CAPÍTULOS: [Prólogo] [PART ONE] [1] [2]









Prólogo


Meu nervosismo era inversamente proporcional ao tempo que ainda restava para a minha vez. Aquela contagem regressiva parecia estar na velocidade da luz, assim como meus batimentos cardíacos, que aumentavam de forma preocupante. E a garota que andava de um lado para o outro na minha frente só piorava a situação. Desejava imensamente que ela conseguisse logo abrir esse maldito buraco no chão e sumisse para dentro dele até o inferno.
Não havia conseguido evitar olhar para o relógio no mínimo quinze vezes no último minuto, sentindo-me em uma daquelas cenas de filmes de ação, quando a mocinha olha para a contagem regressiva da bomba-relógio, esperando o herói boa-pinta vir cortar o fio que pararia a contagem. O que, com a minha sorte, provavelmente resultaria no prédio todo indo pelos ares.
Depois de 6 horas na fila – isso porque havia chegado antes da abertura dos portões – faltavam apenas cinco pessoas até a minha vez, tempo suficiente para o meu nervosismo chegar a níveis astronômicos. Encostei-me na parede mais próxima e olhei à minha volta, tentando, em vão, não me comparar com as pessoas ao meu redor. Logo ao meu lado, na garota que aquecia a voz repetidamente, havia uma profusão de lenços e colares em um estilo Madonna-pós-moderna; sentado no chão próximo a ela, dreadlocks e uma barba por fazer davam ao garoto uma cara de náufrago enquanto ele dava batidinhas no tampo do violão em uma melodia imaginária. O que eram meus jeans surrados, apatia e falta de charme contrapostos a tudo aquilo?
Enquanto me arrependia em silêncio por não ter aceitado os paetês e cílios postiços de Jess, chegou a vez do Tom Hanks. Não sou muito a favor de dreads e alargadores, mas preciso admitir que o Tom parecia... solitariamente sexy enquanto caminhava até o backstage. Foi nesse meio tempo – entre fantasias inapropriadas com o Tom e batalhas internas sobre maquiagens e roupas curtas –, que o assistente de palco avisou sobre os próximos a entrar.
Só uma pessoa.
E eu.
Depois do que me pareceu uma eternidade, o assistente chamou a minha atenção e me disse para ir em frente. Pelo menos era o que ele parecia dizer, porque tudo parecia um borrão e soava como uma interferência dentro da minha cabeça. Ele chegou mais perto e estalou os dedos em frente aos meus olhos, perguntando algo diversas vezes e então, sem perceber, eu me levantei e fui até a porta. Parecia estar no piloto automático, não tinha ideia de como estava me movendo e aparentemente não tinha controle algum sobre minhas ações.
De repente: o silêncio.
Parecia que tudo a minha volta havia paralisado e eu me sentia em câmera lenta.
Minha mão alcançou a maçaneta e eu fiz força para puxá-la.
Às vezes, se prestar muita atenção, você quase consegue ouvir aquele momento que sua vida muda.
Pra sempre.


PART ONE


“Never look back”, we said
How was I to know I'd miss you so?
Loneliness up ahead
Emptiness behind
Where do I go?
(From the bottom of my broken heart, Britney Spears)


