Escrita por: Letícia Black
Betada por: Caroline Cahill




CAPÍTULOS: [1] [2] [3] [4] [5] [6] [7] [8] [9]



Capítulo Um

Impasse

— Será que eu te vejo mais tarde, moça?
Esse cara. Esse cara era um idiota, mas basicamente o único amigo que ela tinha. A garota sempre fora meio comportada e quieta e até tinha outros colegas que saíam com ela uma ou duas vezes durante as férias, mas seu tempo livre, suas conversas e confissões, tudo era com ele. E eu sempre tive a certeza de que tudo o que ele queria era entrar no meio das pernas dela — nunca entendi como ela não reparara nisso.
Era a famosa friendzone, era óbvio. Se tomasse coragem, ele ia agarrá-la e não iria deixá-la fugir de jeito nenhum.
Ela sempre foi uma moça bonita, a null, sempre zangada e certinha. Não gostava de se exibir, de ser o centro das atenções e nem sequer gostava muito de sair. Acho que ela sempre teve uma zona de conforto muito rente e curta que a impedia de curtir a vida alopradamente como as outras garotas bonitas. Não bebia, não fumava e eu tinha impressão de que ela também não era muito adepta do sexo e do rocknroll. Ela só era aquela criatura contida, carregando livros por aí, estudando e tomando latinhas de Pepsi com pacotes de biscoito Fofura. Chegava a ser patético, a beleza desperdiçada com apenas aquele idiota do null rodeando-a.
Bom, eu podia ter conseguido ela antes, é claro, mas eu estava ocupado com outras garotas mais fáceis para me concentrar apenas nela, embora gostasse de desafios. E também tinha aquele problema de aversão que ela parecia ter desenvolvido por mim desde o instante em que colocara os olhos em meu corpo maravilhoso — o que era bastante estranho, na verdade.
Era culpa do seu blá, blá, blá qualquer sobre violência desnecessária.
Ela riu à pergunta de null, ressonando como a gatinha carente que era. Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, envergonhada, flertando sem que ele sequer percebesse porque ele era um burro. Acho que ela nem fazia por mal, era mais uma questão de não ter mais nenhum cara rodeando-a, então todo o seu charme infantil era jogado para o amigo.
— Talvez — ela respondeu, doce. — Mas acho que só vou dormir até a semana que vem.
Ele riu, acompanhando, acostumado a fingir sentir graça de suas piadas depreciativas desde que se conheceram, no segundo período. No quinto, quase dois anos depois, eles tinham aquele entendimento silencioso, embora houvesse uma aura de desconforto pelo romance não concretizado.
Ele, fracote que era, não tomava iniciativa; ela, apenas não achava que devesse arriscar o único amigo que tinha em uma tentativa que podia ser frustrada.
Acho que ela aceitaria qualquer outra opção que lhe aparecesse, mas sua tentativa de permanecer invisível a todas as pessoas do campus era completamente bem sucedida.
Talvez eu fosse a única exceção, embora estivesse ignorando-a publicamente em boa parte do tempo.
— Bom, então acho que nos vemos em fevereiro — ele disse.
Em uma das raras vezes que ele se atrevia a ter algum contato físico com ela, deu-lhe um tapinha nas costas e um beijinho na bochecha. O clima desconfortável se instalou entre os dois porque ele sabia — todo mundo que tivesse algum conhecimento sobre null sabia — que ela teria três meses tediosos, implorando por algum evento social na cidade, que normalmente ficava vazia porque os estudantes retornavam todos para a casa de seus pais.
Algumas vezes, ela dava sorte; outras, apenas ficava em casa com a cara enfiada em livros e mais livros ou com o nariz inchado de tanto chorar vendo filmes românticos bregas.
Se esse fosse um cara esperto, podia abdicar umas férias para ficar com ela e tenho certeza de que ele conseguiria o que queria sem muito esforço, mas — e eu ficava muito contente com isso — ele nunca pensou nisso, então o clima de despedidas era sempre desconfortável porque ambos sabiam que ela estava sendo abandonada para mais meses de tortura e reclusão.
— Eu vou tentar voltar antes e te ligo todos os dias! — ele prometeu.
E essa história de ligar era mentira porque, como já relatei, ele era burro. Nem para se esforçar em mostrar interesse ele conseguia. Ligava nos primeiros dias, trocava mensagem por, às vezes, duas semanas. Aí parecia encontrar algo mais interessante para fazer. Talvez tivesse mais desenvoltura com garotas desconhecidas ou tivesse alguma prima que ele pegava nas férias, mas esquecia-se de null com facilidade.
Ela sabia disso, então apenas lhe sorriu de forma triste, querendo acreditar, mas já não conseguindo. null não ligaria, não mandaria mensagens e retornaria em cima da hora para as aulas do próximo período. Talvez, se ela estivesse com azar, só retornasse depois do carnaval. Por isso, ela revirou os olhos para ele e, sem jeito, passou os braços ao redor de si mesma, um abraço que eu tinha certeza de que ela gostaria de ter dado nele, mas havia alguma aversão a contatos físicos por ali, em algum lugar entre os dois.
— Tudo bem — ela disse, em vez de gritar e acusá-lo de negligência, como ela provavelmente faria comigo.
Bom, toda essa solidão era por conta do pai dela, claro. Se ele não fosse um babaca ausente — e ela estava rodeada desse tipo -, ela não precisaria passar por esse tipo de coisa. Na época, eu não sabia por que ela escondia a informação, também se ocultando, mas o pai dela era um grandão em Brasília, um ministro importante. Ele apenas casara de novo em algum momento durante o seu primeiro e segundo período e dissera para ela que a nova esposa não queria ter contato com ela e que ela podia ficar onde ela quisesse.
null tinha todo o dinheiro que precisasse, mas era só. Podia viajar, é claro, para qualquer outro lugar, mas eu acreditava que ela devia achar isso um pouco chato de se fazer sozinha e nunca convidava null porque ele sempre tinha seus próprios planos.
Então ela se mantinha trancada no seu quarto na torre, esperando ser resgatada, como uma romântica.
Como já disse, era patético.
— Vou dar uma passada na xerox pra pegar uns papéis e me vou. — ele disse — Se você quiser me levar na rodoviária mais tarde, vou agradecer, tá?
Ela concordou com a cabeça, então ele se arriscou e lhe deu mais um beijinho na bochecha e se foi. null soltou um suspiro decepcionado, sempre esperando a melhor possibilidade quando se tratava de null, e deu de ombros, sacolejando a mochilinha que carregava. Se arrastando e dando adeus à sua vida social pacata, ela chegou à lanchonete e pediu um sanduíche natural e Pepsi. Enquanto o atendente pegava seu pedido e o troco, uma das minhas maravilhosas fãs cutucou-a e entregou o papel da minha corrida da noite.
Corrida, essa, que eu iria vencer, porque eu sou demais.
null revirou os olhos assim que a garota lhe deu as costas, amassando o papel e jogando na lixeira de qualquer jeito, quase errando devido à sua péssima mira. Eu tenho certeza de que tinha uma foto muito sexy minha no folheto, mas, talvez, a cara feia do meu adversário profi-babaca-ssional a tenha assustado.
O que eu estava falando? Balela. Ainda era tudo sobre o blá, blá, blá de irresponsabilidade no volante.
Ela soltou um suspiro resignado, como se a lembrança da minha existência fosse algo que realmente a incomodasse, e quase não notou o atendente da lanchonete acenando atrás de si para lhe dar os seus pedidos porque eu cruzei seu caminho naquele momento.
Ela me deu seu tradicional olhar zangado e raivoso, mas foi interrompida pelo atendente, que resolveu berrá-la para chamar sua atenção. Eu nem me incomodei, continuei meus afazeres habituais, perturbar e sacanear a qualquer um que pudesse me irritar.
Porque eu podia.
null pegou sua comida e se sentou encostada em uma árvore perto da entrada do prédio da faculdade, talvez na esperança de ver null passar na saída ou de que ele fosse falar com ela mais uma vez antes de ir, mas se distraiu com o livro que abrira em seu colo e não o viu passar. Ele, preocupado em terminar de fazer as malas, também não a viu.
Eu era o único ligado na situação e vi os dois.

— BRIGA! BRIGA! BRIGA!
O grito ecoou por todo o campus apenas alguns momentos depois, fazendo null levantar os olhos do seu livro, olhando ao redor para saber o que estava acontecendo e tornar-se a defensora da paz e da tranquilidade que tinha nascido para ser.
Minha primeira aparição nessa história. Por favor, não se apaixonem tanto.
E lá estava eu, rindo em toda a minha glória, com um bando de gralhas ao meu redor e null caído à minha frente, a mão na boca exatamente onde meu punho estivera. Esperava que ele tivesse perdido um dente ou dois, mas quando ele afastou a mão, eu pude ver que só tinha um pouquinho de sangue. Ele estava sendo apenas frouxo mesmo.
— O quê? — null apareceu, empurrando as pessoas da roda que se formara ao redor de mim e de seu amigo, apenas para lançar um olhar resignado ao encontrá-lo estirado no chão.
Minha vontade era dizer: Sim, baby, ele é um babaca e um fracote. Não dê atenção a ele. Dê para mim. Quis dizer a atenção, mas se você quiser outra coisa...
Mas não disse e ela também não me daria ouvidos, então ela apenas ajoelhou-se ao seu lado, parecendo devidamente preocupada e checando seus lábios com cuidado e atenção.
— Eu estou bem, null, me deixe — ele murmurou, zangado.
Cerrei os olhos. A garota não tinha culpa da incompetência e falta de habilidades físicas dele. Ou simplesmente não ter nenhum tipo de hombridade de permanecer em pé e revidar quando apanhava. Eu estava esperando uma luta quando impliquei com ele, não um massacre. Estava me sentindo um pouco envergonhado, até. Dele. Não de mim, porque minha perfeição nunca teve limites e eu não fiz nada vergonhoso.
— Quem você pensa que é? — null virou seu rosto zangado em minha direção e antes que pudesse terminar a frase, estava de pé, o dedo em riste apontando para mim.
Eu não contive o meu sorriso e cutuquei null, meu fiel companheiro, com o cotovelo. Como nos entendíamos assombrosamente bem, null sabia a minha piada antes que eu pudesse dizer e já estava rindo dela.
— Veja só, o idiota do null precisa de uma garota para defendê-lo! — eu ri também porque era muito engraçado.
Patético, na verdade. Se eu tivesse uma garota dessas, amiga ou algo mais, ela ficaria bem revoltada atrás de mim, enquanto eu lutaria as batalhas dela por ela, se assim quisesse. E continuaria inteira. Para a minha própria apreciação depois.
— Mas você não tem escrúpulos mesmo! — ela berrou, apertando a mão que não apontava para mim na latinha de refrigerante que havia comprado na lanchonete.
null estava irada. Seus olhos estavam cerrados, as mãos estavam tentando fechar-se em punho, suas narinas inflavam enquanto sua respiração alterava subia e descia rapidamente os seus maravilhosos peitos.
Ela provavelmente não havia percebido que era o centro das atenções no momento e que alguns caras estavam encarando a sua movimentação graciosa, embora irada, com olhares cobiçadores e queixos caídos. Eu tinha percebido tudo e eu não gostava.
Era estranho, mas me incomodava.
— Ah, linda, você não tem culpa se seu namoradinho não tem culhões pra se defender como gente — eu disse.
Ela abriu a boca para responder, a língua feroz que tinha e com quem eu já havia tido o prazer de discutir algumas vezes, embora nunca tivesse visto perder tanto o controle para a raiva. Porém, sua resposta nunca veio.
— Ela não é minha namorada! — null berrou, logo atrás de si, surpreendendo-a e fazendo com que ela engolisse seja lá o que iria dizer.
Ah, as coisas idiotas que nós homens falamos quando temos nossa masculinidade afetada. Ele provavelmente nem se dera conta de que podia ofender a garota ou que poderia se perder ainda mais em vexame.
Eu achei que a humilhação dele estava concluída e não disse mais nada. Estava um pouco distraído pela expressão decepcionada-irada de null e por seus seios se movimentando ainda por sua respiração irregular.
— Vamos sair daqui, null — null disse.
Ele estava de pé novamente e as pessoas começaram a se distanciar, achando que a briga estava finalizada. Segurou nela pelo pulso, mas ela sacudiu o braço, afastando-se do aperto. null, ao meu lado, bocejou.
— Você pode ir sozinho — ela disse, calmamente.
null piscou, em dúvida sobre o a tranquilidade que ela tentou passar pela sua voz, mas sem conseguir esconder toda sua hostilidade e ironia. Pobre garoto, apenas concordou com a cabeça, tendendo a pensar o melhor dela.
Ele estava encrencado. Ela já devia estar bastante zangada por estar ficando abandonada em mais um verão e ele havia acabado de estragar tudo, mas não era esperto o suficiente para ver.
— Tudo bem — disse.
E, empurrando as pessoas, sumiu de vista. Assim que ele se foi, voltei a encarar null, que estava tomando mais um gole de sua Pepsi pelo canudo, planejando voltar a ficar invisível logo em seguida.
— O que você está olhando? — ela questionou, claramente revoltada por estar chamando atenção.
O sorriso foi aos meus lábios antes mesmo que eu pudesse controlá-lo. Ah, eu sabia muito bem o que eu estava olhando. Eu estava vendo uma das garotas mais gostosas que meus olhos já haviam batido sobre.
Seus cabelos eram de um tom escuro, muito preto e quase ninguém conseguia aquele tom natural. Seus olhos eram grandes, em um castanho especial, que poderiam capturar qualquer um por uma eternidade, sem nem causar cansaço ou tédio e a sua pele era dourada, de quem passava horas deitada nos vastos gramados do campus, lendo e fazendo seus trabalhos, não querendo retornar para a solidão da sua casa.
E as curvas, ah, as curvas. Ela não era exatamente magra, o que era muito bom, porque suas curvas eram muito mais bonitas. Tinha a cintura definida pelo quadril largo, seguido das coxas grossas, que eu já tinha reparado que raramente ficavam desnudas por aí. Seus seios eram simplesmente deliciosos, grandes, bem do jeito que eu gostava.
Uma beldade à minha altura, embora desacreditada. Uma boa dose de autoconfiança e nós poderíamos ser Romeu e Julieta, sem as mortes e sem a família. O ódio ficaria por nós mesmos.
Mas descontaríamos na cama, é claro.
— Seus peitos — eu respondi, deliberadamente.
Sem resposta pela segunda vez nos últimos minutos, null abriu e fechou a boca várias vezes, enquanto null ria ao meu lado e eu exibia o meu mais irritante e charmoso sorriso só para ela.
Algumas pessoas ainda estavam olhando a cena de longe, mas a maioria havia perdido o interesse quando null se afastara para o ponto de ônibus. Perto, rodeando mesmo, estávamos apenas nós três, null, eu e null, e mais dois rapazes que pareciam querer comer null com os olhos, além de uma garota — a peguete atual de null.
O que foi bom, visto que null jogou todo o resto de sua Pepsi bem na minha cara.
Estufei o peito, tentando manter a calma, enquanto null segurava a respiração, sem saber o que fazer. Minha reação mais natural era dar um soco na pessoa que me irritava e se ela passava dos limites, como null havia acabado de fazer, eu podia bater um pouco mais.
Mas era null. Era uma garota, muito gostosa, por sinal, e sem nenhuma chance contra mim. Nenhuma.
E eu não queria machucá-la, também. Não queria bater nela, nem espancá-la ou matá-la. Eu só estava com raiva, muita raiva, principalmente do seu sorriso convencido ao segurar a latinha com os dois dedos e derrubá-la no chão antes de pisar, uma metáfora clara de que era o que ela queria fazer com isso.
Eu deveria ter dito: Sim, baby, pode pisar em mim a hora que quiser. Na minha cama ou na sua, com saltos altos e o sapato pode ser vermelho. Vou adorar.
Mas o que eu fiz foi levar minhas duas mãos à costura da sua blusa no decote e puxá-las à extremidade, arrebentando-a bem ao meio e me dando uma visão maravilhosamente deliciosa dos seus seios cobertos apenas por um sutiã de renda rosa.
Rosa. Eu nunca imaginaria que ela era uma garota do tipo rosa.
A boca de null caiu antes que ela pudesse puxar as duas bordas rasgadas da sua blusa uma contra a outra, se apertando em um abraço envergonhado, enquanto suas bochechas ganhavam um tom rosado que me lembravam da cor de sua lingerie.
Ao redor de nós, null e os outros dois garotos estavam quase uivando à visão, o que estava me dando coceira nas mãos. Havíamos chamado a atenção de mais gente, outra vez, mas estavam apenas virando os rostos e entortando pescoços para ver se ainda estava interessante ou não.
— Você rasgou minha blusa! — ela exclamou o óbvio.
— Você jogou seu refrigerante em mim. — eu retruquei — Temos um impasse.
Por uma eternidade, nós dois nos encaramos, avaliando o potencial inimigo (eu confesso que estava avaliando outras coisas, mas null cerrava os olhos para mim e eu cerrava para ela porque... Bom, porque sim). Ela estava furiosa, envergonhada, revoltada, decepcionada e queria descontar tudo em mim. Eu não era o tipo de cara que gostava de levar na cara sem bater, mas gostava de travar minhas batalhas à altura, na maior parte do tempo. E socos não seriam nem perto de à altura com ela. Gostaria de sugerir um campo mais neutro.
— Acho que teremos que jogar os dados — eu disse.
Depois de correr, era uma das coisas que eu mais gostava de fazer, e ter as duas coisas quase sempre juntas era um júbilo sem fim. Era ótimo ganhar meu próprio dinheiro, fazendo apostas altas ao meu favor. Eu tinha feito uma grana muito boa assim, visto que durante os meus três anos na faculdade, eu nunca tinha perdido nenhuma corrida. Trinta e sete corridas, eu tinha comprado um carro novo com meu próprio dinheiro e não tinha que fazer contabilidades para saber se eu estava apertado ou não. Eu nunca estava.
— Jogar os dados? — ela me perguntou, devidamente confusa.
Sua raiva estava subjugada pela confusão e pela vergonha. Ela estava apertando os pedaços da blusa ao seu redor e olhando para os lados, como se procurasse alguém olhando para que ela pudesse lançar seu pior olhar maligno.
— Apostar.
Naquele momento, eu sorri porque eu encontrei minha motivação para vencer. Ah, eu sabia o prêmio que eu queria e era muito melhor do que dinheiro.
— Sua corrida? — ela questionou, com um sorriso irônico.
— É claro — eu lhe respondi.
null estalou a língua, ponderando minha proposta. Mexeu os braços de forma tensa ao redor de si, querendo que a blusa ficasse presa por si só e eu já estava quase arrependido, mas o meu pensamento sobre minha premiação estava me levando aos céus.
Ela.
Ao meu dispor.
— Se você perder — ela sussurrou, me impressionando ao aceitar tão rápido, provavelmente para resolver adiar logo nosso enfrentamento e ela poder se vestir apropriadamente. — Você nunca mais vai participar dessas corridas ou bater e implicar com qualquer pessoa no campus.
Claro que ela queria e achava que eu perderia aquela corrida. Estavam todos achando que eu não era o suficiente para vencer o profissional idiota, mas eu era. Ainda mais agora.
Porém, seu pedido me chocou. Eu estava disposto?
Ah, mas que diabos, estava sim. Que os dados rolassem.
— Se eu vencer, quero que você passe suas férias comigo.
O pedido pegou-a desprevenida e eu a vi avaliar mentalmente se aquela era uma ideia de todo o ruim, não ficar trancada em casa pela primeira vez desde que o pai se casara de novo, mas o problema era que ela era uma espécime zangada de mulher.
— Mas são três meses! — ela resmungou.
— O meu é para sempre e você me vê reclamar? — perguntei. — O que foi, está com medo de perder?
Porque eu não estava, e, ao vê-la cerrar os olhos, eu sabia que ela havia encontrado sua própria certeza. Porém, minha motivação estava no céu e o poder de mudar o jogo era meu. Eu que correria. Se eu perdesse, eu perdia tudo. Se eu ganhasse, eu ganharia tudo.
Corridas, apostas e null. Parecia soar muito bem.
— Te vejo na rua — ela me disse, com os olhos ainda cerrados.
Sorri-lhe e ela virou as costas para se afastar. Rapidamente, coloquei minha mochila aos meus pés e a abri, me abaixando.
— Ei, null! — chamei.
Assim que ela se virou, joguei minha camiseta de botões que eu havia colocado por cima da branca naquela manhã, mas o calor não deixara que eu continuasse a utilizar. Ela pegou-a no ar, com as duas mãos, me deixando ter um deslumbre de seu sutiã rosado mais uma vez.
Seu olhar encontrou com o meu, confuso com uma demonstração de piedade, e eu continuava sorrindo despreocupada e convencidamente.
— Não vai me dar um beijo de boa sorte? — eu questionei.
Ela cerrou os olhos, sem entender qual era toda a minha tramoia naquela situação.
— Merda pra você! — disse o cumprimento comum dos artistas, passando os braços pelas mangas da camisa e virando-se de costas novamente, indo embora.
E eu ri porque eu sabia que seu desejo era literal.

