CAPÍTULOS: [1]





Stuck on the Puzzle






Capítulo 1


I'm not the kind of fool who's gonna sit and sing to you about stars, girl.


- Eu não pego a ponte aérea sóbrio. - Dizia Damon pela terceira vez consecutiva em quinze minutos.
Assistiu o amigo pegando a garrafa de bolso, que a esta altura aparentava estar com menos 3/4 do conteúdo original de quando haviam se encontrado mais cedo naquela manhã. Deu um longo gole, no que pelo cheiro deveria ser uísque, e em seguida alcançou no bolso da calça uma pequena cartela com dois comprimidos.
- Espero que em 20 minutos estejamos todos sentados e devidamente amarrados nas cadeiras daquele maldito avião, porque o cara que me vendeu isso aqui disse que essa coisinha vai me deixar em um coma induzido. - Ele riu da própria piada. - E quando eu acordar... Ah, quando eu acordar eu vou estar pronto pra um vinte-contra-um do cacete, se é que vocês podem me entender. E é isso o que todos nós esperamos. - Engoliu as pílulas e bebeu mais um ou dois goles de sua bebida, guardando a garrafa no bolso interno de seu casaco. - Será que eu posso ouvir um amém? - Gritou a última parte arrancando gargalhadas da criaturinha sentada entre os dois amigos.
- Amém! Amém! Amém! - Disse em sua voz infantil erguendo os minúsculos braços para cima, balançando-os e repetindo "amém" mais inúmeras vezes.
- , venha me dar um pouco de amor agora mesmo. - Damon ria conforme pegava a garotinha, com seus pouco mais de quatro anos de idade recém-completados, e a endireitava em seu colo, esmagando-a carinhosamente em meio a seus braços.
A pequena se divertia com as palhaçadas do mais velho, bagunçavam os cabelos um do outro, cantavam alto e desafinadamente letras de músicas dos desenhos animados preferidos de , metiam as cabeças entre os bancos que dividiam o veículo a fim de perguntar ao taxista quanto tempo ainda ficariam no trânsito, e, quando o senhor os dizia com a voz cansada “só mais alguns minutos, graças a Deus”, pediam-lhe para tocar a buzina. Abriam e fechavam as janelas dos vidros do banco de trás do táxi repetidas vezes. E foi em uma dessas que levou às mãos às têmporas, massageando a área e respirando fundo. Suas ações não ultrapassaram dois segundos, e mesmo assim não deixaram de passar despercebidas por Damon.
- Ei, , não olhe agora, mas parece que tem alguém de mau humor aqui do lado. – Falava olhando fixamente para os olhos de ; azuis, tão azuis quanto o próprio céu em um dia quente de verão. A pequena intercalava-se ora correspondendo ao olhar de Damon, ora espionando a mãe pelo canto dos olhos; tapava a boca com as mãozinhas, para não sucumbir em risadas, como sempre acontecia quando Damon estava por perto. O que era sempre.
– O que nós fazemos com gente mal-humorada perto da gente, hein, ? – Damon provocou.
- Cócegas na mamãe! - Proclamou .
- Cócegas na mamãe. - Concordou Damon.
assistiu os dois se virarem para ela, expressões travessas tomando conta do rosto de ambos.
- Damon, não! Você sabe como eu fico antes de voar, e ainda é muito cedo. Estou tomada pelo meu mau humor matinal, eu não dormi bem a noite, ainda tinha que arrumar algumas das coisas de , e...
- - interrompeu-a. - Cale a boca. Você está uma pilha de nervos, mulher, acalme-se. Estou começando a reconsiderar... Eu deveria ter lhe dado uma daquelas pílulas. Foi mal.- O amigo disse mostrando a língua para ela. rolou os olhos e percebeu que o taxista os assistia através do espelho retrovisor com um sorriso e o rosto vermelho, parecendo segurar-se para não gargalhar dos dois adultos imaturos que transportava no banco traseiro de seu carro.
Voltou então para pequena , que até então não havia se prontificado. A menina soltou-se de Damon sem muito esforço e atravessou o pequeno espaço que a separava do colo de sua mãe. Os dois observavam a garotinha abraçar a mãe, com os braços miúdos transpassados ao redor de seu pescoço, e beijar-lhe as bochechas, uma, duas, três, muitas vezes.
- ? - Damon chamou-a, como quem esperava uma explicação por tal traição.
