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Última atualização: 08/01/2017



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20- Ops, baby, I love you


"Now I accidentally need you, I don't know what I do…"

[…]

POV

O herói do filme estava desesperado para pegar a mocinha do jipe dos bandidos. Ele olhou para tudo que havia disponível ao seu redor: uma arma com a qual ele poderia atirar no motorista, o cavalo no qual poderia montar e tentar alcançá-los lá na frente. Mas de todas as coisas, ele escolheu justamente a mais impossível: uma corda, que amarrou – na velocidade da luz – numa árvore, e então se jogou de lá igual ao Tarzan. Acredite ou não, ele conseguiu pegar a garota do jipe e cair do outro lado. Os dois se beijaram numa cena ridiculamente melosa de filme de ação.

[N/a: Podem dar play nessa, minhas paixonites]

Mas eu estava sorrindo, ainda que um sorriso de ironia. Aparentemente, tinha conseguido me contaminar com seu gosto cinematográfico estranho.
Olhei para o lado pela primeira vez em algum tempo. Não que eu não quisesse olhar antes, mas as coisas estavam meio esquisitas, e eu não sabia até que ponto tinham mudado entre a e eu.
Ela estava dormindo um sono profundo, a cabeça em cima da minha mão como se fosse um travesseiro. Eu já a tinha acordado sem querer uma hora antes, mas ela parecia tão em paz que não queria fazer de novo.
- Então vai ter que dar seu jeito. – Falei baixinho para mim mesmo.
Me mexi com todo o cuidado possível para não acordá-la, puxando minha mão de leve. Depois me inclinei e passei um braço por trás de seus joelhos e outro nas costas, pegando-a no colo. Rainbow franziu o nariz e respirou fundo, mas não despertou.
Fui andando devagar escada acima, torcendo para que o chão não rangesse ou Stevie decidisse vir pulando feito um doido atrás de nós. A porta do quarto dela estava encostada e eu a empurrei com o pé, entrando no cômodo.
A cama de ainda estava bagunçada da noite anterior – os lençóis desdobrados, o travesseiro torto.
A coloquei ali em cima com todo cuidado, ajeitando seus pés e a cabeça. sorriu de olhos fechados, e eu sorri também, embora ela não pudesse me ver. O que quer que estivesse sonhando, devia ser ótimo.
Fui até a janela dar uma olhada no tempo. Já estava esteando. Talvez eu já pudesse ir embora. É, talvez fosse melhor eu ir embora.
Olhei para uma última vez e saí do quarto.
Desci as escadas, mas quando cheguei à porta da frente, um pensamento surgiu em minha cabeça.
E se ela acordasse de repente? E se acontecesse alguma coisa enquanto Jack estivesse fora? E se ela tivesse um pesadelo?
Era muito bobo da minha parte pensar aquilo. sempre ficava sozinha em casa.
Mas, sei lá, eu não queria deixá-la sozinha ali.
Stevie, muito mais rápido com decisões do que eu, passou à minha frente escada acima. Ele sempre dormia no quarto da , o que não era nenhuma garantia de segurança.
Balançando a cabeça para o quão patético eu era, enviei uma mensagem para Henry avisando que ficaria na casa dos Pie até o Jack voltar, e subi as escadas de novo.
Abri a porta devagar. estava na mesma posição em que eu a tinha deixado.
Com toda a delicadeza possível, me sentei ao seu lado na cama e fiquei ali, totalmente sem jeito, sem saber bem por que tinha voltado e sabendo que era muito provável que ficasse ali por horas até que Jack voltasse.
Olhei para Rainbow, dormindo tão serena. Ela era tão bonita. Provavelmente mais bonita do que pensava. E sem dúvida bonita demais para mim.
Para minha surpresa, me peguei bocejando. Nem tinha percebido que estava com sono, mas me senti cansado de repente.
Cogitei descer e me deitar no sofá, mas antes que o fizesse, a mão de tinha achado a minha por acaso, o que me deu um susto. Por um instante, pensei que ela tivesse acordado, mas não era isso. Ela devia estar só sonhando de novo.
Talvez eu pudesse ficar ali e descansar só um pouco.
Escorreguei na cama até estar deitado de lado, sem puxar minha mão.
Fiquei por alguns instantes olhando o rosto dela, meu coração batendo mais rápido e mais devagar ao mesmo tempo. E eu sabia que não era só por ela ser tão bonita. Era tanta coisa, e eu nem sabia explicar. Mas estava ali desde a primeira vez que eu a vira, naquela mesma cama.
Aos poucos minha respiração foi ficando mais pesada. Eu sabia que Stevie também tinha pegado no sono, em cima do travesseiro que Rainbow havia lhe dado. E a última que vi antes de cair no sono também, foi o rosto dela.

[N/a: Podem parar.]

POV PIE

Acordei como se estivesse bêbada. Senti o tecido fino da colcha da minha cama pressionado contra minha bochecha, mas não me lembrava de ter subido as escadas. A última coisa de que eu me lembrava era o sentado ao meu lado no sofá da sala.
Abri os olhos devagar.
E pisquei.
Engoli em seco e pisquei de novo, acordando completamente, mas sem sair do lugar.
Respirando devagar, dormia feito um anjo bem ali, na minha cama, de frente pra mim.
Meu coração começou a bater descompassado – não sabia dizer se pelo susto ou por aquela situação em si.
Certo. Como isso tinha acontecido?
Uma coisa de cada vez, , minha consciência soou na cabeça.
Noite passada, noite passada... Eu estava cochilando e sonhei com ... E aí fiquei morrendo de vergonha e não olhei mais para o lado direito. E agora ele estava dormindo na minha cama. E ele não tinha tirado nem os tênis – constatei olhando pra baixo. Mas o que tinha acontecido?
Deus, que eu não tenha feito nada sonâmbula, pensei mortificada.
Olhei para de novo, não conseguindo deixar de suspirar baixinho. Ele estava tão bonitinho dormindo. Como podia ser? Ninguém ficava bonito de verdade dormindo.
Epa!
Levei a mão a cabeça, me dando conta de que minha cara devia estar pavorosa. Meu cabelo parecia uma maçaroca embaraçada.
Eu tinha que sair dali antes que ele me visse.
Me arrastei para fora da cama, fazendo uso da delicadeza de líder de torcida que ainda estava absorvendo, e quando finalmente fiquei de pé, meus olhos encontraram a janela. O sol atravessava a fresta das cortinas. A chuva tinha passado e...
MAS O QUÊ? QUE HORAS ERAM?
Não, não, não... Então papai e Miguel tinham chegado e visto ali?
Cobri o rosto com as mãos, minhas orelhas queimando.
Mas será que papai não teria nos acordado se tivesse nos visto ali? Certo, talvez ele não, mas o Miguel teria. Não teria?
Saí do quarto de fininho, deixando ali.
Entrei no banheiro e fiquei ali o mínimo de tempo possível. Depois desci as escadas, um passo de cada vez, me preparando para o que poderia ouvir.
Papai estava na bancada, de costas para a porta. Assim que ouviu o barulho dos meus passos, ele se virou.
- Oh, bom dia, Rainbow. – Sorriu tranquilamente.
- Bom dia, pai. – Retribui, nervosa. – Pai, por algum acaso você foi no meu quarto depois que chegou? – A esperança batia em meu peito quando perguntei.
- Fui, sim, como sempre. – Ele assentiu levando a garrafa de café para mesa e se sentando. – Se está perguntando por causa do , eu o vi. Não se preocupe, filha, não vou te mandar para o convento. – Apontou para a cadeira.
Bem mais aliviada, mas ainda morrendo de vergonha, me sentei de frente para ele.
- Vocês dois estavam dormindo um sono tão bom que fiquei com dó de acordá-los. – Papai me serviu um café. – Ele ainda está lá em cima?
- Está. – Respondi. O jeito despreocupado de papai com tudo me deixava perdida às vezes. Mamãe provavelmente estaria pirando àquela altura.
Miguel entrou na cozinha parecendo sonolento, mas me olhou sério por um instante quando me viu. Prendi a respiração, imaginando se ele me daria um sermão.
- Se ficar grávida antes de terminar a faculdade, eu mato o . – Ele disse apenas, e foi pegar uma xícara de café.
- Ahr. – Grunhi, abaixando a cabeça na mesa, encabulada. – Nós não fizemos nada.
- Sei disso. Conheço minha filha, e conheço o quase melhor ainda. – Papai ergueu as sobrancelhas.
- Garotos de dezoito anos são imprevisíveis, Jack. – Miguel alertou.
- Você com certeza era, mas não os meus garotos. – Papai deu um sorrisinho orgulhoso. – Além disso, eles, graças a Deus, estavam vestidos.
- Meu Senhor, chega dessa conversa. – Implorei, fazendo com que papai risse.
Ouvimos barulhos atrás de nós. Stevie entrou na cozinha e foi direto para a tigelinha de ração, que o próprio papai devia ter enchido ao acordar. Logo atrás dele apareceu , um pouco sonolento.
- Oi. – Ele disse.
- Ora, ora. – Papai o encarou com seriedade fingida. – Pode explicar o que aconteceu noite passada, meu rapaz?
ficou um pouco mais acordado, embora não parecesse necessariamente com medo do meu pai – nenhuma novidade. Ao ver Miguel, no entanto, ele inflou as bochechas.
- A dormiu no sofá. – Ele disse, esclarecendo as dúvidas de todos nós. – Eu a levei lá pra cima e acabei pegando no sono também.
Papai sorriu vitorioso para Miguel.
- O que eu disse? – Abriu os braços.
- Pegue no sono quando já tiver chegado na sua casa da próxima vez. – Miguel avisou.
- Tá. – engoliu em seco.
Balancei a cabeça, imaginando se haveria no mundo família mais constrangedora do que a minha.
- Não vai tomar café aqui? – Perguntei a .
- Ah, não... Minha mãe meio que deve estar surtando a essa hora. – Ele balançou a cabeça. – É melhor eu ir.
- Certo, até depois.
assentiu com um sorriso tímido e foi embora.
E eu não consegui tirar o que havia acontecido da cabeça pelo resto do fim de semana.

🌴💚🌴


Coloquei a mochila nas costas, mas estava cedo demais. Me sentei na cama e fiquei ali, pensando.
As coisas estavam tão... Esquisitas, desde que Sofia fora embora.
Na verdade, não eram bem as coisas. Era eu.
Toda aquela confusão com minha prima e tudo que ela tinha dito quando fizemos as pazes parecia ter tido um efeito maluco em mim. Eu simplesmente não conseguia mais agir do mesmo jeito que antes com , e começava a me preocupar com o motivo disso.
Será que Sofia estava certa desde o início? Eu estava gostando do ?
Não... Seria uma ironia muito grande depois de todo aquele trabalho para ganhar o de volta.
Eu só estava suscetível a pensar isso por causa da Sofi e de todas as mentiras que eu tinha inventado. Era isso.
- ! – Ouvi chamar.
Fui até a janela e vi , acenando de dentro do carro. Respirei fundo, acenando de volta, e desci as escadas decidida a voltar ao normal.

- , você precisa sair dessa bad. – disse algum tempo depois, dentro do carro.
- Não estou no clima pra sair, obrigado. – puxou mais o capuz sobre a cabeça e ficou ali, a cabeça encostada no vidro do carro.
Ele estava assim desde a última vez que vira Sofia. Deprimido como estava, fazia parecer que ela tinha morrido. Dava pena de ver. Para melhorar, ele tinha convidado Amber para o baile quando estava com raiva, e agora ela achava que eles estavam mesmo namorando.
- Você vai ver a Sofi de novo, , podemos ir à Venice um dia desses. – Tentei animá-lo.
- Até lá ela já vai ter arrumado um namorado roqueiro que não gagueja quando ela está perto, nem faz referências em excesso a quadrinhos. Mas obrigada por tentar me ajudar.
- Não se preocupa, vai passar daqui a uns dias. – disse para mim.
Assenti e olhei para ele, que estava concentrado na estrada. E fiquei olhando só mais um pouquinho. Talvez por mais uns dois minutos direto. Até que virou para mim de repente.
- Tá tudo bem? – Perguntou.
- Han?
- Tem alguma coisa errada comigo? Quer dizer, você tá olhando pra mim, não tá? Tive a impressão que sim.
- Ah, não. – Balancei a cabeça rapidamente. – Você cortou o cabelo?
-... Sim. Ontem.
- Ficou bom. – Sorri estranha e na mesma hora me virei para a janela. Depois de um segundo, olhei para trás.
Como eu já imaginava, estava me encarando, e eu sabia que tinha sido pega pelo nerd da matemática de novo.