Capítulo Dois

Cintos

A cidade de Jataí tem cerca de cem mil habitantes, e fica muito menos jovem quando grande parte de seus dois mil estudantes universitários terminam o período e vão embora para suas respectivas casas. Porém, há uma última noite especial antes que a rodoviária se enchesse de vida e desespero, despedidas, alguns para sempre, outros indo e voltando repetidas vezes, incapazes de fechar todas as suas matérias do curso e conseguirem tirar seu diploma.
O maior evento da última noite especial, durante os quase três anos que eu estava na faculdade e os meus seis períodos, era a minha corrida.
As corridas de racha, embora proibidas, acabaram se tornando uma pequena febre na cidade de Jataí, alguns anos antes que eu ingressasse na faculdade. Não éramos muitos alunos ou muitos corredores — e alguns nem estavam na faculdade -, mas o suficiente para que eu nunca tivesse enfrentado duas vezes nenhum adversário em minhas trinta e sete corridas. Logo no meu primeiro período, eles perceberam que eu era uma espécie de estrela dos rachas e, então, me davam as corridas de abertura e encerramento do circuito semestral.
Porém, agora, estava um pouco escasso de adversários e me arrumaram um corredor de kart profissional para ver se eu perdia ao menos uma vez.
Cagões. Morrendo de medo de correr comigo e me arrumaram alguém fora do circuito para ver se eu caía e aí eles iam poder rir de mim. Como se eu sequer fosse deixar algo assim acontecer.
— Quanto? — null me perguntou, ao me ver sair do banheiro da oficina. Ele estava curvado sobre o carro e eu podia ver meu cartão do banco encaixado no bolso traseiro de sua calça.
Quanto? Eu me perguntei. Bastante. Quanto mais estivesse em jogo, mais eu estaria disposto a me quebrar inteiro para conseguir. Já tinha bastante coisa na mesa, mas eu queria mais. Eu sempre queria mais.
— Coloca uns três — eu disse. — Vou vencer essa de longe. Quero faturar.
null me encarou como se eu tivesse cheirado uma mão cheia de pó e estivesse completamente doidão. Dei uma sacudida no casaco de couro que eu vestia e me abaixei um pouco, olhando minha beleza perfeita no espelho, ignorando-o completamente. Mas, claro, ele não desistia assim tão fácil.
— Três mil? — questionou-me, ainda preso na teoria de que eu estava louco ou drogado.
Revirei os olhos para mim mesmo no espelho, minha paciência já era bastante curta, e null tinha a mania irritante de levá-la ao limite do improvável. Deus sabe quantas vezes eu já não estive perto de tirar a pele dele e pendurar na minha sala de estar só para a apreciação do meu ego.
— Três mil — repeti. — E veja se null já chegou.
Vi null franzir a testa pelo espelho, mas fez a escolha sábia de não me atormentar mais e saiu do camarim.
Certo, eu queria ser bem sincero aqui. Eu tinha a consciência do quanto eu era foda e especial, mas isso não me impedia de sentir aquele nervoso e frio na barriga antes de qualquer corrida. E daquela, em especial, que tinha bastante coisa em jogo e parecia ser difícil.
Adrenalina, repeti para mim mesmo mentalmente, é só a adrenalina fazendo o que ela tem que fazer.
Meu olhar recaiu sobre o embrulho em cima da cômoda e eu balancei a cabeça, tentando não pensar mais sobre null, sobre apostas ou sobre vitória ou derrota. Só eu e meu corpo.
Com o dela. Na minha cama.
Não. Eu balancei a cabeça, sabendo que esses pensamentos só piorariam assim que eu colocasse meus olhos nela outra vez. Estava me perdendo em desejos que eu ignorara desde a primeira vez que eu colocara meus olhos sobre ela, em minha décima vitória, quando desci do carro para comemorar com algumas bebidas e arrumar alguma garota para levar para o meu apartamento.
Ela.
Lembrava-me de chegar nela para oferecer uma bebida e passar os seguintes dez minutos com ela me falando sobre tudo o que ela achava acidentes de trânsito e violência em cidades pequenas era. Em algum momento, eu me cansei, lancei um sorriso, virei as costas e deixei-a falando sozinha.
Foi a primeira vez que uma garota me enfrentou e me disse não. Aquilo me esquentou por dentro e eu enchi a cara naquela noite. Na semana seguinte, me peguei procurando-a pelos corredores, prestando atenção nos seus trejeitos e manias e me senti um merda completo por estar tão obcecado.
Não apaixonado, apenas obcecado com a ideia de me enfiar no meio das pernas dela. E achei que seria adequado deixar para lá, em vista de todos os seus olhares revoltosos em minha direção.
Era completamente frustrante.
Até agora. Eu tinha a minha oportunidade, estava pegando-a. Era, provavelmente, minha única chance. null e eu no meu quarto na fazenda do meu pai por três meses, ela sendo obrigada a conviver comigo... Iria ceder.
Tudo dependia daquela corrida.
Três mil reais e os lucros. Se as apostas fossem boas e se todos estivessem apostando, mesmo, no babaca do profissional, eu poderia chegar a ganhar dez mil reais. Dez mil reais, vencer um profissional, permanecer invicto e null. Parecia um ótimo prêmio.
Fechei os olhos e respirei fundo, várias vezes, tentando manter a calma para ter a mente limpa e fazer uma ótima corrida. Eu precisava vencer, precisava de foco e vitória. Era a única coisa que parecia funcionar com perfeição na minha vida e eu precisava disso.
null retornou antes do que eu pensava e passou direto pela minha concentração, guardando meu cartão de volta na minha carteira, na sacola abandonada no chão do oficina.
— E então? — questionei.
Ele levantou o olhar para mim, meio avoado e perdido, sorrindo aquele sorriso idiota que costumava convencer a todos que tudo estava maravilhosamente bem e fazer todas as garotas caírem aos seus pés naquela inocência fingida que logo se substituía por safadezas.
— Três mil, cara. — ele disse. — Tá um contra dez. Se você ganhar essa porra hoje, mano, vai ser uma grana louca. Até coloquei uma graninha minha também, pra ver se eu faturo um pouco, mas, se você perder, eu te mato.
Eu torci a cara, porque não era disso que eu queria saber. Isso eu já tinha captado no ar, mesmo sem suas informações animadas sem motivo algum. Eu queria era a outra parte da informação.
null?
null riu de uma forma totalmente irritante, se levantando para sentar no banco do motorista, fazendo os ajustes básicos para que eu não precisasse fazê-los quando fosse até lá. Ele levantou uma sobrancelha para mim, como se me desafiasse de alguma forma a explicar meu comportamento tão hostil durante o dia inteiro.
Eu estava nervoso, merda!
— Você está caidinho por essa aí, né? — ele se riu todo. Cerrei os olhos em sua direção, mas ele não se abalou. Eu apenas achava que eu dava confiança demais a ele e ele estava começando a acreditar que eu não ia estourar minha mão na cara dele em nenhuma circunstância. — Tá aí, uma gata. Saiu de casa pra matar alguém do coração hoje.
Cerrei ainda mais os olhos, minha cabeça maquinando rapidamente o porquê de uma garota que gostava de se esconder havia se vestido para matar, de acordo com null. Talvez ela estivesse com raiva do amiguinho e sua performance naquela tarde e quisesse encher a cara e se vingar transando com qualquer um — que eu certamente ia cuidar para que fosse eu -, ou talvez ela tivesse percebido o meu olhar quando rasguei sua blusa...
— Você acha que ela pode estar tentando me distrair? — questionei, rapidamente, sem poder conter meus pensamentos.
null franziu a testa, ainda com o sorriso irritante e convencido no rosto. Foda-se. Eu estava mesmo embasbacado pela garota e de nada me adiantava ficar escondendo isso do meu melhor amigo. Assim, talvez, ele me ajudasse em alguma coisa útil em vez de ficar rindo às minhas custas.
— Você já está distraído feito um idiota — ele disse, rindo. — Quando vir o decote dela, já era.
— Traga-a aqui — eu disse, sem nem pestanejar. null abriu a boca para retrucar, mas eu não permiti. — É melhor que eu a veja agora que na rua, se é assim.
Ele revirou os olhos e se levantou, dando um tapinha amigável em minhas costas, o sorriso irritante se fora para que um mais complacente e companheiro tomasse o seu lugar.
— Cara, boa sorte — ele disse. — Com ela e com a corrida.
Balancei a cabeça em concordância e ele se foi novamente. Suspirei e balancei a cabeça, tentando controlar minha ansiedade, que eu não sabia mais se era por null ou pela corrida, e era melhor eu me controlar, porque qualquer descontrole poderia levar a um errinho que me prejudicaria demais. Peguei o embrulho em cima da cômoda e coloquei-o no braço da poltrona e sentei-me, tentando relaxar. Eu tinha cerca de quinze minutos antes que me convocassem para sair da oficina e em vez de manter a calma, eu havia pedido uma encomenda de uma bomba.
Ela entrou bastante zangada no camarim, esfregando o braço por onde null provavelmente a segurara e a arrastara por ali. Meus olhos arregalaram-se ligeiramente ao se depararem com a forma com que ela se vestia, porque eu nunca havia visto nada parecido nela.
Para começar, ela estava de vestido, e isso já era difícil por si só, mas não era um vestido qualquer. Era um daqueles que mostravam quase mais do que o necessário. Seus seios estavam marcados por um decote apertado que os delineava deliciosamente para a minha apreciação, assim como a cintura, marcada apertada. Dali para baixo, seu vestido se abria, mas não muito. Era curto o suficiente para que eu pudesse admirar suas coxas grossas em meia-calça sem fazer muito esforço.
— Seu amigo é quase tão idiota quanto você — ela ronronou em minha direção, parecendo irada, como sempre ficava comigo.
Eu já tinha desmontado minha expressão de surpresa para uma mais parecida com surpresa agradável e sustentava um sorriso admirado, tentando não desviar o olhar para muito longe de seu rosto, embora seu corpo estivesse clamando pela minha atenção.
Se ela esperava que eu me distraísse com aquilo, bom, ela estava certa. Mas a promessa de três meses com tudo que ela exibia ao alcance dos meus olhos e, quem sabe, das minhas mãos, me fazia voltar para o lugar, ainda mais agora que eu tinha um vislumbre mais detalhado do prêmio.
— Tome — eu disse, lhe oferecendo o embrulho que estava no braço da poltrona.
null franziu a testa e caminhou em minha direção, seus sapatos fazendo um barulho maravilhoso ao entrarem em contato com o piso do camarim, seu vestido serpenteando ao redor, exibindo cada vez mais pedaços de suas coxas. Estranhando, ela pegou o embrulho de minhas mãos e abriu com delicadeza, tirando uma blusa extremamente parecida com a que eu rasgara naquela tarde, o que lhe provocou um levantar de sobrancelhas e uma expressão surpresa.
— Nossa, isso aqui é novidade — ela disse. — Você tem um coração, afinal de contas.
Eu queria me levantar, puxá-la para mim e beijá-la. Eu tinha certeza de que, com aquele salto, ela estava com quase a minha altura, maravilhosa e poderosa, com aquela boca nervosa e rebelde que eu queria na minha (e em outras partes do meu corpo). Tentei amaciar meu olhar bobo e admirado, mas provavelmente sem muito sucesso.
— Você me tirou do sério e eu fui um idiota, te deixei em apuros — eu disse. — Roupa só se rasga entre quatro paredes, mas essa é a primeira vez que nós ficamos sozinhos nessa condição, não é?
null deixou o queixo cair ligeiramente e me curvei para frente, fazendo-a se sobressaltar com o movimento inoportuno, mas eu apenas caminhei até o carro e entrei no banco do motorista.
— Te convenço a correr comigo? — perguntei, com um sorriso. Ela negou com a cabeça veementemente, os olhos arregalados de medo. — Bom, então você pode me ajudar com meu cinto? — perguntei, inocentemente.
Ela mordeu o lábio, parecendo não muito contente com a ideia, mas seu olhar recaiu na blusa que ela segurava em suas mãos. Isso mesmo, uma gentileza por outra gentileza. Ela soltou um suspiro rendido e concordou com a cabeça, então na minha própria perna.
Mesmo contrariada, ela sentou-se sobre minha perna, quase na beirada, seu vestido ficando perigosamente mais curto e meu olhar podia ficar bem direcionado às suas coxas, sem que ela percebesse minhas intenções completamente sexuais.
— Eu não sei como — ela sussurrou, muito mais dócil do que qualquer outra vez que tinha dirigido a palavra a mim.
Levou as mãos a um dos pinos do cinto e começou a encará-lo como se fosse algum tipo de monstro incompreendido, me fazendo rir. Encaixei minha mão sobre a dela, tomando a posse e mostrando para ela.
— São dois — eu lhe disse. — É segurança extra.
Ela levantou o olhar aos meus olhos, um pouco confusa. Com um assombro, percebi que os pelos do braço dela estavam arrepiados com a nossa proximidade e me remexi, desconfortável, sentindo meu corpo gritar para agarrá-la ali mesmo e esquecer a merda da corrida. Respirei fundo, sentindo-a puxar um dos cintos e tentar esticá-lo, para prender sobre o meu corpo.
— Você o prende normal — eu lhe avisei. — Só cuidado para não trocar. Esse é o de baixo.
Ela concordou com a cabeça mais uma vez, escorregando o pino para o encaixe certo, com todo o cuidado. Nervoso e quase começando a transpirar, percebi que suas mãos estavam tremendo.
Ei, baby, há quanto tempo você não ficava assim tão perto e íntima de um cara tão gostoso quanto eu?
— Agora o outro — sussurrei.
Ela estava calada demais, nem parecia a null que eu conhecia. Concordou com a cabeça mais uma vez, sem dizer nada, e encaixou o outro pino com cuidado e zelo, parecendo bastante concentrada e deixando mãos em meu corpo por mais tempo que o necessário, trincando o maxilar. Aquilo era muito melhor do que qualquer vez que null tivesse feito com toda a sua vontade de apertar com bastante força e brutalidade até que eu não sentisse mais minha circulação.
— Eu acho que assim está bom — ela disse, timidamente.
Céus, toda aquela tensão sexual emanando de nós dois, eu mal podia me controlar e ela não parecia muito disposta a oferecer resistência. Forcei meu corpo para frente, fazendo com que ela suspirasse e nossos lábios estavam quase se encontrando...
— Vamos, null, tá na hora! — bateram na porta.
Puta que pariu!
null saiu do transe em que estivera ao me ajudar com meu cinto e sumiu da oficina, batendo os pés de volta para a portinhola que levava a rua e eu não tive escolha a não ser colocar meu capacete e clicar no controle que abria a porta da garagem, dirigindo para fora dela.
— Nosso campeão invicto null null! — anunciou nos alto-falantes.
Era sabido ser uma atividade proibida e perigosa, mas contanto que nós molhássemos as mãos dos policiais com uma porcentagem das apostas, podíamos fazer o que quiséssemos. Jataí não era uma cidade tão grande assim e nós fazíamos os rachas em uma área pacata da cidade, uma vez por semana, nem sempre na mesma localidade. Então, às vezes, tínhamos carros de som e alto-falantes.
null fez um sinal de legal para mim e eu estacionei ao lado dele, ouvindo o meu concorrente ser anunciado naquele momento.
— Ei — chamei-o, que se debruçou na minha janela como uma prostituta, me fazendo revirar os olhos — Consegue null para a bandeirada?
Ele negou com a cabeça com uma risada, mas foi-se mesmo assim. Parou ao lado de um dos caras da organização, apontou para null e eu o vi concordar com a cabeça. Uns dez segundos depois, vi-a sendo arrastada — e reclamando a plenos pulmões -, e ser colocada entre os dois carros, arregalando os olhos em susto para a situação em que eu a colocara. Apertei minha buzina e chamei sua atenção, mandando um beijo no ar, o que ela respondeu me oferecendo o seu dedo do meio.
Ah, mas eu sabia que ela estava se corroendo por dentro. Eu estava me corroendo por dentro e eu ia jogar toda a minha frustração naquela porcaria. Não tinha para ninguém ali!
Foco. Eu repeti para mim mesmo. Entregaram uma bandeira para ela e avisaram que era para abaixar ao sinal e, de longe, eu podia ver que ela não estava gostando nem um pouco da brincadeira.
Soou o som e, mesmo contrariada, o susto fez com que null abaixasse a bandeira. Acelerei com vontade, já me preparando para a primeira curva.
O circuito do racha não era uma reta, como era o mais comum. Ele era um quarteirão, terminando no exato ponto onde começava.
Peguei vantagem na primeira curva e senti o idiota dando uma encostada na minha traseira e avancei ainda mais, derrapando na segunda curva e vendo-o, distraído, passar direto para o quarteirão seguinte. Gargalhei, dando uma ajeitada na marcha e continuei. Quando alcancei a reta da linha de chegada, podendo visualizar null mais uma vez, foi que ele apareceu no meu espelho retrovisor.
Aí já era.
Cruzei a faixa e freei, pulando do carro para identificar null a uns cinco metros dali, me olhando com um tom maligno nos olhos e uma bebida que parecia bastante forte em suas mãos.
— E permanecendo invicto no circuito, o Senhor null null! — o locutor anunciou, ao mesmo tempo em que null levantou meu braço ao ar.
Sim! Eu venci!
null estava dando pulos de alegria bastante ridículos ao meu lado, provavelmente contente com o dinheiro que havíamos acabado de ganhar, mas, ao desviar os olhos dele, encontrei null, entornando todo o resto da sua bebida de uma vez só, antes de deixar os olhos dela voltarem a mim.
Em um assombro de praticidade, atravessei a rua, vendo o idiota do profissional estacionar, bufando pelas ventas, e fui até ela, deixando um beijo estalado em seus lábios com gosto de vodka, ao que ela correspondeu arregalando os olhos e dando dois passos para trás. O que eu podia fazer? Era a porra da adrenalina!
— Amanhã de manhã eu passo na sua casa para te pegar! — eu disse, mais animado do que eu queria parecer.
E aí eu fui comemorar com meu melhor amigo e tomar uns drinques, mas sem tirar os olhos dela a noite inteira.