- Tio Damon, eu achei que era melhor mudar o plano para abraços e beijos na mamãe - ela disse ainda abraçada a mãe, com a cabecinha apoiada em seu peito. Virou-se para Damon com as mãos ao redor da boca, como a quem conta um segredo, e cochichou: - A mamãe tem medo de avião..
Damon se aproximou das duas, depositou um beijo na testa de e envolveu-as em seus braços.
- Minhas meninas - sussurrou no ouvido de . Ela sentiu seus músculos relaxarem em meio aos braços de Damon que a rodeavam confortavelmente; o amigo apoiara o queixo no topo de sua cabeça, coma respiração tranquila. Temia que as pílulas estivessem fazendo seu efeito mais cedo do que o programado pelo próprio Damon.
Bufou. Não que se importasse em cuidar de tudo. Na verdade, era o que mais estava habituada a fazer nesses quatro anos. Desde o dia um de Damon West em sua vida, incontável lhe foram as vezes em que fizera compras para o apartamento do amigo, que tinha uma escassez em demasiado de comida, mas que havia álcool em quantidades absurdas; era quem mandava notícias semanalmente à mãe de Damon, uma querida, que morava há um oceano de distância do filho relapso que não ligava nem para dizer que estava vivo; Damon não respeitava os despertadores, era que o acordava pela manhã, logo antes de deixar a pequena na escolinha; assim como era quem inventava desculpas ao chefe referente os inúmeros atrasos de Damon; era quem mandava as vadias de Damon embora pela manhã, com uma xícara de café e com um "Bom dia, até nunca mais" que se despedia das pobres moças; era também quem repunha as xícaras e camisetas que o amigo perdia semanalmente para o clã de moças que lhe faziam companhias pela noite.
Algumas vezes sentia-se como que casada com Damon West, outras sentia-se num débito infinito para com o melhor amigo. Conheciam-se não havia tanto tempo assim, fora logo que se mudara para Nova York, grávida e sem conhecer ninguém. Esbarraram-se acidentalmente, e, quatro anos depois, ainda não sabia o que havia feito de tão bom na vida para merecer alguém como Damon todos os dias ao seu lado. Ou talvez o que Damon, verdadeiramente, vira nela. Ele vivia a dizer que fora a camiseta dos Vaccines que ela vestia na ocasião, que segundo ele, todo aquele a quem tivesse um gosto musical tão sofisticado quanto o dele próprio prender-lhe-ia a atenção com maior intensidade do que um par de peitos.

FLASHBACK

Caminhava pelas ruas abarrotadas de pessoas ocupadas e apressadas. Não se encaixava em nenhuma das categorias, era uma estranha no meio de tanta gente; de olhos baixos, não encarava ninguém diretamente aos olhos havia tempo demais. Tinha medo do que poderiam enxergar se olhassem muito fundo. Dr. Price, seu antigo terapeuta, diria que demonstrava sintomas de depressão e bipolaridade, tendo em vista que mais cedo, quando estava enclausurada em seu quarto de hotel, não via a hora de sair e sentir a luz do sol resplandecendo em seu rosto pálido e sem vida, como o espelho costumava lhe lembrar.
Tinha certeza absoluta que Dr. Price prescreveria mais alguns comprimidos controlados para tomar, desejaria boas coisas e que a veria na próxima semana com um sorriso no rosto. reagiria amistosamente conforme tua boa educação lhe incumbisse e sairia do consultório do terapeuta amassando o pedaço de papel com a receita de seus remédios.
Lembrava-se inclusive de um episódio muito parecido mês atrás, em uma das últimas vezes que visitara Dr. Price antes de tudo acontecer. Estivera presa dentro do caos que transformara sua própria vida, chegando a cogitar o suicídio, mesmo sabendo que não teria a coragem. Havia uma coisinha, que ainda estava protegida dentro de si, que a impedia. E, por Deus, era grata todos os dias por isso.
Há menos de 48 horas pegara o avião que a levaria de Londres para Nova York, separando-a de toda a confusão que transformara sua vida nos últimos anos que estivera na terra da rainha. Sem o apoio de nenhum dos amigos, lá estava ela, com uma pequena bagagem contendo apenas o necessário, algumas mudas de roupa, objetos pessoais - incluindo sua tão estimada coleção de discos e um pinguim de pelúcia que tinha desde os seis anos de idade. Chorara por todas as oito horas do voo, sentia-se tão patética. Inúmeras foram às vezes que aeromoças lhe afagaram as costas, buscando reconfortá-la, já que a menina soluçava baixinho, sem querer atrapalhar aos outros passageiros e sem conseguir falar. Soltava algumas palavras desconexas, e as aeromoças apenas balançavam as cabeças, como a quem concordassem e lhe ofereciam água. E lhe ofereciam travesseiros extras. E lhe ofereciam abraços. não conseguiu lhes negar nenhuma das bajulações, com certeza deveriam ter visto o sobrenome em seu passaporte, levando-se em conta que o nome da família de senhor seu pai impunha respeito por toda Inglaterra.
