O vento frio passava por dentro das roupas de null e ela sentia como se estivesse nua na neve. Não havia mais caminho a ser seguido. Tinha sido deixada de lado, na noite, sem qualquer tipo de ajuda. Sentia sua esperança se apagar aos poucos, como a chama de uma vela.
Sua vida passara disso para apenas mais uma vida, que só existiu para o propósito de atrapalhar as próximas. E então? Era apenas aquilo? Para isso que null chegara tão longe? Para ser esquecida em uma noite de inverno?
As narinas da moça exalavam ar quente, pois seu corpo estava em chamas. Queimava em fúria, como um animal selvagem querendo se libertar. Havia apenas uma pessoa que não vira null como uma vida qualquer. null.
Mas null ficara para trás, pelo menos por enquanto. E lhe dera o anel. Aquilo seria o símbolo de que, depois de conseguirem dinheiro, eles durariam para sempre... Tão infinito quanto um anel.
Ele dissera que demoraria apenas um mês. Ele tinha mentido.
“Ele voltará. Sim, voltará quando ambos pudermos alcançar nossos objetivos. Eu e null nos casaremos e seremos felizes para sempre. Eu sei disso! Vai dar tudo certo, amor. Vai dar tudo certo para nós, finalmente...”.
Hey you,
Out there in the cold,
Getting lonely, getting old,
Can you feel me?
Lá longe, entre a neve branca, null foi capaz de ver uma cabana. Parecia ser grande e pertencer a uma pessoa rica. A luz estava acesa e havia alguém na janela. Um homem. Um enorme muro branco separava a cabana de onde ela estava. Era estranho. Parecia uma construção fantasma, como se tivesse sido construída para manter pessoas bem longe.
Bem, talvez esse fosse exatamente o seu propósito.
Então, o homem da janela olhou para null.
Quem seria aquela moça, de olhos null, de pele de seda, de rosto de boneca? Parecia sentir frio. Mas o que será que fazia tão bela dama numa noite tão fria, no meio de um bosque?
– Moleque, o que está fazendo com a janela aberta? Está frio, seu verme! Sempre desconfiei que você quisesse me matar, seu infeliz! Feche essa janela!
O sangue de null fervia. Fingir ser feliz, na casa de seu tio rabugento, não era mais possível. Seus sorrisos, que há cinco anos eram um pouco mais convincentes, se tornaram vazios, a ponto de passarem despercebidos ou até serem esquecidos. Fazia um tempo que ele não dava um sorriso sincero. Quando se olhava no espelho, null costumava pensar: “Bem, pelo menos você tem onde viver”. Hoje em dia, ele pensa: “Bem, pelo menos o dia não tem mais do que vinte e quatro horas”.
Porém, de algum modo, havia algo diferente no ar gélido daquele inverno. Uma moça de olhos null na neve.
Fechou a janela, apagou as luzes da casa e pegou uma lanterna. Abriu a porta da cabana e caminhou na neve macia até o muro.
Hey you,
Standing in the aisle,
With itchy feet and fading smile,
Can you feel me?
Com a mão trêmula de frio, null abriu o portão do muro e viu a moça agachada perto de uma árvore. Sua pele assumira um tom pálido, seus olhos tinham se fechado, contudo sua respiração ainda era perceptível pela fumaça que escapava por seus lábios. null imaginou que seus lábios e sua respiração deviam ser tão quentes quanto o sangue que corria em suas veias. E percebeu que o ar lhe escapava como se não tivesse forças suficientes para mantê-lo em seu corpo.
Aproximou-se dela e viu a neve acumulada em seus cílios. Ela abriu os olhos e ele tirou o cabelo de seu rosto.
– Venha. Está frio demais aqui fora.
– Não consigo andar – a moça sussurrou, fazendo esforço.
Hey you,
Don't help them to bury the light.
– Ajude-me – ela implorou.
Don't give in without a fight.