Capítulo Três

Camisa

Eu provavelmente não queria dizer que estava nervoso, mas havia uma certa possibilidade de que eu estivesse, sim.
Era muita pressão e, principalmente depois da noite anterior, eu não sabia exatamente o que esperar de null. Ela era uma caixa de surpresas que me tirava do sério e me enchia de tesão em horas impróprias. Na verdade, ela era toda imprópria e eu estava ficando completamente maluco com a expectativa de passar as férias inteiras com ela.
Certamente, era a melhor ideia que já havia tido e eu estava completamente surpreso dela ter cedido e aceitado tão facilmente.
Havia me corroído a noite toda, sem saber como que eu levaria essa situação adiante, girando de um lado para o outro na cama, sonhando, nas poucas horas de sono e muitas acordado, com seu corpo maravilhoso e com seus lábios, dos quais eu pudera ter uma prévia após minha vitória estarrecedora da noite anterior, que estava nos levando para esse ponto, agora.
Nós passaríamos as férias inteiras discutindo como havíamos feito em cada singular vez em que trocamos palavras nos últimos três anos ou eu finalmente iria fazê-la ceder e deitar-se ao meu lado da cama?
Ah, eu torcia pela segunda opção. Talvez, depois disso, eu finalmente conseguiria me livrar dessa obsessão ridiculamente ácida que parecia comer pedaços meus por dentro toda vez que a olhava sem poder tocar. Passar por cima disso, superar aquelas coxas maravilhosas. Acho que eu ia gostar disso.
E lá estava a minha pessoa, parada à porta dela poucos momentos após o relógio bater sua oitava hora do dia, tendo dormido pouco mais de três horas e com um cronograma para dirigir por toda a manhã e ainda uma parte da tarde. Estava torcendo para que null estivesse zangada o suficiente para me manter acordado durante o trajeto sempre tão tedioso.
Cinco horas de viagem. Com a companhia mais gostosa que eu poderia encontrar.
Apertei o botão da campainha e coloquei as mãos nos bolsos da calça, me sentindo um pouco deslocado. Grunhi, internamente, para mim mesmo; estava parecendo um pré-adolescente desesperado por sexo, o que eu certamente não era.
A porta se abriu com um estalo, deixando que eu visse uma null descabelada e coçando os olhos, completamente semiadormecida e confusa. Ao me ver, ela grunhiu, irritada.
— Quando você disse de manhã, eu não sabia que era tão de manhã assim. — ela resmungou, seguido de uma frase sobre ter sido acordada pelo porteiro, dois minutos antes, ao qual eu não prestei atenção.
Eu teria uma resposta ácida na ponta da língua, mas eu havia ficado completamente distraído e, dessa vez, não era por causa do corpo dela (ok, talvez um pouco) ou do quanto ela me deixava maluco ou com raiva.
Tinha mais a ver com o fato dela estar vestindo a minha camisa, a que eu havia emprestado para ela no dia anterior, quando eu rasgara sua blusa. Deixei meu queixo cair e arqueei a sobrancelha, tentando não parecer tão babaca assim, engolindo a seco e fechando a boca.
Minha sorte era que ela estava lerda pelo sono e não percebeu minha falha momentânea de sistema. Mas que cacete de culpa eu tinha quando ela simplesmente me surpreendia dessa forma? E ainda conseguia parecer tão linda e adorável, mesmo tendo acabado de acordar?
E, ah, ela ficava ainda melhor que eu naquela camisa. Ponto para ela.
Ela escorregou para o lado e eu entrei em seu apartamento, notando tudo impecavelmente arrumado. Ela simplesmente me deixou à porta e saiu andando pela sala, exibindo perigosamente suas coxas enquanto caminhava. Confesso que me curvei um pouco para ver se ela estava usando algo além do que a minha camisa e, acreditando que não, eu fiquei com inveja daquele meu pedaço de pano.
— É essa, a minha camisa? — a pergunta saiu meio esquisita e embaralhada, tal como os meus pensamentos estavam.
Ela parou à porta do cômodo que eu acreditava ser o banheiro e virou-se para mim, olhando para a camisa que vestia como se estivesse reparando nela apenas naquele momento. Pela sua cara, ela nem tinha noção que estava vestindo tão pouco quando fora abrir a porta e eu vi suas bochechas ganharem o mesmo tom rosado de quando eu rasgara sua blusa, na tarde anterior.
Eu abri o meu sorriso mais radiante.
— Se eu disser que eu tinha uma igualzinha, você acreditaria? — ela questionou, ainda parecendo incomodada de ter sido pega no flagra.
Eu não pude segurar minha gargalhada, com alguma coisa que parecia estar se revirando em meu estômago. Deixei-me emanar alguma espécie de orgulho próprio por, não só ela estar vestindo minha blusa, mas por eu tê-la pego usando, com todas aquelas pernas maravilhosas de fora.
— Só se você disser exatamente onde comprou e quanto custou — eu lhe disse, ainda rindo.
Ela torceu os lábios em uma careta e balançou com a cabeça, aceitando a derrota daquela vez.
— É, não vai rolar — soltou, antes de sumir para dentro do banheiro.
Ri e me peguei mordendo os lábios, encarando a porta fechado do banheiro, mas ainda vendo-a e desejando-a. Eu sentia o quanto eu queria aquela garota dentro das minhas calças — e era uma intensidade que eu nunca havia experimentado antes, que fora se multiplicando pelos anos que passei esperando por aquele momento e por todas as discussões que nós dois já tivéramos.
Era bastante coisa, se você parasse para contar.
Como se toda discussão, toda vez que ela olhasse para o outro lado quando eu passava, todo olhar de repreensão ou sua ausência em minhas corridas fosse mais um não. Mais um não, tal como o primeiro — e único que eu já havia levado. E a cada não, mais maluco eu ficava, mais obcecado para entrar em meio a suas pernas, mais eu ouvia meu nome gemido em sua voz nos meus sonhos.
Balancei a cabeça em represália. Três meses era o suficiente para dobrá-la ao que eu queria e me curar daquela obsessão, então eu devia apenas me acalmar e parar de parecer um panaca, cravado no chão do apartamento dela, esperando ela aparecer pela porta do banheiro.
Olhei ao redor, a estante da sala pegando minha atenção por conter uma série de fotos de uma null que eu não conhecia, além de algumas com seu melhor amigo, que me fez apertar as mãos em punho.
No alto da estante, tinha uma foto dela em uma roupa social em tom pastel, parecia ter uns doze ou treze, ao lado de um homem que parecia ser seu pai. Estava toda certinha, muito mais do que essa versão dela agora, e me fez rir de lado. Havia uma série de fotos assim, ela aparentando ter a mesma idade, ou mais nova. Um pouco mais abaixo, tinha fotos dela um pouco mais velha, com grupos de amigos, parecendo mais descolada, mais atrevida e, em algumas fotos, algumas garrafas de bebida apareciam, duas vezes nas mãos de null. Essa parecia mais com a garota que eu vira na noite anterior, com pernas de fora, decote e divinamente maravilhosa.
Lembrava um pouco a garota que eu havia conhecido e cantado há dois anos, antes dela simplesmente se apagar.
Na época, eu não sabia e só franzi a testa, tentando entender o porquê de ela ter ficado tão diferente de momentos para outros, mas era tudo culpa do babaca do pai dela — e da madrasta também.
— Você não quebrou nada, quebrou? — null chamou minha atenção, fazendo com que eu quase derrubasse o porta-retratos que eu segurava em minhas mãos, uma foto dela com uns doze anos, ao lado de uma garota um pouco mais nova e mais morena com uma praia paradisíaca atrás delas, o que a fez rir.
Coloquei a foto dela de volta à estante com cuidado e virei meu rosto para olhá-la. Ela estava enrolada em um roupão, os cabelos molhados, e carregava minha blusa em mãos, muito bem dobrada. Pisquei longamente, arqueando minhas sobrancelhas com a ideia de que havia somente um nó me impedindo de tê-la, naquele momento.
— Só olhando — tive que buscar minha voz bem no fundo.
Ela cerrou os olhos para mim e pigarreei levemente, tentando fazer meus pensamentos voltarem para a cabeça certa. Eu estava sendo um completo panaca e idiota desde que a vira com a minha blusa, meus pensamentos perdidos em suas pernas ou, como agora, no seu perfume, que impregnava todo o apartamento.
— Certo — ela disse, ainda estranhando. Só então eu percebi que ela esperava que eu lhe desse uma resposta inteligente e ácida, como toda discussão em toda vez que nos falávamos. — Eu vou me vestir e tentar arrumar uma mala.
Corri atrás dela, maquinando algo para destruir a imagem idiota que eu estava construindo naquela manhã.
— Quer ajuda? — perguntei, ao alcançá-la, na porta do quarto. Ela me encarou no batente, segurando a maçaneta pelo lado de dentro, franzindo as sobrancelhas. — Com a parte de vestir, quero dizer. Ou desvestir. Podemos ficar nisso a manhã inteira.
Ela revirou os olhos, mas sorriu. Era como se dissesse Aí está o null que eu conheço. Isso, claro, foi antes dela fechar a porta na minha cara.
— Você ainda está fazendo as malas? — eu perguntei, quase uma hora depois.
Estava ficando entediado. Eu ligara a televisão dela sem nem pedir, mas não estava ajudando muito. Também estava começando a ficar tarde e nós iríamos acabar tendo que comer na estrada, se ela não se apressasse.
— Estou tentando! — ela berrou do lado de dentro do quarto.
Minha paciência acabou e eu meti a mão na maçaneta, entrando em seu quarto sem nem me preocupar se ela iria ficar completamente irritada — o que ficou, pela expressão de seu rosto.
Ela estava mesmo arrumando a mala, sentada ao chão, dobrando peça por peça meticulosamente organizada. Revirei os olhos e soltei o ar, tentando manter a calma com as manias irritantes dela.
— Iria ajudar mais se você me dissesse pra onde vamos! — ela gritou, irada.
Estávamos naquela desde que ela terminara de se vestir. Eu só queria irritá-la porque eu adorava deixá-la nervosa, mas eu já estava conseguindo mais que isso agora. Pela cor de suas bochechas, ela estava puta da vida.
— Pra fazenda do meu pai! — eu disse, não gritando, mas ainda mais alto e forte que seu tom de voz. — São seis horas de viagem. Feliz agora?
Ela congelou por um momento, maquinando o tempo de viagem e o motivo da minha irritação, mas foi só por um momento — aí ela ficou ainda mais zangada porque eu não havia dito antes e isso nos atrasar tanto.
— Não! — ela gritou. — Ficaria feliz de ficar em casa sem ter que olhar para a sua cara feia!
Revirei os olhos porque eu sabia que ela estava mentindo descaradamente. Eu ri, cruzando os braços na altura do peito.
— Sozinha? — questionei. — Mesmo?
Para não ter que me responder, ela me empurrou e fechou a porta na minha cara outra vez.

— Eu tenho certeza de que você está perdido — ela disse, pela sexta vez, o que me fez revirar os olhos.
Eu havia pegado um desvio da rodovia meia hora atrás para passar pela cidade onde eu vivera quando criança, como eu sempre fazia toda vez que passava por ali. Matar as saudades.
Não havia me perdido, nós estávamos mesmo no meio do nada. Eu havia matado a saudade da minha infância e já estávamos a caminho da rodovia novamente, mas ela continuava sendo um pé no saco.
— Não estou. Conheço o caminho — disse.
Ela abriu o guia das estradas de Goiás e passou as páginas rapidamente, tentando encontrar onde nós estávamos, não sendo muito bem sucedida em seu intento.
— Nós saímos da rodovia, passamos por umas duas cidadezinhas ridículas e você me diz que não está perdido! — ela riu, debochando.
Aquilo me encheu. Ela não sabia de porra nenhuma do que estava falando e continuava a reclamar como uma criancinha mimada.
— Minha mãe morreu nessa cidadezinha ridícula, porra! — eu berrei. null congelou, virando meia página, e minha cabeça estava tão virada que eu preferi frear o carro bruscamente a continuar dirigindo naquelas condições. Respirei fundo, apertando as mãos no volante à minha frente, tentando não voltar a ser a criança assustada que eu fora, quando encontrei minha mãe assassinada no caminho da escola para casa por um cara que só queria se vingar do meu pai. Eu tinha uns oito anos e meu pai e eu saíramos dali fugidos, antes que o homem atacasse a mim também. Com o dinheiro do seguro da minha mãe, ele conseguira comprar uma fazenda e os negócios estavam indo muito bem, mas ainda me doía saber que aquilo era o custo da morte dela. — Eu passo aqui sempre que posso. Não consigo me lembrar muito bem dela, então eu me forço a lembrar do lugar.
Respirei fundo e levantei o olhar para null, que ainda estava congelada, olhando para frente, tentando digerir a informação. Ao perceber que estava sendo observada, ela abaixou o rosto, envergonhada, e então olhou de rabo de olho para mim, parecendo arrependida.
— Desculpe — ela sussurrou. — Eu não fazia ideia.
— É — resmunguei e liguei o carro, voltando a fazê-lo andar pela estrada.
Eu provavelmente deveria dizer que estava tudo bem para que ela se sentisse melhor, mas eu achava que estava tudo realmente bem até, meia hora mais tarde, ela ainda estar calada. Nós voltamos à rodovia e eu me peguei olhando-a pelo canto do olho algumas vezes, começando a me sentir mal por ter sido meio duro. Ela percebeu que eu estava olhando-a e escondeu-se em uma leitura da guia de estradas, fingindo que era interessante.
Achei que talvez fosse minha vez de ceder um pouco.
— Desculpe — eu sussurrei para ela, sem tirar os olhos da estrada.
null concordou com a cabeça, também sem tirar os olhos do guia. Soltei um suspiro cansado, aquela coisa esquisita instalada entre nós dois não era o que eu tinha em mente quando sugeri a aposta.
Quase que inconscientemente, querendo quebrar aquele gelo, deixei minha mão escorregar para sua coxa e apertei um pouquinho, sem querer. E, então, fui atingido por um projétil chamado Guia das estradas de Goiás.
— Ai! — eu berrei.
Sacudi minha mão, levando-a de volta ao volante e extremamente chateado. Achei que um pouco de contato humano, falando para ela que estava tudo bem mesmo, ia quebrar aquilo positivamente, mas eu provavelmente só conseguira quase quebrar minha mão.
— O que você pensa que está fazendo? — ela gritou comigo.
Pelo rabo de olho, eu vi o quão irritada ela estava. Parecia a mesma expressão que a fizera fechar a porta na minha cara, apenas algumas horas antes. Ótimo, havíamos voltado para a estaca zero.
— Sendo legal? — eu questionei.
— Sendo um idiota — ela me respondeu. — Estou com fome.
Revirei os olhos e a irritação me fez acelerar o carro um pouco mais. Inspirei profundamente, apertando as mãos no volante e buscando o controle do meu corpo e a frieza de pensamento que eu aprendera a ter nas corridas.
— Já estaríamos em casa se você não tivesse demorado tanto com sua mala — eu disse.
— Eu não teria demorado tanto com a mala se você tivesse me falado para onde iríamos quando eu te pedi! — ela gritou. — Então, eu quero comer.
Meu estômago roncou e eu revirei os olhos porque eu sabia que ela estava certa. Já eram quase duas horas e nós estávamos chegando em Goiânia e ainda faltava quase duas horas até chegarmos na fazenda do meu pai, as duas horas perdidas entre o banho, a mala e o organizando a saída. Eu precisava dizer que era muito mais fácil viajar sozinho e a companhia só me irritara até então.
Mas eu ainda não estava arrependido.
Paramos em um restaurante à beira de estrada, que estava impregnando o ar com seu churrasco, o que me deixara salivando e com o estômago ainda mais revoltado por ter passado tanto tempo sem comer nada. Enchi o meu prato com tanta comida que eu provavelmente voltaria rolando para o carro e era ridículo ao comparar com o de null.
— Você não estava com fome? — eu perguntei.
Ela franziu a testa e concordou com a cabeça, como se fosse óbvio. Não parecia, para mim.
— Você tem Pepsi? — ela perguntou para a atendente, pegando um pedaço de torta de chocolate no balcão. — Espaço para a sobremesa — null me disse.
Mas algo me dizia que ela estava só disfarçando a falta de comida no prato dela por algum motivo.
Sentamos tranquilamente em uma mesa, null com um suco de laranja porque não havia Pepsi no restaurante — o que a fez fazer uma careta bem zangada para a moça do caixa — e eu com um Sprite, já que ela não deixou eu beber cerveja porque estava dirigindo.
Comemos em silêncio, não porque estávamos zangados ou sem nos falarmos, mas porque a fome era tanta que não dava para fazer outra coisa. Eu já podia ver o humor de null melhorando enquanto ela comia, ela mesma arriscou uns sorrisos meio sem jeito quando me pegou olhando para ela.
Fruto da minha mão na sua coxa, talvez?
Eu estava terminando minha comida e null estava dando garfadas ridiculamente minúsculas enquanto assistia ao final do Vídeo Show na televisão do restaurante quando o seu telefone tocou.
— Oi — ela disse, não parecendo muito animada não. — Ué, viajar. Com o null. Sim, esse null — ela soltou um suspiro e afastou o telefone da orelha um pouco, fechando os olhos e deixando as bochechas corarem ligeiramente. — Ele me convidou, ué. Por quê? — ela abriu os olhos, vendo que eu havia parado de comer para observá-la e virou o rosto para o lado, as bochechas ficando ainda mais avermelhadas. — null, não enche. Deixa de ser idiota — eu estava sorrindo por dentro já — Bom, ao menos alguém quer passar as férias comigo, não acha?
Ela desligou o telefone, irada. Meu sorriso exteriorizou, vendo que ela podia ficar irritada com o babaca do melhor amigo dela também. O telefone tocou mais uma vez, mas ela desligou o aparelho, deixando-o em cima da mesa e voltando a pegar o garfo. Só, então, ela viu que eu continuava olhando-a.
— O que foi? — ela perguntou, ríspida.
— Nada — eu respondi.
Mas, por dentro, eu estava dançando.

