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Meio Amargo






Prólogo


Era tudo mentira. Cada palavra, cada piada, cada sorriso. Tudo mentira. E eu havia sido feita de idiota outra vez. Não doía como doeu descobrir aquela outra verdade, talvez porque nada pudesse doer como aquilo, mas chegava bem perto. A tábua de salvação a qual eu havia me agarrado durante todo aquele tempo estava afundando e o pior era que ela nem me deixava lutar contra a correnteza sozinha. Não... Ela me levava junto para o fundo. E agora não havia nada em que me segurar, nada para me distrair da submersão eminente.
Estiquei uma mão e encostei-a sobre o pôster em minha parede, o qual estava encarando fixamente há um bom tempo. Todavia, não o enxergava direito porque frente aos meus olhos só passava aquela cena... de novo e de novo. Repetidamente se marcando como brasa em minha mente.
Com um puxão, arranquei aquele cartaz da parede do meu quarto. Abaixei a vista e observei uma vez mais aqueles cinco garotos. E então minhas mãos se ocuparam em rasgar violentamente aquele pedaço de papel enquanto lágrimas furiosas e amargas escorriam.
Era tudo mentira.


Capítulo 1


Três anos depois


Meu tedioso momento de passar de um canal de TV para outro sem realmente prestar atenção em nada foi interrompido pela voz calma da minha mãe:
- Querida, você se lembra da Abigail, amiga da sua tia Kate?
- Vagamente, mãe. Por quê? – respondi, distante.
- A filha dela passou na Universidade de Londres!
Ah! Que ótimo, mãe! Será que um dia a senhora vai perceber que esse é um assunto delicado?
- Legal.
- Mas ela vai cursar Economia e Ciências Políticas.
A cada palavra o peso no meu peito, que me acompanhava desde que havia tomado aquela decisão indesejada quanto ao meu futuro, aumentava um pouquinho mais.
- Legal.
- Kate disse que Georgina queria uma colega de quarto.
- Não conheço ninguém que tenha passado lá, então não posso ajudar com isso – comentei, esperando que isso fosse o suficiente para encerrar o assunto.
- Como não, ?
Soltei um suspiro pesado, voltando a encarar a televisão e o programa idiota de culinária que estava passando.
- Nós já conversamos sobre isso, mãe.
Ela sentou-se ao meu lado, pegou o controle da minha mão e desligou a TV.
- Hey! Eu estava assistindo! – gesticulei em direção à tela.
- Não estava não. Você só estava sentada aí, olhando para o nada e fingindo estar entretida, assim como você vem fazendo nos últimos meses.
- E-eu não fiz isso!
Mentira. Eu só achava que não dava para perceber tão claramente o quão perdida eu estava, mais até do que o normal.
- Fez sim! Fez, faz e, pelo visto, pretende continuar fazendo. Você está nessa apatia há dias. Por acaso você acha que sua tia é a única que consegue juntar peças de um quebra-cabeça? Posso não ser uma detetive, mas consigo dizer quando há algo de errado com a minha própria filha – ela falava com mais convicção do que havia visto nela em muito tempo.
Tempo demais. Era bom ver alguma emoção em seus olhos, mesmo quando isso me colocava em apuros. Respirei fundo e comecei a mentir mais um pouco.
- Eu não sei o que você pensa que está acontecendo, mãe – falei devagar e suavemente, tentando não soar muito petulante. – Mas está tudo bem.
Dúvida pairou em seu rosto por um segundo. Comemorei interiormente por estar mentindo cada vez melhor. Acho que era mesmo uma questão de prática. E prática era o que não me faltava graças aos últimos anos. Mamãe, porém, sacudiu a cabeça e determinação voltou a brilhar em seus olhos.
- Não minta pra mim, .
Talvez eu precisasse de um pouco mais de prática.
- Agora nós vamos conversar direitinho sobre essa história de você não querer ir para Londres.
Levantei-me.
- Não quero falar sobre isso de novo. Eu vou para o meu quarto.
- Sente-se.
Pisquei devagar, surpresa com a seriedade e o tom definitivo em sua voz.
- Sente-se. Não vou falar outra vez.
Abaixei lentamente, os olhos fixos nela, enquanto voltava ao lugar onde estava um segundo antes. Minha mãe esfregou as mãos sobre a calça que cobria suas cochas e depois falou - mais calma dessa vez:
- Muito bem. Agora me diga o que aconteceu para você não querer se matricular na universidade.
- Quantas vezes vou precisar repetir que não tem nada errado?! E que história é essa de que eu não quero me matricular? Já levei toda a papelada pra universidade.
- Para Universidade de Manchester, você quer dizer.
Outra pontada no peito. E o pior era que, além da decepção, ficava uma culpa pelo egoísmo de ficar triste por estar indo para essa universidade em setembro. Sentia-me pequenininha ao pensar que aquele era o sonho de muitos e tudo em que pensava ao recordar sobre o fato de ter sido aceita lá era o quanto minha vida tinha se desviado dos planos que tinha feito.
- Sim. Para onde mais?
- Como para onde mais? Para o Imperial College London, é claro! – respondeu, exasperada.
Senti meu rosto se contrair de leve enquanto tentava não recuar ao ouvir aquele nome, enquanto tentava não me esconder no quarto e chorar, como tantas outras vezes havia feito e por aquele mesmo motivo. Respirei fundo e desbloqueei a garganta das emoções amargas que, por um momento, se acumularam ali e quase me sufocaram.
- Não quero ir para lá. Já tomei minha decisão. Queria que você respeitasse.
- Respeitar? Como eu posso pensar em respeitar algo que não consigo nem entender?! – ela passou a mão pelo cabelo.
Mamãe abriu a boca, mas mudou de ideia e voltou a fechá-la. E fez isso de novo, então olhou para o teto e finalmente voltou a me encarar.
- , o ICL é o seu sonho desde que você decidiu cursar engenharia. E, desde aquele dia, há quase dez anos, você vem se dedicando, se matriculando em mais atividade extracurriculares do que era humanamente tolerável, virando noites para manter a média de notas nas alturas. Tudo para ser aceita naquela Universidade. E quando você finalmente consegue isso, você me diz que vai estudar aqui?! E eu tenho que aceitar isso e não falar nada?
- Eu tenho meus mot-
- Ah! Claro – ironizou. – Sim, você tem seus motivos. Quais foram eles? Ah, sim! Você não conhecia ninguém em Londres além dos seus tios e Drake!
Pude entender a mensagem subliminar por detrás daquelas palavras e elas eram tão claras como se realmente tivessem sido ditas em voz alta: “Você realmente acredita que sou idiota o suficiente para engolir essa justificativa babaca que você inventou?” Em minha defesa, alego não ter dito muito tempo para pensar em uma desculpa melhor.
- Foi isso que você disse, não foi? – arqueou a sobrancelha. – Quando abriu sua carta falando que você tinha sido aceita.
Tinha a nítida impressão de que estava caminhando para uma armadilha.
- Sim, foi isso.
- Ótimo! Pois está resolvido então.
Dessa vez foi ela quem fez menção de levantar e foi impedida por minha mão segurando seu pulso.
- Resolvido? – franzi o cenho, não entendi nada.
- Mas está bem claro, não? Você disse que não queria ir para Londres porque não conhecia ninguém. Agora Georgina vai estar lá. Vocês vão até mesmo poder morar juntas. Não poderia ser mais adequado.
- M-mas...
- Mas o quê, filha? – seus olhos espertos me sondavam.
E foi naquele instante que percebi que ela sabia exatamente o porquê de eu querer ficar em Manchester e não voltar para minha cidade natal. Cerrei os lábios e resmunguei:
- Nada.
- Então vou ligar para a sua tia para que ela combine tudo com Abigail. Certo? A não ser que você tenha outro motivo para não querer ir para a universidade com a qual você sonhou boa parte da vida?
Seu olhar era esperto. Se quisesse ter alguma chance de manter a decisão que relutantemente tinha tomado, iria ter que admitir em voz alta a razão verdadeira. Jamais faria isso. Aquela era claramente uma daquelas situações onde a pessoa faz a pergunta, mas não quer realmente ouvir uma resposta sincera. Ponderei por um segundo e optei pela mentira piedosa:
- Claro que não, mãe – forcei um sorriso. – Fico feliz por essa oportunidade ter surgido.
Ela me lançou um sorrisinho triste e se levantou.
- Vou buscar meu celular. Não temos tempo a perder. Precisamos ar-
Uma constatação estalou na minha mente e matou a pequena fagulha de esperança que havia surgido em meu peito mesmo contra minha vontade. Foi como se mais uma vez eu visse a faculdade dos meus sonhos escapando por entre meus dedos. Depois de tantos conflitos internos sobre ir ou não para ICL, a decisão tinha sido tirada de mim. E, por mais que não quisesse admitir, ficava feliz por isso. Um pouco de cor tinha voltado para o meu ano. Mas foi tão breve, apenas alguns segundo e aquele pequeno detalhe matou tudo. Com a voz meio falha, interrompi minha mãe e seus planos impossíveis:
- M-mãe, não há mais tempo. Eu não fiz a inscrição na data. E-eu não posso ir para lá.
Voltou a se sentar ao meu lado e segurou minhas mãos entre as suas. E com extrema ternura falou:
- Não seja boba, querida. Você não pensou que sua mãe iria deixar você jogar seu sonho fora, não é? Não depois de tudo pelo que você passou. Eu fiz sua inscrição pela internet e transferi os pagamentos nas datas corretas. Está tudo certo.
Senti o ar faltar em meus pulmões.
- M-m-mas isso foi há meses!
- Sim. Sua tia e eu só estávamos procurando um jeito certo de acabar com essa sua teimosia – deu uma piscadinha. – Falando em Kate, ainda preciso fazer aquele telefonema – deu um beijo na minha testa e sumiu pelo corredor que levava aos quartos ainda falando sobre todos os preparativos para minha mudança.
Enquanto isso eu fiquei ali, sentada, absorvendo aquelas novas informações e quase sentindo o chão mover sob meus pés enquanto minha vida dava outra daquelas mudanças inesperada. Ao menos, dessa vez, não era algo ruim. O peso em meu peito diminuiu e uma centelha de esperança renasceu.
E, pela primeira vez em meses, senti um sorriso verdadeiro se formar em meus lábios.


Capítulo 2


O carro avançava pela estrada aumentando, a cada quilometro rodado, a sensação de que aquilo realmente estava acontecendo. Eu realmente tinha voltado para minha cidade.
- Não consigo acreditar que você está indo para faculdade – tia Kate falou, saudosista. – Parece que foi ontem mesmo que você nasceu.
Virei a cabeça para encará-la. Era interessante ser uma das poucas pessoas que tinham a permissão de ver esse lado “emocional”, já que seu normal era o “modo detetive”.
- Eu estou ficando velha.
Isso me arrancou uma risada. Kate Castle não tem nem quarenta anos. Ela era mais de dez anos mais nova do que minha mãe. Vovô e vovó Beckett sempre disseram que ela era a “bonita surpresa” deles. Mamãe às vezes a chamava carinhosamente de “acidente de percurso”.
- Tia Kate, por favor, você sabe que não está velha. Continua linda como sempre – constatei o óbvio.
- Você só diz isso porque sou sua tia favorita.
- Você é minha única tia – arqueei a sobrancelha.
- Exatamente.
Sacudi a cabeça e resolvi começar um assunto mais neutro:
- E como está o tio Rick?
- Seu tio está, como sempre, agindo como uma criança com altos níveis de açúcar. A editora dele está reclamando sobre a demora do último livro e ele está fingindo que não é com ele.
- O de sempre então?
Ela assentiu, rindo.
- Tia, como é essa Georgina?
- Você não se lembra?
- A última vez que a vi foi quando tinha seis anos.
- Ah! É verdade. Depois que eles se mudaram vocês não tiveram mais contato. Isso me lembra de quando eu levava você pra brincar de casinha. Agora já está indo para faculdade.
Discretamente revirei os olhos. De novo aquilo? Resolvi cortar outra vez aquele tema antes que ela começasse a resmungar sobre os meus vestidos rosa ou sobre as bonecas que havia me dado.
- Ela vai estudar o que mesmo? Mamãe falou, mas não prestei muita atenção.
- Economia e Ciências Políticas.
Arregalei os olhos.
- Impressionante. Ela é bem inteligente então, não? É uma das melhores faculdades na área.
- Sim – fez uma curva e pude ver ao longe os prédios de Londres. – Mas você também é. Já está até indo para faculdade.
- Tia Kate, a senhora está grávida?
Ela virou para mim abruptamente, o volante escorregou um pouco de sua mãos e o carro deu uma pequena deslizada.
- Grávida? Não! Por que você está perguntando isso?
Dei de ombros.
- É que você está meio... emocionada hoje. Pensei que talvez fosse influência de hormônios.
- Meus hormônios?! Francamente, ! Você está passando tempo demais com o seu tio Rick. Ele também vem com essas ideias absurdas de vez em quando.
Reprimi uma risada.
- Só porque fico feliz por você ter deixando essas ideias irracionais de desistir do ICL, quer dizer que estou grávida?!
- Você sabe que minhas razões não foram irracionais.
Ela era a única pessoa com quem tinha conversado sobre isso.
- Sim, querida – seu tom suavizou-se. – Sei que você queria fazer o que considerava melhor para sua mãe. Mas você nunca olhou pela perspectiva de Heather. Imagina como ela se sentiria se um dia descobrisse que você abandonou seu sonho para não deixá-la sozinha?!
Estremeci. Minha tia estava certa. Apesar de mamãe desconfiar, ela não tinha uma confirmação do porque eu havia tentando desistir de ICL, o que era uma benção porque, pensando bem, ela nunca se perdoaria – mesmo a antiga decisão tendo sido minha.
- M-mas eu...
Como colocar em palavras que me doía pensar em abandoná-la? Era como se eu também...
Cortei esse pensamento. Não queria lembrar daquilo nunca mais.
- Sei que estava tentando protegê-la, , mas fico feliz por ela ter conseguido driblar aquele seu argumento ridículo.
Senti uma pontada no estômago ao finalmente juntar alguns pontos que idiotamente passaram despercebidos por mim.
- Hey! É verdade! Você ajudou ela, Castle! – acusei, traída. – E você prometeu! Eu confiei em você!
- Sim, eu prometi que não iria contar a Heather sobre seus motivos. Mas também prometi a minha irmã que, se houvesse alguma maneira de que pudesse fazer você aceitar a vaga, eu faria. Então, quando minha amiga casualmente comentou comigo sobre a filha dela, eu contei para sua mãe – virou para olhar-me nos olhos. – E não me arrependo – voltou a atenção para estrada. – Você é uma garota inteligente, , mas não sabe muito da vida ainda. Sua mãe é mais forte do que você pensa. E eu tenho convicção de que fiz a coisa certa. Se você vai ficar com raiva de mim por causa disso, que assim seja – terminou, o tom incisivo.
Pisquei devagar e desviei a vista para janela, envergonhada. Ela estava certa e eu havia agido como uma criança mimada ao acusá-la. Engoli em seco.
- Desculpe. Você tem razão. É só que...
Procurei as palavras, sabendo exatamente que ela era a única pessoa com quem eu poderia conversar sobre isso. E precisava falar, queria tentar tirar um pouco daquela culpa de sobre os meus ombros.
- ... parece que eu estou deixando-a para trás – deslizei o dedo sobre o vidro da janela, observando os prédios passarem rápido por nós. - Seguindo a minha vida e deixando-a no mesmo lugar, com aquelas lembranças.
- Querida, - chamou baixinho, - você não precisa ser sempre a forte. Não precisa tentar proteger a sua mãe do mundo. Você está dando pouco crédito a ela. Heather é durona. Ela vai sentir a sua falta, claro, assim como você sentirá saudades dela. E como eu sinto saudades dos seus avós, mas você tem que seguir com a sua vida. Não pode colocar seus planos e seus sonhos em espera e torcer para que as coisas se ajeitem sozinhas. Você tem que lutar por você, do mesmo jeito que sua mãe luta por ela. Essa não é a sua briga, . Você já tem a sua própria, não tente acumular a sua e a de sua mãe.
Assenti.
- Também... também me sinto egoísta – mordi o lábio inferior. – Estou indo para onde eu quero. Estou indo estudar nessa faculdade incrível e vou morar em uma das cidades mais legais do mundo e ela vai ficar lá, na mesma rotina de sempre. É tão injusto.
Ela aproveitou nossa parada em um sinal vermelho e virou para olhar para mim ao falar:
- , você é muito nova para tanta responsabilidade. O que aconteceu não foi culpa sua e você não tem motivos para carregar o peso do mundo nas costas. Heather escolheu morar em Manchester e ela adora o emprego que tem e a casa onde mora. Sim, houve situações que nunca deveriam ter acontecido, mas essa é a vida. Coisas assim sempre vão acontecer. Eu queria ter protegido vocês duas, sua mãe queria ter protegido você e você queria ter protegido ela – apertou minha mão de maneira reconfortante. – É isso que sempre queremos fazer: proteger aqueles que amamos, mas nem sempre isso é possível.
O semáforo ficou verde e o carro voltou a se movimentar.
- Nós fazemos isso quando conseguimos e continuamos a nossa vida. É assim que funciona. Você vai aprender um dia. Não está tudo bem agora, as coisas, contudo, se ajeitam. De um jeito ou de outro.
Respirei fundo. Talvez por isso Kate Castle fosse uma detetive tão boa: ela sempre sabia o que dizer. O nó em meu estômago se dissolveu. Sussurrei:
- Obrigada, tia Kate.
- Sempre que precisar – sorriu.
- Não, tia. Obrigada mesmo – falei mais firme dessa vez. – Obrigada por não ter deixado o assunto de lado quando eu te contei e por ter achado um jeito de me fazer vir pra cá, mesmo quando eu não admitia que era isso que queria.
- Então agora já admite?
- É – abri um sorrisinho triste. – Foi o que sempre quis. Só não parecia certo depois de tudo que aconteceu.
- Essa culpa injustificada que você está sentindo agora vai passar, querida.
- Eu sei.
Na verdade, ela já estava passando... tinha começado a se afastar de mim no momento em que me despedi de minha mãe em Manchester. O sorriso dela – de orgulho – foi o primeiro passo para longe da culpa, o segundo tinha sido a conversa com tia Kate. Talvez o terceiro fosse o definitivo. Ela estacionou o carro. Levantei a vista e meu queixo caiu ao ver o bonito prédio que estava paralelo ao carro. Não era um daqueles de arquitetura famosa, como dos livros ou das plantas arquitetônicas de minha mãe, porém era bonito e não muito alto - dez andares, no máximo. Tia Kate saiu do automóvel e fiz o mesmo.
- Uau – murmurei, ainda olhando para meu novo lar. – Parece um lugar ótimo.
- E é perfeito! – abriu a porta traseira e pegou minha bolsa. – Fica a exatamente dez minutos de metro da sua faculdade e a dez minutos da de Georgina. Tem uma estação logo virando a esquina. Aqui também é silencioso e seguro. E fica a uma hora da minha casa, assim você pode me visitar sempre – me sufocou em um abraço.
- Tia Kate – censurei de brincadeira.
- Ok. Quase sempre – riu. – Suas coisas já estão no apartamento. Como você sabe, aproveitamos sua visita à casa dos seus avós para trazermos as caixas e deixarmos no seu quarto.
- Sei que já disse isso, mas vocês não precisavam ter se incomodado.
- É pra isso que servem as tias favoritas – deu de ombros e enfiou as mãos nos bolsos. - Agora acho melhor eu ir.
- O quê? Por quê? Não quer ir comigo até minha nova casa?
Deu um sorrisinho triste.
- Acho que esse deve ser um momento só seu – passou as mãos sobre os olhos, limpando princípios de lágrimas. – Droga! Agora sei por que sua mãe não quis vir até aqui e preferiu se despedir em Manchester. Isso é difícil.
Sorrindo e também tentando conter as lágrimas, abracei forte minha tia.
- É só uma hora de distância.
- Tem razão! Eu estou bem.
Estendeu a minha bolsa para que eu pegasse. E também duas chaves.
- Agora vai lá. Vai conhecer sua nova colega de casa e sua nova vida. Já liguei para avisar Georgina que você chegaria hoje – ela abriu a porta do motorista. – Tchau, querida.
- Tchau, tia Kate. Obrigada mais uma vez.
- Sempre que precisar – entrou no carro e fechou a porta.
Acenei em despedida antes dela ligar o carro e se distanciar. Fiquei ali até o carro sumir de vista. Só então tomei fôlego e rumei para meu novo lar. Ao chegar em frente a porta de nosso apartamento, resolvi apertar a campainha. Não queria assustar a garota. Não seria um bom começo.
Minha memória quanto a filha de Abigail era vaga, por isso não sei exatamente quem estava esperando que abrisse a porta. Provavelmente alguém com óculos enormes, saias cumpridas e meias até o joelho. Sei que soa um estereotipo preconceituoso, contudo, tinha meus motivos para isso. Afinal, a garota tinha sido aceita numa das melhores faculdades do mundo e em um dos cursos mais difíceis. O que eu não esperava era que Georgina fosse uma modelo saída direto das passarelas.
- Oi, oi, oi! – se jogou em cima de mim, me abraçando. – ! Quanto tempo! – se afastou ainda sorrindo. – Vamos entrar, vem – segurou minha mão e me puxou para dentro do apartamento.
Fiquei encantada. A sala era enorme e uma das paredes era coberta por uma prateleira cheia de livros. Os dois sofás e as duas poltronas eram na cor branca, assim como o resto dos móveis, mas havia um puff quadrado na mesma cor vermelha que cobria as almofadas sobre os sofás. A televisão era enorme e pude ver videogames conectados a ela.
- Gostou da sala?
- É linda, Geo.
- Você tem que ver o resto do apartamento! – ainda me guiando pela mão, passamos por um corredor. – Ali é o quarto de hóspede – apontou para uma porta e depois para outra. – Aqui é meu quarto. E esse é o seu.
A primeira coisa que visualizei em meu novo quarto foram as várias caixas com as minhas coisa. Era possível, contudo, ver que o cômodo tinha bom gosto. O armário, a cama e a escrivaninha também eram brancas, mas havia vários pontos coloridos para alegrar o ambiente, tais como o tapete, a poltrona, as cortinas e a cadeira da escrivaninha – todos eles verde-limão.
Adorei.
- Não mexi em nada aqui – gesticulou para as caixas. – Estão exatamente como elas deixaram.
Sua preocupação de não parecer intrometida era engraçada.
- Tudo bem.
- Você deve estar meio cansada, mas pensei que talvez pudéssemos fazer um lanche e conversarmos um pouco. Faz tanto tempo.
Quase uma vida inteira.
- Boa ideia – assenti.
- Ótimo! Só precis-
Georgina foi interrompida pelo som de uma musiquinha abafada.
- Ah! É meu celular. Esqueci no quarto. Já volto – e saiu apressada em busca do aparelho.
Estava prestes a abrir uma das caixas e começar a arrumação – pois não sabia quanto tempo a ligação dela iria demorar – quando a campainha soou.
- , será que você pode atender? – gritou do seu quarto.
- Claro.
Atravessei o corredor de volta e abri a porta com um sorriso cordial. Então, quando meu cérebro identificou as duas pessoas paradas ali, foi como se as paredes estivessem se fechando em cima de mim e meu coração falhou uma batida e outra.


Capítulo 3


Sabe aqueles momentos na vida quando dizem que tudo passa em câmera lenta? Que você fica tão perdida que as coisas se movem mais devagar? É. Aquilo definitivamente não era o que estava acontecendo agora. Honestamente era o oposto. Como se eu tivesse entrado em um universo paralelo onde tudo fosse mais intenso. As cores, os sons... Era como se tudo tivesse se multiplicado dezenas de vezes. e estavam parados na porta do apartamento. Eles sorriam para mim. Não reagi. Continuei parada no mesmo lugar – uma mão ainda sobre a maçaneta – quando eles passaram por mim e me abraçaram.
- Oi. Você deve ser a . Eu sou o , irmão da Geo.
- E eu sou o .
Mesmo depois das apresentações inúteis, eu continuava imóvel. Só consegui reagir quando ouvi a risada rouca de alguém. Pisquei devagar algumas vezes e meu instinto me fez virar em direção ao som. Os três olhavam para mim. Georgina tinha preocupação escrita no rosto, os outros dois, por sua vez, tinham divertimento.
- E-eu... eu... Eu preciso... – dei alguns passos para trás, passando o batente e entrando no corredor externo. – ... Fazer alguma coisa.
As últimas palavras saíram baixas e de maneira não relevante. Elas se perderam no ar enquanto eu deixava algumas perguntas não respondidas para trás ao marchar para longe deles. Não tentei chamar o elevador. Não queria esperar. Fui pelas escadas. Agora que o estupor inicial havia passado era como se eu tivesse sido atropelada por um elefante. Minha cabeça zumbia e meu estômago revirava. Em algum momento daquela descida eu realmente cheguei a parar, encostar uma mão espalmada contra a parede enquanto me concentrava para não vomitar. Naquele momento, várias inspiradas profundas de oxigênio foram necessárias antes de eu finalmente recuperar o controle. Apesar de não estar mais sentindo o mundo girando ao meu redor, minhas pernas ainda não estavam totalmente firmes e, por isso, decidi que seria mais seguro me sentar em um daqueles degraus a arriscar quebrar o pescoço descendo os lances que faltavam. Era muita sorte eu não ter caído até agora já que não estava descendo em uma velocidade considerada normal – ou mesmo segura.
Coloquei os cotovelos sobre as coxas e esfreguei as mãos sobre o rosto, suspirando. Não sou de negar a realidade. Não iria ficar me perguntando se aquilo estava realmente acontecendo porque sabia a resposta.
Sim, estava.
E era bem surpreendente. Quais as chances? Quais as chances de eu encontrar de novo duas das pessoas que estavam na minha lista de “Evitar para sempre”?! Ridículo. Minha risada histérica ecoou pelas escadarias, mas logo morreu, deixando outra vez o silêncio ensurdecedor. Mantendo os cotovelos sobre minhas coxas, deslizei as mãos pelos cabelos enquanto tentava repassar mentalmente algum problema de matemática. Qualquer coisa para interromper o fluxo de pensamentos que – em vista dos últimos acontecimentos - inegavelmente seguia para aquele compartimento da memória que tentei trancar permanente. Contudo, os números falharam comigo e os acontecimentos daquele dia fatídico se repetiram de novo e de novo em minha mente. E, a cada nova repetição, a mágoa pesava um pouco mais no meu peito.
Senti um sorrisinho irônico se formar em meus lábios. E pensar que realmente acreditei ter superado isso. Talvez não fosse superável.
Patético.
Engoli em seco e forcei aquelas lembranças para o canto escuro ao qual elas pertenciam. Agora restava matematizar o problema em mãos, mas ainda não tinha todas as variáveis. Precisava entender porque eles estavam no meu prédio e o que diabos significava aquela história de “sou irmão da Geo”. Levantei e bati a mão na calça para espantar possíveis resquícios de poeira que pudessem estar ali. Ao menos não precisava me preocupar com os rastros das lágrimas manchando meu rosto, pois elas não existiam ali e agora. Há muito tempo não havia lágrimas. Não por esse tipo de motivo. Nunca mais pelos outros. Não. Não desde aqueles dias... desde aquela decisão. Era como se os fatos da vida batessem em mim e voltassem. Não indiferente, mas sim entorpecida. Talvez houvesse um limite de decepção que uma pessoa pudesse aguentar na vida. Não sei. Mas agora estava grata por não chorar. Minha fuga do apartamento já seria bem difícil de explicar – não precisava de complicações adicionais.
Ajeitei meu cabelo e comecei a subir a escadaria que havia descido, concentrando-me apenas em colocar um pé depois do outro. Mais rápido do que gostaria, estava em frente à porta da minha nova casa. Respirei fundo antes de entrar, torcendo muito para encontrar apenas Georgina lá dentro. Não devo ter ficado longe tanto tempo ou talvez minhas preces não tenham sido fortes o suficiente porque encontrei os dois lá, sentando no meu sofá junto com Geo. Todos eles se viraram na minha direção.
Ok. Vamos lá.
- Olá, sou – falei, abrindo um sorriso falso. – Desculpe a minha saída inusitada. Não sei o que aconteceu – sentia um gosto amargo na boca enquanto forçava as palavras.
- Não tem problema, linda. – sorriu honestamente e deu uma piscadela.
Não me chame assim. Não pisque para mim. Se possível, nem olhe para mim.
Lutei para forçar um sorriso.
- É. Nós estamos acostumados a esse tipo de reação. – completou. – Acredito que você seja uma fã?
O gosto ruim que dominava meu paladar só aumentou ao vê-lo sentado lá, falando comigo como se nada tivesse acontecido. Bom, talvez fosse melhor assim. Mais fácil ignorá-lo assim. Não queria falsas desculpas ou explicações hipócritas. Pisquei devagar e me concentrei em responder a pergunta.
- Fã? Não.
Isso fez os três franzirem o cenho.
- Você não sabe quem nós somos?
Interessante como alguém pode fazer uma pergunta tão arrogante em um tom tão inocente.
- Sim, eu sei exatamente quem vocês são, . Eu só não me importo – dei de ombros.
Senti um mesquinho prazer ao ver a confusão no rosto deles.
- Então... por quê? – foi a vez de perguntar.
Por eu querer acabar com esse assunto e por ter vontade de deixá-los um pouco mais desconfortáveis, resolvi usar o tópico do qual os homens tinha absoluto pavor:
- Sabe o que foi? – bati o dedo indicador de leve contra o queixo como se estivesse pensando. – Eu tive um súbito e fulminante ataque de cólica - bati o pé no chão para enfatizar minha mentira. – Precisei correr na farmácia para procurar um remédio.
Mordi os cantos internos da boca para evitar o riso quando vi a cor sumir dos rostos deles e o jeito tenso com que eles se mexiam no sofá. Definitivamente desconfortáveis. Missão cumprida. Não haveria mais perguntas sobre esse objeto em particular.
- E por que você não pediu para um de nós ir? Nós buscaríamos o remédio sem problemas. – Geo perguntou, olhando-me com suspeita. – E cadê o remédio?
Ah! Esqueci-me que mulheres não tem problema com a palavra “cólica”.
- Não queria incomodar. E já tomei. Era aquela pílula nova, sabe?
Mais um estremecimento da parte deles.
- Ok – assentiu .- Certo – resmungou, ainda pouco convencida.
- Então... eu odeio ter que me despedir tão cedo – outro sorrisinho falso. – Mas ainda estou sentindo umas dores – coloquei a mão sobre a barriga. - Vou me deitar um pouco. É isso aí – falei, fazendo um sinal com os punhos fechados e os polegares para cima.
Girei nos calcanhares e fui para o meu quarto. Encostei-me contra a porta ao fechá-la. Até que não tinha sido tão ruim. A cara de espanto deles foi impagável. Maldosamente divertido.
Sacudi a cabeça e me aproximei da primeira caixa. Estava na hora de desempacotar as coisas. Quando alguém bateu na porta já havia duas caixas a menos. Coloquei a luminária que tinha nas mãos sobre a escrivaninha e fui ver quem chamava.
- Oi, . Você está melhor?
- Sim, Geo. Tudo certo agora.
- Ah! Isso é ótimo – ela sorriu.
Senti-me um pouco mal por ter mentido.
- Podemos ter aquela conversa agora, então? Aquela de antes dos meninos chegarem.
- Sim, claro. – concordei e nós seguimos para a cozinha.
Bonito espaço. Todo em inox e branco. Havia uma ilha em formato de um U quadrado e coberta por mármore cinza; se olhássemos da entrada do cômodo podia-se enxergar o fogão elétrico na extrema direita da ilha e a pia a alguns centímetros dele. Sentei em um dos três banquinhos de frente para a parte livre da ilha, onde normalmente se faz as refeições, e assisti Georgina abrir um armário e pegar duas canecas brancas.
- Guardo as canecas aqui e os copos ali – apontou para outra porta. – Pratos, talheres – foi apontando. – E aquele é o armário do .
- É o quê? – franzi o cenho.
- Armário do – abaixou-se para pegar um bule. – É cheio de guloseimas nada saudáveis – encheu o bule de água e colocou para ferver. – Mantemos um desse em cada casa por questões de segurança. Ele fica insuportável quando está com fome.
- Okaay...
Colocou uma das canecas com água fumegando e um pote cheio de saquinhos de chá na minha frente. Escolhi um de maçã e preparei meu chá. Enquanto ela escolhia o sabor que queria, analisei se valia a pena começar com perguntas superficiais ou se era melhor ir direto ao assunto que realmente me interessava. Minha curiosidade falou mais alto do que a boa etiqueta.
- Geo, eu não me lembro de você tendo um irmão – comentei em um tom casual.
Ela me olhou por sobre a borda de sua caneca e vagarosamente tomou um gole de seu chá antes de me responder:
- Eu não tinha. O pai dele e a minha mãe se casaram há uns dois anos. Nós costumávamos brincar juntos quando éramos crianças. Éramos... – pensou por um minuto – amigos .
- Ah!
Isso explicava muita coisa.
- E vocês se veem com muita frequência?
Tomei um pouco da minha bebida, colocando as duas mãos ao redor da caneca para tentar aquecê-las. Minhas mãos estavam ficando geladas de nervoso. Alguma coisa me dizia que não iria gostar da resposta para a pergunta que havia feito.
- Bom. Não muito. Com ele sendo superfamoso e tal, mas agora vamos nos ver mais. Voltamos a ser amigos – pensou por um segundo. – Melhores amigos até.
- Imagino. Com vocês morando na mesma cidade agora...
- É. Isso também, mas principalmente pelo fato de que ele mora no andar de cima.
Pisquei devagar, colocando a caneca de volta sobre o balcão.
- Desculpe. Você disse que ele mora onde?

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Os sons da noite são algo interessante; freadas de carros, algumas sirenes e por vezes uma música mais alta vinda de um automóvel que passa – eles não me irritavam. O que me incomodava de verdade eram momentos como aquele em que só o silêncio me envolvia – não necessariamente pela falta de sons noturnos, mas sim porque meus pensamentos estarem mascarando todo o resto. E eram esses pensamentos que agora me mantinham acordada e olhando para o teto. Outra vez e companhia me faziam passar uma noite em claro. Patético.
Puxei o edredom até o queixo e resolvi cortar os excessos subjetivos e me concentrar nos fatos. Desse modo, frente às novas descobertas, eu tinha três opções:
A) Eu poderia fugir como um coelhinho assustado para casa da tia Kate e ficar lá até arrumar um lugar melhor para viver. E os problemas dessa opção eram tão óbvios que nem precisava ser um bom matemático para enxergá-lo. Era meio patético voltar para casa dos pais... imagina para casa dos tios!? E, mesmo que eu fizesse isso, nunca encontraria outro lugar tão bom para morar como esse aqui. Também havia o fato de que eu teria que dar muitas explicações para várias pessoas.
B) Eu poderia dizer que tinha surtado e voltar direto para Manchester. Ok. Essa alternativa era tão ruim que nem merecia mais considerações.
C) Eu ficaria exatamente onde estava e iria ignorá-los sempre que os visse. Não seria tão difícil assim. Não é como se eles morassem aqui. O problema é que não poderia ser abertamente hostil a eles. Afinal, eram o irmão e os amigos da minha colega de casa.
Queria poder fingir que não havia opção, que poderia ir embora e nunca mais vê-los, mas isso era tão covarde. Tão ridiculamente covarde. E eu já cansei de ser covarde. E, por isso, a decisão estava clara. Não iria fugir, não depois de tudo que passei para estar ali em Londres – tão perto de tudo que sonhei.
Não iria deixá-los roubar mais nada.


Capítulo 4


Sabe aqueles momentos da vida em que você acorda de manhã achando que os acontecimentos do dia anterior foram um pesadelo horrível e depois sofre a decepção de descobrir que foi tudo verdade?! Pois é... Muito pior é quando você acorda sem esperança nenhuma de que aquilo foi um sonho ruim.
Não sei quanto tempo fiquei deitada em minha nova cama, encarando o teto enquanto pensava em tudo ao tentar não pensar em nada. E o pior era que, entre aquela mescla confusa de lembranças que desenrolava frente aos meus olhos, a que mais se destacava era a daquele dia. De novo e de novo. Quase como se já não tivesse doído o suficiente quando aconteceu e minha mente precisasse ficar recordando para que eu não cometesse o mesmo erro imbecil de novo.
É. Tá bom. Como se fosse fácil cometer um erro de julgamento tão grande como aquele.
Esfreguei as mãos sobre o rosto e empurrei o edredom para o lado, me levantando.
Minhas coisas, distribuídas naquelas caixas, não iriam se arrumar sozinhas se eu ficasse deitada remoendo o passado. Mas, antes, precisava de cafeína. Então, esfregando os olhos e arrastando os pés, deixei o cheiro de café me guiar até a cozinha. Contudo, quando cheguei àquele cômodo, quase desejei ter ficado enrolada em meus pensamentos pessimistas. E o mais irônico daquela situação era que eu havia entrado direto na visão do sonho de milhares de garotas ao redor do mundo. Eu as entendia, afinal, certa vez também sonhei em acordar e encontrar, em minha cozinha, sem camisa fazendo café-da-manhã.
É. Certa vez.
Agora, todavia, minha parte racional estava em alerta, berrando para que eu corresse na direção oposta, mas, infelizmente, meus hormônios tinham uma ideia diferente, a qual envolvia ficar parada e apreciar a bela visão de suas costas definidas enquanto ele mexia em alguma coisa sobre o fogão. Sim, eu detestava cada fio de cabelo daquele garoto, mas isso infelizmente não anulava o sex appeal dele.
Sacudi a cabeça ao perceber que estava mordendo o lábio inferior. Talvez, ao invés de café, eu precisasse de uma bebida alcoólica. Ou de um pouco mais de vergonha na cara. Puxei o cabelo para trás e estava prestes a girar nos calcanhares e voltar ao meu quarto, decidindo que seria melhor ir a uma Starbucks, quando fui descoberta:
- Oi, bom-dia, – a voz dele era ainda mais rouca de manhã.
Involuntariamente levei as mãos ao cabelo em uma tentativa de ajeitá-los, mas parei no instante que percebi que tentava parecer mais bonita para ele. E outra parte da minha dignidade também estava ferida graças ao fato de estar com meu pijama que consistia em uma blusa de alças finas e um short curto. E a esperança de minha vestimenta passar despercebida por logo se extinguiu frente a olhada pouco discreta que ele lançou para minhas pernas. E o pior é que me senti lisonjeada por sua atenção.
Patético.
Mordi a frustração comigo mesma e resmunguei qualquer coisa em resposta ao seu cumprimento, nem mesmo tentando parecer simpática. Poderia culpar um mau humor matinal, mas tinha a esperança de que ele me acharia antipática e desistisse de tentar manter conversas casuais comigo. Queria que ele me ignorasse também, isso seria um grande avanço na minha meta de fingir que ele não estava ali, que ele era de novo só um cara famoso bem distante da minha realidade, que era alguém do passado. Obviamente, com a ajuda de minha sempre ausente sorte, ele não entendeu a dica e ainda soltou uma risada rouca ao falar:
- Vejo que você também não é uma pessoa matinal – virou as panquecas na frigideira. – Eu também não.
- Sério? – arqueei a sobrancelha. - E o que está fazendo aqui e a essa hora então?
Não estava realmente em busca de uma resposta. Na verdade, estava buscando aquela meta de ele me achar uma pessoa antipática. Todavia, ao invés de me ignorar, ele ignorou meu tom rude.
- Geo não gosta muito de cozinhar e, como você estava com dor ontem, pensei em descer aqui e fazer um café-da-manhã para vocês.
Sério?
- Sério? – repeti meu pensamento incrédulo em voz alta.
Deu de ombros, colocando a última panqueca sobre uma pilha de outras no prato e colocando esse sobre a mesa junto com diversas outras guloseimas, antes de responder:
- Não sou um da cozinha, mas não é tão ruim.
Limitei-me a assentir. Já que respostas rudes não funcionavam. Quem sabe o silêncio fizesse o trabalho por elas. Ele sorriu e sentou-se à mesa.
- Sente-se. Sinta-se em casa – riu da própria piadinha sem graça. - Já já Georgina aparece aqui, mas, enquanto esperamos, nós podemos conversar. Geo disse que conheceu você quando era criança – comentou, em uma clara abertura para que eu continuasse o assunto.
- É. Foi sim.
Peguei uma das canecas e a cafeteira. Já que teria que aguentar essa porcaria de conversa iria precisar de cafeína.
- Hmm – ele pareceu pensar por um tempo, provavelmente não esperando aquele corte brusco. - E vocês eram amigas?
Céus! Esse homem simplesmente não desistia! E é por situações como essas que, por vezes, eu odeio gente compreensiva. Encostei o quadril no balcão de frente para mesa e, com o olhar fixo nele, levei o copo aos lábios e demorei mais do que o necessário para tomar aquele gole de café.
- Sim.
- Engraçado como vocês acabaram se reencontrando agora, né? – ocupou-se em morder um cookie.
- É. A vida é muito engraçada – respondi, levando em consideração mais o fato de estarmos tendo aquela conversa do que o meu reencontro com a nova irmã dele.
Desencostei-me e fui em direção à saída da cozinha.
- Tem certeza de que não quer se sentar? – parecendo desapontado, ele apontou para a cadeira vazia.
- Quem sabe na próxima, .
Ou nunca.
- Pode me chamar de , .
Seu comentário fez com que eu parasse de andar e me virasse para encará-lo de novo. Então, com o tom forçadamente adocicado, e sem fazer questão nenhuma de disfarçar o quão adocicado ele era, respondi:
- Que fofo! E você pode me chamar de , – frisei seu sobrenome.
Outra vez a surpresa em seu rosto fez toda a situação valer a pena. Lançando um último sorrisinho irônico, deixei o cômodo. Não tinha dado nem cinco passos quando o furacão abriu a porta de entrada e veio correndo em minha direção. Tive tempo de dar um único passo para trás antes de seu corpo se chocar contra o meu. O ar foi expulso dos meus pulmões e a caneca, que tinha conseguido afastar ao esticar o braço no último segundo antes do impacto, dançou em minha mão. Felizmente o líquido quente não caiu por estar na metade do copo. Coloquei a mão livre sobre seu ombro e tentei empurrá-lo, mas o garoto estava irredutível em seu aparente plano de me sufocar em um abraço de urso.
- Que diabos?! – grunhi, ainda tentando recuperar o fôlego. – Você está tentando me matar, ? – finalmente consegui fazer com que ele me soltasse.
- Bom-dia, linda. Como você está hoje?
- Estarei melhor se não houver outras tentativas de me sufocar até a morte hoje – resmunguei.
Ele soltou uma gargalhada.
- Você é tão engraçada, .
Foi minha vez de ficar surpresa. Sacudi a cabeça, decidida a ignorar a insanidade dele e perguntei:
- E o que você está fazendo aqui?
- Ouvi que iria fazer café-da-manhã aqui hoje. Então vim aproveitar!
- Você não tem comida em casa, não? – arqueei a sobrancelha.
- Comida eu tenho, o que falta é disposição para cozinhar. Por isso, quando eu ouço sobre refeições amigas prontas, eu compareço.
- E quem convidou você para a refeição amiga de hoje?
- Ah, Stomy. Você é mesmo uma piadista! – bateu a mão de leve no meu ombro, rindo outra vez.
Por que esses meninos não podiam ver que eu estava falando sério?! Estava começando a acreditar que o problema era comigo.
- Mas agora preciso ir. Antes que as panquecas esfriem. Até depois, .
Deu um beijo em minha bochecha, ainda sorrindo, e foi assoviando uma música qualquer até a cozinha.
Talvez eu estivesse dormindo e tudo aquilo não passasse de um sonho bizarro. Sacudindo a cabeça pelo que parecia a décima vez aquele dia, finalmente consegui chegar ao quarto. Demorei tanto para conseguir me livrar daqueles dois que o café tinha esfriado e agora estava intragável. O que era ótimo, afinal, significava que eu havia aturado aqueles dois malucos para nada.
Resmungando entredentes, comecei a desempacotar o resto das minhas coisas. Ocupar-me-ia com arrumar meu quarto hoje e amanhã para já estar tudo certo na segunda-feira, quando finalmente começariam minhas aulas.