Sem precisar se esforçar, já que anos de trabalho lhe deram grande força, null ergueu o corpo fraco da moça e caminhou para dentro da cabana, sentindo a respiração dela em seu peito. Percebeu que, em contato com seu corpo, a pele dela parecia voltar à sua temperatura normal.
Quando a porta da cabana se fechou e o ar já estava quente de novo, null se encaminhou até seu cômodo. Era um quarto de hóspedes, mas, como seu tio nunca recebia visitas, por ser um homem avarento e mal amado, esse acabou sendo de null. Tinha uma cama de casal e um armário. Deitou a mulher ali e tirou mais uma vez o cabelo de seu rosto.
– Você está bem? – ele perguntou.
Com os olhos fora de foco, null tentou moldar um sorriso para poder dizer:
– Obrigada.
Então, null sorriu.
O homem da janela estava agora à sua frente. Apesar de todo o trecho entre o primeiro momento que o vira e agora ser um borrão, null era capaz de ter apenas uma certeza: ele a tirara da neve. Ele a salvara.
Gostaria de poder agradecê-lo, de qualquer modo que fosse.
– Está com fome? – perguntou ele.
Ela assentiu com a cabeça, levantando-se e se sentando na cama. Era um quarto iluminado, com uma cama grande e macia, como ela nunca vira antes. Sentiu como se estivesse no leito de um anjo.
– Vou pegar algo para você comer. Espere um pouco. E não faça barulho.
null se limitou a apenas olhar em volta, explorando um pouco mais daquele lugar. Sentia falta daquilo, de um lugar para viver, um lugar que não se limitasse aos seus sonhos ou imaginação. Sentia falta de um lar, uma família, falta de outra pessoa com quem dividir tudo. null e ela não se viam há mais de um ano. Então, para null, seguir a vida sozinha era algo ordinário e normal.
Ainda assim, extremamente incômodo e banal.
Depois, lembrou-se então do moço que a salvara. Ele era belíssimo. Tinha olhos de pedras preciosas. E eram puros. Olhos da inocência, de que não querem fazer o mal.
Olhos que null nunca teria.
Por que um moço de beleza tão angelical, dono daquela mansão, teria ido salvá-la? Uma garota que, a essa altura, já se sentia quase que uma sem-teto?
Os olhos puros dele com certeza escondiam um único sentimento. Solidão.
Hey you,
Out there on your own,
Sitting naked by the phone,
Would you touch me?
Será que ela surtira algum efeito nele? Não. Aquilo era improvável. Ele tinha sido apenas um bom moço, um cavalheiro, que lhe cedera um quarto em uma noite fria.
Que saudades de null...
Antes que percebesse, null havia cochilado. Quando abriu seus olhos, percebeu que apenas uma luz de abajur estava acesa, bem ao seu lado. Ali estava o rapaz de cabelos null, olhando-a e parecendo envergonhado.
– Não quis acordá-la. Você parecia cansada. Perdão – ele disse, desviando o olhar.
– Agradeço por isso – foi o máximo que null conseguiu dizer, tentando moldar um pequeno sorriso.
– Está servida? – perguntou, estendendo-lhe um prato com um sanduíche.
null se sentiu mais forte, mais disposta, como se tivesse acabado de receber combustível. Poderia comer, agradecer e continuar sua viagem.
“Mas que mal tem eu permanecer aqui?”
Ela sorriu, agradeceu e pegou o prato.
Não haveria problema manter tão bela moça ali por uma noite. Não havia nada em suas roupas, nenhum tipo de arma, e null dera uma olhada nelas enquanto ela dormia. Cinco minutos de sono pareceram suficientes para deixá-la descansada. Então, a observou por um tempo até essa acordar. Não demorou.
– Desculpe a indelicadeza, mas de onde você é?
– Não é indelicadeza. Curiosidade faz bem. Afinal, você pode ficar preocupado de uma mulher na neve estar deitada em sua cama – respondeu ela, comendo um pedaço do sanduíche depois de separar um pouco com suas próprias mãos. – Sou de Essex.
– Ah, não tive o prazer de conhecer. Mas dizem ser um lugar agradável.
