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Última atualização: 10/08/2017

Prólogo


– Eu sei que os últimos dois anos têm sido uma loucura... – falava e sorria ao mesmo tempo, fazendo a namorada sorrir também – Tantas coisas incríveis aconteceram. Mudamos de cidade, mudamos nossas vidas, mas eu ainda te amo com a mesma intensidade de antes, talvez mais. – ele riu e esticou suas mãos sobre a mesa para agarrar as dela, afagando-as levemente – Eu não sei se esse é o momento certo, , mas concluí que nunca saberia se não tentasse. – respirou fundo, ainda a olhando nos olhos.
o olhava com um sorriso doce e apertava as mãos dele numa forma de encorajá-lo a dizer o que queria. Uma parte dela já sabia que o pedido seria feito a qualquer momento. Era normal, não? Não era esse o curso das coisas? Ela achava que sim. Não havia nada mais natural do que as palavras que ela ouviria a seguir.
era seu amigo de infância, era o garotinho que fazia um esforço danado empurrando o balanço do parque só para vê-la sorrir, o cara que a levou para o baile da escola e que a amou pela primeira vez. Havia uma infinidade de momentos compartilhados com ele, segredos que só ele sabia, sentimentos que somente ele despertava. Enquanto o ouvia falar, de frente para ela e mostrando-lhe seu melhor sorriso, ela sequer pensava em outra coisa senão no quanto o amava.
Quando a pergunta viesse, ela diria sim. Não tinha motivos para negar. Não naquele momento.

Capítulo 1


“Chegou a hora de amar desesperadamente
Apaixonadamente
Descontroladamente
Chegou a hora de mudar o estilo
De mudar o vestido
Chegou atrasada como um trem atrasado
Mas que chega”
(20 anos recolhidos – Chacal)


– Tem certeza que está bom? Eu ainda posso melhorar isso e carregar um pouco mais nos olhos. – deixou a voz morrer, analisando o rosto da amiga pelo espelho.
sorriu, negando com a cabeça. A maquiagem simples – sombra iluminadora, cílios carregados, blush moderado e batom rosa – já era mais do que ela costumava usar diariamente.
– Ainda acho que um batom vermelho cairia bem, sabe?
riu e levantou da cadeira, indo até a cama e pegando o vestido que ganhara de para usar no evento, colocando em frente ao corpo. Era um modelo justo, azul escuro, que seria usado com ankle boots de cor nude.
, o tal do red carpet começa ainda de dia. Quer que eu chegue carregada no brilho e nas cores vivas? – largou o vestido novamente na cama e tratou de hidratar a pele – Não gosta de mim, não? – arqueou uma sobrancelha, rindo depois.
– É blue carpet, criatura! – a amiga gargalhou – Pelo amor de Deus, me diz que o te deu umas aulinhas sobre o mundo da fama durante a semana!
– Quer parar? – riu fraco – Tá me deixando nervosa! Não sei por que o insistiu tanto para me levar. – bufou, sentando-se na cama – Achei que nesses eventos só as esposas comparecessem.
começou, com uma pose de quem entendia muito do assunto – Há certa etiqueta que diz que namoradas não são necessárias nesses eventos, principalmente se elas não forem do ramo. – rolou os olhos, mas continuava atenta – Você está no patamar noiva, portanto, tem moral. – concluiu, fazendo a amiga rir.
e estavam noivos há quase um mês. Assim que voltou da turnê de verão, o músico preparou um jantar em seu apartamento e fez o pedido, de forma simples e intimista, como era quase tudo naquele relacionamento. Uma simples foto de sua mão com o belíssimo anel de noivado foi a responsável por mostrar ao mundo o novo passo que deram em seu relacionamento. Desde então, o clima sempre tão ameno e apaixonado entre os dois só melhorava, com horizonte mostrando o futuro que lhes reservava uma história digna dos melhores roteiros de romance, se tudo seguisse o script esperado.
Os dois se conheceram ainda crianças, quando os pais de se mudaram para a rua onde morava, em São Francisco. A amizade dos pais refletiu nos filhos e logo os dois pequenos se tornaram melhores amigos.
Estudaram nas mesmas escolas, frequentavam o mesmo parquinho e revezavam as casas para assistirem desenhos animados juntos. ensinou a andar de patins e ele a ensinou a tocar violão. Cresceram juntos entre partidas de beisebol no campinho do bairro e jogos de perguntas e respostas na casinha de lençóis no quintal dos . Ela o ajudava com as tarefas de História Geral e ele com a fuga das aulas de Educação Física.
Quando o primeiro beijo aconteceu, depois de longos anos de amizade genuína e cumplicidade, em uma comemoração desastrada por ter conseguido uma chance com uma pequena gravadora, as coisas entre eles seguiram seu curso natural. Engataram um namoro e agora, três anos depois, estavam noivos.
Ainda no início do relacionamento, a música de ganhou reconhecimento e logo ele estava fora da cidade, sempre viajando e abrindo shows de grandes cantores. Por causa das gravações do álbum, Los Angeles era quase seu endereço fixo.

Flashback – 3 anos atrás

– Você tem um mês para decidir, . – falava ao telefone – Ou ficar em São Francisco e namorar por prestação, ou tentar a UCLA, dividir um apartamento com a sua amiga e ter o namorado sempre por perto. O que parece mais tentador, hein?
– Ok. – suspirou – Me virar sozinha em LA. – pensou alto enquanto caminhava pelo quarto, vez ou outra encarando a tela do computador, onde a página da Universidade da Califórnia estava aberta.
– Não é exatamente sozinha, . – rolava os olhos e sabendo que a amiga não poderia ver, carregou a voz com um tom tedioso – Agora, sente-se nessa cadeira, preencha o formulário para a bolsa e espere a resposta. Que será positiva, é claro. Você sempre foi uma nerd. Enfim posso ver vantagem nas aulas do grupo de coral e teatro. – riu.
respirou fundo e fez o que a amiga aconselhara. Se tudo desse certo, em agosto ela estaria em Los Angeles, dividindo uma nova vida com a amiga que havia se mudado para lá há um ano e já cursava a faculdade.
Toda a ideia de mudança lhe revirava o estômago, entre o medo e excitação, por isso agradecia mentalmente a amiga por sempre ser a voz que enviava coragem para sua consciência.
– Feito? – perguntou em expectativa, alguns minutos depois.
– Feito! – soltou um gritinho animado.
– Se você acha que as festas em São Francisco são badaladas, espere para ver as daqui! – gargalhou e então se lembrou de algo – Puta merda, ! Seu namorado é um cantor com fama em ascensão e deve ganhar vários convites para essas boates insanas! Nunca gostei tanto de ser sua amiga!
riu, sentindo certa animação, mas foi cautelosa na resposta.
– Você sabe que não é o tipo de cara que curte essas baladas insanas. – brincou com a voz nas últimas palavras.
prezava mais um bom bar e uma mesa rodeada de amigos. Não negava um pedido de para ir dançar, é verdade, mas sempre precisara de umas doses de álcool para se soltar. Sempre fora o polo mais tranquilo do relacionamento.
– Aposto que o empresário dele vai fazê-lo curtir. É bom para a imagem aparecer em eventos sociais, sabia? – riram – E você vai estar com ele, amiga! Eu não vou aparecer na foto, mas vou me divertir também. – dessa vez gargalharam – Esse namoro vai esquentar, . Escute o que eu digo. É LA, babe!
torcia para que ela estivesse certa.

Flashback Off

Ela não soube identificar o carro que os levava até a cerimônia, certamente era de luxo, não uma limusine, mas grande o bastante.
estava visivelmente feliz. Concorria a quatro categorias no Teen Choice Awards e mesmo que não levasse uma prancha sequer para casa, fazer parte de algo assim já era um sonho realizado. Ter a garota que ama ao seu lado, para segurar sua mão, lhe dar um beijo de comemoração ou de consolo, fazia tudo ainda mais perfeito.
Desde que tivera reconhecimento no mundo da música, conhecera todo o tipo de gente e isso inclui todo o tipo de mulheres. Muitas o atraíam, mas ele nunca ousou trair . Ela era a mulher que ele queria ao seu lado. Seu relacionamento com ela era uma calmaria e ela não ousava mudar isso. Nunca.
– Está pronta? – perguntou assim que sentiu o carro parar.
– Se você estiver pronto eu também vou estar. – sorriu confiante, desejando-lhe boa sorte ao pé do ouvido antes de beijá-lo levemente.
O frio na barriga existia para ambos. Para já era rotineiro, mas sentiu as mãos começarem a suar assim que um segurança abriu a porta para o casal.
Fazia muito barulho lá fora. Pessoas que pareciam organizar o evento andavam apressadas entre os artistas e câmeras e microfones eram esticados em todas as direções.
Assim que saltaram do carro, flashes foram disparados violentamente e alguns gritos tentavam chamar a atenção de . Pararam rapidamente, sorrindo e posando para as fotos e seguiram para onde uma mulher indicara. seria brevemente entrevistado.
A guia faria companhia a enquanto ele respondia algumas perguntas, mas negou a proposta e não largou sua mão enquanto caminhava na direção do casal elegante e animado que terminara de entrevistar Ian Harding, ator de Pretty Little Liars.
! – o homem começou, numa animação exagerada – Indicado a quatro prêmios hoje! Minha esposa está em casa torcendo para que você leve o de Melhor Canção de Amor. Ela te adora, sabe? – pousou uma mão no ombro do cantor, que sorriu.
– Isso é ótimo! Agradeça à sua esposa por mim. – ele sorriu, já completamente adaptado a momentos assim.
– Eu fui a um dos seus shows da turnê recém-terminada e devo dizer que sua performance fará falta hoje. – a entrevistadora forjou um bico – O show está menos acústico que o da turnê do primeiro CD. Novas influências?
– Oh, sim! Algumas guitarras a mais, certo? Acho que essa sempre foi minha praia e Eric Clapton me inspirou bastante. – piscou para a namorada nesse momento. Fato que não passou despercebido.
– E a futura Sra. está presente. Parabéns pelo noivado! Vejo vocês lá dentro! Boa sorte, ! – os dois agradeceram e caminharam para a passarela onde ficava o banner do evento.
Inúmeros fotógrafos estavam posicionados ali, com câmeras de todos os tamanhos possíveis. Depois de posar sozinho, colocou ao seu lado, que sorriu para as câmeras até sentir o maxilar doer.
Essa era a vida que Los Angeles exportava.

Flashback – 3 anos atrás
Los Angeles.

A segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos e a mais populosa de toda a Califórnia. Lugar de negócios internacionais, mídia, moda, tecnologia e ciência. Sede de Hollywood, o centro do entretenimento americano, retratado em filmes, séries e músicas.
LA abrigava, principalmente, celebridades e magnatas do capital. não se encaixava em nenhuma das categorias, tampouco almejava encaixar-se. Queria apenas colocar seus pés no campus da UCLA e aprender tudo que podia sobre ciência política, economia e direito, já que Relações Internacionais era seu sonho desde o início do colegial. Esperava mais do que tudo encontrar ali espaços de debates sobre povos distintos, globalização e hegemonias. Queria ser a mediadora para que um mundo melhor fosse possível e imaginava que a academia pudesse tornar isso real. Seria um pedaço do seu paraíso.
A outra parte estava por conta de seu lado mais passional. Claro que estar no maior campus da Universidade da Califórnia seria uma experiência grandiosa, mas foi seu grande incentivo para estar ali. Achava injusto ter que se separar do namorado logo quando poderiam compartilhar seus maiores sonhos juntos.
Com o apoio dos pais e a grande ajuda da amiga , que ofereceu um quarto em seu pequeno apartamento, finalmente estava em LA.
Suas metas já estavam definidas na cabeça – estudar, se esforçar ao máximo, impressionar professores visando futuras bolsas e crescer, pessoal e profissionalmente –, mas a primeira delas já estava em curso: ser feliz. E teve certeza disso quando se aproximou, agarrando-a pela cintura e encostando seu corpo suado no dela, que não estava muito diferente. Tinham trabalhado durante todo o dia na organização e decoração do quarto dela, junto com .
– Gosta do que vê? – o rapaz perguntou, referindo-se a vista que tinham da varanda, no sexto andar.
– Muito. – ela suspirou, verdadeiramente encantada pelos tons alaranjados que tomavam a cidade.
– Vou te mostrar o melhor dessa cidade. – ele sorriu e depois colocou certa seriedade em seu tom – LA te dará muitas opções, . Las Vegas não é a única cidade do pecado. – ele riu, pensando no que aquela cidade havia lhe oferecido enquanto esteve sozinho ali – Mas sei que você saberá priorizar o que é realmente importante. – virou-a de frente para si – Eu vou te levar para viver todos os meus sonhos comigo. – tomou o rosto dela entre as mãos, delicadamente – E esse é só o início.
A garota sorriu. Não pensou seriamente sobre o que ele queria dizer com opções, pecado e prioridades. Sentia-se feliz. Não podia pedir mais. era quem aquecia seu coração e ela queria viver aquilo com ele. Em LA ou em qualquer outro lugar do mundo.

Flashback Off

desconhecia metade das pessoas que estavam naquele local, mas estava sempre sorrindo, afinal, ela já tinha visto premiações como aquela pela TV e sabia que quando menos se espera uma câmera foca em você e na sua cara de desgosto para algo. Ela ria sozinha só de pensar.
Os momentos iniciais a deixaram entediada, então ela brincava com os dedos do namorado, cochichava em seu ouvido e ele cantarolava músicas aleatórias para fazê-la rir. Agarrou-se em durante o discurso emocionado de Lea Michele, bateu palmas e soltou gritinhos animados quando Nick Jonas levou o Prêmio Inspiração, mas quando Demi Lovato foi ao palco para cantar, ela só tentava esticar a cabeça pra ver Nick na bateria.
– Eu sei que você está tentando ter a melhor visão de Nick Jonas de regata, mas saiba que eu não vou te colocar nos ombros, amor. – brincou, agarrando-a pela cintura – Não acredito que não superou essa paixão adolescente. Você tem vinte e dois anos, mulher! – ele gargalhou, fazendo mostrar-lhe a língua antes de voltar à atenção para o palco.
Mais tarde, enquanto caminhava em direção ao banheiro, no local onde estava acontecendo a festa pós-premiação, só conseguia pensar em e no quanto ela estaria pirada se estivesse ali. Com certeza ela estaria aproveitando muito melhor aquele open bar.
Já tinha circulado bastante com e estava animada. Ele havia levado o prêmio de Melhor Single de Artista Masculino, deixando-a completamente orgulhosa. Fora apresentada aos irmãos Jonas e não pode evitar pedir uma foto – que foi diretamente para o Instagram para que visse logo –, conversara com Danielle e Blanda também, com a última o papo fluiu bem mais, o que a fez concluir que sairia dali admirando um pouco mais a namorada de Joe.
Quando voltava para onde o namorado estava, avistou-o conversando animadamente com um cara ruivo e sua mente imediatamente apitou: Ed Sheeran! Amava tanto as músicas dele que se sentiu brevemente nervosa. Chegava a achar a situação engraçada também. É claro que já havia participado de outros eventos com , mas talvez fosse a primeira vez que estivesse no meio de tanta gente famosa ao mesmo tempo, mesmo que ela não soubesse sequer o nome da maioria deles.
Assim que se colocou ao lado dos dois as apresentações aconteceram e pôde dizer o quanto gostava de suas músicas e teve a impressão de ter dito que amava Give Me Love e a achava genial mais de uma vez. definitivamente tiraria uma com a cara dela se a visse naquele momento. Mas claro que faria o favor de lhe contar depois.
No segundo seguinte havia pessoas demais ao redor. As risadas confundiram-na até ela perceber que a One Direction estava na sua roda de conversa. Não percebeu, porém, que um par de olhos em especial a olhava de forma diferente.

[...]


Sem câmeras profissionais. Sem flashes inoportunos. A música de Will.I.Am & Britney Spears animava a pista de dança que estava lotada de artistas, acompanhantes e outros convidados.
Depois de muito insistir, conseguiu puxar para dançar. E agora ele parecia verdadeiramente animado, apertando a cintura da noiva com vontade.
– Nós vamos para a minha casa, certo? – a voz dele saiu levemente baixa e rouca, fazendo-a se encolher em seus braços – O que estou pensando para hoje não pode ser feito com no quarto ao lado.
gargalhou com o sorriso sacana que ele dera. Adorava quando ele se animava. Beijou-o rapidamente enquanto ainda dançavam. Desviou os olhos por um instante e os dele estavam lá, observando-a sem nem ao menos se importar com o fato de ser pego.

See the boys in the club
(Vejo os garotos na boate)
They watching us
(Eles estão nos observando)
They watching us
(Eles estão nos observando)
They watching us
(Eles estão nos observando)


– Quer parar de encarar a garota do ? – chamou, empurrando-o com o ombro, fazendo parte do líquido colorido dentro do copo ir ao chão.
– Não fale como se ela fosse propriedade do cara. – fez careta – Soa horrível.
– Soou horrível porque não foi o seu nome que eu disse depois de “garota do”. – acusou – Para de viajar, . – o amigo o encarou, colocando uma mão em seu ombro – Sério.
rolou os olhos e voltou a olhar a pista de dança. Só conseguia pensar no quanto ela era atraente e em como tinha sido extremamente simpática com ele e os outros meninos do grupo, sorrindo e comentando sobre a apresentação que fizeram durante a premiação.
“Eu gostei da música! Mas acho que One Thing ainda é minha preferida. Eu ouvia no rádio enquanto dirigia para a faculdade. I've tried playing it cool, but, when I'm looking at you…”. Era o que ela havia dito quando um dos caras perguntou sua opinião sobre a música nova, inclusive, esticando os braços em frente ao corpo para simular os movimentos ao segurar um volante enquanto cantarolava a música, fazendo todos rirem.
havia ganhado a simpatia do quinteto. E não havia como ser o contrário. Seu jeito sociável e despreocupado era encantador.
E ela realmente ouvia as músicas deles. Certamente não era uma fã, mas pensou que isso poderia ser um ponto a favor. Balançou a cabeça logo depois, numa tentativa de espantar os pensamentos. Riu sozinho. Ele estava realmente pensando em pontos? Não havia o que pensar. Ela tinha um noivo e ele era . Não era como se fosse uma briga injusta. Riu de novo. Ele tinha pensado em brigar?

I wanna scream and shout
(Quero gritar e berrar)
And let it all out
(E pôr tudo para fora)
And scream and shout
(E gritar e berrar)
And let it out
(E pôr para fora)


– Cansada? – ele perguntou depois de vê-la sentar no enorme sofá azul, no canto oposto ao bar, tomando um grande gole de uma bebida rosa.
– Um pouquinho. – ela sorriu, comprimindo o indicador e o polegar em frente ao rosto, achou a atitude adorável – Mas foi muito divertido.
– Já está indo embora? – ele contorceu o rosto em uma careta involuntária. riu.
está se despedindo de algumas pessoas. – deu de ombros – Vim para cá porque meus pés já não aguentam mais. – ela riu e aproveitou para olhar novamente suas pernas. era um puta de um sortudo, era o que ele pensava.
olhou para o copo vazio e fez careta. Ainda estava com sede. a observava atento. Assim que ela fez a menção de levantar, balançando o copo, indicando que iria até o bar, o garoto a parou, citando um trecho de Wildfire.
Don't get up just to get another. You can drink from mine. (Não se levante só pra pegar outro. Você pode beber do meu) – ele sorriu, pegando o canudinho do copo dela e colocando no seu, ainda cheio, para que ela pudesse beber.
– John Mayer. – sorriu largamente, agradecendo – Cara de bom gosto. – Piscou divertida.
– Que bom que percebeu.

Capítulo 2


“Não discuto
Com o destino
O que pintar
Eu assino”
(Não discuto – Paulo Leminski)


estacionou o carro no outro lado da rua, em frente ao grande edifício onde trabalhava. Observava a movimentação que havia ali com o cenho franzido, enquanto enviava uma mensagem, avisando-a que já estava ali. Encostou a cabeça no volante e viu a amiga surgir no meio daquelas garotas que faziam um barulho danado, quase tomando parte da rua.
– O que está havendo? – perguntou assim que a outra sentou no banco do carona.
– Isso? – apontou – Estão aí desde cedo tentando ver seus amiguinhos da boyband. – deu uma risadinha – Eles estão fazendo uma entrevista ou sessão de fotos, não sei ao certo, pra uma dessas revistas de música da editora.
assentiu, dando partida no carro.
– Você os viu? – perguntou com a voz despreocupada, lembrando-se especialmente de . Não se preocupou com o porquê disso, no entanto.
– Não, não. – abanou uma das mãos, fazendo uma careta – Meus olhos não puderam ser agraciados com a beleza européia. Infelizmente. – fez bico, arrancando uma risada da amiga – Quando encontrá-los novamente diga que tem uma amiga legal e bem resolvida com a vida, ok? Será que são todos solteiros? Duvido muito.
continuou a tagarelar sobre como esses caras bonitos sempre eram comprometidos, mas que o mundo da fama era uma caixinha de surpresas, afinal, ela já tinha ouvido e visto cada coisa naquela editora.
se limitava a assentir e sorrir às vezes. Pensava que provavelmente o veria em uma semana, aliás, os veria. Tinha dito isso a quando ele lhe enviou uma mensagem direta no Twitter, na segunda após a premiação em que se conheceram.
Ela havia acessado a rede social apenas para passar o tempo e descobrira que e seu amigo eram seus novos seguidores, além de Blanda Eggenschwiler – fato que a deixou bem feliz.
Tivera sorte de segui-lo de volta no instante em que ele estava online. Segundos depois, verificou a mensagem que ele enviara, cumprimentando-a e perguntando, em um tom identificado por ela apenas como amistoso, quando se veriam de novo. achou isso extremamente atencioso da parte dele e o respondeu dizendo que certamente encontraria ele e seus amigos em breve. Haveria uma grande festa após o VMA e ela estaria lá com .
Enquanto estacionava na sua vaga no estacionamento do prédio em que morava com , ignorou a parte dela que estava ansiosa para rever .

[...]


Era tarde de sexta-feira e estava no apartamento que dividia com , falando com o noivo pelo telefone. estava em Nevada, estado vizinho à Califórnia, onde passaria três dias preparando a gravação do novo álbum, previsto para sair no próximo ano.
– Adoro essa sua voz de animação. – riu do outro lado do telefone – Até parece que nunca viu um show dele ou que até já trocou palavras com o cara.
– Ah, um show é sempre diferente do outro, ! – sorriu, afastando os cabides a procura da roupa que usaria mais tarde – E essa turnê é tão especial! – ouviu o noivo rir de novo.
– Tão especial que nós já assistimos a dois shows dela.
Sentado em uma enorme poltrona do estúdio, o músico imaginou como ela estaria: descalça, com uma roupa confortável, equilibrando o telefone e remexendo o interior do guarda-roupa, sorrindo como uma criança animada. Adorável, como sempre.
E ele mantinha o mesmo sorriso infantil no rosto, fazendo os outros homens do local tirarem sarro e direcionarem gestos bobos e exagerados para ele.
Era mesmo um namorado bobo e apaixonado. Que mal há nisso? Nenhum, é claro.
– Que é, hein? – ela continuou sorrindo e jogou-se na cama – Você está é com inveja que I Don’t Trust Myself está na setlist e você não está aqui para ver. – provocou, rindo.
Ele ainda implicaria um pouco mais com ela, mas um dos rapazes da equipe sinalizou que precisava dele na cabine de gravação.
– Divirta-se, ok? – usou o tom carinhoso – Amanhã eu te ligo pra saber como foi e no domingo eu volto. Não esquece que eu te amo.
– Eu também te amo. Bom trabalho!
Desligou o celular e voltou a encarar as roupas.
Iria a um show de John Mayer com e estava tão animada como se fosse o primeiro. Queria que estivesse na cidade para irem juntos, mas compromissos de trabalhos o impediram, então a companhia da amiga seria mais que suficiente.

[...]


, e eram conduzidos por um segurança até o camarote em que ficariam para assistirem ao show. Receberam a informação de que já havia pessoas lá, mas que isso não seria um problema. Estavam aproveitando a folga para se divertirem e John Mayer era uma excelente escolha.
esfregava as mãos em animação e comentava animadamente algo sobre o músico. ia comentar alguma coisa também, mas desistiu assim que a viu.
Ela estava sorrindo, debruçada sobre o parapeito, apontando para algo no palco enquanto conversava animadamente com outra garota. Incrivelmente linda como da primeira vez que se viram.
Sorriu instantaneamente. Que bela jogada do destino colocá-la em seu caminho tão depressa. Ele realmente não estava querendo estender seus pensamentos dos últimos dias, mas aquele encontro inesperado só poderia querer lhe dizer algo. Não que fosse o tipo supersticioso ou algo assim, mas para atender um desejo de seu inconsciente, ele talvez fingisse ser.
Enquanto seus amigos pegavam bebidas, ele procurava pelo local, esperando não encontrá-lo.
? – chamou e a garota desviou sua atenção para ele, sorrindo logo em seguida, surpresa – Que bacana te encontrar aqui! – cumprimentaram-se com um abraço.
– Hey! Que coincidência! – riu e abraçou rapidamente e também – Rapazes, essa é . Amiga, esses são a One Direc... Epa! E e ? – indagou enquanto cumprimentava os meninos.
– Não vieram. – deu de ombros – São uns preguiçosos e ficaram fazendo sei lá o quê.
perguntou sobre e explicou que ele estava em processo de produção do novo álbum e que precisou fazer uma curta viagem. aproveitou que os amigos pareciam empolgados em falar sobre a setlist do dia e chegou perto de , que estava com a cintura encostada ao parapeito, observando a conversa com um pequeno sorriso no rosto.
– Então nos encontramos antes do previsto e num show do Mayer... – ele sorria com o canto dos lábios – Devo contar isso como um sinal para algo?
Ela sentiu a barriga gelar. Não saberia ao certo se era pela intensidade do olhar dele, pelo seu sorriso charmoso ou pelo que dissera. Poderia, ainda, dizer para seu inconsciente que era algo estranho, mas não era. Não era a primeira vez que sentia aquilo, mas era a primeira vez que era quem causara.
Por sorte as luzes baixaram, indicando o início do show.
– Já vai começar. – sorriu para ele, indo para o lado da amiga.
soltou uma risadinha baixa.
Era a iluminação ou ela tinha corado diante dele?
Durante o show, cantava todas as músicas. Arriscou uns passinhos de dança com durante Waiting on the World to Change e se emocionou em Gravity, como de costume. Os meninos piravam nos solos e aplaudiam bastante. até colocou um trecho de Vultures no Instagram.
Todos estavam à vontade durante a apresentação, enquanto tentava ignorar a troca de olhares entre e durante Wildfire. Achou aquilo estranho, mas convenceu-se de que era melhor não dar atenção. Não seria absurdo ou impossível que o tal estivesse interessado em sua amiga. podia não ser a mais bela das mulheres de Los Angeles, mas certamente era bonita e atraente o suficiente para chamar a atenção do rapaz. Não que ela devesse se importar com isso. não conhecia relacionamento mais estável que o de e . O que ela não sabia era que a letra daquela canção não apenas estava envolvida com um momento dos dois, como era um anúncio do que viria a seguir. Isso nem mesmo os dois principais envolvidos sabiam.

You and me been catching on
(Você e eu estamos acendendo)
Like wildfire
(Como um fogo selvagem)


– Como eu amo esse cara! – suspirava, caminhando rumo à saída da casa de shows, sentindo o êxtase e leveza da alma que só seu cantor favorito poderia lhe proporcionar.
– Quando eu crescer quero ser só um pouquinho do que ele é. Só um pouquinho e eu já fico satisfeito.
– Bom trabalhar bastante, então, . – soltou e os outros riam.
– Saidinha sua amiga, hein, .
Antes de cruzarem a saída, sugeriu que saíssem juntos para comerem algo. topou na hora e os outros meninos se animaram.
– Vocês já foram ao Garage? – perguntou e eles negaram – É um lugar bem bacana e o é cardápio bem diverso. Não fica muito longe daqui, o bairro é tranquilo e o lugar é reservado. Parece bom para as estrelas? – brincou.
Todos concordaram e foi falar com um dos seguranças. iria dirigindo na frente e eles a seguiriam.
O lugar era realmente agradável e discreto. Os meninos não precisaram parar para fotos ou autógrafos, exceto por uma funcionária do local que dizia ter uma irmã fã. Pediram pizzas e conversavam animadamente.
já concordava com sobre os rapazes serem adoráveis. Eles faziam gracinhas com a comida, gargalhavam alto e até se sentiu a vontade o suficiente para fazer um comentário com a boca ainda cheia, dando a desculpa que esqueceria o que queria falar se parasse para mastigar e engolir.
falava com sobre o dia em que eles estiveram no edifício da editora em que ela trabalhava e a loucura que causaram. contava a e sobre seu relacionamento com .
– Então vocês são amigos de infância? – indagou e ela assentiu – Isso é realmente legal, digo, você o conheceu antes de tudo e esteve ao lado dele nos momentos mais incríveis. – ela sorriu agradecida – E o casamento, é pra agora?
se remexeu na cadeira e tossiu, ansioso pela resposta dela.
– Na verdade, não. – sorriu levemente – Vamos esperar minha formatura, que só será no ano que vem, e a partir daí resolveremos. – deu de ombros – O noivado é mais como um marco nesses anos de relacionamento. Já, já chega o momento certo.
– Adoraria ser convidado, hein? Adoro doces de casamento! – eles riram e se espreguiçou e pediu licença para ir ao banheiro.
deu uma olhada nos outros dois, que ainda continuavam a conversa animada e limpou a garganta antes de continuar a falar com .
– Então... Quer dizer que desde o término do colegial o foi o único a ficar com você? – arqueou uma sobrancelha – Ele é um cara de sorte. – deixou um sorriso aparecer no canto dos lábios – Se eu fosse ele, casaria logo. A gente nunca sabe o que pode acontecer. – tocou a mão dela por cima da mesa, não sabendo de onde havia tirado coragem para lhe dizer aquilo.
a recolheu a mão, surpresa. Ele não pareceu se importar. Continuava lá, com o mesmo sorrisinho, que ela ainda tentava decidir se achava irritante ou sexy.
– Nesses anos todos, você nunca – ele hesitou, inclinando-se para mais perto dela – pensou em, sei lá, sair com outros caras?
A reação dela foi diferente do que ele esperava. Imaginou um olhar indignado ou uma resposta grosseira, mas ela riu. Riu e com vontade. O que o fez rir também, mas um pouco nervoso.
– Talvez. – balançou os ombros, ainda rindo, achando aquela pergunta um tanto inconveniente, no entanto – Mas nenhum cara pareceu bom o suficiente para correr o risco ou largar o certo pelo incerto.
desviou o olhar e relaxou na cadeira, levando as mãos para a nuca. voltou a sentar e logo o foco da conversa era outro. , no entanto, ficou absorta. O que ela estava pensando quando deu aquela resposta ao ? Tudo bem que ela se sentisse ligeiramente atraída por ele, mas... Droga! Ela tinha acabado de admitir em pensamento que ele a atraía. Precisava tirar aquilo da cabeça. Tinha um namorado, aliás, um noivo, o que tornava a situação ainda mais grave em sua cabeça. Precisava fingir que o olhar dele não a aquecia e precisava ignorar aquele maldito frio na barriga. Ela amava . Disso ela tinha certeza.

[...]


A semana passou depressa e logo era domingo, dia de VMA. Não iria à premiação desta vez, um carro viria mais tarde buscá-la e a levaria para a festa.
Como de costume, ajudava a amiga a se arrumar, e nesse caso a produção exigia um pouco mais. O vestido preto, com renda nos ombros, fora feito especialmente para ela e era mais um presente de .
Contara ao noivo sobre o encontro não planejado com 3/5 da One Direction no show do John e ficou o máximo que pôde ao lado dele durante a semana, passando no apartamento dele todos os dias quando saía do trabalho. Ela havia ligado o botão amarelo, precisava se policiar. Não podia torturar-se por se sentir atraída por , mas poderia evitar que seu desejo falasse mais alto.
Ele era bonito? Era. Um fofo? Era. Era charmoso? Era. Tinha um maxilar extremamente sexy? E como tinha! Mas o noivo não perdia disputa alguma considerando aqueles quesitos.
Ela estaria com essa noite, como sua noiva, sua mulher. Nada mudaria isso. Nem mesmo um cara como .
Na festa, luzes coloridas dançavam pelo salão e as músicas eram tocadas por um DJ famoso que desconhecia. comentou que ela estava estranha, mas a namorada desconversou, dizendo que era o estresse com o novo trabalho e usou essa desculpa para beber mais que o costume.
e ela haviam se encontrado logo que chegou à festa. Ele e os outros rapazes estavam lindos, como sempre. Cumprimentaram-se rapidamente e eles logo foram puxados por outras pessoas.
Percebeu que eles estavam bem mais requisitados naquele dia e que pareciam gostar disso. Quem não gostaria? Mulheres lindas apareciam, vez ou outra, para conversar ou tirar uma foto e ela teve de engolir uma sensação estranha que surgiu quando uma delas passou uma das mãos sensualmente pelo braço de antes de abraçá-lo para tirar uma foto.
A americana concluiu que aquela deveria ser uma situação constante. Ele era jovem, bonito, extremamente charmoso e estava no auge de sua fama. Por que ela, então? Por que instigá-la quando ele tinha a mulher que quisesse?
Precisou espantar essas indagações durante o resto da noite para que pudesse tentar aproveitar com o homem que realmente importava para ela.
Enquanto dançava com , podia sentir seus olhares e de uma forma insana, ela gostava. Alargou ainda mais o sorriso ao ouvir a introdução de Your Body, de Christina Aguilera.

I came here tonight to get you out of my mind
(Eu vim aqui esta noite para te tirar da minha mente)
I'm gonna take what I find
(Vou pegar o que eu achar)
So open the box, don't need no key I'm unlocked
(Então abra a caixa, não precisa de chave, estou destrancada)
And I won't tell you to stop
(E eu não vou te dizer para parar)


sussurrava palavras provocativas em seu ouvido e ela se sentia bonita como nunca, movendo o quadril no ritmo da música, fazendo o noivo a apertar ainda mais contra si.
Quando abria os olhos, estava lá. Ora com seu sorriso pequeno e provocativo, ora com o lábio inferior preso entre os dentes. Dolorosamente sexy.
buscava seus lábios e ela correspondia com paixão, puxando os cabelos acima da nuca durante o beijo. Ela o amava. Amava o jeito como ele a beijava, como soltava o ar entre seus lábios já molhados. Amava suas mãos e como elas a conheciam. não apenas tocava seu corpo, tocava seu coração, beijava seu íntimo. Ele sabia do que ela gostava e como gostava.
E então ela abria os olhos novamente. Sentia seu corpo formigar e se não fosse pelo toque de , certamente era pela intensidade do olhar de .
O que ele tinha de especial, afinal?
Era o que ela queria descobrir.

Hey boy,
(Ei, garoto)
I don't need to know where you've been,
(Eu não preciso saber onde você esteve)
All I need to know is you and no need for talking
(Tudo o que eu preciso é conhecer você e não precisa de conversa)


não conseguia desviar seus olhos daquela direção. Era contagiante o quanto ela parecia se divertir no meio de toda aquela gente, cantarolando a música e sorrindo ao mesmo tempo. Sem falar no quanto era atrativo ver sua bela figura dançar provocantemente, mesmo que não fosse para ele.
Havia algo em toda aquela situação que ele não conseguia controlar. Todos os seus esforços estavam direcionados a uma tentativa de não flertar direta e perceptivelmente com ela, mas não podia evitar capturar cada pedacinho seu e imaginar como seria se fosse ele ao seu lado.
Pensava que, apesar de ser quem conseguia ouvir seus sussurros cantados, não era sobre o casal de noivos que a letra parecia se referir.

Hey boy,
(Ei, garoto)
So don't even tell me your name
(Então nem me diga seu nome)
All I need to know is whose place
(Só preciso saber na casa de quem)
And let's get walkin'
(E vamos andando)


se sentia em parte, aliviada. Esperava voltar para irem para casa. Queria arrancar suas roupas sem cerimônias, tamanho o calor que sentia.
Retirou os cabelos da nuca, na esperança de que algum vento pudesse refrescá-la. O que sentiu, entretanto, foi aquela região se arrepiar e enviar a mensagem para todos os pelos de seus corpo. No instante seguinte, o mesmo perfume que ela sentira no Teen Choice e no show de John estava de volta, bem atrás de si.
– Você está especialmente linda hoje. – ele disse baixo, perto o suficiente para que ela ouvisse claramente – é um cara de sorte. – ele riu baixo, fazendo estremecer minimamente – Mas acho que você já ouviu isso de mim.
Ela olhou ao redor a procura do noivo, mas não o encontrou. Atento as suas reações, voltou a rir. Ele achava que não havia como estar errado. também estava interessada nele. Mas se ele a convidasse para sair, ela diria não? Se ele dissesse que queria encontrá-la em outro lugar, ela o rejeitaria?
Tentou espantar aqueles pensamentos. Já havia feito aquelas perguntas antes e chegara à conclusão de que toda resposta que sua mente projetasse era apenas mais uma possibilidade.
– Nós ainda temos algum tempo em Los Angeles – arregalou os olhos por um segundo. Ele não a chamaria para sair, chamaria? –, então pensamos em fazer um social, num flat, em Silver Lake. – ela se virou para olhá-lo pela primeira vez desde que a conversa começara – Você está convidada. – ele sorriu – Pode levar sua amiga também.
Ela analisou a expressão do rapaz à sua frente, mas não via sinais de malícia. Ainda não havia decidido, porém, se ficava feliz ou frustrada com isso.
– Vou ter algum espaço no meio de tantas celebridades? – perguntou sorrindo, pendendo a cabeça para um lado.
– Ah, não se preocupe com isso. – riu – Somos somente nós e uns amigos que fizemos por aqui. Nada nem um pouco parecido com isso. – ele olhou ao redor e colocou as mãos nos bolsos da calça, inclinando-se para frente – Você irá?
Ela via motivos para negar, mas não queria fazê-lo. Ele não citou o nome de , mas ela poderia levá-lo, certo?
– Iremos sim. Por que não? – voltou a sorrir – Você não sabe o quanto a gosta de festinhas. – riram juntos.
– Você não quer... É... – ele coçou a nuca, voltando a se inclinar para frente – Me dar seu número? Ainda não sei o endereço direito. – Sorriu, um pouco sem graça.
Quando ela assentiu, ele retirou o aparelho do bolso e anotou o número dela, sentindo uma animação que julgou digna da época do colegial.
Não sabia se ela realmente iria, se ela levaria o noivo ou se eles conseguiriam um momento a sós, mas ele sabia que não queria voltar a Londres sem tentar conhecê-la melhor e fazê-la conhecê-lo também.

Capítulo 3


“só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível
(...)
só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível
(...)
eu quero
o outro”
(O outro – Chacal)


se remexeu sobre a cama e se controlou para não soltar um gemido de frustração ao lembrar que era segunda-feira e que precisava trabalhar. Só não começou a resmungar ali mesmo porque não queria acordar , que dormia tão gostoso ao seu lado, todo esparramado entre os lençóis. Apoiou os cotovelos no colchão e espiou o relógio em cima do criado-mudo. 6h42min. Se quisesse tomar um banho, se arrumar e preparar o café sem pressa, teria de levantar logo. Relaxou os braços e largou o tronco na cama novamente, fechando os olhos e recapitulando a noite anterior.
Há quanto tempo um cara não a tirava do sério? Suspirou e pensou em como se sentira confusa na festa e irritada com seus próprios sentimentos, mas foi só chegar ao apartamento do namorado que tudo desapareceu. Sorriu aliviada.
Abriu os olhos e sentou-se na cama, observando o cômodo um tanto bagunçado. Espreguiçou-se e se pôs de pé, começando a recolher as roupas. Sua mente, ainda sonolenta, começou a projetar imagens aleatórias. Ou nem tanto. Imagens de cozinhando para ela no sábado. Os dois fazendo amor depois de tomarem um bom vinho. O encontro com no show do John e como ele parecia escolher os trechos mais oportunos das músicas para lhe dirigir o olhar. O maldito frio na barriga. A festa do VMA e gargalhando da cara dela quando Justin Timberlake os cumprimentou rapidamente. Os dois dançando e a troca de olhares cretina entre ela e . O sorriso sem graça e extremamente fofo que ele lhe dera ao pedir seu telefone. carregando-a para o quarto e despindo-a. O bendito frio na barriga.
achava, de certa forma, a situação engraçada. Pensava se já havia encontrado alguma mulher que o atraísse e o deixasse confuso. Gostaria de saber o que ele fez para sair da situação. Riu sozinha. Não podia pedir um conselho daqueles a ninguém, muito menos ao noivo. Engraçado mais ainda era que ela não chegava sequer a cogitar a opção de ter cedido à mulher de sua situação hipotética. Ela o conhecia o suficiente. E isso só tornava tudo ainda pior.
Colocou as roupas, já dobradas e empilhadas, na poltrona e dirigiu-se ao closet, esperando que algumas das roupas que estavam ali fossem apropriadas para ir à ONG onde trabalhava. Tinha parte do espaço destinado para suas peças, mas um espaço pequeno, em consideração ao tamanho total. já recebera o convite de para morar com ele, mas a garota sempre dizia que estava bem morando com e podendo estar no apartamento do namorado sempre que ele também estivesse lá. Ela achava que era melhor continuar a morar com a amiga e ter sempre uma companhia quando o namorado não estava na cidade. Além de que o apartamento pequeno de já era sua casa e seu quarto era seu cantinho preferido de toda Los Angeles. Tinha plena noção de que isso mudaria quando o casamento viesse, mas ela ainda tinha tempo até lá, certo?
Chegou à cozinha já devidamente vestida e escancarou os armários altos, retirando tudo o que precisaria para preparar a refeição da manhã. Farinha, fermento, açúcar, manteiga, ovos e leite.
– Já está se divertindo sem mim? – apareceu na entrada do cômodo, trajando apenas uma calça de moletom cinza, descalço e com os cabelos ainda arrepiados.
– Hey! – largou tudo na bancada e foi até ele – Bom dia, meu amor! – beijou-o depois que ele respondeu seu cumprimento.
– Panquecas? – perguntou com animação na voz – Posso ajudar a chef? – espalmou as mãos nas bochechas da garota, formando um bico, beijando-a repetidamente enquanto ela balançava a cabeça em afirmação.
Cozinhar era uma das coisas que eles mais adoravam fazer juntos, especialmente quando podiam bagunçar à vontade. O pai de tinha paixão por gastronomia e na casa dela eles sempre provaram de tudo. Quando mais jovens, o casal costumava se divertir enquanto o Sr. preparava o almoço de domingo.
– Sem bagunça, . Não posso me atrasar.
– Ah, mas nem um pouquinho? – fez manha apenas para fazê-la rir – Ok, chef! – bateu continência – Qual minha missão inicial?
– Pode começar a misturar a farinha, o açúcar, o fermento e o sal. Vou ficar com os ovos, o leite e a manteiga.
fez o que ela pediu e foi até a pia para lavar as mãos e começar a misturar os ingredientes no interior de uma tigela oval, vendo a noiva fazer o mesmo. Logo ele começou a cantarolar a música de Bon Jovi e Jennifer Nettles em mais uma das manias que eles cultivavam: cantar juntos pela casa.
I spent twenty years trying to get out of this place. I was looking for something I couldn't replace. I was running away from the oooonly thing I've ever knoooooown… – ele começou sorrindo, olhando para a namorada e lhe estendendo a colher de pau como um microfone, para que ela continuasse a cantar.
Like a blind dog without a bone – ela riu, empurrando a mão de I was a gypsy lost in the twilight zone. I hijacked a rainbow and crashed into a pot of goooooold... – e ele riu da tentativa dela de imitar a voz de Jennifer Nettles.
I been there, done that! But I ain't looking back on the seeds I've sown… – cantaram juntos e começaram a depositar as massas num único recipiente, misturando até encontrar o ponto.
Saving dimes spending too much time on the telephone. foi para o fogão aquecer a frigideira para preparar as panquecas – Who says you can't go home?
Cantaram o refrão a plenos pulmões e gargalharam quando desafinou em um dos trechos que a canção se torna mais rápida. Continuaram a preparar o desjejum, entre risadas e beijos rápidos. comandando o fogão e as panquecas e preparando uma vitamina.
– Ah! – lembrou-se de algo enquanto se servia de café – Você irá para Nevada nessa semana? – perguntou pensando na festa e em .
– Devo ir na quarta-feira pela manhã. Por quê? – desviou os olhos do prato e encarou-a com o semblante sereno.
– One Direction nos convidou para uma festa na quinta. – deu de ombros, fingindo não se importar – foi o porta-voz ontem.
– Você quer ir? – o olhou cautelosa, mas ele continuava normal, mastigando preguiçosamente.
– Seria legal, não é? E pelo que me foi dito, não será algo grandioso. – continuou a analisar a expressão do rapaz, ansiosa pelo que ele diria a seguir.
– Seria legal mesmo. São caras legais. Ed deve estar por lá também, não é? – ela assentiu, mesmo sem ter certeza – Vai ser uma pena eu não poder ir, mas você pode me representar. – deu um sorrisinho e ela fez careta, irritada pelo frio na barriga que apareceu.
– Ir sem você?
– Ora, qual o problema? – ele se levantou e colocou a louça na pia – Você pode levar a , aposto que eles não se importarão.
– Tudo bem por você? – também levou a louça até a pia e começou a secar o que ele já lavara.
– Claro, ! – ele sorriu – Acho que eles gostaram de você. Vai ser bom ter uma americana que não seja uma bajuladora para bater um papo. – ele riu – Vou trocar de roupa e já desço pra levar você.
Beijou-a na testa e correu para o andar de cima, deixando uma insegura e ansiosa a sua espera.