Continuando, andava pela calçada, distraída, olhando para seus sapatos sem graça, quando sentiu algo atingir-lhe pela frente. Não tomou consciência do que havia acontecido até aquele ser espalhafatoso e encantador - foi como o identificou na primeira vez em que o viu - tudo isso ao mesmo tempo, se prontificar.
– Ô, meu Deus, que merda que eu fiz? – Ele falava e se mexia sem parar, tentava recolher os documentos que derrubara no chão com uma das mãos enquanto com a outra segurava o braço de tentando levantá-la. – Moça, me desculpa, por favor. – E ele continuava falando. – Ei, cuidado aí, seus malditos pedestres! Não pisem em nada. Xô xô, essas fotos valem mais que esse seu Jimmy Choo falsificado. Ouviu bem, dona? – E agora discutia com quem tencionasse passar próximo de onde ele ainda recolhia seus papeis, no caso, fotografias, com apenas uma das mãos.
– Hey, não foi nada de mais, deixe-me te ajudar. – tentava se soltar do aperto dele em seu braço.
– Eu sou um desastre. Me perdoe, moça. Estava distraidão com o café, foi mal mesmo – disse soltando finalmente o braço de . Seu rosto fez uma careta involuntária quando percebeu que ainda segurava o braço dela.
– É sério, não tem problema, também não era como se eu estive prestando atenção nas outras pessoas – disse, soltando um riso tímido em seguida. O rapaz parecia distraído, determinado a terminar de recolher as fotos e não chegou a respondê-la.
Restava apenas uma, e esta, estava próxima de . A mesma abaixou-se para pegar a fotografia e impressionou-se com o belo trabalho, crianças agasalhadas correndo pela grama de pés descalços, os sorrisos nos rostos de cada uma delas lhe davam uma falsa sensação de felicidade. Imaginou que deveria ser para alguma campanha publicitária, levando-se em conta a propagando a parte que se destacava no entorno.
- Gostou? – Ouviu-o perguntar. E fora então que se dera conta de que deveria estar apreciando a tomografia em suas mãos por mais tempo do que imaginava.
– Mas é claro. O cara que tirou essa foto soube captar os sorrisos das crianças de uma forma estupidamente genial. Qualquer pessoa que olhar pra foto vai querer fazer parte dela. É incrível. – Agora ele tinha uma expressão convencida no rosto. estava apostando mentalmente suas fichas de que ele era o fotografo dito cujo. – Vou te contar um segredo, mas eu não daria todos os créditos para o porra do fotografo. Sabe, eu nunca trabalhei com um fotografo que me entendesse bem. – Ele começou aquele monologo mexendo uma das mãos livres de suas coisas, como que quisesse dar ênfase no que dizia. - Na verdade, nenhum desses filhos da puta nunca compreendeu a minha forma de trabalhar. Eu quero isso aí que você disse, cara. Eu quero que as outras pessoas olhem para o meu trabalho e pensem “Porra, isso me lembra tal coisa”.
- Sei lá, quando eu peguei essa campanha, por exemplo, eu não sabia o que fazer, mas me escolheram e eu nunca, repito, nunca vou dizer não pra trabalho. Ok. Foda-se. Enfim, essa marca de agasalhos queria uma propaganda pra nova coleção, aí eu pensei... “O que as pessoas querem ver?” – Ele continuou. não conseguiria pensar numa resposta rápido mesmo que o quisesse. - Felicidade, certo? – Ele mesmo respondeu. - E como eu vou trazer isso pra elas? – Fez mais uma pausa dramática antes de prosseguir aquele monólogo. - Bem, com fucking crianças e cachorrinhos. É ÓBVIO. Todo mundo ama crianças. E aí está.
Apontava para a foto que ainda estava com .
- É claro que eu citei Jean-Jacques Rousseau: “Crianças devem correr descalças em todas as estações do ano”. Todo projeto precisa ter um partido, e eu sei que li sobre isso em algum lugar, deve ter sido em algum livro de autoajuda, eu sei lá. Veja bem, não pense que eu sou um paranoico, maníaco ou algo do tipo, só estou fazendo meu trabalho. – Se justificou quando viu a expressão que tomava conta do rosto de .
