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Última atualização: 25/01/2018

Capítulo 1


Sabe aquele dia que já começa ruim e, quando você menos espera… Não, não fica bom, piora ainda mais? Eu estava perto de tomar o segundo comprimido para dor de cabeça naquela manhã, quando meu chefe chegou com mais uma pasta cheia de papel só para mim.
- Já resolveu todas as pendências para a festa de caridade no sábado? - Patrick perguntou, jogando a pasta na minha mesa.
- Tudo resolvido! - Sorri aliviada, uma ironia, porque pelo menos alguma coisa estava resolvida na minha humilde vida.
O homem de 40 anos sorriu para mim, também. O cansaço o deixava com uns dez anos a mais; não estávamos nos melhores dias no escritório, definitivamente.
- Bom, aqui está a pasta com todos os currículos que recebemos desde o início da semana. Você precisa de uma assistente, .
- Muito obrigada, chefe. Eu vou dar uma olhada. - Fiz uma cara de sofrida para ele, que então sorriu, concordando, e se retirou da minha sala.
Quando Pat, CEO da Ruby, me contratou a dois anos atrás a empresa estava apenas no seu início, logo nos primeiros meses já fazíamos grandes eventos em Manhattan. Hoje em dia, é uma afronta colocar Ruby e “grande” evento na mesma frase, somos responsáveis pelos melhores dos melhores eventos de toda Nova York, o que fazíamos antes era fichinha para toda graciosidade do que é agora. Logo no início da semana, recebi a notícia de que a minha assistente tinha se demitido para se casar em Las Vegas e fazer toda a loucura de lua de mel que ela me falava por meses, eu só não sabia que ela escolheria logo essa semana para se casar. A semana de uns dos principais eventos de caridade que envolve vários ricaços e ilustres celebridades, além de ter de me virar sozinha, tive que lidar com o fato de que eu não poderia ir para o tal evento por causa do casamento. Não o da minha assistente anterior, e sim o do meu irmão.
Meses atrás, recebi o inesperado convite para ser madrinha do meu irmão, o pequeno Tony ia se casar, e com certeza eu era motivo para ser muito bem falada na minha família. “ vai ficar pra titia”, “sempre achei que se casaria primeiro”, e por aí vai. Antony é meu irmão caçula, ele é um ano mais novo que eu e crescemos juntos. Eu não o odeio, muito pelo contrário, eu o amo demais, mas odeio o fato de ele estar se casando aos 24 anos, e odeio o fato da minha família inteira se lembrar de que eu era para estar casada por dois anos, além de odiar o meu ex-noivo.
“A garota californiana que fugiu para Nova York em busca de uma vida nova, pois não sabia lidar com o fim do noivado”. Eu sempre imaginava manchetes para a minha vida, ainda lembro exatamente do dia que conheci Pat por acaso na confeitaria e começamos a conversar, foi essa frase que eu contei para ele e essa mesma frase ficou se repetindo na minha mente por semanas para a minha própria vergonha. Por mais que eu estivesse odiando a minha vida dois anos atrás, hoje eu agradeço por tudo ter se encaixado, mesmo com a amarga dor de ser deixada pelo homem que eu achava ser o amor da minha vida, eu fui contratada pela pessoa que foi meu melhor amigo assim que cheguei à cidade, graças ao meu diploma de publicidade, diga-se de passagem, consegui alugar um apartamento com o dinheiro que eu guardei para a lua de mel, e eu era livre para fazer o que bem quisesse.
Atualmente, as coisas não mudaram muito, ainda tenho o meu emprego, tenho um apartamento no Brooklyn, sou totalmente independente e continuo solteira. Passei um ano da minha vida tentando dissolver que todos os meus planos tinham ido por água abaixo, mas, no fim das contas, eu consegui recomeçar. De certa forma, era melhor do que eu imaginava.

Depois de passar a tarde inteira lendo currículos, eu finalmente tinha escolhido a pessoa que mais me agradava, uma tal de Larisa. Larisa era um nome legal, e automaticamente eu já tinha altas expectativas da pessoa. Liguei para Pat para avisar que eu só iria contatá-lá depois da minha viagem, e ele concordou. Despedi-me e fechei a minha sala. Eu já conseguia imaginar a felicidade que seria quando eu colocasse meus pés na água quentinha da banheira e relaxasse. Era tudo o que eu queria para uma quinta-feira à noite.
Assim que entrei no táxi, meu celular começou a tocar, era a Holly, mais conhecida como a minha melhor amiga.
- ? - Ouvi sua doce voz pelo celular.
- Oi, Holly. - Eu sorri fingindo animação, como se ela pudesse me ver. - A que devo o prazer dessa ligação, já que você só me manda mensagens?
- Hum, como você sempre segue a mesma rotina, me deixa pensar... Você já deixou tudo pronto para o evento de sábado? - Sou realmente uma pessoa que gosta de rotina no trabalho, e Holly era o tipo de pessoa que grava até o dia em que minha TPM começa.
- Sim, quando isso mudar, eu te aviso. - Dei uma risada.
- Então, pensei da gente ir para um pub legal que abriu tem pouco tempo.
- Holly… - Eu comecei, mas ela me interrompeu.
- Eu sei que você vai dar a desculpa de que está cansada, mas você me deve essa. Você viaja no sábado e amanhã tem que arrumar as malas, por favor, passa essa noite com a sua amiga carente? - Eu imaginava a carinha que ela estava fazendo naquele exato momento, pensei e repensei na sua proposta e, por fim, me dei por vencida. Talvez uma bebida melhorasse o meu estresse.
- Tá bom. Tá bom. Eu já estou no táxi. - Holly gritou animada e avisou que já estava indo ao meu apartamento.

Não foi surpresa nenhuma encontrar uma morena com um vestido preto apertado e saltos altos na frente do meu apartamento.
- Não te deixei esperando muito, né? - Observei que seus saltos ainda estavam nos pés e não nas mãos.
- Cheguei não tem nem cinco minutos. - Ela abriu aquele sorriso com covinhas. – Agora, vamos, tenho que te produzir.
Mal abri a porta e já estava dentro do meu quarto, com a Holly escolhendo roupas no meu closet.
- Holly, eu sei escolher as minhas roupas. - Protestei sentando na cama e tirando os saltos dos meus pés.
- Claro que não sabe, você fica só nessa blusa social e saia, que esquece que roupa usar para sair de noite. - Ela apontou para as minhas roupas. - Já para o banho, mocinha!
Obedeci só pelo fato de que eu já sonhava com a água quente relaxando todos os meus músculos. Fiquei uma bela meia hora debaixo do chuveiro, me depilei já me adiantando para passar uns dias longe de casa, me enrolei na toalha e saí do banheiro, ansiosa para ver o look da noite. Um vestido de uma manga só azul marinho estava estendido na cama, o tecido era aveludado e um scarpin da mesma cor estava nos pés da cama.
- Você não está exagerando, não? - Perguntei a Holly assim que ela apareceu com um copo de água na mão.
- Não, você vai ficar linda. - Ela sorriu e voltou pra cozinha.
- Claro. - Falei para mim mesma e vesti a roupa.
Holly me maquiou e me olhei no espelho para julgar a produção dela, e dessa vez eu podia dar orgulhosamente 5 estrelas para ela. Meus cabelos estavam lisos e soltos, a maquiagem não estava tão forte: meus olhos estavam marcados pelo rímel e o delineador, a base e o pó escondiam as olheiras que eu tinha e um batom rosa bem fraquinho completava o look.
- Uau. Cinco estrelinhas pra sua produção, gata. - Sorri para a minha amiga, e ela pegou o celular para tirarmos uma selfie.
- Temos que guardar o dia memorável em que você me deu cinco estrelas. - Ela falou, rindo.
Holly era a pessoa mais doce que eu conhecia, e era provavelmente a mais linda também, sua pele era bem branquinha e seus olhos quase fechavam quando ela ria, seus olhos eram castanhos assim como seu cabelo longo, suas covinhas era só um charme a mais. A mulher era devassa, e teve mais casos em um ano do que eu tive na minha vida inteira.