[...]


caminhou sonolento para a sala do apartamento que dividia com , no apart-hotel em que a banda estava hospedada. Observou as cortinas fechadas e apreciou o silêncio, imaginando que o amigo ainda dormia. Não deveria ser cedo, entretanto, já que o sol brilhava e seus raios invadiam a sala pelas frestas das persianas.
Passaria direto para a pequena cozinha que havia ali, se uma luz branca não tivesse chamado sua atenção. Andou um pouco mais em direção ao pequeno sofá e reconheceu o companheiro de grupo, que encarava algo na tela do celular. Estava tão absorto que pensou que era sua chance de assustá-lo pra valer. Olhou ao redor, procurando algo que pudesse fazer barulho suficiente. Tudo o que ele avistou foi uma bandeja de inox, que repousava sobre uma mesinha de canto e servia como adorno. Continha até uns dizeres gravados que ele não se importou em ler. Continuou a procurar por algo que pudesse chocar com a bandeja e produzir o barulho necessário para assustar o rapaz que continuava imóvel no sofá. Quis bufar frustrado por não encontrar nada bom o suficiente, mas se conteve. Foi até a poltrona e alcançou um cinto que estava jogado por ali, enrolando-o no pulso, pronto para chocar a fivela contra a bandeja prateada.
Contornou o sofá e se agachou bem atrás de onde a cabeça de repousava, com um sorriso diabólico no rosto, já imaginado a cara que o amigo faria. Forçou a vista e leu o nome que aparecia na tela do celular, franzindo a testa.
? – sua voz saiu automática, esquecendo-se do plano inicial.
deu um pulo e um sonoro “Puta que pariu!” foi ouvido. Já de pé, colocou uma das mãos no peito, em um ato involuntário para acalmar os batimentos do coração. continuou com a mesma cara confusa.
, ? – largou o que tinha em mãos na mesinha de centro e colocou as mãos na cintura – Pegou o telefone da garota do ?
O outro rolou os olhos e caminhou para a cozinha, resmungando um “Bom dia pra você também”, balançando os braços para o alto, numa atitude de deboche.
– Está com ciúmes, por acaso? – pegou uma garrafinha de água e se sentou na bancada que dividia a cozinha da sala de estar, vendo caminhar em sua direção.
– Talvez esteja. – cruzou os braços e encostou a cintura na pia – Isso é algum tipo de obsessão? – riu – Estou falando sério, cara. Quer arrumar problemas?
– É só um número de telefone, . – por enquanto, foi o que ele pensou.
– E por que diabos você estava o encarando? Ia ligar se eu não tivesse aparecido?
– Mesmo achando que você está sendo muito intrometido – deu um impulso para levantar –, estava pensando em ligar sim. Ou talvez mandar uma mensagem. Garotas gostam, não é? – gargalhou quando viu a cara que o amigo fez e tratou de ligar para pedir o café da manhã.
só conseguia pensar em como era babaca. Estavam em Los Angeles! Garotas lindas por todos os lados. Por que cismar com uma que tinha um noivo? E um noivo super gente boa como !
– Vai me contar sobre o que iam conversar caso você tivesse ligado? – perguntou assim que o outro desligou o telefone de serviço.
– Eu a convidei para a nossa festa. – disse com o tom despreocupado, enquanto se jogava no sofá e ligava a TV – Ia ligar pra confirmar o endereço.
– E o ?
– Que tem ele?
– Como assim ‘que tem ele’? – imitou a voz do amigo – Você a convidou cheio de segundas intenções, mas a garota tem um noivo e ele provavelmente irá. Aliás, espero que ele vá mesmo e que a beije bem na sua cara.
– Nada que eu já não tenha visto. – fez careta, lembrando-se das duas festas em que se encontraram – Mas se quer saber – virou-se para encarar –, acho que ele não irá. – sorriu vendo a cara de confusão do garoto a sua frente – Ed me contou que ele está viajando com frequência por causa das gravações do novo álbum e eu ouvi algo sobre viagem na metade da semana.
– E nossa festa será na quinta. – concluiu o raciocínio – Você é um filho da puta.
só conseguiu gargalhar por culpa do exagero de preocupação de , sendo que nada havia acontecido. Ainda.
– Então, ligo ou mando mensagem? – perguntou, fingindo seriedade e gargalhou mais ainda ao ver o amigo lhe estender o dedo médio enquanto atendia a porta.

[...]


, aqui está o artigo que precisa ser traduzido. – uma mulher de meia idade chegou e lhe entregou um pen drive – Preciso que você lhe dê o máximo de atenção e trabalhe o mais rápido possível para que a tradução e revisão estejam concluídas no prazo. Posso contar com você? – a chefe sorriu e ela assentiu.
Trabalhava há dois meses em uma ONG que tratava de trocas culturais entre Ocidente e Oriente e fora recomendada para o cargo provisório por seu professor de Políticas Internacionais. Organizava simpósios, agendava entrevistas, traduzia artigos e, por ser conhecedora da língua árabe – coisa que começou a estudar junto com a entrada na universidade –, tinha certo bônus dentro da organização.
Abriu o arquivo e começou a ler. Falava sobre o papel da mulher na cultura árabe e as distorções do mesmo na mídia ocidental. Continuou a percorrer os olhos pela tela do computador até ter sua atenção desviada para o celular que piscava indicando uma nova mensagem. Pegou o aparelho e deslizou o indicador sobre a tela, sorrindo surpresa pelo conteúdo encontrado.

Oi, ! Aqui está o endereço da festa:
Silver Lake Boulevard, Condomínio Griffith, Apto. 250
Todos ficaram felizes em saber que virá.
Espero você às oito.
xx


Conservou o sorriso, achando fofo o fato dele chamá-la pelo apelido. Então, de repente, ela estava tomada por um sentimento genuinamente juvenil enquanto relia as palavras que foram digitadas habilmente sobre as teclas de um aparelho moderno que ele provavelmente possuía. Palavras que foram escritas para ela. Ele escrevera pensando nela. Não era nada tão especial, mas sentia a animação borbulhar involuntariamente na boca do estômago. Estava curiosa quanto a seus próprios sentimentos, não podia negar.
Voltou o olhar para a tela do computador ainda pensando nele. Curiosidade. Qual era, afinal, a fórmula para saná-la? Cientificamente falando? Ela pensou. Estudo. Estudo completo. Estudo de campo. Análise de material. Observação diária. Seguindo aquela lógica totalmente anacrônica quando se tratava de sentimentos, ela pensou que talvez somente conhecendo de verdade ela poderia então saber o que diabos ele tinha que tanto a instigava. Talvez, quando descobrisse, simplesmente pudesse deixar para lá. Ou nunca mais esquecer. Riu nervosa. O que diabos estava pensando?

– Você por aqui, ? – ergueu a cabeça que repousava no braço do sofá da sala ao ver a amiga entrar, no início da noite – Achei que fosse dormir com .
– E vou. – foi até onde a outra estava, abraçando-a rapidamente – Só vim pegar umas roupas.
Levantou e foi em direção ao quarto para arrumar a bolsa. Foi aí que se lembrou da mensagem e da festa.
– Ah, tenho uma coisa pra te contar! – tentou conter a animação na voz.
– O que é? – entrou saltitando pelo quarto – Espero que seja coisa boa, , porque hoje foi só estresse naquela editora. – jogou-se na cama da amiga.
– Vamos à uma festa na quinta. – falou enquanto separava algumas peças de roupa – Festa dos One Direction. – virou o rosto na direção da amiga e piscou.
– Nossa! Assim vou começar a me sentir amiga íntima dos caras. Quando será que meus seguidores no Twitter triplicarão? – gargalharam – Desde quando isso? – perguntou referindo-se ao convite.
me contou ontem. E ainda disse que eu poderia levar você.
foi até o banheiro pegar mais algumas coisas e não viu a amiga torcer os lábios ao ouvir o nome do rapaz. . Rolou os olhos. Será que o garoto estava mesmo dando uma de assanhado pra cima de sua amiga ou ela estava vendo coisas no dia do show do John?
– forçou o tom casual – , por acaso – limpou a garganta e falou mais forte para que ela pudesse ouvir de dentro do banheiro –, já deu em cima de você?
arregalou os olhos. Que diabos?! Agradeceu mentalmente aos céus por não estar de frente para ou ela desvendaria facilmente sua expressão. Respirou fundo e escondeu sua cara de surpresa e culpa por trás de uma máscara de incredulidade e riso.
– Tá maluca, ? – voltou para o quarto com as mãos na cintura – O garoto conhece o e sabe que somos noivos. – riu, tentando ao máximo não parecer forçada – De onde tirou isso?
– Sei lá! – riu aliviada – Achei que ele estava te olhando de um jeito estranho.
arqueou uma sobrancelha. Ela também notara. E ? Ele poderia ter percebido algo? Droga, droga, droga! Cancelem essa merda de festa!
– Enfim, esquece. – abanou o ar – Me fale mais sobre a festa!

[...]


dirigia pela Sunset Boulevard com no carona. A outra lhe contava sobre as mudanças que faria na rotina de trabalho por conta do início das aulas de sua especialização em setembro e o quanto ela já queria sua promoção por causa disso. ouvia a amiga, mas não assimilava nada. Estava concentrada no trânsito e inventando um mantra do autocontrole em sua mente. tinha viajado no dia anterior, decretando que ela fosse a tal festa com e se divertisse, lembrando-a que o fim de agosto se aproximava e logo suas férias acabariam e a faculdade lhe tomaria muito tempo. E era o que ela estava fazendo. Indo a tal festa com , que parecia bem mais animada que ela, bem melhor vestida que ela, bem mais sã que ela.
não deu notícias desde segunda. E também não haveria motivos, ela pensou. Apenas havia lhe mandado um tweet divertido que dizia “party, party is comming”. Ele era uma figura.
Pensava que essa seria a última vez que o veria antes de sua volta a Londres. Deu um sorriso aliviado e acelerou o carro mais do que devia ao ver o sinal mudar para o verde, ouvindo resmungar alguma coisa sobre seu cabelo. O importante era: voltaria para Londres. E segundo o que ela vira na TV, One Direction entraria em turnê em pouco tempo. E isso queria dizer que ela ficaria muito tempo sem vê-lo. Aliás, sabe Deus quando ela o veria de novo! Provavelmente em muito tempo. Ela esqueceria. De nada importava o que aconteceria na tal festa. Ele voltaria para casa e aquilo iria passar.
Dobrou o cruzamento com a Silver Lake Boulevard com um sorriso no rosto. Dane-se, nós vamos esquecer, ela pensou.
– Hey! – apareceu assim que elas cruzaram a porta – Que bom que você veio, ! – cumprimentou as duas com abraços rápidos e as guiou para dentro.
O espaço era amplo e a decoração neutra. Algumas pessoas se espalhavam pela sala e outros cômodos, conversando e sorrindo. Uma música tocava em um aparelho de som moderno. Nada de DJs. Não havia rostos conhecidos para as duas, mas isso fora resolvido por , que enquanto as arrastava apartamento adentro as apresentavam para algumas pessoas. Aparentemente os únicos famosos ali eram eles mesmos e Ed Sheeran, que já podia ser visto pelas garotas na varanda, conversando com e outro cara. Cumprimentos e apresentações feitas, as deixou com os três dizendo que voltaria com algo para beberem.
– É uma pena não ter vindo. – comentou – Como andam as gravações do álbum?
– Ele está muito animado! – sorriu – O lançamento é só para o ano que vem, mas ele não vê a hora de poder tocar as músicas ao vivo.
– Todos sofremos com isso, minha cara. – Sheeran comentou – Estamos sempre na expectativa.
Todos riram e a conversa continuou, mas preocupou-se em observar as pessoas ao redor, inconscientemente procurando uma em especial. Seu estômago borbulhava em expectativa.
! – chamou – Uma ajudinha aqui? – ele sorriu, fofo.
Tentava equilibrar três copos ao mesmo tempo, não sendo muito eficaz, já que parte do líquido de um deles caiu, deixando o recipiente cheio só até a metade.
– Desculpe. Eu fico com esse. – mostrou o copo quase vazio, fazendo uma careta engraçada.
– Não se preocupe, ! – ela sorriu – Fica com esse e leva o outro pra , eu vou até lá encher esse aqui pra mim, ok?
O rapaz assentiu e a beijou na bochecha antes de ir em direção à varanda.
seguiu por onde aparecera, sorrindo para algumas pessoas que encontrava no caminho. Encontrou a cozinha e pediu para que o homem que estava ali fizesse um drink como aquele que restava no copo para ela.
– Um Afrodite pra ela, Juan.
Antes mesmo de virar ela já sabia quem era. Sua voz extremamente gostosa de ser ouvir se tornara inconfundível para seus sentidos. Virou-se lhe mostrando um sorriso pequeno e sentiu a pele esquentar ao vê-lo percorrer seu corpo com um olhar analítico e ardente.
– Morango, champanhe e leite condensado. – avisou, referindo-se ao drink.
achava que ela estava linda, com a saia preta moldada ao corpo, deixando grande parte de suas coxas à mostra. A blusa verde, de linho, caía pelos ombros e deixava a curva de seu pescoço visível, o que o fez imaginar como seria a tocar sua pele e vê-la reagir ao sentir seu perfume de tão perto.
Ah, ... É uma pena você não estar aqui.

Restavam poucas pessoas no local e todas bem acomodadas na sala do flat. Summer Love, de Justin Timberlake, começou a tocar, fazendo alguns dos presentes se arriscarem para dançar. , que havia ingerido drinks o suficiente para ficar mais animada do que já era, tentava uns passos com , que gargalhava de suas tentativas de rebolar como a garota. e Ed gritavam os incentivando e quando e uma garota que estava por ali foram para o centro da sala, o cômodo foi invadido por mais gritos animados. , cansado das tentativas de mover o quadril decentemente, subiu no sofá e usou a long neck que tinha em mãos como microfone, intimando todos a dançarem também.
correu aos tropeços até o sofá onde a amiga estava sentada e a puxou para a pista de dança improvisada. correu para desligar as luzes principais, causando mais urros de animação. gargalhava enquanto dançava com a amiga, vendo inventar passos ridículos ainda de pé no sofá. já estava ao seu lado, fazendo os famosos passinhos do robô, recebendo assovios dos demais.
Quando um amigo dos rapazes puxou para mais perto, não deixou que dançasse sozinha. Pegou-a pelas mãos e a girou, colocando suas mãos em seus ombros, piscando e cantarolando.
Come on and lemme show you 'round. Let me take you out, bet you we could have some fun, girl...
riu e se aproximou ainda mais do rapaz, balançando o quadril lentamente. movia-se no ritmo da música e vez ou outra lhe lançava um sorriso sem graça, vendo que ela gargalhava ao ver seus passos desengonçados. Controlava-se para não agarrá-la pela cintura e colar seus corpos na frente de todos. Mas era o que ele queria. Ah, como queria. Tinha seu corpo tão perto que seu perfume podia ser aspirado facilmente. E era doce. Doce como ele imaginava que era seu beijo.
mantinha as mãos no ombro dele, levemente apoiadas, apesar de sua vontade ser deslizar a ponta das unhas por sua pele quente e adentrar a camiseta que ele usava. Como queria vê-lo suspirar com seu toque. Tê-lo perto demais era um perigo maior do que imaginava.
Well I'mma freak you right, each and every night. I know how to do it insane, girl…
Fechou os olhos ao ouvi-lo cantar aquele trecho e prendeu o lábio inferior entre os dentes, imaginando que ele não precisaria de muito mais para tirá-la do sério. Precisava manter o foco, mas em que momento aquele calor intenso havia se instalado ali?

I can't wait to fall in love with you
(Eu mal posso esperar para me apaixonar por você)
You can't wait to fall in love with me
(Você mal pode esperar para se apaixonar por mim)
This just can't be summer love, you'll see
(Isso não pode ser só um amor de verão, você vai ver)
This just can't be summer love
(Isso não pode ser só um amor de verão)


não conteve a vontade. Assim que viu seus olhos se fecharem e seus dentes agarrarem seu lábio inferior de forma inconscientemente provocante, ele colocou suas mãos na cintura dela, aproximando-a velozmente. Suspiraram juntos em êxtase e surpresa. abriu os olhos no mesmo instante, vendo seu desejo refletir faíscas nos olhos dele. Tão intensos.
Tomada por uma coragem insana, apertou-se contra ele e rebolou devagar, vendo-o franzir o cenho como se sentisse dor. Ela estava em chamas. As mãos dele agora pareciam massageá-la no quadril, provocando a vontade indecente de insinuar-se para ele, só pelo gosto que teria ao ver sua reação de choque e prazer. Cenho franzido. Dentes trincados. Taquicardia.
Aquilo era demais para que ele pudesse aguentar e fingir sair ileso. Aquilo não era mais um de seus devaneios pervertidos. Era melhor. Era real. Era quente. E reagia.
Os outros pareciam ocupados demais para notarem o que acontecia ali. Divertiam-se, gargalhavam e dançavam. Tanto que ninguém percebeu quando puxou pela mão para fora da sala. Surpresa, ela não teve qualquer reação senão segui-lo para além da cozinha, entrando no corredor dos quartos.
– Eu não... – ele tentou falar enquanto a prendia na parede, entre seus braços – Eu não posso estar sentindo tudo isso sozinho. – encostou sua testa na dela, com a expressão suplicante – Por favor, diga que não.
não sabia o que dizer. Não queria palavras, queria toques. Toques dele em todos os lugares possíveis. Não queria parar para pensar. Não podia parar para pensar. Ele estava perto demais para que ela pudesse formar uma frase coerente. Seu coração batia acelerado e sua resposta foi nada mais do que seu mais genuíno desejo.
– Eu também quero. – foi tudo que ela conseguiu dizer, ainda que entre suspiros.
abriu os olhos e encarou os dela. Seu organismo havia dado o sinal e liberado adrenalina por todos os seus vasos sanguíneos. Ela também queria. E ele sabia que precisava agir rápido, mas naquele instante só conseguiu sorrir. E achou adorável, fofo e íntimo. Sorriu também, encostando mais seu rosto ao dele, deslizando a ponta do nariz pelo rosto levemente suado do rapaz.
Quando voltaram a se encarar, não perdeu tempo e tomou seu lábio inferior, sugando-o sensualmente, fazendo-a soltar o ar em um suspiro derrotado. Estava completamente entregue.
Iniciaram o beijo em um ritmo acelerado, com segurando-a pela nuca não tão delicadamente, encaixando seus corpos com urgência, controlando seus suspiros, mesmo que a música estivesse alta o suficiente para encobri-los. se agarrou aos ombros dele, espalmando as mãos e pressionando a palma naquela região, como se quisesse senti-lo ao máximo. Ele era cálido e as reações eram insanas. Estavam grudados e suas costas estavam sendo pressionadas na parede, mas aquilo não parecia o suficiente. Em um impulso e como se pudesse ler mentes, segurou uma de suas coxas, fazendo-a envolver sua cintura com a perna. ofegou com a ligeira aproximação. Ela nem sequer se importava em estar de saia, estava incrivelmente à vontade sentindo os lábios dele agora deslizarem pela pele exposta do seu pescoço, sugando a pele para dentro da boca, fazendo-a sentir vertigens.
Tudo o que ela ouvia eram zunidos e suspiros do rapaz. Arranhava sua nuca e com a outra mão apertava seu ombro, vez ou outra deslizando os dedos para suas costas, maravilhada.
Entregues à própria luxúria e absortos em seus desejos, nenhum deles parou para pensar nas consequências de seus atos. Só queriam tocar-se, entregar-se à vontade imediata.
Ali, com os corpos arrepiados e o coração acelerado, nada parecia errado. Nada.
O botão vermelho fora ligado, mas não percebeu, ou optou por não fazê-lo.
Dane-se. Nós vamos esquecer.

Capítulo 4


“Depois do ato, honrados de novo os dois, éramos desconhecidos daquilo
e ninguém que nos perguntasse, se pudesse desconfiar, teria resposta afirmativa,
que convictamente lhe diríamos que não.
Que nunca o fizemos.”
(O remorso de Baltazar Serapião – Valter Hugo Mãe)


Culpa.
Essa era a palavra que resumia seu estado de espírito no momento. Uma completa bagunça era como estava sua cabeça às sete da manhã, quando dispensou o elevador e desceu pelas escadas.
Havia acordado mais cedo que o comum, revirando-se na cama, inquieta demais para deixar o cansaço lhe dominar. Confusa demais pela profusão de sentimentos paradoxais que lhe atingia. Êxtase. Arrependimento. Desejo. Repúdio. Ainda pensava em como pôde ter traído e em que momento a vontade havia tomado seu corpo na noite anterior. Queria gritar xingamentos para si mesma por ter sido tão fraca.
Parece que não havia levado nada das aulas sobre Aristóteles. Não era ele quem dizia que o indivíduo deve evitar a vontade porque ela é precipitada e impede o exercício da razão?
Ah, mas ela não chegou a executar sua vontade.
Uma professora já lhe dissera que os caminhos que levam ao ato sexual, nos parâmetros aristotélicos, são frutos do desejo. É deliberado, mediato. O ato propriamente dito, no entanto, é a vontade na sua forma mais pura. Completamente instintiva.
Aquelas divagações a fizeram perceber que ela quis ir até o corredor com . Quis beijá-lo. Por sorte, ou por qualquer outra coisa, ela conseguiu evitar que algo a mais acontecesse. Porém, continuava ferrada. Como iria encarar depois disso?
Quando desistiu de tentar entender o que acontecera na noite anterior, levantou e começou a se preparar para ir ao trabalho, sem nem ao menos tomar o café da manhã. Queria sair sem precisar falar com . Queria ficar sozinha. Caminhar e ver pessoas desconhecidas, pessoas que nunca saberiam o que ela fez e como se sentia sobre aquilo.
Depois de toda a dança provocativa com e dos amassos no corredor, ela havia fugido. Fugido como uma garotinha assustada quando uma das mãos dele se precipitou para tocá-la por baixo da saia, dedilhando sua pele em direção à parte interna de uma das coxas. Fora o choque de realidade que precisava. Achava que deixá-lo continuar com aquilo era ir longe demais. Como se ela já não tivesse ultrapassado a linha do perigo. Precisou reunir todo o autocontrole e sanidade que ainda lhe restavam para afastá-lo de si, analisando pela primeira vez o estado de ambos: completamente ofegantes, com os cabelos arrepiados, roupas bagunçadas e os lábios ainda mais avermelhados. A visão de excitado quase fizera desistir, mas ela precisava interromper aquilo. E ele não fez qualquer movimento quando ela o empurrou pelos ombros, ato pelo qual agradeceu aos céus, apenas a observou arrumar a roupa e os cabelos antes de voltar às pressas para a sala, deixando-o completamente desnorteado.
Por sorte ninguém pareceu ter notado o sumiço dos dois. Talvez desse falta da amiga, mas estava ocupada demais beijando o amigo dos meninos com quem dançava antes da outra sumir pelos corredores com . tomou alguma coisa e conversou com por alguns minutos até ver voltar à sala. Evitou olhá-lo diretamente nos olhos, mas ele não parecia chateado e ela realmente esperava que não. Não queria magoá-lo. Os dois iriam esquecer aquilo, não era?
Queria acreditar nisso, apesar de ainda sentir a tensão do momento. Era só fechar os olhos e as imagens surgiam de forma impetuosa. Jurava que quase podia sentir a pressão daqueles dedos longos em sua pele, dando-lhe sensações tão boas que seus lábios ousavam sorrir com a lembrança. E os beijos? Beijos tão urgentes que faziam o ar fugir de seus pulmões só com o pensamento. Sentia calafrios só de lembrar em como sua barba rala roçava em seu pescoço enquanto ele distribuía beijos pelo local.
Tão sexy. Tão quente. Tão errado.
certamente era um cara difícil de esquecer, mas ela pensava que não poderia ser uma missão impossível. Era só repetir para si mesma: aquilo não aconteceu. Muitas coisas funcionam por repetição. Deveria funcionar para mentiras também.
Entrou no carro e dirigiu até a ONG. Iria dedicar-se completamente ao trabalho, quem sabe até sugerir hora extra. Ainda não sabia o que fazer para livrar-se daquela sensação estranha, mas trabalhar deveria ajudar. Assim, quando ligasse mais tarde, ela diria que estava tudo bem, que estava com saudades e que o amava muito.
Que alívio era saber que ao menos as duas últimas afirmações eram verdadeiras. Afinal, seu amor por ele continuava intacto, por isso, durante o caminho, preencheu a mente com as melhores lembranças dos dois, colocando e seus beijos bem no fundo do baú da memória.

Flashback – 4 anos atrás

– Missão urgente, . Missão urgente!
passou pela porta apressado, com uma sacola enorme nas mãos e o rosto indicando que ele estava afobado. Era dia do baile de formatura na Abraham Lincoln High School e o rapaz não via a hora de receber o diploma e se ver livre de tudo aquilo para poder se dedicar inteiramente à sua música.
– Quer repassar os passos da valsa de novo, ? – ela colocou as mãos na cintura e o encarou com a expressão divertida – Não entendo qual é a dificuld...
– Sybil sofreu um acidente. – interrompeu-a – E como você pode imaginar, não poderá ir ao baile hoje. – soltou um suspiro cansado e jogou-se no sofá.
– O quê? – também sentou, cruzando as pernas e colocando-se de frente para o amigo – O que houve? Ela está bem?
Sybil era amiga de desde que ele entrara para o high school e os dois às vezes saíam juntos como um casal. sempre admirara seus longos e sedosos cabelos negros e suas feições típicas de nativos americanos, com os olhos levemente puxados e as bochechas bem cheias. E ela era, naturalmente, a acompanhante de para a festa.
– Agora, está. Quer dizer, ainda vai precisar de repouso e todas essas coisas. – deu de ombros, com a feição ainda preocupada – O fato é que uma moto a derrubou na frente da escola, depois que ela saiu do ensaio final e eu estou sem parceira para o baile.
Calou-se e lhe lançou um olhar sugestivo. A garota arqueou uma sobrancelha, entendendo tudo. Levantou e deu a volta na mesinha de centro, ficando de frente para ele.
– Quer que eu vá com você. – ele assentiu, mesmo que ela não tivesse perguntado – Ah, , não sei não.
, vamos lá! Qual o problema? – ficou de pé – Você sabe toda a coreografia e se eu pisar várias vezes no seu pé não será de todo o mal. Não vou te levar para a cama no final da noite mesmo. – balançou os ombros e riu vendo a amiga rolar os olhos.
– E o que eu ganho com isso, ? – voltou a sentar.
– Além de estar acompanhada por um dos caras mais bonitos do último ano e ser uma das poucas não formandas na festa? – ela assentiu e ele torceu os lábios – Que tal todo o meu amor? – abriu os braços, sorridente.
– Que tal algo que eu já não tenha? – gargalharam.
– Difícil com toda essa sua pretensão. – jogou-se no colo dela, encarando seu rosto – Mas acho que aquele vestido que eu trouxe pode facilitar as coisas. – piscou.
se levantou rapidamente e alcançou a sacola, sem nem ligar para os resmungos de que batera a cabeça fortemente no sofá quando perdeu o apoio das coxas da amiga. deixou um barulho de exclamação e admiração sair por seus lábios ao reparar no tecido trabalhado por baixo do papel de seda.
– Caprichou, hein? – analisou sorridente o longo vestido rendado que deixaria um ombro à mostra.
– Abra o outro pacote.
Sentou-se novamente, já com o pacote menor em mãos, abrindo-o rapidamente, encontrando um par de sandálias que brilhavam um dourado discreto. Calçou um lado e esticou a perna para admirar. Sorriu para o amigo.
– Pronta pra adiantar o sonho da formatura? – abraçou-a, deixando seus rostos bem próximos.
– Me dê algumas horas e eu te direi sim. – beijou a ponta de seu nariz – Eu te amo, sabia? – gargalhou vendo-o concordar.

Flashback Off

A viagem até Londres seria longa, então tratou de dormir na maior parte do tempo. Nos momentos em que seus olhos permaneciam abertos e ele fingia ouvir o que os amigos falavam, seus pensamentos ainda rodavam por Los Angeles. Será que ela pensara nele durante a noite? Será que também sentia certo torpor ao lembrar seus beijos?
Quando ela o afastou de si na noite anterior, sustentando um olhar assustado, nada pôde fazer. Inconscientemente sabia que ela não deixaria as coisas avançarem tanto, mas não conseguiu conter a frustração. Não se sentira rejeitado, no entanto, sabia que ela deveria estar confusa. Ele voltou à sala e fez exatamente o que ela fazia e agiu como se nada estivesse acontecido. Buscou seu olhar algumas vezes, mas ela não parecia disposta a encará-lo e ele entendia completamente. Só não queria que ela o esquecesse. Só essa ideia fazia seu estômago revirar em repulsa.
Sua cabeça fervilhava em dúvidas. é noiva de e o conhece há muito tempo. Os dois têm um relacionamento sólido e visivelmente feliz e são amigos. provavelmente a conhece como ninguém e aquilo que aconteceu na noite anterior seria esquecido por ela.
Será?
Ela o correspondera, não só nos atos, mas havia verbalizado que o queria. E desconfiava que jamais esqueceria aquela frase e como pareceram sensuais os suspiros que ela dera entre as sílabas.
Queria bater a cabeça contra a poltrona a sua frente por se sentir tão idiota. Estava voltando para a casa sem saber se conseguira plantar algo no coração de . Depois riu sozinho. Ela o acharia infantil por pensar em coisas do coração tão cedo, mas ela havia tocado o seu, de forma sutil, porém significativa. Estava encantado, definitivamente. Seu sorriso era espontâneo demais para quem namorava uma celebridade e o que ela queria para a vida era tão simbólico que fez se sentir pequeno diante de tamanho altruísmo.
“– Relações internacionais. – ela respondeu a pergunta de com um sorriso.
– E como isso funciona, na prática? – perguntou, passando a mão pelo queixo, mantendo a feição curiosa.
– Deixa de ser burro, . – o acertou com uma bolinha de papel – São essas coisas de acordos entre países, diplomacia, ternos e meias-calças. Estou certo?
– Quase isso. – lançou-lhe um sorriso orgulhoso – Mas no meu caso o foco são as relações sociais e a ajuda mútua entre países.”

Tão inteligente. Tão divertida. Gosta de suas músicas e se dá bem com seus amigos. Seria tão certo se estivessem juntos. Odiava o porém e todas as malditas conjunções adversativas que o conectavam à ela, mas os colocavam em lados opostos.
? – o chamou – Tá acordado, cara?
Sorriu fraco e apertou o ombro do amigo em um cumprimento. Não tinham permissão para atenderem as fãs que esperavam no saguão do aeroporto, então apenas acenaram de longe, sendo recebidos com gritos calorosos. De qualquer forma, era bom estar em casa.

Dali para frente tudo seria correria. Apenas um dia de folga e então seria a premiere de This Is Us, filme-documentário da One Direction. queria dar pulinhos animados só em pensar. A reação dos fãs com a chegada da estréia deixava-os empolgados. Esperava que todos fossem agraciados com o presente e pudessem perceber o quanto eram importantes para o grupo. A sensibilidade do filme é visível e compartilhar aquilo com todos que fizeram e continuavam fazendo do seu trabalho um sonho, era mais que espetacular.
Mais um tapete vermelho, só que em um evento seu e dos amigos. Quão surreal era aquilo?
Quando a imagem de voltou a sua mente, ele teve a ideia. Era sua chance de vê-la novamente e em breve.
– Quando voamos pra Nova York? – os amigos o encararam.
– Ih, cara, relaxa aí, acabamos de chegar. – respondeu com um resmungo, voltando a aconchegar-se na poltrona da van.
– Acho que no início da próxima semana. – deu de ombros – Por quê?
– Nada de mais. – abanou o ar – Só pensando.
observou o interesse de com desconfiança. Ainda não tivera a oportunidade de conversar sério e a sós depois da festa, mas alguma coisa deve ter acontecido. estava mais aéreo que o normal.
– Está lembrado da localização de NYC, não é? – arqueou uma sobrancelha, fazendo o encarar confuso – Costa leste americana e bem longe de LA.
Manteve a expressão acusadora, fazendo o amigo lhe estender o dedo médio. Ele lembrava sim a localização, , mas seus planos eram outros.

[...]


O final de semana chegara e já estava no apartamento de . Perfumava sua pele com um óleo árabe que ganhara de uma intercambista que conheceu na ONG. Agarwood era fruto do processo de decomposição de árvores e era considerado um dos attars – como chamam perfumes, em árabe – mais bem apreciados do Oriente. Para eles, o aroma não é apenas para perfumar, mas para elevar a alma até a inspiração máxima e à entrega absoluta.
Assim que terminou, todo o quarto estava tomado pelo cheiro que transitava entre o afrodisíaco e o terapêutico. Olhou o relógio e desejou que chegasse logo. Como sentira sua falta.
Queria logo encarar seus olhos sempre tão calmos e vê-lo sorrir como uma criança. Ele iria abraçá-la, distribuir inúmeros beijos por todo seu rosto e dizer como estava com saudades. E ela iria corresponder com todo o amor e o carinho, como de costume.
Ele sempre fora tão atencioso e a conhecia tão bem que se perguntava como puderam adiar tanto o início do namoro. Guardava a lembrança do primeiro beijo com muito zelo. Os dois estavam na garagem desocupada da casa dele. havia subido em um sofá velho para fazer um pronunciamento, como ele mesmo dissera, mas ria tanto que enrolou uns bons minutos até respirar fundo e começar a dizer. A gravadora havia ficado muito feliz com o material enviado e ele teria sua chance. ficara tão contente que pulou no sofá também, o abraçando e querendo chorar. Por ser tão velho, o couro não aguentou o sacolejar dos dois e cedeu. A queda foi dolorida, mas gerou risadas. No chão empoeirado e enquanto verbalizava os votos para o futuro do amigo e beijava seu rosto, seus lábios se tocaram. Não houve alarde, só certezas. Era o que ambos queriam e quando resolveram contar aos pais e amigos, todos tiveram confirmação do que já pensavam: eram mesmo feitos um para o outro.
Ainda sorrindo com a lembrança e observando a movimentação da rua lateral pela janela, ela ouviu o característico som das chaves contra a mesa de vidro. estava em casa. Alargou o sorriso e arrumou o penhoar, preparando-se para recebê-lo.
O coração apertou em culpa. O rosto de a assombrou e ela fechou os olhos com força. Não podia fraquejar. Seu amor estava em casa e ela prometera para si mesma que esqueceria a última quinta-feira.
Abriu os olhos no instante que a porta do quarto estava sendo aberta. Assim que entrou, buscou seus olhos e sorriu de forma meiga, recebendo um sorriso escancarado e aliviado de volta. Andou até ela e a tomou nos braços, abraçando-a e a tirando do chão.
– Ei, senti sua falta! – disse contra seu pescoço, inalando o máximo daquele aroma espetacular.
– Que droga de demora foi essa? Você deveria estar aqui há uma hora! – disse emburrada, mas não verdadeiramente.
riu, soltando-a e tirando a jaqueta. Livrou-se do prendedor que amontoava os cabelos dela em um coque e admirou-os soltos, passando as mãos entre os fios, numa tentativa desajeitada de arrumá-los. sorriu com o gesto e subiu na cama, ficando de joelhos, pronta para começar a desabotoar a camisa azul que ele usava.
não deixava de sorrir um só segundo e observava com atenção retirar cada botão de sua casa sem nenhuma pressa, vez ou outra deslizando os dedos pela pele que ia ficando exposta. Cansado e saudoso demais para esperar, o músico a agarrou pela cintura e deixou o corpo pesar para frente, caindo com ela na cama. Aproveitando-se da situação, a surpreendeu com cócegas, fazendo todo o cômodo ser tomado por um de seus sons favoritos, a risada dela.
Deixando-a se recuperar, livrou-se do cinto e da calça. Sentou-se na cama e a viu ficar de pé na mesma, desfazendo o nó do penhoar e revelando a lingerie branca que usava. viu os olhos do noivo brilharem de admiração, o que fez seu peito começar a espalhar um sentimento gostoso por todo seu corpo.
Ali, com o coração acelerado de expectativa e saudade, sabia que ela era tudo o que ele queria. Tão sexy e ao mesmo tempo tão angelical. Sua garota era única e nada podia ser comparado ao amor que sentia por ela.
sentou em seu colo, deixando-o lhe tocar sem censuras, enquanto distribuía beijos por seus ombros e começava a mover o quadril, sentindo o corpo esquentar e pedir por movimentos mais precisos.
Com a cabeça vazia de preocupações, concentrava-se nas reações.
a beijava com tanta paixão e calma que os arrepios eram constantes. Seus dedos ágeis pareciam eletrizá-la ao passearem pela lateral do corpo, contornando a curva de sua cintura, fazendo-a apertar ainda mais as pernas ao redor de seu corpo. Como era bom estar em seus braços. Ouvi-lo sussurrar que a ama enquanto desabotoava seu sutiã com uma facilidade ensaiada.
Afastou-se minimamente, jogando a cabeça para trás ao sentir sua boca quente e macia deslizar por entre seus seios, beijando-a tão lentamente que o sentiu como se vivesse em câmera lenta. Quis sorrir, quis abraçá-lo. Seu amor, seu .
Apertou os olhos e comprimiu todos os dedos dos pés no momento em que a língua dele a tocou. encarava sua feição com um olhar satisfeito. Deitou-a novamente, beijando todo o seu tronco, estimulando-a ao máximo. Arrastava as mãos pela lateral das pernas, vez ou outra dedilhando a parte de trás de suas coxas, pressionando nos lugares onde ele já sabia que eram os mais sensíveis.
Enquanto bagunçava seus cabelos, e com a outra mão apertava seu ombro, ele se preocupava em retirar a única peça de roupa que estava no corpo dela, deslizando-a sensualmente pelas pernas, vendo-a estremecer em expectativa.
A partir dali, tudo o que saía de suas bocas eram palavras desconexas e gemidos que nenhum dos dois queriam controlar. Altos, baixos, urros e suspiros. só quebrava o contato visual para tentar beijá-la ou para levar a boca até seu ouvido, encostando sua bochecha com vestígios de suor na dela, sussurrando palavras que a estimulavam. Deliciava-se ao vê-la brava com toda aquela provocação. Sua mão direita agarrava a cintura dela com força e precisão e afundava as unhas em sua pele, não o deixando se afastar por muito tempo.
Para os dois, aquela era a melhor maneira de matar a saudade: deixando seus corpos, velhos conhecidos, agirem como queriam, instigando um ao outro até cansarem e os presentearem com o prazer máximo.
Naquela noite não pensou em .
Naquela noite preenchia todo seu coração.

Na manhã seguinte nenhum dos dois queria sair da cama. inventou de tomar sorvete às dez da manhã e era o que estavam fazendo. Dividindo um pode de sorvete de creme esquecido na geladeira do rapaz.
– Eu vou morrer por tomar sorvete antes do café, . – passou a mão pela barriga desnuda – Mamãe vai te matar.
Ela riu, ainda se deliciando.
– Você não vai morrer. Talvez tenha uma indigestão. – deu de ombros – Mas aí eu cuido de você. – apressou-se em dizer, vendo a cara afetada que ele fizera.
Diante do silêncio confortável que se instalou, se lembrou das correspondências que pegou na portaria quando chegou.
– Como está sua semana? – levantou-se, buscando uma calça de moletom no closet.
– Fora o trabalho, nada de mais.
– Então acho que vamos viajar, o que você acha?
Caminhou a passos lentos até a cozinha, pensando em preparar um café. Só café mesmo. Talvez estivesse com alguns biscoitos no armário.
– Como assim viajar? – apareceu por ali, largando o pote e as colheres na pia.
– Aposto que você vai adorar! – sorriu sapeca – Tem umas correspondências na mesinha de centro, ao lado das minhas chaves. Pegue o envelope preto.
o encarou confusa, mas foi até lá. Pegou o montinho de cartas e olhou uma a uma até chegar ao tal envelope preto, que era um tanto grande e tinha um selo que ela jurava já ter visto em outro lugar. Curiosa, abriu. Sentiu a barriga gelar em surpresa ao ver a foto de e seus companheiros de banda estampada ali.
Era um convite.
Um convite para a premiere de This Is Us, em Nova York.

