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Tea House






Última atualização: 26/03/2017

Capítulo 1


A visão da ruazinha estreita é, no mínimo, nauseosa.
Feia e melancólica são as palavras certas. Mordo o interior da bochecha para trancar o impulso de vomitar nos meus próprios sapatos, o que chama a atenção do tio Patrizio quando cambaleio pra frente em total estado de entojo.
— Vagabundagem, a última defesa de quem não tem mais o que fazer — e pigarreia na calçada, me olhando de canto. Dou uma olhada final nas casinhas antes de me juntar ao tio Pete, sorrindo à custa do único inglês que pode usar aqueles termos sem parecer um ignorante. É verdade, tio Pete não é a personalidade mais cortês de Burford, mas é o que eu tenho no momento e vai ter que dar. É só por um inverno, me forço a lembrar disso.
— É melhor entrar. Sua tia deve ter tomado todo o chá da loja enquanto você esteve no trem — ele passa pelo meu ombro com uma trombada. Começo a me aborrecer ao observá-lo abandonar as caixas com todos os meus pertences no meio da calçada.
— Tio?
Eu o chamo pelo nome duas vezes e na terceira ele gira os calcanhares no meio da rua, erguendo as sobrancelhas quando aponto as caixas de papelão.
— Eu não sei como as coisas são na cidade grande com a sua mãe, mas estamos em Burford agora, queridinha. Pode deixar essa quinquilharia a noite toda e ninguém vai levar. Deixa tudo como está! — ele termina a frase gritando bem quando faço menção em erguer uma das caixas, o que me faz dar um pulo.
Não espero pela segunda ripada e já estou no encalço do tio Pete pela rua úmida, cerrando os dentes parte de raiva, parte de frio. Nuvens negras começam a se formar acima de nossas cabeças e uma repentina e furiosa corrente de ar espalha folhas secas por todo meu cabelo.
Observo a alameda à nossa frente, mais precisamente a casa de dois pisos do outro lado da rua. Meu novo antigo lar. As janelas sobressalentes e a hera verde subindo pelas paredes parecem imutáveis ao lado das outras casas. Aperto o casaco no peito e entro pela porta que meu tio segurava aberta.
— Aí está ela! Aí está!
Sou recepcionada com uma tia chorosa e um abraço efusivo que quase me desmonta. Quando ela finalmente me liberta, sou recompensada com um beijo na testa e muitos apertos de mão, um atrás do outro. Ao que tudo indica, tia Margot tinha convocado o hall inteiro de parentes ingleses para meu chá de boas vindas, o que não me deu outra opção além de sentar na ponta da mesa e sorrir um pouco.
A casa não é de todo mal, e está exatamente como eu me lembrava. Tudo era de madeira, o piso, as paredes, é até que aconchegante. Os tapetes de lã de ovelha fazem cócegas nos pés e não fico muito impressionada com a cabeça de alce acima da lareira.
Todos eles me fazem perguntas aficionadas sobre Londres e sobre minha mãe. Me esforço ao máximo para responder tudo, embora meu carão de descontentamento seja tão grande que quase ocupa a sala inteira. Minha prima Irina é a primeira a notar, porque simplesmente me deixa em paz com aquele assunto. Eu gostava muito dela, e da última vez que eu a tinha visto ela ainda morava naquela casa com os meus tios. Eu devia ter uns cinco anos na época, e agora ela vivia duas ruas acima com o namorado, Liam, que por acaso bebericava uma xícara de chá na cadeira do meu lado.
, o irmão dela e meu primo, tem provavelmente minha idade e é quem mais me fuzilou com perguntas, o que não é tão inconveniente assim já que a maioria delas envolve o Glastonbury e eu ter visto algum beatle de perto. Tive um momento de irresolução ao suspeitar que ele e minha tia não estão nada bem para minutos depois ele deslizar pro meu lado e contar que tinha saído de casa há duas semanas.
— Liberdade, Twiggy — ele serve leite no chá e entorna a xícara como quem entorna um copo de uísque, e não tenho tempo suficiente para debochar ou repreender o uso do meu apelido de infância antes que ele possa continuar — Por que é que você voltou pra cá mesmo?
— Me diz você — eu sorrio. Gostaria de poder contar a ele.
— Vim te ver. E pegar umas camisetas. Pode ficar com o meu quarto se quiser.
Há essa altura, minhas respostas anteriores parecem ter saciado a sede curiosa dos e ninguém presta muita atenção na minha conversa com , já que discutem entre si as informações que eu mesma tinha dado. Ele pondera um pouco e eu espero por algum detalhe sórdido do remoto clã de Burford enquanto devoro um bolinho, escorada na guarda da cadeira.
— Na verdade, não — hesita — Eu não sei se a minha mãe me quer de volta. E eu estou num lugar bacana agora — ele sorri entusiasmado.
— Está me desapontando — suspiro, de fato decepcionada com a falta de minuciosidade na história — E que lugar é esse?
— A casa de um amigo. Bem, não é exatamente a casa.
Minhas sobrancelhas se erguem.
— É uma adega, e eu fico nos fundos. Aí posso trabalhar durante o dia — parecia contente com a situação.
— Adega, é? — me disfarço. Ele assente de boca cheia, só para me provocar. Rio dele e ele se levanta, limpando o canto dos lábios com o guardanapo. Ele usa um sobretudo elegante e tinha se transformado num homem no mínimo encantador. Me pergunto como alguém tão bonito e gentil poderia ter os genes do tio Pete.
— Estou de saída, se quiser te levo comigo. É por sua conta e risco — nós dois olhamos pela janela. As nuvens tempestuosas cobriam o último resquício de céu aberto.
Tudo bem, eu preciso de um pouco de ar fresco mesmo.
Eu não queria dormir fora logo no primeiro dia morando com meus tios, acontece que também não queria ficar sozinha de uma forma ou de outra. Saímos quando tio Pete, tio Henri — aquele é irlandês — e Liam começaram a transportar minhas caixas para dentro de casa. Por isso, só tenho tempo de me despedir rapidamente e dar um beijo em minha tia antes de irrompermos pra fora dali e começar nossa caminhada pelas ruas de Burford.
— Então é com isso que se anda na cidade grande quando neva? — faz um sinal pros meus pés, debochando. E ele estava certo. Meu salto alto enterra na neve e não é a atividade mais fácil do mundo, mas vou pegando o jeito no trajeto. A rua está completamente coberta por uma grossa camada de neve, que não cessa por um segundo. Tudo está coberto de branco.
— Então agora você trabalha? — pergunto. Ele pensa um pouco.
— Não é bem um trabalho — explica, gesticulando —, é mais um bico como eu te falei. E eu não preciso fazer quase nada mesmo, já que o é quem cuida de tudo.
?
— É. O amigo da casa. O pai dele é dono da adega.
E sorri pra mim, gentil. Eu posso ver a ressaca nos olhos dele há meio quarteirão de distância.
— Realmente.
É tudo que respondo. Conhecer mais alguém naquela cidade já de chegada não era o meu objetivo, mas é bem óbvio que me mostraria pro máximo de gente que conseguisse. No centro da cidade, me sinto presa num filme de Natal. O tempo continua feio e a maioria dos comércios já está fechando suas portas — exceto pelo exterior de um barzinho que, à primeira vista, me parece algo que se encontra na Travessa do Tranco, em Harry Potter.
Entre as janelas sobressalentes de duas lojas, uma placa de metal bem elaborada suspensa na parede indicava ’s Hall em letras cuidadosas. A entrada possui uma escadinha e meu estômago embrulha assim que sobe sem hesitar. Ele olha para trás.
— Você não vem?
— É claro que vou. Estou bem atrás de você.
Meu salto bate nos degraus quando entro atrás dele, e tenho que admitir que o interior do bar não é tão ruim assim.
O espaço foi feito com uma sobreposição de pedras, o que faz um contraste perfeito com o frio desumano do lado de fora, e eu imediatamente sinto a urgência de tirar meu cachecol. o pendura no cabideiro, junto com seu sobretudo, revelando um suéter verde-musgo por baixo.
Ele sacode a neve dos pés na base da lareira de pedra. Acima dela, alguns quadros redondos de rótulos de vinho e capas de discos de bandas como The Police, Queen e é claro, os Beatles.