Eu estava entrando em um táxi pela terceira vez no dia e me perguntei quando eu tomaria vergonha na cara e compraria um carro. Mas óbvio que eu não podia sair para beber e dirigir ao mesmo tempo. Holly tagarelava instruções na minha cabeça sobre a viagem, como se eu passasse meses longe e não apenas uma semana e meia.
- Vamos arrumar dois homens essa noite, não se preocupe. - Ela mudou de assunto do nada, e eu arregalei meus olhos para protestar.
- Como se eu me preocupasse em arrumar um homem. A única coisa que me preocupo é você me deixar sozinha, me avise se for pra casa com alguém. - Pedi a ela.
- Não nesse sentido. - Ela falou olhando para estrada. - Eu não vou te deixar sozinha, hoje eu durmo com você. - Ela piscou e o motorista do táxi olhou pra mim pelo espelho com a testa enrugada, imaginei que talvez ele achasse que eu fosse lésbica. Foda-se o preconceito dessa sociedade, se eu fosse o problema era meu.
- Esse pub não chega nunca? - Perguntei depois de 10 minutos sentada.
- Chegamos! - Holly gritou pulando para fora do táxi.
Paguei o táxi e entramos no tal pub, as luzes eram bem fracas, mas o ambiente era bem luxuoso. Pude ver as várias cadeiras confortáveis e mesas altas, uma área para dançar, e o bar, meu eterno amor. Puxei Holly para o bar e pedi uma cerveja para nós duas. Bebi um gole e sentei no banco ali mesmo, minha cabeça balançava de acordo com a música do Nirvana que tocava e eu me sentia feliz por não estar pensando em nada, só em curtir a noite.
- Olha, que cara lindo! - Holly falou no meu ouvido, me passando coordenadas de um cara com blusa social branca que estava quase ao meu lado, mas entre eu e ele tinha um homem com blusa social preta dobrada até os cotovelos. E que homem! Ele estava de costas e eu já podia imaginar o quão gato ele era só pelas costas. Fiquei intercalando entre beber a minha cerveja e ver se ele me mostraria um pouco mais de sua aparência, até que enfim ele debruçou no balcão e pediu mais uma cerveja, provavelmente percebendo que eu estava quase o engolindo com os olhos quando ele se virou para mim e eu quase enfartei.
- Não acredito! - Ele sorriu abertamente.
- E quando eu achava que o dia não podia piorar, eis que você me aparece. - Eu sorri também, de certa forma era engraçado o quanto eu era azarada.
- Ótimo saber que o ódio ainda é mútuo.
- Isso nunca mudou, .
e eu crescemos juntos na Califórnia, sua mãe era muito amiga dos meus pais, e desde que eu me entendo por gente ele era o melhor amigo do meu irmão. Quando éramos crianças, brincávamos juntos, mas quando a adolescência chegou, nós não nos suportávamos, simplesmente não dos dávamos bem. E também na adolescência ele se tornou o tipo de filho da puta que eu odeio ainda mais, aquele que pegava todas as garotas do colégio, comia todas as vadias da faculdade, e só Deus sabe o que faz hoje. Mas uma coisa eu tenho que admitir: ele continua gostoso, continua lindo com aqueles olhos tímidos e um sorriso de tirar o fôlego, o tipo de cara que não se matava na academia, mas tinha o corpo perfeito a meu ver.
- Então, Tony me contou do fim do noivado, eu ia falar que sinto muito, mas na verdade eu não sinto nada. - Ele continuou com aquele sorriso irritante no rosto.
- Ninguém morreu pra você sentir alguma coisa. Aliás, em que ano você está? 2013?
- Tá de TPM? - Fiz uma cara feia e ele levantou os braços brincando, e pediu mais uma cerveja pra mim vendo que a minha tinha acabado. - Na verdade, sinto por não estar lá quando você precisava do meu ombro.
- Vai se foder! - Peguei a garrafa e tomei um gole. Eu não tinha dúvidas de que ele continuava o mesmo, as provocações típicas que levavam a sérias discussões, quanta nostalgia.
- Eu tava em Seattle, se você quer saber. - Ele não se importou muito com o meu xingamento.
- E o que está fazendo em Nova York? – Perguntei por curiosidade.
- Vim pra cá com um amigo meu, recebemos uma proposta melhor por aqui. - Ele deu de ombros. - Não tem nem um ano.
- Seu amigo? - levantei uma sobrancelha. - Aquele que já está agarrando a minha amiga? - olhou para trás.
- Ele mesmo. - Ele terminou de beber a sua cerveja e se levantou. - Eu vou ali. - Ele apontou para uma das mulheres que parecia quase me fuzilar com o olhar.
- Ah, tudo bem. - Eu entendi o recado de que ele iria começar o saldo de mulheres na noite.
se virou de costas e quando eu achei que eu ficaria ali sozinha no bar pronta para soltar o ar que eu nem sentia que segurava de tanto desconforto, voltou e colocou uma das mãos na minha coxa.
- Você está linda, . Foi um prazer revê-la. - Eu concordei com a cabeça, não conseguindo formular nada, e ele foi em direção à mulher.
Virei-me para o barman e pedi a bebida mais forte que ele tinha, além de absorver esse encontro inesperado, eu tinha que esperar a Holly acabar de se pegar com o amiguinho do .

Entrei no meu apartamento aos tropeços, eu já deveria ter tirado a conclusão que beber na quinta à noite nunca dá certo. A minha sorte era que Holly estava comigo e ela não tinha bebido tanto quanto eu.
- Por Deus, . Se você quiser vomitar, me avisa. – Escutei minha amiga falar, assim que me joguei no sofá.
- No momento, eu só preciso dormir. – A minha cabeça girava tanto e a cada giro que o mundo dava eu me arrependia de todo o álcool que eu já bebi na vida.
- Você vai dormir no sofá? Posso ficar com a cama toda para mim, então? – Meus olhos estavam fechados, mas eu tinha certeza que a Holly estava rindo da desgraça alheia.
- Há. Há. Há. – Fingi dar uma risada. – Só estou tentando me recuperar um pouco. Se eu não conseguir acordar para trabalhar amanhã, a culpa é toda e exclusivamente sua.
- Sério que a culpa é toda minha? – Holly se jogou no sofá ao lado. – Pensei que o rapaz que você estava conversando também tivesse um pouco de culpa, já que pouco tempo depois ele foi atrás de outra.
- Ele não estava dando em cima de mim. – Levantei um pouco do meu corpo para encará-la e voltei a deitar quando a tontura ficou mais forte.
- Não é possível, eu jurava que você tinha algum interesse nele e ele prontamente demonstrou o mesmo. – Uma das características da Holly é achar que sempre tem alguma coisa a mais no que realmente acontece, sempre interpretando ações, falas, tudo que passava uma dica.
- E você estava prestando atenção em todos os detalhes enquanto enfiava a língua sem pestanejar na boca do outro sujeito.
- ! – Ela elevou a sua voz e já vi que a discussão seria longa. – O cara assim que te viu logo já puxou assunto com você, tenho quase certeza que se conheciam, e duvido que você já não teve algo com ele. E sim, eu estava prestando atenção, me julgue.
- Vamos esclarecer algumas coisas. – Eu me sentei no sofá para poder olhá-la. – Eu o conheço praticamente a minha vida inteira, ele era meu vizinho, era o melhor amigo do meu irmão, e deixa eu te contar a novidade: eu odeio aquele ser desprezível.
- Por que nunca me falou sobre ele? – Holly protestou.
- Porque eu não tenho motivos para falar sobre ele. – Respondi.
- Como assim você odeia um cara tão bonito? Fala sério. – Resmungou, e se levantou se dirigindo para a cozinha.
- Exatamente por isso o odeio.
- Me conta essa história. – Ela voltou com dois copos de água na mão e me ofereceu um. – Você era apaixonada por ele, e ele era galinha?
- Não! Nunca que eu ia me apaixonar por um cara assim. – Sorri. - Mesmo sendo lindo, eu admito.
- Pelo menos isso, né?
- Na verdade, eu sempre o achei legal, brincávamos juntos, e imagina a decepção que senti quando todo mundo falava dele como “o pegador” de menininhas. Obviamente a vida sexual dele começou muito antes da minha. – Brinquei. – Eis o motivo da minha repugnação.
- Não acredito, você odiava o menino só porque ele pegava todas as garotas? Pelo amor de Deus, , você leva pro coração, mesmo. – Gargalhei com a reação de desacreditada dela.
- Agora falando sério, as coisas começaram a mudar quando a única coisa que fazíamos era brincar e de repente eles estavam focados em outra coisa. Era o fim da nossa infância e, consequentemente, o fim da minha amizade com o , porque ele ficou estranho comigo, e depois a única coisa que sabíamos fazer era discutir um com o outro.
- Então, ele era um babaca, mas pensa no quanto as coisas mudaram. – Holly piscou sorrindo e eu tomei a minha água, quanta nostalgia para um dia só.
Consegui me levantar do sofá e fui tomar um banho, o próximo rumo era a minha cama. Já era uma hora da manhã quando finalmente me deitei na cama e a Holly tinha ido tomar banho, arrumei o despertador e o meu celular começou a tocar. Era minha mãe, e obviamente ela nunca se dá conta do fuso horário, eram 10 horas da noite na Califórnia.
- Alô. – Atendi com a melhor voz de sono que consegui fazer.
- , estava dormindo?
- Mãe, é uma hora da manhã aqui, a senhora não poderia ter ligado um pouco mais cedo?
- Eu sempre me esqueço do fuso horário, desculpa, querida. Acabei de chegar em casa.
- Hum, tudo bem. – Suspirei.
- Tenho uma novidade para você! Mas antes, quero saber se você vem mesmo no sábado.
- Claro que vou. – Falei animada, aliás estava com saudades da minha família. – Já comprei a passagem.
- Ótimo, agradeça ao seu chefe por mim por ter te dado esse tempo de folga.
- Pode deixar, mãe. Mas qual é a novidade? Não me deixe curiosa.
- Então, você não vai acreditar. Seu irmão e a Sophia são dois despreocupados com a vida e só mandaram a lista de padrinhos hoje. Adivinha quem são os padrinhos?
- Eu não sei, mãe, talvez eu e mais alguém. – Eu não estava dando a mínima para quem fossem os padrinhos desde que eu seja a madrinha do meu irmão.
- Você, sua prima e o são os padrinhos que ele escolheu, já da parte dela é a amiga dela, o primo e, por favor, não surte, o Matt. – Ao ouvir esse nome um silêncio mortal tomou conta do ambiente, eu não sabia o que pensar.
- Mãe, isso não é hora para brincadeira.
- Eu queria estar brincando, mas pelo visto ele é convidado de honra da Sophia, o que eu posso fazer? – Ela riu nervosa e eu já queria botar a casa abaixo.
- Eu vou matar o Anthony! – Meu primeiro foco de raiva foi o meu irmão. – Eu vou matá-lo por escolher se casar com essa mulher.
- Não coloque a culpa no seu irmão, ele está mesmo apaixonado. – Minha mãe sempre defendendo o caçula.
Holly apareceu no quarto e se deitou ao meu lado, ela já sabia que era a minha mãe e perguntou o que aconteceu ao me ver no estado que eu estava. “Fo deu” eu sussurrei para ela, tentando tampar qualquer buraquinho que seja o microfone do celular.
- Interessante a Sophia chamar o Matt para ser padrinho, ela dizia ser minha amiga na época. – Holly arregalou os olhos ao ouvir eu falar e enfiou a cabeça no travesseiro.
- Ela perguntou se não teria problema para você, porque ele é o melhor amigo dela e ela não poderia deixá-lo de fora. E acho que você também já superou, né?
- Claro, mãe. – Falei desanimada, a minha cabeça a mil pensando nas possibilidades de um primeiro encontro com o meu ex-noivo depois de dois anos e eu só me via com uma faca na mão. – Falando em novidade, eu tenho uma para a senhora.
Meu desespero era tanto que eu mesma não conseguia acreditar no que eu falaria, mas seria o jeito. E o corpo ao meu lado levantou a cabeça no mesmo segundo para ouvir a tal novidade.
- Eu vou acompanhada, mãe. Bom, eu queria fazer uma surpresa, mas acho que esse é um ótimo momento para te contar. – Enquanto eu queria me matar, Holly morria de tanto segurar as gargalhadas.
- Minha nossa senhora, você está falando sério? Meu Deus, acho que todos vão querer saber da novidade. E quem é o sortudo que virá com você? – Minha mãe parecia tão surpresa quanto eu, além de animada.
- Isso vai ser surpresa. – Até pra mim, pensei.
Depois que me despedi da minha querida mãe, Holly soltou toda a gargalhada que ela segurou por um minuto ou dois, e eu só conseguia pensar no quanto fui fraca, no quanto foi imaturo inventar um acompanhante só para parecer que eu tinha superado. E, na verdade, eu não tinha superado.