Capítulo 5


"Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg,
o mais obscuro dos filósofos do amor. È normal, é saudável.
O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta,
é o quanto cada um quer o que não pode ter."

(Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios – Marçal Aquino)


Aos olhos de , Nova York era um exagero. Um superlativo que tomava forma em todos os edifícios, luzes e avenidas. Uma cidade de tantos povos, tantas línguas e inúmeros significados.
Ao pisar em Manhattan, não é preciso ir até Little Italy ou Chinatown para ouvir um idioma diferente do inglês, basta olhar ao redor e se deixar ouvir. Vai muito além do italiano ou do mandarim. Nova York é como uma colcha de retalhos encantadora para quem não se deixa levar apenas pela correria das ruas ou pelo neon exagerado das propagandas.
Sempre que tivera a oportunidade de viajar até lá, sentia que NYC tinha muito à lhe mostrar, logo, ela gostava de ir além dos pontos turísticos mais óbvios. Queria ouvir as pessoas, conversar com o dono daquela doceria que existe há mais de trinta anos e bater um papo com uma futura mamãe enquanto espera pelo táxi. Queria observar o choque de ombros em uma das faixas de pedestres da Times Square, acompanhar o caminhar tranquilo dos idosos nas calçadas de SoHo ou assistir a uma partida de beisebol amador no Riverside Park. E a cidade ficava ainda mais bela naquela época do ano, era o que ela achava. Estavam no último mês de verão e o sol brilhava inmensamente, fazendo os habitantes da capital mais populosa dos EUA desfilarem pelas ruas com seus tecidos esvoaçantes, shorts curtos e camisetas com desenhos estilosos.
Ela adorava viajar. Desde pequena se animava até para ficar duas horas dentro do carro para passar um final de semana na casa da avó. Viagem em família era algo de que tinha saudades, até mesmo de ouvir seus pais discutir sobre rotas e lanches de beira de estrada. Também tinha boas lembranças de muitas viagens com e os amigos do colegial e de como se divertiam nas praias da costa da Califórnia.
O fato de ser músico alimentava essa paixão. Ela o acompanhou por muitos shows durante as turnês e achava que essa era a parte mais incrível da profissão do noivo, apesar de extremamente exaustiva. Ônibus de turnê eram incrivelmente apertados e ainda assim conseguiam ser inesperadamente aconchegantes diante de tamanho cansaço.
Aquela viagem, no entanto, havia deixado a americana em alerta. Algo a deixava inquieta e a fazia desejar estar em casa, mas ficara animado com o convite e sequer cogitou a possibilidade de voar até NYC sem a noiva. Eles vão gostar de vê-la por lá também, era o que ele havia dito quando tentou algum argumento falho para ficar em LA.
Ela também gostaria de ver e era justamente por isso que não queria viajar.
Deixou um suspiro cansado sair e continuou a olhar as calçadas passarem rapidamente pela janela do táxi tipicamente nova-iorquino. Em outras ocasiões ela estaria em uma conversa animada com o motorista, mas achava que não era uma boa companhia no momento, então se manteve calada desde que entrou no veículo, limitando-se a sorrir e acenar com a cabeça quando o rapaz comentava sobre algo.
voltava de um encontro com Blanda Eggenschwiler, a namorada de Joe Jonas que conhecera há algumas semanas. Assim que soube, pelo Twitter, que estaria na cidade, a design a convidou para conhecer seu ateliê, que ficava em um prédio discreto de um bairro moderninho de Nova York. ficara encantada com o convite e ainda mais com o bom gosto e o estilo da ex-modelo, que ficava evidente em cada cantinho do ateliê e do terraço florido que ela mantinha. Conversaram sobre profissões, viagens e relacionamentos, e foi com o último assunto que a estudante se viu surpresa: não imaginava que namorar um Jonas fosse algo difícil para Blanda, afinal, ela já fora modelo e esteve acostumada com flashes e holofotes durante um bom tempo, tinha experiência com esse meio. Mas a mais jovem descobriu que os tapetes vermelhos não eram o problema.
– Modelar era meu trabalho – ela disse –, e na época eu não tinha milhares de garotas julgando se eu seria boa o suficiente para estar com o ídolo delas.
Naquele momento se sentiu sortuda porque nunca esteve em situação parecida. Para as fãs de ela ocupava a posição de namorada desde sempre. Mas em uma fração de segundo que ela não conseguiu perceber, sua mente autoritária já forjava situações envolvendo . Como se, sem que ela conseguisse evitar, já se imaginasse como sua namorada, agarrando sua mão pelas ruas e tendo de enfrentar um tribunal adolescente global. É claro que todos aqueles pensamentos a assustaram e ela precisou disfarçar diante de Blanda, especialmente quando ela encerrou o assunto com uma frase que ela não sabia, mas era profética.
– As pessoas vão falar, questionar e perseguir, mas no final, o que interessa somos nós e se estamos felizes. Verdadeiramente felizes.
Ignorando toda aquela confusão de seu subconsciente, procurou pelo celular na bolsa, encontrando-o e deslizando o dedo pela tela, sorrindo para a foto em que ela e estavam abraçados. Aquela era a imagem que ela tinha de si mesma há muito tempo; assim era como sua família a via, como seus amigos e colegas da faculdade a viam; era assim que o público de a via. Ela só não se perguntava se era assim que queria ser vista, e não o fazia simplesmente por achar que já sabia a resposta, por ter certeza de que nada mudara.
A verdade é que as coisas da vida não acontecem ou se modificam de súbito, como imaginamos. O real tempo humano não é tempo do relógio, instituído apenas para controlar nossas vidas, primeiro nas fábricas, depois em tudo. O tempo humano é gradual, uma era a cada segundo. É por isso que você não percebe o crescimento diário da grama do seu jardim, até ela roçar seu calcanhar; você não percebe os milímetros a mais que seu cabelo ganha a cada dia; você não percebe seu afeto por alguém crescer até o dia que seu peito apertar e você sentir necessidade de verbalizar os sentimentos.
O dia que algo súbito acontecer em sua vida, suspeite, vigie, analise. Quem sabe aquilo não vem sendo plantado e alimentado há tempos.

[...]


A sala do apartamento havia se transformado em uma sala de reuniões improvisada. As pessoas se espalhavam e se acomodavam pelos sofás e poltronas. Uns faziam anotações, outros falavam e gesticulavam e outros apenas assistiam, cada um com seu aparelho eletrônico em mãos. A mesinha de centro parecia pequena para tantos papéis e copos de café e refrigerantes.
– Alguma pergunta? – um homem alto e forte falou, esperando que a resposta fosse negativa.
– Eu tenho uma! – levantou a mão – Não tem um script pra festa também, não é?
A pergunta foi séria, mas a maioria riu.
– Não, . A festa é de vocês, podem aproveitar. – o homem respondeu, mas assim que os meninos soltaram sons animados, ele fez uma ressalva – Sem exageros, por favor. Estaremos de olho.
Dito isso, todos foram liberados para suas devidas obrigações e a sala foi esvaziando. , entretanto, não se moveu do sofá para seguir os amigos que iriam comer ou descansar. Assim que fechou o notebook e começou a se espreguiçar, ele falou.
– Isso foi ideia sua, não foi? – lançou-lhe um olhar desafiador e pegou uma pasta na mesinha, balançando-a em direção ao outro.
o encarou com a testa franzida, sem entender, mas ao ver a pasta com a lista de convidados, sua mente clareou, fazendo-o soltar um riso breve, a feição de quem havia sido pego.
e . – leu – Eu vou te fazer essa pergunta de novo: quer arrumar problemas?
– Ei, calma aí! – respondeu, na defensiva – Por que todo esse alarde por causa de dois nomes numa lista de convidados?
– Porque eu tenho certeza de que foi você quem pediu pra incluí-los. Não acho que nossos produtores de eventos colocariam e sua noiva na lista sem algum empurrãozinho.
Ele continuou a encará-lo e desviou o olhar. Podia confiar no amigo, não podia?
– E qual é o problema? – começou a andar pela sala – Eu quero vê-la de novo! Essa era a única forma de trazê-la até aqui.
passou as mãos pelo cabelo, bufando.
– Ela virá com o noivo, porra! O que vai adiantar pra você?
imaginava estar exagerando, mas não queria ver o amigo em confusão, e se aquilo continuasse, inevitavelmente alguém sairia ferido.
– O que está acontecendo, cara?
se jogou na poltrona, derrotado.
– Eu gosto dela. Quero tê-la por perto. Não sei se consigo evitar porque não quero evitar.
riu e era uma risada nervosa.
– Você sabe que isso não tem como dar certo, não sabe?
o encarou sério. Não queria pensar nos contras. Sempre que lembrava o que havia acontecido no corredor daquele flat e em como tudo parecia certo, ele se enchia de coragem e determinação.
– Nós nos beijamos, cara! Eu a ouvir dizer que queria ficar comigo. – ele sorriu, lembrando – Quando aconteceu, nada nunca pareceu tão certo. Nem em todas as projeções da minha mente.
arregalou os olhos. Como? Quando? Vasculhou a memória e lembrou da festa e do humor inconstante de no final da noite, além do sorriso pequeno e envergonhado de ao ir embora e como ela parecia relutar para abraçar como abraçara todos os outros. Ele se lembrava dos dois dançando na sala, mas não havia nada além disso.
– A festa em Silver Lake. – concluiu baixo e levantou o olhar para o outro, que encarava o nada – ... Cara, isso não vai dar certo. vai se casar! Ela tem uma vida em Los Angeles e... – ele interrompeu a frase, tentando organizar os pensamentos – Vocês já se falaram depois do que aconteceu?
– Eu quis ligar todos os dias – girou o celular nos dedos –, mas achei melhor dar um tempo a ela.
Então passou a contar como tudo aconteceu.
– E o que você acha que vai acontecer, hein? – levantou, inquieto demais para continuar sentado – Que vocês vão se encontrar, ela vai despistar o noivo e te dizer que só precisa de um tempo? – concluiu, abrindo os braços e caminhando pela sala.
– E por que não?
voltou a rir sem humor algum, sentindo um pouco de pena do amigo.
– Já pensou na possibilidade dela te ignorar? De te dizer que tudo foi um erro? Que ela ama e que espera que você pare de importuná-la?
quis socar . Quis socar também. Tudo para não admitir que a segunda hipótese era a mais provável.
– Você é amigo de quem, afinal? De ? Vai contar pro seu amigo que eu beijei a garota dele e que ela gemeu bem no meu ouvido? – explodiu, levantando.
Seu rosto tomou uma coloração rosada e a expressão dura fez suas veias pulsarem. Bufava e apertava as mãos em punhos. não se abalou.
– Eu sou seu amigo, idiota! – chutou a mesa – Estou tentando fazer você pensar! A porra de um beijo não quer dizer que a garota te ame e que vai arruinar um noivado por sua causa! Deixa de ser burro, cara!
fechou os olhos e tentou controlar a ira.
– Não sabia que lutar por algo que eu quero podia ser considerado burrice! Somos uma banda de burros, então! Aliás, esse é um mundo de burros. Gente lutando pra conseguir o que quer todos os dias. Quanta burrice!
balançou a cabeça, incrédulo.
– Você sabe que não é disso que estou falando! – respirou fundo antes de continuar – Não vou te dizer pra não tentar, se isso for realmente importante pra você, mas jogue limpo. Se é que isso é possível. – ele sussurrou a ultima frase e então pôs uma mão no ombro do amigo – Lembre-se que não existe apenas você e a nessa história.
– Eu gosto dela, . – confessou, abrandando a expressão – Não insistiria nisso se não sentisse algo diferente e se não tivesse certeza de que ela corresponde pelo menos em algum aspecto.
só conseguia pensar na confusão que aquilo poderia gerar, mas se havia algum lado em que ele deveria ficar, esse lado era o de .
– E o que pretende fazer?
– Fazer o que ela está fazendo comigo bem aqui – ele apontou para a cabeça e em seguida para o peito – e aqui.
– Espero que você esteja preparado para o sim e para o não. – observou largar o corpo no sofá, passando as mãos pelos cabelos – É por ser seu amigo que preciso te alertar: não pense que será fácil e não vá rápido demais. – deu uma risadinha – Você tem um concorrente à altura.

[...]


encarava o espelho concentrado em arrumar a gola da camisa. O cabelo, ainda úmido, vez ou outra caía pelos olhos, irritando-o. entrou no quarto trajando o roupão, com o cabelo arrumado e a maquiagem feita, já que o hotel mandara uma cabeleireira e uma maquiadora para auxiliá-la.
– Jeans? – ela parou atrás do noivo, encarando-o pelo espelho – Achei que iria usar terno ou costume. – virou-o de frente para si, ajudando-o com a manga e os botões.
– Pensei em um look despretensioso. – deu de ombros e fez uma careta que ela julgou fofa – Vou ficar muito largado?
– Claro que não! – ela riu – Vai usar aquele blazer azul escuro? – ele assentiu e foi até a mala e pegou o par de botinas marrons, junto com o cinto da mesma cor.
– Você é a melhor e mais linda personal stylist que existe! – ele sorriu, juntando seus lábios rapidamente.
– Vamos combinar.
Assim que terminou a frase, desfez o nó do roupão e revelou parte da lingerie azul escuro que usava. Os olhos de cintilaram desejo, fazendo-a alargar o sorriso instantaneamente. Ele espiou o relógio no criado mudo a fim de ver se ainda tinha tempo para namorá-la um pouquinho. Chegou mais perto e deslizou as mãos pela pele macia e recém hidratada, agarrando-a gentilmente pela cintura, encaixando seus corpos.
– sussurrou e riu brevemente ao vê-lo se arrepiar – Vamos nos atrasar desse jeito.
– Só um pouquinho. – sorriu contra a curva de seu pescoço – Ninguém mandou provocar. – riram juntos.
fechou os olhos, aproveitando ao máximo o carinho íntimo enquanto dedilhava suas curvas tão lentamente que ela chegava a sentir cócegas. Para se apoiar, colocou as mãos por dentro da camisa azul tão bem passada que ele vestia, segurando-se em sua cintura, tentando tão amarrotá-lo tanto. Pendeu a cabeça para o lado com cuidado para não estragar o penteado, mas o suficiente para deleitar-se com os beijos que ele distribuía por seu pescoço. Como que para estimulá-lo, passou a arranhar a região lombar do noivo, deslizando as unhas em círculos e fazendo desenhos abstratos, sorrindo ao sentir seus pelos eriçados.
interrompeu as carícias e ergueu a cabeça para olhá-la nos olhos, que pareciam ainda mais lindos e iluminados pela maquiagem que ela usava.
– Posso te beijar?
soltou um risinho de satisfação ao ver a carinha que o namorado fizera, formando um bico em seus lábios rosados. Era tão fofo que ela cogitou jogá-lo na cama e beijá-lo até cansar. Sentia-se estúpida por sequer pensar em traí-lo ou abrir mão de todo aquele carinho e todos aqueles momentos adoráveis que só ele era capaz de protagonizar.
– Deve! – ela sorriu – Não deixei a maquiadora passar o batom.
Dito isso, ainda sem deixar de sorrir, ela começou a deslizar a ponta do nariz pelo rosto dele, deixando beijinhos pelo caminho, antes dele segurar sua nuca e beijá-la como queria. Antes de soltá-la, ainda selou seus lábios aos dela repetidas vezes, fazendo-a rir.
– Melhor voltarmos a nos arrumar antes que fique difícil parar. – ele tirou as mãos dela de sua cintura e entrelaçou seus dedos – Terminamos isso mais tarde, ok?
– Mal posso esperar! – piscou.
se soltou dele e deslizou o roupão pelos braços, andando até o banheiro para terminar de se arrumar. a acompanhou com olhar e depois se jogou na cama, sentado, respirando fundo para se acalmar e ligar para pedir o carro.

[...]

“Quando eu era pequeno, eu tinha uma escrivaninha. É curioso, mas eu escrevi nela: quando crescer, quero ser cantor. O que eu rabisquei continua na escrivaninha.”

“Em casa éramos meu pai, minha mãe e três irmãs. Pode-se dizer que tive uma forte influência feminina desde pequeno.”

“Nossa casa era minúscula e minha cama ficava no quarto dos meus pais.”

“Eu sentava no peitoril e imaginava coisas, tipo, ganhar na loteria.”

“Quando eu era garoto, eu sabia que queria entreter os outros. Eu era o maior exibido.”

“Na escola, eu era o palhaço da sala. Sempre fiz as pessoas rirem.”

“Fui expulso da aula de Geografia por cantar clássicos irlandeses.”

“Eu ouvia a música da minha irmã no segundo andar e fingia tocar guitarra diante do espelho do meu quarto.”

“Eu não me interessava por coisas que interessavam aos outros garotos. Eles se interessavam por futebol e eu era mais criativo.”

“Aonde fôssemos, meu pai dizia que eu cantava.”

“Às duas ou três da manhã eu cantava a plenos pulmões. Minha irmã esmurrava a parede: cale a boca, você canta mal! Vá dormir!”

“Foi assim que, eu acho, o sonho começou.”


O filme começara sob uma chuva de aplausos da platéia selecionada para o evento.
Com uma mão entrelaçada à de , as duas repousando sobre sua coxa, mantinha os olhos atentos ao telão, conservando um pequeno e doce sorriso no canto dos lábios. De onde estava, era possível enxergar o topo das cabeças dos cinco, que estavam extremamente charmosos naquele dia e pareciam transbordar felicidade.
Desde que o noivo e ela chegaram, só trocaram cumprimentos rápidos com o grupo. e estavam sob muitos olhares para deixarem qualquer tensão aparecer, o que a deixou, em parte, aliviada. , no entanto, sentiu o coração martelar em seu peito vergonhosamente quando a viu. Absurdamente linda, mas posando para fotos ao lado de outro. Também não era nada fácil para ela permanecer indiferente a ele. Estava tão bonito que chegava a irritá-la. Ali, atenta a seus depoimentos exibidos no filme, ele parecia ainda mais adorável.
Conforme as imagens eram exibidas e coisas eram ditas sobre sua família e sua relação com os outros integrantes do grupo, coisas que ela desconhecia, expressões dele que ela nunca vira, que ela percebeu não o conhecer realmente. Ou não como gostaria. Quando a primeira perfomance ao vivo foi exibida, ela pareceu notar que nunca assistira a um show dele. Quis vê-lo no palco interagindo com o público em um show completo e quis correr para o camarim no final da apresentação para cumprimentá-lo pelo ótimo trabalho, como sempre fizera com .
Soltou uma risada baixa, mas não pelas gracinhas que fazia para a câmera, mas pela descrença com sua situação atual. Não podia fantasiar com alguém que conhecia tão pouco, podia? Quem era ? Quais eram seus maiores medos? E sonhos? Qual sua cor favorita? E filme? Não sabia nem qual era seu lado favorito na cama. Riu novamente. Era só uma atração, afinal. Algo que ela precisava consertar. Não sabia o que se passava pela cabeça do garoto depois dos beijos que trocaram, mas ela tinha certeza que não queria magoá-lo. Nunca iria querer magoar alguém, principalmente se esse alguém fosse como .
prestava atenção no filme, mas vez ou outra se virava para o lado, comentava algo aleatório ou a beijava. Documentários sobre boybands não pareciam suas coisas preferidas na vida, o que fazia rir e abraçá-lo, dizendo que ela queria mesmo assistir e que precisava que ele ficasse quieto.
Assim que voltava seus olhos para a tela, aquele sorrisinho pequeno voltava ao canto de seus lábios. Ela não queria usar aquele momento para pensar no que diria a ele quando conseguissem conversar a sós, só queria capturar cada imagem daquela e tentar descobrir como alguém conseguia ser tão adorável e tão charmoso.
Já na festa pós-exibição do filme, conversava animadamente com um dos top-liners da One Direction. estava ao lado dele, segurando uma taça de champanhe e ouvindo o homem contar sobre seu trabalho com os cinco garotos e sobre como suas participações nas composições cresceram no terceiro álbum. sentiu uma centelha de orgulho surgir em seu peito. compunha, então ele dispensava top-liners e trabalhava diretamente com o produtor. Será que os cinco estavam indo nessa direção também?
Enquanto ainda conversavam, ela se distraiu por um tempo mínimo, olhando o redor e tentando reconhecer pessoas. Voltou sua atenção ao noivo quando ele já pedia licença ao homem e a puxava pela mão em direção à um grupo de pessoas que, olhando mais atentamente, ela descobriu serem os anfitriões do evento.
O músico americano chegou entre eles como se fosse um velho amigo, cumprimentando-os com abraços e tapinhas amigáveis nas costas. olhava em todas as direções, exceto na que lhe levaria aos olhos de . Engoliu em seco quando seu noivo o abraçou e esgueirou-se para cumprimentar primeiro. Quando a vez de chegou, ela se esforçou ao máximo para parecer natural. estava mais ansioso do que qualquer outra coisa, mas parecia receosa, então ele tomou a iniciativa e abriu os braços para envolvê-la rapidamente. A americana não conseguiu evitar o sorriso nos lábios. Era como se inconscientemente esperasse o dia todo para sentir o cheiro dele de novo e aquilo era perigoso, especialmente para seus planos de evitá-lo.
– Gostou do filme? – o sorriso dele era cauteloso, como se tivesse medo de usar as palavras erradas ou deixar todo seu nervosismo diante dela em evidência para todos.
– Suas fãs vão adorar, . É maravilhoso. – respondeu sincera, mas logo buscou pela mão de para entrelaçar à sua.
Logo depois disso deixou conversando com os rapazes e pediu licença para ir ao banheiro. Entrou em uma das cabines de mármore e encostou as costas na porta, soltando o ar que ela nem mesmo percebeu que havia prendido. Era mais difícil do que imaginava estar no mesmo ambiente que eles dois. Era impossível vê-los conversar animadamente sem sentir o coração ficar pequenininho com a possibilidade de machucar um dos dois. Mas ela tentava não se martirizar, sabia que não era a vilã da história, definitivamente. Já havia se livrado desse maniqueísmo desde a adolescência e tinha plena consciência de que as pessoas não eram divididas em más e boas. Ela podia ter errado com , ter quebrado a promessa de fidelidade que era intrínseca a maioria dos relacionamentos, mas isso não fazia dela uma vadia desalmada. Riu brevemente. Aquele termo era ridículo. Ela só havia se precipitado e ainda podia consertar aquilo.
Respirou fundo, recapitulando em sua mente tudo o que precisaria dizer à assim que conseguissem conversar com privacidade. Queria tanto resolver aquilo logo.
Destrancou a porta e saiu, sorrindo para algumas mulheres que estavam ali. Após lavar as mãos e caminhar pelo corredor de volta à festa, sentiu uma mão tocar seu braço, envolvendo-o com um pouco de força para fazê-la parar. Era .
– ela encarou seus olhos aflitos e ansiosos –, nós precisamos conversar.
olhou ao redor e recolheu o braço, impedindo-o de continuar a tocá-la, mas ainda sentindo um formigamento na região.
– Eu sei. Eu preciso esclarecer as coisas com você, . – sua voz vacilava, quase a fazendo gaguejar, o que ela julgava patético.
– Não aqui e agora. – ele parecia bem mais seguro que ela.
observou seu rosto de perto e notou que a expressão séria lhe dava um ar maduro que o deixava ainda mais charmoso. Precisou engolir em seco.
– Você fica até quando em Nova York? – ele pôs as mãos nos bolsos da calça, tentando mantê-las longe da pele dela.
– Voamos de volta amanhã à noite. – ele contorceu o rosto em uma careta ao ouvi-la usar a terceira pessoa do plural.
– Você me encontra no Top Of The Rock amanhã, às seis da tarde? Vamos conseguir conversar e ainda teremos uma bela vista. – ele sorriu e ela quis imitá-lo, mas algo não estava certo.
– Às seis? – franziu a testa – O TOTR só abre às oito.
Ele voltou a sorrir e se inclinou um pouco para frente.
– Só vá até lá e deixe o resto comigo. – piscou.
... – começou, receosa.
O que ele queria dizer com aquilo? Ela queria esclarecer as coisas, não arrumar um encontro.
– Hey, calma! Não é nada do que você está pensando. Só tenho como conseguir entradas para antes do horário convencional. Nada além disso. O que me diz?
Ela voltou a olhar ao redor antes de encará-lo.
– Eu estarei lá.

[...]


– Quer que eu vá buscar você? – perguntou assim que a noiva levantou para buscar a bolsa.
– Não precisa, você vai estar no outro lado da cidade. – ela sorriu – Pego um táxi e nos encontramos aqui mais tarde.
Chegou perto dele, que estava sentado na cama, e se colocou entre suas pernas, fazendo um carinho no rosto do noivo, que sorriu. Estava metade aliviada por estar indo resolver aquilo. Precisou mentir para dizendo que iria novamente encontrar Blanda, que a nova amiga queria se despedir e a convidou para ir até seu ateliê novamente.
Ele estava indo encontrar uns amigos antes de voltar para LA. Tinham se divertido muito no dia anterior e ele queria aproveitar que estava na cidade para rever algumas pessoas.
– Nos encontraremos no restaurante do hotel, certo? – indagou, ainda sorrindo pelos carinhos recebidos pelas mãos dela.
– Isso! – ela sorriu – Não devo demorar. Vamos direto para o aeroporto depois do jantar? – ele assentiu – Então me deixe ir logo.
a abraçou pela cintura e a beijou, pedindo para ela dizer a Blanda que mandasse lembranças ao Joe.
entrou no táxi que já a aguardava e se manteve calada depois de dizer o endereço ao motorista. Saltou em frente ao grandioso GE Building, um dos edifícios do complexo Rockefeller Center que abriga outros dezoito prédios que são atrações para turistas que visitam Manhattan.
Caminhou para o hall e observou o enorme lustre de cristais que brilhava sobre sua cabeça, notando que o movimento era pequeno em relação às outras vezes que estivera ali para visitar o observatório. Andou até um canto e enviou uma mensagem para , avisando-o que já estava ali. Não sabia se deveria ir até a bilheteria ou se precisaria convencer a mocinha da recepção que o famoso integrante da One Direction havia liberado o deck de observação para os dois.
Recebeu a resposta segundos depois. Ele dizia que um de seus seguranças a acompanharia até onde ele estava. Levantou a cabeça e viu um homem forte e com poucos cabelos caminhar em sua direção.
? – ela assentiu – Venha comigo, por favor.
Ela o seguiu. Depois de trocar umas palavras com a moça da recepção ele a guiou para o um dos elevadores enormes, onde um homem lhes sorriu e os cumprimentou, acionando os botões para subir.
O silêncio para ela era incômodo. Perguntava-se se o tal segurança sabia o que ela estava fazendo ali, se sabia o motivo deles precisarem se encontrar a sós. Sentiu-se envergonhada.
Um som breve ecoou e logo ela estava caminhando para fora, com o homem em seu encalço. estava de costas para eles, observando a vista do entardecer nova-iorquino com as mãos nos bolsos da calça. O frio na barriga por estar perto dele novamente logo apareceu. O segurança pigarreou, chamando atenção dele, que logo virou, sorrindo para ela.
– Precisa de mais alguma coisa, ?
– Não, Carl, valeu. Pode me esperar lá embaixo.
E assim Carl fez. o agradeceu rapidamente e logo ele deu as costas aos dois.
– Tudo bem, ? – ele perguntou, a voz gentil e o sorriso pequeno fazendo-a querer sorrir também.
– Tudo sim. – sorriu e ajeitou a bolsa nos ombros, caminhando mais à frente e já podendo visualizar o verde intenso do Central Park – Eu adoro esse lugar – confidenciou –, mas sempre esteve tão cheio! – riram.
– A vida na banda tem suas vantagens. – colocou-se ao lado dela.
Um breve silêncio se instalou.
– ela começou, ainda sem encará-lo –, eu acho que preciso ser direta e sincera com você. – respirou fundo e acertou a alça da bolsa novamente – O que aconteceu entre nós naquele dia foi um erro.
Ele soltou um riso breve, sem humor algum, tentando disfarçar a dor pontual em seu coração.
– Eu esperava que você me dissesse isso.
– Eu sinto muito, de verdade. – virou para ele, que tinha os olhos fixos no Empire State – Todo o momento foi propício para que nos envolvêssemos daquele jeito, mas eu não deveria ter cedido.
– Você só fez o que tinha vontade, . – e era a verdade, afinal – Ao menos foi o que me pareceu.
– Não vou mentir pra você e dizer que naquele momento eu não quis, mas não foi certo.
Ele não queria encará-la. Não queria ver sua expressão de pena e seu arrependimento por ter vivido com ele um momento que não saída de sua cabeça desde então.
– Sinto muito se – ela procurava as palavras certas para não machucá-lo tanto –, não sei, se você esperava algo a mais, se você esperava que eu...
– Eu entendo. – ele a interrompeu, ignorando toda aquela sensação estranha – Seu noivo, sua vida, seus princípios.
Virou-se, finalmente, para ela. encarou seus olhos, quase tristes, mas que tinham uma centelha de determinação.
– Você é um cara adorável, . – ela moveu a mão, num impulso por tocá-lo, mas logo a recolheu – Não vejo como alguém não pudesse se interessar, mas essa parte do meu coração já está ocupada.
sorriu. Quase triste, quase convencido.
– Ontem, enquanto assistia você no telão, fiquei ainda mais encantada. – os olhos dele a obrigavam dizer, mas seu cérebro apitava o não – Você seria um bom amigo, .
– Como é?
Ela riu fraco. tinha acertado em cheio, mas nenhum dos dois sabia.
está aqui há muito tempo. – ela apertou as mãos no peito indicando o coração – Certas coisas são incomparáveis e eu o amo de uma forma ímpar. Me desculpe, eu...
– Não quero tomar o lugar de ninguém, . Só achei que pudesse encontrar um lugar para mim aí também.
– E há, . Você e seus amigos são pessoas ótimas. Vou adorar me tornar amiga de vocês.
Ele riu novamente. Então era esse o caminho? Era para onde ele seguiria então.
Após um breve silêncio, caminharam em direção à grande coluna de vidro que protegia os visitantes, observando o sol começar a se esconder no oeste. A vista era estonteante, mesmo para quem já visitara o lugar várias vezes, como a americana. O céu exibia um lindo tom de azul, fazendo parar um pouco para observar. estava certo, afinal. Ela o rejeitaria. Mas não por não querê-lo, não por não desejá-lo. Disso ele tinha certeza. Ainda havia chances. Ele só precisaria convencê-la de que era bom o bastante.
– Eu preciso ir. – mostrou um sorriso pequeno quando teve a atenção dele.
– Boa viagem até LA.
– Boa viagem também. Diga aos meninos que eu... – interrompeu-se, rindo – Eles não sabem, não é? – sentiu-se brevemente envergonhada e riu.
– Só .
– Então diga ao que eu mandei um abraço. E obrigada por ser compreensivo. De verdade.
deu de ombros, abraçando-a rapidamente, desejando que não demorasse muito para sentir aquele aroma novamente.
– Até mais, .
E então ela saiu. Entrou no elevador e sumiu da vista do rapaz.
voltou seus olhos para a imagem de NY que mais parecia uma pintura. As luzes começando a serem acesas, dando um novo visual à cidade.
Imaginou que se sentiria pior depois daquela conversa, mas a determinação não o abandonou. Sentia que todo aquele papo não era definitivo, podia ver nos olhos dela sua luta interna para renegá-lo. Ele não poderia desistir, não tão facilmente e, principalmente, não quando seu coração queria tentar até a última ficha.

Capítulo 6


“(...)
Como te enganas! Meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco…
(...) tens amor – eu medo!
(...)
Oh! Não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
(...) tens amor, eu – medo!”

(Amor e Medo – Casimiro de Abreu)


– Wow, eu... – não conseguiu concluir, um tanto incrédulo com a revelação do amigo.
– Caralho! – riu, ainda meio espantado – Como você escondeu isso da gente, bro?
o acompanhou na risada. Estavam no apartamento de e algumas cervejas os aqueciam para a festa que iriam mais tarde, em uma boate no centro de Londres.
– Eu vivo rodeado de malucos mesmo. – tomou um generoso gole da bebida – Sou o único que vê esse caso do como algo que pode gerar uma grande confusão?
Então todos começaram a falar ao mesmo tempo. ainda estava surpreso, já que ele nunca iria imaginar algo como aquilo. estava achando interessante. Era um lance bem maluco, mas que trazia certa adrenalina. , por outro lado, gesticulava, equilibrando a garrafa e argumentando a favor do que havia dito.
– Isso é loucura! – aumentou o tom de voz – Você não pensa em fazer nada agora que ela te deu um pé na bunda, né? Foi sutil, mas ainda sim, um pé na bunda.
– Claro que ele vai! – lançou um olhar de apoio ao amigo – Ela só tá com medo! Pelo o que o disse, é meio óbvio que ela sente algo, só não quer demonstrar.
lhe direcionou um olhar de gratidão. rolou os olhos. Aquilo era tudo o que ele queria ouvir.
– Ah, sei lá, cara! – ainda não sabia muito o que dizer – é uma cara legal e, além do mais – coçou a nuca, visivelmente desconfortável com o que diria a seguir –, eles parecem apaixonados.
abaixou a cabeça, um tanto sem graça. não estava errado, de qualquer forma. Eram o casal de amigos e amantes perfeito, não?
– E vai saber se o que a queria não era só te dar uns pegas, . – foi atingido por uma tampinha de garrafa ao terminar de falar – O que é? É pecado, por acaso? – deu de ombros.
– Ela disse que me queria! – estava quase eufórico – Como vocês esperam que eu esqueça isso? Como ela espera que eu esqueça?
– Talvez esquecer resolvesse tudo. – divagou.
– Pra quem? – mais uma vez interveio em favor de .
– Tá, tá! – tentou colocar ordem na discussão – O que você pensa em fazer, ? Roubar a noiva?
– Tecnicamente...
agarrou duas almofadas e cobriu os ouvidos em uma tentativa de bloquear o som, como se não quisesse participar de qualquer plano que o amigo fosse arquitetar. bufou, passando a garrafa de vidro pela testa, tentando esfriar a cabeça.
– Literalmente roubar, ou você pensa em agir sorrateiramente? – indagou mais uma vez, quase rindo. era inacreditável.
– Eu voto no sorrateiro! – levantou um dos braços.
– Eu não posso acreditar nisso. – riu sem humor, perdendo a paciência com , mas ninguém realmente prestou atenção em seu resmungo baixo.
– Vocês ouviram o que eu disse! – levantou, indo até a cozinha atrás de outra cerveja – Ela disse que me quer como amigo, então – colocou mais força na voz, fazendo os amigos ouvirem da sala –, é o melhor caminho. Foi assim que começou com o , não é? – de volta à sala, sorriu para os outros quatro.
– Está bem, candidato à melhor amigo – começou –, e como você pensa em fazer isso morando há milhas de distância?
Então sorriu. Ele vinha pensando na ideia há alguns dias. Eles estavam numa espécie de folga até o início da turnê pela Austrália e Nova Zelândia. Visitaria a família por uns três ou cinco dias e ainda lhe sobraria algum tempo.
– Vou até Los Angeles! – respondeu como se aquilo fosse óbvio – Mas ainda vou precisar da ajuda de vocês. – balançou o indicador em direção aos amigos.
começou a rir, chamando todos os olhares para si. Dando-se conta da atenção que tinha, forçou-se a diminuir as risadas e se explicar.
– Parece aquela droga de filme. – tomou um gole da cerveja – O melhor amigo da noiva. – voltou a rir, balançando a cabeça – Não que você seja mesmo um amigo, quanto mais o melhor, mas...
– E ele quer nos recrutar como o personagem do Patrick Dempsey fez com os amigos dele no filme, para ajudá-lo a roubar a personagem da Michelle Monaghan do tal príncipe. – voltou a se pronunciar, também rindo.
olhou em volta. Que porra era aquela que estavam falando? Já estavam bêbados antes da hora da verdadeira diversão? os acompanhou nas risadas, junto com . Não sabia que filme era aquele, mas era essa a ideia. Não exatamente roubar, aquela era uma péssima e inconveniente expressão, mas fazer com que pudesse perceber que eles poderiam sim ter uma chance.
– Quem topa passar uns dias em LA comigo?
As risadas foram diminuindo gradualmente, conforme eles iam absorvendo as palavras do outro.
– E pra quê você precisaria de companhia?
– É, pra quê? O Patrick Dempsey viaja sozinho até a Escócia!
rolou os olhos.
– Não posso me expor tanto. Preciso de pelo menos um de vocês pra atrair alguns outros olhares.
curvou os lábios. É, aquilo fazia sentido, mas daquele jeito ele não poderia ajudar.
– Cara, pra mim não rola. – esticou um dos braços para dar uns tapinhas amigáveis no ombro de – Namorada e essas coisas.
sorriu, o agradecendo.
– Bro, eu te dou o maior apoio, mas eu ainda não vi meus pais desde que chegamos a Londres. – realmente queria ajudar, mas ele tinha tão pouco tempo para a família e não queria desperdiçá-lo.
pode ir com você. – sorriu e arregalou os olhos – Ele é o único que já passou algum tempo em casa e com a família desde que voltamos.
olhou para o amigo, quase com súplica nos olhos.
– Vamos lá, cara! Pago sua conta na boate hoje!
rolou os olhos e o outro continuava com aquele olhar pidão. parecia quase uma criança animada com a ideia de fazer alguma travessura. Ele era como um irmão e sentia que não podia negar o pedido e arrancar o sorriso de seus lábios. A droga de laço que unia aqueles cinco era forte demais para que ele pudesse se recusar a ajudar o amigo.
– Eu vou beber pra caralho hoje, seu babaca!
sorriu e correu para abraçá-lo. Logo os outros três se amontoaram sobre eles, entre risos e gritos.

[...]


Encarando o espelho e arrumando o cabelo, tentava manter a pose de quem não gostava de toda a atenção que lhe dirigia. Mesmo sozinha no quarto, ela tentava domar seus pensamentos, decidida a não ceder novamente. Ele estava em LA de novo, cercando-a e mandando mensagens bonitinhas no celular. O que diabos esse garoto queria? Ainda não tinha conseguido perceber que ela não poderia lhe oferecer nada além de cordialidade?
Buscando as respostas, ela agarrou a bolsa e saiu de casa. Dirigiu até o hotel em que ele estava e foi guiada pelos seguranças dele para o apartamento. Logo estava abrindo a porta e recepcionando-a com mais um daqueles sorrisos de tirar o fôlego.
– Eu achei que nossa conversa estava terminada em Nova York, . – colocou a bolsa de lado quando ele a convidou para sentar no enorme sofá – Por que estou aqui?
Ele riu e ela se irritou ainda mais.
– Ora, você não sabe o porquê? Não veio com suas próprias pernas e seus próprios motivos?
– Não seja cínico! Você me convidou e disse que queria conversar. Pois bem, estou ouvindo.
– Você não foi sincera naquele dia e é por isso que estamos aqui. Porque queremos estar juntos.
riu sem humor algum. Ele estava louco?
– Eu achei que havia sido clara o suficiente.
Ele se aproximou, arrastando-se pelo sofá.
– E foi, mas não verdadeira o suficiente. – ele pegou uma de suas mãos com cuidado – Você quer me tocar agora. – guiou os dedos dela até seu maxilar, fazendo-a contorná-lo – Você quer arrastar suas unhas pela minha pele. – deslizou a unha do indicador pelo próprio pescoço – Você quer me beijar, .
Atônita, ela não conseguiu se mover. Estava impressionada com a insolência dele.
– Vamos lá. – ele a encorajou – Me beije.
Ele já havia largado suas mãos e agora se ocupava em acarinhar suas coxas cobertas pelo jeans escuro.
– Eu não vou fazer isso. – sua voz vacilava – Eu amo o .
sorriu, segurando o queixo dela com delicadeza.
– Eu sei, babe. – piscou – Como não poderia amá-lo? É seu melhor amigo.
Logo o rosto de começou a ficar embaçado, fazendo-a levar as mãos aos olhos, para ver o que havia de errado, mas o sorriso dele já estava longe e havia muita claridade.
piscou algumas vezes até abrir completamente os olhos e encarar o teto branco do quarto do noivo. Respirou fundo, ainda dividida entre o susto e o alívio. Voltou a fechar os olhos, ouvindo o baque acelerado de seu coração.
Ela havia sonhado com ! Quão grave era aquilo?
Massageou as têmporas, buscando a calma que havia perdido naqueles minutos de inconsciência e contou mentalmente até dez, tentando apagar aquelas imagens de sua mente. Virou-se de lado, encontrando os cabelos desgrenhados de e suas costas nuas. Suas mãos agarravam o travesseiro que apoiava sua cabeça e ela podia ouvir sua respiração calma e admirar seus músculos relaxados.
Concentrou-se ali e somente ali. Era tão natural acordar ao lado dele. Era como se suas vidas tivessem se moldado a tal ponto que nada parecia mais certo do que estar ao seu lado. Sorriu. o amava. Não apenas por ser seu melhor amigo, mas por ser o melhor cara que ela conhecia e por ser o homem que a amava do jeito que ela sempre sonhou ser amada em sua adolescência. O cara que se importava com ela, que sempre encontrava tempo para ouvir seus discursos sobre a humanidade e não ligava se a encontrasse falando com o âncora do noticiário logo pela manhã, como se ele pudesse ouvir suas indignações. Ela sabia que ele a amava e que a compreendia e aquilo o tornava único.
Ainda tomada pela sensibilidade de seus pensamentos e em uma urgência de provar para qualquer parte de seu cérebro que ainda duvidasse, ela se arrastou pelo colchão, aninhando-se a ele, apoiando o rosto em suas costas e sussurrando as palavras que ela lhe dizia com frequência.
– Eu te amo. – deslizou um indicador pelas costas dele – Eu te amo demais.
Apoiou as palmas das mãos na cama e começou a distribuir beijos por toda a pele visível, sem parar de sussurrar suas palavras de amor. Ouviu soltar uma risadinha fofa quando seus lábios roçaram na região lombar. Ela sorriu, voltando a subir para deitar-se sobre as costas dele.
– Não existe melhor forma para ser acordado. – soltou, com a voz abafada, quando sentiu os braços dela envolverem sua cintura.
Ela sorriu, feliz pela nova posição que adquirira e tendo a certeza de que ele sentia seu coração naquele momento, como sempre deveria ser.
– Ou talvez exista. – ele girou o corpo, segurando-a e mantendo-a sobre si – Lembra daquela viagem para Malibu? – um sorriso enorme tomou conta de seu rosto – Você estava tão desinibida naquela manhã...
Ele gargalhou ao ver sua noiva ficar envergonhada e soube que ela lembrou.
– Você deveria experimentar repetir aquilo, sabe? – piscou.
rolou os olhos, mas logo sorriu ao ouvir a gargalhada dele de novo.