Capítulo Quatro

Cavalgada

Apenas estava escurecendo e eu já estava cansado. A viagem fora dura, cheia de discussões bobas e frustração sexual para todos os lados. Era mais complicado conviver com null do que eu pensava.
Minha casa estava limpa quando chegamos, o que me fez suspirar aliviado. Isso significava que eu havia feito algo certo naquele semestre e que meu pai não estava zangado comigo, porém, não tinha comida alguma, então deixei null sozinha e fui buscar na casa grande.
Desde quando eu passei a levar garotas para casa, meu pai achou que eu poderia utilizar um pouco de privacidade — e menos constrangimento —, então ele construiu uma pequena casa um pouco afastada da casa grande. Era como o meu quarto, só que do lado de fora. Meu presente de aniversário de dezoito anos, ano em que eu entrei na faculdade.
Não levei tantas garotas ali quanto eu gostaria. null era a quarta, desde então, e a única a qual eu estava planejando que ficasse mais de uma noite. Apesar dos meus planos, ela me dava nos nervos.
Meu pai não estava em casa, então pouco me demorei. Peguei um dos caixotes com rodinhas, duas das empregadas me ajudaram a colocar comidas dentro dele e voltei empurrando-o para o meu quarto-casa, apenas para encontrar null guardando suas roupas no meu guarda-roupa.
Fiquei incomodado por dez segundos, depois de me lembrar de que ela realmente precisaria daquele espaço, se iríamos ficar ali por três meses. Respirei fundo porque não estava acostumado a dividir espaço com ninguém e teria que aprender a me acostumar.
— O que você tem aí? — ela questionou ao me ver passar pela porta do quarto, carregando o caixote.
Coloquei o caixote em cima da bancada da cozinha e comecei a separar as coisas que eu tinha trazido. Aquilo devia ser o suficiente para uma semana, mais ou menos. Dava para sobreviver.
— Comida — eu lhe disse.
Ela esticou a cabeça de onde estava sentada, ao chão, tentando ver o que tinha no caixote.
— Alguma coisa pra jantar? — perguntou.
Concordei com a cabeça e comecei a guardar as coisas de geladeira. null continuou no armário por mais um tempo e eu só a vi, quase uma hora depois, enquanto assistia televisão, passando na cozinha, pegando um biscoito e voltando ao quarto sem falar nada.
O sono e o cansaço da viagem bateram na minha cabeça por volta das nove horas da noite. Espreguicei-me no sofá e me arrastei para o quarto, apenas para parar embasbacado com null.
Ela estava com um shortinho minúsculo de dormir. Não dava para ver muito bem porque ela estava de frente pra mim, lendo um livro qualquer e comendo biscoito, mas já havia sido o suficiente para minha cabeça fraca pelo sono deixar o comando para a cabeça de baixo.
Dei a volta na cama para olhar melhor e estava quase tendo uma combustão espontânea quando null percebeu o que estava acontecendo. Para disfarçar meu momentâneo momento descarado, me joguei deitado ao seu lado na cama, fingindo que estava indo dormir.
— O que você está fazendo? — ela questionou.
Puxei a coberta, empurrando-a para o lado porque eu estava sentindo tanto calor que achava difícil utilizá-la pelo resto da semana. Soltei um suspiro, arrisquei uma olhada para a sua bunda rapidamente e cravei meu olhar no teto.
— Indo dormir — eu disse.
A não ser que ela estivesse disposta a aceitar a minha ideia melhor, dormir era mesmo o que eu ia tentar fazer.
— Eu não vou dormir na cama com você! — ela exclamou, sentando-se sobre os joelhos de frente para mim — Sai! — reclamou.
Ela levou as mãos ao meu peito e tentou me empurrar, sem sucesso algum; apenas fez com que eu ficasse com ainda mais calor por conta do contato. Soltei um suspiro, revirando os olhos, totalmente infeliz de ter perdido a visão da bunda dela, apenas para me pegar olhando para seus seios quase desprotegidos pela blusinha do pijama.
Cara, todas as garotas eram gostosas assim quando estavam indo dormir? Porque, se eram, estava na hora delas fazerem festas do pijama nas ruas.
— É a minha cama — eu resmunguei.
— Mas você tem que me ceder a cama — ela disse, parecendo irritada. — Não é assim que funciona?
Sentei-me também e a proximidade que isso provocou a assustou, fazendo com que ela se encolhesse, jogando o corpo para trás e o mais longe de mim que conseguia.
— Eu acho que já expliquei que comigo é jogando os dados — eu lhe disse, com um sorriso. — Você vai ter que apostar a cama, se quiser ficar com ela.
Ela revirou os olhos e soprou um montante de ar que fez uma mecha de seu cabelo subir e descer.
— Tudo bem — ela disse. Eu estava prestes a sugerir as regras do jogo quando ela fechou a mão em punho. — Pedra, papel e tesoura.
Coloquei tesoura e null colocou papel. Eu sorri, encaixando sua mão esticada entre meus dedos que representavam a tesoura.
— Tesoura corta papel — eu anunciei.
Ela estava quase soltando fogo pelas ventas enquanto recolhia o travesseiro e a coberta, arrastando-se para sair do quarto.
— Certo! — resmungou, antes de sumir.
E eu passei a meia hora seguinte rolando na cama, totalmente de consciência pesada por estar deixando que ela dormisse no sofá. Não consegui pregar os olhos nem por um segundo, por mais cansado que estivesse. Preferia que ela estivesse deitada ao meu lado, mas eu sabia que, ao menos a princípio, aquilo ia continuar como um sonho distante.
Irritado comigo mesmo, levantei-me e fui até a sala, encontrando null vendo TV, sentada, também sem dormir.
— Ei — eu chamei. Ela virou o olhar pra mim, dividida entre a surpresa e a raiva. — Pode ficar com a cama.
Ela deixou a surpresa vencer e a transmitiu em cada poro da sua expressão. Deixou o controle ao seu lado do sofá e se levantou.
— Mas você ganhou — ela disse. — Foi justo.
Eu abaixei a cabeça e coloquei as mãos nos bolos, me sentindo envergonhado à presença dela. Ela estava me impondo sensações que eu pouco havia sido exposto e tirando todo o controle que eu havia adquirido ao meu redor e ao meu corpo.
— Acho que é isso que cavalheiros fazem, não? — perguntei.
Ela sorriu e andou até mim, parado à porta do quarto. Em um impulso, senti seus lábios em minha bochecha de forma doce.
— Obrigada — ela disse.
E sumiu para dentro do quarto, fechando a porta. Soltei um suspiro cansado e balancei a cabeça, tentando fazer com que meus pensamentos voltassem ao lugar, sem muito sucesso.

Acordei com o barulho de pratos se batendo e foi um susto. Sentei-me rapidamente, para encontrar null de olhos arregalados e uma expressão de culpa estampada em seu rosto que já me deixou de bom humor.
— Bom dia, baby — eu disse.
Ela sorriu, as bochechas ligeiramente rosadas, e colocou os pratos que me acordaram em cima da bancada.
— Desculpe — ela disse. — Estou preparando o café.
Espreguicei-me, agraciado, porque eu nunca poderia imaginar que aquilo pareceria tão sexy: era só uma garota preparando o café da manhã em um short minúsculo e blusinha apertada, mas mesmo assim.
Não conhecia o protocolo para aquela situação, eu não me recordava de ter visto meus pais em uma situação assim, mas havia alguns filmes que eu assistira em que poderia encontrar uma situação parecida, então tentei fazer algo que parecesse condizente.
Levantei-me, caminhei até ela, coloquei minha mão em sua cintura e dei um beijo em sua cabeça.
— Obrigado — falei.
Ela levantou o olhar para mim, com um sorriso leve e despreocupado no rosto. Prendi a respiração.
— Obrigada pela cama — ela disse.
Ela me encarou com aqueles olhos brilhantes e eu comecei a escorregar meus lábios até os dela, mas ela se desvencilhou, indo até a pia para lavar as mãos. Soltei um suspiro e encarei a bancada, franzindo a testa para a quantidade de torradas feitas ali.
— Você chamou alguém para comer com a gente? — eu perguntei.
Já estava ficando com raiva, achando que veria o idiota do amiguinho dela na minha casa, mas ela apenas negou com a cabeça. Ao virar o rosto para mim, eu soube por que suas bochechas estavam coradas quando eu acordei, tal como estavam agora.
— Eu exagerei... um pouquinho — sussurrou, envergonhada.
Eu ri, ao mesmo tempo em que ela colocou uma jarra de suco em cima da bancada. Dei a volta no móvel e me sentei em uma das cadeiras, null logo me imitando.
— Bom, eu sugeriria uma competição de comida, mas acho que vai ser covardia — eu disse, me servindo do suco.
null cerrou os olhos para mim quando eu lhe passei a jarra. Sorri, vendo que ela estava irritada outra vez.
— Pra você, não é? — ela disse. — Quem come mais, então.
Ela encheu sua jarra de suco e separou as torradas em três pilhas, uma com cinco torradas e outras duas com uma torre de doze cada, uma para cada um de nós. As regras eram claras, quem acabasse a torre primeiro e comesse três torradas da pilha de cinco ganharia.
Concentrei-me com as minhas torradas e quando cheguei na décima, virei-me para null para cantar vitória, apenas para ver que ela estava comendo o último pedaço da última da sua torre. Deixei meu queixo cair por um momento e isso me distraiu por alguns segundos, o suficiente para ela pegar a primeira torrada da pilha de cinco, com um sorriso vitorioso.
Tomei um gole de suco e engoli as últimas torradas da minha torre e avancei para a minha primeira da pilha de cinco. Só tinham mais três. Engoli a torrada, mas quando avancei para pegar mais uma, só tinha ela e null estava comendo o último pedaço da sua décima quinta torrada.
Uau.
Eu podia apreciar uma garota que sabia comer melhor que eu.
Deixei minha admiração à amostra, enquanto ela bebia mais um gole de suco, quase um copo inteiro de uma vez só. Levantou as mãos ao ar, comemorando a vitória e eu ri, batendo palmas. O que eu poderia fazer, além? Estava completamente embasbacado por ter perdido essa, de todas as outras.
— E então? — eu questionei.
Ela estava bebendo mais um gole de suco e virou o rosto para mim, confusa e sem entender.
— Seu prêmio... — eu disse.
Ela balançou a cabeça em concordância e respirou fundo, levando a mão à barriga e rindo. Acabei rindo junto porque também estava sentindo aquela coisa estranha de estar cheio demais.
— Cavalo — ela disse, por fim, antes de tomar uma lufada de ar para continuar. — Você tem cavalos aqui? — perguntou. — Eu nunca andei e gostaria de dar uma volta.
Sorri de lado e concordei com a cabeça, tomando um pouco de suco eu mesmo. Depois daquela comilança, eu provavelmente nem precisaria almoçar.
— Posso te levar, mas acho melhor a gente esperar um pouquinho...
Ela gargalhou e concordou com a cabeça.

— Esse é o Luvas — eu apresentei meu cavalo para null. Luvas relinchou ao me ver e abaixou a cabeça. Bati minha testa entre suas orelhas, minhas mãos esfregando sua cabeça.
Eu adorava aquele cavalo.
— Luvas é um nome interessante — ela disse, rindo.
null havia conhecido todos os cavalos do meu pai antes de chegarmos em Luvas e nenhum parecia estar disposto a levá-la a lugar algum. Eu não sabia se ela que não tinha jeito ou se eles a odiavam mesmo, mas Luvas era minha última esperança. Ela mesma já estava envergonhada e sem jeito, quase desistindo do pedido que me fizera pela manhã.
— É, é mesmo — eu disse, rindo também. Pelo seu olhar, sabia que ela estava se corroendo para saber por que ele se chamava assim, então respirei fundo e comecei a contar. — Quando eu era mais novo, eu não podia andar de cavalo sem luvas porque eu cortava minha mão sempre. Acho que era porque eu ficava nervoso e apertava a rédea com força, eu não sei. Mas eu odiava andar de luvas, então quando meu pai me deu um cavalo, eu o chamei de Luvas e todas as vezes que ele me perguntava se eu tinha pegado minhas luvas para cavalgar, eu dizia que sim — esfreguei a cabeça de Luvas mais uma vez. — Esse camarada aqui me livrou de um monte de coisas, ele é demais.
null riu e se aproximou com cuidado, ainda deixando um bom espaço entre ela e eu e Luvas. Eu ri e a chamei com a mão.
— Luvas, essa é a null, minha amiga — peguei-a pela mão e coloquei com a mão na cabeça dele, forçando-a a esfregar com cuidado, posicionando-me atrás dela para tentar passar alguma segurança. — Estamos pensando em dar uma volta com você, o que você acha?
Luvas relinchou, fazendo null levar um susto e dar um passo para trás, encostando o corpo em mim, recolhendo a mão. Segurei-a pelos cotovelos, rindo um pouco alto demais.
— Acho que ele quer — eu disse.
Soltei-a e fui preparar Luvas para ser montado, muito contente. Aquilo com certeza seria melhor do que eu estava esperando e estava muito feliz por meu cavalo nunca ter me decepcionado.
— Isso não o machuca? — null me perguntou, me vendo colocar a cela em Luvas.
Afivelei com o cuidado e a firmeza de quem havia crescido fazendo isso diariamente, embora fizesse alguns meses que não me arriscava. Era quase como andar de bicicleta, mas mais legal.
— Sua roupa te machuca? — eu perguntei.
— Às vezes — ela disse, rindo.
Balancei a cabeça, rindo também. Eu achava bem engraçado o fato de que garotas preferiam ficar bonitas a confortáveis. Tinha certeza de que havia algum meio termo por aí.
— Bom, se machuca, o Luvas não se importa, certo, cara?
Luvas relinchou, como se entendesse, fazendo null gargalhar. Terminei de arrumá-lo e, em um segundo, estava em cima dele, montado. Segurei-me na cela e oferecia a mão para null.
— Eu vou com você? — ela perguntou, confusa.
— Você já andou alguma vez? Quer quebrar o pescoço? — questionei.
Não tinha nada a ver com nada, mas eu provavelmente estava ciumento demais em deixá-la andar sozinha com o meu cavalo. E em deixar meu cavalo andar sozinho com ela.
Tinha um meio termo.
Ela mordeu o lábio e torceu o rosto, mas aceitou a minha mão.
— Coloca o pé direito aí — apontei-lhe o pedal da sela, deixando-o livre para que ela pudesse usá-lo. Eu sabia que era melhor que ela tivesse subido primeiro, mas, pela força do hábito de sempre montar Luvas sozinho, tinha me esquecido desse detalhe. Agora era tarde demais. — Isso, agora vem.
Forcei a mão e ela subiu, um pouco desengonçada, sentando à minha frente, como eu havia planejado.
Uma palavra: caralho.
— Segura aqui na frente — eu disse, com a voz fraca, um pouco nervoso, agora.
Ela concordou com a cabeça e eu passei meus braços ao redor de seu corpo, alcançando as rédeas novamente. Soltei um suspiro, tentando me controlar, mas assim que ordenei Luvas a andar, o balanço fez com que sua bunda roçasse no meu pau, fazendo com que eu segurasse o ar.
Eu tentei — e tentei com todas as minhas forças, mas apenas alguns minutos depois, enquanto nós cavalgávamos lentamente por entre a plantação do meu pai, minha ereção estava a pino e roçava em sua bunda deliciosamente a cada trotada. Eu já quase não estava vendo nada à minha frente, apertando os olhos e os lábios, incapaz de prestar atenção em algo além das sensações que aquele contato exacerbado fazia com o meu corpo.
Nada havia sido dito desde que saíramos da casinha de Luvas. Não tinha condições de se ter uma conversa, na verdade. Em algum momento da caminhada, o vento levara o cabelo de null apenas para um lado de seu corpo, deixando metade do pescoço e nuca expostos e aquilo estava me deixando mais louco ainda.
Eu já quase não estava esperando que o trote me ajudasse a me aproveitar dela, já estava eu mesmo forçando o contato. E senti-a fazendo a força contrária também, me deixando completamente maluco.
Soltei uma mão da rédea e levei até sua cintura, puxando-a de encontro a mim, apertando os olhos e sentindo meu corpo inteiro se arrepiar. A mão dela posicionou-se, logo, em cima da minha e eu deixei meus lábios entrarem em contato com sua nuca, depositando um beijo ali que a fez se arrepiar e apertar minha mão.
Bosta, eu queria comê-la ali, naquele momento, andando de cavalo mesmo. Na verdade, a perspectiva de transar cavalgando me parecia bastante agradável.
Puxei-a novamente de encontro ao meu corpo, um pouco mais forte que da última vez, com a certeza de sua aceitação, soltei uma lufada de ar em seu pescoço e deixei meus dentes por lá. Subitamente, null afastou minha mão de sua cintura e deu um pulo para frente, tentando fazer com que nossos corpos se desencostassem, sem muito sucesso.
null, eu quero ir pra casa, por favor — ela disse.
Mordi o lábio e fechei as mãos em punho, frustrado. Eu estava quase lá e ela estava escorregando de mim mais uma vez.