– O que uma pessoa como você faz em um local tão afastado? – perguntou ela.
null estalou um dedo e mordeu o lábio.
– Perdão. Não quis deixá-lo...
– Não, não se preocupe. Eu moro aqui, com meu tio.
– Oh – a moça disse, envergonhada. – Achei que a casa fosse sua.
– Não é, mas é provável que vire logo. Se o meu tio se espreguiçar, Deus puxa.
Ela deu uma risada que null acompanhou. Sentou-se mais perto dela.
– Não acho que vá querer me contar aonde está indo. Moças como você viajando sem bagagem é algo bem incomum.
– Não sei se vou para algum lugar.
– Isso me dá a liberdade para convidá-la para permanecer aqui pelo resto da noite.
null deu um sorriso amarelo e abaixou a cabeça.
– Você procura algum lugar específico? Algum emprego ou algo assim? – ele perguntou.
– Acho que procuro algo que queira me procurar.
null a examinou por alguns segundos, para finalmente poder confessar algo que quase lhe escapara dos lábios:
– Você me proporciona uma sensação boa.
– Que tipo de sensação?
– Não sei dizer. Acho que, mesmo sendo completamente estranhos, nos sentimos à vontade para conversar... Sobre coisas que talvez não conseguíssemos com outras pessoas.
null chegou mais para frente, sentando-se cada vez mais perto de null.
– Acho que sinto a mesma coisa.
O silêncio pairou por alguns instantes. Não era um silêncio vazio, e sim cheio de gritos, suspiros, lágrimas, sorrisos... Porém, principalmente desejo, companheirismo e compreensão. Eles não precisavam de nada. Só um e do outro ali, por alguns instantes, para conversar.
Hey you,
With your ear against the wall,
Waiting for someone to call out,
Would you touch me?
– Não acho que eu queira saber seu nome – ele disse.
– Não acho que precise – foi o máximo que ela conseguiu dizer, antes de, perigosamente, se aproximar demais de null.
O silêncio era tão profundo que ambos conseguiam ouvir o barulho de suas próprias respirações. A moça o fitava firmemente, o que o deixava nervoso, e o levava a examinar cada centímetro dela. Seus cabelos null, seus olhos null, sua pele de seda.
Tão perto, tão longe...
A ansiedade por ter ali, à sua frente, outra pessoa, deixava null extasiada. Não conseguia parar de encarar os olhos brilhantes daquele homem. Parecia forte e os cabelos, null. null não era daquele jeito. Estava bem longe de ser.
null nunca levaria uma desconhecida para a casa de seu próprio patrão, para protegê-la da neve. Não. Ele a deixaria na neve.
Por que estava comparando aquele homem ao null? null havia a deixado. De corpo, alma e mente. Por que continuara insistindo que tudo daria certo, que null era o homem?
– Estive sozinha por muito tempo – ela comentou, olhando para baixo e chegando o corpo para trás. – Já aprendi a me virar, ouvindo pequenas conversas, passando por pequenas portas, despercebida.
– Gostaria de poder ir embora daqui, deixar esse velho estúpido, que ganhou dinheiro com máfia e me mantêm como um escravo. A polícia faria de tudo para achá-lo, então precisamos ficar trancados aqui o inverno todo... Queria poder me desconectar desse mundo só um minuto, sabe? Para poder fazer qualquer tipo de loucura.
– Eu também gostaria. De ser livre da minha própria liberdade – a moça murmurou, olhando para sua própria mão.
Viu a mão clara do homem envolver a sua. Com a outra, ele levantou seu queixo e a fez olhar em seus olhos novamente, null e brilhantes, reduzindo a distância entre o rosto dos dois a não mais do que cinco centímetros.
Hey you,
Would you help me to carry the stone?
– Você é curiosa. Parece uma relíquia, um artigo raro a um colecionador. Não quero que você vá. Não sei por que, mas não quero.
– Então me dê motivos para ficar.
Open your heart. I'm coming home.