- Você realmente é maluco, mas não acho que seja algum tipo de psicopata – disse , fazendo graça.
- Pois se eu fosse um maníaco, quando você descobrisse, seria tarde demais – ele respondeu, dando-lhe língua. Sentia-se afeiçoado a garota que derrubara na rua. Sabia que estava atrasado, precisava voltar ao escritório, terminar muitas coisas que deixara pendente para cuidar particularmente da impressão de seu projeto.
- Falou como um verdadeiro americano – respondia qualquer coisa que lhe viesse à cabeça. Sentia-se uma tonta, estava tão tímida ao lado daquele rapaz. Ele exprimia uma segurança tão grande a cada palavra que saia daquela boca. Os brilhantes olhos azuis expressavam confiança, com sua postura ereta, e as roupas seguindo padrão algum de moda; apenas uma camiseta branca, jeans e algum tipo de bota masculina.
perdia-se em seus próprios pensamentos. Sabia que deveria estar atrasando o pobre homem, mas fora ele a primeira pessoa com quem falara desde que chegara à cidade. Tirando, bem, os funcionários do hotel que estava hospedada.
Quando percebeu estar quieta por tempo demais, voltou-se para o rapaz; este a observava, olhava compenetradamente para os olhos de , com um sorriso de canto de boca. Ele parecia esperar alguma reação da mesma. Ela, por sua vez, assustou-se com a intensidade do olhar. Parecia que ele conseguia ver além de sua alma, com toda aquela calma e serenidade.
Não gostou daquilo, não queria que o cara dos olhos azuis conseguisse ver nada. Queria continuar guardando tudo para si mesma. Quando pegara o voo 547 com destino para Nova York prometera a si mesma que faria tudo sozinha daquele dia em diante, não confiaria em mais ninguém. As pessoas não mereciam uma segunda chance. Nenhuma delas. Pessoas mentem e machucam, não precisava disso em sua vida.
- Que é que esta olhando? - perguntou sem deixar transparecer a raiva que se assolava.
- Eu? - dizia ele, com uma falsa expressão de inocência. - Só estava imaginando quando é que você iria me dizer seu nome.
- Me chamo . Van Der Woodsen. - Arrependeu-se no momento que terminara de proferir seu sobrenome. Se tinha planos de manter-se incógnita, não estaria fazendo um bom trabalho. Por sorte, ele pareceu não demonstrar muita surpresa. Talvez a família de seu pai não fosse tão conhecida assim nos Estados Unidos. Não da forma desastrosa que era na Inglaterra.
- Hm. Bonito nome, . Caso lhe interesse, me chamo Damon West - disse com firmeza, voltando-se para seu relógio de pulso. - Já que estou fodidamente atrasado, aceitaria tomar um café comigo? - Perguntou, assistindo o rosto de contrair-se, como se fosse negar o convite, e realmente iria, mas, como ela viria a descobrir após anos de convivência, Damon West sabia ser insistente e não aceitava um não como resposta. Jamais.
- Vamos, . Lembre-se, você esta em débito comigo. Afinal, foi por sua culpa que derrubei meu copo gigante de café expresso.
Chocada, respondeu:
- Você me derrubou na rua, no chão. Se minha bunda dói agora é por sua culpa. - Damon ria.
- Oras, então eu também tenho um débito com a senhorita. Bom, um West sempre paga suas dívidas. - Com movimentos rápidos, pousou uma das mãos nas costas de , e a conduziu, em meio aquela multidão de pessoas. Todas ainda pareciam ocupadas e atrasadas com seus próprios compromissos, e ainda não se fazia parte de nenhuma dessas duas categorias. Já Damon... Bem, ele fazia, e das duas, mas parecia não estar dando uma foda que fosse para nenhuma delas.
- Vou lhe pagar um café. - Ele dizia, ainda com a mão livre nas costas de .
- Mas... - Pensou em recusar. Porém Damon foi mais rápido.
- É só um café, . Não seja mal-agradecida, hein. - Os dois riram e relaxou, finalmente, dando-se por vencida, e deixando Damon leva-la a cafeteria.