Capítulo Cinco

Controle

Fazia umas três noites que eu mal conseguia dormir, pensando em null.
Acho que tudo aquilo era excesso de tesão não descarregado. Desde que nós andáramos de cavalo e toda aquela tensão se instalara dentre nós dois, eu mal conseguia olhar para ela sem sentir meus dedos formigando para tocá-la; porém, null mal olhava para mim e nem nossas costumeiras discussões estavam acontecendo. Tudo que eu lhe dizia, quando ela me dava atenção, era respondido monossilabicamente.
E a cada dia, ela parecia estar mais confortável com a minha casa. No primeiro dia, ela se vestira como se estivesse saindo, de jeans e camiseta, apesar de ter dormido de baby-doll — e um muito curto e delicioso, só para constar, que eu suspeitava que só havia sido utilizado para me provocar mesmo. Agora, ela vestia camisões largos e shortinhos.
Havia uma linha entre nós dois que parecia não estar disposta a ser cruzada; se eu estivesse na sala, ela estaria no quarto, se eu estivesse no quarto, ela estaria na sala. E eu não estava aguentando mais essa indiferença.
Não suportava mais a distância silenciosa e, principalmente, quando eu a via desfilar com blusas grandes que não davam para ver se ela estava com um short por baixo ou não. Por duas vezes, ela se debruçou na bancada da cozinha sob o meu olhar e eu pensei seriamente em agarrá-la naquela posição.
Minha paciência para ela estava curta. Eu havia ganhado a minha aposta e queria passar três meses com ela, de preferência com ela cedendo bem rápido para que eu passasse a maior parte do tempo enfiado entre suas pernas e ouvindo meu nome gemido em sua voz. Não era para ela se trancar no meu quarto e fingir que eu não existia.
E eu estava com a impressão que ela estava me provocando porque, não era possível, ninguém podia ser tão gostosa assim sem querer.
Na manhã do terceiro dia, por algum motivo, a porta do quarto estava aberta. Eu estava debruçado na bancada da cozinha, tomando um café, torcendo para ele me deixar acordado pelo resto do dia. Eu estava lá, tomando meu café, quando ela se movimentou, sentou-se espreguiçando e o lençol deslizou pelo seu corpo, caindo de volta na cama — e ela estava sem sutiã. Sem me ver, se levantou, e estava só de calcinha também. Deixei meu queixo cair e por alguma sorte, ela foi apenas para o banheiro, o que me deu tempo de tentar me ajustar e não parecer um total idiota.
Quanto saiu do banheiro, estava vestida com uma blusa larga, daquelas que eu não sabia se estava usando short ou não — e, no momento, eu estava duvidando. Eu estava planejando jogar alguma coisa no chão para tentar dar uma olhada na sua calcinha amarela de novo, mas ela quebrou minha onda sentando-se em uma das cadeiras, do outro lado da bancada e começou a preparar a suas torradas, quando pareceu levantar o olhar para mim, como se só tivesse notado minha presença naquele momento.
E aí ela me surpreendeu, puxando um assunto pela primeira vez desde o nosso passeio de cavalo:
— Nossa, você está parecendo muito mal — disse.
Levantei a sobrancelha porque, se eu já estava aparentando a ponto dela perceber, eu devia estar mal mesmo. Mas tudo era culpa dela. Nem uma semana dividindo o mesmo teto e ela já havia conseguido me deixar com mais tesão do que minha ex-peguete havia feito em dois meses (e ela se esforçava, ao contrário de null). Ao mesmo tempo, null me deixava nas alturas e me negava, fugia, nem me dava bom dia e eu ficava virando as noites, desconfortável no sofá, sem conseguir sequer pregar os olhos e relaxar. Estava foda.
— Não estou dormindo direito — eu disse, apenas, porque foi o que eu achei que deveria ser apropriado dizer.
Ela mordeu a torrada e eu acompanhei a forma com que seus lábios se moldaram ao redor do pedaço da torrada e depois se moveram enquanto ela mastigava tranquilamente.
— É por causa do sofá, é? — perguntou, displicentemente. Eu queria dizer que era por causa dela, mas o sofá também não ajudava muito. — Eu posso... hum... — ela não parecia muito certa, mas deu de ombros. Acho que ela estava se sentindo culpada (e deveria mesmo) — Fazer uma massagem, se você quiser.
Eu tinha certeza de que deixei meu queixo cair completamente com a proposta e ainda estava me decidindo qual era a coisa mais legal na sentença: a massagem, null cedendo ou todo o contexto de null cedendo e me oferecendo uma massagem.
Caraca, as mãos dela em mim, sem restrições, me tocando... Eu tinha certeza de que eu devia ser o cara mais sortudo do mundo, naquele momento.
— Isso seria muito bom, mesmo — eu respondi, por fim.
Ela balançou a cabeça, terminando de comer sua torrada e eu engoli todo o resto do meu café de uma vez só porque eu basicamente não poderia esperar mais um segundo sequer. null soltou um suspiro cansado e deixou duas torradas em cima do prato e me encarou, torcendo o lábio em ligeiro desagrado.
— Agora? — perguntou, percebendo minha pressa.
— Por favor — eu disse, e acabou soando meio esganiçado.
Subitamente, eu queria tanto aquilo que já estava doendo. Ela concordou com a cabeça e deixou-se sorrir vagamente com minha ansiedade. Nós dois caminhamos sem dizer nada até o quarto e ela sumiu para dentro do banheiro, enquanto eu deitava na cama de bruços, minha barriga se revirando com a expectativa.
Nossa, que merda era aquela? Aquela garota só podia ter feito uma macumba das brabas para conseguir me deixar louco desse jeito. Só assim, porque não fazia sentido nenhum todo esse exagero ao redor de uma coisa tão normal, como foder com alguém por quem eu sentia tesão. Mas o tesão que eu estava sentindo por ela...
Será que tudo aquilo ainda era apenas porque ela tinha me dito e continuava dizendo não? Quero dizer, o proibido era sempre melhor, certo?
null surgiu à porta do banheiro e parou, soltando uma risadinha irritante. Ela balançou a cabeça negativamente.
— Sabe, seria mais fácil se você tirasse a camisa — disse.
Ah, era verdade. Eu estava tão concentrado em me conter até a hora da massagem que esqueci os meios para isso acontecer. Sentei-me na cama rapidamente e arranquei a camisa por cima da cabeça. Olhei para null e ela concordou com a cabeça, um sorriso doce no rosto, sem aparentar o afetamento que as garotas normalmente sofriam quando viam meu corpo. Claro, o que eu podia esperar daquela ali? Sempre sendo diferente, eu não conseguia a compreender de forma alguma.
Um pouco frustrado por não ter conseguido a atenção que eu queria, voltei a me deitar de bruços e logo senti a cama afundar ao meu lado. Três segundos depois, senti as mãos de null no meio das minhas costas, besuntadas com algum tipo de óleo que eu não fazia ideia do que era, mas era certamente muito bom. Ou talvez o bom fosse a parte da mão dela.
— Cara, que fodido¹ — ela disse, com uma risada.
Eu ri apenas por um segundo, antes forçar mais a massagem e senti-la desfazer um dos pontos que estava me incomodando. Soltei um gemido ridículo que a fez se ajeitar melhor para poder apertar com mais força — e ela fez isso direitinho.
Caramba. Eu nem sabia direito que eu estava sentindo. Nem eu sabia que meu corpo estava tão dolorido assim até ela começar a apertar, mas, ao mesmo tempo, eu sentia aquele comichão característico de quando eu ficava excitado e eu não podia negar que eu realmente estava delirando de tesão. As mãos de null eram deliciosas em mim. Soltei um suspiro que saiu meio como um gemido, a fazendo rir. Na verdade, eu achava que ela estava gostando que eu estivesse sentindo dor por causa dela e eu riria disso se não estivesse tão concentrado em outras coisas.
Senti suas mãos subindo pelas minhas costas, minhas vértebras estalando em algumas investidas que ela fazia, alcançando a escápula e, então, meus ombros, aos quais ela apertou com mais cuidado, após colocar mais óleo nas mãos.
— Acho que eu devo agradecer por você me deixar dormir na cama — ela disse, ainda apertando meus ombros e subindo seus polegares até meu pescoço, deixando uns arrepios descontrolados passarem pelo meu corpo — Seu sofá não parece muito confortável, olhando assim.
Eu queria concordar e dizer alguma coisa, mas tudo o que eu conseguia fazer era apertar meus olhos e deixar minha boca completamente escancarada, deixando alguns gemidos ocasionais saírem por ela sem o meu consentimento. Aquilo era demais. Ela simplesmente podia ficar fazendo massagem em mim para sempre, que eu não iria me importar nem um pouco.
Subitamente, ela parou e eu mal consegui me mexer. Meu corpo estava tão relaxado, tão envolvido naquela situação que eu só poderia descrever como, no mínimo, sensual, mas ao mesmo tempo... Sei lá, relaxante? Que tudo o que eu fiz foi bocejar pateticamente, o que provocou seu riso.
— Você podia comprar um colchão pra dormir na sala — ela disse e tudo o que eu fiz foi levantar a sobrancelha, com a sua audácia de sugerir que eu deveria comprar um colchão para mim, enquanto ela dormia na minha cama —, mas acho que você pode dormir um pouquinho aqui por enquanto.
Concordei com a cabeça porque foi o que me pareceu fácil de se fazer. Surpreendendo-me, senti seus lábios em meu cabelo, um beijo carinhoso antes de um pequeno afago, que me lembrou de quando eu era uma criança e minha mãe me colocava para dormir. Era muito bom...
Com o pensamento, eu apaguei.
Acordei quando a tarde já estava pela metade tarde e provavelmente só me levantei porque eu estava com fome. Espreguicei-me, muito contente comigo mesmo e com aquela sensação agradável de alívio que a massagem de null havia me proporcionado, seguido por horas de sono tranquilo e confortável.
Levantei-me apenas para encontrar null tão concentrada em um de seus filmes de mulherzinha que nem me notou passando — ou estava fingindo que não havia me notado. Resolvi não incomodá-la, ela estava realmente compenetrada e, pelas exclamações, parecia estar acontecendo alguma coisa importante. Então, passei direto para a cozinha, esquentei um pouco de uma lasanha que eu mesmo havia abandonado no dia anterior e comi, enquanto ela nem se afetou com a minha presença. Eu já estava ficando zangado. Meia hora e nem um você está melhor?.
E era óbvio que era por causa daquele maldito filme.
Levantei a sobrancelha e joguei meu prato dentro da pia, fazendo mais barulho do que o necessário para tentar chamar a sua atenção, mas nada. Se ela estava achando que eu ia deixar tudo voltar para a estaca zero, quando ela não falava comigo, logo depois de ter uma experiência tão maravilhosa com suas mãozinhas habilidosas para massagens (e eu só poderia imaginar com o que mais aquelas mãos poderiam ser habilidosas...), ela estava muito e completamente enganada. E eu ficaria muito zangado com ela.
Joguei-me no sofá ao lado dela e a encarei, esperando que ela dissesse algo, fizesse alguma piadinha, qualquer coisa! Mas ela continuava encarando a televisão sem piscar. Ela estava com a alça da blusa caída do ombro, o mesmo se encontrando totalmente nu, o que só podia significar que ela estava sem sutiã. Sua expressão concentrada capturou meu olhar curioso por mais um instante, mas deixei-o escorregar pelo corpo dela, até chegar em suas coxas quase totalmente descobertas, em que dava para ver um pedacinho de um shortinho minúsculo que ela usava por debaixo da blusa — e apenas dava para ver porque ela estava com as pernas dobradas por cima do sofá, abraçando-as como se sua vida emocional dependesse disso. Céus, eu pensei, como ela conseguia simplesmente ser tão gostosa assim?
Olhei para o filme, tentando entender o que estava acontecendo e era uma cena de beijo na chuva, quase não acreditei na breguice da situação. Quando fui olhar para ela de novo, reparei no controle, abandonado entre nós dois e tomei posse do mesmo, mudando rapidamente para o canal de esportes.
Não! — ela berrou, esticando o corpo e batendo com os pés no chão de total espanto pela interrupção.
Eu sorri, contente em poder lhe devolver todo o seu comportamento. Encarei a televisão, muito contente comigo mesmo, ignorando-a totalmente.
Ela avançou contra mim, tentando pegar o controle da televisão de minhas mãos, mas eu apenas o levei até o outro lado do sofá e a empurrei levemente para o lado, afastando-a da peça, sem nem pestanejar.
— Eu estava vendo primeiro! — ela reclamou.
Soltei um suspiro. Eu não tinha força alguma para fazer com ela o que ela fazia comigo, então virei o rosto para olhá-la e ela já estava com as bochechas coradas de raiva, o que aumentou o meu sorriso.
— Bom, essa é a minha casa, minha TV e eu já te cedi minha cama, então acho que você não pode falar muita coisa sobre isso — eu disse.
Ela tentou avançar contra o controle novamente, incapaz de encontrar algo para ser dito que contrariasse minha lógica imbatível. Ao ser empurrada novamente para o lado, ela urrou de raiva e deu um tapinha ridículo na minha perna.
— Você não pode simplesmente pegar o controle e mudar de canal na melhor cena do filme todo! — ela choramingou.
Melhor cena? Aquele beijinho brega? Por favor!
Olhei para ela com a sobrancelha levantada, esnobando completamente sua opinião irrelevante e o seu jeitinho de irritada. Na televisão, estava passando um jogo do Grêmio com o Cruzeiro e parecia muito mais interessante do que aquele filminho adolescente, cheio de cenas ridículas.
— Posso se for a minha televisão e você estiver a contaminando com coisas de mulherzinha — eu disse.
null revirou os olhos e me deu um empurrão. Só para não deixá-la triste por ser tão fraquinha, eu joguei meu corpo para o lado e voltei a posição original, mas isso parecia tê-la deixado com mais raiva, porque ela estourou os dois pulsos fechados em meu braço e se eu não tivesse tão acostumado a levar pancada, talvez tivesse doído. Acho que era possível que eu nunca a tivesse deixado tão irritada antes. E eu precisava deixar registrado que isso estava me fazendo sorrir mais que o normal.
— Deixa de ser idiota, null, depois você pode ver o jogo! — ela reclamou, tentando alcançar o controle mais uma vez.
Dessa vez, eu não a empurrei, apenas impedi-a de se aproximar com o braço, o que a deixou ainda mais irada, se debatendo e me estapeando. Ela puxou os pés para cima do sofá novamente e levou-os até a minha coxa, chutando e me empurrando, enquanto ela mesma tentava se empurrar para quebrar a barreira que era o meu braço.
De alguma forma, enquanto eu estava rindo, ela se enfiou no espaço entre meu braço e minha perna, aparecendo praticamente sentada no meu colo (o que me deixou praticamente congelado em meu lugar e me fez parar de prestar atenção direito nas coisas) e avançou novamente para o controle. No meio da confusão e no susto que ela me provocou, eu a empurrei, ela me puxou, nós dois, nos empurrando e nos debatendo, caímos do sofá, estupidamente, no chão da sala. O controle saiu da minha mão e rolou por uns dois metros, destacando as pilhas do mesmo, mas eu não me importava mais.
Eu estava sobre null, ela estava linda com as suas bochechas coradas de raiva e respirando apressadamente por toda a briga. A posição entorpeceu-me, tal como ela, que ficou sem reação e tudo o que fez foi espalmar as mãos em meus braços, meio sem saber se me empurrava ou se me puxava, o que teria me feito rir, se eu pudesse me concentrar o suficiente para tal.
Apenas nos encaramos por um segundo que durou quase uma eternidade. Eu acho que senti minha barriga revirar de ansiedade tal como havia sido no meu primeiro beijo e talvez isso fosse alguma forma de falta de confiança, o que eu não estava costumado a sentir, mas ali, eu estava esperando, a cada segundo, que ela simplesmente me empurrasse e toda aquela coisa acabasse no segundo seguinte.
Mas ela não o fez.
Ela só continuou me encarando e eu continuei encarando-a até que meu corpo pareceu sair da inércia e eu deixei minhas costas se movimentarem, levando meu rosto em direção ao dela, até nossos lábios encostassem de uma forma até meio sem jeito, quase como se não soubéssemos se era a forma certa de se fazer.
Só que era, e o meu corpo descobriu isso logo a seguir, explodindo de vontade. Minha língua invadiu sua boa com a volúpia e com o desejo acumulado de dois anos, aumentado consideravelmente na última semana. Deixei meu corpo cair sobre o dela, minha mão escorregando para a sua cintura e tentando puxá-la ainda mais para perto, enquanto meus lábios devoravam os seus, sem pudor algum.
Senti sua resposta desesperada quase como um alívio, seus lábios se moldando aos meus e sua língua se movendo contra a minha com a mesma vontade, o mesmo desespero, embora nada disso fizesse sentido — e não importava. Não importava porque, naquele momento, ela era minha, apertando seus dedos em meu ombro, seu corpo encaixado no meu e aquela sensação, ah, aquela sensação de desejo realizado.
Levei a minha mão até seu pescoço, tentando encaixá-la em sua nuca e puxar seu rosto mais para perto do meu, sentindo minha respiração começar a falhar, mas eu não me importava, eu não iria parar de beijá-la agora, talvez quando aquele comichão esquisito parasse ou talvez...
O resto do pensamento nunca chegou a ser concluído.
— Au! — resmunguei, encerrando o beijo e sentindo aquela beliscada forte na minha língua.
null abriu os dentes, soltando minha língua e me encarando com a sua pior das expressões de zangada — e eu conhecia muito bem todas elas. Empurrou-me e eu, embasbacado pelo beijo intenso, cedi, escorregando para o lado e vendo-a bater os pés, caminhando até o meu quarto, onde bateu a porta com força.
E eu fiquei lá, meio sentado, meio deitado, o controle jogado há uns dois metros de distância da minha cabeça e a TV no intervalo do jogo, já sem importância. Afinal, apesar dos pesares e da minha língua ferida, eu estava conseguindo o que eu queria.
Ela começava a ceder.

Capítulo Seis

Táxi

Eu realmente precisei de uma cama nova. A verdade é que assim que null voltou a se trancar no quarto, eu percebi que as coisas não iam andar tão rápido quanto eu gostaria, então eu fui até a casa grande e deixei meu pai saber que eu precisaria de uma cama nova. Ele não entendeu porque não entrei em detalhes, mas achou graça do meu pedido. Apenas duas horas depois, dois de nossos funcionários levaram a cama, que foi instalada no lugar da mesa de jantar, provavelmente retirada de algum quarto de hospedes.
E então era isso. Eu estava assumindo que null era mais difícil e complicada do que eu queria. No duro, não era de todo o mal, tinha certeza de que ela cederia em algum momento e aquele joguinho que jogávamos não era de todo ruim.
Mas o que me irritava era ela fingir que não se importava quando eu sabia que não era possível que ela não tivesse sentido as mesmas coisas que eu.
Comecei a perceber que null saía do quarto em intervalos regulares de aproximadamente quatro horas, pegava alguma coisa para beliscar e voltava para o seu refúgio. Das primeiras vezes, apenas aproveitei a informação para usar o banheiro, tomar banho, respeitando um pouco seu pedido mudo por privacidade, na esperança de que isso amolecesse seu coraçãozinho zangado.
No segundo dia, porém, eu achei que talvez devesse utilizar essa informação para outras coisas, como para obrigá-la a me notar ou coisas assim. Parei a esperar por ela próximo a geladeira, ou arriscando fazer alguma comida e, com isso, trocamos algumas palavras educadas e restritivas.
E descobri que ela não estava tão zangada quanto queria parecer.
Então, depois de uma noite bem dormida na minha cama nova, pensei que eu talvez devesse trocar a tática. Se eu cedesse, talvez ela cedesse também. E aí talvez... Quem sabe o que poderia acontecer?
Então, pela manhã, estava debruçado na bancada da cozinha quando ouvi a porta se abrindo e null saindo pela ponta dos pés, provavelmente preocupada em não me acordar, sem notar que eu já estava desperto. Bem naquele momento, meu celular apitou e eu desviei minha atenção para o mesmo, vendo null adentrar o espaço da cozinha por rabo-de-olho.
— Bom dia — eu disse, distraidamente, abrindo a mensagem que havia acabado de receber, com as sobrancelhas unidas.
O mistério era que a mensagem era de null e eu não imaginava que isso era possível; ele acordado e comunicativo naquela hora da manhã, nas férias. Já era difícil durante as aulas e ali estava ele, em plena sexta-feira, me mandando uma mensagem antes do café da manhã. Impressionante.
— Bom dia — ela me respondeu, sem nem virar os olhos em minha direção, o que me fazia crer que só podia ser algum sinal sobre a minha irresistibilidade.
Cara, vai trr uma fedta densaciobal ns. Zombs edda noitr! To com und ingreddos p vc r p sia garots. Vc vrm?
Bom, certamente null não estava tão acordado assim.
Pela descrição, um pouco complicada de entender, ele tinha ingressos para mim e para null, para uma boate em Goiânia chamada Zomba, que era realmente ótima e nós já tínhamos visitado umas duas vezes. Soltei um suspiro porque o complicado seria conseguir conversar com null e tentar convencê-la a me acompanhar.
— Queria falar com você — eu disse a ela, levantando o olhar da mensagem com um plano em mente.
Ela levantou a cabeça da geladeira e não pareceu muito feliz em concordar, pegando um pratinho de uvas que estavam abandonadas. Caminhou até a bancada e sentou-se ao meu lado, com uma cadeira vazia entre nós dois, quase como uma margem de segurança.
Ah, baby, se eu quisesse te pegar, não seria essa cadeira que ia conseguir te proteger não.
— Queria te pedir desculpas — eu falei.
Isso certamente a pegou desprevenida porque ela se engasgou com uma das uvas e tomou um bocado do copo de água que eu havia deixado por ali de noite. Eu ri baixinho, enquanto ela tossia, tentando voltar ao normal.
— Desculpe? — ela disse, em um tom meio de pergunta, como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo.
Ah, qual é? Eu não era tão orgulhoso assim. Eu podia ver, tinha feito algo e ela não havia gostado. Não foi como nosso passeio com Luvas, que fora não intencional, o que me ausentava da culpa, e seu afastamento fora apenas por vergonha do que eu podia fazer com seu corpo; eu a havia beijado. Beijara depois de uma briga estúpida pelo controle da TV, quando estava chateado por ela estar dando mais atenção ao filme do que ao fato de que eu estava acordado e bem.
Apesar de saber que ela tinha gostado e que provavelmente queria mais, eu não tivera seu consentimento. E isso não era o tipo de coisa que eu estava acostumado a fazer por aí. Era somente ela que me tirava do sério daquela maneira.
— Sim, desculpas — eu disse. — Não vou dizer que não queria te beijar porque é mentira, mas eu não queria que você não quisesse. E eu sinto muito por ter feito isso sem você querer.
Eu desviei o olhar da minha caneca de café para ela e a encontrei me encarando com a expressão lívida de surpresa e admiração. Bem, era algo assim que eu queria mesmo, então eu sorri meio de lado, incapaz de me conter.
— Isso é... — ela se cortou, incapaz de encontrar a palavra certa. — Bom, tudo bem, eu acho — disse, por fim.
Balancei a cabeça afirmativamente e apertei o botão para acender o celular e desbloqueei-o, arrastando em direção a ela, para que ela pudesse ler. Ela curvou-se para poder ver melhor a tela e franziu a testa, mexendo os lábios, provavelmente tentando decodificar a mensagem de null.
— Isso é incompreensível — disse, por fim.
Soltei uma gargalhada, puxando o celular de volta e bloqueando-o. Virei minha cadeira em direção a ela, deixando minha caneca de café abandonada em cima da bancada. null continuava a morder suas uvinhas e apenas virou o rosto em minha direção.
— É uma festa em Goiânia hoje, uma boate maneira que eu conheço — expliquei. — null tem uns convites, você quer ir?
Ela pareceu pensar por um momento e sua expressão demonstrou um pouco de confusão, mas acabou por concordar com a cabeça, em um suspiro cansado.
— É, por que não? — ela pareceu aceitar apenas por não encontrar uma desculpa educada, mas ignorei isso.
Sorri e meneei a cabeça, deixando-me tomar mais alguns goles de café. null soltou um longo suspiro, como se estivesse se arrependendo automaticamente da sua resposta, então eu tentei continuar falando para distraí-la.
— São umas duas horas daqui pra lá, então se você puder estar pronta, tipo assim, umas oito horas, seria legal — sugeri.
Ela concordou com a cabeça, comendo as últimas cinco uvas praticamente de uma vez só. Levantei a sobrancelha para sua pressa repentina.
— Tudo bem — concordou. Pegou a vasilha de isopor onde agora só estavam caroços, levantando-se com afobação. — Vou ver se eu tenho algo pra vestir.
Ela deu a volta na bancada e jogou a vasilha no lixo, mas antes que ela pudesse voltar para o quarto, eu lhe ofereci a minha mão.
— Ei — chamei-a. Ela virou-se em minha direção e franziu a testa, como que sem entender nada. — Amigos? — perguntei.
Ela entortou os lábios, mas acabou por sorrir levemente. Colocou sua mão em cima da minha de uma forma estranha, a qual não me deixava sacudi-la em um aperto, apenas beijá-la, se eu quisesse.
— Amigos — confirmou.
Puxei-a pelo braço, e deixei um beijo estalado em sua bochecha, que a fez corar e retornar ao quarto bem rápido. Fiquei rindo sozinho, bebericando o resto do meu café.

