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How can I fix a heart?






01.


Denver — Colorado, Estados Unidos, 21:27PM, 14 de Dezembro de 1997.

Liberou a nicotina presa em seus pulmões pelas narinas finas, tossindo em seguida. No copo, a bebida mais cara era a sua única companhia, e ela apreciava isso. Uma melodia calma e completamente melancólica soava ao fundo — De seu pensamento —, fazendo da situação um clichê típico dos livros de drama. Podia escutar o subconsciente gritando o quão errado era aquilo, gritando que precisava reverter a situação, mas não conseguia. Não queria. Talvez fosse aquilo, a mulher queria afogar as magoas em bebida e tabaco e no outro dia estaria tudo bem. Não é assim que funciona? No outro dia sempre fica tudo bem. Mas não era o caso daquela mulher, aparentemente. Nada parecia funcionar, nem mesmo o choro excessivo. Na verdade, este método, para ela, era como um pecado, se sentiria fracassada se o fizesse.
Deu a última tragada em seu cigarro, colocando-o no cinzeiro de metal para levantar-se, com a intenção de tomar um banho quente. Os saltos finos quase não faziam barulho no carpete bege do apartamento localizado no centro de Denver. Sentiu suas pernas ficarem bambas lhe fazendo desequilibrar, mesmo que minimamente, para o lado e sorriu ao saber que o efeito do álcool ainda estava bombeando seu sangue.

Sim, ela sorriu.

O quão bom era estar anestesiada de sua realidade?

Chegou em seu quarto sem dar importância ao número que berrava um barulho extremamente estridente para seus ouvidos sensíveis na bina de seu celular, optou por ignorar enquanto andava até o banheiro. Tocou o chão gelado com os pés descalços após tirar os saltos, sentindo pequenos choques térmicos acertarem seu corpo ainda coberto pelas roupas escuras. Girou o registro e escutou o barulho da água bater contra a porcelana da banheira e o vapor embaçar o enorme espelho que tomava a extensão da parede ao lado. Despiu-se rápido, enfiando seus pés na banheira para depois seu corpo inteiro. Submergiu, prendo a respiração por algum espaço de tempo. conseguia sentir a água relaxar cada átomo de seu corpo e, por um momento, pensou que ficar ali até que o líquido passasse por todas suas vias respiratórias era o melhor a se fazer.

Emergiu puxando todo oxigênio que conseguia para dentro de seus pulmões, assustada. Por quanto tempo havia ficado embaixo d'água?

Quando saiu do banheiro encontrou o celular ainda tocando incessantemente em cima de sua cama, com o nome de sua irmã brilhando no aparelho e em baixo mostrando que ela havia feito mais de sete ligações sem sucesso. Não viu outra saída senão atender.

— Está tudo bem comigo. — garantia, enquanto segurava o celular com uma mão e passava a toalha pelo cabelo molhado com a outra.
— Mesmo? — Louise, irmã mais nova de , insistiu.
Soltou um suspiro pesado, irritado e longo, que nada incomodou Louise que estava acostumada.
— Mesmo, Louise, não se preocupe. Posso desligar agora? Estou exausta, tive um longo dia. — Murmurou do outro lado, esperando a irmã desistir daquela conversa.
— Tudo bem, mas antes uma última pergunta.
— Rápido.
— Passa o Natal comigo e com a mamãe? — Louise pediu.
Se não aceitasse, aquele seria o quarto ano seguido que ela passaria o Natal longe da família.
— Por favor, é que faz tanto tempo que não passamos uma data comemorativa reunidas e, você sabe, a mamãe não fala nada, mas nós duas sabemos que ela sente por isso.
Foi inevitável o incomodo no peito da mulher que agora deixara a toalha de lado para que pudesse prestar atenção na irmã. Não que antes ela não estivesse dando importância ao que a mais nova dizia, talvez só estivesse respondendo as perguntas de Louise de forma automática, como um robô que tem tudo programado em seu sistema para que nada saia fora do script.
— E então, o que me diz? — Escutou a irmã do outro lado da linha, ansiosa pela resposta.
— Eu não sei. — Suspirou, sentindo-se uma completa estúpida. — Provavelmente estarei cheia de trabalho e talvez fique por aqui mesmo.
Mentirosa! Sabia que não estaria cheia de trabalho, pois estava correndo com todas as matérias agora para que não precisasse trabalhar em pleno Natal.
— Certo, tudo bem. — Louise soltou baixo, e, pelo tom que ela usou, soube que estava chateada, mas não era culpa dela. Ou era? — Te ligo na noite de Natal, sim?
— Esperarei. — Garantiu, tirando o celular da orelha para apertar o botão que finalizaria a chamada, sem esperar uma resposta do outro lado da linha.

Depositou o aparelho em cima da mesa redonda que ficava em seu quarto e caminhou até sua cama, deitando-se em seguida. Seus olhos caminharam em suas próprias orbitas para as quatro paredes que a envolviam naquele quadrado que parecia ser minúsculo agora, lhe sufocando mais e mais a cada minuto. Em pensar que seu maior sonho, agora pesadelo, se abrigava na porta ao lado lhe dava uma sensação imensa de insegurança. Rolou na cama até achar um travesseiro, colocou a cabeça nele e soltou o grito que segurou o dia inteiro. Gritou o que queria gritar a semana inteira, o mês, e o ano inteiro. Era toda a frustração de seu desespero, seu medo, sua angústia e dor indo embora, ou pelo menos, tentando.

Finalmente se permitiu fracassar e chorou.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 08:09AM, 15 de Dezembro de 1997.

O tic-tac do relógio fazia o homem irritar-se com a hora que parecia não passar, ou melhor, ela passava, sim, e muito rápido. Lisa é que não chegava. O café, posto em cima da mesa que ficava no canto da sala, fumegava enquanto espalhava seu delicioso aroma pelo pequeno apartamento.

rolou seus olhos pelo espaço a procura de uma bolinha cor-de-rosa que se chamava Charlotte ou, como ele gostava de chamar, apenas Charlie. Encontrou a garotinha sentada brincando com algumas peças de algum brinquedo quebrado. Os olhos de Charlie fitaram o homem curiosamente, e ele pôde notar, mais uma vez, a grande semelhança que ela carregava de seu falecido irmão. Naquele momento, não era mais a menina que ele estava assistindo brincar, mas sim Ethan quando pequeno.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 23:07PM, 20 de Outubro de 1994.


— Eu não sei o que fazer! — Ethan colocou as mãos nos fios de cabelo louros, completamente desnorteado.
Poderia segurar o irmão que o encarava pela gola de sua camisa bem passada e enforcá-lo ali mesmo, tamanho era seu nervosismo. Estava encrencado!
— Como não sabe o que fazer? Não é óbvio? — perguntou, usando seu melhor tom de obviedade.
— Deveria?
— Ethan, me escuta. — O outro se aproximou, colocando as mãos nos ombros do irmão mais novo. — O melhor que se tem a fazer é encarar nossos pais e assumir essa criança.
— O quê? Eu não posso, , está se ouvindo? — Ethan bateu os cílios longos com pesar, negando com a cabeça em seguida. — Juntei minhas economias para a universidade e agora que está tudo certo, essa bomba caí nas minhas costas. Eu só tenho dezenove anos. — Ele falava energeticamente, tentando convencer o irmão de que aquilo era loucura. — E ainda tem a mamãe, como se não bastasse, certo? Ela vai pirar quando souber que vai ser avó aos cinquenta e dois anos!
— Dezenove anos e ainda não sabe o que é preservativo? O que resta é arcar com as consequências de seus atos! — alertou, severo.

Fim do Flashback.

O rapaz suspirou frustrado ao lembrar-se de como o irmão ficou desesperado quando soube que sua primeira namorada estava grávida. , como irmão mais velho, fez de tudo para convencer Ethan de que o melhor a se fazer era encarar tudo, e foi isso que ele fez. Tomou os conselhos do outro e encarou tudo, inclusive sua mãe prestes a ter um infarto bem no meio da sala quando ele contara sobre, e assumiu a criança. Bem... Ele iria. Se não fosse pelo maldito álcool bombeando seu sangue nervoso, pelo maldito carro com rodas cromadas que ele ganhara em um pega de rua em uma de suas noitadas em Denver, pela maldita chuva que caia naquela noite de quinta-feira, e pela maldita irresponsabilidade que tirou a vida do mesmo. ainda lembrava-se de como fora difícil receber a notícia. Lembrava de sua mãe sendo arrastada pelos policiais por ultrapassar a faixa que permitia o acesso à lataria assustadoramente amassada e destruída, de seu pai tendo de engolir o choro para que sua mãe não ficasse ainda pior, de Joanna, a namorada de Ethan, chorando copiosamente na calçada.

Flashback.

Glendale — Colorado, Estados Unidos, 03:33AM, 22 de Fevereiro de 1995.


O movimento era intenso no local, muitos policiais e uma ambulância com paramédicos circundavam a lataria do carro preto. O barulho de conversas paralelas era silencioso aos ouvidos do rapaz que observava o carro estático, com as pernas bambas e sentindo seu peito contorcer-se em dor. Não escutava nada ao redor, tudo que conseguira ouvir era a voz de seu irmão mais novo lhe dando parabéns dias atrás, enquanto lhe entregava uma guitarra novinha em folha, sabendo o quão apaixonado era por elas. Lembrou-se do último Natal, o aniversário de Ethan, e o quão divertido foi ter a família inteira reunida para comemorar aqueles dois eventos.

Só podia ser brincadeira! Não podia ser o carro do seu irmão ali, aquele corpo inerte que fora retirado do carro com toda cautela por profissionais e depois colocado em uma maca de hospital não pode ser do seu irmão! Não podia! Era uma brincadeira de muito mal gosto e ele só esperava para saber quem fora o infeliz que inventou aquilo.

podia sentir que suas pernas cederiam a qualquer momento, lhe fazendo cair ali mesmo. Não podia mentir, parecia quase assustador segurar as lágrimas, ele precisava expulsá-las para que sua dor, quase palpável, diga-se de passagem, saísse com elas de alguma forma. Seus olhos rolaram pelo local, procurando por algum lugar que não fosse o meio da rua para que pudesse sentar-se, e fitou Joanna que tinha as mãos em frente ao rosto, cobrindo-o. O rapaz respirou fundo, colocou seus dedos sobre seu nariz e o apertou, afim de prender o choro. Levou mais uma lufada de ar fresco para seus pulmões e limpou a região dos olhos com a manga de sua camisa longa, caminhando até Joanna logo depois.

— Como se sente? — perguntou baixo, sentando-se ao lado da garota que quando percebeu sua presença, levantou o rosto e lhe sorriu sem humor.
— Como acha que estou me sentindo? — Perguntou, debochada enquanto limpava seus olhos com as mãos e deixava o olhar, inevitavelmente, fitar o carro amassado.
— Tudo bem, foi uma pergunta estúpida. — O rapaz admitiu, soltando uma risada sem som e humor. — Me desculpa por isso. Eu... — Começou novamente, arrancando alguns capins que lutavam para crescer nas rachaduras do asfalto à sua frente. — Eu sei que meus pais não apoiam totalmente essa ideia de ter um bebê na família agora, mas não irão te desamparar nunca, certo?
— Eu sei, e sou grata por isso.
— Ele era demais, não era? — questionou mais para si do que para Joanna que apenas lhe soltou um murmúrio baixo, desacreditada. — Está tarde, peça para Mackenzie te levar até a cada do tio Cletus, tome um banho, coma algo e descanse, sim? — Ele recomendou, levantando-se para segurar as mãos da cunhada para que ela também pudesse se levantar.

Eles estavam em Glandale para a festa de quinze anos de casamento de Cletus, irmão de Suzanne, e Elizabeth que aconteceria no final de semana no maior e melhor clube da cidade. Estavam todos animados e a correria no casarão da família não parava, para lá e para cá à procura de roupas bonitas para a ocasião. Mulheres corriam atrás de novos vestidos e horários no cabeleireiro, e os homens atrás de smokings e algum gel que deixassem os cabelos fixados o dia inteiro sem que criasse bolinhas brancas depois de secos.

— Desculpe. — Joanna pediu, baixinho.
— Pelo quê?
— Por ter sido rude, eu não queria. É que... — Começou fungando, sentindo as lágrimas ganharem força novamente. — Estava tudo indo bem entre nós, entende? Eu pensei que depois que eu contasse sobre o bebê algo iria mudar, pensei que ele iria surtar e me mandar ir embora da vida dele, mas não. — Ela negou com a cabeça, fechando os olhos e sorrindo por lembrar-se de algo bom. — Posso me arriscar e dizer que estava até melhor? Ethan estava começando a aceitar a ideia de que iriamos ter um filho, mas olhe só agora. Olhe só agora! — Joanna pediu desesperada, apontando para o carro e depois colocando as duas mãos sobre sua cabeça, puxando seu cabelo levemente. — Ele se foi, . Ethan foi embora! — Joanna gritou à plenos pulmões, deixando as lágrimas caírem sem constrangimento.
— Eu... eu sinto tanto, Joanna. Tanto. — aproximou-se da mulher para que pudesse abraçá-la.
Envolveu-a com os braços e sentiu a região de seu ombro ficar úmida devido ao pranto excessivo da moça que tinha uma saliência em sua barriga de seis meses. É claro que ele se sentia horrível por tudo aquilo, mas naquele momento, ele sabia que aquela garota e o bebê que ela carregava eram muito mais sensíveis e precisavam mais de atenção do que ele.

Ele ficaria bem.

Fim do Flashback.

Sentiu duas pequenas mãos em suas pernas e notou Charlie o observando cuidadosamente, como se perguntasse se ele não iria atender a campainha que berrava e ele ao menos percebera.
— Obrigado por avisar. — riu para a garotinha que mostrou seus pequenos dentes em um belo sorriso miúdo.
Caminhou apressado até a porta, destrancando a fechadura para dar de cara com uma Lisa impaciente.
— Pensei que estivesse morto no banheiro! — Lisa falou, apressando-se para entrar sem esperar que ele lhe desse passagem para isto. — Cadê minha bebê favorita? — Pediu, procurando por Charlie com seus olhos orientais.
— Obrigada por aparecer, Lisa, me quebrou um ganho e tanto.
Lisa estava em Denver desde que tinha quatro anos, e agora com dezessete fazia de tudo para conseguir o dinheiro necessário para custear sua faculdade de design gráfico, desde vender seus livros a cuidar de bebês. Seus cabelos curtos eram negros e poucas sardas pintavam seu rosto redondo que carregava uma armação quadrada que era sustentada por suas orelhas e nariz. tinha vontade de rir sempre que olhava para a garota, a achava parecida com um personagem de desenho. Ela era adorável.
— Como sempre, huh? — Lisa brincou, caminhando até Charlie para pegá-la no colo.
— É, como sempre.
— Pode ir, . Charlie vai ficar bem, não é, bebê? — Perguntou para a menina que acenou energeticamente com a cabeça.
— Telefones para emergência estão pendurados na geladeira, caso a casa pegue fogo, alguém entre ou a Charlie faça cocô. — Ele falou, numerando as possibilidades nos dedos da mão esquerda, enquanto pegava sua mochila com a direita.
Lisa deu risada da possibilidade número três, parando logo ao perceber que estava sério.
— Não ria. É sério, essa garotinha é poderosa. — Riu para continuar com suas preocupações excessivas. — Nove horas é a hora em que ela come alguma fruta, ela gosta muito de... — Foi interrompido de seu falatório.
— Maçã, eu sei. Pode ir. — Lisa revirou os olhos nas órbitas, mostrando que sabia tudo de cor e salteado e que não havia necessidade preocupar-se tanto. O rapaz calou-se imediatamente.
— Certo, preciso ir. — Disse enquanto colocava as alças da mochila em seus ombros. — O papai volta daqui a pouco, tudo bem? Não dê trabalho. — Ele avisou, olhando a menina sorrir.
Com um menear de cabeça, despediu-se das duas e rumou às escadas do pequeno prédio onde moravam no terceiro andar no subúrbio de Denver, mais precisamente. Deu bom dia para Bruce, o porteiro, que gentilmente lhe retribuiu, como fazia todas as manhãs em que o rapaz pegava sua bicicleta ao lado da guarita, onde ficava presa à uma barra de ferro. Encarou seu meio de transporte amarelo e soltou um murmúrio, aquilo precisava de uma pintura!

No MP3 do rapaz, alguma música tocava na rádio local, enquanto seus olhos rápidos observavam as poucas pessoas que saiam para trabalhar àquela hora ali no bairro. Ele acenava para alguns e dava bom dia para outros, enquanto pedalava em direção ao restaurante do senhor Smith. Por sorte, o local não era longe o que deixava-o aliviado por saber que qualquer coisa que Charlie precisasse, ele estaria por perto.

encarou a vidraça que cobria a extensão de toda fachada e foi em direção aos fundos do lugar, onde acorrentou sua bicicleta, novamente, à uma barra de ferro. Tirou a mochila dos ombros e suspirou, mais um dia. Empurrou a porta dando de cara com seus colegas de trabalho fazendo o que sabem fazer de melhor e deixando os estômagos alheios felizes e satisfeitos. Jared cortava um pimentão com agilidade, enquanto alguma coisa borbulhava no fogão em fogo alto.
— Bom dia, pessoal. — Saudou, sorrindo.
— Bom dia. — Jared e Ashley responderam em uníssono.

Ele andou em direção ao banheiro reservado para funcionários, onde faria sua troca de roupa. Entrou no cubículo e trancou a porta, encarando seu próprio reflexo no espelho e ligando a torneira, deixando a água gelada escorrer por suas mãos para depois levá-las até seu rosto. Sustentou suas mãos nas laterais da pia e olhou novamente para o espelho, notando a pequena cicatriz em seu supercílio, suspirando ao lembrar-se de como aquele corte fora feito.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 17:17PM, 19 de Maio de 1981.


— Não, Ethan! Esse carrinho é meu. — corria atrás do irmão caçula para pegar seu brinquedo favorito.
O mais novo corria pela casa dos pais enquanto ria do outro que estava irritado. Ele não queria devolver o carrinho favorito de ! O quão absurdo aquilo soava para uma criança de oito anos?
— Não! Eu quero brincar, depois te devolvo.
Ethan correu escada acima enquanto gargalhava do irmão que corria atrás dele. Foi quando desequilibrou-se e caiu, batendo a testa na quina da escada de madeira. Sentiu seu supercílio arder e passou a mão, o que era aquilo vermelho? Ô-ôu.
Levantou-se sentindo seus olhos encherem de lágrimas, mas não iria chorar, caso o fizesse, seu irmão iria lhe zombar até o próximo Natal. Mas, droga, ardia tanto!

Fim do Flashback.

— Droga! — Murmurou para si mesmo. — Você está ficando maluco, definitivamente.
Sem mais demora ou memórias que o levassem para um mundo distante onde seu irmão não estava enterrado à sete palmos do chão, abriu a mochila para tirar de lá seu uniforme que emanava o delicioso cheiro do amaciante que ele costumava usar quando lavava suas roupas. Trocou-se e colocou suas vestes que usava antes dentro da mochila, para então fechá-la e sair do banheiro, indo em direção à saleta, também para funcionários, onde guardaria seus pertences.

Mais um dia de trabalho. você pode fazer isso.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 10:17AM, 15 de Dezembro de 1997.

— Pode levar um café bem forte na minha sala, sim? Sem aquela sobra de açúcar no final, por favor. — pediu assim que passou pela mesa de Katherine, ou seria Karina?
— Não demoro. — Escutou a mulher concordar, parando de digitar em seu computador de tela grossa, para levantar-se prontamente.
arrastou os saltos finos pelo piso de acrílico até sua sala, empurrando a porta assim que girou a maçaneta de metal, entrando em seguida. Tratou de tirar seu sobretudo e colocá-lo com sua bolsa na poltrona que ficava ao lado da entrada da espaçosa sala que acolhia uma mesa bonita ao seu centro, poltronas de couro preto, um sofá na lateral na cor caramelo e alguns armários que abrigavam milhares de matérias e sabe-se-lá-mais-o-quê.
— Maximiliam! — Exclamou, irritada. — Quantas vezes vou ter que pedir para que não sente na minha cadeira? Sabe que odeio isso. — Explicou novamente, irritada. Fala sério, ele sempre fazia aquilo!
— Relaxe, baby, só estava descansando um pouco. Sabe, nós do almoxarifado não temos o privilégio de termos uma cadeira tão macia quanto a sua. — Defendeu-se enquanto se levantava para que a mulher se sentasse. — Na realidade, nem temos uma cadeira. Ficamos o dia inteiro subindo e descendo elevadores, daqui a pouco quando eu entrar em um, ele acenderá os botões sozinhos dos andares. — Disse pensativo, colocando o dedo indicador no queixo. — É interessante essa ideia, não? Talvez, pudessem colocar alguns sensores nos elevadores e assim poupariam meus dedos.
— Cale a boca e poupe meus ouvidos, que tal? — sorriu sem humor para o rapaz que soltou uma risada baixa. — Essa ideia me parece muito mais interessante. — Continuou, enquanto pegava seu laptop dentro da gaveta que ficava trancada. — Se quer se sentar em uma cadeira confortável como a minha e colocar os pés em uma mesa grande, trabalhe. — Maximiliam gargalhou, achando engraçado a forma como a mulher falava rápido e gesticulava com as mãos exageradamente.
— Está livre amanhã? — Perguntou, galante, mudando de assunto.
— Para você? Não.
Sua resposta rápida fez o rapaz apertar os olhos, rindo.
— Não banque a difícil. Sabe que eu adoro um desafio, certo? Então isso não será um problema.
— Do que está falando? — abaixou os óculos de grau que colocara segundos antes para encarar Max que mantinha os braços cruzados na frente de seu peito.
— Estou falando que será um desafio e tanto conquistar você. — Ele levantou a sobrancelha direita sugestivamente, o que fez a mulher o encarar, séria, e logo depois soltar uma gargalhada alta e exagerada.
Nervoso, ele passou a língua pelos lábios, afim de umedecê-los.
— Desista, Murs. — Aconselhou, recuperando-se. — Sempre fomos amigos, somos e sempre seremos.
— Fala isso como se nós nunca tivéssemos ido para a cama. — Max soltou, sugestivo e abusado, observando a mulher girar os olhos, frustrada.
Por Deus, aquilo foi em uma festa de fim de ano promovida pela revista, o nível alcóolico no sague da moça a fazia perder a noção de seus atos.
— Eu estava bêbada!
— É mesmo? Então está me dizendo que a semana passada você também estava?
— Chega! — aumentou minimamente o tom, passando os dedos ossudos pela parte superior de seu laptop, fechando-o. — O que faço para me deixar em paz? Tenho muitas matérias para reler e aprovar.
— Estou te chamando para sair há dias, é só aceitar meu convite e prometo dar o ar da graça só amanhã.
O que custava aceitar o convite do rapaz, afinal? Max sempre insistia e ela sempre recusara. Talvez se aceitasse ele perceberia que ela não era mulher para ele. Ela não era mulher para ninguém.
— E então?
— Certo, um almoço amanhã. Feliz? Ótimo, agora saia, por favor. — Disse apressada, observando o homem caminhar em sua direção. Maximiliam inclinou-se e pegou sua mão, selando-a no dorso, o que fez a mulher rir e dar um leve tapa em sua cabeça. Ele, nada disse, apenas caminhou em direção à porta e saiu para que pudesse soltar um “Yes” e colocar os braços para o alto, em comemoração.

Dentro da sala, a moça suspirou lembrando-se de que se conheceram assim que ela entrara na redação ainda como auxiliar do editor-chefe. Chegou, inclusive, a escrever algumas colunas para a EDownTown e logo cresceu dentro da revista, passando, agora, a substituir o cargo de seu antigo superior. Já Maximiliam sempre trabalhou no almoxarifado e desde sempre, também, teve uma afeição profunda pela mulher que todos chamavam de Miranda Priestly, e não podia negar, adorava dar uns amassos aqui e ali com o rapaz, mas nunca passou disso, claro, e, se dependesse da mulher, nunca passaria. Não que ela usasse Max para satisfazer-se sexualmente, de maneira nenhuma, só não o via da mesma forma que ele a tinha em sua mente.

O barulho de batidas na porta fez-se presente, tirando de seus pensamentos estúpidos e pedindo que a pessoa entrasse. Katherine ou Karina — Realmente não se lembrava de como a mulher se chamava — entrou pela porta segurando um pires de porcelana branco.
— Seu café.
— Claro, meu café. Como pude me esquecer? — Deu risada, colocando os fios que caíam na lateral de sua cabeça atrás de sua orelha. Maximiliam havia a deixado tão desnorteada que nem mesmo lembrou-se de seu cura-ressaca. — Obrigada... — Parou, apertando os olhos enquanto custava a lembrar o nome da moça.
— Karen. — Karen completou, rindo baixo.
Então não era nem Katherine, e muito menos Karina? Tudo bem, passou perto.
— Isso, Karen, claro. Muito obrigada. — A outra concordou com a cabeça e girou os calcanhares para, então, deixar a sala, deixando a mulher livre para relaxar na cadeira de rodinhas enquanto bebericava seu café fumegante e pensativa quanto à roupa que usaria no dia seguinte.

O quê? Ela ainda sentia-se animada para um encontro, oras!

Denver — Colorado, Estados Unidos, 13:18PM, 15 de Dezembro de 1997.

— O que pretende fazer no Natal? — Jared puxou assunto com que, estranhamente, estava muito calado.
Observou o homem suspirar enquanto refogava alguns legumes.
— Irei ao centro da cidade com Charlie, comprar alguns doces, afinal, é Natal, então está liberado. — Riu baixo. — E você?
— Zoe ainda está decidindo, mas acho que iremos para a casa dos pais dela. — Zoe era a namorada de Jared desde o colegial, noivaram-se no começo daquele mesmo ano e faltava pouco para os dois trocarem alianças e promessas de amor. — E seus pais?
— Minha mãe ainda deve me odiar por largar a universidade e fazer algo que realmente gosto, por isso evito ir para lá, sabe? Ela sempre arruma alguma coisa para começar uma discussão e eu, realmente, não quero aborrecer meu pai por conta dos caprichos dela.
— Entendo, mas e Charlie? Como ela está? — Jared alargou o sorriso ao lembrar-se da garotinha.
— Crescendo, e muito. — riu. — Ela está muito tagarela ultimamente, mas só conversa comigo, não gosta de falar com os outros, não entendo. — Parou por um momento, exibindo sua melhor pose de pensador.
Jared riu do mais novo.
— É preocupante. Quando for pai, irá entender.
— Mal posso esperar! — Exclamou animado, levantando a faca que segurava em comemoração.
— Cuidado com isso, cara. — afastou-se, segurando com o braço esticado a mão do amigo que ainda ria.
— Mas, me diz, você ama essa coisa de ser pai, não é? — Perguntou, abaixando sua mão que segurava a faca para continuar o que estava fazendo.
— É, definitivamente, a melhor coisa que me aconteceu. Tipo, sério. — Contava, feliz. Podia sentir seu coração aquecer em amor sempre que falava de sua garotinha, era inevitável.

Quando seu irmão falecera, sentiu que nada poderia substituir sua presença. De fato, o mais novo era único e nada nem ninguém podia substituir a falta que ele fazia para a família, mas, para tornar essa perda mais suportável, Charlie nasceu. Nasceu com os mesmos olhos graúdos do irmão, o mesmo nariz fino e, até mesmo, o mesmo carinho que Ethan tinha para com as pessoas, embora demonstrasse muito pouco. A pequena garotinha que de nada sabia, chegara para tornar o mundo um pouco mais suportável. Talvez, tornar tudo muito mais suportável. Ela era a força que todos precisavam, disso não tinha dúvidas.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 23:32PM, 24 de Dezembro de 1981.


Bexigas coloridas enfeitavam a casa da família que estava reunida naquela noite para comemorar o Natal e o aniversário do pequeno Ethan, este correndo pelo grande quintal com Justice, sua prima da mesma idade. Os adultos conversaram sentados em cadeiras que estavam espalhadas pelo ambiente e as crianças divertiam-se da melhor forma possível; umas brincavam de correr e esconder, outras preferiam pular no pula-pula ou mergulhar na piscina de bolinhas que foram armados apenas pela insistência de Ethan aos pais. Todos carregavam chapéus coloridos em suas cabeças por se tratar de uma festa de criança e a caixa grande que ficava ao lado da porta, estava cheia de presentes para Ethan que queria abri-los logo, totalmente ansioso para saber o que ganhara.

— Está na hora de cantar os parabéns! — Suzanne, mãe dos meninos, avisou alto, chamando a atenção de todos que estavam ao seu redor.

Sem nem pensarem, as crianças serelepes correram para dentro do casarão e posicionaram-se defronte a grande mesa que abrigava o bolo de coloração verde, em homenagem ao personagem Hulk, e muitos outros docinhos. Os adultos ficaram mais atrás, posicionando suas câmeras e celulares no alto, afim de registrarem o momento. Suzanne passou o corpo para atrás da mesa com seu marido, Pierre, e o filho mais velho, para ficarem ao lado de Ethan que subira num pequeno banquinho para alcançar as velas que indicavam o zero e o seis. Logo a tão conhecida música começou a soar pelo ambiente. Todos cantavam felizes e alto, batendo palmas enquanto os flash’s das câmeras faziam-se presente em meio ao escuro, registrando caras e bocas de Ethan que cantava olhando para o bolo, ansioso pelo momento em que provaria um pedaço.

— Faça um pedido, Ethan! — explicou, quando todos pararam de cantar para esperar o pequeno assoprar as velas que enfeitavam o bolo. — Faça! — Ethan rolou os olhos perdidos por todos à sua frente, colocando-os em cima de seu pai e depois sua mãe.
— Eu quero uma torta de limão feita pela mamãe. — Ethan decidiu, falando alto e inclinando-se para assoprar a fina linha de fogo.
O mais novo sentiu seu rosto gelar e sua boca ficar doce, sua respiração ficou presa nos pulmões por um momento.
— Oh, não! — Suzanne sussurrou dramaticamente, olhando para que ria por ter afundado o rosto do irmão no bolo, estragando o trabalho de horas da confeiteira. —, querido, não!
O menino passou para o lado do pai com quem trocou um high-five cúmplice enquanto ouvia os risos alheios e observava a mãe limpar o rosto de Ethan com um guardanapo, apressada.

Fim do Flashback.

Guardava lembranças boas do irmão; desde sua infância até sua adolescência de garoto fodedor-de-sonhos-de-garotas-do-colégio. Lembrava-se de quando seu celular tocava constantemente e sempre eram garotas que procuravam pelo suposto dono do número. Ethan passava o celular do irmão para não ter nenhuma garota cobrando nada dele, ele sabia que sempre arrumaria uma forma de enrolar e passar o pano por cima do mais novo. Por mais que o rapaz odiasse isso na época, ele sentia falta naquele momento.

Passou o resto de seu expediente como qualquer outro em qualquer outro dia, com o restaurante à mil como sempre fora. Claro que na hora do almoço o movimento dobrava devido as incríveis massas que eles ofereciam aos clientes famintos que procuravam por um lugar com um bom atendimento, boa comida e um ambiente relaxante. O Bistro’s tinha tudo aquilo.

Naquele dia, fora o último a ir embora, colocando seu casaco depois de trocar sua roupa devido ao frio que fazia do lado de fora. Checou novamente todas as entradas do restaurante para certificar-se de que não deixara nenhuma aberta, e assim que teve certeza de que todas estavam trancadas, saiu pela porta do fundo, trancando-a em seguida e colocando o molho de chaves dentro de sua mochila. Destrancou o cadeado que prendia a corrente de sua bicicleta à barra de ferro e guardou-os também dentro da mochila, montando no banco de couro desgastado e movendo os pés em cima dos pedais. Passava-se um pouco mais das dez da noite quando o homem pedalava até sua casa, enquanto uma fina garoa caía sobre sua cabeça, o fazendo murmurar baixinho. Ele não podia ficar resfriado! Definitivamente, não. Provavelmente teria de tomar um chá para amenizar a dor na garganta que ganharia de brinde e só sua mãe sabia o quanto ele odiava a bebida e fazia cara feia ao ter que engoli-la. Ninguém além de sua mãe precisava saber disso, é claro. Parou no farol da avenida que dobraria sua casa e encarou o semáforo, contando os trinta e cinco segundos mentalmente para que ele ficasse aberto novamente.

Depois de guardar sua bicicleta, subiu as escadas do pequeno prédio, apressado. Queria tirar a roupa e os sapatos molhados o mais rápido possível, aquele barulho que seus tênis faziam o irritava e a cada passo que ele dava, o barulho parecia ecoar em sua mente. Chegou ao apartamento de número seis e puxou as chaves do bolso, abrindo a porta e passando para dentro, fechando-a atrás de si. Lisa parecia estar muito confortável no pequeno sofá enquanto dormia em um dos cantos, mas ele tinha certeza que aquilo resultaria numa bela dor nas costas no dia seguinte. Pensou, por um momento, não chamar a moça e deixá-la dormir ali, mas ela só tinha dezessete anos e se passava das dez da noite, não queria ficar conhecido no bairro como aliciador de menores ou qualquer outra coisa do gênero.
— Lisa? — Chamou a garota, cutucando-a. — Cheguei. — Observou a mais nova arrumar-se rapidamente ao abrir os olhos, passando as mãos pelos cabelos. Suas bochechas criaram uma leve tonalidade rosa, fazendo o rapaz rir. — Onde está Charlie?
— Dormindo. — Lisa explicou, levantando-se enquanto procurava por sua bolsa. — Ela queria te esperar, mas acho que o sono foi mais forte. — Deu risada, ainda envergonhada. — Bom, acho que deu minha hora, né? — Checou seu relógio de pulso, arregalando seus olhos puxados.
Merda!
Teria uma prova importante no dia seguinte para ganhar uma bolsa numa faculdade importante da cidade e nem revisara o conteúdo.
— Eu não revisei o conteúdo para a prova de amanhã, preciso ir!
Lisa caminhou em passos largos até a porta, sendo seguida por que a olhava confuso.
— Eu posso te acompanhar, se quiser. Está garoando. — Ele avisou e repensou. — Certo, não que minha bicicleta irá evitar que nós tomemos chuva, mas é mais rápido que ir andando. — Explicou.
— Não precisa, eu vou de ônibus. — Garantiu, arrumando seu bolsa em seu ombro esquerdo.

Sem insistir muito, despediu-se da garota depois de lhe pagar o combinado, fechando a porta assim que Lisa sumiu escada à baixo. Pegou sua mochila, esta posta em cima do sofá, e caminhou até seu quarto que estava mal iluminado por ter a luz desligada e a única iluminação que se propagava por ali era a luz da sala que chegava arrastada. Sobre a cama, Charlie estava deitada no meio, com um travesseiro na ponta caso a garotinha acordasse e resolvesse descer. Ela costumava fazer isso sempre; acordava e descia da cama sozinha, sem esperar pelo pai que quando acordava, desesperava-se por alguns segundos até lembrar que a garotinha tinha esse costume que qualquer dia lhe mataria do coração. Exagero, ele sabe.

Sem fazer barulho, o homem pegou uma toalha limpa em seu armário e foi à passos silenciosos até o banheiro que ficava no mesmo corredor. Despiu-se assim que fechou a porta atrás de si, sentindo-se aliviado por tirar as roupas que foram molhadas pela garoa minutos antes. Entrou no box e girou o registro, esperando a água esquentar já que o chuveiro dera problema há alguns dias e ele nunca arrumara um tempinho para concertar, além do mais, seus dotes de eletricista não eram tão bons assim. Quando a água esquentou, enfiou a cabeça debaixo, sentindo seus fios de cabelo não tão curtos nem tão longos molharem e escorrem em sua testa. Seus pensamentos foram preenchidos por memórias que ele gostaria de trancar no fundo de sua mente a sete chaves, para nunca mais lembrar. Certas coisas merecem ser lembradas, de fato, mas isso quando elas não cutucam suas cicatrizes interiores, o que não era o caso do rapaz. Elas cutucavam, e muito. Queria livrar-se deste sentimento, o fazia tanto mal e o levava para baixo de uma forma que ele nunca pensou que levaria.

Tomou seu banho de forma rápida, atordoado, saindo em seguida para colocar suas roupas de dormir. Caminhou novamente para o corredor, indo até a última porta e abrindo-a para que pudesse deixar suas roupas secando na pequena lavanderia. Depois de apagar todas as luzes, caminhou até seu quarto para deitar-se e cobrir-se do leve vento que entrava pelas frestas do pequeno apartamento. Com cuidado, ele se arrumou ao lado de Charlie que dormia tranquilamente com sua pequena mão posta sobre sua barriga e a outra nos cabelos. A chupeta rosa e com desenhos de flores ficava pendurada na boca da garotinha que mal se mexia ou percebera a presença do pai, nem mesmo quando ele selou sua testa antes de fechar os olhos, a fim de dormir. Queria dormir o mais rápido possível pois, além de cansado, ficar acordado lhe fazia pensar demais e sentir saudade. E ele odiava isso.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 11:22AM, 16 de Dezembro de 1997.

ainda mantinha-se parada à frente do espelho, observando seu próprio reflexo, pensativa. Queria saber se sua saia branca que ia até o meio de suas coxas, sendo bordada nas pontas, a blusa de tecido fino e liso que estava posta por dentro da saia e o paletó preto feminino estavam bons. Chegou até mesmo a tirar uma foto e encaminhar para as mensagens, procurando algum número que lhe ajudaria a decidir se a roupa estava boa de fato ou não, mas não achou nem mesmo um. Não que ela tivesse muitos contatos, na verdade.

Desfez o coque e deixou os cabelos ondulados caírem sobre os ombros. Nos pés, um confortável salto preto alongava mais ainda suas pernas, a fazendo parecer mais alta do que realmente era. Espalhou o batom vermelho rubro pelos lábios grossos e passou uma máscara para cílios, alongando-os para cima. Pegou dois pares de brincos pequenos e encarou-os, tentando decidir qual combinaria com sua roupa, o dourado ou o preto? Colocou um de cada par em cada uma das orelhas e espreitou os olhos para que pudesse enxergar de perfil qual ficaria melhor, no fim, optando pelo dourado. Estava atrasada, isto era um fato comprovado, visto que recebera mais de sete ligações de Karen, mas não se importava. Quando fora seu último encontro mesmo? Oh, sim, no segundo ano da faculdade quando ainda era estagiária na redação que, hoje, a tinha como a ilustre editora-chefe. Lembrava-se de que escrevia pequenas colunas sobre celebridades e, inclusive, aumentava um bocado das notícias para ganhar mais leitores. Ela não se orgulhava disso, de maneira alguma. Mas só queria seu espaço, entende? E como conseguiria isso se apresentasse as fichas limpas? Impossível, sim.

Pegou sua bolsa e sua pasta em cima da cama e rumou em direção à porta de entrada, pegando as chaves do carro no suporte que ficava pendurado na parede cor marfim. Quando trancou a porta, esperou o elevador, que estava parado em seu andar, abrir as grandes portas metálicas para que ela pudesse entrar. Estando sozinha, olhou-se novamente no espelho que tomava a extensão da parede do fundo daquele cubículo cheio de botões que te levavam até o décimo sexto andar. Passou um lábio no outro, espalhando mais ainda o batom, se é que era possível, e arrumou novamente os cabelos sobre os ombros.

Oh, sim, estava nervosa para um encontro.

Saiu do elevador assim que ele anunciou seu andar, caminhando pela pequena recepção e saindo na rua que, àquela hora, estava estranhamente calma visto que era o horário em que as crianças começavam a chegar de suas escolas com os pais. Procurou por sua vaga e destravou o carro de longe, entrando nele quando se aproximou. Ligou a rádio e colocou suas coisas no banco do passageiro, enfiando a chave que tinha um chaveiro enorme cor-de-rosa, isto para que ela achasse dentro de sua bolsa, na ignição, ligando-o. Não demorou muito para que a moça colocasse o carro em movimento e fosse em direção à saída do condomínio, afim de chegar o mais rápido possível na redação.

Uma música tocava em seu pen-drive que ficava conectado ao lado do aparelho de som, uma sintonia que sempre foi deliciosa aos seus ouvidos, mas, naquele momento, parecia tirar a concentração da mulher, irritando-a de uma maneira sem fim. Com o dedo indicador, ela apertou o botão que servia para ligar e desligar a música, apressada. Com o som desligado e os semáforos que apareciam não colaborar com a moça, arrumava os cabelos de minuto em minuto e, sem perceber, roía a unha de seu mindinho, revestida de puro nervosismo.

Sentia-se exatamente no último ano do colégio, pouco depois que anunciaram o baile de primavera. Ela não queria ir, sabia que não teria um par, ninguém a chamaria como aconteceu no último baile e ela ficou em casa enquanto sua irmã mais nova fora com o garoto que ela gostava. Ninguém gostava dela. Melhor dizendo, nenhum garoto. Pelo menos não que ela soubesse e, na realidade, não fazia questão de saber se alguém nutria certa afeição por ela ou não. Mas ela estava errada. Claro, como sempre ou... quase sempre. Friedrich Harvey a chamara cinco dias antes do evento, fazendo-a ficar apreensiva quanto a roupa que usaria e, sim, isso estendeu-se até o dia do baile enquanto esperava pelo rapaz em sua casa, olhando para porta de cinco e cinco minutos e consultando o relógio de parede a cada segundo. Retocava o batom toda hora, até que se sentiu ridícula por estar com a cor na boca tão forte. O que ela podia fazer, afinal? Sentia a necessidade de passar o batom novamente sempre que estava nervosa, isso sem falar no tique de arrumar os cabelos com os dedos inquietos. Quando a campainha tocara, a moça correu em direção à porta, esperançosa de dar de cara com o companheiro de baile, mas sua visão não fora preenchida por um terno cinza escuro e uma mão esticada com uma rosa; Fora preenchida por uma blusa polo verde musgo e calças surradas e, ao invés da flor, um papel, especificamente um bilhete, lhe fora estendido. Ela nem conhecia o homem, mas pegou o papel e fechou a porta, abrindo-a em seguida.

Querida , minha mãe passou mal e tive de acompanhá-la até o hospital, por isso não poderei ir ao baile com você. Me desculpe por isso, espero que não fique triste. Se cuida. Friedrich.

Era isso que o recado dizia.

E se Maximiliam fizesse o mesmo com ela? E se ele resolvesse que não queria mais sair e mandasse o recado por Karen ou deixasse um bilhete em cima da mesa? E a pergunta mais intrigante: Por que ela estava se preocupando tanto com isso?

Escutou buzinas altas vindo do carro de trás, mostrando que o sinal havia aberto e ela ao menos percebera. Sem paciência, esticou o braço para fora, levantando-o no ar e mostrando o dedo do meio para o motorista apressado. Um ato imaturo, ela sabia.
— Passa por cima! — Ela gritou, agitada.
Colocando o braço para dentro do carro, ela acelerou e, tinha de confessar, olhou no espelho retrovisor só para confirmar que o homem não levou em conta sua má educação momentânea e continuou com seu trajeto, sem querer persegui-la e fazer sei-lá-o-que com a moça.
Olhou em seu relógio que reluzia em seu pulso e balançou a cabeça, acelerando mais ainda para que pudesse chegar o quanto antes à redação e revolvesse as poucas coisas que tinha para resolver naquele dia, como revisar uma pequena coluna sobre moda que Patrícia escrevera para a edição que sairia no começo de Janeiro.

Quando passou pela recepção, deu bom dia para a mulher que aparentava ter seus trinta e sete anos e era muito simpática. Esperou o elevador chegar para que entrasse e apertasse o botão que a levaria até o décimo sétimo andar, onde ficava sua sala de editora-chefe. As portas pesadas e metálicas do cubículo fecharam-se, deixando-a ali sozinha, e nem sequer abriram em nenhum andar, levando-a diretamente ao seu piso. Quando o painel apitou, enquanto abria as portas, ela abriu mais seus olhos à procura de Karen, mas não achou nada além de seu bloquinho de notas coloridas e fosforescentes e sua caneta rosa com um pompom enorme na ponta que liberava cheiro de morango em cima da mesa da moça.