Capítulo 2


Acordar com o barulho insuportável do despertador era tão ruim quanto acordar com ressaca, e no caso, eu estava sendo presenteada pelos dois. Desliguei o bendito alarme quase derrubando o relógio da mesinha de cabeceira - porque sim, eu era o tipo de pessoa que possuía um relógio analógico do tempo da minha avó simplesmente porque eu achava bonito – e percebi que a Holly já tinha se levantado por algum milagre. Levantei-me praguejando a pessoa que inventou essa coisa de ter que acordar cedo para trabalhar e me enfiei debaixo do chuveiro, quando eu já estava planejando todo o meu dia mentalmente uma mulher invadiu o banheiro.
- Bom dia, flor do dia. – Ela falou animada.
- Você sabe que eu não consigo dar bom dia pra ninguém antes das 9 horas da manhã. – Resmunguei.
- Eu sei, mas você vai ter que me dar bom dia nesse dia em especial porque euzinha tenho a solução para o seu problema.
- Qual problema? Que solução? – Enrolei-me em uma toalha e voltei para o quarto com a Holly no meu encalço. Ela já estava toda arrumada e provavelmente já tinha feito o café da manhã, enquanto eu corria para fazer as coisas até a minha ficha cair que ainda era cedo e eu não estava atrasada.
- O seu problema com o acompanhante. – A morena sorriu e a minha dor de cabeça ficou ainda mais forte quando me lembrei desse imprevisto.
- E qual seria? – Fiz uma careta porque eu sabia que lá vinha alguma ideia provavelmente insana da minha melhor amiga.
- Então... – Ela começou. – Acordei cedo demais hoje e comecei a pensar em todas as possibilidades de homens que poderiam ir com você, talvez contratar alguém ou em último caso chamar o Patrick...
Soltei uma gargalhada interrompendo-a enquanto deslizava a meia calça pelas minhas pernas. – Vamos, corte esse papo furado, eu não vou contratar ninguém e muito menos chamar o Pat, porque você sabe, ele é gay, é bem óbvio.
- Sim, eu sei e já descartei essas opções, porém encontrei uma perfeita. Só te peço que não surte.
- Desembucha logo. – Falei impaciente.
- O . – Ela falou o nome como se fosse a cura para o câncer.
- Você está de sacanagem? – Sorri, só podia ser uma pegadinha dela. - Não, você não pode estar falando sério.
- É claro que eu estou falando sério! – Holly respondeu e eu me surpreendi com tanta seriedade. – Pensa, , ele também vai ao casamento, ele é o melhor amigo do seu irmão, já conhece toda a sua família, é perfeito.
- Não! Eu não vou no casamento do meu irmão fingindo que eu sou a namorada de, nada mais nada menos, que o melhor amigo dele, isso é loucura. – Levantei o tom da minha voz e logo abaixei quando vi que a testa dela estava franzida. Terminei de me vestir e me sentei na beirada da cama para colocar os sapatos.
- , você mesmo disse que seria uma surpresa, você pode falar que começaram a se encontrar tem pouco tempo e que ainda não era certo, mas estão juntos agora. E se ele é o melhor amigo do seu irmão provavelmente é padrinho também, mais um motivo para você não ter que entrar com o Mark na igreja. – Ela falou com toda a calma do mundo como se eu fosse uma criança que não queria ir ao dentista.
- Matt. – Corrigi a sua pequena gafe.
- Não sou obrigada a gravar nome de nenhum babaca.
- Justo. Mas vou te lembrar de três coisas que precisam ser consideradas. Primeiro... – Levantei um dedo para ela. – Nós nos odiamos, seria bizarro começarmos a nos amar do nada por alguma força do destino. Segundo... – Levantei o segundo dedo. – Nunca que ele ia aceitar fazer alguma coisa dessa, ainda mais pra me ajudar. E terceiro e último... – Levantei o terceiro dedo. - Já está em cima da hora, que merda que eu fui me enfiar.
- Essa foi a solução mais viável que eu achei, ou então você chegaria lá sem ninguém e falaria que terminou, ou ele ficou doente, ou morreu.
- Eu não vou matar ninguém.
- Ou falaria que simplesmente mentiu para a sua mãe.

Nós nos sentamos na bancada da cozinha para tomar o café da manhã enquanto eu considerava todas as opções, pensava em novas e me amaldiçoava por não ter amigos próximos não gays em Nova York. Eu estava considerando aceitar a ideia de que precisaria do , portanto um milhão de dúvidas e inseguranças começaram a surgir.
- Tudo bem, vamos supor que eu concorde com a sua alternativa de ir com o , mas para isso eu preciso falar com ele antes e eu não tenho nenhum contato dele, muito menos sei onde ele mora. – Pronunciei depois de engolir um pedaço de torrada. – Eu preciso jogar na cara daquele filho de uma boa mãe que o superei.
Ela sorriu em concordância.
– Como eu disse antes eu tenho a solução para o seu problema, o Arthur me passou o número dele ontem e disse que morava com o . Mal precisei escrever uma mensagem para ele me passar o endereço.
- Garota, que tipo de feitiço você tem? – Não sei como eu ainda me surpreendia com as conquistas dela.
- Eu não sei. – Holly falou devagar como se realmente não soubesse. – Vou te encaminhar o endereço, ele me falou que estaria em casa depois das cinco horas.
- Sim, mas eu quero falar com o e não com o Arthur.
- Então você admite que vai mesmo atrás dele? – Olhei para ela, séria, e levantei uma sobrancelha. – Não faça essa cara, quem vai estar em casa é o e não o Arthur.
- O quê? Holly Sampson o que você andou falando para o Arthur? – Eu já queria enforcar a Holly ali mesmo. – Você é perversa, já tinha planejado tudo.
- Eu não falei nada demais. – A morena gargalhou. – Eu precisava salvar a vida da minha amiga, você não ia ser tão genial quanto eu.
- Eu vou te matar! – Eu estava indignada com a sua audácia e a melhor vingança era sempre fazer cócegas nela.