As palavras se perderam nos lábios de null. Mas para que palavras? Por que desperdiça-las, se no fundo ele sabia que seriam inúteis? A moça não as ouviria.
Os lábios dele roçaram nos dela, ainda sem se juntarem. Com as pálpebras não tão abertas, null reparou que ela usava apenas uma camiseta preta que protegia seu tronco e um pouco de suas coxas. Não usava calças. Apenas uma roupa de baixo e a camiseta.
A moça sorriu. null achou que fosse por ele ter reparado em tudo aquilo. Ambos fecharam os olhos e as respirações deles, antes rápidas, tornaram-se calmas. Então, uniram seus lábios com ternura e alívio.
O beijo da moça era selvagem. Os lábios dos dois se encaixavam como se esperassem um pelo outro desde sempre. null passava as mãos pelas coxas nuas dela, subindo até a barra de sua blusa. Ela já tinha sua mão no pescoço de null, puxando-o contra si. E a mulher tinha fome. Estava faminta.
Ele também. Faminto por ela.
A moça partiu o beijo e se encaminhou até a orelha dele, sibilando:
– Não me faça me arrepender. Não de novo. Por favor.
Ela parecia implorar. Chupou o lóbulo da orelha de null, fazendo-o se arrepiar.
– Não farei.
A moça beijou seu pescoço com delicadeza. null começou a beijar o dela, com intensidade, enquanto ela liberava leves gemidos. Sentiu as mãos dela percorrerem seu braço, de baixo a cima, e enfim chegarem ao seu pescoço. Ela o puxou contra si e ele chupou sua pele delicada, fazendo-a soltar uma risada.
Sentiu as mãos da moça no final de sua camiseta. Deixou-a puxá-la, fazendo null ficar despido da cintura para cima.
Aproximou o corpo da moça contra o seu e ela o abraçou pelo pescoço. Com agilidade, ele puxou a blusa dela por cima de sua cabeça. Dedilhou suas costas nuas, enquanto beijava o pescoço perfumado da mulher, parecendo faminto.
O cheiro provocante da pele dela era capaz de hipnotizá-lo.
null sentia cada centímetro da pele dele, descendo lentamente suas mãos por seus braços e alcançando seu tronco. Seus músculos eram bem definidos, o que fez null dar um pequeno sorriso. Começou a torcer os cabelos dele em seus dedos, desejando que aquilo nunca se partisse.
Queria ficar ali para sempre. Tê-lo e ser dele. Para sempre.
E null queria o mesmo. Voltou a beijar os lábios da moça, enquanto a deitava na cama. Enquanto isso, null tirou a própria calça e olhou a estranha bem à sua frente. Os cabelos null dela estavam jogados no travesseiro, seus olhos, fechados, e ela usava um sutiã preto. Parecia esperar uma surpresa.
null deitou seu corpo em cima do dela, sentindo os volumosos seios da moça contra seu peito. Seu coração batia descompassado, enquanto corria as mãos pelas pernas dela e sentia a calcinha delicada que ainda vestia. Seguiu o caminho até chegar à virilha dela. Então, deu um sorriso que não foi suficiente para partir os beijos longos que os dois dividiam.
“null, você está realmente perdendo a cabeça”.
– Surpreenda-me – ela sussurrou, como um sibilo de serpente, no ouvido de null. Ele sentia suas mãos ferventes em suas costas, suas unhas o arranhando, como um animal selvagem.
Enquanto a beijava novamente, cada vez mais ansioso, null subiu suas mãos até o sutiã negro da moça.
– Possua-me.
null podia sentir o sangue correndo nas veias daquele homem, podia ouvir seus batimentos cardíacos.
Sem piedade. Sem cessar. Sem medo.
Era assim que null queria. Como ela gostava daquilo.
Ele tirou seu sutiã, deixando apenas sua calcinha para proteger seu corpo. Enquanto a beijava, um tanto voraz, apalpava o seio dela. Chegava a machucá-la, mas ela não se importava.
Provocando-o, null começou a mexer no elástico da cueca dele. A única coisa que ainda o mantinha vestido.