01


É cômico – e até um pouco trágico – como passamos a vida ouvindo que a “felicidade está nas pequenas coisas” e, muitas das vezes, não paramos para pensar em toda a verdade que essa frase expressa. Em um dia qualquer de inverno, quando eu tinha sete anos, a tensão era como um cobertor na sala de casa, grossa e nos mantendo quentes. Minha mãe estava apoiada no balcão, que dividia nossa pequena sala da cozinha ainda menor, com o corpo afastado e as costas arqueadas – sinal de que ela estava respirando fundo. Apesar de estar de costas para mim, eu sabia exatamente como ela estava: de olhos fechados e sobrancelhas franzidas pelo aborrecimento, sibilando frases que, para mim, não faziam sentido algum, a não ser “não pergunte” e “mantenha-se afastada”.
Uma série de sons e risadas altas do outro lado da porta me alertou de que meu pai havia chegado, porém minha mãe não moveu um músculo na direção dos sons. Fui até a porta e a destranquei, virando a maçaneta e sendo empurrada para o lado pelo peso que meu pai havia feito contra a porta. Ele estava na minha frente, deitado com meio corpo para dentro de casa e levantava uma garrafa. “Opa, opa, quase me fez derrubar”, ele disse com um riso ébrio. O som de sua risada, com o passar dos anos, foi se transformando em um gatilho, mas naquela época, apenas me fez rir com a cena.
“Vá para o seu quarto”. Olhei em sua direção, mas minha mãe continuava na mesma posição, eu poderia até jurar que tinha imaginado, até ela repetir a ordem com mais rispidez.
Mesmo dentro do meu quarto, ainda era claro o que se passava no outro cômodo. Eu não aguentava o som da minha mãe chorando, aquilo me machucava mais do que qualquer coisa. Abafei o som das ofensas e objetos se quebrando, com um travesseiro, depois de me enrolar em um casulo de vários cobertores por conta do tremor – mesmo sabendo que eles nada tinham a ver com o frio.
Não soube dizer em que momento adormeci, mas acordei com minhas cobertas sendo desenroladas a minha volta. “Vim dar boa noite, baixinha” recebi um beijo na testa. “Shh, não precisa chorar... Já acabou, acabou”, ele passou a mão pela minha bochecha, limpando minhas lágrimas. “Papai, a mamãe não quis dizer todas aquelas coisas. Ela te ama, não importa o que ela diga... E eu também te amo, desculpa se eu fiz alguma coisa e--”. Ele me abraçou e eu pude sentir que ele havia tomado banho, o cheiro de álcool tinha sumido quase que completamente, deixando apenas um resquício misturado com sabonete. “Está tudo bem” ele disse com os olhos vermelhos e um sorriso. Todas as coisas que ele havia dito naquela noite, nada me fez acreditar realmente que tudo iria ficar bem. Exceto aquele sorriso. Aquele sorriso foi o que me fez dormir naquela noite. Aquele sorriso que encobria uma promessa.
Na coxia do palco, depois de corredores e mais corredores, meu estômago ameaçou me trair, dançando de cima para baixo e de um lado para o outro, como uma cólica forte no lugar errado, enquanto um cara de cabelo escuro moderninho e rosto familiar tentava me deixar à vontade durante a entrevista. Respondi as perguntas do melhor jeito que consegui e tentei editar as partes mais interessantes da minha vida nas respostas, porque obviamente as pessoas preferem ouvir falar sobre como você decidiu ser uma artista desde que seu pai te deu seu primeiro violão do que dizer que veio porque um dos bêbados do bar onde estava tocando te disse que você deveria tocar em um programa popular de baixo orçamento.
– Você veio fazer o teste sozinha e deixar seu pai orgulhoso? – como resposta, apenas concordei, tentando esconder meu nervosismo. Foi um daqueles momentos como quando o dentista resolve bater um papo enquanto mexe nos seus dentes, sabe? Não importa o que você diga ou tente dizer, soará estúpido; então tentei manter a conversa mínima possível – Olhe – ele fez um sinal para o cinegrafista, que abaixou a câmera e saiu de perto. Segurou meus ombros, abaixando os olhos ao nível dos meus e diminuindo o tom de voz – Sei que é chato falar baboseiras para a câmera minutos antes de entrar lá, mas vou te dar uma dica, tudo bem? – ele sorriu – Isso é um reality show – franzi o cenho, confusa com onde ele estava indo com aquela conversa – Eles querem entreter o público e uma garota que parece indiferente a tudo não chama a atenção.
A verdade é que eu sabia que, do ponto de vista do produtor e do público, eu deveria ser a última pessoa a ser aprovada, eu não iria usar nenhuma história triste ou uma personalidade falsa como plano de fundo para conseguir, eu teria que contar só e unicamente com meu talento. Sei também que eles dizem que só isso é necessário, mas seria estupidez acreditar; é de conhecimento geral que talento é ótimo, mas juntar isso com boa aparência, personalidade e uma comovente biografia é o que eles procuram e é o que faz as pessoas pegarem o telefone para votar em você.
– Precisamos de alguma emoção – terminou.
– Estou muito nervosa – respondi depois de alguns segundos. Ele levantou as sobrancelhas, como se duvidasse – Mas eu estou, veja – mostrei minha mão que praticamente dava tchau de tanto tremer.
– Essa é a única parte do seu corpo que está mostrando alguma coisa... – deu uma risada – Você parece um robô sem sentimentos. Respondeu tudo como se estivesse jogando pôquer – continuei calada – Ok, façamos o seguinte. Demonstre esse nervosismo, tudo bem? Eu vou fazer mais algumas perguntas, você vai respirar fundo quantas vezes quiser e responder o mínimo. Gagueje se possível – a parte do mínimo não seria difícil, era minha estratégia inicial.
Eu não entendi o sentido de tudo aquilo, mas fiz o que ele pediu, porque sinceramente não teria nada a perder... Além da minha dignidade por deixar um estranho me manipular. O câmera parou de filmar outra garota e voltou a lente para mim. Senti-me ridícula fingindo, eu era perceptivelmente uma péssima atriz, toda vez que tentava gaguejar, acabava desistindo no meio da frase e parava de falar, fechando os olhos e respirando fundo, como ele tinha dito para fazer. Por último, ele me perguntou se eu estava pronta para subir ao palco, a lente focou em mim e eu neguei com a cabeça. Ele deu uma risada e, discretamente, fez um sinal com a mão, dizendo para acompanhá-lo. Dei uma risadinha nervosa e o câmera disse ter terminado, saindo de perto.
– Muito bom! Pareceu que estava realmente nervosa ao falar – me parabenizou – Agora suba lá e arrase! – ele me ajudou a subir alguns degraus que levavam até o palco e fez menção de sair de perto.
– Ei – ele me olhou – Qual seu nome? – ele pareceu surpreso pela pergunta e sorriu ao dizer “Chay”.