Quando resolver aparecer de suas escapadas aleatórias para o andar onde aquele cabeludo trabalha na edição de fotos, apareça em minha sala, por favor. E leve um café sem açúcar ou adoçante, dessa vez.

escreveu nas anotações da moça e arrancou a folhinha, colando-a na tela do computador para que ela enxergasse assim que chegasse. Caminhou até sua sala arrastando os saltos pelo piso como sempre fazia, abrindo a porta e fechando-a assim que passou seu corpo para dentro da sala espaçosa. Jogou sua bolsa na poltrona do lado e caminhou até sua mesa, contornando-a e ficando de frente para a extensa vidraça que lhe proporcionava uma vista estonteante das Montanhas Rochosas ao fundo, fazendo-lhe suspirar pesado, impressionada. Nunca cansaria de admirar aquela paisagem que parecia ter sido esculpida pelas mãos do melhor artista do século passado.

Dispensando seus pensamentos sobre o quão belo era aquilo tudo, ela sentou-se em sua cadeira giratória, abrindo sua última gaveta e tirando de lá uma pasta preta que tinha um adesivo escrito “Coluna de Moda — Janeiro de 1998 por Patrícia Melts. — Fotos e Matéria” na frente. Tinha recebido aquela matéria no dia anterior e prometera a Patrícia que ia revisar no dia seguinte, e era isso que ela pretendia fazer. Puxou os primeiros papeis de dentro da pasta e colocou-os em cima da mesa, para então pegar as fotos que também estavam lá dentro. Deixou a pasta de lado e se pôs a ler.

“Saiba como aproveitar os dias ensolarados sem pesar no bolso e sem sair da moda”, esta foi a chamada da coluna que se prolongou um pouco, dando dicas de biquínis e acessórios que poderiam ser aproveitados de forma divertida e barata pelos leitores da revista. lia enquanto observava as imagens, aproveitando para pegar umas dicas também. Nunca se sabe quando sua vontade de ir para a piscina do condomínio pode bater e, quando bater, é sempre bom estar preparada para não errar em nada.

Continuou lendo e observando as imagens, mas, antes que terminasse, fora interrompida por batidas fracas na porta. Fechou as pernas de forma rápida — Não que elas estivessem arreganhas, apenas relaxadas. —, e pediu para que entrasse.
Uma silhueta fina e ossuda passou pela porta, tímida, revelando Karen que, de uma forma completamente estúpida, vestia um casaco verde musgo e carregava a xícara do café em uma mão e na outra um papel. O estômago de revirou-se, achando completamente idiota aquela sensação nostálgica e tragicamente coincidente.
— Licença, seu café. — Karen anunciou, aproximando-se da mesa para entregar a bebida à mulher.
— Obrigada, docinho. — agradeceu, nada sarcástica o que fez a mais nova sorrir. — O que é isto? — Perguntou, referindo-se ao papel na mão da garota.
— Oh, isso? É... Não é nada. Na realidade, é minha lista de compras do mercado, sabe, eu ando muito esquecida ultimamente. — Karen soltou uma risada sem graça, mexendo nervosamente no papel que segurava.
ergueu uma sobrancelha enquanto molhava sua boca com um gole do café amargo, desconfiada, porém aliviada por não ser nada sobre Maximiliam.
— Tem certeza?
— Total. Hm, se me der licença, eu... Tenho muita coisa para fazer lá fora. — Karen alertou, andando para trás enquanto apontava para a porta.
— Espere! — Pediu, antes que a moça fugisse da sala dela. — Maximiliam esteve por aqui?
— Não, senhorita . Ele nem sequer apareceu nesse piso hoje.
— Certo, pode ir. — Ela abanou as mãos no ar, mostrando para a garota que ela estava livre para cumprir seus afazeres. — E, Karen, mais uma coisa.
— Sim?
— O cabeludo é uma gracinha. — Ela disse de surpresa, observando as bochechas da outra tomarem uma coloração rosada e forte que destacava na pele pálida dela.
Karen saiu da sala de forma apressada, sem responder sua chefe, completamente envergonhada enquanto amassava sem perceber o papel em sua mão que servira como um pedido para saírem naquela mesma noite feito pelo cabeludo que atendia pelo nome de Eric.

Depois que a garota saiu, tentou a todo custo voltar com sua atenção para as folhas à sua frente, mas não conseguia. Olhou em seu relógio eletrônico que ficava ao lado de seu porta-canetas que marcava meio-dia e quarenta e dois e largou as fotos em cima da mesa, decidindo que levaria tudo para seu apartamento e revisaria de noite, mandando uma resposta para Patrícia ainda naquele dia. Seus pés mantinham-se inquietos sobre os saltos que giravam no piso amadeirado e faziam um barulho irritante, mas ela não se importava. Suas unhas pequenas batucavam uma bolinha de metal que de nada tinha função, estava ali porque ela gostava de ter coisas que não tinha oficio nenhum, comprava porque gostava ou porque achava bonitinho.
— Bom dia, mon amour. — Escutou a porta abrir em um rompante e a voz de Max ecoar alta por toda a sala.
— Pensei que iria furar comigo. — admitiu apressada, levantando-se enquanto colocava as coisas dentro da pasta preta para que ela pudesse levá-la consigo.
— Está me dizendo que a possibilidade de levar um furo meu te assusta ou deixa apreensiva? — Max posicionou bem suas palavras, deixando a mulher sem oportunidade de pensar rápido pois fora pega de surpresa. — Sendo assim, admite que quer sair comigo, certo?
— Errado. — Foi rápida ao responder, contornando a mesa novamente para que pegasse sua bolsa. — O que quero dizer é que seria muito indelicado e insensível da sua parte combinar um almoço comigo e não comparecer a este evento que você esperou por dias, ou posso dizer meses? — Jogou na cara do homem que espreitou os olhos, procurando por uma resposta à altura e, antes mesmo que pudesse achar as palavras, ele fora interrompido pela mulher. — Vamos logo, eu não tenho o dia inteiro. — Demandou, caminhando na frente de Maximiliam que apressou o passo para acompanhá-la. Como as mulheres conseguiam andar tão rápido naquelas armas enormes?

Sim, armas.

Saltos deveriam ser proibidos em todo o pais. Por Deus, aquilo poderia matar alguém facilmente se qualquer mulher que os usasse estivesse raivosa.

Os dois saíram sob os olhos curiosos dos outros funcionários da redação, o que incomodou a mulher, mas que deixou Max nas nuvens.
— Karen, remarque minha reunião com o senhor Levy para segunda depois das três, sim? E diga ao Robert que não aprovei o layout dele, peça a ele para fazer outro e que me mande por e-mail até amanhã à noite, no máximo. — orientou a mulher que anotava freneticamente em seu bloquinho colorido para que não perdesse nenhuma informação que a mais velha dizia. — Obrigada. — Ela agradeceu assim que observou a outra assentir. — Onde pretender me levar? — Perguntou, depois de entrar no elevador e esperar as portas fecharem.
— Espero que goste de comida caseira e Italiana, conheço um lugar que faz a melhor massa da região. — Max sorriu.
— Um ponto para Maximiliam Murs. — Disse, frustrada.
Ela adorava comida caseira, principalmente a Italiana. Herdara esse gosto do avô que era um ótimo cozinheiro Italiano e sempre enchia a neta de massas de sabores diferentes.
— Quantos pontos preciso? — Ele soltou, galante. Recebeu um olhar sério da mulher como se pedisse para ele não forçar a barra, fazendo o rapaz levantar as mãos em sinal de concordância e redenção.

Quando os dois estavam dentro do carro de Max, acomodados em seus bancos de couro cinza claro, com o rádio ligado em uma estação qualquer, eles começaram a conversar sobre tudo, desde o clima maravilhoso que aquela cidade possuía até o próximo grande evento que teria na cidade de um desfile de uma marca bem famosa de roupas e claro que a EDownTown estaria com pessoas credenciadas para cobrir o evento nas redes sociais e depois fazer uma avaliação geral no site da revista.

O carro fora perdendo a velocidade aos poucos e logo fora estacionado em meio a alguns outros automóveis que estavam ali nas redondezas. saiu sem esperar por Maximiliam que com certeza iria dar uma de cavalheiro e abrir a porta para ela. Encarou a vidraça do restaurante e se aproximou da porta, empurrando-a em seguida e sendo recepcionada por um delicioso aroma de massas e temperos que pareciam entrar pelas suas narinas e ir direto para seu cérebro que raciocinava lentamente àquela altura, tamanha era sua fome.

Observadora como era, logo notou as mesas com tecido xadrez em cima sendo enfeitadas por uma miniatura de lareira artificial, as cadeiras eram de um estofado escuro e macio. Uma lareira, esta soltava fogo real, ficava ao fundo do restaurante e, ao lado, um mini-palco e um karaokê, o que deixava o lugar ainda mais confortável. Tinha também um mini-bar do outro lado, o que fez a mulher passar a língua pelos lábios ao ver tanta bebida — Predominância dos vinhos. — em um só lugar. Era fraca para bebidas, todo mundo deveria saber.
Sentiu a mão de Max em seu ombro, a conduzindo para uma mesa perto do palco. Sentou-se de frente para o rapaz que balbuciou incerto:
— Gostou?
— É muito agradável. — foi sincera, ainda observando tudo ao seu redor, parecia querer memorizar cada detalhe daquele lugar que lhe remetia tanto à sua infância na casa dos avós na Itália.
— Sabia que ia gostar. — Arrumou a camisa bem passada. — O que tanto olha? Estou começando a duvidar da sua afirmação anterior.
— Não é nada. Esse lugar só me lembra a casa dos meus avós na Itália, só isso. — Comentou, nostálgica. — É tão aconchegante.
— Fico feliz em saber que te fiz lembrar de algo bom. — Max sorriu, mas não era aquele sorriso comum que você dá à um conhecido quando o encontra na rua. Era um sorriso tão convidativo para os lábios do rapaz que pareciam mais carnudos naquele dia. — Mas então, o que pretende fazer no Natal? — Perguntou, sem qualquer intenção.
— Será que Dezembro chega com um aviso do tipo: “Oi, eu sou Dezembro e chegou a época em que você deve perguntar para as pessoas onde elas irão passar o Natal ou o que pretendem fazer”? — perguntou, forçando uma voz infantil e fazendo um gesto com a mão como se fosse um robô, fazendo Maximiliam rir do pequeno surto cômico da mulher. Deveria ser a milésima vez que ela escutava aquela pergunta em menos de duas semanas. — Não sei o que vou fazer, mas pretendo colocar um moletom bem largo e assistir alguma série na televisão, e você?
— Minha mãe inventou de transformar um evento em família em algo muito maior e chamou amigos do país inteiro para irem, e disse que quer todo mundo da família presente. Isso soa brega, mas sou obrigado a ir. — Explicou, desanimado enquanto abria o cardápio preto e aveludado em cima da mesa.
— Estar com a família é legal, então não reclame. — Ela disse, imitando o gesto do rapaz e pegando o cardápio, também.
— E a sua? — Max perguntou, franzindo a testa em um ato de curiosidade enquanto passava os olhos pelo menu.
— Louise me ligou e me convidou para passar o Natal com ela e com a minha mãe, mas assistir TV e comer comida Tailandesa me parece muito mais atrativo. — Explicou, desconfortável.
Maximiliam não ousou perguntar mais nada relacionado à sua família depois de perceber o desconforto da mulher que claramente se incomodou com a pergunta.
— Eu quero massa de presunto com molho de tomate e purê de batatas, e, para beber, um vinho tinto. E você? — Perguntou depois de escolher seu pedido.
— Pode ser o mesmo, mas para beber, quero um suco natural de kiwi com morango. — Disse, deixando o menu de lado e encarando o rapaz que levantava a mão para ser atendido.
Não demorou para o outro rapaz saísse de trás do balcão com um bloco de notas e caminhasse na direção dos dois.
— Bom dia, o que os senhores desejam? — O rapaz saudou educado, pronto para anotar o que eles pediriam.
observou o pequeno nome bordado no canto de seu uniforme, aquele devia ser . Ele mantinha um sorriso gentil na face, esperando que ela ou Maximiliam se pronunciassem, e foi Max quem fez isso, informando-o sobre os pedidos e observando o outro anotar com rapidez e, logo após, pedir licença e avisar que logo voltaria com os pratos.

Conversavam animadamente, pareciam até amigos super íntimos. Ou eram, de fato? Não importava no momento. só sabia que Max nunca se mostrara um cara tão bacana, quer dizer, talvez ele sempre fora, só ela que nunca dera uma brecha para ele lhe mostrar isso.

Quando os pratos chegaram, comeram sem pressa, aproveitando ao máximo o delicioso sabor que a comida tinha, aquilo parecia ter sido feita pelos deuses! E a conversa que ainda mantinham, rendeu algumas boas gargalhadas e sorrisos sinceros da parte de ambos; isso só fazia a mulher se questionar por que não aceitara esse convite bem antes. Ela deveria começar a se arriscar mais. Maximiliam contou sobre sua infância na casa de fazenda dos pais e disse que era um caipira assumido, que, fora daquela redação que sempre estava a mil por hora, ele continuava com seus hábitos estranhos aos olhos dos outros, dentre eles usar botar de cowboy e chapéu de rodeios. E ela, sentindo-se na obrigação de compartilhar sua infância visto que Max fizera o mesmo, contou sobre suas idas à Itália para a casa dos avós e, inclusive, quando morou com eles algum tempo, e sobre seus primeiros anos com o pai, que falecera quando ela ainda era adolescente.

— O papo está ótimo, mas, se não for muita indelicadeza da minha parte, podemos ir? Lembrei que preciso fazer uma ligação importante e havia me esquecido completamente dela. — pediu, depois de uma pequena pausa para beber seu suco.
— É claro que podemos, mas depois de me dizer o real motivo para irmos, porque essa desculpa não colou. — Max disse esperto, pegando a mulher de surpresa.
— Eu não estou dando desculpa, realmente preciso fazer uma ligação! — Voltou a afirmar, um pouco mais exasperada dessa vez.
— Sim, acredito. — Maximiliam rebateu, não tendo controle sobre a quantidade de ironia que saíra de sua boca.
Ergueu sua mão, a fim de pedir a conta para que, então, realizasse o pedido da moça que parecia apreensiva ao mexer nervosamente em seus dedos inquietos. Depois de pagar a conta e se levantarem, os dois caminharam até o carro e entraram assim que Maximiliam destravou as portas cinzas. tomou a liberdade de ligar o som baixinho, o que não incomodou nem um pouco o rapaz que até mexia a cabeça lentamente no ritmo da música, fazendo seus músculos tensos relaxarem em cima do banco, fazendo-o respirar fundo antes de colocar o automóvel em movimento. Ele optou por não dizer nada, não havia nada para ser dito, na realidade, o que fez a mulher agradecer mentalmente por isso e continuar com seus olhos grudados à rua que passava feito um borrão. Não havia nada que pudesse explicar seu momento tenso há minutos atrás, nem ela mesmo sabia o motivo, sempre fora assim. Tinha seus momentos para tudo, inclusive, para ter pequenos surtos sem motivos aparentes. De fato, era uma mulher imprevisível.

É isso que você deve saber sobre .

Item número um, anotado.

Quando o carro foi estacionado na frente da redação, girou sua cabeça para que pudesse encarar Maximiliam que permanecia com as mãos sobre o volante e olhava para frente, sem notar o olhar da mulher sobre seu corpo imóvel.
— Obrigada pelo almoço... Foi legal. — Balbuciou, antes de abrir a porta do carro para que pudesse sair.
— Que bom que gostou. — Maximiliam olhou para a moça e sorriu, sincero.
Essa foi a deixa para que ela pulasse do carro e fechasse a porta, caminhando apressadamente até seu carro para que pudesse ir para casa. Ela poderia ficar ali e adiantar muita coisa que deveria fazer na próxima semana, mas sentia como se os últimos dias tivessem consumido toda a sua energia e paciência, então que se dane as matérias da próxima edição! Talvez só relesse a coluna de Patrícia Melts, como havia prometido.

Se bem que ela prometia tanta coisa!

E quando digo tanta, é tanta coisa mesmo. No último ano novo prometera uma lista de coisas que deixaria para trás, que pararia ou que correria atrás.

- Deixar de contar seus passos da hora em que acorda até a hora em que sai para trabalhar;
- Parar com o álcool e o cigarro — Isso poderia ser contado como uma piada das boas;
- Cortar carboidratos de sua alimentação;
- Ir ao teatro pelo menos uma vez ao mês;
- Fazer novas amizades;
- Ficar com alguém;
- Conseguir finalizar uma reunião da redação sem se estressar;
- Ir a um centro de crianças carentes;
- Maneirar na cafeína;
- Fazer uma tatuagem;
- Reencontrar algum colega que há muito tempo não o vê.

De dez coisas que prometera, realizara duas, de fato. Não realizara nem mesmo metade de sua lista e estava em Dezembro, pronta para o próximo ano novo, isso deixava-a frustrada, oras. Mas essas dez coisas não são nada perto de outras milhares que ela prometera e não cumprira.
Colocando seus pensamentos em ordem, ela ligou o carro e deu partida, saindo pelas ruas de Denver afim de chegar o mais rápido em sua casa.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 19:24PM, 16 de Dezembro de 1997.

Quando a tarde caía lentamente, levando embora a iluminação do sol consigo, o rapaz mantinha um casaco sobre os ombros e o indispensável gorro cobrindo seus cabelos. Era uma terça-feira e arrastava seus passos pelas calçadas, com os olhos perpassando por todas as vitrines da rua central da cidade enquanto algumas músicas natalinas ressoavam de dentro de seus respectivos estabelecimentos.

Saíra cedo do restaurante e aproveitava para procurar pelo presente que daria à Charlie no Natal que chegaria dali a alguns dias. Ele procurava por algo que não pesasse em seu bolso, mas que com certeza iria deixar sua pequena em plena felicidade pelas próximas semanas, mas parecia que os preços não queriam colaborar nada com o pensamento do rapaz, já que pareciam mais altos que os preços do último Natal. Chegou a suspirar frustrado depois de tanto andar, achando que iria para casa com as mãos abanando, mas antes que realmente fizesse aquilo, seus olhos apreciaram, através do vidro que o separava das prateleiras brancas, o que finalmente lhe chamara a atenção.
— Pode embrulhar para presente, por favor? É para menina. — disse, com a embalagem em mãos, para a moça que lhe sorria simpática e que logo concordou, tomando a caixa das mãos do rapaz. Esperou pacientemente a mulher fazer o embrulho e o devolver dentro de uma sacola depois de pago com algumas notas amassadas que tirou de seu bolso. Com o pacote em baixo dos braços, o rapaz saiu do estabelecimento que estava pouco movimentado, indo em direção ao ponto de ônibus mais perto. Naquela manhã, deixara sua bicicleta em casa pois acordou com o pensamento no presente que compraria assim que seu expediente acabasse, achando que seria bom andar um pouco.

Sentia a brisa gélida congelar a ponta de seu nariz fino enquanto uma fumaça saía de sua boca sempre que a abria para fazer qualquer barulho que fosse, tinha essa mania que, aos seus olhos, era um tanto quanto irritante, mas inevitável. Não entendia aquele tempo em Denver, uma cidade que tinha mais de trezentos dias de puro calor, atraindo muitos turistas devido a este fator que os agradava tanto. E, com aquele leve frio, ele não via outra saída para se aquecer se não acender um cigarro que estava em seu bolso da calça surrada. Ele não se orgulhava de ter aquele maldito hábito que quase ninguém sabia, ou ninguém sabia. O fogo que saiu pela ponta do isqueiro, por um momento, aqueceu seu rosto pálido e ele logo soltou a fumaça que saiu zapeando e sumindo pelo ar, sentindo-se incomodado pelo cheiro forte. observou as árvores enfeitadas com luzes natalinas dançarem graciosamente com seu balanço de um lado para o outro, mostrando que toda a cidade ansiava pela data que esperavam o ano inteiro com muita expectativa. Ele, por sua vez, queria que pulassem essa época e fosse para o ano novo e, quem sabe, pulasse essa data também e fosse logo para o ano seguinte. Detestava soar como um senhor rabugento que reclama de tudo mas parecia inevitável.

O rapaz subiu no ônibus assim que ele parou em sua frente, sentando-se no primeiro assento livre. O transporte estava parcialmente vazio e circulava devagar pelas ruas, parando em alguns pontos onde as pessoas davam com a mão; Todas com o mesmo propósito àquela hora. Queriam chegar o mais rápido em casa. Jovens ansiavam por chegarem e mergulharem seus traseiros no sofá em frente a telas eletrônicas de suas televisões, os adultos só queriam desapertar o nó de suas gravatas e tirarem seus saltos alto e relaxarem um pouco, e os idosos queriam tomar uma boa sopa de legumes assim que chegassem com as compras frescas. , só queria sua filha. Não se importava em assistir algum programa sem conteúdo reflexivo em sua antiga TV, se livrar de suas roupas que, por sinal, eram confortáveis, e nem se importava de comer o pão do dia anterior. Desde que estivesse com Charlie, tudo estava bem.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 01:55AM, 22 de Maio de 1995.


Os ponteiros pareciam ir contra o rapaz, que ficava para lá e para cá, esperando por alguma notícia da moça que estava há mais de duas horas na sala de parto. Sentia sua cabeça doer de tanto que puxava seus cabelos, em um ato claro de frustração por não saber de nada, ou talvez fosse puro desespero. Mas que merda estava acontecendo? Por que ninguém falava nada para ele? E por que aquelas enfermeiras paradas ao lado do balcão o encaravam com pena? Perguntas, perguntas e perguntas. Ele não queria perguntas, ele queria respostas. Queria alguém que lhe respondesse o que estava acontecendo, mas parecia que quanto mais ele procurava por alguém que lhe pudesse ceder todas as informações, mais esse alguém se escondia por alguma parte daquele hospital para que deixasse tudo por debaixo dos panos.

Pensou que seria bem mais fácil relaxar se alguém estivesse ali com ele, mas ninguém estava e isso deixava-o com raiva. Pensou em ligar para sua mãe, mas conhecendo-a bem, ela lhe faria milhares de perguntas e como responderia se nem ele sabia de nada? Cogitou até na hipótese de ligar para seu pai, mas, também o conhecendo, saberia que ele contaria para Suzanne o que está acontecendo, então descartou essa ideia, optando por permanecer sozinho. Olhou em direção à porta que dava acesso a ala em que Joanna estava e notou um homem caminhar em sua direção. Deduziu ser o médico por sua vestimenta completamente branca e impecavelmente bem passada, seus óculos de armação redonda moldavam mais ainda seu rosto também redondo, e ele carregava um olhar sério e profissional. sentiu seus músculos retesarem e seu estômago embrulhar, era como se soubesse exatamente o que ouviria a seguir. Ele não sabia como, mas tudo foi tão rápido... Tão doloroso.

O homem, que atendia pelo nome de George, soltou as palavras de forma tão natural e insensível que o mais novo sentia a agressividade delas perfurarem seu corpo como mini facas penetrando sua pele de forma insana. Seus olhos encheram-se d'água gradativamente e sentiu suas pernas vacilarem, o deixando de joelhos do chão. Tudo que o médico lhe falara fora como um balde de água fria, fazendo-o lembrar-se do irmão em memórias rápidas que fizeram sua cabeça girar, dolorida.

Joanna, assim como Ethan, estava morta.

{...}

Glendale — Colorado, Estados Unidos, 22:53PM, 21 de Fevereiro de 1995.

Ethan borrifava o perfume caro em seu pescoço e depois sorriu galanteador para o próprio reflexo, era um narcisista assumido. O sorriso que deixava qualquer mulher de pernas abertas e com os hormônios à flor da pele, oh, sim, qualquer uma ficava de quatro por aquele rosto bonito. Sua beleza era inegável e sua lábia, infalível. Estava pronto para flertar com qualquer garota que facilmente iria lhe chamar a atenção e, no fim da noite, iria parar em uma cama com suas roupas espalhadas pelo chão, o suor pela testa e costas, e a bebida ainda por sua saliva, ou, como ele gostava de dizer, ele nascera pronto para tudo. E daí que tinha uma namorada grávida na casa de seus parentes? Ele gostava, sim, de Joanna, mas isso não significava que ele não poderia dar umas escapadas, certo?
Escutou a porta ser aberta e olhou para trás, observando o irmão.
— Onde está indo? — perguntou, mesmo sabendo qual seria a resposta.
Ethan revirou os olhos, sabendo o que seu irmão falaria.
— Ih, , relaxe um pouco. É terça-feira, sábado começa a diversão da nossa família, então eu preciso me divertir um pouco antes que comece toda aquela baboseira de festa. — Ethan explicou, arrumando a gola de sua camiseta. — Para ser sincero, eu nem sei por quê eles insistem em fazer essa merda.
— Se divertir? Sério, Ethan? — Ele riu, esganiçado. — Se não lembra, espero refrescar sua memória. Sua namorada está aqui, grávida, como não bastasse, esse não é o momento mais apropriado para o seu tipo de diversão! Será que, por um minuto, pode ter um pouco de respeito por ela?
— E desde quando você se importa com isso? — Perguntou, com escárnio.
— Deixa de ser egoísta! Você precisa entender que bebidas, drogas, carros rebaixados, sexo e mulheres não são tudo quando você tem sua garota. — Disse, fazendo o mais novo lhe encarar sério, parecendo pensar sobre o que o irmão dissera.
— Isso soou tão gay. — Ethan balbuciou ainda sério, depois sorrindo da cara frustrada que formou com suas feições tensas.
— Quer saber? Faça o que quiser, só... Tome cuidado, por favor. — Ele pronunciou a última frase baixo, como se aquilo custasse a sair do fundo de sua garganta que pareceu formar um nó bem no meio.
Ethan comemorou, rindo e dando um tapa nas costas do mais velho.
— É assim que se fala.
Sem se despedir de ninguém além do irmão, o mais novo saiu pedindo para que inventasse qualquer desculpa que fosse caso alguém perguntasse onde ele andava. Mesmo contrariado, o outro concordou.

{...}

Glendale — Colorado, Estados Unidos, 02:47AM, 22 de Fevereiro de 1995.

O som praticamente estourava as caixas de som no porta-malas, fazendo com que as pessoas olhassem para o carro, que passava entre as ruas. O relógio marcava duas e quarenta e sete da madrugada e Ethan segurava um baseado entre os dedos na mão que estava para fora do carro. Sorria para o nada. Estava feliz, os efeitos da maconha e do álcool o deixavam assim facilmente. Ele fechou os olhos por um momento e sentiu o sereno tocar sua pele quente, deixando-o relaxado de uma forma quase anormal. Não queria abrir os olhos, não queria deixar aquela sensação ir embora assim que suas pálpebras subissem e ele tivesse de encarar as ruas novamente, e aquele fora seu maior erro. O pensamento de não abrir os olhos tomou sua mente por completo, deixando-a focada àquela ideia e se esquecesse que deveria, de fato, completar aquela ação e continuar seu caminho até a casa de seus tios.

O som alto completava as batidas aceleradas de seu coração, tão aceleradas como um carro sem freio e direção. Foi tudo tão rápido que mal conseguiu pensar. Uma buzina alta, provavelmente de um caminhão, luzes brancas em seu rosto o impedindo que olhar o que estava em sua direção, a música, antes alta, agora parecia tocar em câmera lenta e fora de ordem, o baseado no chão e seu carro deslizando na pista depois de uma freada bruta, girando e só parando quando fora estraçalhado pelo poste. Escutou um barulho alto que seu cérebro demorou a processar antes que ele fechasse seus olhos, mas, dessa vez, fechou para não abrir nunca mais. Foi certeiro... Foi fatal.

Fim do flashback.

— Lisa? Cheguei! — anunciou depois de fechar a porta atrás de si e limpar os sapatos no tapete de entrada.
Caminhou até o balcão de mármore que separava a sala da cozinha e depositou o pacote que segurava ali em cima. Olhou o relógio digital que ficava ao lado da TV e constatou ser oito e dezessete. Sabia que sua bebê estava acordada e logo observou um ser pequeno passar serelepe pelo corredor com os braços abertos e soltando uma risadinha engraçada que parecia contagiar todos os músculos da boca do rapaz e o fizeram rir de maneira espontânea.
— Papai! — Charlie pronunciou alegre, correndo para os braços do pai que a pegou prontamente e lhe abraçou, carinhoso. Como sempre, a garotinha distribuiu milhares de beijinhos por todo o rosto do rapaz que ria com o carinho exagerado da bebê que agora passava as mãos em seu cabelo e depois o abraçou pelo pescoço. — Charlie quer comer cereal colorido, pode? — Pediu, olhando diretamente para os olhos do pai enquanto mexia suas finas, e quase sem pelos, sobrancelhas, sugestiva. — Per favore. — Disse com um falso sotaque italiano que aprendera com o senhor Smith quando foi ao restaurante no último mês.
— E desde quando esse bebê sabe falar alguma coisa em Italiano? — Perguntou, sentindo o sorriso tomar conta de seu rosto, colocando Charlie no chão, que cruzou os braços como uma pequena guerreira.
— Non parlo Italiano. — Ela rebateu, risonha e soltando as palavras de forma embolada.

Charlotte, de fato, era uma garotinha muito inteligente e isso só deixava ainda mais babão, se é que isso é possível. Ela nunca fora para a escola — O rapaz achava muito cedo e por isso preferia ensiná-la em casa, por ora —, e nem sabia ler, mas sabia fazer os números de um a dez. Sabia fazer algumas contas de adição — Com números baixos —, mas se atrapalhava nas de subtração, normal, afinal ela só tinha pouco mais de dois anos.

— Sua danadinha, vem aqui! — puxou novamente a filha para si, enchendo-a de cócegas em sua barriguinha, fazendo-a rir com gosto, da forma que só ela sabia.
O momento fora interrompido por Lisa que entrou rápido na sala, avisando que precisava correr pois esquecera de ir ao mercado como sua mãe lhe pedira mais cedo, falando que voltaria apenas na quinta-feira, como o combinado. assentiu e observou a menina passar pela porta depois de se despedir de Charlie com um rápido abraço, depois caminhou até seu quarto para que pudesse tomar um banho e dar um banho na filha antes de comerem alguma coisa.

— E nós brincamos de casinha e fizemos comidinhas nas panelinhas que minha grand-mère me deu. — Charlie contava sobre seu dia com Lisa, enquanto o pai custava a colocar os pijamas rosa na garotinha que gesticulava com os braços e com as pernas, totalmente elétrica. — Ela leu ‘pra Charlie e nós assistimos desenhos.
— Se divertiu muito? Mas amanhã nós iremos nos divertir muito mais, pois iremos ao parque! — Ele anunciou, finalmente vestindo a garotinha que subiu em cima da cama só para pular na mesma, comemorando.
Charlie soltou um grito animado e pulou para o colo do pai, que a carregou até a cozinha para que pudessem comer cereal colorido com leite, como a menina adorava. Para ser honesto, achava que aquilo tinha gosto de isopor com corante, mas o que ele não fazia por ela, certo?

Denver — Colorado, Estados Unidos, 22:45PM, 16 de Dezembro de 1997.

permanecia sentada em seu sofá de couro com o notebook em suas pernas e uma coberta fina por baixo. Terminara de ler a coluna de moda e mandara a correção por e-mail, depois de escanear o conteúdo da matéria, agora ela lia notícias aleatórias na Internet, se informando sobre as novidades da cidade e também entrou no site da EDownTown para saber como os leitores estavam reagindo a cada publicação que exigia todo um trabalho antes de, de fato, ser publicada.

Seus dedos pareciam mover-se sozinhos quando clicaram no arquivo que ela não abria há alguns meses e nem sequer lembrava-se dele. Quer dizer, ela se lembrava, sim, mas gostaria de não lembrar. Todas as letras preencheram sua visão, que foi tomada por uma curiosidade inquestionável por rolar as páginas e saber onde ela parara de escrever. Surpreendeu-se ao notar que escrevera mais de duzentas páginas com muita cautela nas últimas férias, e, sem mais nem menos, resolveu deixar a escrita de lado, deixar um sonho antigo guardado na memória de seu computador.

Deveria continuar?, pensou ela.

Passou os dedos ossudos pela parte superior de seu laptop, abaixando e deixando-o de lado no sofá para que pudesse tirar a coberta das pernas e levantar-se. Perpassou os olhos graúdos pelo grande e bem decorado apartamento em que morava, orgulhosa em saber que foi ela mesma quem escolheu tudo a dedo, para que pudesse ficar com a sua cara. Calçou suas pantufas e rumou ao extenso corredor cheio de portas brancas e com maçanetas douradas. Por mais que seu cérebro lhe dissesse que o melhor a se fazer era entrar em seu quarto e ir dormir, seu coração parecia berrar alto falando que ela deveria entrar na porta ao seu lado direito.

Sem pensar muito em seu próximo ato, girou a maçaneta, abrindo a porta que lhe fez encarar as paredes brancas, apenas uma destacada na cor lilás. Prateleiras brancas eram espalhadas pelo espaço e enfeitadas com porta-retratos, ainda sem fotos, e pelúcias de todos os tamanhos. O berço, também branco, ficava no meio do quarto, impecável, sem nunca nem mesmo ter usado. Ela caminhou até ali, sentindo que seus pés poderiam ceder a qualquer momento, o que era realmente contraditório já que ela se sentia no chão há tempos. Cautelosa, ela pegou o pequeno travesseiro que ficava na ponta do berço e o segurou entre os dedos com força. Seus pensamentos atravessaram os limites que ela tinha imposto sobre aquelas memórias, fazendo seu estomago revirar tamanha a fragilidade que aquilo ainda trazia a ela.

Eu sinto muito, Sra. .

Eu sinto muito.

Sinto muito. Eu.

Muito sinto, eu.


Deus! Era totalmente incoerente aquelas palavras em uma frase só. Ela que sentia muito, sentia muito quando seu bebê chutava, quando ela conversava com ele mesmo que ele não a ouvisse, quando ela saia para comprar roupinhas e brinquedos, ansiosa pela chegada dele. Ela sentia muito, ele não sabia o que era sentir, não sabia o real sentido da palavra.
— Merda. — Falou baixinho, como se perguntasse o porquê de tudo estar acontecendo com ela.
Escutou um barulho estridente e largou o travesseiro lilás e macio em cima do berço, saindo do quarto e trancando a porta, deixando do lado de dentro as memórias conflituosas, poucas boas, pois a maioria parecia afundá-la ainda mais para baixo.
Chegou na sala e espreitou os olhos até o identificador de chamadas, antes de atender.
— Louise. — saudou, tentando parecer animada.
— Oi, . — Louise parecia tímida ao perguntar, provavelmente com medo de estar incomodando. — Como está?
— Como estou? Ótima. — Ela gesticulou com uma mão, como se a irmã pudesse enxergar através da linha. — E você?
— Bem. A mamãe está mandando lembranças.
— Diga a ela que mandei outras. — Mandou, sentando-se novamente no sofá enquanto encarava de longe a estante, com os olhos ávidos a fim de achar algum filme que ela pudesse assistir depois que finalizasse aquela ligação. — Pensei que só ligaria no Natal. — Soltou, sabendo que a mais nova não ligara apenas para perguntar se ela estava bem. Nunca fez isso, agora que não faria.
— Huh, não. — Louise respondeu rápido, pensativa. — Trabalhando muito?
— Oh, sério? Ligou para saber do meu trabalho? — Não conseguiu dosar seu escárnio ao retrucar a irmã. — Diga logo onde quer chegar com isso, Lou. — Aconselhou. — Ou melhor, nem se dê ao trabalho.
...
— Sem essa de ! Se quer saber, sim, estou trabalhando muito, atolada de trabalho, com matérias até o pescoço para aprovar porque resolveram deixar tudo para a última hora e muitos funcionários da redação entraram de férias. Reuniões? Uma por dia, em média, e nem assim conseguimos resolver tudo! Eu tenho muitas coisas para fazer e não posso parar a minha vida e meu trabalho para ter um tempo de família feliz com você e a mamãe. — Cuspiu as palavras, completamente alterada, deixando Louise do outro lado da linha estupefata.
— Qual é a porra do seu problema, mulher? — Ela riu com desdém. — Sério! O trabalho comeu seu lado emocional ou o deixou a flor da pele ao ponto de que nem você mesma se aguenta?
— Você não sabe do que está falando! — defendeu-se, apertando os olhos ao sentir eles umedecerem aos poucos com as palavras afiadas da irmã.

Como ela tinha coragem de dizer que o trabalho comera o lado emocional da mulher?

— Eu sei, sim, e tenho pena. Pena da mamãe, que vive falando sobre como ela queria que você passasse um dia que fosse com a gente, em família. Mas você é muito ocupada para pensar em família agora, não é? E, ah, pena de você, também. Deve ser uma merda ser egoísta e infeliz.
— Vá para o quinto dos infernos. — Rosnou e tirou o telefone da orelha, encerrando a ligação ao apertar no botão vermelho.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 09:08AM, 17 de Dezembro de 1997.

colocou as torradas no prato e depois colocou-o em cima do balcão de mármore, observando Charlie cantar desafinadamente com o desenho que passava na TV enquanto ela permanecia sentada em sua cadeira, pronta para tomar seu café da manhã.
— Charlie gosta! — Ela disse, ainda olhando para a televisão, se referindo ao desenho que passava.

O dia amanhecera agradável, assim como os outros em Denver, cidade que raramente amanhecia com um dia cinzento e fechado. Era a folga de e era dia de apreciar as ruas que pareciam calmas até demais, afinal, muitas pessoas costumavam deixar seus carros em suas garagens e optavam por andar a pé ou de bicicleta até os parques que se localizavam por toda a cidade; eram muitos deles e ali as pessoas prezavam pelo lazer e a diversão em família, o que resultava todos em uma união sincronizada por onde seus olhos percorressem. Como também prezava por isso, logo cedo tomara um banho para depois dar um banho em Charlie que escolhera sua própria roupa, um macaquinho rosa com estampa de esquilos, e depois que tomasse café, iam ao parque que não ficava muito longe dali.

O homem passou a manteiga de amendoim em uma torrada e a estendeu para sua bebê que recebeu prontamente, mordendo um pedaço e depois colocando-a em cima de sua miniatura de prato para que pudesse pegar seu copo rosa com as duas mãos.
— Hum, delicia! — Charlie elogiou, passando as duas mãos por sua barriga, querendo mostrar que havia aprovado a torrada e o suco do pai, que riu com a afirmação da filha.
Ele se sentou ao lado da menina e pôs-se a comer, auxiliando Charlie na hora de limpar sua boca com o guardanapo que pusera minutos antes sobre a mesa. Enquanto comiam, ela pareceu esquecer completamente o desenho que passava na TV e começou a conversar com o pai, que fazia caretas por não entender algumas palavras que a bebê dizia com sua fala arrastada e embolada de criança, o que era totalmente normal para a idade dela.

Quando terminaram de tomar o café da manhã, se levantou e esperou Charlie pular de sua cadeira enquanto arrumava a louça suja sobre a pia, a fim de lavá-la só quando chegassem. Pegou na mão da filha para que a conduzisse até o banheiro e escovassem os dentes antes de saírem, de fato.
— Pode? — Charlie perguntou incerta para o pai, querendo saber se podia molhar sua própria escova de dentes que tinha uma pequena quantidade de pasta dental colorida em sua ponta. pegou a filha no colo para que ela pudesse alcançar a torneira e molhasse sua escova, recebendo, em seguida, a ajuda do mais velho para terminar de se aprontar.
Depois de terminarem, caminharam até a porta enquanto o rapaz segurava uma pequena mochila que tinha algumas coisas que talvez eles precisassem mais tarde e tinha, também, alguns brinquedos para que Charlotte pudesse brincar, caso quisesse. Caminhavam em direção ao parque mais próximo da onde moravam, a fim de aproveitarem a manhã gostosa que fazia naquele dia. Charlie tinha um chapéu em sua cabeça, assim como o pai, para que se protegessem do sol que liberava raios em suas peles que eram revestidas por protetor solar.
— Nós andamos iguais. — começou fazendo a menor rir, animada.
— HEY! — Charlie continuou, pulando com o pai.
— Nós andamos iguais.
— HEY!
— De um lado — Ele falou, dando um passo para o lado direito, sendo acompanhado pela menor que parecia se atrapalhar com seus pequenos pés. —, para o outro. Para frente e para trás. — Ele afirmou, colocando um pé para frente e depois o outro para trás.
— Nós andamos iguais. — Ela finalizou, rindo enquanto abraçava a perna de .
Quem olhasse, teria dificuldade para distinguir quem, de fato, era a criança ali, já que o rapaz se portava como uma ao lado de Charlotte que se divertia demasiadamente com as brincadeiras do pai, este sempre disposto a fazer qualquer coisa para escutar a risada que fazia seu estômago sentir cócegas, tamanho o amor que sentia por aquele serzinho comunicativo. Bom, ser comunicativo apenas com ele, visto que a menina quase não falava perto de estranhos e, raramente, gostava de algum deles.
O parque estava tranquilo, com crianças energéticas correndo na área do playground enquanto seus pais observavam tudo sentados em baixo das grandes árvores que proporcionavam uma deliciosa sombra fresquinha. , diferente dos outros, não gostava apenas de observar se estava tudo sob controle, ele gostava de participar das brincadeiras que sua bebê gostava, e lá estava ele, colocando a mochila na grama e caminhando com Charlie até o escorregador de madeira.
— Non! — Charlie exclamou, levemente histérica. — Charlie tem medo. — Explicou, segurando-se nas pernas do pai.
— Não precisa ter medo, bebê. — Garantiu, pegando a pequena mão da menina para que a levasse até a escadinha que subiria até o topo do escorregador. — É muito legal, você vai gostar.
Mesmo com o pai insistindo que gostaria, Charlie parecia insegura enquanto observava as outras crianças nos outros diversos brinquedos que tinha ali. Sempre fora naquele local com Lisa para passear, mas sempre se recusou a ir no escorregador, alegando medo de se machucar. Ela preferia brincar na areia com suas pazinhas, era mais divertido e não lhe machucava.
pegou a garotinha no colo e a esticou no alto, para que pudesse apoiar seus pézinhos no brinquedo. Charlotte contorceu seu rosto, aproximando seus poucos fios de sobrancelhas e anunciando um choro alto, seguido de um esticar de braços para que o pai pudesse pegá-la novamente e a colocasse em terra firme. Sem dar tempo para que a bebê pedir por colo, ele subiu a pequena escada de madeira e se abaixou para que pudesse entrar na proteção do brinquedo.
— Não chora, o papai está aqui, huh? — balbuciou calmo, a fim de cessar o choro da filha. — É um brinquedo muuuuito legal. — Ele afirmou, mexendo nos fios de cabelo de Charlie, observando ela se acalmar aos poucos, deixando o choro de lado conforme escutava as palavras do pai.
— Charlie não gosta. É alto, papai, e o neném não gosta. — Sussurrou, segurando o rapaz pelo pescoço em um pedido silencioso para que ele a tirasse dali.
Com cuidado, puxou a bebê para o seu colo, pondo-se sentado na estrutura de madeira que não permitia que pessoas maiores de um metro e cinquenta centímetros usufruíssem do brinquedo. Tomaria uma bronca do guarda bigodudo que já olhava em sua direção, tentando entender o que estava acontecendo.
— Juntos no três, ‘tá? — Ele pediu, segurando Charlie pelos ombros. — Um...
— Dois...
— Três! — finalizou a pequena contagem e deu impulso em seu próprio corpo para que fosse para frente e escorregasse. Deu risada ao perceber que suas pernas eram quase do tamanho da extensão do escorregador, o que fez com que ele dobrasse elas para que fosse até o final. Charlotte nada disse, apenas se levantou do colo do pai para encará-lo em seguida com o dedo na boca, pensativa, provavelmente.
— É legal, não é? Eu disse que ia gostar... — Reforçou, levantando-se e passando as mãos pelas calças, para que tirasse os grãos de areia que ali ficaram devido ao sobe e desce das crianças que, antes de subirem ali, adoravam mexer na areia que envolvia o playground. — Ou não gostou? — Perguntou, observando sua bebê ainda quieta.
— Podemos ir de novo? — Charlie perguntou, baixinho, tirando o dedo da boca e o limpando em sua própria roupa.
, surpreso, sorriu e pegou novamente a filha no colo, apenas para colocá-la em cima da estrutura novamente e avisar:
— Podemos, mas, agora, você vai sozinha, tudo bem? — Ele perguntou para a filha, que assentiu com a cabeça devagar, hesitante, mas aceitando.
Depois da garotinha sentar, o rapaz deu a volta e parou de frente para o brinquedo, onde Charlie desceria.
— Desça, o papai está aqui! — Balbuciou, esticando as mãos para que ela soubesse que ele estaria ali para segurá-la.
Charlie, ainda insegura, segurou nas madeiras laterais lisas e deu impulso em seu corpo miúdo, gritando fino ao sentir suas pernas deslizarem pelo escorregador. Ela abriu os abraços quando olhou para o pai que fazia o mesmo, apenas esperando que sua garotinha chegasse até ele para segurá-la e mostrar que estava tudo bem e ela estava a salvo daquele brinquedo que, em sua cabeça infantil, parecia muito com algum monstro marinho de três cabeças e sete nadadeiras.
Histérica, ela começou a gargalhar no colo do pai que ria da reação espontânea da bebê.
— Gostou?
— Gostou! — Charlotte afirmou, abraçando o homem pelo pescoço. — Charlie quer sorvetinho... de chocolate! — Pediu, depois de colocar o dedo no queixo e ponderar por um momento o sabor que queria, optando pelo chocolate.
— Mas ainda não são nem dez e meia, ma belle.disse, olhando seu relógio de pulso. — Podemos tomar sorvete depois do almoço, tudo bem? Está muito cedo e a Charlie pode ficar dodói. — Explicou, sabendo que sua explicação nada tinha a ver com o horário.
De qualquer forma, Charlie aceitara a explicação e puxou o pai para que fossem para o próximo brinquedo que tinha ali e pudessem aproveitar o ótimo dia que fazia.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 11:34AM, 17 de Dezembro de 1997.