* * *


-... Aí eu disse pra ele: Dimmy, cara, você não pode assinar seu primeiro trabalho como publicitário com um pseudônimo, ainda mais com um que você usa pra jogar world ofwarcraft. - Damon mais ria do que narrava sua história. - O cara era o maior nerd horrorshow que eu já vi nessa vida. Ai, eu amo o Dimmy. - Esfregava os olhos como que secando as lágrimas que apareceram de tanto rir. - Mas e você, ? - Ele perguntou mudando o rumo da conversa. - Eu estou aqui, falando e falando, merda atrás de merda, quando o que eu quero saber de verdade é o que você faz, o que você gosta. Sei lá, cara, me fala de você. - Damon olhava-a diretamente nos olhos com os brilhantes olhos azuis. Isso ainda a incomodava.
- Por algum acaso isso é algum tipo de encontro? - quis se certificar. Conheciam-se há o que? Uma hora? E Damon já queria um pequeno resumo da vida de . Bem, isso não iria acontecer.
- Err, não! - Damon falava com um tomo, fazendo a sentir uma débil mental que não o compreendia. - Somos apenas dois amigos tomando um café e batendo um bom papo. - O encarava atônita, sentia que ele lhe dizia a verdade. Nada que fosse proferido por Damon West, chegara a perceber, tinha tom de mentira. Ele parecera tão sincero desde o primeiro segundo que ouvira todo aquele monte de palavras saírem de sua boca. Ele e aqueles olhos azuis.
- Bem... - Bufou, dando-se mais uma vez por vencida, cedendo a Damon e suas vontades. - Eu não sou daqui, de NY. Morei em Londres minha vida toda. - Ouviu um pigarro de Damon, interrompendo-a.
- Isso explica o sotaque. - Fez uma careta engraçada quando percebeu que a nova amiga não gostara da interrupção. - Foi mal. Continua.
- Hm, como eu estava dizendo, acabei de me mudar. E sei lá, me sinto uma estranha na cidade. – Respirou fundo antes de prosseguir. – Sinto como se todos tivessem algo para fazer, todo mundo parece tão ocupado, e eu não tenho nada, entende? – Damon balançava a cabeça confirmando. – Acabei de me formar, nunca trabalhei, nem nada.
Encarava Damon fixamente, conforme falava, e aquela expressão brincalhona que lhe acompanhava o rosto havia desaparecido, dando lugar a seriedade. Ele parecia prestar muita atenção em tudo o que lhe era dito.
– Eu só queria ter um novo começo aqui, na cidade nova, mas não sei por onde começar – confessou. – Eu estou perdida. – Sua voz foi sumindo.
Damon encontrava-se numa rara situação, uma a qual ele não sabia lidar; Quando pediu para ouvir um pouco sobre a vida de sua nova amiga, jamais imaginara que ela descarregaria seus fardos. Sentia que precisava consolá-la. Aos seus olhos, era como uma flor precisava de proteção e cuidado, parecia tão frágil. Queria guardá-la dentro de uma redoma de vidro e mantê-la segura. Afeiçoara-se tão rápido a garota. Não sabia o que era que lhe prendia a ela, mas não conseguia afastar-se.
Ignorava o estranho formigamento no bolso de sua calça, indicando que seu celular vibrava recebendo uma ligação. Não queria desperdiçar seu tempo com . Ela parecia lhe esconder tanto por trás daquele sorriso tímido. Ele queria desvendá-la. Queria trazer paz à .
Foi quando uma misera ideia lhe veio a mente de súbito; não poderia vestir uma armadura de cavaleiro de donzelas em perigo e partir ao meio com a espada todo o sofrimento que via assolando sua protegida, , isso aqui era a vida real, não haviam dragões ou lutas medievais. Infelizmente, pensou Damon. E a contragosto precisou retomar suas atividades cerebrais naquilo o que tinha em mãos. Queria ajudar , e não poderia envolver suas fantasias mentais, pir-li-pim-pim, pó-mágico e essas babaquices.
- E você está a procura de um emprego? – A pergunta surgiu como a quem não queria nada, nem mesmo o próprio Damon acreditava no que estava dizendo; só soube que era ele mesmo a questionar a nova amiga porque ouvia o som da voz pronunciar cada palavra.
- Você fala como se alguém quisesse me contratar – respondeu sem ânimo.
- E por que não? – A nostalgia já começava a correr por suas veias.
- Damon. - Falou como se o repreendesse. - Acabei de lhe falar, é humilhante demais repetir. - Respirou fundo. - Eu tenho 21 anos e nunca trabalhei, eu não tenho porra de experiência nenhuma, sabe? O que alguém feito eu coloca num currículo?
- Não vou dizer que não gosto de te ver desse jeito mega à vontade, batendo um papo descontraído com o seu amigo, porque eu gosto, mas a questão é: , você especulou pra caralho e ainda não respondeu minha pergunta. - Damon a deixara atônita mais uma vez, quer dizer que agora era ela quem falava demais? - Você “ta sim” ou “ta não” procurando emprego?