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Terminei de anotar os últimos cálculos e fechei meu caderno. Guardei tudo em minha bolsa e me levantei. Apesar de achar toda aquela matéria nova interessante, mal podia esperar aquele momento - o do final das aulas. Passei pela porta da sala digitando uma mensagem. Estava de cabeça baixa e prestando pouca atenção no mundo ao redor quando ouvi:
- .
Levantei a cabeça em reflexo. Lá estava o cara por quem eu procurava, o destinatário da mensagem que esta escrevendo. Encostado na parede oposta, os braços cruzados e um sorrisinho de lado. Tão bonito quanto eu lembrava.
- Vejo que não aprendeu nada durante os anos - a voz também continua tão rouca e sexy. – Sempre distraída.
- DRAKE! – joguei os braços envolta de seu pescoço e o apertei.
Ele podia estar mais alto e musculoso, mas seu cheiro era o mesmo. Algo amadeirado e que me reconfortava sempre.
- Estava com saudades, Drake – minha voz saiu abafada contra seu peito porque me recusava a soltá-lo.
- Também estava, baixinha – bagunçou meu cabelo. – Agora me solte antes que todos os nossos colegas pensem que sou um bobo sentimental.
Rindo, fiz o que ele pediu.
- E quanto a mim? Não tem problema se eles me acharem uma boba sentimental?
- Mas essa é a verdade – arqueou a sobrancelha.
- Vejo que continua com essa pose de bad boy.
- Não seja ridícula, . Eu sou um futuro Lord. Não posso ter fama de bad boy.
Revirei os olhos e guardei meu celular no bolso.
- Tem razão. Desculpe, Vossa Alteza Real – de maneira irônica, me abaixei, fazendo uma reverência. – Agora que já relembramos a sua adorada veia aristocrática, podemos almoçar? Tenho umas coisas para te contar.
- Boa ideia – ofereceu o braço.
De braços dados, caminhamos para fora do prédio.
- Aonde você quer ir?
- Não sei, my Lord – soltei uma risadinha ao ver a careta dele ao ouvir o apelido que usei. - Faz anos que não venho aqui.
- Os bons restaurantes você não lembra, né?! Já os apelidos infantis estão fresquinhos.
- Foi você quem acabou de me lembrar disso! – deu uma cotovelada em suas costelas, rindo.
Lançou um olhar superior em minha direção.
- Tanto faz. Vamos logo então. Tem um restaurante italiano do outro lado da rua – começou a me guiar para direita.
Típico. Quando perdia uma discussão, mudava de assunto. Decidindo que era melhor ignorar sua saída pouco discreta, comentei:
- Sempre mantendo vivas suas raízes, hein?
- Obviamente.
- Você é tão arrogante. Não sei como eu te suporto.
- Porque eu sou o único que suporta você.
Talvez ele tivesse razão nesse ponto.
- E então? O que você queria me contar? – perguntou depois que já estávamos acomodados, um de frente para o outro, em uma mesa e de termos feito os pedidos.
- Lembra mês passado quando eu te liguei para contar que iria vir para cá?
- Sim. Também me lembro de ter pensado que você finalmente tinha criado algum juízo e deixado de ser idiota.
Bufei.
- Delicadeza ainda é uma de suas melhores qualidades.
Ele riu e cobriu uma de minhas mãos com as suas.
- Mas, acima de tudo, me lembro de ter ficado muito feliz por ter você de volta.
- Tem certeza? – dei um pequeno apertão em sua mão. - Aposto que vai enjoar de mim rapidinho. Nós temos várias aulas juntos.
- Provavelmente.
Belisquei seu pulso com força. Outra vez recebi como resposta um arquear de sobrancelha.
Revirei os olhos.
Aristocratas e seus controles de ferro idiotas.
- Enfim, como estava dizendo, eu te falei sobre a minha colega de quarto. Aí, sexta-feira passada, quando cheguei à minha nova casa, descobri que ela tem um novo irmão.
- Como assim, um novo irmão? Tem um bebê no sua casa?
- O qu-Não! Não. A mãe dela casou de novo e agora ela tem um irmão. Que não é um bebê – frisei antes que ele fizesse outro comentário espertinho. – Na verdade, ele é um dos integrantes da One Direction. E ele mora no apartamento de cima.
- One Direction? Aquela bandinha que você idola-
Estiquei-me sobre a mesa e tapei sua boca com uma mão.
- Não precisa ficar me lembrando disso – sibilei.
Seu olhar tinha um brilhozinho irônico tão forte que ele nem precisou falar para que eu ouvisse “Eu avisei que eles eram uma porcaria”.
- Calado – tirei a mão de sua boca e empurrei seu ombro antes de voltar ao meu lugar.
- Tudo bem. Você já parece miserável o suficiente sem que eu precise recordar aqueles dias... – parou por um segundo - meses, anos – completou.
- Idiota – resmunguei, revirando os olhos. – Pare de me criticar e se concentre no problema.
- E qual seria ele?
Massageei minha têmpora. Francamente! Ele fazia isso de propósito.
- Eu odeio os dois!
- Mas não são cinco?
- Eu odeio os dois e tenho uma total antipatia pelos outros três.
- Esse é realmente um problema. O que você pensa em fazer sobre isso?
- Pensei em me mudar.
- Isso seria covarde, mas, se for inevitável, você pode ficar lá em casa o tempo que precisar. Ou eu posso ter uma conversa com eles – abriu um sorriso frio.
- Obrigada, mas concordo com você sobre ser covarde. E não posso deixar você usar suas táticas de intimidação.
- Por quê? Elas funcionam! – protestou, um tanto quanto indignado.
- Eu sei bem que elas funcionam. Lembro perfeitamente bem do primeiro encontro que teria e que fiz a besteira de te contar. Você conseguiu assustar tanto Bob McSert que o garoto desistiu de me levar para sair. E ele insistiu por um mês antes de eu finalmente aceitar sair com ele!
- Eu o convenci usando meus bons modos.
- Você o assustou totalmente. E por telefone.
- Não posso deixar você usar o terrorismo Marchiori neles porque devo uma à irmã dele.
- Como assim?
Vi de esguelha que nossa garçonete trazia o pedido.
- Depois te explico.

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Cheguei tarde em casa naquele dia depois de passar horas despejando meus problemas nos ouvidos de Drake. Ao menos tinha o conforto dele ter chegado à mesma conclusão que eu: ficar e lutar.
Lutar. Ri sozinha com esse pensamento bobo. Não tão bobo quanto os planos de intimidação e ameaça de Drake ou, como eu gostava de chamar, estratégias de guerra Marchiori - ou táticas de guerrilha Marchiori. Ainda estava pensando em qual soaria mais constrangedor para ele. O frustrante era que ele provavelmente não se envergonharia. Só iria me olhar do alto e dizer que eu estava sendo ridícula. O que talvez fosse verdade.
Ótimo.
Não fazia nem uma semana que estava na companhia deles e já estava ficando meio maluca. Passei as mãos sobre o rosto.
Se bem que algumas das ideias de Drake para tornar a situação mais palatável não eram tão ruins. Talvez eu realmente pudesse... não. Melhor não. Afinal, as coisas não estavam tão ruins quanto tinha antecipado. E a conclusão mais óbvia é de não os veria muito. Somos pessoas ocupadas.
Sentindo-me um pouco mais leve, joguei minha bolsa sobre o sofá e fui para cozinha. Esperava encontrar Geo lá, pois a luz do cômodo estava acesa, o que eu não esperava é que ela tivesse companhia. e ela estavam sentados na em frente à ilha da cozinha e de costas para mim.
Por que ele ficava insistindo em ir contra a minha lógica?!
Ele não tinha uma casa própria não?! Que inferno! Será que toda vez que chegasse em casa iria tropeçar nele?!
Considerei sair dali tão silenciosamente quanto entrara, mas um segundo pensamento me fez ver que realmente era patético ficar me escondendo no quarto, fugindo dentro da minha própria casa. Engraçado como aquela voz em minha mente se parecia muito com a de Drake.
É. Eu, com certeza, estava ficando maluca.
- Hey – cumprimentei de maneira mais genérica possível ao ir em direção à geladeira.
- Oi, .
- Olá.
Analisei as opções e decidi por um suco de laranja de caixinha. Enquanto olhava as prateleiras e comida, lembrei-me de uma coisa importante.
- Geo, - me virei, mas falava para baixo, a atenção fixa em colocar o canudinho do suco no lugar indicado, - depois você precisa me dizer como funciona a o sistema de compras do supermerc-
Parei no meio da frase, o canudinho a alguns centímetros da boca porque, ao levantar a cabeça para olhar os dois, fui atingida com força pelo clima que pesava entre eles. Dietze olhava para as mãos enquanto tinha seu olhar fixo em seu copo de cerveja. Os dois pareciam longe, absortos em seus próprios pensamentos. Acho que eles não ouviram nada depois do “hey”.
Tive ímpetos de virar as costas e ir para o quarto.
Não me envolver. Já tinha complicações demais. Não precisava adicionar outras. Minha boa educação e o fato de eu não ser um monstro frio, contudo, falaram mais alto e me vi perguntando:
- Geo, , está tudo bem? Geo?
Ela levantou a cabeça.
- , oi. Sim, está tudo bem.
Seu tom não foi convincente, mas definitivo. Ela não queria falar sobre isso.
Assenti com a cabeça e murmurei um “boa noite” antes de começar a andar para fora do cômodo. Acho que eles nem mesmo me ouviram, pois já haviam voltada aos sussurros. Dei de ombros, tentando não prestar atenção, contudo, quando já estava com um pé na sala, pude ouvir:
- Não se preocupe, . Nós vamos encontrar uma solução.
Por algum motivo, eu tive a nítida sensação de que logo ficaria sabendo sobre o que eles estavam falando. E, mais do que isso, sabia que não iria gostar das implicações daquele assunto.


Capítulo 5


- Não, Geo, sério. Eu estou muito cansada. Quem sabe na próxima – falei, em uma mistura de irritada e desesperada.
Irritada por ela continuar insistindo nesse assunto e desesperada para convencê-la a me deixar em paz.
- Mas, ! Você disse isso na última vez. E nas outras três vezes anteriores também... – franziu o cenho, suspeita brilhando em seus olhos. – Por que você não gosta deles?
Quase deixei a panela de água em minhas mãos cair no chão. Georgina era esperta demais para o meu bem próprio bem. Tinha que tomar mais cuidado com ela.
- Não sei do que você está falando, Geo – murmurei, tentando me esquivar da pergunta, quando tive certeza de que minha voz soaria como sempre e não transpareceria o quão acuada eu me sentia naquele momento.
Por sorte estava de frente para pia e de costas para ela – o que me dava a vantagem de, pelo menos, não ter que olhá-la nos olhos enquanto tentava mascarar a verdade.
- Não insulte minha inteligência, – falou, ríspida. – Faz pouco mais de um mês que estamos morando juntas, mas já te conheço bem o suficiente para dizer quando alguma coisa está errada com você. E tem alguma coisa errada sempre que eu menciono o nome de algum dos meninos. Nem tente negar – levantou a mão para me calar ao ver que abria a boca para protestar. – Toda vez que um deles aparece aqui em casa você arruma um motivo qualquer para se trancar no quarto. Isso sem contar o fato de que faz quase um mês que estou te convidando para ir à casa deles e você sempre tem uma desculpa na ponta da língua. Isso está ficando ridículo! Porque não me conta de uma vez o motivo de você detestar a presença deles?!
Mexi os ombros devagar, tentando diminuir a tensão neles antes de finalmente deixar as louças, sacudir as mãos molhadas e me virar para encará-la.
Não queria mentir. Já tivera mentiras demais por uma vida. Não queria acrescentar mais algumas. Então respirei fundo e optei pela saída menos difícil:
- Eu não detesto a presença deles, Geo.
E os detesto por inteiro, completei em pensamento.
- Para provar isso, vou aceitar o convite. Vou mudar de roupa para irmos – dei a volta nela e saí da cozinha.
- Ah, não! Você não vai fugir do assunto – protestou, me seguindo.
Fui encurralada pouco antes de chegar ao corredor quando Georgina entrou na minha frente, bloqueando o caminho.
- Nem vem, – cruzou os braços. – Eu te dei espaço, não fiquei te pressionando, mas a situação está ficando ridícula e incontornável. Não dá para ficar fingindo que não tem nada errado – suavizou o tom. – Me conta o que aconteceu.
Olhei para o teto, pedido por paciência. Esse assunto estava ficando chato, mas o que me irritava mesmo era o fato de que Dietze estava certa. Aquela situação em que eu tentava evitar os nossos vizinhos a qualquer custo estava ficando insustentável. Ou aquilo mudava ou eu teria que sair da minha casa, o que era justamente aquilo que havia prometido para mim mesma não deixar acontecer.
Ok. Apesar de resignadamente, aceitava o fato de que minha primeira tática – a de ignorá-los completamente – falhou.
Precisava de outra.
Ignorá-los parcialmente era a alternativa e talvez essa funcionasse. Tinha, contudo, outro problema eminente. Abaixei os olhos para a expressão decidida no rosto da minha amiga e soltei o ar pesadamente.
Minha amiga. Exatamente. Amigas não mentem. Relações duradouras não poderiam se basear em mentiras – e sabia disso por experiência própria. Não estava, todavia, pronta para falar sobre isso. Não com ela e nem com ninguém. Decidi resumir a história toda em poucas palavras.
- Geo, eu era fã da One Direction... e isso não deu muito certo para mim.
Resumir não significava ser específica.
Surpresa e confusão tomaram conta de seu rosto.
- E-eu... não esperava por isso. Faz tempo?
- Faz tempo – assenti.
Sabia qual era a pergunta que vinha depois, mesmo torcendo para estar errada.
- Como assim “não deu certo”?
E lá estava a pergunta.
Soltei o ar pesadamente.
- Georgina, por favor, agora não – passei a mão pelo cabelo.
Outra vez aquela dorzinha de cabeça incômoda se fazia presente. Iria acabar desenvolvendo uma enxaqueca.
- Ok – murmurou, incerta.
- Agora que já estabelecemos isso, você pode me dar licença para eu trocar de roupa?
- Você vai mesmo? – arqueou a sobrancelha.
- Por quê? Agora que sabe que não curto a banda do seu irmão o convite para jantar foi retirado? – brinquei.
- Não! – apressou-se a negar. – Não é isso. É que eu pensei que você não iria querer ir. Quer dizer, você não queria ir antes e eu fiquei te forçando – engoliu em seco. - Agora eu entendo... se você não quiser ir.
Não queria ir antes e continuava não querendo ir agora, mas na vida nós temos que fazer alguns sacrifícios. E Georgina havia se tornado alguém importante para mim, alguém por quem eu estava disposta a abrir algumas exceções. Exceções que incluíam passar algumas horas com cinco das pessoas de quem eu mais queria distância.
Uma amiga. Fazia tempo que me afastara dos meus amigos. Não queria mais isso. Queria amizade outra vez, queria parar de mentir tanto. Depois de um tempo as mentiras começam a cobrar o seu preço, elas te deixam exaustas, te deixam paranoica e com medo de ser descoberta. Estava cansada disso. Mudar para Londres outra vez era um recomeço, uma chance para essas mudanças. Não gostava de nada pela metade e um recomeço pela metade era só um fingimento.
- Bom... Em algum momento vou ter que me acostumar com eles, não é mesmo? – murmurei, tentando soar animada.
“Acostumar” era a palavra perfeita para descrever aquilo. Como ocorre quando você se muda para Londres e se acostuma com a chuva e com os dias cinzentos. Primeiro você odeia a garoa infernal que cai quase todo dia, depois ela não mais te incomoda e um dia você se acostuma.
Pretendia me acostumar. Tolerá-los.
- Sim! – deu uns pulinhos, entusiasmada. – Isso é ótimo! Obrigada, ! – me abraçou.
Forcei um sorriso. Agora só precisava encontrar um pouco mais de coragem.

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Enquanto subíamos de escada - depois que discuti sobre não ir de elevador para poupar energia e salvar o mundo sendo que na verdade só estava querendo ganhar algum tempo – tive a epifania clara de que aquilo não era uma ideia muito boa. Podia prever o desastre chegando, se aproximando mais a cada degrau que eu subia. Arrastei-me o máximo possível, demorando cada segundo. Tive certeza de que Georgina percebeu minha artimanha para adiar o inevitável, mas felizmente teve a delicadeza de não falar nada. Quando chegamos à casa dele, Geo não tocou a campainha e já foi logo entrando - nada mais justo já que eles sempre fazem isso na nossa casa.
- ? Meninos? – chamou enquanto passávamos pela linda e masculinamente decorada sala em direção à cozinha.
- Geo! Na cozinha – uma voz que reconheci como a de , mesmo só tendo ouvido sua voz pessoalmente em um concerto anos atrás, respondeu.
. Aquele que costumava ser um dos meus ídolos. Quando conheci e foi um choque. Não tinha qualquer expectativa de vê-los novamente, mas agora eu sabia o que esperar e descobri agora que aquele conhecimento prévio não ajudava em nada. Meu coração estava disparado outra vez e temi começar a suar frio. Talvez ainda houvesse tempo de fugir. Lidaria com a vergonha da minha nova fuga covarde depois.
Como se lendo minha mente, Dietze se virou para mim e segurou meu pulso, me puxando para onde os outros estavam.
- Hey, gente. Trouxe companhia – falou animadamente.
Aquelas palavras fizeram a atenção das três pessoas ali cair sobre mim.
- linda! – pulou de seu lugar a mesa para me abraçar.
Não me orgulhava de admitir isso, mas estava começando a ficar menos indiferente em relação à . Não romanticamente, mas em uma questão de amizade. Porque, francamente, é muito difícil se manter brava ou com raiva daquele homem. Ele é simplesmente adorável. Sempre sorrindo e sempre te abraçando. Aliás, já tinha até me acostumado com esses abraços dele e inconscientemente esperava por eles a cada vez que nos encontrávamos.
Um legítimo hug, do qual eu tanto ouvira falar quando era uma fã.
- Oi, – dei o já rotineiro tapinha em suas costas.
Ainda não fui totalmente vencida pelo charme ao ponto de abraçá-lo de volta.
- Como vai? – perguntei por educação.
- Muito melhor agora que estou vinte libras mais rico.
- O quê? – perguntei.
- e eu apostamos 20 pratas se você viria hoje ou se arrumaria mais uma daquelas desculpas ruins.
- ! – Geo repreendeu.
Por mais irracional que isso fosse, fiquei chateada por ele ter apostado contra mim.
- Claro que a viria – interveio, se aproximando. – Aliás, é um prazer conhecê-la, . Eu sou o .
- Prazer – estendi a mão, mas ela foi ignorada em favor de outro abraço.
Por que eles tinham essa fixação com abraços?! Mesmo quando era fã acreditava que esses boatos sobre eram superexagerados, mas podia ver que estava errada. Eles realmente abraçavam em todas as ocasiões possíveis.
- E eu sou o , o mais legal – fui puxada para mais um abraço logo depois do de .
Dei alguns passos para longe deles assim que fui solta.
- Prazer em conhecer você também.
Outra pequena mentira que tornava possível a convivência em sociedade.
- Agora que todos se conhecem, cadê meu irmão?
- Ele está no quarto dele, agindo esquisito assim como ele tem feito nos últimos tempos. – respondeu.
- Mais esquisito que o normal – concordou .
- Mais esquisito que quando ele descobriu que seus pais iriam casar, lembr-AI! – se interrompeu ao levar uma cotovelada nada discreta de .
- Nós já combinamos de não falar sobre isso – sibilou.
- Ah! Verdade! Foi mal, – coçou a nuca, encabulado e depois se virou para minha amiga. – Quer que eu vá chamar para você, Geo? – sorriu.
Georgina lançou um olhar de descrença em sua direção antes de sacudir a cabeça e murmurar um “obrigada” e dizer que mesma iria procurá-lo. Sem mais delongas, ela saiu para fazer exatamente isso, o que me deixava sozinha com aqueles três.
Ótimo.
Felizmente eles estavam mais preocupados em fofocar sobre a vida do companheiro de banda do que com a minha presença.
- Certeza que Georgina sabe o que está acontecendo com . – comentou.
- Certeza! – sacudiu a cabeça, concordando. – Eles estão de segredinho pelos cantos e faz tempo. Só queria saber por que não falou nada com a gente. Pelo menos não comigo – olhou para os amigos com suspeita. – Ele contou para vocês?
- Para mim não.
- Nem para mim.
- Menos mal então. Hey, , ele comentou algo com você?
Minha observação do mármore preto sobre a pia – isto é, minha tentativa de parecer invisível - foi interrompida por porque, com a minha sorte, é claro, que minha vontade de não ser incluída naquela conversa não seria respeitada.
- Quem comentou o quê? – fingi-me de desentendida.
- comentou com você o porquê de ele estar esquisito e mais calado do que o normal?
A possibilidade de eu ser confidente de era tão remota que tive vontade de gargalhar, mas consegui me controlar antes de passar a impressão de que estava perdendo a lucidez.
- Não acho que sejamos amigos o suficiente para que ele me conte seus segredos, .
- Não seja boba, , você é uma de nós agora.
Senti um bolo se formar em minha garganta.
Seu sorriso ao dizer aquelas palavras era tão sincero, tão sem maldade que eu chegava a me sentir mal por ser tão antipática. Precisava, entretanto, manter em mente o porquê de não gostar deles.
Depois de alguns segundos, os quais usei para me recompor, falei:
- Bom, eu não sei. E o que vamos jantar? – mudei de assunto, aproveitando que tinha percebido a ausência de qualquer coisa cozinhando sobre o fogão.
me lançou um olhar desconfiado, mas não falou nada.
- Pizza! – respondeu. – Nós encomendamos cinco pizzas, que já devem estar chegando, aliás. Espero que elas cheguem antes do . Assim ele aprende a chegar no horário.
- vem também?
Essa reunião familiar está ficando cada vez melhor.
- Ahan. Ele foi buscar a Summ e depois os dois vem para cá.
- Summ?
- Summer Campbell, a namorada dele.
Uou. estava namorando?! Impressionante como as coisas podiam mudar em alguns anos. Quando era uma directioner e comia qualquer informação sobre eles, não havia nenhum boato sobre algum envolvimento amoroso dele com alguém. É claro que depois de ter aberto os olhos, ou melhor, depois de ter sido puxada abruptamente para fora daquele mundo de fantasias, decidi cortar qualquer laço com eles, isto é, nada mais de “stalkear” na internet ou de ouvir as músicas. Então não deveria me surpreender tanto por alguém finalmente ter domado o solteiro mais convicto daquela banda. Pergunto-me como aquela garota seria.
Obviamente minha curiosidade não era grande ao ponto de eu desejar rever o namorado dela. “Nunca” ainda seria muito cedo para rever .
- E, você, ? Tem namorado? – perguntou gentilmente.
Por que eles pensam que podem me chamar pelo meu apelido? Quando dei essa intimidade? Respirei fundo para não corrigi-lo dizendo para me chamar de , assim como tinha feito com o amigo dele. Afinal, não estava em minha casa e tinha prometido ser um pouco mais tolerante. Então forcei um sorrisinho ao responder:
- Não. Homens não são muito confiáveis.
- Você é lésbica? – perguntou, arqueando a sobrancelha. – Não que eu tenha alguma coisa contra. É só curiosidade mesmo.
Fiquei alguns segundo o encarando. De canto de olho, via bater a mão na testa e sacudir a cabeça, inconformado com a indelicadeza do amigo, e ficar vermelho tentando não gargalhar.
Pisquei devagar e pensei em curtir uma com a cara dele, mas logo descartei essa ideia. O assunto era sério demais para fazer brincadeiras.
- Não, . Eu não sou gay. Só tenho a completa certeza de que homens não valem o trabalho que dão.
- Mas... como assim então? Você pretende morrer virgem?
Arregalei os olhos, chocada com a sua falta de tato e latiu um “”. não tentava mais disfarçar a risada. - Não que isso seja da sua conta, , mas eu acredito em exceções e em ter um tempo de diversão em que ambos fiquem contentes com a barganha – respondi friamente - E você e sua falta de senso em assuntos delicados só provam meu ponto.
O clima começou a ficar pesado ao invés de constrangedor.
- Credo. Você fala de sexo como se fosse um problema matemático.
- Não estava me referindo apenas ao sexo, mas a tudo mais que envolve um relacionamento. E você é bom assim em julgar o caráter das pessoas só com algumas palavras trocadas ou eu sou um caso especial?
tinha parado de rir e parecia chocado demais para intervir. A tensão no cômodo aumentava a cada segundo.
- Não sei. Talvez sejamos dois exemplos do mesmo tipo. Afinal, você também parece bem satisfeita em nos julgar sem nos conhecer.
Aquilo realmente me surpreendeu.
- Como é?
- Não se faça de inocente – sacudiu a mão com um gesto de descaso. – Georgina está tentando trazer você para jantar aqui há um mês, desde que voltamos da viagem, e você sempre tem uma desculpa esfarrapada para não vir. Não precisa ser um gênio para entender que você nos julgou e chegou à conclusão de que não merecemos a honra da sua presença.
- Primeiro: Eu jamais pensei em julgá-los sem conhecê-los.
Sim, já tinha julgado e chegado à exata conclusão da qual ele falara, mas não foi sem conhecê-los. E não merecia saber disso.
- Segundo: Você pensa que só vocês, superastros, tem compromissos? Eu também tenho responsabilidades e não tenho a condição ou vontade de ficar sentada esperando vocês terem um horário da agenda e me chamarem para eu vir correndo feliz por ter um pouco de atenção.
Aquilo pareceu, finalmente, estourar a bolha de determinação na qual ele se envolvera. piscou devagar.
- Você tem razão, eu-
- Deixa pra lá. Essa claramente foi uma péssima ideia. Digam a Geo que eu precisei ir embora – murmurei.
Já estava de saída quando Dietze apareceu no batente da porta da cozinha, bloqueando minha saída. Bastou uma olhada dela sobre nós quatro para perceber o clima péssimo que ali estava.
- ... – sussurrou com um olhar suplicante.
Contive o ímpeto de dizer em alto e bom tom “eu avisei que isso não iria funcionar, que era uma péssima ideia” porque não era verdade. Eu só havia pensado sobre o quão ruim aquela ideia era, não havia vocalizado.
Soltei o ar pesadamente.
Concordei em ir até ali, não é mesmo?! Então não tinha o direito de deixar a primeira dificuldade me fazer sair correndo. Também não queria dar aquele gostinho a e tinha que considerar que provavelmente não iria tentar mais uma de suas gracinhas agora que Geo estava ali. Era melhor passar por aquele jantar idiota de uma vez e ficar livre daquele “encontro” com os cinco do que ter que enfrentar aquela palhaçada toda de novo outro dia.
- Eu estava indo ao banheiro.
Um sorriso aliviado surgiu no rosto da minha amiga. Felizmente os meninos tiveram o bom senso de não me contradizer.
- Primeira porta à esquerda – falou, desobstruindo o caminho.
Murmurei um agradecimento e saí daquele cômodo, passando ao lado de . Pretendia fingir que não o estava vendo, mas aquilo foi impossível e me vi andando mais devagar para analisá-lo. E, não pela primeira vez desde que o reencontrara, senti outra coisa que não raiva por . Senti um peso desconfortável em meu estômago ao vê-lo tão triste. Ele tinha olheiras e estava mais magro. Não estava feio porque era impossível aquele homem parecer nada menos do que deslumbrante, mas ele estava apagado, perdido. Seus olhos encontraram os meus por um segundo e percebi que ele também estava assustado com alguma coisa. Sacudi a cabeça e continuei andando.
Aquilo não era problema meu... e, por mais que quisesse evitar, contudo, incomodava como se fosse.

xxx

Preciso confessar que o jantar não havia sido tão torturante como minhas previsões catastróficas anteciparam. Foi tudo bem... civilizado e em alguns momentos até mesmo cheguei a me divertir. se comportou bem durante o resto da noite – provavelmente depois de levar um sermão de enquanto eu estava no banheiro – e a tal Summer era agradável e interessante. E ela me fazia lembrar de alguém... só não conseguia reconhecer exatamente quem.
Descobri que ela estudava medicina e que a maneira como eles se conheceram era bem pouco ortodoxa, envolvendo um atropelamento e um gesto de muita coragem da parte dela. As conversas que tive com Campbell, contudo, não se estenderam ao namorado dela. Cada vez que puxava um assunto comigo, eu dava um jeito de encerrá-lo ou de desviar o foco da conversa ou, em último caso, de começar um outro tópico com – que era o menos pior de todos.
O mais estranho, contudo, foi Geo e o irmão. Eles se sentaram lado a lado e de vez em quando sussurravam alguma coisa um para o outro. Apesar de não estar muito longe deles e de não conseguir ouvir exatamente qual era o assunto do qual tratavam, pude perceber que era algo delicado. Os dois até que disfarçavam bem, soltando um sorriso ou respondendo uma coisa aqui ou ali, mas estavam com a atenção longe.
Engraçado. Agora que refletia sobre isso, pude perceber que desde que havia reencontrado Dietze e o irmão, eles vinham agindo daquela maneira. Sabia que havia um segredo ali – era fácil reconhecer isso porque tinha meus próprios segredos.
“Takes one to know one”, o velho ditado soou em minha cabeça.
Não queria interferir porque não gostava de ninguém xeretando assuntos, mas era notável que Georgina precisava de alguém com quem conversar e era meu dever como amiga ao menos perguntar o que estava acontecendo.
Depois das despedidas - algumas mais formais como o aceno de cabeça que mandei em direção a e outras mais calorosas como o abraço apertado que me deu – Geo e eu descemos para nossa casa. Por um momento pensei que iria nos acompanhar, mas ele resmungou alguma coisa e foi para seu quarto, arrastando os pés e com os ombros curvados.
Quando chegamos em casa, Georgina não estava muito diferente do irmão, mas antes que ela pudesse se esconder no próprio quarto para se afogar naquela preocupação que estava consumindo os dois, chamei:
- Hey, Geo.
Ela se virou para me encarar.
- Está tudo bem?
- É... está – falou automaticamente.
- Ok – suspirei, entendo que ela não queria falar sobre isso. – Se tiver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar, é só falar.
Ela assentiu, parecendo vinte anos mais velha do que realmente era, e voltou a andar vagarosamente. Sacudi a cabeça e estava me dirigindo para a cozinha quando ela parou de supetão e se virou devagar.
- Geo? – perguntei, estranhando o olhar maravilhado que ela me lançava.
- É ISSO! ! É ISSO! – gritou, praticamente saltitando para me abraçar.
- É isso o quê? – dei uns tapinhas afetivos em suas costas antes de ela finalmente me soltar. - Você pode ajudar! Você é a solução!
Essa conversa estava ficando cada vez mais esquisita e eu estava cada vez mais curiosa. - Okaay... E o que posso fazer?
- Você só precisa namorar meu irmão.
Fiquei tão atônita que por um segundo o mundo ao meu redor escureceu.
- O quê? – cuspi em um sussurro.


Capítulo 6


Eu precisava sentar.
Não.
Eu precisava de uma bebida.
Não.
Não de uma bebida. Eu precisava de um Oktoberfest inteiro. Quem sabe eu entrasse em coma alcóolico e não precisasse encarar Georgina agora.
Pensava que essa história toda de reencontrar minha amiga de infância e descobrir que agora ela era irmã de um dos caras mais famosos do mundo - que, aliás, junto com seus companheiros de banda, eram algumas das pessoas que eu mais detestava – seria a coisa mais bizarra pela qual passaria na vida, mas estava errada. Aquela situação em que Geo me encarava esperançosa depois de literalmente voltar ao século XII e propor um relacionamento arranjado entre seu irmão e eu era, com certeza, a mais bizarra de todas.
- Isso é algum tipo de pegadinha? Porque, se for, não tem a mínima graça – minha voz saiu arranhando a garganta.
- Não! Não. É claro que não! – protestou, indignada. – Jamais brincaria com um assunto tão sério.
- Mas você tem que estar brincando! Porque a alternativa significa que você realmente quer o seu irmão e eu... juntos.
Estava falando e ficando histérica. Minha risada já soava meio insana. Meus joelhos estavam trêmulos e preferi sentar antes de tornar tudo ainda mais ridículo desmaiando. Georgina rapidamente tomou o lugar ao meu lado.
- . Calma. Você não entendeu. Quer dizer, eu não me expliquei bem – falava depressa, talvez pressentindo minhas intenções de sair correndo. – Você não tem que namorá-lo de verdade. É só um fingimento e durante um tempo. Pouco tempo – acrescentou ao se dar conta do olhar absolutamente incrédulo que lancei em sua direção.
De que diabos ela estava falando?!
- Acho que você bebeu demais – respondi.
E eu bebi de menos. Aquela era a única explicação plausível.
- Não! ! Você não está prestando atenção!
Mordi uma resposta mal educada e esperei por uma explicação. Ou por qualquer coisa que fizesse algum sentido naquela porcaria de dia. Ela passou a mão pelo cabelo, jogando-o todo sobre um ombro e respirou fundo antes de começar:
- Há mais ou menos um ano e meio, terminou com a antiga namorada, Kim.
Dessa Kim eu lembrava. Garota bonita, muito bonita. Eles estavam juntos há dois meses quando ocorreu aquele dia fatídico em que cortei todas as ligações de fã com One Direction.
- Eles formavam um casal legal, os fãs gostavam dos dois e tudo estava bem. Até que um dia não estava mais. Eles terminaram de repente e o fandom deles não aceitou isso muito bem. Eles reclamaram e reclamaram, mas todo mundo pensou que isso fosse passar. O problema é que não passou. Agora toda a parte de marketing da banda está em cima dele, resmungando sobre ele ter se tornado meio rebelde depois do rompimento e como em todas as redes sociais as fãs estão dizendo que ele era mais carinhoso e mais isso e mais aquilo quando estava namorando.
- Isso é ridículo! Elas não deveriam estar felizes por que agora é mais um solteiro com o qual elas têm uma chance?! É senso comum que todas directioners querem namorar o seu favorito. Então por que elas iriam querer ele preso com outra garota agora que ele finalmente está livre?!
- Foi isso que pensamos e argumentamos. Quer dizer, nós pensamos e argumentou com empresários. O problema é que eles não estão ouvindo. Dizem que “esse argumento não procede” – engrossou a voz para imitar um dos ditos empresários – e que meu irmão precisa arrumar uma namorada.
- Por que não os manda para o inferno?
- Já tentou isso também. Eles estão com essa ideia fixa desde dois meses do rompimento dele com Kim. No começo eram apenas algumas indiretas sobre ele conhecer outras garotas, depois passou para uma abordagem mais direta e agora estão pressionando muito. Propuseram até mesmo contratar alguém... pelo menos até os ânimos das fãs se esfriarem.
- Se não esfriaram em mais de um ano de solteirice dele por que eles acham que vai funcionar com alguns meses de namoro falso e depois outro rompimento?!
- Eu também não sei – agora era ela quem estava ficando meio histérica, mexendo as mãos sem parar. - Não entendo como a cabeça daqueles idiotas funciona. Só sei que eles ficam jogando estatísticas e mais estatísticas nas costas de sobre como a venda de ingressos ou de alguma música diminuiu porque ele tem se comportado de maneira errática ou sei lá. E isso está afetando meu irmão. Ele não consegue compor, não consegue se concentrar e agora deu para começar a se culpar por qualquer coisa de errado que acontece com a banda.
- E os outros meninos não podem ajudar? – apontei o óbvio. - Afinal é a banda deles também.
- Eles nem sabem que isso está acontecendo. One Direction está em processo de organização do novo tour e tem todo esse peso de fazer o mesmo sucesso que o último, então não quer sobrecarregá-los com mais essa preocupação.
Massageei minha têmpora. Lá estava de novo aquele martelar irritante que antecedia uma dor de cabeça pesada. Que droga de confusão imensa era aquela! E só ficava pior a cada nova frase que saía da boca dela.
- Ainda não entendi como eu posso ajudar.
E também acabara de perceber que não entendia nada de como o mundo dos famosos funcionava. Eu realmente acreditava que todos os cinco solteiros era o sonho da agência deles, mas, ao que parece, estava errada. Muito errada. Normalmente eu só detestava estar errada agora, contudo, eu odiava.
- Como não?! – exclamou entre surpresa e irritada. – Você é a solução para tudo! Você é linda e não vai contar para ninguém sobre a farsa. É perfeito! Todos vão acreditar e ninguém nunca vai precisar saber a verdade. É só fingir que vocês namoram durante um tempo e os empresários vão desgrudar do pé dele.
- Esse plano tem tantas falhas que nem sei por onde começar a enumerá-las. Primeiro: as fãs podem não gostar de mim, o que vai piorar a situação dele; Segundo: Seria uma coisa totalmente temporária. O que você pretende fazer quando houvesse o suposto rompimento entre nós dois? Terceiro e mais importante: Nós não nos damos bem. Ninguém acreditaria que estamos apaixonados um pelo outro – soltei uma risadinha irônica porque era patético como aquele fato ainda incomodava, apoiei os joelhos sobre as coxas e escondi o rosto nas mãos.
Levantou-se de um salto, mas continuei na mesma posição. Não tinha força física ou de vontade para me mexer.
- NÃO diga isso – latiu, andando de um lado para o outro. – Você é uma pessoa ótima então essa história de que os fãs não vão gostar de você é ridícula! E estou muito mais preocupada com os problemas de agora do que com os possíveis que podem acontecer.
Soltei o ar pesadamente enquanto vasculhava meu cérebro desesperadamente procurando por uma alternativa qualquer que me tirasse daquela enrascada ou ao menos alguma outra falha em seu plano mirabolante. Levei meu cérebro a exaustão e isso não foi o suficiente para que nenhuma ideia aparecesse para me salvar, então só restava uma coisa a fazer. Ou não fazer – dependendo do ponto de vista.
Esfreguei as mãos sobre o rosto antes de falar:
- Geo, eu entendo seu ponto de vista e até vejo uma possibilidade de seu plano funcionar, mas eu não posso fazer parte dele. Eu te falei hoje que isso de One Direction não deu certo para mim uma vez e, com certeza, não vai dar certo agora. Não posso. Desculpe, mas não posso.
- , por favor - sentou-se na mesinha de centro e ficou de frente para mim -, pelo menos pense no assunto. Eu sei que houve alguma coisa e que deve ter sido péssima porque você até mesmo se recusa a falar sobre isso e não estaria te pedindo isso se não estivesse desesperada e sem opções. ... – sua voz quebrou ao falar o nome dele – está preocupado demais e isso o está comendo vivo. Ele está fumando demais, emagrecendo demais. Não come nem dorme direito. E o pior é que ele fica entrando na internet para ler todas aquelas coisas horríveis que estão falando dele. Parece um maldito viciado. Eu entendo que é pedir muito, que é muita responsabilidade, mas não tem ninguém mais em quem eu confio para pedir isso e não sei mais o que fazer.
- Como pode confiar tanto em mim? Nós nos reencontramos há pouco mais de um mês.
Soltou uma risadinha.
- Confio em você o suficiente para dividirmos um teto e ter a certeza de que não vai me assassinar enquanto durmo. Sei também que você não é uma vadia sedenta por fama senão já teria se aproveitado de uma das várias vezes em que apareceu aqui sem camisa para tirar uma foto ou fazer um vídeo e postar na internet. Então acho que você merece mais esse voto de confiança.
- E ? Você nem mesmo falou com ele sobre isso! – joguei a mão para o alto. – Acabou de ter essa ideia. Tenho certeza que ele não vai concordar com isso.
Estava me agarrando a qualquer coisa, a qualquer ideia para refutar seu plano.
- Francamente, ! – resmungou, exasperada. – não está em posição de negociar.
- Não tem nenhuma outra amiga sua, dele ou de qualquer um dos outros meninos para quem você possa pedir isso?
- não faz amizades com facilidade e, mesmo que tivesse alguma amiga em quem pudesse confiar assim, o que eu não tenho, ela estaria distante demais para esse plano funcionar. E já disse que meu irmão não quer envolver os outros.
Todas as minhas ideias se esgotaram. E o fato de meu coração estar disparado e minha cabeça explodindo não ajudavam em nada minha capacidade raciocinar. Olhei para o teto, tentando colocar as coisas em perspectiva.
- Por favor – segurou minha mão.
Oh céus! Eu odiava ver gente implorando – seja com a voz ou com o olhar. E ela estava fazendo os dois. Entretanto, mais do que isso, não conseguiria ficar ali, parada, assistindo a uma pessoa definhar porque, segundo o relato de Georgina, era exatamente isso que estava acontecendo com . Ele estava a um passo da depressão, aquele monstro silencioso que vagarosamente vai destruindo toda a sua força de vontade. Não poderia presenciar isso... não de novo.
- Ok. Eu vou... eu vou pensar – sussurrei finalmente.
Obviamente eu não sabia o que aquelas três palavras poderiam causar. “Eu te amo” que nada. As três palavras que mudaram a minha vida foram “eu vou pensar”.

xxx

- Você fez o quê? – Drake perguntou, tão surpreso que por um momento perdeu sua sempre presente postura aristocrática e pareceu um simples mortal como o resto de nós.
Da posição em que estava, com os cotovelos apoiados sobre a mesa, continuei massageando a têmpora.
- Você não precisa tentar me fazer repetir – resmunguei, mal-humorada. – Já me sinto idiota o suficiente sem ter você me enchendo.
- Mas eu não posso perder uma oportunidade dessas! – exclamou, rindo. - Não é sempre que minha melhor amiga super-racional resolve tomar uma decisão tão imbecil quanto concordar em se fingir de namorada do cara que ela aparentemente odeia. Isso, é claro, se for verdade que você o odeia. Talvez fosse paixão reprimida.
- Oh, céus! – suspirei. – Ainda tenho que ouvir esse tipo de coisa – aumentei a pressão da massagem.
- Apesar do status de ser-humano pouco racional que você parece abraçar ultimamente, isso não anula a capacidade de nós, seres inteligentes, têm de caçoar das suas idiotices.
- Será que dá para você, por um minuto que seja, parar de ser essa pessoa insuportável que você é e me ajudar?
- Ok. Estou vendo que a situação é séria mesmo.
Reprimi um irônico “Jura?”.
- Certo. Vamos repassar tudo então.
Parte da ironia sumiu seu tom e isso já me deixou muito satisfeita, afinal a outra parte era só sua arrogância, a qual nunca o abandonava.
- Você foi morar com uma amiga de infância e descobriu que ela era a nova irmã do cara que você odeia e agora você vai se fingir de namorada dele.
Assenti mesmo não tendo uma questão ali.
- Então a pergunta é: Por quê?
Drake estava me deixando mais perdida ainda.
- Por que o quê?
- Por que você aceitou isso? Por que você odeia o cara? Por que você aceitou isso se odeia o cara?
- Não tem um “se” nisso. Eu o odeio.
- O que deixa tudo ainda mais confuso, não é mesmo? – arqueou a sobrancelha.
Era nessas horas que me perguntava a razão de não ter uma mulher no cargo de melhor amiga, com certeza uma garota seria mais sutil nas palavras. Sutileza, contudo, não era uma das qualidades de Drake.
Esperteza, inteligência, uma aparência divina, sim. Sutileza? Nem pensar!
- Sim, eu sei que tudo isso soa maluco, mas como eu poderia dizer não?
- Também estou tentando entender, mas você não responde minhas perguntas.
- Eu já te disse hoje o quão rude você pode ser?
- Pare de desviar o assunto.
Respirei fundo.
- Eu não poderia dizer “não”, pois tenho uma dívida de gratidão com ela.
- “Dívida de gratidão”? E depois você ainda diz que os meus hábitos são do século passado. E por que você deve sua alma à ela?
Minha mão coçou de vontade de dar um tapa naquela cabeça loira dele.
- Minha alma? – revirei os olhos. - Eu disse dívida de gratidão e não pacto com o diabo.
- Tanto faz – fez um gesto de descaso com a mão.
- Se não fosse por Georgina, eu não estaria aqui.
Drake arregalou ou olhos e dramaticamente colocou a mão sobre o peito.
- Ela é sua mãe?
Tive que rir.
- Deixa de ser idiota – dessa vez bati em seu braço. – É que se não fosse Geo, minha mãe não teria insistido para que eu viesse para Londres, o que resultaria em eu me afundando em minha teimosia, desistindo do ICL e me amargurando em arrependimento pelo resto da vida.
- Ao que me parece, você tem uma dívida de gratidão com sua mãe e não com a tal Georgia.
- Ao que me parece – imitei seu tom – você não entende meus motivos. Tudo bem. Não tem problema. Preciso de soluções, não de compreensão.
- Seus modos de lady me encantam – respondeu, sarcástico.
- Nem todos podemos ser aristocratas, milord.
Meu melhor amigo revirou seus belos olhos cinzentos.
- Por que você diz para sua amiga que não pode fingir? Que é pressão demais e que aceitou no susto.
- Não posso fazer isso – esfreguei os olhos. – Dei minha palavra. Não quebro minhas promessas.
Drake tossiu alguma coisa muito parecida com “século quinze”.
- Admirável – murmurou. – Meio idiota, mas admirável. Certo. Entendi que você vai fazer o honrável e idiota. Agora vamos voltar para a outra questão: por que você odeia o irmão dela?
Por um segundo o sangue gelou em minhas veias enquanto um flash daquele dia passou diante dos meus olhos.
- É coisa minha. Assunto meu – falei, incisiva.
Marchiori fixou seu olhar penetrante nos meu, sondando por respostas. Sorte que dissimular não era uma característica exclusiva dele. Depois de mais alguns segundo, ele desistiu.
- Se você diz – assentiu. – Infelizmente não consigo pensar em nada agora. Quem sabe Mia possa te ajudar. Ela é a pessoa mais inteligente que nós conhecemos.
- É fofo como você fica todo derretido quando fala da sua namorada – apertei sua bochecha.
Ele segurou minha mão e a afastou do rosto.
- Marchiori não ficam derretidos.
- Se você diz – abri um sorrisinho ao imitar suas palavras. – Enfim, concordo com você. Mia é muito inteligente, mas não vamos poder contar com ela nessa. Não quero que mais ninguém saiba dessa... situação.
- Por quê?
- Porque estou tentando ajudar o imbecil, não piorar tudo se essa futura farsa vazar.
- Você está insinuando que Mia... – começou, indignado.
- Claro que não! Deixa de ser dramático. É só que quanto menos pessoas souberem, melhor. Não se chamaria “segredo” se todo mundo soubesse, não é mesmo? – falou, condescendente. – E é por isso que você também não vai contar para ela, certo?
- Tá – resmungou, ainda meio contrariado. – Então não sei o que fazer. Não sei como te tirar dessa.
Expirei pesadamente.
- Também não sei – passei a mão pelo cabelo.
- Já que essa questão parece resolvida... ou não resolvida, vamos nos concentrar nos outros pontos dessa sua bagunça – bateu os dedos algumas vezes contra a madeira da mesa. - Diga-me: como você pretende convencer o mundo de que vocês estão apaixonados se você odeia o cara?
- Também não sei.
- Que tal tentar ser amiga dele?
- Não.
- Você consegue superar esse seu ódio reprimido?
- Não.
- Você pelo menos consegue manter uma conversa com ele?
- Não.
- Você consegue falar com ele?
- Se me esforçar o suficiente.
- Ok. Então como estão suas habilidades de atuação?
Costumava achar que eram ótimas, mas não sabia se seria o suficiente para um papel central no filme “Como namorar o cara que você odeia”.
- Razoáveis – murmurei.
- Pense pelo lado positivo, . Nós chegamos a uma conclusão.
- Conclusão? – perguntei, surpresa.
- É – deu um sorrisinho de lado. – Concluímos que você está ferrada.