- A gente se vê no intervalo. – sorriu quando nos separamos no corredor.
- Tá. – Meneei a cabeça, e então me aproximei de e lhe dei um beijo no rosto. – Prometo que vou falar pra Emma ser menos cruel com você hoje.
- Valeu, .
Me afastei dos dois e caminhei rumo à minha primeira aula, pensando no exercício avaliativo que teríamos dali a alguns dias. Estava na metade do caminho quando senti um solavanco. Quando dei por mim, estava dentro do armário de vassouras.
- Qual é o seu problema com este lugar? – Franzi o cenho para no escuro.
Ele sorriu e os olhos brilharam a meia luz.
- Nenhum. – Respondeu. – Ele é discreto, ninguém fica reparando no jeito como eu te olho.
Balancei a cabeça. Ele não perdia o jeito mesmo.
- O que você quer? – Perguntei.
- Quero saber o que deu a história da Sofia. Ela não contou que nos viu pro , contou? Ou pro seu pai?
- Não, ela não contou. – Respondi rapidamente. Depois raciocinei um pouco melhor. – Mas ela poderia ter feito. Meu pai ia ficar muito bravo, e o provavelmente arrebentaria sua cara.
A risada debochada de foi quase ofensiva. Ele devia achar que não podia com ele.
- Olha, sei que me arrisquei um pouco demais lá. Arrisquei a nós dois. Estava preocupado com você. – Ele explicou. – Mas já que já ficamos no limite, podemos nos arriscar só mais um pouquinho agora?
Ele foi tão rápido quanto sempre era, quase sutil demais ao aproximar seu rosto do meu.
O problema é que eu não estava como das outras vezes. Meu coração batia rápido e eu via tudo em câmera lenta, mas quando dei por mim, estava pensando...
Em .
Engoli em seco, nervosa ao perceber que estava perto demais, sabendo que eu devia estar ficando louca. Então dei um passo para trás e ele ficou sem entender.
- O que...
- Eu tenho... Tenho que ir.
Saí dali a toda velocidade, tentando descobrir o que havia dado em mim.
Recusar um beijo de , o promissor artilheiro, por estar pensando em , o babá de cachorros.
Não, eu só podia estar enlouquecendo por completo.

🌴💚🌴


- Respira, . Você só tem que respirar. Isso tudo é psicológico.
Deitada no gramado, eu encarava o céu nublado. Era isso, só podia ser. Eu estava pirando porque tinha perdido a noção de realidade e mentira. Era do que eu gostava. Era ele que eu queria.
- Está deitada aí pensando no ? – Uma vez perguntou.
Me levantei na mesma hora, assustada.
- Nossa, parece que viu o fantasma da Jasmine com uma faca. – Emma riu, e deduzi que o primeiro comentário havia sido de Jodi, que a acompanhava, assim como Summer.
- Eu só estava concentrada. – Balancei a cabeça.
- Pensando no ? – Jodi perguntou, as três se sentando no chão ao meu lado. – Porque eu vivo distraída pensando no Brad. Outro dia queimei a comida por isso. A mamãe ficou uma fera.
Summer riu e balançou a cabeça, tranquila.
- Mas é claro que ela estava pensando no . Eu costumava pensar no Junior o tempo todo quando começamos a namorar.
- E agora não pensa mais? – Perguntei automaticamente, a encarando.
Summer olhou para mim por um instante antes de responder, e me preocupei se não teria parecido interessada demais. Então ela disse:
- Penso. É claro que sim. Só que agora pensar no Junior significa pensar também em toda essa situação em que estamos. É diferente do começo do nosso namoro.
- Por falar nisso, , como vai nosso plano? – Emma perguntou.
- É verdade. – Jodi concordou. – Já tem alguns dias desde que mexemos nossos pauzinhos para trazer o Junior de volta.
Oh, droga, elas estavam certas. Toda aquela história com Sofia tinha me distraído dos meus planos, e se eu não tomasse mais cuidado ia parecer muito óbvio que eu não estava nem um pouco preocupada com o namoro de Summer, a não ser num sentido completamente contrário ao que elas imaginavam.
- Ah, é verdade! – Levei a mão à testa e balancei a cabeça. – Desde que a Sofia chegou eu fiquei tão atrapalhada que não fiz mais nada. Sinto muito, Summer.
- Relaxa, Pie, eu entendo. – Summer dispensou. Depois ela sorriu, pensativa. – De todo modo, vai poder voltar a fazer seu trabalho. Está chegando uma data muito importante, que tenho certeza que será muito útil para nossos planos.
- É mesmo? – Fiquei desconfiada. – Que data?
- O baile de Outono! – Jodi se colocou de pé num salto comemorando. – É simplesmente a coisa mais maravilhosa que você verá aqui, ou pelo menos uma delas.
- Nós vamos colocar lindos vestidos e ficar super gostosas. – Emma ficou de pé também, puxando Jodi e dançando teatralmente. – E sair em fotos e ser adoradas pelos mortais, porque agora andamos com a rainha oficial da Jacksonville High!
- E você sem dúvida será convidada pelo . – Summer riu dela.
Emma fechou a cara no mesmo instante, rolando os olhos.
- Você tinha mesmo que estragar tudo, não é, Olsen?
Nós todas rimos dela, e Summer ficou de pé, olhando para mim.
- De qualquer forma, , você tem muito o que fazer para o plano e para a felicidade de todos nesta escola. Como uma líder de torcida e minha nova amiga, é de se esperar que você participe da organização do baile. E não, você não tem opção. – Ela disse quando abri minha boca. – Agora levante desse chão e esqueça um pouco seu namorado. Temos que treinar para o próximo jogo.

🌴💚🌴


Lá estava eu, sentada no sofá, com meu braço direito todo dolorido, tentando decorar minhas falas para o próximo ensaio da peça, amaldiçoando o dia em que tinha aceitado ser líder de torcida. As meninas disseram que eu deveria me sentir orgulhosa, pois claramente sentia muito menos os impactos dos treinos agora, o que significava que eu estava evoluindo, mas tudo que eu queria era tomar um relaxante muscular e nunca mais sair daquele sofá.
- Então é você que tem se atrevido a roubar as ervas do meu jardim? – Li em voz alta, tentando encontrar o tom de voz adequado para Ebony Purplewood. – Droga, , isso ainda tá muito ruim!
Respirei fundo e fechei os olhos, ficando de pé e me esforçando para entrar no personagem.
- Então é você que tem se atrevido a roubar as ervas do meu jardim?! – Perguntei furiosa.
- Com certeza não. Por favor, não chame a polícia.
Olhei para trás e encontrei , com as mãos para o alto, se fingindo de assustado.
- Haha, muito engraçado. – Eu disse envergonhada, colocando o cabelo atrás da orelha e me sentando no sofá de novo.
- Não deu pra resistir. – Ele se sentou ao meu lado. – Esse é o roteiro da peça? – Pegou as folhas na mesinha de centro.
- É sim. – Respondi. – A professora Elizabeth quer veracidade na peça, então é o que eu estou tentando dar a ela.
- Bom, parecia bem real para mim.
Assenti, satisfeita. E infeliz constatei que por alguns instantes quase tinha conseguido ser normal com de novo, mas logo me peguei observando seu rosto enquanto ele lia os papéis. Era um hábito que estava ficando cada vez mais difícil de controlar.
- O que essa Ebony tem com as ervas afinal? – Ele quis saber. – Ela usa para fazer poções?
- Usa, sim. Ela é uma bruxa, não é? – Dei de ombros. – Mas ela não faz nada de mal até o início do segundo ato, que de fato se chamada "Amor Malvado". Ela faz poções para ajudar antes disso. E também usa as ervas para cozinhar e... DROGA, A COZINHA!
Saí correndo dali, seguida por . Tinha me esquecido por completo do ensopado que estava fazendo para o jantar.
- Deus, ainda bem que não queimou! – Suspirei aliviada ao destampar a panela.
- O cheiro está ótimo. – se aproximou.
- É, mas ainda falta uma coisa. – Saí abrindo os armários. – Orégano. Droga, onde está?
Depois de alguns instantes procurando me lembrei.
- Ah, claro, eu coloquei lá em cima da última vez. – Olhei para o armário mais alto. – Mas que bela notícia. – Bufei.
- Qual o problema?
- O treino da torcida me deixou com o braço doendo, não dá para esticar...
- Ah, tá. – coçou a cabeça. – Deixa, eu te ajudo.
Antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ele tinha agarrado minha cintura e me levantado à altura do armário. Fiquei paralisada por um instante, meu rosto pegando fogo, mas assim que consegui pensar, estiquei a mão e peguei o pote. me colocou no chão, mas eu ainda estava com o coração na boca.
- , você tá bem? – Ele perguntou, o cenho franzido.
Engoli em seco, olhando para ele. Então dava para ver na minha cara que eu estava quase enfartando.
- Estou, eu... Obrigada, eu preciso...
Depois saí correndo lá para cima e fechei a porta do quarto.
Céus, eu estava perdendo totalmente a sanidade. Eu tinha que fazer alguma coisa urgentemente, antes que...
Meu celular vibrou sobre a cama. Me inclinei para ler a mensagem de .

"Hey, Vicentini. Tem uma festa hoje na casa de um conhecido meu em Atlantic Beach. Tá a fim de ir?"

Isso. Era disso que eu precisava: uma boa dose de realidade!
E por realidade eu queria dizer aquela em que eu ainda estava: num plano obstinado de conseguir de volta de uma vez por todas. Um mundo onde eu ainda gostava dele mais do que tudo e meus planos até então não tinham sido totalmente em vão.

🌴💚🌴


Tinha levado menos tempo para chegar ali do que eu esperava, e agora me sentia meio desconfortável. Não conhecia ninguém e provavelmente ninguém sabia quem eu era também.
não sabia que eu estava ali. Eu não tinha dito, porque, apesar de tudo, não estava certa do que ia fazer. Mas ele tinha me passado o endereço da casa de seu amigo – que estava lotada àquela hora – e depois de ver meu pai sair com Miguel para o Roger's, decidi que eu precisava fazer aquilo.
- E aí, está acompanhada? – Um cara moreno e alto me perguntou.
- Eu... – Engoli em seco. – Na verdade, eu... Estou.
Rapidamente me afastei dali. A música era alta e havia gente por todo lado. Eu tinha ido à festas em Denver, mas nunca sozinha.
- O que eu estou fazendo aqui? – Perguntei a mim mesma, recostando numa parede para tentar pensar com calma.
- Ei, gostei do vestido! – Uma garota claramente bêbada sorriu para mim, com um copo de cerveja na mão.
- Obrigada. – Me forcei a sorrir de volta. – Sabe onde fica o banheiro?
- Lá em cima, segunda porta do corredor.
Subi as escadas com cuidado, quase me arrependendo de ter colocado aquele vestido colado, e entrei no banheiro. Estava até mais limpo do que eu esperava.
- Vamos lá, , é só uma festa. – Encarei o espelho. – São só pessoas.
Respirei fundo e saí dali.
- Ei, aí está você! – Era o cara que tinha falado comigo lá embaixo.
Oh, não, era tudo que eu precisava. Um bêbado interessado em mim num lugar onde eu não conhecia absolutamente ninguém.
- Ah, eu... – Comecei.
- Ela não está sozinha, otário.
Olhei para trás e encontrei , e meu coração se encheu de alívio.
Ele caminhou seguro até mim, se aproximando o suficiente para passar a mão na minha cintura e me abraçar por trás. Prendi a respiração.
- Por que não dá meia volta para a mesa de cerveja? – olhou sério para o cara, que estava completamente sem reação. – Vamos, amor.
Eu não perguntei para onde ele estava me levando. Estava simplesmente tão aliviada por ele ter me salvado daquele embaraço que nem pensei nisso. Quando dei por mim, já estava me empurrando para dentro de um quarto vazio e fechando a porta.
Só então soltei todo o ar que estava prendendo.
- Eu achei que fosse entrar em uma situação horrível.
- Mais um minuto e teria entrado. – respondeu neutro. – Eu não achei que você viesse.
- Eu não queria vir com você. – Falei a verdade.
- Ah, desculpe, devo ter interrompido seu encontro com o bêbado do corredor então. – Ele brincou, um sorriso torto debochado. – Talvez queira voltar pra lá.
Agora que o susto tinha passado, acabei rindo também, pensando no quão ridículo aquilo tinha sido.
- Obrigada por me tirar de lá. – Sorri.
- Sem problemas. Eu te convidei, você tendo aceitado ou não, então não fiz mais do que a minha obrigação. – Deu de ombros, se sentando em um puff. – Olha, eu realmente não pensei que você fosse vir. Então queria muito saber: o que deu em você pra aceitar?