– Não perca tempo – o moço disse, partindo o beijo. null chegou a levantar a cabeça para poder alcançá-lo e lhe roubar um beijo pequeno, mordendo os lábios de null.
– Não tenha pena de mim – ela retrucou.
Era assim que null queria. Como ele gostava daquilo.
Ao mesmo tempo, os dois ficaram despidos, um tirando o que sobrara da roupa do outro.
Não estavam mais sozinhos. E, pela primeira vez em suas vidas, não se arrependiam disso.
Devia ser um pouco antes de amanhecer, quando null despertou. Estava completamente nua, deitada na cama daquele desconhecido, que dormia sem fazer barulho. Deitada, ela observou a beleza daquele homem. Não havia nada de anormal em sua aparência. Suas feições eram as de uma pessoa jovem. Os cabelos eram null e os olhos, agora fechados, eram null - null e opacos.
Mas, na noite anterior, ficaram brilhantes.
Aquilo fez null sorrir.
Então, foi tomada por um susto. null.
Ele estava lá fora, esperando-a, em algum lugar. Volte para o mundo real, null.
Ela não queria voltar. Queria se prender a uma fantasia, à aventura que viveu ali, naquela mansão. Queria saber o nome daquele desconhecido. Queria ficar ali para sempre.
Porém, não podia. Aquilo não era um sonho de null. Aquilo era a realidade e essa nunca foi gentil com a moça. Você deve partir.
But it was only fantasy.
The wall was too high, as you can see.
No matter how hard he tried, he could not break free
And the worms ate into his brain.
Levantando-se silenciosamente, null vestiu sua roupa e abriu a porta do quarto.
Seria a última vez que veria aquele homem.
E nem pôde saber seu nome...
Os olhos de null lacrimejavam. Enquanto andava, pé ante pé, pelos corredores da mansão, observava o ambiente no qual estava. Até um lápis ali parecia valer pelo menos a renda que null conseguiria em sua vida inteira. Era repleto de fotografias nas paredes, quadros e naturezas-mortas.
Tudo parado no tempo. Morto.
Então, franziu o cenho. Todas as fotografias eram de homens semelhantes ao empregado que lhe cedera o quarto.
Ouviu uma porta se abrir. Rapidamente, ela se escondeu atrás do sofá. Adiante, a alguns metros, havia a porta de saída.
– Onde está você, seu verme inútil? – gritou uma voz. – Já amanheceu! Onde está você?
A voz ecoava por toda mansão e era impossível saber de onde vinha. De repente, null apareceu no corredor, apressado, correndo para as escadas. Usava apenas suas calças.
Assim que ele sumiu, null se levantou e correu até a porta. Estava trancada.
– Merda – a moça murmurou.
– Quem está com você? – perguntou a voz rouca. – Responda-me agora, seu inútil!
– Ninguém, tio... – murmurou a voz de null, que também ecoou pela mansão.
– Eu quero ver! Era uma moça, não era? Você trouxe uma prostituta para minha casa?
– Prostituta? – murmurou null, baixo o suficiente para apenas ela poder se ouvir.
– Traga-a aqui! – ordenou a voz rouca.
– Sim, senhor.
Então, null ouviu os passos do empregado descendo as escadas.
Precisava sair dali o mais rápido que pudesse.
Com cautela, null atravessou a sala e achou o que devia ser o porão. Mesmo não ajudando muito a sua situação, esconder-se no porão talvez fosse o suficiente para mantê-la a salvo por algumas horas. Afinal, não tinha fome. E o empregado não iria denunciá-la.
Então sua linha de pensamentos foi interrompida quando sentiu uma mão gelada tocar seu braço.
– Venha comigo – ordenou o empregado.
– Por favor, deixe-me ir embora.
– Meu tio quer conhecê-la.
As lágrimas começaram a correr pelo rosto de null sem parar. A adrenalina corria por seu corpo sem cessar e seus olhos se tornaram mil vezes mais focados, como os de um animal. O nome disso é medo.