Andei até o meio do palco, onde havia uma pequena marca no chão, indicando onde eu deveria parar. Fiquei de costas para o tão conhecido X feito por painéis de luzes coloridas, dessa vez de maioria verde e amarela. Sei que soa batido, mas tenho um certo medo de palco, que é facilmente administrado com um pouco de concentração, mas se somado com 3000 pessoas te assistindo e, pior, quatro delas estando ali especialmente para te avaliar, é certamente uma receita para o desastre. Então você não pode me culpar por esperar – na verdade, desejar é a palavra – que fosse como em um filme, que eu chegasse lá e as luzes fossem tão fortes que me cegassem dos olhares arbitrários e então eu desse um show de performance.
Parece patético, mas esse é meu modo de lidar com as coisas. Sempre fui muito sonhadora – e John Lennon um dia me disse que eu não era a única –, mas não sonhadora do tipo unicórnios e fadas, meus sonhos eram mais uma realidade paralela, uma forma de escapar do que não me agradava. Fico ocupada, criando cenários em minha mente que eu sei que nunca irão se realizar e me esqueço de coisas ruins que acontecem comigo ou a minha volta. É quase uma covardia, fugir da realidade para se esconder na fantasia, contudo foi a única coisa que me manteve inteira em algumas ocasiões.
Os livros e os filmes foram grandes aliados, porém, acredito que o maior deles foi – e continua sendo – a música. Identificar-se com uma canção em um momento ruim é como não estar sozinha, você quase sente o apoio e o abraço invisível. Então, sempre que algo ruim acontece, arranco de dentro de mim em versos e busco abrigo na minha própria mente. Meu pai costumava rir dos momentos em que eu parecia estar prestando atenção na conversa, porém minha mente vagava bem longe, algo que só ele percebia. Isto é, até ele parar de perceber as coisas a sua volta. E então parar de rir por completo.
Porém, apesar do que desejava, a luz só fez coçar meus olhos e o que eu mais parecia enxergar era o julgamento nos deles. Cada expressão, cada tique, tudo era visível daquele palco, o que tinha tanto um lado positivo quanto negativo, só faltava-me descobrir qual era o maior.
Pelo que eu tinha assistido do programa até agora – as outras três audições –, apenas Pitty, Nando Reis e o famoso empresário musical Eric Gerardi eram recorrentes, o quarto jurado era um convidado diferente em cada cidade. Focalizei a bancada quando alguém – que logo reconheci como minha cantora preferida quando criança: Sandy – perguntou meu nome e idade. Limpei a garganta antes de levantar o microfone e responder.
– Meu nome é e eu tenho 18 anos – finalizei com um sorriso sem dentes.
– E por que você acha que tem o fator x? – ao mesmo tempo que respondia, dava graças por não terem mudado o nome do programa para aquilo, soava como algo relacionado às Meninas Poderosas.
– Tudo bem – Eric tomou a palavra com sua voz grave quando terminei – E o que vai cantar hoje?
A escolha da música. Estava aí o motivo para as últimas noites mal dormidas. Pode parecer idiotice, afinal parece ser só escolher qualquer uma e cantar bem, mas não é bem assim. Ela pode ser a diferença entre você avançar ou não. Sou acostumada a tocar nos bares com meu violão, porém para um programa como o X Factor, cantar uma versão acústica de qualquer música na audição não iria bem ao meu favor.... Não dava para fazer muita coisa, vocalmente falando, e não era bem o que o programa procurava. Então resolvi me arriscar com uma música pop que eu gostava e achava adequada o suficiente para minha voz e que chamaria atenção.
Assim que respondi, os primeiros acordes de Laserlight soaram no auditório.
Nando levantou a palma da mão, parando a música no momento em que eu iria atingir o refrão. Não posso mentir e dizer que aquilo não me deixou mais nervosa ainda. Eu havia escolhido a música errada no final das contas, ela não tinha nada a ver com o tipo de artista que eu era ou queria ser.
– Está tudo bem? Você parece desconfortável – ele perguntou.
– Hm – cocei o pescoço – Eu costumo sempre me apresentar com um violão, então não sei bem o que fazer com isso – brinquei mexendo meus braços.
Algumas pessoas na plateia e dois jurados riram.
– Quer começar de novo? Mudar de música, talvez?
Pisquei algumas vezes antes de decidir o que iria fazer. Aquela talvez fosse minha última chance e eu não tinha pego dois ônibus e um metrô para tudo terminar antes mesmo de começar.
– Eu acho que prefiro fazer acapella.
– Tem certeza? – concordei com a cabeça, sorrindo – Tudo bem! Tome seu tempo – Nando disse com aquela voz calma e pacata que já havia me feito cantar diversas vezes – e relaxe. Comece quando estiver pronta.
Respirei fundo e fechei os olhos por segundos antes de levantar o microfone.
In the blink of an eye, I was falling from the sky – a música continuava a mesma, eu só havia mudado a melodia, que agora estava muito mais lenta. Na minha cabeça, ela não soava mais como eletrônica, ou até mesmo acústica, havia apenas um piano ao fundo – You and me, face to face and there's so much I could say – não era difícil me relacionar com aquela música, quando ela dizia tanto.
Há tantos momentos em nossas vidas em que deveríamos abrir o peito e dizer o que sentimos, porém nos limitamos ao silêncio, guardando tanto nossas palavras como rancor. Dentro de mim, havia um baú de discursos pré-formados, os quais eu guardava desde criança, principalmente para os meus pais, tudo o que eu sempre quis dizer, mas havia me faltado coragem. E embora, depois de tantos anos e decepções, eu houvesse empurrado aquele baú tão forte e tão fundo que nem me lembrava de onde estava, eu ainda esperava pelo dia e pela coragem de abri-lo.
Abri os olhos e mirei os jurados, Nando estava com os cotovelos apoiados na mesa e me olhava com expectativa, Sandy me mandava sorrisos de incentivo e Pitty e Eric me encaravam blasés, o segundo com os braços cruzados no peito e recostado na cadeira. Ao que parecia, eu os havia dividido.
Cantei o último verso e ouvi Nando agradecer, passando a fala para Sandy.
– Gostei da sua versão para essa música – agradeci com um sorriso – Você teve um pequeno deslize na afinação, logo no segundo verso, mas não foi muito perceptível – balancei a cabeça, para mostrar que estava ouvindo – Apesar de não possuir o alcance vocal da Jessie, sua voz se encaixou bem nessa versão da música.
Sorri e agradeci como se fosse uma coisa boa, mas para falar a verdade, pelos meus ouvidos só havia passado as críticas e aquele sonho parecia cada vez mais longe de ser tocado. Eu não me considerava boa demais, mas esperava ser, pelo menos, o suficiente.
– levantei os olhos para Pitty – Eu curti o modo como você fez parecer que estava conectada mesmo com a música. Parecia que você tinha algo a dizer...
– O que eu não esperaria vindo dessa música em particular – Nando concordou, sério.
– Justamente – Pitty olhou para Nando e de volta para mim – A primeira vez que você cantou, foi até bom, mas nada de especial, você parecia robótica. Na segunda, pudemos realmente nos relacionar – ela terminou e eu agradeci.
– Talvez você devesse escolher músicas vocalmente menos desafiadoras – Eric disse. Isso é que é ser direto – Vamos votar, tudo bem?
Concordei com a cabeça.
– Sinceramente, acho que você poderia ter escolhido uma música melhor, talvez um pouco mais de treinamento – Nando comentou – É um não pra mim.
Aquilo foi um pouco como um choque, visto que eu achava que pelo menos Nando votaria a favor. Senti aquela chance escapando por entre meus dedos.
– Precisa de melhoras, mas é um sim – Sandy disse, dando um sorriso encorajador.
– Acredito que você ainda tem muito que nos mostrar, sim – ao mesmo tempo em que aquilo me deu um fiozinho de esperança, arrancou toda a que restava. Pitty podia até ter votado sim, mas o próximo a votar não parecia nem um pouco meu fã – Eric?