[N/a: Ok, OUÇAM ESSA]

Olhei bem para ele pela primeira vez. As únicas luzes do quarto vinham da rua, entrando por uma janela grande, e de um abajur fraco no criado mudo. Mesmo à baixa luz, os olhos de eram tão quanto eu me lembrava, e seu cabelo parecia tão macio quanto sempre. O perfume, um perfume novo, invadiu minhas narinas. Era exatamente o que eu queria indo ali. Queria recuperar minha memória. Meu propósito.
- Eu precisava ver você. – Admiti baixinho.
ficou calado, olhando para mim por algum tempo. Então se levantou:
- Eu também. – Disse.
se aproximou de mim devagar. Meu coração parou.
Uma das mãos dele se encaixou delicadamente atrás da minha orelha, os dedos no meu cabelo. A outra mão pousou na minha cintura.
- Eu precisava... Eu preciso te ver. – Ele sussurrou. – Às vezes acho que eu estou ficando maluco. Às vezes acho que você quer que eu enlouqueça, mas acho que me importo cada vez menos.
Então me beijou, e eu o beijei de volta, porque ouvir aquilo tinha sido muito para mim. Parecia que aquilo era o que eu queria desde que tudo tinha começado. Queria que ele me quisesse de volta. Queria que ele ficasse maluco por minha causa. Eu queria o meu , o que se importava demais comigo para me perder.
foi me levando para a outra parede, as mãos dançando pelas minhas costas, minhas mãos emaranhadas em seu cabelo. O ar ia acabando pouco a pouco.
- EI, TEM ALGUÉM AÍ? – Bateram à porta.
parou, frustrado.
- Droga. TEM SIM, MERDA! – Gritou.
- OS PAIS DO GEORGE ESTÃO VOLTANDO! TODO MUNDO PRA FORA!
olhou para mim e eu estava rindo.
- Droga, vamos sair logo daqui!
E então ele me puxou pela mão porta afora.
Saímos pela porta dos fundos e corremos juntos pelo gramado da casa do George. Ainda pudemos ouvir os gritos da mãe dele do lado de fora quando encontrou as pessoas e a bagunça.
- Coitado do George! – Eu ria.
- Espero que ele sobreviva. – riu também, abrindo a porta do carro para mim. – Ele sabe dar ótimas festas.

[N/a: Ok, podem abaixar o volume e parar, amores, mas não fechem a aba. Vocês vão usar a música de novo]

Vagamos por algum tempo no carro, ainda rindo do que tinha acontecido. Eu me sentia tão viva. Era como voltar no tempo.
- Lembra quando minha tia quase te pegou no quintal? – Eu dizia.
- Sua tia era o menor dos meus problemas. Eu tinha medo mesmo era do T-Rex! – Ele balançava a cabeça, divertido. – Fala sério, aquilo era um cachorro ou um urso?!
- Ele era mansinho pra quem conhecia.
- Se eu só tivesse conhecido aquele bicho depois que você chegou aqui, iria jurar que Sofia o comprou só pra me atacar.
À menção do assunto um pouco mais pesado quebrou um pouco – só um pouquinho mesmo – minha alegria. De repente, estávamos de volta à realidade. Aquela onde havia partido meu coração e Sofia não gostava mais dele, onde tudo havia mudado.
Não havia quase ninguém na rua onde paramos o carro. Algumas casas, um ponto de ônibus com duas pessoas paradas. desligou o carro e olhou para mim.
- E eu que achava que nada ficaria melhor em você do que o uniforme de torcida. – Sorriu.
- Obrigada, mas não acho que vou usar esse troço de novo. – Virei de lado para olhar para ele. – É apertado e fica subindo.
- Não me incomoda tanto assim. – Ele deu um sorriso desavergonhado e eu bati em seu braço. segurou minha mão.
- Então, onde paramos lá na festa?
se aproximou e me beijou de novo, com menos urgência que antes, como se tivéssemos todo tempo do mundo.
- Nossa, eu senti tanta falta disso. – Ele disse. – De te beijar sem que você me empurrasse longe ou que alguém aparecesse pra estragar tudo. De ficar com você como antes.
Queria responder que também tinha sentido falta disso, mas tudo que fiz foi sorrir. Eu estava contente, mas havia uma sensação esquisita no meu peito. Era como se eu sentisse que a qualquer segundo algo de ruim ia acontecer; uma sensação padrão que eu tinha desenvolvido sobre .
Mesmo assim, eu o beijei de volta. Era aquele meu resquício de esperança, o sinal de que eu estava no caminho certo – mesmo que fosse o errado.
- Sabe, eu estava conversando com o sobre você outro dia. – murmurou no meu cabelo.
- É mesmo? – Ri baixinho, sem poder ver seu rosto.
- Hanram. – Ele riu também. – Nós estávamos falando sobre essa minha obsessão maluca por você.
- Você é maluco por mim? – Me afastei alguns centímetros para encará-lo.
- Eu sempre fui. – Ele falou como se fosse óbvio. – Por isso tudo ficou tão difícil quando você voltou. – Sabiamente ele não falou sobre também sentir algo por Summer.
Eu o abracei, quietinha. Eu não precisava ouvir essa segunda parte. Ficava feliz por ele tê-la omitido.
O que importava afinal era ele gostar de mim, não é? Isso faria tudo funcionar. Era meu objetivo.
- É engraçado. – continuou. – Você está aqui agora, ao contrário do que eu esperava. Acho que isso contesta o que eu falei ao .
- O que você falou? – Perguntei com cautela. Lá estava a coisa ruim. Eu sentia ela vindo.
- Falei que às vezes fico pensando que você não gosta de mim na real, sabe? – Ele disse pensativo. – De vez em quando, quando você dá uma de charmosa e depois some, me pego pensando se tudo isso não faz parte de uma vingança. Se você não fica por perto só pra me castigar pelo que eu fiz, sabendo a cada segundo que eu não posso ficar com você. É como se tudo que você quisesse fosse que eu não conseguisse te esquecer.

[N/a: Podem voltar com a música a partir de 2:24 e ouvir até acabar a cena].

Meu coração parou, meu corpo parou. Engoli em seco, sentindo o sangue fugir do meu rosto.
É claro que não era isso que eu estava fazendo. Não era isso que eu queria.
- É loucura, não é? – sorriu, tocando meu rosto.
Era loucura. Eu não estava me vingando. Eu não queria ele só porque ele tinha escolhido Summer. Isso nem tinha passado pela minha cabeça.
Mas será que teria passado por alguma outra parte de mim? Meu coração partido, talvez?
Será que aquilo era exatamente o que eu estava fazendo, sem sequer dar por mim?
De repente, era como se eu fosse cair. Eu queria vomitar.
Olhei para e não queria olhar. Me afastei dele.
- Qual o problema?
Engoli em seco, perdida.
- Eu tenho... Tenho que ir.
Tirei do cinto e saí do carro, fazendo um esforço muito grande para parecer controlada. saiu atrás, mas não pôde atravessar a rua, porque um carro se pôs entre nós.
- , eu disse alguma coisa? – Ele perguntou assustado. Não estava entendendo nada. – Desculpe se te ofendi!
Balancei a cabeça, me afastando cada vez mais, me aproximando da porta do ônibus que estava parando.
- Você não é o problema! – Gritei para . – Eu sou!
ainda estava completamente atônito quando meu ônibus se afastou. Eu o olhei por alguns segundos, mas então joguei a cabeça para trás no banco. Achava que estava tendo um ataque de pânico, devia ser aquela a sensação.
Era o que eu deveria sentir numa situação dessas, certo?
Porque, se estivesse certo, então isso queria dizer que eu tinha estragado minha vida sem motivo algum. Queria dizer que eu tinha acabado com o namoro de alguém que só tinha demonstrado ser minha amiga, que eu tinha mentido até não saber mais dizer a verdade, e que eu tinha destruído todas as minhas chances com alguém que realmente gostava de mim e de quem eu gostava, tudo isso por nada. Tudo por causa de uma vingança estúpida que eu nem queria de verdade. Não que eu soubesse, até aquele momento.
Não. Ele tinha que estar errado.
tinha que estar errado, porque, se não estivesse, eu não sabia como enfrentaria a realidade.

🌴💚🌴


Já era quase hora do jantar e eu não tinha a menor fome, deitada no sofá enquanto meditava sobre tudo.
Tinha meio que fugido de todo mundo durante o dia, na escola, inventado desculpas para ficar sozinha e pensar, sem ter que lidar com ninguém – e por ninguém eu queria dizer e .
Nenhum dos dois tinha culpa do que eu sentia naquele momento, mas eu não podia ficar perto de nenhum deles quando estava tão confusa. Sabia que devia estar muito confuso pela noite passada, e que talvez desconfiasse de que havia algo errado comigo, mas precisava de um tempo para mim.
- Só pode estar com algum problema. – Miguel se sentou na poltrona, me dando um susto. – Pra deixar seu pai fazer o jantar sem supervisão.
Sorri um pouco e me sentei.
- Decidi dar um voto de confiança a ele. – Dei de ombros.
- Muito nobre. – Ele assentiu. – O que está havendo?
Suspirei, pensando em como poderia conversar com ele e me ajudar sem despejar toda verdade.
- Eu quero te fazer uma pergunta, mas tem que me prometer que não vai querer saber por que eu estou perguntando.
- Tudo bem. – Miguel concordou.
Mordi o lábio, pensando.
- Como foi que soube que estava apaixonado pela sua namorada brasileira?
Miguel ponderou por alguns segundos, não olhando para mim. Então disse:
- Quando pensei em ir embora pela primeira vez, depois de ter conhecido ela, e percebi que mesmo que eu fosse, não conseguiria deixá-la para trás. – Suspirou. – Mesmo que eu deixasse o Brasil, sabia de algum modo que jamais conseguiria esquecê-la.
O rosto dele tinha uma expressão tão honesta que chegava a ser tocante.
Eu já tinha sentido aquilo por alguém? Algo tão verdadeiro e definitivo? Que eu sentisse com cada pedaço de mim que nunca ia mudar?
- Agora eu vou quebrar minha promessa. – Miguel estava me encarando. – Por que me fez essa pergunta?
Eu o olhei de volta por alguns instantes, quase decidindo por fim contar toda a verdade, me livrar daquele fardo e pedir um conselho sobre como resolver aquilo tudo.
- Ah, aí estão vocês.
Nos viramos para a porta, onde papai estava parado, recostado à soleira.
- Pai. – Eu disse. – Como vai o jantar?
- Bem, acho que vai ficar bom. Eu só... – Ele parou e deu um longo suspiro. – Eu fiquei um pouco cansado.
Estaria a idade finalmente alcançando meu pai? E eu que pensava que aquelas corridas de fim de tarde tinham um efeito melhor.
Miguel o olhou de forma indecifrável por um ou dois segundos, depois se pôs de pé.
- Deixa que eu termino. – Disse.
- Não precisa, Miguel. – Papai balançou a cabeça.
- Não, eu vou fazer. – Se encaminhou para a cozinha. – Por que não senta um pouco nesse sofá e vê TV com sua filha? Faz tempo que não faz isso, não acha?
- De fato... – Papai ponderou.
Miguel foi para a cozinha e papai se sentou ao meu lado no sofá.
- E então, o que estamos assistindo? – Perguntou.
- Alguma coisa feliz e fácil de entender, eu espero. – Liguei a TV.
Deixei que algum programa qualquer começasse, me aconchegando ao lado do meu velho e maluco pai, desejando que isso pudesse me afastar de todos os problemas, como quando eu era só uma criança.

🌴💚🌴


- Honestamente, acho que você já se questionou, o que era a etapa mais difícil. – Sofia disse ao telefone, enquanto eu esperava que chegasse de carro naquela manhã. Já tinha pensado o bastante, e, embora não chegasse à conclusão nenhuma, não podia me esconder dele para sempre. Portanto, tinha decidido voltar ao normal.
- Acho que você está certa. – Concordei. – No fundo, acho que me sinto mais leve por ter me questionado. Mas agora a dúvida está me deixando maluca.
- É bom sair do controle da situação às vezes, . – Pude ouvir o sorriso em sua voz.
Sorri de volta, embora ela não pudesse me ver. A campainha tocou.
- Que estranho, ele sempre entra direto. – Observei.
- Bom, vai lá ver o que tem de novo. Nos falamos mais tarde.
- Ok. Um beijo, Ariel.
Desci as escadas imaginando se teria acontecido alguma coisa, mas nada parecia anormal quando cheguei lá.
estava abaixado na entrada, brincando com Stevie. Parei sem terminar de descer, dizendo a mim mesma para agir normalmente.
- Oi. – Eu disse.
levantou a cabeça e olhou para mim. Ele ficou calado um instante e inflou as bochechas.
- Oi. – Sorriu então.
Ficamos ali, parados por alguns instantes. Eu não fazia ideia de por que ele parecia tão nervoso.
- . – Ele disse, me surpreendendo por falar meu nome inteiro. – Eu estive pensando... É que chegou um parque na cidade no final de semana...
- Sim?
- E... Queria saber se você não quer ir lá... Comigo.
Pisquei uma vez, arregalando os olhos. Ele estava me chamando para sair? Um encontro?
- Você diz como num... – Comecei.
- Eu só... Pensei que seria legal. Nós dois. E o também não quer sair mais porque não quer ter que levar a Amber a lugar nenhum, então... – Ele disse rapidamente.
- Ah, claro. É, seria legal sim. – Assenti, tentando parecer natural. – Eu vou adorar.
- Bom. – Ele assentiu. – Amanhã à noite então?
- Perfeito. Pode ser.
- Bom.
Ficamos em silêncio mais alguns instantes, até o ponto que não dava mais.
- Vamos pra escola agora? – Apontei para porta.
- Sem dúvida. – me deu as costas, indo para fora.
Ri baixinho enquanto o seguida. Podia ser estranho, mas de repente eu estava ansiosa para sair com ele. Descobrir o que eu sentia, afinal, fazia parte de me questionar.