Minha surpresa foi chegar em Goiânia para descobrir que eu e null tínhamos pulseiras VIPs e acesso ao camarote da Zomba. Eu estava mega feliz no meio daquela gente, a música alta estourando os meus tímpanos e com um latão de cerveja na mão, curtindo a vibe com o meu melhor amigo.
null havia sumido quando chegamos, há uns dez minutos, acompanhando a prima de null ao banheiro para retocar a maquiagem. Eu realmente queria saber o que havia no banheiro das mulheres e por que é que elas sempre iam em bando. Eu estava começando a achar que retocar a maquiagem era algum código secreto das mulheres para, sei lá, uma conferência mundial para solucionar a fome no mundo. Alguma coisa assim.
— Cara, me explica — eu falei, quase berrando e próximo ao ouvido de null para que ele pudesse me ouvir — Como é que você arrumou esses convites, porra?
null estava felizão, dando socos no ar no ritmo da batida, olhando as garotinhas da sacada do camarote como um falcão, analisando qual seria sua vítima naquela noite. Eu só estava rindo e curtindo.
— Minha prima está dormindo com um grandão da produção! — ele disse, em uma gargalhada envolvente.
Eu tinha certeza de que ele e a prima se pegavam. Tinha mesmo. Mas, ao que parecia, era alguma espécie de relacionamento aberto, em que ela arrumava convites em boates iradas e ele arrumava outra garota pra comer. E tudo ficava bem.
— Vou agradecer a ela depois, então! — gritei em sua orelha. — Pela boceta de ouro!
null gargalhou e me deu um tapinha no ombro, deslizando para o caminho que levava à escada para descer para a pista. Revirei os olhos, sabendo que ele já tinha encontrado o que queria e estava indo se divertir. E eu? Eu ainda estava esperando que null, as bebidas e a música pudessem se combinar de alguma forma legal.
Ao ficar sozinho, eu resolvi olhar ao redor para procurar algo melhor para fazer e me deparei com null e a prima de null, sentadas no balcão do bar, rindo e se cutucando como se fossem melhores amigas há anos. Garotas. Nem avisaram que estavam de volta e já estavam bebendo. Eu merecia mesmo.
Joguei meu latão de cerveja no lixo e andei até o bar, sem que as duas notassem, e me debrucei no balcão, bem ao lado de null, fazendo as duas olharem para mim, com um sorriso.
— E aí, gatinhas, qual é a boa? — perguntei, jogando um pouco do meu incomparável charme sedutor.
null soltou os lábios vermelhos de batom do canudo da bebida que tomava e riu, um pouco mais contente que o normal. Algo me dizia que aquela não era a primeira bebida que ela tomava e que ela também não era muito forte para nada daquilo.
— Caipifruta — disse, lambendo os lábios, me fazendo arregalar os olhos por um momento.
Ela riu e pareceu saber o que estava fazendo, então cerrei meus olhos para ela, sem saber como devolver o seu joguinho na mesma moeda. Ela levantou as sobrancelhas inocentemente e aí levou a língua ao canudo, antes de fechar os lábios ao redor do mesmo e começar a sugar o líquido.
Maldita.
Completamente maldita.
Ela sabia o que estava fazendo e, jogando aquele jogo, eu não tinha como ganhar. Ela tinha todos os trunfos e todos os áses, era a rainha de copas e eu era uma carta qualquer. Um cinco, provavelmente.
— Alguma coisa para beber, senhor? — o bartender me perguntou, fazendo com que eu me sobressaltasse, ainda distraído com a cor dos lábios dela e o formato que ficavam quando envolviam o canudo.
Eu levantei as sobrancelhas e virei meu rosto para o atendente, girando meu corpo até que eu estivesse sentado no banco ao lado de null, que aprumou as costas e cruzou as pernas em minha presença. Tentei não me distrair muito com suas coxas expostas naquele vestidinho curto e respondi-o:
— Uma vodka dupla, por favor — pedi.
Se ela queria jogar assim, era melhor que eu não estivesse muito são. Porque se eu estivesse, eu não ficaria assim por muito tempo.
Era melhor perder a consciência do que a mente, certo? Era algo por aí.
null riu como se soubesse exatamente o que eu estava pensando e continuou pedindo bebidas pela meia hora seguinte, uma diferente da outra. Ela estava misturando sem dó alguma e algo me dizia que ela sabia que aquilo a deixaria bêbada. Eu continuei com a vodka, três duplas depois, eu estava um pouco alto e um pouco zonzo, mas ela estava gargalhando à toa e bastante lenta.
A prima de null nos deixou quando ela resolveu provar caipirinha. O produtor da festa chegou, sussurrou-lhe algo no ouvido que a fez sorrir e ambos sumiram por detrás da cortina que estava atrás do DJ.
— Eles foram se divertir — eu disse no ouvido de null, ao perceber que ela acompanhara a nova amiga com os olhos, contente em perceber que ela estava se arrepiando — Talvez nós devêssemos nos divertir também.
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro e riu, mordendo a língua. Eu ri para acompanhá-la porque aquela bobagem pareceu engraçada mesmo. Era provavelmente o álcool, mas talvez fosse aquela eletricidade que percorria entre nós dois que me fizesse amolecer ao lado dela.
— Acho que nós podemos dançar! — ela declarou, pulando da cadeira do bar e tropeçando um pouco em seus saltos.
Ofereci meu braço para ela se apoiar e ela praticamente encaixou seu sovaco dele, deixando a dobra do meu cotovelo moldar seus seios. Isso me fez arregalar os olhos por um momento. Ela sorriu e se apoiou em meu peito quando eu me levantei e eu senti meu coração disparando de nervosismo.
Bosta. A bebida não tinha feito tanto efeito assim.
Nós descemos a escada para a pista com ela escorada em mim e eu me aproveitei para envolver sua cintura com meu braço. Notei alguns caras lançando uns olhares invejosos em minha direção e eu apenas sorri porque eu sabia o que tinha.
null tinha mania de esconder o quão linda ela era, mas naquela noite, nada seu estava muito escondido. Eu estava evitando pensar no vestido apertado marcando seu corpo desde que saíramos de casa, mas a cada segundo ficava mais difícil. Porém, lá estava ela, jogando aquele jogo que só podia terminar em um lugar.
E ela sabia disso.
Em vez de irmos em direção à pista de dança, null me puxou para um canto mais escuro, encostou-se na parede e me pegou pela gola da camisa, grudando nossos lábios com gosto de bebidas misturadas.
Eu não perdi tempo nenhum, logo estava apertando áreas do seu corpo que nunca me foram permitidas, devorando seus lábios com uma ferocidade um pouco nublada, mas incrivelmente intensa. Ela era a personificação do meu desejo, e, caramba, era minha agora. Minha.
Desci meus lábios para o seu pescoço, ouvindo-a gemer enquanto eu apertava seus seios com mais força que o recomentado, seus suspiros e ofegos levantando os pelos da minha nuca e mandando uma corrente elétrica intensa pela minha coluna.
null... — sussurrou.
Gemi contra a pele do pescoço dela, mordendo e sugando uma área em especifico para que ficasse uma marca ali. Queria que ela e todo o mundo se lembrasse quem a fazia gemer daquela forma enervante.
null... — sussurrou outra vez. Desta, ela apertou meus ombros e fez uma força de leve para me afastar dela.
Só então percebi que o seu tom era mais algo próximo de um aviso do que de um gemido de prazer. Droga.
Deixei meus lábios subirem para o seu pescoço até sua orelha e mordisquei seu lóbulo, deixando um beijo estalado atrás da mesma, que a fez bambear ligeiramente, se contorcendo. Sua perna esquerda estava sendo sustentada, enquanto eu me encaixava no corpo dela, minha mão direita estava em seus seios. Era assim que eu queria passar todo o verão.
— O que foi? — sussurrei de volta. Empurrei meu corpo de encontro ao dela, minha ereção roçando no seu vão entre as pernas, o que a fez apertar as unhas em meus ombros. — Não está gostando, não?
Ela soltou um longo suspiro e deixou a cabeça cair em meu ombro, o nariz gelado contra meu pescoço, me fazendo arrepiar.
— Eu estou um pouco enjoada — disse.
Revirei os olhos. Ah, é claro que estava enjoada. Eu achava que ela tinha bebido quase toda a cartela de bebidas do bar, provando uma por uma, como se tivesse a maior resistência de todas. A verdade é que ela estava completamente bêbada.
Eu também estava, é claro, mas já tinha me acostumado e não estava assim tão ruim.
— Você quer ir embora, é? — perguntei.
Ela balançou a cabeça de leve para cima e para baixo e eu a deixei na porta da boate por um momento, indo pagar nossas bebidas rapidamente. Quando voltei, ela estava do lado de fora, vomitando atrás de um poste, sob vigilância de um segurança. Ele me viu chegar, pegou o comprovante do pagamento, deu uma olhada no limite de seu vestido ligeiramente levantado por ela estar curvada e voltou para dentro da boate sob o meu olhar revoltoso, parecendo satisfeito.
Dei um tapinha desajeitado nas costas de null, que estava limpando a boca com as mãos, e fiz sinal para um táxi que passava. null entrou primeiro, escorregando para o outro lado e encostando com a cabeça no vidro, de olhos fechados.
Escorreguei para dentro, incapaz de não notar o quão maravilhosa ela era, com seu corpo perfeito naquele vestido apertado e curto. Respirei fundo, buscando alguma espécie de intervenção divina e coloquei minha mão em sua coxa.
— Pra onde? — o taxista me perguntou.
null sorriu um sorriso meio mole e quase triste, levou sua mão até a minha e apertou por cima da sua coxa. Balancei a cabeça levemente, entorpecido.
— Pro motel mais perto, por favor.
O taxista levantou a cabeça e nos olhou pelo espelho. Eu vi quando ele sorriu maliciosamente para mim.
Eu apenas suspirei mais uma vez.

¹: Eu descobri que Fodido pode variar de significado e eu quis fazer uma brincadeira. Aqui no Rio, nós usamos foda para coisas daora, mas fodido é usado apenas pra tá na merda e por aí. Porém, em SP, descobri que fodido também se encaixa em daora. Não sei como é em Goiás (E SE ALGUÉM DAÍ TIVER LENDO, QUISER ME CONTAR, POR FAVOR!), mas a informação nova que eu tenho é que a principal é paulista, criada em SP e se mudou para Brasília com quinze anos. Levando em consideração, ela pode ter usado a palavra em dois significados: 1 — Seu corpo tá uma merda mesmo, você tava precisando MESMO de uma massagem; 2 — Meu Deus, que gostoso que esse homem é. E eu vou deixar vocês interpretarem da forma que quiserem.

Capítulo Sete

Almoço

Cara, como era bom.
Eu sentia a maciez do lençol, o travesseiro mais legal que eu já havia descansado minha cabeça, a respiração fraca e quente de null em meu peito, seus cabelos em meus dedos e, mesmo eu quase não tendo dormido àquela noite, parecia que tinha descansado por uma semana.
Apesar dos pesares.
Suspirei bem fundo e levantei o queixo para admirar a cena mais uma vez do espelho do teto. O vestido de null estava esticado em um recosto da cadeira logo ali do lado, a mesma que continha minha calça e blusa dobradas em seu assento. null estava apenas de calcinha e sutiã, havia se enroscado em meus braços quando saíra do banho que eu insistira que ela tomasse e eu não me recusara a aceitá-la ali.
E aí eu passei quase a noite toda acordado, repuxando seus fios, assistindo-a dormir, dando uma olhadinha nos seus seios maravilhosos...
Ela era simplesmente fenomenal.
Senti um contorcer estranho em meu estômago e respirei bem fundo, tentando me acalmar. O movimento do meu peito fez null despertar, resmungando baixinho sobre algo que não entendi. Ela espreguiçou-se e espalmou a mão em meu peito com um sorriso leve, e aí toda a sua expressão serena se desmanchou e ela congelou em seu lugar.
Eu estava fodido.
Seus olhos se abriram e arregalaram-se ao ver a proximidade de nossos rostos e corpos. No segundo seguinte, o lençol que nos cobria estava todo para ela, enquanto ela já estava na extremidade da cama redonda, enroscando-o todo em seu corpo. Revirei os olhos, porque, apesar de sua vergonha, eu estava vendo a mesma coisa que eu veria se ela estivesse de biquíni, por exemplo. Além de ter passado a noite admirando aquela visão.
— O quê... O quê...? — ela gaguejou. — Que porra é essa?
Levantei uma sobrancelha, com um sorriso enviesado. Claro que ela não se lembrava do que havia acontecido, estava bêbada demais até mesmo para colocar um pé depois do outro, precisando da minha ajuda para chegar ao quarto.
— O que você acha, baby? — questionei, ainda sorrindo.
É claro que eu sabia o que aquilo estava parecendo e o que ela achava, principalmente depois da sua expressão ter desmontado e sua boca ter caído aberta, em choque. Ela olhou ao redor, apenas para confirmar onde estava, fazendo suas bochechas ganharem cor e sua boca abrir e fechar, sem encontrar nada para ser dito.
— Eu... não... — ela não estava sendo capaz de formar uma frase e eu não sabia se era a leseira da manhã, a ressaca ou apenas o choque. — Como...? — sua expressão saiu do choque e se fechou. Ela segurou o lençol na altura dos seios e, com a outra mão, depositou um soquinho em meu peito. — Você é um babaca, eu não acredito que você fez... Eu não...!
— Eu não fiz nada — disse, por fim, acabando com a tortura. — Não fizemos nada — repeti para ela, que me encarava confuso. — Eu só estava bêbado também e não queria dirigir pra casa bêbado, no escuro. Nem pegar um táxi pra casa e depois ter que voltar pra pegar o carro. Achei que seria melhor tirar uma soneca em algum lugar por perto e tudo mais — ela ainda estava me encarando com uma expressão confusa e eu arrisquei um sorriso. — Você só tirou o vestido pra tomar banho e aí veio deitar comigo e dormiu. Só isso. Mas se você quiser ter uma crise de consciência, nós podemos começar a fazer outras coisas agora mesmo. Ainda temos duas horas e eu paguei caro.
Ela demorou alguns segundos para entender o que eu havia dito e, quando entendeu, dividiu-se em um suspiro aliviado, um sorriso e o chute raivoso que ela deu na altura da minha cintura.
— Seu idiota! — resmungou.
Em um pulo, enrolando-se no lençol, ela levantou-se, agarrou seu vestido e correu para dentro do banheiro. Eu continuei rindo dela e resolvi me vestir também — queria almoçar e pegar a estrada bem rápido para estar em casa a tempo de ver o jogo do Flamengo.
null saiu do banheiro enrolando o cabelo em um coque sem prender com nada quando eu estava terminando de vestir minha blusa. Eu achava super legal quando as garotas faziam isso porque eu não entendia muito bem como funcionava, mas elas sempre ficavam bem gostosas.
Ela levantou o nariz no ar e eu sabia que não queria papo comigo — provavelmente envergonhada demais com suas acusações para me encarar sem suas bochechas corarem.
— Preciso comprar umas coisas, então ia agradecer se você pudesse me levar a algum que tenha civilização, já que onde você mora não tem — disse.
Revirei os olhos para sua declaração e soltei um suspiro zangado. Meia hora atrás, ela estava dormindo calmamente em meus braços. Dez horas atrás, estávamos nos agarrando na boate de forma desesperada — será que ela se lembrava disso? — e agora lá estávamos nós, de volta as implicâncias sem motivo.
— Será que você podia comprar alguma coisa pra tirar essa marca de batom da minha blusa? — eu me aproximei dela e mostrei uma pequena mancha vermelha na gola — Você estava muito empolgada e acabou sujando — vi suas bochechas ganharem cor e eu soube que ela se recordava muito bem daquilo. Também vi a mancha escurecida em seu pescoço, bem onde eu me esforçara em marcá-la — Ah, olhe, eu também me empolguei.
Cheguei a encostar em sua pele, antes que ela virasse de costas para mim, soltando e jogando o cabelo de forma que tampasse o chupão em seu pescoço. Eu estava sorrindo por dentro e por fora, sabendo que ela estava tão afetada quanto eu na noite anterior.
— Você vai me levar ou não? — perguntou.
Eu ri de sua impaciência, mas concordei com a cabeça, pegando minha carteira abandonada na cômoda.
— Vamos. Te deixo de táxi no mercado antes de pegar o carro. — disse.

Não era que o humor de null estivesse ruim ou que ela estivesse voltando a se trancar no quarto (ambas as coisas, sim, aconteciam), mas a questão não era essa: ela estava morta de vergonha de mim.
Confesso que não estava sendo lá uma boa pessoa, eu continuava fazendo piadinhas, muitas vezes de mau gosto, em qualquer oportunidade. Não havia felicidade maior em deixar suas bochechas em um tom de rosa delicioso por falar das coisas que fizemos — e ela sabia que fizéramos —, antes dela se irritar e sair do recinto.
Porém, ela estava se esforçando em cumprir o que havíamos combinado. Embora brigássemos, discutíssemos e continuássemos naquele clima esquisito, ela tentava se manter por perto e conversar decentemente comigo.
Acordei mais tarde que o normal no domingo de manhã. Acho que eu tive que compensar as horas de sono que eu me recusei a ter na noite anterior, quando eu perdera a maior parte dela velando o sono de null.
Surpreendi-me com null de roupa colada, o pé apoiado no braço do sofá, amarrando os cadarços. A bunda virada pra mim, no melhor ângulo, em sua melhor forma. Deixei meu queixo cair, um pouco embasbacado demais e tentei me concentrar no fato que era muito estranho ela estar vestida assim.
Lembrei-me, porém, que já havia visto. null aparecera assim na sua primeira semana na faculdade, na academia onde eu treinava. Apenas uns dois dias depois do nosso primeiro embate, logo após minha tentativa mal sucedida de levá-la à cama depois da minha corrida, e eu lembro que eu quase cheguei nela outra vez, mas, por algum motivo, ela desapareceu em seguida e eu nunca mais a vi por lá.
Obviamente, ela continuara malhando em algum outro lugar. Seu corpo era moldado e firme, os músculos eram delineados, mas sem exageros. Ela estava apenas mantendo, não se forçando.
— Bom dia — ela disse, ao ver que eu estava sentado na cama, com uma cara meio pateta, olhando para sua bunda.
Incrivelmente, ela não pareceu se incomodar com isso. Apenas pegou a garrafa jogada sobre o sofá e foi até o meu purificador para enchê-la.
— Bom dia — murmurei, limpando a garganta — Indo a algum lugar?
Ela estava batendo com os tênis no chão, nervosa. Só mais um pouquinho e ela já iria explodir.
— Caminhar, dar umas voltas por aí, nesse fim de mundo que você chama de casa — disse, tirando a garrafa do purificador e tampando-a.
Ah, ótimo dia. Era sempre bom quando acordávamos de bom humor, já tentando ofender um ao outro. Nem perdíamos tempo com educação alguma. Para quê, não é mesmo?
— E quem disse que você podia sair por aí sozinha? — perguntei. — Você perdeu a aposta, está sob a minha jurisdição.
Ela jogou a garrafa de qualquer jeito dentro da bolsa, que estava pendurada transversalmente em seu troco, e virou-se para mim, com uma careta.
— Você não está falando sério, está?
Estalei a língua. Não, eu não estava falando sério, eu só queria irritá-la, mas nos termos novos de amizade, ela tentava levar oitenta por cento das coisas que eu falava na brincadeira. Isso estava dificultando o meu trabalho.
— Não — eu disse, por fim. — Mas temos que almoçar com o meu pai hoje, então não vá muito longe e não demore.
— Você parece meu pai falando assim — riu.
Chamou minha atenção porque eu não me recordava de tê-la ouvido falar do pai antes. Pelo que eu havia entendido, pelos corredores, ela nem tinha família, passava o ano todo jogada por Jataí, sem ter para onde ir. Aquilo era novo, mas não durou. Tão rápido quando veio, eu percebi que ela havia se incomodado e o assunto se foi.
Eu me joguei na cama, preguiçoso, soltando um gemido de sofrimento.
— Eu provavelmente deveria ir com você, já estou ficando sem jeito.
Ela riu mais uma vez e eu logo ouvi a porta batendo com ela indo embora. Eu realmente deveria ir, mas null estava me entretendo e me distraindo, o que estava me deixando desleixado e sem jeito. Não havia dúvidas que abriria o circuito novamente, então, quando voltássemos às aulas, eu precisava aparentar estar em forma.
Mas ainda faltava tanto tempo... Eu podia cochilar mais um pouco.
Dormi por todo o tempo em que null esteve fora. Ela retornou alerta, soada, maravilhosa, me fazendo despertar mais uma vez com sua barulheira. Ri, vendo que ela estava agitada pelo esforço físico; algumas pessoas simplesmente se cansavam, mas não ela. Ela era como eu, se esforçava e queria sempre mais.
— Não vai levantar não? — perguntou. — Que horas é no seu pai?
Sentei-me, alerta. Peguei meu celular e visualizei a hora. A careta logo apareceu em minha face: merda, a gente só tinha meia hora.
O banheiro é meu! — null berrou, assim que percebeu que devíamos estar atrasados, mesmo sem que eu dissesse nada.