Desci aqueles poucos degraus que separavam o palco da coxia em transe. Não acreditava que, depois de tudo, aquilo estava acontecendo. É incrível como quando achamos que estamos indo em tal direção, a vida dá um jeito de nos surpreender e cria uma bifurcação. Talvez seja o jeito do universo rir da nossa cara enquanto nos mostra quem é que está no controle.
– Como foi? – Chay chegou com o câmera e toda sua “simpatia”.
Olhei para ele ainda meio atônita e sai de perto, não estava com graça para manipulação. Ainda não havia entendido o que ele tinha feito antes da audição e o que ele ganhava com aquilo, mas não me parecia uma boa ideia confiar.
Não, eu não tenho problemas com confiança. Apenas penso bastante antes de confiar em alguém, coisa que acho que todo mundo deveria fazer, evitaria muita decepção ao longo da vida. Você pensa milhões de vezes no que fazer, em como agir, em quem confiar, mas do que adianta? Você não conhece as pessoas, você não conhece a si mesma. Você faz escolhas que te surpreendem, então as pessoas podem tomar decisões que te decepcionam. Confiar nunca deu certo para mim até hoje, por isso, quanto mais velha eu fico, em menos pessoas eu confio.


02


Não sei exatamente o que queriam dizer quando criaram a expressão “no topo do mundo”, mas devia ser uma sensação muito próxima ao que estava sentindo naquele momento. Só que com menos pessoas mal-educadas, mal-amadas e malcheirosas à minha volta.
Sempre tive um talento nato na arte de ignorar, mas até eu me surpreendi com minha própria paciência durante aquele fim de tarde. Dentre reclamações constantes e aparente falta geral de educação, mesmo depois de passar cinquenta minutos dentro de um ônibus lotado, ao lado de uma senhora que insistia em me contar a história de vida do neto “adevogado” dela, ou depois de ter perdido o primeiro metrô porque alguém havia me parado por informações, ou até mesmo agora, sendo obrigada a ouvir um funk assustador de um celular qualquer... Ainda assim, nada parecia ser capaz de tirar aquela régua da minha boca.
Eu consegui. Nunca um simples “sim” havia soado tão bonito aos meus ouvidos. Bom, até os outros dois que seguiram o primeiro, eles com certeza foram tão bonitos quanto. Eu havia conseguido três dos quatro jurados e isso foi suficiente para me deixar sem reação no palco há poucas horas – e o melhor, para me levar ao bootcamp em pouco mais de uma semana.
Nesse meio tempo, eu tinha exatamente 9 dias para deixar tudo em ordem antes da viagem. Quanto mais eu pensava, maior ficava minha lista de coisas a se fazer. Teria que conseguir folga nos meus dois empregos pelo tempo que estivesse fora – não poderia simplesmente me jogar nisso e abrir mão do que era seguro –, estocar uma quantidade suficiente de comida para um batalhão e convencer e ensinar meu pai a cuidar de si mesmo sem morrer de fome ou vender a casa por um engradado.
Acho que as pessoas estavam começando a duvidar se eu era mentalmente capaz para estar andando sozinha pela cidade. Além do sorriso débil que não consegui tirar do meu rosto, havia ficado tanto tempo imaginando como seria maravilhoso ganhar o programa, que parei de prestar atenção ao meu redor e quase perdi minha estação. Quando me dei conta, me levantei de supetão e corri para as portas, que estavam quase se fechando.
Quando disse que nada poderia tirar aquela régua da minha boca, eu não imaginei que o universo tomaria como um desafio. Minha bolsa ficara presa entre as portas e a alça arrebentou quando o veículo saiu em um solavanco, espalhando todos os meus pertences pelos trilhos e destruindo parte deles em seu caminho.
Fiquei ali. Estática. Apenas olhando. Olhando as duas notas de dez reais, antes em minha carteira, serem transformadas em quinhentos pedacinhos rosados e voarem com o vento, provocado pela velocidade do metrô, olhando minha bolsa virar uma massa disforme de tiras de couro falso e verniz e, por fim, olhando meu celular se desmanchar nos trilhos, ao mesmo tempo em que eu fazia uma nota mental de desmentir todo mundo que algum dia disse que aquele nokia era indestrutível (aparentemente essas pessoas não tentaram jogá-lo embaixo de um trem). Caramba, como era sortuda.
Com uma última olhada nos trilhos para me certificar de que nada poderia ser salvo, dei meia volta, ignorando os olhares alheios e caminhando, como se estivesse tudo certo, até os degraus de saída da estação. É, acho que teria que adicionar “banho de sal grosso” na minha lista.


