades de te carregar bêbado por ai. – Ironizou, dando a volta para entrar no carro logo em seguida.

O percurso fora completamente quieto e silencioso, de minuto em minuto olhava para o amigo, que tinha seu olhar perdido para a janela e vez ou outra suspirava. Não tinha certeza sobre o que ele estava pensando, mas o conhecendo como o loiro o conhecia, tinha certeza que era sobre a conversa que tiveram logo cedo. Disposto a não tocar no assunto, seguiu até sua casa calado.
Já dentro de sua residência, o loiro ajudou o amigo no caminho até o banheiro, onde, sem se importar, entrou no chuveiro completamente vestido. observou encostar-se na parede que estava atrás de si e escorregar até o chão, sentando em seguida. A água ainda caia sobre sua cabeça e corpo, mas parecia que isso não o afetava. O loiro ficou observando todos os atos do amigo, estava disperso em seus próprios pensamentos também. Saiu de seu transe quando soltou um riso seco e olhou para ele.
- Não posso desistir desse caso. – Confessou. – Ninguém mais quer tratar ela, . – Continuou falando enquanto sentia toda a queda-d’água em seus ombros. – Eu vou deixar a garota simplesmente a mercê de sua própria sorte? – Após terminar olhou novamente para o companheiro. O outro apenas suspirou derrotado e se agachou perto da porta do box.
- Só me prometa que não vai se envolver demais nisso. – Pediu como se fosse uma condição para aceitar aquela decisão do amigo. O moreno apenas concordou com a cabeça.
E então, naquele momento, sabia que não iria cumprir aquela promessa. O loiro em questão sabia muito bem que iria se envolver naquele caso o suficiente para se afogar nos problemas da paciente. sabia o quanto sentia esse peso em “consertar” tudo em sua volta, e ele não pararia até restaurar toda a sanidade da garota, mesmo que isso custasse a sua.




Capítulo 11


Uma semana tinha se passado desde que roubara as drogas de Thomas, e a partir disso a garota não havia mais ido para a escola, dando a desculpa ao irmão de que estava com infecção no estômago. Por não ter contato com o garoto, não tinha ideia de como ele estava e dava graças a Deus por ele não saber seu número e nem seu endereço. Por mais que não houvesse usado muito do que estava no saco, ainda assim a pequena tinha roubado dele, e não fazia ideia de como iria sair daquela situação. Enquanto estivesse em casa estaria segura, mas sabia que hora ou outra iria ter que ir para a escola, e quando a garota menos esperara, a hora chegou.
Levantou da cama a contra gosto, estava se recuperando dos últimos dias em que estava completamente entorpecida, e ao fazer as contas de quantos comprimidos gastara, viu que precisaria de muito dinheiro para pagar a Thomas. Suspirou. saindo do quarto e ao escutar o barulho do chuveiro que vinha em direção do banheiro de John, percebeu que seu irmão estava tomando banho, a menina caminhou até a porta do quarto e a abriu devagar observando se estava seguro entrar. Por sorte, ou azar, a porta do banheiro estava fechada, foi em direção da carteira do mais velho e como da última vez pegara todo o dinheiro, não podia cometer o mesmo deslize de novo, desistiu da ideia ao notar que John pudesse desconfiar de si. sabia que seu irmão guardava em casa algum dinheiro para emergência, diante disso, dirigiu-se ao guarda roupa do mais velho e tirou do meio de suas blusas, um envelope amarelo. Claro que ela sabia onde estava, John nunca escondera nada dela, esse provavelmente era o pior erro do irmão. Sem remorso do que estava fazendo, a pequena abrira o pedaço de papel e tirara de lá uma quantia de mil libras. Para ela, isso com certeza a deixaria quite com Thomas.
Assim que fechou a porta atrás de seu corpo, correu em direção ao seu quarto e escondeu o dinheiro dentro de sua própria carteira. Tomou um banho rápido e colocou uma roupa qualquer na mesma velocidade, a garota pensara que talvez se fosse rápido não teria que encontrar com o irmão, por isso, ao sair do local, suspirou aliviada ao constatar que John provavelmente ainda estava se vestindo.
- John, estou indo, estou atrasada! – Gritou perto da porta do quarto.
- Não precisa gritar, raio de sol. – Ele abriu a porta logo em seguida, assustando a garota. – Já estou pronto. Vamos, também estou atrasado. – o encarava num misto de surpresa e raiva, não soube distinguir ao certo. – Como não deu tempo para café da manhã, vou comer no trabalho e você na escola. – Continuou andando lado a lado com ele enquanto o mesmo falava. Saíram do apartamento e o trancaram logo depois. O percurso do elevador até o estacionamento fora silencioso e incomodo, mas nenhum dos dois deram um inicio a conversa.
O mesmo acontecera toda a longa trajetória do apartamento para a escola. estava inquieta, mas nada com o que fosse motivo de começar uma conversa com seu irmão. John, por outro lado, estava desconfiado. A irmã se esforçava pra aparentar estar tranquila, mas falhava miseravelmente. Ele sabia que nada de bom acontecia quando agia daquela forma.
Perdida em pensamentos, fazia de tudo para tentar permanecer quieta no banco do passageiro, coisa que estava tento total fracasso. Agora, já sóbria de todos os seus pensamentos e ações, a garota começara a sentir uma parcela de culpa pelo que tinha feito, não roubara apenas uma, e sim três vezes. E duas dessas vezes fora o dinheiro da pessoa que mais amava na vida. Fechou os olhos com força, sabendo que não poderia devolver o dinheiro uma vez que tinha que pagar pelas drogas roubadas de Thomas. Não sabia quando sua vida havia se tornado tão complicada.

“Pobre, , sua vida acabou quando você matou seus pais.”

Depois de dias em silêncio, era assustador ouvir aquilo de novo. A garota até tinha achado que por tanto se drogar com o que quer que fossem aqueles comprimidos, aquela voz teria desaparecido de vez de sua mente. Estava enganada.

“Você me deixou fora por dias, vadia. Espero que tenha aproveitado o tempo de folga, porque isso não vai mais acontecer.”

Voltou a apertar suas coxas com força. Ela tinha plena consciência de que, se aquilo que ouvia era forte e enfurecido quando obedecia, não poderia nem imaginar o que aconteceria agora que se drogara por incontáveis horas.
- Chegamos. – Seu irmão anunciou parando o carro. – Aqui, raio de sol, para o café da manhã. – Chamou a atenção da menina ao tirar uma nota de vinte libras de sua carteira.
- John, não precisa. – Negou o dinheiro, se sentindo cada vez mais culpada. O irmão a olhou sem entender. – Eu trouxe comida de casa, consigo me virar. – Mentiu.
- , você não pode ficar sem comer. – Ele a repreendeu. Colocou a nota toda amassada em sua bolsa, a menor apenas o olhava com culpa, ele não estava entendendo, porém, ao ver a menina suspirar e concordar com um aceno, resolvera não falar nada.
- Tudo bem. – Fora a única coisa dita. – Até a volta. – E com um sorriso mórbido e se forçou a sair do carro.
Assim que saiu do veículo notara que não tinha mais ninguém na porta, olhou o relógio vendo que estava apenas alguns minutos atrasada. Revirou os olhos e ingressou naquele inferno particular. Andou devagar, não querendo entrar na sala, e estava tentando se atrasar ainda mais. O peso em suas costas era enorme. Podia sentir como aquilo estava a enjoando.
Ou podia ser apenas o fato de não comer nada nas ultimas doze horas.
Deu de ombros sem se importar com o real motivo.
Ao chegar ao final do corredor, perto do banheiro masculino, vira um garoto sair de lá apenas para puxá-la pra dentro com total agressividade em sua ação.
Bateu as costas contra a parede e surpresa com o que acontecera seu olhar foi para seu corpo, procurando qualquer vestígio de machucado.
- Olha só quem resolveu aparecer. – O garoto a sua frente a prendia com um braço em cada lado e seu tronco perto o bastante do dela. – Quem é vivo sempre aparece, não é princesa? – Havia raiva no olhar que Thomas transferia para , e oh, a garota sabia exatamente o porquê.
- Thomas... – O bolo em sua garganta estava se formando e ficando cada vez maior. – Eu posso explicar. – Sua voz trêmula tentava em vão, soar mais alto que um sussurro.
- ME EXPLICAR? – O garoto batera a mão na parede ao lado da cabeça da menor que apenas fechou os olhos com força e prendera a respiração. – Você me roubou, princesa. – A raiva em sua voz. Thomas tentava controlar aquilo.
- Eu não usei tudo, Thomas. – Interrompeu o outro que ao escutar aquilo ficou calado. – E eu te trouxe dinheiro, bem mais do que da última vez. – O sorriso que ele esboçara a sua frente, estremeceu todo o corpo da menina.
- Você usou mais da metade? – Perguntou ainda bem próximo.
- Não, só usei uns 10 comprimidos daquele. – forçou o corpo para frente e se desvencilhou do corpo do outro. Jogou sua mochila no chão e a abriu tirando o saco plástico preto e entregando ao rapaz. Ela levantou o tronco já com a carteira em suas mãos e observou enquanto Thomas conferia se não tinha mais nada faltando. – Eu não sabia quanto 10 comprimidos iriam dar, mas tenho certeza que essa quantia vai cobrir seu gasto e também te pagar pelo que eu fiz. – Tirou o bolo de dinheiro da carteira e entregou ao menino que estava sorrindo de forma maliciosa de novo. Esperou Thomas contar todo o dinheiro e o olhou antes de falar. – Já te paguei o que devia e te devolvi suas coisas, agora preciso ir Thomas, realmente eu sinto muito pelo que fiz. – Disse indo em direção à porta, mas a mão ágil e forte do garoto segurou seu pulso com certa força, fazendo com que seu pequeno corpo retornasse com rapidez.
- Princesa, você me pagou bem. – Falou se aproximando. – Vamos nos divertir um pouco agora. – Ao terminar a frase ele puxou o corpo da menina para perto do seu e tentou lhe beijar.
- Thomas... Não. – tentava dizer com certa dificuldade. Cada vez sentindo os fortes braços do rapaz lhe apertando. Na primeira tentativa, ele conseguiu iniciar um beijo afobado, mas claramente a garota não queria e tentava a todo custo sair daquela situação. – Thomas você tá me machucando. – Sem ligar para aquilo, mais uma vez ele forçara seu corpo contra o dela.
Fechou os olhos com força sem acreditar que aquilo estava realmente acontecendo com ela. Seu corpo começara a se debater numa tentativa falha de sair daquela situação. Ao longe ouvira a porta do banheiro abrir e fechar como num estalo e segundos depois Thomas fora jogado para longe de si. abriu os olhos e viu Samuel partir para cima do outro rapaz que ainda surpreso com o que acontecera, estava desorientado. Samuel socou o rosto do garoto que ao cair recebera um chute no estômago, e ele continuou chutando sem parar até ouvir o primeiro soluço da menina.
- ... – Disse, chegando perto dela e segurando delicadamente em seus braços. Com toda certeza a cabeça da menina estava girando em pura confusão. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar ou sequer como pensar. Aquele era o seu Samuel, e ele havia a defendido. – , você está bem? Ele te machucou? – A voz suave de Samuel voltou a adentrar em seus ouvidos tirando a menor dos seus pensamentos. Ao notar que aquilo com certeza não era nenhuma miragem criada por sua mente, prendera a respiração num ato involuntário. Samuel ainda a olhava como se a qualquer momento a menina fosse desaparecer de sua vista. Estavam os dois ali. Ambos se encarando. Com os olhares conectados. Por um segundo a pequena até se esquecera do que acabara de acontecer. Por um segundo era apenas ela e Samuel.