O teto é de madeira e a única parca iluminação vem do candelabro, sutil e quase inexistente em comparação ao fogo, e atrás do balcão, uma bandeira do Reino Unido tinha sido porcamente pregada na parede, perto da mais diversificada adega de vinhos e outras bebidas. No mais, era um bar comum, com mesas e cadeiras nos cantos aconchegantes. Não era tão ruim assim. Era rústico. E muito inglês.
, tá aí? Cara, eu quero uma cerveja! — grita na direção da porta atrás do balcão, batendo com a palma da mão na madeira.
Em Londres as pessoas não deixam seus estabelecimentos sozinhos. Nem por um segundo. Mas aqui, na realidade paralela, não me parece que há muitos assaltos ou gente bêbada pra não pagar a conta. Eu rio sozinha. O inglês estúpido deve ter saído. Continuo passando os dedos nos quadrinhos e tentando não rir até que perceba que estamos sozinhos. Aproveito o calor da lareira em minhas pernas enquanto isso.
Por um instante, nada acontece. Então, uma cabeleira cacheada aparece atrás do balcão, passando direto pela porta sem nos encarar. Meu coração dá um salto de surpresa. Camisa preta, desabotoada na gola e as mangas erguidas até o antebraço, ele sequer ergue os olhos. Mesmo com a lareira a todo o vapor na minha frente, minha espinha gela com a presença do garoto. Parte por causa dos braços tatuados e cabelo emaranhado, parte porque ele não parece notar a minha. E se nota, faz muito pouco caso.
— Então é só pegar — ele parece irritado. Pega uma caneca no balcão e dá as costas, enchendo alguma coisa num barril.
Quando vira, nossos olhos se esbarram por um breve instante e ele para abruptamente, derramando um pouco de espuma na borda com o solavanco. Analisamos um ao outro por segundos e chego à conclusão de que ele provavelmente não esperava uma garota tão bem vestida e elegante quanto eu àquela hora da noite. Essa é a hipótese mais positiva.
Não consigo ler a expressão dele e no fim estou convencida de que não há expressão alguma, afinal.
Ele vinca a testa.
— Quem é essa?
E olha pro , sem sair do lugar, deixando bem claro que a palavra não está comigo.

Capítulo 2


— Minha irmã de Londres — ele responde, se debruçando na banca para tomar a caneca da mão do . Quero dizer, da mão do garoto. Me recuso a chamar um estranho pelo nome antes de sermos apresentados, principalmente aqueles tão mal educados.
— Estou vendo. Toma alguma coisa?
Me volto pro garoto. Seus olhos verdes estão pesados sobre mim, as sobrancelhas erguidas e a boca levemente entreaberta aguardando uma resposta. Me vejo na necessidade de ser rápida.
— Uísque — respondo.
não parece muito impressionado, mesmo assim uma careta de "nada mal" se forma no rosto dele por um instante. Então percebo o quão irritada estou com toda aquela situação. senta em uma das mesinhas e me junto a ele, na cadeira de frente pra porta. A neve tinha adquirido intensidade.
— Vai virar uma nevasca logo, logo — tira as palavras da minha boca, sugando espuma da cerveja com um ruído. Tenho vontade de perguntar se são amanteigadas como as do filme. Me seguro no lugar quando um braço tatuado cruza por trás do meu ombro e deposita o copo da bebida na minha frente, deixando um perfume doce que por si só já me irrita bastante. Eu não agradeço, e coloco meu casaco de cashmere na guarda da cadeira antes de entornar a dose de uma vez.
, esse é o . E dela que estávamos falando.
Então, entre um gole e outro, faz uma careta e afasta a caneca com náusea.
— Mas que porra? Eu vou ver se tem alguma coisa gelada de verdade pra beber.
E sai caminhando até o outro lado, passando pelo balcão e desaparecendo na porta atrás. Giro o copo entre os dedos e penso em alguma coisa, qualquer coisa, porque parece tão interessado em conversar quanto eu. Os minutos passam e só ouvimos de longe, no que suponho ser uma cozinha, praguejando contra algumas panelas e quebrando gelo no freezer feito doido. Aquele era o emprego, então? Só depois de algum tempo em silêncio alguém decide falar.
— De mim, é? — pergunto, me referindo ao que tinha dito, ainda meio grogue com o gosto amargo.
— Sobre você, não de você — o garoto corrige, puxando uma cadeira e sentando ao contrário. Ele joga o guardanapo no ombro, cruza os braços na guarda de madeira e me olha. Algo nele me intimida. — E então?
— Quê?
— Dez minutos e eu só te ouvi pedindo uísque.
— Você ofereceu — devolvo.
— Você quis. Matou a dose, olha só.
Ele passa o dedo na borda do meu copo, cínico. Me movo para trás e observo suas falanges tatuadas brincarem com o vidro.
— Se não queria me servir então por que ofereceu?
Minha voz soa mais irritada do que realmente estou, no entanto não parece surtir efeito algum em . Ele só funga e fica de pé, e me olha por cima com o canto do olho antes de voltar ao balcão:
— Eu não disse isso.
É ridículo o que uma voz firme faz comigo, principalmente as roucas. Mudo de ideia e imediatamente visto o casaco ao sentir meus pelos do braço se ouriçando, antes que alguém possa perceber minha reação alérgica à voz grossa, tatuagem e sorriso bonito. Aparentemente percebeu, ou me achou muito engraçada, porque fez o caminho de volta até o balcão rindo.
Faltava isso aqui pra eu sair correndo e enfiar minha cara na neve.
Pela primeira vez em algum tempo tenho vontade de beijar e abraçar o quando ele volta da cozinha, porque meu corpo já estava entrando em estado de pânico sozinha. A de Londres sempre sabe o próximo passo e é bem mais esperta que isso, mas por algum motivo idiota meus sentidos raposinos estão todos perdidos e eu não consigo de jeito nenhum encontrá-los. Então fico ali, sentada, com um vinco na testa, ao invés de lançar pro uma resposta bem sagaz ou qualquer coisa que o deixasse de boca aberta.
— Aqui está — larga uma cerveja long neck trincando na minha frente e senta no mesmo lugar, bebericando a dele no bico com cara de irritado. — Nada de cerveja do barril, o refrigerador tá quebrado. Como é que você não viu, cara?
A testa do se enruga e ele franze os lábios de irritação.
— Claro que eu vi, não seja um imbecil. O deu um balão nos fios brincando de chute a gol. Eu vou fazer aquele babaca pagar.
— Cara, é verdade — explode em risadas. — Eu aposto dez libras que ele bateu num pinheiro e tá perdido na estrada desde ontem. Não tem jeito dele ter chegado em casa podre do jeito que tava.
Os dois riem, riem muito, e continua, limpando uma lágrima no cantinho do olho:
— Acho que devíamos ligar pra ele. Só pra garantir. Ah! Desculpa , quer alguma outra coisa? Tem um scotch aqui que… ?
— Hã?
Desperto do meu devaneio com um pulinho. me olha, sentado do meu lado como quem pergunta “que diabos você está fazendo”. Eu de fato sempre odiei cerveja, e ao contrário do meu primo discordo que ela caia bem nas épocas frias.
— Scotch parece bom — digo, e é só.
— Sem problemas. Eu termino essa pra você — e leva com ele a Stella na mesma rapidez que a trouxera.
A minha mãe sempre desaprovou o meu gosto por uísque. Diz que não somos irlandesas e não precisamos encher a cara só porque temos chance. Isso é besteira. Vovó bebia muito, tio Pete passa o Dia de Ação de Graças bêbado (porque na Inglaterra não comemoramos isso) e ela mesma costuma mandar pra dentro umas doses do uísque do escritório que ela afirma ter fins decorativos, mas o volume das garrafas está cada vez misteriosamente mais baixo.
E graças a Deus é quem me serve, porque está ocupado demais escrevendo alguma mensagem de texto no celular, com uma ruga no meio da testa. Será que ele tem uma namorada? Eu queria saber.
— digo, enquanto um copo aterrissa em minha mão, com gelo dessa vez —, é o nome do amigo de vocês ou de um bêbado?
— Os dois. Eu vou te apresentar pra ele quando o acharmos.
— Não precisa — devolvo e enxugo o copo. O uísque escocês desce queimando. Aperto os olhos com tanta força que quando os abro vejo milhares de pontinhos pretos.