— Atrasado outra vez — meu pai disse, abrindo, ele mesmo, a porta da sala de jantar para mim. — E trouxe uma garota. — ele apontou, ao ver null entrando no cômodo.
Ela ficou ligeiramente insegura, olhou em minha direção e eu pude ver suas bochechas um pouco mais coradas que o normal, as sobrancelhas franzidas, sem compreender o que estava acontecendo. Mesmo assim, ela foi educada e ofereceu a mão para o meu pai.
— Sou null — falou.
Ele levantou sobrancelha para ela, mas pegou em sua mão, apertando-a de volta. Eu sabia que ele podia ver o que eu via, a null maravilhosa, decidida e irritadiça, e estava preocupado que ela pudesse ser o problema que estragaria os sonhos de fusão que ele tinha.
— Marcelo — respondeu.
Mas ele não estava nem um pouco feliz e quando null passou, bem mais tranquila, para dentro da sala, ele me lançou o pior dos olhares e eu sabia que eu levaria a bronca do século logo, logo.
Todos os empregados já haviam visto null e ela já estava desenvolvendo amizades com a funcionária que levava comida no meu quarto. Quando eu pedi-lhe a cama, ele sabia que tinha algo a ver com uma garota — talvez tivesse achado que a cama estava quebrada por excesso de uso ou algo assim, mas ele não imaginou que seria algo como eu estava demonstrando ali.
Frequência.
Todos à mesa, o clima esquisito continuou, ainda mais pesado. null chegou a me cutucar por debaixo da mesa e quando eu a olhei, ela estava arregalando os olhos, querendo dizer algo que eu não pude compreender. Apenas soltei um suspiro cansado porque era assim que eu me sentia quando meu pai agia daquela forma.
— Então, de onde vocês se conhecem? — meu pai perguntou e ele pareceu realmente interessado.
null quase se engasgou com o macarrão que ela comia, assustada com o assunto súbito e a pressa para responder.
— Da faculdade! — falou, animada que pudesse acabar com todo aquele mal-estar que nos cercava.
Meu pai estalou a língua, o que me informava apenas que ele estava ainda menos feliz com a informação obtida. Mesmo assim, ele não conseguia segurar, eu sabia que ele queria e iria continuar perguntando até não pudesse mais.
— Ah, é mesmo? — seu olhar, em minha direção, apenas perpetuou o você está ferrado que eu já havia percebido desde que ele pusera os olhos nela — E o que você está estudando lá?
null sorriu, simpática, como era com quase todo mundo (com a exceção, eu), alegre com a conversa. Seu rosto estava bem mais aliviado.
— Ciências biológicas — respondeu.
Eu tinha me esquecido que ela fazia isso. Quase soltei uma gargalhada com todo o jeito que ela tinha com cavalos, certamente não era com animais que ela pretendia trabalhar.
— Nossa, que interessante — meu pai disse. Eu quase ri novamente porque tinha certeza de que ele não achava nada interessante. — E o seu pai, faz o quê?
Mais cedo, naquele mesmo dia, eu tinha percebido que aquele era um assunto tabu para null. Ela o mencionara e ficara sem jeito por isso. Agora, ali, ficou ainda mais claro, ela encarou o seu prato, ligeiramente perdida, antes de levantar o rosto com um sorriso para lá de inseguro.
— Ele trabalha em uma empresa de distribuição de comida — disse. Por algum motivo, eu soube que ela estava mentindo.
Ficou bem claro que meu pai não gostou da informação, o que deixou null sem jeito e encerrou o assunto por ali. Ela terminou de comer muito mais rápido que o normal e, quando acabou, ficou olhando para mim com cara de cachorro sem dono.
— Vamos? — ela me questionou, assim que eu deixei o garfo cair no prato, terminando de comer.
Bebi o resto do meu suco, concordando com a cabeça, também me sentindo sufocado com o olhar magnânimo do meu pai.
— Vamos — eu concordei, batendo o copo na mesa — Tchau, pai!
Ainda enlacei a mão na de null, apenas para arrastá-la para fora dali e me levantei — foi tudo o de liberdade que eu consegui naquele momento.
— Eu gostaria de falar com você a sós, null — sua voz nos alcançou antes que eu pudesse escapar.
null me olhou com os olhos arregalados de susto. Eu queria beijá-la, queria sussurrar em seu ouvido que ficaria tudo bem, que eu estava lidando com meu pai há mais de vinte anos e que eu podia me safar dessa fácil, mas eu não o fiz. Porque, se fizesse, eu estaria mais ferrado ainda.
— Pode me esperar lá fora — eu lhe disse.
Ela concordou com a cabeça e saiu da sala de jantar meio incerta, olhando para trás, como se tivesse perdendo a oportunidade de ser testemunha de um assassinato. Sorri para ela, confiante, antes que ela sumisse para o corredor.
— Você podia ter tentado ser mais agradável — resmunguei.
— E você, mais cuidadoso — retrucou. — Você sabe que eu sempre dei ok em você curtir sua juventude, mas não se isso for contra o seu dever. E isso vai contra.
Essa história me irritava. Muito. Ele queria controlar tudo e a todos ao redor e eu já tinha idade o suficiente para controlar todo o meu mundo sozinho. Tinha a minha própria grana. Às vezes, eu só pensava em meter o pé daquele lugar e cortar todos os vínculos com o meu pai e com o futuro que ele tinha planejado para mim. Aí eu me lembrava da minha mãe e que meu pai agora era a única coisa que eu tinha, então eu apenas ficava e abaixava a cabeça.
— Como você sabe? — eu questionei, raivoso.
null não merecia ser questionável. Será que ele não podia ver que ela simplesmente valia a pena o esforço?
— Se a Kamille descobrir... — murmurou.
Foda-se a Kamille, era a minha opinião. Foda-se o mundo todo. Eu queria a porra do que eu quisesse e foder com quem me desse tesão, por todo o tempo que eu sentisse vontade. E a Kamille era uma que não me dava vontade nenhuma.
— Pai, ninguém vai saber de nada, ok? — eu disse, nervoso. — Só estou me divertindo com ela. Ok?
— Não estou muito confiante sobre isso. — ele falou. — null, se você estragar tudo...
— Eu não vou estragar tudo, tá? — retruquei — Posso ir agora?
Ele acenou com a cabeça e eu quase corri para fora da sala de jantar e para fora da casa. null estava parada do lado de fora, levantando e abaixando os pés, nervosa.
— Vamos — eu disse. Ela apenas olhou para mim e, percebendo a minha tensão, não disse mais nada.

Capítulo Oito

UNO

— Você é muito lento! — ela gargalhou, ainda à minha frente.
Resmunguei qualquer coisa estúpida, correndo atrás dela. Eu não era lento nem um pouco, mas preferia que ela pensasse assim a concluir que eu estava ali atrás apenas para admirar a bunda dela. O que, obviamente, era o caso.
null soltou uma gargalhada deliciosa quando se virou para mim, continuando a correr de costas, e caiu no meu teatrinho de quem estava sofrendo por sair andando pela fazenda para manter a forma.
Eu corria dez quilômetros por dia, como ela podia cair nessa?
— Você que é muito rápida! — eu reclamei, fazendo-a rir.
Estava me divertindo em fazê-la ficar feliz com tão pouco. Já descobrira que ela ficava bem mais suscetível quando não estávamos brigando o tempo todo — se estivéssemos no meio de uma guerra, ela provavelmente já teria reparado nas minhas olhadas constantes para o seu corpo. Daquele jeito, porém, ou ela não reparara ou simplesmente não se importava.
— Você quer apostar essa? — ela perguntou, gargalhando, virando-se de costas para mim novamente.
A garota era má e ambiciosa, eu gostava disso.
— O que você quer? — eu perguntei.
Ela virou-se de frente novamente, mas não continuou a correr, apenas a pular em seu próprio lugar, deixando que eu a alcançasse sem muito esforço.
— Quero fazer algo divertido — ela disse. — Não sei o quê, mas algo divertido.
Levantei a sobrancelha, ligeiramente admirado. Aquela null era algo muito diferente ao qual eu havia me habituado em todas as nossas discussões na faculdade; ela era um sopro de intensidade, algo que eu ainda não era capaz de compreender, mas admirava.
— Como um jogo? — perguntei, fazendo-a concordar com a cabeça. — Bom, nós podemos providenciar isso.
Ela concordou com a cabeça novamente e, assim que eu a alcancei, ela parou de pular e respirou fundo.
— E você?
Estalei a língua porque eu estava planejando deixá-la vencer daquela vez. Eu gostava de jogar com ela e gostava quando nossos jogos duravam mais, e eu faria de tudo para vencer seja lá o que fosse que jogássemos dali pra frente.
Mesmo assim, lhe respondi:
— Você sabe o que eu quero — lhe pisquei um olho.
As bochechas de null coraram levemente, antes que ela virasse de costas para mim e corresse em direção à casa. E eu fui, fingindo me esforçar, logo atrás dela, vendo-a quase tropeçando nos próprios pés de tanta vontade que estava de me vencer. Eu fiquei rindo, quase caminhando atrás.
Ela parou em frente à porta de casa e apoiou as mãos em seus joelhos, respirando pesadamente. Ao ver que eu me aproximava, ela arregalou os olhos e bateu com a mão na porta, como se estivesse marcando.
— Um, dois, três, ganhei! — ela disse.
Se eu soubesse que era pique-pega no começo, eu a teria pego. Agora já era.
— Você ganhou — eu concordei, para acalmá-la. Eu não estava nem um pouco ofegante como ela. — O que você quer jogar? — perguntei.
Encaixei a chave na porta e a girei, abrindo a mesma e entrando, com null em meu encalço. Ela se jogou na minha cama mesmo, sem nenhum rodeio, como se fosse dela. Aquela garota tinha um sério problema de falta de limites.
— Cartas? — ela questionou, incerta.
Caminhei até a estante da sala, onde havia uma gaveta e eu costumava guardar alguns jogos. Sem nenhum problema, encontrei um baralho ali e sacudi em sua direção.
— Pôker? Buraco? — questionei.
Ela estalou a língua e balançou a cabeça.
— Não sei jogar — disse. Vi-a empurrando o corpo para cima, até que ela quase se sentou. — Uno?
Eu ri. Devia ter imaginado que ela não sabia jogar nada decente, toda corretinha que era. Não, não tão corretinha assim. Franzi a testa em direção a ela e balancei a cabeça. A imagem que eu tinha de null estava mudando cada vez mais e eu não conseguia coordená-la muito bem, mas eu certamente não podia chamá-la de corretinha mais. Confusa. Misteriosa. Aí talvez funcionasse.
— Quem ganhar, tem direito a alguma coisa? — eu sugeri. — Aposta?
Ela sorriu de lado e eu logo percebi que eu estava convencendo-a a começar a tomar gosto pelas apostas e abri o maior dos sorrisos também. Depois que eu a estragasse, aquilo seria cada vez melhor.
— Quero que você me fale do seu pai e por que ele agiu daquela forma no almoço ontem — ela disse.
Céus. Se eu perdesse, eu ia ter que inventar uma mentira bem intensa e algo emotivo para que ela caísse na minha. Por sorte, eu não planejava perder, então eu suspirei e convenci-me de que aquela não era nem sequer uma opção.
— Quero um beijo — eu disse.
Ela arregalou os olhos por um momento, encarando-me e avaliando minha expressão como se procurasse por algum vestígio de alguma coisa. Soltou um suspiro cansado e derrotado e, então, concordou com a cabeça.
— Parece justo. — murmurou. — Vou tomar um banho antes e você podia ir fazendo alguma coisa pra gente comer?
Foi uma ordem disfarçada de sugestão. Eu ri e concordei com a cabeça, contudo, sabendo que ela sairia do banheiro em dez minutos e tomaria meu lugar na cozinha, refazendo tudo o que eu já teria feito.
Mesmo assim, eu coloquei a água no fogo para fazer macarrão e, como eu previa, null saiu do banheiro dez minutos depois e ralhou comigo porque eu não havia colocado óleo. Deixei-a lá para tomar meu banho e, quando saí, a comida estava pronta e deliciosa.
Almoçamos praticamente em silêncio, mas havia uma tensão específica no ar e ela não era de todo ruim. Deixei null envergonhada só com o meu olhar algumas vezes e eu estava verdadeiramente orgulhoso disso.
— Pronta para perder? — eu perguntei, assim que terminamos de comer.
— Pronto para lavar a louça? — ela se esquivou.
Concordei com a cabeça, rindo e aceitei lavar a louça do almoço enquanto ela arrumava as cartas. Não demorou muito, nenhuma das duas atividades.
Sentei-me em frente a ela, no chão da sala, sobre o tapete felpudo no qual havíamos nos beijado apenas na semana anterior. Deixei minha mente vagar pelo gosto e pela maneira que aquele beijo tinha sido e os pensamentos se foram sozinhos pelo nosso amasso na boate e continuou para além, nas coisas que ainda não havíamos feito.
Nossa, aquela garota simplesmente me deixava maluco. Tive que pegar uma almofada e colocar no colo para disfarçar que minha ereção já estava querendo dar o ar de sua graça só com possibilidades.
Quando eu conseguisse comê-la, eu não ia poder parar por uma semana inteira. Ela não ia nem conseguir andar quando eu terminasse.
— Você não roubou as cartas enquanto eu estava na cozinha, roubou? — perguntei, com uma risada.
null se ofendeu com a minha brincadeira e fechou a cara para a minha observação impertinente, não levando tanto na sacanagem quanto eu. Obviamente, eu tinha certeza de que ela não roubaria, não faria o feitio dela.
null, sim. E ele tinha feito meia centena de vezes. Eu não confiava mais naquele muquirana de jeito nenhum.
— Eu não roubo — ela disse.
Sorri de lado, pegando minhas cartas e vendo que eu tinha algumas cartas especiais para poder brincar melhor e deixar null irritada.
— Claro que não — murmurei — Nem eu. Eu só roubo beijos.
Ela ficou desconfortável, mas disfarçou com um sorrisinho de lado e deu de ombros, com um suspiro.
— Bom, parece que isso se enquadra no nosso jogo — disse.
Eu ri, negando com a cabeça, mas eu sabia que, no duro, ela não acreditava muito nisso. A única forma de roubar no UNO era gritando que não valeu ou jogando várias cartas de uma vez só — e não eram coisas muito inteligentes de se fazer.
Contei minhas cartas, eram dez. Eu não estava lá muito bem servido, mas deveria dar para o gasto. null virou a primeira carta na mesa e eu arregalei os olhos ao ver um oito verde. Eu não tinha a porra de nenhuma carta verde. Tive que jogar a minha carta de escolher a cor e escolhi amarelo, porque era a cor que eu mais tinha.
— Mas já? — null perguntou, rindo.
Ela jogou um oito amarelo, o que me fez torcer a cara. Talvez, se ela tivesse sido a primeira a jogar, eu não teria precisado gastar minha carta especial.
— Eu acho que você roubou as cartas, mesmo — resmunguei.
Ela apenas riu, o que me fez cerrar os olhos na direção dela. Joguei um cinco amarelo, apenas porque eu tinha dois e, para me surpreender, ela jogou um maldito cinco verde, sorrindo maliciosamente.
Verde.
Eu já a odiava.
Tomei um longo suspiro e já estava levando a mão para comprar uma carta quando reparei que eu tinha outro cinco amarelo — eu já havia reparado, mas esqueci por um momento —, além de um cinco azul.
— Já sei por onde eu vou amarrar você — ela disse.
E jogou um cinco vermelho, tentando mudar a cor de qualquer jeito. Estava começando a achar que eu também sabia por onde pegá-la.
— Baby, você pode me amarrar na hora que quiser — respondi, logo percebendo que suas bochechas ganhavam cor — Nem precisa pedir permissão.
Joguei o cinco azul, insistente, e aparentemente venci a batalha, porque ela soltou um suspiro cansado e jogou um zero da mesma cor. Joguei o meu um azul e ela comprou, jogando o um amarelo que tirara, sorrindo.
— Sorte de quem não sabe jogar — eu disse para ela, o que a levou a me dar língua.
Sorri.
Joguei um nove amarelo e ela comprou novamente. Sua expressão decepcionada me disse rapidamente que não era mais nada amarelo.
— Passo — suspirou.
Joguei um quatro amarelo e ela comprou mais uma vez, revirando os olhos. Eu gargalhei, jogando minha última carta amarela: um. Ela comprou mais uma vez e com uma expressão de triunfo, jogou uma carta especial.
Vermelho! — exclamou, animada pela sorte.
Eu tinha uma carta vermelha, um reverso, e a joguei.
Uno! — disse. Infelizmente, a jogada voltava para mim e eu tive que comprar uma carta, com uma expressão tão decepcionada que null riu.
Tirei uma carta verde e ela jogou uma vermelha, me obrigando a comprar novamente. Soltei um suspiro ao ver outra carta verde caindo para a minha mão. null riu novamente e jogou mais uma carta vermelha, um sete, o que me fez sorrir aliviado, porque eu tinha um sete azul. Ela torceu a cara e jogou um reverse azul e, por cima, um cinco azul. E eu joguei o meu cinco verde, comprado umas rodadas atrás.
— Uno! — exclamei, animado dessa vez.
null me deu língua outra vez e jogou um seis verde.
— Uno! — ela também disse.
Sorri e joguei minha última carta, um quatro verde.
— Venci!
Melhor de três! — berrou, abandonando sua carta na mesa. — Essa partida não valeu, foi muito rápido, não deu nem para esquentar.
Por detrás da irritação que ela demonstrava, eu sabia que estava se divertindo. Era possível ver através dos seus olhos ou em seus lábios, que insistiam em se repuxar para cima, sendo obrigados a voltar à posição natural para que ela mantivesse a pose.
Acabei por concordar e embaralhamos as cartas novamente. Dessa vez, eu queria que a partida fosse ainda mais curta e encerrasse logo, afinal, estávamos apostando um beijo, e eu o queria muito!
Ela virou a primeira carta, um quatro verde.
— Eu venci, eu vou primeiro — eu disse, ao ver que ela já estava se preparando para jogar.
— Quem começa é quem perdeu! — reclamou.
Joguei minha carta antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa — o que não a deixou muito feliz, não. Minha mão estava muito melhor que a anterior, mas resolvi deixar os trunfos para o final e joguei um oito verde e, com um sorriso, ela jogou um reverse e um três verde, dando-lhe uma ligeira vantagem.
Joguei um bloquear verde e então uma carta um verde e já estava sorrindo por empatar quando ela me meteu um compre quatro.
Desafio! — eu berrei. Se eu perdesse, ia me foder feio, mas eu não podia desistir sem nem tentar. Joguei minha carta de comprar dois e ela jogou outra em cima. Eu não tinha mais nada. Oito cartas pra mim.
Para completar minha morte, ela jogou um bloqueio azul e então um bloqueio amarelo.
— Você não pode estar falando sério — reclamei.
Ela apenas riu e deixou um sorriso malicioso dominar-lhe a face. Suspirei e ela jogou um quatro amarelo.
Eu precisava fazer alguma coisa ou ia perder muito, muito feio. Joguei um bloqueio amarelo, o único que eu tinha, e um sete amarelo, o que ela respondeu com um zero da mesma cor. Joguei um sete amarelo e ela jogou um sete azul, o que me deixava usar minha nova carta azul mais dois que eu tirara nas cartas que eu comprara.
— Ahá! — comemorei.
— Ainda tenho menos — deu-me língua, tirando duas cartas do baralho.
Não importava, uma pequena vitória ainda era melhor do que vitória nenhuma. Porém, eu não tinha mais nenhuma carta azul, então joguei uma de mudar cor e pedi por vermelho. Ela comprou uma carta, revirando os olhos.
Eu venceria de novo? Mesmo? Na maior das cagadas?
Joguei um nove vermelho e ela me deu um mais dois. Puta merda. Comprei, revoltadíssimo. null estava se divertindo para caralho.
— Ahá o quê? — questionou.
Engoli minha resposta. Ela jogou um três vermelho.
Uno! — disse.
O quê? Como assim? Joguei minha última carta especial e mudei a cor para amarelo, a obrigando a comprar uma carta. Suspirei, aliviado.
Por favor, eu tinha que virar aquele jogo! Joguei um seis amarelo e ela comprou outra carta, já ficando zangada.
— Uno o quê? — devolvi.
Ela me deu língua mais uma vez. Joguei um cinco amarelo e ela comprou de novo. Meu coração já estava disparado, eu adorava aquela sensação!
Joguei um quatro amarelo e ela finalmente conseguiu uma carta para jogar: um quatro vermelho. Eu ainda tinha duas cartas a mais que ela e estava ficando nervoso com isso. Eu precisava vencer!
Joguei um cinco vermelho e, ela, um sete. Joguei um cinco e ela, um três.
— Uno de novo — anunciou, com um sorriso.
Comprei uma carta. Quando veio um mais quatro, eu não pude acreditar.
— Azul — eu disse.
Ela respirou tão fundo que suas narinas inflaram e pegou as quatro cartas como se estivesse andando para a forca. Joguei um quatro azul.
— Uno — eu disse.
Ela jogou um quatro verde. Não pude acreditar na minha sorte, minha última carta era um oito verde e foi abandonada no topo da pilha. null abaixou as suas cartas e ficou com um olhar meio perdido, então eu levantei a mão e a chamei com o dedo só.
Ela capturou o movimento, parecendo hipnotizada. Prendi a respiração ao vê-la apoiar as mãos no chão e engatinhar até a minha frente, onde parou, sentada, sem saber o que fazer. Restou a mim grudar nossos lábios, minha mão direita em sua cintura e a esquerda em seu rosto, puxando-a mais para perto.
Encostamos nossos lábios, só encostar, por um longo momento, antes que eu mordesse seu lábio inferior e ela cedesse para que pudesse aprofundar o beijo. Acho que ouvi um ligeiro gemido vindo de seus lábios nesse momento e a apertei ainda mais contra o meu corpo.
Era muito melhor assim, sem ser a força, sem ser bêbado. Ainda não era totalmente concedido, mas eu já conseguia sentir as diferenças.
Talvez por já ter abusado um pouco mais de suas curvas na boate, eu logo afastei os lábios dos dela e levei-o ao seu pescoço, no exato lugar onde eu já havia deixado um chupão, apenas para lembrar àquele pedaço de pele que ele era meu. null não reclamou, ela cedeu, jogando a cabeça para trás e me dando espaço, ao mesmo passo que soltou um suspiro.
Voltei a beijá-la nos lábios e já estava encontrando uma maneira de deitá-la no chão para que eu pudesse me aproveitar ainda mais daquelas sensações quando ela afastou meus lábios dos meus, apenas alguns centímetros, quase como se não tivesse certeza do que estava fazendo.
— Você pediu só um beijo — disse.
Seus lábios roçaram nos meus quando ela disse e eu grudei-os novamente, antes de morder seu lábio inferior, puxando-a pela cintura.
— Foda-se — murmurei.
Senti suas mãos mais pesadas em meus ombros. Um, dois tapas. Percebi, então, que ela estava tentando me afastar.
— Um, um beijo, null — ela disse.
Empurrei meu corpo para trás, sentando-me sobre a batata da minha perna e null se levantou, respirando fundo. Vi-a passando a mão pelos cabelos antes de entrar no quarto e fechar a porta.
Era para entender?