“E você esqueceu-se da vadia com quem ele anda transando, querida. Sua amiga, Hayley.”

Aquela voz a despertara de seus pensamentos. Ela piscou algumas vezes e lágrimas caíram de seus olhos. Num impulso desconhecido ela empurrou o corpo do rapaz para longe do dela, que a olhou com olhos arregalados e com total surpresa.
- , não vou te machucar. – Sua tentativa de se aproximar dela fora em vão, pois ao passo que ele deu de encontro ao seu corpo, a menina recuou dois. Não se importando com as poucas lágrimas que se tornaram muitas e com os soluços que agora agrediam de forma brusca seus pulmões, olhou para o rapaz antes de falar.
- Você... – Limpou o rosto com certa agressividade. – Você e Hayley. – Samuel agora a olhava com ressentimento, não sabendo o que dizer. – Por Deus! Eu te amei mais do que tudo! Eu te amo mais do que tudo e você está fodendo com minha melhor amiga? – Novamente o impulso agressivo estava lhe controlando de novo. Empurrara outra vez o tronco do garoto a sua frente, dessa vez com mais raiva, com mais rancor. – SAIA DE PERTO DE MIM! – Gritou indo em direção à porta. – VOCÊS DOIS, NUNCA MAIS CHEGUEM PERTO DE MIM! – Sua voz fraca ainda conseguiu clamar ao lançar um último olhar para Thomas que ainda estava no chão, provavelmente gemendo, e a Samuel. Depois de dizer aquilo, correu.

***


Ainda corria pelos corredores da escola, com as lágrimas caindo sob seu rosto. Não sabia o que fazer, só sentia tanta vontade de chorar, era como se quisesse passar a outra metade da vida apenas chorando. Seu corpo frágil e pequeno sentia espasmos sofridos, tal como se alguém estivesse martelando cada célula de seu corpo e cortando cada parte de sua alma.
Sabia que em algum momento teria que parar de correr, mas não era agora, a sensação de pulmões clamando por oxigênio, era melhor do que seu coração implorando por paz. não sabia mais como recomeçar, ela só queria ficar em seu quarto, chorando e sentindo pena de si.

“Suponho que dá para sentir pena de você estando em qualquer lugar, meu bem. Olhe só para você, digna apenas de pena.”

Tropeçou nos próprios pés ao escutar aquilo e caiu no chão, sendo levada até um dos armários próximos. A garota nem se preocupou em se levantar, sentou-se em posição de índio e ficou olhando para cima, como se estivesse esperando que alguém viesse do além e lhe dissesse qual o motivo de tanta dor. E parece que a resposta veio imediatamente a seguir, quando colocou a mão no bolso esquerdo e ao tirar seu telefone, junto com o mesmo veio um pedaço de papel, com o nome e o número de seu psicólogo. Era aquilo, ela teria que ligar para ele, pois não sabia o que fazer...
Com as mãos ainda tremendo, a pequena desbloqueou o aparelho e digitou o número do psicólogo, chamou uma, duas...
- ? – Assim que atendeu, o doutor já chamou pela garota, e obteve silêncio como resposta. – , você está bem? Deveria estar na escola, o que aconteceu? – estava pesquisando mais a fundo sobre a vida antiga de , quando a mesma o telefonou. – , fale comigo. Por que ligou? – escutou um pequeno gemido seguido de soluço da menor. Ela estava chorando. – Você está me deixando preocupado, pode, por favor, me dizer o que está acontecendo? – Tentou de novo, sem sucesso. – Eu só vou poder te ajudar se você me disser o que está acontec...
- Por favor. – Murmurou interrompendo a fala do maior. – Me tira daqui, por favor! – O que escutara a seguir fora doloroso demais para seus próprios ouvidos, após dizer aquilo, a pequena caíra em um pranto terrível de choro e pedidos para que tirassem-na daquele lugar. não sabia se continuava escutando calado, se dizia algo, ou se ia buscar a garota na escola. Optou então pela terceira opção.
- , me escute. – Chamou a atenção da menor, que cessou o choro instantaneamente, e o único barulho audível, era de sua respiração acelerada. – Eu vou lhe buscar na escola, agora. – Verbalizou, e ao escutar aquilo, sentiu um alivio imediato em seu coração. – Mas você vai ter que cooperar, . – Era uma coisa que ela teria que fazer uma hora ou outra, escolheu por fazer agora e acabar com tudo.
- Tudo bem, eu vou cooperar. – Sua voz fraca e frágil foi ouvida pelo doutor, que abriu um pequeno sorriso ao ver que finalmente tinha chegado a um ponto certo.
- Chego ai em meia hora.
- Meia hora? – Perguntou apavorada. – Não, Doutor! Você não tá me entendendo... Eu preciso sair daqui agora! – O pânico novamente tomava conta de seu ser.
- , posso te chamar assim, certo? – Tentou continuar uma conversa coerente com a garota enquanto já estava saindo de sua sala, passou por Jenny as pressas que o olhou preocupada e sem entender, correu em direção ao estacionamento e entrou no veículo. – Vou te chamar assim, sei que é assim que seu irmão lhe chama. – Procurava não revelar sua voz de preocupação, apenas buscando fazer com que a menor continuasse falando.
- Tanto faz. – Respondeu.
- Ótimo. Então, ... Eu vou tentar chegar o mais rápido que eu puder tudo bem? Você vai ficar bem. Eu vou chegar logo. Olhe só, já estou a caminho, mas não posso continuar dirigindo com o telefone na mão. Preciso desligar você ficará bem. Confie em mim. – Disse prestes a sair com o carro.
- Ok, mas, por favor... – Suplicou enquanto tentava a todo custo engolir o choro que viria a seguir. – Não demore, por favor. – E assim, desligou a ligação, acelerando o carro em seguida.