Dizer que o dia passou num piscar de olhos seria mentira, fiquei grande parte do dia pensando em como eu falaria sobre o meu plano mirabolante para o e em como convencê-lo a participar disso. Fora resolver eventuais imprevistos na organização do evento de caridade, confirmar as últimas presenças e garantir que tudo esteja nas mãos certas. Me despedi do Pat agradecendo pela pequena férias que ganhei e desejando-o sorte com a festa que ficaria toda em sua responsabilidade, logo já estava com os pés nas calçadas de Manhattan. Parei o primeiro táxi que passou por mim e passei o endereço que estava escrito no meu celular.
O caminho inteiro eu pensei em desistir no mínimo umas 300 vezes, não tinha como aquilo dar certo, porém uma voz insistia que não custava nada tentar. Apenas a minha dignidade, nada demais. Quando a minha ansiedade quase me corroia o taxista falou que tínhamos chegado, era agora ou nunca. Entreguei o dinheiro para o rapaz e sai do táxi o agradecendo. O prédio em minha frente era modesto como a maioria dos prédios no Queens, apertei a campainha e esperei alguém me atender.
- Oi? – Uma voz que com certeza não era do ecoou.
- Oi, aqui é a , eu gostaria de saber se essa é a casa do ? – Perguntei o mais simpática possível.
- Sim, eu estava esperando por você. Já estou descendo.
- Espera... – Ele desligou e tudo que me restava era esperar.
O “cara lindo” da noite passada abriu a porta e eu logo conclui que era mesmo o Arthur.
- , eu sou o Arthur, prazer. – Sorriu e eu apertei a sua mão estendida sorrindo também.
- Prazer.
- Holly me falou que você viria, ouvi falar bastante de você.
- Sério? – Perguntei curiosa, não parecia que Holly estava falando bastante de mim enquanto eles “conversavam”.
- Convivo por bastante tempo com o para lhe afirmar isso. – Acho que meu queixo acabou de cair.
- Uau. – Foi tudo que consegui dizer e ele riu.
- Ok, ele está lá em cima, é só bater na porta. O número é o 22, 2º andar.
- Hum, ele sabe que eu estou aqui?
- Não, foi uma das exigências da Holly.
- Você está caidinho por ela, não está? – Ele concordou e eu ri de nervoso, eu já estava puxando assunto com o homem só para ganhar mais tempo. – Desculpa ser invasiva, mas já sendo. Você não vai subir comigo, né?
- Não, eu vou encontrar com ela. – Disse e eu finalmente tomei coragem para entrar, não queria ser uma empata foda. – Você quer que eu suba com você?
- Muito obrigada pela recepção, mas eu acho que consigo fazer isso sozinha. – Sorri e ele se despediu.
Olhei para a escada e subi devagar, “vamos lá , você consegue” foi o meu mantra durante toda a subida. Parei na frente da porta número 22 e imediatamente bati na porta, sem pensar. Não demorou muito quando escutei barulho de chaves e a maçaneta girando, e de novo eu estava frente a frente com o dono daqueles olhos impecáveis em menos de 24 horas.
- ? – Ele falou assim que abriu a porta e sorriu surpreendido.
- . – Sorri também. Era irônico como ele estava receptivo e de como eu estava ainda mais curiosa sobre o que ele andou falando sobra a minha pessoa para o amigo.
- Então, a que devo essa visita? Está testando os seus dotes de Sherlock Holmes por aqui?
- Não, engraçadinho. Não precisei ter esse trabalho, o Arthur deu todas as coordenadas.
- Ah, verdade, esqueci que você era amiga da Holly.
- Sobre a minha visita... – Comecei. – Preciso de sua ajuda.
- Minha ajuda? – Ele me pareceu surpreendido novamente. – Fale.
- Resumidamente eu quero que você vá comigo ao casamento do Tony. – Falei tão rápido que fiquei imaginando se ele tinha me entendido.
- Ok. – Só percebi que ele ainda estava segurando a maçaneta da porta quando a mesma começou a fechar. – Foi bom revê-la, .
Segurei a porta enfurecida, claro que não ia ser tão fácil assim. – Onde estão seus modos, ?
- . – Ele voltou a abrir a porta sério. – Eu sei que existe uma boa explicação pra isso, mas eu não posso te ajudar. É sério, obrigado pela visita.
- Fecha essa porta na minha cara de novo e eu juro que... – Levantei um pouco a minha voz.
- Jura que o quê? Vai fazer um show no meu corredor? – Ele me interrompeu.
- Eu sabia que não deveria ter vindo até aqui. – Suspirei. - Você sempre foi uma perda de tempo.
- Obrigado, agora você já pode dar meia volta.
- Três anos se passaram e você continua o mesmo.
- Três anos se passaram e você continua a mesma. – Ele me imitou e eu juro que quis socar a minha bolsa na sua cara. – Vamos mudar esse discurso.
Respirei bem fundo, buscando algum motivo para continuar ali, e a verdade era que eu realmente precisava dele e não podia voltar atrás agora.
- Tudo bem, eu só te peço que me escute e depois eu vou embora. – Discutir não ia nos levar a nada, então tratei de me acalmar e tentar uma conversa civilizada.
- Entra. – Ele concordou e se pôs ao lado da porta aberta para que eu entrasse, esperei ele fechar a porta quando ele apontou para o sofá. – Fica a vontade. Eu tenho modos, senhorita .
- Lembra do Matt? – Fiz a pergunta assim que tirei o sobretudo e sentei.
- Aquele imbecil? – Uma risada me escapou e ele franziu a testa, talvez não entendendo o motivo da graça.
- Sim, aquele imbecil. Minha mãe me ligou ontem à noite falando que ele seria o padrinho da Sophia.
- Merda. – Ele sentou no sofá a minha frente.
- E eu por desespero falei para ela que tinha superado e iria acompanhada ao casamento.
- Foi aí que o meu nome surgiu?
- Não, eu não falei com quem eu ia, falei que seria surpresa. – balançou a cabeça. – Você deve achar que eu sou louca por eu ter pensado logo em você, mas você também vai ao casamento, você também é padrinho do Tony, e creio eu que você não queira entrar com a minha prima e muito menos com a amiga da Sophia na igreja.
- Esse é um ponto que eu posso considerar. – Sorri, nem tudo estava perdido. – Sempre achei que você era louca, mais ainda quando resolveu se casar.
- Nem me fale, anos perdidos da minha vida.
- Você superou mesmo? – Perguntou e eu concordei com a cabeça. – Então, por que você precisa de outro homem para provar isso?
- Eu não sei, acho que é mais convincente e eu não vou precisar ouvir a mesma ladainha que escuto pelo telefone toda vez que algum parente resolve me importunar sobre o casamento que nunca saiu dos meus sonhos.
- Você está falando isso pra eu sentir pena e te ajudar?
- Não, , eu estou te falando a minha maldita realidade. – Levantei um pouco o tom e logo me arrependi.
- Desculpa. – Encarei seus olhos surpresa porque ele parecia mesmo ser sincero. – Eu nunca tive um noivado que não deu certo pra estar te julgando, aliás, eu nunca tive um relacionamento.
- Olha, se eu pudesse eu juro que eu não estaria aqui te perturbando ou algo do tipo, mas eu tenho poucos amigos próximos aqui e eles ou são gays ou casados, então não rola. – Ele apenas concordou com a cabeça e parecia alheio, talvez pensando, e pela sua expressão eu já sabia que a resposta seria negativa. – Eu já vou indo, preciso terminar de arrumar as minhas malas.
- Espera. – Ele se pronunciou quando me levantei do sofá. – Você vai viajar que dia?
- Amanhã.
- , mesmo que eu aceite entrar nessa furada, eu só vou pra Lancaster semana que vem.
- Você não vai passar a semana? Como assim? – Perguntei já tendo que lidar com imprevistos, voltei a me sentar.
- Eu só vou poder ir pro jantar de noivado na quinta. Não sei você, mas eu tenho que trabalhar.
- Onde você está trabalhando agora?
- Sou web designer naquela empresa do Bill Keller.
- Você trabalha pro Bill? – Meu queixo caiu mais uma vez naquele dia, o Bill era editor de uma das maiores empresas de jornal dos Estados Unidos, o New York Times. Sempre faço alguns favores para ele, como conseguir convites para alguns eventos importantes de seu interesse.
- Aham. – Ele concordou com a cabeça sorrindo. – Não queria me vangloriar.
- Há quanto tempo você mora aqui? Aposto que tem dinheiro para alugar um apartamento em Manhattan. – As palavras foram saindo sem filtro nenhum, eu estava animada por ele.
- Quase um ano, e sobre Manhattan: prefiro ficar por aqui mesmo, me acostumei.
- Isso é demais. – Sorri. – E você sabia que eu estava morando no Brooklyn?
- Sim, o Tony me contou e depois eu fiquei sabendo que você é tipo a vice-diretora da Ruby, isso não é pra qualquer um.
- Eu sei. – Por alguns segundos eu tinha esquecido o porquê de estar ali e me perguntava por que ele nunca tinha me procurado antes, mas ignorei a curiosidade. – Então, eu vou falar com o Bill, ele me deve alguns favores e eu consigo uma semana de licença pra você.
- Você tem certeza disso? – Ele fez careta de novo. – Contanto que eu aceite isso tudo, ainda tenho que comprar as passagens.
- Isso eu não posso fazer por você, mas eu tenho certeza que caso você se decida logo vai conseguir uma passagem na 1ª classe ainda hoje. – Pisquei para ele. – Agora eu tenho que ir.
Levantei do sofá um pouco mais animada do que antes, eu praticamente tinha o convencido, coloquei o sobretudo me preparando para enfrentar o frio do iniciozinho da noite. Assim que alcancei a maçaneta da porta, olhei para trás na intenção de me despedir.
- Você quer meu número? – Perguntei.
- Sim, eu quero. – Ele se levantou do sofá e me entregou o celular.
- Tá aqui. Qualquer coisa me liga, tchauzinho. – Sorri e abri a porta para sair.
- . – segurou meu braço com um sorriso provocador no rosto. – Eu vou com você, qualquer coisa a culpa é sua mesmo.
- Não me lembro de você frequentando as aulas de teatro. – Provoquei.
- Você quer minha ajuda ou não? Vai ter que confiar em mim e nas minhas qualidades ocultas.
Naquele exato momento eu podia afirmar com toda a certeza no mundo que eu estava definitivamente entrando na maior burrada da minha vida. E a culpa era minha mesmo.