– Por favor – ela murmurou. – Ajude-me.
Hey you,
Out there on the road,
Always doing what you're told,
Can you help me?
null parou. Aquelas duas palavras fizeram sua mente se recordar da noite anterior.
O sutiã preto. Os cabelos null. Os olhos null. O perfume provocante. A voz de serpente.
– Meu tio quer conhecê-la – ele murmurou.
– Eu quero ir embora.
– Acalme-se. Ele não morde. Posso lhe dar um pouco de dinheiro, mas só vou conseguir se ele a vir.
Os olhos dele brilhavam novamente. Por que negar, null?
Porque o tio dele era um mafioso.
Havia uma janela logo adiante. Tinha o tamanho perfeito para null saltar por ela sem se machucar e, do lado de fora, a neve podia amaciar a queda. Era uma questão de cálculo.
– Desculpe.
null desviou seu braço dele e tentou correr pelo corredor. Um pouco mais rápido. A janela está logo ali!
Então algo segurou sua perna, fazendo-a cair. Ela era capaz de ver a janela logo à sua frente. Os braços daquele homem a envolveram e a suspenderam, levando-a no colo para cada vez mais longe. As lágrimas corriam pelo rosto de null e ela sentia pavor. null! Ajude-me!
Mas era tarde demais.
Os passos daquele homem ecoavam pela casa. Impressionantemente, a voz rouca parara de gritar. Aquilo deixava null com cada vez mais medo.
Então, null abriu a porta e murmurou no ouvido dela:
– Não tenha medo. Eu estou aqui.
Aquilo não a deixou mais relaxada. A voz dele soava como um rosnado, como um caçador para sua presa.
null era um animal. E precisava ser domado.
E null era o caçador.
Então ele entrou na sala. Era um quarto escuro, sem nenhuma luz. Depois de alguns passos, deitou null num divã. Fechou a porta.
null não sabia dizer se o rapaz ainda estava na sala ou não. Esperava que estivesse.
– Qual é o seu nome? – perguntou uma voz rouca.
Ela engoliu em seco.
– Diga!
– Quero sair daqui! – a moça gritou, com a voz rouca e chorosa.
– Você vai sair... – falou a voz que null era capaz de reconhecer.
–... Se me disser seu nome... – completou a voz rouca do tio de null.
–... E o que quero ouvir – disse outra vez a voz do empregado.
A mente de null já confundia as vozes. Pareciam semelhantes demais! E, a essa altura, ela só queria fugir.
– Diga-me que me ama! – gritou o que soou para null uma voz dupla. Os dois pareciam gritar aquilo ao mesmo tempo.
Então, por puro instinto, deu um salto do divã no exato momento em que null avançou contra o móvel.
– Onde está você? – perguntou a voz de null.
null se arrastou pelo chão até achar a parede. Quase não conseguia mais falar.
Então murmurou algo ao sentir um caco de vidro cortar a palma de sua mão.
– Achei você – murmurou a voz rouca novamente.
– Salve-me! – gritou null e avançou para frente. Achou o corpo de null, despido da cintura para cima. Um protetor. Um anjo.
– Acalme-se, doce moça... Meu tio ainda não a conheceu.
null desviou ao sentir um gélido caco de vidro lhe tocar a pele do braço, sem cortá-la.
Estava tudo tão claro. Aquele homem era louco. Não havia tio. Havia apenas o empregado.
E ele queria null.
Hey you,
Out there beyond the wall,
Breaking bottles in the hall,
Can you help me?
Esperando o próximo ataque, ela tateou o chão. Por vezes, cortava mais a palma da mão, até que achou uma garrafa de vidro inteira.
– Você não é silenciosa... Percebi isso ontem... Eu vou achá-la...
O terror parecia crescer cada vez mais na sala.
null tinha se acostumado a viver com o tio. Ele queria ser rico como o tio.