***


Tentava a todo custo ultrapassar os carros a sua frente, com o intuito de chegar o mais rápido possível na escola. Tinha noção do quão veloz estava seu carro, mas ele não ligava. A voz desesperada e chorosa de sua paciente fizera com que ele ficasse completamente aflito. Tão aflito que nem mesmo sabia se a garota realmente estava na escola, só estava dirigindo na esperança de que estivesse. Do seu consultório para o colégio, eram trinta minutos com trânsito, e estava tentando reduzir esse tempo pela metade, por isso o modo com que passava pelos veículos era tão urgente. Apertava fortemente as mãos no volante tentando em vão, pensar coerentemente. Ele sabia que hoje seria o dia de mais uma consulta com a pequena e estava tentando se preparar pra isso, se preparar para ajudar a menina.
havia passado a semana com , ambos pesquisando sobre o que ele poderia fazer para ajudar a garota. Claro que tinha ajudado, devido ao medo do psiquiatra para que o amigo não se envolvesse demais. Ainda discutiram bastante sobre os remédios que o loiro queria que desse a pequena , sem sucesso, pois o psicólogo sabia que primeiro a menor teria que querer melhorar e também começar a entender que aquela voz era apenas fruto de sua cabeça.
Resmungou quando o sinal mudou de verde para vermelho e fora obrigado a parar. Olhou para frente vendo uma fila enorme de carros parados, o mesmo acontecia atrás do seu veículo. Ótimo, boa hora para o tráfego parar. Sua cabeça trabalhando de forma rápida, como se todos os seus nervos enviassem várias respostas para seu cérebro de uma só vez, confundindo-o. Ouviu o telefone tocar novamente, olhou para ele e viu o nome de sua paciente na tela.
- ? – Chamou-a assim que atendera.
- Doutor, onde está você? – Perguntou sentindo sua voz falhar. sentiu o coração acelerar ao perceber o quão fanhosa estava a voz da menina.
- espere mais um pouco, estou a duas quadras de você. Estou chegando. – O soluço de ficara mais alto e intenso. passava a mão em seus cabelos em pura frustração. – , por favor. – Pediu numa súplica. – Fale comigo. – Bateu a mão fortemente no volante com raiva, ele tinha que chegar rápido a menina. Estava com medo de que a mesma fizesse alguma besteira igual Sophi fizera. – Droga, , não desligue o telefone! – Esbravejou ao perceber que o sinal abrira. Sem esperar por nada, ele acelerou, dessa vez mais do que antes. Ouvia o choro da menina pelo telefone e os carros buzinando para ele na rua. Ao passar por duas esquinas e entrar na terceira, ele já podia ver de longe o colégio, suspirou em alívio. – , eu cheguei, estou na porta. Onde você está? – Sua respiração estava acelerada, assim como seu coração que parecia que iria sair do peito. Sentia um leve desconforto no estômago, e a boca completamente amarga. – ? – Novamente chamou a menina. Ao tirar o telefone do ouvido notara que a ligação já havia sido encerrada, apertou o aparelho com força, seu corpo exalava fúria.
Entrou correndo na escola sem se importar com o barulho estrondoso que os portões fizeram atrás se seu corpo. Vira de relance alguns professores saírem de suas salas para saberem o que estava acontecendo, mas aquilo não o afetara. Continuou andando a passos largos pelos corredores e olhando ao redor de todo o local com máxima atenção. Em algum ponto de sua caminhada notara Meredith ao seu lado, preocupada sem saber o que estava acontecendo. O único contato entre a diretora e o psicólogo havia sido no primeiro ataque de pânico da pequena , então talvez a diretora já soubesse que a presença do homem de forma alvoroçada em sua instituição tinha algo relacionado à sua aluna.
Não sabendo mais onde procurar, pegara seu telefone, retornando sua ultima ligação. A ligação chamou três vezes antes de a menina atender.
- , onde você está? – Não queria admitir, mas sua voz exalava preocupação. Do outro lado da ligação, ele apenas escutava uma respiração pesada, descompensada e rápida.
- Perto da diretoria, final do corredor, sala à esquerda. – Fora apenas isso que a menina se forçara a dizer. E logo em seguida lá estava mais uma vez o psicólogo correndo por aqueles corredores vazios. Percebeu que em algum lugar, Meredith desaparecera de seu campo de visão, provavelmente para não deixar que nenhum outro aluno saísse de sua sala, não queria agravar ainda mais a situação. Ao chegar no corredor onde falara, ele viu que a sala que ela dissera estar, estava com a porta fechada, parou de frente a mesma buscando controlar sua respiração, e, ao constar que conseguira, entrou.
A sala estava escura. Era uma sala de aula comum, com quadro e cadeiras. Varreu seu olhar por todo o local até encontrar o corpo da menina encostado na parede. estava com a cabeça recostada em seus joelhos e suas mãos o abraçavam. Era possível escutar os fungados que a menina dava, mesmo que baixos, como a sala estava completamente vazia, não era tão difícil assim de escutar. respirou fundo antes de seguir de encontro a ela. Ao chegar numa distância de um metro entre seus corpos, receoso com a reação que a menor poderia ter, resolvera chamá-la.
- ? – Sua voz soou o mais calma e suave quanto pudera. nada fez, apenas levantou a cabeça encarando-lhe. O rosto dela estava completamente vermelho e molhado de lágrimas. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar. se aproximou mais, se agachando e sentando do lado dela logo em seguida. – Seria estupidez minha perguntar se você está bem, portanto, não vou perguntar. – Admitiu. A respiração da menina ainda estava acelerada, e ele tinha certeza de que agora ela voltara a chorar.
- Por favor, não conte nada ao meu irmão. – Pediu, sua voz saíra abafada por estrar com a cabeça enterrada em seus joelhos. apenas a olhava, com receio de fazer qualquer coisa e a afastasse.
- ... – Atreveu-se a chama-la por seu apelido. – Você precisa me dizer o que aconteceu.
- Eu não sei... – Claro que a menina sabia, mas contar ao seu psicólogo que tinha roubado drogas e o dinheiro do seu irmão estava fora de cogitação. – Eu só surtei. – Mais uma vez seus soluços altos preencheram o local, ela olhou pra cima numa súplica, lágrimas pesadas escorriam por seu rosto. – Doutor, você tem ideia do que é ser torturada por sua própria mente? – Sua voz falha desabafara todo aquele peso no homem ao seu lado. Peso esse em que sempre carregara sozinha.
- Acredite em mim, . – Falou com a voz cheia de rancor.– Eu sei. – Então, naquele momento soube que havia conseguido chegar até . Pego por um momento de insensatez, e pensando no quanto aquela menina o lembrava de Sophi, ele a abraçou de lado. A menina ainda surpresa pelo abraço estava completamente desconfortável com aquela situação. Mas aquele desconforto acabara no momento seguinte. Quando admitira uma coisa que ele nunca jamais sentira-se capaz de falar a ninguém. E no instante seguinte a pequena apenas acomodou seu corpo perto do dele e chorou. Chorou toda a dor que estava sentindo.




Capítulo 12


Depois de alguns minutos parados naquela posição, ajudara a menina a levantar-se. Nenhuma palavra precisava ser dita, então os dois só caminharam para fora da sala. saíra na frente e a garota atrás do maior. Mesmo não dizendo nada, o psicólogo sabia que estava envergonhada, então não a forçou a nada, apenas respeitara seu espaço e tempo pessoal. Ao pisar fora daquele cômodo, vira apenas a diretora com um olhar preocupado, e vira de relance seu psicólogo lançar um olhar para a senhora que entendera o recado.
- Vou falar com sua diretora. – Disse o mais velho, olhando-a diretamente nos olhos. – Pedirei que ela não conte nada ao seu irmão. – suspirou aliviada. – Mas você vai ter que cooperar, . – O tom sereno do homem soava baixo, como se fosse somente para que ela o escutasse.
- Obrigada, doutor. – Murmurou agradecida. Sabia que não precisava dizer mais nada, havia entendido que sim, iria colaborar.
Viu o mais velho se aproximar da mulher e ambos saírem conversando e indo em direção à sala da mesma. Por um lado estava aliviada de que o homem iria manter o ocorrido em segredo, entretanto, outra parte de seu subconsciente sabia que a partir de agora ele tentaria ajudá-la, e isso não era exatamente o que queria, mas, infelizmente teria que aceitar. Seu corpo estava pesado demais para seus próprios pés uma vez que estava demasiadamente fraca. A menina sentou-se no chão e, como em minutos atrás, encostou sua cabeça em seus joelhos, os abraçando em seguida. Não queria pensar na manhã que tivera, não queria lembrar-se do que tivera que passar para que tudo aquilo ocorresse. Seus olhos não produziam mais lágrimas, talvez por ter chorado intensamente, talvez por não tiver mais o que chorar. Era patética a forma como ela estava, como se vivesse em um filme clichê que ninguém assistisse por ser triste em excesso.
Perdera as contas de quantas vezes suspirara naquele pequeno período de tempo, só o fazia. A voz em sua cabeça estava estranhamente calada, o que fazia com que a menina sentisse mais medo ainda. Não estava acostumada a ficar sozinha com seus próprios pensamentos. Escutara alguns passos vindo em sua direção e logo depois, um corpo sentando-se do seu lado, a menina não se deu o trabalho de olhar, sabia que era seu psicólogo, por isso talvez a voz que soara em seu lado, lhe causara completa e total surpresa.
- Por seis meses você me mandou embora da sua casa sempre que tentei te ver. – A voz de Samuel sussurrou em seu lado. levantou a cabeça rapidamente para encarar o garoto. – Por favor, não me mande embora de novo. – Pedira suplicando. Vendo que a menor não teria nenhuma reação, ele voltou a falar, lhe encarando. – Eu também não deixei de te amar, . – Tocou o rosto da menina que só fechara os olhos em resposta daquele ato inesperado. – Eu ainda te amo.
- Você e Hayley. – Sua voz soara, mas não havia lágrimas dessa vez, a única coisa que havia ali era dor.
- , ela sempre foi apaixonada por mim. – Tentava explicar suas ações colocando toda a culpa na outra. – Mesmo antes de tudo acontecer, ela sempre tentou ficar comigo. – O olhar que lançara ao garoto fora de puro espanto. – Começamos a tentar algo há menos de um mês, e mesmo assim eu só estive com ela, porque ela me lembrava de você. – A esse ponto, Samuel já estava com o rosto perto o suficiente ao da garota para perceber o quão rápida estava sua respiração. E não era por menos, seu coração ia ao mesmo ritmo, se não estivesse mais acelerado. Ela nunca iria descobrir. Já estava sentindo o roçar da boca de Samuel na sua quando uma voz os despertou daquele momento.
- , esse garoto está te incomodando? – perguntara visivelmente incomodado com a proximidade dos dois.
- Não! – Falou rapidamente, levantando-se em seguida.
- Vamos, falei com Meredith. Você está dispensada das aulas hoje. – Lançou um olhar desconfiado a Samuel que apenas sorria vitorioso para o mais velho.
seguiu ao lado do homem corredor a fim até a saída do estabelecimento, e por todo o pequeno percurso olhava para trás, e o garoto continuava no mesmo lugar, com aquele mesmo sorriso vitorioso que o incomodava bastante. apenas acompanhava toda a rota do homem para seu carro, uma vez que não sabia qual era, e, ao pararem de frente a um Genesis G90 preto a garota admirou o quão bonito aquele veículo era, e começara a pensar o quão rico seu psicólogo também era. destravou o carro e ambos entraram, ainda em silêncio a menina continuava a analisar todo o interior de onde estava, não acreditando no quanto luxuoso ele era.
O doutor colocou a chave na ignição e o ligou, fazendo o percurso para seu consultório. Notara que vez ou outra a menina do seu lado fechava os olhos com força e se encolhia toda no banco do passageiro e aquilo estava deixando-o instigado.
- Pode ir mais devagar, por favor? – Escutou o sussurro vindo do seu lado. Olhou em direção daquela voz e vira que a pequena estava pálida. Na mesma hora, diminuíra drasticamente a velocidade que estava, vendo em seguida, todos os músculos dela relaxarem. – Obrigada.
- Tem medo de carros? – Perguntou. Queria começar uma conversa com ela já que o caminho seria mais longo do que o planejado. – , você prometeu que iria colaborar comigo. – Suspirou ao notar o silêncio da menina em relação a sua pergunta.
- Meus pais morreram em um acidente de carro. – Soltou em disparada aquela frase e logo após mordera seu lábio inferior. Não sabendo o que fazer, apenas murmurara um “sinto muito” para ela e seguiram todo o caminho em silêncio.