O que fazer num quarta-feira ensolarada? Relaxar enquanto lê um bom livro ou talvez termine o seu próprio, adiantar trabalhos da redação ou assistir um filme que ficou de assistir assim que ele lançou? Engraçado que de todas as opções que passavam pela cabeça de , nenhuma possibilitava a saída dela de casa. Talvez ela devesse tomar um pouco de sol nas pernas e bronzeá-las da mesma forma que elas costumavam a ser, moreninhas como ela sempre gostou. Talvez devesse sentar no banco de algum parque — Em meio à tantos naquela cidade — e alimentar algumas pombas famintas, e depois, quem sabe, tomar um sorvete de creme como ela não fazia há meses. Ou talvez devesse andar de bicicleta enquanto escuta alguma música em seu discman prateado que tinha uma fita isolante do lado, resultado de uma queda das boas depois de uma noite de bebedeira em seu apartamento. Ou, só talvez, fazer o que deveria, de fato, fazer naquele dia por obrigação.

HomeOffice tem suas vantagens.

— Talvez eu devesse te levar para um banho, huh? — disse para Elvis assim que sentiu o bichado passar o rabo peludo entre seus tornozelos nus. Como resposta, o gato ronronou, parecendo contrariado à ideia de um banho no petshop que sua dona sempre o levava. — Não gostou da ideia? Deixo passar, mas na semana que vem você não escapa, estamos entendidos? — O pegou no colo e olhou para a face do animal que não expressava nada além de sua cara entediada e engraçada com bigodes finos.

largou os biscoitos caseiros que comia em cima da mesinha de centro da sala e engoliu o resto de leite gelado que estava em seu copo, caminhando até seu quarto para que pudesse encontrar algo para fazer, antes que voltasse a dormir. Mexeu em algumas fotos, arrumou sua gaveta de calcinhas, leu uma rima que ela escrevera num guardanapo na noite passada e pusera em cima do cômodo da TV, organizou alguns livros que estavam aleatoriamente despejados em cima de sua estante de madeira, limpou alguns DVD’s empoeirados e beliscou algumas balinhas sem açúcar que tinha em seu potinho de doces. Tudo aquilo durou exatamente uma hora e cinquenta e oito minutos, o que fez a moça suspirar frustrada por perceber que a hora parecia não passar.
Sem outra alternativa — Ignorando seu trabalho —, abriu seu laptop e, novamente, tornou a abrir o arquivo que era tão íntimo para ela. Seus olhos percorreram os dois últimos parágrafos e suspirando fundo, ela tomou coragem para mover seus dedos rápidos e ágeis em cima do teclado frágil e barulhento.
Sentia sua cabeça ferver enquanto digitava suas ideias que, depois de muito tempo, saiam com tamanha facilidade que ela sentiu que poderia terminar aquele livro naquele mesmo dia se sua disposição colaborasse. Não era um grande livro, não. Estava bem longe disso, na verdade, e ela sabia muito bem, mas não se importava. Não queria que fosse um grande livro, não queria que fosse um livro de grande sucesso de vendas ou chegasse a um ponto em que as pessoas lhe escreveriam cartas do outro lado do oceano só para lhe dizer que sua escrita era encantadora ou algo do tipo. Não queria escrever sabendo que aquilo poderia lhe render alguns bons dólares a mais em sua conta bancária ou uma legião de fãs que sempre pedem avidamente por datas de lançamento de um possível filme baseado em seu livro. Queria escrever seus sentimentos ou ideias malucas, queria mostrar seu ‘eu’ na escrita. Queria mostrar a insana criatura que habita em seu ser de salto alto e batom caro, mostrar seu lado moleca que briga internamente com seu lado sério e exigente. Não queria dinheiro, tampouco alguma fama em cima disso. Queria expressar sua alma turbulenta em meio à tantas palavras, queria libertar-se. E só duas coisas podem te libertar de uma jaula: A escrita ou o amor.

Optou pela escrita.

‘Um, dois, três. O telefone tocou.’

escreveu, estranhamente, escutando seu telefone tocar assim que ela escreveu o ponto da frase. Ignorou, continuando a escrever.

‘Mônica ignorou.
No quarto toque, o telefone parou e, poucos segundos depois, retornou a tocar.’

Seu telefone parou de tocar exatamente no quarto toque, enquanto ela escrevera aquele trecho e, segundos depois, retornou a berrar ao seu lado. Estranhando, ela deixou o notebook de lado e ponderou atender o telefone. Quem deveria ser? Hesitante, ela segurou o aparelho sem fio na sua mão, apertando o botão que aceitaria a chamada em seguida.
— Oi? — perguntou, baixo, ainda contrariada com a ridícula coincidência que acabara de presenciar.
? — Perguntou do outro lado o que ela concluiu ser uma mulher. Uma mulher com a voz familiar, mas ela não reconhecera de cara e questionou-se internamente quem seria. — Quem fala é Jody. Jody O'Brien. — Oh, sim! Claro, como ela poderia esquecer da dona-da-porra-toda?
Como se estivesse a própria Jody em sua frente, a moça arrumou sua postura e passou uma mão pela lateral de seu cabelo, arrumando-o.
— Olá, Jody! Como está?
— Estou ótima, obrigada por perguntar. Eu sei que não deveria lhe incomodar em pleno dia de HomeOffice, mas é realmente um assunto importante. — Jody adiantou, extremamente apressada, como sempre fora.
— Pode falar. — custou a dizer, ficando tensa em segundos. O que seria de tão importante para que uma das donas da revista lhe ligasse em seu telefone pessoal? Seria sua demissão depois de anos naquela redação? Não podia ser!
Tentou pensar em algo de errado que fizera em algum momento desde que começou a trabalhar ali, tentando achar algum motivo coerente que fizesse a dona lhe mandar embora com seus textos e matérias em uma pasta. Pensou se em algum momento lhe ocorrera de cometer um erro profissional ou ético, mas nada lhe aparecia em mente? Por que ela faria isso?
— Precisa ser pessoalmente! Está livre para um almoço amanhã?
Era tudo que ela não queria escutar naquele momento. Por que tinha que ser uma conversa olho no olho? Se quisesse mandá-la para fora, que fosse pelo telefone, oras! Pelo menos ela não choraria na frente de Jody, que pensaria que aquilo tudo era só um drama para que ela repensasse sua decisão.
— Sim, claro. No meu horário mesmo?
— Sim. Te encontro na recepção, certo?
— Certo.
— Então, até mais, ! — Jody despediu-se, deixando a mulher do outro lado da linha com um ponto de interrogação no meio da testa, bem entre suas sobrancelhas arqueadas.
A mulher colocou o telefone no aparador e estalou os dedos, ainda tensa. Poderia ser outra coisa, né? Ela não deveria pensar que seria sua demissão antes mesmo de saber o que Jody queria, de fato. Mas, sabe, ela nunca foi a melhor pessoa para lidar com as situações e hipóteses que sua mente criava, deixando-a prestes a arrancar seus próprios fios de cabelo, tamanho era o nervoso que ela passava com coisas que ainda nem aconteceram e que, muito provável, que não aconteceriam.

— Foco. Foco, ! — Ela disse para si mesma, arrumando-se novamente sobre a cama e pegando o laptop para que continuasse a escrever. — Mas e se for, realmente, a minha demissão? — Questionou para seus próprios botões. — Para de paranoia, não é isso!

E se fosse?

Para, para com isso.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 19:11PM, 24 de Dezembro de 1997.

Não fora demitida. E era isso que lhe importava naquele momento.

Poderia deixar o trabalho que lhe fora solicitado para depois, pois aquele copo na sua frente lhe parecia muito mais convidativo do que suas anotações com sua letra corrida em seu bloco de notas de folhas brancas. Seu celular estava em cima do balcão, esperando apenas o nome de sua irmã aparecer na bina, avisando sua ligação que prometera. Talvez estivesse esperando apenas por esperar, sabia que a irmã não ligaria, e não tirava a razão de Louise. O homem de cabelos bagunçados limpava o balcão a sua frente, encarando-a tediosamente de cinco em cinco minutos, provavelmente por notar que as pessoas estavam indo embora com seus grupos de amigos e ela continuava ali, parada, observando o local silenciosamente enquanto parava para fazer algumas anotações. Ela o conhecia. Quer dizer, ela o reconhecia. Fora ele quem lhe atendera da primeira e última vez que esteve ali com Maximiliam.

Não estava tarde, mas, naquela noite, fechariam mais cedo por ser véspera de Natal, o dia em que todo mundo pretende passar a noite com a família enquanto comem as deliciosas e recheadas ceias natalinas.

— Eu sou uma má pessoa? — perguntou, alto o suficiente para que o rapaz escutasse e pigarreasse.
Foi seu subconsciente que estava minimamente alterado pelo álcool que soltou esta pergunta, na realidade. Em sua sã consciência, ela nunca faria isto.
— Desculpe? — perguntou, incomodado.
— Esquece. — Disse, rodando o copo sobre o balcão, inquieta, desta vez. — Mas, assim... Hipoteticamente, uma mulher cria problemas antes mesmo deles começarem e, quando começam, ela não sabe lidar com eles, optando por fugir de si mesma sempre. E hipoteticamente, esta mulher se sente uma porra-louca, afastando tudo e todos sem mesmo perceber... Isso faz desta mulher, egoísta e infeliz? — Repetiu a frase da irmã que ainda ecoava em sua cabeça, deixando-a tonta hora ou outra de tanto pensar sobre.
— Hipoteticamente, esta mulher é você? — O rapaz perguntou, com a sobrancelha direita arqueada.
o encarou e suspirou frustrada, espreitando seus olhos para o copo novamente. Ele deveria apenas lhe responder a pergunta que fizera, e não lhe devolver outra.
— Hipoteticamente, sim.
— Então, hipoteticamente, eu acredito que sim, isto faz dessa mulher egoísta e infeliz. — Soltou, quase agressivo, fazendo a mulher apertar os olhos com sua resposta na ponta da língua. — Mas, hipoteticamente, não consigo achar um motivo para ela ser assim. — Melhorou sua frase anterior. — E outra, se isto deixar esta mulher melhor: Ela deveria rever melhor seus motivos pelos quais está se deixando levar e afastar tudo e todos, nem sempre eles valem, de fato, a pena.
soltou uma risada nasalada. Que conversa de gente doida.
— Desculpe, devo estar tomando seu tempo. Eu... Estão fechando? — Perguntou, ao notar que era a única ali, recebendo um aceno de cabeça de . — Me dê a última bebida, sim? E aqui está, pode ficar com o troco, é um agradecimento pelo conselho. — Estendeu a nota, depois guardou a carteira e seu celular na bolsa, esperando o rapaz colocar o álcool no copo pequeno.
Observou o homem caminhar em sua direção com algumas notas em mãos e a sua bebida na outra.
— Eu disse que pode ficar com o troco, não me ouviu? — Perguntou, depois que o rapaz estendeu ambas as mãos, para que ela pegasse a bebida e seu dinheiro.
— E eu não estou aceitando, está me ouvindo? — Continuou com a mão estendida, esperando que a mulher pegasse. revirou os olhos e suspirou, pegando-as e guardando-as dentro de sua bolsa. Terminou sua bebida em um último gole e empurrou o copo para o homem, fazendo uma careta engraçada ao sentir o liquido descer com todo seu furor pela sua garganta sensível. Levantou-se e colocou a bolsa em seu ombro direito, caminhando em direção ao banheiro do local.
— Senhora?
— Será que posso usar o banheiro antes de ir? Ótimo. — Respondeu sua própria pergunta depois de um silêncio da parte dele. — E senhora é a minha mãe.
Cansado, foi até a cozinha para que pudesse se despedir de Marvin que terminava de lavar as últimas louças.
— Marvin, estou indo. — Ele avisou, pegando sua mochila que deixara atrás da porta. — Espero que tenha um ótimo Natal!
— Feliz Natal, ! — Desejou, observando o outro sair pela porta.
passou pelo balcão e se perguntou se a mulher havia, de fato, ido embora ou ainda estava no banheiro. Notou que o carro prateado ainda se encontrava do lado de fora do estabelecimento pela vidraça, concluindo de que a madame ainda estava lá, trancafiada no banheiro fazendo sabe-se-lá-o-que. Cruzou os braços e esperou um minuto. Dois, três, quatro e cinco. Esperou cinco minutos até escutar um barulho razoavelmente alto ecoando do corredor dos banheiros, fazendo o rapaz descruzar os braços e alinhar os lábios, enrugando a testa. Caminhou até o corredor, onde escutou uma tosse abrupta soar do banheiro feminino, fazendo grudar sua orelha esquerda na porta para que pudesse escutar melhor, como uma criança curiosa que olha pela maçaneta o que os pais estão fazendo dentro do quarto. Deu duas batidas na porta e balbuciou:
— Está tudo bem aí? — Levantou uma sobrancelha quando tudo que escutou fora outra tosse, esta mais fraca.
Não deveria, mas a curiosidade era maior, então abriu a porta, se deparando com uma silhueta debruçada sobre a pia de mármore.
— Ei, está se sentindo bem? — Pediu novamente, pisando, sem querer, numa bolsa que descansava no chão. Recuou o pé e abaixou-se para pegar os pertences que caíram para fora do couro marrom.
Uma coisa, em especial, lhe chamara a atenção. Era uma caixinha branca e, ao balançá-la, pôde constatar que eram compridos. Passou rapidamente os olhos pelo rótulo e riu tenso, ficando quieto em seguida assim que a mulher se remexeu à sua frente.
— Ô garota, está se sentindo bem?
— Primeiro senhora, agora garota. Decida-se! — Rebateu, com escárnio.
respirou fundo e, ainda sem encarar o rapaz, abriu a torneira, enfiando suas mãos trêmulas em baixo da água para depois molhar seu rosto que agora estava pálido, apertando os olhos.
— Devo chamar uma ambulância? — Sebastian perguntou, colocando a bolsa em cima da pia.
— Deve ficar quieto!

Petulante!

Era isso que ela era. E mal-agradecida, também. Sem dizer mais nada, o rapaz girou os tornozelos e marchou para fora do banheiro, caminhando pelo corredor até chegar ao hall do restaurante. Olhando seu relógio de pulso, ficando apreensivo por chegar logo em casa. Era a folga dele e ele estava ali, como um bom amigo, cobrindo a falta de Jared, que teve alguns imprevistos e não pode ir. Percebendo que lamentar-se àquela altura do campeonato não levaria a nada, arrumou sua mochila nos ombros para que pudesse correr até sua casa. Saiu pela porta e pôde sentir a brisa pouco gelada que passou cortando seu rosto em um choque térmico que arrepiou seus pelos, fazendo-o encolher, minimamente, os ombros.
— Já estou indo embora, se isto te faz melhor. — anunciou sua chegada, parando ao lado do rapaz, que começou a dar passos pelo curto caminho de pedregulhos que levava até a calçada cimentada. — Está indo para onde? Quer uma carona?
Tudo que recebeu fora mais alguns passos para longe dela. Por que ele não respondia?
— O gato comeu sua língua?
— Não preciso de carona. — respondeu, ainda sem olhar para a moça.
— Certo. Feliz Natal? — Soou, de fato, mais como uma pergunta.
balançou a cabeça como se estivesse agradecendo e, começou a apressar o passo até dobrar a esquina, foi quando ele começou a correr os quatro quarteirões para que pudesse chegar em casa o mais rápido possível. , por outro lado, caminhou calmamente, na medida em que suas pernas ainda trêmulas permitiam, até seu carro, destravando-o para depois entrar e ficar sentada, observando a rua com pouco movimento. Tirou seu celular da bolsa e o colocou em cima do banco do carona, pois se recebesse alguma ligação, escutaria e não teria problemas em tirá-lo do buraco sem fim que era sua bolsa.

Enquanto dirigia em direção ao seu apartamento, olhava para o celular a cada um minuto e fazia questão de checar se ele não estava no modo avião, apenas para ter a certeza de que ninguém estava tentando se comunicar com ela e não conseguia pois ela não atendia. Batucou o suporte do banco e assobiou, balançando a cabeça no ritmo de alguma música que passava em sua mente, tentando afastar a ansiosidade enquanto esperava no semáforo.

Pensou no último Natal que fora para casa de sua mãe e passou o dia e a noite inteira com ela e sua irmã mais nova, Louise. Durante o dia, elas fizeram a ceia, cada uma dedicada à um prato que, de acordo com elas, era sua especialidade. E de noite, elas sentaram ao redor da mesa, sempre deixando a cadeira da ponta livre em respeito ao pai e ao marido, e comeram, contando histórias de outros Natais. Depois, trocaram presentes entre elas e sentaram-se sob a árvore que brilhava com seus pisca-pisca coloridos. Conversaram, riram, relembraram, choraram de tristeza e alegria, mas não importava, porquê, no final de tudo, elas estavam ali, uma para a outra.

, ainda relembrando, riu sem humor, pensando em como tudo pode mudar durante um ano.

Tudo muda, e muda rápido.

Já em seu apartamento, a mulher retirou os calçados, pronta para tomar uma ducha e depois passar suas anotações para o computador, a fim de enviar a proprietária da revista, Jody. Ela marcara uma reunião para falar sobre a nova estrutura da revista, ordenando que cuidasse de uma parte que sempre foi muito pedida pelos leitores; o lazer. Era comum que os leitores pedissem um espaço especial na revista dedicado ao lazer, visto que as pessoas em Denver prezam fielmente por isso. Continuaria a mesma coisa, a revista continuaria sendo publicada com o mesmo estilo de conteúdo todos os meses, a diferença, agora, é que duas revistas seriam publicadas, uma espécie de complemento, diria. Uma seria direcionada ao público mais jovem como sempre fora, e a outra seria direcionada àqueles que chegaram à um ponto da vida que só querem gastar o dinheiro que passaram anos e anos guardando.

Depois de despir-se, tirou os pés do tapete e encarou o piso gelado do box, ligando o registro para que pudesse tomar banho. Molhando os cabelos, ela cruzou os braços sobre o tronco e esticou suas mãos até as laterais de suas costas, deixando seus seios maiores do que eles realmente eram. Deixou a água bater em seu corpo por mais alguns minutos e resolveu passar o shampoo enquanto deixava o registro ligado, sem se importar com o valor da conta de água no próximo mês. Escorreu a mão sua barriga, chegando ao seu baixo ventre para fazer um carinho ali. Seus pelos eriçaram e ela desceu mais sua mão direita.

Oh, fazia tanto tempo que ela não fazia aquilo!
Tanto tempo que quando colocou a mão por cima de seu sexo, sentiu sua carne tremer em sua palma. Mexeu seus dedos sobre os lábios e apertou os olhos, sentindo falta daquilo. Sem pensar mais em nada, levou o dedo indicador e o do meio até sua boca, sugando-os e umedecendo-os, para depois levá-los novamente ao seu sexo quente e que se encontrava em estado de formigamento.

{...}

O apartamento estava sendo aquecido pela lareira, que ficava na lateral da sala de frente para alguns acolchoados no chão. Ela estava sentada com uma coberta enrolanda e aquecendo ainda mais seu corpo, com o celular na mão direita e uma xícara de café fumegante na esquerda. Seus dedos digitavam o número da casa de sua mãe e logo após firmavam no botão ao lado para apagar e depois bloquear a tela. Olhou no relógio de parede. Seis minutos.

Depois de tomar seu... Hm, relaxante, ela diria, banho, mandou o e-mail para Jody e sentou-se na sala para assistir algo na TV, mas não passava nada além de filmes e especiais natalinos, como todo fim de ano, então ela ficou zapeando os canais aleatoriamente, sem focar realmente no que passava. Colocou a xícara ao seu lado e desligou a televisão, apreciando o silêncio que, de tão absoluto, fez com que ela escutasse o ponteiro do relógio soar baixinho, avisando a hora em que todos se abraçam e comemoram. Olhou fixamente para o celular ainda em sua mão e esperou mais um minuto. Talvez sua mãe e irmã estivessem ainda no momento de euforia.

Mais dois, três, quatro, cinco minutos passaram e nada. Quer saber? Que se dane o orgulho. Digitou o número tão bem conhecido, mas pouco digitado, e colocou o celular em sua orelha, ansiosa a cada toque que o mesmo fazia do outro lado da linha.
— Pronto? — Soou do outro lado da linha. Era sua mãe, ela sabia.
— Oi. — balbuciou, tímida como uma garota de cinco anos.
? Oh, , querida! — Ofélia soou carinhosa do outro lado da linha, fazendo a moça se arrepender de não ter ido passar essa data com ela. — Como está?
— Eu estou bem, mãe, e a senhora? — Perguntou, remexendo-se sobre o acolchoado macio.
— Na medida do possível, bem! — Declarou, com pesar. — Pensei que estaria aqui conosco. — Parecia chateada, e, de fato, estava. — Sabe o quão importante essa data é para mim, não sabe? — Se o propósito de Ofélia era deixar sua filha deprimida, ela conseguiu isso melhor que ninguém. Mas não era esse o propósito dela. só estava com a consciência pesada demais, o que a fazia se sentir culpada por tudo. E ela sabia que a única culpada de tudo era ela, era sempre ela.
— Mãe, eu... Eu estive trabalhando muito, tenta me entender, tudo bem? — Se sentia uma filha da mãe egoísta-mentirosa-mesquinha naquele momento, mas o que podia fazer? Ela só queria um tempo para colocar seu pensamento e coração no lugar. — Posso passar aí amanhã? — Pediu, insegura.
— Mas que pergunta? É claro que pode! — Ofélia disse como se fosse óbvio. —, minha filha, eu estou tão preocupada! — Mudou de assunto. Precisava conversar com a filha, e aquele afastamento repentino não estava colaborando. — O que está acontecendo? Sabe que pode me contar qualquer coisa e não quero que pense que está sozinha, pois não está, afinal.
— Mãe, podemos conversar amanhã, sim? — Sugeriu, ouvindo um murmúrio do outro lado da linha, indicando que sua mãe concordara. — Então, até amanhã.
— Estarei te esperando.
— Feliz Natal, mãe.
— Feliz Natal, querida. — E então o telefone ficou mudo, finalizando a ligação.
suspirou, cansada, e colocou o celular ao seu lado, encarando a lareira e se perdendo em meio a tantos pensamentos.
Lembrou-se de quando era menor. Seu pai dando-lhe sua primeira bicicleta no Natal de 76 e as lágrimas de felicidade nos olhos homem quando soube que Ofélia estava grávida de Louise, naquela mesma noite. Riu ao lembrar-se de como ficara enciumada com a notícia e nem mesmo o fato de que ganhara o presente que pediu o ano inteiro podia tirar sua expressão emburrada de sua face miúda. Ela também queria atenção! E, no pensamento infantil de que só tinha seis anos, só ela era dignada de atenção, afinal, ela chegou primeiro! Era um absurdo saber que uma pessoa que nem nasceu causava tanta euforia na família.
Quando tinha sete anos, decidiu que queria ser bailarina, decisão esta que aos nove anos mudou para professora, e, quando chegou aos quinze, foi decidido que queria ser estilista. Com dezessete, no último ano da escola, a garota se sentia perdida, não sabia o que fazer. Era normal, não era? Se sentir indecisa sobre o que iria cursar na faculdade. Mas ela fez tantos planos! Como não tinha nada em mente logo no último ano do colégio?
Com dezenove anos, teve de lidar com uma perda que parecia ser devastadora e consumia a família inteira, deixando um clima completamente desagradável e melancólico. Lembrou-se que sua mãe quase entrara em depressão após a morte de seu amado marido, e isso só não aconteceu pelo apoio imenso que recebeu das filhas, que sempre mostravam-se prestativas ao emocional de Ofélia.
Depois, com vinte e um anos, despertou o sonho de ser mãe. Era um sonho que tinha desde seus quatorze anos e que o tempo foi alimentando seu coração. Nunca fora namoradeira, teve um namorado sério, ficou com o rapaz por um ano e sete meses quando tinha seus dezessete anos e terminaram, pois ele resolvera seguir seu sonho de estudar na Europa e construir sua carreira por lá mesmo. Lamentável, ela sabia, nutria sentimentos bons por Leonel, afinal. Resolveu, então, deixar isso de lado e focar apenas em suas ambições. Com vinte e quatro anos, tinha a vida que qualquer outra pessoa gostaria de ter, era bem sucedida no trabalho, tinha seu próprio apartamento e inclusive um gatinho que chamava carinhosamente de Elvis. Ela não tinha do que reclamar, certo?

Sentiu suas pernas serem roçadas por pelos macios e os ouvidos serem preenchidos por um ronronar baixinho e manhoso. Encarou Elvis que mantinha os olhos fechados, pedindo um pouco de carinho. riu e acariciou os pelos do bichano, que deitou em sua frente, satisfeito.
— Que gatinho manhoso!
Elvis passou a cabeça pela mão da dona, esperando que ela lhe coçasse as orelhas, e assim o fez, pegando-o para que pudesse aninhá-lo em seus braços, da mesma forma que o bichano dócil adorava que ela fizesse. Ligou a TV novamente e, desta vez, assistiu à um desenho infantil que passava na Disney, sem resmungar.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 21:34PM, 24 de Dezembro de 1997.

Charlotte estava radiante naquela noite com seu gorro e botas na cor lilás, sua preferida, fora ela mesma quem escolheu. também não estava nada mal com sua camisa social clara e jeans com a lavagem escura. Estava radiante como sua filha. Segurava sua pequena mão para que não lhe perdesse de vista, enquanto a garota rodopiava ao escutar as músicas natalinas que tocavam no centro da cidade naquela noite. Inesperadamente, muitas pessoas estavam nas ruas de Denver com suas famílias, o que não era nada típico, mas que deixou o rapaz de certa forma mais aliviado por saber que sua filha não se sentiria tão excluída de programas familiares que os pais faziam com os filhos.

Quando chegara em casa, fizera questão de arrumar Charlie para que passassem a noite fora, e lá estavam eles no centro da cidade iluminada, se divertindo como nunca. O rapaz segurava na outra mão um balão que comprara para seu bebê depois de muita insistência e uma carinha que não pode resistir. Detestava quando ela fazia isso, primeiro o olhava séria e, aos poucos, seus olhos iam enchendo-se d’água, para então se formar um bico na ponta de seus lábios rosados e seu pescoço pender para o lado. Era golpe baixíssimo! Quem iria dizer não para aquele ser pidão que tinha um belo sorriso com os pequenos dentinhos e seus olhos castanhos quase o confundindo com um pote de mel? Ninguém, ele apostaria.

Seus olhos pousaram sobre Charlie, que dava tchau para um cachorro com quase o dobro de seu tamanho que passava com seu dono, que sorriu para a menina, fazendo-a devolver o gesto. Ela estava contente e isso o alegrava de uma forma que sentia seu peito transbordar de tanto amor ao contemplar o sorriso daquele pequeno ser. Em um movimento rápido, Charlie puxou a mão de e passou a mão livre pela barriga.
— Charlie com fome! — Comunicou risonha, ainda passando a mão sobre a barriga.
— Eu também estou. O que quer comer? É natal, pode escolher o que quiser. — Disse, abaixando-se para ficar de seu tamanho e aproveitou para arrumar a blusa de manga longa da filha, puxando-o para baixo.
— Charlie quer pizza. Charlie adora pizza. — Respondeu, colocando os fios de cabelo do pai para o lado, querendo mostrar que também sabia arrumá-lo como ele fazia.
O rapaz riu com o gesto afetivo da menina e se levantou, segurando-a pela mão.
— Então, vamos comer pizza! — Comemorou, observando a garotinha repetir seu gesto, levando sua mão livre para o alto.
raramente deixava Charlie comer essas guloseimas, mas era a época mais feliz do ano, que mal tinha? Era só por aquele dia.
Eles caminhavam lentamente pelas ruas, ora rindo, ora cantando. Era bonito de observar os dois, exalavam uma euforia que era facilmente notada pelos sorrisos em ambas as faces. Era incrível a forma como um pequeno ser humano o fazia tão bem sem nem mesmo ter noção de muita coisa. Era nessas horas que pensava que tudo aconteceu com algum proposito, nada fora por acaso, por mais trágico que tudo tenha sido.

De longe, ele notou o espaço que costumava ir nas sextas à noite com alguma namoradinha que arrumara no Ensino Médio. O lugar não era nada luxuoso, muito pelo contrário, era simples e pessoas que ganhavam mais que um salário mínimo, iam ali. Naquele momento, poucas pessoas preenchiam as mesas redondas de madeira bem polida, a maioria eram casais que conversavam alegremente enquanto olhares apaixonados eram trocados. Já foi um desses casais, também.
Caminhou até a mesa que ficava perto da entrada e tinha como assentos bancos acolchoados de couro, pegou Charlie no colo e a colocou sentada ao seu lado. , sem querer enrolar muito ali para que pudesse aproveitar mais com a filha, pegou o cardápio e observou a garotinha ao seu lado pegar um também, fazendo-o rir. Charlotte olhava sem entender nada, completamente alheia a qualquer coisa que pudesse estar escrito ali, apenas observando as imagens. O rapaz tirou o menu de sua mão, o virando, mostrando que estava ao contrário, e a menina grudou os olhos, como se soubesse o que as letras e figuras diziam, como uma mocinha. Os olhos saltaram-se de suas orbitas quando passaram sobre a imagem da pizza extremamente recheada de chocolate que estava ali. Era tentadora, de fato.
— Essa.
Ela indicou e achara adorável a forma como a menina pronunciava as palavras emboladas, sendo uma coisa nova para ela.
Como sempre, o rapaz atendera o pedido da mais nova e chamara o garçom, pedindo uma pizza tamanho família. Tudo bem, Charlie não comeria nem um pedaço inteiro e ele não passaria do primeiro, mas ele poderia pedir para levar os pedaços e entregá-los aos moradores de rua que ficavam na pracinha em frente à pizzaria, assim, ele não faria só o Natal dele feliz, faria o de mais pessoas também. Sabia que não era muita coisa, de fato, mas para aquelas pessoas que se alimentavam de restos de comida encontrados em sacos de lixo, era mais que o suficiente.

Depois que a pizza chegou, eles comeram enquanto conversavam sobre alguns desenhos que Charlie gostava. fazia graças para a filha que ria com gosto, achando aquele cara em sua frente o cara mais legal do mundo, e talvez ele fosse o cara mais legal do mundo mesmo. Já , achava a garotinha à sua frente a mais adorável e esperta do mundo, e ele só queria protegê-la de tudo que pudesse lhe oferecer algum mal.
— O que acha de irmos até a pracinha e levarmos pizza para algumas pessoas que não podem comprar? — questionou, apontando para as fatias que sobraram.
— Por que eles não podem comprar, papai? — Charlie perguntou, pegando seu próprio guardanapo e limpando sua boca de uma forma que ainda restasse chocolate nos cantos de seus lábios. — Os papais deles não compram para eles?
— Não é bem isso, ma belle.
— Então, o que é?
— Bem, muitos deles nem têm um papai, e alguns até são papais de crianças pequenas como a Charlie. — tentou explicar, da forma mais simples e esclarecedora possível para que não confundisse a cabeça de sua garotinha que o olhava em dúvida.
— Eles não têm papais?
— Alguns.
— Então, você pode ser o papai deles, né? — Charlie perguntou, sorrindo inocente.
não pode deixar de rir da forma como a garotinha achava que tudo era muito simples, tudo muito bonito, ele diria. Ela conseguia enxergar tudo com uma leveza que só uma criança conseguia enxergar e isso era, aos olhos do rapaz, extremamente cativante. A forma como ela não via maldade e dificuldade em nada lhe motivava, lhe motivava para ser um ser humano melhor, para ela e por ela. Ele queria ser generoso da mesma forma que Charlie achava que todo mundo era ou poderia ser, queria ser bondoso e nunca destratar ninguém.
— Não, Charlie. Não posso ser o papai deles.
— E por que não? Se eles não têm um papai, eles podem ter o meu papai como papai também, eu não ligo. Nós podemos dividir! E eu também tenho brinquedos e nós podemos brincar muito. — Charlie explicou, gesticulando com suas mãozinhas, a fim de mostrar para o pai que estava certa e que eles deveriam, definitivamente, adotar os moradores de rua.
— Não é tão simples, bebê.
— Por que não? — Ela insistiu.
— Podemos conversar sobre isso quando a Charlie crescer e entender como a vida funciona, tudo bem? Mas agora, tudo que podemos fazer é deixar o Natal deles tão agradável quando o nosso, o que me diz? — Tentou mudar de assunto, observando a filha pular de sua cadeira e ficar em pé.
— Siiiim! — Charlotte afirmou, esquecendo-se facilmente do que falava com o pai segundos atrás, focando em uma nova missão: Entregar pizzas.
pediu para o atendente colocar as fatias de pizzas em pratos descartáveis e comprou dois refrigerantes para entregar. Charlie segurou na mão do pai e caminhou para fora do estabelecimento, depois de desejarem um feliz Natal ao homem que lhes atendeu durante todo o tempo que estavam ali.

Eles caminharam sem pressa até a praça onde poucas pessoas circulavam àquela hora. Mais à frente, perto do poste de iluminação, haviam cinco pessoas, dois adultos, sendo um homem e uma mulher, e os outros três eram crianças, dois eram meninos e a outra criança o rapaz não sabia, pois não dava para ver seu rosto nem suas roupas. sabia que era uma família carente pois eles sempre estavam ali, desde quando ele ia ali ainda como um estudante do Ensino Médio. Mas, diferente de antes, agora tinha mais uma criança, esta pequena, ainda embolada em uma coberta felpuda e no colo do cara barbudo que parecia ser o responsável por todos eles, inclusive pela mulher que parecia frágil e pensativa. O rapaz segurava um livro com a mão livre, e a outra segurava o pequeno ser indefeso. Ele lia calmamente para os outros dois meninos ao seu lado, que ouviam atentamente, querendo absorver algo da história. Já a mulher, permanecia quieta, sentada um pouco distante, provavelmente pensando o que ela fizera de errado para estar numa situação como aquela, submetendo seus filhos a passarem a mesma coisa. Tudo que queria é que ela soubesse que aquilo não era a culpa dela, e não importa o que ela tenha feito no passado, ela não merecia estar naquela situação. Foi pensando nisso, que ele se aproximou, sendo analisado duramente pelos que estavam sentados no chão.
— Se está aqui para cuspir ou me mandar trabalhar para dar coisa melhor aos meus filhos e minha esposa, pode ir embora! Já escutamos demais esta noite. — O barbudo falou, duro, fechando o livro.
Ele estranhou quando não recuou, mas assim deu um passo à frente com Charlie, se aproximando.
— Na verdade, nós queremos escutar a história também, não é Charlie? — Perguntou para o bebê ao seu lado que estava assustada com a resposta que o homem dera em seu pai. — E o que trouxemos para a ceia?
— Pizza! — Ela disse e esticou a mão, mostrando a sacola que estava com dois pratos descartáveis, um em cima do outro para que não derrubasse as fatias. — E refrigerantes. — Desta vez, balançou a sacola que estava em sua mão livre.
Eles se aproximaram sob os olhares desconfiados da pequena família, nem tão pequena se comparada a de , mas, ainda sim, maior que a do mais novo, e sentaram-se ao lado deles.
Eles não tinham muita coisa. Tinham uma coberta que cobria a perna do pai e dos filhos maiores, outra coberta que cobria o bebê embalado em seus braços e duas garrafas de água. Mas eles tinham uma coisa que supria toda a falta que outras coisas faziam, e isso era amor. Eles tinham amor um pelo outro, e notou isso em uma hora e trinta e sete minutos exatos! Eles puderam conversar e rir, como se fossem amigos há muito tempo, sem diferenças. Ele chamava-se Edmundo e ela chamava-se Maxine, as crianças? Tomas de nove, e Milan de sete anos. Já o bebê no colo era uma menininha de apenas onze meses e chamava-se Rachel Nicole. Sim, com o sobrenome mesmo, pois Maxine achava que era bonito demais para falar apenas Rachel, então ela apresentava a pequena com os dois primeiros nomes.

Em um hora e trinta e sete minutos descobriu as batalhas que a família tem enfrentado diariamente. Descobriu que Edmundo largou a faculdade no segundo ano por falta de dinheiro, tinha saído do estágio no terceiro semestre. Descobriu também que aquele livro, era, na verdade, um livro de contos do próprio Edmundo que publicou apenas uma cópia pessoal quando ainda trabalhava em uma editora como estagiário sem remuneração no primeiro ano da faculdade de Jornalismo. Já Maxine, sua atual esposa, estava naquela opção por falta de sorte. Sua mãe, a única pessoa que tinha como representação de família, a trocou por drogas, deixando-a com a tia que não demorou a morrer com um câncer nos ovários, deixando-a sozinha. De novo. Desta vez, ela se viu com um cara careca que fedia a cigarros e pinga, e que ela costumava chamar de padrasto. Ele era repugnante, e Maxine pode lembrar-se dele com lágrimas nos olhos tamanho era seu nojo pelo cara que tocou seu corpo ainda em formação sem qualquer tipo de permissão. Quando completou quinze anos, sofrera de uma forte depressão que fora controlada por remédios que eram oferecidos gratuitamente pelo posto de saúde que ficava na região em que morava. Quando completou dezenove anos, fugira de casa. Fora enfrentar o mundão, aprender com estranhos e quebrar a cara no asfalto do centro da cidade. Foi nesse mundão por aí que conhecera Edmundo, num barzinho enquanto disputavam o dinheiro da próxima bebida em uma partida de poker com outros velhotes.
— E o resto, todos sabem! — Maxine terminou de contar, bebendo outro gole de seu refrigerante.
ficara ali por mais alguns minutos pois Charlie insistira em ensinar uma brincadeira que aprendeu com a avó paterna para Tomas e Milan, que se divertiram enquanto aprendiam e riam com a menina bem mais nova que eles.
Edmundo entregou Rachel Nicole para a esposa e levantou-se, chamando com um gesto de cabeça para que se afastasse dali com ele.
— Obrigado. — Edmundo indagou, baixo.
— Pelo quê?
— Por isso. Sabe, ninguém nunca nos nota, e quando nota é para dizer coisas desagradáveis. Parece que as pessoas gentis no mundo estão entrando em um sério processo de extinção e isso me causa certo espanto. Fico feliz que ainda existam pessoas boas. Continue assim, garoto! — Ele aconselhou, abrindo os braços para o mais nova que prontamente o abraçou, agradecido.
— Eu volto, Ed! — prometeu, chamando Charlie para irem para casa e acenando para Maxine, Tomas e Milan que retribuíram o aceno, sorrindo completamente gratos pela generosidade do rapaz.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 23:37PM, 24 de Dezembro de 1997.

Depois de bater a porta de casa, tirou o casaco e o pendurou no prego que ficava na parede, tirando o pequeno casaco de Charlie também que saiu correndo para sentar-se no sofá com as pernas cruzadas, nada a fim de dormir.
— Quer abrir seu presente agora? — perguntou para o bebê que o olhava atentamente e balançava a cabeça, ansiosa para saber o que ganharia.
O rapaz pegou o pacote pequeno que guardara com tanto carinho e entregara na mão de Charlie que pegou rápido, disposta a abrir o embrulho. Ou rasga-lo, melhor dizendo. Seus olhos cintilaram e seu sorriso miúdo contornou seu rosto iluminado. Charlotte observou atentamente a caixa e deu risada, completamente animada. Uma pequena boneca sorria feito um robô para a criança, que lhe sorria também, provavelmente fazendo um cumprimento amigável por conhecer sua mais nova amiga. sorriu, sentindo uma vontade tremenda de apertá-la para nunca mais soltar.
— Gostou?
— Charlie adorou. Charlie ama bonecas e o papai. — Charlie deixou seu presente de lado para selar a bochecha de um risonho. — Podemos brincar?
— O papai ama Charlie também. — Retribuiu o beijo estalado, mas agora em sua testa. — E sobre brincar — O rapaz olhou seu relógio de pulso, notando ser quase onze horas da noite. — Pode ser amanhã, tudo bem? Está tarde e nós tivemos uma noite muito bacana, não acha? Precisamos repor nossas energias! — Observou a garotinha concordar energeticamente e segurar seu brinquedo, saltando do sofá e correndo pelo corredor estreito.
limitou-se a rir e acompanhá-la.
É, foi um ótimo Natal.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 10:17AM, 25 de Dezembro de 1997.

cruzou os braços e batia o pé direito no chão freneticamente, impaciente. Estava tocando a campainha há mais de dez minutos e tudo que ouvia era um “Dá para esperar? Já disse que estou indo!”, de dentro da casa. Olhou para os lados e bateu, leu-se socou, a porta novamente.
— Louise! — Ela berrou, irritada. — Dá para abrir a porra da porta ou perdeu a chave em alguma festa novamente?
— Cadê a sua chave? — Louise gritou ainda com a porta fechada, enfiando a chave na fechadura e antes mesmo que puxasse a porta, ela fora empurrada pela irmã que entrou apressada em casa, tirando seus sapatos e colocando-os do lado da porta.
— Deveria saber que não a tenho desde que saí de casa, mas, claro, desculpe, você nunca vai saber como é isso, até porque é muito mais confortável ficar em baixo da asa da mamãe que ainda abre a porta sempre que você chega de algum lugar muito tarde e alega ter perdido a chave de novo, certo? — provocou, deixando sua bolsa no sofá e olhando a sala em um giro de trezentos e sessenta graus. — E continua com o costume de acordar tarde, eu suponho. — Supôs pelas roupas de dormir que ainda cobriam o corpo da irmã.
— Bom dia, ótimo te ver também! — Louise respondeu com a língua fina, recebendo apenas um olhar de canto de sua irmã. — Se está procurando a mamãe, ela foi ao mercado.
— Não estou com pressa.
— Não precisa trabalhar? Uau, parece que temos uma evolução aqui, certo? Pensei que ficaria enfiada naquela redação o dia inteiro. — Louise, como sempre, não podia perder a oportunidade e precisava cutucar que pretendia não discutir naquele dia. Estava ali para falar com a mãe e não dar ouvidos as afiações de sua irmã mais nova, que parecia implorar por sua atenção.