– Cala a boca! – ela dizia pela terceira vez na última meia hora – Você falou e cantou para eles?
– Não, Jess, ela ficou lá, calada, por 15 minutos e eles resolveram passar ela para a próxima fase porque ela esbanja simpatia – David rolou os olhos.
Eu já havia contado várias e várias vezes os acontecimentos daquela tarde para os três, mas parecia ser impossível para Jess absorver mais do que quatro palavras na mesma frase. A única coisa que ela ouvia é que eu “havia conhecido a Sandy” e, segundo ela, por mesquinhez eu havia me recusado a trazer um autógrafo para ela.
– Tudo bem, até eu percebi o sarcasmo nisso, amor – Jess riu, olhando de David pra mim.
– Parem de encher a menina – Alan apareceu do outro lado do balcão, com um pano de prato em uma das mãos e três copos encaixados nos dedos da outra – Só porque ela não é muito... Aberta com as pessoas, não quer dizer que seja antipática – ele posicionou os copos em nossa frente e virou-se para o freezer atrás de si.
– É verdade, pai, quando ela está interessada em algo, ela pode até sorrir – Jess disse a última palavra com os olhos arregalados em falsa descrença.
– Ah, calem a boca vocês – peguei o copo assim que Alan terminou de servir – Alan, preciso te fazer um pedido.
, ele já é casado com a minha mãe, desiste – Jess disse e apenas David riu da piada infame. Esses dois realmente se merecem.
– Então, Alan – não sabia como começar.
Alan foi um dos melhores amigos do meu pai em seu período sóbrio e uma rocha para mim nos últimos anos, não só porque ele abriu sua casa e sua vida, oferecendo-me o palco do seu bar durante os fins de semana e um emprego nas outras noites, e sim porque quando eu mais precisei, lá estava ele e Jess, a qual eu considerava mais que uma irmã. Além de termos crescido juntas, ela era uma das melhores pessoas que eu já conheci. Imagino que isso seja alguma característica presente no gene daquela família, a mãe de Jess também era ótima quando você conseguia ignorar suas tentativas de conversão religiosa. E cozinhava divinamente, diga-se de passagem. Não são só os homens que são conquistados pelo estômago.
Eu tinha certeza de que ele não teria nenhum problema em arrumar outra pessoa durante o tempo que eu estivesse fora, principalmente porque comigo ele não conseguia quase nenhum lucro já que se recusava a receber mais de 10% do couvert artístico dos fins de semana. E não é como se não existisse milhões de outros músicos naquela cidade. Mas não era bem com aquilo que eu estava preocupada.
– Não precisa nem falar, – ele apoiou os cotovelos no balcão – seu emprego vai continuar aqui caso você precise dele... Apesar de que, com seu talento, tenho certeza que vai se esquecer de nós rapidinho quando estiver toda rica e famosa, gravando discos e fazendo shows no Brasil inteiro.
Curvei os lábios em um sorriso sem dentes.
– Obrigada, Alan – me ergui um pouco no banco para lhe dar um abraço – Mas eu preciso de outro favor... E, se não quiser, não tem problema, eu consigo dar um jeito! – ele fez sinal para que eu continuasse – Sabe como é lá em casa... E eu estou com um pouco de receio de deixá-lo sozinho e...
– Ah, pelo amor de Deus, – Jess interrompeu – Você sabe que pode contar conosco! Não iríamos deixar seu pai atrapalhar esse seu momento. Vamos cuidar dele. Até o David pode ajudar, não é, amor? – David concordou com a cabeça e um sorriso.
– Fique tranquila, ganhe aquele negócio e pode nos agradecer com uma mansão nas Bahamas, quando estiver famosa – seu sorriso se transformou em uma risada.
– Vocês sabem que mesmo que, por um milagre, eu ganhe o programa, ele não vai me transformar no Donald Trump, não é?
Jess se soltou de David e me puxou pelos ombros para um abraço.
– Faremos isso porque acreditamos em você, – ela disse com o rosto no meu cabelo – Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém enxergaria o que nós vemos em você!
Após um bom tempo abraçadas, ela me soltou, com a feição séria.
– E como você vai fazer com o Wesley? Vai pedir demissão?