POV

- É só um passeio, . – Eu falava sozinho em frente ao espelho, tentando me acalmar. – Ela anda com você desde que chegou aqui, não tem por que ficar ansioso.
Mas não adiantava de nada. A verdade era que eu estava nervoso. Obviamente eu já tinha saído sozinho com a outras vezes. Caramba, eu já tinha beijado a várias vezes. Mas eu nunca tinha convidado ela pra sair até meu ímpeto de coragem no dia anterior. Parecia diferente agora.
- , você está aí dentro? – A voz de Henry veio antes que ele abrisse a porta. Ele adentrou o cômodo, o rosto sujo de alguma coisa escura. – Você vai sair?
- Vou sim. – Assenti. – Com a .
- Ah.
Henry ficou ali parado, a cara toda suja, meditando. Eu fiquei parado também, porque não estava entendendo qual era a dele.
- Se me permite dizer, você parece um pouco nervoso pra quem está saindo pela milésima vez com a própria namorada. – Ele comentou.
- É só que... – Me sentei na cama. – As coisas nos últimos dias ficaram meio confusas entre a e eu. Hoje é a primeira vez que saímos depois que voltamos a nos entender.
Henry meditou por poucos segundos, e então se aproximou.
- Olha, , sei que eu não sou seu pai, mas posso te dar uns conselhos?
Dei de ombros, meneando a cabeça.
- Claro.
- Certo, lá vai. – Ele disse como se fosse revelar o segredo da felicidade. – Seja gentil, dê boa comida a ela e a faça rir.
Fiquei esperando, mas ele não disse mais nada. Então estreitei os olhos:
- Esse é seu conselho paterno?
- Bom, tem funcionado pra mim. – Henry bateu no meu ombro. – Elas ficam ariscas quando estão com fome, e aí reparam cada falta de gentileza que você faz, mesmo que sem querer. E o que você quer, no fim das contas, é mantê-la feliz. Então seja engraçado.
Era tão patético que fazia perfeito sentido. Dava para entender por que minha mãe gostava tanto dele.
- Ah, tem mais uma coisa, . – Henry disse então.
- O quê?
- Seja honesto. Diga a verdade sobre o que sente. Ela vai gostar de ouvir.
Meditei por um instante, assentindo.
- Tá.
- Ótimo, foi bom termos essa conversa. – Ele bateu na minha perna e se levantou. – Agora, onde mesmo está a chave de fenda? Acho que quebrei a pia da cozinha.

POV PIE

[N/A: Meninas, a música tema dessa parte do capítulo, assim como dele como um todo, é “Oops” do Little Mix feat. Charlie Puth. Entretanto, não consegui encaixá-la no capítulo sem que isso interferisse nos diálogos. Por esse motivo, fica a critério de vocês ouvir ou não e encaixar onde vocês quiserem, ok?].

Da última vez que eu tinha vestido aquela roupa eu estava em Denver, observei. Era um short de cintura alta largo que imitava jeans, e uma blusa curta laranja e florida que eu adorava. Me perguntei o que mais eu trouxera de Denver que não me lembrava.
Vi pela janela o carro se aproximando. Respirei fundo e desci.
- Até mais tarde, gente! – Falei para papai e Miguel, que responderam brevemente. Fechei a porta atrás de mim e sorri para , que tinha acabado de parar o carro.
sorriu de volta e acenou, lá de dentro. Depois, parece que se lembrou de algo. Saiu do carro na mesma hora e veio para o outro lado. Me aproximei rindo. abriu a porta do carro.
- Depois de você. – Disse. Pisquei uma vez.
- Tá. – Respondi.
Entramos no carro, e vi papai acenando da janela quando nos afastamos.

🌴💚🌴


Quando chegamos ao parque, o sol estava quase se pondo. A primeira coisa que reparei foi a roda gigante, amarela e enorme. Depois foi a quantidade de pessoas, e então o cheiro de castanhas assadas, porque o outono finalmente tinha chegado.
- E aí? – perguntou olhando para fora.
- Um parquinho, ? Sério? – Forcei uma careta. – Estamos na Flórida. Achei que fossemos a Disney.
- Ah, sinto muito te decepcionar. – sorriu. – Hoje vai ser só o parquinho, castanhas assadas e algodão doce.
- Posso viver com isso. – Sorri.
Descemos do carro e caminhamos até a entrada, onde já ia tirando o dinheiro do bolso para pagar as duas.
- O que pensa que está fazendo? – Arqueei uma sobrancelha.
- Pagando pra nós dois?
- Não mesmo. Nós temos um contrato a seguir, lembra?
- Ah é? – Ele parou e me olhou de um jeito engraçado.
- Hanram. Você disse claramente quando entramos na segunda metade do nosso trato, que se eu quisesse que você participasse de qualquer atividade que não fosse do seu interesse e que exigisse desembolso, tal qual cinema, jantar etc, era eu quem ia pagar, e você disse que essa regra era de extrema importância porque te ensinou a sempre pensar nas eventualidades.
- É um bom ponto. – Ele meneou a cabeça. – Mas eu não vim obrigado hoje, o que quer dizer que a regra não se aplica.
- Bom, eu também quis vir, então é justo que ela se aplique pela metade. – Tirei o dinheiro do bolso e paguei minha entrada.
riu e pagou a entrada dele, balançando a cabeça.
- Então tá.
Entramos juntos no parque. Eu olhava tudo, fascinada. Adorava parques de diversão.
- Quer comer alguma coisa? – perguntou.
- Só depois de ir nos brinquedos que rodam. – Respondi. – Muitos parques vêm aqui?
- Eles vêm mais no verão, pra falar a verdade.
Assenti e continuei andando, mas depois percebi que tinha parado.
- O que foi? – Perguntei voltando.
- Nada, eu só... – Ele olhou para o alto, pensativo. – Eu não queria que isso fosse esquisito. Você sabe, com perguntas sobre o tempo e respostas curtas.
- É. Não. – Concordei rapidamente. – Claro que não. Afinal, nós já saímos juntos antes. Várias vezes.
- É, nós somos...
- Amigos. – Completei.
- Grandes amigos.
- Tá. É.
Ficamos ali por alguns segundos, então decidi quebrar o gelo.
- Conversas de verdade então. – Eu disse.
enfiou as mãos nos bolsos e deu de ombros, concordando.
- Ótimo. – Pensei, e então dei um sorriso perverso. – Então... Quero saber da sua namorada Leslie.
- Ah, fala sério... – riu e saiu andando.
- Mas eu quero mesmo!
Corri atrás dele, sem conseguir segurar o riso. Eu tinha conseguido trazer as coisas de volta para nossa atmosfera, afinal.

O primeiro brinquedo a que fomos foi o Barco Viking. Apesar do medo durante a subida, eu sempre tinha adorado a sensação do frio na barriga quando o brinquedo descia. Gostava quase mais do que da Montanha Russa, que, na minha opinião, era rápida demais.
- Certo, acho que agora posso comer minhas castanhas. – Decretei.
Eu e compramos um pacote de castanhas assadas, e o cheiro me levou diretamente para os Outonos de Denver, com Collie, Ben e minha mãe. Dei um longo suspiro, nostálgica.
- Que houve? – perguntou mordendo uma castanha.
- Eu só... Lembrei da minha casa. – Meneei a cabeça.
- Eu até entendo, mas... Depois de todo esse tempo, ainda não se sente em casa aqui em Jacksonville Beach?
- Há momentos em que sim. – Considerei. – Mas muitas vezes, sinto que sou só uma forasteira no meio de vocês. É a velha história da novata.
- Eu não sinto assim. Para ser bem sincero, sinto como se te conhecesse melhor do que conheço a maioria das pessoas dessa cidade.
- Sem dúvida eu sou muito mais interessante do que as pessoas de Jacksonville Beach, não é? – Brinquei.
- Nem tanto. – deu um sorriso torto. – Tem um maluco que vive embaixo da ponte que jura que a cidade vai ser engolida por um Tsunami.
- Tá, não dá pra competir com isso. – Dei risada. Tinha que admitir minha derrota.
- Veja só, se não é a Casa dos Horrores! – Ele apontou a estrutura.
- Eu é que não vou nesse negócio. – Estaquei.
- Claro que vai. Hoje é um excelente dia para superar essa coisa de se sentir uma estranha em Jacksonville Beach, e, se quer saber, todo mundo nessa cidade adora casas dos horrores.
- Ah é? – Sorri e arqueei uma sobrancelha, sabendo que aquilo era pura palhaçada.
- Eu não mentiria sobre uma tradição, . – disse solene. – Se você ficar com medo, deixo você segurar minha mão. – Prometeu.
Olhei para ele por alguns segundos com ar de riso, até que, por fim, concordei. Segurar a mão dele nem seria tão ruim, afinal.
- Mas se eu tiver um ataque cardíaco, vai ter que explicar ao Miguel que a culpa foi sua.
- Prefiro morrer no seu lugar do que ter que fazer isso. E não é por altruísmo.
Ainda rindo, entramos na fila e, depois, na Casa dos Horrores.
Tudo era sujo e quebrado lá dentro; havia teias de aranha e baixa luz, mas dava para ver que já tinha lâmpadas acesas, porque estava anoitecendo lá fora.
A cada susto que alguém levava com algo estúpido, como esbarrar em uma corda, eu quase morria do coração.
- Eu nunca vou entender que graça vocês veem nisso. – Murmurei.
- O coração acelerado, a adrenalina, talvez? Ou talvez a graça seja só ver os medrosos pulando a cada barulho que ouvem.
Dava para ver seu sorriso debochado para o meu lado, o mesmo sorriso que ele dera em meu primeiro dia na cidade, quando começou a me chamar de Rainbow só por provocação.
Um cara vestido de Fred Krueger entrou na sala correndo como um doido e todos começaram a gritar, tentando escapar. Conseguimos chegar à sala seguinte. Eu ainda podia ver as costas de à minha frente, bem como uma garota morena pirando ao lado.
- Isso é coisa de maluco! – Eu disse nervosa.
Mas antes que respondesse, a luz foi apagada. Ou eles não pagaram a conta de energia. Não dava para saber. A questão é que meu coração parou, e logo depois voltou a bater forte, porque o chão começou a se mexer.
Tateei em volta em busca de apoio, e acabei encontrando a camisa que supus ser de . Minha mão desceu por seu braço até encontrar a dele, que entrelaçou os dedos nos meus. Permaneci daquele jeito até sair daquele maldito brinquedo assassino.
- Isso não vai acontecer de novo. – Eu decidi do lado de fora. – Nunca mais. Nem em um bilhão de anos.
- Ah, não achou nem um pouquinho emocionante? – deu aquele sorriso de novo, me fazendo parar de andar. O encarei por um instante, e só depois percebi que ainda estava segurando a mão dele. Eu a soltei devagar.
- É ridículo. – Cruzei os braços em frente ao corpo só para ter o que fazer com as mãos.
assentiu. Se prestou atenção no que eu tinha feito, não falou nada.
- Vou te compensar pelo que passou. – Disse gentilmente.
- Ah é?
- Hanram. – Ele concordou. – Com algo muito mais cheio de frufru e arco-íris, como uma líder de torcida gosta. – Provocou.
Apesar de saber que ele estava me zoando com aquela história de torcida, acabamos indo parar na barraca de tiro, onde naquele momento tentava ganhar um brinde para mim.
- Então, me conte mais sobre a Leslie. – Pedi, porque ele tinha me enrolado da primeira vez.
- A gente se conheceu através de amigos em comum. – Ele contou enquanto mirava. – Os caras da banda do colégio disseram pra ela que eu tocava contrabaixo.
- Ela era da banda? O que ela tocava?
- Violoncelo. – Ele atirou. – Ela era incrível.
- Incrível, hen? – Ergui uma sobrancelha para ele, que riu e balançou a cabeça. – E por que ela foi embora?
- Justamente por isso. – deu o último tiro, derrubando todas as latas. – Os pais dela queriam que ela tivesse uma preparação melhor para entrar na Julliard. Sabe como é, asiáticos. A escola de Boston tinha um programa de treinamento muito elogiado. Aí a gente terminou.
- E isso partiu seu coração?
- Um pouco. Fazia tempo que eu não levava um relacionamento adiante, e eu realmente tentei fazer as coisas darem certo com a Les. Mas depois de algumas semanas eu me recuperei. E o passou a chamá-la de “A Leslie de Julliard”.
Era uma pena. Talvez ele e A Leslie de Julliard fossem mesmo um casal perfeito. Mas eu não conseguia mentir para mim mesma e dizer que ficava triste pelo término deles.