Levantou-se do sofá confortável e caminhou pelo corredor, parando em frente a porta onde ficava seu antigo quarto, girando a maçaneta e entrando no mesmo.
Poucas coisas estavam fora de seus devidos lugares, mas continuava o mesmo quarto com as mesmas coisas. Uma parede no tom de marfim destacava-se do resto do quarto branco. Uma prateleira era preenchida por livros e alguns DVD’s de séries que costumava assistir quando era mais nova. Sua cama de solteiro estava com uma colcha florida em tons de azul e lilás, e sua escrivaninha era branca e continuava bem organizada, como sempre fora. Tocava em tudo com nostalgia, como se ainda sentisse tudo que sentira em seus tempos de adolescente deprimida.
Puxou o colchão de sua cama para cima e tirou de lá o que guardava com tanto sigilo; seu diário. O abriu com a chave que ficava dentro da quarta gaveta de seu armário e perpassou os olhos pelas páginas, ora parando em algumas para ler e relembrar, ora apenas para olhar e pular para a próxima.

16 de Março de 1984.
“Querido diário,
Hoje foi o meu primeiro dia no novo colégio e eu ainda estou tentando me adaptar.
Sabe, nunca fui boa com essa coisa de novos lugares, novas pessoas, estou presa em minha mesmice, então isso irá demorar um pouquinho.
Mas, por outro lado, na minha turma tem um garoto que se chama Kevin Miller e carrega um belo par de olhos negros e um sorriso adorável, e ele até me mostrou o colégio inteiro e disse que gosta de bolo de baunilha. Espero vê-lo amanhã!”


Certo, aquilo era, definitivamente, constrangedor! Ela só tinha quatorze anos naquela época, o que uma garota dessa idade sabe sobre a vida e sobre o amor? Certamente, nada. Garotas nessa idade criam ideias sobre o que é ambas as coisas e creem cegamente estarem certas sobre tudo, mas elas não estão.
? — Escutou a chamarem, e ela girou o pescoço para se deparar com uma mulher grisalha e com os fios curtos, usava galochas floridas e lhe sorria acolhedora. — Bom dia, querida. Espero que não tenha tomado café, comprei pasta de amendoim e irei fazer aquelas panquecas que você sempre gostou, sem contar que irei preparar um suco de melancia direto da poupa batido com leite no liquidificador! — Ofélia falava rapidamente, enquanto caminhava até a filha e abraçava com os braços cheios de saudade o corpo de . — Como se sente? — Passou as mãos enrugadas pelos fios de cabelo da mais nova, arrumando-os sobre os ombros.
— Estou bem, mamãe. E sim, tomei café assim que saí de casa. Já olhou a hora? Daqui a pouco é hora do almoço. — Riu, segurando os ombros da mãe que parecia agitada.
— Bobagem! — Ofélia gesticulou com as mãos no ar. — Coma de novo! E além do mais, o namoradinho de Louise está aí, ela te contou? Um doce de rapaz e ainda sabe cozinhar, isso não é demais? Homens que sabem cozinhar facilmente conquistam o coração de uma mulher, não é atoa que me casei com seu pai! — Ela mexeu as sobrancelhas, animada. — Chega de papo, ande, eles estão nos esperando.
Sem contrariar a mãe e cheia de vontade de comer as panquecas que tanto gostava, caminhou na frente de Ofélia, indo em direção a cozinha onde Louise estava sentada de costas para a porta, passando mel em uma bolacha água e sal. Ela puxou uma cadeira e sentou-se do outro lado, deixando a cadeira da ponta livre para a mãe que ligava o liquidificador na tomada para preparar o suco.
Durante o café, a mulher sentia-se incomodada com o fato da outra cadeira da ponta estar sendo ocupada por um homem que não fosse seu pai. Era ridículo se incomodar com uma coisa pequena como aquela, mas era inevitável para ela que não criou certa feição pelo cunhado que, de acordo com ela, sorria demais e falava de menos.
— Nós ganhamos por quatro a um na final e levamos o título! — Mason explicou, quando Ofélia perguntou sobre a final do campeonato do time de basquete que ele fazia parte.
— Esse é o meu homem! — Louise falou, sorrindo para o namorado que lhe sorriu também.
— Fico feliz, Mason! — Ofélia fez questão de mostrar que estava feliz pelo genro, como sempre fazia.
— Mas, e então, Mason? Com o que você trabalha? — soltou a pergunta, depois de beber mais um gole de seu suco e encarar Mason, que parecia apreensivo, como se estivesse passando por algum tipo de teste de aprovação para entrar na família ou algo do tipo.
— Eu?
— Tem outro Mason aqui? — Ela perguntou olhando para os lados como se fosse óbvio e depois riu, deixando o rapaz mais nervoso. — Não deve ser tão difícil, vamos lá, você consegue.
— É, eu... Eu trabalho em uma clínica veterinária.
— Uh, então está me dizendo que cuida dos animais, faz cirurgias, aplica vacinas, dá diagnósticos, e todas essas coisas...? — insistiu, divertindo-se com o nervosismo quase palpável do rapaz que procurava a namorada com os olhos em um pedido de socorro.
— Não. — Ele respondeu baixo.
— Não?
— Na verdade, eu dou banho nos cachorros e gatos. — Ela surpreendeu-se e podia sentir os olhos da irmã grudados em sua cara, querendo queimá-la através de algum raio que poderia sair deles a qualquer momento.
Ela não se importava, estava adorando o mais novo completamente tímido. Era divertido, oras.
— Faz faculdade?
— Não. — Mason respondeu rápido, captando o olhar debochado da cunhada. — Quero dizer, ainda não. Estou guardando dinheiro.
— Dando banho em gatos e cachorros...? Veja bem, não me leve a mal...
, basta! — Louise deu fim as perguntas da irmã, irritadiça. — Isso aqui não é um interrogatório investigativo, pare de ser ridícula.
Uh, calm down, little girl. respondeu na defensiva. — Eu só queria conhecer o mais novo membro da nossa família, não posso?
— Da nossa família? — A mais nova perguntou, exasperada. — Então agora é a nossa família, não é? Por que não se lembrou da nossa família antes de colocá-la para escanteio e simplesmente fingir que ela não existe?
— Louise! — Ofélia repreendeu.
— Nada de ‘Louise’. Ela sempre faz isso, mãe, sempre! — Louise se levantou, olhando diretamente para a mãe enquanto apontava o dedo para a irmã. — Ela nos coloca de lado, foge dos compromissos familiares, e depois ela volta. Ela faz isso incontáveis vezes, ela não cansa. Ela não cansa de machucar os outros! Ela acha que só ela tem problemas, só ela pode ter um dia infeliz e se sentir para baixo, mas, e os outros? Milhares de pessoas se sentem assim todos os dias e nem por isso eles deixam a família de lado! — Louise sentiu seus olhos arderem pelas lágrimas seguradas que denunciavam que iriam escorrer em pouco tempo. — Eu detesto ela!
Louise bateu na mesa antes de sair em direção ao corredor com um Mason sem saber o que fazer em seu encalço.
— Uau. — proferiu. — Eu não sabia que era tão ruim assim.
— Pare com isso! — Ela balançou as mãos. — Louise falou aquilo de cabeça quente, logo ela irá repensar e lhe pedir desculpas pelas palavras grosseiras, querida. Ela não disse por mal, só está magoada. — Ofélia tentou tranquilizar a filha, passando a mão em seu ombro. — E nunca, em hipótese alguma, pense que é uma má pessoa. Sou sua mãe, , eu sei o que você carrega aqui dentro. — Passou a mão pelo peito da filha, sorrindo. — E eu sei que é enorme e bonito, cheio de coisas boas para oferecer ao mundo, e ele só quer uma chance para brilhar!
— Obrigada, mamãe, mas acho que podemos deixar essa conversa para outro dia, certo? — Sugeriu, levantando-se para recolher os pratos e levá-los até a pia.
— Como preferir. — Rendeu-se, depois de guardar o resto do suco na geladeira assim que se levantou. — Mas me diga, como está o trabalho?
Trabalho, trabalho, trabalho.
— Bem. Um pouco cansativo, mas acho que me acostumei com isso de cumprir alguns papeis que não estão no meu contrato, sabe? Eu até gosto, para ser honesta. Gosto de trabalhar duro em algo, me doando por inteira, e depois receber um feedback legal dos leitores, isso é incentivador. — sorriu miúdo para a mãe.
— Fico feliz em saber que está fazendo algo que goste, mas eu acho que devia tirar uns dias de férias. Relaxe um pouco, passe uns dias aqui. — Ofélia ofertou esperançosa. — Sinto falta da minha filhinha.
— Mas eu estou aqui, não estou? — Riu, querendo fazer graça para despistar a tensão que se formava sobre seus músculos.
Não queria levar a sério e lembrar que o único motivo pela qual sua mãe sentia sua falta era seu afastamento.
— Sabe do que eu estou falando, não sabe? Não mude de assunto.
— Mãe, por favor, não. — Pediu, girando o pescoço em direção a Ofélia que estava parada lhe encarando. — Eu realmente não quero mais tocar neste assunto, isso não me faz bem. Não quero ter que lembrar sempre que estou aqui que te afastei por problemas meus. Não quero nem lembrar que tive algum problema, honestamente. Eu estou aqui, de coração aberto, dizendo que quero deixar isso para trás. — falou baixo, aproximando-se da mãe. — Sei que não podemos apagar o que aconteceu, o que é uma droga. — Ela parou e pareceu pensar nas próximas palavras. — Merda... Isso é realmente uma droga! — Sussurrou. — Mas sei que podemos seguir em frente como um novo começo. E eu quero isso, entende? Não quero me lamentar mais pelo que aconteceu, quero focar no que pode acontecer, e eu preciso de você para me ajudar com isso. — Ela segurou nas mãos da mãe. — Você pode me ajudar?
Ofélia nada disse, tudo que fizera fora balançar a cabeça energeticamente e abraçar a filha como há tempos não fazia. Era bom ter sua menina de volta.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 11:32AM, 25 de Dezembro de 1997.

“Droga!”
xingou baixinho ao olhar no relógio e perceber que estava atrasado, combinara que entraria mais tarde naquele dia, mas isso não era motivo para ele chegar além do horário combinado com Jared que disse que seguraria as pontas até que ele chegasse, certo? Era 25 de Dezembro e ele teria de ir ao trabalho o que lhe dava tonturas só de imaginar, mas quem diabos trabalha no feriado? Era fim de ano, queria ficar com seu bebê aproveitando e não enfiado dentro de uma cozinha que cheirava a fritura na maioria das vezes ou atrás de um balcão indo de mesa em mesa sempre que chegava um cliente novo, e que nem sempre estava de bom humor. Mas como sua mãe sempre dizia, c’est la vie.
Remexeu-se na cama e notou que Charlie não estava lá, sentindo o desespero tomar conta de cada célula presente em seu corpo. Levantou-se imediatamente quase tropeçando em seus próprios pés, saindo pela porta do pequeno quarto e indo em direção à sala. Charlie brincava animada com sua nova boneca em cima do sofá enquanto um ser miúdo estava atento à televisão que passava algo sobre games.
— Lisa? — balbuciou.
Como a garota entrara em sua casa?
Caminhou até o sofá e abaixou-se em frente a filha para selar a testa da mesma, recebendo um sorriso miúdo como cumprimento.
— Bom dia, meu amor. — Notou que Charlie estava banhada e arrumada.
Lisa, pensou.
— O que faz aqui? — Direcionou o olhar para a garota que arrumava a armação dos óculos em seu rosto redondo e pintado por sardas, sardas estas que ele achava um tanto quanto adoráveis, tinha que confessar. — Como entrou aqui, essa é a real pergunta.
Esticou as pernas, levantando-se para sentar ao lado das duas no acolchoado antigo. Lisa remexeu-se no espaço pequeno e levou os olhos até o homem ao seu lado.
— Oras, com a chave extra, é claro. E inclusive, mude ela de lugar. Em baixo do tapete é coisa de filme, sabia? — Gesticulou com as mãos, sendo óbvia. — Eu cansei de chamar e entrei. Charlie acordou poucos minutos depois e você provavelmente estava em coma, acertei? — enrugou as sobrancelhas, ela tinha ido ao seu quarto? — E eu não fui no seu quarto, antes que pense. Charlie que apareceu com essa boneca na mão e até agora não desgrudou dela.
O rapaz novamente olhou para a garotinha ao seu lado, observando o quão empolgada ela estava pelo presente novo. Suas pequenas mãos passavam de minuto em minuto no cabelo da boneca e puxava sua roupinha para baixo, arrumando-a, enquanto Charlie conversava freneticamente com seu novo brinquedo.
— Escolheu um nome para ela? — Ele perguntou, apontando para a boneca.
— Nome? — Charlie pareceu pensativa ao olhar para o lado e fixar seus olhos graúdos em algo que o rapaz não tinha interesse em saber o que era. — Posso escolher um nome? — Perguntou, observando o pai concordar, fazendo-a sorrir. — Juan. — Disse, simplesmente, sem pensar muito.
— Jura? — O rapaz pediu, confuso. — Juan é nome de menino, meu amor. — Tentou explicar.
— Charlie não liga, ela gosta. — Ela insistiu, criando um bico na região de seus lábios e segurando firmemente a boneca com as mãos. — É Juan. — Concluiu.
— Tudo bem. Muito prazer em conhecê-la, Juan! — saudou, segurando a mão minúscula da boneca, arrancando uma risada de sua bebê e Lisa.
Charlie balançou a boneca, dando a entender que queria que a boneca retribuísse a saudação do pai.
— Juan disse que gostou do papai também. — Disse risonha, depositando toda sua atenção em seu brinquedo novamente.
— Estou atrasado, por que não me chamou? Tudo bem, não responda, caso contrário iremos estender nosso diálogo e irei me atrasar ainda mais. — Disse, rápido, encarando Lisa. — Merda, mas eu estou estendendo ao falar isso, certo? Quer saber? Deixa para lá, preciso de um banho. Fique de olho em Charlie, por favor.

correu até seu quarto para pegar uma roupa e ir para o banheiro. Esperou o chuveiro esquentar como esperava todos os dias, mas naquele dia, especialmente naquele dia, aquilo o irritou pois se atrasaria mais por causa de um registro de água, concluindo que teria de dar uma de eletricista o quanto antes. Quando pisou no chão, sentiu um pequeno choque térmico em seu corpo devido o contato de seus pés quentes que antes eram cobertos pelas meias com o chão gelado, o que o fez esquivar-se para fora do box por alguns segundos.
Depois que se acostumou com a sensação, ele entrou e pode tomar seu banho rápido, ensaboando seu corpo para depois colocá-lo de baixo da água novamente. Com o próprio sabonete líquido, ele lavou os fios de cabelo que precisavam de um corte o mais rápido possível, pois ele não gostava muito de cabelos longos, o incomodavam no calor, principalmente em Denver que o calor é a temperatura prevalente durante o ano.
Saiu do banho e puxou a toalha que estava pendurada no box, secando-se e logo após enfiando-se em sua calça cor mel e uma camiseta preta que combinava com os tênis pretos e surrados do rapaz. Penteou o cabelo como fazia todas as manhãs para que não ficasse embaraçado, talvez fosse isso que os deixasse com a textura tão macia e sedosa. Ele riu sozinho, lembrando-se que o fato de olhar-se no espelho sempre para arrumar o cabelo, era alvo de piadinhas desnecessárias vindas de seu irmão mais novo.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 20:14PM, 17 de Outubro de 1991.


olhava-se no espelho enquanto arrumava a gravata azul marinho, encontrando dificuldade em traçar-lhe o nó, pensando que teria de apelar para a mãe que estava no andar de baixo. Seu cabelo estava impecavelmente bonito e arrumado, seu cheiro era facilmente notável e sua roupa bem passada lhe caía muito bem.

Oh, droga. Ele estava tão nervoso!

Teria seu terceiro encontro com uma garota e repassava tudo em sua mente para que não fizesse nada de errado como fez nas duas primeiras vezes. Ele não podia fazer nada de errado, não com ela. Não com Phoebe Ogawa, a garota simpática do grupo de teatro que ele gostava.
— Seu namorado está na sala te esperando. — Ethan entrou pela porta, ficando de frente para o irmão e cruzando os braços.
— Namorado? — O mais velho pediu, terminando de dar o nó na gravata e virando-se para encarar o menino.
Ethan trazia nos lábios o sorriso de uma criança de seis anos e suspirou fundo, caminhando até o irmão.
— Cara, isso aqui está uma merda! — Referiu-se ao nó que havia dado em sua própria gravata. — Deixa que eu arrumo. E sim, seu namoradinho. Phoebe está te esperando. — Ele avisou, com calma como se o outro fosse uma criança que não pudesse compreender suas palavras. — Bem melhor. — Disse após finalizar o nó na gravata do irmão.
— Onde aprendeu a dar nós em gravatas?
— Eu comecei a sair com garotas antes de você, lembremos disso. — Sentou-se na cama e abriu uma revista em quadrinhos, fazendo uma careta perguntando-se como podia ser fissurado naqueles desenhos estranhos. — Por quê a Phoebe?
— Como assim?
— Ela é estranha, não sei. Ela não fala nada e tem uma pinta perto da boca.
— Eu não sei porque ainda te dou ouvidos, Ethan. — revirou os olhos, olhando-se novamente no espelho, pronto para sair do quarto.
— Beije ela esta noite, talvez ela se transforme numa princesa. — Fez o comentário infeliz, rindo.
— Tchau. — Disse, antes de sair pela porta.
, espera! — Ethan gritou, correndo na direção do outro. — Diga a ela que ela está bonita e converse sobre cinema, ela parece gostar. Em hipótese alguma diga que seus outros encontros foram um desastre por ser atrapalhado e sempre estragar tudo. Diga que os óculos dela são legais e pergunte qual foi a última peça de teatro que ela assistiu, e depois pergunte se ela está afim de assistir uma com você. — O mais novo piscou. — Pode dar certo. Boa sorte, mostre que é o orgulho da mamãe.
balançou a cabeça, feliz por lembrar-se que o irmão não era tão babaca quanto parecia. Respirou fundo e passou as mãos na gravata, nervoso, e desceu as escadas da casa, deparando-se com sua mãe sentada no sofá ao lado de Phoebe que conversava timidamente. Olhou para o último degrau da escada e pode notar um Ethan risonho, que fez um sinal de ‘ok’ com o dedo, como se falasse ‘manda a ver’.
Ele caminhou até a frente do sofá, repetindo mentalmente tudo que deveria fazer e perguntar.

Não estrague nada, .

Foi a última coisa que pensou antes de desmaiar.

Fim do Flashback.

O rapaz passou pela porta depois de se despedir de Charlie e Lisa, correndo pelas escadas até achar sua bicicleta com os olhos.
Era como se montar naquela bicicleta fosse um sinal claro de frustração todas as manhãs, e ele não sabia mais como lidar com esse sentimento. Era uma rotina que lhe causava exaustão psicológica, logo ele que sempre odiou rotinas e tudo que fosse o comum, o esperado. E agora ele estava submetendo-se àquilo que sempre falou que nunca faria: Cair numa rotina. Eram dias longos e monótonos, mesmas pessoas, mesmos acontecimentos, mesmos lugares.

Mesmos, mesmos, mesmos, mesmos e mesmos.

Mesma coisa de sempre, acordava, tomava seu café, acordava Charlie, lhe dava achocolatado quente e a deixava assistindo desenhos animados enquanto ficavam na espera de Lisa. Quando Lisa aparecia, saia para trabalhar no restaurante do senhor Smith sem saber ao certo o que iria fazer no dia. Era um trabalho puxado, ora atendia os clientes, ora no caixa, ora lavando os pratos e preparando pratos atrás de milhares de panelas. Depois de um dia cansativo, ia para sua pequena casa no subúrbio da cidade, a parte preferida do seu dia. Sabia que Charlie sempre estaria lhe esperando de braços abertos e sorriso no rosto, evidenciando sua alegria genuína. Essa era a melhor parte do seu dia, saber que no final de tudo ele sempre teria alguém para segurar-se e esquecer-se de seus problemas e aflições, mesmo que esse alguém fosse só um bebê que não fazia ideia do quão importante e essencial era na vida daquele rapaz.
Depois de brincar e assistir um pouco com Charlie, os dois iam dormir para que no dia seguinte todas as ações se repetissem. Era estranho, nem ele mesmo lembrava-se da última vez em que tivera um encontro com alguma garota. No primeiro semestre da faculdade, provavelmente. E transar? Certo, não fazia tanto tempo assim pois fora em alguns pubs da cidade com Jared, bebeu alguns drinks e flertou com algumas garotas. Mas não era só um contato carnal ao qual ele se referia, entende? Ninguém sobrevive só da carne. Todo mundo precisa de mais.
precisava de mais, como todo mundo.
Quando se deu conta, estava acorrentando sua bicicleta na barra de ferro no fundo do restaurante e entrando pela porta que ficava ali para a passagem de funcionários.
— Bom dia, . Pensei que não chegaria a tempo, temos muito trabalho a fazer então se arrume logo. — Jared tratou de avisar assim que avistara o amigo passar pela porta e quase esbarrando em que abaixou-se para evitar um possível acidente que aconteceria se permanecess em pé enquanto o outro passava rápido ao seu lado com uma frigideira.
O rapaz deu risada enquanto cumprimentava os outros três que mexiam e colocavam temperos nas panelas, concentrados no que estavam fazendo.
Foi até o banheiro para trocar-se e depois dedicar-se ao que mais gostava de fazer. Depois de ser pai, claro.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 14:09PM, 26 de Dezembro de 1997.

Os telefones da redação não paravam de tocar e as pessoas não paravam de andar apressadamente de um lado para o outro, era todo dia aquela mesma loucura. O elevador apita avisando que chegou ao andar, as pessoas entram e saem com suas roupas diferentes e coloridas, enquanto pastas pretas ou formulários são carregados em mãos. Uns correm para fazer algo que seu superior lhe pedira e outros ficavam em suas salas com os pés na mesa e com a bunda na cadeira macia esperando que os outros façam seu serviço. Uns estão contando os minutos para dar a hora do almoço e ficar algum tempo sozinhos longe daquela gente, outros nem pensam em almoçar, só trabalhar. Uns estão forçando simpatia para os superiores para conseguirem um aumento ou até mesmo um cargo maior, outros estão contentes com seu salário no fim do mês garantido para sustentar a família que tinham em casa. No meio daquela gente, uns estavam apaixonados, outros gostavam de curtir, e alguns estavam com seus corações partidos. Era uma mistura de cheiros, desde o mais adocicado até o mais forte, e gostos, desde cores à comida, e estilos musicais, desde o country ao rock. Eram tantas pessoas e tantos problemas para um mundo só que ficava a beira da insanidade sempre que pensava que fora seus problemas haviam muitos outros ao seu redor, a maioria deles escondidos esperando uma solução para serem resolvidos. Era certo, todos queriam uma solução para seus problemas e dores, mas poucas eram as pessoas que moviam montanhas para resolvê-los. Muitos gostavam de acreditar que o tempo iria curar e colocar tudo nos eixos, outros esperavam os dias se estenderem na esperança de algum milagre cair daquela imensidão azul que chamavam de céu.
— Bom dia! Marv deixou uns relatórios em cima de sua mesa e pediu para ler, e também pediu para avisar que as duas e quarenta terá uma reunião com Hanna Bradbury para cobrirem o próximo evento de moda que acontece dia dezessete de Janeiro. Esteban ligou e pediu para não esquecer da pequena reunião que marcaram para segunda-feira para tratarem de assuntos pendentes sobre a edição de Fevereiro da EDownTown. — Karen dizia tudo enquanto acompanhava a outra sem parar de andar e segurando um café nas mãos.
Passou as mãos pela maçaneta prata, abrindo a porta e passando na frente para então segurar o casaco grosso de e entregar-lhe a bebida.
— E aqui está seu café, sem a sobra de açúcar no fundo.
— Obrigada, Karen. Está dispensada. — Ela anunciou, enquanto contornava a mesa para sentar-se.
Colocou o café em cima da mesa e olhou para os relatórios organizados, esperando a coragem bater em sua porta e pedir para entrar. De fato, algo bateu em sua porta, mas não foi a coragem, ela preferia chamar aquilo de oferenda, ou pelo seu nome mesmo, Maximiliam.
— Bom dia. — O rapaz saudou, com o mesmo animo que sempre adquiria ao encontrar com a mulher.
— São duas e quatorze da tarde, eu tenho uma pilha de relatórios para ler e milhares de coisas para revisar, e dentre essas milhares, bilhares irei pedir para refazer pois meu humor não está um dos melhores e isso faz com que eu fique um pouco severa demais, tenho uma reunião daqui a pouco e só de pensar nas horas que irei passar dentro de uma sala escutando ideias malucas de outras pessoas me deixa de cabelo em pé. Oh, sim, um ótimo dia. — respondeu, afiada. Maximiliam ignorou suas respostas malcriadas àquela hora, estava acostumado, afinal.
— Chegou mais tarde... Teve um encontro na noite passada? — Max perguntou, encostando-se na mesa de , mexendo no porta-canetas que estava sobre a mesma.
— Sim, um belo encontro com minha cama, e ela nunca pareceu tão confortável como na noite passada. — Ela respondeu, esperta.
Maximiliam riu e depositou o porta-canetas em cima da mesa novamente, permanecendo encostado à mesa.
revirou os olhos e colocou os papéis em cima da mesa, encarando-o.
— O serviço lá em baixo não está produtivo?
— Muito, na verdade. Caixas e mais caixas de materiais chegam a todo momento e tudo aquilo tem de ser organizado e distribuído na redação inteira, sabe o quão cansativo é isso? — Perguntou, cruzando os braços e aquela pose nunca pareceu tão atraente aos olhos da mulher.
O cabelo do rapaz estava penteado em um topete, e as mangas de sua camisa azul clara iam até seus cotovelos. O cheiro do seu perfume entrava por suas narinas, entupindo-as. E as narinas agradeciam. De fato, Maximiliam era um rapaz bonito e conseguiria deixar qualquer uma de pernas abertas em uma cama no fim da noite com seus galanteios, mas não era como se fosse uma dessas mulheres. Ou era. Era quando estava em seus dias de carência e precisava de alguém para saná-la, e quem melhor que um homem que praticamente ficava de quatro a qualquer pedido seu? Não que ela usasse o rapaz para seus próprios interesses, longe disso, apenas gostava de um bom sexo com ele quando sentia falta desse ato tão ousado.
— Ótimo, se está tão corrido lá embaixo, o que faz aqui? — Pediu, mexendo nas gavetas para procurar os grampos de seu grampeador metalizado.
— Está procurando isso aqui? — Maximiliam perguntou, apontando para a caixa que ficava ao lado da porta.
O rapaz caminhou até a mesma e abriu, retirando de lá cinco caixas de grampos e caminhando até a mesa da mulher que se perguntava quando aquela caixa fora parar ali pois não havia notado na hora que Max entrara com ela.
— E o que eu estou fazendo? Trabalhando. — Ele sorriu forçado para a cara da mulher que suspirou, frustrada.
Maximiliam nem esperou pela resposta da mulher, resposta esta que provavelmente não escutaria pois ela sentia-se envergonhada por ser um pouco indelicada com ele, e saiu como um foguete pela porta, fechando-a e afim de distribuir o resto dos materiais que lhe fora solicitado.
balançou a cabeça e resolveu ignorar o que acontecera, focando nos papéis à sua frente, concentrada em cada linha para que nada fosse passado despercebido aos seus olhos.

Férias, férias, férias.

Ela não estava concentrada.
Tudo que conseguia pensar era que precisava de férias o mais rápido possível. Precisava relaxar sua cabeça e para isso precisaria deixar o trabalho de lado por um tempo, focando em novas coisas. Ela precisava tirar um tempo para ela mesma e para sua família, precisava colocar as coisas no em seus devidos lugares se quisesse deixar o passado onde ele deve estar, no passado.
— Karen. — disse, depois de discar o número que levaria a ligação ao telefone da moça. — Preciso que marque um almoço com Jody O'Brien o mais rápido possível.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 19:44PM, 26 de Dezembro de 1997.

preparava o prato com massa de frango e aspargos grelhados enquanto a cozinha parecia ferver, embora quem estivesse pegando fogo eram as bocas dos grandes fogões que sustentavam as panelas que emanavam um delicioso aroma temperado, fazendo com que qualquer pessoa que estava do outro lado das portas sentisse o cheiro.
, anda rápido com isso. Essa mulher está prestes a fazer um show no meio do restaurante falando que faz mais de quarenta minutos que está esperando. — Jared o apressou enquanto grelhava mais aspargos.
resmungou baixinho e arrumou um último aspargo no canto do prato, ficando irritado na hora que observou o colega aproximar-se e pegar o prato da bancada levando-o para a bancada da frente onde Ashley, que estava encarregada de levar os pratos aos clientes, levaria para as mesas que solicitaram os pedidos.
— Detalhista. — Jared implicou com o rapaz, que deu de ombros, admitindo que era detalhista mesmo.
— Meu caro, o maior prazer de um cozinheiro é olhar para o prato que preparou e perceber o quão bonito e organizado ele está, e depois, claro, receber um elogio do cliente sobre a comida e a organização do prato. Nessas horas, tudo conta. — O rapaz gabou-se, rindo quando o colega lhe empurrou pelo ombro.
continuou preparando os pratos e sempre de olho nos molhos que borbulhavam nas panelas, enquanto ouvia as piadas de Jared e seu relato sobre como seu Natal fora divertido e importante visto que pedira a mão de sua namorada, Zoe, em casamento e ela aceitara. Ele até mesmo recebeu o convite para ser padrinho da união de ambos que seria realizada no final do próximo ano. Sabia que era um convite mais que adiantado, pois não fazia nem dois dias que o amigo pedira a mão da namorada, mas conhecia Jared e sabia que ele provavelmente estava com os nervos tremendo de ansiedade para começar com os preparos do casamento, nessa relação os papéis pareciam invertidos. Quem atrasaria no dia do casamento seria Jared, isto podia apostar.
— Nha, eu não tenho roupas para isso, Jared. — disse, balançando as mãos. — Nem conheço quem será minha acompanhante, oras.
— Roupa não se preocupe, aliás, tem muito tempo até lá, claro que irá dar seus pulos, certo? — Jared perguntou, arqueando as sobrancelhas enquanto lavava algumas folhas de alface. — E sobre a acompanhante, Zoe irá decidir, pois a maioria das suas primas não poderão ir, provavelmente, e ela está meio perdida ainda, e, cara, nem eu sei de nada. Nós não sabemos, eu pedi ela em casamento faz um dia. — Ele riu. — Mas tive de puxar esse assunto ontem, e ela deu dois nomes por enquanto, iremos decidir o outros depois. Mas, sabe — Ele pareceu pensar, olhando para o lado. — Talvez pudesse levar Ashley.
— O quê? Eu? — Ashley se intrometeu, pegando dois pratos que estavam na bancada. — Eu aceito ser sua acompanhante, . — Ela disse rindo e levantou os pratos para o alto, fazendo os dois outros rirem.
— Mas eu nem te convidei! Na realidade, quem tem que fazer isto é a Zoe e o Jared, eles são os noivos. — Ele argumentou rindo, segurando uma faca e apontando para Jared, mostrando que estava falando da namorada, agora noiva, do rapaz.
— E acha que ela não convidou? Meu amor, se atualize nas novidades. — Ashley falou, saindo pela porta, deixando os dois para trás.
e Ashley foram os dois nomes. — Jared disse. — Nem precisamos pensar muito.
— Devo agradecer, então?
— Não tem de quê.
Eles riram.
, tem uma mulher lá na frente que pediu para falar com quem preparou o molho da massa e ela está furiosa. — Ashley entrou apressada na cozinha, esquecendo completamente o assunto anterior e encarando o responsável do dia por fazer o molho, .
Um ponto de interrogação formou-se entre as sobrancelhas grossas do rapaz e ele caminhou até a pia para lavar suas mãos, e depois caminhar até a entrada do restaurante onde ficavam as mesas.
Uma mulher de estatura mediana estava de costas e seus pés, calçados com sapatos tão caros que daria para comprar um carro, batiam incessantemente no piso do local fazendo um barulho irritante e repetitivo, que começava a ecoar nos ouvidos do rapaz. Com os braços cruzados, ela falava alto com a outra que estava ao seu lado, uma provável amiga.
caminhou calmamente até a mulher, pensando o que poderia estar errado e, como se a mulher sentisse que estava sendo observada, virou-se.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 20:20PM, 26 de Dezembro de 1997.

— Está muito salgado! — Ela avisou, apertando os olhos ao sentir o gosto do sal quase queimar sua boca e descer a contra-gosto por sua garganta.
Ofélia preparava a comida e pedira que a filha provasse para saber se estava ficando bom, e a resposta veio negativa. Naquela noite, a mais velha foi a casa de e propôs uma macarronada de mãe e filha, o que fora muito bem aceito, afinal, era uma das massas favoritas da mulher desde que ela era apenas uma garotinha.
— O que acha de irmos à algum lugar? Está uma noite gostosa e eu não quero perder meu tempo preparando outra coisa para comermos. — Ofélia ergueu as sobrancelhas de forma sugestiva, caminhando até a sala.
— Eu conheço um lugar e é legal. Talvez pudéssemos ir até lá, não é tão longe e ainda tem um karaokê. — disse também sugestiva, o que fez a mãe sorrir animada, super a fim de cantar com a filha em um karaokê. — Não me olhe assim, não vou cantar com a senhora, sua velha sem noção. — Ela riu alto, ao notar a cara da mais velha que não se importou nem um pouco com o comentário da filha chamando-a de velha sem noção. Talvez ela fosse mesmo uma, mas era muito feliz assim, obrigada.
— Mexa seu traseiro daí e vamos logo. — Ofélia brincou, pegando as chaves do carro da filha e saindo em sua frente. — Eu dirijo.
— O quê? Não, mãe! — Ela calçou os sapatos novamente e pegou sua bolsa, correndo a passos curtos atrás da mãe que chamava o elevador. — Você é uma péssima motorista, ainda me lembro de quando bateu o carro do papai no poste porque ele disse para pisar no freio e você pisou no acelerador. — relembrou rindo, entrando no elevador assim que ele chegou ao seu andar. — Que batida ridícula!
— Me respeita, garota, isso foi há quinze anos atrás. São novos tempos.
— Com certeza, novos tempos.

{...}

— Faltam cinco dias para o ano novo, o que pretende fazer? — Ofélia perguntou, quando passou pela porta do restaurante e pode notar a pequena movimentação que tinha ali de pessoas, todas elas sentadas em suas mesas. — Poderíamos chamar Louise e Mason para sairmos, depois podemos ir ao píer, o que acha? O motor daquela lancha antiga do seu pai ainda deve funcionar. — Ela sugeriu, caminhando até a mesa que avistou de longe enquanto entrava.
— É — ponderou, seguindo a mãe. — Certo, sem problemas, mas não é como se Louise estivesse afim de falar comigo. — Ela riu desgostosa, sentando-se em uma das cadeiras.
— Não se preocupe com Louise, ela fica magoada com tudo, sabe como ela é. Logo ela percebe o que fez e volta atrás para vocês se acertarem. — Garantiu, sentando-se em sua cadeira. — E a propósito, gostei do lugar. Isso me lembra a casa da sua avó na Itália. — Ofélia relembrou nostálgica.
— Isso! — A outra exclamou, rápido. — Eu disse a mesma coisa para Maximiliam!
— Maximiliam? O da redação?
— O próprio.
— Está me dizendo que estava com ele aqui? — Ela levantou as sobrancelhas, sugestiva. — Então, está me dizendo que teve um encontro com ele? — Ofélia perguntou, praticamente afirmando que a filha tivera um encontro com o rapaz. — Eu não acredito nisso, . É demais!
Conhecendo bem a mãe, sabia que a mulher já começava a criar mil e uma coisas em sua cabeça ao pensar na possibilidade da filha ter um novo cara.
— Não, mãe! — respondeu, elevada. — Claro que não. Quer dizer, foi um almoço entre colegas de trabalho, só isso. Não tive um encontro com ele. — Ela disse com obviedade. — Podemos comer agora?
— Podemos, sim, mas não pense que essa resposta me satisfez. Iremos conversar sobre isto depois, mocinha.
— Eu quero pizza! — Mudou de assunto, olhando o menu.
— Faz tempo que não como, então pode ser! — Ofélia concordou. — E, para beber, um suco natural de abacaxi com hortelã.
— Eu quero um Cros Parantoux.
— Isso é tão seu pai! — Ela comentou, lembrando-se de como o marido era apaixonado pela bebida. — Você é tão seu pai.
— Como assim?
— É tão parecida com ele, ! Os mesmos gostos, os mesmos gestos, as mesmas manias, o mesmo humor, a mesma sensibilidade altruísta. Me deixa triste saber que ele não está mais aqui. — Confessou, cabisbaixa. — Mas me deixa feliz saber que tenho algo tão precioso e tão parecido com ele aqui comigo, do meu lado!
Bouna sera. — Elas foram interrompidas por uma voz feminina que falava em italiano. — Já sabem o que irão pedir? Caso não, atrevo-me a indicar as especialidades da casa, se me permitirem e quiserem, claro. — Ela sorriu simpática, gentil e animada, mostrando o cardápio em mãos.
— Obrigada pela gentileza. — Ofélia pronunciou-se, achando a mulher uma graça. — Mas já escolhemos nosso pedido, não é, ?
— Sim, escolhemos.
— E então? — Ashley tirou seu bloquinho do bolso do avental e apertou a ponta da caneta que segurava, pronta para anotar o pedido.
— Uma pizza de... De quê? — Ofélia perguntou olhando a filha erguer o olhar até a moça.
— O que sugere?
— Nós fazemos uma pizza de pepperoni com tomates grelhados no forno e orégano que prometo que não irão se arrepender! — Ela disse confiante, e era isso que chamava de vender o próprio peixe.
— Então uma pizza de pepperoni, suco natural de abacaxi com hortelã e um Cros Parantoux.
— Desculpem o atrevimento, mas quem pediu um Cros Parantoux?
De fato, era um atrevimento, mas a moça fora tão simpática que elas nem levaram isto em conta.
— Eu, por quê?
— Ótimo gosto! — Ashley piscou. — Se é só isso, com licença. Aproveitem o melhor da casa, temos um bar, uma área para fumantes do lado de fora, show ao vivo que começa daqui uma hora e meia e um karaokê com ótimas músicas. — Dito isso, ela saiu apressada em direção às outras mesas para o atendimento dos clientes.
Enquanto esperavam pelo pedido, elas conversaram sobre diversos assuntos como duas melhores amigas que ficaram um bom tempo sem se ver e precisavam colocar as fofocas em dia, sem deixar passar nem mesmo um detalhe.
O pedido não demorou a chegar, o que fez as duas agradecerem pois estavam famintas.
— Isso aqui é ótimo. — elogiou, aprovando a confiança da garota que lhes indicou o sabor.
Comeram enquanto conversavam, e tocou no assunto férias e isso fez a mãe ter um mini surto contido de felicidade, fazendo muitos planos sobre o que elas poderiam fazer durante este tempo que a filha ficaria longe do trabalho. Ela só queria descansar um pouco, mas não repreendeu a mãe quando ela falava sobre uma viagem para o Caribe para aproveitarem as maravilhosas praias de lá, ou talvez uma ida à Roma para visitar os monumentos antigos.
— Índia também não é uma má ideia! Podemos conhecer a cultura e a religião, usar roupas coloridas e muitos colares e pulseiras. — Ofélia sugeria lugares sem parar.
— Eu vou ficar por aqui mesmo, mamãe. — falou baixo, receosa em estragar os planos da mãe, mas ela teria de entender que a filha só queria ficar na cidade para relaxar, talvez pudesse conhecer todos os parques de Denver que era abarrotada deles para diversas idades e gostos.
— Oh, claro, me desculpe. Devo ter ficado muito animada com essa ideia.
— Não se preocupe. Nós podemos montar uma programação semanal para conhecermos melhor nossa cidade, o que acha? — Ela perguntou, tentando mostrar que havia outras opções também legais além de ir à grandes lugares.
— Eu topo!
Ofélia topou, mudando de assunto logo após.
— Eu acho que está na hora do nosso karaokê! — Ela disse sugestiva, finalizando seu suco e olhando em seu relógio redondo de pulso.
— O que eu disse sobre isso?
— E eu digo que sou sua mãe e estou lhe dando uma ordem. — Soou quase como uma ameaça, fazendo a mais nova soltar uma risada nasalada. — Se não quiser ir, tudo bem, mas quando eu pegar aquele microfone na mão, pode ter certeza que irei pedir uma salva de palmas para a minha filha querida, tem certeza que quer toda atenção do show? — Ela piscou, levantando-se da cadeira e indo em direção ao karaokê que tinha uma tela grande onde passava as opções de músicas e o letreiro quando começava.
, contrariada, levantou-se para caminhar em direção a sua mãe que falava com o funcionário que instruía o que elas deviam fazer para conectar a música. Ofélia, fã assumida de MJ, escolheu a letra de ‘Man In the Mirror’ e entregou um dos microfones que segurava para a filha que olhou ao redor, notando que algumas pessoas as olhavam após escutarem o barulho da aparelhagem do som.
— Pronta? — Ofélia perguntou, assim que escutou os primeiros acordes da versão acústica da música.
— Não. — admitiu, nervosa. — Isso é patético, mãe. — Riu energética.
Ofélia começou a cantar a letra, olhando para a filha, tentando mostrar que aquilo seria divertido e, de certa forma, relaxante. Gostava de levar o lema popular a sério. Quem canta, seus males espanta. Quando parou de cantar a primeira estrofe, apontou para , mostrando que agora a sintonia estava com ela, e a mais nova começou a cantar, nervosa e tímida. Observava a mãe tranquila, até arriscando uns passos para lá e para cá com seus pés pequenos num sapato de salto baixo, bem senhora mesmo. Segurava o microfone com as duas mãos e poderia facilmente quebrá-lo em duas partes tamanha era a força que fazia sobre.
Céus, o que ela estava fazendo? Ela era totalmente desafinada e agora todo mundo devia estar olhando para ela e rindo, e isso deixava-a nervosa. Nunca gostou de ser o centro das atenções, ainda mais por uma coisa como aquela.
— Eu não quero mais fazer isso. — confessou baixinho depois de cantar a segunda estrofe.
Ofélia segurou a filha pelo braço quando ela fez menção de entregar o microfone para o instrutor e sair dali o mais rápido possível.
— Está se saindo ótima. — Ela garantiu, sorrindo genuinamente e acompanhando novamente a música, incentivando a filha a continuar com ela.
E então elas continuaram cantando e trocando olhares que quem olhasse pensaria que eram duas amigas bêbadas olhando uma para outra tendo ideias e pensamentos bêbados, mas só elas sabiam o que aquilo realmente significava.
Quando a música — finalmente, pensou a mais nova — acabou, elas ouviram algumas palmas baixas de algumas pessoas que ficavam ali na frente enquanto conversavam e apreciavam bebidas e petiscos, e agradeceram com sorrisos, agradecendo, também, o instrutor que atendia pelo nome de Spencer.
anunciou que iria ao banheiro, e Ofélia caminhou novamente para a mesa, a fim de pegar suas coisas para depois irem embora.
— Um pouco desafinada, mas nada que aulas de canto não resolva. — Ela tomou um susto ao escutar a voz, assim que saiu do banheiro para caminhar até a mesa onde sua mãe lhe esperava. — Foi divertido ver que a senhora tem mais gingado que você. — Riu.
Ela girou os pés e encarou no homem, que usava um avental.
— Está me seguindo? — Perguntou assustada, observando o homem lhe deixar sozinha sem resposta e seguir em outra direção.
De volta a mesa, ela pediu a conta e assim que pagou, caminhou devagar para fora com sua mãe, enquanto discutiam sobre o momento de minutos atrás.
— Foi legal, sim, admita! — Ofélia pressionou.
— Se eu falar que foi legal, a senhora para de me lembrar que sou péssima com esse negócio todo de cantar?
— Provavelmente. — lhe encarou, tediosa. — Tá, tá, tá, sua chata! Eu não te faço lembrar que parece uma pata gripada cantando. — Ofélia disse, risonha e a filha lhe encarou novamente, como se lhe cobrasse algo a mais. — Palavra de mãe. — Ela cruzou o dedo indicador e o do meio, prometendo.
— É, foi divertido. — Ela arrastou a fala, admitindo, fazendo a mãe sorrir e lhe abraçar pela cintura, caminhando com ela assim até que chegassem ao carro.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 07:42AM, 27 de Dezembro de 1997.