***

estacionara seu carro na mesma vaga de sempre. Ambos tiraram os cintos e seguiram em direção ao consultório do mesmo. ainda estava calada, absorta demais em seus próprios pensamentos e apenas o preferia. A menina não conseguia tirar da cabeça seu momento de minutos atrás com Samuel, ele ainda a amava. Por um momento ela até sentiu-se feliz, por um momento ela soube que seria amada de novo, por um momento, só por um momento, gostaria de ser o suficiente para isso.
Jenny estava sentada em sua mesa quando vira seu patrão acompanhado de sua paciente entrar no local. O doutor lançou-lhe um olhar que no instante seguinte a mulher entendera que a razão para qual o mesmo tivera que sair completamente afobado, fora a menina em seu encalço.
nada falara todo o caminho desde que contara ao doutor sobre seus pais, sentia-se como se ela mesma tivesse violado seu espaço pessoal e contado ao homem coisa demais, quando na verdade, não havia contado nem a metade pela qual estava passando.

“Você acha mesmo que ele liga para você?”

O ruído em seus pensamentos aumentara ao constar que de novo, estava a escutando. Mordeu os lábios com força, querendo de alguma forma sentir dor, a dor que a traria de volta a realidade.

“Eu sou tão real quanto você.”

- , entre. – Assustou-se com a fala do maior. Olhou em volta e vira que estava parada na porta do cômodo do homem enquanto ele a olhava, esperando que entrasse. Mesmo não querendo estar ali, obrigara-se a entrar, afinal, tinha feito um acordo com o homem, e ele cumprira a parte dele. Sentou-se de frente para o psicólogo, lutando para não cruzar seus olhares, sabia bem o modo que ele a olhava. – Você quer falar algo em especifico? – Perguntara cuidadoso, a menina balançou a cabeça negativamente em resposta. – Eu sei que isso pode ser desconfortável para você, mas acredite, estou aqui tentando te ajudar. – Ele levantou de sua cadeira e deu a volta em sua mesa, encostando-se a mesma, ficando de frente para a garota. estava olhando para baixo, para ela, olhar os sapatos do homem estava mais confortável do que olhar para seus olhos. bufou, começando a sentir a impaciência tomar conta de toda sua calma, ele estava de verdade tentando ajudá-la, por que infernos ela não conseguia enxergar isso? – Eu pensei que tinh...
- Eu mal consigo respirar sem sentir dor. – Ela desabafou, interrompendo o monólogo do mais velho. – Não sei o que quer que eu diga, doutor. – apenas a encarava, curioso demais.
- Vamos começar com o acidente dos seus pais, . – O rosto da menina mudara de confusão para dor. E ela tinha um rosto tão lindo e angelical. – Por que não me conta o que aconteceu? – Perguntou.
- Acho que nunca estarei preparada para responder essa pergunta. – Sua voz pronunciou tais palavras com ressentimento. subira o olhar para encarar o do psicólogo.
- Fale até onde conseguir. – Incentivou-a. John contara ao psicólogo sobre o acidente e o que havia acontecido, mas queria escutar a versão de . Queria ouvir da menina o que acontecera. Viu quando puxou fortemente o ar, respirando fundo para só então começar a falar.
- Era meu aniversário. – Um sorriso melancólico saiu de seus lábios. – Samuel tinha feito uma festa pra mim na casa dele, mas meus pais não me deixaram ir. Eu fiquei com muita raiva, acho que nunca tinha sentido tanta raiva dos meus pais como naquele dia. – Seus olhos agora já estavam começando a ficar marejados. – Eu liguei para Samuel contando de que não poderia ir, então ele me convenceu de que eu deveria sair escondida, afinal, era minha festa de aniversário. Combinamos a hora que ele deveria me buscar, um pouco distante do apartamento, para que ninguém visse. – apenas prestava atenção em cada palavra que a menor pronunciava, anotava coisa ou outra, mas queria que ela soubesse que ele só a escutava, só querendo saber o que tinha acontecido com ela. –Então eu fugi de casa para ir à festa. – Lágrimas finas caíam de seus olhos, seu olhar triste e vazio encarava o nada. – Eu consegui fugir, doutor. A festa estava maravilhosa, até que meus pais chegaram lá. Minha mãe tentava acalmar meu pai que gritava me procurando, quando ele me achou me pegou e me levou a força até o carro... – Enquanto falava, um flashback daquela noite passava por sua cabeça, era difícil para ela organizar seus pensamentos, e era mais difícil ainda organizar cada acontecimento em ordem, tudo tivera acontecido de forma tão rápida para ela, que parecera que o tempo estava acelerado. – Me desculpa, eu não consigo fazer isso! – Sua voz chorosa chamara a atenção de que estava concentrado no que ela estava contando. chegou perto dela onde se agachou em seguida, de perto conseguira ver que as poucas lágrimas agora se tornaram muitas. Novamente o choro de estava intensificando-se, recordar daquele momento era doloroso demais para tudo o que estava acostumada. De todas as dores que sentira e que causara (propositalmente), aquela era a pior.
- Claro que você consegue. – O doutor falou de forma suave. – Nada é tão terrível que não possa ser dito. – Não, não sabia com todos os detalhes o que acontecera naquela noite, o que o irmão da menina o falara fora apenas o necessário. Por isso que, ao escutar a pequena desabafar com tantos detalhes algo que ele sabia que ela não havia dito a ninguém, ele sentira-se feliz. – Eu também tenho um passado triste. Todos nós temos algo que, ao passarmos, fomos submetidos a cicatrizes no processo. Algumas saram outras não. As suas não sararam, assim como as minhas. – Agora a menina devolvia o olhar para ele com intensidade. Ela tinha noção de que não precisava contar nada da sua vida para ela, mas mesmo assim, ele contou. – Eu estou aqui para te ajudar a curar suas cicatrizes, .
- E quem vai te ajudar a curar as suas? – perguntou, e num momento de surpresa se vira sem palavras. Porque ele não sabia. Ele sequer tinha ideia de que suas feridas poderiam ser curadas, para ele, aquelas cicatrizes estariam sempre abertas, e por mais que ele as esquecessem em certo ponto algo o lembraria e as faria sangrar novamente. Assim como a menor o lembrara de Sophi a abrira outra vez aquela enorme ferida em seu peito. Naquele momento estava sangrando e não havia ninguém que pudesse lhe ajudar a curar aquilo.
Quase um minuto que a pequena havia feito a pergunta a e o mesmo não a respondera, alheio demais em seus próprios pensamentos, tentando encontrar uma resposta para aquela questão.
- Eu não sei. – Por fim suspirara em derrota ao notar que não sabia.
- Eu também não sei se posso ser curada. – Murmurou. Sua cabeça estava pesada e sua vista embaçada. Era a primeira vez que os dois estavam tendo uma conversa civilizada, onde a menina não pulava em cima do homem para estapeá-lo, primeira vez onde não existiam gritos, nem manipulação, ou sequer sarcasmo. Primeira vez em que eram apenas e , psicólogo e paciente.
- Bom, temos tempo para descobrir isso. – Disse numa tentativa de fazer o clima que se instalara no local melhorar. notara que a menor havia parado de chorar, e isso fez com que o homem pensasse que sim, ela estava pronta para continuar a falar. – Tente continuar me falando o que aconteceu. – A menina o encarou com receio. – Se não conseguir, será a última vez que peço e não tocarei mais no assunto. – Mesmo sabendo que aquilo não era verdade, concordou. Ela sabia que se não falasse hoje, qualquer que fosse o dia, a incentivaria a contar, não importava quanto tempo fosse, ele iria querer saber o resto.
- Meu pai me jogou dentro do carro e fomos embora. O caminho todo ele brigava comigo, dizendo que eu tinha o decepcionado. Em um ponto da casa de Samuel até a minha, a chuva tinha começado forte e sem piedade. Não lembro bem o que ele falou, mas sei que falou alguma coisa que começamos a discutir. – Suspirou cansada. – Passamos do ponto de discussão, papai e eu brigávamos feio dentro do carro e minha mãe só chorava. Até que eu disse que odiava os dois e que não iria mais morar com eles, que iria fazer minha vida longe deles. – O choro da menina voltara com força dessa vez, entretanto, percebera que ela não queria parar de falar. – Na hora que eu disse aquilo os dois olharam para trás. Os dois me olharam com decepção e angustia e depois disso eu só lembro-me de uma buzina muito alta em nossa direção. – Os soluços ficaram intensos, a menina mal conseguia colocar ar em seus pulmões, que eles já eram completamente expulsos. – Acordei uma semana depois na UTI. Meu irmão me disse que o carro saiu do lado dele na estrada e que bateu em um caminhão. Disse que o carro capotou quatro vezes. Meu pai morreu na hora e minha mãe horas depois, a caminho do hospital. – As pequenas e tremulas mãos cobriram seu rosto de forma que o doutor não pudesse mais vê-lo. estava aos prantos depois que contara tudo ao homem, e ele entendia completamente a reação da menina. – Eu os matei, doutor. – Todo o seu corpo tremia e seus soluços eram os únicos a serem ouvidos naquele lugar. – A última coisa que eu disse antes de morrerem foi que os odiava. – pegou-se fazendo um tipo de carinho no braço da menor enquanto ela ainda falava. – Eu nunca disse adeus a eles. – Ela tirou as mãos do rosto apenas para encarar o psicólogo. – Agora você entende que eu não posso ser curada? – Perguntou de forma retórica. – Eu matei meus pais e a ultima coisa que ouviram de mim antes de morrer, era o quanto eu os odiava!

“E eles te odeiam agora, .”