Mais tarde, já em seu apartamento, a americana ajudava a amiga a escolher uma roupa para o encontro que teria à noite.
– Então as coisas estão ficando sérias? – colocou certo humor na voz, enquanto se inclinava para amarrar os tênis de corrida.
, que colocava as roupas de volta em seus cabides, se virou, sorrindo para a outra.
– Acho que sim! – reprimiu o gritinho animado, mas não conteve o sorrisão.
estava saindo com o amigo dos garotos da One Direction que conhecera na festa que fora com . O rapaz trabalhava como engenheiro de som e, segundo ele mesmo, depois de trabalhar na área cinematográfica, estava engatinhando na área musical e foi assim que conheceu Ed Sheeran e depois a boyband.
– Vincent é um cara incrível! – ela abraçou o vestido que segurava – Acho que hoje podemos sair em casais. Quero ver o babaca do implicar comigo agora! – gargalharam.
sempre implicara com e perguntava quando é que ela iria aparecer com um namorado e parar de segurar vela para os dois. sabia que era apenas brincadeira do músico, afinal, ele adorava e era muito grato por ela ser a companhia oficial da noiva sempre que ele estava longe. também o adorava e foi uma das que soltou o “Até que enfim!” quando eles anunciaram o namoro. Depois do jantar de noivado, a amiga ficou uma semana fazendo planos e contando para como o casamento dela seria perfeito.
Era por isso que a americana não contava para a amiga toda a confusão que existia em sua cabeça desde que conhecera . Não tinha coragem. Se havia o medo de seus próprios pensamentos, quem diria de verbalizar aquilo para alguém? Mas ela se agarrava na certeza de que aquilo seria passado em breve. A conversa com fora definitiva. Logo ela se esqueceria dos beijos trocados e das sensações de estar tão perto dele. Logo as imagens que a atormentavam se dissipariam no ar, feito fumaça, ofuscadas pela claridade da realidade, como no sonho que tivera mais cedo; ofuscadas pela sua realidade com , que era tudo o que ela poderia querer.
Despediu-se da amiga e saiu do apartamento em direção ao estacionamento, dirigindo até o parque próximo à casa do noivo, onde costumava correr. Ligou o rádio na estação de sempre, esperando se distrair pelo curto caminho, mas soltou uma risada irônica ao ouvir o locutor animado anunciar Best Song Ever. Ela realmente gostava da música, mas era a última coisa que desejava ouvir no momento. Optou pelo silêncio.
Estacionou e buscou pelo Ipod na bolsa, não antes de ter certeza que a playlist escolhida não continha One Direction. Travou o carro e passou a se alongar ali mesmo, observando o movimento no local. Muitas crianças, mães, casais, velhinhas. O barulho era típico: cantar de pássaros, risadas e burburinho de vozes. Prendeu os cabelos e colocou os fones, se juntando a todas aquelas pessoas que também corriam por ali no fim de tarde. Começou em ritmo lento, tentando se concentrar apenas em sua própria respiração e na música que tocava.
Talvez focar na música não fosse uma ideia tão boa, afinal.

GHOST - PARACHUTE


Look behind you
(Olhe atrás de você)
Avoid the shadows
(Evite as sombras)
Watch your back now
(Preste atenção à sua volta agora)
Make your breathing shallow
(Faça a sua respiração superficial)
Keep your room locked
(Mantenha seu quarto trancado)
And leave the blinds closed
(E deixe as cortinas fechadas)
I'm right there staring at your window
(Eu estou ali, olhando para sua janela)
And all I need is you, all I need is you
(E tudo o que eu preciso é você, tudo o que preciso é você)


A frequência dos passos já havia aumentado, fazendo os cabelos, presos num rabo de cavalo alto, balançarem velozmente e sua respiração começar a acelerar. As árvores passavam como um vulto à sua volta, tornando-se apenas um borrão verde. O barulho exterior era abafado pelo som que saía dos fones e aquela música...
Desde quando havia entrado no estágio em que todas as coisas lembravam ? Por que diabos não conseguia bloqueá-lo? Por que sua imagem era tão insolente e atrevida? Por que não conseguia desviar o foco daquela música agora?

I'm in the background on the radio
(Eu estou no fundo do rádio)
I'm in your car, in your house, waiting at your door
(Eu estou em seu carro, em sua casa, esperando à sua porta)
Under your footsteps, I'm everything you know
(Sob seus passos, eu sou tudo o que você sabe)
Just let me haunt, let me haunt, let me be your ghost
(Apenas me deixa assombrar, deixe-me assombrar, deixe-me ser o seu fantasma)
Let me haunt, let me haunt, let me be your ghost
(Deixe-me assombrar, deixe-me assombrar, deixe-me ser o seu fantasma)


Ela começou a correr mais rápido, como se isso pudesse acelerar o ritmo da canção, e encarava um ponto fixo à sua frente, tentando reencontrar o equilíbrio.
O suor começava a colar fios de cabelo em sua testa e ela foi levada de volta à Silver Lake, àquele apartamento, até o corredor onde tudo aconteceu. Sua mente associou a atual temperatura ao calor daquele momento com .
Em um sentido totalmente figurado, ela associava aquelas lembranças a uma bóia no mar quando se tenta empurrá-la para o fundo, fazê-la desaparecer da superfície, afastá-la de sua visão, mas assim que os esforços diminuem, assim que os braços deixam de forçá-la para baixo, o empuxo a traz de volta com uma velocidade equivalente à sua força em deslocá-la para o fundo.
Pensando dessa forma, seus esforços pareciam inúteis.

You had your chance, love
(Você teve sua chance, amor)
You tried to stay strong
(Você tentou ficar forte)
You tried to let go
(Você tentou deixar ir)
Tell yourself you moved on
(Diga a si mesma que você seguiu em frente)
But then it comes back
(Mas depois ele volta)
That feeling in your bones
(Esse sentimento em seus ossos)
Like I 'm right there
(Como eu estou ali)
And all I need is you, and all I need is you
(E tudo o que eu preciso é você, tudo o que preciso é você)


nunca precisou lidar com sentimentos tão impetuosos como os que eram causados por e parecia absurdo pelo pouco que se conheciam, pelo pouco tempo que passaram juntos. Era algo que beirava o ridículo. Como alguém poderia interferir em sua vida assim tão rápido? E logo em um momento em que ela estava com tudo sob controle, quando as coisas caminhavam pelo seu curso normal com uma tranquilidade feliz.
Não era justo que a assombrasse daquele jeito, que ele invadisse seus sonhos, que bagunçasse sua vida e fragilizasse suas certezas.
Naquele momento ela quis gritar, quis chorar e se culpar por tudo. Se não tivesse cedido, se não tivesse deixado ele se aproximar. Queria continuar correndo, mas correndo dele, até vê-lo sumir.
Não era justo desejar . Não era justo com . Não era justo com ela mesma.
Com raiva por toda aquela situação, arrancou os fones e diminuiu o ritmo da corrida, parando ao lado de uma banca de revistas. Inclinou a cabeça e fechou os olhos, esperando a respiração ser normalizada.
Um grupo de adolescentes se aglomerava ali e ela sentou na grama, atrás delas, recolhendo as pernas e descansando a cabeça entre os joelhos. Todas as jovens tinham um aparelho moderno nas mãos e digitavam freneticamente enquanto falavam bastante e quase todas ao mesmo tempo.
– Se eu encontro ele por aí, juro que não sei do que sou capaz!
– Vou andar com meu user do Twitter anotado para onde eu for. Vou implorar pra eles me seguirem!
– Não quero foto. Não quero autógrafo. Passo por trás e aperto da bunda de um deles, não quero nem saber!
As meninas riam muito e ouvia tudo, agradecendo pela conversa delas desviar sua atenção.
e passando uns dias em Los Angeles, a passeio! Vocês têm noção de que é a nossa chance, certo?
– A gente precisa encontrá-los dessa vez!
O estômago de parecia ter congelado. Aquilo não era possível. Era sua mente, mais uma vez, lhe pregando peças. Por favor, por favor, ela pedia, em pensamento. As garotas, no entanto, continuaram falando sobre o que fariam se encontrassem seus ídolos na cidade.
Então era verdade. Droga! estava mesmo em LA.

[...]


– Será que ela já sabe que estamos aqui? – perguntou sem tirar os olhos da TV, concentrado no videogame.
procurava por algo na mala, já bagunçando o quarto em que estava há menos de quatro horas. A expectativa borbulhando em suas veias para vê-la logo. Queria encontrá-la logo e captar a reação dela ao revê-lo em câmera lenta. Ele sabia que precisava ficar atento a qualquer sinal, positivo ou negativo e ele não achava que precisaria trabalhar muito sua percepção, já que perto dela seus sentidos sempre pareciam aguçados. Ele tinha certeza disso todas as vezes que lembrava de seus beijos e seu toque preciso.
– Se não sabe, já estou trabalhando nisso. – ele sorriu, encontrando o boné que procurava.
– E quais são os planos, gênio?
– Vincent está com a amiga dela. Eles estão saindo desde aquele dia. – jogou-se na cama – Liguei e fiquei sabendo que eles sairiam juntos hoje e ele, é claro, nos convidou.
pausou o jogo e encarou o amigo. até parecia animado para algum tipo de brincadeira adolescente.
– Vamos segurar vela para dois casais? – ele arqueou uma das sobrancelhas – Foi pra isso que você me tirou de casa?
riu. Achava que estava estressado demais esses tempos.
– Ajuda se eu disser que pago sua conta hoje também? – rolou os olhos e voltou a segurar o controle do videogame – Vamos lá, cara! É uma missão importante para seu amigo aqui! Você conversa com o , o distrai... – se virou, parecendo ofendido – Tô brincando! – riu – Hoje a pauta será somente reconhecimento de território inimigo.
voltou a relaxar na cama, colocando os braços para cima, apoiando a cabeça, rindo, já imaginando a reação do amigo com o palavreado usado. Ele estava apenas brincando novamente, mas não pareceu perceber.
– Para de falar assim, caralho! – ele agarrou uma almofada e acertou no outro com certa força – Faz toda essa porra parecer ainda mais errada!
rolou os olhos. Pelo quê o tomava? Não duvidava da lealdade do amigo, afinal, estava ali com ele, tinha viajado por um oceano inteiro para ajudá-lo, mas ele não parecia apoiá-lo como gostaria.
– Falemos sério, . – ele levantou, colocando as costas na cabeceira da cama, adquirindo uma posição confortável – Você acha o que eu estou fazendo errado? Acha que merece mesmo alguém melhor do que eu? Acha que é a melhor opção que ela tem? Que eu não devo nem mesmo tentar, apesar de todas as evidências de que ela quer também? – ele disparou todos os questionamentos que rondavam por sua cabeça, esperando que o outro fosse franco.
recebeu todas aquelas perguntas com as sobrancelhas arqueadas, voltando a pausar o jogo e virando para o amigo que o encarava com a expressão séria.
– começou devagar, como se falasse com uma criança –, não é uma questão de achar que você é melhor que o ou não. Nem o que a merece. Isso é ela quem deve saber! – ele bagunçou os cabelos, suspirando e tentando organizar seus pensamentos em palavras – É só que você está tentando interferir em um relacionamento de anos!
– Você acha que eu sou um destruidor de lares em potencial. – soltou uma risada triste – Eles nem sequer são casados e...
– Eu não disse isso! – o interrompeu – Mas você está atirando no escuro! pode até se sentir atraída por você, mas ela está com o há anos e você acaba de chegar na vida dela e já promete uma bagunça enorme! – ele levantou o indicador, impedindo que o interrompesse – Pela milésima vez, não estou dizendo para não tentar, só fico preocupado com o que pode acontecer. Podemos tratar isso como um caso de amor comum? Podemos! Se quisermos ignorar a realidade. Tudo o que você faz é notícia. As pessoas querem saber com quem você está saindo, querem ver vocês juntos. E como seria com ? A mídia pode ser má, , sabemos disso.
– Então essa é sua preocupação? – fez careta – Imagem?
– Não é somente imagem – ele imitou a voz do outro –, mas o que vem no pacote e como tudo pode afetar sua vida pessoal e a dela! – sua voz ficou um pouco esganiçada no final da frase – Só quero que você tome cuidado. O que tiver que acontecer vai acontecer, mas faça com que tudo seja menos traumático possível, porque é claro que alguém vai sair perdendo dessa.
suspirou, absorvendo todo o discurso do amigo. Ele não estava errado e sabia que precisava agir com cautela. Jamais iria querer causar qualquer tipo de mal à ela e nem mesmo ao . Apesar daquilo parecer um pouco hipócrita, era a verdade. Não via o músico americano como um inimigo, seria bobagem pensar assim. Mas eles tinham um desejo em comum e ele não queria entrar em um duelo moderno ou em algum tipo de disputa de programas de TV, só queria mostrar a ela que estava ali para ela, se ela o quisesse. Se ela achasse que era o cara certo, ele não insistiria, mas não antes de deixá-la conhecê-lo e fazer com que ela domasse o medo que tinha de se deixar envolver por ele.
– Valeu, cara. – ele se arrastou pelo colchão e abraçou o amigo – Obrigado por ser sincero e por estar aqui.
sorriu e deu tapinhas breves na costa do companheiro de grupo. Era bom saber que o ouvia, era seu papel de amigo estar com ele, mas fazer ressalvas sempre que achasse necessário.
– Tudo bem, tudo bem. – separaram-se. – Eu vou tomar um banho e me trocar. Aonde vamos mesmo? Muita comida e bebida? Eu ouvi dizer que você vai pagar a minha conta?
gargalhou, acertando-o com o travesseiro, também se levantando e indo para o banheiro da suíte.
Mal podia esperar para vê-la de novo.

[...]


havia chegado ao apartamento do noivo um tanto transtornada pelo episódio no parque. A frase “ e passando uns dias em Los Angeles, a passeio!” não saía de sua cabeça e aquilo a irritava demais.
Felizmente, havia ligado para confirmar a saída em casais que, pelo que entendera ao telefone, não seria tão em casais assim, já que Vincent levaria uns amigos. Ela não se importava, desde que saísse com o noivo, a amiga e seu novo namorado e pudesse se distrair.
Analisou o vestido preto com estampas coloridas no espelho e logo alcançou a bolsa de mão e a jaqueta preta. já a esperava na sala.
Fizeram o caminho até o bar e restaurante falando sobre os ensaios de para a volta aos palcos na turnê de inverno. Dali a alguns dias a americana voltaria às aulas na UCLA e a rotina normal de fugir nos finais de semana para ver o noivo voltaria. Naquele período, no entanto, as coisas seriam mais fáceis, já que o último semestre se resumia a encontros com sua orientadora.
estava animada para terminar a faculdade e analisar seu leque de opções para o futuro, mas o diploma em mãos trazia outras coisas consigo, entre elas, o casamento. Outro dia, falando com a mãe ao telefone, quase todo o conteúdo da conversa fora o planejamento para o próximo ano. e ela não estipularam datas, mas como o ponto de referência que deram fora a formatura dela, o alvoroço na família de ambos já ameaçava surgir.
Ela se animava também, é claro. Tinha uma vaga ideia em sua mente sobre como queria seu vestido e como sua festa seria simples e íntima, do jeito deles. Às vezes ela se pegava sorrindo sozinha, pensando em como seria dali para frente, casada com o único homem que ela verdadeiramente quis.
Mas e ? Algo em sua mente sempre insistia em piscar aquele nome. era parte de algo insano que ela ainda não sabia lidar. Uma vontade quase desesperada que ela reprimia veementemente. Até quando?
abriu a porta do passageiro e ela saltou do carro, voltando a guardar na bolsa o celular, por onde acabara de enviar uma mensagem à amiga. Buscou pela mão do noivo e entrelaçou seus dedos, uma atitude carinhosa e repetitiva.
O músico passava por entre as pessoas, abrindo caminho para ela e erguendo a cabeça para encontrar os amigos. Uma música tocava e ela reconheceu como autoria de uma banda de rock local. Continuou a seguir o noivo para uma das mesas ao fundo do lugar, que sempre contavam com sofás aconchegantes e tinham a vantagem de serem perto do balcão de bebidas, até ouvi-lo soltar um som exclamativo, que atiçou sua curiosidade e a fez erguer o tronco para enxergar por cima de seus ombros largos. Fora inútil, no entanto, a figura de a protegia de tudo à sua frente e ela só conseguiu ver o motivo da surpresa do músico quando chegaram à mesa e ele a puxou para frente.
Naquele instante ela desejou não ter visto e não evitou a feição surpresa para os dois rapazes que sorriam abertamente para eles. e .
A mesa ficava no centro e o sofá vermelho se moldava a ela. Vincent e estavam em uma extremidade, ela e em outra, deixando os dois rapazes da boyband no centro e é claro, com as peças que o destino resolvera lhe pregar ultimamente, que ele estaria ao lado dela. Seus braços roçando várias vezes e suas pernas quase encostadas por baixo da mesa. O incômodo a fez passar as suas pernas por cima das de , que agora as dedilhava com carinho e distração, interado na conversa do grupo.
se divertia com as histórias contadas por e ele e contavam as suas também. Sua felicidade não se resumia ao bom papo com aquelas pessoas, muito pelo contrário, ele estava feliz por estar ao lado dela e por tê-la abraçado quando se cumprimentaram assim que ela chegou. Senti-la tensa ao lado dele era um bom sinal também. O efeito ainda estava ali, a tensão ainda estava ali, entre eles.
falava pouco, complementando as histórias de e as da amiga . Ela só queria se distrair, mas o responsável pela sua confusão mental estava ali, ao lado dela, sorrindo, gargalhando e falando muito, tudo com sua maneira muito peculiar. Ele era encantador.
Foi então que ela percebeu o quanto estava sendo boba. havia sido gentil e simpático desde que ela chegara. Nada de palavras com duplo sentido e nada de olhares maliciosos. Eles já tinham conversado! Não havia motivo para que ela agisse daquela forma e ficasse tão afetada. Era só um cara novo em sua roda de amigos. Ela havia dito a ele que poderiam ser amigos, não era? Sorriu para o nada. Estava tudo bem. Ele estava em LA e estava tudo bem. Apesar de ainda de sentir atraída por ele, não havia muito que pudesse fazer.
– E então, o que tem pra fazer em LA por esses tempos? – perguntou.
– Além das festas de sempre e dos eventos típicos para turistas que se arrastam por todo o ano – começou, pensando um pouco –, vocês vieram em boa época para apreciar a temporada de um dos esportes mais excitantes dos praticados na América!
Ela pareceu se animar e sorriu ao vê-la sorrir também.
– Ihhh, estava demorando pra ela tocar nesse assunto! – riu, mas os dois europeus ainda estavam confusos.
– Gostam de esportes, rapazes? – ela perguntou, alternando o olhar entre os dois, que assentiram e falaram sobre futebol e basquete.
– Não, não! – ela abanou a mão no ar – Outro esporte... – sorriu e fez o movimento peculiar de alguém segurando um taco e rebatendo uma bola.
– Beisebol! – eles disseram em uníssono e caíram na gargalhada depois.
– Isso! – ela gargalhou, agarrando-se ao namorado em um ato involuntário – Vocês curtem?
– Aposto cinquenta dólares que eles nem sabem o que é um strike! – Vincent provocou, fazendo os americanos presentes gargalharem.
– Hey! – protestou – Sejam mais legais com os turistas!
Todos riram e levantou a mão, pedindo a palavra.
– Sério, vocês curtem? Conhecem o jogo?
coçou a nuca, sorrindo de uma forma muito fofa, que fez a americana sorrir também.
– Oh, já assisti algumas partidas pela metade e já vi em alguns jogos de videogame. – todos voltaram a rir – Conheço pouquíssimo, mas tô disposto a aprender! – bateu as mãos na mesa.
– Nem fale isso, ! – recomendou – Ela vai te torrar a paciência e olha que eu adoro beisebol!
deu de ombros, sorrindo. Como se fosse possível ele reclamar se ela quisesse fazer qualquer coisa com ele.
– E você, ? – perguntou e já voltou a rir ao vê-lo levantar as duas mãos e negar com a cabeça.
– Não sei nada sobre! E ainda bem que o Vincent não apostou mesmo porque não tenho nem ideia do que é o strike. – todos riram – Quer dizer, tenho uma vaga ideia, mas muito vaga! – ele arrastou as palavras, voltando a rir.
– Então se preparem, rapazes! – levantou um copo – Preparem-se para conhecer o Dodgers Stadium e a melhor equipe de beisebol da Califórnia!
Eles brindaram e se sentiu encantado em vê-la animada e disposta a ser uma boa amiga, mas precisou esconder o desconforto e desviar o olhar diante do beijo quente que ela e trocaram após o gole da bebida.
– E vamos aonde mesmo? – perguntou, interessado no programa.
– Daqui a três dias é o jogo da final da Liga Nacional Oeste. – riu ao vê-los franzir as testas – Vamos explicar pra vocês como funciona!
– O importante é que Los Angeles Dodgers vão jogar e nós vamos estar lá! – pareceu levemente eufórica, talvez pela bebida, talvez pelo jogo.
– Dodgers e Arizona Diamondbacks!
– E nós vamos apreciar isso? – riu, fazendo todos rirem também.
– Claro que vão! – encorajou – Prometo não deixar vocês saírem de lá sem entenderem a grandiosidade do beisebol! – piscou para e arrependeu-se ao sentir o estômago afundar ao vê-lo piscar de volta.
– Querem ver a perder a linha? – implicou – Vão ao jogo!
Então achou que aquilo poderia ser muito mais interessante do que todos naquela mesa imaginavam. Então ela gostava de beisebol e torcia para os Dodgers? Ele não iria perder aquele jogo. Não mesmo.

Capítulo 7


“(...)
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.”

(Traduzir-se – Ferreira Gullar)


A chegada de setembro significava, entre outras coisas, o adeus ao verão. O sol brilhante em Los Angeles naquela manhã, no entanto, não parecia saber disso. A entrada do outono ainda não dava seus sinais mais evidentes e , apesar de ter o calor solar irradiando sobre sua cabeça, se perguntava o porquê daquela sensação do outono ter chegado mais cedo para ela.
Ora, mas o que é o outono senão a estação da transição? A fase de preparação para o que virá a seguir. A instabilidade dos ventos e das temperaturas. A incerteza se o sol virá ou se nuvens o cobrirão e trarão chuvas consigo.
via nuvens sobre seus sentimentos e não havia como não estranhar. Seu coração (ou a parte de seu cérebro responsável pelos sentimentos) vivia em uma zona equatorial metafórica, sem grandes mudanças de temperatura, protegido de grandes furacões ou outros desastres naturais. O amor de mantinha as temperaturas elevadas e a convivência se encarregava de equilibrar suas personalidades e mantê-los unidos. Ela tentava não pensar tanto no que estava acontecendo dentro de si, já que o principal continuava intacto: seu amor pelo noivo. Ela podia sentir frios na barriga quando pensava em , podia querer tocá-lo e sentir vontade de sorrir como boba quando o admirava secretamente, mas seu amor por continuava lá, com as raízes firmes e alimentadas todos os dias pelos beijos e sorrisos que ele lhe dava. O que poderia fazer então? Deixar passar parecia a única opção e era o que ela estava fazendo.
A americana só não sabia que o outono da alma, ah, ele não segue scripts e nem conta com o aval prévio da razão para executar suas vontades.
Seus pensamentos foram interrompidos pelo celular que vibrou no bolso da calça jeans. Desviou os olhos da prancheta sobre a mesa e pegou o aparelho, destravando-o e encontrando uma mensagem de . Olhou ao redor, em um ato de boba precaução, antes de ler o conteúdo que ele escrevera. Sorriu ao ver que o rapaz apenas buscava uma dica de onde poderia jogar boliche com . Claro que aquilo era apenas uma desculpa para falar com ela, já que qualquer pessoa do hotel onde estava hospedado ficaria muito feliz em ajudar. Depois de uma breve pesquisa mental, ela digitou o nome do lugar e o endereço, desejando que eles se divertissem e o lembrando sobre o jogo de beisebol.
Ainda sorrindo, colocou o celular sobre a mesa e olhou a movimentação no local. Estava na UCLA, em meio aos eventos do Dia do Voluntário, que recepcionava os calouros daquele ano e recrutava alunos para trabalhos no campus. estava na entrada de seu instituto, distribuindo camisetas para qualquer aluno que quisesse e dando informações sobre datas e locais.
Observava alguns pais fotografarem seus filhos ao lado da grande escultura do urso, mascote da universidade, quando o celular voltou a vibrar. Era novamente, agradecendo-a e convidando-a para jogar com eles. Sorriu com o convite e releu o conteúdo antes de responder dizendo que não poderia, mas que toparia numa próxima.
– Você pode disfarçar seu sorriso de mulher apaixonada enquanto eu estiver por aqui, não pode? – Savannah, sua colega de curso, chegou com mais uma caixa de brindes – Sabe, minha bolha da inveja pode inflar demais e se te atingir não vai ser minha culpa. – a garota alta direcionou seus grandes e sérios olhos azuis para , antes de soltar uma gargalhada – Estou brincando, ! Como vai ? – perguntou, imaginando que trocava mensagens com o noivo.
Sorriso de mulher apaixonada? Balançou a cabeça e lançou um sorriso nervoso à outra, esperando que ela não percebesse seu embaraço. Guardou o celular no bolso novamente.
– Ele está ótimo, Savy. – começou a ajudá-la com as etiquetas dos bonés.
– Você deve estar ansiosa para ver o ano passar e poder casar logo, não é? – Savannah tinha o tom empolgado – Eu estaria, no seu lugar! – gargalhou – Sabe minha opinião sobre seu noivo. – piscou, sorrindo – Você tem uma sorte e tanto.
sorriu, voltando a olhar para o imponente mascote na entrada do campus, deixando submergir em sua mente as lembranças de quando ela era a novata por ali.

Flashback – 3 anos atrás

– Nervosa? – tomou o rosto da namorada entre suas mãos e encarou seus olhos de perto.
– Um pouquinho! – ela soltou uma risada leve, fechando os olhos e se agarrando a ele pela cintura.
– Isso é normal – falou bem próximo ao ouvido dela, fazendo se aninhar ainda mais ao peito dele, tão quente e aconchegante –, todo mundo fica ansioso em seu primeiro dia. – ele os afastou minimamente, o suficiente para voltar a ver seus olhos – Posso segurar sua mão e te levar até a sala, se quiser.
rolou os olhos, mas estava feliz por ele estar ao seu lado em um momento tão importante como aquele. E em pensar que ele havia passado a noite no estúdio e deveria estar morrendo de sono.
– Eu deixo você segurar minha mão e me levar até a porta de entrada, depois eu me viro sozinha, ok? – sorriu, passando os braços ao redor do pescoço dele, inclinando-se para roçar seus lábios e iniciando um beijo lento.
– Tudo bem – soprou a respiração entre os lábios dela, roçando seus narizes –, é o seu momento. – sorriram – O início de uma carreira brilhante que você vai construir. – deslizou o indicador pelos lábios dela – Saio do palco para aplaudir uma mulher incrível em ação e ver você trabalhar para mudar uma parte do seu mundo.
Ela suspirou, relaxando os ombros e sentindo as palavras dele a acalmarem.
– Eu vou dar o meu melhor. – fechou os olhos, ainda sentindo os dedos dele tocarem seu rosto com delicadeza – Vou deixar você orgulhoso, assim como você faz comigo todos os dias. – abriu os olhos e o viu sorrir, acompanhando-a.
Um espectador da cena, certamente ficaria encantado com a cumplicidade dos dois, com a forma como se encaravam e se tocavam em meio à penumbra do quarto. Entrelaçaram suas mãos e saíram, passando pela sala e encontrando quase dormindo sobre a mesa do café.
– Sabe a única coisa chata em tudo isso? – falou enquanto abria a porta do carro para ela – Você não vai poder viajar comigo sempre. – projetou um bico e riu, esperando-o contornar o veículo e sentar no banco do motorista.
– Sempre vão existir os finais de semana, as férias e os feriados, certo? – colocou o cinto, vendo-o fazer o mesmo – E tudo tem seu lado bom: vamos poder trabalhar a saudade pra quando for a minha vez.
arqueou as sobrancelhas e se virou rapidamente para a namorada, que sorria. Ah, claro. Todas as viagens que ela sonhava em fazer e planejava desde que descobriu o que queria para a vida. Como a maioria das pessoas, queria conhecer o mundo inteiro, mas sempre levava horas falando sobre países que ficaram ali pelo Oriente Médio. Ela era quem sempre salvava nas matérias da escola que exigiam conhecimento sobre os conflitos daquela área.
– Mal começou e já pensa em me abandonar! – fingiu tristeza, mas ele realmente esperava que demorasse um pouquinho para vê-la partir para tão longe, mesmo que ele próprio estivesse sempre voando para lugares distantes de LA.
– Nunca vou te abandonar! – ela deu um soquinho no ombro dele, rindo – O que seria de você sem mim, ? – ele riu.
– Pergunta difícil, . – virou para ela – Aliás, podemos parar de falar nisso? É só seu primeiro dia na universidade, por favor!
Ela gargalhou, resolvendo colocar uma música para relaxar. Procurou entre os CDs dele algo apropriado para o momento e encontrou um do The Kooks, logo apertando o play em uma faixa específica. sorriu quando ouviu a introdução de Sway.
Say whatever you have to say, I'll stand by you… – ela se inclinou para ele, cantarolando próximo ao seu ouvido, depositando um beijo em seu pescoço e voltando a sentar.
O sol começava a brilhar e a música encheu o carro, fazendo a americana sorrir para o nada, ouvindo batucar os dedos no volante. adorava vê-lo dirigir, parecia tão sério e sexy e era por isso que sua cabeça repousava no encosto, virada para ele e admirando seu rosto de perfil.
Still I need your sway, 'cause you always pay for it. cantou, movendo uma das mãos para apertar o nariz dela levemente – And I, and I need your soul, 'cause you're always soulful…
And I, and I need your heart, 'cause you're always in the right places… – cantaram juntos e sorrindo.
– Eu te amo – ele falou, tentando soar mais alto que a música e olhando para ela rapidamente, antes de voltar a encarar a rua.
Procurou pela mão de e entrelaçou seus dedos, sentindo-a acarinhar sua mão, enquanto ainda cantarolava a canção. Quando saltaram do carro, várias pessoas já passavam pelo portão de entrada do campus, que parecia tomado pelas cores azul e amarelo, seja por itens de decoração ou pelas camisetas dos voluntários. apertou a mão de involuntariamente.
– Quer tirar uma foto? – ele perguntou, apontando para a enorme estátua de urso, ela fez careta – Qual é, , vamos lá! Seus pais vão gostar de ver como você estava linda no seu primeiro dia. Vamos! Enviamos pra eles mais tarde!
Ele ia empurrando a namorada levemente, passando por entre as pessoas. Ao chegarem próximo a escultura do mascote, esperaram uma outra garota que também tirava sua foto.
? – a loira, que tinha os cabelos volumosos e invejáveis olhos azuis, espantou-se.
– Olá! – o músico cumprimentou, ainda com ao seu lado.
– Sou Savannah Brown, que prazer conhecer você! – apertaram as mãos – Estive ouvindo suas músicas nos últimos meses e você é ótimo! E ainda mais lindo pessoalmente. – soltou uma risadinha – O que faz na UCLA?
– Obrigado! – ele sorriu, virando-se para em seguida – Vim trazer minha namorada.
– Caloura também? – Savannah continuou sorrindo e a namorada do músico assentiu – Sou de Relações Internacionais.
também! – sorriu.
– Vou estudar com a namorada de ? Vejam só!
A loira era bem animada e fez rir.
– Então, vamos tirar sua foto? – virou-se para ela, puxando-a pela mão, fazendo-a rolar os olhos, mas sem conseguir deixar de sorrir.

Flashback Off

– Você não deveria ter ido à UCLA hoje? – perguntou, deitado na cama, onde mexia no celular.
Era quinta-feira, o dia em que todos conheceriam o campeão da Divisão Oeste da Liga Nacional de Beisebol, em partida disputada no grandioso Dodgers Stadium. E , a fim de não se atrasar para tal evento, conseguiu escapar das responsabilidades de veterana para aquele dia.
– Savannah irá me cobrir. – deu de ombros, saindo do banheiro direto para o close – Hoje seria apenas algumas palestras. Não vou fazer falta.
Procurava a roupa para usar mais tarde, em óbvias cores azuis e brancas, para combinar com os outros torcedores que, ainda obviamente, lotariam as arquibancadas. Ela estava animada. O time de LA vinha em boa campanha até então e uma vitória sobre os Diamondbacks os deixaria com moral para os playoffs, próxima fase até a World Series.
– Listrada ou lisa? – voltou ao quarto com duas camisas do time, pedindo a opinião do noivo, que tirou a atenção da tela do celular para analisar as duas peças.
– Aquele short listrado está aqui? – ela assentiu – Acho que ele com essa lisa ficaria legal, não? – piscou para ela.
sorriu, visivelmente satisfeita com o que ele dissera e correu para colidir seus lábios antes de voltar ao closet.
– Você fica parecendo uma garotinha assim. – comentou, rindo, assim que ela voltou ao quarto.
– Assim como? – ela riu, a feição interrogativa enquanto ia até ele.
– Posso ver seus olhinhos brilhando daqui! E essa sua animação que quase te faz quicar pela casa.
sorriu, engatinhando em sua direção.
– Lembra do colégio? – ele perguntou – Nos finais da temporada você estava sempre no meio da galera das apostas. – riram juntos quando ela assentiu.
– A gente sempre se dava bem! – inclinou-se sobre ele, com uma perna de cada lado de sua cintura – Mas, e hoje? – deslizou o nariz pelo rosto dele, fazendo-o fechar os olhos e agarrar sua cintura – Alguma aposta pra hoje, ?
Ela esperou sua resposta, agora distribuindo beijinhos por seu rosto, pescoço e ombros.
– Eu prevejo uma virada louvável – o rapaz inverteu suas posições, ficando agora por cima dela, que ria –, e prevejo nossa comemoração também.
O músico deixava beijos em seu colo e roçava a barba rala em sua pele, fazendo-a se arrepiar.
– E o que você prevê? – ela o instigou, entre suspiros.
– Você – um beijo na bochecha –, eu – um no maxilar –, nossa cama – uma mordida no queixo –, e suas risadas e gemidos tomando o quarto e me fazendo o homem mais feliz da terra. – selou seus lábios – Só pra variar.
– Boa previsão, . – fechou os olhos, maravilhada com seus carinhos – Quer me dar uma amostra? – sentiu o rapaz rir sobre a pele de seu pescoço – Sua garota apreciaria isso.
Ele ergueu o tronco.
– Quer começar pelas risadas ou pelos gemidos? – gargalhou.
– Quero começar beijando você!
E levou suas mãos até os cabelos dele, tirando as mechas que caiam por sua testa, em um gesto que ele tomava como carinhoso. Sorriu. era tudo o que precisava. Esse era seu novo mantra. O que antes tinha como certeza, hoje precisava de reafirmação. Não que em momentos como aquele, em que nada passava por sua mente além dos carinhos do noivo, ela precisasse fazê-lo, mas inconscientemente, o fazia. Eram seus dois lados, finalmente se encarando, prestes a entrarem em confronto, sem que ela sequer pudesse evitar ou prever resultados.

[...]


Os arredores do Dodgers Stadium já eram tomados por uma multidão em azul e branco. Os bares das ruas laterais estavam lotados e a animação para o jogo era evidente. Nenhum norte-americano parecia se importar com o fato de ainda ser quinta-feira, dia útil e que ainda precisariam trabalhar ou estudar no dia seguinte. Beisebol era unanimidade entre os que circulavam por ali. A boa campanha do time de LA animou ainda mais os torcedores para irem até o estádio e apreciarem a partida.
e olhavam a movimentação pelas janelas do carro, enquanto tentavam uma vaga no estacionamento. Um de camiseta azul, outro de branco, exigência de , que enviara uma mensagem horas antes e os intimou a irem com as cores do time anfitrião.
– Eles já estão aqui. – anunciou, checando o celular.
Guardou-o novamente e esfregou as mãos, num claro sinal de animação e ansiedade. Era sempre assim quando se tratava dela, de encontrá-la.
– Sossega, ! – riu, empurrando-o pelo ombro – Pelo o que vi na sexta passada, é mais fácil ela ficar com os olhos grudados no cara com o taco do que dar atenção à você.
rolou os olhos.
– Muito pelo contrário, meu caro! – deu tapinhas em suas costas assim que saíram do carro – Ela vai nos dar toda a atenção que precisamos, afinal, somos novatos no esporte. – seu sorriso era animado – É bom você ter pensado em algumas perguntas pertinentes.
Colocou os óculos escuros e seguiu o segurança até a entrada, com o amigo ao lado. Subiram pela rampa e logo chegaram ao melhor setor do estádio que, de acordo com , dava uma visão privilegiada do montinho, o lugar onde fica o arremessador. Os dois soltaram sons de admiração ao observarem o lugar, que era de uma organização invejável. O gramado era tão verdinho que poderia competir com os melhores gramados que recebiam jogos do campeonato inglês de futebol. O campo era evidentemente diferente e ao invés de um retângulo, como estavam acostumados, a forma era de um arco de circunferência ou algo parecido, o que já era uma amostra da complexidade do esporte.
– A gente não vai entender nadinha! – riu – Que porra de campo estranho! – gargalhou, recebendo alguns olhares não muito agradáveis.
Seguiram por entre as cadeiras e não foi difícil encontrá-los. estava na frente do noivo, inclinando-se para arrumar o boné azul que ele usava, colocando a aba para trás enquanto o beijava rapidamente. e Vincent estavam logo ao lado, rindo de algo com seus copos de cerveja na mão. pensou que precisava de um daqueles urgentemente.
Porra. Ela estava linda.
All-Star azul nos pés, bermuda de cintura alta com listras verticais azuis e camiseta branca. Os cabelos tinham cachos moldados de forma perfeita e uma tiara fina impedia as mechas de voarem para seu rosto. Ela sorria. Agarrava o braço do noivo e apontava para algo no campo. Cochichava no ouvido dele e gargalhava.
engoliu em seco.
– Boa hora para trabalhar o autocontrole, bro? – provocou, rindo.
– Boa hora para fazer as coisas acontecerem.
abriu a boca para falar algo, mas desistiu assim que o amigo continuou a andar. Só torcia para que ele fosse sutil.
– Hey! – exclamou assim que os viu e sorriu, ainda agarrada ao noivo – Vejo que seguiram minhas instruções sobre as vestimentas! – brincou, piscando para antes de abraçá-lo.
– Pelo menos pra entrar no espírito. – ele deu de ombros, também rindo.
sorriu para e o cumprimentou com um abraço rápido.
– Você está linda. – ele disse, ainda próximo dela.
A americana sorriu, engolindo a vontade de dizer que ele também estava e ignorando o estúpido frio na barriga que aparecia quando ouvia seu sotaque de tão perto.
– Gostou do estádio? – tentou disfarçar o incômodo – Vocês têm uns legais assim lá na Inglaterra? – ela riu, tocando seu ombro.
Garota – o sorriso não deixava seus lábios –, nossos estádios são obras de arte! – gabou-se – Mas esse aqui é bem maneiro, devo reconhecer.
– Ainda dá tempo de pegar umas cervejas. Vamos lá? – os convidou – Um refrigerante pra você? – dirigiu-se à noiva, adivinhando que ela não beberia nada alcoólico antes ou durante o jogo.
observou os três caminharem para uma das saídas e soltou o ar lentamente. sempre dizia que os wayferers deixavam rapazes sexies, mas havia levado aquilo à outro patamar. Era tão lindo que a irritava. E aquele perfume... Precisava respirar fundo só ao relembrar o aroma viril e encantador.
Ohhhhhhhhhh, sometimes I get a good feeling, yeah!
piscou e voltou a encarar o campo ao ouvir a amiga cantar junto com a música que saía dos grandes alto-falantes do lugar. Tudo o que zumbia em sua cabeça era que precisava controlar seus pensamentos. Por que os jogadores não entravam logo? Onde estava seu querido Clayton Kershaw para tomar toda sua atenção?
Os rapazes logo voltaram com seus copos cheios e expressões divertidas. A microfonia foi ouvida e todos se acomodaram. ficou feliz por ter ao seu lado dessa vez.
– Ok, europeus! Vamos começar! – , que estava ao lado de , sorriu para os dois – Vocês conseguem ver toda a área do campo, certo? – eles assentiram.
– Essa parte aqui na frente é o campo interno. – Vincent apontou – É um quadrado onde as três arestas de cima são as bases.
– A parte de trás é o campo externo. – apontou para a área verde – E a parte ao redor é o território onde a rebatida não é válida. A posição ao redor daquele círculo é o Home Plate.
Os meninos assentiram. Até aí, tudo certo.
– Para vencer uma partida de beisebol, um time deve anotar mais corridas que o outro. – começou, virando-se para eles – O jogo é dividido em nove tempos, as entradas. Cada entrada tem dois turnos, onde um time ataca de cada vez.
sorriu, inclinando-se para frente e apoiando os cotovelos nos joelhos, para vê-la melhor. Ficava ainda mais sexy se empenhando para explicar as regras do jogo, enquanto ele se esforçava para prestar atenção no que ela falava.
– São nove jogadores em campo. – ela ainda falava – O arremessador, que, óbvio, é responsável pelos arremessos do time e tenta eliminar os adversários e conseguir um strike.
– O famoso strike! – riu e os outros o acompanharam.
– E ele fica sobre o montinho! – apontou para a área isolada no centro – Agora, sobre o strike...
– Existem três formas de conseguir um. – tomou a palavra e levantou o indicador – Arremessar na zona do strike e o rebatedor não tentar a rebatida.
Called strike! e Vincent gritaram.
– Arremessar em qualquer direção e o rebatedor não conseguir rebater. – ele fez o dois com os dedos.
Swinging! – o outro casal gritou novamente, fazendo todos rirem.
– Ou, o rebatedor pode mandar a bola para uma área fora do campo.
Foul! – os dois gritaram novamente.
– E tem outra coisa importante aí, o walk. – voltou a falar – Há casos em que a bola é arremessada fora da zona de strike e não há reação do rebatedor. É uma ball. Se um mesmo rebatedor sofrer quatro balls, o arremessador cede um walk, que é a passagem automática do rebatedor para a 1ª base. Se já existir um jogador do time na 1ª base, ele avança para a 2ª base e o rebatedor que recebeu o walk vai para a 1ª base. – ela encarou seus rostos confusos e mordeu os lábios – Ai, gente! Falei rápido demais?
– Não! Não é isso! – começou, sorrindo para ela de uma forma muito fofa – É que ainda não entendi uma coisa – coçou a nuca –, o que é a zona de strike?
sorriu. Aquela dúvida indicava que ele estava prestando atenção, mas antes que pudesse responder, levantou a mão.
– Eu não entendi isso aí também, mas tenho outra dúvida. – tomou um gole da cerveja – O arremessador é um “atacante” – fez aspas com as mãos – em campo?
– Vou responder a do primeiro que é mais fácil, ok? – eles concordaram – Sim, o arremessador vai atacar enquanto todos os outros jogadores do time adversário estão na defesa. Essa ordem se inverte a cada turno, dentro de uma entrada.
sorriu quando concordou e tomou um gole do refrigerante, quase engasgando quando percebeu que a olhava com o mesmo olhar de quando dançavam ao som de Justin Timberlake. Era admiração que via em seus olhos? Tossiu. Uma, duas, três vezes, fazendo dar tapinhas em suas costas até se certificar que ela estava bem. É claro que percebera seu embaraço. Assim que ela se recuperou e voltou a bebericar o refrigerante, tomou a palavra.
– Sobre a zona de strike, vocês precisam manter o olhar atento. – apontou novamente para o campo – Ela fica sobre o Home Plate, tendo ele como sua base, que é um prisma pentagonal. – fez careta – É o lugar que o arremessador precisa acertar para conseguir um strike.
– O problema é enxergar a zona. – Vincent falou – Ela é uma área imaginária, que tem seu topo no ponto médio entre o ombro e a parte mais alta do uniforme do rebatedor. O limite inferior é uma linha na parte mais baixa da rótula do joelho.
– Aposto que rolam umas polêmicas do tipo: foi pênalti ou não? – riu.
– Caramba, já vai começar! – levantou, cobrindo os olhos do sol para enxergar melhor os jogadores entrarem em campo.
– Estão vendo aquele cara cheio de equipamentos? – os dois assentiram e voltaram seus olhos para – Ele é o receptor e fica agachado atrás do rebatedor do time adversário. É a melhor posição para orientar os outros jogadores, já que ele tem uma visão privilegiada do campo. E sim, ele recebe os arremessos não rebatidos.
Ela levantou e os meninos a imitaram, atentos para onde apontava.
– Ali é a 1ª base. O cara ali é quem defende o campo direito. É a primeira base que qualquer corredor precisa chegar, então as bolas são rebatidas para o chão e ele precisa pegá-las para eliminar o rebatedor adversário.
Ela deu uma pausa, soltando um gritinho animado quando viu seu jogador preferido entrar. gargalhou ao seu lado.
– Ok, ali no centro-direito é a 2ª base, o cara que se livra da bola rapidamente. – ao receber olhares confusos dos dois, ela logo explicou – Vocês verão melhor quando começar. – eles assentiram.
Ela continuou a explicar as outras posições: short stop (defensor do lado centro-esquerdo), o 3ª base (defensor do lado esquerdo) e os atletas do campo externo, que fazem as defesas mais difíceis e devolvem a bola para as bases e são o right fielder, center fielder e left fielder.
O narrador começou a falar e os jogadores tomaram suas posições. Os Diamondbacks começariam atacando, já que eram o time visitante. Vincent explicou que os dois não entenderiam muito, mas que era só o primeiro jogo deles e isso era normal.
– Vale pela diversão! – gritou.
– Beisebol é excitante, rapazes! – mantinha os olhos fixos no campo – É análise, mas também é força e ninguém nunca sai sem vencer. Beisebol, pela regra, não tem empates. E hoje – virou para os dois, mas só a encarava –, nós vamos sair vencedores e vamos comemorar! – sorriu.
– Essa parte eu vou gostar! – gargalhou – Então, go Dodgers, go!
A primeira entrada começou e se manteve calada, atenta às jogadas do time adversário. A droga toda era que eles estavam bem e não pareciam intimidados com o estádio lotado e a boa campanha do time de LA. Quando o primeiro ponto para os Dbacks foi contado, urros de frustração e palavrões foram ouvidos enquanto Vincent explicava para os amigos como funcionava o placar.
só voltou a se animar quando Clayton Kershaw assumiu seu lugar no montinho, iniciando o turno de ataque dos Dodgers.
– Vai, Kershaw! – ela gritava – É meu arremessador favorito de toda MLB! – explicou para os dois cantores, que riram.
assistia ao jogo, mas seus olhos logo procuravam pela figura dela. Sorria quando dava pulinhos de ansiedade e soltava uns suspiros sempre que suas expectativas eram quebradas. Ela não saía do lado de e se agarrava à ele sempre que o jogo ficava tenso. os observava como o que realmente eram para ele: melhores amigos. Havia algo que eles não compartilhassem? Parecia que não. Eles estavam ali, compartilhando a paixão pelo mesmo esporte e tecendo comentários sobre o jogo ao pé do ouvido, enquanto não passava de um espectador.
Quando uma corrida completa foi anotada, o estádio foi a loucura e também.
Hoooooooooooome run! – os gritos foram ouvidos e o primeiro ponto para o time da casa foi contado.
levantou seu copo em comemoração e novamente desviou seu olhar para ela, que pulara no colo do noivo, beijando-o com paixão enquanto os jogadores corriam de volta a seus lugares.
Que diabos ele estava fazendo? Tentando conquistar uma garota que também o queria, era a resposta, mas por um momento ele só achou que era o intruso ali. Porém, ele sabia que não. Sentia que não.