- Bom, não é como se eu houvesse tentado alguma vez, mas...
- ! - advertiu Damon.
- Ok. - Desculpou-se. – Estou. – Respondeu dando-se por vencido mais uma vez por Damon West. - Estou procurando alguma porra de emprego, e ainda não sei que diferença isso faz.
- Pois você acabou de encontrar - Damon disse, fazendo sinal para a garçonete trazer-lhe a conta.
- E você não quer me explicar o que é que eu encontrei. - Damon bufou para com a ignorância de .
- Escuta bem, que eu trabalho com publicidade espero que você já tenha tomado nota. E lá na agencia a gente não tem fotografo nenhum. Zero fotógrafos. Zero fodas dadas. Entendeu? - Balançou a cabeça afirmando, mas a verdade é que não compreendia aonde é que o amigo queria chegar. - Chamamos uma pessoa terceirizada, ou seja, é tudo uma grande merda, a cada nova campanha eu trabalho com um fotografo diferente. E isso me irrita profundamente. – Ele fazia gestos com as mãos indicando sua frustração. - Porque imagina só você ter que trabalhar com um cara diferente toda vez que um projeto novo surgir? É de foder. E a gente briga. E a gente não se entende. E ele não pega o angulo que eu esperava que ele pegasse. E eu quero uma coisa e ele propõe outra conforme seus padrões de trabalho... É um inferno. Pode perguntar ao meu terapeuta. Ele também é meu porteiro lá no prédio. Enfim. Onde eu to querendo chegar, bonitinha, é, eu gosto de você , e eu quero te ajudar. Eu olho pra você e eu acredito no que eu vejo e eu gosto. Parece tão fácil gostar de você. É como se você fosse o pôr do sol. Eu quero trabalhar com você. Olha, mais uma vez, não pense que eu sou maluco ou sei lá o que, nem eu mesmo sei que demência é essa que surge e não me deixa calar a boca, mas eu to sendo totalmente verdadeiro aqui com você, e eu sinto que isso pode dar certo. Você fotografando pra mim e pra galera lá da firma. Seremos invencíveis. Eu quero que isso dê certo. - Interrompeu-a antes que ela pudesse dizer alguma coisa. - Por favor, não se esqueça o quão eu posso ser insistente.

/FLASHBACK


Senhores passageiros com destino a Londres/UK: embarque no portão cinco.
O tremor que tomava conta de seu corpo toda a vez que ouvia a comissária de bordo relatar as indicações de seu voo lhe eram dignas de algum filme de terror. Não era segredo a ninguém seu pseudomedo de aviões e tudo aquilo interligado a tirar os pés do chão; não gostava nem de pular os degraus da escada, quem dirá estar a um milhão de metros de altura. Suava frio só de relembrar daquela sensação, horrível, diga-se de passagem, de quando o avião dava a volta na pista preparando-se a levantar voo, debilmente conhecida por borboletas no estômago. No caso de , lhe era um redemoinho inteiro.
- Tenho certeza que uma daquelas pílulas seria muito bem-vinda agora. - Sobressaltou-se com Damon.
- Nem uma, nem trinta - respondeu, séria. - Não acha que já não tentei até mesmo hipnose e esses diabos?
- Nossa. Calma aí, mamãe. - Damon levantava as mãos em sinal de trégua. acho graça, o amigo estava, como ele mesmo se definia, pra lá de Bagdá. As pílulas definitivamente haviam começado a fazer efeito. - Já te disseram o quão ranzinza você fica antes de entrar num avião?
- Na verdade... - Fez uma pausa, como se pensasse sobre o assunto. - Sim. É. Você disse isso pra mim da última vez que voamos pra L.A.
- Touché, filha da puta. - Damon levantou seu copo descartável de sabe-se-lá-o-que, deixando o "cheers" subentendido. riu.
- O que é isso? - perguntou, tomando das mãos de Damon o copo e sua bebida suspeita. Ele, por sua vez, tentava impedir a amiga, mas nas condições atuais encontrava-se com suas funções vitais debilitadas. - Espero que não seja café, Damon. - Falou, conforme analisava o conteúdo do copo plástico. - Damon! - Advertiu. - Eu não acredito. Você tomou aquelas malditas pílulas com sonífero, ou sabe-se-la-Deus-o-que e agora esta se enchendo de café. Café! - saiu da fila de embarque com o copo em mãos, dirigindo-se a lixeira mais próxima, ainda murmurando desaforos contra Damon.