- Obrigado pelo unicórnio. – Eu ri um pouquinho, abraçando aquele monstro branco. Stevie ia detestar aquele brinquedo, eu já sabia.
- Sem problema. Só vai ter triste quando Stevie estraçalhá-lo. – Comentou. Ele tinha pensado o mesmo que eu.
Já tínhamos ido em vários brinquedos àquela altura, e eu sabia que estávamos perto de ir embora. Até que a coisa mais óbvia e bonita e enorme do lugar chamou minha atenção.
- Vamos na roda gigante? – Chamei. – Antes de irmos embora.
Não tinha tanta fila para o brinquedo, o que foi uma agradável constatação. Deixei meu unicórnio lá embaixo e logo estávamos subindo, subindo, rumo ao topo do parque.
- Eu lembro de uma roda gigante quando eu era pequena, lá em New Orleans. – Contei. – Quando meus pais ainda estavam juntos.
- Você era bem pequena nessa época, não é?
- Sim, mas eu nunca esqueci. Foi uma amiga da minha mãe que subiu comigo, porque a mamãe tinha medo de altura e papai estava tocando no dia. – Lembrei, encantada. – Era tão lindo. Tudo brilhava tanto.
- A vida de vocês devia ser muito boa lá. O Jack fala dessa época comigo às vezes. É como se ele falasse do filme preferido toda vez que lembra daquele tempo.
- Ela era. Me lembro pouco, mas sinto isso em tudo. – Olhei para longe, pensando. – De vez em quando, me pergunto onde eu estaria agora se as coisas tivessem continuado. Se meus pais não tivessem se separado e tivéssemos ficado em New Orleans.
- Sabemos que não estaria aqui agora. – disse bem quando o brinquedo parou, lá no alto.
Olhei para ele, pensando naquilo.
- É, acho que não. – Recostei a cabeça no banco.
- E acha que valeria a pena? – Ele fez o mesmo. – Viver outra vida e abrir mão do que tem agora?
não estava bancando o dramático, como Ben, lá em Denver, teria feito se eu dissesse pensar na minha vida sem ele. Ele só estava pensando sobre aquela possibilidade impossível, como se ele de vez em quando se perguntasse o mesmo sobre a própria vida.
- Acho que não. – Concluí depois de alguns instantes. – Não faz sentido, faz? A cada escolha que fazemos nessa vida, perdemos outra coisa. Eu teria meus pais juntos, mas não teria conhecido a Collie, o Ben, o Stevie e... Você. – Olhei para ele.
olhou de volta para mim, a boca entreaberta. Por um segundo, achei que fosse acontecer alguma coisa, mas então ouvimos o barulho da engrenagem. A roda gigante voltara a se mover, nos levando para baixo.
E enquanto ela descia, eu pensava em como não conseguia imaginar minha vida se eu não tivesse encontrado naquela cidade esquecida da Costa.
Me dei conta do óbvio e me senti patética.
Sofia estava certa o tempo todo. Eu gostava dele. Talvez tivesse gostado desde o primeiro dia, quando ele me salvara do Stevie.
Eu só não sabia dizer como eu não tinha me dado conta disso antes.
Quando descemos do brinquedo, aquela constatação tinha me deixado tão paralisada que eu precisava de alguma coisa para voltar a mim.
- Eu vou comprar um refrigerante. – Falei.
- Eu vou com você. – disse simplesmente.
- Não, só vai demorar mais. – Forcei um sorriso. – Vai ser rápido, quando eu voltar vamos para o carro.
O deixei ali sem dar muita explicação e andei apressadamente até a barraca de refrigerantes mais longe que encontrei. Dizia a mim mesma para me acalmar, mas como? Eu gostava do garoto que tinha feito fingir que era meu namorado aquele tempo todo. Eu gostava dele de verdade e não sabia o que fazer.
Comprei o refrigerante e respirei fundo, me sentando num banco.
Se Sofia estivesse aqui, o que ela diria? Pensei comigo.
A resposta surgiu nítida em minha cabeça. Ela me diria para falar com ele. Para ser honesta. Ela diria que ele gostava de mim também e que eu merecia a chance de ter um relacionamento feliz e normal, com alguém que se importasse comigo.
Era isso que eu tinha que fazer. Tinha mentido sobre tanto, mas não podia mentir sobre aquilo. Me levantei a corri em direção ao lugar onde tinha deixado .

Fui parando devagar quando me aproximei o bastante para vê-lo. não estava sozinho. Para minha surpresa, Summer tinha aparecido, eles conversam alegremente sobre algo.
Só de vê-la ali, a onda de culpa pela noite anterior me atingiu como o Tsunami do velho da ponte, afogando Jacksonville Beach em desgraça.
Eu parei de andar, sem saber ao certo a razão. Talvez só quisesse que aquelas duas pessoas boas tivessem mais tempo para discutir a paz mundial ou para brincarem como quando eram crianças. Me apoiei numa barraca e fiquei observando os dois por alguns instantes. Eles pareciam tão bem, tão à vontade, como se nunca tivessem se afastado na vida. E me veio à cabeça minha conversa com minutos atrás, sobre onde estaríamos se as coisas tivessem sido diferentes antes.
E era aquilo, não é?
De repente, tudo que eu conseguia pensar era em como tudo seria naquele momento se a vida de nunca tivesse virado de cabeça para baixo e ele e Summer Olsen nunca tivessem se afastado.
Summer nunca teria se apaixonado pelo Junior. Porque, àquela altura, ela já teria se apaixonado pelo . E ele... Por Deus, eu nem precisava pensar muito para saber que seria louco por ela. E faria muito sentido. Eles seriam um casal maravilhoso. E a vida dos dois seria melhor do que nas atuais circunstâncias.
Isso era tão óbvio que chegou a doer quando percebi.
Me dei conta de que eu tinha afastado de Rosana porque achava que ele merecia coisa melhor do que uma ladra de namorados cínica, mas isso era exatamente o que eu era. E, sendo assim, nós nunca daríamos certo.
Porque eu tinha ido longe demais. E, na verdade, tinha ido longe demais para voltar atrás, também.
Fechei os olhos e tentei me orientar. Olhe até onde seu plano já chegou, .
Já tinha ido tão longe. Eu estava tão perto. E também, não era como se eu não gostasse do . Eu gostava. Gostava muito.
Era isso. Fazia sentido. Eu ficaria com como tinha planejado, e e Summer poderiam ficar juntos depois. Na verdade, eu só estava devolvendo as coisas ao eixo de onde elas nunca deveriam ter saído.

21- The new girl in town


"You'd better tell the homecoming queen to hold on to her crown… Or she's gonna loose it to the new girl in town."

[…]

Depois de termos encontrado Summer no parque e das minhas conclusões reveladoras, eu não consegui – ou quis – falar mais muita coisa. Parecia que qualquer coisa que eu dissesse ao depois de como tínhamos nos divertido seria errada, como se qualquer coisa fosse criar uma falsa esperança sobre nós. Assim, falei o mínimo possível quando estávamos com Olsen e fiquei muda no carro, esperando que ele acreditasse que eu só estava cansada.
Quando o carro finalmente parou em frente à minha casa, tentou começar a falar.
- , tem uma coisa que eu preciso te dizer...
E não, eu não podia deixá-lo terminar. Seria doloroso demais, para nós dois. Então eu o cortei:
- Acho melhor deixar para outra hora. – Desatei o cinto. – Eu preciso muito ir ao banheiro agora. Acho que bebi refrigerante demais.
pareceu meio decepcionado, confuso com a minha pressa. Ainda assim, ele assentiu.
- Tá, tudo bem. – E o modo como ele disse aquilo apertou meu coração.
Olhei para ele gentil, mas rapidamente:
- Bom, foi divertido. – Eu disse. – A gente se vê amanhã.
Saí do carro a toda velocidade, entrei em casa e fechei a porta. Miguel e papai deviam estar no Roger's, porque pelo visto não tinha ninguém ali. Fiquei encostada à porta por alguns minutos, até ouvir o carro de – que ficou parado por mais tempo, talvez pensando em como eu era estranha – ir embora. Dei um longo suspiro, fechando os olhos – a testa encostada à porta.
Nunca antes daquele dia eu tinha querido tanto ouvir o que tinha para me dizer.

🌴💚🌴


Sabendo que o resultado seria catastrófico se eu encontrasse com antes de me estabilizar emocionalmente, fiz o impossível para não encontrá-lo pelo resto do fim de semana. E por impossível pode-se entender ir para a casa da Emma e ficar lá ouvindo sobre campeonatos de torcida e deixando que ela falasse pelos cotovelos.
- Esse ano, nós vamos ganhar daquelas vacas. – Emma dizia estalando o pescoço. – Aquela ridícula da Chelsea tem feito mil e uma publicações provocando a gente. Quer dizer, ela é tão presunçosa que acha que vamos perder nosso tempo stalkeando ela!
Ela estava falando de Chelsea Pritchett, a líder das torcedoras dos Blue Eagles. Para minha própria segurança, achei melhor não comentar o fato de que Emma de fato andava stalkeando a garota.
- Ah, mas que droga. – Falei ao me lembrar de algo de repente.
- O que foi? – Emma se virou para mim.
- Esqueci de devolver um livro na biblioteca na sexta. – Expliquei. – Vou ter que pagar dois dólares de multa amanhã.
Emma olhou bem para mim, uma sobrancelha arqueada.
- Sério? – Perguntou.
- É, sério. Um dólar por dia.
- Não, digo tipo... É sério que ainda se preocupa com esse tipo de coisa? Por favor, , você é uma líder de torcida agora. – Ela rolou os olhos e voltou a fuçar as redes sociais de Chelsea Pritchett.
- E isso quer dizer que...? – Eu não estava entendendo o ponto.
Emma deu risada, mal olhando para mim.
- Fala sério. – Balançou a cabeça. – Quem cuida dos registros da biblioteca? Stuart Johnson, o estagiário? Ou ainda é aquela velha da senhora Parker?
- Stuart está cuidando dos registros para a senhora Parker. Mas eu ainda não entendi o que quer dizer.
- O que quero dizer, miss lenta, é que, sendo uma líder de torcida, você não precisa se preocupar com essas coisas. Ninguém vai cobrar nada de você, porque todos te amam e são gratos por você espalhar sua beleza por aí e ganhar campeonatos.
- Isso parece errado. – Franzi o cenho.
- A existência dessa maldita Pritchett também, mas é a vida, não é? Coisas erradas, coisas certas. – Ela deu de ombros e me encarou com severidade. – Você recebeu uma dádiva: as pessoas querem fazer coisas para vocês. Elas se sentem bem quando você está satisfeita. Deixe que elas cumpram seu papel na cadeia social em paz e aproveite.
- Você já usou isso a seu favor? – Eu estava impressionada com a naturalidade com a qual ela falava daquilo.
- Já, ganhei um donnut extra numa lanchonete porque estava usando meu uniforme. E daí? – Ela parecia cansada de explicar. – São só favores, . Você não está pegando a alma ou a dignidade de ninguém.
Fiquei pensando se concordava. Mas para mim parecia muito mais do que algo simples. E também, eu não sabia se era vista como líder de torcida o suficiente para ter vantagens.
- Ah, Deus, você é tão bobinha às vezes. – Emma continuou falando sozinha. – Parece que preciso te ensinar tudo... – Então ela olhou para mim, uma sobrancelha arqueada. – É, talvez precise mesmo.
Emma pegou o celular à sua frente e começou a discar, me fazendo ter um de déjà vu do dia em que Jodi tinha me enfiado de mala e cuia no mundo da torcida.
- O que você tá fazendo? – Perguntei com cautela.
- Ligando para as meninas. – Ela disse como se fosse óbvio. – Está na hora de trazer você para o mundo real.

🌴💚🌴


- A primeira coisa que você tem que ter em mente, é que não está passando a perna em ninguém. – Emma disse puxando uma blusa de uma arara, enquanto andávamos por uma loja do shopping. – Não na maioria das vezes, pelo menos.
- Não quando você tem consciência de que não é a dona do mundo. – Jodi corrigiu Emma. – Você não precisa ser má com ninguém só por ser uma líder de torcida, mas as pessoas gostam de ser gentis com você.
- Aceitar as gentilezas é basicamente sua obrigação. – Emma jogou uma blusa em cima dela.
- E você, o que diz sobre isso? – Me virei para Summer. – Você é a mais experiente nesse assunto.
- Só não deixe a torcida te subir à cabeça. – Summer disse calmamente. – Fazer acrobacias e ser bonita são coisas que podem te render vantagens, mas você ainda tem que ser você no fim do dia.
- Tão inspiradora! – Jodi suspirou.
- Minha eterna musa. – Emma apertou a bochecha de Summer, que sorriu.
- E quanto às vantagens... – A loira fez uma cara engraçada.
Antes que ela terminasse de falar, um rapaz de cabelo platinado veio correndo em nossa direção, como se tivesse visto uma aparição milagrosa.
- Senhorita Olsen! – Ele a cumprimentou e Summer se inclinou (já que ela era maior que todos nós) para lhe dar um beijo no rosto.
- Nico! – Ela sorriu. – Como vai?
- Tão bem! – Ele respondeu. – Depois da sua campanha no semestre passado as vendas subiram mil por cento! – Ele levou o dedo ao alto teatralmente.
- Foi muito divertido fazer a campanha! – Ela assentiu sorrindo. – Fico feliz em saber que foi um sucesso.
- Sucesso? Sucesso é muito pouco, querida. – Ele fez uma careta. – Quer saber? Que tal se vocês fizessem uma propaganda ambulante da nossa nova coleção? – Nos olhou com empolgação. – Será ótimo ter Summer Olsen e suas lindas amigas andando pela cidade com nossas roupas. – Enfiou a mão no bolso. – Aqui estão quatro vale-presentes para as roupas que lançamos essa semana. Elas estão no corredor à direita.
Eu não estava acreditando que estávamos ganhando roupas de graça só para que Summer andasse pela rua dizendo onde as tinha comprado. Emma estava com um sorriso malicioso no rosto e Jodi era o retrato da alegria.
O rapaz se despediu de nós e voltou para onde quer que ele ficasse quando não havia ninguém famoso em sua loja.
Emma pigarreou, fazendo com que Summer olhasse para ela.
- O que mesmo você ia dizendo sobre as vantagens? – Ergueu uma sobrancelha.
Summer riu e mordeu o lábio, olhando então para mim com um sorriso sapeca.
- Aproveite! – Completou.