— Ah, por favor, . Se você vai ficar, vai ter que conhecer os nossos amigos — implica.
Vejo de canto erguer os olhos do celular, repentinamente interessado na conversa.
— Bem — solto o ar com força — Já que estou condenada a ficar aqui mesmo.
— Acontece. — dá de ombros, mas parece perversamente feliz com a situação — Além do mais, você chegou no timing perfeito e eu acredito que é uma mensagem do universo.
— É? — suspiro, rodeando a margem do copo — E o que exatamente ele diz?
— Diz que eu vou te levar pro Jade's hoje.
— Vai levar ela no Jade's?
É o . Então ele finalmente decidiu falar, cortou minhas palavras e nem me deu tempo para perguntar que diabos era aquilo. E devia ser um lugar muito ruim, já que aperta os maxilares só de ouvir o nome. Ele continua daquele jeito por um tempo, escorado no balcão e encarando o , e tomo um susto quando ele vira para mim e pergunta:
— Quer ir?
A surpreendente voz rouca dele me faz dar um pulinho na cadeira.
— Eu não acredito nisso! — dá uma gargalhada cômica, me deixando ainda mais confusa — Qual é, cara. Você costumava ir toda a noite! Ela não vai se envolver num tiroteio ou ficar drogada, vai, ? — ele se vira para mim — Porque se você gosta desse tipo de coisa não tem problema.
Antes que eu possa abrir a boca para responder, acrescenta:
— E além de tudo, ela não é a . Não é você, nem o e nenhum de vocês babacas, ela sabe se cuidar, não sabe? — passa o braço por trás do meu pescoço e me puxa pra perto, bagunçando meu cabelo. E mira — Então vê se não cria problema. Só vamos entrar, dar uma voltinha e ir embora. Só isso.
Quando ele termina, tem as feições calmas e parece indiferente pra mim. Eu aparentemente ainda não tenho espaço na conversa, e me desvencilho do porque está difícil de respirar.
— A garota é de Londres — dá ênfase nas palavras, como se fosse uma grande novidade para todos nós — E você acha mesmo que o Jade's é lugar pra ela? E além do mais eu não estava falando com você — e vira para mim de novo, dessa vez mais incisivo e rude, seus olhos verdes me perfurando com intensidade. Por um segundo tenho vontade de dizer que vou onde ele quiser. Mas engulo em seco e tento responder.
— Eu…
— Não, não, ! O só está com dor de cotovelo porque não pode mais pôr os pés lá dentro. Conta pra ela, — e como não há resposta, conclui: — Ele bateu num traficante, acredita nisso? E eu salvei esse cretino. Se não fosse por mim estaria morto.
? — me questiona, calmo.
— Por favor, . A gente já entendeu que você quer muito ir pro seu bar favorito, mas fez cagada e agora não passa da porta. Deixa ela, caralho!
Naquele ponto da discussão, tinha a mandíbula atarraxada outra vez e olhos raivosos pro , posso sentir que está perto de acertar-lhe um soco no meio da cara. Eu já estou encrencada o suficiente. Se não pode pôr os pés no Jade's, não posso pôr os pés em Londres, então. Eu detesto os bares do subúrbio, e jamais fui pra qualquer festa fora do Kensington ou dos bairros ao redor.
Aquele era um convite que eu prontamente recusaria, mas a ênfase que o deu na palavra Londres certamente pedia uma resposta diferente:
— Claro, por que não?
Enquanto comemora com uns soquinhos no ar e algumas várias glupadas em sua cerveja, do outro lado da adega me olha. Não existe rastro de desaprovação ou qualquer outra coisa, ele apenas olha. E fico satisfeita porque a bebida me dá gás o suficiente para encará-lo de volta por uns minutos.
Penso na e se vou conhecê-la hoje.
Minutos depois decidimos ir embora, eu e o . Daí ele lembra que não mora mais na casa para onde estou indo e, olha só, mora nos fundos desta mesma adega. Ele ri sozinho e eu sei que também está meio bêbado, visivelmente ainda feliz por ter tripudiado . Levanto bem quando ele decide acender um cigarro, conversando de longe com um não muito preocupado e ocupado em limpar canecas. Dou um beijo na bochecha dele, tão estalado que nem posso acreditar que seja eu mesma.
— Te busco daqui algumas horas, então. Tem certeza que não precisa que eu te leve? Está escuro na rua.
E solta a fumaça pro lado. O quarto dele fede a cigarro, então é como se eu já tivesse o visualizado com um maço de câncer na carteira antes. Não dou muita importância ao fato, porque nós dois crescemos. Sorrio.
— Não precisa. Fica e conserta o refrigerador. Eu acho que ainda sei andar sozinha por aqui.
solta um risinho anasalado atrás do balcão, mas quando olho na direção do idiota ele prontamente finge que não saiu dele. Isso me lembra de que tenho que dar o fora rápido. Eu não tinha dinheiro comigo, mas por sorte encontro algumas libras dentro do meu casaco. Caminho até o balcão e balanço a cédula no ar. Isso o faz levantar os olhos das canecas, passar o olhar na nota e depois no meu rosto.
— Quanto eu devo? — pergunto.
Com ele curvado e a camisa desabotoada na gola, posso ver mais tatuagens em seu peito e um colar de prata com um crucifixo na ponta pendendo em seu pescoço.
— Já que perguntou, digo que é por conta da casa — passa a língua nos dentes, enxugando uma caneca nas mãos. — Você sabe, é pra fidelizar o cliente.
Eu teria aceito e não pagaria nada nas outras vezes que viesse também, por causa do , aposto que ele bebe de graça aqui. Mas algo naqueles olhos verdes me diz que não é o tipo de cara para o qual eu gostaria de ficar devendo.
— Eu insisto.
Eu insisto.
Aperto meu maxilar. Ele não vai mesmo aceitar o dinheiro. Dou de ombros e viro as costas, em direção à porta. Pacientemente enrolo meu pescoço com o cachecol espesso, bato queixo com o frio que faz perto da porta. Não sei se consigo andar até a casa dos meus tios à noite com botas de salto e uísque na veia sem cair na neve pelo menos uma vez.
— Espera aí.
É o que chama. Não sei se é o frio ou a voz atrás de mim que me arrepia, provavelmente a primeira opção. Eu me viro. Ele está de testa vincada pra mim.
— Acabei de decidir que vou ao Jade's. Se quer mesmo ir, então te levo. Já devia saber que o teu irmão não tem muitas amizades por lá.
A ênfase que ele dá na palavra irmão me faz pensar se ele sabe ou não da mentira. Por acaso, eu tinha uma resposta bem sarcástica para aquela, mas algo na carranca dele quer uma resposta séria, então desisto. E eu não preciso falar mesmo, porque se apruma na minha frente e dispara:
— Não vai rolar. É feio mentir, .
— Não te mete. Já faz bastante tempo e pode ser que ninguém lembre da minha cara. Eu teria que aparecer por lá uma hora ou outra mesmo — ele dá de ombros e continua.
— E se você não fosse tão babaca ia lembrar que prometeu aquela carona e não tem espaço pra ela no teu carro.
se recolhe e franze o cenho, pensativo. Aposto que o que disse é verdade. me olha, aparentemente meio contrariado e irritado com o assunto da carona.
— Desculpa, eu tinha esquecido. Tem algum problema pra você ? Nos encontramos lá dentro.
Olho para , depois para , e repito o ato algumas vezes. O é completamente louco, e o Jade's provavelmente é algum point com música eletrônica e gente duvidosa, então fico até aliviada que seja o a me conduzir até lá, muito embora apenas estar na mesma sala que ele me envie arrepios por todo corpo. Também não acho que ele tenha cara de serial killer.
Então por fim dou de ombros e respondo antes de dar as costas:
— Tudo bem.
Caminho pra casa sozinha, e por acaso, no meio do trajeto, encontro tio Pete de carro indo para casa também. Ele encosta do meu lado e eu embarco, o ar quente me atingindo instantaneamente. O banco de trás do carro está entulhado.
— O que são essas coisas? — pergunto. Viro o aquecedor na minha direção e ele me olha torto.
— Coisas de Natal.
— Já?
— Já.
— Eu te ajudo a montar.