Balançava a cabeça negativamente por todo o percurso até regressar em seu lugar ao lado do amigo na fila.
- Espero que você saiba que feriu minha dignidade com esse showzinho todo, barraqueira - Damon falou. Sua voz saiu fraca, seu tom era cansado e ele apoiava o peso do corpo em sua mala.
- Quando tiver pretensões de se matar, faça isso quando não estivermos prestes a pegar um voo de oito horas, obrigada - resmungou. - Já disse, você não tem mais 20 anos de idade, Damon, deveria parar de agir como se ainda os tivesse - sussurrou a última parte.
Damon não respondeu de imediato. Quando o assunto se tratava de seus vícios em ilícitas, medicamentos e álcool, sempre arrumava uma maneira de se esquivar. Sabia que o amigo não gostava de falar de nada que arremetesse sua orgia de drogas, nem as razões que o levavam a se drogar.
Acreditava que ele não precisasse daquilo. E já tentara convencê-lo disso incontáveis vezes, mais do que sua força de vontade lhe fora capaz. De qualquer maneira, nada jamais havia feito o mínimo de efeito contra Damon. Ele continuava se drogando, se esquivando, e dando-a a falsa premissa de que estava tudo bem, e em grande parte do tempo com ele realmente acredita fielmente de que as coisas poderiam estar como deveriam ser. Afinal, já aceitara há tempos a insistência de Damon.
- Eu estou só me divertindo , deixe de ser chata. Queria que estivesse aqui agora - resmungou. - Minha pequena defenderia minha honra de você, mulherzinha cruel.
Bufou antes de decidir que não discutiria mais com Damon, ao menos não antes de embarcar em um avião.
- chamou-a para perto quando se aproximava a vez dos três entregarem suas passagens e passaportes para a comissária. , estava ao lado do portão de embarque, se despedia dos passageiros que sumiam por trás das portas, desejando "tchau, boa viagem". A pequena menina havia ganho de uma aeromoça um chapéu de piloto de avião, e em sua mente de quatro anos deveria achar que aquele era seu emprego agora. Mas logo teve que pedir licença quando ouvia a mãe lhe chamar.
- Mamãe, você promete me levar pra ver a cabine do piloto? A Laurie disse que eu posso. - A menininha falava apontando para a aeromoça de feições jovens com quem estava minutos antes.
- É claro, anjo, faremos isso depois, mas agora fique perto da mamãe, porque logo iremos embarcar - disse acariciando os cabelos claros da filha.
- Mamãe, o que aconteceu com o Tio Damon? - a pequena perguntou, olhando para o mais velho. Damon parecia cochilar em pé, ainda se apoiando na mala de viagem.
- Ele esta bem, , esta no mundinho dele. - respondeu carinhosamente, e acotovelando Damon discretamente. Este despertou sobressaltado, olhando para todos os lados a procura de seu agressor, até encontrar o olhar reprovador de .
- O que será que tem no mundo do Tio Damon pra ele passar tanto tempo por lá, mamãe? - fez uma nova pergunta. ponderou se não deveria responder "sexo e drogas em excesso".
- Deve ser cheio de castelos feitos de areias, cupcakes de chocolate e lembranças felizes. - Acabou por dizer. Ser mãe de menina lhe ativara esse lado cheio de fofismo.
- Hunf, eu queria estar no mundo do Tio Damon também - disse cabisbaixa. - Como que a gente faz pra ir pra lá, mamãe? Que avião a gente tem que pegar? Ou é igual ir pra Terra do Nunca e a gente vai precisar de Pó Mágico? - desatou a falar sem parar nem para respirar.
riu. Só não sabia se por ter achado a pergunta da filha realmente engraçada ou se foi por desta forma restar-lhe mais tempo para pensar numa resposta. Com toda a certeza deveria destacar a segunda opção. Desde que se tornara mãe criara aqueles sentimentos loucos onde tudo o que seu bebê fazia lhe era encantador, e não conseguia por nada no mundo contradizer essa premissa. Não enxergava nada senão unicórnios e arco-íris quando olhava para sua . Segundo todos os livros da sessão de autoajuda para mães solteiras de primeira viagem que lera, deveria estar passando por uma daquelas fases em que a criança se torna uma perigosa arma de curiosidade. No começo, soubera lidar bem com as perguntas e até se divertido a beça respondendo algumas e tal, mas parecia que não tinha um fim, e os questionamentos ficavam cada vez mais complexos.