Capítulo 7


Sabe aqueles momentos da vida em que você quer se esconder dentro de um buraco tamanho o constrangimento que está sentindo? Pois é...
Enquanto estava sentada no sofá da minha sala, as pernas cruzadas, os punhos cerrados e encarando a televisão desligada o único pensando que me tomava era que o Grand Canyon não seria um buraco grande o suficiente para me esconder e fugir daquela situação ridícula. Afinal, em uma escala de 0 a 10, quão patético é sentar-se no mesmo cômodo que sua amiga e o irmão dela - que, aliás você odeia – enquanto a dita amiga repassava o plano imbecil no qual você idiotamente havia se metido. E ela não parava de falar, sorrindo sempre como se todos nós quiséssemos estar ali - o que chegava a ser bem irônico porque, pelo olhar distante de e por meu sentimento próprio, Geo era a única que gostaria de estar ali e, acima de tudo, tendo aquela conversa.
Cruzei as mãos sobre minha barriga e mantive minha atenção no teto, torcendo para que aquilo acabasse, para que ela parasse de falar. Estava, de maneira extremamente entediada, ligando pontos imaginários no teto quando uma coisa que Dietze falou me fez despertar em um estalo.
- Como assim os outros quatro idi-garotos não vão saber? – perguntei, exaltada.
- Estamos tentando manter essa história o mais privado possível. Quanto menos gente souber, mais fácil esconder.
Eu entendia aquela lógica e até concordava com ela. O problema eram as implicações que aquilo traria.
- Mas isso significa que teremos que fingir na frente deles também! Vai ser quase um fingimento 24 horas por dia! Quando não for na frente deles, vai ser na frente do resto do mundo!
Tinha plena consciência de que meu tom não fazia muito para esconder a pontada de desespero que estava sentido - ainda mais quando me virava para o outro principal interessado e encontrava nada além de apatia.
- Eu sei, . – Geo assentiu com pesar. – Mas não tem outro jeito. Já pensei muito sobre isso. Se nós contarmos para eles, vão querer encontrar outro jeito e depois vão começar a nos sabotar porque acreditam que estão certos e vai dar tudo errado – terminou, quase histérica.
Pisquei algumas vezes, surpresa. Acho que a situação não pesava somente em mim ou talvez no fantasma pálido do cantor ao meu lado.
O pior é que se eu ponderasse um pouco poderia entender o motivo de Georgina estar tão arredia. O irmão dela parecia cada vez mais indiferente para o mundo e, depois que ela mencionara, podia ver que estava realmente perdendo peso.
- Tá – massageei minha testa. – Tanto faz.
Já iria mentir para meio mundo mesmo. Quatro pessoas a mais não fariam diferença.
- O que e eu teremos que fazer?
Minha amiga respirou fundo, aliviada.
- Para começar, você tem que parar de chamá-lo pelo sobrenome.
Dei de ombros.
- E vocês vão ter que ser mais... amigáveis um com o outro – gesticulou com as mãos. – Por que não se senta perto dela, ?
O garoto repetiu meu gesto de descaso e fez o que a irmã disse. Virei para ele e forcei um sorriso.
- Como vai, ? – seu nome saiu tão amargo quanto me sentia.
Senti o calor da raiva subindo pelo meu rosto quando aquele ser desagradável limitou-se a assentir, quase como se zombasse da minha tentativa de ser civilizada. Tive que apertar o tecido de minha calça para manter minha mão ocupada e, assim, não enforcá-lo.
Dietze ameaçou interferir outra vez, mas já estava cansada disso. Geo não estaria ali para nos tirar de todos os possíveis problemas. E também havia o fato de que minha paciência estava acabando. Eu não seria o mártir da história, a única a colaborar. Ainda mais quando essa palhaçada toda era para beneficiá-lo.
- Presta atenção, imbecil – sibilei, meu olhar fixo no dele. – Vamos deixar uma coisa bem clara aqui. Sou eu quem está fazendo um favor para você. Não o contrário. Então, por mais difícil que isso possa ser, tente ser um pouco menos babaca e trate de se recompor!
Meu pequeno discurso inflamado pareceu finalmente tirá-lo de seu estupor. arregalou os olhos e a sombra de um sorriso apareceu em seu rosto.
- Você tem convicção. Eu respeito isso.
- Fiz uma promessa para a sua irmã de que venderíamos essa imagem de casal feliz porque, por algum motivo que vai além da minha compreensão, ela realmente se importa com você. Vou manter essa promessa. Sempre cumpro minhas promessas. Me ouviu bem? – terminei com o dedo em riste.
- Ouvi, ouvi sim – agora era um sorriso completo quando sua mão quente e máscula envolveu a minha.
Praticamente pulei no lugar, totalmente em choque e afastando minha mão para longe da sua.
- Também temos que melhorar essa sua reação ao contato físico.
A voz de Georgina nos interrompeu e tive que reprimir outro pulo de susto. Tinha esquecido completamente de sua presença ali.
- “Contato físico?” – repeti bobamente.
Espera sinceramente que a resposta dela fosse “o mínimo possível” e não o revirar de olhos que ela deu.
- Francamente, , você não ouviu nada do que eu acabei de dizer?
Nenhuma palavra.
- É que eu gosto de repassar as partes importantes – menti.
- Certo – falou, de má vontade. – Então, repassando mais uma vez – frisou. Serão contatos normais para um casal. Tenho certeza de que vocês sabem como um relacionamento funciona.
Eu sabia e o problema era exatamente esse.
- Dá para ser mais específica? – perguntei, torcendo para que o mais específico dela significasse carinhos vagos.
Dietze estava ficando impaciente, eu podia perceber, mas não reclamou. - Abraços, mãos-dadas, alguns beijos... coisas do tipo.
“Beijos”?
Engasguei com ar e passei a mão pelo cabelo, suspirando.
Precisava urgentemente ter uma conversa transcendental com a vadia responsável pela minha sorte. Onde quer que ela estivesse, não estava fazendo um bom trabalho.
- Não sei se isso vai dar muito certo, sis.
E, pela primeira vez em muito tempo, concordava com o imbecil ao meu lado.
Georgina bateu o dedo indicador algumas vezes no queixo, pensativa.
- Você tem razão. Talvez devêssemos ensaiar um pouco.
Oh céus. Esse pesadelo só piorava um pouco mais a cada minuto.
- Ensaiar como, gênio? – perguntei, derrotada.
- , coloque o braço sobre os ombros dela.
Ele obedeceu e eu parei de respirar, completamente imóvel, travada de nervoso. Olhei para o teto, como se isso fizesse o peso do braço dele e o cheiro bom de sua colônia desaparecer. Ou, quem sabe, me fizesse desaparecer.
- Olha. Tá perfeito! – sublinhou a última palavra. – Se fosse para uma peça sobre uma estátua humana e seu namorado indiferente. Vocês não vão convencer ninguém assim – resmungou, frustrada. – Acho que todos nós precisamos de uma pausa. Eu vou à cozinha e tentem... tentem não assassinar o outro à sangue frio enquanto estou fora. Pelo menos não tenho que me preocupar com um crime passional – resmungou baixinho enquanto marchava para a cozinha.
Tive exatos dois segundos de paz antes de sua voz gostosa falar:
- Por que você está fazendo isso?
- Isso o quê? Isso? – gesticulei, apontando para ele e depois para mim.
apenas assentiu e por um momento quase quis que ele tivesse usado palavras porque, apesar de todos seus inúmeros defeitos, sua voz era incrivelmente gostosa. O fato de ele ser uma pessoa calada contribuía ainda mais para aquela sensação agradável de ouvir seu tom.
Tive vontade de me estapear a fim de expulsar permanentemente aqueles pensamentos ridículos.
- Pelo dinheiro. Por que mais? – sorri, irônica.
Ele ficou quieto por um momento, seus olhos me analisando tão profundamente que quase me senti nua.
- Não. Não foi por isso. Quer tentar de novo?
Sabe o que me irritava? O fato de ele estar certo. Minha conta bancária era gorda demais. Não precisava dos dez mil que Dietze me prometeu por mês de fingimento. Também não fazia isso por mesquinhez ou para pegar o dinheiro de por vingança – porque sabia que aquela quantia não lhe fazia nem cócegas. E não queria nada dele. Nem mesmo dinheiro. Isso, contudo, não significava que não poderia usar aquelas milhares de libras de um jeito proveitoso. Melhor dizendo, a Fundação Prime poderia fazer um uso proveitoso.
- Por que você não para de me encher o saco?
- Me conte, – falou, calmo. – Precisamos fazer algumas concessões para isso funcionar.
Revirei os olhos. Detetive Sherlock ali na minha frente não desistiria.
- Georgina pediu – dei de ombros.
- Georgina me pediu um Porshe, mas isso não significa que lhe dei um Porshe.
- Concluímos, então, que você é um muquirana? – comentei, sarcasticamente.
Ele arqueou uma sobrancelha.
- Concluímos, então, que Geo não precisa ter tudo o que pede.
- Sua irmã estava errada. Não precisamos de seus amigos para nos sabotarmos, você está fazendo isso sozinho.
- Não estou sabotando nada!
- Pois não é o que parece! Por que tantas perguntas? Não pode simplesmente se contentar com o fato de que eu estou ajudando e pronto?
Seu olhar se endureceu.
- Não acredito em nada caído do céu. Todos têm seus motivos. Ninguém faz nada pela pura bondade de seu coração.
Não conhecia esse aspecto cínico e desiludido da personalidade dele. Talvez tivéssemos algo em comum, afinal.
- Se eu te disser, você para de me encher o saco?
- Talvez – sorriu de lado.
- Devia um favor a sua amiga. E, antes que você pergunte, ela não cobrou esse favor para me fazer aceitar participar desse nosso teatrinho.
- E que favor era esse?
- Já chega de confissões por hoje, não é mesmo? Eu não fico te interrogando, então agradeceria se você retribuísse a gentileza.
- Você tem uma língua afiada para alguém tão delicada.
- Questão de sobrevivência. Agora vamos decidir os detalhes antes que sua irmã volte.
- Pensei que ela estivesse decidindo os detalhes.
- Exatamente. Geo já fez demais. Nós dois somos grandinhos o suficiente para lidarmos com isso sozinhos.
- Você tem razão.
- Ótimo. Vamos às regras então – levantei a mão e comecei a contar nos dedos. – Nada de toques desnecessário, todos os toques serão restritos ao extremamente necessário, não precisamos ser amigos, nada de contar para ninguém sobre isso e, principalmente, isso vai acabar no minuto em que seu inferno astral acabar.
- Meu “inferno astral”? – perguntou, incrédulo.
- Desculpe. Deveria ter sido mais “delicada”? – zombei. – Talvez se tivesse dito “problemas” não teria ferido seus sentimentos. Eu feri seus sentimentos?
- Você é uma pessoa desagradável.
- Igualmente, querido – arrastei a palavra. – Agora que já estabelecemos que não gostamos um do outro, você está de acordo com as regras?
- Tenho a impressão de que não existe a opção de não concordar com o que você estipulou.
- Talvez você seja mais esperto do que parece – dei dois tapinhas de leve em sua bochecha antes de me levantar.
- Aonde você vai?
- Você já torrou toda minha cota de paciência de hoje, – passei a alça de minha bolsa pelo ombro.
- Muito desagradável – falou, retificando sua afirmação anterior.
- Não seja mal-educado, querido – andei até a porta. – Apareça amanhã para continuarmos os ensaios – joguei um beijo e saí rindo.
Precisava de uma bebida.

xxx

Se continuasse nesse ritmo, corria o risco de me tornar uma alcoólatra antes que aquela farsa terminasse. Foi esse meu pensamento quando analisava o líquido chamado tequila naquele copo tão pequeno. Esquecimento líquido,
Soltei um suspiro e estava levando o copo à boca quando a mão de Drake se fechou ao redor do meu pulso e delicadamente guiou meu braço de volta para a mesa, com a clara intenção de que eu ali depositasse o objeto que segurava.
Estava tão imersa em pensamentos que por um segundo cheguei a me esquecer que ele estava sentado ali do meu lado.
Virei a cabeça para encará-lo com uma pergunta silenciosa.
- Não que essa sua fase não esteja me divertindo imensamente, porque está, mas não acho que isso aqui – gentilmente puxou meus dedos para longe do vidro e levou o copo para longe - combine com uma quarta-feira.
- Por favor, me lembre exatamente por que te chamei mesmo – falei, cansada.
- Porque eu sou absolutamente lindo, incrivelmente inteligente, extremamente charmoso, muit-
- Marchiori – interrompi seu manifesto de amor próprio. – Agora não.
- Mas ainda tenho várias qualidades – protestou, um sorriso cínico.
- Se você for fazer uma lista das qualidades, realmente vou precisar da minha tequila de volta.
- Você já percebeu que junto com o florescimento desse seu lado completamente maluco, seu lado irônico cresceu.
- Desculpe se não estou feliz com a situação.
- Situação em que você mesma se meteu.
- O que você quer dizer com isso?
- O que estou dizendo é que ninguém colocou uma arma na sua cabeça para que você aceitasse o plano imbecil da sua amiga, então engula esse chororô e enfrente a situação como você sempre fez.
Fiquei em silêncio por um momento, apenas o encarando e imaginando se ele diria isso se soubesse a história inteira, se soubesse o que aconteceu anos atrás. Mas Drake não sabia. Só três pessoas sabiam e duas delas não se lembravam. Tudo bem. Melhor assim.
Eu, contudo, nunca esqueceria.
Pisquei devagar, voltando para o presente.
- Ok. Você tem razão. Nada mais de álcool.
Ele abriu um sorrisinho.
- Tente não parecer tão convencido. É rude.
Seu sorriso se alargou.
- Babaca – resmunguei, olhando para o lado.
- Quem é babaca? O Drake?
Mia jogou os longos cabelos ondulados para o lado e apoiou a mão no ombro do namorado para se acomodar na cadeira ao lado dele.
- Claro que sim – respondi.
- Eu?
Marchiori abriu um novo sorrisinho sacana e imediatamente soube que me arrependeria de tê-lo chamado assim.
- Pensei que babaca fosse o seu novo namorado.
A calma e o falso tom preocupado com que ele jogou aquela bomba fizeram-me ter vontade de me atirar sobre a mesa e agarrar o pescoço dele para estrangulá-lo lentamente. Mia virou a cabeça para olhar para o namorado, o queixo caído, antes de se virar para mim outra vez.
- Namorado? Você está namorando, ?
Trinquei os dentes por um segundo antes de forçar um sorriso.
- É. Estou sim.
- Mas isso é maravilhoso! E não uma coisa para se chatear. A não ser que ele tenha feito alguma coisa muito errada. É por isso que você o chamou de babaca, amor? – aconchegou-se melhor contra o tórax do namorado.
Impressionante como Mia, a pessoa mais inteligente que já conheci, tornava-se uma boba babona toda vez que Drake colocava os braços ao redor dela.
- Também, amor. Mas na verdade estava apenas considerando o fato de que ele e costumavam se odiar – sua expressão maliciosa contava o quanto ele estava apreciando aquela situação. – Não é mesmo, ?
Esganá-lo lenta e dolorosamente.
- Vocês costumavam se odiar? – ofegou. – Mas isso é tão romântico!
- O quê? - pisquei devagar.
Talvez estivesse errada quanto ao QI dela.
- Nós dois também costumávamos nos odiar. E agora é só amor – deu um beijo na bochecha dele.
Senti minha barriga se embrulhar. Ver tanta melaço era como respirar aqueles perfumes doces demais: deixava-te meio tonta e com dor de cabeça.
- Claro que sim, linda. – Marchiori respondeu com um beijo na testa dela.
Era, contudo, engraçado ver o grande pegador Drake Marchiori cair.
- Com vocês também aconteceu isso! – jogou os longos e enrolados cabelos castanhos por sobre o ombro enquanto me analisava atentamente.
- Alguma coisa assim.
- Ah! Mas isso é muito vago. Conte-me os detalhes.
Suprimi um grito de frustração.
- Não foi nada tão interessante – gesticulei com a mão, tentando abandonar o assunto. – A irmã dele nos apresentou. Foi isso. Nada mágico – dei de ombros. – Bem normal, aliás. E como foram suas aulas? – desviei o tópico propositalmente.
Era melhor ter que aguentar todo o falatório dela sobre algum assunto totalmente desinteressante em nossa opinião, mas que significava muito para ela, do que ouvir perguntas infinitas sobre meu “namorado”. E assim perdi meia-hora da minha vida ouvindo Mia falar e repetir sobre os diversos benefícios que o aprendizado da última aula havia trazido para sua vida.
Olhei para meu melhor amigo e ele estava tão entediado quanto eu. Pelo menos o meu namorado não alugava meu ouvido tanto assim.
Aquele último pensamento passou por mim quase que inconscientemente enquanto eu brincava com um saquinho fechado de sal sobre a mesa, mas fiquei completamente chocada assim que tomei conhecimento pleno de quão facilmente havia usado o adjetivo “namorado” para classificá-lo. Arregalei os olhos e vagamente percebi o olhar intrigado que Drake me lançou enquanto eu levantava da mesa com as pernas bambas e pegava às cegas minha jaqueta que estava sobre o encosto da cadeira. Mia ainda estava falando, mas sua voz era apenas um zumbindo irritante enquanto eu estava completamente intoxicada pelo assombro de ter me referido à como “meu namorado”.
Murmurei alguma desculpa incompreensível enquanto saía do bar. Ao menos não precisava me preocupar em ter saído sem pagar a conta já que Marchiori teria insistido em pagar de qualquer jeito, assim como ele sempre fazia. Deixei, então, que ele lidasse com sua namorada e que gastasse um pouquinho da fortuna ridiculamente grande de sua família.
Tinha coisas mais importantes para me preocupar agora. Coisas como o fato de que, diferentemente do que eu pensava antes, talvez tivesse que me preocupar mais em manter as coisas estritamente profissionais enquanto aquele plano imbecil estivesse em prática. Felizmente o caminho até a South Kensington era em linha reta e meus pés andaram quase que automaticamente pela rota conhecida ou provavelmente teria me perdido tamanha a falta de foco que me tomava.
Estava confusa e não fazia nem um dia que estávamos ensaiando. Isso era completamente patético e inesperado. Tão inesperado quanto o fato de que já me encontrava em frente ao meu prédio, o que significava que basicamente eu havia andado vários metros e algumas estações de metrô sem estar totalmente consciente disso.
Fiz uma nota mental para não mencionar nada disso para Drake. Ele iria me torturar lentamente se soubesse que fiz algo tão estupidamente perigoso. E os homens Marchiori sabiam bem como torturar as pessoas com palavras fazendo com que elas se consumissem em culpa. Luke Marchiori, por exemplo, me causava alguns arrepios sinistros só por estar no mesmo cômodo – e isso porque tinha certeza que era a única amiga de Drake por quem Lorde Marchiori não sentia uma profunda antipatia.
Sacudi a cabeça e entrei no elevador, ponderando que provavelmente estava um pouco bêbada ainda e não totalmente entorpecida pelo caleidoscópio horrível de pensamentos confusos e mentiras no qual estava me perdendo. Isso para nem falar nas consequências que essas mentiras já estavam me causando. Decidida a me concentrar em alguma coisa que não os problemas presentes, virei a chave na fechadura. Aquela parecia ser uma excelente hora para começar o novo projeto na aula de Desenho. Caminhei até a cozinha e coloquei minha bolsa sobre a mesa e comecei a preparar um pouco de café preto para retirar os possíveis resquícios de Vodka que permaneciam em meu sangue. Tomando cuidado para não queimar a mão com a caneca, coloquei-a sobre a mesa e depois me sentei. Abrindo o livro necessário e meu estojo em busca do lápis preto de ponta fina que era meu favorito. Peguei as folhas com as anotações que tinha feito durante a aula e comecei a ler o conteúdo necessário enquanto fazia outras anotações entre um gole de café e outro. Alguns minutos depois, terminei os cálculos para a asa do avião e resolvi fazer o desenho de tal parte antes de continuar os outros cálculos. Era uma coisa bem básica já que estávamos no primeiro semestre, mas, mesmo assim, servia para que eu me desligasse um pouco da confusão que sentia. Estava terminando a parte posterior da asa quando ouvi o barulho de alguém chegando em casa.
- ? – a voz de minha amiga chamando ao longe.
- Na cozinha – respondi, apagando uma aresta que estava fora do lugar.
Escutei passos se aproximando, mas mantive a atenção na reta que estava fazendo com o auxílio da régua.
- O que você está fazendo? – a voz bem mais grossa do que a da minha amiga me fez pular na cadeira, o lápis fugindo do controle de minha mão e traçando um risco forte e muito além do planejado.
Grunhindo interiormente, coloquei o livro sobre o meu desenho, tampando a visão do garoto que olhava por cima do meu ombro.
- O que você está fazendo aqui?
- Era um belo desenho que você tinha ali – falou, ignorando completamente minha pergunta. – Foi você quem o fez desde o começo?
Mordendo a língua para não responder algo envolvendo duendes mágicos desenhistas, empurrei a cadeira para trás e, com certa satisfação, ouvi um gemido de protesto quando o encosto de madeira bateu em sua barriga. Talvez assim ele aprendesse um pouco sobre espaço pessoal.
Juntei minhas coisas e as recolhi, apertando tudo contra meu peito com um braço enquanto usava o outro para pegar a esquecida caneca e tomar o resto do café ali, o que foi uma péssima ideia. Senti meu rosto se contorcer em uma careta graças ao gosto horrível de café frio.
Ainda de olhos fechados, ouvi a risada deliciosa dele e nem mesmo pude ficar brava porque a situação era realmente engraçada. Peguei-me sorrindo para ele.
E por um segundo eu não o odiei. Fomos interrompidos por minha amiga:
- Ah! Vejo que as coisas estão melhorando por aqui.
Aquelas palavras me fizeram voltar à realidade. Não tive a coragem de arrancar o sorriso de seu rosto ao afirmar que não, a relação entre seu irmão e eu continuava no mesmo patamar. Ou, melhor, em patamares bem distantes. Os mais distantes possíveis – e era exatamente assim que eles iriam ficar. Forcei um sorriso fechado e fiz menção de sair da cozinha, afinal, o fato de Geo trazer o irmão para casa não significava que eu era obrigada a suportar sua presença. Já me bastava todas as outras vezes que isso teria que acontecer graças ao nosso teatrinho.
- É, é – murmurei enquanto caminhava para a liberdade. – Isso está realmente ótimo, mas preciso terminar esse projeto.
- Não tão rápido, – ela se colocou na minha frente, impedindo a passagem.
Estava ficando irritantemente rotineiro isso de Georgina impedir minhas fugas.
Soltei um suspiro e permaneci quieta, esperando que ela jogasse o que provavelmente pensava ser a próxima ideia genial de sua mente.
- Já que estamos todos aqui, podemos praticar um pouco mais.
- Sério? – tentei não parecer tão frustrada quanto me sentia. – Mas nós já praticamos hoje!
- Eu sei, eu sei – pegou minha mão com uma das suas e a mão de com a outra. – Mas precisamos lembrar que quanto mais cedo colocarmos essa história na mídia, mais cedo as coisas vão melhorar.
Revirei os olhos, mas fui para o quarto guardar minhas coisas e depois deixei que ela nos arrastasse para a sala, murmurando algo sobre precisar de mais espaço. Ela me conduziu até me colocar ao lado dele e ficar a alguns passos de nós.
- Ok. Vamos começar então. , coloque o braço ao redor da cintura dela.
Prendi a respiração enquanto ele fazia exatamente o que a irmã mandara.
- Você realmente vai ter que trabalhar na parte de relaxar quando for tocada, .
Engoli em seco e rolei meus ombros, tentando deixar meus músculos menos rígidos.
- Ótimo, ótimo. Estamos melhorando. – Geo encorajou. – Agora que tal um sorriso, ?
Não virei a cabeça para ver se ele seguia as instruções.
- Isso, isso. Muito bem. Vamos tentar de novo um pouco mais perto.
Ele se aproximou o suficiente para que eu sentisse o calor de seu corpo. Meus ombros praticamente travaram de tensão.
- Ok, ok. Estamos melhorando – o sorriso de Geo era tão forçado quanto o meu. – Agora vamos tentar de uma maneira menos zumbi.
Trinquei os dentes por um breve segundo antes de colocar um pouco mais de esforço naquilo e diminuir os centímetros de distância que nos separava.
Se tinha me comprometido a fazer uma coisa então a faria da melhor maneira possível.
parecia compartilhar de minha mais nova resolução, pois seu braço se apertou ao meu redor. - ISSO! – minha amiga deu alguns pulinhos, bem mais contente do que antes. – Ok, certo vamos tent-
Antes que ela conseguisse terminar seu raciocínio, contudo, a porta de entrada da casa se abriu em um estrondo e logo a sala que antes só tinha nós três estava preenchida por oito pessoas.
- Ora, ora. Que temos aqui? – , com um brilho de maligno divertimento nos olhos, falou.
Teria respondido se não tivesse congelada no lugar.
, por sua vez, parecia mais à vontade e respondeu mais rápido do que meu cérebro pode processar a pergunta:
- Estamos namorando!
Todos eles abriram expressões de puro choque. E tinha certeza que eu não estava muito diferente.


Capítulo 8


Por alguns segundos, cheguei a realmente acreditar que a expressão incrédula tinha se congelado em meu rosto e que não seria capaz de voltar ao que era normalmente. Tão paralisada estava que só consegui reagir quando um muito animado correu para me abraçar, rindo.
- Isso é tão legal, ! – ele praticamente saltitava.
Assim que me soltou, o braço de voltou para minha cintura e tinha que me controlar para não me encolher.
Ao que parecia, era um melhor ator do que eu.
- Ora, ora, ora. – se aproximou e já me preparei para o comentário idiota que viria a seguir. – Então toda aquela animosidade era só um disfarce para que vocês se pegassem escondidos! – estreitou os olhos, malicioso. – Acho que os homens não são tão problemáticos afinal, não é mesmo, ?
Não fiquei decepcionada. Língua afiada como sempre.
Forcei um sorriso.
- é menos problemático que o normal – menti. – E é por isso que vou ter que te manter por perto, não é mesmo? Para balancear esse fato – dei de ombros.
- Ácida como sempre, logo vejo.
- Intrometido como sempre.
abriu a boca para retrucar, mas a namorada de , que estava do lado dele, apressou-se em dar-lhe uma cotovelada em suas costelas, silenciando-o.
- Estamos muito felizes por vocês, não é mesmo, ? – ela sibilou.
- Sim, sim. Tanto faz – revirou os olhos, massageando o ponto em que havia sido machucado.
- Hmm... isso é meio inesperado – falou, ainda um tanto incerto enquanto analisava dos pés a cabeça. - Mas sim, estamos felizes – completou depois de lançar uma olhada rápida para a garota ao seu lado.
O que quer que seus olhos perguntaram, contudo, obviamente não foi respondido, pois ela manteve sua atenção inteiramente em nós dois ou, para ser mais específica, para o braço de ao meu redor. Ela não parecia estar com ciúmes ou inveja, mas sim intrigada.
Franzi o cenho.
Agora que a olhava mais atentamente, tive a nítida certeza de que a conhecia. Não era um reconhecimento como aconteceu com Summer, pois essa apenas se parecia com alguém conhecido. Não. Eu sabia ao certo que conhecia aquela garota, só não conseguia me lembrar de onde.
Foi só quando resolveu interferir em nosso confronto de olhares que percebi exatamente quem ela era:
- Kitty?
Kristine Green! É claro! Ela estava com as mexas loiras mais pronunciadas agora e o cabelo um pouco mais longo do que da última vez que vira uma foto sua, mas o jeito que ela olhou para assim que ele pronunciou seu apelido era o mesmo que havia visto nas twicams que eles faziam e que eu assistia de novo e de novo quando era uma directioner. Green desviou sua atenção do melhor amigo e virou-se para mim, caminhando devagar.
A cada passo que ela dava, lembrava-me dos tweets que havia lhe mandado e ela não respondeu. Não que a culpasse por isso. Sabia que ela devia receber centenas desses por dia e ela fazia o que podia, respondendo algumas dezenas diariamente. Mesmo assim era muito esquisito – de novo – ver alguém que um dia fora tão distante se aproximar, estender a mão e falar:
- Olá, sou Kristine Green.
- .
Respondi o cumprimento um tanto quanto trêmula. O jeito que ela me olhava era estranho, como se pudesse ver direto através da mentira que e eu representávamos.
- É um prazer conhecê-la. Você já conhece a Summer, não é mesmo? – apontou para a loira atrás de si que riu e acenou para mim.
Assenti.
- Ótimo, ótimo! Então vai ser bem mais fácil quando formos para Sidney. – Kristine falou aquilo sem maldade, mas ainda tive a nítida impressão de que ela estava me testando.
E provavelmente falhei naquele teste, porque assim que meu cérebro processou o que ela havia dito, meus olhos se arregalaram e virei para meu suposto namorado.
- Sidney? – engasguei.
- Green! – Summer se postou ao lado dela e passou o braço pelo dela. – Você provavelmente está estragando a surpresa. Porque não deixamos que explique tudo a ela depois. Vamos nos sentar – puxou-a em direção ao sofá.
Assim que elas se sentaram, e se acomodaram ao lado delas. Summer logo se aconchegou contra o namorado enquanto o outro casal trocava olhares desconfiados, mas pude perceber que discretamente Kristine encostou a coxa na dele e que não fez qualquer tentativa de se afastar.
Tudo aquilo, contudo, eu percebia de maneira periférica, pois a maior parte de minha atenção estava focada no meu dito namorado e na explicação que ainda esperava receber. , por sua vez, parecia ocupado demais sussurrando alguma coisa para a irmã. Calculando que teria de deixar aquela conversa para depois, quando estivéssemos às sós, tentei me soltar, mas apertou o abraço. Franzindo o cenho, voltei a olhá-lo, mas ele continuava entretido em uma conversa com Georgina – parecia que nem mesmo havia percebido o que tinha feito. Dei dois tapinhas em sua mão e ele finalmente percebeu que deveria me soltar. Assim que dei o primeiro passo para longe, senti um arrepio esquisito de frio, mas logo o abanei para longe e continuei meu caminho para me sentar ao lado do único cantor daquela sala que não achava completamente insuportável.
- – meneei a cabeça em cumprimento.
me olhou atentamente antes de perguntar:
- Escuta, , você sabe fazer cookies?
Pisquei devagar, surpresa frente a pergunta inesperada.
- Cookies? – repeti. - Se eu sei fazer cookies?
- É! – falou animadamente, juntando os dedos para formar pequenos círculos enquanto falava. – São aqueles redondinhos com gotas de chocol-
- Eu sei o que são cookies! – interrompi seu falatório. – Só não estou entendendo a relevância dessa pergunta.
- Como não? Cookies são sempre relevantes!
Contive o impulso de esfregar a mão pelo rosto em frustração. Aquele papo estava oficialmente na lista de conversas mais esquisitas que já tive, bem ao lado de quando Dietze me pediu em namoro em nome do irmão. A gargalhada feminina no outro sofá chamou minha atenção:
- Não ligue para ele, . – Summer falou, ainda rindo. – Ele vai tentar te passar uma história sobre como alguém lhe fazia cookies. Tentar te convencer a cozinhar para ele.
- Summ, linda, já disse quão mais eu te amo quando você está quietinha?
Summer arregalou os olhos, fingindo indignação:
- Então é assim, ? Agora que temos uma pessoa nova no nosso grupo, não sirvo mais para você? – abaixou a voz, fazendo drama. – Será que foi assim com a , ? – virou-se para ele.
- Absolutamente. – assentiu repetidas vezes.
- Esperava mais de você, – resmungou.
- Não ligue para ela, . Está apenas com ciúmes porque agora tem que me dividir com você – passou o braço sobre meus ombros. – E tem que dividir minha atenção culinária com as suas especialidades.
Não entendia essa necessidade de contato físico. Balancei os ombros, tentando afastá-lo, mas continuou impassível.
- Não acho que isso vai ser um problema. Não gosto de cozinhar.
- Isso quer dizer que você não sabe cozinhar assim como Kristine? – falou, adoravelmente fingindo horror. - Já me basta uma!
- HEY! – Green logo protestou.
- Não disse que não sei cozinhar, mas sim que não gosto – especifiquei.
- Como assim? Como alguém pode não gostar de comida? – dessa vez o horror era genuíno.
Por que ele ficava colocando palavras na minha boca?
Já tinha coisas demais para pensar sem ficar me preocupando com as respostas que deveria dar para aquele assunto em particular, então preferi a jogada mais fácil:
- Se eu prometer que te faço cookies, nós podemos dar esse assunto como encerrado? – perguntei, massageando minha têmpora.
Os olhos dele brilharam.
- Feito – esfregou as mãos uma na outra, parecendo muito satisfeito.
- Você tem noção de que acabou de fazer um trato que lhe vai ser muito desfavorável? – Kristine falou, muito séria.
Ah, sim. Eu sabia. Sabia perfeitamente. Quem não sabia eram eles, não sabiam quão desfavorável era o trato que tinha feito – e nem mesmo era com o único popstar palatável ali naquele cômodo.

xxx

- Então era por isso que passava tanto tempo aqui?
Aparentemente Georgina havia convidado todos para uma janta para aproveitar a turma toda estava na cidade e por isso eles invadiram nossa casa e mesmo depois de uma hora ainda não tinham ido embora. Queria estrangular minha companheira de apartamento por fazer esse tipo de coisa sem ao menos me informar primeiro e também queria correr para o meu quarto e esquecer que aquelas pessoas estavam ali. Era uma verdadeira pena que essas duas vontades eram conflitantes. O fato de que minha mãe me ensinara boas maneiras era o que me fazia ficar ali na sala, resignadamente sentada no sofá e bebendo algum refrigerante qualquer que havia trazido para mim em uma demonstração de afeto fingido. E era por isso também que agora teria que aguentar o papo que estava puxando comigo.
- É – encolhi os ombros. – Para você ver.
Em algum momento daquela noite havia percebido que não poderia ser tão seca com os colegas de banda do meu namorado e por isso estava tentando melhorar minha atitude. Obviamente e seus comentários tão irônicos quantos os meus não facilitavam em nada meu novo mantra.
Talvez eu tentasse uma dessas classes de meditação para aguentar aquelas coisas. Ao menos seria melhor do que a alternativa alcoólica.
- E eu aqui pensando que você o detestava! – o namorado de Summer riu sincero, provavelmente pensando que estava errado anteriormente.
Fiquei genuinamente surpresa. Pensei que aquele cantor em particular era obtuso, mas ele havia se mostrado mais esperto do que aparentava em todos os vídeos que assisti no passado. Pelo menos ele havia acertado na primeira parte de seu raciocínio.
- As aparências enganam – murmurei, tomando um gole de Coca-Cola.
Precisava mudar o centro daquela conversa.
- E você, namorando também! – fingi um sorriso. – Como isso aconteceu?
Ele me olhou longamente, tão sério que por um instante desejei ter comentado sobre qualquer outra coisa. Depois de uma pequena eternidade, soltou um suspiro e disse:
- Engraçado – falou suavemente, olhando para o vazio enquanto segurava sua cerveja de maneira esquecida. – Ninguém nunca me perguntou isso dessa maneira. Para ser bem sincero, acho que não sei como te responder. Só sei que um dia estava lá, sozinho, e no outro dia Summer estava lá também – ele suspirou, parecendo um animalzinho apaixonado. - Não tive chance nenhuma – o encanto em sua voz dizia que ele não queria ter tido chance nenhuma.
Por um momento senti uma onda de inveja. Queria que alguém um dia também falasse assim sobre mim, com aquele mesmo olhar de deslumbre. Queria poder olhar para alguém como Campbell olhava para o namorado, mesmo ela estando do outro lado da sala e conversando com .
Correção.
Não precisava disso tudo, talvez com apenas uma centelha daquilo. Uma centelha do que eles tinham já era mais do que maioria passava a vida tentando encontrar.
Aqueles pensamentos, contudo, eram imbecis. Homens não eram confiáveis. E especialmente era menos confiável ainda.
- Foi como ser atingido por um carro – murmurou mais para si mesmo. – O que é bem irônico – franziu o cenho, rindo.
Antes que pudesse perguntar o que ele queria dizer com aquilo, sentou-se ao meu lado e imediatamente passou o braço por minha cintura, puxando-me para perto.
- E aí, cara? – cumprimentou o amigo. – Sobre o que vocês estão falando?
- Relacionamentos – murmurei, encarando o vidro transparente e o líquido preto dentro dele enquanto tentava não pensar em quão mais confortável me sentia agora que ele me abraçava.
Talvez eu estivesse carente.
- Ah! Relacionamentos – repetiu lentamente.
- Na verdade, estava contando a sua namorada como conheci a minha. – interviu. – Mas já que você está aqui agora, adoraria saber como vocês se conheceram.
Engoli em seco. Nós não tínhamos exatamente criado uma história sólida para aquilo. Rapidamente, contudo, meu cérebro me mostrou que eu poderia me divertir um pouco com isso. Um sorrisinho que poderia ser descrito apenas como Marchiori surgiu em meus lábios quando comecei a falar:
- No começo eu pensava que ele era muito esquisito, sabe? Com toda essa roupa sempre preta e bom... aquela atitude esquisita. Mas então acabei descobrindo que toda aquela esquisitice era porque ele estava terrivelmente assustado. Queria falar comigo, mas tinha vergonha. Era por isso que ele continuava vindo aqui todos aqueles dias, não é mesmo, meu pudinzinho? – bati de leve em sua coxa e finalmente me virei para encará-lo.
A expressão surpresa no rosto dele foi impagável. Os olhos estavam arregalados e ele abria e fechava a boca repetidamente sem falar nada.
Sacudindo a cabeça, virei-me outra vez para o namorado de Campbell:
- Você vai ter que desculpá-lo. fica tímido quando comento sobre sua paixão fugaz por mim.
“Paixão fugaz”.
Mordi o lábio inferior para não cair na gargalhada.
- É verdade, meu docinho de abóbora.
Toda graça sumiu assim que ele começou a falar. Sabia que receberia o troco por minhas palavras impulsivas.
- Minha querida aqui – apertou meus ombros - então, não poderia me deixar tomar a iniciativa, não é mesmo, meu bolinho de chocolate? estava tão cansada de esperar e de controlar seu amor por mim que acabou me agarrando no sofá faz uns dias.
Foi a minha vez de parecer uma idiota com o queixo caído enquanto continuava escutando sua narrativa sobre nossas escapadas românticas:
- Fui pego completamente desprevenido. Ela parece ser fraquinha, né? – apontou para o meu braço. – Mas deixa eu te dizer, quando ela te agarra, não solta mais! Pulou em cima de mim e me tascou um beijo daqueles.
e eu estávamos de olhos arregalados quando ele terminou de falar.
- Você vai ter que desculpá-la, . fica tímida quando comento sobre esse lado selvagem dela.
- Eu... hmm... Summ está me chamando – titubeou nas palavras e se levantou rapidamente, as bochechas tingidas de vermelho.
Assim que ele se afastou o suficiente, virei-me para meu dito namorado.
- Que merda foi essa? – cuspi, furiosa. – Ficou maluco?
- Eu fiquei maluco, senhorita “Paixão Fugaz”? – seu humor estava tão agressivo quanto o meu. – Que ideia imbecil foi essa de criar uma história para nós dois sem me consultar antes?
- E você queria que eu fizesse o que exatamente? Foi você quem se sentou ao meu lado e começou a ficar todo cheio de toques. Se tivesse ficado no seu canto, talvez ele não achasse que tinha que ficar perguntando sobre a nossa mais nova vida de casal.
abaixou o rosto em minha direção e, por reflexo, tentei me afastar na direção oposta, mas imediatamente senti sua mão forte se posicionar em minha nuca, mantendo-me no lugar. Engoli em seco e todo o ar sumiu dos meus pulmões e aparentemente no cômodo inteiro, porque não conseguia puxar oxigênio. Completamente tonta, abaixei o olhar para os seus lábios porque tinha a plena certeza de que ele me beijaria.
Não sabia como reagiria. Gostaria de pensar que o empurraria para longe, mas não tinha tanta certeza de que iria acontecer. Meus lábios se partiram quando seu fôlego bateu neles.
Quando estava a pouquíssimos centímetros, ele parou.
- Quietinha, – sussurrou com o olhar fixo no meu. – Você não quer criar uma cena, não é mesmo? É o nosso começo de namoro. Ainda estamos na nossa fase lua-de-mel. Não podemos brigar. Não queremos responder outras perguntas, não é mesmo?
Não sabia se ele tinha noção de que seus dedos agora acariciavam a pele do meu pescoço.
- Afinal você se esforçou tanto para criar uma história tão romântica sobre nós dois, não é mesmo? Não podemos deixar tanta arte ser desperdiçada – encostou seus lábios na minha bochecha.
Os arrepios agora eram constantes e outra vez me faltava o ar. Estava envolvida no seu charme incontestável, mas também estava com raiva. Uma combinação muito volátil. Precisava fazer com que ele se afastasse antes que eu cometesse uma loucura, então decidi usar sua estratégia. Assim, apoiei a mão em sua coxa e comecei a alisar sua perna sobre o jeans devagar.
- Como eu já disse, se você tivesse ficado longe, não teríamos esse problema.
Vi que ele engolia em seco, mas ele se recuperou rápido e colocou seus lábios diretamente contra meu ouvido agora.
- Eu estava muito bem longe de você – sussurrou. – Mas minha irmã disse que principalmente hoje não podemos ferrar nosso teatro, então me mandou vir aqui te fazer um carinho, meu docinho.
Sua voz, que sempre considerei como a mais bonita da banda, fez com que eu tremesse visivelmente e meu estômago revirasse. Tentando me concentrar na raiva e nas partes importantes, respirei fundo antes de continuar:
- Como assim “especialmente hoje”?
- Principalmente hoje – corrigiu.
Revirei os olhos.
- Tanto faz – sibilei. – Só responda minha pergunta.
- Porque Kristine está aqui.
Agora estava realmente confusa.
- Kristine? Qual o problema? Pensei que ela fosse amiga de vocês.
- E ela é! – exclamou, afastando-se, seu tom estava tão veementemente que ele parecia até indignado por eu sugerir que Green não fazia parte de seu círculo de amizade. – Ela é uma grande amiga.
- E então?
- O problema é que ela tem um faro para mentiras.
- O quê? Como assim?
- E eu sei lá – deu de ombros, voltando a se aproximar e acariciando meu cabelo. – Só sei que ela consegue praticamente farejar uma mentira, então temos que ser muito, muito cuidadosos com ela. Certo?
Assenti devagar. O mais discretamente que pude, vasculhei a sala da minha casa, procurando pela melhor amiga dos meninos e me deparei com seus olhos castanhos nos observando. Ela parecia conversar com , ou melhor, eles pareciam estar discutindo, mas vez ou outra seu olhar caía em nós enquanto ela continuava falando. Instintivamente sabia que não éramos o tópico de seu conversa, mas pude entender o que meu “namorado” queria dizer sobre ela e seu sexto sentido. Ela estava de olho em nós.
- O que você está fazendo? – perguntou quando me aproximei mais, colando meu ombro transversalmente em seu peito e me conchegando nele.
- Você tem razão – murmurei. – Ela desconfia de alguma coisa.
suspirou antes de afundar seu rosto no meu cabelo.
- Vamos ser cuidadosos. Vai dar tudo certo.
- Detesto mentiras – suspirei.
- Também não sou um fã.
Mordi uma resposta mal-educada frente aquela óbvia falta de verdade.
- Mas não precisa se preocupar tanto. Agora – continuou. – Ainda temos um tempo. Kristine deve ir embora logo. Está só visitando.
- “Agora”? – agarrei-me a parte que parecia mais ameaçadora.
- Bom... depois conversamos sobre isso – respondeu evasivo.
- Hey, casal – Geo chamou, sorrindo abertamente. – Vamos comer! – apontou para cozinha. – A comida chegou!
Acomodamo-nos na enorme mesa da sala de jantar. Algumas cadeiras da cozinha foram espremidas entre as outras já que havia mais pessoas do que cadeiras. Graças a maravilhosa maré de sorte em que estava envolta ultimamente, o polígrafo particular da One Direction sentou-se de frente para mim. Repentinamente perdi toda a fome, então aceitei a bandeja que me passaram sem questionar.
Era comida chinesa e, mesmo meu apetite estando em baixa, comecei a enfiar colherada atrás de colherada na boca, esperando que isso fosse suficiente para impedir que alguém me fizesse alguma pergunta.
- Então, , ouvi que você está na faculdade? – Summer sorriu para mim do seu lugar ao lado de Green.
- Engenharia mecânica – respondi. – E você?
- Eu faço medicina.
- Ei, caras, vocês um dia imaginaram que conseguiriam garotas tão inteligentes? – falou de repente depois de engolir o que mastigava.
- O quê, ? – perguntou distraído, estava ocupado olhando para o celular.
- É, é – assentiu de novo, colocando mais comida na boca e falando enquanto mastigava.
- ! Mastigue de boca fechada! – Summ reprimiu imediatamente.
Suas bochechas se coraram um pouco, mas ele logo revirou os olhos.
- Tô falando sério - continuou o raciocínio. – Como será que vocês idiotas conseguiram namoradas tão inteligentes?
- Quê? – Green perguntou, franzindo o cenho.
- É. Olha só – tomou um gole de sua cerveja antes de continuar. – conseguiu conquistar a Summer, que faz medicina e certamente vai ser uma doutora importante do tipo neurocirurgiã – apontou para os dois e abriu um sorriso satisfeito enquanto passava o braço pelos ombros da namorada. – tem a Kristine, que provavelmente vai se tornar uma juíza ou uma daquelas advogadas que ganham milhões. E-
Suas palavras foram interrompidas pelas exclamações indignadas das duas pessoas em questão:
- Como assim “ tem a Kristine”? Ficou maluco, ?
- Por que eu iria querer ter alguém como ela?
- O que você quer dizer como alguém como eu, ?
- Alguém irritante, intrometida e impaciente.
Arregalei os olhos enquanto ele listava os defeitos dela.
- Pelo menos eu sou inteligente. Você nunca vai ser capaz de tirar ninguém da cadeia.
Antes eles estavam sentados lado a lado, agora, contudo, estavam se encarando e Green se inclinou para frente, furiosa.
- Não seja ridícula, Green. É mais fácil você ir para à cadeia ao invés de tirar alguém de lá.
- Se um dia isso acontecer seria por assassinato, mas não me preocupo muito, afinal, nenhum júri me condenaria por matá-lo. Seria por provação justificada. Ou legítima defesa desse seu gênio insuportável.
- Eu sou insuportável? Eu? – soltou uma risada seca. – Por que você não vai pr-
- Hey, hey. Chega vocês dois. – se intrometeu. – Os dois são insuportáveis, pronto. Satisfeitos agora? Ótimo, ótimo. Agora deixem o pobre terminar seu raciocínio.
Virei-me rapidamente para , torcendo para que ele entendesse a pergunta muda em meu rosto. Felizmente ele me entendeu e chegou mais perto para falar:
- Isso é normal. Não se surpreenda. Depois te explico.
- A faz filosofia! E agora namora , que vai construir aviões. – completou seu pensamento. - Fala sério. É quase inacreditável o fato de que vocês conseguiram mulheres tão inteligentes – ele ficou quieto por um segundo, franzindo o cenho. – Aposto que a minha vai ser alguma coisa do tipo pesquisadora para alguma causa importante. Vai inventar alguma coisa incrível.
- Você quer uma cientista maluca, ? – perguntei, tentando me envolver voluntariamente na conversa antes que alguém me forçasse a isso.
- Maluca? Quem sabe, ? Aposto que o sexo deve ser bem interessante – gargalhou.
- Oh céus – sussurrei, revirando os olhos e voltando a me ocupar com minha pobre comida.
Aquela era informação demais. Não tinha interesse na vida sexual de ninguém exceto pela minha. E, pensando bem, agora também me interessava por aquele aspecto da vida de também. Não por ciúmes, não, mas por auto-preservação. Não iria aceitar a alcunha de ser traída. Nem pensar - ainda mais porque não seria uma coisa privada, mas sim um escândalo mundial.
Não e não. Nada disso. Precisava falar sobre esse assunto com meu companheiro de teatrinho o mais rápido possível.
- Aposto que você vai encontrar alguém incrível, . – Summer sentenciou, sorrindo.
- Diferentemente do imbecil ao lado. – Kristine sussurrou, meneando a cabeça em direção a e olhando para o prato.
- Quando é que você vai nos dar o prazer da sua ausência, Green? – ele respondeu, trincando os dentes.
- Por que você não cuida da sua vida?
- Eu estou cuidando da minha vida, ou melhor, da minha saúde. Você me faz passar mal.
- Sério? – fingiu surpresa. – Quem sabe Summer pode te diagnosticar, mas infelizmente ser chato como uma praga não tem cura.
agora trincava os dentes com tanta força que eu quase podia ouvir o ranger de cálcio contra cálcio.
- Você está mais irritante a cada dia, Green.
- Suas palavras doces alegram meu dia – açucarou falsamente o tom.
- E você veio a capital para fazer alguma coisa em especial, Kristine? – Georgina interferiu.
Aquela conversa era estranha e um tanto quanto cansativa. Apesar de não ter nada contra Kristine, estava ficando exausta pelo fluxo de pensamento intenso dela.
- Na verdade, essa foi uma viagem de última hora. insistiu já que é meu aniversário no sábado – deu de ombros.
- FESTA! – gritou, batendo a mão na mesa animadamente.
- FESTA! – também se animou.
- Então você vai ficar até final de semana? – perguntou, quase gemendo de desgosto, mas com um brilho estranhamente caloroso nos olhos.
- Não seja ridículo, . – Kristine logo respondeu. – Não poderia ficar aqui, afinal, não quero atrapalhar a privacidade do nosso mais novo casal – e nesse momento seu olhar investigativo pousou sobre nós dois.
Minhas costas ficaram eretas imediatamente enquanto sentia a pressão psicológica aumentar.
- Por isso vou ficar no seu apartamento. Você tem que me compensar de alguma maneira por todo o esforço que tive tornando aquele lugar cafona em uma obra-prima da decoração – deu de ombros.
- Como assim ficar na minha casa? Você ficou é maluca, foi? – quase não conseguia conter o sorriso.
Agora eu entendia menos ainda.
- Não precisa ter um ataque de pelanca, – revirou os olhos. - Para sua completa e total infelicidade, tenho alguns planos recém-adquiridos para esses dias e, felizmente para mim, eles não incluem você.
Para minha completa e total infelicidade, sua atenção voltou para nós dois de novo. Dessa vez, entretanto, havia um sorrisinho malvado acompanhando e não precisava conhecê-la há muito tempo para ler exatamente o que estava escrito em suas entrelinhas:
“Eu sei que tem alguma coisa errada aqui e vou descobrir o que é.”