— Ava ligou.
— Minha mãe ligou?
— Ligou.
E depois disso ficamos em silêncio.
Tio Patrizio foi o adulto da minha infância. Nunca me trouxe roupa de presente, roubava os doces da mesa antes da hora do jantar e me deixava ficar acordada até tarde. Gosto de conversar com ele. Ele não faz perguntas estúpidas.
A notícia de que mamãe tinha ligado me desconcerta até chegarmos em casa, e eu sabia que tio Pete não diria nada à respeito a não ser que eu perguntasse.
Não pergunto. Até ajudo tia Margot com o jantar, enquanto meu tio passa maus bocados para pendurar luzinhas de Natal na lareira e na cabeça de alce. No fim, acabo me sentando no sofá com ele para comer Pretzels e assistir algum reality show de gente em sobrepeso. É numa dessas que ele solta:
— Quer que eu conte? Precisa ser agora ou eu vou esquecer. O meu remédio da coluna está me bagunçando todo.
É mentira. Mentira, mentira. Tio Pete tem memória de elefante, e eu acho que um remédio pra coluna não tem muito a ver com isso. Ele quer contar logo pra se livrar da bomba.
— Não, tio. Podemos falar disso amanhã?
Ele aperta os olhos pra mim.
— Por quê?
— Combinei de sair com o .
Ele aperta os olhos feito míope.
— Devo chamar a polícia?
Apenas rio, dou-lhe um aceno e subo pro meu quarto. A que horas vem me buscar? E eu nem sei se ele vem mesmo. Tudo parecia estar correndo rápido demais. Não sei se devo encontrá-lo na adega, ou se ele mentiu e não vamos a lugar algum. Se esse for o caso, vai deixar o muito puto. Imagino a que tipo de garotas ele prometeu carona.
Pego minhas coisas e tomo um banho bem demorado. Muito demorado mesmo, o banheiro fica cheio de vapor e quando decido sair já não vejo um palmo à minha frente. Seco e aliso meu cabelo com muita paciência. Já são quase onze e não sei se devo me apressar ou se estou com tempo.
Ponho qualquer roupa para jantar, pego um café e subo de novo. Dessa vez, estou parada no meio do corredor desejando não ter sido uma idiota, não faço ideia de que tipo de roupa colocar. Fico em pânico. Depois de me vestir e me despir milhares de vezes, acabo num vestido preto justo — simples, mas eficiente. Tão eficiente que sinto minha testa franzir ao ver a maneira que meus peitos ficam na modelagem do vestido no reflexo do espelho.
Miro meus pés descalços.
Visto uma meia calça preta translúcida e calço um par de Louboutins da mesma cor. Um pouco de sombra marrom, quase nada, marco bem minhas bochechas e não preciso de blush porque basta sair na rua e meu nariz fica rosado. Agora o que me resta é esperar, então.
Quando desço de novo, recebo uma carranca do meu tio, mas ele não diz nada. Os dois ficam lá por mais algum tempo e depois sobem, me deixando deitada sozinha no sofá com apenas a luz da televisão acesa pela casa toda escura, meus olhos vidrados no relógio da parede.
As horas se arrastam e eu meto na cabeça que ele não vem. É uma mentira muito óbvia, não me queria naquele lugar desde o início, e é ridículo ainda ter uma pontinha de esperança de que ele aparecerá. Já passa da meia noite e a TV aberta só exibe lixo. Mudo os canais sem parar e na medida que a noite fica mais desinteressante quase destruo os botões do controle remoto de raiva. Eu não queria ir mesmo, sou do Kensington. E minha roupa não está tão boa assim. Acontece que eu odeio ser enganada.
Já estou espalhada por cima do sofá curtindo um reality show muito bizarro de transformações quando ouço um barulho de motor seco se aproximar da casa e desligar logo depois. Me sento num pulo, meu coração estalando. Não é possível que o cretino…
Tento meu máximo em pegar o molho de chaves do gancho sem acordar ninguém com o clique do meu salto no piso de madeira. Há barulho de respiração do outro lado da porta. Giro a maçaneta e lá está ele, com o braço para cima escorado no batente da porta. Os olhos dele se estreitam pra mim, brilhantes.
— E aí.
É tudo que ele tem a dizer?
É suficiente, porque eu quase congelo. Ele usa aberto um sobretudo e uma jaqueta de couro, e por baixo uma t-shirt branca, a gola deixando à mostra as tatuagens até o pescoço. Calças pretas, o cabelo rebelde empurrado pro lado e os lábios roxos de frio, é um ultraje.
— São quase duas — cruzo os braços no peito e miro as rodas do carro, me recusando a encarar o garoto estonteante à minha frente por mais tempo. Posso senti-lo franzir o cenho.
— Eu disse que viria.
— Não confio em você.
— É mesmo? — um sorriso cínico cruza os lábios dele — Então não devia me esperar acordada.
se afasta da soleira e faz um sinal com a cabeça.
— Podemos conversar no carro. Vem, estamos atrasados.
Ele coloca o sobretudo em meus ombros e me puxa, me dando apenas alguns segundos para trancar a casa antes de ser arrastada pra fora sem ao menos desligar a tevê. Ele continua me levando até o impecável Chevrolet Impala preto estacionado na frente de casa. Nunca gostei de carros mais antigos, mas este é tão lustroso que parece ter saído direto de uma exposição. Começo a ficar muito irritada com o ritmo dele e cravo meu salto na neve, o obrigando a parar. Ao perceber o que eu estava tentando fazer, vira e me encara, esperando que eu fale.
— Quê?
Percebo que não tenho nada a dizer. Ele disse que viria e agora está aqui. continua lá, com a cara franzida, plantado na minha frente esperando que eu diga algo importante. Anda, , anda!
— Se você quer desistir eu entendo, só que eu vou ir e não tô a fim de chegar tarde. Quer entrar ou não? — ele abre a porta do carro pra mim com uma mão e passa a outra nos cabelos, impaciente.
Não agradeço e entro de cara fechada. Ele bate a porta e segundos depois está do meu lado dando partida, também não muito contente. Se não queria me servir então por que ofereceu? Se não queria me levar então por que se ofereceu?
É claro que a minha raiva mal direcionada vai se esvaindo, já que o não parece dar a mínima e eu não estou muito acostumada com isso. A noite naquela parte de Burford é quieta e fantasmagórica, mas não demora muito para entrarmos num desvio e sairmos na rodovia. Algo na maneira com que ele dirige com apenas uma mão me faz querer a outra sobre minha coxa. Mas não, ela está pousada sobre o câmbio da marcha. O carro todo cheira a perfume — aquele que eu tinha sentido mais cedo na adega —, bala de menta, bancos de couro e… sexo.
Látex, pra ser mais precisa. Eu não digo nada, mas me movo no assento um pouco desconfortável ao imaginar quantas garotas já estiveram sentadas no meu lugar. deve ter percebido minha expressão de puro pavor.
— O quê? — ele me olha. Devo ter feito uma cara de pânico ainda maior. O ar quente do carro começa a ficar rarefeito para nós dois.
— Nada.
Sinto os olhos dele em cima de mim por mais alguns instantes e então ele também mira a estrada. Ficamos em silêncio por algum tempo, tempo suficiente para que meus dedos comecem a comichar de vontade de ligar o rádio. Me pergunto qual foi a última música que ele ouviu, e qual começaria a tocar se eu ligasse. E se faríamos o caminho todo em silêncio, e se ele não estava com receio de aparecer por lá. Eu estaria. Estou tão perdida que dou um pulo quando ele volta a falar, a voz rouca penetrando minha espinha:
— Sabe que o está te usando, certo?
Quase me engasgo com o ar. Eu o encaro, e ele me encara de volta e suspira pesado quando nota que preciso de uma explicação.
— Ah , por favor — ele baixa a cabeça e esfrega as pálpebras com o polegar e o dedo indicador abertos, e depois se estica pra mim com a voz mais alta.
— O Jade's é… — ele procura a palavra por um tempo — Não é pra você.
Cretino.
— Eu acho essa sua preocupação uma gracinha — começo, ele franze a testa e eu continuo — De verdade, é sério. É só que já está ficando chato.
Ele me olha mais um tempo e tenho a impressão de que vai me chutar pra fora do carro, mas apenas dá de ombros.