- NÃO! SAI DA MINHA CABEÇA! – Gritou desesperada. Pego de surpresa com o grito da menina, a segurou com força.
- Está tudo bem, . – Ele tentava acalmá-la miseravelmente.
- Você não entende? Não está nada bem, doutor. Eu estou perdendo minha cabeça, e eu não sei se vou ser capaz de recuperá-la. – Continuava a chorar, o choro agora parecia parte de sua rotina. Não havia sequer um dia em que não se deparasse com a cena patética dela chorando.
- Olhe para mim, . – levara sua mão até o queixo da menor, fazendo-a levar o olhar até os dele. – Você não é louca! E eu vou te ajudar a sair dessa. – O médico agora fechara os próprios olhos. A nuvem em sua mente estava se formando outra vez, estava a uma linha tênue de distinguir uma da outra. – Eu vou te ajudar dessa vez, Sophi. – Murmurou, dessa vez mais pra si do que para a menina. Porém ouvira, estavam próximos e só havia os dois naquela sala, era impossível não ouvir.
- Sophi? – Como em dias atrás, ela voltara a perguntar. Viu o rosto do homem transformar-se em confusão com aquela questão. Rapidamente levantou-se ficando de costas para a menina, passava as mãos ferozmente em seus cabelos, numa tentativa de retomar o controle daquela situação, mas dessa vez não sabia se podia. Lá estava à personificação de sua amada, pronta para ser salva por ele, e de novo, ele estava falhando. De novo, ele não era o suficiente para que ela permanecesse viva. Respirava de forma descompassiva, mais saia ar de seus pulmões do que entrava.
Atrás dele estava , curiosa com o que estava acontecendo com o homem, ele aparentava estar passando mal.
- Doutor? – O chamou apreensiva. – Doutor, está tudo bem? – Aproximou-se do homem, tocando-lhe o ombro, e imediatamente virara o corpo em direção do dela, seu olhar estava perdido, nublado, como os de minutos atrás.
- Eu vou te levar pra casa agora, sua consulta acabou por hoje. – Falou de forma automática. No mesmo instante pegara suas chaves, nada disse, apenas acompanhou o homem até o estacionamento de seu consultório. Mais uma vez, ambos calados, imersos em seus pensamentos. Cada vez estava, mesmo que a contragosto, mais cativada pelo mistério que seu psicólogo emanava, queria saber quais dores e cicatrizes do passado o homem carregava, queria saber quem era Sophi e por que o homem mudava drasticamente de comportamento sempre que mencionava seu nome.

***


Ao ser deixada na porta do prédio, entrou ignorando os olhares dos moradores presentes. Estava absorta demais no que havia confessado ao homem com quem tivera passado as últimas horas. Era estranho para ela o modo como a provocava desconforto e ao mesmo tempo amparo em suas palavras. Para era como se a visse como outra pessoa. Ele a deixava com a mente bagunçada, como uma garoa entre o certo e o ilógico. Mais parecia que ele estava fazendo o oposto a lhe ajudar. a puxava para todas suas dores, obrigando-a a enfrentá-las, enquanto a única coisa que a menor queria, era escapar.
Entrou num apartamento escuro e silencioso, não sabia as horas, mas tinha certeza de que seu irmão ainda estava no trabalho, então nem se deu a tarefa de acender nada, nem muito menos de comer. Ondas de culpa a afogavam naquele momento. As ações impulsivas da menina estavam piorando, não sentia culpa no momento em que fazia, entretanto, hora ou outra esse remorso a acertava de uma maneira que ela não estava preparada para encarar. E fora exatamente o que aconteceu, como que cronometrado. Assim que pôs seus pés em seu quarto, fora atingida violentamente com uma quantidade exorbitante de arrependimento. Respirou fundo algumas vezes, tentando controlar seus pulmões que mais pareciam trabalhar de forma descompassada e sem ritmo. Não tinha mais nada com que pudesse fugir da realidade, havia entregado tudo a Thomas, todas as coisas boas com que poderia simplesmente emergir de todos os problemas não estava mais em suas mãos. Pensando de forma rápida e inconsequente, chegara à conclusão de que não precisaria exatamente de remédios para sair da realidade, sabia que havia sim algo possível de lhe proporcionar sensações semelhantes e estava de fácil acesso em sua casa. Por isso talvez caminhara depressa até a cozinha do local, abrindo um dos armários e tirando de lá uma garrafa de uísque que julgara sendo de seu falecido pai, uma vez que sabia que seu irmão preferia cerveja ou vodka. Ótimo, pensou, ao menos ele não iria sentir falta de alguns (muitos) goles daquela bebida.
Refazendo o mesmo caminho para seu quarto, ela fechou a porta e abriu a garrafa segundos depois. O líquido tinha gosto ruim em sua boca, e descera garganta abaixo queimando tudo o que via pela frente, automaticamente ela começara a se sentir completamente quente como um dos efeitos do álcool. Mesmo tossindo em reação de como aquilo era forte, forçou-se a beber mais, não queria lembrar-se daquela noite, não queria lembrar que seu aniversario estava perto e que iria completar um ano desde que seus pais morreram. Precisou de quatro meses para desenvolver o que quer que tivesse, e desde então perdera completa noção do tempo. Mas, de alguma forma, como carma ou punição por sua existência, ela simplesmente sabia que há exatos quinze dias, era seu aniversário de dezessete anos, e também completaria um ano desde que matara seus pais. E isso era demais para que pudesse assimilar. Era pedir demais de seu pobre consciente. Prosseguiu bebendo da boca da garrafa mesmo, e sempre que engolia aquele líquido quente, tossia em contrapartida. Quando já estava perdendo parcialmente alguns de seus sentidos, consequência do tanto que estava bebendo, pegou seu telefone, o desbloqueando em seguida. Jurara que iria extrair toda e qualquer lembrança que aquele aparelho lhe proporcionara, e era isso que estava fazendo. Abriu a galeria e colocara nas fotos de quase um ano atrás... De quase uma vida atrás. E então começou a ver fotos do dia do seu aniversário, antes e durante a maldita festa na casa de Samuel, nesse momento era impossível controlar as memórias e os flashbacks que aquelas lembranças estavam lhe causando. encostou-se a sua cama, sentando no chão, e tomando mais um grande gole do uísque, ela permitiu-se lembrar de tudo o que acontecera naquele dia. Ela só lembrou, lembrou-se de como tudo era perfeito...


11 meses e 14 dias atrás, dia do Acidente – Ponto de vista da .

Eu já não sabia mais de quais formas poderia tentar convencer meus pais de me deixarem ir para a festa que o Samuel fez para mim. Fazia meses que estávamos juntos, ele já dormira aqui em casa, não entendo porque meu pai ainda tem um pouco de implicância com ele. Bufei cansada de pensar no que poderia fazer para que meus pais concordassem com a ideia, se pelo menos John estivesse do meu lado, eu ainda teria uma chance, mas nem meu irmão estava me apoiando, aquela era com certeza uma batalha perdida. Bufei, começando a ficar estressada e frustrada com aquela situação, levantei da cama e fui para o quarto do meu irmão, encontrando minha mãe dobrando umas roupas dele.
- Mãe, por favor! – Já entrei no quarto pedindo e me jogando na cama do John. – Eu vou fazer 16 anos, vocês não fizeram nenhuma festa pra mim... Todos os meus amigos vão. Por favor, por favor, por favor! – Implorei.
- , você já sabe nossa decisão. – Ela disse calma. – Eu e seu pai já tomamos a decisão.
- Eu não sei qual a implicância de vocês com o Samuel, aparentemente aquele dia em que ele dormiu aqui foi só um fingimento do papai. – Falei em disparada, e, a essa altura do campeonato, não estava mais conseguindo por o filtro entre “o que fica só em pensamento” e o que se deve falar. Mamãe me olhou triste, mas nada a fez mudar de ideia. Lágrimas já estavam se formando em meus olhos quando sentei em minha cama, não, eu não era de chorar, mas caralho era meu aniversário e estavam me privando de comemorar com meu namorado e minha melhor amiga. Tirei o meu celular debaixo do travesseiro e liguei para Samuel, ele seria capaz de me acalmar, mesmo que só um pouco.
- Oi, babe. – Sua voz doce e animada soou do outro lado da linha, como resposta eu soltei um suspiro e funguei, denunciando meu choro. – Amor, está tudo bem? – Perguntou preocupado.
- Meus pais não me deixaram ir, amor. – Minha voz chorosa falou.
- Como assim, ? – Samuel tinha elevado um pouco a voz. – Eles sabem o trabalho que eu tive em preparar tudo para você? – Aquele tom que ele só usava quando estava com raiva revelou-se. Apenas mordi os lábios enquanto mais lágrimas caiam dos meus olhos.
- Me desculpa, Sam. – Murmurei. Escutei-o pesarosamente suspirar do outro lado.
- Tudo bem, . – Disse tristonho e meu coração apertou um pouco mais. – ? – Depois de alguns minutos em silencio dos dois, ele me chamou, fiz um som com a boca só para que ele soubesse que ainda estava na linha. – Eu tenho uma ideia! – Agora sua voz já estava mais animada. – E eu tenho certeza que você não vai gostar. – Gargalhou.
- Que ideia, Sam? – Perguntei curiosa e ao mesmo tempo, receosa.
- A sua festa é daqui duas horas, e você vai estar nela... – Ele deixou a frase no ar.
- Sam, você é surdo? – Brinquei mesmo estando um pouco irritada. – Meus pais não me deixaram ir! – Falei um pouco mais alto, impaciente.
- Eles não precisam saber que você veio, . – Mesmo não estando presente, sabia que meu namorado estava com um sorriso malicioso no rosto, e eu estava com um nó no estomago.
- Não acho uma boa ideia. – Sussurrei. Ele bufou com minha resposta.
- Ah, qual é, ? – Disse irritado. – Eu preparei a maior festa pra você aqui, todos da escola vêm. Vamos aproveitar que meus pais viajaram e deixaram a casa toda pra mim... – Eu conhecia aquela voz rude e cheia de irritação de longe. – Você não cansa nunca de ser sempre a certinha e perfeita? – E era aquilo, ele estava certo. Sempre fui a certinha e perfeita em casa, não sabia ser outra coisa além daquilo. E de novo, ele estava certo, eu deveria aproveitar.
- Tudo bem, Sam. – Me dei por vencida.
- Separe uma roupa em uma bolsa, dê um jeito de sair de casa que eu vou te buscar do outro lado da rua. Me ligue assim que der para que eu vá ai.
– Vou entrar na maior encrenca por isso. – Gargalhei em puro nervosismo.
- O que de tão ruim pode acontecer se você vier? – É, o que pode acontecer de tão ruim se eu for? E então, com aquela pergunta no ar, e obviamente sem resposta, desliguei a ligação e separei uma roupa, esperando em seguida pelo momento perfeito para fugir de casa.