Pelo resto da tarde, conversamos sobre as vantagens de ser uma líder de torcida e até que ponto eu podia ir. Para Emma, claramente não havia muito limite. Jodi permaneceu com seu ideal de ser uma pessoa boa apesar da popularidade – uma filosofia de vida nitidamente compartilhada por Brad Winter, seu namorado. Summer me disse para aproveitar com sabedoria, mas para ser fiel a mim mesma. E era isso. A fórmula da felicidade em uniformes curtos.
Enquanto ia para casa, me sentia um pouquinho mais feliz por ter pelo menos conseguido tirar os problemas da cabeça por algumas horas.
- Não se esqueça de que amanhã temos a primeira reunião do comitê de baile. – Jodi lembrou quando chegávamos à minha rua.
- Não acredito que finalmente estamos indo a uma! – Emma fez uma careta assustadora de felicidade. Confiante do jeito que ela era, às vezes eu quase me esquecia que ela tinha sido uma desconhecida na Jacksonville High por tanto tempo.
- O que eu tenho que fazer? – Perguntei.
- Só estar presente e opinar sobre o que acha bom ou não. – Summer explicou.
- Tudo bem. – Assenti tirando o cinto. – Nos vemos amanhã.
- Ok. – Ela disse. – Ah, só uma última coisa...
Parei para ouvir o que ela tinha a dizer. Em vez de falar, Summer estendeu a mão para o meu cabelo e, em um movimento rápido, jogou ele todo para o lado direito, amassando e bagunçando-o um pouco. Ela virou meu rosto para as meninas e as encarou.
- E então, o que acham?
Emma estudou meu rosto. Jodi moveu a cabeça em aprovação.
- Muito bom mesmo. – Emma disse. – Quase parece outra pessoa.
Olsen sorriu, satisfeita, e eu desci do carro, meio em dúvida sobre o que elas tinham dito.
Cheguei ao meu quarto um tanto quanto cansada e joguei a bolsa sobre a cama. Ia ao banheiro, mas então me lembrei do espelho no canto. Me aproximei dele, observando a minha figura refletida – o vestido de moletom emprestado de Summer, o cabelo todo jogado de lado, que parecia mais claro do que quando eu chegara à cidade, muito provavelmente por causa do sol. Até meus olhos tinham um brilho diferente.
Emma estava certa. De repente, eu parecia outra pessoa.

🌴💚🌴


A reunião ia acontecer numa sala especial para esse tipo de assunto. Ela ficava perto do auditório onde o grupo de teatro se reunia, mas eu nunca tinha entrado ali.
Reparei algumas pessoas me encarando. Assenti para algumas delas, embora Emma tivesse me dito para não parecer boazinha demais.
- Ei! – Ouvi então.
Respirei fundo, sabendo que era mais que hora de voltar ao normal e esquecer o que havia acontecido nos últimos dias. Questão de sobrevivência.
Sorri ao encontrar vindo em minha direção, muito embora ele parecesse mais sério que de costume.
- Oi. – Eu disse.
- Oi. – Ele disse meio tenso. – Eu queria muito te ver... Desde o que aconteceu na casa do George.
- Olha, , desculpa por aquilo, tá bom? – Pedi tocando seu braço de leve. – Eu meio que surtei naquela noite. Acho que eu tinha bebido um copo na festa e me subiu à cabeça.
Ele me olhou por um instante, mas assentiu.
- Tudo bem, acontece. – Deu um meio sorriso. – Foi um surto e tanto, na verdade, mas quem nunca bebeu demais, não é?
A bem da verdade, eu nunca. Nem naquela noite. Mas não precisava saber disso.
- Então estamos bem? – Ele perguntou.
- Claro que sim. – Sorri. – Olha, tenho que ir para a reunião do comitê de baile agora.
- Tudo bem. – Ele me deu um beijo no rosto. – Nos vemos depois.
se afastou e eu entrei na sala de reuniões. Não havia só líderes de torcida ali, mas também não havia muita gente. Passei pelos rostos desconhecidos que me observavam com curiosidade e fui me sentar junto com Summer e as garotas.
- Vi o Junior lá fora. – Ela foi logo sussurrando. – O que ele queria?
A esperança de Summer me deixava um pouco tensa, mas eu estava ficando cada vez melhor em lidar com isso.
- Ele estava comentando que está muito ansioso para próximo jogo. – Eu disse. – Acho que ele precisa se distrair um pouco, sair e esvaziar a cabeça.
- Acho que eu podia convidá-lo para sair então. – Summer sorriu. – O que você acha?
- Acho que você deve tentar. – Incentivei. A verdade era que por algum motivo eu tinha um palpite muito forte de que Junior não aceitaria sair com ela naquele momento, e eu queria que ela descobrisse isso por si própria. Essa era uma tática nova que eu tinha decidido adotar depois de perceber que funcionava muito bem: deixar que eles se desiludissem sozinhos.
- Tá, vou mandar uma mensagem. – A loira tirou o celular do bolso e começou a digitar.
Fiquei observando o resto das pessoas na sala, conhecidas e desconhecidas por mim. O que eu deveria falar naquela reunião? Deveria realmente me intrometer a dar alguma opinião? Ou eu só estava lá porque era amiga de Summer?
De todo modo, meu pensamento de tudo isso era intensificado pelo olhar direto de um garoto sentado longe de nós. Ele tinha cabelo cor de avelã e olhos no mesmo tom, e me encarava de um jeito um tanto quanto perturbador – como se esperasse algo de mim, como se estivesse tão curioso sobre minha participação quanto eu mesma.
Quando todos já estavam sentados, Summer tocou meu braço, indicando que era hora de começar.
- Bom dia, comitê. – Ela se levantou e disse. – Bem, estamos aqui reunidos hoje para decidir o tema do baile de Outono deste ano, que vai ser muito importante, não só por ser o primeiro baile do ano letivo, mas porque agora boa parte de nós somos oficialmente veteranos. – Ela sorriu de orelha a orelha.
Todos começaram a comentar, animados, sobre o fato de estarem no último ano. Por um segundo, fiquei um pouco triste, porque eu, Collie e Ben sempre tínhamos esperado por esse momento juntos e agora eles estavam longe demais, vivendo tudo sem mim. Ainda assim, não era de todo ruim participar do animado ano sênior da Jacksonville High.
- A mesa agora está aberta a sugestões. – Olsen decretou, sentando-se de novo.
Um garoto ruivo levantou a mão.
- Bem, já que o baile será em outubro, podemos fazer uma festa de Halloween. – Disse.
- Já fizemos isso ano retrasado, Billy. – Teddy Moore rolou os olhos.
- E nem pensem naquela estupidez de personagens de filmes de novo. – Jasmine fez uma careta.
- Lembram da Maya Burnes vestida de Galadriel do Senhor dos Anéis? – Emma começou a rir sua risada de porquinho, mesmo tentando ser discreta. Até Jasmine se uniu ao coro de risos.
- Com aqueles pés, ela mais parecia um Hobbit. – Teddy deu um sorriso maldoso. – Pobre Maya.
Pobre Maya, sua orelha devia queimar o tempo todo, como dizia mamãe. Desde que eu entrara em seu lugar na torcida, tinha ouvido tantas piadas sobre seus pés tortos que poderia fazer um retrato deles.
Mas de fato, para mim, parecia que o baile daquele ano pedia algo a mais do que os temas já usados antes. Tudo estava indo tão bem! Tínhamos vencido os Blue Eagles no primeiro jogo da temporada, éramos veteranos... Algo incrível precisava ser feito, mas eles eram tão ácidos e diretos ali que fiquei com um pouco de receio de levar uma patada assim que abrisse a boca.
Então o garoto, aquele que estava me encarando antes, levantou sutilmente a mão. Todos ainda estava rindo, mas Summer os silenciou ao vê-lo.
- Perry. – Ela disse. – Tem alguma sugestão?
- Eu não. – Ele balançou de leve a cabeça. – Mas acho que sua amiga tem. – Apontou para mim.
Imediatamente todos se viraram em minha direção. Eu não sabia se me sentia agradecida pela gentileza ou se ele tinha feito aquilo por maldade, mas já que tinha a vez agora, decidi arriscar.
- Sem querer puxar a corda para o lado de algo que eu gosto... Mas eu pensei que o tema poderia ser os anos 20. E jazz.
Por um instante todos ficaram em silêncio. Então Teddy assentiu.
- É... Eu gosto dessa ideia. – Deu um sorriso sutil.
- As roupas eram lindas, não é? – Jodi olhou para os outros.
- Até que seria divertido. – Jasmine ponderou.
E então todos começaram a falar ao mesmo tempo sobre as possibilidades, animados com a ideia de música ao vivo – trazida pelo meu pai, já que a ideia fora minha – e bebidas e figurinos maravilhosos.
- , que ideia fantástica! – Summer riu, apertando meu ombro. – Eu sabia que ia ser uma ótima ideia trazê-la.

Quando a reunião finalmente acabou, com o tema do baile definido – Anos 20: A era do Jazz –, eu segui as meninas pelo corredor, porque tínhamos uma aula juntas. Não muito depois de termos saído da sala, no entanto, alguém nos chamou.
- Ei!
Viramos para trás para encontrar aquele garoto, o tal Perry, acenando. Summer e as meninas pararam de andar, o que queria dizer alguma coisa, visto que Emma não tinha muita paciência com ninguém. Eu não me lembrava de ter visto Perry na mesa VIP, nem mesmo nos corredores da escola; mas se ele tinha cara para chamar Summer assim com tanta naturalidade, queria dizer que ele era alguém relevante.
- Algum problema, Perry? – Ela perguntou quando ele se aproximou.
- Nenhum, Olsen, muito pelo contrário. – O rapaz negou. – Só queria dar os parabéns à sua amiga pela excelente sugestão. E os abutres lá dentro não deixam ninguém ser ouvido. – Sorriu.
- Bom, você fez com que eles parassem para me ouvir, não é? – Ergui uma sobrancelha. Perry também, em resposta a minha observação.
- E minha amiga tem nome, só pra constar. – Summer lembrou.
Estendi a mão para o garoto, que a segurou.
- Pie. – Me apresentei.
- . É claro que você é a . – Ele deixou escapar um riso misterioso. – Eu sou Perry Gold. É um prazer.
- Perry é editor chefe do jornal da escola. – Summer explicou então.
- Eu vi seu nome na reportagem sobre o jogo contra os Blue Eagles e sua foto de longe, já que eu não cobri o evento – Perry disse. – Mas sem dúvida pessoalmente sua personalidade é muito mais interessante.
Novamente, eu não sabia se ele estava me criticando ou me elogiando. Parecia que ser ambíguo era uma característica do garoto. E, embora o ar de mistério pudesse ser até um pouco charmoso a seu modo, não era algo de que eu gostasse realmente.
- Obrigada. Ou não. – Olhei para ele de um jeito não tão sério, mas sem dar muita corda. – É melhor irmos, não é? Não quero chegar atrasada.
- Claro. – Gold assentiu. – Tenho certeza de que vamos nos ver de novo em breve, Pie. Até mais, Olsen.
Perry foi embora e voltamos a andar. Emma riu e balançou a cabeça.
- Sempre achei que esse Gold tem uma cara danada de quem não vale nada. – Ela comentou. – Procede, Summer?
- Perry não é fácil. – Ela ponderou. – Mas faz o trabalho dele como ninguém. É do tipo que consegue tecer palha em ouro; fazer o evento mais estúpido ou a pessoa mais simples parecerem invejáveis.
- Aquele olhar me dá arrepios. – Jodi fez uma careta. – Lembro até hoje da matéria que ele fez sobre o pobrezinho do Brad falando sobre como ele frequentou o acampamento de gordinhos na infância.
Emma deu risada da lembrança e levou uma cotovelada de Jodi.
- De todo modo, , não precisa ter medo do Perry. – Summer garantiu. – Ele é só um pouco... Intenso. E curioso.
- Um repórter nato, no fim das contas. – Emma deu de ombros.
Mas sem dúvida não me agradava a ideia de ter alguém tão curioso interessado em mim quando eu tinha tanto a esconder.

🌴💚🌴


Voltei para casa de carona com Jodi e o pai dela na hora do almoço, porque meu único compromisso naquela tarde seria o ensaio da peça, que só aconteceria às 16:00. Assim, preparei e comi uma salada cozida e nuggets assados, tirei um cochilo e adiantei o dever de casa atrasado. Quando me dei conta, já estava na hora de voltar para escola. Estava colocando uma camiseta limpa quando meu celular piscou com a luz azul, o que significava que eu tinha recebido um e-mail.
- Talvez seja a mamãe. – Falei sozinha. Mamãe ainda gostava muito de e-mails, embora um pouco menos que meu pai.
Mas não era da minha mãe. Era da senhorita Elizabeth.