Como toda manhã, a mulher batia seu scarpin no piso da redação enquanto carregava seus óculos Gucci em seu rosto pouco maquiado, segurando uma pasta de couro marrom escuro em sua mão direita. O sol emitia alguns raios que incomodavam seus olhos e por isso preferia protegê-los. De longe, avistou Karen parada em frente à sua porta com um copo na mão e um bloquinho na outra, sustentando sua postura reta de uma pessoa competente. Quando se aproximou, sorriu gentil para a mulher e abriu a porta, deixando sua pasta na poltrona ao lado como de costume e caminhou até sua mesa, para contorná-la e sentar em sua cadeira giratória, resmungando em seguida.
— Esteban ligou novamente e pediu para não esquecer da reunião que marcaram na hora do almoço na segunda-feira. — Karen informou, levando a bebida quente até a editora-chefe. — É chá. Eles estão concertando a cafeteira e ainda não acabaram, assim que o fizerem, irei providenciar seu café sem a sobra de açúcar. — Informou prontamente.
sorriu.
— Não precisa, o chá está ótimo! — Respondeu, ligando seu computador para dar início ao trabalho. — E sobre Esteban, ele é um pé no saco, não é? Desculpe por ter que lidar com ele, eu sei, é entediante. — Riu sem humor. — Mas que merda, ele não poderia escolher outra pessoa, não? O Latrell, talvez. Ele é um bom profissional. — Ela lamentou alto, recebendo um riso baixo de Karen.

Esteban era um dos donos da redação, em uma parceria com Jody, e ele custava a entender que o contato que mantinha com era meramente profissional, e isso a irritava como nunca. Ele se portava galante sempre que esbarrava com a mulher, sendo excessivamente gentil, o que ela achava antiético da parte dele, sem mencionar o fato de que nunca alimentara esperanças de um possível relacionamento entre eles.

— Então o que faço com as flores que ele mandou te entregar? — Karen riu novamente, observando a outra levantar as duas sobrancelhas, e um ponto de interrogação formar-se no meio delas.
— Flores? Ele me mandou flores? — Perguntou com curiosidade, observando a morena a sua frente lhe indicar com a mão um arranjo posto sobre a estante no canto da sala.
Certo, eram bonitas, muito bonitas. Um lindo e cheio buquê de rosas brancas.
levantou-se e caminhou até as rosas que emanavam um delicioso aroma suave.

Espero que não esqueça do nosso almoço. Esteban.

Era isso que dizia o bilhete em letras e grandes e cursivas.
riu cética.
— Por que ele fez soar como se nós tivéssemos marcado um encontro?
Karen deu de ombros e esperou que ela dissesse mais alguma, assim ela poderia dar continuidade no serviço em que fazia que se consistia em digitar a agenda da chefe para a próxima semana.
, por um lado, ponderou pegar as flores e jogá-las no lixo que tinha ali na sua sala, mas acontece que elas eram tão bonitas e simplesmente não mereciam aquele final, então pegou o cartão e jogou no lixo, e fez um pedido a Karen:
— Pode colocá-las na água, por favor? — Encarou a assistente que ainda segurava bloco de notas em sua mão esquerda com uma caneta perdurada entre as pequenas molas que seguravam as folhas coloridas. Observou ela concordar com a cabeça e pegar as flores de sua mão, caminhando para fora da sala em seguida.
Suspirando, a outra caminhou até sua mesa e sentou-se, colocando os óculos de grau e encarando o computador para analisar a minúscula coluna da revista sobre produtos de maquiagem, e como uma boa fã de produtos para o rosto, principalmente os que tratavam a pele enquanto realçava ainda mais sua beleza, ela procurou dicas que poderiam lhe servir na hora de dar uma repaginada em sua inseparável necessaire de maquiagem que carregava em sua bolsa.
Enquanto lia o conteúdo, ia observando as imagens na lateral, imagens estas que foram tiradas pelo melhor fotografo da redação, Marcus. Era um homem competente e responsável, e a mulher realmente apreciava isso. Gostava das coisas certas e nos trilhos, embora ela mesma fosse de cabeça para baixo, uma bagunça. Mas deixando a confusão emocional de lado, a mulher continuou observando as imagens das modelos que tinham os rostos marcados com uma sombra forte nos olhos, deixando seus olhares expressivos e bonitos. Com os cílios longos e um batom para finalizar a produção, as modelos faziam caras e bocas para a câmera, chamando a atenção o suficiente para prender o leitor que comprasse aquela revista em busca de novas dicas. Era isso que precisavam, afinal. Chamar a atenção do leitor, fazer mais pessoas comprarem a edição do mês, mais divulgação para a revista, mais e mais.
Quando terminou de ler, pensou que deveria conversar com Colette e parabenizá-la pelo trabalho bem feito. Ela era nova na redação e estava estagiando para a faculdade a qual cursava o terceiro semestre e fora uma oportunidade que arrumou graças a seu professor. Seria a primeira coluna dela na revista, o que era uma responsabilidade e tanto, afinal, era a primeira edição do ano e a primeira impressão é a que fica, certo?
Impressões e responsabilidades. apreciava, mas ambas as palavras a assustava.
— Karen? — Ela perguntou, depois que a outra lhe atendeu.
— Sim, senhora?
— Sem senhora, por favor. — Pediu.
— Desculpe, . — Ela concertou a frase e escutou a chefe rir baixo.
— Poderia pedir para Colette aparecer na minha sala quando estiver com tempo? Não tenho pressa.
— Pode deixar, irei procurá-la agora mesmo. — Informou, e esperou a outra agradecer para colocar o telefone na base novamente.

{...}

Coitadas eram as pessoas que pensavam que o almoxarifado era o lugar mais calmo de alguma empresa, onde as pessoas ficam sentadas tomando cafezinhos e colocando o papo em dia. Na EDownTown o negócio era mais embaixo. Literalmente, mais em baixo, no último piso, para ser mais precisa.

Os funcionários andavam de um lado para o outro enquanto recebiam caixas e mais caixas de materiais que foram solicitados pelos diversos setores da redação. Maximiliam mantinha toda sua atenção no bloco de notas onde anotava algumas das coisas que chegavam e outras que saiam para serem distribuídas nos andares de cima, e as que saiam por algum defeito e foram solicitadas para troca.
— Ei! Será que pode levar quinze pacotes de folha de sulfite para o departamento de edição, por favor? — Max pediu para a primeira pessoa que apareceu em sua frente. — Digo, use um carrinho, claro. — Ele completou, observando o homem baixo e barrigudo concordar com um meneio rápido de cabeça. — E leve treze cartuchos de tintas coloridas, também. Eles acabam com elas muito rápido. — Pensou a última frase alto, levantando a pequena folha de seu bloco para o alto e depois dobrando-a para trás, deixando uma branca à sua disposição.
Pensou, por um momento, em entrar no primeiro elevador e subir até o andar onde estaria trancada em sua sala, completamente dedicada ao trabalho que há algum tempo havia se tornado sua maior prioridade. Queria passar por aquela porta e segurar a mulher pela cintura de uma maneira que a deixaria sem ar e isso impossibilitaria que ela negasse sua proximidade repentina. Queria selar seus lábios doces, enquanto a mulher puxava deliciosamente os fios de cabelo de sua nuca, mostrando que não estava nada disposta a parar naquele momento. Queria seu corpo completamente rendido e nu na sua cama, ou poderia ser na dela mesmo, ele não se importava com o lugar contanto que estivesse com ela. Maximiliam sentia alguma coisa por ela, definitivamente. Sabia que a mulher que andava em saltos caros e carregava óculos escuros no rosto não era de ninguém, ela era livre. Livre como um pássaro, e isso chegava a ser perturbador, pois ela poderia pousar em qualquer galho que lhe desse na telha, e ele temia não ser o dele.
Na verdade, ela tinha um dono, sim. Ela era dona dela mesma. Dona de seu próprio nariz e corpo, ela ditava as regras e detestava se alguém contrariasse. E ele gostava disso, gostava de como a mulher sempre se portara tão confiante e independente diante de todos, mas ele só gostava disso pois sabia que, mesmo no fundo, ela era uma boa pessoa. Ele presenciara muitos dos momentos de fraqueza da colega, momentos estes que ninguém nunca presenciou. Ele poderia sentir-se honrado por isso? Definitivamente, não. Eram momentos levados pela bebida. nunca se portaria de tal forma na frente dele se estivesse em sã consciência.

Que diabo de mulher!

Ele nunca a entenderia.
Uma hora, ela rendia-se totalmente e entregava-se de corpo e alma aos carinhos do rapaz, depois, ela o desprezava.
Balançando a cabeça, Maximiliam optou por não pegar o primeiro elevador que chegasse ao andar em que estava, embora esse fosse seu maior anseio. Ouviu seu nome ser chamado e bufou, pensando que aquela era a milésima vez que o chamavam no dia, estava até pensando em mudar de nome.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 14:39PM, 27 de Dezembro de 1997.

O movimento no restaurante naquele dia estava fraco, deixando os funcionários um pouco mais a vontade e não se apressarem tanto ao prepararem algum prato que fora pedido por uma das mesas que estavam do outro lado da porta onde ficava a cozinha.
mexia cuidadosamente na preparação de qualquer prato para evitar acontecimentos igual da última vez, em que uma mulher, muito mal educada por sinal, fora reclamar de seu molho alegando que estava muito salgado. O homem admitiu essa falta de cuidado para si mesmo, talvez fosse sua cabeça que estava no mundo da lua nos últimos dias e isso o deixava mais distraído que o normal.
Ele estava nervoso, afinal, no fim do dia iria para a casa de seus pais a pedido de sua mãe, que disse estar com saudade de Charlie. Quem não estaria? sabia melhor que ninguém a luz e alegria que aquela garotinha trazia para as pessoas ao seu redor, e isso deixava qualquer um sentindo um aperto no peito só de ter aquele pingo de gente longe sem espalhar o amor com sua gargalhada de criança e que fazia qualquer coração de gelo desmanchar em sorrisos, isso ele podia garantir. Mas a questão que o deixava com as mãos soando não era essa, estava longe de ser.
Era sua mãe.
O rapaz passara a manhã inteira se perguntando como seria passar uma parte da noite aguentando as afiações dela, se ela realmente iria lhe soltar algo amargo, de fato. Ele nunca quis ser um peso para seus pais e, da parte do seu pai, ele realmente não era, mas, ao pensar pelo lado da mãe, era como se a mulher fizesse questão de lhe mostrar que não aprovava nada a decisão do rapaz em largar a faculdade e dedicar-se a algo que realmente gostava.
! Preste atenção no que está fazendo! — O rapaz escutou, desnorteado.
Olhou para a panela em sua frente e rapidamente desligou o fogo, abaixando gradativamente a água que borbulhava e estava prestes a transbordar e causar um acidente. Ele suspirou frustrado enquanto olhava os tomates que serviriam para um delicioso molho Al Pomodoro, mas que não seria mais possível pois os mesmos tinham pequenas rachaduras devido a água extremamente quente.
— Está no mundo da lua? — Jared pediu, afastando o mais novo do fogão e tomando o controle.
Escutou um suspirou e um levantar de ombros em resposta.
— Olha, pode tomar conta das mesas por mim? Eu cuido disso aqui! — Sugeriu, separando novos tomates frescos para dar continuação ao molho que fora interrompido pela falta de atenção do outro.
Concordando, o rapaz girou os calcanhares e passou pela porta enquanto tirava seu avental azul marinho e sua touca, ficando apenas com seu dólmã que carregava o nome Bistro’s no canto direito superior.
Ele caminhou até o bar e sentou-se em um dos bancos altos, encarando o relógio pendurado na parede onde marcava quatorze e quarenta e três. Pegou umas cartas em cima do balcão para organizá-las, percebendo que o cliente que as usou não tinha educação o suficiente para fazer isto.
O sino soou pelo ambiente e chegou até os ouvidos de que se encontrava distraído o suficiente com suas cartas para não perceber que alguém havia entrado no restaurante e precisava ser atendido. O homem olhava fixamente as cartas, pensando em qual deveria descartar na mesa mesmo que ninguém estivesse ali com ele.
— Cartas? Interessante. — Uma voz soou à sua frente, atraindo toda sua atenção para os óculos escuros e cabelos soltos.
A mulher logo tratou de tirar seus óculos, revelando a bêbada desequilibrada que estava por trás deles. Ele conhecia ela e lembrava-se perfeitamente de três dias atrás. Não tinha como esquecer, certo? Não é todo dia que uma mulher claramente com sua condição mental abalada aparece no restaurante e bebe até pedir para que se retire pois estão fechando.
— Gosta? — perguntou, fixando seus olhos nas cartas.
— Digamos que eu sou muito boa. E quando eu digo muito boa, é muito boa mesmo. Eu costumava ganhar do meu pai quando era garota. — Gabou-se, mexendo os cabelos e sorrindo pelo canto dos lábios.
— E isso foi quando? Quando tinha treze anos? — Um pequeno sorriso sacana se formou no canto dos lábios do homem, que ergueu as sobrancelhas escuras e grossas e a encarou, sugestivo.
— Está me chamando de velha? — mexeu-se, arrumando os cabelos soltos e levantando a sobrancelha direita.
— Negativo. — Ele riu, deixando as cartas na mesa e depositando toda sua atenção na mulher.
— Então, o que está insinuando?
— Nada. — Deu de ombros.
— Quero um suco de acerola. — Pediu, sentando-se de frente para o homem nos bancos que tinha do outro lado do balcão. — Meia colher de açúcar e duas pedras de gelo, por favor.
— Como quiser. — Respondeu, antes de sair em direção à cozinha.
colocou sua bolsa em outro banco e remexeu nela, a procura do seu companheiro bloco de notas, o qual ela fazia anotações importantes sobre o projeto da revista complementar que entraria em processo de produção dali a pouco, por isso da reunião com Esteban na segunda-feira, ela passaria todas as ideias que teve e, inclusive, daria opinião sobre a data estipulada para o lançamento da mesma, que o rapaz queria para Fevereiro, o que achava completamente sem noção, visto que seria muito em cima da hora para um conteúdo completo e consistente.
Com sua letra pequena, ela anotava as ideias que teve para o conteúdo da revista, anotando que poderiam, primeiramente, falar sobre Denver e os pontos turísticos e programas em família que a cidade oferecia.
— Seu suco. — disse, colocando o copo grande em cima da mesa. — Nada para comer?
— Se quisesse algo para comer, certamente teria pedido.

Grossa.

— Com licença. — Ele anunciou, caminhando para o outro lado do bar.
— Espera! — pediu.
Uau, ele esperava que ela demorasse mais para cair em si e pedir desculpas pela grosseria anteriormente dita.
girou os pés e a encarou.
— Pois não?
— Tem três pedras de gelo, e eu disse duas! — Ela gesticulou com as mãos, irritadiça.
Só podia ser brincadeira.
O rapaz caminhou até a bancada atrás dele e pegou o pegador de gelo, enfiando-o dentro do copo da moça e retirando uma pedra de gelo, para que ficassem apenas duas.
— Desculpe pela falta de atenção. — Disse educado, quando tudo que ele queria fazer era lhe mostrar o dedo do meio, por mais infantil que fosse aquele gesto. — Mais alguma coisa?
— Pode ir.
E então ele agradeceu mentalmente saindo de lá, enquanto ela continuava a anotar suas ideias e a beber seu suco através do canudo colorido que escolhera no suporte prata que estava em cima do balcão.
Sem mais nem menos, ela largou o lápis de lado, frustrada. Cansada, talvez. Enquanto escrevia as coisas do trabalho, pensava que tinha ideia para aquilo, mas não para o seu próprio livro, que era bem mais importante para ela.

Que merda, !

Ela passou as mãos nos cabelos e sentiu um anseio absurdo por ligar para alguém e conversar. Sabe, conversar, jogar conversa fora. Não tinha uma pessoa em mente, só queria conversar com alguém que não fosse sua mãe nem pessoas do trabalho, e poderia conversar sobre qualquer coisa. Podia ser sobre política ou ecologia, ela não se importava contanto que conversasse com alguém que não tocasse no assunto trabalho ou sua vida.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 01:35AM, 06 de Junho de 1987.


estava sem sono e por mais que tivesse tomado um remédio para dormir, parecia que a insônia estava disposta a acompanhá-la pelo resto da madrugada. Tinha acabado de terminar de ler um livro e não queria começar outro naquele momento, gostava de dar um tempo e absorver a história passada antes de começar uma nova. Tentava conversar com alguém, mas todo mundo parecia dormir, pois ninguém respondia seus SMS e isso deixava-a minimamente irritada.
Inclinou-se na cama e puxou seu telefone do gancho. O fio curto não possibilitava que ela fosse para longe dele, e ficou desconfortável em cima do travesseiro enquanto digitava o número de Payton.
— Eu espero que esteja morrendo, pois este é o único motivo sensato para me ligar essa hora. — Payton resmungou no outro lado da linha quando atendeu.
— Não consigo dormir, queria conversar.
— Não consegue dormir e aí resolve não deixar os outros dormirem também?
— O meu problema de insônia está me matando, não sei o que faço. — confessou, frustrada.
— Comece a trabalhar.
— Estou falando sério, Pay.
— Eu também.
— Desculpe por ter ligado. — Ela pediu, sentindo que estava incomodando a colega.
— Não peça. Já que me ligou, quer conversar sobre o quê?
— O que sugere?
— Economia? — Perguntou, querendo saber se aprovava o assunto.
— Denver está no fundo do poço. — Indagou, mostrando que aprovava o assunto para uma conversa da madrugada, como elas gostavam de falar.
— Eu diria que o Colorado inteiro está no fundo do poço.
E assim seguiu uma hora e doze minutos de conversa sobre economia, que, consequentemente, levou ao assunto política. Elas conversavam como duas experts no assunto, mas só estavam passando o tempo falando sobre qualquer coisa, talvez assim o sono aparecesse para .
— Preciso desligar. — Payton anunciou. — Está tarde, e amanhã tenho um teste de álgebra no primeiro período, e devo ressaltar que meu A está garantido pois estudei como nunca. Preciso finalizar o semestre com notas boas.
— Tudo bem. — garantiu. — Boa sorte no teste amanhã.
— Obrigada.
— Boa noite, Pay.
— Se a noite for boa, eu te conto. — Ela riu, fazendo a amiga do outro lado da linha rir também.
Colocou o telefone no gancho e arrumou seu travesseiro, colocando-o em baixo de sua cabeça. Sentiu calor e tirou sua coberta, deixando-a apenas nos seus pés devido a sua paranoia de que algo iria puxá-la no meio da noite. Tinha dezessete anos, mas certas coisas nunca mudam, tipo essa ideia que carregava consigo desde que se entendia por gente. Ela fechou os olhos e demorou até que o sono chegasse, mas quando chegou, foi certeiro e pesado.

Fim do flashback.

— Mãe? — pediu, depois de discar o número da mãe, não achando ninguém de interessante em sua lista de contato.
— Oi, . — Ofélia confirmou.
— Como está?
— Estou bem.
— Hm, que bom. — Ela fez um barulho com a boca.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, não aconteceu nada. — Silêncio. — Na verdade, eu liguei só para dizer um oi e perguntar se conversou com Louise.
— Conversei, sim. No começo ela pareceu hesitante, disse que tinha combinado com Mason que passaria com ele e amigos em outra cidade, mas sabe que ninguém resiste a um draminha de mãe, né? — Ela riu. — Não me orgulho por ter feito isso, mas achei necessário, então só foi preciso uma cara muito fofa e um pedido, e ela disse que tudo bem.
— Estava pensando, o que acha do restaurante que fomos ontem?
— Eu acho ótimo. — Ofélia sorriu do outro lado da linha.
— Eu estou aqui agora mesmo, acho que devia fazer uma reserva, não sei.
— Está tendo outro encontro? — Ela perguntou, sugestiva. — Com Maximiliam?
— Não, mãe. — Revirou os olhos. — Estou fazendo umas anotações para a nova estrutura da EDownTown a pedido de Jody O’Brien e é o lugar mais tranquilo para isso.
— Devo acreditar?
— Mãe!
— Desculpe, só achei que... — Ofélia ia começar a explicar, mas desistiu. — Esquece.
— Preciso desligar, te ligo depois.
— Amo você, querida. — Disse, despedindo-se da filha que sorriu e apertou o botão para finalizar a chamada, sem responder.

E agora todo mundo deve estar pensando: é uma vaca!

Denver — Colorado, Estados Unidos, 19:13PM, 27 de Dezembro de 1997.

arrumou o gorro na cabeça de Charlie, colocando-o sobre suas pequenas orelhas, protegendo-as do vento que fazia naquela noite, e ela mesma colocou suas luvas brancas com estampa de cavalos marinhos.
— Está animada? — O rapaz perguntou para a filha que se mantinha encolhida em seu abraço.
Oui. — Charlie respondeu em francês baixinho e permitiu-se sorrir com a resposta da filha.
Sua mãe, Suzanne, era francesa e nunca deixara seu belo sotaque de lado e ainda falava algumas coisas naquela língua e isso influenciara na fala de Charlotte que adorava conversar em outra língua, por mais embaralhadas que as palavras ainda saíssem.
— Minha grand-mère disse que faria biscoitinhos, lembra? Será que ela fez? — Ela ergueu a cabeça dos ombros do pai apenas para encará-lo.
— Eu não sei, ma belle.— Respondeu, adotando um sotaque francês que adquirira ainda menino, mas que pouco usava.
O rapaz sorriu para a garotinha que fizera um bico adorável em sua face miúda e sentiu a brisa gélida bater contra seu rosto, deixando-o com a péssima sensação de estar congelando lentamente. Charlie cantarolava alguma música de algum filme da Disney baixinho em seu colo enquanto mexia nos fios de cabelo do pai que esvoaçavam livres, deixando-o ainda mais bonito. Ele apressou os passos, a fim de chegar rápido a casa que fora o testemunho de muitas peripécias suas e de seu irmão, Ethan, quando eram pequenos. E que peripécias! Os dois estavam sempre aprontando com todo mundo e isso deixava Suzanne de cabelo em pé, inclusive pensando em chamar alguns daqueles canais que passam na televisão que educam e melhoram o comportamento dos filhos, tamanha era a discórdia que os irmãos causavam na família.

De longe, o rapaz avistou a casa na cor amarela e iluminada, respirando aliviado e sentindo seu rosto esquentar-se instantaneamente, agradecido por saber que logo estaria aquecido pela lareira que eles tinham na sala. Caminhou até chegar na porta de madeira, e esticou a mão para tocar a campainha, mas fora interrompido por Charlie que segurou sua mão e apertou o botão por, pelo menos, umas seis vezes seguidas, fazendo o pai rir.
— Oi, mãe. — saudou com polidez assim que a porta foi aberta.
Sentiu a garotinha que estava em seus braços mexer-se inquieta entre eles, pedindo pelo colo da avó.
— Grand-mère! — Charlie sorriu contente, passando os pequenos braços pelo pescoço da avó que a segurou com carinho e cuidado, passando a mão pelo cabelo macio e fino da menina.
Mon amour! — Suzanne retribuiu o sorriso, sentindo-se completa ao sentir as mãos da neta pousarem sobre suas bochechas só para que ela lhe distribuísse milhares de beijinhos pelo rosto quente.
Ela deu um passo para trás, dando passagem para que entrasse e sentisse o delicioso aroma de chocolate quente que corria pelo ambiente quentinho.
— Estou fazendo chocolate quente e biscoitinhos, espero que não tenham comido nada. — Ela avisou, sorrindo para o filho.
— Père, ela fez os biscoitinhos! — Charlotte disse alto, risonha enquanto esticava-se para alcançar o homem que a segurou no colo, selando sua testa. — Eu sabia que ela faria!
— Sim, meu amor, ela fez os biscoitinhos. Está com fome? — Perguntou, colocando sua bebê no chão para arrumar seu pequeno casaco azul, puxando-o para baixo e arrumando as mangas longas.
— Barriga de Charlie ‘tá rocando de tanta fome, papai! Ó, escuta aqui. — Charlie falou baixinho, como se estivesse confidenciando algo.
Com a pequena mão, a garotinha levantou sua blusa deixando sua barriga exposta e apontou com o dedo indicador, indicando que queria que o pai escutasse algum som que sua barriga pudesse fazer. riu e encostou a orelha na pele de Charlie que riu, achando graça naquilo tudo.
— Oh, meu Deus! Tem algum monstro aqui dentro?
— Tem! Um monstro bem glandão. — Concordou.
— Nossa, então eu preciso detê-lo, certo? — O pai perguntou, curvando os dedos para fazer cócegas na menina que quando percebeu a intenção do rapaz, soltou um grito fino e uma gargalhada alta correndo até sua avó, escondendo-se atrás das pernas dela.
— Non, père! — Ela gritou risonha enquanto puxava a blusa da avó que só fazia rir da situação.
parou ao lado da menina e abaixou até ficar do seu tamanho.
— O papai não pode fazer isso porque a Charlie não gosta. — Resmungando, ela levantou um dedo mostrando que não gostava de cócegas. O outro sorriu, achando adorável a forma como ela se portara tão inteligente e mandona.
— Desculpa. — O homem curvou os lábios em um bico, redimindo-se com a filha que abaixou a blusa e agarrou seu pescoço.
— Charlie desculpa o papai, mas só se ele deixar ela comer muitos biscoitinhos da vovó. — Propôs, esperta.
— Mas que menina esperta, não? Eu deixo a Charlie comer muitos biscoitinhos da vovó. — Ele aceitou, pegando a filha no colo para selar sua bochecha carinhosamente.
Sentia-se imensamente sortudo por ter aquele pequeno ser ao seu lado, sempre disposto a lhe fazer sorrir no momento mais inoportuno.

Eles caminharam até a cozinha e auxiliou Charlie a subir na cadeira, que era um pouco mais alta que a da sua casa onde a menina conseguia subir sozinha e sem grandes dificuldades, sentando-se na cadeira ao lado, observando a mãe tirar uma forma de biscoitos redondos do forno, desligando-o logo após.
— Seu pai foi para Glendale. — Suzanne comunicou. — Estou indo para lá amanhã, se quiser ir... — Ela deixou o convite no ar, colocando os biscoitos em um prato, depositando em cima da mesa, para que os dois pudessem pegar.
— Não posso, preciso trabalhar. — Ele explicou, baixo.
E o assunto morreu.
Charlie não parava de tagarelar um só minuto, mostrando que estava adorando estar ali com a avó. , por outro lado, permanecia quieto, apenas respondendo quando sua bebê lhe dirigia a palavra ou quando sua mãe, raramente, lhe perguntava algo. Ele estava se sentindo desconfortável e queria que seu pai estivesse ali, pelo menos teria alguém com quem pudesse manter um diálogo por mais de dois minutos sem ser interrompido por algum comentário afiando ou por simplesmente o assunto acabar.
— Charlie fez um desenho. — Ela anunciou, descendo da cadeira enquanto segurava na lateral da mesa para que não caísse.
Ela caminhou até a sala, deixando o pai e a avó sozinhos por alguns segundos, até caminhar de volta com sua bolsa pequena, a abrindo de forma desajeitada e deixando cair algumas mudas de roupa de dentro. Olhou para as roupas no chão e as ignorou, pegando o papel meio amassado e indo até sua cadeira novamente.
— Charlie sabe subir sozinha. — Ela afirmou, quando seu pai fez menção de ajudá-la.
E ela subiu, quase caindo, mas subiu.
O homem sorriu quando assistiu sua filha abrir melhor o desenho sobre a mesa e pegar um biscoito.
— Olha, grand-mère, eu fiz isso pra você. — Charlie disse, mostrando o desenho para Suzanne que sorriu terna e agradecida. — Esse é o meu père e essa do lado dele é a Charlie. — Ela explicou, apontando para a folha e mordendo o biscoito com seus dentes pequenos. — Eu estou do lado dele porque eu amo muito meu père e ele me deixou comer os seus biscoitinhos. E essa é minha grand-mère do lado do meu grand-père. — Charlie apontou para uma ruiva de cabelos curtos e um homem rechonchudo. — Ele está goidinho aqui porque ele come muito. — Cessou a fala para colocar as mãos na boca, risonha.
riu com gosto da descrição de sua filha e teve vontade de apertá-la para nunca mais soltar. Ela era adorável ou não era?
— E quem é esse, mon amour? — Suzanne perguntou, apontando para o desenho completamente torto e pintado fora das linhas.
— Esse é meu titio Ethan! Eu não conheci ele, mas meu papai disse que ele era muito legal e que amava a Charlie, e Charlie gosta de pessoas que gostam dela, então ela também ama muito ele. — Charlie explicou com maestria, fazendo o pai arregalar os olhos e questionar a idade daquela menina que parecia gente grande. — E sabe o que mais meu papai me disse? — Ela perguntou baixinho para a avó que levantou as sobrancelhas e sorriu para a menina. — Disse que ele está lá no céu agora, cuidando da gente aqui em baixo. Então, ele era uma pessoa muito boa, né? Ele está com o papai do céu agora. Ele é um anjinho, vovó! — Charlie confidenciou, toda pomposa e esperta.
Suzanne sentiu seu peito aquecer e seus olhos formarem água nos cantos, quase implorando para expulsá-las. No momento ela estava se perguntando o que fizera de tão bom para merecer aquele bebê em sua vida, enchendo-a de alegria e amor sem mesmo saber as proporções disso. Ethan era um cara inconsequente que pouco ligava para o que estava acontecendo, ele só queria saber da adrenalina do momento, mas sua mãe sabia que ele tinha um coração bom e que, embora seu corpo não estivesse mais ali, ela sabia que ele deixara algo de muito bom que carregava seu sangue. Deixara um lindo bebê que confortaria o coração das pessoas ao seu redor, encheria o coração de amor e o rosto de sorrisos.
— Obrigada, ma belle. C'est magnifique! — Suzanne agradeceu, sorrindo.
continuou em silêncio, observando a euforia da filha e da mãe que aquecia seu peito de uma forma completamente plena. Era ótimo saber que as duas se davam tão bem.
Charlie retomou sua total atenção aos biscoitinhos enquanto bebia seu chocolate quente, deliciando-se com o lanche da avó.
— Está fazendo um bom trabalho, . Estou orgulhosa.
Não foi uma pergunta nem um comentário afiado, foi uma afirmação. a encarou e a mulher tinha lágrimas nos olhos, ainda comovida com o que escutara da neta. O homem sabia que ela se referia a Charlie e sorriu para a mãe, também sentindo-se orgulhoso pela filha e imensamente grato pelo que ouvira. Suzanne segurou a mão do filho e pôde notar o brilho nos olhos do garoto e era como se estivesse na frente do de nove anos que aprontava mil e uma coisas.
— Eu sempre estive orgulhosa. Sempre. — Contrariando todas as ideias malucas do rapaz, ela afirmou o que ele sempre duvidara.
Naquele momento, eles não precisavam de palavras para demonstrar a gratidão que sentiam um pelo outro. Depois de tanto tempo, finalmente, sentiu que estava tudo bem.
— Durmam essa noite aqui, querido! — Suzanne propôs, rápido.
O rapaz aproximou as sobrancelhas, observando a filha que estava entretida olhando o próprio desenho. Ele ia começar a falar quando um pingo de gente resolveu levantar-se novamente e contornar sua cadeira, oferecendo-se dengosamente ao colo do pai.
— Charlie ama dormir na casa da grand-mère. Charlie quer dormir aqui. — Charlie expôs seu ponto para seu pai e avó que a encararam derretidos, e ali cederiam qualquer pedido da garota.
— Mas amanhã o papai da Charlie tem que ir trabalhar bem cedinho porque o ano novo está chegando e com isso, tudo fica mais corrido. — Explicou, tão calmo e cuidadoso que sua mãe pensou que ele estivesse falando com uma boneca de porcelana que se escutasse um tom mais alto e agressivo poderia quebrar-se em mil pedacinhos.
— Mas père, a Charlie quer muito dormir na casa da grand-mère dela. — Ela tentou explicar novamente, curvando seus lábios em um bico. — E ela também quer ver as fotinhos do papai quando ele era bem nenêzinho igual a Charlie.
— E olha que eu tenho muitas fotos suas de quando era criança. — Suzanne se atreveu a intrometer no argumento de Charlie para convencer o pai a dormirem lá.
Com um menear, ele concordou, mesmo que contrariado.
Charlie envolveu o pescoço do rapaz com seus braços miúdos, lhe oferecendo um abraço que foi aceito de muito bom grado.
— Je t'aime, papa! — Charlie selou as bochechas do homem, dando-lhe cheirinhos, como ela gostava de falar, por todo o rosto. — Pode olhar as fotos agora? — Ela perguntou, direcionando o olhar até Suzanne que olhava a cena.
— Non. — respondeu pela mãe, antes que ela cedesse ao pedido. — Primeiro Charlie tem que tomar um banho porquê... — Ele pegou o braço esquerdo de Charlie e o levantou, torcendo o nariz, fazendo a menina sentir cócegas. — Tem uma porquinha aqui.
— Não é porquinha, papai. É uma gatinha. — Ela sussurrou, envergonhada.
— Oh, sim, como pude me esquecer? É a gatinha do papai. — Riu, selando a testa da filha que se agarrou mais aos braços do pai. — Eu me lembro de ter deixando um moletom de Charlie aqui, estou certo?
— Sim, está no seu antigo quarto. Irei pegá-lo e tem moletom seu também, deixou alguns quando resolveu se mudar. — Suzanne disse, levantando-se e caminhando até o quarto para pegar as mudas de roupas de frio.

Depois de banho tomado, os três sentaram-se no chão acarpetado na cor caramelo na sala. Charlie usava um adorável moletom com capuz que tinha orelhinhas rosas, era branco e nas calças tinha algumas manchas pretas, lembrando uma vaquinha, era o favorito da menina para dormir. Suzanne carregava duas caixas médias e elas abrigavam milhares de fotos e memórias de uma infância agridoce. Já usava um moletom de algum time de basquete que comprara pela internet escondido com o cartão da mãe, o que lhe rendeu uma boa bronca e meses sem comprar nada que não fosse numa loja física.
Charlotte estava com as pequenas mãos nervosas para tocar nas fotos e poder olhar a fisionomia de seu pai quando pequeno, rindo com as caretas ele adorava fazer para as câmeras.
— Cadê? — Ela pediu.
Suzanne abriu uma das caixas, relevando muitas fotos que eram como doces aos olhos graúdos da menina que colocou as mãos, puxando algumas fotografias para fora.
— Olha, é o père da Charlie! — Ela disse em um grau de animação elevado.
, na fotografia, estava sentado na grama e no seu colo estava um pequeno e fofo filhote de bulldog francês preto. Metade do rosto do garoto estava coberto por uma das orelhas grandes do cachorro que deixava sua língua para fora, deixando sua exaustão perceptível depois de tanto correr atrás de discos e bolinhas.
— Esse é quem?
— Esse era o Burger, ganhei de aniversário de onze anos do meu avô. — Explicou, lembrando do companheiro.
— Eu posso ter um Burger também? Onde ele está? Eu quero conhecer ele também, ele está tímido? Por que não aparece? — Charlie soltou todas as perguntas ao mesmo tempo, deixando confuso e sem saber por onde começar.
— Ele não está tímido, ma belle. Ele não está mais aqui, ele foi para um lugar muito mais legal e divertido.
— E onde é? Charlie pode ir também? Charlie gosta de lugares legais e divetidos.
O rapaz arregalou minimamente os olhos e sentiu sua espinha gelar com a pergunta da garotinha, sentindo seu peito apertar só de pensar na hipótese de Charlie querer ir para esse lugar onde Burger estaria.
O homem apertou os olhos, não sabendo o que falar.
— Olha essa foto aqui, bebê! — Suzanne interrompeu, observando o filho lhe agradecer com um sorriso singelo. — Isso foi quando o seu papai nasceu, ele era tão pequenininho e eu não queria tirá-lo dos meus braços por nada nesse mundo.
Charlie pegou a fotografia nas mãos, esquecendo o que questionava ao pai antes, empolgando-se completamente ao ver a figura do pai tão pequeno.
— Père! — Ela riu, apontando para a foto.
Charlie se divertia olhando as fotos do pai quando era pequeno, e isso rendia boas gargalhadas para o rapaz e Suzanne que achavam engraçada a forma como algumas fotografias arrancavam risos animados da parte da menina.
— Ethan? Tio Ethan. — Ela afirmou, esticando a foto para o pai que a pegou, analisando-a.
e Ethan estavam um com o braço no pescoço do outro e o sorriso que estampava ambas as faces era o mais iluminado possível. Os meninos estavam com camisetas iguais do time de futebol da escola e o suor era perceptível em suas testas. Eles estavam felizes e seus dedos indicadores estavam erguidos, mostrando que estavam em primeiro lugar.
— Esse dia foi o máximo. — Comentou, baixinho, quase que para si mesmo. — Ethan estava tão nervoso, se lembra? Ele não parava de estalar os dedos e assobiar, foi engraçado. — Relembrou distante com as memórias em torno de sua mente falando que aquela fora uma das melhores épocas de sua existência, quando ainda tinha seu irmão para aprontar no Natal com as tias que não gostavam, quando iam acampar na fazenda dos avós nos dias de frio e até mesmo as brigas que se tornaram diárias depois que cresceram. — Sempre fui péssimo no futebol, mas não podia deixar ele sozinho nesse dia.
sentia-se extremamente receoso pelo acidente que tirara a vida do irmão mais novo, e isso o assombrava sempre. Em pensar que uma noite antes ele fora dormir irritado com o irmão que não quis escutá-lo e preferiu sair com os amigos para uma noite de bebedeira e, a mais dolorosa realidade, sair para nunca mais retornar para casa. Ele deveria ter insistido mais, talvez assim o rapaz mudasse de ideia e ficasse em casa. Deveria ter saído do quarto e trancado a porta e assim ele não sairia, deveria ter inventado alguma mentira para que o irmão ficasse tão preocupado a ponto de não ir. Ele não sabia. Só deveria ter insistido, mas não insistiu. Só pediu para que o irmão tomasse cuidado... E ele não tomou.
Droga, Ethan! Era muito difícil tomar cuidado?
Tudo que o rapaz sentia agora peso na consciência por não ter evitado aquilo tudo. Mas ele não podia evitar, que merda! Ele não entendia aquilo? Era tão complicado assim de entender? Ele poderia ter ido dormir confiando no irmão, sabendo que ele iria tomar cuidado e chegar no dia seguinte escutando os sermões da mãe que mal conseguira dormir sabendo que o filho estava fora. Poderia ter ido dormir sem a raiva como sua melhor amiga e acordar sabendo que estava tudo bem e que Ethan acordara com a maior ressaca do mundo, precisando só de um remédio e uma xícara de café bem forte. Mas foi tudo tão diferente do que podia ser. Ele foi dormir com um sentimento de raiva e acordou com a pior das notícias, e aquele sentimento fora substituído por culpa, e não havia coisa pior do que sentir-se culpado por uma coisa que ele não podia evitar.
— Mas sempre foi ótimo no teatro! — Suzanne confortou, mostrando-lhe uma foto que foi tirada por ela mesma em um momento descontraído do filho que decorava seu texto para a peça que apresentaria naquele final de ano.
— Devo admitir. — Ele riu, gabando-se.
Suzanne revirou os olhos.
— O quê? Não posso fazer nada se nos testes eu sempre conseguia os melhores papeis e sempre recebia elogios dos professores.
Charlie, sem qualquer aviso, pulou no colo do pai e abriu a boca em um sinal perceptível de sono.
— Está com sono, mon amour? — Observou o relógio automático que ficava ao lado da televisão.
— Charlie está. — Ela confirmou, com direito a um menear lento de cabeça e olhinhos piscando devagar.
levantou-se devagar para não derrubar a filha que estava com a cabeça encostada em seu ombro e esperou Suzanne fazer o mesmo, deixando as caixas no chão para depois arrumar. O rapaz apontou para as mesmas, dizendo que iria arrumá-las assim que Charlie dormisse e que ela poderia descansar.
— Não se preocupe, eu arrumo isso aqui. — Suzanne deu de ombros. — Descanse um pouco, eu arrumei sua cama e se sentir frio tem mais cobertas no seu armário. — Ela avisou, sorrindo. — Bonne nuit. — Disse para então selar a testa do filho e depois a da neta.
— Bonne nuit, maman.
Ele caminhou até o quarto que estava parcialmente escuro, sendo iluminado apenas pela luminária que refletia uma luz dourada, possibilitando que ele enxergasse a cama sem ter que ligar a luz. arrastou os pés até o lado direito e depositou a filha ali, com cuidado, cobrindo-a em seguida para que pudesse deitar ao lado dela.
— Charlie quer ouvir uma história. Conta uma história bonita, papai. — Charlotte sussurrou, aconchegada ao peito do pai.
Ela sempre gostou de ouvir histórias antes de dormir, esse é o motivo pelo qual o homem constantemente ia a biblioteca pública de Denver pegar alguns livretos emprestados e devolvê-los na semana seguinte. Ultimamente ele pegava um ou dois, pois tinha decorado alguns contos que ela sempre pedia para ele ler.
— Pensei que Charlie estivesse como sono.
— Charlie está, mas ela quer ouvir a história dos pequeninos.
Com pequeninos, a menina referia-se aos anões da ‘Branca de Neve’, ela adorava essa história e fazia repeti-la incontáveis vezes.
— Anda, papai. Ela quer ouvir.
— ‘Há muito, muito tempo mesmo, no coração do inverno, enquanto flocos de neve caíam do céu como fina plumagem, uma rainha, nobre e bela, estava ao pé de uma janela aberta, cuja moldura era de ébano...’ — Começou a narrar a história escrita pelos Irmãos Grimm, história esta que decorara linha por linha.
Ele sentiu o corpo pequeno da filha amolecer aos poucos conforme ia narrando o conto, sabendo que ela dormira no meio. Puxou-a para mais perto, tentando protegê-la do frio que fazia. Podia escutar sua respiração calma e alguns resmungos baixinhos e sabia que ela estava sonhando com algo bom. Ela sempre fazia isso, resmungava quando sonhava e ele achava adorável. Na verdade, ele achava tudo que ela fazia adorável, tinha de confessar.
Ele amava aquela garotinha mais que sua própria vida e ela era como uma benção que apareceu na hora certa de trazer uma luz para seu mundo escuro e sombrio, onde a alegria não tem vez de passar e ficar. Ela era a alegria de suas manhãs monótonas e dos fins de tardes nostálgicos, do começo da semana e do fim, do primeiro até o último mês em um ano e ele se sentia pleno com esse sentimento de ternura que preenchia seu coração e transbordava sempre que contemplava a menina dormindo.
Com cuidado, ele arrumou a coberta novamente por cima da garotinha que se encolheu mais ainda, deixando seu corpo ainda mais miúdo, sentindo-se confortável em meio ao do tecido branco. E ali, com Charlie nos braços, o rapaz adormeceu no melhor sono possível, onde era possível sonhar com borboletas e fadas por mais afeminado que aquilo soasse.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 13:43PM, 29 de Dezembro de 1997.