— É isso aí.
— O quê?
Ele solta um riso anasalado bem sarcástico.
— Nada. Quer ouvir? — e indica o rádio com a cabeça.
— Não, obrigada.
Ele liga mesmo assim. Alguma banda indie começa a tocar.
— Se você ia ligar — falo pausadamente —, por que perguntou?
O leve desconforto em minhas têmporas indica que a conversa precisa acabar. Por sorte, ele não responde. Apenas engata a quarta e afunda o pé no acelerador.
— Se você quer saber — ele começa, muito irritado dessa vez, passando a mão livre pelo cabelo de modo presunçoso —, não tô preocupado contigo. O só te convidou pra ir porque quer te testar.
— Me testar?
— É, . Ele sabe que não é lugar pra você, e mesmo assim te convidou. E eu só me ofereci pra te levar porque assim tenho desculpa pra ir sem ter ninguém enchendo meu saco — um sorriso cretino aparece nos lábios dele — É dia de rodada dupla, você sabe.
Ai. Aquela doeu, tanto que preciso me inclinar no banco para não engasgar. A voz dele é tão áspera que crio um nó na base da garganta. Se eu falar demais posso romper em lágrimas a qualquer momento, e não exatamente por causa dele.
— E onde eu me encaixo nisso? — tomo cuidado com minhas palavras. Ele sorri até mostrar covinhas, está debochando.
— Estou tentando evitar que o teu irmão leve um tiro. Que tal ser um pouco mais agradecida?
E por que é que nós todos não ficamos em casa e assistimos um bom filme, então?
Péssima ideia. Péssima ideia ter vindo, péssima ideia ter vindo com o . Quero que ele pare o carro para que eu desça, imediatamente, e berre que não é meu irmão, mas o fato de que ele me acha tão frágil me faz segurar o impulso de gritar de volta. Como pode dizer tais coisas se não me conhece?
E o , pode ser que esteja me testando, mas eu não vejo aquilo com os olhos de maldade que o tem. Por que está tão certo de que vou criar problemas? Cruzo os braços e olho pela janela. O não fala mais nada durante o trajeto todo, e eu muito menos, mas posso ouvir a respiração pesada dele do meu lado. Eu sabia que a mão dele estava a centímetros da minha perna, e estremeço cada vez que ele a usa para trocar a marcha. Não demora muito, o carro para e levo um susto.
— Não demoro — ele ordena e sai do carro.
Aparentemente, chegamos. E eu entendo o porquê de tudo.
O Jade's é uma boate underground. Não há muitas pessoas na frente, três ou quatro fumando e conversando. Mas com certeza, um pouco abaixo de nós, há muitas. Centenas, quem sabe. A música eletrônica vem fraca da porta, posso ouvir apenas os graves. E é sim um lugar com gente duvidosa. A sensação ali fora é de que posso ser assaltada a qualquer instante. A rua inteira é escura e deserta, exceto pela fachada neón da boate, com o J piscando e o D queimado.
some pela porta do lugar e por um instante acho que vai me deixar aqui, mas logo depois reaparece. Ele vem caminhando na direção do carro e se escora no capô. Com toda a paciência, puxa e acende um cigarro, e depois de algumas tragadas decide me olhar pelo para-brisa para se certificar de que continuo no mesmo lugar. O olhar dele me diz para continuar no carro.
E eu fico aqui pelos minutos seguintes, o observando fumar. Logo eu, que sou um repelente de fumaça, fico completamente intrigada pela maneira com que faz o gesto parecer tão elegante, preciso admitir mesmo estando passada com ele. é um inglês clássico, e azar o meu, muito bonito. O ar gélido da rua começa a invadir o automóvel, é quando ele finalmente decide me buscar, depois de terminar com aquele cigarro nojento. Ele abre a porta do carro pra mim, segurando minha mão quando desço, provavelmente percebeu minha dificuldade com o salto. As batidas da música são muito mais fortes ali fora. Me equilibro em meus sapatos finos, fecha a porta e finalmente me olha de verdade. Seus olhos se aproveitam da altura do meu decote e contornam minhas pernas devagar, ele leva as mãos pelos cabelos e depois me lança um sorriso estonteante.
— Gosto do vestido. Cuidado.
E com aquela inconveniência dita, simplesmente dá as costas pra mim e começa a caminhar em direção à porta da boate outra vez. Eu o sigo, mesmo bufando de ódio. Me recordo da nossa conversa no carro e fico ainda mais irritada com o pensamento.
Dentro do local completamente escuro, transitável apenas graças ao tubo néon cor-de-rosa na parede, noto um grandalhão de terno preto plantado ao lado da porta com uma carranca feia sobre nós.
— Vem pega meu pulso e me puxa pra dentro da boate, passando reto pelo segurança e evitando que eu ficasse a noite inteira ali parada o encarando. Danço em meus pés até pegar o ritmo rápido de .
— Ei, espera — olho pra trás enquanto ele ainda me puxa na direção contrária — Temos que pagar, não temos? O segurança…
Agora que estamos longe da porta, para e me puxa pra perto com um solavanco.
— Não temos. Agora quer fazer o favor de andar?
Seus olhos verdes passam rápido por todos os cantos do meu rosto, furiosos. Puxo meu braço de volta e começo a caminhar sem olhar pra trás. Mas é claro que ele vem junto. É um corredor extenso, o fio neón ainda nos acompanha, e mesmo assim é impossível enxergar além do vão escuro numa distância de dez metros. Na medida em que nos aproximamos do fim, a música fica mais alta abaixo de nossos pés. De repente, o corredor acaba num lance de escadas íngreme para o subsolo.
me ultrapassa e desce primeiro, a escuridão não o afeta em nada. Presumo que ele já tenha feito o trajeto milhões de vezes. Desço atrás dele. A música faz as paredes vibrarem. Existe um outro andar, e depois mais escadas, e assim outros muitos, como num prédio. Há alguns casais e pessoas nos corrimãos entre cada andar.
No fim do último lance de escadarias já estou vendo. me aguarda no último degrau, impaciente. Mas eu, eu não. A boate é completamente estranha para mim.
É uma construção de tijolos laranja no subsolo, com vigas por todos os lados, como uma estação de metrô subterrânea. A música eletrônica é acompanhada por luzes de todas as cores, pessoas de diversos estilos estranhos dançam o ritmo frenético sem parar. tinha razão. Estava completamente certo. Aquele lugar definitivamente não é para mim, mas eu gosto.

Capítulo 3


Uma boate no subsolo, eu estou…
Tento formular a ideia na minha cabeça quando chacoalha a mão aberta na frente dos meus olhos. Volto pra Terra e sua mão gentilmente oferece apoio para que eu desça os últimos degraus.
Está lotado. me conduz pela multidão, não desgrudando de mim por um instante. Como é mais alto, passa os olhos atentos por cima das cabeças, procurando ou alguma outra pessoa. Depois de muito buscar, de repente, ele esbugalha os olhos e aponta com o braço esticado no ar. Como se eu pudesse ver coisa alguma.
— Ali — diz, e me puxa naquela direção.
Não demora muito até eu descobrir o que é. Segundos depois, abrindo caminho entre as pessoas, um garoto moreno muito bonito vem aos encontrões até nós. Ele tem um colar neon no pescoço e me parece muito, muito eufórico.
— Porra, vocês demoraram — o garoto fala por cima da música, sorrindo diretamente pra mim — Bom te conhecer. É…?
O sorriso dele quase me faz cair para trás, parcialmente porque ele cheira à vodka de cereja. E acredite, definitivamente não é uma coisa ruim. Ele também é tatuado como o , e tem um pequeno alargador preto na orelha. Até que é simpático. E muito bonito. Todos os amigos do são assim? Uau.
. É — grito de volta, também sorrindo.
— E aí, encontraram algum conhecido? — o moreno para do nosso lado e olha ao redor, soltando o ar com força, ofegante. Ele passa a mão pelo cabelo que insistia em lhe cair sobre a testa com o suor. Não é exatamente quente aqui embaixo, até que é gelado. O que quer que esteja dando gás para ele com certeza o impede de ficar parado.