Capítulo 9


- Bom... acho que isso foi um sucesso. – Geo falou animadamente ao fechar a porta de casa.
Pisquei algumas vezes, incrédula. Não conseguia visualizar outra explicação senão que minha amiga estava perdendo a sanidade. Pensei que depois que todas aquelas pessoas finalmente – finalmente – fossem embora eu teria alguma paz naquele resto de noite, mas esse também se mostrara uma esperança boba quando as palavras dela fizeram com que o último fiozinho de controle se arrebentou e pude, enfim, ter o ataque histérico que estava segurando durante todo o jantar.
- Sucesso? Sucesso? – fiquei em pé, minhas mãos trêmulas se agarrando em meu cabelo – Você por acaso esteve em um jantar diferente? Isso foi uma completa loucura. Primeiro, você não me avisaram que eles vinham para cá, depois o senhor Inteligência Rara ali – apontei para – decidiu contar para todo mundo sem também me avisar antes. Além de toda essa falta de preparação técnica e psicológica, ainda descubro que Kristine é tipo aquele cara de Lie to Me. Você sabe, aquele para quem as pessoas nunca conseguem mentir. Então esqueça sobre sucesso e pense sobre como vencemos o impossível e não estragamos tudo hoje. Um completo desastre, é isso que esse encontro poderia ter sido. Um completo desastre. – falei tudo de uma vez e praticamente num fôlego só e, por isso, agora estava puxando o ar para dentro em lufadas profundas.
Georgina recebeu minhas palavras com os olhos arregalados enquanto seu irmão me encarava como se eu tivesse perdido o juízo.
- Ora, chuchuzinho, não seja tão otimista. – zombou, passando a mão por seu cabelo incrível.
Fechei a boca com tanta força que ouvi meus dentes batendo um contra o outro. Tentava me controlar, afinal ficaria maluca se permitisse que ele me afetasse tanto toda vez que dissesse alguma coisa. Meu peito subia e descia visivelmente, em busca de controle. Estava difícil essa vida onde eu não podia beber pra esquecer e onde também não podia enfiar a mão na cara daquele imbecil porque depois teríamos que nos preocupar em inventar uma história para o porquê seu rostinho bonito estava machucado. Afinal, vamos ser honestos, tia Kate me ensinou o gancho de direita dela, e ele fazia um belo estrago.
Relaxei, então, meus punhos que tinham se fechado sem que tivesse percebido. Não posso beber, não posso bater em ninguém. Minha única opção para aliviar um pouco do estresse seria ligar para Drake, mas aquilo provavelmente terminaria comigo refreando meus ímpetos de estrangular dois homens ao invés de um só, então aquilo também estava descartado. Estava literalmente sem opções. Talvez se e-
- , o que eu estava tentando dizer é que se conseguimos enganar nossos melhores amigos, conseguiremos enganar completos estranhos. – Geo falou devagar, provavelmente com medo de que eu explodisse de novo.
Aquilo me fez parar por um segundo e refletir. Era mulher o suficiente para admitir que conseguia ver a lógica naquele pensamento.
- Ok. Pensando por esse lado... – murmurei depois de um tempo.
Obviamente meu “namorado” tinha que estragar tudo.
- Finalmente um pouco de racionalidade.
Engoli em seco, outra vez controlando meu temperamento. Dietze pulou rápido no meio da conversa, tentando evitar outra briga. Talvez ela devesse, contudo, também se colocar entre nós fisicamente, pois estava começando a considerar que as razões para não agredi-lo com meus punhos não eram fortes o suficiente para me impedir.
- Quero dizer, quando vocês estavam no sofá, eu cheguei a acreditar que vocês são um casal apaixonado.
Torci para que meu rosto não corasse ao me lembrar daquele momento. Principalmente quando cheguei a acreditar que iria me beijar. Como havia ficado tonta, como desejara que ele fizesse exatamente aquilo. Olhei para o lado. De repente não queria mais fazer parte daquela conversa. Queria, ao invés, me refugiar no meu quarto e não ter que me preocupar com todas as perguntas que aquele diz levantara. Quando nenhum de nós dois respondeu, Geo tentou de novo:
- Sobre o que vocês falavam?
- Nada. – nós dois respondemos rápido e simultaneamente.
Ótimo. Pelo menos em alguma coisa estávamos de acordo. Nenhum de nós queria compartilhar nossas fraquezas. Virei a cabeça o suficiente para olhá-lo e o encontrei encostado na parede, as mãos no bolso e uma expressão pensativa enquanto também me olhava.
Odiei-me um pouco mais por acha-lo tão bonito. Quando era uma directioner, sabia que ele iria se tornar um homem maravilhoso. foi um adolescente lindo. Desde a primeira audição dele no X-Factor. Naquela época distante ele era uma gracinha, todo tímido e com aquela voz de causar arrepios. Quando, contudo, a época de sucesso mundial do One Direction chegou, ele – como se dizia mesmo? Ah, sim – ele não atingiu a puberdade, ele deu-lhe uma boa surra.
Mas agora... agora ele parecia um modelo, mas ainda melhor, pois não tinha aquele ar plastificado. Era real. E era também um completo perigo a minha sanidade.
Não sei quantos segundos passamos nos encarando, mas só quebramos aquilo quando a irmã dele fingiu tossir.
Sacudi a cabeça.
- Eu vou dormir. – murmurei para ninguém em particular, andando para o corredor.
Pouco importava as boas maneiras. Só queria dormir e esquecer. Entrei no quarto e fechei a porta. Sentei-me na cama e esfreguei as mãos pelo rosto. Racionalmente sabia que as coisas, como Georgina dissera, correram razoavelmente bem. Sabia também que deveria me preocupar com meus problemas mais imediatos, tais como o fato de que podia sentir em minha pele que Green iria descobrir que estávamos mentindo ou entender o que droga “Sidney” significava. Eu, contudo, estava absorta no fato de que a racionalidade na qual tentava me apegar só se fazia presente quando me afastava de .
Aquilo era ruim. Muito ruim. Pessoas irracionais nunca tomam boas decisões. E já tinha torrado toda minha cota de más decisões desse ano... ou talvez dessa década.
Precisava me apesar a fatos, números, possibilidades. Aquelas coisas faziam sentido, tinham lógica. não tinha lógica. Querer que ele me beijasse não tinha lógica. Eu não tinha lógica quando podia sentir seu perfume ou quando ele estava perto demais.
Respirei fundo mais uma vez antes de deitar na cama e dormir. Com minas roupas mesmo, cansada demais com outros tipos de problema para me preocupar com coisas tão pequenas.
Meu vestuário definitivamente foi um dos fatores que contribuíram para que eu acordasse no outro dia me sentindo um lixo. Minha cabeça doía e demorei uns bons dois minutos tentando tirar minha calça jeans, a qual parecia colada em minha perna e disposta a permanecer lá pelo resto da vida. Enrolei-me nela e rolei pela cama, levando uma surra da do meu próprio jeans.
Que cena ridícula.
Não estava disposta, entretanto, a colocar muito esforço naquela tarefa, então ficava perdendo tempo resmungando e não chegando a lugar algum. Finalmente consegui jogar minhas roupas de lado e me arrastar para o banheiro. Um longo banho quente depois e ainda estava com aquele incômodo ruim ainda estava na parte de trás da minha cabeça.
Precisava ir para faculdade, mas não estava em condições físicas para tal, então coloquei um conjunto de moletom branco e um tênis da mesma cor. Joguei meu cabelo para o lado e sai para cozinha. Talvez um café ajudasse.
Georgina estava lá, assim como seu irmão, o qual aparentemente não conseguia passar quinze minutos na própria casa. Será que ele iria contribuir para o aluguel também?
Cansada e com dor demais para brigar com alguém, passei por eles e resmunguei alguma coisa em cumprimento antes de pegar um pote cheio de cookies de chocolate que havia comprado há uns dois dias em uma confeitaria perto de casa. Puxei uma cadeira e comecei a comer usando a mão direita enquanto apoiava o cotovelo esquerdo sobre a mesa e segurava minha testa com essa mão. Os biscoitos desciam ásperos por minha garganta e a sensação de já estar cheia mesmo não tendo comido nada era simplesmente horrível. Mantive minha atenção na porta da geladeira, tentando ignorar qualquer outra coisa ao meu redor ao comer o absolutamente necessário para que tomar o remédio não me causasse efeitos colaterais por falta de alimento.
Pulei de susto quando uma caneca branca foi colocada na minha frente sobre a mesa. O cheiro de chocolate quente me atingiu com força e, antes que pudesse pensar, minhas mãos estavam ao redor daquela louça. Meu fascínio por essa bebida superava basicamente todos os meus outros gostos. Era o único ponto de um passado não muito distante que não fazia questão de esquecer, único que me permitia apreciar. Levantei a caneca lentamente e respirei fundo o cheiro aconchegante dele. O mundo ao meu redor ficou esquecido por um segundo quando decidi terminar com o suspense e apreciar minha bebida.
Nossa.
Aquilo estava muito, muito bom. Doce na medida certa e mais quente do que o recomendado, mas não o suficiente para queimar sua língua e estragar a diversão. Um gole e minha cabeça já começava a melhorar. Passei alguns segundos completamente alheia ao mundo, apenas apreciando minha bebida. Só quando levantei o copo mais uma vez e nenhuma gota caiu para minha boca foi que pisquei devagar e voltei à realidade. Minha amiga e seu irmão estavam sentados na minha frente, ambos me encaravam curiosos. Minhas bochechas imediatamente se avermelharam. Olhei para a caneca e de volta para Dietze.
- Obrigada. – murmurei – Estava muito bom.
Geo sorriu e olhou para o irmão.
- Na verdade, - começou, muito divertida – foi quem fez.
Virei a cabeça tão rápido para olhá-lo que temi ter tirado algum osso do lugar. Ele parecia embaraçado, apesar de não estar corando.
- Você fez? – não pude conter a pergunta, tão surpresa estava – Por quê?
Ele assentiu, não desviando seu olhar do meu.
- Você parecia estar precisando. – encolheu os ombros – Chocolate quente é sempre bom.
Por mais incrível que pareça, nenhum comentário sobre possíveis envenenamentos passou por minha mente. Tudo que conseguia pensar foi a única coisa que disse:
- Obrigada.
arregalou levemente os olhos, provavelmente não esperando o agradecimento. Assentiu outra vez, mas agora havia um pequeno sorriso no canto de seus lábios. Sentindo que aquela situação estava anormal demais – levando em conta o padrão de conversa entre e eu – levantei-me. Deixei a caneca na pia, afinal Geo e eu acordamos que não era necessário lavar a louça imediatamente e ela sabia que eu realizaria aquela tarefa mais tarde, e murmurei qualquer coisa inteligível antes de sair do cômodo. Corri de volta para o quarto e imediatamente peguei meu celular.
- Vamos lá, vamos lá. – murmurei, ansiosa, olhando para a rela do meu iPhone.
- , não é porque você é folgada e não vem à faculdade, não significa que eu faço o mesmo. – Drake resmungou, nem mesmo se preocupando em me cumprimentar ao aparecer no FaceTime.
- Alguém já te disse que você é ainda mais agradável pela manhã? – resmunguei, irônica.
Ele abriu um sorrisinho sacana de lado.
- Eu sou sempre agradável. Mas você ainda não me disse o porquê de não ter vindo à faculdade hoje.
- Você não deveria supostamente estar perguntando o porquê de eu estar te ligando?
- Por que eu faria isso? Já sei a resposta, afinal, todos sempre querem falar comigo.
Revirei os olhos.
- Estou com uma dor de cabeça terrível. Agora que já satisfiz sua curiosidade, podemos voltar ao que é importante?
- Falaremos sobre mim, então? Isso que é saudades, hein, ?
Às vezes meu melhor amigo e seus comentários me deixavam com vontade de gritar. Ou talvez estrangulá-lo. Não decidira ainda. Mordendo a língua para refrear a resposta mal educada que queria lhe dar, continuei
- Escuta, milord, será que por um segundo podemos parar de encher seu ego e nos concentramos no assunto pelo qual realmente liguei?
- Ora, , não precisa fingir. Sabemos que você ligou para admirar essa beleza aqui. – apontou para o próprio rosto.
Ignorei-o completamente.
- Ele contou para todo mundo! – sibilei, um tanto quanto desesperada.
A expressão arrogante dele foi substituída por surpresa. Marchiori era bem inteligente, não precisava de mais explicações.
- Sério isso? Já está na internet? – ele largou o celular de lado e ouvi um barulho que era provavelmente ele buscando seu iPad.
- Marchiori! – chamei para o teto de seu apartamento – Não me deixe falando sozinha, seu idiota! Não está na internet ainda. Estava falando dos amigos deles.
- Ah! – voltou a aparecer na tela, a expressão entediada – Então quem é “todo mundo”? Suas definições mal formuladas me confundem. Vou te dar um dicionário de presente ou algo assim.
Aquilo não foi possível de passar por cima.
- Um dicionário? Sério isso? Ninguém mais tem um dicionário, Drake. Isso é coisa do século passado. Temos aplicativo para isso hoje em dia, sabia?
- Boas maneiras nunca deixam de estar “na moda”, como você tão vulgarmente afirma. E, ao que parece, o aplicativo que você tem no celular não é suficiente.
Revirei os olhos. Drake, sua educação de lorde... e seu humor insuportável.
- Ele contou para todos os amigos dele e sem ao menos me consultar antes! – continuei.
Ele teve a cara de pau de fingiu um ofegar horrorizado.
- Para os amigos dele? Sério? Que horror! Que coisa mais vil de se fazer.
- Se for pra você ser esse porre, pode desligar, porra! – falei, perdendo a paciência.
- Ok, ok. – ergue a mão que não segurava o celular de maneira espalmada, em um gesto de rendição – Foi mal. Mas não entendi o problema de ele ter contado, afinal a intenção dessa história não era mostrar para o mundo vocês dois como um casal? Os amigos dele ficariam sabendo de qualquer jeito mesmo.
- O problema é que eu não gosto dos amigos dele. Não estava preparada para isso.
Ok. Talvez gostasse um pouquinho de . Sejamos sinceros, era basicamente impossível odiar aquele garoto.
- Mas você vai ter que conviver com eles, não vai? Os caras estão numa banda. Isso é ainda mais convivência, ainda mais intimidade.
- Eu sei, eu sei. – admiti a contragosto – Mas isso não significa que eu tenha que gostar, né?
- Infelizmente vai ter que aguentar, . Não deve ser tão ruim assim.
- Ora, não seja hipócrita, Drake. Você vive reclamando daqueles dois amigos da Mia. Como eles chamam mesmo? – franzi o cenho, pensando por um segundo – Você sabe. Aquele ruivo e o outro com o cabelo que parece um ninho.
Sua expressão se fechou imediatamente.
- Podemos não falar sobre isso?
- Ah! Então só pode quando é você que está reclamando, né?
- Basicamente, - respondeu sem pestanejar – E eu não reclamo tanto assim sobre a dupla imbecil. Eles não são tão importantes.
- Ahan. – murmurei, condescendente – O que quer que faça você dormir melhor à noite.
- Certo. Agora que já estabelecemos que você tem problemas e eu não. Mais alguma coisa? Tenho aula daqui a cinco minutos.
Revirei os olhos de novo.
- É claro que tem mais coisa, imbecil.
Foi a vez de ele revirar os olhos.
- Eles têm uma amiga que parece farejar mentiras e tem essa história sobre Sidney e já não estou entendo nada.
- Sidney? O que tem Sidney? Sidney na Austrália?
- Não sei! Esse é o problema.
- Ok. Deixa que ver se entendi. – falou devagar – Seu problema agora é que tem coisas que você não sabe. Coisas importantes que você não sabe.
- Exatamente!
- Então você já sabe qual a solução, não é?
Franzi o cenho, não entendo onde ele queria chegar.
- Perguntar, ! – respondeu, sem paciência - Você tem que perguntar!
- Vocês homens simplificam tudo! Não é tão fácil assim.
- Não, não. Na verdade são vocês mulheres que complicam demais. Chegue até o cara e pergunte o que você precisa saber.
- Mas... – tentei balbuciar alguma coisa.
- Mas nada, ! Você não pode ficar às cegas no meio dessa situação.
Ok. Aquele ponto era muito bom.
- Certo. Vou pensar nisso.
- Você sabe que eu tenho razão, . – sorriu de lado - Apenas admita.
- Acho que essa conversa já se alongou por muito tempo. Tchau, Drake.
Ainda pude ouvir sua gargalhada antes de terminar a chamada do FaceTime. Infelizmente meu melhor amigo tinha razão. Levantei da cama e busquei meu remédio para dor de cabeça, que agora estava voltando, no banheiro. Tomei o comprimido branco à seco mesmo. Ideia terrível. Quase engasguei. Passei na frente do espelho, passei a mão pelo rosto e, por um segundo, ponderei se valia a pena passar algum tipo de maquiagem antes de ir. Minha consciência, entretanto, logo me lembrou exatamente de quem estava indo encontrar então descartei a ideia e sai do quarto.
Georgina estava pronta para sair de casa também, provavelmente saindo para ir à faculdade também.
- Hey, Geo. Cadê seu irmão?
- Acho que ele foi pra casa dele.
Ótimo! O cara praticamente morava aqui e na única vez que precisava falar com ele, ele não estava.
- No andar de cima, certo?
Destrancou a porta e olhou pra mim, curiosa.
- Sim. Na primeira porta ao sair do elevador. Você vai lá?
Assenti ao passar pela porta.
- Preciso entender algumas coisas.
Dietze trancou a porta e virou-se, muito séria:
- Promete pra mim que você não vão se matar? Eu não vou estar lá para separar possíveis brigas.
- Prometo tentar.
A expressão horrorizada dela me fez rir.
- Relaxe, Geo. Só pretendo conversar. Nada de brigas.
- Ok. Ótimo. Isso é ótimo. – murmurou mais para si mesma do que para mim.
- Tenha um bom dia. – desejei ao chegar na entrada que dava para as escadas.
- Você não vai de elevador?
Sacudi a cabeça.
- Pode ir. Você está descendo e eu, subindo. Mais rápido ir por aqui.
- Ok. Até mais tarde então.
Não havendo mais motivos para adiar aquilo, agora que Geo se fora, soltei um suspiro e comecei a subida. Quando bati na porta dele, torci para que ninguém atendesse. Covarde, eu sei. E o sentimento se torna um pouquinho mais patético ao se pensar que a interessada naquela conversa era eu.
apareceu poucos segundos depois. Estava ainda com a calça jeans e a camiseta azul que usava quando apareceu lá em casa. Seu rosto mostrou surpresa ao ver que era eu quem havia chamado.
- Hey. – murmurei – Posso entrar? – olhei de maneira significativa para dentro de sua casa.
- Sim, sim. Claro. – deu um passo para trás e abriu mais a porta.
Passei por ele e fui direto para sala, tentando não me lembrar do que havia acontecido a primeira vez que colocara os pés na casa dele. Ao menos não teríamos outro desastroso jantar hoje. Cruzei os braços e me virei para encará-lo.
- Eu vim em paz.
Não estava a fim de outra briga. Elas estavam me deixando exaustas, o que basicamente explicava a dor de cabeça repentina. E, além do mais, o cara tinha me dado chocolate quente. Isso fazia com que ele ganhasse algum desconto.
- Oh! – pareceu perder as palavras por um segundo – Ok. Então em que posso ajudá-la?
Estávamos de lado opostos de sua mesinha de centro, mas poderíamos estar do outro lado do planeta tamanha formalidade e distância havia ali. Não querendo cair em um silêncio esquisito, decidi, então, começar pelo que pensava ser o menos pior:
- Que história é essa de Sidney?
soltou o ar pesadamente e passou a mão pelo rosto.
- Estava torcendo para que você se esquecesse dessa parte. Kristine tem uma boca muito grande.
Talvez aquilo não fosse o melhor para começar.
- O que você quer dizer com isso?
- Você sabe aquela semana que nenhuma faculdade tem aula?
Claro que sabia. Era o equivalente a spring break americana. Todos os veteranos comentavam sobre como aqueles eram os dias pelos quais você esperava o ano inteiro para descansar um pouco. E eu já estava entendendo esse sentimento. Pouco tempo de aula e já estava surtando graças ao caminhão de trabalho que eles despejavam sobre nós. Só não compreendia o que aquilo tinha a ver com isso.
- Sim. – respondi simplesmente, esperando que ele continuasse seu raciocínio.
- Nós vamos estar na Austrália por esses dias e as garotas vão conosco.
Senti meus olhos se arregalarem. Já podia imaginar para onde essa conversa estava indo.
- Não, não, não, não. – sacudi a cabeça, murmurando aquela palavra repetidas vezes enquanto começava a andar em círculos – Não!
- Mas eu nem disse nada. – ele murmurou, tentando parecer inocente.
- E nem precisa, né? – tentei manter minha voz o mais calma possível, mas ela ainda saiu um pouco ríspida – É meio óbvio.
- Olha, eu sei que não é o ideal, mas Georgina tem razão ao dizer eu essa seria uma oportunidade excelente para mostrar ao mundo que estamos “oficializando” as coisas. – fez o sinal de aspas com as mãos – Você sabe, Summ vai estar lá, Kitty vai estar lá... seria um ótimo momento. Várias fotos e coisas assim. Prometo que não vai ser tão ruim.
Não vai ser tão ruim? Não vai ser tão ruim?
Passei a mão pelo meu cabelo, soltando um risinho debochado.
Como exatamente aqui poderia ser “não ruim”? Passar uma semana inteira com algumas das pessoas que eu mais detestava e com a versão moderna e feminina do Sherlock Holmes? Oh, claro, aquilo certamente entraria para minha lista de coisas que eu mais gostaria de fazer.
Pensando no chocolate quente de hoje de manhã, contudo, reprimi todos os comentários sarcásticos que queria vocalizar e me virei para ele, respirando fundo.
- , esse tipo de coisa não foi o que combinamos. O plano era manter o fingimento aqui. Na Inglaterra. – apontei para o chão – Não do outro lado do planeta. – abri o braço direito.
- Eu sei, eu sei. – passou a mão pelo rosto – Sei disso. Não planejei isso, eu juro. É só que... os fãs estão... – fechou a boca com força, sua expressão se endurecendo.
Ele cortava suas próprias frases, a voz cada vez mais falha. provavelmente não queria que eu soubesse que ele estava sendo pressionado para “se ajeitar” na vida. Mas eu sabia. E uma parte de mim – a parte bem idiota de mim – sentiu-se mal por ele, sofreu por ele. Mesmo me sentindo uma idiota, soube, então, que só havia uma resposta para isso. O problema era que não podia deixar que ele percebesse o quão fácil podia conseguir o que queria.
Engoli em seco.
- Isso vai lhe custar dez mil extras. – murmurei, assassinando um pouco mais da minha dignidade.
Ao menos Sky colocaria esse dinheiro em bom uso.
pareceu ficar sem resposta por um segundo, mas logo toda sua postura mudou. Suas costas se retesaram, sua mandíbula travou e seus olhos brilharam com certo cinismo. E, ao falar, sua voz saiu tão seca e sem vida quanto a minha:
- Feito.


Capítulo 10


- Há algum motivo em especial para você estar mais distraída do que o normal, ?
A voz desdenhosa de Drake me puxou para fora dos meus pensamentos. Desviei o olhar da estante ao longe e voltei-me para meu melhor amigo.
- , hey. – chamou outra vez, balançando a caneta que segurava na frente do meu rosto.
Pisquei devagar.
- Sabe quando você tem a nítida impressão de que está se esquecendo de algo, mas não consegue se lembrar do que por mais que se esforce para isso? – respondi.
- Não. – respondeu sem pestanejar, um sorriso muito satisfeito no rosto – Eu sempre consigo aquilo que me proponho.
Revirei os olhos.
- Não sei como ainda me surpreendo com esse seu narcisismo exacerbado.
- Você sabe que eu só falo a verdade. – abaixou a vista para o livro aberto em sua frente enquanto falava – Mas do que exatamente você não se lembra?
- Se eu soubesse do que me preciso me lembrar, não teria um problema, não é mesmo, seu lerdo? – respondi exasperadamente, quase me esquecendo de sussurrar em meio à biblioteca.
Dessa vez ele se deu ao trabalho de levantar a cabeça, arquear a sobrancelha aristocrática dele antes de me responder:
- As pessoas normais, categoria em que nenhum de nós no encaixa, mas por motivos claramente diferentes, costumam saber ao menos o contexto sobre o qual deveriam estar se lembrando. Ok. Ele tinha razão naquele ponto.
- É alguma coisa a respeito de .
- Ah! Do seu namorado querido? Talvez você tenha se esquecido de comprar um presente para comemorar a primeira semana feliz de vocês.
Respirei fundo. Meu autocontrole era testado todos os dias naquela amizade. Felizmente para aquele comentário eu tinha uma resposta ótima.
- Não se preocupe com isso, Drake. Nem todos esquecemos as datas comemorativas dos relacionamentos.
Sua expressão zombeteira imediatamente caiu, sendo substituída por seu olhar gelado de costume.
- Isso só aconteceu uma vez, . Não nos esqueçamos disso?
- Esquecer? Como poderemos esquecer? – ri – Mia deixou bem claro como aquilo não seria esquecido facilmente ao te trancar para fora do apartamento e trocar todos os compromissos da agenda do seu celular. Lembra que você foi parar em Rochester para pegar seu terno e ainda arrumou confusão com o alfaiate? – tive que colocar a mão sobre a boca para abafar a gargalhada que queria soltar ao recordar do quão desconsertadamente furioso ele ficou ao perceber que havia sido feito de bobo.
Sua careta se acentuou.
- Qual o problema? Você pode me zuar por causa do meu namorado, mas eu não posso te lembrar como Mia é mais esperta do que você?
- Primeiramente, Mia é mais inteligente do que todos nós nessa universidade, provavelmente nessa cidade. E em segundo lugar, você é muito mal agradecida. Eu estou aqui tentando te ajudar e você fica mudando de assunto.
Típico dom Marhiori de virar a conversa a seu favor. Dessa vez, contudo, ele até que tinha razão. Precisava me concentrar no meu problema e não em implicar com meu melhor amigo – por mais divertido que isso seja.
- Ok, ok. – apoiei o cotovelo sobre a mesa e o queixo sobre a mão – Não sei. – bati os dedos ritmicamente sobre a mesa – Realmente não sei, Drake. – soltei um suspiro – Mas sei que é alguma coisa bem importante.
- Talvez seja o aniversário de alguém? – ofereceu, tentando ser um pouco prestativo.
Por um segundo aquilo pareceu que faria algum sentido, mas sumiu tão rápido quanto surgiu, então sacudi a cabeça e falei:
- Nah. Tenho um aplicativo para isso.
- Talvez seja um d-
- Será que dá pra vocês dois pararem de falar? – uma garota surgiu ao lado da nossa mesa, tão brava que seus olhos se arregalavam um pouquinho mais a cada palavra – Está atrapalhando.
Engoli em seco e estava prestes a assentir e murmurar um pedido de desculpas, afinal, eu estava errada, quando Drake virou-se devagar para ela e falou:
- Por que você não volta para onde veio antes que eu perca minha paciência?
O tom que ele usou foi uma mistura tão mortal entre gelo e intimidação que por um segundo pensei que fosse o Marchiori Pai quem falava e até eu tive vontade de me encolher, então não houve nenhuma surpresa quando a garota esquisita fez exatamente o que ele mandou.
Quando Drake se virou para mim outra vez e deu um pequeno sorrisinho de lado, lembrei-me exatamente o porque éramos amigos. Porque sempre cobríamos a retaguarda um do outro. Exatamente como ele fez agora e exatamente como fiz naquele dia em que dirigi até Rochester só para buscá-lo.

xxx


A sensação de que algo estava me escapando da mente permaneceu pelo resto do dia e ainda estava bem forte quando destrancava a porta de casa. Talvez por estar presa em meu próprio mundo foi que demorei a perceber que minha sala estava outra vez lotada. Excetuando , todos os outros presentes do fatídico jantar estavam espalhados pelos sofás.
- Hey, babe! – se levantou, um sorriso forçado no rosto, e parou na minha frente.
Colocou as mãos no meu rosto e, por um paralisante segundo, pensei que ele me cumprimentaria com um beijo. Só consegui voltar a respirar, mesmo aos trancos, quando seus lábios pousaram sobre minha testa. A pele ali queimou.
- Estávamos te esperando para começar a troca de presentes.
A pergunta já estava na ponta da minha língua quando, como um pequeno clarão em meu cérebro fez com que eu entendesse sobre o que ele falava e, simultaneamente, lembrasse daquilo que havia me fugido durante o dia.
Era aniversário de Kristine.
Porra.
O aniversário de Kristine.
Como eu poderia ter esquecido? Ainda mais quando Georgina frisou repetidamente o quanto Green prezava por aquela data. E, vamos encarar a realidade, eu não podia me dar ao luxo de fornecer ainda mais motivos para que a melhor amiga de me mantenha em sua lista negra.
Engoli em seco e deixei que me puxasse pela mão e me fizesse sentar ao seu lado. Estava ocupada demais me sentindo uma idiota completa, suando frio e escrutinando cada pedaço do meu cérebro em busca de uma saída para o fato de que não tinha comprado presente nenhum.
- Oba, oba, oba. – a aniversariante bateu palmas animadamente – Já que estamos todos aqui, vamos lá.
Olhei para os lados, ainda em busca daquela alternativa, de uma saída, de uma fuga.
Qualquer coisa.
- ! Quero dizer, Louis! – exclamei, procurando defender o único ponto que poderia me ganhar algum tempo - Louis não está aqui. Não vamos esperar por ele?
- Ele foi buscar em Manchester e vai nos encontrar no clube mais tarde. – , que estava sentado do lado esquerdo de sua melhor amiga, foi quem me respondeu.
- Oh. – foi tudo que consegui responder.
Senti a mão de cobrir a minha e estava tão desnorteada que aquilo realmente foi reconfortante.
- Vamos começar então. – dessa vez foi Summer quem falou – Aqui, Kristine. – entregou-lhe um envelope preto.
- Oba, oba, oba. – repetiu, abrindo o papel e olhando dentro antes de soltar um gritinho - Bruno Mars em Oxford! – as duas palavras saíram tão agudas que quase não entendi.
- Muito obrigada. - Green se virou para a garota e sorriu – Como conseguiu? Achei que estavam esgotados.
- Minha tia conhece alguém que conhece alguém. – encolheu os ombros.
- Certo, certo. – interrompeu as duas - Minha vez, minha vez. – estendeu um estojo azul.
Azul Tiffany’s. Pude ver de relance um colar com uma esmeralda antes que ela pulasse para atacar o melhor amigo em um abraço forte. Uma pequena fortuna ela havia ganhado, e eu não tinha nem um cartão para lhe dar. Talvez se eu mandasse um daqueles e-mails prontos. Ok. Era isso.
Tentando o mais discretamente possível puxar meu celular para enviar uma daquelas mensagens cafonas, apenas ouvi entregar o presente que ele havia comprado. Fiz um esforço para manter a careta de desagrado longe do meu rosto ao pensar que ele havia se lembrado, mas não havia feito a delicadeza de chamar minha atenção para o fato de que eu deveria ter feito o mesmo.
- E tem um cartão! – ouvi Kristine exclamar assim que consegui abrir o aplicativo necessário – , por que você não me escreveu um cartão também? Vamos ver o que diz... “Feliz aniversário. Com carinho, e .”
Suas palavras fizeram com que eu levantasse a cabeça tão rápido que quase derrubei meu iPhone na pressa de me virar para ela e depois para meu dito namorado. Não sei como consegui refrear que toda a incredulidade que sentia ficasse visível para todos os outros presentes. Acho que estava fazendo um trabalho bom, exceto pelo fato de que encarava fixamente o perfil do meu dito namorado.
- Foi quem escolheu. – acrescentou - Para combinar com o colar.
Forcei minha atenção para garota que agora sorria para nós, dessa vez com uma caixa um pouco menor da Tiffany’s em suas mãos. Ele havia comprado uma joia e colocado meu nome como remetente. Não conseguia nem imaginar o porquê.
- Muito obrigada, casal.
- Não foi nada. – forcei também um sorriso, mas não consegui desviar minha atenção do perfil dele – Ficamos felizes por você gostar.
- Gostar? É maravilhosa! Muito obrigada.
Foi basicamente a última coisa que escutei durante um tempo, pois, no segundo em que se virou para me encarar de volta, toda minha atenção ficou presa nele e em como seus olhos pareciam estar dizendo tanta coisa, pareciam estar querendo dizer tanta coisa. Não sei quanto tempo exatamente ficamos parados, apenas nos olhando enquanto o ar se tornava cada vez mais rarefeito, dificultando minha respiração.
Ou talvez fosse a colônia dele que estava me intoxicando aos poucos. Também havia a possibilidade concreta de ser o carinho que ele fazia em minha mão que tornava impossível qualquer pensamento coerente.
Feliz ou infelizmente fui puxada para fora daquela bolha em que nós dois estávamos ao ouvir Kritine aumentar seu tom de voz. Foi como se alguém tivesse tirado o ambiente do mudo – exatamente como acontecia com um controle de televisão. De repente havia várias conversas paralelas ao nosso redor. Conversas essas que sabia que elas estavam ali o tempo todo, mas para as quais me tornei insensível durante um pequeno lapso temporal. Pisquei devagar, sacudindo a cabeça e voltando minha atenção para qualquer outra coisa que não os olhos dele.
Tentei puxar minha mão discretamente para longe também, em busca de recuperar um pouco de autocontrole. , contudo, não deixou isso acontecer, segurando-a firme e entrelaçando nossos dedos.
Engoli em seco, sentindo meu coração acelerar, mas não poderia fazer nada além disso senão chamaria atenção para nós dois, o que seria basicamente a última coisa que desejava agora.
Em algum momento em que estava distraída por , Kristine havia se levantando e agora se ocupava em gritar com . Pelos poucos pedaços e retalhos de conversas diferentes que havia conseguido escutar em poucos segundos e emendá-los em uma velocidade ainda mais rápida, cheguei a conclusão de que o bate-boca Green- se devia ao fato de que aparentemente não comprara um presente.
Naquele momento me senti tão agradecia a por ele ter colocado meu nome no presente que comprara que inconscientemente cheguei mais perto dele. Realmente não queria ser o alvo de ira parecida em resposta ao esquecimento da data.
- Não acredito, . Nem mesmo eu pensava tão pouco de você. Custava muito me comprar uma bala que fosse?
Foi quando percebi. Suas palavras eram raivosas, mas não me enganaram. Provavelmente por eu já ter usado exatamente a mesma estratégia diversas vezes, podia enxergar, agora que prestava atenção, de maneira clara a dor por de baixo da raiva. Ela estava machucada por ele ter esquecido, e tentava disfarçar sua mágoa atacando-o, tentando feri-lo tanto quanto se sentia ferida.
O crédito deve ser dado onde é merecido, contudo.
Ela era uma boa atriz. Se não tivesse tanta experiência em situações como aquela, não teria percebido, assim como não percebeu, pois ele logo revidou pedra com pedra:
- Se você calar a boca por um segundo, eu posso explicar.
- Explicar? O que exatamente tem para se explicar? Você esqueceu meu aniversário! Como você pode fazer isso?
- Porra! Mas até hoje você vai ser tão impossível?
apertou apreensivamente minha mão e o ar pareceu ficar suspenso em todo ambiente por um segundo.
Kristine jogou a cabeça para trás, reagindo como se tivesse levado um tapa. As coisas fizeram ainda mais sentido agora. Ela não se importava com o fato de terem se esquecido do seu aniversário, mas sim com por ter sido quem esquecera. Naquele momento me senti mal por ter pensado que se tratava de narcisismo de sua parte enquanto aparentemente era algo bem mais complicado.
Green piscou devagar e ficou sem resposta – não que ela tivesse tempo necessário para vocalizar uma se algo tivesse lhe ocorrido, pois, assim que terminou sua fala ríspida, marchou para fora do apartamento. Nenhum de nós conseguiu reagir e um silêncio pesado caiu sobre a sala. Desviei a atenção de Kristine assim que vi seu lábio inferior começar a tremer. Ela estava segurando o choro e eu estava desconfortavelmente sentindo pena dela. Passeie meus olhos pelos outros presentes e eles pareciam saber menos ainda o que fazer.
A tensão crescia em ondas e Green estava prestes a desmoronar enquanto , por sua vez, ficava mais vermelho a cada milésimo de segundo e poderia explodir em um rompante de raiva sem qualquer aviso. Felizmente, antes que o caos se instaurasse, voltou marchando para sala. Só o fato de ele ter retornado já seria um alívio, mas a caixa grande em suas mãos foi o que realmente acalmou os nervos.
Summer fez a parte dela ao colocar a mão sobre o ombro do namorado, impedindo-o de se levantar e provavelmente interceptar o caminho reto que o recém-retornado fazia até a aniversariante. Senti-me assistindo a um filme de suspense quando todos nós simultaneamente prendemos a respiração ao vê-lo estender o objeto que trazia a Kristine, que agora estava mais confusa do que qualquer outra coisa. Os dois se encararam por um longo segundo antes de ela dar um passo para trás e se sentar outra vez no lugar onde estava antes, colocando a caixa no colo e se apressando em abri-la. Uma única espiada para o conteúdo e imediatamente ela havia voltasse a olhar para .
- Você... você me comprou um cãozinho? – perguntou, absolutamente chocada e surpreendendo a todos nós também.
- Hmm... – ele passou a mão pela nuca, desconfortável – Na verdade, eu adotei. Ouvi uma conversa sua sobre como você achava que mais animais deveriam ser adotados, então eu... – sua voz foi se abaixando a cada palavra até morrer sem completar a frase.
Ela não respondeu, limitando-se a abaixar a cabeça e tirar uma bolinha dourada gordinha e fofinha de dentro da caixa. Colocou o cachorrinho contra seu ombro, segurando-o com uma delicadeza extrema então, para surpresa geral, começou a chorar.
Troquei uma olhada rápida com , mas ele apenas encolheu os ombros, mais perdido do que eu.
- Essa... foi a coisa... mais fofa. – todas as palavras saíram entrecortadas por soluços.
ficou imediatamente corado.
- Eu queria te entregar depois. – murmurou, desviando o olhar do dela.
Obviamente ele quis dizer “quando estivéssemos sozinhos”.
Nem mesmo eu, com toda minha aversão reprimida, consegui deixar de considerar aquilo absolutamente adorável – quase tanto quanto o fato de ele ter prestado atenção no detalhe de não comprar um cachorro.
Kristine finalmente conseguiu parar de chorar e levantou seu novo animal de estimação na frente dos olhos, abrindo um sorriso enorme.
- Você é um garotão, não é mesmo? Como vamos chamar você? – ela até mesmo afinou a voz, como se estivesse falando com um bebê.
Ok. Aquilo não era criticável. Todos os meus amigos que possuíam um animal de estimação faziam a mesma coisa. Exceto por Drake – aquilo era plebeu demais para ele.
- Que tal Pluto? – as sugestões começaram a pipocar.
- Que tal “Amo ”?
- Prefiro Nemo.
- Nemo é um peixe, amor.
- Mas eu gosto, Summ. Ele é fofinho.
- Acho que vou te chamar de Stark. – Green se pronunciou, ignorando absolutamente todas as outras pessoas, perdida por um segundo em seu próprio mundo - Já que seu pai e eu adoramos Os Vingadores.
- Gostei.
- Boa, Kitty!
- Ok.- levantou-se ainda completamente alheia ao resto da conversa – Você tem que ficar um pouquinho com o seu papai. Vou arrumar um lugar para você ficar enquanto nós estivermos fora.
Não sei o que as outras pessoas estavam pensando, mas eu, particularmente, esperava que ela deixasse seu novo bebê no colo de . Kristine, contudo, caminhou firme e entregou o recém-nomeado Stark nos braços de um embasbacado antes de girar nos calcanhares e sair da sala. Virei-me outra vez para , tão chocada por tudo que havia acontecido em tão poucos minutos que nem mesmo me lembrei de manter a conversa com ele no mínimo necessário
. - O que foi que aconteceu aqui? – sussurrei – Pensei que eles dois se odiassem.
- Acho que o que aprendemos aqui hoje foi que Kristine Green não é para ser entendida, apenas amada. – encolheu os ombros.
Por mais que aquelas palavras fossem confusas, provavelmente eram as únicas que explicavam a situação. Com um arrepio de susto, percebi naquele momento que havia grandes chances de eu estar também padecendo da loucura que se apresentava naquela banda e em todos ligados a ela. E o pior era que não havia nenhuma maneira de calcular aonde isso me levaria.