Capítulo Nove

Proposta

O beijo não afetou tanto null emocionalmente quanto a nossa ficada na boate a havia afetado. Dessa vez, ela tinha a desculpa perfeita para não se culpar: ela perdera uma aposta justa.
E perdera feio, na verdade.
Eu arrisquei fazer algumas piadinhas sobre a sua perícia no Uno, mas eu logo parei porque ela praticamente me ameaçou:
— Não se esqueça de que eu cozinho a sua comida — disse, com um sorriso bastante esquisito, que me deixou nervoso.
Então parei de pentelhá-la tanto sobre isso.
O meio de dezembro foi alcançado com uma lufada de ar quente. null ficou muito feliz em ter um ar-condicionado no quarto, mas eu estava passando maus momentos tendo que dormir na cama da sala, sem muita refrigeração.
Depois de uma noite fervente, eu resolvi que não dava mesmo. Então, quando deu umas oito horas, e eu concluí que null não sairia mais do quarto, eu peguei meus travesseiros e me arrastei para dentro do quarto, sem nem bater na porta. null estava deitada na cama e levou um susto, tremendo ao me ver entrar.
Arregalei os olhos ao vê-la tirar o braço rapidamente de debaixo do edredom, parecendo desconfortável. Não, eu disse a mim mesmo ao ver a posição estranha em que ela estava, ela não podia estar se masturbando, não podia! Era demais para minha cabeça, acho que quase que se eu parasse para pensar na possibilidade quase certa, eu iria explodir!
— Eu já sabia que você não tinha educação, mas qual é a sua agora? — ela tinha ficado realmente puta da vida.
Era isso. Ela estava se masturbando. Esqueci até como se fazia para respirar. Continuei ali, estúpido, parado, olhando para ela enquanto ela esperava alguma resposta minha, mas eu não conseguia. Na minha mente, só se passava o que estivera acontecendo por debaixo daquele edredom, sua mão acariciando seus grandes lábios, fazendo movimentos circulares em sua vulva, seus dedos penetrando dentro dela... Sua expressão facial de pleno prazer. Ai, caramba.
O quarto estava com o ar condicionado ligado há, pelo menos, duas horas, mas eu não conseguia sentir nenhuma diferença de quando eu estava do lado de fora. Meu corpo estava pegando fogo de desejo e eu mal conseguia me controlar.
— Er... Eu... — engoli a seco com o olhar raivoso de null sobre mim. Sacudi a cabeça, tentando colocar meus pensamentos de volta no lugar. — Hm... É que lá fora está muito quente e é impossível dormir, então...
Ela arqueou a sobrancelha e eu estava certo em achar que ela sabia que havia algo de estranho comigo. Minha confiança tinha ido totalmente embora. Se eu estivesse normal, já teria me jogado na cama e não sairia dali.
— Então você achou que podia invadir o quarto e dormir comigo? — ela questionou, com um sorriso irônico.
Que merda, por que aquela mulher tinha que ser tão deliciosamente gostosa? Puta que pariu, eu ia perder a cabeça qualquer dia desses.
— Não achei — eu disse, caminhando até a área vazia da cama — Tenho certeza.
Joguei-me na cama e null arrastou seu corpo para o lado, fazendo cara de nojo e desprezo com a minha atitude.
— Você me deu a cama — reclamou.
— Eu te dei uma cama — corrigi-a. — Não disse qual. Você pode ficar com a da sala, se quiser, mas eu vou deixar você dormir na mesma cama que eu, com ar condicionado — completei, apoiando meu rosto no meu pulso, com o braço dobrado, sustentando-o no ar, com um sorriso esplendoroso — Porque eu sou legal.
null revirou os olhos e se levantou. Eu realmente estava achando que ela iria para a sala e estava prestes a alertá-la que era melhor não ir, quando ela abriu o armário e voltou para a cama com uma pilha de edredons.
Rindo, percebi que ela estava fazendo uma barreira com as roupas de cama, entre o espaço que ela definira seu e o espaço que definira meu. Ela era muito irritadinha e engraçada.
Mas o que me pegou mesmo foi o shortinho minúsculo que ela usava para dormir e a blusinha fina, curta, sem nada por baixo. Tinha certeza que se eu colocasse a mão, eu conseguiria sentir os bicos dos seus seios enrijecendo com o meu toque, muito melhor do que haviam feito em nosso amasso na boate.
— Você acha mesmo que eu vou te atacar durante a noite, sua louca? — eu perguntei. Ela me lançou um olhar raivoso, provavelmente por causa do sua louca, mas voltou a ajeitar os edredons no meio do cama como se eu não tivesse dito nada — Eu dormi com você abraçada comigo, bêbada, e não te ataquei. Por que eu faria agora?
Ela parou de arrumar o edredom e levantou o rosto, revirando os olhos. Soltou um suspiro cansado e voltou a se sentar na cama.
— Precaução.
Merda. Não ia nem dar para tirar uma casquinha.
Quando estava prestes a retrucar, nós ouvimos um barulhinho irritante que eu não sabia de onde vinha. null, por outro lado, pareceu saber exatamente de onde, pois caminhou até a cômoda e tirou seu celular de lá, onde estava carregando. Ela olhou para a bina por alguns instantes, franzindo a testa e, eu alerta, estava me perguntando o que podia ser.
Eu só ouvira seu celular só tocara uma vez durante aquele período e fora a ligação de null, durante a viagem para a fazenda. Seria o babaca outra vez?
— Alô — ela disse, atendendo a ligação. — Tô, tô bem sim, pai.
Eu estava completamente alerta e curioso. null, por outro lado, parecia carregar uma bigorna nas costas; arrastou-se de volta para a cama e se jogou deitada ao meu lado, já praticamente derrotada.
— Como você sabe que eu não estou na cidade? — questionou — Gente pra me seguir? Pai, como assim? — ela parecia nervosa, mas não tanto. Como se já estivesse acostumada com gente a seguindo por aí, o que me fez franzir as sobrancelhas.
Parei para pensar. O pai dela não trabalhava com uma empresa de comidas ou algo assim? Como ele tinha colocado gente para segui-la?
— Tá bom, pai, mas eu não quero os seus seguranças me seguindo, eu estou bem — ela disse. Seu olhar virou-se para mim enquanto ela falava, e estava meio perdida. — Estou na casa de um amigo. Não, não é o null. Qual o problema se eu estiver namorando? — agora ela estava ficando irritada. — Pai, só me deixa em paz como você tem feito, ok?
Caramba.
null desviou o olhar para o teto e eu fiquei ainda impressionado com as informações todas. O pai dela tinha seguranças, achava que nós estávamos namorando — o que ela não desmentira — e tinha deixado-a em paz, seja lá o que isso significasse.
— Não entendi — murmurou, com a voz perdida, mas pareceu ter uma pitada de ira ali. — Como assim você, depois de quase dois anos sem me ver, quer que eu vá passar o Natal aí? Importante?
Sua voz era falha, mas eu sabia que ela estava quase rindo de nervoso. Eu não sabia o que estava se passando por ali, mas eu queria poder fazer alguma coisa para acalmá-la. Deslizei minha mão por cima do muro que ela criara e deixei-a cair em cima da dela.
null tomou um susto com a minha demonstração de afeto e quase tirou a mão de debaixo da minha, mas soltou um suspiro e apertou-a de volta como se sua própria vida dependesse disso. Ela desviou o olhar em minha direção e eu sorri para ela, fazendo-a sorrir de volta, um sorriso triste e confuso.
— Eu não sei, pai, eu estou muito bem aqui onde eu estou — ela disse, ainda olhando para mim, o que fez meu estômago dar uma cambalhota muito louca — Com carinho — riu, quase com deboche. — Tá. Eu vou pensar nisso. Tudo bem. Tchau.
Ela tirou o telefone da orelha e jogou-o de qualquer forma em cima da cômoda, ao lado da cama, soltando um suspiro profundo. Com uma mão ainda presa a minha, ela levou a outra aos cabelos, entranhando os dedos em suas madeixas, de forma desesperada.
— Você quer passar o Natal com ele? — perguntei.
null fechou os olhos, apertando as pálpebras, exatamente como se aquilo estivesse comendo-a por dentro. Eu podia ver que era o orgulho que não a fazia pular de alegria por ele lhe dar atenção; era a mesma expressão que eu fazia quando eu tinha que engolir o temperamento do meu pai porque eu o amava e ele era a única coisa que eu tinha.
— Eu não sei — sussurrou, com a voz fraquinha.
Passei meu corpo todo por cima do muro de edredons e puxei seu tronco em minha direção, sem nem pensar. Ela passou os braços por mim, afundando a testa em meus ombros e soltando um suspiro pesado. Senti um ligeiro molhado na região onde seus cílios faziam cócegas em minha pele e esfreguei suas costas, totalmente sem jeito algum.
— Você parece querer — sussurrei. — Eu posso te levar lá. Posso ficar lá com você, se você quiser.
null soltou o meu abraço, colocando uma madeixa de cabelo atrás da orelha de forma displicente e me deixando ver seus olhos ligeiramente umedecidos, magoados pela situação.
Bem que diziam que era melhor não mexer em feridas não cicatrizadas, e agora ela tinha o próprio causador da ferida enfiando o dedo e mexendo até que ela se abrisse de novo, estourando todo o seu emocional, sempre tão controlado.
— Eu não vejo isso sendo uma boa ideia — murmurou, dando de ombros e ostentando um sorriso triste na face. — Ele acha que eu estou com um namorado e pareceu gostar da ideia de ter alguém comigo.
Isso me surpreendeu. Eu levantei uma sobrancelha para ela e isso a fez rir um pouco, como se minha reação não fosse exatamente o que ela estava esperando.
— Bom, eu poderia fingir isso sem nenhum esforço — eu lhe disse. Ela riu e me deu um tapinha no ombro. — É sério. Você parece querer ir e parece importante pra você. Se você estiver com medo ou assustada, eu ainda tô aqui e tal.
Eu definitivamente não sabia como fazer isso direito. Queria ajudar, mas mal conseguia me expressar de que forma e como, porém isso pareceu deixar null feliz de alguma forma. Ela sorriu, doce, e se aproximou, deixando um beijo estalado em minha bochecha, antes de se sentar.
Fiquei em uma posição esquisita para olhá-la, então me sentei também.
— Obrigada — disse, por fim. — Seu pai não vai se importar?
Eu neguei com a cabeça, com um sorriso triste no rosto, porque o Natal era um pouco complicado para nós, em casa. Minha mãe havia sido assassinada justo quando estava voltando das compras dos presentes, então meu pai simplesmente se recusava a voltar a comemorar a data, mesmo comigo tendo insistido durante anos que era o que a mamãe gostaria.
Eu perdi a batalha e aceitei que ele fosse desse jeito mesmo.
— Não, meu pai não comemora o Natal — confessei, sentindo minha mão coçar para acariciar seu rosto até que ela estivesse com um sorriso verdadeiro estampado ali. — Acho que ele tem um cruzeiro esse ano, com pessoas que também não comemoram. Alguma coisa assim. Vai ser bom comemorar, dessa vez, eu acho.
A criança dentro de mim, a criança que perdera uns dez Natais na vida, mal podia se conter para a festa e nem se importou com a expressão assombrada de null, com a informação.
— Então, eu acho que... — suspirou, quase como se arrependesse instantaneamente da decisão que ainda não tomara. — Tudo bem.
Sorri para ela, mas estava começando a me corroer de curiosidade. Talvez eu não conseguisse mais trazer o assunto à tona, o suficiente para fazer aquelas perguntas. E eu resolvi fazer, mesmo com ela ainda um bocado chateada.
— Então, seu pai trabalha na empresa de distribuição de comida mais rica do mundo? — interroguei.
null fechou os olhos, envergonhada, e respirou bem fundo antes de abri-los novamente, me encarando como se avaliasse qualquer coisa em mim que eu não compreendia. Ela estalou os lábios, por fim, dando de ombros.
— Meu pai é ministro da agricultura, no segundo mandato — disse. — Por favor, não conte pra ninguém.
Era muita informação, mas em vez de processar a parte difícil, eu me concentrei no pedido esquisito que ela fazia.
— Por quê?
Ela torceu os lábios e soltou minha mão, só agora eu percebi que ela ainda a segurava. Com a mão livre, começou a fazer círculos no lençol, desconfortável, o que me fez soltar um suspiro e segurar sua mão novamente, estranhando a falta de calor que ocorreu quando ela desentrelaçou seus dedos dos meus, mesmo que por alguns segundos.
— Você já viu a quantidade de filhos de fazendeiros que estudam com a gente? — perguntou. — Você, inclusive? Se meu pai fizer alguma coisa que alguém não gostar, você não acha que vão tirar satisfação comigo? E uma garota do meu tamanho... O que eu vou poder fazer?
Eu franzi a testa para ela, compreendendo, em parte, seus medos. E eu sabia que parte deles era por causa da sua solidão, de ela saber que não podia contar com ninguém, incluindo o idiota do seu amigo.
Peguei-me desejando protegê-la e me senti muito estúpido por isso. Mas eu já havia entrado em tantas brigas por nada; aquela era uma briga que eu pegaria e lutaria com todo o gosto possível.
— Muitas coisas — eu disse — Você é bem braba quando quer.
Ela me encarou assombrada por um momento, antes de jogar a cabeça para trás em uma gargalhada. Acabei rindo um pouco também e ela parou, olhando para minha cara, com um sorriso bobo no rosto.
Se nós estivéssemos em um filme, aquela era a hora do beijo, eu podia ver. Depois de uma conversa profunda, a tensão havia se esvaído e null me encarava com as bochechas coradas, com leveza e admiração.
Mas tal como o momento se veio, ele se foi, mostrando que nós estávamos era vivendo a porra da realidade mesmo. Ela desviou o olhar, quase como se arrependesse daqueles segundos de câmera lenta e soltou um suspiro.
— Eu duvido que eu vá conseguir dormir tão cedo, agora — disse.
Torci o nariz porque eu podia ver a preocupação em seus olhos, o nervosismo entranhado por dentre sua pele e aquilo só poderia significar que ela só iria cair na cama se estivesse muito fisicamente cansada.
Eu tinha uma ideia de como deixá-la totalmente cansada, mas como certamente não iria acontecer, acabei sugerindo outra coisa.
— Nós podemos apostar numa partida de videogame — soltei a ideia.
Ela fez uma careta e tirou sua mão da minha mais uma vez, jogando as pernas para fora da cama, como se fosse se levantar, talvez aceitando minha ideia.
— Eu acho que pode ser divertido, mas é injusto apostar — disse. — Eu não sou nem um pouco boa em nenhuma dessas coisas.
Eu ri e me levantei também, pronto para enfrentar o calor novamente, mas apenas na intenção de trazer o videogame para dentro do quarto, onde nós poderíamos brincar sem nos desfazer do ar condicionado.
— Bom, acho que você deve estar me devendo uma, já que eu estou te liberando da aposta pra você passar as festas com o seu pai... — joguei essa, para convencê-la.
null revirou os olhos e pareceu disposta a concordar comigo, então eu abri um dos meus melhores sorrisos inocentes, sem que ela nem sequer percebesse o que se passava dentro da minha mente.
— Tudo bem, vou apostar, mas já sei que eu vou perder — aceitou, pessimista. — O que você quer?
E mantendo a minha expressão inocente, eu disse:
— Sete minutos no paraíso.


Continue lendo >>