Capítulo 13


Sentia que o mundo inteiro estava girando a sua volta, mas não se importava. não notara quando havia passado de “apenas uns goles” para beber todo o uísque. A menina também mal tinha notado quando a noite passou a virar dia, mais um dia para ela. Sabia que em alguma parte da noite seu irmão entrara em seu quarto para vê-la, mas a mesma fingiu estar dormindo, ou dormira de verdade... Estava tão bêbada que não se lembrava, e, em contrapartida, naquela manhã, a ressaca e a dor de cabeça que a pequena sentia era quase insuportável. Não queria ter que levantar, não queria ter que ir para a escola, encarar seu irmão, ou enfrentar todos os seus demônios, ela só queria dormir, mas barulho que seu celular fizera a despertou um pouco, havia chegado uma mensagem. Estranhando a situação o desbloqueou e se deparou com uma mensagem de texto de Samuel. Automaticamente prendera a respiração, como em um ato involuntário de seu corpo para se defender de sensações velhas que, atualmente, ela desconhecia. A mensagem era simples e direta, no entanto, tivera o poder de lhe estremecer dos pés a cabeça. Ela apostava que o garoto não tinha nem pensado direito no que tinha mandado, então porque ela tinha que pensar em cada letra?

“Espero te ver hoje na escola. – Sam”


Era claro o conteúdo explícito em seu rosto, mesmo não entendendo o que tinha acabado de ler. Parecia que ela entrara em um transe, não conseguindo realmente acreditar no que estava escrito na tela do seu celular, era ate possível arriscar dizer que um sorriso murcho brotara em seu rosto.

“Acha mesmo que ele está interessado em você de novo?”


Um baque surdo em seu consciente, no instante seguinte, soltara a respiração que até agora esquecera que havia prendido. Toda aquela sensação de desconforto retornara para suas entranhas, não sabendo mais como ser normal. Levantou seu tronco a fim de ficar sentada em sua cama, não tinha noção de que horas seriam, porém, a julgar que seu irmão não havia batido na porta ainda, supôs que fosse cedo. Suas duas mãos foram de encontro a sua cabeça, passando-a de baixo pra cima repetidas vezes. Seus dedos foram de encontro aos seus cabelos, puxando alguns fios no processo. Diferentemente da sensação que a mísera mensagem a fez sentir, escutar aquela voz em sua cabeça a estava apavorando cada vez mais.  

“Oh, querida. E você vai me escutar cada vez mais. Cada vez mais alto, e cada vez com mais frequência.”

Aquele som parecia ter vindo de uma pessoa que estava ao seu lado, por isso olhou tão assustada naquela direção. Gradativamente percebendo o quanto aquela coisa em sua mente estava se tornando real.  
- Eu faço qualquer coisa para você calar a porra da boca. – A menina sussurrou com os olhos enchendo de lágrimas. Sempre que se via “conversando” com a voz, sentia a vontade absurda de chorar. pressentia que toda vez que o fazia, perdia um pouco de sua sanidade, ficava sempre mais influenciável por aquela zoada em sua cabeça. Por isso talvez, o que escutara em seguida não havia lhe surpreendido nenhum pouco. Aquela voz queria a machucar, e era exatamente isso que ela pretendia fazer.

“Você sabe o que eu quero que você faça.”

Expirou devagar, sabendo exatamente o que aquilo significava. Há tempos tinha cogitado aquela ideia maluca, e que lhe confortava tanto. O que aquela voz fazia era só incentivar-lhe. Levantou da cama de repente, andando de um lado para o outro em seguida, seus passos eram lentos, mas ainda assim o fazia. Queria clarear a cabeça, não estava conseguindo raciocinar direito e sabia bem o que acontecia quando aquilo ocorria.  

“Se você não fizer, não vou te deixar em paz. Ninguém vai se importar, . Ninguém nunca repara em você. Vamos lá, eu sei que você também quer.”

E era verdade, ela queria. Céus, como ela queria. A vontade de se machucar era maior do que qualquer coisa. sabia que só quando se feria de propósito aquela voz sussurrando em sua cabeça ficaria calada. E a sensação de seu corpo em dor, lhe era acolhedora. A verdade é que ela estava ficando cada vez mais sádica, procurando cada vez mais formas de ferir o seu corpo, já que sua mente também estava.
Foi em direção ao seu banheiro, onde logo após abrir a bacia do vazo sanitário, a garota ajoelhou-se e forçou o vômito. Colocando cada vez mais o seu dedo dentro de sua boca e expelindo tudo o que tinha comido nas últimas horas, até chegar a um ponto em que a única coisa que botara para fora era bile. Sua garganta queimava, seus olhos lacrimejavam e ela sentia seu corpo fraco e tremulo. Seu estômago estava longe de estar bem naquele momento. Além de ter ingerido uma garrafa inteira de uísque na noite anterior, a menor se pôs a provocar seu próprio vômito de forma brutal e descontrolada, uma vez que, mesmo não tendo mais o que sair, ela ainda o provocara. Como um protesto em seu organismo, ela deu uma tosse seca e oca, em que seus pulmões doeram em seguida. Era uma sensação boa. A dor era boa. Limpou a boca com as costas da mão e encostou-se a parede atrás. Tentava regular sua respiração que estava completamente descontrolada devido à força que fizera, no fim de sua boca sentia o gosto de algo metálico, mas não ligava. As mãos parcialmente trêmulas da menina fora em direção ao seu rosto, passando por lar diversas vezes, numa falha investida de conseguir o controle sobre seu corpo.

“Você sabe que isso não é o bastante.”

E não era. Realmente não era. A dor que a ação anterior gerara, doera, mas já estava passando. queria algo mais prolongado, algo que ela sentisse várias vezes durante o dia. Algo que a machucasse mais. Algo que lhe castigasse e continuasse castigando sempre, mesmo não provocando a atitude. Ela queria alguma coisa que pesasse em seu corpo. Algo que a penalizasse por ter tirado a vida de seus pais. Algo que magoasse seu corpo mais do que seu coração magoado estava. Algo que doesse. Que ferisse. Que rasgasse... Que sangrasse.

“Isso mesmo querida. Você sabe como fazer isso passar.”


Rapidamente ela levantou e foi em direção ao armário, achando apenas alguns produtos de higiene ali. Bufou em total insatisfação. Sabia que não poderia sair do quarto e procurar o que queria, seu irmão com certeza estranharia a ação, e tudo o que a menina menos queria, era a desconfiança de John. Saiu do banheiro e, ao chegar novamente em seu quarto, começara a procurar por algo cortante. Frustrada por não achar nada que lhe ajudasse e em um ato de pura raiva a menor chutara sua poltrona, logo o barulho de uma garrafa de vidro rolando no chão fora o único som que preenchera o local. Acompanhou o vidro com os olhos até ele bater contra a parede, e enquanto fazia o ato, teve uma ideia. Correu em direção ao seu celular, tinha que saber as horas para ver se dava tempo, seu irmão não podia saber e nem atrapalhar. Dava tempo. Faltava uma hora para que ele a chamasse. Uma hora era muito tempo. Bloqueou o celular e fora em direção a garrafa, pegando-a em seguida. A porta do banheiro de seu quarto estava aberta, então a menina entrou, fechando e trancando, por precaução, o acesso aquele lugar. Sentou-se no mesmo lugar de minutos atrás, a garrafa em sua mão queimando sob seu olhar. Sem pensar duas vezes, pois sabia que se parasse para pensar iria desistir, bateu o vidro contra a cerâmica branca de seu banheiro com força e arrependeu-se logo em depois. O barulho que fizera fora alto demais, se continuasse com certeza chamaria a atenção indesejada. Respirou fundo, buscando um jeito de quebrar aquele objeto sem fazer tanto barulho. Não tinha tempo para perder. Aquele era o único tempo que tinha, não podia desperdiça-lo.

“Toalha, . Enrole o vidro em uma toalha. Inútil até para isso.”