Deus sabe pelo o que teve que passar ao tentar explicar a por que tio Damon "e a amiga dele" estavam dormindo juntos e sem roupas no quarto de hospedes, o episodio ocorrera quando o apartamento de Damon passara por uma pequena reforma na calefação e encanamentos, obrigando-o a passar alguns dias hospedado no apartamento de . Ela sabia que poderia esperar algum feito do tipo da parte de Damon, só não esperava que ele fosse descuidado a ponto de deixar pegá-lo de flagrante. De certo inventara uma historia envolvendo fogo e um ato de heroísmo de tio Damon que socorrera a pobre moça e oferecera-lhe abrigo e proteção durante a noite. A criança pareceu acreditar, uma vez que quis inclusive convidar a jovem para o café da manhã.
- Oras, - Damon parcialmente recuperado. Interpôs-se quando percebeu que não respondera o questionamento de ainda. Ele tinha esse estranho tipo de toque ou sei lá, em que sentia-se no ímpeto de responder as perguntas da menina imediatamente. - Você não precisa fazer nada, só precisa existir. - Ele disse, agachando-se na altura de . – Porque onde você estiver é onde meu mundo vai estar também. O meu mundo todo é você, pequena .
- Tio Damon, acho ninguém no seu mundo ou no mundo de todo mundo sabe usar as palavras tão bem quanto você. - Damon riu audivelmente envolvendo em seus braços. - Tio Damon, você tá me esmagando. - O amigo se divertia com a pequena menina e as caretas que a mesma fazia tentando se soltar do mais velho.
- , nós temos a melhor criança. Ela está bem aqui.
- Ela é uma puxa-saco, isso sim - disse divertida.
- Mamãe, isso não foi amável de se dizer. - Choramingou . riu da expressão da filha, concordando mentalmente "essa é minha garota!".
- É, isso mesmo, mamãe. - Intrometeu-se Damon. - Não foi nada amável. Pro fim da fila com seu negativismo.
- Não, tio Damon. - tomou as dores pela mãe. Em sua pequena mente de quatro anos de idade, ir para o fim da fila deveria ser a pior coisa do mundo. Imagine só, ela pensava, você é o próximo na fila do sorvete e por um acidentezinho de percurso acaba tendo que voltar para o fim da fila. O que poderia existir de pior?
- Uh! Uh! - Damon agora vaiava, insistindo com sua ameaça. fazia falsas expressões de choque no rosto, entrando na brincadeira do melhor amigo. - Pro fim da fila - ele voltou a repetir.
- Tio Damon, ela pode ficar aqui com a gente - interpôs-se novamente. - Mamãe só esqueceu uma vezinha como ser amável, a gente tem que lembrar ela. - Implorava ao tio Damon a pequena , levando tudo muito a sério.
- Ok, . Mas como vamos fazer isso? - Uma falsa interrogação tomava-lhe o rosto.
- Eu não sei, tio Damon, eu só tenho quatro aninhos. Eu nem nunca soube onde que o Wally estava, não sei se eu sei ajudar a Mamãe a ser amável de novo.
- Merda, eu também não sei onde esta o Wally. - Damon resmungou, dando a entender que estava realmente chateado por não ter conhecimento de onde estava o maldito Wally.
- Tio Damon, você sabe sim! - insistiu .
- Sei? - Damon parecia em dúvida, instigando a resolver o "problema", e a pequena cada vez mais desesperada em encontrar uma resposta sem a ajuda do tio.
- Sim. - quase gritou. - Temos que fazer tudo com muito amor, pra Mamãe se lembrar como é que se fazia. - sorria de orelha a orelha, mostrando todos os dentinhos de leite, contente consigo mesma por encontrar a resposta. - Aqui ó. - Disse aproximando de sua mãe. - Mamãe, me dá a sua mão, por favor. - Pediu logo tomando posse de uma das mãos de sua mãe, quando essa estava próxima o suficiente passou um dos pequenos braços abraçando-lhe pelo pescoço. Em seguida, com o outro braçinho, abraçou Damon também. - E agora vocês estão sentindo o amor? - perguntou com aquele mesmo sorriso no rosto.
- É claro que estou. O amor esta em qualquer lugar que eu esteja com vocês - respondeu Damon prontamente.
- Hmm. - fez uma pausa dramática antes de responder. - Estou sentindo também. , meu pequeno ser humano cheio de amor. - Parabenizou a filha.
- Alguma coisa muito certa a gente deve estar fazendo – Damon lhe confidenciou.

Continua...



Nota da autora: (20/08)




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