Capítulo 3


Saí de casa pela manhã já me sentindo cansada pela longa viagem que eu teria. O voo estava marcado para as 10h e ainda eram 8h30 da manhã, mas considerando que eu morava perto do aeroporto, eu tinha tempo de sobra. Passei a noite checando se tudo estava nas malas, convenci o Bill a liberar o por uma semana e, por incrível que pareça, eu ainda tive que comprar a passagem do cidadão, nem pra isso ele servia.
O caminho do meu prédio até o aeroporto não demorou muito como eu previa, o taxista tirou as minhas duas malas imensas do carro e logo me arrependi por ter que levar tanta coisa. Arrumei um carrinho de carga e fui fazer a checagem, rezando mentalmente para que o meu acompanhante não se atrasasse. Sentei no banco para esperá-lo com o cartão de embarque em mãos, por sorte eu sempre carregava um livro na bolsa caso precisasse de distração, e naquele momento eu precisava.
Eu estava em meio a um livro do Nicholas Sparks quando senti um cheiro de perfume masculino suave do meu lado, dei uma espiada tentando ser discreta quando a sua voz ecoou.
- Você vai se mudar ou o quê? – claro que era ele, eu não tive tempo nem de me iludir em conhecer algum desconhecido cheiroso no aeroporto.
- Droga, . – falei irritada, finalmente encarando seus olhos. – Se eu fosse me mudar, com certeza eu não carregaria só duas malas.
- Só?! Olha o tamanho disso, são dois monstros. – apontou para as minhas malas rindo, procurei as suas malas e tudo o que eu achei foi uma mala de lona.
- Você só está levando isso? – perguntei desacreditava e ele deu de ombros. – O seu terno coube aí?
- Que terno? – ergueu uma sobrancelha.
- Como assim você vai ser padrinho em um casamento e não está levando terno? – levantei um pouco a minha voz e ele riu ainda mais.
- Você conhece a palavra aluguel? Então... – balancei a cabeça soltando a respiração e voltei minha atenção ao meu livro. – Já está na hora do nosso voo.
Ele mal terminou de falar e uma voz nos alertou que o nosso voo iria atrasar meia hora. Ótimo. Realmente eu não estava nos meus melhores dias, já estava me questionando se a palavra sorte deveria existir no meu vocabulário.
- Acho que não está na hora do nosso voo. – concluiu.
- Você acha? Eu tenho certeza. – não tinha jeito, a minha vontade de respondê-lo era maior que eu.
Guardei o livro constatando que eu não conseguiria mais me concentrar na leitura e fiquei olhando pro nada por um tempo. esticou os braços pelo encosto do meu banco e do banco ao lado, homens não eram nem um pouco folgados, olhei séria para ele e uma senhora me chamou a atenção.
- Vocês formam um lindo casal. – a senhora sorria para nós e eu fiquei sem reação.
- Muito obrigado. – sorriu, se aproximando de mim, agora com uma mão no meu ombro e com a outra colocava uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. Encarei seu perfil mais uma vez surpresa e voltei a olhar para a mulher de idade na minha frente, eu imaginava que ela tinha uns 60 anos, julgando pelos seus cabelos grisalhos.
- Obrigada. – Sorri sem graça, se era pra começar o teatrinho, era melhor fazer direito. – A senhora está indo pra Los Angeles também? – perguntei.
- Sim – concordou com a cabeça. - E resolvi me sentar quando minha neta falou que ia atrasar.
- Espera, a sua neta é a mulher que falou no alto-falante? – perguntou realmente em dúvida e eu lhe dei uma cotovelada de leve, isso era sério mesmo?
- O quê? Não, ela é aquela moça que está fazendo checagem. – a dona apontou para uma loira parada em frente ao balcão entregando alguns documentos.
- Gostosa. – sussurrou e eu lhe dei uma cotovelada mais forte. – Ai, porra!
- Olha a boca suja! – falei, segurando o riso.
- E vocês? Creio que também estão indo para Los Angeles.
- Sim. É o casamento do meu irmão e nós somos padrinhos. – respondi.
- Casamentos são tão lindos, a minha neta vai se casar ano que vem, não vejo a hora... – ela começou a falar e eu sorri, na verdade eu queria jogar na cara do individuo ao meu lado que a “gostosa” estava fora do mercado.
Ficamos jogando conversa fora com a simpática senhora até que o nosso voo foi anunciado, finalmente. Sentei no meu assento agradecendo mentalmente por não ter ficado do lado do , e para a minha surpresa a senhora que sentou ao meu lado.
- Oh, meu Deus, pensei que você ia sentar do lado do seu namorado. – arregalou os olhos.
- Não, nós tivemos um problema com a compra das passagens... Por causa do trabalho. – dei uma desculpa qualquer sorrindo para acalmá-la.
- Ah, querida, eu troco de lugar com ele. – disse, com intenção de se levantar da poltrona.
- Não! – quase gritei. – Por favor, não precisa, continua aqui. Por favor. – insisti até demais.
Ela me olhou com um olhar desconfiado e eu tratei logo de consertar.
- Eu não quero incomodar a senhora. – suspirei derrotada.
- Não vai me incomodar. – a senhora sorriu e se levantou, não tinha mais jeito.
Enquanto o assento continuava vazio eu esperava que o já estivesse bem acomodado para deixar que a senhora volte ao devido lugar dela, porém não foi isso que aconteceu, em menos de um minuto depois ele se jogou ao meu lado.
- Eu amo aquela mulher, sério! – falou agitado. – Eu não ia aguentar viajar 5 horas do lado de um moleque que tem péssimo gosto pra música, juro por Deus que eu ia pegar aquela merda de iPod e dar um jeito de jogar desse avião.
- Hum. - eu respirei fundo me dando conta que seriam 5 horas do lado dele dentro daquele avião.
- E convenhamos que ela parece meio surda, vai se dar bem com o garoto.
- Uhum. – concordei pra ver se ele calava a boca logo. - O que houve? – perguntou me analisando.
- Nada. – dei um sorriso fraco tentando disfarçar a minha insatisfação. Óbvio que a presença dele me estressava, mas eu tinha que aprender a conviver com ele novamente para que tudo dê certo.
- É mesmo? – ele não era nenhum idiota pra acreditar que o meu problema seria nada, aliás o problema tava bem vivo sentado ao meu lado.
- Eu só estou cansada, não consegui dormir direito essa noite. – não deixei de dizer a verdade.
balançou a cabeça e colocou os fones de ouvido fechando os seu olhos, fiquei um tempo olhando para ele, me perguntando por que ele reclamou tanto do garoto se ele tinha seus próprios fones. O menino deve estar ouvindo música em um nível muito alto mesmo para irritá-lo. Permiti-me observá-lo mais a fundo, reconhecendo as suas linhas tão familiares, ele ainda usava o cordão que era do seu pai por baixo da blusa de manga comprida que eu tinha que dizer, era bem sexy. Por favor, , não vamos pensar nisso. Fechei meus olhos me amaldiçoando, quando voltei a abri-los ele estava com a testa franzida e com um sorriso de lado no rosto, ele sabia que eu estava o secando.
- Senhoras e senhores, bom dia! Meu nome é Karen e sou uma das comissárias deste avião... – A mulher começou a falar e eu afivelei meu cinto, o avião já ia decolar.

Acordei com um cheiro já conhecido e eu estava tão confortável naquela posição que eu não queria abrir meus olhos. Depois de ver nuvens por quase uma hora eu acabei caindo no sono. Eu pareci ter cochilado de novo, porque quando recobrei a minha consciência a comissária falava que estávamos chegando. Abri meus olhos e percebi que o cheiro era do , eu dormi encostada em seu ombro e ele nem pareceu se incomodar. Olhei para cima devagar para ter certeza que ele estava dormindo, comecei a me afastar e notei que ele estava ouvindo Lana Del Rey. E merda, era Young and Beautiful, lembro da música, lembro da última vez que a escutei e jurei nunca ouvir de novo.
O último filme que vi com o Matt no cinema foi The Great Gatsby, a música que tocava ao fundo da cena mais feliz era exatamente Young and Beautiful e eu quase me emocionei. A letra me marcou, e o filme só me fez lembrar que nem todo mundo termina com quem ama e um “felizes para sempre”.

Will you still love me when I'm no longer young and beautiful? Will you still love me when I got nothing but my aching soul? I know you will, I know you will. I know that you will. Will you still love me when I'm no longer beautiful?

Eu não sabia nada, ele não me amava mais e eu não tinha nenhum homem para levar para o céu junto comigo. Obrigada, Lana, por dividir a sua dolorosa alma comigo.

Ignorei o quanto aquilo me afetava e ouvi a minha barriga roncar, eu tinha ficado bastante tempo sem comer. Achei um pacote de amendoim na minha poltrona e praticamente o devorei, provavelmente o tinha deixado ali. Bebi um gole de água e a comissária falou novamente para afivelarmos o cinto, o avião ia aterrissar. Dei um jeito de acordar o homem ao meu lado e ele nem precisou abrir os olhos para afivelar o cinto.
- Graças a Deus chegamos. – falei assim que coloquei meus pés na terra firme, eu não era muito fã de aviões. Ainda mais quando eles tinham a mania de resolver cair do céu.
- Ainda bem, estava difícil com você babando no meu ombro. – provocou.
- Eu não babei no seu ombro. – disse indignada.
- Você não sabe, estava dormindo. – falou com casualidade e eu revirei os olhos.
- Se eu estava te incomodando, então por que não me acordou? – ele apenas sorriu. Era um cretino mesmo.
Nós nos dirigimos para a rasteira pegar nossas malas, e por incrível que pareça me ajudou a pegar os meus “monstros”. Estávamos em Los Angeles em rumo a Lancaster, o mais econômico seria alugar um carro por causa da duração de viagem. Se tivermos sorte, chegaríamos em casa em uma hora e meia. Deixei que ele escolhesse o carro já que o mesmo dirigiria, então achei melhor não discutir. Só foi inevitável discutir com ele quando seus olhos brilharam por uma Ferrari, ele estava indo para um casamento e não para curtir as férias. Ele acabou escolhendo um Chevrolet Transverse, por fim.
- Ok. – sentei no carona depois de almoçarmos em um restaurante perto do aeroporto. – Pronto pra encarar o passado?
- Eu? – franziu a testa colocando o cinto e me encarando. – Acho que é você que não quer encarar o seu passado.
- Nós dois. – corrigi.
- Tudo bem. – ele pareceu desconfortável. assim como eu não tinha tantos motivos para voltar a Lancaster, ele odiava tanto aquele lugar que quando foi embora duvido que tenha olhado pra trás.
- Se bem que nem se compara. – pensei alto.
- O quê? – deu partida no carro, voltando para o trânsito.
- Tipo, eu só odeio o meu ex-noivo...
- E eu. – ele me interrompeu.
- Sim, mas você odeia tudo. – Conclui. Ele apenas balançou a cabeça, concentrado na estrada. – E tá lidando melhor com o assunto.
- Sim, tive bastante tempo pra não pensar nisso e você tá me fazendo pensar agora. Merda, .
- Desculpa. – vi que extrapolei do seu bom humor quando ele fechou a cara totalmente.
- Tanto faz. – falou e eu sabia que não ele não queria mais conversar, se é que estávamos conversando.
Depois de 10 minutos em um silêncio constrangedor eu decidi que ia colocar uma música, conectei o meu celular ao carro e escolhi uma música que amávamos ouvir quando nos encontrávamos para jogar baralho ou em qualquer reunião de amigos que meu irmão inventava.
- I walked across a empty land... – comecei a cantar junto com a música, eu já era cantora profissional de Somewhere Only We Know do Keane. – Canta comigo, ! – gritei antes do refrão.
- And if you have a minute why don't we go talk about it somewhere only we know? This could be the end of everything, so why don't we go somewhere only we know? – Para a minha surpresa, ele cantou junto comigo, e sim, ele cantava melhor que eu. - Somewhere only we know. – deixei que ele cantasse essa parte sozinho e me arrepiei, aquilo era demais.
- Eu senti falta disso. – sorri quando a música acabou.
- Você continua desafinada. – ele voltou a me provocar e aquilo me aliviou de certa forma, estávamos bem de novo.
- Eu sei.
- Eu não senti falta desse lugar, definitivamente. Odeio essa porra desse deserto, esse calor... eu já me imagino fora desse ar condicionado e derreter.
- Bem vindo de volta ao inferno. – a Califórnia no verão era definitivamente um inferno, além de ser muito calor, não ventava, era insuportável.
- Podíamos ter ficado na praia. – olhei para ele pensando em concordar, não seria uma má ideia. Mas ele me encarou com um sorriso pervertido no rosto e continuou: - Eu adoraria vê-la sem essa blusa e essa calça jeans.
- Seu pervertido! – eu sabia que seu lado depravado não demoraria a aparecer. – Guarde os seus pensamentos para si mesmo. – ele mordeu o lábio inferior. – Olha pra frente!
- Achei que você queria ter essa visão comigo olhando pra você. – revirei os olhos, eu queria enforcá-lo ali mesmo.
- Convencido.
- Pervertido, convencido... – ele tirou uma mão do volante e foi enumerando com os dedos. – Que elogio a mais você quer fazer?
- Vai à merda. – falei e ele sorriu satisfeito consigo mesmo.