– Uma virada louvável! – gritava – Você deveria ter apostado, !
Todos caminhavam para fora do estádio, rumo à comemoração. A partida terminara em 7-6 para o time da casa. Os Dodgers tinham o título da Liga Nacional Oeste e, matematicamente, já tinham vaga nos playoffs, próxima fase da MLB.
– É nosso décimo segundo título! – estava mais à frente, caminhando de costas para olhar para todos e era a animação em pessoa – Lembra de 2009? – perguntou ao noivo, que sorriu.
– Foi nosso último título. – ele contou aos outros – E nós estávamos aqui. viajou de São Francisco só pra assistir a partida.
– Agora nós vamos comemorar! – ela quase saltitava – Esse ano levaremos a World Series! E se bobear contra os metidos do Red Sox! – os americanos a apoiaram – Ah! – pareceu se lembrar de algo – A gente não explicou pra vocês como funciona a temporada, né? – os meninos confirmaram com a cabeça.
Ela correu para o lado deles, posicionando-se entre os dois, abraçando-os pela cintura, continuando a caminhar. Não sabia de onde havia tirado coragem para um ato tão íntimo, na opinião dela. , por sua vez, deixou um sorriso aparecer. Ela estava à vontade ao lado dele e aquilo era mais do que bom.
– A Major League Baseball é dividida em duas sub-ligas, a Nacional e a Americana.
alternava os olhares entre os dois. Eram lindos. Europeus que tinham aguentado uma partida inteira de um esporte nada popular em seu continente e ainda mantinham o bom humor. Gostavam de beber e gargalhar, ela percebera. Eram amigos e zoavam um ao outro. Eram pessoais legais. Pessoas que ela gostaria de ter por perto.
– Cada sub-liga tem suas respectivas divisões. – continuou – A oeste, a central e a leste. – pararam quando chegaram ao estacionamento – Cada uma tem seu vencedor e um eles já têm! – balançou os braços para cima rapidamente e eles riram – Os vencedores disputam entre si nos playoffs e o objetivo é chegar à World Series, a grande final, que consiste em sete jogos, onde o primeiro a vencer quatro, é o campeão da temporada! – ela sorriu como uma criança empolgada.
– Os Yankees são os maiores vencedores. – Vincent falou.
– Adoro o rebatedor deles! – ela arrastou a primeira palavra – Ichiro Suzuki é um puta jogador! Não é desse mundo! Agora que vocês já estão iniciados, assistam uma partida deles assim que puderem! – piscou.
– Com certeza vamos! – falou – Aquela coisa de correr para chegar até o Home Plate dá um nervoso! – todos riram.
– Agora vamos para a parte dois da diversão! – abraçou o namorado – O motorista de vocês segue a gente? – os dois cantores assentiram.
– Então vamos logo que minha garganta está seca. – riu, seguindo o noivo e agarrando sua mão até o carro.

O lugar estava lotado, como esperado. O grupo se dirigiu ao segundo andar e escolheu uma mesa mais reservada, bem ao fundo. Uma rodada de cervejas e drinks logo foi servida enquanto todos relembravam os lances mais empolgantes da partida. falava alto por causa da música e gesticulava bastante, comentando sobre números, estratégias, lineup (ordem dos rebatedores de uma equipe), arremessadores destros e rebatedores canhotos. Os dois casais tentavam explicar para os outros dois rapazes que a estratégia é uma das coisas mais empolgantes no beisebol.
– Existe um filme ótimo sobre isso. – lembrou – Chama Moneyball e fala sobre como um manager conseguiu montar um time competitivo mesmo sem grandes jogadores e com a ajuda de um economista.
– O filme é uma boa pra quem quer saber mais sobre o esporte. – pontuou, tomando um gole da cerveja logo depois.
– E a gente achando que era só rebater aquela bolinha e pronto! – riu, vendo logo abanar uma das mãos.
– Que nada! É estimulante, não é? E como diria Billy Beane: how can you not be romantic about baseball? – sorriu para .
Seus olhos teceram uma linha horizontal imaginária que os ligou por alguns segundos. Seu interior se aquecia diante dele e ela parecia esquecer tudo ao redor. Aquilo era perigoso demais. O incômodo em seu estômago era o alerta de que não era mantendo por perto que conseguiria esquecer aquela atração. Não era se tornando amiga dele que aquilo sumiria. Se ele continuasse encarando-a daquele jeito a tendência era tudo piorar.
A linha foi quebrada quando cutucou o amigo por baixo da mesa, antes que ou qualquer outra pessoa percebesse o clima tenso. pigarreou e tomou todo o drink de uma vez, tentando se livrar daquele calor.
A conversa continuou, mas tinha a atenção totalmente desviada. Agarrou-se ao noivo, tomando um gole de sua cerveja. a encarou com a sobrancelha arqueada, perguntando se ela queria que ele fosse até o bar buscar outro drink.
– Não! – negou rapidamente, fazendo-o manter a expressão confusa – Não quero nada agora. – tentou sorrir e escondeu o rosto no pescoço dele.
sorriu, agarrando sua mão e beijando-a várias vezes, voltando a prestar atenção na conversa.
olhava para o andar de baixo, pensando se poderia tornar aquela noite mais divertida. Ficar paranóico o tempo todo com a ideia de que deixaria alguma coisa escapar ou ser percebida não era seu lazer preferido. Los Angeles tinha garotas lindas demais e ele esperava conhecer alguma naquela noite. E solteira, de preferência.
– Galera, se vocês me dão licença... – ele levantou, arrumando o cabelo – Vou explorar o lugar. – fez sinal para o segurança logo depois de sorrir para todos.
– Boa sorte, ! – Vincent riu.
aproveitou para ir até o banheiro, respirando fundo diversas vezes durante o caminho. Por que tinha que ser tão lindo?
Parou no bar antes, pedindo dois drinks de uma vez. Encostou-se ao balcão e começou a bebericar. Quis ir para casa, mas não queria bancar a estranha e sair no meio da comemoração. Era para ser uma noite de festa regada a risos. Seu time preferido de seu esporte predileto era campeão do campeonato local e tudo estaria tão bem se não tivesse sido apresentado à ela no TCA. Se a atração entre eles não existisse. Se não tivessem se beijado. Se ele não tivesse invadido até seus sonhos.
Terminou o conteúdo do primeiro copo pensando em como queria tocá-lo novamente, mas logo se espantou consigo mesma. estava ali! Sentado de frente para o cara que infestava seus pensamentos. Como tirá-lo da cabeça? Como sanar aquele desejo? O pior de tudo era que, dentre todas as respostas, havia uma que ela queria executar e era a mais perigosa de todas.
– Errou o caminho para o banheiro?
A voz risonha dele se fez presente, como se ela o tivesse chamado pelo pensamento. Os pelos de sua nuca resolveram se rebelar diante de seu timbre, agora tão facilmente reconhecido, e seu sotaque gracioso. Quando ela virou para encará-lo, percebeu que seus olhos sorriam juntos com seus lábios e sua expressão era divertida, enquanto ainda segurava um copo com alguma bebida.
– Fiquei com sede antes – deu de ombros, também sorrindo, tentando disfarçar o que sentia –, mas é melhor voltar pra lá. – apontou, segurando seu copo e virou em direção ao fundo do local.
– Espere! – segurou seu braço e ela virou para ele novamente – Nem tive tempo de agradecer. Você tem sido muito legal, – ele sorria –, e você poderia me ignorar e nem me querer por perto, mas só tem agido como a garota incrível que eu imaginei que era, ainda na primeira vez que nos vimos.
, eu...
Havia tantas coisas que queria poder dizer e o fato dele ser extremamente adorável e bonito não ajudava na organização de seus pensamentos. Ela precisava fugir.
– Você sabe que não precisa agradecer. – tentou sorrir, incerta de que fora convincente – Gosto de você e gosto do . E seria ainda mais legal se os outros rapazes estivessem aqui. – piscou – Agora eu vou voltar pra lá.
Sorriu novamente e tocou seu braço em um cumprimento rápido antes de lhe dar as costas. se recostou no balcão pelos cotovelos, acompanhando-a com o olhar. Decidiu ficar ali. Cansou de servir de expectador para as demonstrações de amor do casal perfeito que ela e eram. Cheios de sorrisos, toques carinhos e piadinhas internas. Ele só precisava de uma brecha. Coisa que ela não decidia se deveria dar. Ou tinha medo de fazê-lo.

– Ah! – ela se agarrou ao pescoço do noivo, rindo – Vamos voltar pra mesa. Cansei!
Virou-se de costas, deixando que ele a abraçasse por trás, envolvendo sua cintura com os braços e beijando seus ombros. Caminharam da pista de dança até a mesa aos tropeços e gargalhadas. Devido a grande quantidade de bebida ingerida, qualquer coisa já era motivo para risadas.
e Vincent continuavam ali, bebendo e trocando beijinhos apaixonados. estava no bar com uma garota que conhecera fora da área VIP. Nem sinal de .
deixou com os amigos e foi até o banheiro. Precisava encarar o espelho e ter certeza de que não parecia uma louca. , que estava próximo à rampa, viu quando ela levantou, tentando a arrumar o cabelo. Um impulso o levou a segui-la por entre as pessoas. Ele precisava saber. Precisava saber se deveria continuar naquilo ou se era melhor desistir.
Deixou o copo que segurava em uma mesa vazia qualquer e apertou o passo. Precisou semicerrar os olhos para não perdê-la de vista no corredor pouco iluminado. Sorriu com a música que começou a tocar. Era um sinal?
, espera! – ele tocou seu ombro, fazendo a virar.
Ah, não, ! Agora não! Foi tudo o que a americana conseguiu pensar.

STUTTER - MAROON 5


This time I really need to do things right
(Desta vez eu realmente preciso fazer as coisas direito)
The shivers that you give me keep me freezing all night
(Você me arrepia e me mantém estremecido a noite)
You make me shudder
(Você me arrepia)
I can't believe it, I'm not myself
(Eu não posso acreditar, não sou eu mesmo)
Suddenly I'm thinking about no one else
(De repente eu não estou pensando em mais ninguém)
You make me shudder!
(Você me arrepia)


– Preciso falar com você.
Ele tinha uma carinha tão fofa que ela quis rosnar. Seu estômago já revirava numa ansiedade que ela julgava sem sentido, mas sabia que não era. Ele ainda mantinha sua mão quente sobre seu ombro direito, olhando com a respiração descompassada.
– Por favor – ele apertou levemente seu ombro, deixando seus dedos deslizarem pelo seu braço, arrepiando toda aquela região.
Ela amaldiçoou seus pensamentos que repetiam toque-me sem parar. Olhou ao redor, alarmada. Não queria deixá-lo ir.

I really, I really need to know
(Eu realmente, eu realmente preciso saber)
Or else you gotta let me go
(Ou então você precisa me deixar ir)


– Dance comigo – ela sussurrou, num impulso, próximo ao seu ouvido.
Então se colocou diante dele, movendo o quadril no ritmo da música. Fechou os olhos, pensando na primeira vez que dançaram juntos e no que aquilo terminou. A quem queria enganar? Ela o queria. Assim como disse para ele antes.
continuou parado, admirando-a. As mãos formigando para tocá-la. Para fazê-la estremecer de novo e estremecer junto.

You're just a fantasy girl
(Você é apenas uma garota fantasia)
It's an impossible world
(Isto é um mundo impossível)
All I want is to be with you always
(Tudo o que eu quero é estar sempre com você)
I give you everything
(Vou te dar tudo)
Pay some attention to me
(Dê um pouco de atenção para mim)
All I want is just you and me always
(Tudo o que eu quero é você e eu sempre)
Give me affection
(Me dê carinho)
I need your perfection
(Preciso de sua perfeição)
’Cause you feel so good
(Você se sente tão bem)
You make me stutter
(Você me faz gaguejar)


– E-eu preciso de você. Olhe pra mim! – ele sussurrou também, fazendo-a parar de dançar para encará-lo.
notou que ele estava mais próximo e a encarava com o semblante franzido. Não iria aguentar, não mais. Precisava dele também, precisava senti-lo.
– Ah, ... – tocou sua mão discretamente – O que você fez comigo?
E sem que ele pudesse responder ou assimilar completamente o que dissera, ela o puxou para o corredor, empurrando-o contra a parede.
– O-o que...
– Shhhh, ! – ela avisou – Não se mova agora.
E ela avançou para uma das portas, deixando-o sozinho e com o coração acelerado. Ele não sabia dizer o que fazia com ela, mas sabia de cor todas as reações que ela causava nele. Não havia mais ninguém que ocupasse sua mente e protagonizasse seus sonhos. De repente, tudo era ela. Para , de repente, era só ele que queria.
E foi com aquilo na cabeça que o puxou para o banheiro com rapidez, não antes de varrer o corredor com os olhos, atenta à qualquer pessoa que tivesse os notado e pudesse reconhecê-los. Empurrou-o para dentro, trancando a porta logo em seguida. Suas mãos tremiam, seu coração estava acelerado. Adrenalina corria em suas veias. Dopamina se preparava para jorrar em seu sangue em breve. Ela já podia sentir o calor.

(…)
I really, stutter, I really, stutter, stutter

(Eu realmente, gaguejar, eu realmente, gaguejar, gaguejar)
You knock me down, I can't get up, I'm stuck
(Você me derruba, eu não consigo me levantar, estou preso)
Gotta stop shaking me up
(Tenho que parar de tremer)
I can't eat, can't sleep, can't think, sinking under
(Eu não consigo comer, não consigo dormir, não consigo pensar, estou afundando)
I'm sinking under
(Eu estou afundando)


se encostou à porta já trancada, encarando-o. Já podia ver o sorrisinho deslumbrado e surpreso que brincava no canto de seus lábios. Suspirou, derrotada. Era isso mesmo, ela o queria.
– Eu desisto, . – mordeu o lábio inferior, nervosa – Eu oficialmente desisto.
Foi o sinal que ele precisava para caminhar até ela. ofegou ao sentir suas mãos agarrarem sua cintura e pensou que teria um ataque ao sentir os beijos urgentes em seu pescoço e colo. Instantaneamente o segurou pelos ombros, descendo as mãos por suas costas largas e agarrando a barra de sua camisa, adentrando-a e tocando sua pele logo em seguida, sorrindo ao ouvi-lo grunhir quando suas unhas arranharam sua pele quente e arrepiada.
subiu os beijos para seu queixo e rosto, tomando seus lábios com paixão. não saberia descrever todas as sensações que a tomavam. Suas reações eram desesperadas, urgentes. Não se lembrava de ter sentido isso antes, não com tanto furor.
Eles se beijavam e se abraçavam como que para compensar toda a vontade reprimida. sentia vontade de rir, gargalhar, tomá-la nos braços e girá-la em seu colo. Ele sempre soube que era recíproco. Não precisava de mais respostas, sua pele arrepiada e seus gemidos eram mais do que suficiente.
– Eu quero tanto você, . – arrastava seus lábios pelo pescoço dela, dando-lhe a oportunidade de respirar e sorrir – Tanto! – agarrou seus cabelos, mordiscando a orelha – Isso é o que você faz comigo. – pressionou seu quadril ao dela, fazendo morder os lábios para controlar os gemidos que arranhavam sua garganta.
o segurou pela nuca, buscando seus olhos e analisando seus traços de perto. Algumas pintinhas, os vestígios de barba, as leves linhas de expressão. Ela não saberia traduzir o quanto era lindo. Sua forma tão peculiar de falar a encantava tanto que poderia ouvi-lo falar em meio a suspiros por horas. Não havia como escapar dele.
– Isso é tão... – ela começou, ainda encurralada pelos seus braços – Não posso dizer que é inesperado, mas – deslizava a ponta do nariz pelo rosto dele –, é loucura! – choramingou – , isso é... Eu não sei!
Agarrou-se à ele, colocando a cabeça sobre seu ombro. Ele deslizou uma das mãos por seus cabelos, querendo acalmá-la e rezando para que ela não fugisse novamente, para que não o evitasse novamente.
– Eu ainda preciso decifrar meus sentimentos. Essas sensações todas são mais do que estou acostumada, .
Ele a ouvia, sorrindo para quando falava seu nome, em seu inglês americano tão perceptível, tão sensual. Sorria para seu desabafo de que as reações que ele lhe proporcionava eram novas. Ela não tinha ideia de como era bom ouvir aquilo.
– Eu preciso voltar! – beijou-o rapidamente – Preciso voltar para lá! – passou as mãos pelo rosto dele, subindo para seus cabelos e deslizando seus dedos, agora para arrumá-los.
Passou então à arrumar o próprio cabelo e tentar desamarrotar a camisa. passou as mãos pelo rosto, tentando se acalmar.
– Você sai primeiro? – pediu, mas fez uma careta assim que ouviu as próprias palavras – Ai, ! Não quero que você pense que eu estou...
– Ei, ei! – ele segurou seus braços delicadamente – Eu sei. Eu entendo! – sorriu – Acha que não sei no que me meti?
– Desculpe. – sussurrou.
– Não peça desculpas. Não por isso! – encostou seus lábios rapidamente – Eu vou sair e vou ficar atento para que ninguém me veja. – passou o polegar sobre a bochecha dela com carinho – Só prometa que não me jogará um balde de água fria amanhã. – seus olhos se tornaram suplicantes – Por favor.
sentiu o coração apertar um pouquinho. – Eu não vou. – sorriu – Seria como atingir a mim mesma.
E o beijou, logo o vendo destrancar a porta e sair. apoiou as mãos na fria pia de mármore e se deixou sorrir como boba ainda ouvindo o baque acelerado de seu coração.
Não havia mais volta.
Enquanto caminhava de volta para mesa, sentia seus joelhos vacilarem e respirava fundo para se acalmar. Agradeceu mentalmente por não estar sentado ali.
– Você demorou. Aconteceu alguma coisa? – a encarava, checando se estava bem.
– Tudo bem – sentou-se ao seu lado – Só passei no bar para pegar uma água fria e jogar na nuca – ela massageou a região – Acho que estou cansada.
Encostou-se ao ombro dele, buscando por sua mão e sentindo um incômodo na garganta. Ela sentia medo. Medo de que ele pudesse saber. Medo de que alguém tivesse contado. Mas ainda havia certo torpor e seus lábios ainda formigavam, lembrando-a que ela não estava arrependida.
– Vamos para casa.

No apartamento de , saiu do banheiro, já vestida em sua camisola habitual. O noivo estava sentado à beira da cama e secava os cabelos com a toalha branquinha. O cheiro de seu shampoo tomava o quarto e se mesclava com o aroma do desodorante tipicamente masculino. Aquele era o cheiro com o qual ela estava acostumada e que impregnava sua pele nas noites em que faziam amor. Seu relacionamento com era como aquela mescla de aromas, uma mistura entre o forte e o suave. Ao encarar seus olhos límpidos, ela visualizou a calmaria que precisava. Sua mente confusa girava, mas seu coração ficava mais leve só em tê-lo por perto.
O que era aquilo? Como separar aqueles dois sentimentos tão fortes dentro de si? Era justo colocá-los numa balança e medi-los, sendo que eram tão diferentes? Queria respostas urgentes, mas também queria esquecer.
Caminhou para perto do noivo, jogando a toalha em um canto qualquer e sentando em seu colo, abraçando-o. Queria tanto desabafar com ele e contar tudo o que a atormentava. Mas ele não era mais apenas seu melhor amigo, era seu namorado, seu noivo.
– Você lembra de quando estivemos juntos pela primeira vez? – ela sussurrou, ainda sem largá-lo e ignorando o incômodo na garganta – Lembra de como foi? Do quanto foi especial?
sorriu, mesmo sem saber o porquê dela ter tocado naquele assunto.
– É claro que eu lembro! – tocou seus cabelos, soltando-os – Lembro de cada detalhe, cada expressão sua, cada reação. – ele dedilhava a lateral de seu corpo, fazendo-a se encolher – É impossível não lembrar. – encostou suas testas, buscando encarar seus olhos – Foi ali que eu comecei a decorar cada parte do seu corpo – deitou-a na cama –, cada curva, cada sinal, cada ponto sensível.
fechou os olhos, sentindo-o levantar a camisola com os dedos um tanto frios, fazendo-a se arrepiar.
– Eu quero que seja como daquela vez, . – ofegou ao sentir seus lábios subindo por suas pernas – Quero que você aja como daquela vez. Com delicadeza e calma. Eu quero que você vá devagar. Quero que coloque meu coração no lugar.
atendeu seus pedidos, não deixando uma só parte de seu corpo sem ser beijada com devoção. Ele a amava tanto que faria qualquer coisa que ela pedisse. Empenhado tanto em fazê-la feliz e em satisfazê-la, não percebeu a lágrima solitária que escapou de seus olhos e que se misturaram ao suor de suas peles juntas.
Seu coração estava em sua zona de conforto, mas ele nunca mais seria o mesmo, nem bateria da mesma forma.

[...]


No dia seguinte, não conseguia tirar a noite anterior da cabeça e seu peito se enchia de expectativa. ainda dormia e o apartamento estava silencioso demais. Será que ela estava com ? Será que já estava acordada? Ele precisava falar com ela, perguntar o que seria dos dois dali para frente. Precisava arriscar.
Enquanto sua mente trabalhava pensando no que fazer, em como encontrá-la novamente sem que pudesse prejudicá-la, sem que pudessem ser descobertos, ele pensou na festa em que ficaram juntos pela primeira vez. Pensou no apartamento em Silver Lake e soube que era perfeito.
Alcançou o celular e buscou pelo número dela na agenda. Aguardou ansiosamente para ouvir sua voz atender com um alô alarmado.
, a gente precisa se encontrar. – ele não esperou que ela contestasse – Sei de um lugar perfeito e queria que me encontrasse lá.

Capítulo 8


"Ali encontrava Vronski, e sempre que o via sentia uma deliciosa emoção.
(...)
Anna não dava qualquer esperança, mas assim que o via, sentia apoderar-se de sua alma
aquela mesma alegria de que se sentira possuída quando do primeiro encontro na estação.
Esta alegria denunciava-se no sorriso que lhe aparecia nos lábios e na luz do olhar,
e o certo é que percebia isso, sem forças para esconder."

(Anna Karenina – Liev Tolstói)


A ansiedade se fez presente no instante em que fora liberada do trabalho. Tentava organizar a mesa, mas suas mãos pareciam tremer e ela conseguiu derrubar o grampeador mais de uma vez. Jogou todos os seus pertences na enorme bolsa carmim e saiu pelo corredor balançando as chaves do carro em uma das mãos, enquanto a outra segurava fortemente sua alça.
Passou a manhã toda se esforçando para se concentrar no trabalho, mas depois da ligação inesperada de , seus pensamentos eram um emaranhado de cenas da noite anterior e projeções do que ela imaginava que poderia acontecer dali em diante. De todas as coisas que passavam por sua cabeça, uma delas parecia estar na área das certezas: ela não queria mais recuar. Sentiu medo quando atendeu a ligação de mais cedo, porém, a ansiedade para vê-lo de novo sufocava qualquer outro sentimento e no instante seguinte ela parecia disposta a se aventurar naquilo.
Precisava conversar com alguém sobre o que vinha sentindo e ela realmente esperava que a ouvisse e ao menos tentasse entendê-la. Era sufocante demais guardar tudo aquilo somente para si.
Entrou no carro e jogou a bolsa no banco ao lado. Fechou os olhos e recostou a cabeça no apoio, respirando fundo. Iria encontrar no mesmo lugar em que ficaram juntos pela primeira vez. O mesmo edifício, mesmo apartamento. Saiu do estacionamento dirigindo na direção contrária a que seguia todos os dias. Ouvia o locutor da rádio falar animadamente enquanto tentava silenciar seus pensamentos. Observou a paisagem mudar conforme se aproximava do centro movimentado de Los Angeles e adentrava o outro bairro.
Silver Lake era um bairro moderninho no caminho para Hollywood. Seu antigo cenário era tomado por enormes armazéns, que hoje dão lugar a restaurantes sofisticados e luxuosos flats ao longo da avenida principal.
soltou o ar pesadamente assim que avistou o Griffith. Umedeceu os lábios e baixou o vidro para falar com o segurança da guarita.
– Boa tarde – tentou sorrir –, está a minha espera.
Depois de checar algo em seu computador, ele liberou sua entrada.
No interior da cobertura, respirava aliviado após terem interfonado para avisar que já estava ali. O cantor chegou a imaginar que ela não iria, que poderia fugir dele novamente, mas ela cumprira a palavra.

“– Só prometa que não me jogará um balde de água fria amanhã. – seus olhos se tornaram suplicantes – Por favor.
(...)
– Eu não vou. – sorriu – Seria como atingir a mim mesma.”


A americana encarou a porta e os números dourados cravados ali e respirou fundo mais uma vez antes de tocar a campainha. O que dizer a ele? Como agir? Recolheu a mão e deu um passo para trás. não demorou em abrir a porta e encará-la com os olhos ansiosos e risonhos. Ele não conseguia explicar como sua beleza sempre conseguia surpreendê-lo, mesmo ali, com seus jeans e camiseta simples, os cabelos soltos, caindo sobre os ombros e parecendo nada ordenados. Quis abraçá-la e beijá-la, mas se conteve em convidá-la para entrar. sorriu, passando por ele e analisando a sala do flat, agora bem mais iluminada do que da última vez que estivera ali.
– Cheguei a pensar que você não viria – ele começou, enquanto fechava a porta –, mas fico feliz que esteja aqui.
sorriu e caminhou para perto dela, que estava de pé ao lado da mesinha de centro da sala. Sem saber onde colocar as mãos, as mantinha firmes ao redor da alça de sua bolsa, ansiosa para tocá-lo, no entanto.
– Essa minha inconstância não costumava ser comum. – ela sorriu, quase triste – Não até você aparecer.
a encarou curioso. Aquilo era ruim, não era? Até que ponto? Apontou para o enorme sofá, convidando-a para sentar e fez o mesmo ao vê-la largar a bolsa no chão, ao seu lado.
– Eu precisava vir. – continuou – Mesmo que você não tivesse ligado, teríamos de nos encontrar em outro momento. – ela suspirou, incerta sobre começar logo pelo assunto principal – Eu não sei o que você pensa sobre mim, mas eu nunca estive em uma situação dessas antes. – fez a menção de falar, mas levantou a mão para interrompê-lo – Isso tudo é novo pra mim. Não apenas a situação, mas – ela hesitou –, as sensações, os sentimentos... Eles têm sido mais arrebatadores do que eu consigo me lembrar.
Ela abaixou a cabeça, meio envergonhada por estar dizendo aquilo de maneira tão objetiva. já não conseguia conter o sorriso no canto dos lábios. Seu coração batia acelerado diante das palavras dela.
– Eu não posso falar sobre isso com mais ninguém e me vi ansiosa pra poder... Ou melhor, tentar esclarecer as coisas com você. – agora o encarava, as palavras saíam mais facilmente e ela temia que a conversa se transformasse em um monólogo seu – Eu não entendo muitas coisas ainda. Ainda estou confusa sobre ontem e temerosa com o amanhã.
Ela parecia aflita enquanto falava. queria abraçá-la mais do que tudo e sentiu que precisava dizer que estava ali para ela, que ela não precisava guardar tudo aquilo para si.
– Eu não sei o que fazer e...
– Ei, calma! – a chamou, arrastando-se para perto dela e tocando suas mãos – Eu estou aqui! – sorriu – Você pode falar comigo e desabafar se quiser. Eu nunca estive envolvido em algo parecido também, mas estou certo de que quero você. – segurou seu queixo delicadamente, fazendo-a olhar em seus olhos – Eu estou disposto a fazer o que for preciso se você me disser que tudo o que você disse ontem está valendo.
sentiu o coração aquecer naquele momento. Sorriu e levou uma das mãos para o rosto dele, tocando sua bochecha direita até vê-lo sorrir. Observou as ruguinhas que se formaram no canto de seus olhos comprimidos e se permitiu sorrir também. Tudo o que queria dizer sumiu de sua mente assim que a respiração de tocou seu rosto e suas testas se tocaram.
– Você é tão lindo, . – confessou, sentindo-se boba no instante seguinte – E isso é a minha fraqueza.
assistiu seus olhos se fecharem e seu semblante voltar a parecer preocupado. Ainda encarando-a, chegou mais perto e levou uma das mãos para seus cabelos, deixando seu rosto livre e acessível aos beijos suaves que ele passou a deixar por ali. Observou as rugas em sua testa amenizarem conforme ela relaxava diante do carinho e ele se sentia em êxtase só por poder acalmá-la e saber que suas carícias realmente tinham efeito sobre ela. Diferente das outras duas vezes que ficaram juntos, aquela não envolvia um furor e ações desesperadas engatilhadas por seus desejos incontroláveis. deslizava seus lábios lentamente pelo rosto e pescoço de , um ato que não demonstrava nada além de uma vontade de lhe dar carinho, as segundas intenções não eram tão importantes naquele momento.
A americana deixava longos suspiros escaparem de seus lábios e isso era tudo o que podia ser ouvido naquela sala. E ela apreciava o silêncio, especialmente aquele que existia dentro de si. Sua mente finalmente havia se calado para que ela pudesse aproveitar as sensações de ter lhe oferecendo seus beijos mais ternos. Foi então que ela resolveu responder a ele, soltando a mão que ele ainda segurava e subindo-a pelo seu braço, pressionando seus dedos pelo caminho, só para ouvi-lo suspirar também. Sua cabeça foi inclinada para trás, dando total acesso aos lábios rosados do rapaz. a segurou pela cintura, inclinando-se ainda mais sobre ela, que agarrou seus ombros com certa força, buscando equilíbrio.
Se havia lhe chamado ali para se certificar de que suas declarações da noite anterior não eram coisas de sua imaginação, naquele momento ele abriria mão das palavras. Seus corpos falavam por si só, um flutuando sobre o outro no sofá, enquanto ambos provavam um beijo diferente de todos os outros que já tinham trocado; um beijo calmo, com um caráter explorador, típico de quem está conhecendo o território, preocupado demais em não deixar nada passar, nenhum detalhe. pairava sobre ela tendo o cuidado de gravar suas feições, a forma como mordia o lábio inferior e enrugava a testa. estava atenta aos seus toques, a textura de sua pele e a forma como ele alternava a pressão de seus dedos, o que parecia fazer sua cabeça rodar.
Era bom demais para ser errado.
– Você... – começou, apoiando suas mãos no sofá para encará-la – Você pode ficar mais um pouco, não pode?
E lá estavam seus olhos suplicantes de novo, prontos para persuadi-la. E ela nem precisaria de muito para continuar ali. Sorriu calmamente e assentiu, inclinando-se para beijar seus lábios levemente.

– E você convenceu o a vir até aqui assim? – deixou um riso leve escapar ao ouvir contar sua parte daquela história louca que estavam começando a viver.
Ainda estavam na sala, sentados um de frente para o outro no sofá, comendo alguns doces que comprara e tomando um chá que ele se orgulhara de ter preparado. Depois do inicial clima tenso, eles conseguiram engatar uma conversa espontânea sobre como aquilo tinha começado e como ele tinha decidido voltar a Los Angeles mesmo depois do ocorrido em Nova York.
– Não exatamente assim. – ele ponderou – tem um coração enorme e ele sabia o quanto era importante para mim, mesmo que ele resmungue bastante algumas vezes e até brigue comigo. – riu.
– Brigar? – franziu a testa – não parece o tipo brigão. – deu de ombros – Sei lá, não consigo imaginá-lo bravo.
sorriu para ela.
– Todo mundo tem seus excessos. E acredite, ele sabe ser firme.
Ela o encarou, curiosa.
– E vocês brigaram por que exatamente? – gesticulou – Digo, nesse caso. – e pareceu levemente envergonhada.
pensou se deveria contar para ela o que pensava sobre eles ou se ao fazê-lo deixaria a americana ainda mais confusa. Tudo o que ele não queria era complicar ainda mais uma situação que já era difícil, ainda mais agora que eles estavam conseguindo conversar despreocupadamente.
– Ele só... – coçou a nuca, ainda incerto – só fica preocupado. Ele não gosta da ideia de pessoas machucadas, quem quer que elas sejam.
Mesmo tentando ser sutil, entendeu o que ele disse. Mas aquilo não era novidade para ela, afinal, é claro que já lhe havia passado pela cabeça que, em algum momento, alguém não sairia totalmente feliz daquela situação. Mexeu-se desconfortavelmente pelo sofá, recruzando as pernas. Pronto. Todo o seu ar descontraído se fora e no mesmo instante voltou aos seus pensamentos e ela sentiu seu interior se contrair. , percebendo seu desconforto, esticou uma das mãos para tocar um de seus joelhos, afagando-o.
– Desculpe. – ela sussurrou, seu sorriso triste estava de volta – tem razão em ficar preocupado. Seu amigo não quer você em encrenca e... – ela parou subitamente, fazendo franzir a testa em confusão.
Algo pareceu piscar em sua mente e foi como se a ficha tivesse caído, atingida por um choque de realidade que só piorava as coisas.
– Céus! E você não é qualquer pessoa, é ! – seu tom era alarmado e continuou confuso – O mundo está de olho em você e na sua banda! Imagina se me virem com você aqui ou em qualquer lugar em alguma atitude suspeita? – ela riu, mas sem humor algum – Aliás, nem precisa atitude suspeita alguma! Só estar a sós com você em algum lugar em que possamos ser fotografados e pronto! – ela pôs as mãos no peito – Não, isso é loucura demais pra mim.
Levantou-se um tanto atordoada, como se fosse a primeira vez que pensava naquilo seriamente. a imitou, caminhando até ela e segurando em seus ombros com delicadeza.
– As coisas não precisam caminhar tão depressa. – seu tom calmo não causou efeito algum na garota, que continuou de costas – Nós estamos aqui agora. Você já tentou renunciar a isso, mas não deu certo.
Ele passou para sua frente, tirando seus cabelos do rosto e esperou até que pudesse ver seus olhos. suspirou.
– Permita-se, . – ele segurou seu queixo, aproximando-se ainda mais – Nós podemos ir com calma, eu não vou te cobrar nada porque entendo a situação, mas não posso deixar que você fuja de mim ou dos seus sentimentos. – engoliu em seco – Sejam eles quais forem.
fechou os olhos novamente e encostou sua testa na curva do pescoço dele. Sentiu que estava prestes a chorar. Sabia que não queria abrir mão daquilo, mas e todas as consequências? Não era de seu feitio fazer qualquer coisa sem pensar racionalmente. Mas onde o racional encontraria lugar ali, entre dois corpos que se queriam e dois corações que desejavam se conhecer? Que razão lhe diria para recuar, para renunciar e fingir esquecer aquela faísca que aparecia no seu interior diante daquele garoto que apareceu para bagunçar tudo? Haveria lugar para a razão no meio da bagunça?
Interrogações. Inúmeras interrogações. Elas eram sua única certeza.
Seus braços se fecharam ao redor dele, em um pedido mudo para que ele a ajudasse a resolver a incógnita que havia dentro de si. Ou que, ao menos, ele pudesse fazê-la esquecer, nem que fosse por um momento. O momento em que ele a beijaria, que afagaria seus cabelos e sorriria para ela.
Era como se estivesse tudo bem.
Quando voltou ao carro, pronta para ir embora, precisou respirar fundo diversas vezes. Conforme dirigia até o apartamento que dividia com , se afastava da zona de influência de . A área de transição, no entanto, não era nada segura. Era nela que as dúvidas moravam e que os dois pólos dividiam sua atenção quase com forças iguais. Não era nada animador.

acendeu as luzes assim que fechou a porta de entrada do apartamento de , passando direto para o quarto, ansiosa por um banho relaxante. Estava aliviada por não precisar encontrá-lo ali assim que chegasse. Não se julgava boa com essa coisa de dissimulação, ainda mais diante dele, seu melhor amigo.
Largou a bolsa e começou a retirar os acessórios, pronta para se despir para um demorado banho. provavelmente demoraria à chegar já que os ensaios para a continuação da turnê começaram e seus horários eram quase sempre indefinidos. Prendeu os cabelos e se livrou da calça e da camiseta, checando rapidamente sua aparência no espelho do banheiro. Um barulho foi ouvido no corredor e ela se sobressaltou, alcançando o roupão e saindo para checar, mas ela já sabia: estava em casa.
? – ele entrou no quarto, já à sua procura.
– Aqui, meu amor – ela amarrava o roupão enquanto caminhava até ele.
Era impossível não sorrir verdadeiramente quando encarava seu olhar tão carinhoso. Ele logo sorriu de volta, chegando perto dela e beijando-a levemente.
– Você chegou agora? – ele franziu a testa, retirando algumas mechinhas de cabelo de seu rosto e ela assentiu.
– Fiquei um pouco mais com a . – tocou seu rosto, deslizando os dedos pela barba rala – Não achei que você chegaria tão cedo.
– Ter uma banda de apoio incrível facilita tudo. – seu sorriso se alargou – Você estava indo para o banho? – afastou-se para retirar a jaqueta e sentou na cama para tirar os sapatos – Quer companhia?
Seu sorriso malicioso deixou suas intenções muito claras, mas nem queria pensar naquilo no momento. Algo em seu interior riu. Fugir de desse jeito?
– Vou ter que negar. – sentou ao lado dele, que logo projetou um bico fofo – Eu preciso de um banho relaxante – abriu a boca para argumentar e ela riu, complementando –, mas não desse jeito.
– Tudo bem, né? – ele deu de ombros, ainda brincando sobre estar tristonho – Vou tomar uma chuveirada no outro banheiro e verei algo para comermos, ok? – ela assentiu e ele lhe beijou – Eu te amo. – ele disse, com a naturalidade e a certeza de sempre.
– Eu sei. – sorriu e ele deu uma tapinha em seu bumbum ao vê-la levantar – Eu te amo também.
Entrou no banheiro e respirou fundo ao fechar a porta. Apesar de tudo, ela se sentia estranhamente bem. Mesmo que agora precisasse esconder certas coisas de , ela não precisava fingir seu amor, seu afeto inigualável. E aquilo fazia tudo parecer melhor.