Esse era um problema que eu não queria ter que lidar. Wesley era o dono e chef do Nonno Mio, o restaurante italiano que me empregava nos outros dias da semana, e um grande filho da... Tudo bem, não culpemos sua mãe, seria covardia, a coitada provavelmente também sofria com isso. Wesley era um projeto piorado e tupiniquim de Miranda Priestly e fazia o meu trabalho parecer muito mais importante do que realmente era. Não porque sou altamente valorizada – ah, isso definitivamente não – e sim porque não tenho um minuto de paz, nem durante meus intervalos, nem em meus pensamentos. E, vou te contar, é muito difícil reprimir meus instintos assassinos quando passo tanto tempo dentro de uma cozinha com aquela criatura nefasta... e facas. Várias facas. Ao meu alcance.
Quero deixar claro que não o odeio. Longe disso, porém se ele estivesse em chamas e eu tivesse um copo d’água, eu beberia.
“Ele é um pé no saco, e daí?”, você me perguntaria. Na verdade, são vários pés no tal saco, porém o problema disso tudo era o fato de eu não conseguir enfrentá-lo. Não sei o que acontecia comigo ou qual era o talento dele em conseguir fazer eu me sentir tão inútil – talvez fosse a quantidade de vezes que ele gritava isso para mim –, mas ainda assim, todas as vezes que ele berrava comigo sobre como a folha de manjericão estava no ângulo errado no prato ou algo do gênero, em minha mente estava: “É um enfeite imbecil, ninguém liga para o ângulo em que ela está, contanto que a comida esteja no prato! E o único ângulo em que eu queria que o manjericão estivesse agora, seria um pé inteiro dele 90 graus para dentro da sua...”, mas isso tudo se externava com um: “desculpe, chef”.
Sério, por essas e outras eu até entendia por que ele me acha inútil apesar de eu fazer o meu trabalho de assistente – do assistente do assistente do assistente – do sous-chef perfeitamente. Quantas e quantas vezes ele havia me feito ficar no restaurante mais de uma hora além do meu horário ou me responsabilizado por algo na cozinha que eu não tinha nada a ver? Se não fosse o dinheiro, tão necessário diante de todas as circunstâncias financeiras causadas por meu pai ao longo dos anos, eu já teria pedido demissão. Porém, eu não conseguiria esse salário em lugar algum sem um ótimo diploma. Bom... A menos que eu apelasse para a prostituição, afinal, eu já havia perdido toda e qualquer dignidade no meu primeiro mês de trabalho no Nonno Mio, então, qual seria a diferença? É, só que não.
Eu não queria perder aquele emprego, caso toda essa história do X Factor se saísse um tiro pela culatra. Mas também não queria ter que ouvir suas merdas quando eu pedisse uma folga de quatro meses, ele negasse e eu acabasse pedindo demissão de qualquer jeito. Porque era exatamente isso que iria acontecer. Como eu disse, esse era um problema que eu não queria ter que lidar. E não lidaria.
– Acho que ele vai perceber a dica quando eu parar de aparecer para trabalhar – dei de ombros, tomando outro gole do refrigerante.
– Isso não vai te trazer problemas, ? – Alan perguntou com a feição preocupada.
– Nah – abanei o ar – Trabalho sem carteira assinada, por conta da idade e a periculosidade, então isso traria mais problemas para ele do que pra mim se viesse à tona.
– Espero que esteja certa.
– Ah – estalei o dedo ao lembrar – Você pode procurar a minha identidade, Jess? Está em uma daquelas caixas que deixei com você.
– Sua primeira via? – ela gargalhou, provavelmente lembrando-se da foto do meu primeiro RG – Pra que precisa dela? Vai assustar alguém com sua foto?
– Idiota – cerrei os olhos – Perdi a outra e não dá tempo de fazer uma até a competição. É uma longa história.
– Como conseguiu perder de novo, ? – já ia começar a repetir o meu argumento eu-só-achei-que-tinha-perdido-a-primeira, mas ela me interrompeu com um gesto – Eu te ligo amanhã e você pega ela lá na faculdade, pode ser?
– Hm, sobre isso – cocei a nuca – Você pode até ligar, mas não vai adiantar muito, então... Eu passo na sua casa à noite.
– Como assim não vai adiantar? , o que aconteceu com seu celular?
– Como eu disse – ri sem humor – é uma longa história.