estacionou o carro em frente da casa que eu costumava chamar de minha, fiquei parada em frente da porta pensando na reação da minha mãe sobre tudo. “Mãe, esse aqui é o e você o conhece a vida inteira, pois é, não sei porque estou te apresentando ele, mas ele é o meu... namorado”, droga, isso é péssimo. Ela cairia pra trás, ou me enforcaria, ou eu não sei, ela é imprevisível. Não quero nem imaginar a reação do meu pai.
- Então... – parou ao meu lado e colocou as mãos no bolso. – Você vai apertar essa campainha ou quer que eu aperte?
- Ela vai me matar. – exteriorizei o meu temor. – E eu não quero nem saber a reação do meu pai.
- Seu pai! – Ele arregalou os olhos como se estivesse super assustado e logo abriu a boca começando a gargalhar, eu pulei em cima dele tampando a sua boca com a minha mão.
- Cala a boca. – sussurrei.
- Ash, fica calma, eles sempre me amaram. – falou segurando o riso.
- Eu... – queria sentar e chorar ali mesmo, mas a merda já estava feita.
- Eu aperto a campainha então. – revirou os olhos e o fez.
Meu coração estava quase saindo pela minha boca quando ouvi o barulho da chave, Deus, era agora. Minha mão tremia quando eu senti que uma mão entrelaçava os dedos nos meus, e talvez fosse essa mão que me mantinha firme. Foi questão de segundos até a porta se abrir e minha mãe me abraçar forte, abracei-a com um braço só o mais apertado que eu podia.
- Eu senti tanto a sua falta. – falei em seu ouvido sabendo que ela chorava no meu ombro. Minha mãe sempre foi chorona e de vez em quando eu acho que puxei a ela, pois meus olhos estavam lacrimejando também.
- Eu senti mais. – falou, e se afastou para colocar as mãos no meu rosto e secar as minhas lágrimas. Afinal, foram dois anos sem vê-la. – Você mudou, parece mais madura, está tão linda.
- Obrigada, mãe. – abracei-a novamente e ela parecia alheia a presença do até então.
- , querido, pensei que só te veria na quinta. – ela me soltou e foi abraçá-lo, e mesmo assim ele não soltou a minha mão. Aquilo me passava a segurança de que tudo ia dar certo, que ele ia passar por isso comigo.
- Tia Amy! – ele sorriu abertamente. – Vim mais cedo matar a saudade da senhora.
Eu ri, óbvio que ele conquista todo mundo. Ele era o , não era? Eles trocaram algumas palavras enquanto eu tentava me acalmar, então minha mãe me olhou de novo e levantou uma sobrancelha.
- Posso saber onde está o seu misterioso companheiro? – disse sorrindo e apertou a minha mão me dando coragem para falar.
- Bem debaixo do seu nariz. – brinquei. Ela parecia confusa quando olhou para as nossas mãos dadas e a ficha caiu.
- Oh, meu Deus. Eu não acredito. – colocou as mãos na boca e eu não sabia se ela estava chorando de novo ou rindo. – Eu sabia! Muito obrigada por ficarem juntos enquanto eu ainda estou viva. – Ela nos abraçou e eu me surpreendi com as suas palavras.
- Mãe? – chamei, então ela nos soltou e parecia realmente satisfeita com o que via. – Como assim você sabia?
- , todo mundo sabia, menos vocês dois! – a agitação da minha mãe era tanta que eu já imaginava ela com uma blusa escrito “eu vivi para ver a e o juntos”.
Olhei para o e ele parecia se divertir com aquilo, minha mãe finalmente deixou que nós entrássemos em casa e fez um milhão de perguntas do tipo: como isso aconteceu? Desde quando? Onde foi isso?
Deixei que ele respondesse todas e descobri que nos reencontramos por acaso em um pub mesmo e aconteceu, que tem pouco tempo e o primeiro beijo foi no mesmo dia do pub. Sem muitos detalhes, simples. Minha mãe ficou animada com tudo e eu me senti um pouco culpada, não estávamos juntos de verdade.
- Minha filhota! – Meu pai apareceu pelo vão da sala e me abraçou forte. Ele não gostava muito de falar no telefone, portanto eu sentia mais falta dele do que tudo.
- Pai. – esperei ele me soltar para continuar. – O senhor tem que falar comigo no telefone! Essa coisa que você tem contra telefones estava me matando.
- Desculpa. – ele beijou a minha testa. – Eu juro que vou tentar mais.
- Obrigada. – concordei com a cabeça e ele cumprimentou o , eu estava apreensiva de novo.
Eles ficaram conversando por um tempo enquanto eu mal os escutava de tanta ansiedade, eu odiava ser tão ansiosa. Minha mãe prestava atenção em tudo que o contava sobre seu trabalho, moradia, lugares que ele viajou e até falou brevemente sobre a sua mãe.
- Então, você trouxe a minha menina? – meu pai falou.
- Ela precisava de uma babá eficiente. – falou rindo e franzi a minha testa, ele falava cada absurdo.
- Wilson, eles estão namorando. – minha mãe disse abobada para o meu pai.
O homem apenas levantou um braço do como se ele fosse um campeão de UFC. – Parabéns ao garoto que conquistou a minha filha! – exclamou orgulhoso e o meu queixo caiu.
- Eu não sabia que tínhamos tantos fãs. – olhei para o rosto deles ainda constrangida e o sorria me olhando de uma maneira tão intensa que me deixou envergonhada.
Minha mãe nos chamou para irmos na cozinha comer cookies enquanto arrastava o meu pai junto, eu ia segui-los quando o segurou o meu braço e sussurrou:
- Acho que é você que não frequentou as aulas de teatro. - sorriu maroto. – Te falei para confiar em mim.
- Ah, é assim? – perguntei com uma força de vontade anormal de abaixar a bola dele, ele com certeza estava se vangloriando por dentro depois daquela encenação ridícula do meu pai. Sorri abertamente para ele e mordi meu lábio inferior assim como ele tinha feito no carro, ele franziu a testa e olhou para a minha boca observando cada movimento. – Cuidado para não se apaixonar, .
Deixei ele plantado na sala provavelmente assimilando o que eu tinha falado e entrei na cozinha para comer os deliciosos cookies da Dona Amy. Agora era pra valer.


Capítulo 4


A casa da minha família não era tão grande, mas depois de uma reforma ficou enorme. A sala era bem confortável toda em tons bege e marrom para receber as pessoas, tinha uma escada para o andar de cima e um corredor, onde um lado dava acesso à cozinha e aos fundos, e o outro lado era a sala de jantar com aquela mesa gigante com 10 lugares, e indo reto tinha um banheiro. O andar de cima continha 4 suítes, sendo a dos meus pais a maior, outras duas era minha e do meu irmão, e por último a de hóspede. A porta da cozinha dava para os fundos, onde tinha uma área coberta com lavanderia e churrasqueira, um gramado ingente onde a gente costumava jogar baseball e a quadra de basquete do meu irmão.
Eu estava terminando de lavar a louça do jantar e estava sentado na bancada da cozinha para não me deixar sozinha já que meus pais estavam vendo televisão, quando o Tony entrou pelas portas do fundo com a Sophia. Meu irmão não tinha nada a ver comigo, mas era alto, loiro e ostentava belos olhos verdes, a sua noiva também era loira, com longos cabelos e olhos castanhos. Ela era do mesmo tamanho que eu, no entanto.
- ! – gritou e eu sequei as minhas mãos no pano de prato para abraçá-lo.
- Tony, que braços são esses? – reparei que ele estava bem mais em forma do que em dois anos atrás.
- Academia, você sabe como é, eu e Sophia fizemos uma rotina saudável.
- Que nojo de vocês. – brinquei, e fui cumprimentar a Sophia enquanto o Tony pulava nos braços do .
- Meu amante chegou! – Tony berrou e o caiu na gargalhada.
- Eu sei que você sentiu a minha falta, seu gay.
- Eu espero não ter que dividir a minha cama com vocês. – Sophia falou e eu ri.
- Pelo que eu saiba a cama é minha. Você pode dormir no sofá, se quiser. – Tony falou.
- Grosso. – ela fechou a cara.
- Eu não acredito que vocês vão se casar. – falei olhando para aquela cena.
- Boatos que você saiu da seca, irmãzinha. – meu irmão falou e eu lhe dei um tapa. – Ai! Você já chega me amando assim.
- Você é tão inconveniente. – revirei meus olhos.
- Então, quem é o sortudo? – Sophia perguntou e eu olhei para o , que também estava me fitando com um sorriso de lado no rosto. Odeio esse cara! Voltei meus olhos para o casal 20 e eles me olhavam curiosos.
- Acho que temos dois casais nesse cômodo, certo ? – sorri e olhei para ele.
- Certo, amor. – ele sorriu cúmplice e o Tony gargalhou.
- Eu não acredito nisso. – Sophia arregalou os olhos.
- Cara... sinto muito... – Tony mal conseguia falar em meio às risadas. – Mas eu vou ter que te dar umas porradas por estar transando com a minha irmã.
- Você é ridículo! – fingi indignação, mas já rindo junto com todos ali.
- Você devia é me parabenizar por aturar a sua irmã. – brincou.
- Awn, vocês são tão fofos. – a noiva do meu irmão apontou. – Tipo, o quão incrível é o melhor amigo do meu futuro marido namorando a minha cunhada.
Concordei com a cabeça sorrindo, quando o passou um braço pela minha cintura e me puxou para perto dele.
- Ela é a sua primeira namorada, então? – Tony perguntou depois de se recuperar do ataque de riso. Olhei pra ele esperando pela sua resposta e ele engoliu em seco assentindo, acho que teremos um problema com isso. – E como você não me contou antes?
- Surpresa? – respondeu dando de ombros.
- Acho que ainda não tiramos as malas do carro. – mudei de assunto virando minha cabeça para o e eu estava muito perto de quase beijá-lo. Ficar perto é a intenção, não fique constrangida! Pensei comigo mesma, mas mesmo assim senti as minhas bochechas ruborizarem.
- Aham. – segurou forte a minha mão e me arrastou até o lado de fora, onde o carro estava, deixando o Tony e a Sophia sozinhos.
- Droga, . – falei soltando a minha mão da sua quando chegamos no carro. – Qual o seu problema?
- Eu não tinha pensado nisso. – falou abrindo o porta-malas. – Não tinha pensado que você seria a minha primeira namorada.
- E qual o problema nisso? Tecnicamente eu não sou a sua primeira namorada.
- Exatamente. – ele colocou uma das minhas malas no chão e me encarou frio. – Toda a sua família pensa que você é a minha namorada, e você sabe que eles são a única família que eu tenho. Eu não queria que fosse assim, uma mentira.
- Você queria uma princesa como namorada então? – cruzei meus braços o encarando.
- Não, eu só... – sua voz sumiu, nem ele tinha explicação para o seu surto. – Deixa pra lá.
Deixei aquilo pra lá por enquanto, carreguei a minha mala até a sala e trouxe o resto. Meu pai se ofereceu para ajudar com as malas e eu concordei, subindo na frente junto com a minha mãe.
- Então... – parei em frente ao meu quarto. – Onde o vai dormir?
Minha mãe olhou para a minha cara e começou a rir. – Com você. Você já tem 25 anos, eu não sou tão encanada assim.
Maravilha! Quando eu precisava que a minha mãe continuasse com aquela regra idiota que o meu namorado não podia dormir junto comigo, ela me inventa essa.
- Que novidade. – também pareceu surpreso, ele foi um que passou muitos anos me ouvindo reclamar sobre essa maldita regra.
- Ok. Boa noite pra vocês. – falei abrindo a porta do quarto e já sentindo aquela nostalgia de ter passado uma vida inteira ali.
Arrastei as malas para dentro e vi que as coisas continuavam do mesmo jeitinho que eu as deixei. Meu quarto não tinha tanto bagulho, a minha cama ficava no centro do quarto, o meu guarda-roupa no canto e uma penteadeira em outro canto com um espelho grande. Por algum motivo a primeira coisa que o fez foi abrir o meu guarda-roupa.
- Você ainda tem o pôster do Backstreet Boys. – apontou para a porta aberta do roupeiro com um sorriso esperto no rosto.
- Sim. – tirei o pôster que tava preso na porta e admirei a foto por um instante. – Eu amava o Nick. – guardei o pôster na minha gaveta.
- Informação desnecessária. – sentou na beirada da cama para tirar os tênis. – Eu vou tomar banho.
- Fique à vontade. – falei enquanto eu abria as minhas malas para colocar algumas coisas no guarda-roupa.
- Vou ficar. – ele falou depois de alguns segundos e eu olhei para ele vendo que ele já estava sem a blusa abrindo o zíper da calça.
- Não tem como você fazer isso dentro do banheiro? – repreendi observando o quanto ele ainda era gostoso.
- Você falou que eu podia ficar à vontade. – piscou tirando as calças e logo indo em direção do banheiro, e eu não conseguia tirar os meus olhos do seu corpo. Até que ele tirou a cueca e eu desviei o olhar.
- O banheiro tem porta, ! – quase gritei e ele só riu.
Assim que ele abriu o chuveiro eu fui até o banheiro e fechei a porta, banheiros foram feitos para ficarem com a porta fechada, pelo amor de Deus. Voltei a atenção para as minhas malas.

Quando saiu do banheiro só com uma toalha amarrada na cintura eu já tinha arrumado a cama e colocado uma divisão em forma de lençóis.
- Bom, agora que você já tomou seu banho, eu vou tomar o meu. – falei mal olhando para ele com medo que ele tire aquela toalha ali mesmo. – Escolhe um lado da cama, preferencialmente o direito, não invada o meu espaço.
- Se é pra eu dormir no lado direito, por que você falou pra eu escolher um lado? – questionou, esfregando outra toalha nos cabelos úmidos.
- Tanto faz. – entrei no banheiro com o meu pijama em mãos e tranquei a porta. O que eu menos queria era que ele invadisse a minha privacidade e vindo dele eu não duvido de nada.
Debaixo da água quente a única coisa que eu conseguia fazer era pensar, pensar na reação de todos e em como eles pareciam convencidos, apesar de que ninguém tocou no nome do Matt e aquilo era um alívio. Claro que uma hora ou outra alguém ia acabar falando sobre, e acho que enquanto o estiver perto de mim isso não vai acontecer. Sim, eu dependia dele e ele estava lidando com isso bem melhor do que eu esperava, por mais que tenha os seus momentos. Ambos estávamos saindo da zona de conforto, e parte da culpa era minha por ter inventado algo tão bizarro logo de cara, mas pelo menos íamos encarar isso juntos. Ele ia encarar as dores do passado e eu ia encarar o meu coração partido.
Saí do banheiro já de pijama e passei direto pela cama, indo em direção da porta com a intenção de ir até a cozinha beber um copo de água.
- Você não vai dormir? – perguntou assim que alcancei a porta.
- Vou beber um pouco de água.
Desci as escadas o mais silenciosamente possível, uma mania que peguei na minha adolescência, e à medida que eu ia chegando aos últimos degraus, ouvi sussurros na cozinha. Mais alguém tinha chegado, certamente a minha prima, no entanto uma voz me causou arrepios antes que eu colocasse os meus pés dentro do cômodo, aquele sotaque quase britânico de quem nasceu em Ohio era tão familiar que me dava enjoo.
- Eu encontrei com a Zoey na rodoviária e imaginei se ela queria uma carona, ela teve sorte. – ele riu e eu continuei escondida no escuro perto da entrada da cozinha.
- A única sorte que eu tive foi a de você ter sido útil pelo menos uma vez na vida. – Zoey rebateu, eu quis abraçá-la naquele exato momento, senti saudade dela.
- Sem briga, crianças. – minha mãe repreendeu rindo. – Agora peguem a mala de vocês, aliás, vocês não se importam de dividir o quarto de hóspedes, né?!
- , não está aí? Eu prefiro dormir com os roncos dela do que dividir um quarto com esse aqui.
- Eu ouvi isso, Zoey! – entrei na cozinha de supetão e todos me encaravam surpresos. Fiz uma entrada dramática não porque ela estava falando dos meus roncos e sim porque eu temia que a minha mãe falasse do .
- ! – Zoey pulou literalmente em cima de mim e começamos a gargalhar juntas, eu adorava aquela pestinha, ela era poucos anos mais nova que eu, mas sempre foi a minha melhor amiga. – Quando você voltar pra Nova York acho justo me levar na mala.
- Vou pensar no seu caso. – disse me soltando dela e encontrando os olhos castanhos de um Matthew desconsertado.
Droga! Ele ainda era gostoso, continuava com toda aquela pose de modelo e além disso era a cara do Joshua Bowman, meu eterno Daniel Grayson. Espera, meu?
- ? – disse em um tom de pergunta e me aproximei dele por instinto, ele enfim colocou uma mão na minha cintura e beijou a minha bochecha, retribui tentando me convencer que era apenas um cumprimento entre dois conhecidos. Mas aquele beijo na bochecha estava demorado demais, até que alguém limpou a garganta atrás de mim e eu dei um pulo para trás nos separando.
passou um braço ao meu lado e estendeu a mão para o Matt, que apertou a sua mão o cumprimentando.
- Matthew. – falou com uma voz incrivelmente grossa e eu desejei não estar naquele meio.
- . – Matt fez uma pequena reverência e continuou. – Vejo que estão todos aqui. Bom, vou pegar as malas.
Ele se retirou e eu dei meia volta dando de cara com o , que mantinha uma expressão dura direcionada a porta que tinha acabado de ser fechada.
- Eu não estava sabendo que ele vinha hoje também. – seus olhos encontraram os meus.
- Nem eu. – falei dando uma rápida olhada em minha mãe que apenas deu de ombros e abri a geladeira em procura de água.
- O que eu perdi? – Zoey perguntou depois de toda aquela cena.
- Acho que você ainda não está ciente que a sua prima está com namorado novo. – minha mãe adorava uma fofoca, foi até melhor que ela contasse enquanto eu tentava normalizar meus batimentos cardíacos com a água gelada.
Zoey analisou eu e sorrindo, ela não precisava adivinhar quem era o tal namorado novo, ela já sabia que ele estava bem ali na sua frente. Eu com um pijama e ele só estava com uma calça de moletom, estávamos com uma aproximação considerável, algo que também nos entregava, anos atrás não nos suportaríamos em menos de 50 metros de distância. também colocou um pouco de água em um copo e eu imaginei que estava na hora de falar alguma coisa.
- Amanhã eu te conto tudo, maninha. – abracei Zoey novamente e sussurrei: - infelizmente você não vai ouvir meus roncos essa noite.
Minha prima era literalmente uma garota californiana, sua pele era bem bronzeada e suas madeixas eram claras nas pontas por causa da exposição ao sol. Como ela morava na costa, vivia na praia e quando éramos crianças não sossegou enquanto não aprendeu a surfar. Hoje em dia ela faz Biologia em Berkeley.
- É bom você me contar tudo, mesmo! Depois de dividir o quarto com o seu ex é o mínimo que você pode fazer por mim. – sorriu derrotada e eu senti pena dela.
- Pelo menos são duas camas de solteiro e não uma de casal. – citei uma vantagem para ela pensando na sorte que eu não tive.
- Argh. – bufou e eu pisquei para ela, já estava na hora de subir para o quarto se eu não quisesse encarar o Matt de novo.
- Vamos para a cama, gatinho? – chamei pelo que ainda observava nós duas com o copo na mão.
- Claro. – balançou a cabeça e colocou o copo na pia, dando boa noite para a minha mãe e minha prima.
- Boa noite! – joguei um beijinho no ar me retirando do cômodo sendo acompanhada pelo meu querido namorado.
- Aquilo não foi uma indireta, foi? – perguntou quando chegamos na escada.
- Aquilo, o quê?
- Sobre o quarto de hóspedes ter duas camas de solteiro e não uma de casal. – esperto, ele era muito esperto.
- Que bom que você pescou essa. – falei bagunçando os seus cabelos e subi as escadas correndo, eu era 99,9% bipolar.
também subiu as escadas correndo e me alcançou, segurando meu braço e bagunçando o meu cabelo, ambos estávamos nos divertindo com a brincadeira. O sentimento de nostalgia se apossou de mim na hora, e o momento que era de descontração passou a ser desconfortável para mim.
- Então... – corri para o meu lado da cama e me joguei, enquanto ele fechava a porta do quarto. – Você foi fazer o que na cozinha?
- Beber água, eu também estava com sede. – falou se deitando no seu lado da cama. – Pode apagar a luz? – perguntou se referindo a luz do abajur que iluminava o quarto.
- Pode. – sussurrei.
Tanta coisa aconteceu em um dia só, mas a minha mente traiçoeira insistia em voltar para o mísero instante que Matt beijou a minha bochecha como se nada tivesse acontecido. Fiquei minutos remoendo aquela cena, ouvi o barulho no corredor aumentar e se silenciar, aos poucos o que me restou foram as vozes na minha cabeça, o tique taque do relógio e uma dúvida.
- ? – chamei baixinho e ele resmungou um “hum”. – Tá acordado? – pergunta mais idiota, mas é tão automático.
- Uhum. – respondeu.
- Será que o Matt ainda sente algo por mim? – eu precisava falar sobre aquilo com alguém, e bem, ele estava bem ali do meu lado.
- Você está de brincadeira? – ele virou para o meu lado.
- Não. – falei tão baixo que quase não me ouvi, mas ele ouviu.
- Sério, ? – de repente não tinha um resquício de sono em sua voz. – O cara te deixa sozinha no jantar de noivado sem te dar nenhuma explicação e você ainda tem a coragem de pensar que dois anos depois ele ainda sente algo por você? – ele estava realmente aborrecido e eu mantive a boca fechada. - Não faça isso consigo mesma, olha para o que você tem em Nova York, olha para si mesma e veja a mulher que você é agora. Admita que é melhor sem ele, não vale a pena ficar remoendo o passado.
Ele terminou de falar e fiquei sem reação. Observei o seu rosto no escuro por incontáveis segundos, vi as suas feições se suavizando e cada palavra sua penetrava na minha mente. estava certo, eu admitia isso. Eu passei pela adolescência tendo um namorado atrás do outro, não eram muitos porque eu sempre namorava por muito tempo, mas eu namorei o Matt por 6 anos. 6 longos anos, no qual eu passei a não me ver mais sozinha, eu dependia dele para tudo, eu contava com ele para tudo. E no final das contas foram 6 anos perdidos, anos que eu não terei de volta, assim como eu não terei o meu antigo casamento. Eu precisava deixar aquilo sair de mim, fechei meus olhos fazendo promessas de que eu seria forte e não me deixaria levar pelo charme do Sr. Imbecil. Afinal, eu tinha superado, não tinha? Só faltava eu convencer a mim mesma sobre isso.
Abri meus olhos novamente e conclui que o já estava adormecido, mas não deixei de agradecer mesmo que ele não me ouvisse.
- Obrigada.