[...]


já está esperando pra saber de tudo. – riu – Os idiotas apostaram e ele foi o único que insistiu que você conseguiria algo. e juravam que você levaria outro chute.
Os dois estavam no bar do hotel, bebendo após o jantar.
– Talvez nem eu acredite. – tomou um gole da cerveja, mantendo o olhar longe – Eu me senti tão perto dela, cara. – sorriu – Ela me contou sobre como se sentia, me falou de seus medos e foi um momento muito especial. – relaxou ainda mais na cadeira e continuou a contar – Ela me disse que ficou sabendo que estávamos de volta por causa de algumas fãs que encontrou na rua. – riu lembrando – , ela disse que depois do susto, gostou de saber que eu estava aqui de novo. Você percebe? – seu sorriso era enorme.
rolou os olhos.
– Percebo que você está se apaixonando a uma semana da volta da turnê. – ele não deveria, mas riu do amigo.
– Puta merda! – bateu na mesa – Ainda tem isso!
– Como se não bastasse a garota ter um noivo e morar na América, você vai passar quase três meses do outro lado do mundo. – gargalhou – Não está fácil, meu amigo. – e esticou o braço para dar alguns tapinhas no ombro do outro.
Foi a vez de rolar os olhos.
– Pra tudo tem um jeito. – ele tentou ser otimista, mas sabia que seria complicadíssimo.
– Ah, e o que você vai fazer? Porque tudo o que eu consigo pensar é que vocês possam arrumar uma meia-hora no Skype e isso com muita boa vontade dos dois. – torceu o nariz – E você lembra que ela vai entrar no último período da faculdade, né? E mesmo na minha pouquíssima experiência, posso presumir que isso não é sinônimo de muito tempo livre.
tomou mais um gole da cerveja. A mente trabalhava à mil para pensar em uma solução para aquilo, se é que havia uma.
– Eu vou dar um jeito – tirou o boné e arrumou os cabelos –, mas antes preciso encontrar com ela antes de segunda.
– E vocês combinaram alguma coisa? – mordiscou os petiscos que estavam sobre a mesa.
– Não. – voltou a colocar o boné, dessa vez com a aba para trás – não vai viajar nem nada e é final de semana e ela não trabalha. – fez uma careta – Ela não sabia se conseguiria uma desculpa pra não estar com ele.
A cara de deixou claro para o outro o comentário negativo que viria a seguir.
– Deve ser difícil inventar desculpas pra quem te conhece tão bem. – tomou mais um gole da cerveja, esvaziando o copo – Desculpa, cara, mas eu não vou ser o que vai evitar falar sobre essas coisas e fingir que esse é o início perfeito de um relacionamento. – riu levemente e o acompanhou.
– Eu já percebi que você não vai parar de me alertar quanto a isso e aprecio sua preocupação, de verdade. – sorriu – está bem preocupada também. Quer dizer, não tem como não pensar sobre o intenso interesse sobre as nossas vidas – apontou para si e para o amigo –, e como precisaremos ser cuidadosos se quisermos continuar nos vendo.
– Mas sem chance dela aparecer na festa de amanhã, então?
– Eu realmente não sei. – passou a mão pelo queixo, pensativo – Nem comentei nada com ela, nem sei se a contou, já que ela e Vincent provavelmente estarão lá. De qualquer forma, iria. – fez um barulho com a boca, visivelmente desgostoso com a dedução.
arqueou uma sobrancelha –, pra quem já se agarrou com a garota no mesmo bar que o noivo dela estava...
sorriu, sua mente reacendendo em memórias da última noite. Queria poder estar com naquele momento, fazendo mais perguntas sobre ela, sobre sua vida, vendo-a sorrir envergonhada de vez em quando. O que será que ela estaria fazendo? Será que pensava nele tanto quanto ele pensava nela? Será que esquecia coisas importantes porque sua cabeça se ocupava demais com a imagem dele? Porque era isso que acontecia com .
Viajaria para a Austrália em poucos dias e já não queria imaginar como seria ficar tanto tempo sem vê-la. Não podia deixar que seus avanços fossem perdidos pela ausência causada pela distância.

[...]


Oh, everyone believes!
From emptiness to everything... – eles cantaram juntos.
Oh, everyone believes! And no one's going quietly.
Os dois continuaram a cantar e a fazer passinhos de dança pela cozinha. Belief tocava na TV da sala e enchia todo o apartamento. retirava o jantar o forno e a garota arrumava a mesa. A cozinha era seu segundo lugar preferido ali. Depois do quarto, era onde passavam a maior parte do tempo, entre risadas e conversas aleatórias, algumas brigas bobas, um café forte depois de um porre ou um relato animado de após mais um show incrível. sabia que em breve sentiria falta de momentos como aquele, afinal, voltaria para a estrada e ela para a faculdade. O tempo para perder com momentos simples como aquele ficaria menor, quase nulo.
Quando estavam juntos daquela forma, era como se ainda estivessem em São Francisco, na cozinha de sua casa, correndo entre as cadeiras altas e beliscando as comidas que seu pai preparava. Era como se fossem ainda aqueles jovens amigos que apreciavam a companhia um do outro mais que tudo. E às vezes achava que, tirando o fato de que seu melhor amigo havia se tornado um músico famoso, que dividiam a mesma cama e estavam noivos, nada mudara. ainda era o cara que ela mais amava e admirava, o único que a conhecia como ninguém e sabia de cor todos os seus planos, aqueles que ela não cansava de repetir. achava a mesma coisa. continuava sendo sua melhor amiga, a garota em que ele confiava de olhos fechados, com o adicional que seria sua esposa em um futuro próximo, porque ele não via qualquer outra mulher que pudesse ser a dona de sua vida que não fosse ela. Era algo natural para ele, como era para ela.
Mas será que ainda levava aquilo como uma convicção? Que suas certezas estavam sendo abaladas, isso ela já sabia, mas ela ainda não sentia as mudanças de forma brusca. Ela ainda não sabia, mas isso viria com o tempo. E seu tempo já estava em curso.
– Nós estamos cada vez melhores nisso! – sorriu, lambendo um dos dedos.
– Ei! – balançou o garfo em sua direção – Acho que a maior parte do trabalho foi minha dessa vez. – sua cara metida fez a garota rir.
– Mas a receita é do meu pai! – usou seu melhor ar convencido – E eu te ensinei. Sem uma boa professora nada daria certo. – piscou para ele.
– Esse negócio de Relações Internacionais ensina a ser persuasivo mesmo, hein. – ele riu.
relaxou na cadeira, notando que o DVD terminara. Esticou uma de suas pernas e colocou sobre as coxas de , por baixo da mesa.
– Esqueci de te contar! – ele limpou a boca com o guardanapo e afastou o prato – Precisarei ir até Nevada. – sentiu uma pontada no estômago e passou a massagear seu pé – Acho que consigo finalizar algumas faixas até domingo. – ele sorriu – Quer ir comigo?
precisou tomar um pouco de suco para não engasgar. Era a oportunidade que precisava.
– Eu estava pensando em organizar minhas coisas para o início do período na UCLA. – limpou a garganta – Verificar minha papelada e tentar adiantar alguma coisa do trabalho, já que vou precisar trocar de turno e tal – ela o encarou –, mas se você quiser que eu vá, eu...
– Não, não. – ele sorriu, puxando seu outro pé para descansar em seu colo – Se você já tinha planos, tudo bem. Eu ficaria trancado no estúdio mesmo.
sorriu, aliviada, mas escondendo muito bem seu lado eufórico. Precisava ligar para !
– Apesar de eu achar que você deveria usar seu final de semana para se divertir. Convide a pra sair ou sei lá. – balançou os ombros.
– Ela me contou algo sobre uma festa que vai com Vincent, mas não sei se quero ir e segurar vela para os dois. – ela fez uma careta e soltou uma risadinha.
– Você quem sabe. Convide a Savannah! – riu, lembrando da amiga super animada da noiva – e ainda estão na cidade? – fez um gesto para dizer que não sabia – Se eles estiverem na festa com o Vincent podem te fazer companhia também. – ele sorriu.
deu de ombros, começando a ficar incomodada com a conversa. Não queria que falasse de . Não queria falar de para . Ela se sentia horrivelmente estranha.
– Enfim, você quem sabe.
A garota sorriu para ele, apreciando verdadeiramente sua preocupação de sempre.
– Eu vou ligar pra e ver se marcamos alguma coisa. – encolheu as pernas e levantou, indo até ele e beijando seus lábios levemente – A que horas você vai?
levantou, se espreguiçando.
– Amanhã cedo, mas volto na segunda. Devo ir direto para o ensaio, então provavelmente só nos veremos à noite.
Ela assentiu, começando a tirar a mesa com a ajuda dele. Levaram toda a louça para a pia e começou a lavá-las enquanto limpava a mesa. Terminando, o músico foi até ela, abraçando-a pela cintura.
– Ainda são dez horas. – curvou-se para encostar o queixo em seu ombro – O que quer fazer? – torceu para que ela dissesse amor.
– Filmes? Seriados? – ela se virou para ele, encontrando seus olhos um pouco decepcionados – Depois podemos namorar bastante pra você não ficar com saudade. – riu para a carinha sapeca que ele fizera.
– O que você quiser. – ele levantou as mãos.
– Posso ver nos seus olhos o que você quer, . – ela continuou rindo.
– É que a experiência da noite passada foi bastante intensa e... – ele começou a gesticular, fazendo virar para ele com a feição divertida.
A garota sorriu, sua mente lembrando o quanto fazia tudo ser especial, mesmo em uma noite tão conturbada quanto a anterior.
– Pois estou pensando em algo diferente para hoje. – secou as mãos no pano de prato.
– Nada daquele papo de devagar e tal? – assentiu, colocando-se de frente para ele, que deixou seu olhar incisivo cair sobre ela – Pois então comece a correr, .
gargalhou e começou a correr com logo atrás. Entraram no quarto e caiu na cama, ainda rindo, com pairando sobre ela no colchão. A garota olhou para o relógio no criado-mudo e se virou para o músico novamente, prendendo suas pernas ao redor de seu quadril.
– Você tem somente alguns minutos até começar a reprise de Boardwalk Empire. – arqueou uma das sobrancelhas, desafiando-o.
– Não seja por isso. – tirou a camiseta fina que usava e sorriu antes de começar a beijá-la intensamente.

[...]


, você já tá pronta? – gritou do quarto da frente.
terminou de colocar os brincos e deu uma última olhada no espelho. A calça jeans preta moldando-se às suas curvas, a camiseta cinza um pouco larga e as sandálias não muito altas. Só precisava avisar que já estava saindo.
– Quase! – gritou de volta – Já estou indo!
Correu até o celular para mandar uma mensagem ao rapaz. A resposta não tardou a chegar, avisando que ele e já estavam na boate.
Era sábado e já passava das onze da noite. avisara a sobre a viagem de naquela manhã e eles resolveram se encontrar na tal festa. Ele viajaria no dia seguinte e ela precisava aproveitar sua companhia, mesmo que não soubesse como faria isso da forma que queria em um lugar com tanta gente e com por perto, mas ela daria um jeito de contornar a situação.
! – gritou novamente – Vincent já está lá embaixo! – sua voz já soava um pouco impaciente.
A garota colocou o celular na bolsa de mão e saiu, encontrando na entrada do corredor.
– Vamos, criatura! – ela chamou, já caminhando para a porta – E só pra você não dizer que eu não sou legal – olhou a amiga de cima a baixo –, tá gata pra caramba, hein! – riram juntas.
– Você também tá lindona, como sempre. – piscou.
Desceram pelo elevador com falando sobre quem estaria na festa e outras coisas que Vincent contara para ela. batia o salto pequeno impacientemente no chão, ansiosa para ver , como sempre. Durante o não tão curto trajeto, os três foram conversando sobre coisas aleatórias que mantiveram entretida. Vincent parecia ser o cara ideal para sua amiga, se é que isso poderia existir. Era muito divertido e mantinha o humor sempre impecável. Estavam sempre implicando um com o outro e isso lhe rendia muitas risadas.
Chegaram logo ao local que já estava um tanto lotado. franziu a testa para alguns fotógrafos que estavam por ali. Provavelmente já sabiam que os dois integrantes da One Direction estavam lá dentro. Algo a mais para se preocupar, então. Bufou.
– Vamos lá, vamos entrar!
Vincent chegou perto e lhe entregou uma pulseira luminosa e logo os três caminharam para a entrada, chamando pouca atenção. , que não tirava os olhos da entrada VIP, viu quando ela entrou e cutucou com o cotovelo. Antes de conseguir xingar o amigo, viu , e Vincent se aproximarem. Entendeu tudo e apenas riu. vidrado em uma garota era uma coisa engraçada.
Todos se cumprimentaram e caminharam para a mesa. Vincent ficou no bar para pegar bebidas para e . A pouca iluminação do local permitiu que, no caminho, tocasse a mão de por alguns instantes, fazendo a garota se sobressaltar e olhar ao redor. O frio na barriga pareceu espalhar arrepios por todo o seu corpo.
Definitivamente não estava acostumada com aquilo.

– Você continua não muito bom com essa coisa de dançar, . – riu, saindo da pista de dança com ele ao seu lado.
– Nem todo mundo tem esse gingado, ok? – o garoto também riu – Eu fico melhor ali, sentado com a minha cerveja. – ele arrumou os cabelos – Inclusive, estou precisando muito de uma agora. – apontou para o bar – Aproveite que o está sozinho na mesa – Inclinou a cabeça para onde o amigo estava sentado, fazendo a americana abaixar o olhar e soltar uma risadinha envergonhada.
olhou para , que continuava sentado, batucando na mesa no ritmo da música, parecendo até um pouco entediado.
– Ele me contou que você fica preocupado – olhou para , ainda um tanto sem jeito –, mas saiba que eu não...
– Ei! Não precisa me dar satisfações. – sorriu – Ele gosta de você. – falou mais baixo, tocando seu braço – E isso é tudo o que eu preciso saber por agora.
A garota sorriu, sentindo-se feliz por não ter seu olhar julgando-a ou qualquer outra coisa negativa.
– Vai lá! – ele apontou para o amigo com a cabeça novamente.
assentiu, chegando perto e dando-lhe um beijo na bochecha antes de seguir para a mesa. a observou durante todo o seu trajeto, analisando a forma como ela retirava o cabelo da testa e perdendo-se na sinuosidade de seus quadris. Queria poder dançar com ela, mas das outras vezes que aquilo acontecera, eles não conseguiram se controlar, então para o bem de ambos, era melhor que ela tentasse dançar com .
A verdade é que ele já estava um pouco irritado. só queria saber de beber e paquerar. Vincent estava com sabe lá onde e , bom, qualquer coisa que eles fizessem juntos ali não seria o que realmente desejariam fazer. Bufou.
A garota logo chegou e sentou ao seu lado, sorrindo.
– Você não parece muito animado. – cutucou seu braço – Vamos lá, é sua última noite em LA!
soltou um riso fraco.
– Isso era pra me animar? – apoiou a mão no queixo e continuou a encará-la.
– Claro! – ela se recostou no sofá, afastando os cabelos da nuca – Você vai passar uma temporada fazendo shows com os seus amigos, recebendo o retorno pelo seu trabalho e eu só posso ver isso como algo animador.
– E é – tomou um gole da cerveja –, mas você sabe qual a minha preocupação atual.
abanou uma das mãos.
– Não vamos pensar nisso agora. Vamos aproveitar o momento.
riu novamente.
– Aproveitar?
– Espere aqui.
A garota foi até o bar, pegou bebida para ambos e voltou à mesa, onde lhe esperava com uma sobrancelha arqueada.
– Vamos beber e brincar de perguntas e respostas. – sorriu – Eu começo! – ela levantou a mão e sorriu – Praia ou piscina, ?
Os dois gargalharam juntos quando ela terminou sua pergunta.
– Nossa, que pergunta mais bem elaborada! – ele brincou – Preciso pensar em uma resposta à altura, espere. – ele pôs a mão no queixo, fingindo pensar – Acho que praia. Seria um pecado dizer outra coisa quando se está na Califórnia.
Ela bateu palmas, concordando.
– Muito bem! Sua vez.
E entre perguntas e bebidas, as horas passaram. e Vincent voltaram à mesa e se juntaram à eles no questionário, que fora realmente divertido. Quando estavam novamente sozinhos, ambos já estavam um tanto alterados e tanto suas perguntas, quanto suas respostas, já não eram tão inocentes assim.
– O que você gostaria de estar fazendo agora? – perguntou com a cabeça apoiada nos braços sobre a mesa, de onde olhava diretamente para ela.
– Dançando – ela respondeu, de olhos fechados –, e com você. – sorriu – DJ, what you, what you waiting for? – e cantou um trecho da música de Britney Spears que estava tocando.
Inúmeros palavrões passaram pela cabeça de . Ele só queria sair dali e levá-la para dançar com ele, bem perto dele, sem se preocupar com quem estava ao redor. Mas quem disse que eles precisavam continuar ali?
– Vamos sair daqui. – ele disse, tocando seu joelho por baixo da mesa.
– O quê? – ela perguntou, até alto demais.
– Vamos para o flat. – ele sussurrou – Preciso sair daqui. E preciso levar você.
engoliu o nervosismo que apareceu.
– Não posso sair daqui com você. – sua fala saiu quase entredentes, como se alguém pudesse ouví-los ali.
– Você tá de carro? – ela negou e tentou raciocinar apesar do álcool – Eu vou falar com o e você pode ir para o estacionamento e entrar no carro com o Carl. Lembra-se dele? – a americana assentiu, sem pensar muito.
– Vou me despedir da . – ela levantou – Você tem certeza que é seguro? – mordeu o lábio inferior, ainda incerta.
– Vou tomar todo o cuidado. Confie em mim. – ele sorriu.
sorriu de volta e caminhou para a pista de dança para avisar que já estava indo embora. Diria para a amiga que dormiria no apartamento de , torcendo para que ela não estranhasse o fato dela querer dormir sozinha. foi até , que continuava próximo ao bar, agora conversando com uma garota.
– Estou indo embora. – avisou e puxou o amigo até que estivessem a uma distância segura dos ouvidos alheios – Estou indo com a para Silver Lake. – arqueou as sobrancelhas – Vamos sair com o Carl e ele volta pra te pegar depois.
assentiu.
– Toma cuidado, cara. – colocou uma mão em seu ombro – E divirtam-se. – sorriu para o amigo que logo lhe deu a costas.
Algumas pessoas o cumprimentaram no caminho até a saída e tomou cuidado para perceber caso alguém estivesse o observando mais atentamente. Já no lado de fora, avistou seus dois seguranças e caminhou até eles. Outros seguranças da boate se amontoaram em frente aos dois carros até entrar. já estava lá dentro, ainda com um copo de bebida na mão.
– O outro carro vai sair na frente e vai até o hotel. Vamos esperar um pouco e então iremos. – o motorista informou.
agradeceu logo depois e voltou a encarar a garota, que soltou um risinho. Ele chegou mais perto, ansioso para beijá-la, mas ela acenou com a cabeça para os seguranças, evidenciando que eles ainda não estavam totalmente sozinhos.
– Nada vai sair daqui. – ele sussurrou, chegando mais perto – Você não faz ideia dos segredos que eles guardam. – riu.
– Ah, é? – colocou a mão livre em seu ombro para afastá-lo minimamente – Segredos seus?
– Não. – beijou sua bochecha – Você é meu primeiro.
A americana sentiu seu rosto esquentar diante da declaração. Tomou todo o líquido que restava no copo e sorriu para ele no instante em que o carro começou a andar.
Entraram no flat às pressas e assim que fechou a porta, antes mesmo de ligar as luzes, a puxou para o beijo que estava esperando para dar a noite toda. ofegou diante da pressa que ele tinha, mas não tardou em agarrá-lo pelos ombros e demonstrar o quanto ela também queria aquilo. Céus, como era insano beijá-lo.
– Enfim sós! – falou, ainda com os lábios muito próximos aos seus, despejando seu hálito quente e alcoólico em seu rosto.
Afastou-se para ligar as luzes e foi até o bar. aproveitou para se jogar no enorme sofá. voltou para a sala com dois copos nas mãos, tomando o líquido de um deles enquanto a observava descansar. levantou.
– Você bebe whisky? – ela perguntou, pegando um dos copos.
– Você não?
Ela só deu de ombros e tomou um gole generoso, fazendo uma careta depois. Pousou o copo na mesinha de centro e chegou mais perto dele, sorrindo. Ela sentia que poderia listar todas as coisas que achava sexy em , especialmente a forma que seus olhos brilhavam enquanto ele levava o copo até a boca e como seus lábios úmidos se curvavam em um sorriso pequeno. E os seus olhos, ah, os seus olhos. Em um momento pareciam tão carinhosos, em outro, tão mordazes. Era de tirar o fôlego.
Inclinou-se para ele, contornando seu queixo com a ponta das unhas e descendo-as para seu pescoço.
– Você me deve uma dança, . – sorriu e caminhou para perto do moderno aparelho de som.
– Não tenho CD’s aqui. – foi para perto dela, já tirando o celular do bolso para que ela pudesse usar.
– Sempre podemos contar com o rádio.
começou a mexer no aparelho, buscando uma estação e tentando se livrar do chiado que fazia.
– Parece que suas rádios não são tão legais durante a madrugada. – riu quando ela bufou por não encontrar nada dançante.
– Droga de rádio! – ela resmungou – Calma, vamos lá... Isso! – comemorou ao encontrar uma música, já puxando para o centro da sala.
– Isso não me parece muito dançante. – ele riu.
– Shhhh! Preste atenção na letra!

HURRICANE - PANIC AT THE DISCO


Are you worth your weight in gold?
(Você vale seu peso em ouro?)
'Cause you're behind my eyelids when I'm all alone
(Porque você está atrás de minhas pálpebras quando fico sozinho)
Hey, stranger, I want ya to catch me like a cold
(Ei, estranha, eu quero que você me pegue como um resfriado)
You and God both got the guns
(Você e Deus possuem as armas)
And when you shoot I think I'd duck
(E quando disparar acho que eu deveria me esquivar)


riu quando ela tirou o copo de sua mão e começou a mover os braços, realmente conseguindo dançar aquilo. o chamou para mais perto, sem parar de cantar, frisando certos trechos da música, como se cantasse especialmente para ele.
O tom sexy da canção parecia aflorar o desejo de em tomá-la nos braços e driblar todo aquele ballet provocativo. Era maravilhoso vê-la dançar, tão livre, tão solta, mas ele queria tocá-la, beijá-la e de preferência, sem restrições.

I led the revolution in my bedroom
(Eu liderei a revolução em meu quarto)
And I set all the zippers free
(E abri todos os zíperes)
We said no more war, no more clothes, give me peace
(Nós dissemos sem mais guerras, sem mais roupas, me dê paz)
Oh, kiss me!
(Oh, me beije!)


Sem mais esperar, ele a puxou pela cintura, movendo o corpo junto ao dela, tentando encontrar seu ritmo, tentando entrar em sua sintonia, que parecia tão única. Quando ela cantou o trecho final antes do refrão, ele só pôde atender seu pedido, tomando seus lábios em um beijo desesperado.
não parava de dançar e suas mãos agora corriam soltas pelos braços do rapaz, deslizando até sua nuca e arranhando a região, ouvindo-o rugir em sua boca. E ela queria gargalhar tamanho era seu prazer em tê-lo tão perto.

Hey, hey, we are a hurricane
(Hey, hey, somos um furacão)
Drop our anchors in a storm
(Jogue nossas âncoras em uma tempestade)
Hey, they will never be the same
(Hey, eles nunca serão os mesmos)
A fire in a flask to keep us warm
(Uma chama em um frasco para nos manter excitados)
'Cause they know, I know
(Porque eles sabem, eu sei)
That they don't look like me
(Que eles não se parecem comigo)
Oh, they know, I know
(Oh, eles sabem, e eu sei)
That they don't sound like me
(Que eles não soam como eu)


Cansada de provocá-lo e sentindo o álcool ferver sob sua pele quente, se agarrou ainda mais a ele, cravando as unhas em sua pele e adentrando a camisa que ele usava, sentindo seus músculos se contraírem com seu toque. Sem que pudesse pensar sobre, os dedos que subiam por sua barriga já estavam liberando os botões de suas devidas casas, deixando sua pele e seus pequenos sinais à mostra. sentiu sua cabeça rodar. Aquele era um novo nível.
Caminharam aos tropeços até o corredor dos quartos, o mesmo em que se beijaram pela primeira vez. se livrou das sandálias pelo caminho e da camisa. Já no quarto, ela rebolou contra ele, ainda ouvindo a música que tocava na sala. Sem conseguir se conter, puxou sua camiseta para cima, tocando a barriga dela com carinho, abaixando-se para beijar a região próxima ao umbigo. Foi a vez de ver tudo girar.
levantou, levando-a até a cama, onde caíram e rolaram entre beijos quentes. Suas mãos exploravam seus corpos sem calma alguma e beijos nervosos eram dados em toda a pele visível enquanto suas pernas se entrelaçavam.
Eles ainda dançavam, só que de uma forma nada convencional. Havia dança quando seus braços se moviam para cima e para baixo e quando suas pernas deslizavam pelo colchão, e suas expressões eram dignas do melhor dançarino no auge de sua entrega à dança.
Diminuíram o ritmo dos beijos aos poucos, ávidos por ar. Suas respirações ofegantes faziam parte da trilha sonora e enquanto estavam deitados na cama, se limitou a lhe oferecer sua mão, que afagou com uma carinho sonolento. Percebendo isso, sentou na cama para encará-la melhor.
– Cansada?
– Um pouquinho.
E ambos riram, porque aquele diálogo fora o início de tudo.
– Espere um pouco. – falou e foi até a sala para desligar o rádio.
Notando o silêncio, fechou os olhos, sentindo o cansaço tentar dominar seus sentidos.
– Pode dormir, se quiser. – falou, já de volta, sentando-se novamente na cama, afagando seus cabelos.
se abraçou à ele, sonolenta demais para recusar, mas algo ainda piscava na parte sóbria de sua mente.
– Não posso. – sua voz se arrastava.
deitou ao seu lado, puxando o edredom para cobri-la.
– Não posso dormir com você, não posso. – ela falava, já de olhos fechados e sorriu.
– Não vamos fazer nada. Só vou ficar aqui e ver você dormir.
– Eu sei, mas – ela levantou os olhos para encará-lo –, não posso dormir com você. – ela frisou a frase e franziu a testa – Uma vez – começou a contar, aninhando-se ao peito dele –, uma vez eu li um livro – suspirou –, e ele dizia que o sono compartilhado é o corpo de delito do amor.* – abraçou-o – Você entende, ? Entende?

*Do livro A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera.

Capítulo 9


"Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. (...)
Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam.(…)
Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar."

(Barba ensopada de sangue – Daniel Galera)


– Eu preciso sair – desviou o olhar para espiar por entre as persianas e verificar se não tinha ninguém vindo para sua sala – Já são quase seis da tarde, é o fim do meu expediente.
– Oh, tudo bem! – sorriu na tela – Aqui são quase dez e meia e eu ainda nem tomei café. – ambos riram. Aquela era uma das poucas vezes que os dois conseguiam conversar por teleconferência desde que viajara para voltar ao trabalho com o grupo. A diferença de horário era uma enorme dificuldade (ainda era terça-feira para a americana, mas para já era manhã de quarta) e isso fez com que o contato fosse mantido, na maioria das vezes, apenas por rápidas mensagens de texto.
– Mas, começou –, você tem pensado na minha proposta? – ele aproximou ainda mais seu rosto da câmera, esperando que ela falasse.
já vinha pensando sobre o tempo que passaria longe dela antes mesmo de voar para continuar com a turnê. Por isso, enquanto se despedia dela, ainda no flat, propôs que passasse algum tempo com ele na Austrália. Assim que verbalizou a vontade de tê-la com ele por alguns dias, ela negou, julgando tal viagem impossível de ser feita. Como ela poderia pegar um avião para tão longe assim, do nada? Que desculpa daria no trabalho? E para sua orientadora? E o mais importante: o que diria para ? Era impossível. Teriam de lidar com a distância como pudessem. Ele lá e ela em Los Angeles.
, no entanto, a fez prometer que pensaria no assunto, e ela pensou bastante até. Pensou em como queria passar pelo menos uma semana com ele, acompanhando seu ritmo de shows, conhecendo melhor os outros rapazes e até ele mesmo. Mas como? pensava em uma forma de unir o útil ao agradável: as suas pesquisas para a monografia seriam uma boa desculpa para uma viagem. Pelo menos uma boa desculpa para e talvez . Quanto à universidade, ainda estava tranquila, só precisava encontrar uma boa desculpa para dar por lá.
– Ainda não me parece uma boa ideia, . – mordiscou o lábio inferior e se remexeu na cadeira – Você sabe que eu adoraria, mas são muitas coisas para se pensar para que essa viagem aconteça. – suspirou – Sinto muito.
O cantor se remexeu na cama, colocando um travesseiro no colo, ainda analisando a expressão da americana.
– Olha, hoje é o último dos três shows aqui em Adelaide e amanhã iremos para Perth. Depois disso passaremos um bom tempo em Melbourne. Seria perfeito, ! – ele enfatizou a última frase – Posso tentar ajudar a acelerar os documentos para a viagem e...
– Calma, ok? – ela soltou um riso fraco – Eu prometi que pensaria e estou pensando. Só espere mais um pouquinho, preciso ver se consigo me organizar e – fechou os olhos, não querendo falar sobre para ele –, assim que eu decidir algo contarei pra você. – sorriu – Agora eu preciso ir.
– Quando nos falaremos de novo? – ele quis saber, mas apenas levantou os ombros, em um claro sinal de que não fazia ideia, e suspirou – Já estou com saudades.
As palavras quase sussurradas aqueceram a garota de uma forma diferente, fazendo seu interior se contrair. Ela arrastou a cadeira para mais perto da mesa, apoiando-se pelos cotovelos na mesma.
– Saudades de alguém que conhece há tão pouco tempo? – um quase sorriso tomava conta de seus lábios.
riu, mexendo nos cabelos. O sorriso permaneceu em seu rosto, fazendo com que seus olhos se comprimissem de uma forma incrivelmente fofa.
– Não me peça para explicar, é o que eu sinto. – ele deu de ombros, fazendo apertar os lábios para reprimir a vontade de ronronar com tamanha fofura. Como ele conseguia? – Mas você precisa ir e eu não vou mais ficar falando. – riu.
– Bom show hoje! Divirta-se e divirta sua platéia.
Ela sorriu e mandou um beijo, vendo-o fazer o mesmo antes de encerrar a conexão. Encarou a tela, agora negra, e soltou um longo suspiro. Depois sorriu, segurando a pontinha da unha do polegar entre os dentes, logo começando a rir sozinha, largando os braços sobre a mesa e deitando a cabeça sobre eles. Aquele sentimento desconhecido começava a borbulhar em seu peito e parecia fazer cócegas em seu coração. O riso vinha fácil quando ela era atingida pelo afeto de , mesmo que ele estivesse tão longe.
Era por isso que ela queria tentar. Queria tentar ir até ele e tentar descobrir o que era aquilo. E não havia melhor lugar do que perto dele e longe de tudo.

[...]


– Caroline vai te matar! – riu – Como é que você conseguiu rasgar outra calça? – apoiou as mãos nos joelhos ainda rindo.
– O pior é que assim não dá nem pra vestir e continuar fingindo que é estiloso. – entrou na brincadeira, jogando-se sofá ao lado do amigo.
rolou os olhos para os dois, ignorando-os e colocando um dos pés apoiados no braço do sofá para tentar visualizar o estrago em seus jeans escuros. O tecido tinha cedido logo atrás das coxas enquanto ele corria com em alguma brincadeira idiota que ele nem se lembrava mais qual era.
– Talvez você precise de um número maior, ! – Josh, o baterista da banda, gritou do sofá onde estava deitado, do outro lado da sala.
O garoto apenas soltou uma risada forçada, fazendo todos os outros gargalharem.
– Acho melhor você ir trocar isso aí – apareceu pelo corredor, apontando para a perna do outro –, logo vão nos chamar.
saiu e tomou um lugar no sofá.
– E aí, , o que você nos conta? – perguntou, sorrindo malicioso para o amigo.
O garoto franziu a testa, não entendendo o tom.
nos contou que você estava falando com a mais cedo. – sua expressão ficou ainda mais confusa – Ele ouviu algo atrás da porta. – riu – Dirt talk?
rolou os olhos e atirou a tampinha de uma garrafa nele, mas não segurou a risada também.
– Vocês são ridículos.
– Como ela está? – perguntou.
– Ela está bem. – deu de ombros – Seguindo a vida dela por lá.
– E você desistiu da ideia maluca de trazê-la para cá?
– Quem? A ? – apareceu, roubando a latinha de energético de e sentando ao seu lado, observando os outros para se inteirar da conversa.
– A própria. – confirmou.
– Não desisti não, senhor. – respondeu a pergunta de , olhando diretamente para ele – Ela está pensando sobre o assunto e se tudo der certo ela passará algum tempo em Melbourne conosco.
– E você já falou com alguém sobre isso? – estava sério pela primeira vez na conversa – Quer dizer, alguém além de nós. Alguém responsável. – voltou a rir.
– Já comentei, mas por alto. Volto a falar antes de viajarmos para Perth. Até porque se ela vier mesmo, todo mundo vai ter que ser avisado e precisaremos ser cuidadosos ao máximo.
Awn! – debochou – Todo cuidadoso com a amada! Que orgulho, !
– Tem mais é que ser! – voltou a falar – Já meteu a menina na maior furada mesmo! – riu.
– Eu jamais a colocaria em exposição, mas não tem como ficar todo esse tempo longe – passou as mãos pelo rosto, suspirando –, e logo agora que as coisas estão começando a dar certo.
esticou o braço para tocar o ombro do amigo e dar tapinhas de consolo enquanto voltava a falar.
– Mas vocês acham que vai ser de boa pra todo mundo? Digo – coçou o queixo, pensando como melhor se expressar –, não que ela seja uma celebridade ou algo do tipo, mas por ser namorada do muitos a conhecem e tal.
– Não acho que vá rolar clima estranho, todos já a conhecemos. – deu de ombros – Tudo bem que vocês dois – apontou para e – já passaram mais tempo com ela, mas nada que uns dias conosco não resolvam. – sorriu.
– Conhecemos nossa equipe. – falou – Acho que vai ser de boa, e mesmo achando que ela vai ser muito louca se vier – riu –, será muito bem recebida assim que chegar.
sorriu para os amigos, rezando internamente para ela aceitasse.

[...]


À noite, no apartamento do noivo, o ajudava a arrumar as coisas para a volta de sua turnê. Ambos estavam sentados no chão ao lado da mala aberta e roupas estavam espalhadas pela cama, a fim de que pudesse observá-las e criar combinações de peças. dava algumas sugestões e assim eles iam preenchendo a mala com as roupas devidamente dobradas.
O cantor poderia simplesmente escolher algumas peças e colocá-las na mala, mas aquilo era como um ritual para eles, um momento de distração para o problema da distância que enfrentariam em alguns dias. Distância talvez até maior do que poderia supor.
– Ah não, ! – balançou a cabeça para ele – Essa camisa velha não! – o cantor fez uma cara de desgosto, mas largou a camisa branca com estampas geométricas no colo novamente – Inclusive acho que você nem deve mais usar isso. Passa pra cá! Acho que fica boa em mim.
Ele riu, embolando o tecido e jogando para ela, que colocou em frente ao corpo e analisou por alguns segundos, logo voltando a falar que ficaria para usar como pijama. apenas deixou seu olhar analisar cada pedacinho do rosto dela, como se ele já não soubesse de cor cada traço e cada expressão.
Deixá-la para ficar dias e dias na estrada nunca era inteiramente bom, mas nunca deixava a distância ser um problema e sabia que aquilo era um dos fatores pelos quais aquele relacionamento sempre dera tão certo.
Assim que a mala foi fechada, os dois ocuparam a cama enquanto a TV transmitia uma comédia romântica qualquer já repetida várias e várias vezes.
– Esses filmes estão se tornando um saco – ele resmungou, apontando para a tela.
ergueu a cabeça de seu peito para encarar seus olhos, sorrindo.
– Como assim? Você costumava gostar, pelo que me lembro.
fez um barulho com a boca, como se aquilo para ele já não fosse nada de mais. E não era. Ele havia desenvolvido uma teoria sobre filmes como aquele.
– Eu gostava, mas quando estávamos no colegial e isso era algo irreal ou algo a ser conquistado. – ele deu de ombros – E quer saber? Esses filmes não mostram a melhor parte das coisas.
Sua expressão era de quem fazia pouco caso. riu e se colocou de bruços para observá-lo melhor.
, filmes adultos são em canais específicos. – deu uma risadinha, mas ela sabia que ele não estava falando de sexo.
– Ei, eu não falei sobre isso! – ele riu também.
– Eu sei. – ela tocou seu queixo e o apertou por alguns segundos – O que é a melhor parte que falta então, senhor ?
– Essa! – ele abriu os braços, mas logo voltou a envolvê-la com eles – Olhe para a televisão – e assim ela fez –, veja só esse casal! Sofre o filme inteiro!
riu daquela constatação boba e óbvia.
– Isso faz parte do drama, meu amor. – seu tom era o de quem explicava algo para uma criancinha – Que graça teria se não fosse assim?
a olhou como se ela não estivesse entendendo nada.
– Pois eu te digo que nosso relacionamento tem muito mais graça que esse filme.
sorriu para ele com a expressão encantada. era mesmo incrível.
– Vamos fazer uma breve análise! – ele continuou a explicar seu ponto de vista – Depois que tudo o que está acontecendo com eles for superado e eles finalmente ficarem juntos, o filme acabará e tudo o que teremos serão os créditos na tela.
Intrigada, a garota aproximou ainda mais seu rosto dele, esperando que ele continuasse.
– E a melhor parte não passa no filme. E a melhor parte é, obviamente, momentos como esses. – olhou para os dois abraçados na cama em meio à penumbra do quarto – Uma conversa franca antes de dormir, uma sessão de cócegas logo pela manhã, beijos e risadas durante o café... Esses dois nunca tiveram isso. A melhor parte de ser um casal não passa nesses filmes. A calmaria, a segurança...
não sabia o que dizer.
– Eu e você somos mais legais que esses dois na TV. – ele sussurrou para ela, que continuava com a expressão encantada – Nós dormimos de conchinha, nós brigamos por causa das compras do mês e fazemos amor no chão da sala quando temos vontade. Eles não fazem isso.
A garota sentiu seu coração apertar no peito, mas não sabia exatamente se era um aperto bom ou ruim. Por um momento pareceu ser um pouquinho de cada. Momentos como aqueles costumavam encher seu peito de alegria e reiterar todo o amor que ela sentia por . Os tempos, entretanto, eram outros e seu interior estava longe de ser uma calmaria e território de um só. Mas não deixava de ter razão: eles tinham um amor melhor do que muitos contados em histórias de cinema. Eles tiveram a sorte de um amor com peças tão encaixáveis que nada parecia mais certo do que aquilo.
Até aparecer.
Mas ela não ia pensar nisso. Não enquanto estivesse ao lado do homem mais incrível que conhecia. O homem que ela amava.
mordeu os lábios e deslizou dois dedos pelo peitoral do noivo, subindo por seu pescoço e chegando a seu maxilar, que ela envolveu com carinho.
– Você é incrível, . – sorriu com a voz carregada de emoção – A adulta havia quebrado um paradigma da mais jovem e eu nem havia me dado conta.
Aproximou seus rostos e o beijou lentamente, molhando seus lábios de forma sensual e completamente íntima. sorriu contra os lábios dela.
– Eu já quis ter um amor como nos filmes, mas você tem razão – ela beijou a ponta do nariz dele –, eu tenho algo muito melhor.
Mas seria o suficiente?

Em três dias, já havia viajado para começar a parte européia de sua turnê. Em Los Angeles, se desdobrava entre a UCLA e o trabalho, usando isso ao seu favor e como uma maneira de manter a mente ocupada.
Ainda antes de viajar, logo após ver uma mensagem de dizendo que estava pensando nela, foi tomada por mais um daqueles impulsos que provocava e plantou a semente da mentira que a levaria até a Austrália, caso ela realmente fosse.

“– Me pareceu ótimo e minha orientadora adorou a ideia. Nessas comunidades de refugiados eu teria a oportunidade de lidar com pessoas não tão distantes do eixo irradiador de suas culturas e religiões, como é aqui na América. – ela deixou a frase no ar, como se ela mesma ainda ponderasse – O que você acha?
– Não é perigoso? – soltou um riso leve por sua preocupação, mas o coração batia acelerado – A decisão é sua, meu amor. Se você precisar viajar para fazer um trabalho ainda melhor com a monografia, tem todo o meu apoio.”

Mas não era somente com que ela teria de lidar caso quisesse ir até , e a segunda pessoa entrou pela porta de seu quarto sem nem mesmo pedir licença. não precisava dessas coisas.
– Vai largar isso aí um pouquinho pra jantarmos juntas?
tirou a atenção do computador e girou a cadeira na direção da amiga, que se jogava em sua cama, ainda olhando em sua direção.
– Vamos jantar no restaurante da esquina? Estou com vontade de comer uma coisinha diferente.
riu.
– A comida da esquina não é uma coisa diferente, .
A outra rolou os olhos, mas ignorou a gracinha da amiga.
– Levanta logo daí e vá se trocar que eu estou com fome.
apenas deu de ombros. Tanto fazia a comida de casa ou do restaurante da esquina, afinal, também estava com fome. Desligou o notebook e levantou, já se alongando. Suas costas reclamaram um pouquinho, pedindo por uma massagem de , mas ela teria de se contentar com a bolsa térmica pelos próximos dias. Checou as horas no celular e o deixou no criado mudo antes de ir até o banheiro para um banho rápido.
, que já estava pronta, continuou ali, pensando em qual prato pediria, até que ouviu o típico barulho de um celular vibrando sobre uma superfície de madeira polida. Era o celular de .
Esticou o braço preguiçosamente e pegou o aparelho que piscava uma mensagem. não teria dado importância e teria devolvido o celular ao lugar se o nome que piscasse no remetente não fosse o de . Seu rosto rapidamente se contorceu em confusão e seus olhos procuraram a barra superior da tela que passava o conteúdo escrito rapidamente. As palavras babe, esperando e Melbourne causaram mais estranhamento do que o fato de sua amiga estar trocando mensagens com . Que diabos era aquilo? Ainda confusa, largou o celular de volta no criado mudo e sentou na cama, meio agoniada. Será que estava...?