Meus adoráveis monstrinhos,
Devido a compromissos de última hora, estou cancelando os ensaios que teríamos essa semana. Aproveitem a folga para decorar os textos!
Vejo vocês na próxima segunda.

Eu nem sabia que a senhorita Elizabeth tinha meu e-mail até aquele momento. Balancei a cabeça. Estava ansiosa para o ensaio, mas descansar um pouco também não ia doer. Embora, é claro, eu estivesse fazendo de tudo para encher minha cabeça. Talvez dar uma volta por aí com Stevie ajudasse.
É, talvez eu devesse fazer isso!
Troquei a roupa que estava vestindo pela roupa que usava para fazer exercícios – o que acontecia com cada vez mais frequência por conta da torcida – e desci as escadas, encontrando um Stevie feliz e saltitante.
- Que bom que está tão animado, bebezão! – Brinquei com ele, colocando a coleira. – Vamos, hoje somos só eu e você.

Corri em direção à praia com Stevie, que parecia alegre em me acompanhar. Todos que nos viam achavam graça naquele cachorro enorme todo bobão e sempre que parávamos para descansar vinha uma criança querendo brincar com ele. Me lembrei de Rosana Wayans morrendo de medo dele e ri sem explicar o motivo.
De todo modo, meu passeio com Stevie me fez relaxar. Minhas preocupações tinham ficado em segundo plano e eu tinha conseguido focar minha atenção por algum tempo em como aquela cidade era tranquila. Talvez por isso papai estivesse conseguindo sossegar ali. Talvez ele precisasse de paz.
Voltei para casa com as energias renovadas, desejando mais que tudo um banho quente para completar minha paz de espírito.
Deixei Stevie brincando no quintal e subi as escadas, me enfiando debaixo do chuveiro por tempo suficiente para esquecer que o mundo existia.
Estava me vestindo, quando ouvi passos na escada.
Bateram à porta.
- Um segundo. – Eu disse me enfiando na camisa branca. – Pode entrar.
apareceu debaixo da soleira ao empurrar a porta e meu coração parou por um segundo. Eu não tinha falado de verdade com ele depois do sábado. Não sabia o que falar, embora soubesse que tinha que dar um jeito de descobrir.
- Ei. – Ele disse com a calma habitual. – Até que enfim te achei. Você foi de ônibus hoje. Por quê?
- Eu precisava conversar com a Jodi. – Embromei.
- Ah. - Franziu o cenho. – Pensei que Brad Winter levasse ela pra escola agora.
- Não hoje. – Sorri. – Coisas de garota. Você sabe, falar do baile e tal.
- É, eu ouvi falar do tema. – sorriu se aproximando. Eu queria dar um passo para trás, mas a cama estava bem atrás de mim. – Seria um palpite muito arriscado dizer que você teve alguma coisa a ver com isso? – Arqueou uma sobrancelha.
Era o sorriso. Aquele sorriso que fazia as bochechas de Jodi ficarem vermelhas. Será que eu estava vermelha também? Esperava que não.
- Eu tive, na verdade. – Assumi. – Pensei que todo mundo precisava de algo novo.
- Pelo menos eu vou me divertir no baile dessa vez.
Eu sorri um pouco, mas não disse nada, porque não podia me arriscar a isso. deu um passo para trás, enfiando as mãos nos bolsos.
- Eu estou indo ao cinema com uns caras da escola. – Ele disse então. – Você quer ir também? É alguma coisa de terror bem idiota, mas...
- Ah, não. Eu vou ao Roger’s hoje. – Falei. – Estou com vontade de passar um tempo com meu pai.
- Ah, claro. – Assentiu. – Até amanhã então.
Soltei o ar que estava prendendo quando ele se afastou, mas parou ao chegar à porta. Pensou por um instante e olhou para trás de novo.
- Está mesmo tudo bem, não é? – Ele perguntou. – É que... Sei lá, você parece diferente.
Levei a mão ao cabelo, engolindo em seco.
- Eu só mudei o penteado.
assentiu, dando um sorriso fraco.
- Eu notei. – Disse. – Bom, até amanhã então.
foi embora e eu caí na cama. De fato, talvez fosse bom ir ao Roger’s para não ficar com a cabeça vazia. Mas eu via, agora, o quanto as coisas seriam difíceis dali para frente. Mais do que eu queria acreditar.

🌴💚🌴


No sábado, eu decidi fazer um bolo, visto que todos ficariam o dia inteiro em casa. Saí de casa depois do café da manhã e caminhei tranquila e feliz rumo à mercearia. Queria comprar morangos.
Meu telefone tocou no caminho e era mamãe, fui conversando com ela sobre como estavam as coisas.
- Eu não acreditei quando seu pai me contou, achei que ele tinha te trocado por outra garota no estacionamento. – Ela brincou. – Líder de torcida? Você?
- Ora, o mundo dá voltas, não é? – Suspirei, entrando no mercado e olhando os preços das coisas.
- E quanto ao seu namoro com esse tal de ? Quando vai me deixar falar com ele?
- No dia de São Nunca. Mas acho que você ia gostar dele. É um prodígio artístico como você.
- E como seu pai, pelo que entendi. – A voz dela não foi exatamente de aprovação, o que me fez rir.
- Acredite, mãe, o não tem absolutamente NADA a ver com papai. Ele é responsável e lembra de pagar as próprias contas, o que já o torna muito diferente...
Enquanto falava, eu vi, no fim do corredor, mexendo na banca de frutas, a senhorita Elizabeth. Ela escolhia caquis tranquilamente e pensei em dar um alô. Me despedi de mamãe prometendo que qualquer hora dessas deixaria que ela falasse com o e fui até minha professora.
- Oi, senhorita Elizabeth. – Eu disse com um sorriso.
- ! – Ela ficou surpresa ao me ver. – Mas que coincidência. Você mora perto daqui?
- Na verdade, sim. A algumas quadras daqui. E a senhorita?
- Ah, não. Nem tanto. – Ela balançou a cabeça. – Só não consegui achar caquis descentes em outro lugar e tive que andar um pouco mais.
- Bom, fico feliz que tenha encontrado alguns por aqui. – Falei, pronta para me despedir. – E espero que tenha conseguido resolver aqueles assuntos pessoais de última hora.
- É gentil da sua parte, mas eu é quem deveria te dizer isso, não? – Ela riu, fechando o pacote de caquis.
Voltei o passo que já tinha dado, confusa pelo que ouvi.
- Como assim?
- Ora, a infestação de pulgas na sua casa. – Ela disse baixinho. – Não foi por isso que faltou aos ensaios na última semana?
De que raios aquela mulher estava falando? Meu cachorro não tinha pulgas. dava banho nele o tempo todo.
- Não se preocupe, querida, a Jasmine me avisou. – Ela continuou. – Ela te substituiu nos últimos ensaios, mas o papel de Ebony ainda é todo seu.
Mas. O. QUÊ?
AH. MEU. DEUS.
A VACA DESGRAÇADA TINHA ME SABOTADO! ELA TINHA ARMADO PARA MIM!
- Bem, se estiver tudo bem, espero te ver na segunda-feira. – A senhorita Elizabeth disse. – Tchauzinho.
Só saí do estado de raiva paralisante depois de alguns instantes. Então corri atrás dela, porque não ia deixar aquela vaca se safar assim.
- Senhorita Elizabeth! – Gritei já quase chegando à saída do mercado.
A professora já saía com suas bolsas de frutas, mas se virou para me olhar.
- O que foi, querida? – Perguntou confusa.
- Acontece que a Jasmine...
Minha voz sumiu à medida que minha cabeça começou a maquinar.
Afinal de contas, o que aconteceria se eu contasse o que Jasmine tinha feito?
Ela seria expulsa da peça, talvez. Seria delicioso de ver, mas em que isso me beneficiaria?
Em nada, já que eu não sei mesmo cantar.
Além disso, Jasmine se livraria da humilhação de cantar nos bastidores para que eu me destacasse diante de toda escola, e é claro que eu queria vê-la espumando ódio por ter que fazer aquilo na noite da peça, então não seria vantagem colaborar para seu castigo.
O que não queria dizer que ela ficaria impune.
Não mesmo.
E aí estava o último motivo para que eu calasse minha boca: eu tinha que me vingar de Jasvaca e tinha que fazer isso com maestria. Brigar de cara nunca era a solução com ela, por mais tentador que fosse.
- ? – A professora estava esperando.
Balancei a cabeça e sorri.
- Eu só ia dizer que Jasmine foi muito gentil em te avisar. – Completei a frase. – Estou feliz por ter resolvido meus problemas com ela.
A professora sorriu.
- Eu sabia que vocês iam se entender. – Disse. – São tão vivas e talentosas. Seria mesmo um desperdício de tempo ficarem brigando.
- Sim. – Assenti. – Bom, nos vemos na segunda-feira então. – Acenei.
- Até lá, meu bem.
Desperdício.
Sorri, voltando para dentro do supermercado.
Pois eu ia me divertir muito desperdiçando meu tempo para me vingar daquela imbecil. E eu nem ia esperar para comer o prato frio.

POV

- Ah, , desfaz essa cara. – Eu chutei a bola na direção do , numa tentativa obviamente falha de fazê-lo reagir. era uma pessoa difícil de tirar da fossa.
Ele olhou para mim de onde estava, sentado no chão, e empurrou a bola de volta.
- Eu só não quero jogar. – Resmungou.
Rolei os olhos e tentei sem muito sucesso fazer uma embaixadinha.
- Você está ficando paranoico. – Avisei e fui me sentar do lado dele em seguida, para não admitir que tinha parado com as embaixadinhas porque não sabia fazer. Para ser sincero, , a metida a brasileira, sabia fazer aquilo bem melhor do que eu.
- Olha, não é paranoia. – balançou a cabeça de leve. – A tá agindo estranho. Mais do que nas outras vezes. Eu pensei que a gente estava se entendendo, finalmente. Eu não posso ter imaginado tudo, né? Quer dizer, isso seria muita piração.
parecia preocupado de verdade com a possibilidade de estar ficando louco. Achei que seria melhor não fazer uma piada sobre as dezenas de loucuras que ele tinha feito nos últimos meses. Em vez disso, fiz meu papel como bom melhor amigo:
- É claro que você não imaginou tudo. Ela aceitou sair com você. E não foi como quando nós três saímos para comer sanduíche de frango, foi um encontro, amigo. Ela foi com as próprias pernas.
- Então que diabos está acontecendo agora?! – enfiou a mão no cabelo e respirou fundo. Ele estava mesmo ficando doido.
Fiz uma careta.
- Você sabe como é a . Não dá pra saber o que está se passando pela cabeça dela.
- Dá, sim. Eu é que fico tentando fingir que não sei. – Ele se levantou e saiu andando.
- Ei, volta aqui! – Bufei, indo atrás dele.
parou quando eu o alcancei, mas não parecia com muita vontade de conversar – o que não era surpresa, porque ele era daquele jeito mesmo. Por sorte, eu nunca respeitava a vontade dele.
- O que você pensa que ela está pensando, afinal? – Perguntei.
Ele balançou a cabeça. Depois deu de ombros, se rendendo.
- Talvez ela tenha mudado de ideia.
Eu queria mesmo acreditar que só estava exagerando porque não tinha uma boa recordação de situações envolvendo garotas apaixonadas por Junior , mas eu não poderia dizer que um novo surto da me surpreenderia. Ainda assim, minha intuição dizia que tinha algo mais. Eu já conhecia a bem o suficiente para saber que ela gostava do o bastante para não sair com ele só por diversão, sabendo que isso iria magoá-lo. Alguma coisa estava acontecendo.
De todo modo, como eu já tinha avisado a ela antes, era meu melhor amigo. Eu não ia deixar ela sacanear com ele ainda mais, por mais que também fosse amigo dela.
- Quer saber? – Falei, apertando de leve o ombro de . – Talvez você devesse mesmo ir para casa, esfriar a cabeça. Você precisa relaxar com esse negócio da . Sério. Tenta agir como se ela fosse só uma garota normal com quem você saiu e que está esperando para ver o que acontece. Vai ficar muito mais fácil. – Aconselhei. – E enquanto isso, você tem outras coisas pra fazer, não é? Praticar contrabaixo, estudar para ganhar uma bolsa digna na universidade no ano que vem, quem sabe?
respirou fundo, mas assentiu.
- Talvez você esteja certo. – Disse. – Vai ver eu só estou agindo feito um maluco.
- Não me surpreenderia.
- Então a gente se vê depois. – Disse então. – Valeu, .
Dei um sorriso e foi para o seu carro.
Fiquei ali, quicando a bola no chão, e então tentei uma cesta. Errei.
O que estava pensando mesmo era em como ficaria na cola da até tirar a verdade dela, dali pra frente.