A rigidez na voz era percebida de longe. Como uma mãe repreendendo seu filho por não pensar numa solução tão simples e tão na cara, criticando sua falta de raciocínio. Entretanto, não era como se a menina pudesse pensar direito em uma situação daquelas. Sem mais resistência, fizera exatamente o que aquela voz lhe dissera. Enrolou uma toalha no vidro e sem enrolar, movimentou fortemente o objeto contra o chão, o batendo forte e rápido uma única vez para que o som abafado do vidro quebrando lhe desse a certeza de que, pelo menos aquilo, fizera certo. Abriu a toalha que antes tinha a forma de uma garrafa, e agora não passava de um pano de formato redondo que continha muitos cacos quebrados. Pegou o maior pedaço do vidro quebrado e o encarou séria, já não tinha a mesma determinação de antes, mesmo continuando com a intenção, a coragem estava esvaindo de seu corpo. Puxou o ar fortemente para seus pulmões, fechando os olhos logo em seguida. Só precisava de um gatilho para que sua determinação retornasse. Logo permitiu-se lembrar de momentos felizes da sua vida, lembrou-se de seus pais vivos, da época que ainda estava com Samuel e que Hayley era sua melhor amiga. Lembrou-se de quando tudo parecia se encaixar, quando ela pertencia a algum lugar. Minutos depois, seus olhos já estavam cheios de lágrimas, como em uma ação de receio, bastava seus pensamentos vagarem por aquelas memórias que sua mente já enxergava aquilo como seu ponto fraco. Aquelas memórias eram seu gatilho para explodir. Era doloroso para a menor lembrar-se de momentos que nunca voltariam, recordar aqueles instantes que, mesmo vividos, agora parecia apenas uma miragem de um sonho em sua cabeça, onde ela não tinha certeza se realmente acontecera. Aquilo era o que mais machucava. De tanto forçar memorias, já não tinha tanta certeza do que era real ou do que sua cabeça apenas inventara para se martirizar. Levou o caco de vidro até seu pulso e o encostou ali, a visão embaçada graças às lagrimas a impedia de ver perfeitamente, mas isso não a afetava em nada. Pressionou o objeto em sua pele, sentindo em seguida a primeira pontada de protesto de seu corpo, mas não se importou. Apertou mais forte dessa vez, vendo em seguida um fio de sangue aparecer e depois disso, ela teve certeza de que era aquilo que queria. Fechara os olhos e subitamente, com a mesma rigidez, traçou uma linha em seu pulso. Seu primeiro instinto fora reprimir o gemido que sua boca quis criar, e logo depois ela olhou para o local. O sangue escorria por todo local, caindo até o piso, mas não era aquilo que a deixava fascinada. Ver o líquido vermelho escuro sair de si, era como ver uma parte de sua dor ir embora junto com ele. E ela sentia isso. Sentia-se dormente, incapaz de ter qualquer outra dor além daquele corte. Ele a anestesiava. Anestesiava o barulho em sua mente e dava uma nova sensação em seu interior que agora estava oco e vazio. Sorriu ao perceber aquilo. Continuou admirando o que acabara de fazer e não perdendo tempo fez outro logo abaixo do primeiro. A sensação apenas intensificou, a menina olhou para cima, lágrimas caiam de seus olhos, o que contradizia com o sorriso em seus lábios. Era gratificante para . Sentia que havia finalmente encontrado algo que a acalmasse. Mas infelizmente não podia continuar ali, sabia que cedo ou tarde John apareceria, disso ela não se dava o luxo de esquecer. Com os cacos todos juntos ainda na toalha, a menina apenas juntou o que estava em sua mão para depois enrolar e jogar daquele jeito no lixo. Com certa relutância pegou papel higiênico para limpar o seu sangue do chão. Depois que o fez, levantou e parou de frente a sua pia, abriu o armário diante de seu rosto e de lá tirou uma garrafa de álcool. Aquele sorriso sádico ainda estava em seu rosto, não desaparecera desde o momento em que começara a se cortar. Olhava para seu pulso com certo valor, realmente satisfeita com o que acabara de fazer. Colocou o pulso sobre a pia e em cima dele jogou o álcool. De uma vez. A pequena dessa vez nem parara para pensar no que poderia lhe acontecer. Dessa vez ela não conseguira conter seu gemido. Os dois cortes que fizera não foram muito profundos, mas estava aberto o bastante para que aquele contato brutal lhe causasse a sensação de tortura. Automaticamente tapou sua boca com a mão que antes estava segurando a garrafa de plástico. Não poderia ter feito muito barulho, com certeza não fizera muito barulho. Por isso fechara os olhos com força ao ouvir a voz receosa de seu irmão do outro lado da porta a chamando e batendo, rodando a maçaneta, a fim de abri-la.  
- ? – Do outro lado da porta John perguntou preocupado enquanto batia e girava a maçaneta da porta. Ao notar que estava trancada, ele novamente tornou a bater na porta. – , está tudo bem? – Sua voz ficando levemente desesperada com todo o silêncio que emanava do outro lado da porta.
- Estou bem. – Fraca demais para fingir, ela apenas respondeu cansada.
- Ouvi gemidos vindo dai, ... – O homem disse encarando a madeira a sua frente.
- Eu... – Tossiu. – Eu tropecei, estou com sono, só isso. – Disse a primeira desculpa que lhe viera a sua cabeça. Rezou para todos os santos, que, obviamente não acreditava, para que seu irmão acreditasse do que tinha dito. E, mesmo desconfiado daquela resposta, sem ter muito que fazer John apenas murmurou.
- Tudo bem. – Falou, desistindo de tentar abrir aquela porta. – Saímos em quarenta minutos. – E saiu do quarto.  
Não notara o quão tensa estava até ele ir embora. O suspiro aliviado que soltou fora a prova concreta disso. Rolou os olhos até a sua pia suja de sangue e rapidamente a limpou, indo em direção ao chuveiro logo em seguida. Seus cortes ainda sangravam e contemplou aquilo com voracidade. Pegou o sabonete e esfregou com força no local, abriu a boca num ato mudo, tentando não emitir nenhum som. A água entrando por seus lábios e sendo expulsos logo depois pelo seu fôlego. Cerrou os dentes e respirou o mais profundo que conseguira. Ela tinha que lavar aqueles cortes, infeccionar não era uma opção. Quando se assegurou que seus cortes não estavam sangrando tanto, ela finalizou o banho e ainda no banheiro mesmo ela enfaixou seu pulso. Ao entrar no quarto ela ansiou para que pudesse se machucar de novo, mas não podia. Tinha que fingir ser normal para que seu irmão tivesse um pouco de paz. Paz essa que lhe fora roubada, mas que não seria capaz de deixar o mesmo acontecer ao seu irmão. Trocou de roupa, não se importando muito com o que estava vestindo, entretanto, não deixando de garantir que fosse algo de mangas longas, não podia se dar ao luxo de John ver aquela faixa e lhe fazer perguntas desnecessárias.    

***


Deitado em sua cama, ainda encarava o teto com preguiça. A maior vantagem de ter seu próprio consultório, para ele com certeza era, ele que fazia seus horários. Se não estivesse com vontade de trabalhar, simplesmente ligaria para Jenny para remarcar as consultas do dia, não que sempre fizesse aquilo, mas, vez ou outra para poder viajar e ver um velho amigo, ele usava daqueles privilégios. O homem olhou para o relógio de relance e vira que, dada às horas, já deveria estar a caminho de seu consultório. Entretanto, naquela manhã em questão, não conseguia parar de pensar no pequeno avanço que fizera com sua mais nova paciente, ele estava ciente de que seria mais difícil alcançar todas as dores e demônios da menina, porém, ao ver um filete de esperança, ele o agarrara. Não podia simplesmente desistir, não quando a vida lhe dera uma segunda chance. Aquele pensamento pegou-lhe de surpresa, o doutor tinha completa lucidez de que não era Sophi, então, porque ele sempre via uma na outra? Oh, ele, como um psicólogo bem formado, sabia exatamente o motivo, mas recusava-se a acreditar que ele o tinha. precisava ocupar sua mente com outra coisa, com outra pessoa. Isso mesmo. Ao chegar àquela ideia completamente ridícula, mas que, em sua cabeça, fazia completo sentido, pegou seu telefone e discou um número conhecido, porém pouco desejado. Não precisava pensar no que estava fazendo ou no por que, o homem só precisava parar de pensar. Gostaria de se desligar do mundo, pelo menos por uns minutos. Quando a pessoa do outro lado atendera a ligação, ele abriu um sorriso.  
- ? – A voz sonolenta de Luci o chamou. Naquele momento, o doutor se dera conta de que, não sabia nem por onde começar a falar com a mulher.
- Estou muito atrasado para um pedido de desculpas? – Murmurou a primeira coisa que viera em sua cabeça, sabia exatamente que a morena esperava por isso, só não havia percebido o quanto tinha demorado.
- Sim, muito atrasado. – Luci disse aborrecida. – Você some por quase um mês e me trata super mal, e de repente, quando te dá na telha, você me liga com um pedido de desculpas? – Perguntou irritada. – Vá a merda, .
- Luci, por favor. – Colocou a mão na têmpora, massageando-a. Por um segundo ele esquecera o motivo de querer afastar a mulher de sua vida, só por um segundo... Pois, logo lembrara o quanto a morena o sugava para um drama sem fim, onde ele era sempre o vilão e ela a mocinha. – Estou arrependido e liguei para te pedir desculpas.
- Como não vou saber se você não fará a mesma coisa de novo? – Questionou receosa e, ao mesmo tempo, tentada a aceitar logo o pedido de desculpas. A verdade era que a mulher sentia a falta do outro, e o queria por perto, e o mínimo interesse dele para aquele relacionamento já contava cem pontos em seu placar. Luci era pateticamente desesperada por . Aquele típico relacionamento onde a mulher não tem amor próprio e aceita qualquer migalha do parceiro. Faltava amor próprio a Luci por permitir que saísse e entrasse em sua vida sempre que achasse necessário. E, querendo ou não, nunca estivera nenhum pouco apaixonado pela mulher, então o mesmo a queria só para distração e já tinha lhe dito, Luci o aceitava e criava expectativa por conta própria. nunca dera esperança para isso.
- Eu prometo Luci. – Suspirou cansado de todo o drama da morena.
- Tudo bem. – O doutor podia jurar que, do outro lado da linha, a mulher estaria sorrindo abobalhada, jurando que tinha o homem em suas mãos, mas que, verdade seja dita, era ele que a tinha.