— A gente chegou agora, . Cadê todo mundo? — pergunta , carrancudo atrás de mim.
faz um gesto com a cabeça e continuamos andando por entre as pessoas, me escoltando por trás, sempre. Andamos pouco até uma rodinha que logo descubro serem os amigos do , porque se vestem mais ou menos daquele jeito e começam um estardalhaço assim que somos vistos. Enxergo , que tinha uma loira dando-lhe de beber na boca, mas que imediatamente salta quando me vê. Ele vem até mim e tapa minha visão num abraço efusivo e já me alcança um copo vermelho.
Sorrio de volta quando me solta, ele está com a testa franzida e tenta dizer algo, mas não o escuto com a música alta. Mesmo assim assinto com a cabeça e sorrio.
Logo se vê que o é um cara social, porque não pensa duas vezes antes de me deixar pra falar com outras pessoas que o cercam feito abelhas. Eu não esperava que ele ficasse de babá comigo, mas já que se mostrou tão preocupado com os problemas que posso causar imaginei que gostaria de ficar mais um tempo. Suspiro. Ele é ridículo.
Assim que sou vista de verdade recebo muitos outros abraços que me deixam completamente exasperada. Sei que falou de mim pros amigos. O que é que há de tão feliz? Posso apostar que àquela altura da noite já estão todos bêbados, incluindo .
A batida muda para algo mais pesado e as garotas da roda comemoram e começam a dançar no ritmo bem provocante. está escorado num pilar agora e conversa com outros dois caras, de costas para mim. De repente, uma garota ruiva aparece sorrindo e me dá um apertão longo como se fossemos grandes amigas, derrubando um pouco da bebida do copo com o movimento.
— Sou a — ela grita no meu ouvido e sorri quando por fim me libera do abraço. Ainda estou meio tonta, mas tenho a decência de sorrir de volta.
.
— O falou tudo sobre você. Eu e as meninas queremos saber tudo! — e pega na minha mão, me embalando para que eu dance no ritmo da música com ela. A tem longos cabelos ruivos emaranhados, usa um vestido preto sem alças, tênis surrados e pulseiras néon cor de rosa por todo o braço. Vejo outras garotas de salto como eu, por sorte.
— É mesmo? — eu rio, confusa — O que é que ele contou?
— Ah! — atira o copo meio cheio por trás do ombro e pega minha outra mão, agora dançando na minha frente. O garoto atrás dela se molha e olha furioso pra todos os lados, mas nem suspeita dela. — Você sabe!
Sorrio e aceno com a cabeça. Mas não, na verdade não sei. Tento dançar exatamente como ela, é fácil. Eu e rodopiamos, dançamos com as costas coladas e depois de algum tempo me sinto feliz como não havia sentido há meses. É inevitável não rir com aquela dança, e a é um amor. Ela me passa algumas pulseiras, recuso de primeira, mas ela insiste tanto que tenho de colocá-las. Eu já estou animada e ainda não estou bêbada.
É quando aparece do nosso lado com um sorriso lindo pendurado nos lábios.
— Tá gostando ? — ele me estende um copo. Penso em recusar, mas estou certa de que um gole não me mataria. Eu sorrio.
— Bastante — respondo. Pego o copo e ele ergue minha mão livre para me rodopiar em volta dele.
— Vi que conheceu o . Eu sou o e aquele lá é o — ele aponta pra longe. Não consigo ver muito bem, acho que ele me mostra um garoto loiro de pupilas dilatadas pouco mais adiante. Tenho quase certeza de que recebi um oi efusivo daquele também.
— Bom te conhecer também , e o
Minhas palavras se perdem no ar. . Procuro por ele na multidão. Não o vejo em lugar algum.
? — chama.
Onde está aquele imbecil? Eu preciso mostrar pra ele. Preciso mostrar o quanto estou me dando bem, me divertindo com os amigos dele. Giro mais uma vez. Até que vislumbro de longe o sorriso inconfundível sumir e aparecer por dentre as pessoas na medida com que elas dançam pela pista. Tenho certeza de que me vira o procurando, só não se entregou antes porque queria se divertir à minha custa.
passa a mão pelos cabelos. Está sentado num sofá, mais ao fundo, outras pessoa sentam ao redor dele também.
Eu começo a entender o que quis dizer na adega. O de fato tem muitos amigos, sim, acontece que tem mais. Ele conhece pessoas de outras tribos também, e acredite, existe muita gente estranha nesse lugar. Me surpreendo quando ele faz um sinal com a cabeça para o lugar ao lado dele. Há uma garota sentada lá, mas ele repete o gesto e fico curiosa. Digo à e a um confuso que já volto.
— Espera! — agarra meu braço antes que eu possa me afastar. Me viro para ela e forço um sorriso impaciente. A mão dela vai de encontro ao bolso do sobretudo do e coloca algo lá dentro.
— Presente de boas vindas. Agora vai! — ela bate umas palminhas e depois some, dançando.
Vou empurrando as pessoas para passar. Esbarro numa garota de roupas coloridas e meias listradas que me oferece uma cartela do que presumo ser ácido. Ela sorria feito o gato da Alice. Quando chego perto, se levanta do sofá e vem ao meu encontro, fazendo um sinal com os dedos para que eu vá na direção contrária. Espero ele chegar mais perto e obedeço, nós fazemos o caminho oposto e acho que ele quer indicar a porta de incêndio gigantesca do outro lado. empurra a porta e faz sinal para que eu entre. Ele entra logo atrás.
Assim que a porta se fecha, percebo que é acústica, porque o som da música automaticamente fica abafado. É um corredor, há outras pessoas ali e existem três canos de luz neon no teto. O corredor está parcialmente cheio, mas nem perto de lotado. Me escoro em uma parede, ao lado de uma outra garota meio dormente. se aproxima e abre a boca para dizer algo, mas é interrompido por alguém que o reconhece e o chama do grupo um pouco mais adiante no corredor. olha para eles, depois para mim e franze as sobrancelhas de leve.
— Espera aqui — ele ordena e vai em direção ao grupo, com uma mão nos cabelos e a outra retribuindo diversos cumprimentos efusivos.
Bufo alto e cruzo os braços, apoiando minhas costas na parede. Depois de um tempo o perco de vista, e começo a observar as pessoas à minha volta com mais atenção.
Lembro-me de e deslizo minha mão para dentro do sobretudo. Quando puxo de volta, tenho nos dedos um comprimido rosa com desenho de coroa no centro.
Eu sei o que é, mas não posso deixar de enrubescer porque a garota que me deu pensa que sou como . E suspiro, porque provavelmente não aguentaria metade da noite de pé sem algum destes. Ponho na boca e cutuco a garota ao lado, sorrindo com os lábios fechados, pedindo a ela um gole da garrafinha de água que tinha nas mãos.
Dou alguns goles e devolvo, voltando a ficar na minha posição contra a parede. Procuro mais algumas vezes e numa destas ele está vindo em minha direção, olhando pros lados com a cara fechada.
— Está bem? — ele se aproxima para falar. Seus olhos estão encolhidos e muito vermelhos, ele lambe os lábios secos com frequência. Tento ignorar, isto e o cheiro inconfundível vindo dos cabelos e das roupas dele.
— Estou viva. Surpreso? — debocho um pouco, sorrindo.
Ele franze a testa como quem não entende e olha por trás do ombro. Sigo seu olhar e vejo e entrando pela porta, ambos olhando para todos os lados. é o primeiro a nos ver e cutuca o desatento.
Uma ruga aparece na testa do antes deles nos alcançarem. Ele se aproxima e coloca a mão sobre minha bochecha.
, eu…
— O sumiu — anuncia o garoto loiro, ofegante, com a mão na nuca. se separa bruscamente de mim e todo meu corpo parece protestar. Meu ouvido começa a zunir, mas ainda o escuto soltar um riso sem humor do meu lado.
— Eu sabia! — ele grita com raiva, chutando para longe uma latinha de energético do chão. passa os dedos abertos no cabelo e os aperta no topo, praguejando feito um demônio.
? Onde ele está? — interrompo , puxando-lhe pela camisa. Ele me olha apavorado, seus olhos escuros arregalados pra mim.
— Não sabemos , é o que queremos descobrir. O que aconteceu com os teus olhos?
— O que tem no meu olho? Onde está o , caramba!? — chego mais perto e ele gentilmente me pega pelos dois pulsos.
— Vamos encontrar, me assegura e volta a falar com os outros, ainda me segurando.