Rumo à rodoviária, no compacto amarelo de Jess, eu já tentava me preparar mentalmente para, provavelmente, os cinco dias mais estressantes dos últimos meses – só não digo “de toda a minha vida” porque teria muito com o que comparar. Eu estava a caminho da capital para o que poderia definir a minha vida de agora em diante, sem múltiplos empregos, sem preocupação com hipotecas, fazendo o que eu gostava e dominando o mundo com minha música. Ok, talvez não a última parte, mas uma garota podia sonhar... Certo?
Ao meu lado, Jess ocasionalmente dava gritinhos estranhos e batucava com os dedos no volante no ritmo da música que tocava na rádio, algo sobre infartos e superação ou algo assim. Minha mente estava divagando longe o suficiente para nem aquela batida pop irritante ou os gritinhos igualmente irritantes de Jess me tirarem do sério.
Noites após minha conversa com Jess e Alan, esperei meu pai em casa por várias horas antes de desistir e ir dormir, já pela madrugada. No começo, eu ainda acordava assustada quando ele chegava fazendo barulho, porém, era como dormir com ventilador, no começo te impede e te mantém acordada por horas até você desmaiar de cansaço, mas depois você se acostuma e se torna difícil dormir sem. Então, algumas horas depois, acordei, estranhando o silêncio, a falta de portas batendo ou coisas sendo derrubadas pela casa. Mesmo já estando habituada a essa situação, ainda não era capaz de deixar de sentir um fiozinho de preocupação com o que podia ou não ter acontecido com ele.
Como um ritual, coloquei um moletom por cima do pijama, fiz uma xícara de chá de camomila e fui até o telefone público, a poucos metros da minha casa. No interior do orelhão, havia uma infinidade de besteiras rabiscadas, desde declarações de amor até desenhos de partes do corpo, porém eram aqueles três números de telefone escritos em marca texto azul, bem acima do telefone, que eu olhava. Depois de inserir o cartão telefônico, apoiei o aparelho no ombro e, com a mão livre, disquei aleatoriamente um dos três números.
– Daniela? É a – disse ao ser atendida após quatro toques – Não? Tudo bem, vou tentar com o Edgar, obrigada. Ah, pois é – tomei outro gole do chá enquanto Daniela tagarelava sobre o quanto ela estava feliz pela minha aprovação no X Factor – Obrigada, Dani, mas ainda não estou no programa, você sabe, né? – Daniela era uma ótima pessoa, mas podia falar demais nos momentos mais inapropriados – É – dei uma risadinha educada – Bom, tenho que ir. Sim, aham, pode deixar. Vou sim, obrigada. Tchau.
Puxei o gancho, já discando outro número, dessa vez sendo atendida no primeiro toque. “, estou tentando falar com você há horas, mas seu celular está dando fora de área”, Edgar cuspiu antes mesmo que eu abrisse a boca. “Estou enganando ele com cerveja com água há um bom tempo, mas já está quase na hora e eu preciso fechar, querida”.
– Obrigada, Edgar, pode segurá-lo mais um pouco? Já estou indo buscá-lo.
Bebi o restante do chá de uma só vez antes de rumar para a casa de Jess, a poucas quadras de onde eu estava, a qual eu sabia estar acordada, pois ela sempre passava os finais de semana com David até altas horas com a desculpa de querer “aproveitá-lo ao máximo” antes de ele voltar para o interior, onde fazia faculdade e “passar uma vida longe” dela.
Busquei discretamente a chave reserva entre os arbustos próximos ao muro, encontrando-a no lugar de sempre, em uma fenda logo atrás do duende. Porém minha tentativa de não fazer barulho foi falha quando tropecei na Wal, a siamês maldita e escandalosa de Jess, e cai, batendo estrondosamente o portão.
– Já que era para acordar todo mundo, não era melhor ter usado a campainha? – Jess apareceu na sacada atrás de mim, rindo com David – Não se preocupe, os pais de Jess estão fora em uma noite romântica – ele juntou as mãos e piscou os olhos repetidas vezes.
Eu, já em pé, ainda encarava, com as mãos na cintura, os estilhaços no chão a minha frente.
– O que aconteceu?
– Meu pai está tonto demais para voltar sozinho pra casa – olhei pra trás e pra cima, onde eles estavam – Então estou aqui querendo o carro emprestado.
– Isso eu já imaginava, idiota – Jess rolou os olhos – Quis dizer: o que você tanto encara aí?
– Ela está morta, tadinha... Toda despedaçada.
Em um milésimo de segundo, Jess já estava histérica atrás de mim, perguntando o que eu tinha feito com sua gata e por que eu odiava tanto o pobre animal.
– Que gata o que, Jess? – franzi as sobrancelhas pra ela – Estou falando da minha xícara! Sua gata me fez derrubá-la e olha só o que aconteceu com a pobrezinha. Eu gostava dela, sabe?
– Por que você trouxe uma xícara, ? – David fez careta – Você é muito estranha, cara.
– Conte-me algo que não sei, David. Toma – Jess jogou um molho de chaves em minhas mãos e pegou a gata no colo – Pode me devolver amanhã. Se eu precisar sair, o David me leva.
– Amanhã? Você quer dizer hoje? – perguntei.
– O dia só começa depois que eu acordo, dá licença – ela jogou os cabelos e saiu rebolando de forma forçada – Não quer que a gente vá com você? – ela perguntou, soltando a gata em frente à porta aberta. Neguei – Tudo certo, então, boa noite. Ah, e tenha paciência com ele, viu? – ela piscou, e eu agradeci.