Estava ali há, exatamente, uma hora e oito minutos passando todas as ideias que teve nos últimos dias para Esteban sobre a nova revista, mostrando quais eram os pontos negativos e positivos em abrir uma nova aba da revista. O rapaz escutava tudo com muita cautela, analisando os escritos de em uma pasta organizada por ela mesma.
— Tem alguma ideia de data para lançamento?
— Fevereiro. — Deu de ombros.
— Não acha muito em cima da hora? — Questionou. — Digo, estamos no final de Dezembro, e se for publicada em Fevereiro, temos pouco tempo para pensar em um conteúdo concreto, buscar esse conteúdo, porque, você sabe, isso requer pesquisa.
— O que sugere?
— Segundo semestre de mil novecentos e noventa e oito.
— Fechado. Irei conversar com Jody.
— Pensei que seria mais difícil. — Ela riu pelo nariz.
— Preciso de mais uma coisa.
— Pode falar.
— Profissionais. Os melhores. — Esteban pediu, erguendo os óculos de grau com o dedo indicador. — Os melhores que temos naquela redação.
— Uma equipe? — Perguntou.
— Uma equipe.
— Te mando um e-mail quando selecionar. — respondeu prontamente, observando o rapaz estender-lhe a mão, esperando que ela segurasse, e assim que ela o fez, ele selou as costas de sua mão.
se dispôs a observá-lo quieta. O homem mantinha um sorriso gentil nos lábios e as mãos agora estavam cruzadas em cima da mesa. Os fios de cabelo eram claros e pareciam macios, deixando a mulher com vontade de tocá-los. Mas que merda era aquela? Ultimamente estava reparando mais do que gostaria nos homens que estavam ao seu redor e isso a assustava um pouco.
Continuaram conversando normalmente, até Esteban olhar em seu relógio de pulso e dizer que precisava ir ou se atrasaria para uma reunião que aconteceria dali a quarenta minutos. Os dois levantaram-se de suas cadeiras e o rapaz fez questão de pagar a conta, conta esta que não foi alta pois só ficaram na base do suco natural durante todo o tempo que estiveram ali. Eles apertaram a mão e cada um seguiu para o seu carro depois que passaram pela porta da saída.

No caminho até a redação, ficou pensativa e, ela tinha de confessar, seus pensamentos estavam a assustando. Ela fizera uma análise e tanto no rapaz e ele provavelmente notara isso, afinal, aquele sorriso malandro e as sobrancelhas levantadas sugestivamente de Esteban não foram atoa, certo? Ela não sabia ao certo, mas estava sentindo-se carente e talvez fosse essa a razão por seus olhares indiscretos. Ela sempre esteve carente, de fato, mas era diferente agora. Sabia que estava quase chegando na casa dos trintas e era espantoso pensar que ainda não tinha realizado nem metade das coisas que queria quando era mais nova e sonhava chegar nessa idade.
Ter uma família, uma casa no campo com uma estufa para que ela pudesse cuidar das flores que viria a cultivar, conhecer a Austrália, parar com a paranóia de contar seus próprios passos quando acorda até sair de casa para trabalhar, perder o medo do escuro, trocar seu apartamento por uma casa, conhecer o George Clooney e ter todos esses e muitos outros sonhos realizados ao lado dele, com quem, supostamente, casaria.

Certo, essa opção ela tinha descartado quando tinha dezoito anos.

Mas eram tantos sonhos e ela não tinha realizado nem metade deles, era frustrante! era uma mulher bem sucedida, poderia ir para onde e quando quisesse, ela sabia, mas sempre pensava que poderia fazer outro dia.

Para que fazer agora uma coisa que posso fazer depois?

Contrariando toda a frase, a mulher pensava dessa maneira.
Seus pensamentos evaporaram como uma fumaça quando escutou uma buzina alta e irritante atrás de seu carro. Olhou para cima e pôde notar o farol aberto, chegando a conclusão de que aquele era o motivo pelo qual o motorista do carro de trás estava irritado. resmungou um palavrão, perguntando-se onde fora parar a paciência que as pessoas costumavam ter. Passou a marcha e acelerou.

{...}

— Karen, será que pode ir no restaurante natural que tem do outro lado da avenida? Essa pequena reunião com Esteban me deixou faminta. — pediu, enquanto entrava na sala com a mais nova ao seu lado.
— Pensei que comeria por lá mesmo. — Karen falou baixo, sentindo-se intrometida o suficiente para encolher os ombros e esperar por uma resposta para lá de malcriada. Se fosse um outro dia era bem capaz dessa resposta ser dita, de fato, mas não era o caso.
deu de ombros e sentou-se na cadeira.
— Eu quero uma torta de frango e salada de batata, para beber uma água bem gelada com limão, por favor. — Ouviu a mulher concordar e sair, fechando a porta logo após, deixando a outra sozinha.
Passou o batom pelos lábios, deixando-os mais marcados pois com o passar das horas tinha perdido sua tonalidade tão forte. Puxou seus cílios para cima com a pequena escova que tinha na ponta do pincel da máscara preta e sorriu olhando-se para o espelho. Guardou tudo em sua bolsa e olhou para cima da mesa, pensando por onde começaria. Pegou um porta-retrato que estava no canto e sorriu.
Ela tinha os cabelos curtos e ruivos, e sua mãe estava ao seu lado, ambas sorrindo. Era uma fotografia tirada na formatura do Ensino Médio da garota, que resolvera tingir os cabelos, alegando querer começar a faculdade de cara nova.

Flashback.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 23:00PM, 28 de Dezembro de 1997.


Fazia um leve frio naquela noite e uma fina garoa cobria as ruas da cidade àquela hora. Estava tudo tranquilo, em todos os bairros e avenidas, tudo sempre bem iluminado e assustadoramente calmo. estava relaxada sobre seu sofá de couro enquanto bebericava seu chá, chá este que ela avaliara como o melhor pois foi sua mãe quem havia preparado, e nada melhor que coisa de mãe.
Ofélia estava ao seu lado, também bebericando seu chá enquanto lia algum livro. A mais velha usava uma blusa de lã branca e seus óculos de grau estavam pendurados em seu nariz, e através deles era possível enxergar os belos olhos que a mulher carregava. Olhos que haviam presenciado tantas coisas, tantas quedas e perdas, tantas pessoas e sonhos desfeitos diante deles sem que ela pudesse fazer nada, tantas esperanças perdidas e retomadas, tantas luzes e cidades, e até mesmo países do mundo. Ela fora uma adolescente muito aventureira e conhecera diversos lugares, todos eles guardados como boas lembranças em fotografias e nas memórias mais bonitas da sua mente e coração. Sua respiração era calma e seu rosto estava sereno, como se naquele momento ela estivesse em plena paz de espírito, e talvez estivesse.
Um sorriso mínimo curvou-se tímido no rosto de que continuou encarando a mãe, enxergando ali seu maior exemplo. Ofélia era uma mulher forte, perseverante, zelosa pelas coisas que amava e que lutava sempre pelo que acreditava, pelos seus ideais. Ela não tinha medo, dava os melhores conselhos, estava sempre disposta a ouvir os outros e ampará-los da melhor forma, tinha as melhores histórias, a melhor comida, o melhor abraço e o melhor cafuné. Ela era uma mulher inspiradora aos olhos da mais nova, e sua resposta sobre “O que quer ser quando crescer?” nunca mudara, continuava sendo a mesma, ela queria ser sua mãe. Exatamente como ela, sem tirar nem pôr.
— O que foi? Por quê está me olhando dessa forma? — Ofélia perguntou risonha, destruindo os pensamentos da filha em um rompante, tirando seus óculos e colocando-o em cima da mesa de centro com o livro, depois de colocar o marcador de página e fechá-lo, e com a xícara de chá.
— Não é nada. — Respondeu, aconchegando-se mais perto da mãe que lhe acolheu de muito bom grado nos braços. — Só... Muito obrigada, mãe! Por tudo. E me desculpa por tudo também, sabe do que estou falando. — Balbuciou, fechando os olhos e sentindo a mãe lhe acariciar os fios de cabelo soltos e sedosos, num carinho para lá de bom.
— Está tudo bem agora, querida. Não precisa se desculpar por nada, nunca. — Garantiu. — Eu sou sua mãe, estou aqui sempre disposta a te ouvir e compreender, esse é meu papel. Sinto que agora estou cumprindo ele e não poderia me sentir mais grata por exercer o que mais gosto de fazer, ser sua mãe e melhor amiga. — Ofélia confidenciou, com um sorriso singelo moldando sua face com poucas rugas nos cantos dos olhos.
— Eu amo você. — Ela também confidenciou, baixinho.
Ofélia nada disse, apenas continuou com o carinho no cabelo da filha, sentindo sua respiração calma movimentar minimamente seu corpo encolhido. sentia-se segura ali, como nunca havia se sentido nos braços de outra pessoa, pensando se algum dia encontraria alguém com a capacidade da mãe de lhe proteger e passar confiança em um só abraço.
— Está tarde. — Ofélia concluiu enquanto olhava no relógio metalizado que ficava pendurado na parede. — Precisamos ir dormir.
— Mãe, eu não tenho mais treze anos. — Confrontou risonha, arrumando-se no sofá e encarando a mãe.
— Mas não deixa de ser minha menina, e sabe que não há nada melhor que uma boa noite de sono.
— Eu sei, sim. — Ela disse com um menear energético de cabeça.
— O quê?
— Um bom vinho. — disse como se fosse óbvio, rindo em seguida pela careta que sua mãe lhe lançara.
— Seu pai iria adorar compartilhar a adega dele com você, filha. — Soltou um pouco sentimental, lembrando-se do amado que fora há alguns anos e deixara uma adega cheia no porão da casa onde morava.
— Ele adorava. — A mulher aproximou-se da mãe novamente, com uma linha fina tomando seus lábios ressecados prestes a descascar. — Era um bom homem, não é? — Perguntou o que sempre soube. Seu pai era o melhor, sempre fora muito gentil e adorado por todos, e isso lhe proporcionara as melhores lembranças possíveis do homem.
— O melhor de todos. — Balbuciou emocionada, com as lágrimas acumuladas nos cantos de seus olhos. Ela sorriu, segurando a mão da filha e a apertando. — Eu espero que encontre um homem tão bom como seu pai foi para mim, espero que ele te faça tão feliz quanto seu pai me fez. — Dito isso, a outra selou a mão da mais nova, levantando-se do sofá e pegando as xícaras de chá, indo em direção à cozinha deixando a filha sozinha.
levantou-se e calçou suas pantufas que tinham um gatinho estampado em cada pé, contrariando totalmente sua pose de pessoa séria e sem sentimentos. Olhou para o lado e pegou seu bichano, Elvis, nos braços que ronronou preguiçosamente, recebendo de muito bom grado o carinho que sua dona lhe ofereceu entre as orelhas peludas e fofinhas.
— Manhoso. — Ela riu, achando graça na forma como o gato se aninhava aos seus braços pedindo por mais atenção de seus dedos. — Boa noite, mamãe, obrigada por dormir aqui.
— Boa noite, querida. — Ofélia apareceu no batente da porta, observando a filha. — E não precisa agradecer, sabe que adoro essa coisa toda. — Gesticulou com as mãos, recebendo um riso da mais nova.
concordou com um menear de cabeça e seguiu para o seu quarto, segurando Elvis nos braços. Depois de fechar a porta e acomodar o bichano na sua cama, a mulher colocou os óculos de grau novamente, caminhando até seu guarda-roupas, apenas para abri-lo e pegar uma caixa que ficava no fundo que estava meia empoeirada. CD’s, algumas cartas que recebia das amigas no ensino médio, clipes coloridos, fitas de cetim e cartas.

Isso, cartas.

Era isso que ela procurava.
Sentou-se na poltrona EGG marrom que tinha em seu quarto e encostou perto de uma pequena mesa de vidro.
— Tudo bem, , não pode ser tão difícil assim. Você era ótima quando mais nova. — Ela dizia para si mesma, embaralhando as cartas.
Pegou algumas que fariam parte de seu baralho e observou-as, analisando-as e fingindo que tinha alguém em sua frente pronto para ganhar.

{...}

Denver — Colorado, Estados Unidos, 15:24PM, 14 de Janeiro de 1982.

, olhe para mim. — Joseph pediu para a filha que estava fissurada em suas cartas.
Sem pensar muito, a garotinha levantou os olhos até o pai e o observou, esperando pela próxima fala do homem que segurava as cartas com maestria comparado à menina que as segurava de uma forma completamente desastrada.
— Me escute, tem que prestar atenção no que a outra pessoa está colocando na mesa, no que ela está descartando. Preste atenção quando ela demorar e pensar sobre uma carta e depois descartá-la, ela provavelmente quer uma carta parecida ou com um número próximo. — Ele explicou calmamente para a filha que escutava atenta, a fim de saber mais sobre o jogo. — Entendeu?
— Sim, papai. — afirmou.
Entendera, de fato, mas precisava praticar para que chegasse ao nível em que seu pai estava de estratégia.
— Certo, então me diga... — O homem mexeu em suas cartas e pegou uma nova no baralho que estava ao seu lado. Observou seu baralho e analisou a carta, pensando se pegaria ou não, no final optando por descartá-la. Era uma carta com o número quatro com o naipe de copas. — Sabe, aproximadamente, o número que preciso?
— Não, papai. Isso é quase impossível. — Reclamou, frustrada. Era realmente quase impossível. Quase.
— É claro que é! — Joseph concordou com um menear energético de cabeça. — Era isso que eu queria que percebesse. Só estamos no começo, então é difícil marcar as cartas do seu companheiro de mesa. — Ele esperou a filha pegar uma carta e analisá-la, pensando se precisaria ou não dela. — Jogar e saber marcar o adversário é para poucos, querida.

{...}

Denver — Colorado, Estados Unidos, 23:22PM, 28 de Dezembro de 1997.

— É quase um privilégio. — completou, lembrando-se perfeitamente da frase que seu pai lhe dissera e ela adotara. Jogou uma carta com o número três de espadas e imaginou que seu adversário pegara uma carta a analisando.
Que loucura! Quem fazia aquilo?
É impossível saber marcar se realmente não tem ninguém ao seu lado oposto na mesa.
— Pife. — Disse para si mesma, abaixando as cartas na mesa, mostrando que ganhara.
Suspirando frustrada, a mulher embaralhou as cartas novamente e depois organizou todas, colocando-as novamente dentro da caixa, e depois colocou dentro do guarda-roupas.

Fim do flashback.

Colocou o porta retrato no mesmo lugar e levantou-se, caminhando até a porta para sair dali. Quando esticou a mão para tocar a maçaneta, uma batida na porta soou alto, e uma Karen ofegante foi relevada.
— Seu almoço. — Esticou a sacola para que pegou e deixou em cima da poltrona ao lado, ignorando o barulho de seu estômago.
— Está ocupada?
— Estava digitando o relatório final sobre a produção da edição da EDownTown do próximo mês antes de ir comprar seu almoço, mas acho que posso finalizar mais tarde, falta pouca coisa. — Ela disse, prontamente.
— Preciso que me acompanhe até o departamento de fotografia. — Disse, saindo da sala, sendo acompanhada por Karen, que deu uma corridinha até sua mesa para que pudesse pegar seu bloco de anotações e sua caneta chamativa. — Qual é o andar mesmo? Faz tempo que não apareço por lá.
— Sétimo. — Lembrou-a, assim que a porta metálica do elevador abriu, revelando algumas pessoas que saiam apressadas de lá.
entrou ao lado de Karen e apertou o botão do sétimo andar, esperando as portas se fecharem para que as levassem até lá, afinal, tinha uma equipe a montar e começaria pelo setor de fotografia. Quando mais rápido terminasse aquele serviço, mais rápido entraria em férias.



Denver — Colorado, Estados Unidos, 22:56PM, 31 de Dezembro de 1997.

esfregava os lábios um no outro, espalhando o batom que de forte não tinha nada, o que era estranho, afinal, a mulher não trocava seu vermelho matte nem mesmo por um copo de um bom vinho. Ela se portava nervosa diante de suas companhias que pareciam conversar animadamente e soltavam gargalhadas empenhadas, arrancando alguns olhares de pessoas que estavam nas mesas ao redor. O local estava cheio, o mini-palco estava bem iluminado e com um pedestal bem no meio encaixando um microfone na ponta, o bar tinha poucas pessoas que conversavam ao pé do ouvido e sorriam perversamente mostrando que o álcool corria ágil pelas veias, proporcionando-lhes uma alegria instantânea.
Sua salada Tabule que foi pedida como a entrada da noite estava quase intocada, enquanto os outros presentes na mesa deliciavam-se com uma massa Fettuccine que era acompanhada de um molho Bechamél, salpicão e batatas grelhadas. O aroma da massa e seus temperos e acompanhamentos era tão fruitivo que pôde escutar seu estômago pedir pela comida para preenchê-lo e ela o fez. Enrolou a massa na ponta de seu garfo prata e saboreou a comida com gosto, mastigando com calma para que o sabor não se dissipasse tão rápido, querendo captar cada mínimo gosto de tempero que tinha ali que a fazia salivar a boca.
— Não é, ? — Escutou, balançando a cabeça, dedicando sua total atenção à sua mãe que lhe dirigira a pergunta.
— Desculpe?
— Eu disse que a comida está maravilhosa! — Ofélia afirmou energicamente, satisfeita com o que comia e feliz por estar, finalmente, com sua família.
concordou com um menear lento de cabeça, passando o guardanapo de pano por sua boca para limpar qualquer vestígio de comida que pudesse ficar ali.
Um som agradável soou pelo local, agradando os ouvidos da moça que logo reconheceu a música ‘Quando, quando, quando’ e fez questão de mexer minimamente seus ombros para lá e para cá, contida, porém animada. Não demorou para que algumas pessoas levantassem de seus lugares e começassem a dar passos tímidos de um lado para o outro ali mesmo, curtindo o momento que parecia ainda melhor ao som de Michael Bublé.
— Quer dançar? — Mason perguntou galante para Louise que concordou pronta e apaixonadamente.
Os dois levantaram-se e caminharam até a pequena aglomeração de pessoas, sem nem darem um até logo para as outras duas na mesa.
— Parece que ela ainda não caiu em si, não é? — perguntou, bufando.
Ela não queria pedir desculpas.
— Louise só está...
— Magoada, eu sei, mãe. — Completou, sabendo o que Ofélia iria dizer. — Mas eu não estava errada, e se ela não cair em si e pedir desculpas, não sou eu quem vai fazer esse papel.
— Uma hora, alguma das duas vai ter que dar o braço a torcer.
deu de ombros.
— Não vai dançar? — Ofélia perguntou para a filha.
— Não tenho par.
— Isso me ofendeu. — Falou dramaticamente, colocando a mão sobre seu busto mostrando uma falsa reação de ofensa.
— Mamãe, não começa! Não aqui, por favor. — se permitiu rir, colocando as mãos sobre a mesa e encarando a mãe que lhe observava com as sobrancelhas arqueadas.
— Se não quiser, tudo bem, mas eu quero! Eu adoro dançar e não tenho nada a perder, certo? A noite é uma criança, querida, dê a ela uma bala e adoce sua vida! — Ofélia disse com maestria e uma coisa a mais. Talvez fosse a vontade de viver lhe chamando. A vida estava bem ali, lhe chamando e falando que ela estava esperando a mulher para agarrá-la e aproveitá-la ao máximo, sem medo.
Destemida, Ofélia caminhou sorrateiramente até onde as pessoas dançavam e começou a arriscar passos de dança com seus pequenos saltos pretos, o que arrancou alguns risos da filha que continuava sentada. Em poucos minutos, sua mãe sumira de seus olhos rápidos e ela se sentiu frustrada por não ter mais para quem olhar e agora encarava as próprias mãos que pareciam muito interessantes naquele momento.
Levantou-se e caminhou pelo caminho onde lembrava que daria ao banheiro. Ela precisava retocar sua maquiagem. Quem sabe ela não desse a sorte de esbarrar com algum cara legal que lhe faria rir a noite inteira e no final pediria seu número para que pudessem manter contato? Ela não sabia, mas quem é que sabe?
— Tell me quando, quando, quando... — Cantarolou distraidamente.
Sentiu seu corpo ser empurrado brutalmente e escutou quando algo caiu no chão. Sem mesmo saber quem era a pessoa que havia esbarrado, ela balbuciou:
— Oh, me desculpe! Eu não...
— Está tudo bem, eu estava distraído.
— Olhe só, eu retiro minhas desculpas. — Gracejou, olhando o rapaz a sua frente que tinha o cabelo impecavelmente arrumado para o lado e seu cheiro lhe servira como o mesmo efeito do álcool. Poderia embriagar-se com o aroma deliciosamente amadeirado que emanava de sua pele lívida e macia. Não que ela tivesse o tocado para saber se era, de fato, macia ou não, mas por não ter nenhuma mancha ou espinha, apenas um sinal bem pequeno no canto de sua boca, ela deduzira.
— Não sabe cantar e olhar por onde anda ao mesmo tempo? Não é uma tarefa tão difícil. — respondeu, irritado com o fato de se deparar com aquela mulher naquele momento.
— Foi você mesmo quem disse que estava distraído. — Ela retrucou esperta. — E... Cinderela? Sério? — questionou risonha ao notar o DVD do filme da Disney na mão do rapaz que a encarou desconcertando, passando a mão na nuca. — Pensei que fosse mais maduro.
— Isso não é para mim! Que ridículo, é claro que isso não é meu. — Explicou, talvez um pouco mais enérgico que o normal, arrancando risos discretos da mulher.
— Não me diga que sua irmã mais nova está aqui e você está levando isso para ela? Que coincidência terrível, minha irmã mais nova também está aqui. Elas podem ser amigas! — Ela não perdeu tempo em zombar, colocando uma mão na cintura e espreitando os olhos, passando a mão livre pela testa.
— Isso é para minha filha. — Ele concluiu, achando irritante o modo como a mulher ria de sua cara sem a situação ter a menor graça.
Ela era uma bêbada sem noção até mesmo quando não bebia.
arregalou os olhos minimamente e passou as mãos no cabelo, envergonhada.

Filha?

Permaneceu calada por alguns segundos, com uma linha fina contornando seus lábios. Ela estava envergonhada e podia sentir suas mãos suando nas laterais de seu corpo ereto. Queria pedir desculpas por ser tão indelicada e enxerida, mas não se daria ao luxo de se desculpar novamente com o rapaz que também permanecera quieto à sua frente, carregando uma expressão irritadiça na face e com os lábios inquietos, prontos para soltar alguma frase entediada.
arqueou as sobrancelhas e espreitou os olhos, analisando o local cheio e suspirando frustrado, pensando que poderia passar a noite inteira dizendo que aquela mulher era uma doida desvairada, mas precisava trabalhar, afinal, ficar ali discutindo com ela não lhe traria nada além de uma dor de cabeça pelo resto das horas que se estenderiam.
— Não tem cara de quem passa noites acordado trocando fraldas de um bebê! — Resolveu pronunciar-se, não deixando de lado sua pose séria, nada disposta a mostrar o quão encabulada estava.
— Eu não tenho cara de muitas coisas, caso isso te interesse. Tenho cara de quem trabalha em um restaurante como faz-tudo? É claro que não. Tenho cara de um galã de filmes hollywoodianos. — gabou-se debochadamente enquanto passava as mãos pelos fios de cabelo bem penteados e curvava os lábios em um sorriso miúdo, e podia imaginá-lo em uma cena de filme com direito ao foco totalmente nele e uma música calorosa tocando ao fundo enquanto abria um sorriso que deixaria as mulheres que estão em seus sofás de pernas abertas.
Uau, aquilo foi estupidamente atraente.
— O que foi? — O rapaz questionou, incomodado com o olhar da mulher.
— Nada, eu só... Eu... Deixe de ser modesto, ma cher! Não é como se fosse Tom Cruise ou o Mel Gibson. — Fez questão de ressaltar, pendendo a cabeça para o lado e colocando as mãos na cintura, em uma pose um tanto quanto entediada.
— Esqueceu de citar o Brad Pitt, e em como ele estava uma gracinha em Legends of the Fall! — Zombou, pronto para sair dali.
— Estou começando a pensar que esse DVD da Cinderela é para você, e que essa história de filha é tudo uma desculpa para ninguém questionar sua sexualidade que realmente está dando brecha para se duvidar. — Esperta, ela não perdeu a oportunidade de soltar sua piadinha que a graça só era entendida e apreciada por ela.
— Não sei lidar com bêbados.
Girando os calcanhares, o homem começou a mover-se em direção aos fundos, pronto para ir até a pequena saleta de funcionários que tinha por lá quando ouviu a mulher aconselhar:
— Embriague-se um dia e irá me entender, rapaz.
Quem aconselha outra pessoa a embriagar-se? Bêbados fazem isso.
esperou o rapaz sumir do lugar até onde seus olhos podiam captá-lo e continuou seu caminho até o banheiro que parecia ser o único ambiente tranquilo de toda aquela estrutura amontoada de gente dançante e feliz.
Encarou-se no espelho, notando que seu batom começava a sumir e questionando onde estavam as vinte e quatro horas de duração que lhe prometeram quando comprara. Retocou-o e passou as mãos pelo cabelo solto, balançando-o e deixando que os fios caíssem em cascatas pelos ombros, livres. Retocou seu indispensável rímel e sorriu para si mesma, estranha e gostosamente confiante com seu próprio reflexo, com seu próprio eu.
Sem mais demora, a mulher girou os calcanhares para fora do banheiro, enfiando-se no meio das pessoas, disposta a encontrar sua mãe e dançar com ela até seus pés pedirem por um pouco de descanso e seu corpo estar embriagado de suor.
Enquanto passava pelas pessoas a procura incessante pela sua mãe, ela notava a alegria que era exalada por cada uma delas. Muitas dançavam com seus companheiros e outras sozinhas, uns conversavam ao pé do ouvido e outros riam alegre e escandalosamente, para que os quatro cantos do mundo pudessem ouvir em alto e bom som todo o êxtase que os poros de seus corpos conseguiam exalar em pura excitação de uma alegria gostosa na boca no estômago que era causada pela euforia de estar com a pessoa amada. Ela também queria sentir isso. Queria sentir as famosas borboletas dançando em sua barriga enquanto seus olhos eram fitados apaixonadamente, queria sentir suas mãos suando e seu coração dar solavancos de alegria quando escutasse a campainha tocar avisando uma chegada. Queria não presenciar mais um adeus nem um até logo, queria apreciar a presença de quem chegou para ficar e não cogite, nem por um minuto, a hipótese de ir embora. Queria amar e ser amada incondicionalmente até o fim dos tempos. Mas algo a impedia. Ela tinha medo, tanto medo que ele a sufocava de uma forma que a mulher sentia-se completamente presa e entregue à ele. Mas ela não podia mais viver assim, certo? Ela precisava libertar-se e sabia que era a hora. começaria por si mesma, como havia prometido. Mudaria seus hábitos irritantes e depois poderia pensar em fazer mudanças drásticas em sua nova vida. Ano novo, vida nova.

Quando avistou uma Ofélia dançante, a mais nova aproximou-se puxando a mãe para perto de si sem mais delongas. Sem trocar uma palavra, as duas souberam tudo o que estava acontecendo e se puseram a dançar como nunca ao som de ‘Feeling Good’ do Michael Bublé. Era uma música sensual e fazia com que quisesse colocar todo seu poder de sedução ali, na dança. Suas mãos passavam sensualmente pela lateral de seu corpo enquanto ela mexia seu quadril para lá e para cá, depositando certa leveza ao movimento. Fechou os olhos e passou as mãos pelo cabelo solto, tentando fazer daquela música seu novo pensamento para seguir em frente.
O corpo da mulher pegava fogo, em puro êxtase e insanidade. Podia sentir seu sangue bombeando rápido e fervendo, fazendo seu sistema ter um ataque repentino de uma euforia incontida e quase palpável. Sua boca estava com gosto de paixão, fazendo-a engolir com gosto sua saliva e aquilo enchia seu coração de amor.
Era uma metáfora bonita, se parasse para pensar.
Os fios de cabelo estavam presos em sua testa devido a pequena quantidade de suor que começava a impregnar-se em sua pele, acumulando gotículas que não incomodavam de maneira alguma a mulher. Se fosse outro dia, outra noite, outro lugar, talvez aquilo a irritasse e a fizesse correr para o banheiro e passar uma água no rosto. Odiava sentir o suor pelo seu corpo, exceto na hora no sexo.
Naquela hora, ah, naquela hora ela adorava.

{...}

Do outro lado do balcão, atrás das portas de madeiras bem polidas que davam acesso à cozinha totalmente equipada e à sala de funcionários e do senhor Smith, entrava dando de cara com sua garotinha sentada na poltrona como ele havia pedido para que ela ficasse. Charlie parecia concentrada nos rabiscos coloridos que fazia em sua miniatura de caderno com folhas totalmente brancas, totalmente alheia à presença do pai que se aproximava mais rápido ainda com o DVD em mãos.
O rapaz tentou espiar o que a filha fazia e, ao notar a presença do pai, a menina puxara o caderno para si, impedindo que ele pudesse olhar o que desenhava.
— Non, père! É surpresa, não pode olhar. — Charlie o repreendeu, formando um bico na ponta de seus lábios.
— Oh, certo, me desculpe. — desculpou-se, rindo. — Olha o que eu trouxe. — Ele ergueu o DVD e sorriu para a menina que lhe sorriu também, deixando de lado seus lápis e caderno, levantando-se para ir de encontro ao pai.
Charlie segurou o DVD com os dedos miúdos, observando o encarte da capa que como centro carregava a imagem da princesa da Disney com seu esbelto vestido azul e, ao seu lado, o príncipe que todas as garotas idealizam quando completam seus quatorze anos.
— Cinderela! — Charlie pareceu animada com o filme que iria assistir pelas próximas duas horas, ou até ela cair no sono. — Charlie gosta dela, mas prefere a princesa Jasmine, père! — O bebê levou os olhos até o pai que agora encontrava-se agachado, ficando do tamanho da garotinha. — Charlie pode ter um tigre também?
Inocente, a menina perguntou referindo-se ao animal de estimação da princesa, sem saber o enorme fardo que ter um tigre como animal traria. Ele riu, passando sua mão esquerda pelos fios de cabelo da menina, deixando um carinho paterno ali.
— Pode?
— Ter um tigre é uma grande responsabilidade, sabia, neném? — Levantando-se, o homem tratou de pegar Charlie no colo, colocando-a sentada novamente na poltrona e pegando o DVD de sua mão para que pudesse, enfim, ligá-lo no aparelho que estava conectado à uma TV. — E ele também ficaria muito grande, maior do que a Charlie e muito mais forte que o papai. — Explicou, observando a imagem aparecer aos poucos na tela a sua frente para então encarar a filha que, com os olhos graúdos e ligeiramente assustados, carregava uma expressão curiosa.
— Mais forte que o papai?
— Oh, sim, muito mais forte.
— Maior que o papai, também? — Charlie perguntou, olhando diretamente ao pai, extremamente curiosa.
— Provavelmente.
— Nós podemos ter um gatinho, então, papai? Ele é pequenino e não é mais forte que o papai! E ele até gosta da Charlie, sabia? Lembra quando fomos na casa da grand-mère e nós encontramos o Ozzie em cima da árvore? Ele ficou brincando com o cachecol de lã da Charlie e até lambeu a bochecha dela, papai. Ele deu cheirinho. — Charlie tentava explicar, esperta e afim de convencer o pai a comprar um bichinho para ela, ou, nesse caso, um bichano.
— E lembra que a Charlie ficou com coceira no nariz e nos olhinhos? Pois bem, eu me lembro. Não podemos ter um gatinho, meu amor. — tentou explicar da melhor forma possível, e, talvez assim, a garotinha não ficasse tão frustrada em saber que não poderia ter um bichano como animal de estimação devido a sua alergia.
— E um peixinho? A Ariel tem o Linguado. — Ela pediu novamente, formando uma linha reta em seus lábios e fechando parcialmente seus olhos, mostrando que poderia chorar a qualquer momento caso o pai recusasse seu pedido. Oras, ela só queria ter um bichinho para cuidar! Ela adorava animais, e, devido a alergia que tinha, não podia ter um gatinho como a Cinderela, então por que não um peixe? — Ou um macaquinho, papai? Que nem o Abu do Aladdin.
Oh-oh, um macaquinho pulando de sofá em sofá, roubando frutas e comidas? Isso, definitivamente, estava fora de cogitação. Era loucura.
— Podemos pensar no peixinho depois, tudo bem, meu amor? — Pediu, meio apressado. — Será que agora a Charlie pode ficar aqui quietinha, sem fazer bagunça e sem chorar? O papai precisa muito ir lá fora segurar as pontas, mas prometo não demorar. Pode fazer isso por mim? — Ele pediu, arrumando seu avental e levantando-se do sofá para deixar o filme rolando.
— Pelo papai a Charlie pode tudo, até perdoar ele por não pegar o filme do Aladdin. — Ela mostrou-se esperta, rindo em seguida assim que recebeu um carinho do pai no topo de sua cabeça. — Mas não demora, père. Charlie sabe que o papai ama a parte que a Cinderela dança com o príncipe. — O rapaz riu da filha e marchou para fora da pequena sala, sentindo cócegas nada legais em seu peito, mostrando que não queria deixar sua garotinha sozinha, mas era algo necessário.

Depois de fechar a porta e passar pelas outras de madeira, ele deparou-se com o amontoado de gente que conversava animadamente. Uns estavam contidos em conversas com risadas reprimidas, outros riam tão alto que os ouvidos do rapaz pediam para que ele saísse dali o mais rápido possível.
Jared passou como um furacão em sua frente, carregando uma bandeja vazia. Tudo bem, onde é que ele estava mesmo? Oh, sim, ele não se lembrava.
— O que está fazendo aí parado, meu amigo? Mexa esse traseiro que Deus te deu e trabalhe, bemzinho. — Jared fez piada, ao passar pelo amigo para ir até a cozinha e pegar o próximo prato que lhe fora solicitado.
Com um em seu encalço, os dois passaram pelas portas notando que aquela cozinha estava, quase que literalmente, em chamas. O cheiro delicioso de diferentes molhos e temperos preenchiam o ar, dando água na boca de qualquer um que ali entrasse, e fumegavam nas grandes panelas que soltavam o ar com ferocidade, expulsando o calor que continha dentro delas.
— Um Risoto de Camarão com tomates grelhados saindo! Cuidado, pessoal. Opa, opa, cuidado com essa faca aí, amigão. — Ashey gritava na cozinha, passando pelos funcionários animadamente, disposta a levar o prato para a mesa que foi solicitada e um pouco mais de bom humor, também.
— Quem fica animada assim trabalhando em um feriado? — perguntou, frustrado.
— Lembre-se: Quando a vida te der limões, faça uma limonada. Não temos mais o quê reclamar, estamos aqui, não estamos? Então só relaxe e curta o momento. — Jared aconselhou, esperando pelo próximo prato que levaria até a mesa de número oito, esta composta por adolescentes famintos por pizzas e muita massa. — Mexa-se, têm muita gente lá fora gastando calorias enquanto dançam e outras, por outro lado, sedentas por ganhar mais delas.
acabou por conformar-se e caminhou a passos largos, passando pelas portas que só faltavam dar um olá sempre que ele passava por elas. Seus olhos miraram no telão mediano que ficava acima do mini palco, onde marcava os exatos dez minutos para a tão esperada — ou nem tanto — virada do ano. Como as pessoas pareciam mais empolgadas com a contagem do que com os próprios pratos de porcelana italiana que estavam postos em suas mesas, mesas estas que estavam milimetricamente organizadas com uma decoração especial e ultrapassada da palavra bela, o rapaz relaxou os ombros, esperando por algum sinal. Talvez o único sinal que ele esperava no momento era escutar o senhor Smith chamando-o e dizendo que ele poderia ir para casa.
— Quero o melhor vinho da casa, por favor.
Nove minutos.
girou os calcanhares ao escutar o pedido, erguendo as sobrancelhas grossas e permanecendo com os braços cruzados atrás das costas. estava um pouco animada, sua maquiagem não estava em tão perfeita ordem como antes e alguns fios de cabelo estavam desgrenhados.
— O bar fica logo ali, senhorita. — Indicou, sem qualquer requisito de ironia em sua fala. Com os olhos inquietos, ele perpassou-os pelo local novamente, torcendo que alguém estivesse com o dedo levantado, chamando-o. Com as mãos, a mulher abanou o rosto, recebendo um obrigado de sua pele fervente que ficou aliviada ao receber o vento em sua direção, acalmando os poros.
— Está calor, huh? Esqueceram de ligar o ar-condicionado?
Oito minutos.
— Se me der licença, eu tenho que trabalhar. — O rapaz pronunciou-se, procurando por uma desculpa para sair dali. Ela o irritava.
— Eu não dou, não.

Petulante duas vezes.

Nunca deixaria de ser assim, provavelmente. Era uma característica que estava correndo pelo seu sangue, por assim dizer, tomando o controle de suas atitudes e falas. — Não está esquecendo de nada?
— Me desculpe, deveria?
— Disse que quero o melhor vinho da casa, por favor. — Ela tornou a repetir.
— E eu disse que o bar fica logo ali, senhorita. — apontou para o bar, que tinha seus bancos todos tomados por homens e mulheres que bebiam alegremente.
Esse era o espirito do ano novo, ela pensou.
— Está se recusando a atender um cliente? — Perguntou, observando o rapaz murchar o copo, relaxando os ombros e fazer um barulho engraçado com a boca.
Sete minutos.
— Temos o Brunello. — Disse, dando-se por vencido enquanto passava pela mulher, andando em sua frente para que ela o acompanhasse. — É tinto e é da região da Toscana, lá na Itália. Começou a ser produzido em mil oitocentos e sessenta, mas era pouco conhecido, agora é um dos mais apreciados. É ótimo e um belo acompanhamento para queijos italianos, como o Pecorino Toscano e o Gorgonzola. — Explicou com maestria, entrando na área do bar e cumprimentando um barman que estava ocupado preparando bebidas com muita agilidade em copos que brilhavam na cor neon.
Seis minutos.
— Poggio di Sotto foi produzido na região sul de Montalcino, também na Itália. O gosto é delicioso e marcado por frutas escuras, é melhor ainda se ficar alguns anos em uma adega.
— Como sabe tanto sobre isso? — pediu, realmente interessada, sentando-se no banco que sobrara na ponta daquela extensa bancada onde as bebidas eram colocadas sem parar.
— Meu avô era um apreciador e eu era um moleque que não tinha nada para fazer se não observar ele colhendo as frutas do quintal e falar sobre isso com o meu pai.
Cinco minutos.
— Uma taça do Brunello, por favor. Ele me agrada mais. — Ela pediu, arrumando os cabelos e olhando para os lados, a procura de sua mãe.
Depois de colocar a pouca quantidade da bebida na taça, entregou-a para a mulher que recebeu de muito bom grado, sem demorar a beber o liquido em apenas um gole, fazendo o homem, ainda em sua frente encará-la assustado.
fechou os olhos ao sentir uma tosse fraca passar por sua garganta, sorrindo em seguida.
Quatro minutos.
— Mais duas, por favor. Uma no meu copo e outra no seu. Não se preocupe, é por minha conta. — Ela avisou, piscando.
— Eu estou trabalhando, é difícil perceber? — Perguntou, ligeiramente irritado, apontando para seu uniforme que carregava o nome do restaurante na lateral e um logotipo pequeno e na cor branca.
Ele podia sentir sua cabeça pedindo por um pouco de descanso daquele movimento todo. Massageando suas têmporas, o homem tentou ignorar o barulho, agora mais alto e frequente, das conversas alheias. No telão marcavam menos de quatro minutos e isso aumentou a euforia das pessoas ali presentes, fazendo a maioria levantar-se de suas cadeiras, prontas para quando o relógio marcasse meia noite, avisando a passada do ano e a chegada do novo. Provavelmente, a maioria das pessoas esperavam um ano repleto de sucesso, amor, paz e alegria, e, provavelmente, a minoria iria, de fato, fazer algo para que isso acontecesse. Chegava a ser irônico, não? Todos querem mudanças, poucos querem mudar.
Três minutos.
só queria ir embora, ficar debaixo das cobertas com Charlie enquanto eles assistem à algum programa infantil da televisão. também queria ir embora, queria colocar seus pés em um balde de água quente e senti-los relaxar enquanto recebiam aquele agrado depois de uns bons minutos de dança sem parar. Louise e Mason estavam aproveitando a noite como dois apaixonados gostavam de fazer, nada dispostos a irem embora tão cedo. Ofélia parecia estar se divertindo enquanto dançava sozinha, relembrando os tempos do colégio quando ia para algum baile e não tinha par, mas isso nunca a afetou e, muito pelo contrário, ela ia sem acompanhante e dançava como nunca, aproveitando que não tinha ninguém ao seu lado para ficar decidindo a hora em que se deve dançar ou ficar sentando tomando ponche.
— Relaxe um pouco, cowboy! É ano novo. — apreciou novamente a bebida em seus lábios depois que ela foi colocada por em sua taça.
Dois minutos.
— Eu estou aqui desde sei lá que horas, o cheiro das massas da cozinha deve estar impregnado em minha roupa de tanto que tenho que ficar para lá e para cá... — Sem aviso prévio, a mulher esticou-se sobre a bancada puxando o ombro do rapaz para cheirar-lhe o tecido perto do pescoço. — Qual é o seu problema, mulher? — pediu, agora bastante irritadiço. — Não me responda. Eu poderia estar em casa com a minha filha, mas estou aqui, tendo que lidar com pessoas assim. — Ele apontou para a moça que comprimiu sua face em uma careta estranha, ofendida. — Que te esbarram no meio do caminho, fazem piada com a sua cara, pedem para fazer um serviço que outra pessoa está fazendo e, como não bastasse, te oferecem bebida em horário de trabalho. — Com os dedos erguidos, o rapaz foi enumerando os acontecimentos. — Então, não, não me peça para relaxar. E não me chame de cowboy. — Finalizou, ainda parado e encarando que mantinha uma postura séria e, por incrível que pareça, calma, diante do desabafo sem noção do homem.
Um minuto.
Ela suspirou pesado, olhando-o sem expressão, achando até engraçado o mini-surto que o homem dera por uma inocente oferta de bebida em horário de trabalho. Não era inocente, mas não era o fim do mundo, né? Ela mesma já bebera em horário, e não foi apenas uma vez, que isto fique bem claro.
— Dez, nove, oito, sete. — O barulho fez-se presente. Todos começaram a contar exageradamente alto. — Seis, cinco, quatro. — Era quase palpável a euforia de todos, tamanho era o sorriso no rosto de cada um. — Três, dois, um. — Fim da contagem.
O céu, que dava para ter uma vista para lá de bela graças as vidraças que entornavam a construção, fora completamente pintado por fogos de artificio de diversas cores e formas. Os sons reproduzidos no local eram confusos, tamanha a quantidade de pessoas falando ao mesmo tempo. Uns batiam palmas e assoviavam, outros choravam de emoção enquanto abraçavam entes queridos e amigos.
sentiu seu corpo tremer ao olhar a beleza no céu, afim de capturar cada faísca exposta para que pudesse guardar em sua mente como uma fotografia. , do outro lado do balcão, mexeu-se inquieto enquanto seus olhos também observavam os fogos, absorvendo o fato de que era um novo ano e tudo poderia mudar, mas o risco de permanecer tudo da mesma forma era muito grande, também.
— Feliz ano novo, cowboy. balbuciou risonha, só para observar o homem com uma feição irritada.
Era divertido.
— Preciso ir. — Ele anunciou, passando entre as pessoas que se aglomeraram ao lado do mini bar.
Esbarrando em uma pessoa ou outra pelo curto caminho, ele passava com os passos apressados.
— Ei, cara! — Jared o parou no meio do caminho. — Feliz ano novo. — Desejou, levantando um dos braços para que pudesse passar pelo ombro do amigo, em um abraço. O outro levantou a mão, pedindo que Jared parasse e continuou andando, deixando o rapaz confuso e ligeiramente irritado.
Oras, ele não tinha culpa!
Não podia quebrar a quase tradição que havia adquirido desde que Charlie nascera. Ela teria de ser a primeira pessoa a quem ele abraçasse no ano novo, caso contrário, o ano dele seria nesfasto, desastroso. Pelo menos em seu pensamento, sim.