POV PIE

Quando meu pai abriu a porta do quarto naquela manhã, eu estava me alongando.
- Você fazendo exercícios, Rainbow? – Ele arqueou uma sobrancelha. – O que foi que houve?
- Ah, pai, eu sou uma atleta agora e hoje tenho uma grande competição. – Sorri para ele, esticando os braços para a esquerda. Voltei à posição normal, me aproximei e lhe dei um beijo no rosto. – A propósito, bom dia.
Tomei meu café-da-manhã leve e delicioso, composto por frutas e linhaça. Brinquei com Stevie. Há alguns dias não me sentia tão bem.
Só quando estava descendo as escadas da varanda com a mochila nas costas, me dei conta de como o ponto de virada da minha vida em Jacksonville Beach tinha sido justamente em uma disputa dos Swordfishes contra o Blue Eagles. A ideia me fez parar por um segundo; tempo suficiente para o carro de estacionar em frente à minha casa. Aí sim, eu parei. Tive que respirar com cuidado, tentar ser normal. Engoli em seco, sorri e entrei no veículo.

🌴💚🌴


- Definitivamente, não podemos perder dessa vez. – Jodi estava nervosa. Seu rosto tinha purpurina, que tinha caído de seu cabelo e agora grudara no suor da pele. Jodi sempre suava bastante quando estava ansiosa.
- Nós não vamos perder. – Emma decretou, alongando os braços. – Eu prefiro a morte.
Summer riu, enquanto ajudava uma garota a ajeitar o cabelo.
- Que coisa horrível de se dizer. – Uma voz masculina surgiu.
Olhamos para porta e lá estava Brad, sorrindo. Jodi deu um longo suspiro, enquanto o garoto olhava de um lado para o outro antes de entrar.
Ele correu e se abaixou perto de Jodi, dando um beijo nela.
- Mas que droga, Winter, esse vestiário é nosso! – Jasmine resmungou.
- Desculpa, Jas. – Ele disse, sempre educado. – Mas é que eu tinha que desejar boa sorte à Jo, e a Emma não deixou a gente se ver ontem.
- Não deixei mesmo! – Hughes fez uma careta, empurrando Brad. – Você e esse seu tanquinho só servem para tirar a concentração da Slaterton. Ela tem que estar focada na competição de hoje, e, aliás, é melhor você ir embora daqui. Não devia nem ter vindo, pelo amor de Deus!
- POR FAVOR, SÓ ME DÊ UM SEGUNDO! – Brad pediu, voltando para perto de Jodi. – Olha, eu trouxe isso. – Ele amarrou uma cordinha amarela no pulso dela. – É para te dar sorte no campo.
Jodi, emocionada, agarrou Brad pelo pescoço e o beijou. Jasmine fez cara de nojo. Emma rolou os olhos.
- Já chega, Winter. – Saiu puxando o rapaz. – Evapora!
- Boa sorte, Jod... – Brad ainda tentou dizer, mas já tinha sido jogado no corredor.
Sorri e apertei o ombro de Jodi, que olhava fixamente para a pulseira, como se fosse uma aliança de noivado. Nunca tinha visto um casal que combinasse mais do que ela e Brad.
- Vocês dois são tão fofos. – Amber olhou para ela, séria. De repente, sua voz ficou embargada. – Isso me faz sentir tanta saudade do meu gatinho !
Amber começou a chorar compulsivamente e foi amparada por outras garotas. Eu imaginava o fim do mundo que seria quando finalmente arranjasse coragem para terminar com a garota, em vez de ficar arrumando desculpas estapafúrdias para fugir dela.
- São o casal mais meloso que já vi, isso sim. – Jasmine amarrou a fita amarela em seu cabelo.
- E o seu namorado, Jas? – Sienna indagou, em tom de provocação. – Não vem te ver?
- É claro que vem. – A morena respondeu mal-humorada. – Charlie não perderia minha vitória por nada.
A resposta – mais especificamente, o tom utilizado para dá-la – pareceu calar Sienna. As outras garotas também não tiveram coragem de fazer outra piada, embora algumas tivessem trocado olhares divertidos.

Uma vez prontas, saímos do vestiário com nossas bolsas rumo ao campo. Aquela seria a primeira etapa da competição das torcidas da Flórida, e das oito equipes da região que estavam ali naquele dia, apenas quatro seguiriam para a fase seguinte, para encontrar as outras.
Todas estavam muito motivadas, porque entre as equipes ali presentes, estavam as Blue Eagles. Emma tinha passado a manhã dizendo como queria ver Chelsea, a capitã delas, caindo do alto da pirâmide.
Meu celular tocou e eu diminui o passo. Na verdade, era só uma mensagem. Do .

Desculpa por não poder ir, Rain. :/
Estou torcendo por vocês à distância :)

Fiquei feliz por não ter tido que falar com ele, mas ao mesmo tempo queria ter ouvido sua voz. Eu quase a ouvi, lendo a mensagem.
Quando olhei para a frente de novo, percebi que tinha ficado para trás. Andando alguns passos, encontrei um celular no chão.
Era da Jasmine.
Ora, ora, mas que surpresa, falei para mim mesma, pegando objeto do chão.
Meditei sobre o que poderia fazer com aquilo. Precisava, afinal, me vingar daquela mau-caráter. Fui pensando sobre o assunto enquanto andava. Uma postagem ridícula no facebook? Uma mensagem vergonhosa?
Foi então que avistei as outras ao longe – Summer mapeando o lugar com os olhos, provavelmente me procurando – e percebi que alguém mais estava faltando.
Jasmine não estava com as garotas. Foi um golpe de sorte eu avistá-la antes de Summer.
Lá estava a bela Jas, atrás da arquibancada com um garoto. Eu tinha a impressão de que já o tinha visto em algum lugar. Finalmente, o identifiquei como um jogador dos Blue Eagles.
Eles estavam conversando – ou será que estariam discutindo? Ele agarrou o pulso de Jasmine, que puxou o braço de volta e disse alguma coisa com o rosto sério, mas ele não parecia nem um pouco preocupado. Por um segundo, pensei que ela poderia estar com problemas, que eu deveria ir tirá-la de lá. Mas então ela riu e o empurrou de leve, como fazemos com um amigo. Por que Jasmine, tão competitiva e importante na cadeia social da Jackson High, seria amiga de um Blue Eagle?
Eu estava me questionando, quando o telefone da garota começou a vibrar. Olhei para a tela e vi a foto de Charlie, que estava ligando.
Meu raciocínio foi rápido. Ali estava minha chance.
Sorri e rejeitei a ligação de Charlie. Depois deslizei meu dedo na tela do celular. Não tinha bloqueio por senha.
Que vacilo, Jasmine.
Abri a câmera do celular e me escondi melhor atrás de uma barraca, para que ninguém me visse.
Jasmine ainda estava rindo. Então o garoto puxou ela para um abraço, que ela aceitou.
- Daria uma modelo tão boa quanto a Olsen. – Eu disse sorrindo. Clique. Uma foto. Clique. Duas.
Abri o WhatsApp dela e encontrei Charlie de cara. Havia uma mensagem dele falando que demoraria, mas ia chegar. Meus dedos foram ágeis ao digitar:

Na verdade, não precisa vir mais.
Encontrei um amigo aqui e vamos sair para colocar o papo em dia depois da competição.
XoXo ;)

Em seguida, enviei a foto com um belo zoom dos dois se abraçando.
Esperei que o sinal de confirmação de recebimento aparecesse, e quando tive certeza de que ele já tinha visto as mensagens, as apaguei do celular dela, então desliguei o aparelho.
Jasmine era tão boa com mensagens, esperava que ela desse conta dessa.

[N/A: Agora podem ouvir essa, girls].

Fui para perto das garotas, satisfeita. Me aproximei da bolsa vermelha de Jas, que alguém tinha levado, e joguei o celular dentro dela.
- Pensei que você tinha sido sequestrada pelas Eagles! – Summer me lançou um olhar aliviado. – Viu a Jasmine?
- Desculpe, me distraí com uma mensagem. – Respondi me alongando. – Sabe que não a vi? Pensei que estivesse com vocês.
- Lá está ela! – Amber apontou quando vimos Jasmine andando, toda sem jeito, rumo a nós.
Ela mudou de expressão assim que chegou.
- Que caras são essas? – Perguntou.
- Cara nenhuma. – Summer sorriu um pouco. – Entramos em alguns minutos. Vamos arrasar, ok?
Não demorou muito para que os apresentadores começassem a falar. Eles descreveram um pouco o perfil de cada equipe, não esquecendo de fazer uma série de elogios a Summer, que estava voltando depois de um bom tempo afastada da torcida.
Então as Blue Eagles foram chamadas. Chelsea – a versão ruiva de Taylor Swift – nos olhou de cima a baixo ao entrar no campo. Emma emitiu um som muito parecido com um rosnado e Summer a acalmou. Jasmine e Amber também xingaram alguma coisa, enquanto as outras garotas da equipe rival pareciam cochichar piadinhas sobre nós.
A apresentação individual das Eagles foi basicamente impecável. Elas estavam mesmo dispostas a passar para a próxima etapa e – especialmente – se saírem melhor do que nós.
Havia uma série de movimentos novos, diferentes dos que eu tinha visto nas minhas aulas sobre nossos adversários – incontáveis horas de vídeos de competições passadas, com pausas a cada dez segundos para os comentários de Jodi. Inclusive, havia um passo claramente feito para nos provocar, um movimento semelhante ao ato de pescar algo e depois jogar fora, como se estivesse estragado.
- Eu vou esfregar a cara dela no asfalto. – Emma decretou. Ninguém teve a audácia de contestar.
Depois das Blue Eagles saírem muito aplaudidas dali, foi a vez das Pirates de Saint Augustine, de quem eu tinha gostado muito ao ver os vídeos, então estava ansiosa pela apresentação, que não me decepcionou, mas me preocupou.
Finalmente, chegou a nossa vez.
Entramos no campo com toda a segurança acumulada em treinos incontáveis e muito esforço. Emma fez uma cara tão feia para as Eagles, que vi Chelsea recuar sutilmente.
Summer fez o sinal e nos posicionamos. Respiramos fundo e estava na hora de começar.
Eu não sabia que queria tanto ganhar até estar ali. Quando a música que selecionamos começou a tocar, era como se eu tivesse passado a vida fazendo aquilo.
Segui os movimentos com perfeição, até mesmo os passos que eu tinha que fazer com Jas. Nenhuma de nós parecia estar ligando, naquele momento, para nosso ódio mútuo. Fiz todas as acrobacias que tinha sido capaz de aprender no tempo que tinha no grupo, e fiquei muito feliz quando vi Summer improvisando – o que ela sabia fazer bem – no chão e puxando o grito de guerra do Swordfish, que respondemos com vontade.
Eu via os olhos de todas nós brilhando e estava tão empolgada que nem sequer olhava para a platéia. Por isso, quando fui para o alto da pirâmide e ouvi os gritos e aplausos, foi uma grata surpresa.
- CARAMBA, NÓS ARRASAMOS! – Emma gritava eufórica.
- FOI, NÃO FOI? – Jodi a abraçou.
Summer foi até mim e também me deu um abraço apertado. E eu ri ao ver a cara de despeito de Chelsea e suas companheiras.

[N/A: ok, podem parar, girls.]

🌴💚🌴


Terminei de enxugar o cabelo no vestiário, com aquele sentimento de missão cumprida transbordando no peito. Tínhamos passado a fase seguinte e eu estava tão feliz; especialmente por Jodi e Emma, que finalmente realizavam seu sonho de participarem de uma competição de torcida.
As outras garotas já estavam lá fora, porque eu tinha tido que atender uma ligação da minha mãe e ficado por ali. Então ouvi a porta ranger.
- Quem diria que você se sairia uma líder de torcida tão boa?
Reconheci a voz de imediato, mas precisei olhar para trás para ter certeza de que se tratava mesmo de .
- Quem diria? – Eu sorria de orelha a orelha.
- Eu só queria te dizer que eu estou super orgulhoso de você e que eu realmente, realmente adoro te ver naquele uniforme.
Algum tempo atrás, eu teria ficado brava com a ousadia de em ir ali para isso, mas eu estava tão feliz. E afinal, eu tinha me decidido sobre aquele assunto do , não é?
- Eu adorei que tenha vindo. – Corri e o abracei.
E quando vi, estava me beijando.
Fiquei um pouco triste em me dar conta de que o beijo não era como antes, quando eu o queria mais do que tudo – quando parecia que o mundo ia acabar se não o tivesse. E senti minha cabeça vagando para longe, para um quarto pequeno com uma poltrona e um contrabaixo, mas fiz o possível para ignorar tudo.
era quem estava me beijando ali, e eu não o impedi.

Continua...



Nota da autora: DEMOROU MAIS SAIU! Vocês ainda são as melhores – e mais pacientes – leitoras do mundo, e se hoje fosse dia de Ação de Graças, eu seria grata por vocês <3
Entrem no grupo, comentem na fic!
Beijocas da Fanny

Grupo de SIP


Nota da Beta: Gente, que loucura! Nossa pp é vingativa mexmooo! Eu tô é bem doida e empolgada com tudo isso, socorro! Logo mais vem o próximo cap, que tá gigante, por isso resolvemos mandar um de cada vez, mas quero ver o que vocês tão achando dessa novela mexicana que Fanny criou, porque eu to apaixonada!! xx-A




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