“– , , por acaso, já deu em cima de você?
(...)
– Tá maluca, ? O garoto conhece o e sabe que somos noivos. De onde tirou isso?
– Sei lá! – riu aliviada – Achei que ele estava te olhando de um jeito estranho.”


Ela sabia que não estava vendo coisas!
Não, mas havia negado que ele tivesse dado em cima dela ou qualquer coisa do tipo quando perguntara. também não se preocupou em perguntar novamente. Será que ele havia tentado algo? O que aquela mensagem queria dizer?
Assim que o barulho do chuveiro cessou, ela tratou de melhorar a cara e fingir que não tinha visto nada. Pegou o celular novamente e colocou no bolso da calça. Ia fazer falar o que quer que estivesse acontecendo.
A outra, sem ter ideia do que estava prestes a acontecer, voltou ao quarto já procurando por uma roupa mais quente e iniciando uma conversa aleatória com sobre a editora onde ela trabalhava. deu seu jeito de chegar ao assunto que queria.
– Falando em revistas – ela agarrou o travesseiro, meio nervosa com o que poderia descobrir –, você tem falado com e ? – forçou seu tom casual.
sentiu um frio na barriga ao ouvir o nome dele, mas logo disfarçou e em seguida achou melhor negar.
– Não. – balançou a cabeça, enfiando o rosto por entre as roupas penduradas nos cabides – Eles voltaram para a turnê, não é? Devem estar todos ocupados.
não parece estar ocupado pra você, pensou.
– Poxa, achei que vocês estivessem se falando, sei lá. São caras legais.
– É... – se permitiu sorrir um pouquinho – é uma peça, né? – as duas riram, mas cada uma escondendo seu sentimento particular.
– Eles gostaram de você. – continuou – então!
achou que a conversa estava tomando um rumo perigoso, então tratou de pegar duas blusas aleatórias no guarda-roupa e quando estava prestes a desconversar e perguntar qual a amiga achava melhor usar, tirou seu celular do bolso, balançando-o em sua direção. Não tinha paciência para rodeios e estava curiosa demais para agir sorrateiramente.
– Tanto que parece interessado em continuar mantendo o contato. – ela continuou e arqueou uma sobrancelha assim que a amiga virou em sua direção.
Atenta à mudança de sua expressão, não poderia mais ser enganada. Aquela poderia ser a primeira mensagem que enviava para , mas ela soube que não quando a amiga empalideceu e arregalou minimamente os olhos. A expressão de susto em seu rosto entregara parte do segredo. engoliu em seco, tratando de mudar sua expressão, mas interiormente ela soube que demorara demais.
– Como assim? – seu tom não fora nada convincente e ela sabia disso.
continuou a encará-la.
acaba de te enviar mais uma mensagem. – esticou o aparelho em sua direção.
tremeu de nervoso, mas caminhou até a amiga e apanhou o aparelho, olhando-o rapidamente e largando sobre a escrivaninha.
– Não vai ler?
– Leio depois. Você não estava com fome? – seu estômago revirava, mas não era pela falta de comida.
... – conhecia aquele tom e ele não era nada bom – O que está acontecendo?
Enquanto encarava a expressão visivelmente nervosa da amiga, fazia uma breve pesquisa mental, tentando se lembrar de algo que não tivesse dado a devida atenção, mas não conseguia lembrar de nada muito relevante. Não depois do show do John em que encontraram os meninos.
O que diabos havia perdido?
– Não está acontecendo nada, . – ela começou a se vestir, rezando para que a amiga esquecesse aquilo – Não posso mais receber uma mensagem?
estava na defensiva e o tom impaciente fez arquear as sobrancelhas novamente.
– É claro que pode, mas por que você me disse que não estava falando com ele? E ele te chama de babe! Não sabia que estavam tão íntimos.
– Você leu? – virou para ela, tentando mascarar o nervoso pela raiva de ter a privacidade invadida.
– Não deveria? É algum segredo? – antes que pudesse rebater, ela continuou – Eu não li, mas você sabe que seu celular passa a mensagem na barra de cima, acabei vendo sem querer, mas isso não importa. Quero saber o que perdi aqui!
– Você não perdeu nada. é um cara atencioso e só. – virou-se para entrar no banheiro, engolindo a súbita vontade de chorar.
Droga! Queria xingar de todos os palavrões que conhecia. Estava sendo encurralada pela amiga por causa dele. Era tudo por causa dele!
, por outro lado, estava começando a ficar com raiva. Por que não falava de uma vez? Por que ficava se esgueirando? Se não tivesse nada a esconder suas atitudes seriam completamente diferentes e sabia disso como ninguém.
– Então você não vai me contar? Vai fingir que não tem nada de mais acontecendo, ? – ela continuou falando, ainda sentada na cama e esperando a amiga sair pela porta do outro cômodo.
Parecia claro para que estava tentando algo com a amiga.
– Vamos lá, ! Pare de agir como se pudesse me esconder algo! – e riu fracamente.
não sabia o que fazer. Suas mãos começavam a tremer, seu estômago parecia revirar e ela não conseguia pensar em qualquer mentira que pudesse desviar da real versão dos fatos. Ela não conseguiria mentir.
Impaciente, a outra levantou em direção ao banheiro.
está dando em cima e você não está sabendo se livrar dele, é isso?
Assim que passou pela porta viu a amiga com os braços apoiados na pia de mármore e a cabeça baixa. Encostou-se no batente e esperou que ela falasse, mas como ela sequer se movia, voltou a indagar.
– Ele está te cercando, ?
respirou fundo e encarou seu beco sem saída. Mas era sua amiga, podia confiar nela.
é um cara adorável. – fechou os olhos – Ele nunca foi invasivo, só chegou até onde eu deixei.
A expressão de mudou completamente quando a amiga terminou de falar. Ela quase pensou que havia escutado errado.
– Espera aí, ! – riu, quase nervosa – Fale claro comigo. Como assim até onde você deixou? Que diabos...
– Eu deixei! Deixei que ele chegasse perto, deixei que ele flertasse comigo, eu... – levou as mãos até o rosto, balançando a cabeça.
deu um passo para trás, boquiaberta, tentando assimilar o que a amiga havia dito.
– Você o quê? – falou um pouco mais alto – O que você tá me dizendo, ? Você... Vocês dois...
Então liberou o que ela tanto escondia, saindo do banheiro e passando pela amiga como um furação em direção ao quarto.
– Nós nos beijamos! Eu deixei! Nós ficamos juntos e nós quase... – deixou a frase morrer, sentindo seus olhos arderem e a garganta fechar para evitar o refluxo.
Foi aí que se deu conta da gravidade da situação. A amiga estava traindo . Era ridículo até em pensamento.
– O que você tá me dizendo, mulher? Você enlouqueceu?! – gesticulava muito – E ? – riu nervosamente – Você só pode ter ficado maluca!
se sentiu uma criança novamente. Tão pequena e imprudente, tomando uma bronca merecida. Mas talvez já fosse tarde demais.
não tem nada a ver com isso! – seu peito doía ao falar dele em meio aquela discussão.
– Como não tem nada a ver?! – parecia incrédula demais – Ele é seu noivo! Por Deus, ! Não me diga que você fez isso! Por Deus!
– Eu não escolhi estar nessa situação, ok? Aconteceu! não tem nada com isso! Eu continuo o amando do mesmo jeito.
levou as mãos até a cabeça, tentando, em vão, se acalmar.
– Diz pra mim que foi só uma vez e que você já deu um ponto final nisso. – começou a andar pelo quarto – Diz pra mim que essa mensagem é de um garoto que está inconformado com a rejeição. Porque, tudo bem, acontece, ele vai superar. Mas você precisa...
– Não posso. – a interrompeu – Não posso dizer isso.
– Como assim não pode? – falou pausadamente, respirando fundo.
– Não posso porque eu não o rejeitei! E não quero fazer isso! – gritou.
Estava pela primeira vez verbalizando aquilo com vontade, quase sem medo, mas a agonia só crescia em seu peito.
– Você está fora de si, ! Eu não vou deixar que...
– Eu tentei, ok? Tentei afastá-lo, mas não consegui! , eu... – as lágrimas já corriam por suas bochechas – Ele me faz... Eu... Eu me sinto diferente, eu gosto de como...
– Ah, pelo amor de Deus! – explodiu – Você está se ouvindo? Que porra você tá me falando, ? Você tem um noivo! Um noivo que te ama mais do que um dia eu achei que alguém pudesse amar! E você o ama também! Será que preciso te lembrar disso?!
– São coisas diferentes, . – abraçou a si mesma, tentando controlar a tremedeira – Não pense que eu sempre quis isso, mas... – ela não conseguia encontrar as palavras certas, não com a amiga a encarando daquele jeito, como se a abominasse por um momento.
– Eu nunca pensei que você seria esse tipo de pessoa.
– Que tipo de pessoa? O tipo de pessoa que se permite fazer o que tem vontade?
– Não seja ridícula! Se quer fazer o que tem vontade, seja honesta consigo mesma e com !
– Não fale como se eu... – fechou os olhos – Eu amo o . Nunca precisei fingir amor, nunca!
– Então porque diabos está tendo algo com ?
– Aconteceu, ! Aconteceu!
– Ok! – tentou se acalmar – Vamos resolver isso, então. Vocês continuam se falando, certo? – a amiga assentiu – Pois então ligue pra ele, diga que tudo foi um erro. Diga o que você acabou de dizer pra mim: que você ama o e que vocês não podem ter nada.
riu sem humor algum.
– Não posso fazer isso. Não é o que eu quero fazer.
– Você quer continuar enganando o , é isso?
– Eu só quero ter a chance de poder entender meus sentimentos. Só quero ter certeza do que sinto. Só quero ter certeza de que, se um dia eu virar as costas para um, eu não vou me arrepender!
ficou assistindo a amiga chorar em silêncio por um bom tempo, até que foi a até ela, a segurou pelos ombros e a fez sentar na cama de frente para si.
– Eu quero que você me conte como foi que isso começou.
Minutos depois, estava com as pernas cruzadas sobre a cama e encarava a parede oposta, tentando assimilar tudo o que ouvira de na última hora. Aquilo, no entanto, parecia mais uma história ridícula de tablóides do que algo real, algo acontecendo com sua amiga. Ela nunca acreditaria se outro alguém lhe contasse.
por outro lado, ainda tentava controlar o nervosismo, com os olhos pregados no travesseiro branquinho que tinha no colo. Sentia-se envergonhada. estava calada há mais de dez minutos desde que ela terminara de contar sobre o último dia de em Los Angeles. Ela sabia que a amiga não contaria nada à , mas uma pontinha de medo surgia por essa possibilidade. Seria seu inferno se isso acontecesse. Ela viveria um inferno se o fizesse sofrer. Morreria se ele a rejeitasse. Mas então porque insistia em não renunciar a o que quer que sentisse por ?
Os sentimentos humanos são confusos demais. Nossa mania de colocar tudo em termos concretos nos limita, e era por isso que não queria recuar. Ela não queria anular o desconhecido sem ao menos ter a chance de entendê-lo.
Complexo demais? E o que não é?
Ela precisava saber o que era aquilo que lhe causava. E mais: precisava ter certeza de todos os sentimentos que viviam dentro de si.
– Fala alguma coisa, pelo amor de Deus – pediu, agoniada demais pelo silêncio.
balançou a cabeça em negação.
– Não sei o que dizer. Só quero te sacudir pelos ombros até você cair na real.
riria se a situação deixasse.
– Esse é o real, . Só não é perfeito como desejamos.
continuou balançando a cabeça.
– Eu me sinto uma péssima amiga por não ter notado isso! Vocês ficaram juntos no mesmo dia que eu e Vincent nos conhecemos e – ela riu –, não acredito que não notei nada! Eu teria dado um chute nas bolas daquele moleque!
deu de ombros.
– Você estava com Vincent – falou calmamente –, e depois estava focada no início do seu namoro. Não me espanta que não tenha notado.
não tem ideia, não é?
A outra balançou várias vezes a cabeça em negação e logo as lágrimas voltaram aos seus olhos.
– Você...
– Eu não vou contar – adivinhou o que ela falaria –, sabe disso. – e logo voltou a falar com a voz mais dura – Mas sabe também que eu não concordo nem um pouco com isso. Eu realmente espero que o seu tempo seja curto e você dê fim nisso o mais rápido possível. Você e se amam. Ele não...
– Eu sei. – levantou seus olhos pela primeira vez em minutos – Eu sei que você tá com raiva e não te culpo por isso. Não vou te pedir pra me entender, já que nem eu mesma me entendo, mas é justamente por isso que não posso renunciar ao . Eu preciso de respostas.
ia retrucar, mas preferiu continuar em silêncio. Não entendia mesmo o que a amiga precisava entender, mas então lembrou da mensagem que começou com tudo aquilo.
– E o que queria com aquela mensagem? – voltou a encará-la – Ele escreveu algo sobre Melbourne.
pensou se falava ou não sobre a provável viagem.
– Ele tinha feito uma proposta antes de viajar. – suspirou – Ele esperava que eu aceitasse passar alguns dias com ele na Austrália e...
Ela parou de falar ao ouvir o riso forçado da amiga.
– E você negou, é claro! – vendo o olhar incerto da outra, mudou a expressão e voltou a falar – Não acredito que você aceitou, ! Isso é loucura, é impossível!
– Eu não aceitei nada – quase não ouviu sua voz fraca falar –, mas prometi que iria pensar e estou fazendo isso.
estava começando a ficar ainda mais abismada, se é que isso era possível. Ir até a Austrália só para vê-lo?
– Pensar?! – já havia desistido de ficar calma – O que tem pra pensar diante de uma proposta dessas? Ir viajar pra ver esse cara? No meio do semestre mais importante da UCLA? E enquanto seu noivo está em turnê cantando músicas que muitas vezes dedica pra você?
Tentando ignorar suas últimas palavras, focou no tom enojado que ela se referira à .
– Desde quando você o abomina tanto assim, ? Achei que você gostasse dele!
– Oh, e você espera que eu fale dele como? Sorrindo? – levantou-se da cama – Não gosto desse que se aproxima das pessoas pra roubar delas o que elas amam.
– Ninguém pode roubar o que não é propriedade.
riu falsamente.
– Sem esses discursos, por favor! Você entendeu o que eu quis dizer! Mas que seja! – virou-se para – Você não vai atrás dele. E se eu não te convencer que isso é loucura, te obrigo a ficar.
Foi a vez da outra rir.
– Você não pode tomar decisões por mim, ! Você é minha amiga e eu te amo, mas você não tem esse direito!
– Pois eu me sinto no direito quando vejo que você está fora de si! Jogando anos de namoro pela janela por um cara que mal conhece, que mora em outro continente, com uma vida completamente diferente da sua e sabe lá quantas não ganha com o mesmo papinho! – balançou a cabeça – Não vou te deixar cometer mais loucuras.
cobriu o rosto com as mãos e soltou um urro que era um misto de raiva e desgosto consigo mesma.
– Você não consegue entender que talvez eu precise ir até lá? Que eu precise descobrir como me sinto quando estou com ele longe de todas as influências que sinto aqui? Que preciso saber o quanto meu amor por é forte para lidar com esse momento? Que talvez essa viagem seja a resposta que eu precise?
– O que você quer são desculpas para estar com ele! – o rosto amargurado e decepcionado da amiga fez o coração de se apertar mais ainda – Eu não posso acreditar que você está agindo assim. – foi a vez de começar a chorar – Isso não tem como dar certo, . Não tem.
levantou as mãos em sinal de rendição e logo saiu do quarto, deixando mais confusa do que nunca.

[...]


– Vamos lá, ! É a grande festa de início do ano letivo, a nossa última!
Savannah tentava convencer a amiga à acompanhá-la na festa daquela sexta à noite. As duas estavam saindo de reuniões com suas respectivas orientadoras e insistia que não estava no clima para festas. Estava um caco depois da discussão com na noite anterior e ainda precisou mentir para sobre seu humor quando conversaram naquela manhã. Talvez um colo dele fosse tudo o que ela precisasse. Ou um porre. E aquilo ela poderia ter indo à tal festa com Savannah.
– Posso me trocar na sua casa e irmos juntas de lá? – perguntou, mas ainda sem muita animação.
A loira, por outro lado, deu pulinhos e abraçou de lado.
– Claro que pode! Fica até mais perto!
As duas caminharam juntas até o estacionamento, com Savannah tagarelando sobre o que vestiria e o que esperava da festa e dos calouros daquele ano.
Mais tarde, assim que cruzou a entrada da enorme quadra adaptada para a festa, uma careta involuntária surgiu no rosto de . O lugar estava barulhento, propositalmente mal iluminado e decorado nas cores da UCLA que todos gostavam de ostentar. Quis ir embora no instante que a primeira pessoa passou por ela, chocando-se contra seu ombro, em uma situação normal para festas como aquela, mas ela estava sem qualquer ânimo e muito menos paciência. Ia ser uma péssima companhia.
– Vamos até o bar primeiro e depois procuramos o pessoal. – Savannah falou ao seu lado, caminhando entre as pessoas rapidamente e só a seguiu sem falar nada.
Tequila foi a primeira coisa que ela pensou em pedir e foi acompanhada animadamente pela amiga. Só saíram de perto do bar quando sentiu que poderia sorrir para as pessoas sem parecer uma louca falsa. E assim a noite se arrastou: conversas aleatórias com os colegas de turma, alguns puxões para a pista de dança, bebidas e mais bebidas. Até a garota voltar a se sentir incomodada e querer ir para casa.
Não queria ir para o apartamento que dividia com e precisar respirar o ar pesado que se instalara ali. Muito menos ir para o apartamento de , que provavelmente a faria pensar demais enquanto rolava pela cama ao invés de dormir. E então certa chave pesou em sua bolsa de mão.
No dia em que deixara Los Angeles, deixou com ela uma cópia das chaves do flat em que se encontraram. não imaginou que precisaria dela, mas a manteve guardada consigo, separada do molho de chaves que usava sempre. E se ela fosse para lá? Que horas eram na Austrália? Eles tinham fusos-horários diferentes como nos EUA, não era? Em que cidade estava mesmo? Talvez ela pudesse conversar com ele se o fuso-horário os favorecesse. Gostaria de ouvir a voz dele naquela noite antes de dormir.
Com todos esses pensamentos, levantou-se rapidamente de onde estava, fazendo Savannah e os outros direcionarem o olhar para ela.
– Savy, acho que vou pra casa. – sua voz arrastada fez todos imaginarem que ela estava cansada e ela realmente estava.
– Ah, tudo bem, – Savannah se levantou também – Eu ainda não estava pensando em ir, mas se você já está cansada...
– Não, não! – sorriu pra ela – Não precisa me levar. Só me acompanha até seu carro pra eu pegar minha mochila. Daí eu pego um táxi.
E assim elas fizeram. Despediram-se e a primeira coisa que fez ao entrar no táxi, depois de dizer o endereço ao motorista, foi checar se estava mesmo com a chave e mandar uma rápida mensagem para .

Passava pouco das cinco da tarde quando o celular de vibrou avisando sobre a mensagem da americana. Ela perguntava as horas e se ele estava ocupado. arqueou uma das sobrancelhas e a respondeu.
Era um dia sem show e ele acabara de deixar a sala de jogos em que estava com os outros. Ia dar um passeio pelo hotel, mas resolveu ir para o quarto esperar a resposta dela.
Que horas deveria ser em LA? Demorou alguns poucos minutos para encontrar a resposta ali mesmo no aparelho de celular. Eram quase duas da madrugada e estranhou. Não que pensasse que já deveria estar dormindo, ele não tinha nada a ver com isso e sequer conhecia seus hábitos noturnos, mas eles nunca haviam se falado naquele horário. Será que alguma coisa havia acontecido? Uma careta se formou em seu rosto. Mas não devia ser nada, ele se obrigava a pensar.

Assim que se viu sozinha no flat, se perguntou o que diabos fora fazer ali. Precisava parar de ser tão impulsiva, mas o pensamento nem chegou a amadurecer, pois o celular logo avisou sobre a resposta de . Ele estava desocupado e esperaria caso ela quisesse conversar.
Sorrindo, a garota retirou as sandálias e correu até o sofá, sem nem ligar as luzes. Abriu a mochila e retirou o notebook, colocando-o na mesinha de centro, esperando-o ligar para então conectar a internet. Enquanto esperava, mandou mais uma mensagem para , dizendo que esperava que eles pudessem conversar por teleconferência.
Aproveitou a espera para então ligar as luzes e procurar um espelho grande onde pudesse checar sua aparência. Quando o celular voltou a apitar, ela se sentou em frente ao notebook e esperou a conexão se estabilizar, logo sorrindo para a figura também sorridente de na tela. Seu sorriso fazia seus olhos se fecharem e lhe davam um ar ainda mais adorável. suspirou.
olhava para ela um tanto curioso também. Podia notar que ela estava um tanto descabelada e parecia estar vindo de uma festa ou algo parecido.
– Oi! – ela disse, timidamente, cruzando as pernas sobre o sofá – Sabe onde estou?
tentou notar algo de diferente, mas o alcance da câmera não era tanto assim, então ele apenas negou.
– No seu flat! – sorriu, apanhando a chave na mesa e balançando-a para que ele pudesse ver.
O garoto arqueou a sobrancelha, não entendendo o motivo dela estar ali, mas ele havia lhe dado uma cópia da chave, não havia? Então ela estava fazendo uso.
– No flat? Aconteceu alguma coisa? – seu tom não era totalmente preocupado, mas contido. deu de ombros.
– Mais ou menos. – ela sentiu a cabeça rodar um pouquinho, mas logo se recompôs, voltando a falar – Aconteceram algumas coisas chatas que me levaram para onde eu estava ainda há pouco e que acabaram me trazendo pra cá. Bom, você me deu a chave, imaginei que pudesse vir quando quisesse, não tem problema, né?
Ela falou tudo de uma vez e até rápido demais, fazendo rir um pouco.
– Claro que não! – ele voltou a sorrir – Imaginei que você poderia querer um lugar pra pensar, um lugar afastado, mas você está fazendo um ótimo uso falando comigo. – ambos riram – E que coisas chatas foram essas que te levaram pra tantos lugares? – piscou para ela, esperando que ela contasse.
Ela suspirou novamente, relaxando os ombros.
. – seus olhos baixaram e alguns fios rebeldes esconderam parte de seu rosto – já está sabendo.
A garganta de fechou por alguns segundos e seu coração chegou até a acelerar.
– Ela... Ela viu que recebi uma mensagem sua ontem e... Eu caí como uma criança, ! – choramingou – Ela perguntou se nós estávamos nos falando e eu neguei, mas ela já tinha visto a mensagem. Imagina se fosse outra pessoa, imagina se... – calou-se, pois detestava falar de para ele.
– E ela? – perguntou, visivelmente ansioso.
– Ficou uma fera, é claro! Fez questão de dizer o quanto é contra isso tudo. – suspirou – Eu me senti horrível, ! Ela estava com raiva de mim, mas esse não é o pior. – falava com a cabeça baixa, brincando com o chaveiro – Ela estava decepcionada. Decepcionada comigo!
Quando ergueu a cabeça, pôde ver lágrimas cintilarem em seus olhos. Seu coração apertou. Quis abraçá-la instantaneamente, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, a americana já voltava a desabafar.
– Não foi nossa briga mais feia, mas foi a mais dolorosa. E ela mal fala comigo! Eu tentei explicar, , tentei dizer à ela que as coisas não são fáceis como queremos e que eu preciso... Preciso entender.
Ela olhou para ele, como se esperasse que ele dissesse algo. não sabia bem o que dizer à ela. Só uma pergunta martelava em sua cabeça: e ? Mas ele não a verbalizaria.
, eu... Ela é sua amiga, vai acabar entendendo em algum momento, mas era provável que ela ficasse uma fera. Lembra do que te contei sobre ? – lançou-lhe um olhar carinhoso – Ele também foi contra e talvez até ainda seja – soltou um risinho –, mas ele está do meu lado, porque somos amigos. é sua amiga também.
balançava a cabeça, ainda chorosa.
– Por um momento me senti leve contando tudo à ela, mas depois todo o peso voltou aos meus ombros – olhou para o garoto, que a esperava continuar –, ainda mais quando eu contei que quero ver você na Austrália.
parou para absorver suas palavras por alguns segundos e sorriu. – Esse peso todo, . Você me disse, você... – ela ainda chorava e parecia levemente bêbada também – Você disse que poderia aguentar isso tudo comigo e é por isso que quero ir. Quero ir até você. Quero que você me ajude, .
olhava pra ela com carinho, querendo tomá-la em seu colo urgentemente.
document.write(Liv), você tem certeza? Você certamente bebeu um pouco e...
! – interrompeu-o – Sei o que estou fazendo, mas ainda existem muitas dúvidas. Eu espero eliminar algumas delas com você.

Capítulo 10


“Depois eu me pego cantando. Canto uma música em inglês. “I just call, porque te aaaamo.”
A música é meio a meio. E até danço também. Tento rapidamente me recompor ao me ver refletido no espelho.
Esse tipo de coisa acontece, procuro me desculpar. Embora isso seja verdade. Esse tipo de coisa realmente acontece.
Com quem ama. Ou com quem toma esses remédios iguais aos meus.
Ou estou enamorado ou o remédio é bom.”

(O cheiro do ralo – Lourenço Mutarelli)

Quando desembarcou, Carl já esperava por ela no saguão do aeroporto junto de outros dois homens que faziam parte da equipe de segurança da banda. Depois dos formais cumprimentos e algumas instruções, já estava no carro que a levaria ao hotel, mergulhada em seu já habitual mosaico de sentimentos.
Em LA ela havia ouvido de que aquilo não daria certo, que a mentira de uma viagem para fins acadêmicos cairia, mas ainda assim, uma semana depois da amiga ter descoberto tudo, ela embarcou. Parecia loucura, e talvez fosse, mas já não havia como voltar atrás e ela teve certeza disso quando foi conduzida para o interior do grande hotel, na mais absoluta discrição, e finalmente viu aqueles olhos, ansiosos, em sua direção.
sorriu, parecendo aliviado por vê-la. lhe devolveu um sorriso pequeno, timidamente cúmplice, enquanto caminhava até ele. Quando estava prestes a falar alguma coisa, um homem grandalhão ao lado dele foi mais rápido.
– Acho melhor vocês não conversarem por aqui. – ele indicou um corredor – A propósito, sou Paul. Paul Higgins.
Ele sorriu e soltou a respiração que havia prendido sem nem mesmo perceber.
– Sou , é um prazer conhecê-lo. – ela estendeu a mão que ele prontamente segurou em um cumprimento rápido.
– Eu sei, garota. – piscou – quase me botou louco durante essa semana para que nós pudéssemos recebê-la. – os dois riram juntos, mas a americana se sentiu levemente envergonhada.
– Vou deixar vocês conversarem, mas logo volto para conversarmos entre nós. Tenho algumas instruções. – e saiu falando com alguém pelo walkie-talkie.
Antes de voltar a encarar , correu os olhos pelo local, observando a grama verdinha, o caminho de pedras que levava até uma tenda aparentemente confortável e a banheira de hidromassagem que ficava mais adiante. Parecia realmente um espaço íntimo especialmente para eles. a observou analisar o local sem deixar de sorrir e sentiu um frio na barriga no momento que ela finalmente cravou os olhos nele. O sorriso agora era escancarado.
A verdade é que ele queria gargalhar. Sentia que poderia, inclusive, fazer qualquer dancinha de comemoração tamanha era a alegria em tê-la ali, somente para estar com ele, para dar uma chance para seja lá o que estivessem começando.
– Você realmente veio! Não consigo nem dizer o quanto estou feliz! – ele a abraçou fortemente, envolvendo sua cintura e quase a levantando do chão.
riu, achando-o adorável, como sempre.
– Eu posso ver! – tocou a bochecha dele com uma das mãos, fazendo um carinho leve que trouxe um arrepio para ambos.
Sua mão um pouco fria poderia indicar que ela estava nervosa, mas ele também estava, tanto que as coisas pareciam flutuar em seu estômago, mas ela estava ali agora, eles estavam juntos e era isso que importava.
– Tenho plena consciência do que você deixou em LA para vir e acredite, cuidamos de tudo pra que nada saia daqui, . – ele se aproximou, ainda segurando sua mão e com a outra tocando-lhe o queixo ternamente – Quero mais do que tudo aproveitar a oportunidade que você está dando pra nós sem causar qualquer confusão pra você.
riu.
– A maior confusão já está iniciada, . – encostou suas testas, suspirando e fechando os olhos – O que eu quero é começar a arrumar.
analisou sua expressão, rodeando sua cintura com os braços e abraçando-a novamente. aproveitou o carinho, relaxando quando os lábios dele começaram a acarinhá-la no ombro, subindo pela curva do pescoço. Mais beijos foram dados em suas bochechas e queixo até que o beijo que ambos esperavam finalmente fosse iniciado. A já conhecida sensação arrebatadora tomou conta dos dois, demonstrada fielmente pelos arrepios e pressão dos corpos, um contra o outro. Não conseguindo conter a animação, finalizou o contato com vários beijos curtos, fazendo rir abertamente.
Ela pensava que ali, longe de tudo, além de ter tempo e capacidade de discernir seus sentimentos, poderia aproveitar o tempo com , independente da conclusão que chegasse ao final de tudo. O que não entendia é que, quando se tem o coração dividido, o aproveitar nunca é pleno, nunca contempla todas as partes de um ser. Em algum momento a outra metade vai reivindicar sua atenção, vai gritar por ela, vai apertar.
E vai doer.

– Esse vai ser o seu quarto. – Paul e entravam com os pertences da americana enquanto ela girava o corpo analisando tudo – Peço desculpas por não ser um frontal, com uma bela vista do lugar, mas acredito que devido às circunstâncias esse é o tipo de quarto mais adequado.
deu um de seus sorrisos envergonhados e quando estava prestes a agradecer Paul verbalmente, uma voz a interrompeu, seguida de outros três caras entrando no cômodo sem a menor cerimônia.
– Até parece que é um quarto ruim! Se você quiser, , podemos trocar! – chegou e a abraçou, carinhoso – O meu é ao lado do . – piscou, fazendo-a rir.
– Bem vinda, garota americana! – , e disseram em coro, fazendo fila em frente à ela para abraçá-la e cumprimentá-la, perguntando sobre a viagem e aquelas coisas.
Enquanto eles conversavam e se espalhavam pelo quarto, se acomodando pela cama e poltronas, Paul resolveu que deveria entrar no papo e dar algumas instruções logo. Talvez tivesse mais trabalho com aqueles cinco, já que a garota parecia ter a cabeça no lugar. Ou não, já que estava ali.
– Pessoal, pessoal! – ele chamou a atenção de todos, que se calaram aos poucos – Aproveitando que estão todos os interessados aqui, vamos falar sobre algumas coisinhas que serão importantes no período de estada da Srta. aqui.
Os rapazes e logo assumiram uma postura mais reta, mostrando que estavam dispostos a falar sério quando o assunto era aquele. Todos já sabiam sobre os cuidados que deveriam ter enquanto a americana estivesse entre eles, para o bem de todos, especialmente para o bem dela.
– Sabemos que ela precisa de discrição para poder aproveitar o tempo em que ficará conosco e toda a equipe já está ciente disso. – Paul andava pelo lugar enquanto falava – Não demos nada além das informações necessárias para os que ainda não lhe conhecem, , então todos já sabem que: nada de comentários com pessoas fora da equipe e nada de postagens em qualquer meio da internet sobre qualquer coisa que possa ser ligada a você. Mas, além disso, eu preciso que vocês sejam discretos. Vocês cinco perambulam por aí o tempo todo, não podemos impedir que fotografem do lado de fora, então precisam pensar bem antes de levarem a moça para qualquer lugar. Não saiam sem me comunicar e , por favor, não fique em áreas do hotel em que possa ser fotografada. Se quiser acompanhar os shows, o que eu imagino que sim, não haverá problemas. Nós vamos preparar um carro em especial para lhe levar e você assistirá tudo do backstage, sem jornalistas e sem assessores de fora que possam vê-la.
Todos ouviram o manager em silêncio e completamente atentos. A situação era estranha pra , que nunca precisou se esconder daquele jeito antes. Era até um pouco incômodo, mas o que ela esperava? , por outro lado, precisara aprender a ser sutil quando queria fazer algo que não virasse alvo de comentários na internet e em qualquer outro meio de comunicação, então era só seguir o script. Não que aquilo fosse o ideal para ele – precisar esconder seus gestos de carinho de todos – mas era o que ele tinha por enquanto. Ele só esperava que fosse realmente por enquanto.
– Alguma dúvida, por favor, me digam, me procurem, gritem, sei lá! – ele sorriu – Nós vamos dar um jeito em qualquer coisa.
– Obrigada, Paul. – a garota sorriu – Muito obrigada, de verdade.
– É só o meu trabalho.
Dito isso, Paul deixou os seis sozinhos. Assim que a porta foi fechada, e desataram a falar.
– A gente precisa planejar a parte da diversão!
– Não que a gente já não tivesse pensado em algumas coisas legais pra fazer, mas...
– É claro que a gente queria sua opinião e tudo mais.
apenas riu, estava na cara que ela seria muito bem acolhida por eles.
– Liga não, ! – riu também – Desde que chegamos à Austrália não recebemos visitas então eles ficam assim meio empolgados.
– É só o jeito deles dizerem que estamos muito felizes por você estar aqui. – sorriu de uma forma extremamente fofa.
– E que mal podemos esperar pra você assistir um show nosso pela primeira vez. – chegou mais perto dela, passando o braço por cima de seus ombros e beijando sua bochecha.
– One Thing está na setlist, né? – ela perguntou sorrindo, relaxando as costas na cabeceira da cama e aconchegando-se mais ao abraço de .
– Pode apostar que sim! – respondeu.
– Essa é a sua favorita? Achei que era alguma do Take Me Home.
– Eu sei, só acho mais a cara dela. – deu de ombros.
– O que você acha, ? Qual sua favorita?
– Aliás, qual seu integrante favorito? Não vale o !
gargalhou com o tanto de perguntas que eles faziam e soube que não seria nada difícil ficar à vontade entre eles. Enquanto eles conversaram, sentiu entrelaçar seus dedos e observou pelo canto dos olhos suas mãos unidas sobre sua coxa. Era a primeira vez em anos que outro cara segurava sua mão daquele jeito e o estranhamento veio junto com um gostoso frio na barriga. Aquelas duas sensações juntas só mostravam que ela estava longe de um veredicto.
– Ok, ok! – se levantou, depois de quase uma hora de papo furado e risadas – Falta pouco tempo para o almoço, então que tal se nós deixássemos os dois sozinhos por um tempo, hein? – o garoto falou e foi logo empurrando os outros três para a porta, sob resmungos de , que insistia em ficar.
Assim que todos se despediram e ainda saíam pela porta fazendo o maior barulho, checou rapidamente seu relógio de pulso, apenas para constatar que o tempo passou voando desde que chegara ali. Esquecera completamente de enviar uma mensagem para dizendo que havia chegado bem.
– arrastou-se para a pontinha da cama, enquanto olhava para ele –, vou ao banheiro rapidinho.
Ela fez a menção de levantar, mas antes que pudesse fazê-lo o cantor segurou em seu pulso delicadamente, fazendo-a voltar para si e inclinou-se para deixar um breve beijo em seus lábios. Então ele sorriu, daquele jeito adorável que fazia seus olhos quase se fecharem, deixando que esquecesse um pouquinho a angústia que lhe acometeu segundos antes.
Ela levantou e seguiu para banheiro, apressando-se em trancar a porta e retirar o celular do bolso. Abriu uma nota em que havia colocado todos os horários que seriam pertinentes para ligar ou mandar mensagens para . Horários compatíveis com o fuso-horário de Sófia, capital da Bulgária, local onde ela deveria estar, em um campo de refugiados em que conheceria e observaria costumes culturais e religiosos de famílias que, vindas da Síria, atravessavam a Turquia e tentavam fugir da guerra civil que acometia seu país.
Era uma bela mentira. Uma bela mentira contada para alguém que confiava nela de olhos fechados.
3 a.m. na Bulgária e 1 a.m. em Londres, onde estava, em sua turnê pela Europa. estava ansiosa para saber como as coisas estavam indo. Sabia que ele estava animado porque era sempre muito bem recebido pelos britânicos. Enviou uma mensagem começando pela mentira, dizendo que havia chegado bem e que tinha sido muito bem recebida por outros estudantes que também estavam por ali e que não via a hora de conhecer as famílias sírias. Depois parou de pensar no que escrevia e perguntou como ele estava e se estava dormindo bem. Finalizou a mensagem dizendo que sentia sua falta, que ligaria depois e que o amava. Suspirou aliviada e checou os horários mais uma vez, anotando mentalmente quando deveria ligar para o noivo. Guardou o celular novamente e respirou fundo antes de voltar para .
Assim que abriu a porta pode vê-lo, ainda sentado sobre a cama, com as pernas cruzadas e as mãos unidas sobre elas, olhando-a de maneira cúmplice. continuou o caminho até chegar ao seu lado.
– Quero que você saiba que não precisa se esconder de mim para falar com o . – ele começou e ela se sentiu levemente surpresa – Sei que você precisa manter o contato para que ele não desconfie de nada, então assim que ele telefonar ou quando você mesma precisar fazer isso, é só me dizer que eu dou o espaço que você precisa.
Ele sorriu e se sentiu um pouco desconcertada, meio emocionada e talvez ainda um pouquinho surpresa pela maturidade que ele apresentara.
– Desculpe. – ela riu, cobrindo o rosto com as mãos, mas o olhando rir junto pelas frestas dos dedos – Eu tenho me sentido uma adolescente muito boba nos últimos tempos e esqueço que para certas coisas nós só precisamos conversar.
segurou seus pulsos e trouxe suas mãos para baixo.
– Basta conversar. – ele sorriu, segurando suas mãos e arrastando-se para mais perto dela – Basta me dizer o que você precisa porque – parou para beijar seu queixo –, desde que você chegou aqui eu sinto que posso fazer qualquer coisa que você pedir. – beijou seus lábios e os manteve unidos por um tempo – Qualquer coisa.
Soprou em sua boca, sentindo seu sorriso se alargar.
– Você já faz demais, – ela o puxou para que se deitassem na cama, aconchegando-se nele e entrelaçando suas pernas –, e eu aprecio muito.

A experiência de estar na companhia de uma banda mundialmente famosa em turnê era completamente nova para a americana e ela se sentia no meio de uma bagunça generalizadamente organizada, se é que essa definição poderia existir. Mais uma das novas experiências que lhe proporcionara.
A One Direction tinha um número absurdo de trabalhadores auxiliares ao seu redor, direta ou indiretamente ligados a eles. Equipe de seguranças, figurinistas, maquiadores e assessores de imprensa eram alguns dos profissionais que estavam naquele mesmo hotel, subindo e descendo pelos elevadores, andando de um lado para o outro com pranchetas, araras de roupas, walkies-talkies e alguns outros aparatos tecnológicos que serviam de comunicação entre a equipe. É claro que com menos de dez horas em solo australiano ela ainda não tivera tempo de conhecer nem a metade, apesar de e os outros fazerem às honras da apresentação para todos que encontravam.
E lá estava ela, após um agradável e barulhento jantar, relaxando ao lado de e em um espaço aberto ao lado do restaurante interno, conversando com Caroline, uma das responsáveis por deixar aqueles cinco lindos ou pelo menos tentar fazê-los vestir algo apresentável – com alguns deles ela apenas tentava, é verdade. A mulher era uma companhia maravilhosa e falava sobre momentos engraçados dos garotos, sobre como às vezes eles eram umas pestes e dificultavam seu trabalho – sob protesto dos dois membros presentes. Caroline escutou falar brevemente sobre a faculdade e sua vida em LA e a americana se sentiu completamente à vontade por ela não parecer incomodada com sua presença inesperada ou fazer perguntas sobre as quais não se sentiria à vontade para responder.
Nem todos da equipe, porém, pareciam encarar a presença dela com naturalidade.
– Paul! – Louise, a hair stylist dos rapazes o chamou em um canto, ainda olhando a americana pela tangente – Então essa é a garota? – ela parecia um pouco ultrajada – Você por acaso sabia que ela tem um noivo?
Higgins a olhou de volta, riu e deu de ombros.
– Não é da minha conta, Lou. – checou os relógios rapidamente – Só diz respeito ao e à ela.
– E ao noivo dela também. – murmurou, um tanto incomodada.
– Ei! – Paul a chamou, não levando aquilo tão a sério – Não vamos nos meter nisso, não é mesmo? – colocou as mãos na jaqueta e começou andar – Vou lembrá-los do toque de recolher. – brincou e sorriu para a mulher, andando em direção aos rapazes.
Louise o observou chegar perto deles e começar a falar, rindo e balançando a cabeça ao vê-los resmungar como de costume. Deixou seu olhar cair sobre a garota que estava com eles, que se despedia de Caroline sorrindo. Era uma garota bonita, mas naquele momento, para Louise, só parecia estar se metendo em uma roubada.
– Qual é, Paul! Nós estamos nos divertindo aqui! – protestou ao aviso do manager – Olha só pra , ela está com cara de quem quer dormir a essa hora?
Paul olhou para a americana, que ria fracamente dos resmungos de aconchegada nos braços de , apoiando a cabeça em seu ombro.
– Na verdade – ele voltou seu olhar para –, ela me parece cansada, então, como bons rapazes, vocês deveriam deixá-la se acomodar.
a olhou imediatamente e concordou com a cabeça.
, eu odeio ser estraga-prazeres, mas realmente preciso dormir. – riu da carinha de desgosto que ele fez.
– Tudo bem, se você está cansada, eu te libero.
Riram juntos e ela se levantou, com a acompanhando. Foi até e lhe deu um abraço carinhoso, completamente grata pela forma como ele a acolheu.
– Boa noite, . E obrigada, você tem sido um doce. – beijou sua bochecha, voltando a encará-lo e vendo-o sorrir.
– Sempre que precisar, madame. – ele fez uma reverência exagerada e voltou a sentar quando os dois caminharam de volta ao interior do hotel.
Enquanto subiam pelo elevador checou as horas no relógio de pulso de , notando que faltavam poucos minutos para 9 p.m. Se seus cálculos não estivessem errados era quase meio-dia em Sófia, o que queria dizer também que em Londres faltava pouco para as 10 a.m. Era hora de ligar para .
– Precisa ligar para o ? – atento a seus movimentos, perguntou e ela assentiu.
– É um bom horário e ele está esperando pela minha ligação.
Não havia como agir normalmente nessas circunstâncias. Era muito estranho falar de para , bem mais do que o contrário, afinal, a ingenuidade de sobre a relação dos dois aliviava as coisas, em partes. Diante de ela se via sem proteção alguma, porque agora ele sabia de suas mentiras, seus medos e inseguranças e isso ainda a assustava um pouquinho.
Saíram do elevador e pararam em frente ao quarto dela. aproximou ainda mais seus corpos e beijou-a rapidamente.
– Posso voltar aqui para um beijo de boa noite? – arqueou uma das sobrancelhas, divertido.
– Claro! – ela sorriu – Só vou ligar, tomar um banho rápido e trocar de roupa.
– Me manda uma mensagem quando acabar?
apenas assentiu e uniu seus lábios novamente, entrando no quarto logo depois, não sem antes deixar do lado de fora um suspiro que encontrava sua causa em todo aquele carinho que lhe dava e no pensamento de falar com e tecer mais um pouco o que se tornaria uma rede de mentiras. Acomodou-se na macia cama de casal e respirou fundo ao pegar o celular, convidando o noivo para uma chamada em vídeo. Não demorou para que o rosto que ela conhecia tão bem aparecesse na tela, sorrindo enquanto a cumprimentava.
– Amor! Estava esperando você chamar! – destrancou uma porta e adentrou um quarto, jogando-se na poltrona para acomodar a câmera – Como estão as coisas por aí? Conseguiu descansar da viagem?
sorriu para ele e colocou um travesseiro sobre o colo.
– Estou bem, meu amor. O lugar é bem ajeitadinho e estou muito bem acomodada, não se preocupe. Só tô um pouco ansiosa e querendo ver tudo de uma vez, mas acho que consigo domar isso. – riu, desejando que ele não percebesse seu tom descrente ou que lhe desse outra conotação.
– Sei que você vai driblar isso e conseguir fazer o que planejou. – ele sorriu, compreensivo, escorregando pela poltrona para encontrar uma posição mais confortável. – E quando as coisas vão começar a acontecer?
Você não iria querer que elas acontecessem, pensou, mas logo se forçou a abandonar aqueles pensamentos e focar em .
– Vamos almoçar com alguns estudantes daqui que trabalham para a secretaria do governo que tem tratado da questão dos refugiados e depois disso encontraremos com o presidente da ONG que os acolheu e tem oferecido todo o apoio necessário, mas só conheceremos as famílias amanhã.
se mexeu desconfortável pela cama, iniciando logo outro assunto antes que isso não ficasse visível para .
– Mas e você, animado para o programa com o Scott Mills mais tarde? E Bristol, qual a programação?
Quando ele começou a falar, sorrindo animado, relaxou completamente na cama, também sorrindo e ouvindo com interesse. Então era como se ela estivesse em LA, no quarto do pequeno apartamento que dividia com , matando um pouquinho a saudade do noivo que estava em turnê mais uma vez.