Ouço bufar do meu lado. Por que ele anda sempre com a cara franzida? Lendo meus pensamentos, ele se vira pra mim, carrancudo, e faz um sinal com a cabeça para que eu me mova pra frente. Sigo seu movimento com os olhos e vejo os dois outros garotos já na porta, nos aguardando. Olho pros meus pulsos livres e depois sigo até a saída.
Não percebo até a metade do caminho, mas tem um braço protetor em volta da minha cintura enquanto me conduz pela multidão. Não sei exatamente onde estamos indo, mas ele segue o e parece muito puto. Não sei se está tentando evitar que eu fique para trás, mas continua me puxando junto com ele, o cheiro doce tão perto como nunca. não está mais com sua jaqueta, ele veste apenas a t-shirt branca e o colar prata está para fora da camisa. A tinta preta em sua pele brilha contra a luz roxa.
Acho que percorremos todos os cantos da boate e não há sinal do . Um aperto invade meu peito e não posso deixar de pensar que o me advertiu sobre tudo isso.
— Sobe — ele fala alto atrás de mim e me impulsiona pra cima pela cintura. Estamos na base da escada, o subindo na minha frente. Subo como ele me pede e sinto a escadaria inteira emergir na vertical.
— Jesus Cristo , quer andar? — os olhos verdes quentes estão na minha frente agora e eu sinto suas mãos apertando dolorosamente meus ombros. Estamos no segundo hangar, continua atrás de mim enquanto os outros sobem o próximo lance. Continuo subindo e fico confusa quando a luz néon da fachada do Jade’s ofusca meus olhos. Estamos do lado de fora.
, não posso mais andar — paro embaixo do jota, choramingando. O se interrompe e volta ao meu encontro, me pegando pelos cotovelos, minhas mãos também se envolvendo nos braços dele.
— Eu queria te dizer uma coisa.
— Eu sei , eu…
— Me escuta! — ele me sacode de leve. Seus quadris estão colados aos meus, é como se nós dois soubéssemos e procurássemos um ao outro. O que está acontecendo? — Me escuta, vamos conversar depois. Eu preciso ir, tá me ouvindo?
— Eu… Eu estou sim — pisco diversas vezes, atônita e confusa.
— Promete que vamos conversar depois, certo? — ele vira o tronco para trás sem me soltar e chama o nome do . Ele vai me deixar aqui. Cravo as unhas nos braços dele e ele me aperta em resposta, virando para mim novamente. me sacode de leve e levanta a voz — Promete?
vem ao nosso encontro e faz um sinal com a cabeça, me soltando bruscamente para que possa ficar comigo. Ele me olha firme por mais alguns segundos antes de dar as costas.
… — murmuro, vendo-o se afastar a passos largos com o vento tremeluzindo a t-shirt nas costas dele. Ele não se vira outra vez. tem um braço protetor em minhas laterais. Eu não iria atrás dele, mas vê-lo se afastar daquele modo parece criar um buraco de aflição dentro de mim.
Quando e os outros garotos já estão bem longe, ouço suspirar atrás de mim e esfregar rápido suas mãos nos meus braços gelados em um gesto carinhoso.
— Bem, está drogada não está?
Me viro para ele. Suas sobrancelhas estão erguidas, e apenas meu olhar parece suficiente para que ele balance a cabeça em concordância.
— Vou te levar pra comer, vem — e estica a mão para mim, fazendo um sinal com a cabeça pro estacionamento. Eu a pego e sigo atrás dele, suas mãos são quentes em volta das minhas. O usa uma jaqueta de couro e tem uma mancha de tinta neón na nuca, ele provavelmente não viu.
Chegamos no estacionamento, vejo o carro do estacionado e encontro o do pelo barulho do alarme, está há poucos metros do Impala. O carro do é enorme. Não é como o do , pelo contrário, é um modelo esportivo, preto e aposto que caríssimo. Ele entra por um lado e faz sinal para que eu entre pelo outro.
— Tudo ok? — pergunta enquanto manobra para fora do estacionamento. Concordo com a cabeça e ele me lança um sorriso fraco. O carro é incrível por dentro, o painel aceso me lembra uma nave. A estrada na nossa frente parece infinita, o céu escuro se derramando como tinta azul meia-noite e o calor dele irradiando do meu lado, ou pode ser o ar condicionado quentinho, eu não sei. Sinto os bancos de couro em meus dedos e prendo meu olhar no retrovisor, o Jade’s ficando para trás e por acaso também.
— O que quer comer? — ele pergunta, me fazendo dar um pulo no assento. Penso um pouco e dou de ombros, realmente não faz diferença para mim. Ele sorri e olha pra estrada, o sorriso dele é lindo. — Hambúrguer e fritas está bom? — e me olha de novo. Eu sorrio em resposta.
— Está.
Ele ri e olha pelo retrovisor antes de me analisar mais uma vez com seus olhos cor de âmbar. Meu pensamento viaja pro .
— Aposto que está louca de fome — e termina com outro sorriso estonteante. Não posso deixar de notar que dirige de forma diferente.
— Que carro é esse? — pergunto. Ele se surpreende, mas parece contente por eu ter perguntado.
— É um Audi r8. Gosta de carros?
— Não — tento segurar o riso, mas é impossível. Ele acompanha, rindo de mim. O jeito que ele faz não é caçoísta, muito pelo contrário, tenho vontade de rir mais só para ouvi-lo rir mais um bocado. Procuro o ar nos meus pulmões, mas ainda tenho um sorriso nos lábios — Não. É o carro do que é diferente.
As palavras saem tão fáceis da minha boca que não me preocupo com elas. Não estou preocupada com nada no momento, e o não parece incomodado com o fato de eu ter citado .
— O gosta de clássicos — diz simplesmente, agora sorrindo com os lábios fechados — Chegamos.
Nós dois descemos. É um restaurante de beira de estrada, com letras luminosas e um desenho de hambúrguer no vidro. Não há nada em volta além da floresta de pinheiros coberta de neve no topo. Sento numa mesa de canto e o vai até o balcão fazer nosso pedido. O lugar está vazio exceto pelo cara fortão que está de saída, deixando uma mesa suja com restos de panqueca e cerveja do outro lado do restaurante. volta com um sorriso no rosto e senta na minha frente. Ele cruza os braços em cima da mesa, apenas uma mecha de cabelo está caída sobre a testa.
— E então, está gostando de Burford? — ele pergunta. Pego um palitinho e começo a quebrá-lo entre os dedos.
— Acho que sim. Gosto de Londres, mas não posso sair daqui no momento — olho pela janela para impedir a umidade brotando nos cantos dos meus olhos. O cara forte entra num SUV e dá partida. Só percebo que estou com os maxilares apertados quando sinto meu dente doer. O procura meu olhar e eu o encaro. Rio fraco e me distraio com a garçonete que vem a nosso encontro.
— Posso te mostrar o resto da cidade amanhã se quiser, a parte que ainda não viu. O disse que você deu o fora daqui muito cedo e nunca mais voltou, tem muito para ver — ele entrega a gorjeta pra garçonete que deposita nosso pedido na mesa.
— Eu tinha cinco anos — sorrio, mas logo me quebro em pequenos fragmentos ao pensar no . Estou realmente preocupada com ele. percebe e envolve suas mãos nas minhas por cima da mesa.
— Não precisa se preocupar com isso. Vamos achá-lo, está bem? Não está acostumada, essas coisas acontecem sempre e nunca é nada demais. Uma vez sumi no meio de uma festa no Village e me encontraram de manhã deitado num bote salva vidas — rio com aquilo e ele me lança seu sorriso mais confiante, apertando os dedos entrelaçados aos meus antes de soltá-los e ir direto para a porção de fritas com queijo no centro da mesa. — Agora come teu hambúrguer e aí podemos ligar pro e ver como as coisas estão, certo?
Sorrio e afirmo com a cabeça. Sei que ele está dizendo a maior parte para me tranquilizar, mas sinto a pressão no meu peito ir quase totalmente embora. faz um ótimo trabalho cuidando de mim, e me sinto confortável perto dele.
Ele tinha razão, eu estou faminta. Terminamos nossa refeição em uma conversa muito agradável, ele me conta sobre os pais dele e diz que vai dar uma festa na semana que vem perto desse lugar, o Village. A conversa inteira parece um loop de risadas e até me esqueço do que se passa fora dali. O é muito educado e não passa nem perto do nesse quesito, que é um grosso. Pela primeira vez percebo que os amigos do provavelmente também serão os meus durante o inverno todo. Ainda é muito cedo para decidir se gosto deles ou não.
— Quer saber — ele diz quando termina, enxugando os cantos da boca com um guardanapo — Ainda está viajando com aquela bala, não está?
Tento disfarçar, mas todas as cores estão vibrando diante dos meus olhos há cerca de dez minutos. Assinto com a cabeça e abre um sorriso magnífico.
— Então vamos fazer isso valer a pena.
Ele põe dinheiro sobre a mesa e me pega pela mão, fico surpresa porque ainda tenho um pedaço do hambúrguer na boca, mas com ele tudo é parece divertido. Corremos até o carro, nós dois estamos rindo. Ele destrava as portas e faz um sinal para que eu entre rápido. Ainda estou rindo quando voltamos pra estrada.
— Para onde estamos indo? — pergunto. Ele balança a cabeça em negativa.
— Não posso contar, mas estamos perto. Você já vai ver.
O carro entra por uma pequena trilha ao lado da estrada depois de alguns quilômetros, ladeando sobre o chão irregular. Estou mais do que curiosa. está com os faróis altos, mas a lua é tão brilhante daqui que não há real necessidade disso.
— Há quanto tempo engoliu o comprimido? — ele pergunta.
— Não sei, quarenta minutos eu acho — digo e ele sorri do meu lado.
— Perfeito. Vem, vamos descer.
O carro para e finalmente olho ao redor, meus olhos estão encantados. desligou os faróis, estamos no meio de uma clareira incrível e a lua está bem alta no céu, no centro desta abertura entre os pinheiros. Ele abre a porta para mim e pega minha mão para que eu desça. É lindo. É mais do que lindo, é extraordinário.
— Uau — caminho ao redor da clareira olhando para o alto. O céu está coberto por estrelas e não há nuvem alguma. está com o porta malas do carro aberto, remexendo em algo lá atrás, mas ainda sorri para mim.
— É bonito não é? Espera só mais um pouco — ele vem na minha direção com algo em mãos. É um sinalizador, são dois na verdade. A silhueta dele parece tremeluzir. Fico mais surpresa ainda quando ele me entrega um deles. Ele remexe no bolso da jaqueta e puxa um isqueiro, dá alguns passos para trás e acende a ponta do bastão. Ele ergue para cima a fumaça colorida e segundos depois labaredas estão tremeluzindo pelo céu, línguas de todas as cores explodindo e sendo engolidas pela noite com estalos. Não posso descrever o que sinto. É maravilhoso, e muito lindo. Meu coração palpita com a visão que tenho do céu.
Ainda que sóbria isto seria incrível de assistir, mas com os sentidos ampliados é muito mais do que isso. Chamas e fumaça continuam saindo do sinalizador quando ele vem acender o meu. O artefato em minha mão se transforma em chamas luminosas no céu, minha fumaça amarela agora se mistura subindo pelos ares, é lindo. Os próximos minutos são incríveis, tiro meus sapatos e rodopio, livre, e durante esse tempo me permito esquecer de tudo que está acontecendo fora daqui, fora da clareira. Me deito sobre o gramado quando canso e o se junta a mim, estamos ofegantes e ainda rindo para o nada. A sensação é boa.
— Viu? Eu disse que faria valer a pena — ele vira o rosto para mim e dá um sorriso.
— Obrigada — sorrio de volta e miro o céu. Cada célula minha parece vibrar em cima da grama. Quero ficar ali para sempre, mas o nosso silêncio é interrompido pelo celular do . Ele tem a testa franzida quando olha para a tela.
— Já volto — diz, se levantando e indo em direção ao carro com o celular grudado na orelha. Aproveito para observar a clareira mais um pouco e minutos depois ele está de volta, de pé em frente à minha cabeça com um sorriso fraco. — Precisamos ir.
A realidade me choca outra vez. Choramingo, mas aceito a mão que ele me oferece esticada. envolve o braço em minhas costas até chegarmos ao carro, ele abre a porta e eu entro, apertando o casaco do contra mim. Ele entra do outro lado e começa a dar ré pela trilha. Suspiro e olho pela janela. Fazemos o caminho de volta para a estrada em silêncio, mas ainda trocamos sorrisos como confirmações de que está tudo ok. Andamos por algum tempo até passarmos pelo restaurante, ele entra no acostamento e estaciona alguns metros antes. Agora há outros carros na frente do lugar e um grupo de pessoas do lado de fora, vejo o carro do estacionado. O precisa estar bem. Eu e descemos e vamos em direção ao grupo, são os amigos dele. Vejo e , que sorriem para mim, outro garoto que reconheço da boate e o , parado na frente do carro dele com os braços cruzados. Não tenho muito tempo para olhá-lo já que surge por trás de um dos carros. Ele tem um olho roxo e um rastro de sangue seco debaixo do nariz, mas está sorrindo quando me vê.
— Oh meu Deus — me apresso para abraçá-lo, ele retribui, mas solta um grunhido de dor, por isso o liberto rápido. pisca para mim e faz um sinal para que eu fique calma. Céus, que alívio. Quero que ele me explique tudo.
— Bom, parece que acabamos todos bem, principalmente o palhaço ali — diz o pra gente e sorri, enquanto manda o dedo do meio — Bora comer, galera. A deve ter se traumatizado com a gente depois de hoje.
Todo mundo ri e olha para mim, exceto por um. O meu sorriso some assim que olho na direção do outra vez. Uma garota que nunca tinha visto se enrosca no peito dele e leva os lábios até os de , meu mundo cai quando ele retribui. Sinto um vão enorme se abrir em minha barriga, mas por fora não esboço reação alguma, porque na verdade não sei o que pensar. Ambos então olham para mim, porque agora sou o assunto graças ao comentário do . O está contando alguma merda da minha primeira vez no Glastonbury, mas não estou realmente prestando atenção. A garota tem um sorriso no rosto, ao passo que parece uma pedra. Ela está tão bem aninhada no peito dele que não pode ver a expressão dura que me lança. Decido que o odeio. devia estar certo no que disse mais cedo, sobre eles serem todos problemáticos, visando que o tinha acabado de levar uma surra e o assunto da roda não é nem sobre isso. Acho que minha boca está aberta.
Todos conversam tão animadamente que ninguém percebe meu olhar de reprovação contra o . Não consigo reagir, tudo está acontecendo tão rápido que não sei dizer se esperava algo de diferente. Apenas estou surpresa pela mudança brusca no meu humor em menos de dez minutos aqui. Agradeço mentalmente quando param de falar de mim e decidem entrar, ainda estou de olho no quando me puxa gentilmente para dentro do restaurante com ele. Todos estão rindo e comentando sobre a noite, eu realmente não dou a mínima. Não ouso virar, mas sei que está bem atrás de nós, o que faz brotar borboletas em meu estômago mesmo contra minha vontade. Ouço alguém chamar a garota de . É como se um soco de realidade tivesse me atingido no nariz.
Escolhemos uma mesa redonda bem grande. A essa altura é como se eu estivesse anestesiada. Estou ali, mas não consigo sentir nada de fato. Apenas me sento ao lado do e aceito quando ele oferece a mão por baixo da mesa. Sinto o choro bem no fundo da minha garganta, mas sei que ele não virá, é apenas o cansaço da noite me pegando com tudo.
— Acho que ainda não conhece aquela ali — sorri gentilmente, apontando pro outro lado da mesa. Ele fala tão alto que todo mundo na mesa escuta e vira para nós. Fico enjoada. O dedo dele aponta , que imediatamente aperta os maxilares, e a garota com a cabeça encostada no ombro dele. Ela tem um sorriso cínico e o parece extremamente desconfortável. A situação inteira está me enjoando, e fica insuportável quando volta a falar.
, aquela é a , a namorada do .
Não espero nem dois segundos e já estou correndo porta afora, mãos sobre a barriga e minha garganta em chamas.
Despejo no chão tudo que estava em meu estômago: hambúrguer, fritas e borboletas.

Continua...



Nota da autora: (26/03/2017) Sem nota.




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