Então, o tio morreu. E o sobrinho herdara tudo, toda aquela mansão, mas ainda faltava algo... Estava tão silencioso, tão vazio. Faltava uma companhia. Era null e seu tio. Sentiu falta da companhia dele, por mais rabugento que fosse. O empregado começou a conversar consigo mesmo, fingindo ser seu tio, porém aquilo era tolice!
null era null, e seu tio era seu tio. Não mais. Nunca mais. Agora, eles eram apenas um. Contudo, chegou null. Ela precisa ser eliminada, null. Sim, tio.
– Pode correr, mas não pode se esconder, moça dos olhos null.
null achou a porta e, finalmente, ficou de pé. Ele estava do outro lado da sala.
– Sou uma serpente – sibilou null.
Um sorriso doentio surgiu nos lábios de null. Agora achei você, verme.
E avançou para onde estava a moça, dando de cara com a porta e a derrubando.
– Onde está você? – ele gritou, como um rosnado.
Então, tudo se apagou quando null o acertou com um certeiro golpe na cabeça. O vidro se estilhaçou em milhões de pedacinhos que voaram pelo corredor e deixaram null desacordado. Os cacos eram transparentes e cobriram um pouco da porta embaixo do homem, mas, ainda assim, podiam ser confundidos com as lágrimas cristalinas que corriam pelo rosto de null. Por que você teve que fazer isso...?
Do jeito que costumava se comportar, null poderia ter roubado tudo que conseguisse carregar daquela mansão. Porém, não o fez. Porque, apesar de tudo, tinha pena daquele empregado.
Ela juntou os cacos de vidro em um canto e tentou erguer o corpo desacordado de null. Deitou-o no divã dentro do quarto e desceu as escadas. Podia ter deixado um bilhete, ou qualquer coisa, mas não queria se prender àquela mansão. Não queria se prender a ele.
Tinha que fugir dali logo, pois tinha medo.
null não sabia dizer se tinha se apaixonado pelo empregado. Ele parecia tão certo, gentil... Todavia, aquilo soava tão errado. E agora, mais ainda.
Mas e se ele se curasse? Aquilo não era algo completamente incurável. Quer dizer, havia apenas riscos.
Mas ela estava cansada de riscos. Abriu a porta da sala e encarou o ambiente repleto de neve do lado de fora. De volta ao passado.
null.
Isso está certo.
Então, com lágrimas nos olhos, null voltou para a escada. Subiu-a e quase caiu de tanta pressa. Parou na frente da porta caída ao chão e olhou para dentro do quarto. Havia apenas um divã com um moço deitado.
Lentamente, ela se aproximou. Tirou o anel de null e, depois de se ajoelhar, lentamente o colocou no dedo da mão direita do moço. Admirou-o por alguns segundos.
Era aquele homem que dormia assim, bem, silencioso e tranquilo há alguns minutos.
Era aquele homem que tentara assassiná-la.
Ela chorava um pouco e, com ternura, deu-lhe um beijo delicado. Terno como o primeiro. Era um ruim, com gosto de despedida. E ela não gostava de despedidas.
Hey you,
Don't tell me there's no hope at all.
Together we stand, divided we fall.
Desceu novamente e saiu da mansão, deixando a porta aberta. Enfrentou o frio, a neve que continuava caindo contra seus cabelos null.
Porém, ela não se importava. Nada era pior do que estar deixando aquela mansão.
Ao longe, era capaz de ouvir a voz rouca de um velho mafioso, murmurando: “Feche a porta, verme miserável... Está nevando lá fora.”
Fim
Nota da autora: Olá, pessoas felizes! Que tal a história? Essa é a minha cabeça trabalhando enquanto leio Clube da Luta, vejo Psicose e ouço Hey You. Mas até que gostei do resultado. Talvez eu faça outras fics assim. Queria agradecer à helper Larys por ter me ajudado com TFATS. Se estiver lendo isso, Larys, queria que você soubesse que sua ajuda foi muito valiosa para mim. Encontrem-me no @borntobj e na fanfic Jennville, de fandom One Direction. Kisses e byee. Não se esqueçam de comentar para fazer a autora aqui feliz. (: