1, 2, 3, 4.
5, 6, 7, 8. Ela conta os números na cabeça, como se fosse uma coreografia que tivesse ensaiado anteriormente. De certa forma, isso não deixa de ser verdade. Ela encara os olhos azuis e brilhantes de Liam a sua frente, sabe que ele vai beijá-la, também sabe como deve se comportar.
Para null, a vida é feita de passos ensaiados e repetidos. Liam faz parte do seu grupo de amigos, é popular e muito bonito, eles formariam o casal perfeito. Pelo menos é o que ela vinha escutando de suas amigas nas últimas semanas. Ela não tinha motivo nenhum para não gostar dele, então simplesmente fingia que estava animada com a oportunidade de ficar com ele. É claro que ela estava a fim de Liam. Por que não estaria? Alguns anos antes ela riria nervosamente da pergunta, tentaria disfarçar seu desconforto, não deixaria que as pessoas vissem suas mãos suando e seu coração batendo rápido. Antes, a pergunta não sairia da sua cabeça. Por que não estaria? Por quê?
Agora, ela sabia exatamente o porquê.
Quando os lábios de Liam tocam o seu, ela apenas desvia a mente e se deixa levar. Ao longo dos últimos anos, desenvolvera várias técnicas para não pensar enquanto um garoto a beijava. Se deixasse pensar, ela acabaria transparecendo como não estava gostando nada daquilo. Não que Liam fosse perceber, eles sempre eram tão egocêntricos que nem em um milhão de anos ocorreria a eles que talvez ela não gostasse tanto assim deles. Mas ela não podia correr o risco.
A atividade preferida de null é dançar. Ela faz várias aulas diferentes para ocupar seu tempo, planeja entrar para alguma companhia depois de se formar no ensino médio. Ir embora para uma cidade grande, talvez Nova York, onde ela seria livre para fazer o que quisesse. Só de pensar nisso ela já fica mais excitada do que Liam jamais poderia deixá-la. Do mesmo jeito que aprende nas suas aulas a dar pliés e piruetas, ela também aprendeu a sorrir, rir quando Liam falava algo fofo, a parecer interessada, a responder seus beijos e ser a namorada perfeita.
A vida é uma coreografia e ela deve passar o tempo inteiro andando nas pontas dos pés.
Não pode cair.
Um erro e ela seria humilhada na frente de toda platéia.
~***~
O verão de 1997 acaba como todos os outros, algumas festas e várias reclamações antecedendo o início das aulas. null está feliz com esse fato, ainda tem mais três anos, contando com esse, até acabar as aulas. Se pensar muito sobre o assunto, não sabe como mais conseguir sobreviver tanto tempo, mas pelo menos é um ano a menos do que o anterior.
Liam a deixa na porta de sua casa e se despede com um beijo na bochecha. Ele é tão fofo, que ela não consegue deixar de revirar os olhos quando fecha a porta e entra em casa. Ele está no time de futebol do colégio e ela vai se candidatar para o time de líder de torcidas nesse ano. Poderiam ser mais clichê? Às vezes ela se diverte imaginando a reação dele quando descobrir que, no tempo inteiro que estiveram juntos, ela precisava pensar que ele era uma garota, para pelo menos tentar aproveitar um pouco o namoro. Não costumava dar muito certo, mas ela continuava tentando. Lésbica. Às vezes a palavra aparece na mente de null e ela sente seu coração disparar, achando que alguém pode ouvir seus pensamentos e apontar para ela. Ela mora em uma cidade quase inteiramente cristã no sul dos Estados Unidos. Ela espera que a virada do milênio seja boa para ela.
- Você está bem? – sua irmã pergunta, notando que ela ainda está parada em frente a porta. Ela apenas assente e começa a ir para o próprio quarto – Nós temos novos vizinhos! – acrescenta.
Sienna, com seus dez anos, parece animada com o fato; null apenas dá de ombros.
Da sua janela, ela observa outra garota desmpacotando várias roupas e empilhá-las em cima da capa. A família anterior, um casal sem filhos, costumava utilizar esse quarto como escritório. De seu quarto, null tem uma visão completa do outro quarto. Ela ainda não sabe se isso é bom ou não.
~***~
O nome dela é null.
Gosta que as pessoas a chamem de null, mas null gosta da sonoridade de null, por isso a chama assim mentalmente. Elas nunca trocaram nenhuma palavra, apesar de serem da mesma turma de História e Inglês e irem no mesmo ônibus para a escola todo dia, saltando no mesmo ponto.
null a observa no colégio. Ela fez algumas amigas e até conversa com alguns amigos em comum. Não é nenhuma surpresa, ela é muito bonita, apesar de ser bastante introvertida, pelo o que null notou. Estava sempre com um livro debaixo do braço, lendo antes das aulas começarem. Ela deixa o cabelo solto na maior parte do tempo, às vezes cobrindo seu rosto. Na opinião de null, ela não deveria se esconder. Quase precisa conter a vontade de esticar a mão e colocar uma mecha de cabelo de null atrás da orelha.
Ela sente as bochechas corarem ao pensar nisso. Está agindo de forma ridícula.
Um dia, ela volta para casa mais cedo porque o treino de torcida foi cancelado. Ela pega o ônibus com null e elas trocam um breve oi. É a primeira vez que se falam, mas não será a última.
~***~
De alguma forma que nunca fica muito clara para null, elas acabam virando amigas.
Ela nota isso no recesso de Natal. Sua melhor amiga está viajando, assim como Liam, e ela está de férias do colégio e das atividades extra-curriculares, portanto elas passam o tempo todo juntas. Quando acorda para encontrar seu quintal coberto de neve, a primeira coisa que faz é jogar uma bola na janela de null e elas começam uma guerra, que acaba atraindo Sienna, minutos depois.
Elas tomam chocolate quente preparado pela mãe de null. Ficam horas trancadas no quarto apenas conversando sobre a vida. null fica deitada no seu quarto lendo um livro, enquanto ela cria sua própria coreografia na falta de suas aulas. Elas não sabem tudo uma sobre a outra, não ainda. Ainda estão nas camadas mais superficiais, coisas que todos os outros sabem apenas com algumas observações.
null sabe que pode se apaixonar por ela. Está o tempo todo preocupada com essa possibilidade, por isso, quando as aulas retornam, ela faz o máximo para evitá-la. Ela mal consegue esconder quem é assim, imagina se tivesse apaixonada por sua amiga? Sente medo que null perceba e se afaste. Precisa fechar os olhos várias vezes antes de sair de casa, preparando-se para encontrá-la.
Manter-se no personagem é mais fácil com Liam, ela já sabe todos os passos de cor. Com null, ela ainda está começando a descobrir como deve se comportar. É difícil, principalmente quando seu coração insiste que ela vá para a direção oposta.
Nada que o tempo não resolva.
~***~
Ela pensa em null durante seu aniversário de um ano de namoro. É a mesma coisa de sempre, os conhecidos lábios de Liam sobre o seu, se movimentando de forma previsível e entediante, mas por um momento ela quase consegue se esquecer. Quase murmura o nome dela, mas por sorte isso não acontece. Ela fica corada só de pensar em quão vergonhoso seria se tivesse dito em voz alta, Liam interpreta sua vermelhidão de forma errada.
Ela o beija com mais intesidade do que nunca, porque não quer pensar que talvez seja tarde demais para não se apaixonar. Ela precisa fazer com esses sentimentos parem, por isso não protesta quando Liam começa a tirar suas roupas. Ele é um garoto legal e ela tem certeza que, se fosse outra pessoa, esse seria um momento mágico. Ele pergunta sobre sua opinião, se ela tem certeza que quer fazer isso, ela diz que sim. Para falar a verdade, não é um sim muito confiante, mas Liam acredita que esse simplesmente seja o jeito dela.
O sexo é pior do que ela imaginava que seria. É a primeira vez dos dois, Liam não sabe o que fazer e null está parcialmente aterrorizada. Para ela, é doloroso e nojento, ela passa o tempo inteiro querendo que acabe logo. Graças aos hormônios adolescentes masculinos, seu desejo é atendido e Liam logo rola para o lado, perguntando o que ela achou. Ela tenta sorrir, mas mesmo o mais idiota consegue ver que ela não está satisfeita. Liam se desculpa e diz que eles só precisam se um pouco mais de prática, rindo.
Nada parece mais assustador do que isso.
Ela continua tão gay quanto antes, senão mais. Deseja voltar no tempo e fazer todo aquele dia desaparecer, não quer fazer nada além de segurar mãos com um garoto.
Respira e inspira. Ela sabe que não pode fazer isso, precisa continuar no personagem. Ela vira para Liam e sussurra que o ama. Uma lágrima escorre, porque ela realmente queria que fosse verdade.
~***~
Ela se inscreve para mais aulas do que é humanamente possível naquele ano. Além do colégio e torcida, está fazendo ballet, sapateado e jazz. Ela passa algum tempo com Liam, mas tenta evitar ao máximo ficar sozinha com ele, que parece um pouco desapontado. Eles fazem sexo algumas – poucas – outras vezes, principalmente porque null morre de medo que ele termine com ela e todos descubram o motivo.
null menciona algumas vezes que ela está agindo estranha, mas ela diz que apenas está ocupada. Elas não se conhecem bem o suficiente para que null a acuse de mentir, mas ainda sim, ela sabe que está sendo evitada, só não consegue entender o porquê.
No seu aniversário, seus pais lhe dão uma barra e um espelho para treinar no quarto. Eles querem incentivá-la a ser aceita em uma boa companhia. Queriam que ela fosse para uma universidade, mas já que parece impossível convencê-la de desistir, eles pelo menos querem que ela seja aprovada para um bom local. null passa dias procurando pelos melhores lugares e escolhe a companhia perfeita. Fica em Nova York, o que torna ainda mais perfeito. Ela imprime uma foto e cola no espelho, assim ela pode se lembrar de seu objetivo sempre que ensaiar.
- Você ao menos gosta dele? – pergunta Natalie, sua melhor amiga, um dia em relação a Liam – Parece, para mim, que você só se importa em sair dessa cidade e não liga mais para nenhum de nós.
Natalie está irritada com a falta de atenção. null não ia mais às festas, pois sempre precisava ensaiar e mal tinha tempo para sair com os amigos ou o namorado. Talvez ela estivesse se dedicando demais, não era como se realmente tivesse uma escolha.
Talvez ela só estivesse trazendo mais suspeita para cima dela por causa disso. Talvez todos tenham percebido sua mudança de comportamento. Ela sentia as lágrimas a invadirem. Por que isso estava acontecendo com ela agora? Tinha passado tantos anos fingindo se adequar ao grupo e era só null aparecer, que ela já não sabia mais se comportar.
~***~
Ela percebeu que gostava de garotas pela primeira vez aos 13 anos.
Ela tinha dado o primeiro beijo em um garoto alguns meses antes e não sentira absolutamente nada. Suas amigas disseram que poderia ser estranho, mas ela ainda assim esperava algo diferente. Talvez fosse o garoto, talvez ela ainda fosse muito imatura, algumas das outras meninas riram ao sugerir. Ela ficou com vergonha e resolveu não falar mais sobre o assunto. Observava o jeito que as outras meninas comentavam depois de beijar alguém e parafraseava depois.
Talvez todas meninas se sentissem assim e todas estivessem fingindo também, ela tentava se convencer. Mas algo dentro dela sabia que não era verdade. Ela começou a notar que seu olhar demorava mais nas meninas e se pegava imaginando como seria diferente beijar uma garota.
Uma vez pensado conscientemente, ela tentou impedir que o pensamento voltasse. Tentou se convencer que isso nunca tinha acontecido e que ela realmente gostava de garotos. Mas não conseguia, cada dia sua atração se tornava mais óbvia para ela mesma. Era no vestiário antes das suas aulas, na casa de suas amigas, assistindo televisão, tudo parecia gritar “gay” para ela. O medo se espalhava por todo seu corpo e ela queria desaparecer, não queria que isso acontecesse.
Ela já tinha ouvido o jeito que seus amigos falam de lésbicas. Os garotos às vezes com um fetiche pertubador e as garotas com nojo. Ela ouvia seus pais falando também, seus amados pais que poderiam ser bastante assustadores quando queriam. Ela imaginou sua irmã, na época com oito anos, aterrorizada vendo-a beijar outra garota.
Naquele ano, ela beijou vários garotos para tentar se “converter”, mas nada aconteceu. Todo dia, ela voltava para casa e chorava, porque não conseguia mudar o que era. E nunca conseguiria, ela percebeu. Foi então que se tornou expert em fingir que era hétero, aprendeu a coreografia e todos os dias ensaiava, para nunca se esquecer.
~***~
null resolve diminuir suas atividades quando o ano acaba.
Ela chama Liam, Natalie, null e algumas outras pessoas para a apresentação de fim de ano e fica feliz quando quase todos aparecem. Talvez ela não tenha se excluído tanto assim nos últimos seis meses.
No palco, ela se sente livre. Ela tem um solo, o holofote está sobre ela e todos estão a vendo, prestando atenção aos mínimos detalhes, esperando um erro acontecer. Mas ela é perfeita. Movimenta-se como se tivesse nascido para aquilo, conhece a coreografia melhor do que a si mesma. Todos aplaudem de pé quando acaba. Ao voltar para seu quarto e ver o papel preso no espelho, ela sabe que não está só fugindo daquela cidade. Está indo em direção ao seu futuro, e ele será brilhante.
Liam a parabeniza e a beija. Ele lhe entrega seu presente de Natal, já que passará o Natal viajando, como de costume, é um par de brincos brilhantes e grandes que nada tem a ver com null, que costuma usar brincos pequenos e discretos, mas ela agradece e diz que o presente dele está em casa e depois entregará. A verdade é que ela se esqueceu que deveria comprar algo para ele, mesmo que o presente de null – um livro que ela achou ser sua cara – estivesse embrulhado em seu quarto.
null lhe dá um livro também, apesar de ela não ler tanto assim, ela diz que é um incentivo e que ela vai gostar. Apesar de preferir gastar seu tempo dançando, null arranja tempo para ler nas férias e acaba gostando mais do que deveria. É um romance e a principal é bailarina. Ela se apaixona por um homem, é claro, não esperava que null fosse lhe dar um livro de literatura LGBT, mas null só consegue imaginar elas duas no lugar. Ela sabe que precisa parar com isso.
~***~
null está sentada na ponta da cama, tentando ler o livro. Às vezes, ela levanta o olhar, apenas para encontrar null a encarando, e ri.
- Para, você está me distraindo – ela joga uma almofada na cara da amiga – Você deveria estar me ajudando com esse trabalho!
Por acaso do destino, elas foram colocadas para fazer um trabalho de História juntas. null pode dizer que já teve parcerias mais produtivas. null está concentrada tentando estudar, determinada a tirar boas notas, pois quer conseguir uma bolsa de estudos na universidade.
Elas estão no último período letivo e logo irão para o último ano do ensino médio. O momento tão esperado por null parecia se aproximar cada vez mais, mas ela sentia medo ao pensar em simplesmente sair dali e nunca mais ver seus amigos – certo, estava exagerando, eles poderiam continuar se falando, mas ela duvidava que a maioria manteria contato -, nunca mais ver null.
Haviam se aproximado tanto nos últimos meses. null acha que null deve saber sobre seus sentimentos, todo mundo deve saber, não é possível que ninguém note o jeito como ela a olha ou como seu rosto se ilumina cada vez que null chega. null roe as unhas só de pensar na possibilidade de ser descoberta.
Se null sabe de seus sentimentos, ela nada diz, continua agindo normalmente. É isso que convence null que tudo está certo, ninguém leu seus pensamentos. Se soubessem, teriam a exposto, todos na escola comentariam, seus pais gritariam com ela e nada jamais seria igual. Um calafrio percorre seu corpo. Alguns dias, ela não consegue evitar que os pesadelos venham. Neles, todo mundo sabe.
E não é nada bonito.
~***~
- Vocês vão na festa amanhã? – Natalie pergunta.
null não sabe de imediato do que ela está falando, mas não leva muito tempo para lembrar. Todo ano Michael dá uma grande festa para celebrar o fim das férias. Seus pais são ricos e negligentes, não se importam de convenientemente viajar todo ano nessa época, e têm dinheiro suficiente para garantir que o resto da cidade não se importe com o consumo de bebida por menores.
- Liam vai estar lá, ele voltou de viagem hoje – Natalie completa, em uma tentativa falha de incentivá-la.
null não pergunta como ela sabe mais sobre seu namorado do que ela mesma. Não é nenhuma surpresa que Liam fosse, não só porque ele está em todas essas festas, mas porque Michael é um de seus melhores amigos. Ela e Liam estão a beira de terminar, mas talvez ela aguente mais alguns meses. Apenas o suficiente para ela sair dali e as cortinas finalmente se fecharem.
null não diz nada nada, apenas sorri para a amiga.
- Você vai, null? – Natalie continua com a conversa, erguendo as sobrancelhas para a garota do outro da cama.
As duas não se dão muito bem. Uma parte de null acha que Natalie está com ciúmes por ter sido substituída, outra parte acha que elas simplesmente não têm nada em comum. Natalie, é claro, nunca admitiria que não era mais a melhor amiga de null. Por isso, fingia se dar bem com null e era extremamente simpática. Estava claro que era completamente falso.
- Claro! Por que não? – Ela sorri, sem dar muita importância ao assunto.
null não é muito de ir em festas, mas ela está nervosa com o início das aulas e quer aproveitar enquanto há tempo. O último ano ainda nem começou e seus pais já estão a pressionando para estudar. Ela sabe que precisa tirar notas boas se quer ser aceita em uma boa universidade. null fica mais animada com a confirmação de null. Ela quer uma desculpa para se afastar de Liam, e null é perfeita para isso.
Da sua janela, null pode ver null se arrumando. Ela se sente um pouco stalker vendo-a assim e sente sua bochecha ficar vermelha em um instante. null se vira e encontra seus olhos, ela sorri e, imediatamente, null se vê sorrindo também. Percebendo que já está a encarando por muito tempo, null desvia o olhar e se concentra em se arrumar.
Enquanto coloca a maquiagem, ela consegue ver null pelo reflexo do espelho. Uma parte de seu cabelo está preso e ela está usando um vestido rosa claro. Aos olhos de null, null é a coisa mais preciosa e adorável que ela já viu. null sai do quarto e não demora muito para tocar a campainha.
Elas chegam à festa juntas. Ultimamente, elas fazem tudo juntas.
Liam brinca que parece que elas nasceram grudadas. null apenas revira os olhos e não comenta que elas nem se conheciam até uns anos antes. Naquele dia, ela está feliz. null está ao seu lado e se divertindo. Natalie parece ter esquecido seu ciúme bobo e também ri e dança com as duas. Liam está sendo afetuoso como sempre, mas, quando percebe que não vai conseguir levar null para a cama naquele dia, logo a deixa de lado e vai beber com seus amigos.
null não é muito de beber, ela precisa manter a forma se quiser ser uma boa bailarina. Mas, no momento, ela não se importa. Natalie a entrega um copo de cerveja e a incentiva. Uma noite não vai fazer diferença, ela pensa. A música está tocando alto, Natalie a puxa para dançar e ela é levada pela amiga.
A música é pop, não exatamente o gênero que null está acustumada a dançar; isso não a abala nem um pouco. Seu corpo está conectado com o ritmo. Ela dança e se sente livre. O álcool é o suficiente para manter a ilusão. Ela sente a mão de Liam em sua cintura e continua dançando. Ela está prestes a arranjar um jeito de dispensá-lo quando vê null do outro lado da sala. Ela está conversando com Michael, ele está passando a mão pelo seu cabelo e muito próximo. null reconhece o olhar de Michael, ela já o viu tantas vezes no espelho.
Ele gosta de null. E talvez ela goste dele.
null vira-se e puxa Liam para um beijo. Ela sabe o que está fazendo; cometendo o mesmo erro de quando fez sexo com ele pela primeira vez. Ela sabe o resultado: nenhum. Ela só continua iludindo Liam cada vez mais e nem ao menos está se iludindo. null se afasta dele, mas Liam começa a beijar seu pescoço. null está tão cansada dele.
- Liam querido, acho que terei que roubar sua namorada por um instante – Natalie aparece no meio do nada, afastando-a de Liam – De nada – diz para null, sorrindo, e completa em um tom mais frio: - Você deveria terminar logo com ele.
Por um momento, null pensa que talvez Natalie saiba.
Ela definitivamente não vai perguntar.
null se aproxima das duas, null procura Michael com o olhar e o encontra conversando com Liam. Ela sorriu ao pensar que, de alguma forma, Liam acabou a ajudando naquela noite. null está cansada, elas duas resolvem voltar juntas, já que Natalie quer ficar ali por mais um tempo.
- Você bebeu demais, seus pais vão te matar – null fala, o tom preocupado na voz.
null apenas ri. Seus pais ficariam irritados só por ela ter bebido uma noite, imagina o que fariam se soubessem o que ela pensava quando olhava para sua melhor amiga.
- Isso não é engraçado, null – null, é claro, não bebeu nada e está dirigindo em direção a sua casa – Vá lá para casa, seus pais vão achar que você está na casa da Natalie.
null pisca, congelada por um momento. Ela e null eram muito amigas, mas nunca tinham dormido uma na casa da outra, afinal não fazia muito sentido uma vez que eram vizinhas e podiam ir para casa a qualquer momento. null sentiu o nervosismo começar a dominá-la. Respire. Concentre-se.
- Essa é uma ótima ideia! – ela grita, um pouco animada demais. null ri e apenas atribui o comportamento à bebida.
Os pais de null confiam o suficiente nela para não a esperarem para dormir. Elas entram silenciosamente na casa e null a leva para o quarto. null já esteve ali centenas de vezes, mas dessa vez parece diferente. null lhe dá um copo de água e diz para ela ir tomar banho. Isso ajuda um pouco que ela fique sóbria, mas não o suficiente.
null a deixa sozinha no quarto e vai para o próprio banho. A curiosidade de null fala mais alto do que sua educação e ela começa a mexer em sua mesa. Ela observa a estante, cheia de livros, queria ter tanta dedicação para ler assim. O material escolar, novo e inutilizado, está em cima da mesa, até o fim do ano letivo ele já estaria todo preenchido, null tinha certeza. Do lado, um rádio estava ali, pedindo para ser ligado. Esquecendo-se de que os pais de null estavam no quarto do lado, ela aperta o ligar e começa a ouvir a música que está tocando. Ela é lenta e bem melhor do que as que tocavam na festa.
null sai correndo do quarto, com o pijama colocado de qualquer jeito e o cabelo preso em um rabo de cavalo mal feito. null nunca a viu mais bonita. null diminui o volume do rádio e coloca a mão no coração. Abre a porta do quarto para verificar se seus pais acordaram com o barulho, mas não encontra nenhum movimento aparente. Ela suspira em alívio e se vira para null que ainda está em frente ao rádio, se balançando de acordo com o ritmo.
- O que você está fazendo? – ela ri – Nós temos que dormir, null.
- Nãaao, null! – null se aproxima dela e fecha a porta do quarto, puxando a amiga para o centro do quarto – Vamos dançar!
null apenas revira os olhos e deixa que null a movimente. Elas passaram tanto tempo juntas nos últimos meses que podem se considerar melhores amigas, null sabe que tem algo que pertuba null e está feliz por vê-la feliz assim. A música acaba e null está quase desligando o rádio quando outra começa.
- Eu amo essa música! – null quase grita e tampa a boca em seguida, lembrando-se dos pais de null – Vamos, só mais essa.
A música toca devagar e null envolve a cintura de null em um movimento rápido. Se estivesse completamente sóbria, ela nunca teria feito isso. Jamais se aproximaria de null assim. Mesmo com o álcool, ainda sente sua mão suar e seu coração bater mais rápido. Elas estão tão próximas que null se pergunta se null consegue ouvir seus batimentos.
Elas vão para um lado e para o outro, não é nenhuma dança específica e o ritmo nem está completamente certo, mas nenhuma das duas se importa. Os olhos de null estão fechados e ela não tem certeza se quer abrir. Talvez isso seja só um sonho. Talvez ela acorde de ressaca no quarto de Liam. O pensamento é tão assustador que ela não consegue manter os olhos fechados.
null está a olhando, ela quer saber o que ela está pensando, mas não pergunta. Elas apenas se encaram por alguns segundos, nenhuma ousando quebrar o silêncio. Os olhos de null encontram os lábios de null e, alguns segundos depois, vice-versa.
Seus olhares se encontram novamente.
E então seus lábios.
Suas bocas ficam juntas, sem aprofundar o beijo. null é a primeira a se afastar, seu olhar confuso e assustado. Acima de tudo, seus olhos brilham com a possibilidade.
- Ai meu deus – ela quebra o silêncio – Me desculpa!
Para a surpresa de null, null apenas fica vermelha e se senta na própria cama.
- Nós deveríamos dormir – null fala nervosa, ajeitando a cama extra para null.
null se senta no colchão de baixo em silêncio. null está na própria cama, por cima dos lençóis apenas a observando. Nenhuma das duas quer falar sobre o que acabou de acontecer, mas também não podem ignorar. null ainda está taquicárdica, o que ela mais queria e mais temia acabara de acontecer e agora ela não tinha mais para onde fugir.
- Você é lésbica? – a pergunta escapa de seus lábios antes que ela possa controlar.
- Não – null responde rapidamente quase pulando com a acusão – Quer dizer, acho que não? Eu gosto de garotos.
- E quanto a garotas? – null usa seu último resquício de coragem para perguntar, erguendo as sobrancelhas.
- Eu não sei – ela confessa – Mas... Eu gosto de você – null diz, ficando vermelha e deixando null sem palavras – E você?
null não responde, apenas se aproxima de null e a puxa para um beijo. Pelo primeira vez, ela não sabe a coreografia, não faz a mínima ideia de qual era o próximo passo a seguir. E não poderia estar mais feliz.
~***~
- Você não se cansa de ter que ficarmos nos escondendo? – null pergunta.
Elas estão deitadas na cama de null. Já está tarde e elas precisam sussurrar para poder conversar, com medo que os pais a escutem a abram a porta, querendo saber com quem ela está falando. Algumas vezes, elas apenas fingem dormir na casa uma da outra, uma das – únicas – vantagens de serem duas garotas, é que seus pais nunca suspeitavam de nada, achando que elas são simplesmente amigas. Infelizmente, precisam mentir outras vezes, para disfarçar a frequência com que se encontram. Uma delas simplesmente atravessa o quintal e entra pela janela. Pelo menos, elas são vizinhas.
null passa a mão pelo cabelo de null, beijando o topo de sua cabeça, que está encostada em sem peito. Elas poderiam ficar assim para sempre. Mas não podem, logo null precisa voltar para sua casa, antes que Sienna abra a porta de manhã, pronta para acordar null.
- É claro – null responde e suspira – Meus pais me deserdariam se soubessem.
Estar com null deixa tudo ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil. É bom ter alguém com quem compartilhar seus sentimentos, alguém com quem não precisa esconder quem é, alguém que a ama por quem ela é. Esconder, porém, se torna cada vez mais complicado. Ela queria segurar a mão de null no corredor da escola, queria apresentá-la como sua namorada. Queria poder chamá-la de namorada. Queria que não se encontrassem apenas às escondidas, com a porta do quarto fechado.
- Você podia ao menos terminar com Liam – null sugere.
Elas estão juntas há dois meses, mas, por algum motivo, Liam continua sendo o namorado oficial de null. Em sua opinião, é um bom disfarce. Que motivos ela teria para de repente terminar com Liam? Não podia arriscar que todos descobrissem.
- Você está com ciúmes? – null a provoca, rindo, e beija sua bochecha. null balança a cabeça, insatisfeita com a resposta.
Não é a primeira nem a última vez que elas têm essa discussão, acusações são jogadas dos dois lados. null está sendo medrosa e desnecessariamente egoísta, ela pode muito bem terminar com Liam quando quiser e ninguém vai ligar. null só diz isso porque sabe que seus pais a apoiariam e ela não corre riscos de ser jogada para fora de casa, sem poder pagar pela faculdade; a qualquer momento ela pode se apaixonar por um garoto e deixá-la de lado.
As duas, a sua própria maneira, estão erradas. Elas deixam tudo de lado e ficam juntas de novo, porque, no momento, elas têm uma a outra e isso é tudo o que importa. Elas conversam sobre tudo, menos sobre isso.
null podia ser seu camarim, mas ela sempre precisava voltar para o palco.
~***~
A família está jantando quando Sienna faz um comentário homofóbico. Ela tem 13 anos agora, a mesma idade de quando a irmã começou a questionar sua sexualidade. null sente-se paralizar na mesa, precisa tomar cuidado para não engasgar com a comida. Seus pais riem do comentário, incentivando o comportamento. null tenta sorrir, tenta parecer normal, mas não consegue tirar da cabeça que estão falando sobre ela. Estão rindo dela.
Ela queria ir até a casa de null para poder conversar sobre o que acabou de acontecer, mas null está estudando, elas têm uma prova amanhã e null não quer atrapalhar.
Ela vai para seu quarto e diz que vai ensaiar. Elas já estão em dezembro e logo será sua apresentação de final do ano. Sua professora diz que ela está distraída, que nunca será aceita em uma companhia se não se dedicar integralmente. null se pergunta como ela poderia fazer isso, quando tem tantas coisas na sua mente. Entre encontrar com com null, Liam, suas amigas do colégio, estudar e suas aulas, ela mal tem tempo para respirar.
null olha seu reflexo no espelho. Do seu quarto, ela pode ouvir seus pais conversando na sala, Sienna rindo enquanto assistem televisão. Ela precisa sair desse lugar. Ela deixa os pensamentos saírem e se representarem em seu corpo. Ela vai ser aceita em uma companhia, ela e null vão embora daquela cidade e serão felizes para sempre.
~***~
Elas preenchem aplicações para universidades. null sabe que não vai para nenhuma delas, por isso pesquisa outras companhias próximas de onde null está se inscrevendo. A companhia de dança de Nova York ainda é seu sonho, mas ela deixaria de lado para ficar ao lado de null. Ela imagina as duas vivendo sozinhas em alguma cidade grande, ela dançando, null estudando. Dividindo um apartamento como adultas independentes. Seus pais longe demais para desconfiar de qualquer coisa.
null diz que quer ir para a Califórnia. A ideia soa agradável para null.
Elas passam a noite inteira discutindo sobre o assunto, imaginando como serão suas vidas. Elas riem e se divertem com a possibilidade de um futuro. Confiam que será melhor do que o presente. Desde que fiquem juntas, sabem que será melhor.
~***~
Natalie sabe.
null não sabe exatamente há quanto tempo, talvez ela sempre tenha sabido, mas o importante é que ela admite agora. Elas estão sozinhas no banheiro do colégio, null acaba de pegá-la se agarrando com Liam. Ele vai embora o mais rápido possível, depois de deixar claro que está terminando com null, dizendo que eles mal se veem fora do colégio. null tem que se controlar para não rir, porque Liam terminar com ela apenas poupou trabalho. Ainda assim, sente-se traída por Natalie, que costumava ser sua melhor amiga.
- Por que você ainda liga?! – Natalie grita depois que Liam vai embora – Você nunca gostou dele! – proclama e null não desmente.
- Não importa, você é minha amiga! Se você gostava dele, por que simplesmente não me disse isso?
- Assim como você me contou que gostava de garotas? De null? – null sente-se empalidecer, Natalie revira os olhos e ri, sabendo que conseguiu surpreendê-la – Você realmente acha que ninguém sabe o que vocês duas andam fazendo? – Natalie faz uma cara de nojo, mas logo em seguida suspira, notando a cara de pânico – Eu não vou contar para ninguém, só... Fique longe de mim.
null não reage. Ela sente as lágrimas se formarem atrás dos olhos e sente sua garganta se fechar, ela quer sair correndo, mas sabe que isso só chamará atenção. Natalie sabe, então quem mais sabe? Ela e null estavam sendo descuidadas. Talvez seus próprios pais desconfiem. Talvez Natalie já tenha espalhado para a escola inteira, talvez sua irmã já tenha ouvido. Certo, Natalie dissera que não contaria para ninguém, mas uns segundos antes ela havia sido pega no flagra com seu namorado, o quão confiável ela realmente era?
- E quer uma dica? – Natalie diz, assim que está prestes a sair do banheiro – O que você está fazendo não é só errado, é idiota. Como você pretende pagar para sobreviver fora daqui sem a ajuda dos seus pais? Você vai trocar seu futuro inteiro por uma “aventura lésbica” ou seja lá o que vocês tenham?
E então ela sai, como se nunca nem estivesse estado ali. null precisa apoiar as mãos na pia para não cair. Ela está tremendo. null se tranca em uma cabine e deixa todas as lágrimas caírem livremente.
Ela está com medo.
~***~
- O que está acontecendo? – null pergunta.
null está agitada a semana inteira, vem evitando-a, não conversa direito, diz que precisa treinar para seus testes. É verdade que logo vai fazer os testes para entrar em companhias de ballet, mas null sabia que tinha mais do que ela estava contando. Ouvira no colégio que ela e Liam tinham terminado, ele estava saindo com Natalie agora, porém, quando foi confrontá-la sobre o assunto, null apenas disse que não importava.
- Fala comigo, null! – ela praticamente gritou. null estava concentrada na frente do espelho, ensaiando seus passos – Eu fiz algo de errado? – isso finalmente parece despertar sua atenção.
- Não, é claro que não! – ela suspira, mas continua encarando o espelho – O problema sou eu. Não posso mais fazer isso.
- Sério mesmo?! Você vai terminar comigo utilizando um clichê desses? – null bufa e se levanta da cama e vai até null, encarando-a – Vai ao menos me dizer o motivo disso tudo?
null não se vira de imediato, mas sabe que null vai continuar insistindo até descobrir a verdade. Ela encara a garota com os olhos marejados. Respira, inspira. Ela está cansada, passou a semana inteira pensando sobre o assunto e sabe que não tem muitas opções.
- Natalie sabe – ela confessa e null finalmente entende – Ela disse que não vai contar para ninguém, mas eu não sei se confio. Nós precisamos nos afastar.
null balança a cabeça, levando alguns segundos para processar o que null acabara de dizer. Sentia seu coração bater mais rápido, Natalie saber a assustava, é claro, não queria que fossem descobertas. Por mais que seus pais fossem tranquilos comparados aos de null, ela não se sentia confortável com a ideia de todos comentando sobre ela. Mesmo assim, não valia a pena se afastar de null.
- O quê? Ela está te chantageando ou algo assim? – null nega e null continua: - Então não precisamos ter medo, são só mais alguns meses e nós vamos embora dessa cidade – ela pega a mão de null e tenta reconfortá-la.
null se afasta e desvia os olhos de null. Porque não são só alguns meses, é sua vida inteira. Ela encara o espelho de novo. Ela nasceu para estar no palco e não consegue sair dele.
- Me desculpa, null – ela sussussura – Nós estamos saindo escondidas há meses e eu não aguento mais, não consigo fazer isso pelo resto da minha vida.
- Então não fazemos! Saímos nessa porta agora e conversamos com seus pais! – null rebate, sentindo as lágrimas se formarem – Eu sei que é assustador, null, mas nós vamos conseguir.
null sabe que não é tão simples assim. Conhece seus pais, sabe que eles não vão aceitar. Ela não está preparada para se mudar para outra cidade sozinha, sem nenhum apoio financeiro da família.
- Eu não posso. Eu vou treinar e eu vou para Nova York, eu vou realizar meus sonhos. E você vai realizar os seus sozinha. Agora, se me der licença, eu preciso ensaiar.
~***~
null não se arrepende. Não totalmente, pelo menos. Nem tem tempo para processar o que aconteceu, e se não processa, não se arrepende. É uma ótima estratégia, é o que diz para si mesma.
Ela treina dia e noite, praticamente dorme em suas sapatilhas. Sua professora a parabeniza, seus pais dizem que ela está mais focada e ela sente que tomou a decisão certa. Ela falta diversas aulas para ir aos seus testes, viaja pelo país, de companhia em companhia. Ela se dedica de corpo e alma, não deixa sua cabeça vagar para null. Pelo contrário, ela pensa em Nova York. Pensa na companhia de ballet, em estar em controle da sua vida. Talvez ela conheça outra garota lá. null pode ter sido seu primeiro amor, mas não precisava ser seu último.
Em breve tudo ficaria melhor.
É mais difícil acreditar nisso quando ela volta para casa. Ela não está mais no palco, não está em controle. null está na janela ao lado, mas a cortina está fechada. Liam e Natalie ficam abraçados durante as aulas, cochichando e rindo. null não sabe nem se ainda tem amigos na cidade. No almoço, ela senta na mesma mesa que se sentou por quatro anos, mas se sente sozinha. Ela conversa com Madison e Heather, líderes de torcida que costumavam ser suas amigas. Elas não sabem nada sobre sua vida, mas no momento são tudo o que ela tem.
null está do outro canto da mesa conversando com alguém. Michael, null reconhece. Ela sente o ciúme a invadi-la novamente e precisa se lembrar que foi sua decisão. null se sente de volta a quando null se mudara para a cidade. Vigiando de longe, admirando, sem poder tocá-la.
null a vê nos corredores, no ônibus, em casa. Aonde quer que vá, null está a esperando.
E a ignorando, null acrescenta mentalmente. Desde que a expulsara de casa, null tentara conversar com ela apenas um dia, mas null a dispensara novamente e, depois disso, null mal a olhava. Enquanto null treinava, null estudava e estava cada dia mais perto de ser aceita para a universidade que queria.
Talvez fosse melhor assim, null pensa, tentando disfarçar que talvez uma parte de si se arrependa um pouco.
null se apresenta em Chicago. Eles fazem SATs. Ela se apresenta em San Francisco. Eles fazem as últimas provas do ano. Ela se apresenta em Nova York. Eles estão se formando.
Não nessa ordem, mas null não se importa. Todos estão recebendo cartas de aprovação ou rejeição, despedindo-se dos amigos e achando um par para o baile de formatura. Ela nem sabe se tem alguém para se despedir.
Seus pais lhe perguntam sobre Liam. Sua irmã ri quando ela diz que não vai ao baile. Se pudesse, ela faltaria a própria formatura. Ela sempre aguardou ansiosa pela chegada desse dia, mas agora não era nada do que ela esperava.
Ela recebe várias cartas. Não abre nenhuma delas e deixa se empilharem em cima da mesa até estar preparada. Ela ouve todo mundo comentando. Liam e Natalie vão para uma universidade local, assim como vários outros. Madison foi aceita em Duke faz uma festa para comemorar, todos vão, mas null prefere ficar em casa. null foi aceita em Stanford, com direito à bolsa de estudo e tudo, mas ela não faz nenhuma festa.
null está sentada na própria cama, com todas as cartas jogadas ali, seu futuro a sua frente. Sua mão treme e ela deseja ter alguém ao seu lado para compartilhar esse momento. Seu olhar cai na janela vizinha e ela vê a luz ligada. null também não foi até a festa. null se levanta e vai até a janela, debatendo-se se deveria falar com ela ou não. A luz é desligada e, se esticando um pouco, null consegue ver null saindo pela porta da frente.
null suspira e se senta na cama de novo. Com cuidado, ela abre cada uma das cartas.
~***~
Elas se formam. A colação dura uma hora e é cheia de discursos emocionados, todos parabenizando a turma de 2000, cheios de expectativa para os primeiros formandos do milênio. null esperava chorar, de tristeza ou de felicidade, não se importava, mas a verdade é que não derrama uma lágrima sequer. Ela é abraçada por Madison, Heather, Michael, professores e vários outros. Natalie sorri para ela e se aproxima.
- Eu sinto muito – ela diz, mas não a abraça – Mas soube que você vai para Nova York. No fim, acho que te fiz um favor, não é?
Em um universo alternativo, null daria um soco em Natalie, mas nesse ela apenas revira os olhos e dá as costas para a ex-amiga.
Seus pais vêm cumprimentá-la. Sienna pula de felicidade, dizendo que chorou demais e que não vê a hora de sua própria formatura, pergunta se a irmã não vai sentir falta de tudo aquilo. O olhar de null se desvia para null, que está com alguns de seus amigos. Seus olhares se encontram e null não evita sorrir.
- É, eu acho que até vou sentir falta disso – ela murmura para Sienna, que entra em um longo monólogo sobre o colégio e como ela está nervosa em ir para o Ensino Médio.
null deixa a irmã falar o tempo inteiro na volta para casa, seu pensamento está em outro lugar. Seus pais perguntam se ela já decidiu para onde vai, apesar de já terem falado para a cidade inteira que ela iria para Nova York. null diz que só falta um último detalhe para resolver, ela sorri. Sienna pergunta do que ela está rindo e null apenas responde que está feliz por se formar. Não é completamente mentira.
Assim que seus pais se distraem quando chegam em casa, null vai para o próprio quarto. Ela olha a carta de aprovação para Nova York pregada no espelho, é seu sonho sendo realizado. Seu olhar cai na carta em cima da mesa. San Francisco, apenas alguns quilômetros de Stanford. Ela abre a janela e escuta o carro dos pais de null entrando na garagem. Elas poderiam ir juntas para a Califórnia, cumprir todos os planos que quisessem.
Uma pontada de esperança invade o coração de null e, sem pensar muito no que estava fazendo, ela pula a janela de seu quarto e bate no vidro de null. Ela abre, um pouco surpresa, e ajuda null a entrar no quarto.
- Você podia ter usado a porta, sabia? – null ri, um pouco sem saber como agir e convida null a sentar na cama ao seu lado.
As duas têm várias coisas a falar, mas não dizem nada por quase um minuto. O silêncio é constrangedor e null sente-se ficar vermelha por não conseguir quebrá-lo.
- Ouvi dizer que você passou para Stanford – ela diz, suspirando. null confirma com a cabeça – Parabéns! – o cumprimento soa falso e null se odeia por isso, mas ela não tem mais o que falar.
- Você também! – null responde e completa rapidamente: - Por Nova York, quer dizer. Seus pais me contaram.
null quer contar sobre San Francisco, dizer que elas ainda têm uma última oportunidade. Que elas podem tentar mais uma vez. Faz meses desde a última vez que tiveram uma conversa tão longa e null não sabe como ela vai reagir, então apenas assente e continua calada. Sentada ao lado de null, ela percebe que não importa se ela vai para Nova York e que null é apenas seu primeiro amor. Ela nunca poderá amar alguém tanto assim.
- Como você está? – null pergunta finalmente e passa a mão pelo braço de null – Eu vi que você está andando bastante com Madison e Heather – comenta.
- É, acho que sim, elas sempre foram minhas amigas – ela dá de ombros, sem se importar muito com nenhuma das duas – E você está andando com Michael...
null fica vermelha com o comentário e null pisca duas vezes, percebendo o efeito que o nome de Michael tivera sobre ela.
- Vocês...?
- Ele me beijou – null admite – Foi só uma vez, mas talvez aconteça algo mais. Ele vai para a Califórnia também, sabe? – ela acrescenta, ao mesmo tempo rindo e quebrando o coração de null.
- Eu estou feliz por você – null diz, depois de um tempo em silêncio – Ele é um cara legal.
- É, eu gosto bastante dele.
null não diz que o único motivo de estar com ele, é porque estar com ela não é mais uma opção. Não diz que se inscreveu para universidades em Nova York, que o único motivo de não ir para Columbia era que não tinha uma bolsa de estudos lá e não podia arcar com as despesas. Poderia ir para a NYU, mas , sinceramente, nem sabia se era o que null queria. Talvez ela só atrapalhasse tudo. Não valia a pena desistir de Stanford.
- Eu sinto sua falta, null – null confessa – Não precisamos ficar assim. Nós vamos para lados diferente do país, mas ainda podemos ser amigas, não é?
- É claro que podemos – null sorri.
Ela não está mentindo. Porque antes de serem namoradas, elas eram melhores amigas e nada pode mudar isso.
Elas conversam por horas e, por algum tempo, null esquece de seus problemas. Seu coração ainda está apertado e ela sabe que, assim que chegar em casa, as lágrimas vão surgir. Mas, por enquanto, ela só quer curtir um tempo com sua amiga. Quer contar sobre suas apresentações, sobre o estresse, sobre como foram seus últimos meses de aula. Quer ouvir sobre a vida de null, até mesmo sobre Michael. null está feliz e isso é tudo o que importa.
null volta para sua casa, horas depois, e joga a carta de San Francisco fora. Ela confirma para os pais que vai mesmo para Nova York e começa a planejar seu futuro.
Ela iria para Nova York. null iria para Stanford.
Quem sabe algum dia elas não se reencontrariam? null não se importa com isso, ela coloca as suas sapatilhas e começa a ensaiar de novo. Ela teria muitas novas coreografias para aprender.
Nota da Autora: Olá! Essa é a primeira fic femslash que eu escrevo, mas eu gostei bastante dela. Eu sei que o final não foi mutio feliz e eu fiquei em dúvida sobre fazê-lo assim, porque garotas queer nunca parecem ter um final feliz na ficção e eu sei o quanto isso é irritante, mas explicarei porque terminei assim. Eu estou querendo há muito tempo escrever uma história em que as personagens principais sejam queer e, apesar de eu já ter outra mais complexa em mente, eu queria escrever uma short; eu tive uma ideia para uma,mas eu achei que ela precisava de uma base para os personagens antes, então resolvi dividi-la em duas partes. Eis aqui a primeira.
Essa não era nem a história que eu queria contar, tbh. Ela é, obviamente, cheia de clichês e o típico romance entre garotas, mas eu achei fofo, então quis enviar. A segunda parte eu ainda estou escrevendo e não sei quando vou enviar, mas enviarei o mais rápido possível.
Eu não sei o que me deu quando escrevi no presente, eu sempre escrevi no pretérito, mas quando eu vi as primeira spáginas já estavam no presentes e soava bom asism, então não quis mudar. Talvez algumas partes a narrativa tenha ficado um pouco estranha, porque eu acidentalmente passei para o pretérito e depois tive que mudar, quando percebi o que tinha feito. Espero que não tenha dado para perceber!
O que vocês acharam? (Se é que alguém vai ler isso, eu sei que o público slash não é muito grande haha) Me digam a opinião de vocês, o que vocês acham que vai ter na segunda parte, se é que vocês querem que tenha uma continuação.
Beijos,
Flávia
Minhas outras fics:
Laços de Sangue (Outros/Finalizadas)
Little Star (Restritas/Finalizadas)
Escolhas (Restritas/Finalizadas)
Petrichor (Especial Equinócio)
Puzzled Mind (Outros/Em Andamento)
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