xxx
- Você precisa manter a mão ai o tempo todo? – sussurrei para , olhando para o braço dele pousado na curva da minha cintura.
Ao invés de me soltar, seu braço se aperto se intensificou, aproximando-nos ainda mais e quase me fazendo tropeçar graças a isso.
- Comporte-se, . Somos namorados, lembra? – murmurou de volta, sua respiração batendo em minha orelha e, assim, não ajudando em nada com meu súbito problema de pernas bambas - Precisamos agir como tal. Além do mais, já estamos quase chegando.
Será que ele não podia fazer a caridade de me obedecer, ou, se isso fosse demais para ele, simplesmente dizer um “não”. Isso já estaria de bom tamanho, não era necessário acrescentar todas aquelas informações inúteis, afinal, sabia muito bem sobre o que estávamos fingindo e conseguia ver a porcaria da porta dos fundos da boate na minha frente. Não precisava ficar falando ao pé do meu ouvido, fazendo com que me arrepiasse inteira. Não precisava ficar me apertando contra si como se quisesse me abraçar de verdade e não por pura obrigação. As coisas, contudo, não pareciam estar mesmo ao meu favor naquela noite. Depois de ter esquecido o presente de Green e ter me livrado por pouco de um olhar repreensivo por parte da aniversariante – e isso graça a gentileza de , o que ainda levantava a dúvida se não teria preferido levar uma repreensão visual ao invés de dever um favor ao meu pseudo-namorado – descobri, ao final da troca de presentes, que também havia me esquecido que a festa dela seria numa boate. Tive, então, menos de quinze minutos para me enfiar no vestido vermelho curto e apertado que usava agora e naqueles saltos altos pretos que machucavam meus pés. Para terminar de agravar a situação, Georgina não pode vir a festa, o que significava fingimento durante todo o tempo para todos ao redor. Nada de escapatórias. Ninguém para agir como distração ou para consertar as coisas caso cometêssemos algum deslize.
Puro estresse, era o que tudo aquilo era. Puro estresse.
E aquela maldita porta daquela droga de boate parecia estar correndo para longe de nós. Nunca vi uma distância tão curta demorar tanto. Quando finalmente conseguimos entrar, o som alto explodiu em minha mente, o que se mostraria uma boa distração se não tivesse decidido que, por estarmos imersos naquele mar de gente, ele precisava me manter ainda mais perto de si. Agora estava impossivelmente colada nele enquanto era guiada para um canto onde havia algumas daquelas mesinhas redondas e altas. Summer estava escorada em , que a abraçava enquanto eles trocavam palavras sussurradas entre um gole de bebida e outra. e dançavam não muito longe dali. Kristine, por sua vez, conversava animadamente com , e , que estava bem mais perto da aniversariante do que o esperado para um simples amigo, acrescentava algumas observações à discussão. Não perto o suficiente para se tocarem, mas já no campo de espaço privado um do outro.
Engraçado. Agora que parava para pensar sobre o assunto por um instante, percebia que, quando ainda era directioner, lembro-me de ter visto os dois trocando alguns olhares furtivos em algumas fotos ou vídeos. Acho que havia conscientemente decidido ignorar as implicações daquilo porque preferia que ela ficasse com . Obviamente eu estava errada e havia escolhido enxergar o que queria ver. A química entre e a namorada era algo palpável, e, se você prestasse atenção cuidadosamente, poderia ver que havia aquela ligação entre Green e também – mesmo eles fazendo todo o esforço possível para esconder esse fato.
- Aqui.
A voz de me trouxe de volta para realidade e imediatamente desviei o olhar dos casais, percebendo que estava encarando abertamente há um tempo. Felizmente ninguém havia percebido aquele ato rude e um tanto quanto stalkerish da minha parte. Havia ficado tão absorta nas conclusões que tirava sobre a One Direction e suas parceiras que não percebi saindo de perto de mim para buscar a bebida rosa que agora gentilmente empurrava em minhas mãos.
- Obrigada. – agradeci, de má vontade.
Um silêncio esquisito caiu entre nós. Um tipo de silêncio que nós prendia contra nossa vontade ali, naquele momento constrangedor.. Não tínhamos a opção de conversar com outras pessoas, pois “nossos” amigos estavam perdidos em seus próprios mundos, também não podíamos nos afastar para não causar suspeita. Depois de cinco minutos excruciantes desviando o olhar o tempo todo e bebendo meu drink rápido demais para não ficar bêbada, a situação ficou insustentável até mesmo para mim.
- Por que você disse que o presente era de nós dois? – perguntei, aproximando-me dele, mas mantendo meu olhar pelo dedo que passava devagar pela borda do meu copo.
pareceu surpreso por eu estar falando com ele, mas recuperou-se rápido, chegando perto para responder.
O ar ficou preso em minha garganta mais uma vez quando a ponta do seu nariz encostou de leve em meu ouvido por ele ter se abaixado e se aproximado para responder.
- Assim que você passou pela porta da sua casa e abriu aquela expressão adorável de surpresa, eu soube que você havia esquecido completamente.
- Ok. – assenti, tentando me afastar um pouco, mas não indo muito longe graças a sua mão que havia voltado a serpentear ao redor da minha cintura – Mas isso não explica como você já tinha um cartão de aniversário pronto.
- Não parecia justo você ter que comprar um presente para alguém que acabou de conhecer só porque isso seria o esperado por você ser minha namorada. E parecia ainda mais injusto você passar vergonha por ter sido a única que não tinha um presente para dar.
Aquilo era estranhamente... gentil da parte dele. E eu não gostava disso. Não sabia lidar com ele sendo gentil. Não queria ter que lidar com esse lado dele. Ele me causava sensações muito esquisitas.
- Oh! – suspirei – Obrigada então.
- Tudo bem. – encolheu os ombros e pareceu hesitar por um segundo antes de completar:
- Como foi seu dia?
Joguei a cabeça para trás a fim de olhá-lo, um tanto quanto incrédula por ele estar se esforçando para iniciar uma conversa supérflua. Não sabia o porquê de ele estar fazendo aquilo, mas seria uma excelente oportunidade para deixar bem claro que não precisávamos falar mais do que o estritamente necessário, um bom momento para enfatizar que não éramos amigos e que não seriamos. Ao invés da retrucada ríspida que estava na ponta da minha língua, contudo, encontrei-me respondendo a sua pergunta:
- Foi normal. Um pouco cansativo, contudo. Tenho algumas provas chegando. – tomei fôlego e passei a língua devagar por meus lábios subitamente secos – E o seu?
Quase não me reconheci. Não sabia o motivo exato de ter me envolvido naquele papo ou, pior ainda, ter aberto uma brecha para que a conversa continuasse. Acho que o fato de ser extremamente desconfortável ficar sozinho em uma festa tinha tudo a ver com aquela decisão irracional, e talvez aqueles gestos gentis dele tenham influenciado também.
Não importava.
O ponto principal era que algumas poucas palavras se estenderam até que eu perdesse a conta. Ocasionalmente éramos interrompidos pela música alta demais para escutar o que o outro falava ou por algum dos amigos dele que trazia uma bebida nova ou fazia algum comentário rápido antes de sumir outra vez. Quando dei por mim, estava rindo de algo que ele dizia. Foi em meio a uma risada que percebi o quão errado era tudo aquilo.
Foi como ter ficado sóbria de repente depois de horas de bebedeira.
- Que horas são?
piscou devagar, o sorriso morrendo em seus lábios ou encarar minha expressão que havia se tornado vazia de emoções. Se não estivesse tão preocupada com minha própria sanidade, teria notado que ele ficava adorável quando estava confuso. O que preenchia minha mente, todavia, era como eu havia conseguido manter uma conversação com alguém que figurava entre os primeiros nomes da minha lista negra.
Talvez eu pudesse ser como uma daquelas pessoas covardes e culpar a bebida.
- Quase duas da manhã. – respondeu lentamente, ainda sem entender a mudança abrupta, depois de checar seu celular.
Isso significava, então, que fazia mais de três horas que havíamos saído de casa e aterrorizantemente significava também que havia passado boa parte daquele tempo na companhia dele – e não podia mentir para mim mesma dizendo que havia odiado, pois foi basicamente o contrário disso.
- Podemos ir embora? – afastei-me um pouco dele.
O franzir de seu cenho se acentuou e estava claro que ele queria perguntar o que havia acontecido, mas decidiu por não vocalizar suas questões, limitando-se a assentir e caminhar até Kristine, que era a mais sóbria ali, para avisar que estávamos de saída. Só percebi que estava segurando o ar quando se afastou. Receei que ele me questionasse ou se recusasse a ir embora. Era um alívio não ter que brigar por aquilo.
Meu suprimento de oxigênio, entretanto, não durou muito, pois logo ele estava de volta e segurava minha mão para outra vez me guiar pela multidão. Os choques que sua pele causava contra a minha estavam ainda mais intensos agora do que há algumas horas, se é que isso é possível.
Ao sairmos para calçada na noite londrina, senti o ar frio bater na minha pele e, em um reflexo, soltei a mão de para esfregar meus braços em busca de algum calor por fricção. Assim que percebeu que eu passava frio, ele realizou mais um daquelas gentilezas que tanto me confundiam ao retirar sua jaqueta preta de couro e colocá-la sobre meus ombros. Seu calor me envolveu quase tão completamente quanto o perfume delicioso impregnado naquela peça de roupa.
- Assim você é quem vai ficar com frio. – apontei o óbvio, lançando um olhar sobre seus braços nus graças a camiseta branca de mangas curtas que usava.
- Vamos fazer assim.
Deu dois passos até mim e me abraçou. De repente era calor demais. Todo o frio que eu sentia desaparecera.
- Eu...eu... – fechei os olhos por um segundo, amaldiçoando-me por soar tão patética e tentando colocar mais força em minha voz – Não quis dizer que você podia invadir meu espaço pessoal. Se quiser, devolvo sua jaqueta, mas me solta. – fiquei orgulhosa por ter conseguido dizer tudo aquilo mesmo estando um pouco intoxicada por toda colônia dele que me deixa boba.
- Shii, . Comporte-se. – sussurrou contra o meu cabelo – Acho que vi um flash.
- Um flash? – minha voz saiu em um gritinho esganiçado – Como em uma foto?
- É. Deve ser algum paparazzi.
- Paparazzi? – repeti bobamente – Então devemos ir embora.
Tentei me afastar, mas era como ter barras de ferro ao meu redor.
- Na verdade, tenho uma ideia melhor.
Seu tom estava mais grave do que o normal e levantei a cabeça para perguntar o que poderia ser melhor do que ir embora. Não tive, porém, tempo para vocalizar nada além de um ofegar surpreso ao ler a clara intenção em seus olhos porque, no instante seguinte, abaixou a cabeça e pousou seus lábios nos meus.


Capítulo 11


Uma vez, quando fiz dezoito anos, meu irmão queria praticar bungee jump e logo agarrei a chance de acompanhá-lo. Queria riscar um dos tópicos na minha lista de coisas para se fazer antes de morrer. A sensação de seus pés deixando a segurança da ponte em direção ao completo vazio é absolutamente indescritível. Descobri mais tarde, porém, que aquilo infelizmente também era irreproduzível. Não importou quantas vezes pulei da mesma ponte ou de pontes diferentes. Nada trazia de volta a emoção, a adrenalina.
Nada de batidas frenéticas do coração, ou o sangue rugindo nas veias como se fosse fogo.
Nunca mais. Não importa quanto tentasse.
Nunca mais.
Ou foi o que pensei até que me beijou.
O choque durou exatamente um segundo antes de tudo ser substituído pela impressão de que estava em queda livre. O cérebro clinicamente lógico de que tanto me orgulhava simplesmente se desligou, deixando apenas os sentimentos me consumirem de um jeito que não estava acostumada. De maneira ausente, senti seu braço ao redor da minha cintura e me apertando mais contra si. Minha cabeça já dava voltas - não tanto pela falta de oxigênio, quanto pelo jeito como ele me beijava - quando se afastou.
Completamente tonta, precisei me concentrar bastante antes de conseguir descerrar as pálpebras. O fôlego que havia juntado aos trancos desapareceu de novo ao encarar seus lindos olhos e o jeito como eles brilhavam com algo que não conseguia decifrar. E, naquele momento, eu não o odiei.
Naquele preciso momento, aliás, queria correr minhas mãos por seu rosto, que era o mais próximo da perfeição na Terra com o qual já tinha me deparado. Ele estava tão perto, tão ao meu alcance. Com seu cheiro me embriagando a cada segundo mais e seus braços me trazendo para mais perto de si, realmente cheguei a levantar a mão com a intenção de correr meus dedos por seu cabelo incrível. Feliz ou infelizmente, apenas havia roçado a ponta dos dedos em sua barba por fazer quando um grito estourou a bolha em que estávamos.
- ! QUEM É ESSA?
Por reflexo, virei o rosto na direção da voz.
Imediatamente veio o segundo choque. Dessa vez foi luminoso. Um flash me cegou de tal forma que o susto me fez cambalear um passo para trás. Pisquei com força, tentando recobrar a clareza e o foco, o que não adiantou em nada, pois vários outros clarões vieram em seguida. Aquela situação era completamente nova e não estava encarando muito bem o fato de que meu controle estava sendo arrebatado de mim com força. Ergui a mão para cobrir os olhos quando senti a mão quente, que havia aprendido a reconhecer como sendo a de , se fechando sobre meu braço para logo em seguida começar a me puxar para a direita.
Não me orgulho de dizer que me agarrei a ele como se fosse uma bote salva-vidas me tirando do meio daqueles tubarões que atacavam meus sentidos. Felizmente não demorou muito para que conseguíssemos fugir. Encontrei-me dentro do carro acelerando para longe sem saber como havia ali entrado ou de quem era o veículo. A única coisa da qual tinha certeza era dos diversos pontos brancos piscando em frente na minha frente.
- Que droga - esfreguei as mãos sobre os olhos, tentando voltar a normalidade.
- Hey, - sua mão pousou sobre meu ombro nu, arrepiando completamente a pele ali. - Desculpe. Minha intenção não foi essa. Droga - as palavras duras contrastavam com o carinho suave que fazia. - Não acredito que pude pensar que eles agiriam como a merda de profissionais que supostamente deveriam ser. Não pensei que eles realmente iriam te atacar. Desculpe.
As coisas ainda não haviam voltado ao normal por completo, uma vez que ainda me via sob os efeitos embriagantes de , mas já tinha pontadas de consciência.
- Certo - sacudi o braço para que tirasse a mão de mim.
Obviamente ele não tornaria minha vida mais fácil ao aceitar a dica. Ao invés de me soltar, sua mão deslizou por meu braço até juntar nossas mãos e entrelaçar nossos dedos. Completamente surpresa, abaixei minha vista, que finalmente havia se normalizado, para encarar, em mais uma onda de surpresa, aquele gesto.
- O que você pensa que está fazendo? - sibila, sacudindo o braço para que ele me soltasse.
- Distraindo você.
Aquilo foi inesperado ao ponto de me fazer parar de me mexer.
- O quê?
- Você me perguntou o que estou fazendo - abriu um sorriso cansado no canto dos lábios. - Estou te distraindo.
Abri a boca para dizer que aquilo era uma das coisas mais idiotas que ouvi, mas parei a meio caminho, a boca entreaberta, pois percebi que tinha razão. Enquanto estava me preocupação em ficar brava com ele, esqueci da sensação de estar encurralada como um animal prestes a ser abatido. Engoli em seco e fiquei tão desconcertada pela verdade em suas palavras que deixei, sem novas tentativas de me libertar, que segurasse minha mão entre a sua durante o resto da viagem. Durante esse tempo, ocupei-me em olhar em silêncio pela janela, tentando não pensar no jeito gostoso como minha boca formigava ou como seu polegar acariciava as costas de minha mão.
Queria isolar aqueles pensamentos, voltar a detestá-lo como havia me acostumado. Era mais simples, era seguro. E, naquele momento, odiá-lo também era a última coisa que passava por minha cabeça.

xxx

Levantei a cabeça das mãos e abri os olhos de repente, no susto, ao ouvir o barulho de coisas caindo na mesa à minha frente.
- Ora, ora, ora.
Tive tempo apenas de identificar que se tratavam de revistas antes que a voz do meu melhor amigo exigisse atenção:
- Que tal alguns autógrafos? - arqueou a sobrancelha, um sorriso debochado nos lábios.
Franzi o cenho, tirando minha atenção de seus olhos cinza para observar de novo o material que ele trouxera. Senti meu queixo cair ao me reconhecer em uma das capas. Com as mãos trêmulas, peguei a revista e tive tempo apenas de ler a manchete antes que meu cérebro desse um pequeno nó.
em beijo ardente na porta de boate”.
Depois daquele choque, apenas consegui observar as imagens.
Joguei essa revista para longe e peguei a de baixo. Era a mesma foto, mas de um ângulo diferente. A terceira edição, contudo, era de nós dois de mãos dadas e entrando em um carro. Havia no mínimo mais três desse tipo, mas já estava aborrecida o suficiente, então empurrei tudo para longe e me recostei na cadeira outra vez, os braços cruzados e a atenção em qualquer outro lugar exceto… naquilo. Drake resgatou seus papéis idiotas antes que elas terminassem de deslizar para fora da mesa.
- Hey! Um pouco mais de educação, por favor? Isso aqui não foi de graça - sentou-se de frente para mim.
- Oh, sim, milord. Perdão - revirei os olhos. - Perdão pelos meus modos de plebeia e por colocar em risco o que foi comprado com o pouco dinheiro Marchiori.
- Eu achava que as pessoas ficavam menos mau humoradas quando estavam namorando. Você sabe, com orgasmos e coisas assim.
Ele conseguiu o feito de me deixar mais chocada do que quando vi as revistas. Arregalei os olhos e fiquei completamente sem reação com tamanha audácia. Fiquei ali, parada, apenas observando o brilho de malvado divertimento em seu olhar e a risada que ele mal continha. Foi só quando Duke deixou que uma gargalhada escapar que consegui reagir. E não foi algo bonito. Aliás, se Marchiori não tivesse usado de seus reflexos de jogador de futebol, agora estaria careca, pois voei sobre a mesa com a clara intenção de arrancar cada fio loiro da sua cabeça.
- Ficou maluca, ? - falou entre um grito e um sussurro, segurando meu pulso para longe de si.
O jeito como ele levantou seu tom de voz me trouxe de volta à realidade. Aquilo era tão anormal, tão contrário à sua sempre tão firma compostura, que percebi que estava eu um pouco fora de controle.
Ou talvez muito.
Senti a cor deixar meu rosto e minhas pernas fraquejaram. Antes que pudesse voltar a me jogar na cadeira e ponderar sobre como havia me tornado uma maluca com tendência psicóticas, sua mão, que ainda estava me segurando, puxou-me e me guiou ao redor da mesa. Parecia uma boneca de pano sem vontade, apenas sendo levada apaticamente para fora da cafeteria e pelos jardins da parte de trás do prédio de minha faculdade até um lugar onde não havia ninguém por perto. Nesse mundo novo e bizarro onde eu chegava realmente a atacar uma das pessoas que mais amava, meu melhor amigo, um futuro legitimo Lord inglês, sentou-se na grama ao pé de uma grande árvore e me puxou até que fizesse o mesmo, acomodando-me ao seu lado.
- Você… você… sua calça cara - murmurei idiotamente, agarrando-me àquele pedaço de bobagem enquanto piscava repetidamente para afastar as lágrimas que vinham cada vez que me recordava de meu descontrole.
- Não importa - sacudiu a cabeça. - Vamos conversar, .
E lá estava de novo o tom macio, carinhoso que me fazia sentir perto de casa e tão mais segura do que em qualquer outro momento desde que voltei a Londres. Mesmo depois de ter tentado machucá-lo, meu melhor amigo ainda tentava me consolar, o que fez com que me sentisse um pouco mais como um lixo. Olhei para baixo e para minhas mãos sobre meu colo. Um segundo depois sua mão cobriu as minhas e apertou de maneira reconfortante.
- ?
Engoli o choro e a vontade de me esconder até que toda minha estupidez fosse esquecida, ao invés da via fácil, então, levantei a cabeça para encará-lo.
- Desculpe - foi tudo que consegui sussurrar, de maneira estrangulada, antes de me afogar em lágrimas que estava segurando provavelmente a muito mais tempo do que apenas naqueles poucos momentos atrás.
Largou minha mão e no segundo seguinte me encontrei com o queixo contra seu peito e seus braços me apertando forte em um abraço que só fez aumentar meus soluços. Não sei quanto tempo se passou até que conseguisse um pouco de calma, quantas lágrimas deixei escapar por coisas que sabia e pelo que inconscientemente estava me machucando. Durante todo o tempo que chorei, Marchiori apenas ficou lá, quieto, acariciante meu cabelo pacientemente, às vezes sussurrando algumas palavras ininteligíveis. Em algum momento consegui finalmente me acalmar, mas estava me sentindo segura demais, confortável demais para me mexer, então apenas passei a mão pelo rosto e sussurrei de novo:
- Desculpe.
- Está tudo bem. E você quase deveria se sentir orgulhosa, afinal, são poucas as pessoas que podem afirmar verdadeiramente terem conseguido pegar um Marchiori de surpresa.
Soltei uma risada, ainda limpando o rosto.
- Deixa de ser idiota, Drake. O que eu fiz não é tema de brincadeiras. Poderia ter te machucado.
Dessa vez foi ele quem soltou uma pequena gargalhada.
- , por favor, não vamos exagerar. Você é muito menor do que eu e deve pesar uns vinte quilos a menos. Não há absolutamente nenhuma chance de que realmente conseguiria me machucar. Provavelmente teria conseguido chegar a puxar um cabelo ou outro. Nada além, é claro.
Soltei uma risadinha, batendo de leve em seu peito.
- Deve ser algum tipo de dom conseguir manter toda essa pose mesmo sentado no chão e com uma mulher chorosa que estraga sua camisa de seda nos braços.
- Você sabe que sou cheio de dotes, . - empurrou meu cabelo com carinho para o lado e sorriu fraco antes de voltar a ficar sério para falar. - Agora vamos conversar. O que está acontecendo, baixinha?
Meu coração apertou um pouquinho mais ao ouvir o apelido de infância pelo qual não me chamava há tempos. Além do sentimento saudosista, contudo, aquilo contribuiu para que me sentisse ainda mais à vontade.
- Eu… eu não sei porque fiz aquilo - sussurrei, brincando com a barra de minha blusa. - Nem foi nada tão ruim. Aquilo com as revistas, digo… - minha voz foi sumindo.
- Certo. Quanto aquilo, estou disposto a admitir que não foi o melhor jeito de lidar com a situação. Um pouco dramático demais, talvez, mas queria que você passasse de uma vez e pensei que isso seria melhor alcançado por um tratamento de choque. Obviamente estava errado. Acabou sendo a gota que transbordou o copo.
Franzi o cenho, não entendo exatamente o que ele queria dizer, ou não querendo entender o que suas palavras significavam.
- Como assim?
- Ora, , não se faça de boba. Você é uma das pessoas mais inteligentes que conheço - apesar do tom meio arisco, em nenhum momento deixou de acariciar meu cabelo. - Está exausta com essa história toda, extenuando-se com a preocupação e com o paradoxo de tentar ajudar alguém por quem você está tão determinada a guardar rancor.
Senti que me retesava inteira, indignação conseguindo passar pelas camadas de cansaço e vergonha para se fazer presente.
- Você não sabe o que aconteceu - rangi os dentes.
- Não, não sei, é a culpa disso é sua. É você quem se recusa a falar sobre isso.
- Então você está dizendo que tudo pelo que estou passando é culpa minha?
Apoiei a mão em seu antebraço, tentando me levantar e me afastar. Drake me segurou firme e fui obrigada a permanecer no lugar. Às vezes odiava o esporte que havia lhe dado tantas vantagens quando nós estávamos em lados opostos.
- Calma, nervosinha. Não estou tentando te culpar por nada, apenas aponto fatos.
- Não preciso que me aponte nada, posso ver perfeitamente bem que fui idiota ao concordar com uma ideia estúpida - resmunguei, malcriada, mas parei de tentar me soltar.
- Não, não vou ficar quieto. Já deixei você fazer do seu jeito, o que obviamente não está funcionando. , sério, você está ignorando todos os fatos. Nunca te vi fazendo isso antes, nem mesmo quando…
Parou a frase no meio do caminho, porém não fez diferença. Sabia o que ele estava prestes a falar.
O divórcio dos meus pais.
As palavras não ditas pesaram entre nós por um segundo, no qual me encolhi, fechando os olhos e tentando me esconder no conforto dos braços do meu melhor amigo. Marchiori esperou pacientemente até que eu voltasse ao presente, só quando olhei um suspiro e afrouxei o aperto de ferro que mantinha em seu antebraço foi que continuou:
- O que quis dizer, baixinha - limpou a garganta - é que você está vivendo uma pequena ilusão que está te fazendo mal.
- Sei que me faz mal.
- Não estou falando sobre isso, - respondeu, impaciente. - Ou melhor, é exatamente disso que estou falando. Você está culpando o cara por tudo, e sabe que isso não é verdade. Essa merda é o que está te envenenando. Porque, por mais que queira detestar o tal e culpá-lo por todos os males do mundo, seu cérebro friamente racional te diz que você está errada. Deixei que fizesse o que queria, do jeito que queria e deu no que deu, agora vamos fazer do meu jeito, vamos encarar o problema.
- Já tentei arrumar o problema. Não dá para sair dessa confusão em que me meti.
- Está vendo! De novo! De novo você está olhando para a situação de um jeito míope e superficial.
- Você fica repetindo isso, mas não fala nada com clareza. Que saco! Fala de uma vez - belisquei seu braço.
A conversa era séria demais para que não o olhasse nos olhos, mas observar a copa das árvores balançando ao longe era mais calmante, então permaneci no lugar, a cabeça pousada em seu peito.
- Estou dizendo que o problema maior não é você ter que fingir um relacionamento com um cara que não gosta. O problema é justamente você viver nessa balança em que precisa agir como se gostasse dele enquanto, a todo minuto, seu cérebro fica te lembrando que precisa odiá-lo por esse tal motivo super secreto. , isso é tóxico. Sério. Como alguém pode viver bem se cada passo é uma luta? Claro que você acabaria surtando. Qualquer um surtaria. Além disso, está meio óbvio que o tal está mexendo com você novamente… ou nunca deixou de mexer. Não sei e isso também não é tão relevante agora. O que importa é o que vamos fazer para consertar isso.
Seu pequeno discurso me deixou de novo com aquela sensação horrível de ardência na garganta e novas lágrimas pendentes. Sentia-me, também, pequeninha, pois sabia que meu melhor amigo tinha razão em tudo que dissera, inclusive na parte mais crucial, na que mais machucava… tinha razão ao afirmar que cada vez que eu olhava para o homem que era meu namorado de mentira, precisava me esforçar para me lembrar do motivo pelo qual o detestava. Estava gestando um conflito insuportável, onde não sabia o que fazer: se deveria me apegar ao que sabia ou ao que estava descobrindo.
Felizmente Marchiori não esperava por uma resposta e continuou falando:
- O que quero dizer com tudo isso, , é que você precisa tomar uma decisão. Do jeito que está, não dá para continuar. Ou você se apega a esse rancor e larga tudo de uma vez. Joga toalha mesmo. Fala para sua amiga que não deu certo e pensa em alguma mentira para o rompimento. Ou escolhe abandonar o que te está sufocando e seguir em frente.
- Abandonar? - a palavra saiu meio estrangulada. - Você acha que já não tentei abandonar isso? Acha que gosto de ficar me lembrando do que aconteceu? Queria poder esquecer, mas fica repassando de novo e de novo aqui - fiz círculos imaginários com a mão ao lado de minha cabeça.
- Sei que não é fácil. Sei que quanto mais você quer esquecer, mais você lembra. Mas, seja lá o que aconteceu, aconteceu, . Não adianta você ficar remoendo tudo - voltou brincar com alguns fios escuros do meu cabelo. - E já que esquecer parece ser um passo grande demais, que tal tentar compartimentalizar isso? Tentar deixar de lado. Tentar alguma coisa, baixinha. Você precisa tentar.
Respirei fundo, afundando-me ainda mais em seus braços, se é que isso era possível.
- Você está perdendo a razão, perdendo a mente racional da qual tanto se orgulha. E para quê? Para se tornar uma velha amarga antes mesmo dos 25 anos de idade? Ele realmente vale tudo isso?
Não, não valia. Todo aquele rancor não valia a pena. Tudo que estava conseguindo era guardar ainda mais rancor e começar a agir como uma psicopata paranoica.
Não.
Estava agindo como uma criança que aceitava emprestar o brinquedo, porém depois ficava tentando estragar a brincadeira alheia. Se havia concordado com a proposta de Geo, havia concordado. Não podia ficar sabotando a mim mesma a cada segundo dessa farsa. Drake estava coberto de razão ao dizer que ficar me esforçando para odiar só me causava mal.
As coisas precisavam mudar. Mas antes…
- Drake - inclinei a cabeça para trás, finalmente encarando seus olhos cinza que no momento mostravam uma paciência infinita. - Você tem razão. Tem razão em tudo. Desculpe por ter descontado em você. Vou tentar… vou tentar dar um jeito em tudo. Deixar o passado no lugar onde ele deveria ter ficado desde o momento em que voltei para Londres.
- Essa é a minha garota - sorriu um de seus raros sorrisos genuínos. - Agora que está mais calma e que resolvemos as coisas, que tal um chá? Eu pago.
- Adoraria - deixei meus braços caírem ao meu lado e para longe dele.
Drake se levantou primeiro e, como o cavalheiro que era, estendeu a mão para me ajudar a levantar. Ele decidiu que uma aconchegante casa de chá fora do campus era a melhor opção e lá nós passamos boa parte da tarde. Nenhum outro incidente violento, apenas a certeza de que eu tinha o melhor amigo que alguém poderia querer. Só voltei para casa quando a noite já cobria o céu. Tomei um banho, colocando uma calça de moletom e uma regata para depois procurar alguma coisa para comer, mas, com a porta da geladeira já aberta, percebi que não estava com fome graças as diversos pedaços de bolo que Drake fez questão de comprar. Decidi por apenas um suco, o que logo percebi não ser uma boa ideia, pois, enquanto bebericava o sabor de morango, a conversa com Marchiori ficou repassando em minha cabeça. Estranhamente, apesar das palavras duras, estava… leve.
Mais leve até mesmo do que me sentia antes mesmo daquele teatrinho começar. Era óbvio que o rancor estava pesando em meus ombros durante muito tempo, puxando-me para baixo como uma maldita âncora. Não que o sentimento horroroso tivesse desaparecido em um passe de mágica, mas a decisão verdadeira de não deixar que aquilo direcionasse cada segundo do meu dia tinha o poder de trazer uma paz que me era inusitada. A única coisa que estava me incomodando agora era a relação esquisita que ainda tinha com . Não nos despedimos no melhor dos climas na última vez que nos falamos.
Lavei o copo que tinha usado e saí da cozinha sem um rumo certo. Só percebi o que estava fazendo quando parei na frente dele. atendeu a porta sem camisa e com um pote de pipoca na mão.
Engoli em seco, desviando o olhar de seu tórax definido e seus braços musculosos para seus bonitos olhos.
- ?
Pela primeira vez não me senti compelida a corrigi-lo, mandando que me chamasse por meu sobrenome. Tentei murmurar qualquer coisa em resposta, mas saiu como um miado, então limpei a garganta antes de continuar:
- Olá. Está ocupado?
- Não - sacudiu a cabeça. - Você quer conversar?
Pensei por um segundo. Eu queria conversar? Queria falar sobre todas as coisas que me ficaram entaladas por tanto tempo e que só agora havia deixado ir?
- Não. Não realmente.
Aquilo o pegou de surpresa. Acredito que eu também não saberia ao certo o que fazer se alguém aparecesse de surpresa na porta de minha casa e ficasse calada ao invés de dizer de uma vez o que pretendia. olhou para o pote de pipoca em mãos e depois por sobre o ombro.
- Eu… hmm… estava prestes a assistir a um filme. Quer… digo… - deu um passo para trás, abrindo espaço para que eu passasse e deixando as palavras morrerem ao nosso redor. Se alguém me dissesse, em qualquer outro momento, que eu teria aceitado de boa vontade um convite como aqueles - especificamente daquela pessoa - teria soltado uma boa gargalhada, mas foi exatamente o que fiz. Aceitei seu convite.
E com um sorriso discreto no canto dos lábios.

Capítulo 12


Havia chegado a conclusão de que estava encarando esse namoro falso como alguém que passava por um processo de luto. Primeiro veio a negação, onde definitivamente não acreditava que tinha aceitado conscientemente me meter nessa cilada. Depois veio a negociação, onde conversei muito comigo mesma e com cada ser do universo, tentando procurar uma saída digna. Em seguida teve a depressão, por onde eu andei com passos de Vodka e onde ainda estaria, não fosse meu amigo Lord. E agora estava no último estágio: a aceitação.
Sim, certamente aceitação, porque não existe outra explicação senão que meu conformismo havia feito metamorfose em pura, completa e tola aceitação. Era isso ou eu havia perdido o resto da sanidade, afinal, não restava muitas outras coisas que justificassem eu estar desperdiçando uma excelente tarde de sábado caçando uma droga de uma fantasia para uma festa que não queria ir.
- Por aqui, - senti um puxar de leve em minha mão.
Ah, sim! E ainda tinha a adorável companhia de meu falso namorado nessa tarefa incrível. Verdade seja dita, as coisas haviam melhorado bastante desde o dia em que assistimos àquele filme, principalmente porque me mantinha meio apática, mas não estava reclamando. Apatia era melhor do que ficar sentindo raiva o tempo inteiro. Agora eu apenas mantinha o sentimento ruim sob uma superfície de calma aparente.
Deixei, assim, sem reclamar, que me arrastasse para a décima loja daquele shopping. Antes que alcançássemos a porta de vidro entre as duas vitrines cuidadosamente decoradas com as cores que realçavam as fantasias expostas, contudo, cinco garotas nos cercaram. Todas elas balbuciavam coisas incompreensíveis ao mesmo tempo e duas ou três mal segurando as lágrimas. Senti todo meu corpo se retesar e, provavelmente por sentir minha mão entrelaçada a sua gelar, se virou para mim com o cenho franzido em preocupação. Queria falar alguma coisa ou apenas desaparecer daquele lugar, mas havia uma bola de aço travando minha garganta e parecia que a borracha de meus tênis havia se derretido e me colado no chão. Era como observar um desastre automobilístico prestes a acontecer; simplesmente não conseguia desviar olhar. Por mais terrível que fosse, havia uma atração inegável pelo desastre. Então eu estava esperando… esperando por algo que havia evitado por tanto tempo, esperando para que fizes-
Olhei para baixo ao sentir um aperto reconfortante em minha mão e, logo em seguida, meu olhar subiu por seu braço coberto por uma jaqueta de couro preto até chegar a seus bonitos olhos que continham genuína preocupação. E por um segundo todo sentimento ruim desapareceu enquanto o ar ficava suspenso entre nós. Assim como foi ele quem iniciou aquele contato, foi também quem o cortou. Soltando minha mão, ele se virou com um sorriso muito convincente para suas fãs.
- Olá, meninas. Como vocês estão? - o tom era de companheirismo, como se estivesse falando com um de seus amigos. - Que tal uma foto ou um autógrafo?
Embasbacada, observei enquanto ele pacientemente abraçava cada uma delas pela cintura, trocando algumas palavras baixinho antes de posar para fotos. Cada uma teve a atenção que merecia enquanto meu pseudo-namorado fazia cada uma delas se sentir como se fossem únicas. já estava terminando de se despedir da quinta garota com quem tirava uma selfie quando uma das outras garotas se aproximou de mim com uma expressão incerta. Ela tinha os cabelos muito pretos e um sorriso gentil, mas, além disso, ela não tinha qualquer culpa por meus problemas pessoais. Fugindo de me tornar injusta e hipócrita, engoli a amargura que infestava minha boca, e murmurei:
- Olá.
- Oi. Você é , certo?
- Sim - estiquei a mão. - E como você se chama?
- Carrie - respondeu o cumprimento. - Você e estão namorando?
Desviei minha tenção para o cantor a alguns passos de mim. Ele estava apenas parado lá, encarando-me de volta e a mensagem que passava era clara. Queria que eu decidisse o próximo passo, que eu confirmasse a situação. Foi nesse exato momento que percebi que havia subestimado a inteligência dele. sabia que se fosse eu quem dissesse, tudo seria mais real. Muito esperto de sua parte, ainda mais porque era completamente verdade. Assim, o mais discretamente possível, respirei fundo e me voltei outra vez para Carrie:
- Sim - assenti. - Estamos namorando.
Não sei ao certo por que, mas pareceu natural, a seguir, perguntar se ela estava bem com o fato de que estava namorando seu ídolo. Felizmente o bom senso retornou bem a tempo de me impedir de criar um constrangimento dos grandes. Apesar de tudo aquilo ser para os fãs, tinha certeza que Georgina não tinha em mente uma pesquisa de satisfação quando me pediu para que eu assumisse o papel.
- Que bom - sorriu, apertando com força o autografo contra o peito como um tesouro. - Que bom - sussurrou uma última vez antes de se juntar ao seu grupo de amigas ao longe.
Assim que Carrie se afastou, estava de novo ao meu lado, a mão sobre minha cintura nem mesmo pesava mais tanto quanto antes - provavelmente havia me acostumado.
- Obrigada, .
Do mesmo jeito que me acostumara com o fato de que agora ele me chamava por meu primeiro nome. Levou boas três semanas depois da noite em que assistimos o filme em sua casa, mas agora já não tinha mais o reflexo de exigir que se dirigisse a mim usando meu sobrenome.
- Tudo bem - encolhi os ombros, de repente esgotada pelo turbilhão de sensações do qual fora vítima em tão pouco tempo. - É para isso que estamos aqui. Podemos continuar procurando a fantasia?
- Sim, sim, claro - subiu o braço até apoiá-lo sobre meus ombros, puxando-me para perto de si quando voltamos a andar. - Desculpe. Não queria que tivesse se assustado.
Essas últimas palavras foram murmuradas contra meu cabelo, o que era um bom disfarce, pois, para qualquer terceiro observador, o cantor parecia um namorado carinhoso sussurrando doces palavras. Ele era, de fato, bem mais esperto do que aparentava, mas obviamente não podia ler pensamentos, então não fiquei exatamente surpresa quando chegou àquela conclusão. E, como não tinha qualquer interesse de que ele soubesse a verdade - nem hoje nem nunca - murmurei:
- Tudo bem. Vou me acostumar - engoli em seco e, porque parecia certo, continuei. - Você é… você lidou muito bem com elas - fiz um bom trabalho mantendo o ressentimento longe.
Lançou-me um olhar esquisito ao nos separarmos para que ele pudesse, como um bom cavalheiro, abrir a porta da loja.
- Bom, algumas vezes pode ser meio excessivo, mas geralmente elas estão apenas muito excitadas. Um pouquinho de paciência resolve. Além disso, sou muito grato. Não estaria aqui se não fosse por elas. É o mínimo que posso fazer para retribuir.
Senti como se pequenos dardos envenenados estivessem perfurando minha pele a cada nova sílaba pronunciada. A única coisa que me fez continuar andando para dentro do Wicked foi meu orgulho e a promessa que fizera a Drake sobre tentar manter o passado e o ressentimento longe do meu presente.
- Do que você quer se fantasiar mesmo? - corri os dedos por um terno amarelo pendurado em um dos inúmeros cabides.
Não queria participar da infame - e aparentemente tradicional - festa a fantasia de réveillon de , mas não havia opção quando se fazia parte da família One Direction. Além disso, tal ideia não me parecia de toda ruim naquele momento, uma vez que me permitia focar em outra coisa que não as lembranças que tentavam me sugar de volta para alguns dos piores momentos que já tive.
- Coringa! - praticamente dava pulinhos no lugar, tamanha sua animação.
Era quase reconfortante essas pequenas situações em que o comportamento infantil dos homens não prejudicava ninguém. O brilho feliz em seus olhos também era algo digno de ser admirado. Sacudi a cabeça e voltei a procurar pelos cabides, tentando não pensar que cada vez que seu olhar faiscava no meu, toda minha concentração se esvaia e, por um segundo, só existia ele. Sim, sabia o quanto soava obsessivo.
Obsessivo e pouco saudável.
- Que tal essa aqui, ?
Levantei a cabeça para encontrar segurando em frente ao corpo um casaco roxo e, na outra mão, uma blusa cinza e um colete verde.
- Oh! - dei um passo para frente e assenti, dando uma boa olhada em tudo. - Coringa de O Cavaleiro das Trevas - apertei o tecido entre os dedos. - Bom, bom. Gostei. O tecido é bom, mas essa é muito pequena para você.
- Como você sabe? - franziu o cenho.
Porque corri as mãos por seus ombros quando me beijou. Sei que suas costas são largas e que seus bíceps são fortes e duros como pedra.
- Apenas… - limpei a garganta - apenas sei.
Passei por ele para analisar as araras mais atrás. Poucos segundos depois encontrei o que procurava.
- Aqui - empurrei o cabide para ele. - Essa vai servir.
- Ok. Vou experimentar então.
Arqueei a sobrancelha.
- Não. Espera. Não é isso - suas palavras se atropelavam. - Não é que não acredite em você. Sobre essa aqui servir, digo. É só que... - coçou a nuca, as bochechas se colorindo levemente. - Eu gosto de comprar roupas.
- Ok…?
- Não! Digo… o que eu quero dizer é que... - olhou para cima como se pedisse coragem aos céus antes de voltar a me encarar. - Ai, cara. Isso pode soar meio idiota e muito vaidoso, mas eu gosto de comparar roupas e ultimamente não tenho tido a oportunidade de ir pessoalmente às lojas ou porque estou sempre viajando ou porque nossa presença em um shopping tem o potencial de causar um código preto.
- Código preto? - ri. - O quê?
Uma sombra passou por seu rosto e ele chegou a estremecer um pouco.
- Não é engraçado - sussurrou, olhando para os lados como se alguém fosse pular de trás do manequim que vestia uma fantasia de médico.
Mordi a vontade de rir outra vez. Não queria me divertir com a desgraça alheia, mas era pouco comum ver um homem daquele tamanho parecendo um coelhinho preso em uma cilada mortal.
- Ok. Tudo bem - concedi. - Acho que os provadores são por ali - apontei para a direita, onde havia visto uma placa quando entramos. - Vai lá. Eu te espero aqui.
- Oh! Beleza! Obrigado.
Senti um solavanco suave no fundo de meu estômago quando a expressão temerosa dele sumiu para dar lugar a outro daqueles sorrisos hipnóticos. Quando, entretanto, inclinou-se para encostar os lábios em minha bochecha, a surpresa foi tão grande quanto a força invisível que apertou minha garganta e fez a respiração parar por ali mesmo. Ainda estava em meu estado paralisado induzido pela surpresa quando ele parou para olhar por sobre o ombro, as roupas firmemente em suas mãos.
- Mais tarde te conto mais sobre o código preto.
Tudo que pude fazer foi assentir bobamente, mas fiquei muito orgulhosa por ter me contido a tempo de não levar a mão para cobrir a pele que ele havia beijado. Esse havia sido o contato mais íntimo que tivemos em semanas e infelizmente acabara de descobrir que o primeiro não fora o suficiente para que criasse anticorpos contra seu charme. Soltei o ar pesadamente. já estava fora de vista quando consegui me mexer outra vez. Com pensamentos avoados, virei-me para esquerda e depois para direita como uma barata tonta sem saber o que procurar, mas louca para encontrar qualquer coisa. As cores e texturas passavam por meus olhos e dedos sem que coisa alguma realmente chamasse a atenção. Tudo parecia meio boboca e já estava quase desistindo quando finalmente encontrei algo de que gostava. Tirei o cabide e levantei a peça até a altura de meus olhos. Lembrava perfeitamente da foto promocional do filme e a fantasia era bem verossimilhante, além disso, colado sobre o plástico que protegia a roupa, havia uma etiqueta com informações sobre os acessórios extras que seriam fornecidos quando se adquirisse o produto.
A fantasia era espetacular, o personagem era melhor ainda. O único que restava era a questão sobre se realmente faria isso. Olhei de novo para o pacote em minhas mãos e depois para o lado por onde meu namorado desaparecera. Soltei um suspiro conformado. Já que iria fazer aquilo mesmo, melhor fazer por inteiro. Detestava coisas pela metade e às vezes realmente - realmente - detestava meu lado perfeccionista. Arrastando os pés, dirigi-me ao caixa, e a atendente já estava me entregando a sacola com o discreto nome da loja quando apareceu.
- Serviu perfeitamente! Hey. O que você comprou? - franziu o cenho ao olhar para minhas mãos.
- Minha fantasia.
- O quê? - deu um passo para frente e se inclinou para frente, as mãos ávidas tentando abrir o pacote em minhas mãos. - Por quê? Eu queria pagar a sua! Afinal, o que você comprou?
- Hey! - girei o corpo para bloqueá-lo, afastando meus braços para longe de seu alcance. - Deixa de ser curioso! E eu posso pagar pela minha própria fantasia - e porque aparentemente eu estava tentando encontrar algum tipo de paz interior, acrescentei: - Mas obrigada.
A parte de mim que ainda se ressentia com o que ele havia me feito ficou bem satisfeita ao ver a dúvida passar em seu rosto. Era óbvio que não entendia como eu podia afirmar com tanta certeza que conseguia arcar com a pequena fortuna que Wicked cobrava por seus produtos e, ao mesmo tempo, precisar bancar sua namorada pelo dinheiro. Tive que morder o sorriso esperto.
Ah… se você soubesse, . Se você soubesse…
O fato de ainda conseguir manter certas partes de mim longe dele - mesmo que quisesse manter tudo - melhorou meu dia e me peguei sorrindo no caminho para casa e gostando cada vez mais da minha ideia de fantasia.

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- Sabe, , quando concordei em fazer isso, não sabia que esse tipo de serviço estava incluso - resmunguei, apertando o spray nos últimos fios. - Aliás, você não tem um time inteiro de profissionais para cuidar de sua aparência?
Se eu fosse completamente sincera comigo mesma, admitiria que não era uma tortura ter que deslizar as mãos por seus cabelos ridiculamente macios. E esse era o problema. Não podia gostar de fazer esse tipo de coisa - principalmente quando a cena parecia tão doméstica, isto é, ajudar o namorado com a fantasia era real demais… coisa de namorados demais para duas pessoas envolvidas em uma farsa. Então, sim, eu estava sendo um pouco rabugenta demais, porém tinha excelentes motivos para isso e não me sentia nem um pouco culpada de vez ou outra dar um puxão um pouco mais forte do que o necessário enquanto transformava fios pretos como carvão em verdes ervilha.
- , pela décima vez, quero que seja uma surpresa - falou outra vez com aquela inesgotável paciência. - Ninguém sabe do que o outro vai vestido.
- Como não? Você e combinaram as fantasias!
- É diferente.
Só faltou ele juntar os lábios em um biquinho de pirraça para completar sua pose de garotinho contrariado. chegou até mesmo a cruzar os braços e olhar para o lado.
- Ok, ok. Já sei. Melhores amigos e blá blá blá - dei a volta até ficar de pé entre suas pernas e deslizei os dedos para terminar de bagunçar seu cabelo e finalizar o penteado. - Pelo menos não tive que combinar a minha fantasia com a de Green.
Assim era mais fácil evitá-la. Ela e os poderes malignos de leitura de mente dela. Não que em qualquer momento Kristine tivesse sido grossa comigo, muito pelo contrário, aliás. O problema é que sempre podia ver aquele brilho no canto de seus olhos castanhos claro. Sabia que estava me sondando para descobrir o que tinha de errado. Bem… pensando bem agora, talvez ela se fantasiasse de cão farejador, uma vez que tinha os instintos tão apurados quanto um desses.
- Falando em fantasia, cadê a sua? - lançou um olhar significativo para minha calça jeans e minha regata e tênis brancos.
- Na minha casa, esperando pacientemente enquanto termino de pajear meu namorado de mentirinha.
- Ah! - abaixou o espelho que tinha levantado na altura dos olhos para analisar seu cabelo. - É verdade. Ok. Entendi. Obrigado por isso, .
Acho que nunca meus reflexos reagiram tão rápido quanto quando como naquele momento em que minha mão agarrou a sua com força.
- O que pensa que está fazendo? - minhas palavras saíram em um silvo.
Seus olhos arregalados se revezaram entre minha mão apertando a sua e meu rosto.
- O… q-quê?
- , preste bem atenção porque só vou dizer uma vez - inclinei-me para frente até que nossos olhares ficassem no mesmo nível. - Você não vai correr a mão por seu cabelo e estragar meu trabalho perfeito, entendeu?
Ele assentiu lenta e solenemente.
- Desculpe. Esqueci-me disso. É mania minha. Mas não se preocupe. Não vou estragar. Prometo. Aliás, ficou ótimo, .
Tanto porque já estava ficando sem tempo, quanto porque seus olhos estavam outra vez me deixando tonta, endireite-me e me afastei um passo para trás. Ao tentar ir embora, contudo, senti que dessa vez era a sua mão que apertava a minha.
- Obrigado, . De verdade, obrigado.
Não gostava quando ele era gentil, pois ficava ainda mais difícil me lembrar de detestá-lo.
- Não foi nada - com um puxão mais forte, liberei minha mão e saí da casa dele o mais rápido que minhas pernas conseguiram me levar.
Tinha duas horas até o horário combinado para encontrar com afim de irmos para o local da festa, e usei cada segundo para me aprontar. Detestava atrasos então tive que correr sobre aqueles saltos agulha. Estava terminando de ajeitar a maquiagem, que felizmente não era muito complicada, quando a campainha soou. Ouvi Georgina abrir a porta e depois uma breve conversa abafada entre os dois irmãos. Puxei as duas mexas de cabelo na frente do rosto, enrolando-as nos dedos indicadores para que criasse uma pequena ondulação. Por último coloquei o bracelete e os anéis e, deslizando meu celular no bolso traseiro, saí para sala. O olhar de espanto nos rostos deles me fez parar no meio do caminho.
- O quê? - olhei para minha roupa e depois de novo para eles. - Que foi?
- Não acredito! - Georgina se afagou nas palavras. - Você é Harley Quinn!
- Ah, sim! - olhei de novo para a fantasia que usava, quase que como para ter certeza de que ela não havia se transformado em outra coisa. - Sim, doutora Harley Quinn - assenti. - Vamos?
- Calma, espera! - ela levantou a mão. - Você é Harley Quinn! Namorada do Coringa - exclamou entre um sussurro e um grito, como se estivesse revelando um grande segredo enquanto apontava para seu irmão.
- É. Pensei que fosse apropriado. E o filme parece ser bom - dei de ombros. - Ficou bom? - perguntei a Geo.
- Ficou incrível! Eu adorei.
- Você também está ótima, amiga - sorri, apreciando sua fantasia de Tempestade. - Os X-Men certamente estão em boas mãos hoje.
- Vamos?
- Vamos, vamos - ela concordou, sacudindo o chaveiro nas mãos.
Como não havia se manifestado de qualquer maneira, coloquei minha mão no seu braço para empurrá-lo para fora do corredor.
- Que foi? - sussurrei enquanto Dietze estava ocupada trancando a porta. - Por que essa cara? Não gostou da minha fantasia?
Ele engoliu em seco e se virou para mim.
- Você está incrível.
Foi um sussurro, muito diferente do que sua irmã havia dito, afinal, certamente as palavras de Geo não haviam me causado arrepios. Nunca fiquei tão agradecida por maquiagem, ou, mas especificamente, pela maquiagem branca que cobria todo meu rosto e escondia minhas bochechas coradas. Felizmente Georgina voltou a se juntar a nós, poupando-me de ter que responder.
O local da festa não era muito longe, então logo estávamos ao ar livre e em meio a uma decoração que misturava referências de ano novo, como estrelas e luzes douradas, e de festa a fantasia, como máscaras e outros enfeites coloridos. Fiquei surpresa com como as coisas pareciam se combinar ao invés de se antagonizar. Havia muitas pessoas passando o tempo todo por nós, vez ou outra parava para conversar com alguém, o braço sempre em volta da minha cintura e sempre tendo o cuidado de me apresentar àqueles com quem falava e de me incluir de algum jeito na conversa. Geo se afastara de nós assim que chegamos, avistando uma amiga ao longe e vários minutos se passaram antes que avistasse outra vez alguém que conhecia.
- ! - um Papai Noel muito bêbado e muito me agarrou. - Você está ótima. Adorei a fantasia. Para combinar com o , né. Que gracinha - apertou minha bochecha e bateu a mão espalmada sobre o ombro do amigo. - Vocês estão ótimos. Adorei!
Suas palavras saíram enroladas e mais rápido do que julgara ser possível para alguém naquele grau de embriaguez. Tão rápido quanto aparecera, deu um giro dramático, gritando o nome de outro amigo e nos deixando outra vez. Dei um pulo para trás quando a bebida dançou em seu copo e caiu a centímetros de onde eu estava há um segundo. Assim que minha produção estava segura outra vez, reparei que minha movimentação repentina havia me levado direto a outra vez. Minhas costas contra seu peito. Meu corpo se retesou ainda mais quando sua mão passou a acariciar minha barriga, sua respiração batendo em meu pescoço e me causando novos e mais fortes arrepios.
Sabia, no fundo de minha mente, que a música continuava batendo rápido ao nosso redor, mas as coisas pareciam ter desacelerado quando seus lábios encostaram na pele sensível atrás de minha orelha. Minha mão cobriu a sua e afundei minhas unhas ali, não porque queria que ele se afastasse, mas sim graças às diversas sensações que estavam me dopando devagar. Feliz ou infelizmente fomos interrompidos antes que fizesse alguma coisa realmente idiota, como me virar e beijá-lo com toda vontade que sentia.
- Na na na na na na na na Batman!
, em uma fantasia muito, muito realista, passou por nós segurando a capa para cima com um dos braços.
- Ele está fazendo a própria trilha sonora - a voz de Kristine nos fez tirar a atenção do cantor para a garota em nossa frente.
Tive que me controlar para não deixar que meu queixo caísse ao analisar sua roupa. Green usava um casaco de mangas curtas, um cinto fechando as duas partes juntas bem acima da cintura e deixando transparecer o top curto e o short do mesmo tamanho. Tudo era azul petróleo, combinando com o quepe sobre seus longos cabelos castanhos dourados. No quepe e sobre a parte esquerda de seu casaco, distintivos que não deixavam dúvida sobre do que ela se fantasiara. Botas pretas de salto e que chegavam até metade de suas coxas e luvas também pretas cobrindo apenas suas mãos completavam o visual.
Kristine Green era definitivamente a policial mais sexy que já tinha visto.
- Fala sério, Green. Você adora minha voz - voltou depois de seu “voo”, imediatamente passando o braço em volta da garota. - Independente de que música eu cante. Além disso, todos sabemos que o Batman merece seu tema.
Ela se limitou a revirar os olhos.
- Cara! Você ‘tá demais. - elogiou. - Precisamos de uma foto!.
Sem nem nos perguntar se gostaríamos de sair na imagem, empurraram os celulares para nós duas e se afastaram para fazer pose. Kristine e eu trocamos um olhar resignado antes de fazer o que eles pediam.
- O que achou da ideia que os dois bonitos tiveram de combinar? - perguntei, enquanto esperávamos os dois pararem de rir para batermos outra foto.
- Até que não foi tão ruim. O único problema foi que o meu esperto ali esqueceu de me avisar do que viria, então não tive tempo de arrumar alguma coisa como Batgirl.
- Mas essa ficou ótima. Muito boa mesmo - dessa vez não consegui deixar a apreciação de fora do tom.
- Ah! Muito obrigada. Você também está ótima. Deixaria Margot Robbie preocupada.
- Imagina. A mulher é deslumbrante.
- E você também, . Sério. Ficou muito real. E você realmente tem uma história, uma boa história. Definitivamente melhor do que ser a detetive Gordon, filha recém-descoberta do comissário Gordon e namorada secreta de Bruce Wayne.
Abaixei o celular e me virei para ela, franzindo o cenho.
- Posso não ser uma especialista, mas você inventou essa personagem, não?
- Completamente - assentiu, sorrindo. - viu que vocês formavam um casal muito legal e não queria ouvi-lo resmungando o resto da noite, então propus ser detetive Gordon hoje e ele vem me apresentando assim desde então.
- Você é uma boa namorada, Kristine - sorri.
- Namorada? - franziu o cenho, meio chocada. - O quê? Não, não - sacudiu a cabeça. - Nada de namoro. Não somos... bem.. somos… é complicado. É só…
Seu raciocínio parou no meio quando os dois voltaram a se juntar a nós, trazendo bebidas e pedidos para novas fotos, dessa vez conosco nelas. Depois de várias fotos com diversas composições, encostamos em um canto e perdi a noção do tempo enquanto conversávamos. Descobri, ali, que Kristine, com seu humor irônico, era bem engraçada, que era bem menos intragável do que eu tinha me obrigado a acreditar e, além disso, descobri que gostava de como estava sempre acariciando, de leve e provavelmente sem nem mesmo perceber, meu ombro ou minha cintura. Estávamos em meio a algum assunto envolvendo o novo filme do Superman quando as pessoas ao nosso redor começaram a gritar animadas. O que me apavorou, contudo, foi o fato de podia ver casais se formando em toda parte ao nosso redor e, por um segundo, meu cérebro fritou e só pude entender o significado daquilo ao ouvir Kristine falar com enquanto se aproximava ainda mais dele:
- Acho que vou ser bem altruísta e te deixar me passar um pouco dessa sua má sorte - passou os braços sobre os ombros dele.
- Minha má sorte? Você é quem é azarada!
Eles sorriram um para o outro e saíram de meu campo de visão quando deu um passo e ficou na minha frente.
- Acho que vamos ter que fazer isso também.
Assenti, engolindo em seco. Seria muito estranho se não desse um beijo de Ano Novo em meu próprio namorado. Ao fundo, por debaixo do som de meu coração palpitando com força em meus ouvidos, podia escutar as pessoas gritando a contagem regressiva.
8
Abraçou-me, trazendo nossos corpos para muito perto.
7
Subi minhas mãos para seus ombros.
6
Minhas pernas tremiam cada vez mais, graças à expectativa.
5
Seus olhos castanhos voltaram a fazer sua mágica, hipnotizando-me aos poucos.
4
Deixando-me sem fôlego.
3
Com o sangue correndo cada vez mais rápido em minhas veias.
2
Até que, de novo, não conseguisse pensar em mais nada.
1
Além dele.
Ergui-me nas pontas dos pés antes que ele pudesse se mexer, minha boca encontrando seus lábios macios que inconscientemente haviam me provocado durante toda a noite. Fogos de artifício estavam explodindo no céu sobre nossas cabeças enquanto entorpecia meus sentidos. Sua mão subiu para meu cabelo, guiando-me devagar até que eu inclinasse a cabeça e ele pudesse me beijar de um jeito ainda mais delicioso. Sugou meu lábio inferior uma última vez antes de nos separarmos.
- Feliz Ano Novo, - sussurrou, ainda me segurando tão perto quanto possível de si.
- Feliz Ano Novo, .



Capítulo 13


- Por favor, me lembre de novo o motivo pelo qual estou fazendo isso. - falei no meu iPhone assim que a pessoa do outro lado atendeu.
- Realmente, , suas boas maneiras nunca cessam de me impressionar. - resmungou com a voz embargada de sono - Você tem noção de que são cinco da manhã, certo?
Pude ouvir um bocejo e depois vozes sussurradas ao fundo.
- Drake Marchiori, será que você pode parar de prestar atenção em Mia por um segundo? - revirei os olhos.
- Pare de ser tão inconveniente, . Foi você quem ligou de madrugada no primeiro dia de nossa única e preciosa semana sem aula. Aliás, acredito que esteja escrito em algum lugar que isso é um tipo de comportamento abusivo. É por isso que sou seu único amigo.
- Não Na verdade, é pelo fato de você fazer tanto drama que eu sou sua única amiga. E agora pare de reclamar. Não está sendo exatamente fácil para mim te ligar agora. - sussurrei exasperadamente contra o telefone enquanto arrastava minha mala de rodinhas atrás de mim e fingia um sorriso ou outro para os grupos pontuais de garotas que gritavam acenando.
- E isso é culpa minha como? - pude ouvir um suspiro e o barulho de cobertas sendo arrastadas enquanto ele provavelmente se sentava na cama para conversar melhor, arrancando-me um sorriso verdadeiro dessa vez ao apreciar o jeito como ele me dava atenção mesmo quando estava irritado - Não estou exatamente colocando uma arma na sua cabeça e te obrigando a me ligar, e, por pior que seus novos amigos sejam, duvido que eles também estejam te coagindo de maneira parecida.
- Será que dá para, só uma vez, você não arrastar a One Direction para nossa conversa nos primeiros cinco segundos em que nos falamos?
Ele soltou uma risadinha de escárnio.
- E, de novo, repito, como isso é culpa minha? Estou só sendo coerente. Todas as vezes que você me liga com essa voz de crise, tem alguma coisa a ver com seu novo namorado e os amigos dele.
Fechei os olhos com pesar. Eu realmente detestava quando ele estava certo e ainda dava um jeito de me fazer assumir isso.
- Ok, ok. Você venceu. - resmunguei, dando um passo para o lado para sair do caminho de outras pessoas e buscar um pouco de privacidade para continuar o papo que precisa ter - Tem razão. Isso é sobre . - abaixei a voz - Quero dizer, . - corrigi rapidamente, olhando para os lados para ver se ninguém tinha ouvido minha escapulida.
- Preciso dizer que nunca vou deixar de achar divertido esse seu jeito de ficar sempre se corrigindo. Ora o cara que você odiava, ora seu namorado.
- Odiava? - repeti, incrédula - Ainda odeio. - estive ao ponto de bater o pé no chão em um claro sinal de pirraça para tentar enfatizar meu ponto.
- Já conversamos sobre isso, . Você não odeia seu namorado, apenas odeia a ideia de ter se metido em uma enrascada como essa.
Apertei ainda mais o puxador da mala. O idiota estava me fazendo perder um tempo que não tinha.
- O que eu realmente odeio, Marchiori, é esse seu tom condescendente.
- Não seja mal-educada, . Não tenho culpa de sempre ter razão. E, além disso, se alguém tem algum motivo para ficar bravo nessa conversa, esse alguém sou eu. Afinal, ninguém merece ser acordado de madrugada. Aliás, falando nisso, tem algum motivo pelo qual você tenha feito isso?
- Primeiro, não é de madrugada. São seis da manhã. Segundo, você se esqueceu para onde estou indo hoje?
Assim que terminei de resmungar aquelas palavras, ainda olhando para o chão para tentar disfarçar melhor a discussão que estava tendo, senti alguém bater no meu ombro. Dei um pulo, abaixando o celular e me virando para trás. Os olhos castanhos claros de Kristine me encarando curiosos.
- Vamos? - acenou com a cabeça para algum lugar atrás de si.
Ergui a cabeça e por sobre seu ombro vi Summer e Eleanor conversando não muito longe de onde estávamos, suas próprias malas não muito longe.
- Sim. - abri um sorriso fechado - Estou indo. Só vou terminar essa ligação.
Green entendeu a dica e assentiu antes de se juntar as outras.
- Drake! - chamei assim que consegui colocar o celular de volta contra a orelha.
- Que foi? - resmungou frio em resposta - Quanta deselegância, . Não acredito que você me acordou cedo para me deixar falando sozinho.
Quase podia vê-lo revirando os olhos cinza, o cenho franzido em desaprovação.
- Ok, ok. Entendi. Já entendi. - apressei as palavras antes que continuasse a reclamar - Você odeia acordar cedo nos feriados. Anotado, Marchiori. Agora vamos nos focar no que realmente interessa.
- Ah! Então existe uma finalidade por de trás de todo esse seu comportamento rude.
Apertei o celular e rangi os dentes com força para segurar alguns bons impropérios. Discutir não era importante no momento. Agora o que precisava era de um pouco de apoio.
- Drake. - olhei para cima, respirando fundo - Drake, é hoje que eu vou para Austrália, lembra?
- Oh! Entendo. - seu tom imediatamente mudou, suavizando-se - Tinha me esquecido que era essa semana. Onde você está? Quer que eu te leve ao aeroporto?
- Não. Tudo bem. Já estou aqui. - dispensei, esfregando a ponta do tênis no chão - Summer nos trouxe em um dos vinte e cinco carros do . Parece que uma amiga dela e o namorado vão vir buscar o porshe e… bom- tanto faz! -sacudi a cabeça ao notar que estava me perdendo - Isso não é o importante.
- Tem razão. Esses detalhes não são importantes. Nós sabemos o que é importante, não é, ? Importante é manter o foco.
Manter… manter o foco?
O quê?
- O quê? Isso não é um jogo, Drake! O que foco tem a ver com alguma coisa?
- Concentração é tudo, . Vamos lá. Concentre-se. É exatamente disso que estou falando. Você tem uma tendência bem ruim de se esquecer de algumas coisas enquanto se agarra como um bote salva-vidas em outras. - falava tão firme e preciso que não conseguia nem pensar em interrompê-lo - Faz semanas que você tem mantido uma relação descente com a seus músicos, mas é só quebrar a rotina e você entra em pânico. Não pode.
Senti minhas bochechas se colorirem de humilhação ao perceber que meu melhor amigo estava falando comigo como se eu fosse uma criança e, mais do que isso, que ele tinha todos os motivos para isso. Desde o dia em que assistimos a um filme na casa de , começamos a construir uma relação bastante… cordial. Eu evitava as respostas atravessadas que quase sempre queriam escapar - embora admita que a vontade de ser irônica com os meninos havia diminuído bastante de frequência - e em troca meu falso namorado disfarçava a arrogância que sabia que ele guardava dentro de si. Nosso novo comportamento melhorou o teatro consideravelmente. Já não sabia em quantas revistas eu havia aparecido ou quantas vezes vi alguém disfarçadamente tentar tirar uma foto minha no meio da rua. Algumas meninas chegaram até mesmo a pedir uma selfie…
Estávamos convencendo o mundo a ver exatamente o que queríamos. Um bom trabalho em equipe, um bom trabalho em dupla. Somos uma boa dupla… E provavelmente era isso que me assustava agora. A constatação de que nós podíamos fazer as coisas girarem de maneira correta era aterrorizante. Preferia quando pensava que nosso desgosto mútuo estava escrito em fogo sobre pedra. Daquele jeito eu me sentia mais protegida, agora estava vulnerável.
E Drake foi muito preciso ao enxergar essa fraqueza.
- É só que… - tentei falar alguma coisa apenas para não ficar tão passiva.
- , querida, escuta. - continuou no mais suave dos tons - Sei que uma viagem de namorados, mesmo sendo falsa, é mais íntima do que a rotina que vocês estão tendo, mas você consegue. Você conseguiu até agora. São só mais alguns dias. Agora pare de estressar sobre isso e seja a tempestade que eu sei que você sempre foi. Implacável em seus propósitos e imparável por qualquer outra força que não a sua própria.
- Você nunca vai parar com essas piadinhas com meu nome, não é? - não pude evitar uma risada.
- Você sabe que sou inteligente demais para deixar uma oportunidade passar. - não precisava estar na sua frente para saber que ele sorria como felino - Agora vá pegar o avião.
- Ok. - concordei, repentinamente podia respirar muito melhor.
Alguns segundo de silêncio se passaram.
- Drake?
- Sim?
- Obrigada.
- Sempre que precisar, . Sempre que precisar.
Depois de nos despedirmos, guardei o celular no bolso e caminhei até onde as três estavam, arrastando minha adorada mala azul atrás de mim.
- Pronto? - Eleanor perguntou naquele tom doce de sempre.
- Sim. - assenti - Desculpe a demora, mas realmente precisava fazer essa ligação.
Apenas para manter minha sanidade. Nada de mais. - essa última parte mantive só em minha mente, bem longe da minha boca.
- Sua mãe? - Kristine perguntou, e dessa vez dava para perceber que se tratava apenas de curiosidade inofensiva.
Acho que ela estava animada demais com a viagem para se preocupar em bancar a detetive.
- Não. - sacudi a cabeça - Conversei com ela ontem. Isso… - apontei com o polegar por sobre o ombro - Isso foi só…
As palavras foram diminuindo até sumir e fiquei bastante grata por ninguém ter tentado continuar o assunto, pois logo percebi que não teria sido capaz de explicar. Porque, afinal, não havia explicação. Racionalmente Drake e eu fazíamos menos sentido do que o fato de eu ter concordado em fingir ser a namorada de um cantor famoso, porém nós dávamos um jeito de ser não apenas amigos, mas os melhores deles.
Então, sim, fiquei muito grata por não ter que explicar.
- Melhor irmos. - Summer falou quando a gritaria ao nosso redor subiu de volume - Os meninos já estão chegando.
- Boa ideia! - Kristine acrescentou enquanto o resto de nós apenas assentia enfaticamente.
Nós sabíamos bem que não era uma boa ideia ficar muito perto da One Direction quando tantos fãs estavam presentes. Algumas delas encaravam nossa mera presença como uma afronta, como se estivéssemos esfregando nosso relacionamento na cara delas. Buscando evitar confusões, seguimos o segurança dos meninos que havia aparecido para nos guiar por caminhos menos públicos para o portão onde deveríamos embarcar. Não teríamos que esperar muito no terminal porque alguém tinha tido a feliz ideia de sairmos do carro só com o tempo suficiente para não perdermos o voo. Não muito depois estávamos todos acomodados no avião, exceto por Green, que estava ajoelhada na poltrona em frente a minha e continuava olhando para e eu com bastante preocupação apesar dos sussurros exasperados de para que ela se sentasse direito.
- Pois não? - perguntei, levantando a cabeça para encarar a garota depois de um tempo em que ficar encarando a tela de meu celular e fingir alguma ocupação já não era o suficiente para conseguir disfarçar o clima esquisito.
- E aí? - forçou um sorriso - Como está a vida? Tudo bem?
Pisquei devagar.
- Tudo bem…? - estava tão confusa que a resposta saiu como uma pergunta - E você? - forcei outra pergunta mais por reflexo do que por educação.
- Tudo bem. - respondeu rápido, e logo se virou para o amigo - E você, , tudo certo?
De esguelha vi meu “namorado” assentir meio duro, e Kristine já estava prestes a abrir a boca para outra pergunta quando ouvimos a ordem para que todos se sentassem e colocassem os cintos. Com a expressão muito contrariada, ainda lançou uma última olhadela rápida e preocupada para antes de se sentar. Teria ficado bastante satisfeita em não ser mais alvo de sua análise microscopia não fosse a sensação irritante de que ela havia tentado me dizer alguma coisa, sensação essa que só crescia pelos sussurros abafados e rápidos que podia ouvi-la trocando com . Eles claramente estavam discutindo por alguma coisa, o que, por si, não era muito incomum, exceto que podia apostar que o assunto tinha a ver com nós dois e a veia paranoica em mim temia que estivessem discutindo sobre como éramos falsos. Virei-me para a fim de perguntar o que ele achava da minha teoria sobre seus amigos, mas parei assim que meu olhar pousou nele. As palavras na ponta de minha língua sumiram frente a surpresa de encontrá-lo naquele estado.
Ele estava totalmente imóvel, o olhar fixo em algum ponto na sua frente, as mãos agarravam com força os braços da poltrona e o rosto mais pálido do que já tinha visto alguém estar. estava visivelmente aterrorizado.
Engoli em seco, não sabendo o que dizer. Só de olhar para ele já sentia meu estômago se retorcer de nervoso como se garras geladas estivessem se fechando ao redor de meus pulmões e me impedindo de respirar direito. Como uma covarde, então, desviei minha atenção para janela e para a pista embaixo de nós.
Observei o cimento. Mordi o lábio inferior. Notei o padrão da escotilha. Soltei um suspiro pesado.
Ah, Deus...
Minha resolução sobre ignorá-lo não durou mais do que dois míseros segundos. Esfarelou-se como pó. Não era obtusa demais para não ser capaz de ligar os pontos e perceber que Kristine estava agindo daquele jeito esquisito por estar preocupada com , que obviamente morria de medo de voar ou de altura… ou de qualquer outra coisa do tipo. A questão era que meu namorado estava amedrontado demais para sequer se mexer, e eu não era desumana para ignorar o terror que vinha em ondas dele.
Olhei para o teto do avião e soltei um último suspiro pesado, mantendo meu olhar a frente, tateei o espaço entre nós até encontrar sua mão e cobri-la com a minha. Por um segundo seus dedos continuaram firmes como garras contra o couro da poltrona, mas então relaxaram. Não precisava me virar para saber que o resto dele também se acalmava. Quando o avião decolou, nossos dedos se entrelaçaram e assim permaneceram por mais tempo do que me recordo, mas por menos tempo do que gostaria.
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- Onde estamos indo mesmo? - perguntei ao me pegar indecisa entre uma saia preta e uma calça branca cuidadosamente dobradas dentro da minha mala aberta sobre o móvel perto da janela.
Era nossa primeira noite em Sidney e todos eles queriam aproveitar o tempo antes da One Direction começar sua turnê, então cá estávamos nós ignorando o cansaço da viagem e nos aprontando.
- Não sei.
Sua voz saiu abafada e olhei por sobre o ombro a tempo de ver passando uma camiseta branca pela cabeça. Confesso, entretanto, que meu olhar se demorou mais na parte do seu tanquinho que estava à mostra naquele momento e na faixa de sua cueca reta da Calvin Klein que aparecia graças a sua calça larga na cintura.
- ?
Levantei a cabeça, saindo de meu devaneio em um estalo e imediatamente encontrando seus olhos castanhos divertidos e um sorrisinho esperto. Minhas bochechas se esquentaram e voltei a lhe dar as costas, amaldiçoando a mim mesma, e seu corpo incrível, e a assistente romântica que alugara uma suíte por casal, o que me deixava ainda mais grudada ao meu “namorado” naquela semana. - Então não sei.
E de novo havia me perdido em pensamentos.
- O quê? - forcei minha atenção a voltar ao presente ao perceber que havia perdido parte da conversa. - Disse que provavelmente vamos a algum bar legal, mas não muito conhecido para não sermos reconhecidos. Não se preocupe. Vai ser divertido. Michael conhece bons lugares para se conseguir uma excelente bebida.
Decidindo pela saia preta, tirei também uma blusa branca fina e de mangas cumpridas da mala e, tendo a certeza de que não estava mais parecendo um pimentão graças à vergonha, dei a volta para ir ao banheiro me trocar.
- Quem é Michael? - lembrei-me de perguntar antes de fechar a porta.
- Do 5 Seconds of Summer. Uma banda muito boa. Velhos amigos nossos. - olhou para mim pelo reflexo do espelho enquanto ajeitava o cabelo - Você vai conhecer os quatro hoje.
- Ok. - encolhi os ombros e dei um passo para trás e para dentro do banheiro, fechando a porta no processo.
Saí de lá cerca de vinte minutos depois. Havia ondulado meu cabelo e agora só faltava passar a maquiagem e colocar os sapatos. estava sentado no sofá, olhando para seu iPhone e parecendo mais delicioso do que nunca. Mesmo do outro lado do quarto podia sentir seu perfume, e tive que me concentrar para não perder o foco e acabar passando a sombra azul na bochecha ou algo parecido. Arrumando determinação sabe-se lá de onde, continuei o processo de me enfeitar que tanto adorava. Estava terminando de passar o batom vermelho quando falou:
- ? Está terminando? Eles já estão querendo descer.
- Sim, sim. Terminei. - fechei o zíper das ankle boots pretas de salto, então coloquei um brilho labial dentro da pequena bolsa e passei a alça sobre o ombro, levantando-me do banco da penteadeira.
Já estava a meio caminho da porta quando percebi que não me seguia. Franzindo o cenho, lancei um olhar por sobre o ombro para encontrá-lo em pé em frente ao sofá, uma expressão boba no rosto.
- Vamos?
Ele sacudiu a cabeça e assentiu, caminhando até parar ao meu lado. abriu a porta para que eu passasse e, assim que nos encontramos no corredor, pareceu natural esticar minha mão e entrelaçar nossos dedos. Encontramos o resto do pessoal no lobby do hotel e de lá saímos por uma porta lateral para três grandes SUVs dirigidas por um segurança. Fiquei bastante feliz por termos ficado com e Summer na divisão dos carros. Eles eram um casal bem agradável e mesmo meu desgosto por diminuía um pouco ao observar o brilho reverente que ele tinha nos olhos a cada vez que encarava a namorada. Várias vezes tive que desviar o olhar porque parecia estar sendo rude e invadindo a intimidade alheia - não que eles percebessem, perdidos que estavam em sussurros, olhares e sorrisos apaixonados. O casal não era rude e intencionalmente ignorava o resto de nós, não era isso, apenas ficavam perdidos demais em si mesmos para se lembrar do mundo ao redor, então algumas vezes me peguei encarando a janela ou o retrovisor, onde constantemente encontrava o olhar de . Todas as vezes que o pegava me observando, sentia meu rosto corar de novo - e cada uma dessas vezes me amaldiçoava por ser fraca e o amaldiçoava por ser tão malditamente bonito.
Cerca de vinte minutos de viagem e já estávamos na porta de um pub. A frente era toda de madeira e algumas luzes o deixavam com um ar aconchegante. De mãos-dadas com meu dito namorado, passamos pela porta e por algumas vezes lotadas antes de parar em um canto onde grandes sofás circulares rodeavam duas mesas. Eleanor e , já sentados, conversavam com um moreno bonito e muito sorridente que me apresentou como sendo Calum Hood. O de cabelo vermelho que se aproximou da mesa trazendo shots de tequila junto com era o tal Michael.
- Aqui, famosa . - me estendeu um dos copinhos depois de sermos apresentados - É realmente um prazer ter a oportunidade de beber com a mulher que em fim laçou meu amigão aqui. - bateu a mão no ombro dele e depois o copo no meu em um brinde.
- É realmente um prazer beber tequila. - sorri, virando a bebida em um gole só e sentindo o líquido descer por minha garganta.
O sorriso aumentou. Aquela era das boas e eu sentia saudades de uma diversão desse tipo.
- Além de linda, é engraçada. - Clifford sacudiu a cabeça, parecendo ainda mais divertido - Saúde então. - também tomou seu shot, sacudindo a cabeça com os olhos fechados por um instante antes de se recuperar e voltar a falar. - Onde é que eu arrumo uma dessas, ? Onde você conseguiu essa, tinha mais?
- Consegui a única, idiota. - revirou os olhos e fez pressão em minha cintura para que eu desse alguns passos para o lado.
Fui, então, apresentada a Ashton Irwin, que muito educadamente abaixou seu copo de cerveja e parou de conversar com Summer para sorrir para mim em cumprimento. Ao lado de - que havia colocado a namorada no colo - estava uma morena muito bonita e que me lembrava de uma daquelas modelos da Victoria’s Secret. ocupou o único espaço que restara, sentando ao lado do loiro que abraçava a modelo. Por um segundo constrangedor fiquei sem saber o que fazer até que com um puxão de leve em minha mão fez com que desse um passo para ficar entre as pernas de meu namorado, que me olhou pedindo permissão. Não foi muito difícil entender a que ele se referia e decidi que o melhor seria manter o fluxo da farsa, então me abaixei até sentar sobre sua coxa, e imediatamente o braço dele circulou minha cintura. Apoiei o cotovelo sobre seu ombro e me obriguei a relaxar para não demonstrar o quão incomum aquela situação era.
- Babe. - chamou, entrando no personagem e tive que me controlar para não estremecer quando sua respiração bateu em meu ouvido. - Esses são Alexis Duquesne e Luke Hemmings.
- É um prazer conhecê-los. - sorri.
- E o que está achando da Austrália por enquanto, ? - ela perguntou, tombando a cabeça para o lado e apoiando o queixo na mão.
- Bom… levando em conta todas as dez horas australianas que vivi, - dei uma risadinha - tudo parece ser bem legal. Estou brincando. Essa na verdade não é a primeira vez que venho aqui. Quando era mais nova, visitei algumas cidades. Melbourne, Adelaine, Newcastle. - puxei pela memória o roteiro que fiz.
- Sério? Isso é ótimo. Então você já conhece nosso país.
- Ao menos a parte mais famosa. - dei uma picadela brincalhona - Acho que sou uma daquelas turistas bem turistas, sabe? Aquele tipo que vai nos lugares óbvios e acha isso ótimo.
- Ah! Mas isso não é problema. - Luke falou pela primeira vez, também sorrindo. - Nossas cidades famosas são incríveis, modéstia à parte.
- Mas sempre existem aqueles atalhos que só os cidadãos conhecem. Nós podemos mostrar para vocês qualquer dia, né, amor? - apoiou a mão sobre a coxa do namorado.
- Claro! Que tal uma roadtrip? Nós quatro por essas estradas infinitas. - deslizou a mão pelo ar em um movimento de onda, olhando para o longe e tomando um gole de cerveja.
O cara era engraçado, e de uma maneira divertida. Conhecíamo-nos a menos de quinze minutos e ele já estava planejando uma viagem. Talvez fosse coisa de australiano ser assim tão receptivo, uma vez que nas próximas horas todos os cinco tentaram de alguma maneira me incluir na conversa. E, contrário ao que acreditava inicialmente, estava me divertindo bastante.
- Você não acha, babe?
Abaixei o olhar para encará-lo, o termo de carinho saindo naturalmente por minha boca, rolando na língua solta pela bebida. Ainda sentada de lado em seu colo e com o braço ao redor de seu pescoço.
- Com certeza. - assentiu, ainda fazendo um carinho circular com o polegar em minha cintura.
Sua mão queimava como brasa ali desde o momento em que ele a havia esgueirado por debaixo da minha blusa. A tontura gostosa que estava sentindo agora era maiormente graças ao carinho ininterrupto que ele fazia do que às cervejas que tinha bebido.
- Viu? - arqueei a sobrancelha petulantemente para Ashton. - Real Madrid é definitivamente melhor.
- O quê! - riu, sacudindo a cabeça - Você não pode pedir a opinião do seu namorado e agir como se fosse verdade universal.
- Exato! - Hemmings concordou - O cara é obviamente parcial.
- Ah! E você é super imparcial, né Luke? - Calum gargalhou - e você não podem falar nada sobre futebol. É óbvio que vão escolher o Barcelona.
Acho que minha curiosidade ficou bem estampada em meu cenho franzido porque ele logo continuou:
- Alexis e Summer são brasileiras.
Olhei para Duquesne, que sorria para mim e assentia, e depois para Campbell, que estava dançando bem colada ao namorado em uma pequena pista de dança mais a esquerda.
- Não fazia ideia. - sacudi a cabeça - Mas Hood tem razão. Vocês duas e seus namorados é que são parciais. Aposto que só torcem para o Barcelona por causa do Neymar.
- Você fala Neymar engraçadinho. - Lexi riu, pronunciando o nome de um jeito bem diferente, e provavelmente bem mais certo, do que quando eu havia feito. - E agora acrescento que nossa nacionalidade não tem nada a ver com o assunto em questão, exceto talvez pelo fato de que esteja no nosso sangue entender melhor de futebol.
- Você fala quase tão difícil quanto Kristine. - balancei a cabeça em direção a garota, que estava em uma cessão de amaço com não muito longe dali.
- Ela também faz direito.
sussurrou aquela informação contra meu pescoço depois de afastar meu cabelo. Tremi de leve, arrepios correram por toda minha pele. O álcool também o estava deixando bem menos contido e isso estava interferindo diretamente com todos os meus sentidos.
- Isso faz sentido. - comentei sobre a borda do meu copo e me virei para fazer outro comentário, ao me mexer, porém, encontrei-o muito mais perto do que julgara ser possível.
Seus olhos castanhos me prenderam ali, mesmo sabendo que deveria me afastar. Ele tinha cílios tão longos e a boca tão em desenhada.
Tão…
Sem perceber, ergui a mão e a deslizei o polegar sobre seus lábios. Os sons e as pessoas ao nosso redor despareceram quando seu olhar mudou para alguma coisa mais quente e sensual. Minha respiração ficou presa na garganta assim que se inclinou para frente. Como se fosse um imã, também me aproximei e por um doce instante, quando minha boca encontrou a sua, só existimos nós dois no mundo. Mantendo minha mão que segurava o copo longe, abracei-o mais firme e beijei devagar. Ele tinha gosto de vodca e do hortelã das balas que chupava para tentar parar de fumar. Ao me afastar, senti seus dentes mordiscando meu lábio inferior e não pude deixar de sorrir, ainda de olhos fechados, beijei-o mais uma vez.
Não sei quanto tempo ficamos absortos um no outro, mas em algum momento alguém esbarrou em meu ombro e quase nos desequilibrou do banco. Foi como uma agulha furando nossa bolha e rápido assim fui puxada de volta para o presentem, para a música alta e para as pessoas ao nosso redor. Arregalando os olhos, olhei por cima do ombro e para nossos amigos, os quais, percebo agora, havia abandonado em meio a uma conversa. Não havia ninguém ali. Uma espiadela rápida e vi os longos cabelos pretos de Alexis rodopiando com muita graça na pista junto com Eleanor. e Hemmings seguravam cervejas não muito ao longe dali. Michael - e seu cabelo ruivo inconfundíveis - conversava com uma garota que não reconheci e todos os outros estavam longe das minhas vistas.
Meus amigos sumiram, eu estava beijando um dos caras que achei que sempre fosse odiar, e minha bebida estava quente. Combinações para formar a tempestade perfeita. Estranhamente, contudo, nunca havia me sentido tão bem.
- ? - me virei para ele, rindo - Onde todo mundo foi parar?
- Não sei. - dei de ombro, um sorriso inocente nos lábios - Importa?
- Não. - sacudi a cabeça, ainda rindo - Não importa nem um pouco.
Então o para perto pelo pescoço e para outro beijo porque era isso que realmente importava.


Capítulo 14


A ideia de dormir em uma cama com seu pseudo-namorado parecia bem mais atraente depois de uma sessão de amasso num pub australiano e de bastante tequila em seu sangue do que na manhã seguinte.
Fui a primeira a acordar. Não foi no susto ou porque tinha alguém me chamando ou ligando, apenas abri os olhos e encarei o teto branco do quarto de hotel. Minha atenção permaneceu ali por um segundo até sentir sua respiração batendo em meu pescoço. O arrepio de prazer foi instantâneo. Virei a cabeça para o lado e o encontrei muito perto, no limite entre seu travesseiro e o meu, o cabelo desgrenhado e bem longe da perfeição de sempre. respirava fundo, dormindo profundamente, então aproveitei a oportunidade para observá-lo. Não fazia muito tempo o sonho da minha vida era conhecê-lo pessoalmente, e estar tão perto assim sem ter que calcular cada movimento meu para não demonstrar que já não o detestava tanto pareceu despertar de novo aquela mais nova. E, como a boba que costumava ser, passei os próximos minutos observando o homem na minha frente.
Não podia deixar de me impressionar com o tamanho de seus cílios. Tão grande que faziam curvas, deixavam seus olhos acastanhados ainda mais incríveis. Talvez fosse por causa disso que minhas pernas sempre tremiam quando ele me encarava. Passei minha atenção para suas bochechas e mandíbula tão fortes e bem desenhadas. Tive que conter o impulso de me inclinar para frente traçar o contorno do princípio de sua barba com meus lábios.
Ah! Os lábios... Sua boca era tão macia quanto parecia e não me arrependia de ter passado boa parte da noite provando dela. Sim, me lembrava perfeitamente de tudo que tinha acontecido, minha cabeça tinha zumbido de um jeito gostoso graças a tequila, mas sabia meus limites e sabia beber. Então, de novo, sim, cada segundo desde a hora que saímos do hotel até o momento em que deitamos na cama, cansados demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse dormir, estava impresso em minha mente. Ainda observando , esperei que o arrependimento chegasse, porém não conseguia sentir nada além de contentamento. Não tinha raiva dele ou de mim e, estranhamente, pela primeira vez não sentia raiva da situação em que me encontrava. Talvez não lamentasse, porém certamente deveria estar amedrontada. Por mais que procurasse, entretanto, também não conseguia encontrar medo. Havia certo receio sobre como agiríamos um com o outro a partir de agora, mas não era algo ruim que me embrulhava o estômago, apenas uma curiosidade compreensível.
O problema da curiosidade era que ela criava cenários, e cenários criam expectativas. E expectativas só machucam. Com um suspiro, desviei o olhar de seu rosto para o braço forte ao redor de minha cintura. Deslizei o dedo indicador muito suavemente sobre a tinta preta da tatuagem intrincada em sua mão. Era minha favorita.
E agora eu estava parecendo um filhotinho perdido. Fechando os olhos com certa vergonha, decidi que era melhor me levantar. Lentamente empurrei seu braço para o lado e também afastei o lençol antes de me levantar. se mexeu um pouco, mas não acordou. Vasculhei em minha mala uma calça jeans e blusa branca bem neutra, uma vez que não tinha nem ideia de para onde iríamos hoje. Sai do banho já de roupa trocada e secando o cabelo com uma toalha bem a tempo de ver meu celular vibrando sobre a mesa de cabeceira. Era um número desconhecido, mas reconheci o prefixo do Reino Unido, então, ainda com o cenho franzido, levei o aparelho a orelha.
- Alô? - murmurei meio incerta.
- ! É . Dá para você acordar ? Para variar ele não atende o celular e normalmente sou eu quem vai ao quarto acordá-lo, mas bom… - deixou as palavras no ar e não foi difícil entender que tinha tido o bom senso de não invadir o quarto do amigo quando eu estava lá.
Imagina se eu estivesse sem roupa? Ou se ele nos pegasse transando - não que estivéssemos nem mesmo perto de algo do tipo, mas eles não sabiam disso, inclusive acreditavam justamente no contrário - ? Não sei quem ficaria com mais vergonha, se ou eu. Provavelmente … certamente .
- Ah. Ok. - concordei, dando uma olhando no meu “namorado”, que ainda estava bem desacordado e confortável espalhado sobre a cama.
- Muito obrigada, . Encontramos vocês no lobby em meia-hora. Ou só . Não sei se você vai querer ir junto ao ensaio de hoje. Bom, então, é isso. Tchau, . - despediu-se de maneira desajeitada e encerrou a ligação.
Não pude deixar de soltar uma risadinha. é tímido e era bastante interessante observá-lo com Kristine, pois ela era provavelmente a única vez com quem ele conseguia ser completamente confiante – em contra partida, era a única pessoa que conseguia controlar o sarcasmo e a língua esperta de Green. Realmente interessante. Deixando os pensamentos sobre outros casais, vire-me para meu próprio par e caminhei até parar ao lado da cama. Não pude evitar que meu olhar deslizasse por suas costas nuas por um segundo, afinal eu não era de ferro.
- ? - chamei, mas ele nem mexeu, então me inclinei um pouco para frente e pousei a mão em seu ombro, sacudindo de leve - ? Hey, .
Dessa vez ele se moveu, erguendo um pouco a cabeça do travesseiro e entreabriu os olhos, mas não tinha muita certeza se ele conseguia me enxergar por entre as pálpebras pesadas e, claro, os cílios enormes. Ainda grogue e obviamente não de todo acordado, ele se apoiou sobre o antebraço direito e esticou o braço direito. Acho que não respirei, graças a antecipação, naqueles segundos em que seus dedos demoraram a encostar em minha bochecha, depois, quando ele me acariciou, não respirei porque a sensação era boa demais.
- Hey, babe. - sorriu preguiçoso, os olhos tão completamente inocentes e sem malícia.
- ? - engoli em seco, a palavra saindo tão trêmula quanto minhas pernas.
Isso pareceu fazer com que ele despertasse de vez, piscando repetidamente antes de afastar a mão e murmurar, incerto:
- ?
- ?
- Porra. Isso ‘tá acontecendo de verdade. - foi o que pensei tê-lo ouvido murmurar, mas não tinha certeza.
- O que disse?
- Nada, nada não. Que horas são? - sentou-se sobre as coxas, passando a mão no rosto.
- Nove e meia, eu acho. me ligou aqui e disse que você precisar estar lá embaixo em meia-hora. Vou pedir o café-da-manhã enquanto você toma banho.
- Ah… ok. - arrastou-se para fora da cama e, bocejando, foi até a própria mala e tirou uma muda de roupa.
Estava sentada na mesinha, um café-da-manhã bem abundante na minha frente, e jogando Candy Crush enquanto esperava por . Descalço, ele saiu do banheiro vestindo calça jeans, uma camiseta com desenhos abstratos, e o cabelo também meio úmido. Acomodou-se na cadeira a minha frente. Deixei o celular de lado e coloquei algumas fatias de bacon no meu prato. Mastiguei devagar, observando em silêncio como ele só colocava alguns poucos pedaços de frutas na boca. Peguei duas torradas e passei um pouco de geleia, fingindo me interessar pela cor avermelhado do morango e não no fato de que já tinha afastado seu próprio prato e agora só bebericava o café.
Dei uma mordida na torrada enquanto repetia em minha cabeça “não é da minha conta, não é da minha conta”.
Um gole de suco de laranja.
Não é da minha conta, não é da minha conta.
Mais uma mordida.
Não é da minha conta. Porra.
A última mordida.
Não é da minha conta.
- , você não vai comer mais nada?
Soltei um suspiro pesado ao perceber que já tinha falado e que agora ele me encarava embasbacado. Realmente detestava como ele tinha - também - o poder de me fazer falar coisas que não queria, fazer-me preocupar com problemas que não eram meus… preocupar-me com ele.
- O quê?
- Você não está comendo direito, e já faz tempo.
Agora que já tinha entrado na questão, não fazia sentido recuar. Infelizmente ele não estava entendendo inglês claro, então continuou com a mesma careta confusa, embora não hostil:
- O quê? Como é?
Ok. Ele iria me fazer dizer com todas as letras.
- Você não está comendo direito, . Você come duas torradas ou dois pedaços de abacaxi no café-da-manhã, quase todo dia pula o almoço e depois só um copo de leite antes de dormir.
- Como… como você sabe disso?
- Não sou idiota, . Dá para ver. Além disso, está magro. - franzi o cenho por um segundo, só agora percebendo uma coisa, mas imediatamente me vi na obrigação de acrescentar - Tudo bem. Ultimamente você tem comido um pouco mais, mas obviamente não é o suficiente. - soltei outro suspiro - Olha… eu sei que sou a última pessoa que deveria ficar me intrometendo, ou que deveria dar qualquer tipo de conselho, mas parece que ninguém mais está falando, então, estamos aí. - terminei de maneira tão atrapalhada que sabia estar pagando por falar do jeito de .
sustentou meu olhar por um segundo, olhando-me de maneira tão profunda que cheguei a pensar que ganharia um bom - e provavelmente merecido - “não é da sua conta o que eu faço”. Uma resposta impaciente, portanto, não seria uma surpresa, porém foi chocante a maneira como prendi a respiração quase que inconscientemente, sentindo um pequeno embrulho ruim no estômago enquanto esperava para que ele voltasse a ser o cara que conhecera há tanto tempo e que me deixara com menos fé na humanidade. Meus medos, entretanto, mostraram-se completamente infundados quando estendeu a mão e colocou três panquecas em seu prato. Relaxei contra a cadeira enquanto ele acrescentava xarope de bordo e logo em seguida dava a primeira mordida. Mal percebi que estava sorrindo ao levantar, com as duas mãos, minha caneca de café aos lábios, mas certamente percebi o jeito maroto como piscou para mim.

xxx


Os meninos passaram toda manhã e boa parte da tarde aperfeiçoando tudo para o show de amanhã, então acabei me vendo arrastada pelas lojas ao longo da rua do hotel. Pensei que seria um tempo de loucura com essas três mulheres falando e comprando sem parar, porém fui outra vez agradavelmente surpreendida. observava tudo com uma calma quase clínica, ponderando sobre cada peça em que colocava as mãos. Summer, por sua vez, também analisava cada calça, blusa ou saia que via, criando combinações entres as peças e só comprando alguma coisa depois de consultar algo no celular - o que supunha ser alguma anotação sobre suas finanças. Campbell não parecia estar sofrendo por problemas financeiros, mas isso podia resultado de seus planejamentos meticulosos. E por último havia Kristine, que definitivamente era a mais perdida de nós. Várias vezes a vi passar por uma mesma saia ou blusa, deslizando a mão sobre o tecido ou apenas observando as cores antes de se afastar para namorar outra peça e, no momento seguinte, voltar à primeira de novo. Se a demora de Green em escolher alguma coisa fosse um indicativo do jeito como levava a vida, não era um choque que ela e até hoje não se rotulassem como o casal que obviamente eram.
O fato de que não me vi em meio a um filme adolescente americano foi tão agradável que também acabei escolhendo dois óculos de sol e três sapatos de salto alto que eram tão maravilhosos quanto o que usei no dia anterior. Depois das compras paramos em uma cafeteira, onde todas pedimos por um café em suas mais diversas variações e acréscimos - exceto Summer, que pediu um chá de hortelã depois de resmungar alguma coisa sobre água suja de café. Enquanto bebericava em meu copo, tive outra daquelas epifanias que pareciam estar acontecendo com certa frequência nessa viagem. Não costumava ter amizade com outras mulheres - ou com qualquer outra pessoa além de Drake -, e talvez isso me fez acreditar nos clichês perpetrados pelo cinema, mas descobri que gostava daquelas meninas. Gostava do humor ácido de Green, tão diferente da calma que eu apreciava em e do jeito impressionante que Summer era tão organizada sem se esforçar para isso. A partir do momento que aceitei que estava me divertindo e que não havia nada de errado com isso, o tempo passou muito mais rápido e logo estávamos voltando para o hotel.
- Oi. - cumprimentei ao entrar no quarto e encontrar deitado na cama e assistindo televisão.
- Olá. Como foi seu dia? - perguntou ao observar as sacolas que eu colocava ao lado da porta.
- Surpreendente. - respondi mais para mim mesma - E o seu? - acrescentei.
- Cansativo.
- Então por que não dormiu um pouco? - sentei-me do meu lado da cama para tirar o tênis branco que usava - Ainda temos cerca de três horas antes do horário combinado para sair.
Quando ele não respondeu a pergunta, virei-me um pouco de lado para olhá-lo. me encarava de novo daquele jeito indecifrável.
- Estava esperando você voltar. - murmurou como se não fosse nada de importante, dando de ombros e voltar a olhar para televisão.
Era bem óbvio, entretanto, que ele se importava, que estava preocupado, e isso era incrivelmente doce.
Indecifrável e doce. Combinação perigosa.
Voltei a virar para frente e sacudi a cabeça quase que imperceptivelmente. Precisava parar de pensar essas coisas, antes que “parar” deixasse de ser uma opção.
- . Eu vou tomar ban-
Cortei a frase no meio ao me levantar da cama. , deitado de costas, com os dedos cruzados sobre a barriga e a cabeça meio inclinada para o lado esquerdo do travesseiro, já estava dormindo profunda e pacificamente.
Incompreensível, doce e adorável. E eu já estava mais perdida do que julgava ser possível.





À noite, enquanto assistia TV baixinha para não perturbar o dorminhoco ao meu lado, foi quem me mandou uma mensagem de texto pedindo que acordasse meu namorado. Era meio perturbador o quão bem eles conheciam um ao outro. Sacudi seu ombro e uma vez ele acordou com o cabelo amaçado e aquele olhar vulnerável. Estávamos de roupas trocadas e prontos para sair antes mais rápido do que na noite anterior. Exatamente como ontem, contudo, no primeiro passo para fora do quarto já estávamos de mãos-dadas.
- Por que eles sempre ligam para você? - perguntou quando estávamos dentro do elevador.
- O quê? - tirei a atenção da barra da saia do vestido branco que usava - Ah! Sim. Bom, acho que é porque você estava dormindo. Onde vamos?
- Nem ideia. - sacudiu a cabeça.
- Por que você nunca sabe onde vamos? - imitei o jeito que perguntou.
- Touché.
Usava botas baixas e por isso o nosso grupo não teve o aviso dos cliques de meu salto no chão e só nos avistaram quando já estávamos bem perto.
- Dá para acreditar que até e já chegaram? - resmungou para a namorada.
- Ah, não, não. Vou ligar para eles. - Kristine revirou os olhos e puxou o celular, digitando qualquer coisa antes de ligar para quem quer que fosse - ! O que vocês estão fazendo ai em cima?
- Sexo! - voltou a acrescentar de sua maneira espalhafatosamente espontânea como sempre, o que fez com que Green revirasse os olhos e contorcesse o rosto em uma careta de nojo.
- Nós estamos esperando há quinze minutos. Cadê vocês? - virou de costas e se afastou alguns passos - Não, . Até os dois já chegaram. - nos lançou um olhar de esguelha.
- Nós somos tão atrasados assim?
Falei para , mas foi quem respondeu:
- Sim. Bastante. - assentiu.
- Mas não se preocupe, , nós sabemos que a culpa é de . - assentiu de maneira muito solene.
O objeto da conversa se limitou a revirar os olhos de maneira desdenhosa, mas ainda não estava satisfeito e provavelmente teria feito outro comentário não fosse Kristine retornando com o celular em mãos para dizer que os dois pombinhos estavam descendo. Não pude deixar de aproveitar a deixa:
- Falando nisso, onde exatamente estamos indo? Só recebi a mensagem de sobre ser mais casual, mas não tenho nem ideia de onde estamos indo.
- Nós não te falamos? - franziu o cenho - Que falta de atenção a minha. Bom, respondendo a sua pergunta, nós vamos a um Carnival! - essa última parte ela falou tão animada que praticamente saltitava, em muito parecendo e seu estado de permanente bom humor.
- Oh. Ok. - concordei, abrindo um sorrisinho fechado para não parecer muito antipática.
Nada contra uma daquelas feiras. Na verdade, nunca nem mesmo tinha ido a uma para fazer algum juízo de valor. E era esse o cerne da questão… não tinha nada contra nem nada a favor. Não entendi a animação dela por ir ao Carnival, mas se havia aprendido alguma coisa nesse meio-tempo era que Kristine Green sempre conseguia o que queria, e Kristine Green queria ir ao Carnival, então ao Carnival nós fomos.
Era tudo bem colorido. Luzes das mais diversas cores piscavam em todos os lugares criando um efeito legal para destacar cada um dos brinquedos. Estranhamente, contudo, o véu escuro da noite ainda conseguia manter certa privacidade, o que me fazia acreditar que poderíamos ser anônimos por ali.
- Tão legal! - agora Kristine estava efetivamente saltitando, e provavelmente a única coisa que a impedia de sair correndo como uma criança era a maneira firme como segurava em sua mão - Vamos no carrinho de bate bate, gente.
- Não!
A negativa foi imediata e unânime entre todos os amigos dela. Sendo a única que não respondi, e claramente confusa, virei me para com uma pergunta nos olhos.
- Kitty é extremamente competitiva. - respondeu.
- Na última vez que fomos nesse brinquedo, todos saímos com dor nas costas porque ela bateu em todo mundo que sequer pensou em bater nela. - completou.
- Vocês são uns chorões. - ela desdenhou, revirando os olhos.
- Vamos em alguma coisa mais segura para o resto de nós. - Summer sugeriu - Que tal a roda gigante?
Eles se ocuparam com murmúrios de aprovação e por isso perderam a troca de olhares obviamente apavorada entre e Green. Franzi o cenho e provavelmente não teria entendido o que estava acontecendo não fosse a intervenção de , que praticamente pulou no meio da conversa para dizer em alto e bom som:
- Não gosto de rodas gigantes. Kristine e eu vamos dar uma volta para ver o que mais tem por aí. - mal tinha terminado a última palavra e já estava puxando a namorada para longe pela mão.
Não teria entendido seu comportamento esquisito se não tivesse percebido a óbvia mentira em suas palavras, o alívio no rosto de Green ou o jeito como fico ainda mais pálido quando sua óbvia aliada escapava e o deixava para trás.
Sua mão estava gelada contra a minha, e ele, tão branco quanto quando estávamos no aviã-
Foi como se um interruptor se acionasse em meu cérebro.
- Eu preciso comer alguma coisa. Agora. Estou com muita fome. Vem . - e, seguindo a ideia de , puxei meu namorado para longe antes que alguém pudesse protestar.
- O que você quer comer? - perguntou quando já estávamos a vários passos de distância dos outros e perdidos entre inúmeras barracas.
- Pode escolher. - encolhi os ombros, mais preocupada em me desviar da multidão e, ao mesmo tempo, observar o que tinha em cada atração.
- Sério? Achei que você queria comer alguma coisa especial.
Tão distraída que estava com os jogos de tiro ao alvo - adorava aquela brincadeira desde criança -, que acabei murmurando, ausente:
-Tanto faz. Não tô com fome.
Só percebi meu erro quando ele parou de andar. Fechei os olhos com pesar por um segundo, amaldiçoando-me pela falta e atenção e me preparando para as perguntas que viriam.
- Que foi? - fingi ignorância ao me virar para trás para encará-lo.
- Você disse que estava com fome. - falou, firme - Mentiu. Por quê?
- Você sabe por quê.
Dava para ver em seus olhos que ele sabia.
- Você tem medo de altura, não tem? Pensei que fosse de voar, mas é de altura.
Ele olhou para o lado e engoliu em seco antes de responder:
- Quando tinha cinco anos, eu… eu cai da casa na árvore que meu pai construiu. Não deveria estar lá sozinho e me lembro de ter me sentido bem idiota enquanto caia. Quebrei o braço. Podia ter sido muito pior. Fisicamente, digo. Um braço quebrado saiu barato, mas também desenvolvi certa fobia por alturas.
Meu coração doeu pelo garotinho de cabelos escuros e suaves olhos a castanhos que se machucara tanto física quanto mentalmente. Dei um passo para frente e apertei de leve sua mão que ainda estava na minha, oferecendo um pouco de conforto de maneira física, uma vez que não havia muito que pudesse falar.
- Os meninos não sabem, não é?
Por pior que julgasse a One Direction, não conseguia imaginá-los sugerindo atrações envolvendo altura ou deixando o amigo andar sozinho no avião se soubessem do medo extremo que ele tinha.
Ele sacudiu a cabeça.
- Só Kristine sabe. - olhou para o lado, colocando a mão livre no bolso, um sorriso cansado no canto dos lábios - Mas ela também descobriu sozinha, nunca conheci uma garota tão esperta. Kitty é outra que detesta alturas, mas ela consegue encarar bem melhor do que eu.
Foi a minha vez de repuxar os lábios em um sorriso cansado.
- Vem. Vamos fazer alguma coisa. - puxei sua mão até uma das barracas de tiro ao alvo que tinha observado antes.
Cerca de cinco e hilários minutos depois, não pude deixar de comentar:
- Você é ruim desse jeito ou está perdendo de propósito em alguma ideia distorcida para me agradar?
- O quê? - resmungou, abaixando a arma de brinquedo de maneira um tanto quanto indignada - Eu quase acertei esse último. Você viu.
- Aham.
- Hey! Não seja condescendente comigo.
- Tá bom, tá bom. Tanto faz. - peguei a arma de sua mão e o empurrei para o lado de leve - Agora é minha vez.
Coloquei a arminha contra meu corpo da maneira correta - e bem diferente do jeito como tinha feito.
- Você não está prestes a dar uma de senhora Smith e acertar tudo, não é?
- Basicamente.
E, com um sorrisinho calculado que só aparecia em certos momentos, comecei a atirar. O dedo no gatilho e a arma se mexendo o mínimo necessário para mirar no lugar correto, fui derrubando um por um. Só quando todos os dez caíram foi que voltei à realidade.
- Adoro isso! - dessa vez com um sorriso enorme, soltei um suspiro de satisfação enquanto a adrenalina ainda corria por minhas veias.
Sentia falta daquilo. Era uma excelente maneira de extravasar frustrações.
- Ok. - bati o indicador no queixo, olhando para as opções de prêmio que o vendedor tinha me indicado - Que tal aquele urso?
Franzindo o cenho, virei-me para encarar quando não obtive uma resposta.
- Você não é uma assassina de aluguel, né? - perguntou-me, sorrindo e arqueando a sobrancelha.
- Imaginação fértil, . E, não, eu não sou Angelina Jolie ou a senhora Smith, até porque isso faria de você o senhor Smith. - sacudi a cabeça, tentando não pensar em outras implicações - Então nada de muito impressionante. É só que quando você tem dois irmãos mais velhos, acaba aprendendo uma coisa ou outra, principalmente quando um deles queria ser policial. - murmurei de maneira ausente, voltando-me para o vendedor - Me dá esse pinguim. - apontei para o animal de pelúcia de tamanho médio na prateleira superior. - Obrigada.
- Você tem dois irmãos mais velhos? -perguntou-me um tanto quanto incrédulo - Pensei que era só você e sua mãe.
De certa forma.
- ?
- É, é. Dois irmãos. - decidindo que estava falando demais, empurrei o pinguim contra seu peito e , confuso, segurou-o contra si - Segura isso. Eu preciso ir ao banheiro. Me espera aqui. Nesse lugar. - apontei para o chão e, antes que ele tivesse tempo para responder, dei-lhe as costas.
Com passos rápidos, misturei-me a multidão, tomando apenas um segundo para guardar um ponto de referência para a volta, antes de intencionalmente me perder do meu dito namorado. Minha cabeça ainda girava graças ao fato de ter deixado escapar algo tão importante sobre mim mesma. Não falava sobre meus irmãos com ninguém, nem mesmo com Drake e, ainda assim, as palavras saíram rápido e fácil por minha boca . Aquilo era muito estranho. Talvez estivesse perdendo a noção. Bom, se a maneira como andei desgovernada por vários minutos era alguma indicação, eu definitivamente estava perdendo o rumo.
Esfreguei as mãos pelo rosto e girei sobre os calcanhares, decidindo voltar. Estranhamente, contudo, assim que tomei essa decisão, um grupo de garotos passou por mim e, para me desviar do caminho, dei alguns passos para trás, mas perdi o equilíbrio e tive que fazer alguns passinho patéticos para evitar uma queda. Quando finalmente consegui voltar me endireitar, percebi que estava dentro de uma das barracas - e uma bastante exótica.
Franzindo o cenho, observei as tapeçarias roxas e vermelhas penduradas por toda parte. Reconheci algumas constelações detalhadamente costuradas com linha preta nelas. Acho que minha fascinação pelas estrelas foi que me manteve naquele lugar por um momento além do necessário, mas já era hora de ir embora. Decidida, dei um passo para trás, só para acabar batendo o quadril em alguma coisa. Felizmente não tinha derrubado nada, porém era bem interessante observar o que tinha em cima da toalha vermelho sangue: um baralho e algo que não poderia ser classificada como outra coisa senão… uma bola de cristal.
No mesmo segundo em que percebi onde estava, senti um arrepio esquisito descer por minha espinha em um aviso que a nítida sensação ruim de estar sendo observada sempre trazia. Seguindo um impulso incontrolável, girei os calcanhares para encarar o outro lado da tenda. Uma moça, que aparentava ser cerca de dois anos mais velho do que eu estava parada ali. Longos cabelos pretos em uma trança e vestindo calça jeans e blusa preta enquanto me olhava de uma maneira estranha, como se me conhecesse.
- Olá. - ela disse finalmente, depois de um silêncio pesado entre nós.
- Ah, oi. - respondi depois de perceber que ela não poderia estar falando com outra pessoa - Desculpe a intromissão. Fiquei meio perdida e entre aqui sem querer.
- Perdida? - assentiu, a voz muito serena, mas com bastante certeza - Sim. Perdida há bastante tempo. Mas não agora, não mais.
- O quê?
- Quer que eu leia sua mão?
- Ler minha mão? Você é cigana? - nem todo o autocontrole que tinha impediu que o assombro que sentia chegasse à minhas palavras.
- Sim.
- Você não parece uma cigana. - murmurei de novo como uma criança bastante rude que não conseguia conter a língua. - Desculpe. - murmurei imediatamente depois.
- Tudo bem, jovem. As pessoas costumam se apegar a estereótipos. Sempre me dizem isso. Apegadas demais a estereótipos. Imaginava alguém com uma saia grande, pulseiras demais e provavelmente bem mais velha? As pessoas em geral são apegadas demais a estereótipos. – repetiu - Mas você não é uma pessoal “em geral”, não é mesmo? - franziu o cenho, encarando-me mais séria do que antes, porém sem hostilidade.- Esqueça. Isso não é importante agora. Diga-me você acredita nas forças que regem o Universo?
Claro que eu acreditava, inclusive as estudava diariamente. Ação, reação, empuxo, gravidade, pressão, etecetera, etecetera, etecetera. Não era obtusa, entretanto, ao ponto de acreditar que era a isso que ela se referia, então me limitei a murmurar um educado
: - Não, não acredito. E realmente sinto muito por estar atrapalhando. Melhor eu ir. - e já estava a meio caminho da porta quando ela voltou a falar.
- Quer que eu leia sua mão?
- Não, mas muito obrigada.
- Está com medo?
Aquela era provavelmente a única coisa que ela poderia ter dito que me faria parar. Crescer com dois irmãos mais velhos me fez aprender a nunca recusar um desafio, não aparentar covardia era a chave para ser respeitada. Essa lição permanecia comigo até hoje, então dei um passo para trás, voltado para dentro da tenda.
- Ok. - estendia o braço, a palma da mão espalmada e virada para cima. - Vá em frente.
Com um sorriso cínico e satisfeito, ela segurou em meu pulso e analisou as linhas com atenção.
- Foi o que pensei. - sussurrou para si mesma. - Exatamente o que pensei. - dessa vez falou mais firme, soltando minha mão e levantando a cabeça para me encarar. - Você já ouviu falar de Destin, querida?
- Na ideia de que nossos atos estão pré-programadas? De que tudo que fazemos já foi escrito antes mesmo de nascermos? - citei com um toque de escárnio e algo de incredulidade - Não. Definitivamente não.
- Ah! Outro estereótipo! - riu. - Mas não posso culpá-la. Esse é conhecimento comum. As pessoas acreditam nisso e talvez não estejam erradas. Não me refiro, contudo, ao destino com “d” minúsculo. Destino, com letra maiúscula, é uma das forças mais poderosas que coordenam o Universo. Tão poderosa que sua interferência é rara, muito, muito rara. Ao contrário do que muitos acreditam, o Destino não traça um caminho para qualquer um. Ele escolhe cuidadosamente aqueles que terão uma pequena dádiva concedida.
O quê?
Sua convicção em falar tamanhas bobagens era tão grande que cheguei a lamentar por alguém tão jovem estar tão fora da realidade. Mal percebi que estava sacudindo a cabeça levemente como se estivesse negando tudo.
- Você não acredita, tudo bem. Não importa. O fato de não acreditar nele, não impede suas ações. Fugir também não funciona. Você já tentou isso e previsivelmente não funcionou. O Destino sempre alcança aqueles que lhe interessa.
A parte de mim que sempre buscava solução para minhas curiosidades, não permitiu que mantivesse minha boca fechada.
- Está me dizendo que esse tal Destino é um tipo de stalker que me persegue até que cumpra suas ordens fantásticas?
- Oh, não. Não, não. - sacudiu a cabeça. - Talvez fosse mais fácil se fosse assim, mas não. O livre arbítrio é ainda mais forte. Nada pode dirigir sua vida. O Destino apenas se encarrega de te colocar no caminho certo, o resto depende de você. Além disso, Destino não é apenas uma coisa. Pode ser uma profissão, um país, uma vocação artística… No seu caso, entretanto, e uma pessoa.
- O quê? - de tudo que ela dissera, aquilo era o mais estranho.
- Outro dia estava assistindo a um filme e vi uma citação que me pareceu bastante verdadeira. - continuou, ignorando completamente minha pergunta. - Acho que o filme se chamava O Príncipe da Pérsia. Sim, sim. Príncipe da Pérsia. Dizia algo nas linhas de que algumas vidas são ligadas ao longo do tempo. Conectadas por um chamado antigo que ecoa através das Eras. É isso que é o Destino.
- Moça, do que você está falando?
- Poucas pessoas tem a sorte de, além de serem agraciadas pelo Destino, ainda mais de terem alguém como essa pequena dádiva. Por isso você e seus amigos são um grupo tão interessante. Nunca vi tantos acontecimentos juntos.
- Meus amigos? O quê?
Sorriu, calma outra vez e, dessa vez, ao me encarar vi a sabedoria do tempo em seus olhos pretos.
- A loira com cabelos que lembram o verão e o companheiro dela. Eles já se encontraram antes... tanto… muitas vidas atrás. Todas as vezes que suas almas estiveram no plano terreno, eles se encontraram. - havia um tom doído ali, quase uma saudade de quem via algo muito bonito e não sabia colocar em palavras - Seu outro amigo, aquele que está sozinho agora, não ficará assim por muito tempo. Está quase na hora de ele voltar a ver o céu dele.
Se não estivesse tão abismada por suas palavras, teria ficado com medo de que fosse algum tipo de perseguidora perigosa.
- E quanto ao seu Destino, deveria saber que não pode fugir por muito tempo. Ele vai te alcançar, já o fez uma vez nessa vida, inúmeras em outras e o fará quantas mais for necessário.
Mesmo sabendo que não deveria dar explicações, ainda mais quando não estava entendendo nada, vi-me balbuciando:
- Não. – sacudi a cabeça enfaticamente – Você não entende. Ele... – minha língua parecia cheia de areia e não conseguia falar mais nada, apenas permanecer ali, sentindo-me como uma claustrofóbica deveria se sentir em um lugar fechado.
Sufocando
- Você tem razão. Não entendo. – aproximou-se da entrada da tenda – Não sei o que aconteceu dessa vez, mas sei que vocês dois já superaram tempestades piores em outras vidas. O caminho sempre foi mais difícil para vocês, pobre criança. – havia um toque leve de compaixão ali – Mas é preciso aprender a apreciar a beleza que os raios e o vento forte trazem. Não só de calmaria vive o mar, e não só de caos vive uma tormenta. Demora tempo para se perceber que mesmo no olho do furacão, na hora mais escura da tempestade, tudo que você precisa fazer é encontrar um… o seu abrigo, e só então, ao invés de medo, você pode apreciar a beleza dos raios. Na hora certa vocês vão compreender. – puxou a cortina que servia como porta – Agora vá. Ele está preocupado.
Dessa vez não precisava interrogá-la para saber a quem se referia.
.
Alguma parte do meu cérebro sabia que ela tinha razão naquele ponto e que possivelmente estava bastante preocupado, pois fazia tempo que havia me separado dele usando uma desculpa boba, porém estava intrigada demais - e não de um jeito bom - graças a suas palavras enigmáticas.
- Não! Espera.- engoli em seco para tentar suprimir o jeito histérico como que estava afinando as palavras. - Do que você está falando? Que história é essa de vidas passadas e brigas?
- Ah! - levantou a mão, o dedo indicador em riste - Quase me esqueci de mencionar. Aquela que tem os olhos da cor do tronco das árvores, que lembram as folhas caídas do outono… Ela vai descobrir o segredo que vocês tentam esconder. A alma dela é antiga demais, sábia demais, esperta demais para ser enganada por muito tempo. Mas não há motivo para se preocupar. Tudo que ela quer é o bem daquele destinado a ela e dos amigos dos amigos que tanto ama. A vida dela é entrelaçada a de cada um deles desde o começo também, sabe? Amigos, irmãos de sangue, primos… Eles já se encontraram em muitas formas. Mas essa parece ser a mais forte de todas. Interessante. - deslizou a mão pela toalha que cobria a mesa, a voz soando distante, como se ela estivesse há quilômetros, e não a meros passos - Tão interessante.
Um vento esquisito passou de novo por minhas costas, fazendo me estremecer tão forte que fechei os olhos por um segundo. Ao descerrar as pálpebras, menos de um segundo depois, a cigana já não estava em nenhum lugar. Não me orgulho de dizer que, exatamente como fizera ao entrar naquela tenda, sai tropeçando. Diferentemente do que acontecerá antes, contudo, não foi porque pisei em falso, mas sim graças ao fato de que estava basicamente correndo com se leões dos infernos estivessem me perseguido. Ainda corria, meio as cegas por estar olhando por sobre o ombro, quando o ar foi expulso com força de meu peito ao meu chocar contra alguém obviamente mais forte do que eu. Imediatamente virei para frente, encontrando meu namorado franzindo o cenho de preocupação.
- , que aconteceu? Onde você foi? - desviou o olhar entre meus olhos e por sobre minha cabeça, obviamente procurando o que estava acontecendo, ou, mais especificamente, quem estava me perseguido.
Em mais um ato de que não tinha orgulho naquele dia, agarrei o colarinho de sua jaqueta, ameaçando pano entre meus dedos e dando um passo para frente enquanto chegava tão perto dele quanto era humanamente possível.
- , eu quero ir embora. Vamos embora? Por favor.
Provavelmente não tinha me entendido, pois mantinha minha boca contra sua blusa. Entendendo, ou não, entretanto, ele passou os braços por minha cintura e deixou que me aconchegasse ainda mais contra si, sussurrando algumas coisas sem sentido contra meu cabelo e pacientemente esperando até que me acalmasse por completo. Levei mais alguns minutos, em que respirei apenas seu perfume gostoso, para que aquela sensação gelada - como se alguém estivesse com a mão sobre meu ombro - desaparecesse e só então consegui me afastar um pouco, mas somente o necessário para erguer minha cabeça e encarar seus olhos.
- Hey, . Está tudo bem. - deslizou o polegar por minha bochecha com delicadeza extrema - Tudo bem. O que aconteceu?
Engoli em seco, porém continuava sentindo aquela bola metálica bloqueando minha garganta.
- Eu não… - sacudi a cabeça - Não quero.
Senti-o ficar rígido contra mim.
- Alguém fez alguma coisa com você, ? - sua voz saiu gutural.
Arregalei os olhos, entendendo a que ele se referia.
- Não! - dei um gritinho - Não. - voltei a afirmar, mas calma dessa vez. - Não é isso. É só… tomei um susto. Eu… eu detesto sustos.
E detestava mais ainda pessoas que pareciam ter saído de algum lugar sobrenatural para me assombrar com enigmas indecifráveis.
- Podemos ir embora agora, ? Por favor?
Queria tanto me esconder embaixo de cobertas fofinhas que não me importava por estar literalmente implorando.
- Ok. Ok. Vem. - passou o braço por meus ombros e começamos a andar na direção oposta a que eu tinha vindo.
Com a mão que estava livre, ele tirou o celular do bolso e digitou alguma coisa e, segundos depois, guiou-me para esquerda, virando a esquina que uma barraca de comida formava. Se estivesse prestando atenção, teria visto o nosso grupo não muito longe, porém só percebi quando já estávamos praticamente em cima deles.
- Um pinguim! Que fofo. - sorriu, estendendo a mão para pegar o bicho de pelúcia que nem percebi que carregava. - Tão fofo quanto o seu, Kitty.
Já mais calma - e aqui me incomodava admitir que provavelmente isso se devia ao abraço do meu namorado -, minha curiosidade falou mais alto e me virei um pouco para ver o urso enorme que Green tinha nos braços.
- Rogers é realmente muito adorável.
- Só por curiosidade, você e pretendem adotar todos os Vingadores? - , sempre muito engraçadinho, comentou, deixando boa parte de nós sem entender nada.
- O quê? - felizmente fez a pergunta, senão ficaria com a dúvida porque obviamente não dirigiria a palavra ao cantor.
Ao menos não por livre e espontânea vontade. Ou a não ser que o mundo estivesse pegando fogo.
- Você sabe, o cachorro chama Stark, como o homem de ferro, e agora o urso chama Rogers, como o Capitão América. - franziu ao cenho, recordando-se de algo - Falando nisso, com quem ficou Stark?
- Está na casa de Lizzie. Minha irmã. - completou, olhando para mim, uma vez que obviamente os outros sabiam de quem se tratava - Ela tem um cachorro também. Eles são amigos.
- Ok…?
- Você ganhou isso no tiro ao alvo, ?
- ‘Tá falando sério, ? - riu - não consegue acertar o alvo nem por decreto.
- Ah, realmente.
- Hey! Para sua informação, seus dois idiotas, eu acertei um dos patinhos.
- Um patinho não te dá o direito a esse pinguim. - Kristine arqueou a sobrancelha.
- Você também é péssima de mira. Certeza que foi o que ganhou isso, Kit-Kat.
O jeito como ela estreitou os olhos teria feito a maioria dos homens recuar de medo, mas era amigo demais… ou talvez apenas tivesse perdido toda noção do perigo. Eu, por outro lado, ainda tinha um pouco de racionalidade, então me apertei mais contra ele.
E no segundo seguinte tive vontade de sair correndo, absolutamente horrorizada por ter me voltado tão imediata e completamente para em busca de segurança. Fiquei tão chocada que me esqueci de nosso teatro e teria me afastado dele não fosse seu braço sobre meus ombros. Felizmente ninguém percebeu meu movimento - ou desconforto crescente - preocupados que estavam em ouvir o resto da história:
- Sim, foi , assim como tenho certeza que o senhor Pinguim ai foi obra de . É isso ou você roubou o bicho e saiu correndo.
- Quero dizer que ganhei isso da forma correta. - argumentou.
- ‘Tá certo.
O comentário zombeteiro de Summer foi acompanhado por muxoxos de concordância dos outros.
- O que quis dizer é que ganhei da forma correta depois que acertou todos os dez patinhos e me deu o pinguim, que doravante se chamará Iceman. Porque ele vive nos Polos, entendeu?
A revirada de foi tão enfática que quase pude ouvi-lo.
- Kitty, esqueça o que eu disse. Em comparação, seu jeito de batizar os filhos é excepcional.
- Ok. Já chega, . - Summer mandou, mesmo tendo uma pontinha de riso em sua voz - Pare de implicar com .
- Mas, Summ, ele disse que não posso implicar com a namorada dele, então tenho que redirecionar meus comentários.
Aquela foi mais uma das surpresas da noite que tirou meu poder de resposta. Não que fizesse muita diferença, pois, quando entendi a extensão da implicação de suas palavras, continuei sem saber o que dizer. Também não houve resposta vindas de outras pessoas, uma vez que três carros pretos pararam na rua a poucos metros de nós e antes que eu percebesse, já estávamos dentro deles. Estava tão perdida em tudo que ouvira naquelas poucas horas que o tempo e espaço ficaram em segundo plano, enquanto meu estômago revirava e preciso segurar ânsia.
O nervosismo estava me matando, e só consegui respirar um pouquinho melhor quando fui gentilmente puxada para fora do carro. Nos dividimos em dois grupos para pegar o elevador. Com coisas demais para pensar, dependeu de se lembrar de nosso teatro. Ele passou o braço por minha cintura e me puxou para perto enquanto meu nervosismo subia com a mesma eficiência que o elevador vencia os andares.
“Destino”
Meu novo vício em seu perfume.
“Ele disse que não posso implicar com a namorada dele”
O jeito como procurei por ele quando estava assustada.
“Destino”.
O fato de eu gostar tanto de como meu nome rolava por sua língua.
“O que você precisa fazer é encontrar um… o seu abrigo”
A maneira como estava sempre procurando por seu olhar, ou como minha mão parecia coçar para estar na sua.
“Destino”.
Deitar minha cabeça em seu ombro.
“Destino, Destino, Destino, Destino”.

O clique suave das portas se abrindo interrompeu por um segundo o jeito como aquela palavra martelava, com a força de uma bigorna, em minha cabeça.
Uma dor de cabeça repentina estava me matando. Sentia como se barras de ferro em brasa estivessem perfurando meu crânio. Ao longe ouvi passos saindo do elevador e meu resto de auto-preservação fez com que me afastasse dos braços de assim que percebi que agora estávamos sozinhos.
Bruscamente, então, empurrei-o para longe.
Queria distância, queria voltar a ignorância em que vivia há não mais que doze horas. Queria ignorar a recém-descoberta de que estava começando a me apaixonar pelo cara que antes detestava.
Queria parar de rodar em meio ao furacão e voltar a respirar normalmente em chão firme.
Infelizmente nada daquilo parecia possível, então me limitei a fazer o que podia, correndo para o outro lado daquela caixa metálica e colocando o outro máximo de distância física possível entre nós.
Infelizmente só percebi o tamanho daquele erro quando já era tarde demais, quando alguma coisa me fez tirar a atenção do chão e encarar as portas automáticas que ainda estavam abertas. estava de costas, já no meio do corredor, mas não foi isso que me chamou atenção.
Não.
O que me preocupou até a alma foi que Kristine estava virada para nós, e, mesmo naquela distância vi seu cenho franzido e o brilho de entendimento em seus olhos.
Em seus olhos de outono.





Se havia alguma coisa que Jay e Will me ensinaram enquanto crescíamos foi que fugir de uma briga era provavelmente a coisa mais idiota que você poderia fazer. O problema não desaparece e, além disso, você ainda fica sendo a ridícula da história. Queria poder dizer que aprendi a lição e que encarei minha récem-descoberta fraqueza por com a cabeça erguida e como uma adulta racional.
Passar a mão no cabelo e sorrir superior, ignorando tudo que não fosse manter nossa farsa no lugar. Sofisticada, bem resolvida, totalmente no controle da situação.
É… bom… não foi isso que aconteceu. Não foi nem de perto o que aconteceu.
Nos dois dias seguintes ao nosso passeio, fiz tudo que podia para evitá-lo. Mais do que fugir de , entretanto, estava correndo como diabo da cruz toda vez que suspeitava que Green estivesse por perto. Não que isso estivesse funcionando. A mulher parecia ter algum poder sobrenatural e conseguia surgir do nada a todo instante, pegando-me de surpresa toda vez. E em cada uma dessas ocasiões ela era incrivelmente doce, muito educada, porém podia ver o brilho esperto no canto de seus olhos.
Toda vez que encarava seus olhos de outono, recordava das palavras da cigana e isso me fazia colocar ainda mais esforço em evitar . O problema é que a cada segundo que passava fugindo, sentia saudades dele. Não só de sua colônia amadeirada ou do jeito gostoso como sua barba roçava em meu pescoço. Também não sentia falta apenas de sua respiração contra minha nuca ou de passar as mãos por seu cabelo sempre tão ridiculamente perfeito. Sentia falta da maneira segura e firme como me beijava, mas, acima de tudo, sentia falta de conversar com ele. Não percebi o quanto gostava de seu jeito lento de falar, arrastado pelo sotaque de sua cidade, até que não podia ouvi-lo todos os dias. Quase deseja ter algum motivo para discutir com ele porque ao menos assim poderia ouvi-lo dizer meu nome como só ele pronunciava - como se tivesse mel derretendo em cada sílaba.
Porem nem mesmo um único motivo, por mais fraco que fosse, me foi fornecido. Meu pseudonamorado foi simplesmente um cavalheiro durante todo o tempo. Além disso, a culpa não era dele, obviamente. tinha tentado conversar, saber o que estava acontecendo, sempre me questionando suavemente sobre o porque de eu ter me fechado em mim mesma e estar me recusando a sair do nosso quarto. Minha resposta, entretanto, era sempre a mesma boba enxaqueca. Podia ver que ele não estava nem um pouco convencido, porém era educado demais para me chamar de mentirosa, então se afastava e me deixava sozinha, como pedira.
Summer apareceu em meu quarto depois do segundo dia em que me autoisolara, oferecendo humildemente para tentar me pseudo-examinar para saber se poderia ajudar de alguma maneira. Recusei a oferta, tanto porque não estava realmente doente quanto porque estava tensa com a companhia que ela trouxera. Kristine silenciosamente me observada enquanto a namorada de seu melhor amigo me questionava sobre possíveis sintomas, e aquilo me deixava bastante nervosa. Assim como meu ”namorado” podia ver a verdade por de trás de minha nova mentira, sabia que Green também conseguia. Só voltei a respirar fundo quando as duas foram embora. Os outros meninos da One Direction também apareceram mais tarde no mesmo dia para ver como eu estava. Não sabia se eles tinham aparecido na minha porta por livre espontânea vontade ou por livre e espontânea pressão, contudo os olhares preocupados que eles me lançaram me tocou profundamente, ao ponto de no final da tarde meus nervos se reduzirem a frangalhos.
Minha respiração já estava bastante irregular quando peguei meu celular.
- Atende, atende, atende. - murmurei sozinha no quarto enorme enquanto o som da chamada ressoava em meu ouvido.
- Marchiori.
- Drake. - solucei, as lágrimas, como se esperando por uma palavra mágica, imediatamente começaram a cair ao ouvir a voz de meu melhor amigo.
- ? , você está chorando? - a sempre presente compostura abandonou sua voz para ser substituída por uma preocupação palpável, que me fez soluçar ainda mais. - , , querida, pare de chorar, sim? - sussurrou muito suavemente, mágica pingando de cada palavra para tentar me acalmar - Me conte o que aconteceu?
- Eu… nós estávamos aqui em Sydney e… - as frases saiam sem nexo porque não conseguia encontrar um sentido nem mesmo no que estava sentindo, quiça colocar esse caleidoscópio em palavras.
- Sim, querida. Em Sydney. - ouvi o barulhos de movimentação ao fundo. - Eu sei. Estou indo para aí. Só preciso achar a porra do meu passaporte. - murmurou frustrado mais para si mesmo, e logo depois vieram mais alguns sons altos.
Ele provavelmente estava abrindo e fechando gavetas e armários em busca de seu documento. Sabia que os planos de Drake nessa semana não chegavam nem perto da Austrália, então suas palavras só podia significar que meu melhor amigo estava pronto para voar meio mundo para me encontrar porque tinha perdido minha compostura a esse ponto. Apesar do pequeno baque em meu peito por essa clara demonstração de carinho e da vontade esmagadora de voltar a chorar que isso me causou, respirei fundo. Aquele não era o momento para me entregar a fraqueza. Não era justo com ninguém, não era justo com Drake, não era justo com e definitivamente não era justo comigo.
Engoli em seco.
-Não.
A negativa mal saiu como um sussurro entrecortado. Olhando para o teto a fim de impedir novas lágrimas, limpei a garganta e apertei mais firme o celular.
-Não. - consegui estabilizar a voz dessa vez - Não precisa, Drake. Eu…
Ainda encarava o chão quando repentinamente entendi - ou só agora criei coragem para encarar o fato - o porquê de ter ligado para meu melhor amigo. Tinha sido porque estava me acovardando de novo, porque não queria encarar a verdade sozinha… porque queria que Drake apontasse o óbvio. Supunha que era literalmente a última tentativa de resistência que alguém prestes a tombar em batalha tinha. Pedir que alguém desnude a verdade por e para você para que assim, por um segundo a mais, só por um momento a mais, você possa resistir ou para que você possa apenas… apenas aceitar.
Aceitar que não não perdeu a sanidade por chegar a conclusão óbvia, que a conclusão óbvia é realmente isto, óbvia. Estava ligando para Drake para que, mais uma vez, ele esfregasse meu rosto na verdade porque talvez aí eu não pareceria a idiota covarde em que me transformara nesses últimos dias. Não que Drake fosse delicado e gentilmente mostrasse a verdade. Não. Basicamente era o oposto disso, mas quando não queremos admitir para nós mesmos algo, este pequeno monstro parece mais fácil de ser domado quando um outro alguém também sabe que ele existe. Ao menos na minha perspectiva.
Tudo parecia questão de perspectiva no momento… e não estava gostando do que estava vendo, não gostava de como estava me vendo.
Talvez porque Drake fosse o meu cantinho de porto seguro no momento, talvez porque eu simplesmente estivesse exausta demais para continuar mentindo para mim mesma, mas agora podia enxergar exatamente do que estava fugindo.
- Eu gosto dele.
- O quê?
Quase pulei de susto quando a pergunta soou através do telefone ainda pressionado contra minha orelha. Tinha me esquecido que Marchiori ainda estava ali.
- Eu gosto dele. - repeti, mais firme dessa vez, ainda que minhas pernas estivessem mais moles do que geleia - Eu gosto de .
- Ah. - estalou a língua - Ah. Esse é o problema?
Seu tom um tanto quanto condescendente me confundiu.
- Que foi, Marchiori? Diga de uma vez o que você está pensando! - resmunguei, a frustração me fazendo começar infinitos círculos sobre o tapete.
- Não é nada. - continuou, bem mais calmo agora, quase que divertido - Só estava pensando em como já não era sem tempo.
- O quê! - parei de repente, chocada demais para continuar até mesmo minha dança de barata tonta - O quê? - Ora, . Estava bem claro desde o começo que você gostava do cara.
O choque roubou minha voz.
- , você é a pessoa de gênio mais forte que eu conheço, e isso diz muito, uma vez que meu pai é Luke Marchiori. Pois então. Se você só quisesse pagar a tal dívida de sangue que você tem - e aqui teria revirado os olhos frente a seu sarcasmo intrínseco não fosse meu estado ainda paralisado -, teria mantido as coisas estritamente práticas. Estritamente… limpas. Talvez não desde o começo, porque era óbvio que você estava tentando odiar o cara, mas ao menos depois que conversamos. Eu não sou nenhum especialista no assunto, mas imagino que fingir um namoro não seja lá tão complicado. Alguns jantares e algumas idas ao cinema em que fotos de vocês fossem tiradas já seria o suficiente para alimentar a mídia. Você não precisava viajar do outro lado do mundo para acompanhá-lo.
- Eu te expliquei o porquê disso. - sibilei contra o telefone que minha mão apertava com tanta força que tinha certeza que deixaria marcas.
- Não, . Você estava explicando para si mesma. - voltou a adotar aquele tom paciente e reconfortante, tom esse que havia ouvido mais vezes desde que voltara para Londres do que durante todas as duas décadas em que fomos amigos - Isso não é uma recriminação, sabe? O que você faz só lhe diz respeito, não precisa dar satisfação a ninguém mais. Porém confesso estar aliviado por você ter conseguido assumir isso para si mesma.
- Como assim? - sussurrei depois de engolir em seco para tentar desbloquear a garganta.
- Bom, vejo que a desobstrução na sua vista não foi completa. Acho que não se pode esperar um milagre tão grande tão repentinamente. - soltou um suspiro dramaticamente alto. - O que estou tentando dizer é que você estava tentando odiar o tal , mas não estava fazendo um bom trabalho, nem mesmo no começo de toda essa história.
- O QUÊ! Claro que o odiava. - rangi os dentes.
Estava pronta para aceitar que havia tombado em batalha, que , com seu cheiro, sua risada, seu beijo e seu carinho incansável haviam me vencido, porém não podia admitir que caíra sem ter lutado.
- Não odiava não. Você estava muito machucada, mas não o odiava.
Olhei para o teto, tentando de novo conter as lágrimas, que já não sabia mais se eram de vergonha ou só resquícios finais daquele rancor que guardara no meu peito durante tanto tempo e que agora parecia ter neutralizado, amortecido em um sono esquisito.
O silêncio tomou conta de nossa conversa e fiquei bastante agradecida por ele não mencionar em voz alta a conclusão a que havíamos chegado. Eu gostava de desde o começo.
Meu melhor amigo felizmente não precisou chegar ao ponto de humilhantemente jogar na minha cara há quanto tempo estava mentindo para mim mesma, eu havia conseguido enxergar isso sozinha.
- ? - chamou depois de uma pequena eternidade - , você está bem?
Se eu estava bem?
Deixei que minha atenção vagasse para a vista da janela e para além dela.
Eu estava bem?
Sim… estranhamente, eu me sentia bem. Pela primeira vez em anos sentia como se não estivesse carregando o peso do mundo. De repente já não estava tão cansada como nem mesmo sabia que me sentia por mais anos do que podia me lembrar. Será que aquela espécie de buraco negro que sugava tudo, deixando apenas as emoções negativas, sempre estivera ali, assombando-me sem que eu percebesse? Sugando minhas energias até que não me restasse nada senão o entorpecimento?
Impressionante o que o rancor conseguia tirar de você, silencioso como um ladrão na noite. Engraçado como você só percebia isso quando finalmente conseguia deixar o veneno sair.
Respirando fundo, consegui, como em muito tempo já não era capaz, sentir o ar expandindo meus pulmões e apreciar esse fato. Pequenas preciosidades da vida que muitas pessoas só dão valor quando não podem mais tê-las. Desviei literalmente meu olhar da janela ao mesmo tempo em que metaforicamente voltava para a realidade, deixando as ponderações filosóficas para trás agora que entendia o que precisava fazer, o que eu queria fazer.
- Sim. - afrouxei o aperto de ferro com que segurava meu celular. - Sim. Eu estou bem.

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Em silêncio, observei entrar em nosso quarto. Jeans, uma camiseta branca estampada com um cartoon abstrato e tênis. Nada das jaquetas de couro preto que lhe garantiam o ar misterioso que enlouquecia suas fãs ao redor do mundo - que me enlouquecia. E, mesmo assim, nunca o considerei tão irresistível. Meus dedos coçaram por traçar o contorno da barba que ele havia deixado crescer. Ainda acompanhava sua movimentação com o olhar quando ele parou de andar repentinamente. Mesmo de longe pude ver como suas costas se retesaram. Lentamente, ele girou sobre os calcanhares e me seu olhar pousou em mim. Exatamente em mim, como se soubesse onde eu estava sem precisar procurar, mas ainda havia bastante surpresa em sua expressão. Bom, supunha que não poderia culpá-lo, afinal, nos últimos dias, tinha feito de tudo para evitar encontrá-lo. Desde me esconder no bar do hotel até ter a certeza de que ele havia saído para um ensaio ou show até tentar dormir no sofá - mesmo que sempre acabasse acordando na minha cama porque em algum momento da noite ele havia se preocupado o suficiente com o bem-estar da minha coluna ao ponto de deixar seu próprio conforto para me carregar no colo de volta para o colchão fofinho.
Como eu disse, Jay e Will estariam tão orgulhosos da minha coragem…
Ele deu um passo para frente, mas logo parou, hesitando, e eu me detestei por um momento. não merecia o jeito que eu estava o tratando. Ele não tinha feito nada de errado, pelo menos não dessa vez…
- ? - perguntou como se estivesse em dúvida se deveria até mesmo falar comigo.
Seus bonitos olhos escuros estavam tão cansados quanto minha voz.
- Hey, . Podemos conversar?
Esperei que ele assentisse para só então bater de leve no colchão ao meu lado. Ainda receoso, ele se sentou ao meu lado. Virei-me para ele e por um momento só ficamos assim, parados, em silêncio… nos encarando. Parecia que o mundo havia se esforçado para deixar tudo ainda mais sério do que a situação já exigia. Não conseguia nem mesmo escutar os sons da civilização à noite. Nada de buzinas de carro ou alguma sirene ocasional transpassando a altura do hotel e a grossura do vidro da janela. Apenas o mais puro e pesado silêncio. Quando ele começou a pesar como tijolos em meus ombros, desviei o olhar e mordi o lábio inferior, observando a televisão enorme e desligada na parede enquanto engolia o orgulho.
- Eu… - voltei a encará-lo -...eu tenho me comportado como uma criança ultimamente. Foi porque… porque eu… - franzi o cenho, dando-me conta de uma coisa - Não. Na verdade, não tenho uma boa desculpa para isso. Acho que tudo explodiu de uma vez.
Kristine
Essa farsa toda.
Meus sentimentos por você.

- Eu só me senti tão sem chão. E talvez seja instinto humano correr e se esconder, ou talvez eu apenas tenha sido covarde demais para fazer qualquer coisa. - esfreguei a mão pelo rosto - Sendo bem sincera, eu não gosto dessas coisas, sabe? Não gosto de coisas confusas, esse caos horroroso. Prefiro número, fatos, coisas que tem sentido… e, , o que eu sinto por você não faz sentido nenhum. Nenhum. - sacudi a cabeça, de repente agitada demais para permanecer sentada.
Minhas pernas me levavam de um lado para um outro em círculos sobre o tapete que poderiam muito bem ser metáforas de como minha vida estava andando ultimamente.
- Detesto me sentir perdida assim. - parei de andar e de novo voltei minha atenção para ele, tão absolutamente derrotada - Não posso mais me sentir assim. - passei a mão pelo cabelo, frustrada - Aliás, acho que nós não podemos continuar assim, mas, como grande parte é culpa minha, vim oferecer uma solução. Você não precisa aceitar. - acrescentei rapidamente - Não é um ultimato. Vou continuar fazendo meu papel em nosso teatrinho, independente do que você diga. Porém acho que é justo conosco, ou pelo menos comigo, fazer essa pergunta.
Entrelacei os dedos das mãos, remexendo-me de maneira inquieta sobre um dos pés e engolindo em seco por uma última vez antes de abrir a boca e deixar que as palavras passassem por meus lábios quebradiços:
- , por algum motivo que está muito além da minha compreensão, eu realmente gosto de você. E queria saber se talvez você também goste um pouco de mim? Se também quer dar uma chance para isso… - gesticulei com a mão para o espaço entre nós - que nós temos?
Aquela frase meio ambígua era o máximo que conseguia falar e ainda assim tentar manter um pouco da minha dignidade. Não que essa devesse ter sido uma das minha preocupações, afinal, depois de meu pequeno monólogo, o silêncio que se seguiu me fez entender o verdadeiro significado da palavra humilhação. Não sei quanto excruciantes segundos se passaram até que percebi que não teria uma resposta, que ele continuaria sentado na cama, encarando-me em silêncio como se eu tivesse lhe sugerido que fugíssemos naquele momento para casar tendo como Elvis de padre em Las Vegas.
Minhas bochechas queimaram ao ponto de eu acreditar que nunca mais me livraria do vermelho que a mais pura vergonha trazia. Foi puro instinto de sobrevivência que soltou minha língua e descolou minhas pernas soldadas como chumbo do chão.
- Quer saber? - desviei meu olhar do dele, freneticamente procurando um ponto de saída - Essa foi uma ideia idiota. Realmente idiota. - forcei uma risadinha histérica em meio a minha voz trêmula - Idiota, idiota. - esse murmúrio foi apenas para mim e minha enorme estupidez - Eu vou… - exausta demais para mentir, disse a verdade - Eu vou dar um tempo lá embaixo. - dei-lhe as costas, juntando toda a força de vontade que ainda me restava para não sair correndo até a porta - Vamos apenas esquecer que eu disse qualquer coisa. Nada mudou. Ainda vou te ajudar até seus chefes saírem do seu pé. Quem sabe até melhorem um pouco. Prometo que não vou mais ficar evitando todo mundo. Isso foi um erro de percurso e já consegui resolver as pendências que tinha comigo mesma.
Não me sentia nem um pouco covarde falando enquanto andava para longe dele. Aliás, não sentia nada, exceto, talvez, o arrepio de alívio que desceu por minhas costas quando alcancei a maçaneta depois do que pareceu uma caminhada descalço pelo chão do purgatório.
Ao menos eu tinha tentando, ao menos não dormiria com mais aquele “e se” na cabeça.
- Vamos nos manter cordi-Ow! - a palavra morreu em meus lábios quando meus pés literalmente deixaram o chão e, antes que pudesse reagir, estava sendo virada de costas por mãos fortes em minha cintura e empurrada contra a porta que mal havia conseguido abrir há um segundo.
Senti seu corpo contra o meu, roubando cada centímetro de espaço que poderia existir e cada resquício de sanidade que ainda me restava. Um pouco porque não tinha espaço para fazer mais do que isso - e muito porque era o que eu queria - ergui as mãos e as apoiei sobre seu peito. Sabia que tinha que dizer alguma coisa, provavelmente empurrá-lo e sair dali antes que as coisas ficassem ainda mais complicadas, porém desisti de ser coerente ao levantar a vista daquela camiseta branca e encontrar seu olhar. Dessa vez não havia choque ou incerteza em seus olhos de chocolate derretido. Não. O que pude ver ali, na verdade, me aqueceu por dentro e fez a vergonha anterior sumir completamente, sendo substituído pelo sentimento gostoso que parecia tomar conta de mim cada vez que ele se aproximava.
estava tão perto que senti seu hálito de menta bater em meus lábios quando ele abriu a boca para respirar pesado. O silêncio, agora, não pesava por uma tensão horrivelmente constrangedora, mas sim pela antecipação que em mim era tão forte que chegava a formigar por todas as células do meu corpo, por toda parte em que podia senti-lo me tocando.
tirou uma das mãos de minha cintura e lentamente a subiu pela lateral do meu corpo até afundá-la em meu cabelo. Obedeci a pressão que ele fez ao puxar de leve meu cabelo e me encontrei inclinando a cabeça até que não pudesse encarar mais nada confortavelmente que não fossem seus olhos. Quentes como chocolate derretido e que te faziam pensar em pecado. Hipnotizada, quase perdi o momento que ele começou a falar, mais rouco do que o normal:
- Você adora tirar algumas conclusões, não é, ? - um sorrisinho de canto de lábios acompanhou aquelas palavras - Mas tudo bem. - abaixou a cabeça até que seus lábios rosassem os meus quando ele continuou falando - Eu sou um cara paciente. E a partir de agora, eu sou o seu cara paciente.
As implicações do que ele acabara de dizer se perderam quando seus lábios encontraram os meus. Tudo que não fosse desapareceu enquanto o mundo girava ao meu redor e eu me perdia em meio aquele beijo de um jeito que nunca antes acontecera.




– Boliche?
– Não
– Teatro?
– Nope.
– Cinema?
– Hmm… talvez. Para ser sincera, gosto bastante de cinema – murmurei, pensativa. – Podemos fazer isso.
– O quê?! – Georgina arrancou a colher de Nutella da boca exasperadamente, encarando-me como se eu tivesse enlouquecido. – Não vamos comemorar seu aniversário em uma sala de cinema.
– Por que não? – foi minha vez de pegar uma colherada do doce. – Foi você quem sugeriu – encolhi os ombros antes de apoiar o cotovelo sobre a bancada e o queixo sobre a mão, encarando minha melhor amiga.
– Não estava falando sério! Foi só algo que surgiu do nada. Uma última tentativa desesperada, se você preferir. Afinal, você recusou todas as ideias.
– Já disse que não gosto de comemorar meu aniversário – revirei os olhos pelo que parecia ser a milésima vez naquela conversa. – Por que você simplesmente não abandona essa ideia doida de festa, ou jantar, ou boliche, ou viag–
– Você é extremamente teimosa. Alguém já te disse isso?
Pensei em meus irmãos, em Drake e em .
– Sim. Já ouvi essa calúnia algumas vezes – com um sorriso, dei de ombros, servindo-me de mais uma colherada de Nutella.
– Que calúnia?
Não pude evitar me encolher um pouquinho com o arrepio gostoso que sua voz ao pé do meu ouvido causou. riu de minha reação, apoiando o queixo sobre meu ombro. Virei a cabeça para lhe dar um beijo rápido nos lábios.
– Sabe, – Geo murmurou, pensativa, – faz três meses desde que vocês voltaram da Austrália com a novidade de que o relacionamento se tornou verdadeiro e até hoje isso ainda me surpreende.
Franzi o cenho, levemente ofendida.
– O quê? Por quê?
– Porque quando eu bolei esse plano friamente calculad–
– Você jogou essa ideia do nada! Que planejamento o quê!
– -lado, não tinha ideia de que – continuou como se eu não tivesse dito nada – vocês formariam um casal tão água com açúcar. E lembrar de todo aquela tensão que borbulhava – mexeu as sobrancelhas de maneira sugestiva.
-Você é bem chata, sabia? – comentou, ainda com o queixo sobre meu ombro, o que fez sua voz sair como um murmúrio quase ininteligível.
– Isso não é jeito de falar com seu cupido favorito – revirou os olhos, um sorriso de canto de lábios de quem estava muito satisfeita consigo mesma.
– Você está passando tempo demais com Kitty – dessa vez ele levantou a cabeça para ter a certeza de que fosse entendido. – ‘Tá começando a falar como ela.
Levantou os olhos para o teto, ponderando por um segundo.
– Vou considerar isso um elogio – concluiu finalmente.
Sabia que a descrença era bem visível em meu rosto e também não consegui evitar um meneio incrédulo de cabeça. Por que, em nome do que era mais sagrado, alguém consideraria isso um elogio?
Dietze e pareciam já ter percebido meu não-tão disfarçado desgosto por Kristine, uma vez que talvez – com certeza – eu tenha saído do meu caminho para propositalmente evitá-la. E o pior é que sabia que ela era uma garota legal, mas o fato de ser um infalível detector de mentiras humano me deixava um pouco desconfortável, ainda que já fizesse três meses que e eu não estivessem mais mentindo.
– De qualquer jeito, – puxou o pote para perto de si mais uma vez, alimentando não só seu estômago, mas também a mania que tinha de perder certo controle sobre o que estava comendo quando se distraia, – foi bom você ter chegado, . Estávamos falando sobre o aniversário de e sobre a festa que faremos.
– Não quero festa – falei imediatamente, pelo que parecia a vigésima vez em menos de vinte minutos. – Não quero nada – virei-me para meu namorado, jogando a cabeça para trás para não perder o foco em seus olhos pela proximidade. – Sério, babe. Não gosto.
Ele franziu o cenho.
– Por que você não me contou que seu aniversário está chegando, linda? – diminuiu o tom um pouquinho, deixando claro que era uma conversa particular. – Quando é?
Olhei para o lado por um segundo e soltei o ar pesadamente. Não gostava de comemorar meu aniversário, mas gostava menos ainda quando ele me olhava daquele jeito ferido.
– Dia sete.
– Sete de janeiro? – franziu o cenho, adoravelmente confuso.
– Sete de dezembro – corrigi, derrotada.
– Mas isso é daqui duas semanas! Você não pretendia me contar, não é mesmo?
Apertei meus lábios um contra o outro. Não me faça perguntas e não lhe direi mentiras. Ele beliscou minha cintura, fazendo com que eu desse um pequeno pulo no lugar.
– É só mais um dia – dei de ombros. – Não entendo essa necessidade social de ter que comemorar um dia comum, essa expectativa de ter que ser feliz no dia do seu aniversário.
– Essa foi… – Geo murmurou depois de um tempo, analisando-me com os olhos semicerrados – a coisa mais triste que escutei em muito tempo – sacudiu a cabeça. – Nem pensar. Aniversários são para ser comemorados – voltou a se animar, sacudindo os ombros como que para espantar um sentimento ruim que pousou em seus ombros por um segundo. – Nós vamos fazer uma festa sim e ponto final.
– Eu… eu não quero uma festa – virei-me para meu namorado. – ! Eu não quero uma festa.
– Sinto muito, linda – abriu um daqueles sorrisos preguiçosos. – Dessa vez estou com a minha irmã.
– Mas eu… eu não gosto desse tipo de atenção.
As palavras foram diminuindo até que a última soou como um sussurro enquanto observava minha melhor amiga pular do banco alto em que estava sentada, praticamente saltitando para fora da cozinha enquanto falava alto, mas só para si mesma:
– Vamos precisar de um espaço grande. Seu apartamento serve, . Vou fazer uma lista das bebidas e depoi–
Parei de ouvi-la quando ela virou o corredor para sala e sumiu de nossa vista.
! – virei-me para ele, toda incredulidade que sentia certamente transparecendo em meu rosto. – Faça alguma coisa.
se limitou a abrir um sorrisinho divertido no canto dos lábios enquanto se inclinava por sobre a ilha para pegar uma bala sobre o pote que Geo mantinha constantemente abastecida.
– Hey! – bati a mão em seu ombro, rindo em meio a um suspiro.
– O quê? – riu de novo, dando de ombros, sentando-se no banco ao meu lado.
Esticou as pernas, colocando uma de cada lado dos pés de meu banco, deixando-me no meio.
– Faça alguma coisa! – havia um pouco de risada ali, o que deixou tudo bem menos ameaçador.
Nem mesmo conseguia fingir que estava brava quando ele me olhava com aquele ar meio moleque, meio malandro inocente.
– Por que eu? – ainda ria ao desembalar a bala e colocar na boca.
– A irmã é sua!
– E a melhor amiga é sua – tombou a cabeça para o lado, sempre com aquele brilho divertido nos olhos escuros, ergueu o braço e passou por minha cintura em um meio-abraço frouxo.
Ao invés de continuar andando em círculos, contudo, fiz o que queria, levando a mão para fazer carinho em sua bochecha e aproximando-me para beijar seus lábios de leve. A pressão de sua mão em minha nuca impediu que me afastasse e sua boca foi firme ao me pedir um beijo, que correspondi com bastante entusiasmo, aproveitando o gosto de menta da bala.
, você precis- Ah! Francamente! Não posso deixar vocês sozinhos por dois minutos.
Rindo, nos separamos.
– Que foi, Dietze? – arqueei a sobrancelha, mantendo a mão sobre o ombro de , mais divertida por sua expressão de desagrado do que irritada pela interrupção.
– Que foi – afinou o tom em uma tentativa tosca de parecer com o meu – que essa já é terceira vez só essa semana que eu pego vocês se agarrando pelos cantos.
– Não se preocupe. – deu uma piscadinha. – Da próxima vez nós vamos lá para casa.
– Muita informação. Muita informação – sacudiu a cabeça e levantou as mãos.
Por um segundo pensei que ela fosse enfiar os indicadores no ouvido e cantarolar uma música qualquer para não ter que ouvir os comentários do irmão – não que eu a culpasse, afinal, a última coisa que eu queria saber seria sobre a vida sexual de Jay ou Will. Ao invés disso, entretanto, ela nos lançou mais um olhar repreendedor, provavelmente pelas risadas que estávamos tentando segurar, antes de voltar ao tópico que tentava desenvolver antes de ter interrompido o próprio discurso:
, depois você tem que me passar a lista de pessoas que quer convidar. Não esqueça. E me lembre. Tenho que ter a certeza de tê-las convidado. Não posso deixar com que se percam em meio aos outros convidados.
– Outros convidados? – arregalei os olhos. – Por que você fala isso como se fossem muitos outros convidados? Quantos exatamente você está planejando?
– Alguns – murmurou, tentando parecer inocente, mas o jeito como trocou o peso de um pé para o outro e olhou para geladeira deixaram bem claro que ela estava aprontando.
– Dietze! Eu nem queria uma festa, e agora isso já está me soando como uma grande festa.
– Não grande-grande – saiu até mesmo como um gritinho histérico, enquanto ela esticava as sílabas de sua mentira. – Só… interessante. De qualquer jeito, não se esqueça de me mandar os nomes e os números dos convidados – mal tinha terminado a última palavra antes de sair do cômodo de maneira bem pouco discreta.
– O que ela quis dizer com “interessante”? – franzi o cenho para meu namorado.
– Nem ideia.
Inclinou-se e conseguiu me dar um beijo rápido antes que me afastasse.
! – espalmei a mão sobre seu peito. – Estou falando sério.
– Isso é muito sério.
Olhou-me de novo daquele jeito que me deixa hipnotizada... com as pálpebras pesadas, os cílios enormes, e o sorriso preguiçoso no canto dos lábios.
– Muito, muito sério – sua mão voltou para minha nuca, atraindo-me de novo para ele. – Vem aqui, linda.

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–Por que eu estou tendo o pressentimento de que sua irmã me deu esse dia no salão só para me tirar de casa?
– Porque você é esperta, linda.
Ele respondeu baixinho, sua voz rouca quase inaudível por sobre o blues que soava do rádio. Ao invés de me preocupar com sua resposta distraída, contudo, respirei fundo e relaxei as costas contra o banco de couro. O clima ali estava gostoso demais para que eu estragasse tudo com minha ansiedade. Sendo sincera, pela primeira vez naquele sábado, não estava sentindo os nervos me consumindo. Naquele carro escuro, em meio ao cheiro de couro e da colônia dele, com sua mão sobre meu joelho, enquanto avançávamos pelas ruas de Londres embalados por cantores de vozes graves, eu estava completamente satisfeita.
Leve. Contente. Feliz.
Era aquilo que gostaria de fazer em meu aniversário. E, por alguns minutos, esqueci a festa iminente. Infelizmente a viagem foi muito mais curta do que gostaria, e logo estávamos no elevador de nosso prédio, subindo para seu andar e para a festa que sabia que estaria se desenrolando ali. Meu nervosismo estava claro pelo jeito em que meu pé, dentro de um salto preto sete centímetros maravilhoso, não parava quieto no chão, em um tique repetitivo. Nem mesmo me preocupei em dar uma olhada se meu minivestido verde novo tinha ficado tão bem agora quanto no dia em que comprara. Ou se meu cabelo meio ondulado nas pontas não tinha se desfeito ao me encostar no banco do carro, ou, ainda, se a maquiagem que a maquiadora do salão havia feito ainda continuava tão perfeita quanto antes.
Não. Tudo que pensava eram nas várias pessoas que estavam agora teoricamente comemorando meu aniversário e que, na prática, não fazia nem ideia de quem eram. Afinal, devia ter passado o nome de cerca de quinze pessoas para Georgina, mas havia escutado, por acaso, seu comentário sobre como cerca de sessenta já tinham confirmado presença.
Isso era cerca de 45 pessoas a mais do que eu estava disposta a aguentar naquele dia, porém não havia sido me dado opção.
Os pensamentos meio claustrofóbicos estavam me esmagando enquanto observava os números aumentando no visor do elevador, quando senti o braço de circular minha cintura. Seus lábios encontraram me pescoço em um beijo leve.
– Calma, linda. Respire.
O efeito foi instantâneo. Relaxei com um suspiro. Não tanto por suas palavras, mas sim pelo calor de seu corpo contra o meu, por sua respiração suave batendo em meu ouvido.
Foi estranho caminhar pelo corredor silencioso, pois sabia que era a calmaria antes da tempestade, mas não pude deixar de perceber, de maneira não relevante, como o isolamento acústico de seu apartamento era eficiente.
– Pronta? – sorriu, gentil, seu polegar fazendo círculos no interior de meu pulso.
Assenti, respirando fundo. Ele me lançou mais um sorriso triste antes de abrir a porta. Foi como quando a onda do mar nos atinge direto no rosto. A música alta bateu em mim como um tapa e, com ela, o clima frenético de festa. Foi a mão de que fez com que me mexesse, caso contrário provavelmente ainda estaria parada na soleira de sua vida porta, observando como aquela sala, onde ainda ontem havia assistido um filme nos sofás confortáveis, se transformara completamente em algo bem parecido com uma boate, onde várias pessoas que eu não conhecia dançavam na pista improvisada ou pegavam uma bebida no bar bastante profissional montado no canto direito do cômodo.
, que por–
! – Geo surgiu em minha frente, um copo de líquido âmbar na mão e um sorriso orgulhoso no rosto. – O que você achou? – abriu o braço, indicando os arredores. – Ficou ótimo, não?
– Sim, sim – forcei um sorriso. – Está ótimo. E exatamente quem são essas pessoas? – precisei gritar para ser ouvida sobre a música.
– Ah. Você sabe, uma pessoa conhecia a outra e perguntou se podia trazer essa pessoa – gesticulou com a mão livre, tomando um momento para um gole de sua bebida. – Acabou virando uma pequena bola de neve. E cá estamos – deu um gritinho animado.
Ela estava levemente alcoolizada e aquela era obviamente uma batalha perdida, então apenas acenei com a cabeça e deixei que me puxasse para cumprimentar outras pessoas. Felizmente a primeira delas foi Summer. Gostava dela, mesmo com aquela sensação estranha de que ela me lembrava demais alguém que eu conhecia. obviamente estava ao lado dela, abraçando-a pela cintura enquanto os dois pareciam cada pedaço de um casal digno de capas de revistas e artigos sobre como o amor era verdadeiro.
– Parabéns, ! – os dois falaram ao mesmo tempo, cada um tomando um momento para me dar um abraço.
– Obrigada, gente. Mas meu aniversário é oficialmente só amanhã.
– Mas o que conta é o hoje!
– Suponho que você tenha certa razão, .
– Aproveitando… – Summer deu um passo para trás e só então percebi um casal ao seu lado. – Gostaria que conhecesse nossos amigos, Lorelai Blake e Mark Bennington.
E como aparentemente havia uma regra ali sobre só haver pessoas maravilhosas naquele círculo social, não era surpresa que ela fosse deslumbrante e que ele parecesse um modelo.
– É um praz–
! – de repente um bastante alegre graças ao álcool estava ao meu lado, abraçando-me com muito mais entusiasmo do que tenho certeza que ele teria caso estivesse sóbrio. – Feliz aniversário!
O grunhido impaciente que a amiga de Summer deu foi tão perceptível que conseguimos ouvir apesar da batida forte da música. se afastou e, ao avistá-la, primeiro veio a surpresa, depois um sorrisinho malvado.
– Ora, ora, Selene. Quanto tempo. O Submundo tem lhe mantido muito ocupada esses dias?
Ela apertou os lábios em desgosto antes de responder com tanta ironia quando o cantor havia usado:
– Não tanto quanto seus ensaios para coreografia, A.J.
O mais discretamente possível virei o rosto para sussurrar para :
– Selene? Pensei que o nome dela fosse Lorelai.
– Depois te explico – sacudiu a cabeça e deu uma pequena risada rouca. – Ora, Selene, não seja tão sombria. Oh! Espere. Isso são ossos do ofício, não? – ! – Summer esbravejou, intrometendo-se.
– Pode deixar, Summ. A. J. sabe que não pod–
– Lola? – uma voz muito conhecida nos interrompeu, silenciando-a imediatamente.
Na verdade, tirando toda a atenção dela do membro da One Direction e a dirigindo para o recém-chegado. Pude ver surpresa em seu rosto ao reconhecer quem estava ali, porém não tão surpreendida quanto eu fiquei ao vê-la abrir a boca e perguntar:
– Drake?




Lancei a Marchiori o olhar mais confuso que pude, mas ele estava ocupado demais abraçando apertado a amiga de Summer para perceber qualquer outra coisa. Todos eles me olharam com uma interrogação no rosto, porém apenas pude dar de ombros. Estava entendendo tão pouco quanto qualquer um deles.
- O que você está fazendo aqui, Lola? – Drake perguntou quando eles se soltaram.
- O que eu estou fazendo aqui? O que você está fazendo aqui?
- Essa é a festa de aniversário de que te falei. - ! – exclamou como se tivesse descoberto algo muito interessante – É claro! – assentiu ao meu olhar – Esse não é um nome muito comum. Suponho que deveria ter feito a ligação. Drake sorriu daquele jeito superior de sempre, mas havia afeto amaciando as coisas. Confesso que nesse momento eu mesquinhamente senti ciúmes. Marchiori não era legal com... bem... ninguém. Mia e eu éramos basicamente a única exceção a essa regra. Griffiths pelos motivos óbvios e eu, porque era basicamente sua irmã mais nova. Então, sim, eu estava com ciúmes. Não gostava de dividir meus irmãos. Nenhum dos três. - Essa é Summer. – deu um passo para trás e apontou para amiga – Lembra que te falei sobre ela? - Claro. – ele assentiu, sempre bastante contido – É um prazer. E esse deve ser seu namorado, Nick. – olhou para . - É , na verdade. Lorelai gosta de apelidar as pessoas – Summ corrigiu, lançando um olhar repreendedor para amiga. Blake deu de ombros, não se importando nem um pouco com algum tipo de explicação que tirasse Drake, Mia e eu de nossa bolha de ignorância – uma vez que estava claro que os outros sabiam de que ela estava falando. E, com a imensa paciência que lhe era peculiar, Marchiori logo se entediou com aquele tópico e se virou para mim. - Você não me contou que indiretamente conhecia alguém ligada a One Direction. - resmunguei. - Não sabia. - deu de ombros - Estava sob a impressão de que o namorado da amiga de Lorelai fazia parte de uma banda chamada Backstreet Boys. - “Uma banda chamada”? - repeti - Você nunca ouviu falar deles? Drake se limitou a arquear a sobrancelha, como se silenciosamente estivesse questionando minha sanidade por me atrever a fazer uma pergunta tão idiota. Era óbvio que ele não conhecia a banda. - Às vezes me esqueço como você é esnobe. - Às vezes me esqueço de como você parece pensar que eu me importo com essas futilidades. Revirei os olhos de novo. - Às vezes detesto você. - Então acho que talvez deva ficar com aquele presente esnobe - arrastou a palavra - que comprei para você. Franzi o cenho. Drake não me comprava presentes desde a briga épica que tivemos no meu aniversário de 18 anos - quando ele me comprou um carro. Um carro. Eu fiquei tão absurdamente brava com esse gasto que só voltamos a conversar quando ele prometeu nunca mais me dar presente nenhum. Estava estranhando bastante essa conversa e provavelmente teríamos evoluído bem rápido para uma discussão se não tivesse tido um pequeno insight de sobre o que ele estava falando. - Não! - murmurei, segurando sua manga - Você conseguiu comprar? Eu estou tentando há meses! - Marchiori. - deu de ombros, sorrindo daquele jeito que provavelmente só os homens de seu sobrenome conseguiam. Ao fundo, pude ouvir , ao meu lado, conversando com Mia, que segurava na mão de Drake que eu não tinha monopolizado: - Do que eles estão falando? - Nem ideia. Mas isso acontece com certa frequência. Bem vindo ao meu mundo. Estava, porém, mais interessada em garantir que meu melhor amigo não estava brincando com minha gula: - Eles disseram que só começariam a receber encomendas a partir de março. - acrescentei, ainda não completamente convencida. - Mulher de pouca fé. - torceu os lábios em um desagrado meio divertido - Seus chocolates Mayfar estarão nas suas mãos de formiga na segunda. Não foi possível conseguir para antes. - e ali era pareceu genuinamente insatisfeito. Sem me importar com seu comportamento um tanto quanto antissocial, joguei-me em seus braços, literalmente saltitando os dois passos que nos separavam. - Obrigada, obrigada, obrigada. - cantarolei, apertando os braços ao redor dele. Porque ele sabia que aquilo me irritava, Drake apenas deu alguns tapinhas em minhas costas ao invés de retornar o abraço, mas, ao encará-lo, encontrei-o olhando para baixo - e para mim - com um sorriso carinhoso. - ? Afastando-me de Drake, virei para trás e encontrei aquela adorável expressão confusa de meu namorado. Tive vontade de afagar sua bochecha e murmurar um “ow! Fofo!” quando ele tombou a cabeça para o lado, ainda perdido, porém, limitei-me a voltar para o seu lado e tirá-lo de sua miséria. - É que eu adoro esses chocolates artesanais feitos num vilarejo da Suíça. Mayfar Chocolate, já ouviu falar? São bastante difíceis de conseguir - continuei depois de vê-lo sacudir a cabeça - É feito sob encomenda e só algumas vezes por ano. Eu perdi o prazo esse ano. - Ah. Entendi. - murmurou, meio distante Franzi o cenho, mas não tive tempo de questioná-lo. - Oh! - o ar foi expulso de meus pulmões e cheguei a recuar um passo para trás quando alguém me abraçou - depois de aparentemente ter pego bastante impulso para isso. Estava prestes a me afastar de maneira bem pouco educada, afinal, francamente, eu não era a maior fã de contato físico, quando, ao parar de pensar que aquele tanto de cabelo iria me sufocar, pude reparar na cor deles. Mel. Mel derretido. E de repente eu sabia exatamente quem era, ainda que não pudesse acreditar que ela estava ali. - Sky! - passei os braços por sua cintura e a abracei com tanta força quanto ela me apertava. - Surpresa! - deu um gritinho animado ao chegar para trás. Como a perfeição ambulante que ela sempre era, Skylar Prime parecia um anjo em seu vestido curto branco. Um anjo de cabelos sedosos, compridos e saltos Louboutin roxos maravilhosos. - Como… como…? - estava tão chocada que genuinamente não conseguia formular a pergunta. - Pensei que você tinha uma reunião inadiável com aqueles possíveis patrocinadores chineses? Sky deu de ombros, os olhos azuis brilhando de divertimento. - Digamos apenas que seu amigo é bem persuasivo. - balançou a cabeça em direção a Drake. Uma olhada rápida em como ele tentava manter a mais cretina das expressões inocentes e era óbvio o que ele tinha feito. - Você os ameaçou, não foi? A única resposta que obtive foi um arquear condescendente de sobrancelha. Sacudindo a cabeça, virei-me de volta para minha amiga. - De qualquer jeito, estou feliz por você estar aqui. - Não podia perder a oportunidade de lhe desejar um feliz aniversário, ainda que não com um dia de antecedência. - ela se abaixou e segurou uma de minhas mãos - Enviei seu presente para seu endereço. Por que as pessoas ficam falando de presentes? - Você sabe muito bem que não precisava de presente nenhum. - resmunguei, frustrada. - Como não? Depois de todos aqueles cheques que você tem mandado direto para Fun-AH! - soltou um gritinho, afastando-se de mim e do beliscão que lhe dava. Obviamente não foi a mais discreta das atitudes, porém minha necessidade de calar sua boca era muito mais importante no momento. Só esperava que nin- - Que cheques? Mas é claro que sempre podíamos contar com Mia para se apegar aos detalhes importantes que ninguém jamais perceberia. Engolindo em seco o mais discretamente possível, verti minha atenção para seus perspicazes olhos castanhos. - Eu não tenho a menor ideia do que ela está falando. - bati as pálpebras, torcendo para ser mais convincente que Marchiori. - Tenho certeza de que você se confundiu, não é mesmo Prime? - lancei-lhe um olhar significativo. - Sim, sim, claro. Uma confusão. Apesar das palavras abobalhadas, Skye soou bastante convincente. Convincente ao ponto de fazer todos os outros perderem o interesse no assunto, inclusive Mia Griffiths, o que era um feito e tanto, tendo em vista a inteligência que aquela mulher tinha. Supunha que deveria estar bastante feliz por Skylar não ter deixado aquela informação escapar na frente de Green… - Sky, esse é meu namorado, . - aproveitando a oportunidade para mudar o foco da conversa, apressei-me em fazer as apresentações. Seu sorriso sincero durou apenas o tempo necessário para que ela reconhecesse meu namorado. - Você está na One Direction, não é? Quase podia ouvir seus dentes rangindo enquanto ela fazia o que parecia ser um esforço imensurável para manter o sorriso forçado. Inconscientemente me aproximei de , entrelaçando nossos dedos e passando a outra mão sobre seu pulso. - Sim. - respondeu, erguendo levemente o queixo, naquele gesto de desafio com o qual tinha me acostumado - Eu sou. Foi audível o desafio entre nós. Ele não tinha dito o completo “Eu sou. Por que?”, mas era como se tivesse feito. E eu fiquei completamente sem reação. Não conseguia imaginar o porquê da hostilidade velada de Sky, que, inclusive, tinham feito todos se afastarem um pouco, exceto, é claro, por Drake. Meu melhor amigo idiota, mesmo mais discretamente, ainda prestava atenção. Feliz ou infelizmente, fui impedida de reconhecer o elefante branco no cômodo e tentar contornar a situação constrangedora em que nos encontrávamos quando apareceu ao meu lado, silencioso como um gato, fazendo com que eu desse um pulo no lugar, esbarrando em no processo. Meu namorado passou o braço por minha cintura, puxando-me para ainda mais perto quando nós três - quatro, se contarmos também Drake, o mal-educado intrometido - nos viramos para o recém-chegado. Alguns segundos depois, quando ficou claro que não faria nada além de encarar Skylar como se ela fosse um presente enviado pelos céus, limpei a garganta e franzi o cenho para, um tanto quanto impaciente, falar: - ? - Oh! - sacudiu a cabeça levemente, como se tentasse voltar a realidade, e se virou para mim, franzindo o cenho, como se a louca fosse eu. Vai entender… Depois de tomar um gole da cerveja em suas mãos - e de corar um pouco mais -, pareceu ter recuperado a voz e, com o sotaque ainda mais carregado do que o normal, titubeou: - Err… hm.. Feliz aniversário, . - balançou sobre os pés, colocando a mão livre no bolso - Isso. É isso sim. - murmurou para si mesmo, ocupado entre balançar a cabeça e tomar mais um pouco de sua bebida - Vim aqui te desejar um feliz aniversário. Aham. Sei. - Sky, esse é , amigo nosso. Fiquei surpresa por a palavra “amigo” não ter o gosto amargo que pensei que teria. Apesar de que não deveria ser assim tão chocante, afinal, sentia-me cada vez menos incomodada com o jeito expansivo de ; e, quando na presença de , constantemente precisava me lembrar os motivos pelos quais o odiava. , Deus abençoe o pobre homem, não era uma opção para canalizar qualquer tipo de ódio, afinal, ele já tinha que aguentar Green - o que, em minha opinião, já era penitência demais para uma pessoa; ninguém precisava adicionar mais provações ao seu caminho. , por sua vez, era como um marshmallow: simplesmente impossível odiar um marshmallow. … bom… eu me sentia derreter um pouco mais a cada vez que ele colocava os braços ao meu redor. Era aterrorizante como One Direction estava pouco a pouco se tornando uma parte… boa da minha vida. Mais estranho que esse meu relacionamento com os garotos, entretanto, era o clima que se instalara ali. Não que aquela noite estivesse sendo um mar de rosas, mas aquele definitivamente era o momento mais esquisito de todos. Não só porque continuava encarando Prime como se ela fosse uma miragem, ou porque Sky se balançava de um lado para o outro sobre o peito dos pés, mas porque - apesar de tudo isso - ainda zumbia uma tensão entre eles, como se tivessem que se aproximar fisicamente porque qualquer outra opção era inaceitável. O mais discretamente que consegui, lancei um olhar para meu namorado, mas parecia tão igualmente confuso quando eu, e se limitou ao dar de ombros para a pergunta silenciosa que eu fazia. E, sim, sei que não era muito… parceiro da nossa parte, mas aquele clima entre estranhamento e tensão sexual recém descoberta era sufocante. Demais para o que nós podíamos suportar. Então não fiz qualquer tentativa de resistência quando apertou seu braço em minha cintura, numa clara indicação para que nos movessemos. - O que diabos foi aquilo? - agora que estávamos de mãos-dadas e me guiava por entre as pessoas, precisei me inclinar para frente para sussurrar em seu ouvido - Você viu como eles estavam se encarando? parou de andar ao lado do sofá e se virou para mim. Sem dar qualquer indicação de que tinha me ouvido - ainda que eu soubesse que era absolutamente impossível que ele não o tivesse feito - falou: - Você quer uma cerveja? - Não. Eu nã- - Vou pegar uma. - acenou - Já volto. E antes que eu pudesse piscar, ele não estava mais na minha frente. Que merda…? Assim que consegui superar o choque, disparei atrás dele. Várias pessoas estavam na cozinha e algumas delas me lançaram um sorriso e um cumprimento, que respondi com um aceno, minha atenção nunca deixando . Localizei-o assim que entrei no cômodo.Estava encostado na pia, uma cerveja na mão enquanto encarava em silêncio a parede a sua frente. Não lhe dando opção para se afastar de novo, como tinha a impressão de que ele faria, parei na sua frente, entre suas pernas.. - , o que aconteceu? - demandei, cruzando os braços. Ele levou todo o tempo do mundo para arrastar seu olhar do azulejo para mim, judiando de meus nervos no processo. Meu estômago se revirou de um jeito horrível quando encontrei seus olhos vazios de qualquer emoção. Mesmo quando estava decidida a odiá-lo - e agia para que ele me devolvesse esse sentimento - não me olhara daquele jeito. - Por que você não me disse que queria chocolate? Levei dez segundos inteiros para acreditar que havia ouvido direito. - Eu… o quê? Dessa vez seus olhos flamejavam e pude reconhecer que ele estava ferido com o assunto. - Eu te perguntei várias vezes o que você queria várias e várias vezes você me respondeu que não queria nada de presente. Mas aparentemente você queria chocolates. - olhou para o lado e tomou um gole de sua cerveja. Me orgulhava de passar dias juntando variáveis e resolvendo questões lógicas, então não me custou muito chegar ao resultado de que exatamente estava o incomodando. - Você está com ciúmes? - era tanta incredulidade que meu tom foi ficando mais agudo a cada sílaba, até terminar a fase com um gritinho estranho. continuou encarando o vazio e não me deu uma resposta - não que realmente esperasse por uma, afinal meu namorado era tão orgulhoso quanto eu. - ? ? - tentei, mas ele teimosamente se recusava a me encarar - Babe? Só então, e com uma careta de criança descontente, voltou-se para mim. - Babe, eu não queria chocolates Mayfar em meu aniversário. Eu sempre quero esse chocolates. Não pedi para Drake me comprar nada. Para ser bem sincera, nós não conversamos sobre presentes desde meu aniversário de dezoito anos. Não esperava que ele me desse nada e definitivamente não pedi. - aproveitando que sua posição defensiva deu uma abrandada, cheguei mais perto, passando os braços por seu pescoço - Marchiori me comprou isso porque é um intrometido que não sabe seguir ordens. Encostei os lábios em seu queixo, dando alguns beijos curtos ali, pois sabia o quanto ele gostava e porque estava disposta a amansá-lo completamente. - Nem sabia que você gostava de chocolate. - resmungou, mas passou o braço ao redor de minha cintura. - Só de chocolates Mayfar. E Drake só sabe disso porque nos conhecemos há anos. Desci meus beijos por seu pescoço. - Marchiori é como Will ou Jay. Meu irmão mais velho. - dei uma mordida em seu pescoço cheiroso - Além do mais, ele tem namorada. O último comentário saiu sem pensar, apenas falando um fato. Mas percebi meu erro assim que terminei a frase, pois a reação de foi imediata, ficando rígido como uma estátua. - Então ele tem namorada? - segurou meu braço e delicadamente me puxou pra trás para que pudesse olhar em seus olhos - E você? Por acaso não é comprometida? Deus sabe que eu não teria paciência para aquilo em uma situação normal, mas como fui eu que caminhei direto para aquele problema, não era justo bancar a ofendida agora. - Não. - fiquei na ponta dos pés para que minha boca roçasse a sua a cada palavra - Na verdade, eu também sou comprometida, e muito bem comprometida, com meu ciumento favorito. - pude sentir seu sorriso contra minha boca - Agora será que você poderia, por favor, beijar a aniversariante? Abraçando-me pela cintura, meu namorado fez exatamente o que eu pedira, beijando-me forte até que minha cabeça girasse e eu não pudesse me concentrar em nada mais senão em fazer carinho em sua nuca e me arrepiar com a gama de sensações incríveis que só me trazia. Ao nos separarmos, seu sorriso preguiçoso espelhava o meu. Abaixei a mão até alcançar sua cerveja e tomar um gole. - Quer dançar? - Não realmente. - contraiu os lábios em desagrado. Revirando os olhos, coloquei a cerveja sobre a pia atrás de nós e peguei outras duas que estavam em um cooler ali do lado. Puxando-o pela mão, saímos da cozinha e nos esgueirando entre as pessoas que já começavam a ficar bêbadas até chegar ao sofá, onde se sentou e me puxou para seu colo. - Sabe, - encostei o indicador na ponta de seu nariz - um dia desses eu vou conseguir te tirar para dançar. - Não duvido. - respondeu muito sério. - E o que exatamente você quer dizer com isso? passou a mão que não segurava sua bebida pelo cabelo antes de deixá-la sobre minha coxa. Um sorrisinho de lado veio antes de sua resposta: - Porque você por você eu faço eu faria virtualmente qualquer coisa, linda. E talvez eu não devesse ter falado de antes... pois… é... o sorriso em meus lábios agora era tão idiota quanto o dele.

Continua...



Nota da autora: (09.04.2017)
- Sem nota.




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