[...]


No dia seguinte as horas pareciam passar rápido demais. , apesar de ter acordado mais cedo que o comum para alguns compromissos, distribuía sorrisos e animação. Fez todo o seu treino matinal com uma disposição absurda, deixando Jarvis impressionado, e foi o mais falante em uma breve entrevista que deram à uma rádio local. Para os outros, era óbvio o motivo daquela felicidade e bom humor elevado.
Na noite anterior ele voltara ao quarto de e os dois passaram horas trocando carinhos e conversando trivialidades. Com ela ali, ao lado dele, se sentia inabalável, disposto à alegrá-la de qualquer maneira que pudesse, quase como se cada ato seu fosse um pedido mudo: me escolha. Essa, porém, não é uma história de disputas, vencedores e derrotados. não estava procurando a melhor opção, mas a sua opção.
– Hey! – entrou em seu quarto sorrindo, tirando o relógio do pulso e deixando-o em uma cômoda à sua esquerda.
estava em sua cama, acomodada entre os travesseiros e assistindo a um jogo de beisebol reprisado.
– Como foi a entrevista? – perguntou, dando sua atenção a ele e chamando-o para sentar ao seu lado.
– Tudo bem, nada inédito. – deu de ombros – E você, assistindo beisebol desde aquela hora? – riu, então olhando para a TV – Isso é popular por aqui?
Ela o encarou com as sobrancelhas arqueadas.
Isso é muito apreciado por aqui, sim e se você não sabe, os maiores jogadores da MLB vêm sempre para cá fazer jogos de pré-temporada! – falou, metida, e riu.
– Tudo bem, senhorita eu-sei-tudo-sobre-beisebol – ele se aproximou, fazendo cócegas e deixando beijinhos em seu rosto –, animada para o show?
– Muito! – sentou mais ereta na cama e deitou de barriga para baixo, observando-a falar – me mostrou o setlist e eu adorei! Aliás, tem como eu assistir o show da banda de abertura também? falou muito bem deles.
sorriu. Vendo-a ali, sendo tão adorável, não era difícil saber o porquê dele estar fazendo todo o possível para mantê-la por perto.
– Claro! Eu assisto com você. Eles são ótimos, você vai gostar, tenho certeza.
bateu palminhas, animada.
– Mas ainda temos algum tempo até nos chamarem para ir até a arena. Quer dar uma volta? – a intenção dele era boa, mas a americana fez careta.
– Não acho que seja uma boa ideia. – mordeu o lábio inferior – Paul falou hoje de manhã que tem um pessoal estranho por aí.
– Claro! Ideia besta! – bateu na própria testa, rindo – Fico com você aqui então.
– E eu fico com o beisebol. – riu.
– Ei!

A hora de ir até a arena logo chegou. Conforme Paul havia dito, foi para lá em um carro separado, uma hora depois dos garotos. Quando chegou, os encontrou em um jogo muito estranho que envolvia pedestais usados como tacos e tampinhas de garrafa como bolas. disse que era golfe, mas jurava que era hockey.
O clima pré-show era completamente descontraído: eles contavam histórias – e , principalmente –, inventavam jogos ridículos e riam tanto que os faziam parecer divertidos, além, é claro, de importunarem os “adultos” que só tentavam fazer seus respectivos trabalhos.
Enquanto eles se vestiam, arrumavam cabelo e faziam a maquiagem necessária, a americana ficou em um cantinho, observando tudo. estava sob os cuidados de Louise no momento e sorria para ele, que a encarava pelo espelho. As duas haviam se conhecido naquele dia, no café da manhã, com breves cumprimentos. Ela parecia ser bem profissional, era o que a americana pensava, já que não parecia bater muito papo ou gostar de perder tempo, mas a verdade é que Lou não se sentia muito à vontade, não quando o lindo anel de noivado da garota brilhava em um de seus dedos, e como não queria parecer mal educada ou criar qualquer clima estranho, preferia ficar calada. De uma forma ou outra, estava feliz e ela gostava demais dele para destratar .
– Liberado, ! – a mulher com os cabelos platinados deu tapinhas no rosto dele e sorriu.
– Obrigado, Lou! – beijou seu rosto e virou para , estendendo sua mão para que ela segurasse – Vamos?
Os dois caminharam pelos corredores e conforme chegavam mais perto do palco era possível ouvir a multidão que lotava a Rod Laver Arena. apertou a mão dele quando chegaram, inclinando a cabeça para ver um pouquinho de toda aquela gente que gritava enquanto a banda de abertura tocava sua primeira música. O lugar parecia lotado e o palco era lindo.
– Caramba, ! – ela exclamou, meio boquiaberta.
– É, eu sei. – sorriu e abraçou-a por trás, apoiando seu queixo no ombro dela – Às vezes assusta um pouquinho, mas é incrível.
virou o rosto de lado e deixou um beijo na bochecha dele, sorrindo em seguida.
– Mal posso esperar para gritar junto com elas! – apontou com a cabeça para as fãs.
sorriu e a apertou um pouquinho mais, deixando que ela sentisse seu coração aquecido batendo em suas costas. Eles ficaram agarradinhos ao lado das enormes caixas de equipamentos até ser chamado. ficou até o show de abertura acabar, completamente convencida de que aqueles meninos eram mesmo bons. Ela voltou ao camarim depois, encontrando cada um em algum canto da sala, se concentrando à sua própria maneira. estalava o pescoço quando a viu. Sorriu e a chamou.
– Gostou dos meninos? – perguntou e puxou as pernas dela para cima das suas assim que ela sentou ao seu lado.
– Muito, eles são ótimos! – ela falou baixinho, não querendo atrapalhar os outros e virou para eles.
– O que vocês estão cochichando aí, hein? – tirou os fones de ouvido.
jogou a latinha vazia de energético na cabeça dele.
– Deixa de ser intrometido, cara!
riu deles.
– Eu não queria atrapalhar vocês.
– Ela tava contando que adorou o show da 5SOS. – contou aos outros.
levantou se espreguiçando e olhou para ela, colocando depois uma das mãos ao lado da boca, como se contasse um segredo.
– Espere só até ver a One Direction! – piscou.
document.write(Liv) riu e levantou com eles quando Paul gritou “Quinze minutos!” do lado de fora.
– Espero que você goste. – a abraçou e eles se beijaram rapidamente.
– Vou amar!
Sorriu para ele e desejou bom show aos outros, seguindo para o mesmo lugar onde estava antes, sentando em uma das caixas. Não que ela fosse permanecer lá durante a apresentação, porque pulou para o chão assim que o vídeo de abertura terminou e os acordes de Up All Night foram ouvidos. caminhou pelo palco e os olhos deles se encontraram brevemente. Um arrepio gostoso passou pelo corpo dela quando ele piscou, voltando sua atenção à platéia logo depois.
se perguntou várias vezes como ele conseguia ser ainda mais lindo enquanto cantava e fazia passinhos fofos. Se ela já estava sem saída antes, a carinha que ele fazia quando se concentrava nas notas mais difíceis parecia empurrá-la ainda mais para o precipício. Jogar-se às cegas nunca pareceu tão tentador.
– Sabe, chegou ao lado dele em um momento, passando um braço por seus ombros –, eu conheço alguém que vai adorar ouvir a próxima canção.
riu no instante que a guitarra inicial de One Thing foi ouvida. gargalhou, começando a cantar junto e sentindo como se já pudesse se acostumar com aquilo.

Ohhhh yeahhhhhhhhh, dirtbag! cantou, saindo do banheiro de .
Ele riu e chamou-a para sentar ao lado dele na cama.
– Sério, melhor momento! – ela pulou no colchão, ainda sentindo toda a adrenalina do show – Quero de novo!
gargalhou e a puxou para seu colo, colocando algumas mechas de seu cabelo para trás da orelha.
– Você ainda tem direito a três shows, esqueceu? – beijou a pontinha de seu nariz, fazendo-a sorrir enquanto ela concordava em um murmúrio.
– Vocês são incríveis! – disse enquanto ele beijava seu maxilar – Eu adorei cada pedacinho de hoje.
Suspirou quando arrastou o nariz por seu pescoço, deixando beijinhos leves pelo caminho.
– Obrigada, . – as palavras saíram fraquinhas, denunciando o quanto ela estava afetada pelas carícias dele – Você é um garoto incrível. – segurou o rosto dele com as duas mãos, dizendo aquilo olhando em seus olhos, que brilhavam.
se inclinou e o beijou com calma, querendo colocar para fora todos aqueles sentimentos que ainda não conseguia revelar, mas que já se apossavam dela. espalmou as mãos em suas costas, fazendo a americana apertar as pernas ao redor de sua cintura. Nenhum dos dois parecia decidir o que fazer com as mãos, que passeavam por braços, ombros, costas e apertavam nucas. Os suspiros saíam fáceis dos lábios rosados de , que não deixavam de beijar cada pedacinho da pele de que ele podia alcançar.
Êxtase tomou conta dela quando o garoto lentamente os deitou sobre a cama, deixando-a por cima dele. deslizou as mãos lentamente pelos braços de , arrastando suas unhas na pele macia e pairando sobre ele enquanto beijava seu queixo e maxilar. Os vestígios de barba criavam um formigamento gostoso em sua pele, fazendo-a sorrir enquanto suspirava e apertava sua cintura.
concluiu que adorava vê-lo assim, entregue aos seus carinhos, olhando-a com os olhos anuviados pelo desejo. Quando voltou a beijá-lo na boca, moveu o quadril involuntariamente sobre ele e gemeu sobre seus lábios, fazendo todo o corpo da americana responder com arrepios. Ela também concluiu que amava aquele som e amava ainda mais ser a responsável por ele. Quando se movimentou junto, mordendo o lábio inferior dela, que gemeu lentamente, ambos concluíram que não, definitivamente não havia nada de errado naquilo. Nem em seus suspiros, seus gemidos e muito menos em seus corações acelerados.
De repente não existia nada do lado de fora que pudesse os afastar, os impedir ou fazê-los repensar seus corpos juntos sobre a cama. Naquele momento eram apenas um casal que se queria muito e usavam seus corpos para demonstrarem tal afeto. E quando usou uma das mãos para soltar seus cabelos, deixando-os cair sobre seus ombros, sorrindo do jeito que ela tanto gostava, soube que era hora de dar mais um passo e deixar seu coração bater como queria.
Não havia nada de mal nisso.
– suspirou –, quero dormir com você hoje.

Capítulo 11



"A grande infelicidade das paixões não reside nos sofrimentos que elas nos causam,
mas nos erros, nas baixezas que elas nos fazem cometer e que degradam os homens.
Sem esses inconvenientes, elas levariam vantagens demais sobre a fria razão, que não nos torna felizes.
As paixões fazem os homens viver, a sabedoria o faz apenas durar.”

(Máximas e pensamentos – Sébastien-Roch Chamfort)


A cama não estava tão quente àquela hora da manhã quando despertou, no quarto do hotel em Sidney. Esticou os braços e as pernas, alongando o corpo sobre o colchão e confirmando que não estava ali. O cheiro bom de seu perfume, no entanto, mostrava que ele não estava muito longe. Com um sorriso mínimo nos lábios, ela se sentou em meio aos lençóis bagunçados e olhou ao redor, ainda sonolenta.
Desde a noite do primeiro show em Melbourne ela vinha dormindo com ele, o que para era um avanço enorme, mesmo que eles não tenham feito nada além de apenas dormir. Pouco importava para ele se durante toda a noite suas roupas ficassem no lugar, havia permitido que eles compartilhassem o sono, havia deixado que ele a abraçasse durante toda a noite e a acordasse com beijinhos carinhosos, e sabendo o que aquilo significava para ela, não poderia se sentir mais feliz.
esticava as pernas para fora da cama quando o rapaz saiu do banheiro, arrumando a camiseta no corpo. O sorriso que ele lhe dera a fez se encolher instintivamente, ainda era espantoso todo o carinho que ele lhe dava.
– Bom dia! – ele a saudou, encostando seus lábios por alguns segundos – Já ia chamar você. Dormiu bem?
analisou seu rosto até ouvi-la responder afirmamente. Chegaram a Sidney ainda de madrugada e ela parecia completamente esgotada quando se jogou contra o colchão e apagou em poucos segundos. Não era nada que não estivesse muito acostumada, mas ainda não estava totalmente adaptada ao fuso-horário e isso complicava um pouco.
– Só preciso de um banho e estou pronta para outra! – ela sorriu e o abraçou pela cintura, ainda sentada e com ele de pé em sua frente.
Outro ponto espantoso sobre eles era como havia um novo nível de intimidade ali. Em três dias ela já se sentia confortável para tomar a iniciativa dos carinhos e segurar sua mão na frente dos outros sem precisar engolir um estranhamento amargo. Era tão fácil encaixar-se a que em alguns momentos ela quase esquecia sua condição e como tudo aquilo era imensamente complicado.
– Vou descer para encontrar os outros e espero você para o café da manhã, está bem? – assentiu e ele tomou suas mãos, beijando-as antes de se virar em direção à saída – Ah, separe sua roupa de banho! – ele tornou a olhá-la – O dia de folga é na piscina!
riu com sua animação e finalmente levantou. Sua bolsa jogada sobre uma das poltronas do cômodo a lembrou de checar o celular. Foi até ela e retirou o aparelho, desativando o modo avião e esperando a conexão estabilizar e as notificações piscarem na tela. Priorizou as mensagens de e leu todas várias vezes antes de responder. Era a segunda turnê dele pela Europa e em cada palavra conseguia sentir sua felicidade. Não havia como negar que sentia saudades, mas tentava dar o seu melhor para não pensar tanto nisso.
Ao descer para o térreo encontrou quase todos na área reservada para os rapazes e a equipe. Pelas vidraças das largas janelas ela podia ver que fazia um dia ensolarado, perfeito para a programação que anunciara. Apesar da louca vontade de aproveitar logo o dia quente, ela continuou a caminhar para o restaurante.
As risadas e o burburinho das vozes a fizeram sorrir um pouco, relaxada e à vontade. Antes mesmo que pudesse chegar até a mesa que dividia com algumas pessoas da equipe, a menininha com a cabeleira loira passou por ela correndo e rindo, chamando atenção de , que instantaneamente virou abrindo os braços e agarrando-a, fazendo com que ela gargalhasse. Logo Louise apareceu por ali atrás da filha, que se encolheu nos braços do mais velho.
– Lux, vamos! – a mãe chamou, tentando não rir e parecer séria para que a menina obedecesse – Você precisa se trocar se quiser brincar na piscina.
Ela resmungou algumas coisas, ainda se escondendo no colo de e não achava que aquela cena poderia ser mais adorável. Assim que ele a viu, piscou sorrindo e chamando com uma das mãos, fazendo as outras duas virarem em sua direção. Louise se apressou em tentar tomar a filha em seus braços.
– Vá com a sua mãe, Lux. Prometo que eu e vamos brincar muito com você lá fora, não é, ?
abaixou-se para olhar a menina nos olhos e sorriu, assentindo.
– Vai que vamos esperar você aqui!
Enquanto a pequena Lux ainda assentia com a cabeça, Louise logo a pegou no colo. se levantou e sorriu para a mulher que se despediu e lhe sorriu rapidamente antes de sumir pelo corredor com a menina nos braços.
engoliu uma sensação estranha logo em seguida. Era apenas sua impressão ou Louise não gostava dela nem de sua presença ali? Ela era a única pessoa da equipe, dentre aquelas que estavam mais próximas aos rapazes, que não dava a menor oportunidade para se aproximar. Ela dificilmente falava quando estavam sozinhas e quase nunca permanecia por muito tempo nos lugares em que a americana também estava. Perceber isso fez com que voltasse a se sentir um pouco estranha.
– Você não vai sentar? – segurou sua mão gentilmente, sorrindo para ela, completamente alheio a sua confusão mental.
tentou afastar os pensamentos e sorriu de volta, sentando-se ao seu lado.
Não demorou muito para que ela logo deixasse o estranhamento para trás. a servia enquanto ele e Caroline tiravam sarro de Jarvis por alguma gafe que ele cometera no restaurante na noite passada.
Minutos depois estavam na área aberta da piscina. Fazia um dia bonito, com o céu limpo e quase sem nuvens. dormia em uma das espreguiçadeiras enquanto e espirravam água na piscina; nem sinal de . Havia poucos outros hóspedes por ali, então se sentiu mais à vontade. Sentou-se em uma das espreguiçadeiras e arrumou o corpo sobre o estofado macio, esticando as pernas para deitar logo em seguida. olhou para ela sorrindo e segurou uma de suas mãos ao se sentar no lugar vazio ao lado.
– Não vai dar um mergulho? – ele perguntou, apoiando os cotovelos nas coxas e se inclinando para ficar mais perto dela.
– Hmmm, daqui a pouco! – ela sorriu para ele, mas antes que pudesse se inclinar para juntar seus lábios, respingos de água os atingiram.
– Qual é, ! – gritou, nadando para a borda na direção deles – Não vai me dizer que você vai dormir também?
– Dormir? – também gritou – Não vamos deixar!
se virou para olhá-los e gargalhou. Arrumou a borda do vestido soltinho entre as coxas e se sentou novamente.
– Não vou dormir, prometo! – ela riu deles. Só conseguia achá-los cada dia mais adoráveis.
– Dormir? – apareceu pela porta por onde eles tinham entrado, segurando um MacBook nos braços – Quem disse essa blasfêmia?
apontou com a cabeça para o amigo que dormia do outro lado da piscina e fez um som de desgosto com a boca ao rolar os olhos, mas logo voltou a sorrir e se sentou também ao lado da americana, colocando o objeto eletrônico na mesinha que ficava entre eles.
– Fiz nossa playlist! Quer adicionar algumas músicas, ?
Ela assentiu e se virou para começar a incluir algumas canções que gostava e que achava que os rapazes poderiam curtir também. Quando terminou, deu play e voltou do bar com algumas latinhas de cerveja e um drink com morangos para . Esperava que ela se lembrasse do drink que ele oferecera para ela na festa em que se beijaram pela primeira vez, porque foi a primeira coisa que lhe veio à mente quando viu a bebida no cardápio.
Ela aceitou sorrindo e juntou seus lábios rapidamente em agradecimento. Entre um gole e outro, usou o spray de protetor solar mais uma vez para garantir. Não poderia ficar bronzeada ou isso traria suspeitas para . Afastou esse pensamento logo em seguida e desamarrou o nó do vestido na cintura para tirá-lo e revelar o biquíni amarelo. Tentou evitar o olhar de quando o fez, mas não pôde evitar se sentir lisonjeada e aquecida pelo olhar terno e desejoso que ele lhe deu.
– Você é tão linda! – ele sussurrou em sua direção, se inclinando para beijar sua bochecha demoradamente – Espero que esse olhar que você tem aí não seja um olhar envergonhado! – ele tentou brincar, fazendo-a sorrir.
– Um pouco – ela começou, virando para ele e tocando seu rosto com carinho –, mas você já cuidou de dissipar isso.
aumentou o sorriso, fazendo seus olhos ficarem fechadinhos do jeito que ela tanto gostava.
– Sempre ao seu dispor, Srta. !
então se inclinou para beijá-la, segurando o seu rosto delicadamente para ditar um ritmo lento e cuidadoso, sempre preocupado em fazê-la se sentir o melhor possível. o aceitou de bom grado, levando uma das mãos até um de seus ombros e a outra para sua nuca, onde começou um carinho gostoso.
– E aí, ? – gritou, interrompendo os dois, que separaram o beijo – Vamos ter que fazer uma força tarefa e trazer você pra cá? – ele perguntou, apoiado em uma bóia enorme em formato de um flamingo que ela não sabia de onde havia surgido.
A americana se levantou, entrelaçou seus dedos ao de , e rindo se aproximou da borda. Viu comemorar e gargalhou. Eles eram como crianças quando estavam daquele jeito. Era impressionante como tinham pique apesar da agenda lotada. Eles podiam reclamar de , mas ela até o entendia. Se tivesse chegado às três da madrugada depois de um show exaustivo, pular numa piscina durante um dia inteiro seria a última coisa que iria querer. Mas aquele não era o seu caso e ela estava feliz em poder aproveitar aquela folga com eles daquele jeito.
Até o final da manhã o local havia ficado mais cheio com a presença dos staffs mais próximos. O clima fraterno entre eles agradava e ela se divertia ao ver os rapazes brincando com todos, carregando Lux para cima e para baixo, brincando com ela e inventando disputas ridículas entre eles mesmos. Eram garotos jovens vivendo conforme a idade e aquilo fazia pensar se ela aproveitava sua própria vida de acordo com a sua idade. Com suas mais de duas décadas de vida, aquela era sua primeira grande loucura. Para quem estava começando tarde, era uma loucura completamente perigosa e que bagunçaria sua vida para sempre, mas que, apesar de tudo, estava lhe dando uma nova e curiosa perspectiva. Talvez todo mundo devesse ter essa oportunidade. Viver a vida de um único modo para sempre agora parecia para ela quase um absurdo. O mais engraçado é que ela não tinha do que reclamar sobre sua forma de vida até ali, mas encarar novas possibilidades a deixavam confusa e com a mente cheia de “e se”.
Esses pensamentos a levaram para uma personagem de Sylvia Plath, uma de suas escritoras favoritas. Esther era uma jovem mulher que conseguia visualizar inúmeras e prósperas possibilidades para seu futuro. Ela poderia ser como sua chefe, uma poderosa e importante editora de uma revista importante; poderia ser uma escritora venerada; ou poderia ser mãe de uma família linda e enorme; mas ainda poderia ser uma mulher viajante, cercada de amantes excêntricos ao redor do mundo. Diante de tantas possibilidades, Sylvia faz uso de uma metáfora fantástica para explicar o labirinto que é a vida e as escolhas que precisamos fazer no decorrer dela. Ela fala sobre Esther estar sentada abaixo de uma figueira recheada de figos maduros e apetitosos, onde cada um deles representava uma possibilidade de futuro para a jovem. Esther estava lá, faminta, mas não conseguia escolher qual figo pegar para saciar sua fome, porque todos pareciam bons e escolher um significava deixar outro para trás e ela não conseguia fazer isso. Diante de tamanha indecisão e com o tempo passando, ela viu todos os frutos escurecerem, murcharem e caírem podres aos seus pés.
Lembrar de A Redoma de Vidro fez perceber que não podia tomar tanto tempo para acabar com a divisão em seu coração, ou ela perderia tudo e ainda machucaria pessoas que nunca quis magoar. Cada pessoa no mundo tem um caminho e ela precisava achar o seu e decidir que companhia queria para isso. Escolher um dos dois não significava apenas escolher entre dois indivíduos opostos, mas entre dois modelos de vida que contrastavam calmaria e agitação.
Se ela havia começado a cavar aquele buraco, deveria continuar até achar água. Deveria fazer o que queria fazer e enfrentar as consequências depois. Não era hora de retroceder, muito menos de parar.
– No que você está pensando? – perguntou e nadou para ela, que estava sentada à borda da piscina, com os pés balançando na água distraidamente – Você está calada e distraída há alguns minutos já. Está tudo bem? – ele tocou seus pés, já bastante perto, e subiu as mãos por sua panturrilha, fazendo carinho no local.
suspirou e sorriu pequeno em seguida. – Apenas pensando – ela deu de ombros, levando as mãos para tocarem os ombros dele – mas não é nada demais.
analisou sua expressão um pouco mais cuidadosamente, mas ela logo pulou para a água e passou os braços ao redor do pescoço dele, sorrindo e aproximando seus corpos sob a água.
– Está tudo bem! – ela juntou seus lábios rapidamente, não querendo se privar de demonstrar a ele que apreciava sua preocupação – E eu adoro essa música!
exclamou e se agitou na água ao ouvir a introdução de Don’t Stop Now, da banda norte-americana The Maine, que ela mesma havia incluído na playlist de . Deu uma risada descrente, percebendo que a letra combinava de certa forma com suas divagações. Era engraçado como ela e estavam sempre em volta de músicas que pareciam dar pistas sobre eles, ou para sua própria condição atual.
– Preste atenção na letra! – ela pediu sorrindo, antes de começar a cantarolar com o vocalista.

Well where I come from
(Bem, de onde eu venho)
You learn to take it nice and slow
(Você aprende a levar as coisas numa boa)
But baby since we met
(Mas baby, desde que nos conhecemos)
Oh, it's been go, go, go
(Oh, tem sido vai, vai, vai)


sorriu ao entender seu pedido e juntou ainda mais seus corpos, observando de pertinho o rosto bonito dela, que no momento tinha os olhos cravados nos seus, movendo-se lentamente de acordo com a canção, cantando como se fosse especialmente para ele.

So you can rough me up (rough me up)
(Então você pode ser rude comigo)
Yeah baby you can hurt me too
(Sim baby, você pode me machucar também)
Because all I've got (all I've got)
(Porque tudo o que eu tenho)
You see, all I've got is you
(Veja, tudo o que eu tenho é você)


aceitou aquilo como uma declaração para seu coração apaixonado e usou aqueles versos para dizer o que tanto queria dizer. Talvez John O'Callaghan tivesse razão e ela devesse aproveitar para ir em frente. Ela não poderia perder tempo, como chegara à conclusão há pouco, então era conveniente que não parasse mais. Foi pensando nisso que ela fechou os olhos, ainda cantando, e aproximou seu rosto de , roçando o nariz no dele e o sentindo sorrir, curvando os lábios em sua bochecha. O frio em sua barriga foi o impulso que faltava para que ela juntasse seus lábios em um beijo intenso, desejoso e um pedido mudo de que ele não a deixasse parar.

You can rough me up
(Você pode ser rude comigo)
You can break me down
(Você pode me derrubar)
Baby don't stop now
(Baby, não pare agora)
Oh, you can use me up til it all runs out
(Oh, você pode me usar até que tudo se esgote)
Baby don't stop now
(Baby, não pare agora)


deixou que seus dedos se emaranhassem nos cabelos dele, arranhando seu couro cabeludo lentamente e puxando os fios com certa força. reagiu espalmando as mãos em suas costas, apertando-a contra si e sentindo seu corpo reagir ao dela muito facilmente. Ela o tinha muito facilmente, e se ela não quisesse parar, ele acolheria sua decisão.

I'm all yours
(Eu sou todo seu)
I'm all yours somehow
(De algum jeito eu sou todo seu)
Baby don't stop now
(Baby, não pare agora)


– ela chamou, interrompendo o beijo e se afastando tão minimamente que seus lábios ainda se tocavam –, nós podemos subir?
O rapaz sentiu o coração adiantar uma batida diante de tal pedido. Afastou um pouco mais seus rostos e a encarou, querendo saber se aquilo significava o que ele achava que significava, e procurando qualquer sinal de hesitação.
tinha a respiração pesada saindo pelos lábios entreabertos e ainda segurava em sua nuca fortemente. Seus olhos não deixaram os seus até que assentisse, juntando suas bocas mais uma vez antes de segurar em sua cintura e impulsioná-la para sentar na borda da piscina, para logo em seguida fazer o mesmo.
Secaram seus corpos com as toalhas deixadas pelos funcionários do hotel e calçaram os chinelos já se encaminhando para a saída da área aberta, com ainda amarrando seu vestido.
– Ei, vocês! – gritou para os dois, querendo saber para onde eles estavam indo, mas eles sumiram pela porta de vidro antes que ele pudesse perguntar.
– Deixa eles, ! – , que já estava acordado e sentado à beira da piscina, exclamou para o amigo, rindo sugestivamente enquanto olhava para onde e tinham saído – Eles têm coisa melhor para fazer.
O casal seguiu para o elevador em silêncio, com ela nervosa o suficiente para dizer qualquer coisa, e ele com receio de que ela fosse voltar atrás a qualquer momento. Ele esperaria por quanto mais ela quisesse, mas não podia mentir que não desejava aquilo com cada pedacinho de seu corpo.
Quando ele fechou a porta do quarto, trancando-a, seus olhos procuraram os dela, se aproximando e segurando seu queixo com uma das mãos para fazê-la olhar para ele. piscou algumas vezes, sentindo uma timidez e uma insegurança tomarem conta dela. Ela o queria, mas era a primeira vez que ela estaria com outro homem em toda a sua vida. Era a primeira vez que ela estava prestes a deixar que outro homem a tocasse intimamente, como apenas havia feito desde sempre.
, eu... – ela não conseguiu terminar, a cabeça borbulhando várias coisas ao mesmo tempo, enquanto seu corpo só sabia querer ampliar todo mínimo contato que suas peles tinham no momento.
– ele sussurrou para ela, olhando-a carinhoso –, você tem certeza?
Ela sorriu, incrédula por si mesma e agraciada pelo cuidado dele. Balançou a cabeça em afirmação e aproximou seus corpos ainda mais, colando suas cinturas e envolvendo suas mãos por ali. Subiu seus dedos para os braços dele em seguida e inclinou a cabeça para que seus lábios pudessem se tocar em um beijo cuidadoso.
a abraçou quando suas línguas se tocaram e agarrou sua cintura para que ela impulsionasse o corpo para cima e enlaçasse suas pernas nele, que começou a caminhar até a cama. Assim que sentiu suas pernas tocarem o colchão, ele a colocou sobre ele delicadamente, vendo-a se arrastar para o meio da cama ao que ele a seguiu, engatinhando na cama para pairar sobre ela.
engoliu em seco, ansioso como nunca desde sua primeira vez, ele arriscava afirmar. Seu peito parecia apertado e ele temia fazer algo de errado, temia não ser tão bom quanto e mais do que nunca temia a rejeição que poderia vir depois. Tentando não tremer tanto, ele levou uma de suas mãos até o rosto dela, afastando seus cabelos molhados que grudavam no rosto e passando o polegar em seus lábios em seguida.
suspirou com o toque, deixando a mente se esvaziar conforme ele se aproximava para mais um beijo, que foi ficando ainda mais intenso conforme eles se apertavam e se tocavam mais. Ela espalmou as mãos nas costas dele e suspirou sonoramente quando ele arrastou o nariz em sua pele, para começar a beijar seu pescoço.
Conforme arrastava sua boca sobre ela, tocando alguns lugares pela primeira vez, seu vestido foi retirado e ele se preocupou em beijá-la devotamente em cada pedacinho de pele exposta, descobrindo os sons que ela podia emitir quando ele a tocava do jeito certo. Ele não poderia estar mais extasiado e empenhado em dar a ela todo o carinho e prazer que ele poderia dar.
Quando os nós de seu biquíni foram desfeitos, a olhou em expectativa mais uma vez, mas não havia nenhum sinal de dúvida. deixou sua mente vazia para que ela pudesse seguir o que a vontade pedia e aproveitar o que a oferecia, querendo descobrir as coisas novas que ele poderia lhe mostrar, e dar para ele de volta todo o carinho que sentia, assim como o desejo enorme de tê-lo para si.
Seus corpos rolaram na cama descobrindo ritmos e sintonias, encontrando uma nova forma de funcionarem juntos, com muito cuidado e paciência. Quando o prazer final veio, se agarrou a ele como se fosse a última coisa que faria, e deixou que seus corpos se acomodassem juntos, dessa vez compartilhando muito mais que o sono.

acordou algumas horas depois, alongando o corpo ainda sobre o colchão. Ouviu a risada leve de e abriu os olhos lentamente, rolando-os divertidamente ao confirmar que ele a observava dormir. O rapaz se aproximou para beijar seu nariz, ainda rindo divertido.
– Não acredito que você é esse tipo de clichê, ! – ela riu, arrumando os cabelos embaraçados.
– Você é linda dormindo! – ele a aconchegou em seus braços, roçando seus narizes antes de analisar seu rosto e perguntar – Está tudo bem? Está com fome?
– Sim para as duas perguntas! – ela sorriu e uniu seus lábios demoradamente.
deitou a cabeça em seu peito, ouvindo o som regular de seu coração e sentindo o corpo leve. Era uma sensação diferente, mas muito boa. era adorável, cuidadoso e estava fazendo-a se sentir tão bem que ela só conseguia pensar em prolongar aquela vibração gostosa em seu peito. Não queria sair daquele quarto e encarar a vida real tão cedo.
– Comida no quarto? – ele perguntou, deslizando os dedos distraidamente pelo braço descoberto dela – Se eu não estiver enganado, tem mais uma reprise de beisebol daqui a... – ele esticou um dos braços para pegar o relógio no criado-mudo – Quinze minutos!
ergueu a cabeça para ele, sorrindo surpresa.
– Você está acompanhando as programações de beisebol agora? – ela continuou a sorrir, olhando para ele como se o desafiasse.
– Estou aprendendo, ué! Tenho que acompanhar! – ele sorriu do mesmo jeito bonitinho e ela não resistiu em beijá-lo docemente.
– Hmmm, gostei de ver! – ela riu dele e virou o corpo de bruços para olhá-lo melhor – Já podemos fazer uma rodada de perguntas e respostas pra eu saber se você está mesmo aprendendo?
Ela implicou, gargalhando ao vê-lo fazer uma careta bonitinha.
– Sem pressão, !
– Você já está com medo, ? – ela provocou um pouco mais, ainda rindo.
– Você é muito espertinha, ! – ele se adiantou para juntar seus lábios por breves segundos – E linda!
Ela gargalhou novamente e se aconchegou em seus braços enquanto ele puxava o telefone para pedir comida e ela procurava o canal de esportes, querendo aproveitar o final daquele dia com ele sem se preocupar com mais nada.

[...]


No dia seguinte a correria voltara com tudo. Acordaram cedo e quase não viu até chegar à Allphones Arena onde aconteceria o primeiro show de Sidney. O lugar era lindo e enorme, tanto que ela quase se perdeu algumas vezes enquanto passeava para explorar tudo enquanto os rapazes estavam ocupados com o instrutor de aquecimento de voz.
Ela passou pelo corredor cheio de caixas enormes no caminho para o camarim quando ouviu as vozes de Caroline e Louise, que entravam em uma sala com uma arara de roupas. teria apenas as cumprimentado e passado direto se não tivesse ouvido seu nome dito pela responsável pelas roupas dos rapazes.
me parece uma boa garota, Lou! – a americana congelou no lugar, franzido a testa ao perceber que falavam dela e que o tom de Caroline parecia tentar convencer Louise daquilo – Talvez esteja confusa com a vida, mas isso não é da nossa conta, sinceramente.
sentiu o estômago afundar e uma sensação muito ruim lhe abater, que só piorou quando ela ouviu Louise falar.
– Sei que não é da nossa conta, mas depois de todo esse tempo eu também me sinto um pouquinho responsável pelo . Eles dois não é certo! – a mulher parecia convencida de seu ponto e a americana de repente viu voltar à sua mente todas as vezes que a hair stylist a ignorou ou lhe deu respostas monossilábicas em suas tentativas de conversar com ela.
Claro. Seria bom demais para que fosse verdade. Seria mesmo irreal que ela não fosse ser julgada por estar ali e por estar com . Ela poderia apostar que Louise não era a única, e pensar em seu nome sendo falado aos cochichos entre os staffs a fazia querer se esconder para sempre e algo se revirar em seu estômago.
– Não é que eu tenha algo contra ela, mas eu simplesmente não consigo ignorar aquele lindo anel de noivado que ela leva no dedo! – a voz da mulher se tornou um pouco mais aguda quando ela argumentou.
se sentiu tonta brevemente e esbarrou em uma das araras de ainda estava do lado de fora. O barulho chamou atenção das outras duas, que saíram da sala e viram a mais nova se apoiando nas roupas penduradas. Caroline arregalou os olhos e imediatamente se sentiu mal por ela. Sabia que não deveriam estar conversando sobre aquilo ali. Louise empalideceu rapidamente. Não era sua intenção que a garota ouvisse, mas ela não sabia como se desculpar sem retirar o que dissera, porque era o que ela achava.
, querida, nós-
– Tudo bem, Caroline. – ela interrompeu a mulher imediatamente, tentando sorrir, mas seus lábios tremeram vigorosamente – Eu estou indo embora. Me desculpem por isso.
Ela não conseguiu encarar as duas, mas segurou as lágrimas que cintilavam em seus olhos até virar o corredor em direção da saída. Um soluço estrangulado escapou de sua garganta quando ela correu rumo ao estacionamento, segurando firmemente a alça fina da bolsa em uma das mãos, enquanto a outra cobria sua boca para evitar que seu choro soasse mais alto.
Seu peito queimava em angústia e vergonha e ela começava a sentir falta de ar. Não tinha sequer o direito de se sentir chateada enquanto era tomada por uma enxurrada de sentimentos ruins. Sentia que merecia aquilo, merecia que dedos fossem apontados em sua direção dando-lhe os piores adjetivos. Merecia tudo aquilo, mas não merecia . Muito menos .
Um grunhido desesperado fugiu de sua boca ao pensar no noivo. era tudo que ela poderia querer. Era seu passado, presente e futuro e ela estava sendo a pior das mulheres com ele. Devia estar errada sobre as possibilidades e toda aquela besteira que enfiava na cabeça para justificar o seu maior erro. tinha razão. Ela queria uma desculpa e viajara para o outro lado do planeta para se afundar em desespero e vergonha por causa de um capricho, de uma incerteza.
Fez sinal para um táxi assim que saiu das dependências da arena, fazendo o possível para controlar a voz ao dar o endereço do hotel ao motorista. No banco de trás do carro, sentia aquela pequena argola em seu dedo queimar como brasa. Esfregava as mãos e os dedos uns nos outros, querendo tirar o anel de noivado que parecia julgá-la mais que qualquer outra pessoa, mas não conseguia. Era covarde o suficiente até para tirá-lo enquanto estava ali. Ela fugira como uma aventureira irresponsável, mas não queria largar o seu lugar seguro. Não queria apenas um figo da árvore, seu egoísmo fazia com que ela quisesse dois.
E naquele momento ela só conseguia pensar que ficaria sem nenhum. Não merecia nenhum.
Saltou do táxi ainda sentindo o corpo tremer e subiu no elevador com o nó em sua garganta apertando ainda mais. Precisava sair dali e encarar sua realidade medíocre. Passou o cartão na fechadura do quarto que dividia com e sentiu o estômago embrulhar ao entrar e encarar a cama. Sentiu-se tão mal que achou que fosse vomitar de desespero.
Quase correndo pelo cômodo e sem sequer tirar os sapatos e a bolsa, puxou a mala e deslizou o zíper com pressa, percorrendo todo o cômodo em poucos minutos e catando todas as suas coisas para colocar lá dentro desajeitadamente.
Quando acabou, deixou que seu corpo caísse no chão ao lado da cama, ainda chorando tão intensamente quanto quando saíra da arena. Em um ato de desespero e impulso, ela retirou o celular da bolsa e ligou para pela discagem rápida.
9pm em Sidney.
1am em Bristol.
3am em Sofia.
atendeu confuso.
? – ela chamou por ele imediatamente, engolindo o choro e o desespero – , meu amor...

Continua...



Nota da autora (10/08/17): Alguém ainda aí?
Primeiramente eu queria pedir desculpas por toda essa demora. A vida acontece às vezes, né? Mas não vou ficar me justificando, apenas quero agradecer a todas aquelas que continuaram esperando, que me procuraram pra cobrar uma atualização, que conheceram a fic agora e a todas que acompanham LA desde o início e ainda estão comigo. É por vocês que eu continuo! <3
Muito obrigada mesmo pela paciência e pelo carinho! Eu comecei LA com muitos planos e quero executar todos. Espero conseguir!
Sobre o capítulo, gosto muito dele porque acredito que ele é um exemplo máximo da ambiguidade dessa estória e dessa protagonista, e demonstra toda a angústia que é escolher quando se tem as certezas abaladas. Quem quiser ler o trecho completo sobre a metáfora dos figos, eu postei no meu Tumblr e vocês podem ler aqui. Recomendo o livro imensamente!
Obrigada mais uma vez por lerem! Espero que tenham gostado!
Até a próxima!
xx
Thainá M.

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Nota da Beta: : Gente, que capítulo! Antigamente não, mas depois de tanto tempo finalmente consigo entender nossa principal sem jugá-la (talvez só um pouquinho, vai!) e esse capítulo deixou toda a confusão dentro dela bem clara. Porém uma vez #TeamNoivo, sempre #TeamNoivo hahaha Quero só ver o que essa doida vai aprontar com os dois ainda, manda mais logo Thai. Tava com tanta, mais tantaaa, saudade dessa fic linda 💚 Xx-A


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