Com cuidado, ele abriu a porta e teve a visão de seu bebê deitado na poltrona, os olhos estavam fechados e sua respiração era extremamente calma, o que fez agradecer por Charlie não ter escutado o barulho dos fogos e se assustado.
Em passadas curtas e lentas, aproximou-se da garotinha para que ela não acordasse, ela estava tão bela e adorável ali que seria um pecado se o fizesse. O filme ainda passava, soando a voz irritante da personagem que interpretava a madrasta, mas não estava nem no meio. Ele não podia mais ficar ali, estava exausto e Charlie também. Como poderia trabalhar e deixar sua filha ali dormindo sem ninguém para cuidar dela? Já sentia o peso em seus ombros se acomodarem por tê-la deixado ali algumas horas. Por mais que Charlie fosse uma garotinha tranquila e ele fosse olhá-la a cada quinze minutos, sentia-se um pai horrível por submeter-se a tal situação.
— Feliz ano novo, ma belle. — Ele selou a testa da menina com cuidado e zelo, querendo que ela estivesse acordada para lhe retribuir da forma mais singela possível.
Levantando-se, o homem caminhou novamente para fora da saleta, agora disposto a finalizar seu período de trabalho por ali, mesmo que isso lhe custasse algum desconto em seu salário depois.

{...}

, onde estava? — escutou sua mãe lhe pedir, observando a mulher aproximar-se gradativamente com um sorriso em sua face um pouco brilhosa devido ao suor acumulado. — Feliz ano novo, querida. — Ofélia passou os braços pelos ombros de sua menina, afagando-lhe os cabelos em um carinho materno. — Viu a queima de fogos? Estava demais.
— Feliz ano novo, mamãe. — Ela retribuiu o abraço da mãe, terna. — Onde está Louise?
— Ela disse que iria ao banheiro antes de irmos ao píer.
Merda, o píer! Como podia ter esquecido disso? Jurava que dentro de alguns minutos poderia voltar para casa e descansar um pouco, mas prometera a sua mãe que iriam andar de lancha depois que saíssem dali e não queria furar com ela.
Mas seus pés pediam taaaanto por uma água morna.
— Mãe, ficaria chateada se eu dissesse que estou muito cansada para ir ao píer? Se incomodaria de ir com Mason e Louise? — Perguntou, pousando os olhos inquietos sobre o olhar surpreso de Ofélia, que aos poucos mostrava um sorriso de compreensão.
— Sabe, se fosse em outros tempos eu diria que você está tentando nos evitar e essa desculpa de estar cansada era muito fajuta, mas agora... Eu não posso reclamar, posso? — Perguntou retoricamente, segurando as mãos da mais nova. — Essa noite foi incrível, por mais que eu tenha ficado um bom tempo dançando, mas não me culpe! Sentia falta disso. Eu estava com minhas filhas, nós conversamos um pouco sobre tudo e pudemos relaxar em um lugar muito agradável, por sinal. — Ofélia fez questão de ressaltar o quanto havia gostado de estar ali. — Então, não, eu não ficaria chateada e muito menos incomodada de ir com Louise e Mason dar mais um passeio. Espero que aquela cabeleira enrolada do Mason sirva para ligar uma lancha, pelo menos, porque será uma pena mostrar que uma mulher com quase sessenta anos nos ombros sabe melhor sobre barcos que ele. — Gabou-se pomposa, passando a mão pelo cabelo enquanto fazia graça para a filha que ria.
— Tinha que ser você, dona Ofélia. — Disse enquanto ria, abraçando a mãe novamente e sentindo seu coração aquecer-se por inteiro, dando-lhe uma sensação completamente reconfortante.
Não podia negar, foi uma noite ótima.
— Quer as chaves do carro? Elas estão da minha bolsa e eu posso pegá-las para... — Ela apressou-se ao falar, sendo interrompida por sua mãe.
— Não se preocupe com isso, querida. Nós podemos pegar um taxi até lá.
— Tudo bem mesmo? Se quiser, eu posso leva-los até lá e...
Mães.
Elas sempre acham que podem sair assim interrompendo os outros na hora que bem entendem e, bom, elas, de fato, podiam.
— Eu disse que nós podemos pegar um taxi, não disse? — Ofélia perguntou, arrumando o tecido do vestido da filha na parte dos ombros. — Pode ir tranquila, meu amor. Descanse um pouco e amanhã nós podemos aproveitar mais, certo? — Ela perguntou, deixando a outra em sua frente sem saber o que responder se não aceitar a proposta que lhe fora feita de uma forma indireta. — Ótimo, agora deixe-me procurar os dois pombinhos que estão perdidos por aí.
— Diga a eles que mandei um feliz ano novo, sim? — pediu a mãe para que informasse a irmã e o cunhado.
Concordando, Ofélia afastou-se afim de procurar a filha e o genro que estavam sabe-se lá onde. Sabe como é, certo? Jovens, apaixonados e sem nada a perder. O banheiro foi apenas uma desculpa, certamente.

Depois de pegar sua bolsa na mesa em que estavam, começou a caminhar em passos ligeiros para fora do local, ainda sentindo o cheiro de suor, perfume caro e sapatos novos impregnado em suas narinas. Olhou em torno e pode notar carros estacionados ao longo da rua por toda a parte, parando ao lado do seu e destravando as portas com o alarme da chave, apenas para entrar e esticar-se um pouco para colocar sua miniatura de bolsa no banco traseiro, onde estava seu casaco. Ela colocou a chave na ignição do automóvel, e esperou o motor aquecer um pouco enquanto prendia seus fios de cabelo num coque bem preso. Deu marcha e pisou no acelerador, dando movimento ao carro que ia passando entre as outras dezenas de carros calmamente.
Ligou o rádio baixinho, onde uma música do Pearl Jam tocava e agradava aos ouvidos da mulher que acabara de parar no primeiro farol que tinha na extensa avenida. Era ano novo e, ao contrário do que muitos pensavam, as ruas estavam calmas pois muita gente optava por sair da cidade em épocas assim, deixando o lugar menos corrido, por assim dizer. Poucas pessoas caminhavam na rua, denunciando a solidão que os acercavam. Não era o caso de , não naquele dia, não mais.
Ela cantarolou baixinho o refrão da música e continuou olhando para fora, observando o movimento.
Era carma.
Ela tinha certeza.
O homem carregava uma mochila em seus ombros e uma garotinha em seu colo, caminhando em passos lentos, provavelmente com medo de acordar o bebê ou cair com ele.
— Só pode ser carma. — Balbuciou cética, encostando o carro perto da calçada, aproveitando que o movimento era pouco e tranquilo, andando lentamente ao lado do rapaz. Ela deu risada ao perceber que ele apertara o passo, sem saber quem estava dentro do carro.
Certo, o que faria se estivesse praticamente sozinho em uma rua pouco movimentada e um carro começasse a andar lentamente ao seu lado com os vidros fechados e escuros?
Ficar parado que não seria, certamente.
Nada afim de manter o suspense, abaixou os vidros ao apertar o botão que ficava ao lado de sua porta.
— Não foi nada educado da sua parte deixar uma dama parada sem respondê-la antes.
Era carma.
Ele tinha certeza.
Sem responder e ao pelo menos olhar para a mulher, continuou caminhando com a filha em seus braços, agora com os passos mais lentos, tranquilo por não ser alguém que pudesse oferecer algum tipo de perigo a eles. Pelo menos ele achava que não.
— Mas tudo bem, não guardo rancor das pessoas. — Ela avisou, olhando para a rua e depois para ele. — Essa é sua filha? Ela parece estar em um ótimo sono e está meio frio, não acha?
— O que você quer? — Perguntou, parando de andar para encarar a mulher dentro do carro, que se esticava um pouco para poder enxergá-lo.
— Eu não quero nada. — Disse como se fosse óbvio. — Mas eu posso te dar uma carona.
— Não precisa, estamos bem.
— Tem certeza? — Ele meneou a cabeça. — Então, tudo bem. — Ela acelerou minimamente o carro, logo depois diminuindo a velocidade, voltando a acompanhar o homem. — Entra logo.
Soou como uma ordem.
parou o carro, puxando o freio de mão e cruzou os braços. pareceu ponderar, sua casa era perto, mas estava com sua filha nos braços, o frio também marcava presença e aquelas roupas em Charlie não eram o suficiente, visto que a garotinha tremia, mesmo que minimamente, em seu colo.
Sem outra saída — Ele tinha, sim, outra saída, mas não sabia o porquê optara por aquela opção —, o rapaz abriu a porta traseira, entrando com cuidado para que Charlie não acordasse e estranhasse o lugar em que estavam.
Depois de acomodado no banco de couro cinza, o homem permaneceu em silêncio e absorveu o aroma delicioso de lavanda que o carro emanava. desligou o rádio, não querendo acordar a garotinha que mal vira a face, e puxou o freio de mão, colocando o carro novamente em movimento.
— Meu casaco está aí atrás, pode cobri-la, se quiser. — Ofereceu. — Onde mora?
— Quatro quadras depois de dobrar à direita na próxima avenida.
Sem mais palavras trocadas, ela acelerou e olhou para o caminho, não querendo errar o que lhe fora indicado. O rapaz estava inquieto no banco de trás, parte por estar dentro do carro de uma desconhecida, parte por saber que aquele carro estava sendo guiado para onde ele morava. Chegava a ser constrangedor.
Olhe bem para onde eles estavam indo, é fácil saber que aquilo não era lugar para ela, provavelmente a assustaria.
— Qual é o seu nome?
Ela sabia o nome dele, pois lera em seu uniforme no dia que fora lá pela primeira vez com Maximiliam, mas perguntou por mera educação, a fim de cortar o silêncio.
.
— Me chamo . , foi meu pai quem escolheu. — Ela sorriu. — E ela se chama...?
— Charlotte ou Charlie, me agrada mais.
Certo, era só aquilo?
Digo, eles não se conheciam, eram estranhos um para o outro. Trocaram poucas palavras e isso tudo por ela ser aleatória e uma bêbada emocionalmente abalada, mas não é como se aquilo fosse obra do destino e aquela coisa toda era algum tipo de sinal.
E se fosse obra do destino, poderia dizer que o destino é um filho da puta sem noção.
foi irritante, grossa e petulante sem ao menos saber seu nome, e agora que sabia não iria fazer nem uma piadinha?
— Bonito o nome. — Elogiou.
Pelos céus! Tinha uma garotinha dormindo docemente no banco de trás do seu carro e ela tinha que agir como se aquilo não incomodasse seu peito que palpitava rápido.
Desastroso.
— É aqui. — avisou, pronto para sair do carro. — Desculpe se fui grosso, não era minha intenção por mais que tenha parecido que sim. — Desculpou-se gentilmente com a mulher, recebendo apenas um menear de cabeça, mostrando que estava tudo bem. — Obrigado pela carona, espero que tenha tido uma ótima noite. Feliz ano novo. — Ele estava meio tenso, visto que a mulher não dizia nada. Talvez estivesse arrependida pela carona que ofereceu.
O lugar era realmente péssimo.
— Boa noite. — pronunciou-se, depois de esperar o rapaz sair do carro para que pudesse, enfim, ir para casa.
Trágico.
Nem esperou para saber em qual das casas o homem morava, acelerou assim que ele bateu a porta do carro, fechando-a.

{...}

— Sensacional. — Ela gemeu, ao sentir seus próprios pés relaxarem na água morna que ela deixou aquecendo minutos antes, enquanto tomava seu banho.
segurava um pequeno espelho redondo e um algodão úmido com o removedor de maquiagem, que logo começou a espalhar pela região dos olhos, a fim de remover toda sua sombra e rímel que não estavam tão fixos quanto quando saiu de casa mais cedo. Seu cabelo estava preso num rabo de cavalo e ela usava um moletom cinza com uma estampa cor-de-rosa.
Ligou a TV depois que terminou de remover toda sua maquiagem — Estava agoniada pois queria lavar o rosto por senti-lo grudento devido ao produto usado, mas seus pés estavam gostando tanto do agrado que o resto poderia esperar mais um pouco. —, e deixou em um canal que passava qualquer filme que ela não fazia questão de saber o nome ou sobre o que se tratava, ligou apenas por costume mesmo.
Ela esfregou um pé no outro numa tentativa frustrada de massagem, passando a mão esquerda pelo ombro e apertando-o, pendendo a cabeça para trás e fechando os olhos, querendo relaxar.
Queria tanto uma massagem naquele momento.
se esticou um pouco e pegou seu celular que estava na mesa de centro, voltando a sua postura normal quando apertou o botão para ligar a tela do aparelho. Procurou pela lista de contatos e parou na letra M.
Maximiliam Murs.
Era um clique e ela poderia ter sua massagem e, quem sabe, uma transa.
Ela clicou e colocou o celular no ouvido, escutando os toques do outro lado da linha. No quinto toque, ele atendeu.
? — Max murmurou, sonolento.
— Oi.
— Oi.
Ela ficou em silêncio, percebendo que era ela quem teria de puxar assunto ou ir direto ao ponto, pois foi ela quem ligara.
— Está ocupado?
— Que horas são? — Devolveu a pergunta.
— O que está fazendo? — Insistiu.
— Jura que me ligou uma e quarenta e dois da madrugada para perguntar isso?
Era algum tipo de jogo de perguntas?
— Esperava mais de você, . — Ele riu fraco. — Mas, se quer realmente saber, eu estava dormindo.
— Dormindo, sério?
— Por que?
— Por nada.
Ela suspirou, remexendo os pés dentro da água.
— Quero te ver. — Maximiliam sussurrou, rouco, como se confidenciasse algo.
Ele foi mais rápido que ela.
— As portas estão abertas para você.
— Só as portas? — Riu, baixo.
— Estou te esperando.
E então finalizou a ligação, sem esperar que ele desse uma resposta. Ela colocou o celular no mesmo lugar de antes e pegou a toalha que estava em cima do sofá, ao seu lado, secando seus pés e pegando a bacia para que derramasse a água pelo ralo do banheiro, indo depois para seu quarto e colocar uma roupa com menos tecido.
Nada como começar o ano com o pé direito, certo?

(A música ‘Quando, quando, quando’ foi lançada em 2005, isto é, 8 anos depois da data que ocorre a história, mas a imaginação tá aí pra isso, hehehe. E a música ‘Feeling Good’ com sua versão original foi lançada em 1965 pela Nina Simone, apesar de ser muito, muito boa mesmo a versão original, achei que ficaria mais legal com a versão do Michael Bublé.)



Denver — Colorado, Estados Unidos, 20:33PM, 07 de Janeiro de 1998.

Era quarta-feira e estava sentada numa mesa distante das outras, concentrada em seu arquivo que estava aberto fazia meia hora em seu laptop, sem que ela escrevesse uma mísera linha sequer. Era o terceiro dia consecutivo que ia ali, no mesmo horário, fazia a mesma coisa, e pedia o mesmo suco, sem nenhuma comida para acompanhar.
lhe atendera no primeiro e no segundo dia, mas não no terceiro. Nos dois dias que se viram, não trocaram nenhuma palavra além do necessário, com ele mantendo sua postura de atendente e ela de cliente, como deveria ser.
desligou o laptop e o guardou em sua mochila lateral, puxando o resto do suco pelo canudo, para pegar alguns trocados em sua carteira e deixar em cima da mesa, sabendo que depois o mesmo cara que lhe atendera passaria ali para pegar o pagamento.
Levantou-se e caminhou até a porta que dava a área de fumantes que tinha do lado de fora, a fim de relaxar um pouco antes de ir embora.
— Desculpe, eu não sabia que... — Ela pediu, quando notou duas mulheres se beijando ali, uma segurando um cigarro e a outra uma garrafa de cerveja.
As duas, nada disseram, apenas a olharam por alguns segundos, até que percebesse que estava atrapalhando e fosse embora. Ela coçou a garganta envergonhada e girou os calcanhares rapidamente, dando passos largos até a saída que tinha na outra parede, caminhando sentido contrário ao caminho que fez para chegar ali, entrando no beco do fundo do restaurante.
Olhou para os lados certificando-se que não tinha ninguém ali que ela pudesse incomodar, assim como fizera minutos antes, e quando percebeu que estava sozinha, puxou um único cigarro do bolso de sua calça, logo depois o isqueiro, colocando-o na ponta do cano curto e apertando o gás, acendendo-o. Tragou a fumaça e a segurou por algum tempo na boca, passando seus braços ao redor do próprio corpo, depois soltou-a pelo pequeno vão aberto entre seus lábios finos e descascados.
— Isso faz mal para a saúde. — Sentiu o cigarro ser puxado de seus dedos ossudos e girou os calcanhares para encarar um tragando seu delicioso vicio, depois soltando a fumaça pelo nariz, o que fez abanar as mãos na frente do rosto, incomodando-se com o cheiro que fora direto para sua face.
— Pensei que fizesse mal. — Soltou, girando os calcanhares novamente, observando o beco solitário.
— E faz, mas é relaxante. — Concluiu, posicionando-se ao lado da mulher para observar o local.
— Posso perguntar o que está te estressando?
— A vida. — Ele tragou novamente o cigarro, soltando a fumaça para o lado oposto agora.
Não vai me devolver, não?, pensou .
— Bem-vindo ao clube. — Disse.
Tomou o cigarro dos dedos do rapaz e coloco-o novamente em sua boca.
— Sua boca é muito ressecada para quem bebe muito suco natural.
— Está olhando para minha boca? — Ela comprimiu os lábios automaticamente.
— Certamente. — Entregou-se. — Sou uma pessoa muito analista. — Explicou.
— Isso é bom.
— Tanto faz. — Deu de ombros.
O silêncio fez-se presente.
O único barulho era o som da boca de que abria-se em um pequeno bico para soprar a fumaça que sugava.
— E como está sua filha?
— Bem. — arriscou a curvar os cantos de seus lábios finos em um singelo sorriso.
Oh, sim, a simples menção ao nome de Charlotte fazia seu coração aquecer.
— Fico feliz. — respondeu, baixo.
Depois de dar a última tragada em seu cigarro que não tinha chegado ao fim, aproximou-se do rapaz e colocou a ponta ainda acesa na mão de , fazendo-o grunhir raivoso. Ela só queria um lugar para apagar o cigarro.

Louca!

— Qual é a porra do seu problema, mulher?
— Ih, olha lá. — Ela riu. — Falou igualzinho a minha irmã.
— Então eu não sou o único que te acha uma bêbada sem noção?
— Certamente, não.
Ele riu com desdém e colocou a mão esquerda em cima das costas da mão direita, tentando fazer a ardência passar.
? — Escutou.
Ele girou os calcanhares e observou o homem de idade lhe sorrir com os poucos dentes que tinha na boca. Seus cabelos brancos, agora cinzentos por não lavá-los há algum tempo, denunciava que Carson Reed tinha boas histórias para contar. Nas mãos, ele carregava uma espécie de luvas, luvas estas que ele cortara a parte que servia para aquecer seus dedos, deixando-os expostos. Suas roupas estavam amassadas e remendadas em algumas partes, seus sapatos pareciam estar com a sola desgastada e estavam descolados nas laterais.
— Olá, Reed. — Lhe sorriu gentil. — Como se sente?
— Depois da sopa de ontem, me sinto muito melhor. — Reed disse, arrastando sua fala, notando a presença de . — E quem é a madame? — Pediu, encolhendo os ombros, direcionando a fala a mulher.
, prazer. — Ela estendeu a mão.
— Carson. — Ele disse, sem tocar na sua mão.
Envergonhada, ela recuou sua mão e a escondeu em seu bolso, escutando uma risada nasalada do rapaz ao seu lado, provavelmente tirando uma onda com sua cara, e quis dar-lhe uma cotovelada, mas não queria deixar uma má impressão ao senhorzinho.
— Já ia me esquecendo. — lembrou-se, agachando-se no chão para abrir sua mochila, tirando de lá um prato alumínio coberto com uma tampa no mesmo material.
Ele estendeu a mão, esperando Reed pegar a comida.
Reed era um morador de rua, saíra de casa com trinta e dois anos pois queria conhecer o Universo, e com Universo ele queria dizer as pessoas, pois acreditava que cada pessoa era um Universo. Com cinquenta e sete anos, ele chamava aquele beco no fundo do restaurante de casa. Não tinha um trabalho fixo e por isso costumava pegar latinhas na rua e nas lixeiras das casas para que pudesse reciclar e ganhar alguns trocados com isso. Não gostava de pedir, não gostava que sentissem pena dele e, a maioria das pessoas, o atendia com palavras agressivas, totalmente ariscos. E tinha , que sempre separava uma marmita para lhe entregar no fim do dia, sabendo que toda a comida que sobrava no restaurante, era jogada fora. Ele levava roupas antigas para que o senhor usasse, também.
Sabendo que nada provinha da pena e sim da gentileza e bondade do coração de , Reed recebia tudo de muito bom grado, claro, além de ser um ótimo conselheiro para o mais novo.
— Que Deus lhe abençoe, meu filho. — Carson disse, passando a mão pelo ombro do outro.
O mais novo assentiu, sorrindo-lhe de uma forma que dava para notar toda sua fileira branca de dentes quadrados e em ordem.
observava tudo em silêncio, ainda envergonhada pelo acontecimento de minutos atrás, apenas pensando o quão bacana fora o gesto do homem ao seu lado. Carson olhou para a mulher e lhe deu um meneio de cabeça, despedindo-se, e ela nada disse, apenas retribuiu o meneio com um sorriso sem graça que deixou seus olhos miúdos, e observou o homem caminhar para longe deles e sentar-se num degrau de concreto que tinha perto da grande lixeira móvel.
— Ele não gostou muito de mim. — Ela começou, depois que a encarou.
— Ele sabe que não é do nosso grupo. — Explicou.
— O que está querendo dizer?
— Não é como estivéssemos no mesmo nível, basicamente.
— O quê? — Ela questionou, quando ele lhe analisou de cima a baixo, referindo-se as roupas que a mulher usava. — Minhas roupas? Fala sério, isso não quer dizer nada!
— Bom, aqui, sim.
deu um girar de olhos e soltou o ar pela boca, espalmando as mãos no ar, pensando consigo mesma que aquilo era pura besteira. Não era uma roupa que definia onde ela devia estar ou não, conversar com certa pessoa e não conversar com outra. Não era uma roupa que definia quem ela era.
— Eu vou indo. — Ela avisou. — Espero pela nossa partida de cartas. — Relembrou, apontando para .
— É só marcar.
— Lide com minha agenda de trabalho cheia, cowboy.
Dito isso, a moça riu enquanto começava a dar seus curtos passos para dobrar o beco e ir até seu carro estacionado na frente do restaurante.
— Lide com minha pia cheia de pratos, madame.
Fez piada de sua própria desgraça. Sempre odiou lavar louças.
— Quer saber? — Ela parou bruscamente. — Que tal uma carona?
— Quer saber? — Ele repetiu. — É melhor que ir a pé. — Cedeu, sem delongas.
Caminhou até a moça e assim foram em passos, agora longos, até a fachada do restaurante, parando ao lado do automóvel de que fez um barulho rápido, mostrando que estava sendo destrancado.
— Não repara a bagunça, aqui está cheio de coisas do meu trabalho. — Explicou, abrindo a porta traseira para colocar sua bolsa. — É melhor ir na frente.
Ele deu de ombros, abrindo a porta do passageiro e entrando, colocando sua mochila em seus pés para que pudesse afivelar seu cinto de segurança.
— Quadro quadras depois de...
— Já sei. Tenho memória fotográfica. — Gabou, sentando-se no banco do motorista e afivelando seu cinto.
Ela deu partida no carro e esticou o pescoço, olhando para trás, segurando no banco em que estava para que desse ré sem causar acidentes com outros carros ou com pedestres.
— Gosta de música? — Ela trocou a marcha, depois que deu ré por completo.
Ligou o som numa rádio que tocava alguma música, música esta que ela não fazia ideia do nome.
— Detesto esquecer o pen-drive.
— Gosto, mas o silêncio me agrada mais. — atreveu-se a desligar o som.
— O silêncio me faz ficar pensativa demais.
— Isso é bom.
— Nem sempre.
Silêncio. Farol fechado.
Ela batucou os dedos em suas pernas e ele olhou para a rua, observando alguns estabelecimentos fecharem.
— Pensamentos são reflexões. — Pronunciou-se.
Ela o encarou, confusa.
— É preciso refletir para tomar decisões, sendo elas boas ou ruins. — Continuou. — É claro que nunca queremos tomar uma decisão ruim, pois teremos de arcar com as consequências, mas tem horas que simplesmente temos que encarar isto, é inevitável. Está me acompanhando?
O farol abriu, e ela concordou.
— O bom disso tudo? É que nós sempre podemos tomar alguma decisão sobre algo, podemos fazer nossas próprias escolhas e reverter algumas situações, e isso graças as reflexões que temos constantemente, pois elas nos fazem enxergar as coisas com mais clareza.
— Meu herói. — Zombou e ele quis mandá-la para um lugar muito feio.
Ele estava falando sério e ela rindo dele.
— Estou brincando. — Desculpou-se, notando a cara de poucos amigos de dele. — Foi legal o que disse.
E o carro foi estacionado.
abriu a porta e colocou as pernas para fora, sem dizer nada, puxando sua mochila consigo para então se levantar e inclinar-se para que pudesse ter uma visão completa da mulher.
— Quer entrar? — Soltou a pergunta sem pensar, deixando ele e a mulher surpresos.
prendeu a respiração por alguns segundos, hesitante e, no fundo, cogitando a ideia. sentiu suas bochechas tomarem uma ardência aguda e sabia que tinham uma coloração rosada naquele momento, mostrando o quão envergonhado ele estava.
Fala sério, aquele, definitivamente, não era lugar para ela! Olha só essa gente fumando maconha na frente da calçada das casas. Ela deveria estar assustada.
— Esqueça o que eu acabei de perguntar, tudo bem? Eu...
— Está desfazendo o convite, é isso? — Levantou as sobrancelhas, sugestiva.
— Não. — Ele foi rápido. — Eu só acho que...
— Tudo bem, eu iria recusar de qualquer forma. — Disse.
contraiu o rosto bonito em uma careta quase ofendida e ela riu.
— Não me entenda mal, mas essa baderna no banco do fundo não é atoa. — Explicou. — Mas o convite fica para outro dia? — Ela arriscou, deixando os lábios em linha reta.
— Certo. — Concordou rápido, batendo levemente no aço do carro. — Obrigado, fica bem. — Pediu, antes de fechar a porta e caminhar para longe.
E ele ficou ali, na porta de seu prédio, esperando que ela fosse embora antes que ele entrasse. Quando o carro saiu da rua, dobrando a esquina novamente, ele cumprimentou o porteiro e subiu as escadas de dois em dois degraus, abrindo a porta da casa assim que parou em frente a ela. Colocou seu corpo para dentro do ambiente e deparou-se com uma Lisa cozinheira, dentro de um avental folgado e com uma espátula prata em mãos.
— O que está fazendo? — riu, deixando as chaves em cima do balcão.
Ele tirou a bolsa das costas e deixou ao lado da porta, fazendo a mesma coisa com os sapatos e meias, contornando o balcão para espiar o que a mais nova fazia na frigideira.
— Hambúrgers.
Ele selou os lábios da garota rápido, pegando a espátula da mão dela para virar a carne.
Certo, não é como se ele fosse um pedófilo. Lisa tinha dezessete e faltavam quatro meses para que ela completasse dezoito, tinha vinte e quatro, e não é como se aquilo fosse algo realmente sério.
Era só uma troca de salivas, por assim dizer.
— Père? — Charlie perguntou, entrando no espaço a procura do pai, e assim que o encontrou, correu para pular em seu colo, mas teve de esperar ele colocar a espátula quente em cima de um prato para depois pegá-la, de fato. — Charlie estava com saudade. — Confidenciou.
— Ma belle. — Ele fechou os olhos ao tocar o cabelo da filha, inalando o delicioso cheiro de bebê que ela emanava de sua pele. — Eu também estava com saudade.
— O que é saudade? — Ela perguntou e ele riu.
— É quando nós ficamos longe de uma pessoa que gostamos muito e sentimos a falta dela, contando os minutos para vê-la. — Explicou da forma mais simples possível para que nada ficasse confuso na cabeça da garotinha que lhe encarava atentamente.
— Então, Charlie tem saudade do papai todos os dias, porque ela gosta do papai todos os dias.
Era só isso que ele precisava ouvir.
— Charlie quer suco de morango, Lisa. — Ela pediu, desvencilhando-se do abraço do pai antes mesmo que ele dissesse algo, completamente elétrica.
— Só depois do lanche, Charlie. — Lisa avisou, abaixando o fogo e tirando a frigideira da primeira boca do fogão, colocando-a em cima da pia para que a carne não queimasse.
Charlie deu de ombros, segurando na mão do pai, puxando-o para que fossem até a sala onde a TV estava ligada no canal de desenhos animados. sentou-se no sofá e observou a filha ir até a mesinha que ficava entre ele e o aparelho da televisão, pegando algumas folhas que estavam ali.
— Olha.
Charlie lhe entregou uma das folhas, deixando as outras em cima da mesa e depois colocou uma perna no sofá para dar impulso e subir com a outra, sentando-se ao lado do pai. Ele abriu a folha que estava dividida em duas partes e observou um desenho torto e colorido de uma garotinha e um rapaz de mãos dadas, um sol ao fundo sorrindo e algumas nuvens também sorridentes que ficavam no meio de alguns passarinhos pretos e retos.
Entretanto, algo em especial lhe chamara a atenção.
Em cima da garotinha estava escrito CHARLIE e em cima do rapaz estava escrito PAPAI em letras garrafais e extremamente tortas e corridas.
— Não acredito. — Murmurou.
Charlie riu eufórica, como se confirmasse que era real.
Ela havia aprendido a escrever o próprio nome e a palavra papai, e o rapaz sentiu umas cócegas engraçada na boca de seu estômago, que o fez puxar a garotinha para si e distribuir beijos pelo rosto da mesma que ria do ato do pai.
— Quem te ensinou?
— Lisa. — Deu de ombros, tomando a folha da mão do pai. — O père está amassando o desenho que Charlie demorou para fazer. — Resmungou, com a cara fechada.
Ela levantou para colocar a folha no mesmo lugar de antes e sentou-se no chão com as pernas cruzadas, focada no desenho animado que passava na TV e riu baixinho, achando uma graça a forma como a garota se portava tão adulta em alguns momentos, como uma velhinha resmungona.
Deixando Charlie ali, ele caminhou até a cozinha novamente, apenas para encostar-se na parede e encarar Lisa que partia os pães para preparar os lanches.
— Está tarde. — Ele começou. — Sua mãe não se importa de estar aqui até essa hora? — Ele coçou a nuca, preocupado.
Lisa notou sua presença e lhe encarou, colocando o dedo indicador na armação de seus óculos para arrumá-lo em seu nariz.
— Já liguei para ela e avisei que irei um pouco mais tarde.
— Eu vou tomar um banho, não demoro. — Avisou, girando os calcanhares e seguindo para o corredor curto, entrando no banheiro.
arrancou a camisa azul marinho que usava, e depois puxou as calças, ficando apenas de cueca. Olhou-se no espelho e passou a mão pela curta barba que começava a crescer em seu queixo, indo ao encontro de suas costeletas e contornando sua boca, e resolveu tirá-la dali, pegando o barbeador e o creme de barbear na segunda gaveta, ciente de que não demoraria a crescer novamente.
Depois de se barbear, ele ligou o chuveiro, deixando a água bater na cerâmica clara e escorrer pelo ralo, esperando esquentar enquanto ele tirava sua cueca preta e colocava-a no cesto de roupa para lavar. Entrou no box e enfiou a cabeça de baixo da água morna, a fim de lavar os fios de cabelo que precisavam de um novo corte pois as pontas começavam a ficar secas e ele detestava quando seu cabelo perdia a maciez. Colocou o shampoo em uma das mãos e esfregou na outra, depois de desligar o registro, espalhando o produto e depois o levou até a cabeça, fazendo o mesmo processo numa massagem rápida e relaxante no o couro-cabeludo.
Continuou com o shampoo na cabeça para que pudesse ensaboar o próprio corpo e, ligando o registro, enxaguou-se por inteiro enquanto cantarolava uma música qualquer que escutou por aí.
Puxou a toalha que estava pendurada num prego e passou pelos cabelos, tirando o excesso de água, secando o corpo em seguida e prendendo-a na cintura com firmeza para que não acontecesse acidentes quando ele saísse do banheiro.

Não que fosse uma visão ruim.

Ele abriu a porta e olhou o corredor, certificando-se de que nem Charlie e muito menos Lisa estariam ali, e quando escutou risadas vindas da cozinha, ele andou a passos rápidos até seu quarto, trancando a porta assim que entrou. Tirou a toalha de sua cintura e largou-a em cima da cama.
Típico, eu diria.
Procurou por uma cueca em sua gaveta e depois por uma calça de moletom em seu pequeno armário que era dividido pelas roupas dele e as roupas de Charlie. Cobriu o peito com uma camiseta amarela depois que espichou desodorante masculino nas axilas e colocou um par de meias nos pés que antes estavam descalços.
Ele gostava de dormir com meias, sentia frio dos pés no meio da noite.
Passou a toalha novamente pelo cabelo e balançou a cabeça para os lados, querendo arrumar de uma forma desarrumada os fios. Como antes, deixou a toalha novamente na cama e caminhou até a cozinha, a fim de saber uma coisa.
Lisa é melhor na cozinha que ele?
apostava que não.





Denver — Colorado, Estados Unidos, 19:32PM, 08 de Janeiro de 1998.

Quinta-feira, dezessete horas e trinta e dois minutos de uma noite quente de oito de Janeiro de mil novecentos e noventa e oito, passava pela porta do restaurante, adentrando-o no mesmo horário que os outros três dias. Ela usava os cabelos presos num rabo de cavalo e usava uma sandália aberta nos pés, deixando seus dedos e unhas pintadas com base incolor a mostra, mostrando, também, a fivela de seu cinto que segurava seu shorts social, isso devido a blusa de tecido leve que ia por dentro dele.
Com os olhos, ela procurou pela mesma mesa que sentava todos os dias, constatando com frustração que a mesma estava sendo ocupada e, assim, procurando por outra que fosse distante do centro do local. Quando encontrou, caminhou por entre as mesas até chegar na sua, sentando-se no estofado e colocando sua bolsa na cadeira ao lado, abrindo-a e tirando de lá seu laptop com a carga cheia, colocando-o em cima da mesa e subindo a tela para que ligasse.
Como todos os dias, ela abriu o arquivo de seu livro e rolou até a última página, colocando as mãos em cima do teclado, mas sem escrever nada, de fato. Olhou a hora em seu celular que estava dentro de seu bolso e quando o fez, colocou-o em cima da mesa.
Começou a digitar lentamente, esperando que as ideias aparecessem com o passar das letras na tela digital, como sempre apareciam. Ela estalou os dedos da mão e o pescoço, relaxada e concentrada, sorrindo vez ou outra quando escrevia algo que lhe agradasse.
— Com licença, senhorita.
Quem era a pessoa que ousara lhe interromper no meio de sua escrita?
Ela ergueu os olhos e encarou o homem com os fios de cabelo que batiam até um pouco abaixo de sua nuca e eram lisos e arrumados para trás.
— Seu suco. — Ele informou, colocando o copo de suco de limão com duas exatas pedras de gelo em cima da mesa, pronto para girar seus pés na direção contrária e continuar seu trabalho como fazia antes.
Ela arqueou as sobrancelhas, confusa.
— Ei! — Ela chamou, antes que ele saísse. — Eu não fiz nenhum pedido, é engano.
Ele, envergonhado, pegou o copo de suco novamente e arrumou sua postura.
— Desculpe pelo engano, não irá acontecer novamente. — Desculpou-se e saiu em passos largos e rápidos.
o observou e depois olhou para a tela do laptop novamente, terminando a fala da personagem principal e passando para a fala duma personagem secundaria, mas cinco minutos foi o tempo exato e suficiente para ela ser interrompida de novo, e pelo mesmo homem com o mesmo copo de suco de antes.
— Desculpe lhe interromper novamente, senhorita, mas não foi um engano. — Ele disse com certeza, colocando o copo de suco de novo em cima da mesa e um guardanapo ao lado.
Quando notou a mulher abrir a boca para rebater, ele saiu rápido demais para que ela não tivesse tempo lhe dizendo que aquilo, certamente, era engano pois ela não havia pedido nada desde que chegou.
Ela fez um estalo com a boca e pegou o guardanapo que tinha uma letra corrida, formando uma frase curta.

Por conta da casa.

Era só isso que estava escrito.
olhou ao redor, sentindo as bochechas esquentarem automaticamente com a ideia de que alguém que ela conhecesse estaria ali, no mesmo lugar que ela, lhe observando e lhe pagando um suco, seu preferido, e o mesmo que ela pedira nos últimos três dias em que esteve ali.
Droga, não tinha ninguém!
Pelo menos não que tivesse notado, e isso só fazia ela se sentir mais estranha e desconfortável, pensando que estava sendo observada sem saber, provavelmente.
Tomou um gole do suco e olhou novamente ao redor, apenas para garantir.

Desconfiada.

Percebendo que não encontraria ninguém, continuou a escrever, gostando de como as ideias pareciam fluir como seu sangue bombeando, rápidas. Era ótimo que conseguisse um tempo para dedicar a uma coisa sua e não apenas ao seu trabalho, como vinha fazendo nos últimos anos, ainda mais agora que ela finalmente havia conversado com Jody sobre suas férias e assinaria as mesmas no sábado, dia dez, para que retornasse apenas no dia dez do próximo mês, e agora poderia dedicar-se ao seu livro e a atividades normais que costumava fazer quando era mais nova, como ir ao shopping para tomar um sorvete e assistir a um filme em cartaz, ou talvez fazer uma trilha com um guia bonitão e transar com ele numa cachoeira no meio da mata como ela fez quando tinha dezoito anos.
Riu ao lembrar-se desse acontecimento.
— Rindo sozinha, madame? Não me lembro de colocar álcool no seu suco.
Prendeu a risada e levantou os olhos devagar, sabendo de quem se tratava.
usava seu uniforme costumeiro, com as duas mãos em suas costas e a postura ereta, carregando um sorriso pequeno no canto dos lábios.
— Está tentando flertar comigo me mandando um suco? Sério? — Zombou, abaixando a tela do laptop.
— Eu não sou um moleque e não estou tentando flertar com você, também. — Garantiu. — Forma de agradecer pela carona.
— O ‘obrigado’ foi suficiente.
— Sua mãe não lhe ensinou que é chato desfazer-se do agrado dos outros?
— Não desfiz, até dei um gole. — Mostrou o copo que não estava cheio como antes.
— Uma sopa de legumes? — Ele começou alto e ela lhe encarou, sem entender.
— O quê? Eu não...
— Certo, não demoro com o pedido. — E saiu.
Ela pensou em gritar o nome do rapaz e dizer que não queria uma sopa, ainda mais de legumes, mas não seria nada educado da sua parte fazê-lo num restaurante onde as pessoas procuram por tranquilidade e boa comida. Os olhos da mulher acompanharam até que ele sumisse, entrando na cozinha rápido, fazendo ela suspirar ainda sem entender e abrir a tela de seu computador novamente para que continuasse a escrever.

{...}

— Uma sopa de legumes. — anunciou alto, assim que entrou na cozinha.
— Quem era aquela mulher? — Jared questionou, parando ao lado do amigo. — Eu não sabia onde enfiar a cara quando fui interromper sei-lá-o-que-super-importante que ela estava fazendo naquele computador.
— Como sabe que era importante? — Ele riu.
— Ela não hesitou em fazer uma cara de poucos amigos.
— É a única cara que ela tem, acredite.
— Quem era ela?
— Uma pizza tamanho família de calabresa comum saindo. — Cletus anunciou, colocando a pizza na fôrma de madeira em cima do balcão, e pegou-a para que levasse até a mesa quatorze, que foi onde o pedido tinha sido solicitado quarenta minutos antes.
Ele saiu sem responder Jared que deu de ombros, pegando um prato e organizando em uma bandeja ao lado de outro, pronto para entregar aos clientes, assim como o amigo fizera.
passou pela porta da cozinha e procurou com os olhos a mesa em que pediram uma pizza, e caminhou até ela, colocando a massa no centro, rindo baixo quando algumas das pessoas comemoraram, famintas. Ele pediu licença e, quando recebeu um meneio de cabeça de um dos rapazes que estavam ali, saiu, olhando para a mesa de número nove, observando a mulher ainda concentrada em seu computador.
Ela o encarou e ele desviou o olhar, mas não rápido o suficiente para que ele não notasse o balançar energético de suas mãos, chamando-o.
— Pois não? — pediu, quando se aproximou da mesa dela.
— Pois não? Como assim ‘pois não’? — Perguntou, um pouco elevada. — Eu não pedi uma sopa de legumes!
— O que está fazendo aí? — Ele espreitou os olhos, tentando olhar seu computador.
— Eu não quero uma sopa, dá onde tirou isso? — Não lhe respondera.
— Nha, foi só uma forma de disfarçar, ‘tá legal? O senhor Smith não gosta de conversas na hora do trabalho, e ele estava me encarando, foi a única saída que encontrei.
Deu de ombros e ela riu, olhando ao redor.
— Então, está me dizendo que se eu levantar a mão — Ela ergueu o braço esquerdo. —, chamar aquele senhor ali que tem uma postura de quem manda no pedaço e dizer que está de conversinhas alheias em horário de trabalho, ele iria, certamente, lhe dar uma bronca? — Ela perguntou, sugestiva, observando o outro caminhar lentamente em sua direção, sem nenhuma expressão na face.
— Não faria isso. — disse, cético.
— Faria, sim.
Smith parou ao lado de , fazendo o mais novo custar a engolir sua saliva, que quando desceu pela garganta, desceu fazendo o maior esforço.
— Está acontecendo algo? — O senhor perguntou, com o olhar duro diretamente no rapaz.
— Não, senhor Smith, eu só...
— Está, sim, na realidade. — disse, arrumando-se no estofado.
— E então?
quis rir da cara de que olhava para os próprios pés, como se esperasse pela desgraça.
— Eu só queria parabenizar pelo restaurante. — Ela lhe sorriu. — É tudo ótimo; o atendimento, a comida, o ambiente, tudo. — Balançou as mãos. — Os funcionários são sempre gentis e atenciosos, inclusive este senhor. — Referiu-se a que carregava uma expressão de indignação.
— Gentileza sua, mas muito obrigado. — Smith sorriu pomposo, apertando o ombro do mais novo que lhe lançara um sorriso amarelo e miúdo. — Fico imensamente feliz que aprecie nosso serviço de forma geral, é ótimo saber que estamos agradando as pessoas com algo que damos duro todos os dias para manter. — Ele sorriu novamente. — Agora, se me dão licença, preciso checar as caixas de som para o show acústico.
meneou a cabeça, assentindo, observando o homem que atendia por Smith sair por entre as mesas.
— Porra. — murmurou baixinho, soltando a respiração.
— Sua mãe não lhe ensinou que é chato desfazer-se do agrado dos outros? — Repetiu o que ele lhe disse minutos atrás.
— Eu poderia ter perdido meu emprego! — Falou, mais energético desta vez.
— Qual é! — Ela riu pelo nariz. — Eu não sou tão vaca quanto pareço, né?
— Precisa mais do que isso para provar que não é tudo que listei.
— Fez uma lista sobre mim? Uau, pensei que demoraria mais para se apaixonar. — Ela brincou.
— Engraçado. — Sorriu sem humor.
— Sempre me falaram que sou a mais engraçada da família. — Não mediu o tom de ironia para dizer aquilo.
— Imagina como não deve ser a mais sem graça, né?
Uh, ele era afiado.
gostava disso.
— É a minha irmã, aposto que se dariam bem. — Ela piscou, sugestiva. — Cadê minha sopa de legumes? Estou começando a achar que preciso chamar o senhor Smith para outra conversa e, desta vez, não é sobre como o restaurante é agradável. — Ameaçou, com os olhos semi-cerrados e um sorriso que o rapaz analisara como irritante no canto dos lábios.