***


O clima dentro do seu carro estava bem mais aconchegante do que o frio que fazia no estacionamento de seu consultório, entretanto, precisava trabalhar. Ele havia conseguido uma distração física, e, agora buscava uma distração mental. Quanto menos tempo livre sua mente tivesse, melhor. E era isso que ele fazia desde que Sophi morrera, afogava-se em trabalho, não dando espaço para pensamentos, lembranças e emoções. era uma máquina presa, só sabia fazer uma única coisa, quebrada no modo “repetir” num ciclo vicioso. E temia que, se arriscasse parar, desmoronaria. Assim que pôs os pés no consultório vira Jenny sentada em sua mesa digitando algo em seu computador, vira também que, sua primeira paciente do dia já estava a sua espera e isso fez com que o homem se perguntasse se estava muito atrasado.
- Bom dia, Jenny. Bom dia, senhora Marin. – O homem cumprimentou as mulheres do recinto, recebendo as respostas logo em seguida. – Senhora Marin, lhe atenderei dentro de alguns instantes, primeiro preciso resolver uma questão de horários com Jenny. – Informou a mulher a sua frente. Jenny concordou com a cabeça e o seguiu até sua sala, onde, ao entrarem, fechara a porta.
- , algum problema? – A formalidade entre os dois era necessária quando pessoas estavam por perto. Particularmente, Jenny e eram amigos, ela sabia exatamente tudo o que acontecera na vida do homem, ele já ajudara a sair de um relacionamento abusivo com o ex-marido da mulher. Eles até começaram um namoro depois, mas só duraram alguns meses, pois negou-se a tratar a mulher como sempre tratara todas às outras depois de Sophi, como um brinquedo.
- Jen, preciso saber se John Gonçalves marcou alguma consulta para sua irmã hoje. – Questionou enquanto arrumava sua mesa e pegava o arquivo de Ingrid Marin.
- Sim, . – Respondeu. – Ele marcou a consulta para as três da tarde.
- Ótimo. – Disperso em seus pensamentos, respondera de forma automática. Ainda separava os arquivos da sua paciente, com anotações que fizera em sua última consulta, quando derrubou seu notebook. – Mas que merda! – Esbravejou.
- Você não me parece nada bem. – Jenny disse preocupada com a aparência do homem. Foi em direção ao notebook dele e o pegou do chão, se certificando de que continuava funcionando. – Estou preocupada com você.
- Eu estou bem, Jen. Só não estou dormindo direito essas noites. – Disse de frente para ela.
- Problemas com Luci? – Perguntou fingindo desinteresse.
- Mais ou menos. Voltamos hoje. – Jenny colocou o notebook do homem de volta a mesa e o encarou, seu olhar era confuso e não sabia distinguir quando ela o olhava daquela maneira.
- de volta ao ataque. – Brincou visivelmente chateada.
- Jenny... – Suspirou.
- Não , tá tudo bem, sério. – Disse sincera. – Eu entendo que você não goste de mim na mesma intensidade que eu de você, eu realmente entendo, sou bem grandinha, não precisa medir palavras por mim e nem mesmo achar que vou fugir daqui só porque você não me quis, ou pensar que vou fazer de tudo para você querer voltar. A única coisa que eu não consigo compreender é como você pode escolher ela a mim. Luci não te faz bem, ela sequer tenta te conhecer direito, só está contigo por conta do seu dinheiro e do status que vem por ser sua “namorada”. Não entendo como pôde escolher ela. – escutava a mulher questiona-lo de forma calma, entretanto, magoada. Jenny nunca escondera seus sentimentos ao seu chefe, e era por isso que ele sentiu a necessidade de acabar com o relacionamento logo no início, mesmo ela sendo a melhor opção para ele, estava quebrado e se negava a arrastar a mulher para mais uma montanha russa de emoções, pois, ele sabia o quanto o último relacionamento dela havia sido complicado.
- Jen, depois conversamos sobre isso. – Falou tocando o braço dela. – Aqui não. – Ao notar que o “aqui” referia-se ao local de trabalho, Jenny arregalara os olhos surpresa. Sempre fora muito profissional em relação a trabalho e relacionamentos, mas com o psicólogo ela sempre se deixava levar.
- Me desculpa . – Pigarreou ainda repreendendo-se. – Doutor. – E sem deixar com que o homem a respondesse, completou. – Vou chamar sua paciente. – E saiu rapidamente da sala, deixando-o mais abalado e absorto em pensamentos do que estava naquela manhã.

***


As horas dentro daquela sala de aula parecia não passar. não conseguia prestar atenção em nada que a mulher dizia e escrevia no quadro. A menor só estava ali simplesmente por pura obrigação. Estava cansada de lutar contra a posição de seu irmão de que precisava voltar a frequentar a escola, então, achou que, se cooperasse, poderia ir ficando mais fácil. Estava errada. Cada dia ali era uma nova tortura. Tinha que se conter naquele ambiente. Tinha que ao menos parecer normal, não aguentaria mais pessoas a julgando. Que bastasse seu cérebro para isso. Deu sorte de não ficar em sua antiga turma, junto com antigos amigos, amigas, professores, amores...
A única condição para que voltasse a frequentar aquele ambiente fora que ficasse em outra turma, pois não queria, não suportaria ver as pessoas que se importavam com ela, a olhar com pena, como se a qualquer momento ela também fosse morrer. Por isso não via Samuel ou até mesmo Hayley. Escolhera a ultima turma da escola, que ficara do outro lado da instituição. E evitada a todo custo ir para o refeitório, que infelizmente era um só, e ali a garota tinha certeza de que encontraria todos que ela trabalhava dificilmente em evitar. Nas quartas feiras ela tinha aula de física com sua antiga professora, isso não pôde evitar, era a única professora disponível naquela grade curricular, e o olhar que a mulher direcionou ao reconhecer , fora insuportável. Entretanto, era mais fácil com uma pessoa só, do que varias, todos os dias. Dava até para fingir que era outra escola, se não tivesse que esbarrar sempre em um conhecido.
Estava esperando o último aluno sair da sala para que enfim, saísse também. Arrumava suas coisas lentamente enquanto via seu professor de química fazer o mesmo. não participava das aulas, apenas ficava quieta em sua cadeira, esperando o tempo passar e poder voltar para casa, por isso nenhum professor interagia com ela, o menor requisito de interação era anulado pela garota. Depois de alguns minutos o senhor também saíra, deixando-a sozinha. suspirou aliviada, parando de arrumar suas coisas logo em seguida. Era hora do almoço, sabia disso. Tinha uma hora até que as aulas voltassem e sabia que não era uma boa ideia ir para o refeitório, pois não parava de pensar na mensagem que Samuel havia lhe enviado. Sabia que se fosse era por pura vontade de vê-lo e provavelmente ele estaria nos braços de Hayley, e essa era uma cena que ela não suportaria ver novamente sem que desabasse. Então era mais seguro que ficasse ali, esperando o tempo passar. Levou suas mãos para a mesa e de relance vira o curativo um pouco a mostra de seu casaco, sorriu lembrando-se do que havia feito. Ela ainda sentia os cortes doloridos e quando mexia os braços o incômodo que o roçar da faixa fazia naquele pedaço de pele proporcionava um misto de dor e prazer. Tentada a novamente se cortar ela apertou fortemente o curativo, lhe causando uma forte pontada. Gemeu em protesto e ao mesmo tempo, felicidade.

“Viu , eu sempre soube o que era melhor para você.”

Perdera a conta de quantas vezes aquela voz era gentil e no segundo seguinte, agressiva. Por isso talvez nem se importava quando a ouvia de forma gentil, apenas o lado agressivo daquela voz a assustava, e sabia que isso só acontecia quando ela a desobedecia.

“Boa menina. Agora aperte de novo e mais forte.”

A menor fizera exatamente como escutara, sem nenhum protesto. Aprendera da pior forma que quanto mais lutasse contra aquilo, mais difícil ficaria conviver com ela. Puxou o ar sentindo cada vez pontadas fortes em seus pulsos, e ela gostava. Era bom para sentir algo físico e não emocional. achava mais fácil lidar com aquele tipo de dor. Ao notar que seus pulsos poderiam voltar a sangrar, ela parou. Não queria ter que explicar o motivo do sangue a ninguém. Apenas dobrou os braços na mesa e apoiara sua cabeça fechando os olhos em seguida. Sentindo o pulsar vindo de seus curativos a menina não se dera conta quando Samuel entrou na sala e sentara na sua frente, a encarando-a.
- É meio difícil te encontrar quando você fica se escondendo. – A voz suave e calma do garoto a assustou. levantou rapidamente a cabeça apenas para encarar o outro.
- O que você está fazendo aqui? – Atreveu-se a perguntar quando o silêncio estava deixando-a desconfortável. Samuel olhou para ela sem entender.
- Eu te disse na mensagem, . Estive te procurando por toda escola. Esperava te ver hoje. – Ele respondeu animado por finalmente ter a encontrado. Nem mesmo as maiores dificuldades seriam o suficiente para fazer com que o rapaz desistisse de se reaproximar dela, e tinha total e completa noção disso, por isso a única maneira para lidar com aquilo era afasta-lo dela. E ela não queria que ele a visse daquele jeito, tão quebrada.
– Sam eu não sei o que você pensa que está acontecendo aqui, mas quero que você pare. – Mesmo falando tranquilamente, por dentro estava nervosa, o menor pensamento direcionado ao garoto já a deixava assim, vê-lo então, era algo que a pequena não tinha reação.
- Parar? – Perguntou confuso. – , você acabou de voltar para...
- Pra você? Pra sua vida? Me poupe. – interrompeu a fala do outro. Automaticamente Samuel abaixou a cabeça, triste. – Samuel, existe uma razão para eu ter te expulsado da minha vida. Eu não sou a mesma que você lembra. Eu definitivamente não sou a que você espera. – Completou encarando o nada. – Agora, por favor, vá embora. Não me mande mais mensagens, não apareça mais aqui, não comente a ninguém que voltei. Vá viver sua vida, me esqueça. – Agora ele a olhava nos olhos, perplexo com o que escutara.
- , eu te amo. – Murmurou. Ao escutar aquilo, fechara os olhos com força, cansada demais para lutar contra aquele sentimento. Sem saber o que fazer e com medo do rumo que aquela conversa levaria, a menor levantou-se de uma vez e caminhou rapidamente até a saída da sala, não se importando com a bolsa que deixaria sem pensar duas vezes. No mesmo instante Samuel pulou da cadeira e correra em direção a ela. Segurou o braço da menor e o puxou, fazendo com que ela voltasse e batesse seu tronco no dele. Instantaneamente Samuel entrelaçou seus braços entre seu pequeno e frágil corpo. – , eu te amo. – Repetiu mais uma vez. Suas respirações estavam ofegantes e misturava-se uma na outra. nada fazia além de encarar o garoto sem reação. Finalmente Samuel a tinha de volta em seus braços e não poderia deixa-la sair dali de novo, e num ato completamente desesperado, ele a beijou.



Continua...



Nota da autora: Eu definitivamente ponderei MUITO se queria postar o capítulo com a primeira cena ou não. Foi muito pesado para eu escrever aquilo, LEMBRAR daquilo. O que vocês leram no início já aconteceu. E aconteceu comigo. Foi uma BARRA ~maior que a do raça negra~ escrever isso. Gente, eu me senti muito mal, uma ânsia no fim da garganta. Coisas que eu não conseguia lembrar, porque minha mente bloqueou completamente esses pensamentos, mas que, ao chegar nesse ponto de BM, era impossível não abordar isso. Enfim gente, essa realmente não é uma nota feliz, pois confesso que estou um pouco perturbada, minha mente trabalhando a mil. Nunca imaginei que BM iria me deixar tão confusa e destruturada ao lembrar do meu passado. Também espero do fundo do meu coração que vocês não achem a cena pesada.
Fico muito feliz com todos os comentários positivos e todo o apoio e amor que BM vem conquistando.
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HÁ BOATOS DE QUE EXISTEM CENAS NO TRAILER QUE EU VOU ME INSPIRAR E LEVAR PARA A FIC... boatos.
Bom, é isso gostosonas.
Um beijo, até a próxima atualização.
Mamãe ama vocês! <3

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