Com muita ajuda, meu pai estava bem acomodado no banco traseiro e, por insistência de Edgar, com um balde perto do rosto. Eu havia deixado claro que era desnecessário, visto que ele já tinha passado da fase de vomitar ao encher a cara a algumas trezentas ressacas atrás, mas admito que cuidado nunca era demais e o carro de Jess ainda tinha aquele cheirinho de novo. Agradeci Edgar e lhe entreguei alguns trocados, suficientes apenas para pagar a primeira de muitas rodadas do Sr. naquela noite, com a promessa de que Jess passaria lá na próxima semana com o restante.
– Estamos indo para casa – respondi com mau humor a crise de “onde estou” no banco traseiro.
zinha – ele se pôs entre os bancos – como você está, querida?
– Sóbria – fuzilei-o pelo retrovisor – Ao contrário de certas pessoas.
Ele estalou os lábios.
– Sabe o que me contaram hoje? – ignorei a pergunta. O que não o impediu de prosseguir – Que minha filha vai estar na TV – ele gargalhou debilmente até soluçar.
Não queria ter aquela conversa com ele sóbrio. E definitivamente não queria ter aquela conversa com ele bêbado como um gambá.
Meu pai não era a mesma pessoa desde que começou a beber daquela maneira, mas quando embriagado se tornava uma versão ainda pior de si mesmo. Uma versão mais estúpida, grosseira e desagradável. Yep, uma companhia agradabilíssima, pode crer.
– Então, eu disse “até parece”, e ele disse “to dizendo, eu vi ela na televisão” – balbuciou algumas coisas incoerentes e continuou – aí eu falei, – deu risada – eu disse “ah é? E ela vai servir mesas na televisão?” – E gargalhou ainda mais, como se tivesse dito a piada mais engraçada do mundo.
Respirei fundo, tentando ao máximo prestar atenção apenas no trânsito.
– O cara continuou insistindo e insistindo – fez careta – Tem gente que consegue ser tão chata e sem noção, não é? Minha filha fazendo algo importante o suficiente para estar na TV – ele riu ainda mais, jogando as costas contra o banco e segurando a barriga.
“E esses foram a One D...”
– Ok, – ela desligou o rádio – O que há nessa sua mente conturbada?
– Por que a pergunta? – encostei a bochecha no apoio de cabeça do carro, virando o rosto pra ela. – Bom, estamos dentro desse carro há mais de quinze minutos e você não disse uma palavra. Por que está nesse silêncio todo?
– Talvez eu só esteja mostrando respeito à morte do bom gosto musical – sorri com sarcasmo, me referindo à música chiclete que antes tocava.
– Ah, cale a boca – ela rolou os olhos, rindo – Meu gosto musical é jovem, alegre e vivo, ao contrário do seu, Srta. Eu-vejo-e-ouço-gente-morta!
Ri com nosso momento “O Sexto Sentido”.
– Chegamos – ela desligou o motor do carro, virando-se para mim – Você tem noção de que amanhã, nessa mesma hora, você estará em um hotel chiquérrimo, na capital, esperando para cantar para quatro famosos e depois para o mundo? – ela começou a fazer barulhinhos estranhos de animação enquanto descíamos do carro – Espero que não se esqueça dos seus amiguinhos brasileiros quando estiver cantando no Madison Square Garden depois da Beyoncé abrir seu show!
Gargalhei.
– Já é sonho demais eu abrir pra Beyoncé, mas isso aí que você falou parece saído de uma mente com distúrbios causados por uso excessivo de drogas ilícitas, Jess – a abracei – Mas obrigada... por ser uma das únicas pessoas que acreditam em mim! – olhei para cima para evitar qualquer lacrimejo e funguei, Jess apertou ainda mais o abraço – Eu não vou esquecer vocês, sem chance disso.
– Agora vá lá e arrase! – ela me soltou, dando-me um empurrãozinho – Não se esqueça do que disse Queen Bey: “nada é perfeito, mas vale a pena” – ela sorriu.
Concordei com a cabeça, indo em direção ao ônibus, que já se encontrava estacionado. Entreguei minhas malas, recebendo um papelzinho de retorno e coloquei um pé para dentro do veículo, dando uma última olhada para Jess, que acenava loucamente com os olhos vermelhos e um pedaço de papel rabiscado com “ HAS THE X FACTOR” em letras garrafais.
Lacrimejei por segundos antes de sorrir abertamente e entrar no ônibus. Percebi que não importa quantas pessoas te digam que você não consegue ou não pode fazer algo, basta uma que acredite verdadeiramente em você e o mundo fica maior e o céu passa a ser o limite. E Jess tinha aquela confiança cega em mim quando nem eu mesma acreditava, era o tipo de pessoa que, o que quer que aconteça, você sabe que estará lá quando você precisar de uma mão. Com ela, nunca precisei fingir, eu podia ser a chata insegura e ela podia ser aquela preguiçosa de gosto musical duvidoso.
Na vida, você percebe que há um propósito para todos que você conhece. Alguns vão te testar, uns te usar e outros te ensinar. Mas, mais importante, alguns trarão à tona o melhor em você, te incentivarão a fazer o melhor e a ser o melhor que você pode.


Continua...



Nota da autora: (13/08/2015) (assista ao trailer) Demorou um pouco, mas chegou! Para me redimir, a próxima atualização será dupla, enorme, gigante e com uma surpresinha ;) Obrigada pelo feedback, garotas, gosto muito de ler comentários, sugestões e até críticas ✌ tudo para melhorar a história para vocês. Como sempre, um obrigadão à Leti pelo cuidado com Primadonna e também a todas que lêem, comentam, vão no twitter me perguntar da fic (eu adoro responder haha) e também às tímidas que apenas lêem, obrigada a todas ♥
qualquer coisa, ☛ @notthec00lkid | tumblr pessoal | tumblr da fic
Mmwah :*



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