Irritante duas vezes.

— E eu gosto mais de você com barba, a propósito. — Ela piscou risonha e o rapaz se sentiu desconsertado por um momento, saindo dali.

{...}

Depois de tomar a sopa de legumes trazida por — Que estava deliciosa, tinha de admitir. —, olhou seu relógio de pulso e arregalou minimamente os olhos, notando se passar das nove e quinze. Ela guardou seu laptop em sua bolsa e levantou-se, deixando alguns dólares em cima da mesa, certificando-se que aquela quantia pagaria tanto o suco quanto a sopa.
Caminhando até seu carro, ela pensou que só precisava mandar um e-mail para Esteban com a lista da equipe que ela fez e estaria livre de grandes trabalhos até sábado, que era o dia em que tiraria suas esperadas férias, indo na redação apenas para assinar alguns papéis e deixar tudo na mão de Taylor, quem confiou seu cargo até que ela voltasse para exercê-lo novamente.
Deu partida no carro depois que entrou, pronta para encarrar aquele primeiro farol irritante que não ia com a cara dela, pois fechava sempre que ela tentava passar por ele. Esperou que ele abrisse para dar continuidade até sua casa, que era meio longe dali, coisa de meia hora se não tivesse trânsito, o que não era o caso daquele dia em que todos os semáforos que preenchiam o caminho resolveram dar problema no mesmo momento, colocando os agentes de trânsito no meio das ruas para auxiliar os carros nas passagens e nas paradas, a fim de evitar qualquer acidente. estalou a língua dentro da boca e deu seta para a direita, indicando que entraria na lojinha de comida japonesa, e assim o fez, estacionando o carro e saindo com sua bolsa pendurada no ombro. Trancou o carro com o alarme quando estava na porta do estabelecimento, entrando assim que ouviu o apito soar e escutando um tintilar acima de si quando passou pela porta.
— Boa noite. — Uma senhora oriental disse, atrás do caixa.
— Boa noite. — respondeu, sorrindo e caminhou pelo pequeníssimo corredor que tinha prateleiras repletas de comidas até o final.
Ela escolheu as pequenas bandejas de isopor que tinha as comidas e, perto do caixa, escolheu pelo molho tradicional que acompanhava aquela culinária, o molho soyo. Colocou tudo em cima do balcão e esperou que a senhora começasse a contabilizar tudo, colocando dentro de uma sacola.
— Não precisa de sacola. — Ela avisou, sabendo o impacto que aquilo que parecia tão inofensivo fazia para meio-ambiente. — Eu levo na mão até o carro.
Recebeu um sorriso da outra que tirou as coisas de dentro da sacola.
— São dezessete dólares. — Ela disse, erguendo as coisas organizadas em uma pilha para a mulher que procurava sua carteira na bolsa, quando achou, pagou a senhora, que ela particularmente achou muito fofa, e recebeu as compras, atrapalhando-se um pouco na hora de andar até a porta e depois até seu carro.
Colocou tudo no banco traseiro e fechou a porta, sentando no banco do motorista e ligando a ignição do carro enquanto fechava a porta e colocava o cinto de segurança novamente para, sem paradas, ir até sua casa.

{...}

ENVIADO.

suspirou aliviada quando leu isso na tela de seu computador, mostrando que seu e-mail para Esteban com a lista da equipe fora enviado, com um aviso de que ela havia solicitado todos os nomes para uma reunião com ele na próxima quarta-feira como ele pedira. Ela desligou o computador, não mais afim de olhar nada que fosse por uma tela digital e deitou-se no sofá, apenas para relaxar.
Pensou que poderia começar a programar suas férias, fazendo uma lista de pontos pela cidade que poderia visitar com sua mãe, como prometera dias atrás que faria. Mas, só pelo pensamento, ela poderia numerar algumas coisas que iria fazer.
- Ligar para um amigo que agora está distante.
- Fazer uma tatuagem.
- Ir ao cinema acompanhada ou sozinha, isso não importava.
- Flertar com alguém.
- Ir a um show de qualquer artista que estivesse na cidade ou no estado do Colorado.
Ela mal podia esperar para fazer tudo isso e, o melhor, teria de fazer tudo em um mês. Exatamente um mês, pois suas férias acabariam dia dez de Fevereiro. Era, de fato, um desafio e tanto.
Ela bateu os pés no sofá, rindo sozinha, animada com a ideia, mas animação esta que fora interrompida pelo interfone tocando. levantou-se rapidamente e calçou as pantufas, por mais que seu chão fosse acarpetado, e correu até a cozinha que era onde o aparelho ficava pendurado numa das paredes com cerâmica branca.
— Pronto. — anunciou.
— Senhorita , chegou uma encomenda, ou seria um presente? — Bradley, o porteiro, ponderou sozinho. — Para a senhora, gostaria de saber se posso pedir para que entreguem aí?!
Ela não se lembrava de ter comprado nada pela internet nos últimos dias, e presente? Quem diabos lhe enviaria um presente?
— Hm, pode, sim, Brad.
— Em cinco minutos, alguém bate aí. Boa noite, .
— Boa noite. — Despediu-se antes de bater o interfone em sua base, caminhando até a sala e esperando que sua campainha tocasse.
Demorou sete minutos para que sua campainha tocasse, e ela estava pronta para abrir a porta, destrancando a fechadura. Deparou-se com um enorme buquê de flores que ela não sabia o nome, mas que não pode negar a beleza incontestável das mesmas que soltavam um aroma delicioso de suas pétalas, e ela nem precisou respirar fundo para chegar a esta conclusão.
— Muito obrigada. — Ela agradeceu ao homem que usava um boné preto e camisa também preta. Ele concordou com um meneio de cabeça e foi em direção ao elevador que estava sendo segurado por alguém, para que as portas não se fechassem antes dele entrar.
Ela fechou a porta com o pé esquerdo e caminhou até a cozinha para achar algo que pudesse colocar as flores dentro para que não murchassem tão rápido. Puxou o cartão de dentro e abriu, notando que a escrita era impressa.

Olhe bem de perto. Talvez a beleza seja pequena.

Era isso que dizia o bilhete e ela sorriu, pensando em quem poderia ter-lhe enviado aquela gentileza. Talvez fosse sua mãe.
Colocou as flores num pote com água e deixou-as em cima da mesa de centro da sala, enfeitando-a depois de tirar algumas coisas que estavam em cima dela. Sentou-se no sofá novamente e encarou as flores, fechando a cara ao ter um pensamento.
E se aquilo fosse algum tipo de macumba?
Sabe, ela não sabia, mas e se? Nunca se sabe, ainda mais nos tempos atuais.
— Bobagem. — Pensou alto, gesticulando com as mãos.
Encarou as flores novamente.
Mas, e se?
Droga, aquilo não era macumba!
Tentando tirar isto da mente, caminhou até seu quarto, sentindo falta de Elvis que, quando passou pela porta, notou estar deitado em cima de seu travesseiro, manhoso e com um ronronar baixinho, fazendo seu peito de pelos brancos subir e descer lentamente. Ela fora para cama, deixando a porta aberta para que a luz da sala refletisse em seu quarto, aninhando-se entre a coberta e puxando o outro travesseiro para que deitasse e não tirasse o bichano do sono que parecia tão bom, ficando meio torta no colchão, mas isso não fora impedimento para que dali a exatos oito minutos, ela dormisse.

{...}

recolheu as panelinhas que Charlie deixara na sala e guardou tudo numa caixa, onde o resto dos brinquedos da garota ficavam, levantou-se e colocou a mão em sua coluna ao sentir uma dor aguda lhe atingir, talvez estivesse ficando velho demais para brincar de panelinhas e casinha por mais de duas horas.
Ele desligou a luz da cozinha e da sala, andando até o quarto que dividia com Charlie que logo precisaria de uma cama só para ela. Surpreendendo-se, a garotinha não estava deitada, pronta para dormir, estava de pernas cruzadas em cima da cama rodeada de lápis de cor e folhas soltas.
Mais essa não.
Ele resmungou baixo, ainda sentindo sua coluna reclamar e sentou-se na cama, observando a filha estirar a língua para fora para que pintasse um de seus desenhos, esforçada. Se passava da meia noite e ele só queria descansar um pouco para levantar cedo no outro dia, mas Charlie parecia não querer colaborar nada com aquilo e parecia ter energia de sobra, sempre inventando algo para que fizesse com o pai.
— Pega esse, papai. — Charlie indicou o lápis na cor amarela, entregando uma folha ao pai que pegou prontamente, mas colocou-a de lado para chamar a atenção da filha.
— Está tarde.
— Só mais esse. — Ela pediu, manhosa.
— Brincar de panelinhas também foi o ‘só mais esse’, mas agora passou da hora de dormir. — Ele avisou, recolhendo os lápis que estavam próximos a ele.
— Non! — Charlie gritou, chamando a atenção do pai.
— Sim, Charlie.
E então Charlie curvou os lábios em um bico, como sempre fazia quando estava chateada ou irritada com algo, e seus olhos encheram-se de lágrimas, não demorando a cair uma a uma, rápidas e seguidas de um grito agudo, assim como a dor que sentira na coluna. Ela engatinhou na cama e tentou pegar os lápis da mão do pai, que esquivou-se e colocou-os em cima da estante para que ela não conseguisse pegá-los novamente. Ele recolheu as folhas, algumas amassadas por Charlie ter ajoelhado em cima na hora em que tentou tomar os lápis do pai, e colocou-as na estante, também.
— Non, père. — Ela pediu novamente, erguendo as mãos e depois levando-as até os olhos, coçando-os.
— Não é não, Charlotte, tem que entender isso. — respondeu, meio duro, por mais que seu coração apertasse em vê-la daquela forma, mas ela precisava entender que ela não pode ter tudo que quer e na hora que quer.
Ele abriu o armário e retirou de lá uma coberta de ursinhos que tinha desde que era garoto, mas que Charlie adorava, e esticou-a, a fim de deitar-se com o bebê que ainda chorava, mas que estava sentada na ponta da cama. O rapaz ficou em pé e em silêncio para saber qual seria o próximo passo daquele ser pequeno que não demorou a olhar o pai, com os olhinhos um pouco inchados, ainda soluçando.
— Charlie quer colo. — Ela avisou, esticando as mãos e abrindo e fechando elas, chamando o pai.
contornou a cama e abaixou-se de frente para ela, ficando de sua altura para encará-la melhor.
— O papai não gosta de brigar com a Charlie — Começou, tocando as mãos da garotinha. —, mas o bebê tem que entender que não é não, ‘tá? — Disse, cuidadoso. — Nós podemos desenhar amanhã, tudo bem? Mas agora está na hora da Charlie ir dormir e o papai também.
Charlie concordou murmurando, agarrando o pescoço do pai e pulando em seu colo, esperando que ele levantasse para ligar a luminária e apagar a luz do quarto, deitando na cama com ela, colocando-a com a cabeça em seu travesseiro e cobrindo-a com a coberta de ursinhos.
— Charlie gosta muito dessa coberta. — Balbuciou, passando a mão pelos olhos novamente.
— Eu sei, bebê.
— O papai não fica bravo com a Charlie, né? Quando eu quebrei o relógio da minha grand-mère, ela disse que nunca ficaria brava com Charlie porquê ela gosta muito dela. — Explicou, mexendo as perninhas em baixo da coberta.
— O papai não está bravo com a Charlie, ele nunca ficaria, também. — Explicou, arrumando o próprio travesseiro. — Mas está na hora de dormimos, tudo bem? Nós podemos brincar amanhã.
— Muito? — Ela riu, baixinho.
— Um pouco. — Ele também riu.
Charlie pareceu aceitar, pois nada dissera, apenas colocara as mãos em baixo de seu travesseiro e ficou olhando o pai que a observava também.
— Je t'aime, papa. — Ela disse, sorrindo miúdo.
Ele sorriu abertamente, aconchegando-se mais perto da garotinha.
— Je t’aime, ma belle.
Dormiram.





Denver — Colorado, Estados Unidos, 15:11PM, 09 de Janeiro de 1998.

sorria abertamente para Karen que lhe sorria também, observando a chefe com os pés sobre a mesa de madeira e com os braços estendidos, como comemoração.
— Férias, Karen, férias! — Ela comemorou, rindo.
— Já sabe para onde ir? — Karen arriscou, aproximando-se da mesa.
— Na realidade, ficarei por aqui mesmo. — Deu de ombros e a outra fez uma careta.
Ela tirou os pés da mesa e arrumou sua postura torta, agora correta e com os ombros alinhados.
— Temos mais alguma coisa? — questionou, referindo-se ao restante do dia.
— Hm, pelas minhas anotações, não. — Olhou seu bloquinho de notas.
— Tem algo pendente para digitar ou fazer?
— Também não.
— Então, sente-se. — Disse, com obviedade. — Quer uma água?
— Estou bem, obrigada.
— E o cabeludo da edição de fotos, como está? — Questionou, intrometida.
— Desculpe, não entendi. — Karen corou, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha.
— Qual é, pode falar, sabe. — riu, descontraída. — Trabalha comigo há quanto tempo? Uns três anos?
— Dois anos, sete meses, três semanas e um dia. — Informou, com exatidão.
— É como se fossemos amigas. — Ela parou por alguns segundos, repensando. — Quase amigas.
— Somos quase amigas e eu só sei que seu nome é , mora sozinha, é bem sucedida com a própria carreira e tem um gato chamado Elvis. — Cruzou os braços.
— De fato. — concordou. — O que quer saber além disso?
— O que quase amigas sabem. — Deu de ombros.
— E o que quase amigas sabem?
— Eu não sei. Tente.
— Eu bebo um pouco. — Ela encarou a mais nova. — Mentira, eu bebo pra caralho.
Riu, ao chegar a tal constatação.
— Eu fumo quando estou meio estressada, morei na Itália com minha avó por uns dois anos mais ou menos, conto meus passos desde a hora em que acordo até a hora em que saio para trabalhar.
— Quem conta os próprios passos? Isso é loucura! — Karen riu.
— Loucos contam. — Riu, também. — Tenho medo do escuro, sou muito calorenta e não gosto de filmes que não me façam refletir por algum motivo.
— Só?
— É... Só. Não tenho muito o que falar sobre mim, não é como se eu fosse uma pessoa interessante.
— Não deveria ser tão rude. — Karen balbuciou, esperando que a outra entendesse o recado.
Ela apenas deu de ombros, bebendo um gole da água que pusera em seu copo.
— O que gosta de fazer quando não está na redação? — Ela perguntou.
— Trabalhar em casa.
— Não pode ser. — Ela disse descrente, arregalando minimamente os olhos. — Sério?
— Por que brincaria?
— Porque não é muito comum, não acha? Pessoas normais gostam, sei lá, de passear um pouco, ler um livro, ir a uma boate ou até mesmo um clube de piscina.
— Fui diagnosticada com depressão aos dezenove anos. — sussurrou, parecia envergonhada. — Não é como se fosse um carro, entende? Eu não o mando para o concerto e, pronto, ele está novinho em folha. É uma coisa que sempre irei carregar comigo, e acho que a única forma de me manter focada em algo e não me afundar ainda mais, é o meu trabalho. — Explicou, gesticulando com as mãos. — Foi no meu trabalho que eu encontrei uma concentração, é ele que me faz funcionar direito, sabe? Andar nos trilhos.
Ela pareceu pensar por um minuto, com o olhar distante daquele universo, e suspirou pesado, soltando lentamente uma lufada de ar de seus pulmões para enchê-los novamente segundos depois.
— Detesto saber que sou tão ligada a isso tudo, mas é a única forma de não me perder.
Ela vacilou com sua voz, fazendo Karen lhe encarar milimetricamente, cuidadosa. Ela suspirou novamente e sentiu o canto de seus olhos molharem com as gotas de água que corriam pelos seus canais lacrimais e a faziam sentir-se constrangida em liberá-las na frente de alguém.
— Eu... — Karen começou, se detestando por fazer sua chefe chegar àquele assunto. — Me desculpe, eu não sabia. — Falou com pesar.
— Não tem problema. — riu baixo, limpando com os dedos os cantos de seus olhos com delineador nas pálpebras. — Não tinha como saber.
— Como se sente agora? — Ela arriscou.
— Como me sinto? Me sinto... Normal, eu acho. — Cruzou os braços acima do peito. — Mas por que estamos falando disso, mesmo? — Ela riu, tentando descontrair. — Não tenho mais o que falar sobre mim, a não ser que tenha mais alguma pergunta.
— Namora?
— Não, não namoro.
— Eu não sei mais o que perguntar. — Confessou, arrumando-se sobre a poltrona macia. — O que quer saber sobre mim?
— Eu não sei. Tente. — disse a mesma coisa que ela lhe dissera momentos antes.
Karen arrumou uma mexa de seu cabelo, colocando-a atrás de sua orelha pontuda com um piercing na cartilagem. Ela procurou no fundo da sua mente algo de interessante para falar sobre si mesma, mas não conseguia achar nada que fosse tão atrativo para que contasse ali naquela espécie de conhecendo-sua-quase-amiga, o que fez a moça contorcer o rosto em uma careta.
— Não sei o que dizer. — Ela começou. — Não há muito sobre mim.
— O pouco é um começo. — Incentivou, cruzando os braços em cima da mesa, agora.
— Me chamo Karen Munroe, tenho três irmãos mais novos e moro com a minha avó desde que me entendo por gente. — Ela suspirou. — Não que eu odeie meus pais ou algo do tipo, longe disso, nós ainda mantemos contato. Eu só gostava mais da casa da minha avó.
— Sou suspeita a falar. Eu também adorava a casa dos meus avós, mas retornei aos Estados Unidos depois de passar um curtíssimo tempo na Itália para estudar em uma faculdade que ganhei bolsa de cem por cento integralmente. — Explicou o motivo de não continuar morando com os avós. — Minha mãe me mataria se eu perdesse essa oportunidade. Eu faria o mesmo no lugar dela se minha filha ganhasse essa chance e estivesse nem aí, como eu estava. — Ela riu.
— Não queria entrar na faculdade?
— Não. — Foi rápida. — Se fosse por minha decisão, não.
remexeu os fios de cabelo e colocou as mãos inquietas sobre o queixo, em uma pose um tanto quanto absorta, lembrando-se que se fosse por uma decisão partida dela, , ela, definitivamente, não teria entrado para uma faculdade, mas como foi uma decisão partida de seus pais que nem cogitavam a ideia da menina não entrar para um curso de nível superior, não teve muito o que fazer senão aceitar e ir todos os dias para as aulas que se estendiam por horas a fio.
— Por que?
— Eu não gostava de pensar que tudo que fizéssemos era pelo retorno do dinheiro.
— Não compreendo. — Karen foi sincera e a outra suspirou.
— Eu sempre achei que tudo isso — Ela abriu os braços, mostrando do que estava falando. — fosse mais do que um diploma de nível superior. Desde pequenos, as pessoas tacam os sonhos que não realizaram em suas costas, depositando toda sua expectativa em certa pessoa, isso é desgastante. — fez uma careta. — Quando eu tinha doze anos minha mãe disse que queria que eu fosse uma médica de sucesso, disse que ganharia muito dinheiro seguindo tal profissão e ganharia meu merecido reconhecimento, e fui colocando aquilo na cabeça, entende? Eu estudava sem parar, não tinha amigos e não saia de casa. Meu tempo todo era depositado em estudos e livros que ela comprava no começo do ano para a lista de materiais que minha escola solicitava. Quando eu tirava uma nota baixa em algum teste, tudo que sentia era a culpa me consumindo e chorava no meu quarto quando chegava do meu período integral de aula. Eu pensava que era uma péssima filha, pois meus pais davam duro para pagar a mensalidade do meu colégio e eu não fazia nada, minha única obrigação era estudar e me sair bem nos testes que tinha toda semana, sem exceção, e, bem, tirar uma nota baixa? Era, definitivamente, o fim dos tempos.
Ela riu desgostosa, lembrando-se da época em que sofria com crises de ansiedade por conta dos estudos.
— Enfim, tudo que eu pensava era em estudos. Queria dar orgulho para minha mãe e ser o que ela sempre sonhou que eu fosse, uma médica brilhante. Isso só durou até os dezessete anos que foi quando eu meio que deixei tudo pelos ares e decidi que não precisava ser aquilo que minha mãe queria que eu fosse. — Ela mantinha o tom arrastado. — Certamente, ela não ia me deixar desistir da faculdade, mas não me faria ser algo que eu não queria ser.
— Ela aceitou numa boa?
— Não. — Ela riu. — Claro que não. Nós brigamos e não nos falamos por um tempo, que foi quando prestei provas para algumas faculdades públicas antes de voar para a casa dos meus avós para espairecer um pouco. Depois de um mês e alguns dias, ela me ligou. Pensei que seria para conversarmos e nos acertarmos, mas ela ligou para avisar que duas cartas chegaram endereçadas ao meu nome e meu pai abriu, recebendo a notícia de que eu havia sido aceita em duas faculdades as quais prestei provas de primeira e segunda fase dois meses antes.
— E então? — Karen pediu, curiosa.
— Eu não queria voltar à América, mas meu pai conversou comigo, convencendo-me a ir para casa e cursar a faculdade que ele tanto falou sobre com seus amigos, mostrando o quão orgulhoso estava por ter uma filha como eu que pensava no futuro. E então eu fiz o que ele pediu. Entre as duas, escolhi a que eu mais julgava melhor, e ingressei nela, me mudei para um pequeno apartamento de dois quartos que passei a dividir com uma colega que fiz no primeiro semestre da faculdade e pagávamos aluguel. Como eu estudava integralmente, não tinha tempo para trabalho e meu pai depositava algum dinheiro para que eu pudesse me manter, mas ele sofreu uma forte pneumonia e todos os custos foram para cobrir o plano de saúde dele para o tratamento. Ele não resistiu, e o resto todo mundo sabe. — Ela pareceu controlar o tom para que ele não saísse pesado e embargado, seu coração ficou miúdo. — Foi uma época difícil, pois minha mãe tinha depressão há muitos anos e quando isso aconteceu, ela teve uma recaída de algo que ela estava controlando arduamente. Eu e minha irmã fazíamos de tudo para conseguir tirá-la dessa, e conseguimos. Mas começou outro problema, comigo, desta vez. Minha mãe não podia tirar uma quantia de seu salário para me dar sendo que ainda tinha uma filha menor de idade que dependia completamente dela, eu estudava integralmente e não tinha tempo nem para escovar meus dentes, mas tive que dar meus pulos e foi quando eu entrei na redação em um estágio arrumado pelo meu professor de História da Comunicação. — Ela explicou, começando a contar como começara sua carreira na EDownTown. — Eu me desdobrava em duas para conciliar estágio e faculdade, passava quatros noites sem dormir apenas dopada de tanta cafeína e energéticos. Confesso que até comprei uns remédios proibidos na mão de gente errada para me manter acordada durante meus afazeres.
— Foi presa por causa de gente errada? — Ela interpretou tudo errado e abriu a boca, arregalando os olhos marcados pela máscara de cílios preta.
— Não. — Ela riu da forma como a outra parecia espantada. — Quero dizer, quase. Mas isso é outra história para outro dia. — prometeu, rindo abafadamente. — Posso continuar?
Karen apenas lhe lançou um meneio de cabeça, relaxando os ombros ao saber que ela não tinha sido presa por comprar remédios proibidos.
— Ele era um playboyzinho-filho-de-papai que vendia merdas no campus da faculdade, e eu não pensei muito antes de ir até ele e comprar os remédios. Mas eram uma merda! — Ela reclamou, mexendo as sobrancelhas. — Não surtiam efeito algum e eu quis mata-lo por me fazer comprar aquelas drogas. Depois desse fracasso com remédios, me mantinha apenas na base do café e energético mesmo, e quando eu conseguia dormir era como tocar nas portas do paraíso e flutuar sobre as nuvens mais limpas e brancas de todo nosso imenso céu azul. — Parou por um momento e pareceu pensar. — Foi quando eu fui diagnóstica com depressão.
— Se quiser, não precisa contar. Não quero que se sinta na obrigação de me contar algo particular, quero que se sinta confortável. — Karen expôs seu ponto sobre a outra tocar neste assunto em especifico e querer dar continuidade a ele, completamente aberta e disposta a contar sobre.
— ‘Tá tudo bem, não é como se fosse o fim do mundo, certo? — estalou a língua dentro de sua boca e depois sorriu para a mais nova, relaxando os ombros. — Eu comecei a me tratar com profissionais e não precisei tomar remédios controlados, mas, como eu disse, não sou um carro. Não fui para o concerto e estou nova em folha, como fica um depois de algumas horas numa oficina. — Constatou, suspirando. — Tenho que lidar com isso todos os dias, até eu morrer. Todos os dias tenho que procurar por um motivo para levantar da minha cama e fazer minhas coisas certas. Essa é a razão pela qual eu sou tão centrada quando o assunto é trabalho, porque tento manter essa rotina como forma de sempre estar focada em algo.
parecia mais relaxada com todo o seu corpo agora, respirando fundo ao finalizar a frase. Não que estivesse incomodada de estar falando sobre aquilo, mas ainda era um assunto que mexia com ela e nunca deixaria de fazer. Era a saúde mental dela sendo exposta como carne no açougue, afinal.
Na boca do estômago, ela sentia uma cócega engraçada, isto devido ao fato de seu corpo estar reagindo positivamente pela confiança que encontrara em alguém para conversar sobre aquele assunto tão pessoal e pesado, o que eram raros os momentos. Ela, definitivamente, não era uma pessoa que depositava fácil sua confiança em alguém, e quando o fazia, era uma sensação de extrema leveza e ela realmente aprendeu a apreciar tudo que lhe trazia esta sensação depois de alguns anos sem senti-la.
— Fico feliz em saber que está lidando com isso da melhor forma que pode. — Karen sorriu sincera, colocando suas mãos em cima de suas pernas.
sorriu mostrando os dentes ao notar que a outra não soltara as típicas frases que pessoas depressivas escutam.

“Você vai sair dessa.”
“Não deveria colocar a si mesma para baixo.”


Quanta idiotice, fala sério.
— Obrigada, mas ainda não falamos quase nada sobre você.
— Oh, claro. — Karen arrumou-se na poltrona. — Se quiser, pode perguntar, eu não consigo falar sobre mim.
— O que gosta de fazer no tempo livre? — Ela chutou, fazendo uma careta.
— Gosto de olhar o livro de receitas da minha avó e tentar fazer as comidas, raramente saem tão boas quanto quando ela faz, mas dá para o gasto. Gosto, também, de correr pelo parque perto da minha casa e depois sentar debaixo daquelas árvores enormes e observar as pessoas. — Karen deu de ombros, não achando nada interessante contar aquilo.
— Sabia que eu sei mexer as orelhas? — perguntou, aleatoriamente, sabendo que a outra não teria mais o que contar para a sua pergunta anterior. Karen riu, duvidando. — É sério, olha!
Ela prendeu o cabelo com uma mão, colocando algumas mexas atrás de sua orelha, flexionando os músculos auriculares, movendo-a de forma estranha. Ela riu com a feição engraçada que a mais nova mantinha no rosto, achando bizarro aquele talento.
— Tudo bem... — Karen começou, soltando um riso. — Isso é simplesmente bizarro, e, provavelmente, muito difícil.
— Nem tanto. — Ela deu de ombros, arrumando novamente o cabelo sobre os ombros.
— Eu consigo lamber meu cotovelo.
— Está brincando? Eu sempre quis fazer isso, mas nunca consegui. — Ela concluiu com pesar, fazendo uma cara triste.
Karen, risonha, ergueu um pouco a manga de sua blusa social e dobrou o ante braço, aproximando de seu rosto e estirando a língua para fora, lambendo seu cotovelo de forma rápida, sorrindo grande quando percebeu sua chefe rir alto.
— Isso é sensacional! Precisa me ensinar. — riu, batendo uma mão em sua mesa, observando Karen balançar as mãos no ar. — Estou falando sério.
Ela levantou de sua mesa e observou a vista através da grande vidraça que fazia parte da decoração de sua sala, observando ao fundo as Montanhas Rochosas, sempre tão bonitas.
— Prometi a minha mãe que faria uma programação semanal para aproveitar Denver com ela. — Começou. — Mas não sei se vou conseguir manter isso até o fim das minhas férias, porque eu só quero relaxar um pouco e não me preocupar com nada. Preciso conversar com ela de passarmos essa primeira semana fazendo algumas atividades e depois eu só relaxo um pouco. — Pausou um pouco, grudando seus olhos na mulher ainda sentada. — Como faço isso?
— Como dizer a sua mãe que só quer relaxar sem ser grosseira?
— Sim.
— “Mãe, eu só quero relaxar um pouco, espero que entenda” é um bom começo.
— E eu que pensei ser péssima para conselhos. — soltou uma risadinha, piscando para Karen em seguida, mostrando que estava apenas brincando. — Pode me dizer alguns lugares legais para ir, sim? Não sou muito boa com isso.
— Denver tem muitos lugares legais para ir, sabia? — Ela perguntou, abrindo seu bloquinho de notas e puxando a caneta que estava presa à ele. — Podemos começar com algum parque. Denver tem milhares deles e são ótimos para tudo; Se divertir, correr, relaxar, ler.
— Coloque correr nas notas, preciso me exercitar mesmo, me tornei uma sedentária nos últimos meses e isso não é nada bom para quem não mantem uma alimentação tão saudável. — Ela ressaltou. — Inclusive, anote também algo como ‘melhorar a alimentação.’
E ali elas passaram alguns longos minutos. Karen dando e anotando todas as sugestões, e animando-se com todas elas. Elas riam e conversavam distraidamente, não como editor-chefe e secretária, mas como e Karen Munroe, duas colegas de trabalho que se conheciam há pouco mais de dois anos, sete meses, três semanas e um dia.

Denver — Colorado, Estados Unidos, 17:01PM, 09 de Janeiro de 1998.

O sol de fim de tarde estava maltratando a pele de , principalmente seus ombros suados que estavam altamente expostos pela regata branca — Naquele momento nem tão branca assim — que ele usava. Ele levantou e suspirou pesado, passando a mão, que ainda segurava o pincel que instantes antes fora mergulhado na tinta amarela, e passou pela testa, tentando tirar o suor ali acumulado. Ele sorriu, embora estivesse cansado e precisando de um bom banho, apreciando o trabalho que levou cerca de duas horas e quarenta minutos. Sua bicicleta estava novinha em folha, amarela e com pneus novos que ele comprara numa borracharia ali perto por trinta dólares cada.
Deixou o pincel terminando de respingar em cima de algumas folhas de revista que ele trouxe de seu apartamento quando desceu para dar um trato em sua bicicleta e fechou a pequena lata de tinta que ele tinha comprado, feliz por ter sobrado e tendo em mente que qualquer arranhão que aparecesse, poderia cobrir novamente. acorrentou sua bicicleta no mesmo lugar de sempre, prendendo na parte frontal dela, onde a tinta havia secado quase que por completo, deixando-a sobre uma caixa de papelão — Que ele havia pego no mercado e aberto, para que pudesse ficar maior — só para garantir que se respingasse, não mancharia o chão do prédio.
Recolheu suas coisas do chão e deixou encostadas na parede, enquanto pegava a vassoura que também havia pego em sua casa e limpava algumas cascas que ele tinha tirado da antiga pintura, despejando tudo no lixo depois de pegar com uma pá. Orgulhoso, ele deu um último sorriso olhando sua obra de arte, recolhendo suas coisas e caminhando até o pequeno hall do prédio, pondo-se a subir as escadas.
— Père! — Charlie exclamou, quando escutou o barulho da fechadura da porta da sala. — Podemos ir tomar sorvete? Charlie está com tanto calor. — Ela fechou os olhos de forma dramática, balançando as mãos em frente ao seu rosto, querendo convencer o pai de que realmente estava com calor.
— Ela está pedindo isso desde que você saiu. — Lisa apareceu na sala, arrumando seus óculos.
encarou Lisa e lhe ofereceu um sorriso simples, antes de direcionar seu olhar novamente ao pingo de gente que estava em sua frente.
— Podemos ir, sim, só me deixe tomar um banho, tudo bem? — Ele perguntou, cedendo ao pedido da filha. Ou nem tanto. Talvez ele também quisesse muito ir tomar um sorvete como recompensa pelo ótimo trabalho que fizera com sua bicicleta.
Sua bebê concordou energeticamente com a cabeça, saindo em disparada para o quarto em que dividiam enquanto gritava:
— Charlie vai colocar o chapéu que a grandmère deu para ela, tá, papai? — Avisou, não esperando a resposta do pai.
Ele riu, andando até a pequena lavanderia, deixando a tinta e o pincel em um dos cantos, puxando sua camiseta para cima, tirando-a e aproveitando para deixa-la dentro da máquina de lavar. Caminhou de volta para a sala, onde encontrou a outra ainda em pé, olhando algo em seu celular.
— Lisa?
— Hm?
— Precisa ir para casa agora?
— Hm... Não, na verdade. Meu horário com Charlie ainda não acabou. — Ela disse, enfiando seu celular no bolso. — Só se quiser que eu vá embora... — Soltou a fala de forma arrastada.
— Não, nos espere para irmos tomar sorvete, ok? Eu só vou tomar um banho.
Observou a mais nova concordar, sentando-se em seu sofá e ligando a TV com o controle remoto, deixando em um canal qualquer enquanto ele passava em seu quarto para pegar uma muda de roupas e aproveitar para checar o que Charlie estava aprontando.
— Ei! — chamou. — O que está fazendo aí?
Ele riu ao assistir a pequena garota sentada no chão, mexendo na última gaveta do armário, provavelmente a procura de seu chapéu estampado.
— Charlie não acha o chapéu. — Constatou, triste.
Ele abriu a primeira gaveta, onde ela não alcançava, e remexeu um pouco lá dentro, afastando algumas coisas até achar o acessório da menina.
— O papai achou! — Ela disse, energeticamente, levantando-se. — Deixa que a Charlie bota.
Ele entregou nas mãos dela, observando ela colocar de forma engraçada em sua cabeça e sair em disparada para a sala, alegando que iria mostrar o chapéu à Lisa, deixando-o sozinho no quarto, enquanto pegava uma bermuda e uma camiseta para que vestisse assim que saísse do banho.

{...}

— Qual sabor? — direcionou sua pergunta à Lisa que estava mais quieta que o normal.
— Hm, não sei. Pode ser qualquer um. — Deu de ombros.
— Moço, tem sabor de qualquer um? — Ele fez graça, arrancando uma risada baixa da menina ao seu lado, depois levando um soco no braço.
— Outch! Doeu.
— Desculpe. Pode ser um de baunilha.
— Dois de baunilha e um de chocolate, por favor. — Ele pediu, tirando sua carteira do bolso da bermuda para que pegasse o dinheiro.
— Podemos ir na gangorra? — Charlie, que segurava a mão do pai, perguntou.
— Oui.
— E no... Escorregador? — Perguntou incerta, lembrando-se da primeira e última vez que fora com o pai no brinquedo. Estava amedrontada, mas havia adorado a experiência.
— Quer ir no escorregador? — Ele perguntou surpreso, pegando os dois sorvetes de baunilha, entregando um a Charlie e outro a Lisa. — Não acredito. — Riu.
— Charlie gostou. — Deu de ombros.
— Podemos ir, sim, mas Charlie tem que ir sozinha, eu sou muito grande para essas coisas.
Ela apenas concordou com a cabeça, esperando o pai pegar seu sorvete de chocolate para que eles pudessem sentar num banquinho que tinha por ali na pracinha. O sol estava se despedindo de todos, quase dando lugar a lua pequena e longínqua.
— Como andam os estudos? — Questionou a Lisa, sabendo que a menina era muito dedicada e sonhava em entrar numa universidade pública, coisa que ele torcia muito para que acontecesse pois sabia que ela queria aquilo mais que qualquer um e podia abrir muitas portas para sua carreira.
— Bem, eu acho. Estou cansada. — Confessou, arrumando-se sobre o banco.
— Sei como é, mas seu esforço irá ser recompensado no final. — Ele assegurou, passando seu braço pelo ombro dela, num abraço lateral.
— Obrigada. — Sorriu. — Como andam as coisas no restaurante?
— Normais, nada de novo. — Deu de ombros, pegando seu próprio guardanapo para limpar o canto da boca da filha que balançava os pés distraidamente e tomava seu sorvete quieta. — Fui chamado para ser padrinho do casamento de Jared.
— Sério? Isso é demais, ! — Lisa tocou o ombro do rapaz, animada.
— Nem tanto.
— Por que não? Pensei que fossem amigos.
— E somos, mas... Não sirvo para essas coisas. — Confessou, contorcendo o rosto em uma careta. — Demora muito e ainda tem a festa. Devo acrescentar que não tenho roupas para isso e nem uma acompanhante.
— Roupas podem ser compradas e a acompanhante... Jared e a noiva que devem decidir quem irá lhe acompanhar como madrinha.
— E isso não soa estranho? Eles irão decidir uma pessoa que eu nem conheço, provavelmente.
— Pensando por esse lado... — Ela contorceu os lábios, pensativa.
— Hm, quer ser minha acompanhante? — O rapaz soltou a pergunta sem pensar, mas não se arrependeu quando a garota lhe olhara de forma engraçada, totalmente confusa.
— ‘Tá maluco? — Ela riu. — Eu nem conheço eles.
— E qual o problema?
— Espera, está falando sério? — Lisa parou de rir, ao perceber que não brincava quando perguntou se ela queria ser sua acompanhante.
— Pareço estar brincando?
— Para com isso, !
— Estou falando sério, Lisa. Se não quiser aceitar, eu entendo perfeitamente.
— Não. — Ela falou meio rápido. — Quero dizer, eu posso ter um tempo para pensar? Eu também não tenho roupas.
— Roupas podem ser compradas. — Repetiu a frase que ela dissera instantes antes, revirando os olhos e rindo em seguida. — Mas, sério, pode levar o tempo que quiser para pensar sobre o assunto.
— Obrigada.
Lisa agradeceu e lambeu seu sorvete que começava a derreter pela casquinha, melando seus dedos. O rapaz sorriu agradecido por ela ao menos estar cogitando a ideia de acompanhá-lo no casamento de Jared, isso o deixava até mais animado para ir, sabendo que alguém que ele conhecia estaria lhe acompanhando. Ele deveria falar sobre isso com o amigo depois, aliás.
inclinou seu corpo perto da garota e selou seus lábios em um selinho rápido, observando ela sorrir tímida e olhar para o lado oposto, com suas bochechas ruborizadas. Talvez estivesse tímida por Charlie estar ali, presenciando a cena, coisa que ela nunca fizera antes e não demorara a se pronunciar sobre.
— Por que você beijou a Lisa, papai? — Ela questionou, com suas mãos completamente meladas pelo sorvete de baunilha. abriu mais os olhos com a pergunta, pensando no que poderia responder à filha.
Falar que ele gostava de Lisa era um exagero, dizer que eram namorados nem se fale. O que eles tinham, afinal?
Nada.
Eles não tinham nada. Trocavam salivas em alguns momentos por diversão e carência de ambas as partes. Lisa estava no auge da adolescência, queria experimentar tudo e ficar com um cara mais velho que ela, era demais, como diriam as garotas de sua idade. tinha 23 anos de relacionamentos — Se é que as enrolações que ele teve podiam ser chamadas de relacionamentos. — mal resolvidos.
Lisa franziu as sobrancelhas em direção ao rapaz que ainda pensava no que responder.
— Hm, quer ir brincar na gangorra agora? Primeiro temos que lavar essas mãos, não acha? — Mudou de assunto, rindo ao perceber como ela conseguia se melar tanto quando tomava sorvete.
Charlie concordou, entregando o sorvete quase inteiro para o pai. Ele também estava com seu sorvete quase inteiro e Lisa começava a comer a casquinha. Jogou o dele e de Charlotte na lata de lixo mais próxima e avisou a mulher que iriam até o bebedouro para que pudessem lavar as mãos nas torneiras que ficavam ao lado.
Quando voltaram, eles aproveitaram mais um pouco nos poucos brinquedos que tinham ali, inclusive Lisa entrou na brincadeira e foi na gangorra e no balanço. Mas isso só durou até o guarda que fazia a segurança do local intimar eles a se retirarem dali, pois os brinquedos só podiam ser aproveitados por pessoas exclusivamente com um metro e cinquenta centímetros de altura, como indicava a placa suspensa. Eles riram depois, enquanto caminhavam pela calçada, indo até o ponto onde Lisa pegaria um ônibus para ir para casa.
— Não precisa esperar, eu ‘tô legal. — Ela afirmou, tentando convencer que poderia ir para casa e colocar Charlie, que reclamava de sono, para dormir.
— Nós podemos esperar mais um pouco, não é, Charlie? — Ele perguntou, recebendo um menear lento e um piscar de olhos pesados da filha que concordou.
E eles esperaram cerca de sete minutos, até que o ônibus de Lisa passou e ela entrou depois de receber um beijo do rapaz que esperou o motorista movimentar o automóvel de porte grande para que pudesse acenar para a mulher que ainda o olhava. E de volta à vida real, ele pegou a garotinha no colo, sentindo sua coluna reclamar um pouco. Charlie estava ficando grande e pesada.
— Que bebê pesado. — Ele riu, escutando a risada baixinha e sonolenta da menina.
O rapaz caminhou pouca coisa até chegar em sua casa, onde tirou os sapatos logo na entrada, tentando se equilibrar com Charlie em seu colo. Caminhou até o quarto e colocou a menina deitada na cama, ela estava sonolenta, mas não havia dormido e reclamou quando o pai fez menção de se levantar.
— Non.
— Quer comer alguma coisa? — Ele perguntou, sabendo que ela pediria para ele ficar ali, então ele se ajeitou sob as cobertas e acariciou o rosto da filha.
Ela, nada disse, apenas fechou os olhos e colocou o dedo na boca, caindo num sono pesado minutos depois.
levantou-se com cuidado e foi tomar um banho rápido, colocando sua camiseta enquanto ia até a cozinha para preparar um sanduiche de presunto para comer. Pelo horário que o relógio marcava, ainda estava cedo, mas ele estava cansado pelo dia que teve, caindo no sono assim que deitou na cama.
Mais um dia normal se passou para .



CONTINUA



Nota da autora: (27/03/2016) Espero que curtam! =)

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Outras fics — The 7 things I love about her. (ffobs/t/t7tilah.html) — Outros/Em andamento.
É natal, aceita uma bebida? (ffobs/e/enatalaceitaumabebida.html) — Outros/Finalizada.


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Para saber quando essa linda fic vai atualizar, acompanhe aqui.



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