Capítulo 5


N/a: Para quem quiser acompanhar a leitura com a música do capítulo já coloca para baixar/carregar One da Mary J Blige com o U2.

Acordei naquele domingo ensolarado perdida sobre onde eu estava, mas aos poucos eu fui recobrando a consciência do que tinha acontecido no dia anterior. Às vezes, eu desejava desaparecer do mundo, seria maravilhoso ficar apenas tomando sol com um copo de suco e um guarda-chuva nas Bahamas. Encontrei o meu celular em cima da mesinha de cabeceira e li todas as 300 mensagens que a Holly tinha mandado, respondi contando detalhadamente os pontos principais da viagem e da calorosa recepção da minha família, não deixando de mencionar o beijo na bochecha demorado do meu ex-noivo.
O abriu a porta do quarto vestindo uma camisa branca e um bermudão verde, eu já estava sentada na cama quando ele checou o relógio de pulso antes de falar enquanto eu o encarava.
- Bom dia! – sorriu.
- Bom dia. – levantei da cama, me espreguiçando.
- Você tem que descer para tomar café, hoje é dia de baseball. – suspirei em concordância enquanto ele se jogava na cama.
- Você não vai invadir o banheiro, né? – perguntei entrando no banheiro, sonolenta demais até para trancar a porta.
- Eu não sou um maníaco. – respondeu ofendido e voltou a sua atenção para o seu celular quando eu encostei a porta.

Entrei na cozinha vestida com um short e uma camiseta qualquer, coloquei um pouco de chá na caneca que eu tinha desde que me entendia por gente, e me sentei na cadeira. Mal tinha colocado um pouco de cereal em uma tigela quando a Zoey entrou igual um furacão no cômodo.
- Pode me contanto tudo! – sentou ao meu lado e eu respirei fundo, já tendo que lidar com a minha prima logo cedo.
- O que você quer saber? – perguntei.
- TUDO! – ela gritou e eu olhei para ela assustada com seu surto. – Porra! Ele tá muito diferente desde a última vez que o vi, e eu ainda não consigo acreditar que vocês estão juntos, isso era impossível.
- Ele não tá tão diferente assim, só tá mais... – procurei pela palavra certa. – Maduro.
- Desde quando vocês estão juntos? – perguntou e eu despejei um pouco de leite em cima do cereal.
- Não faz tanto tempo assim... – Eu não queria mentir para a minha prima, então acabei sendo vaga demais contando as mesmas coisas que o tinha contado para os meus pais no dia anterior.
- Isso é inacreditável, quem te viu e quem te vê. – riu. – Me conta a parte boa, como é o sexo? Porque, tipo, esse cara é um deus na boca das mulheres.
- Ele comeu todas as menininhas da cidade, obrigada por me lembrar. – Fiz uma careta e voltei a comer.
- Aaaaaaah, não fica assim, ele é todo seu agora. Mas me conta, como é?
- Meninas, parem de fuxicar, tá na hora do jogo. – Matt invadiu a cozinha para nos chamar. Salva pelo gongo!
Engoli o meu cereal e puxei a Zoey para o gramado, enquanto o e o Tony dividiam os times.
- Eu vou ficar com o time vencedor, ops, do . – provoquei assim que me juntei a eles.
- Vai sonhando, irmãzinha. – Tony respondeu.
- Pensando bem, toda vez que a estava na mesma equipe que o , por mais que fosse raro na época, eles sempre ganhavam. – Sophia falou e eu constatei que aquilo era mesmo verdade.
- O choro é livro, Tony. – falou e jogou a moeda para o alto, íamos decidir quem começa na cara ou coroa.
Começamos na defesa e eu me pegava admirando como os músculos do braço do Matthew contraíam toda vez que ele rebatia a bola. Em uma dessas, eu quase deixei a bola passar e o quase me esganou pedindo para que eu prestasse atenção. Prestei atenção, não na bola, e sim no Matt. Ele estava absolutamente lindo com aquele calça dobrada na canela e uma camisa polo.
Quando chegou a minha vez de rebater, não me surpreendi ao saber que o Matt era o arremessador. Fui até o pegar o bastão e ele me encarou feio, ciente de todos os meus deslizes.
- Perdemos. – falei baixinho.
- O jogo ainda não acabou. – sorriu sarcástico. – Eu acho melhor você acertar essa bola ou eu não vou me responsabilizar pelo seu castigo.
Semicerrei os olhos, indignada com as promessas que a sua última frase carregava, e me posicionei, eu precisava focar naquela bola para ganharmos. Na bola. foca na bola de baseball e não na do arremessador.
- Manda. – falei e ele arremessou, magicamente eu acertei a bola em cheio e ela voou, e eu corri e corri e corri.
- Ganhamos! – gritou e eu continuei correndo até ele, pulei em seus braços e pela velocidade em que eu estava era para ambos estarem esparramados no chão, mas ele me segurou forte contra ele.
- Você tá muito forte, hein. – brinquei quando ele me colocou no chão depois do nosso abraço de vitória.
- Eu não estou, eu sou. – sorriu satisfeito. - Sabia que você ia conseguir.
Sorri também e caminhamos para a mesa do almoço que estava montada na varanda, peguei uma garrafa de água para me refrescar e bem na minha frente estava uma cena digna de propaganda. O Matt podia muito bem abrir a droga da garrafa de água e tomar igual todas as pessoas normais fazem, mas não, ele tinha que jogar o conteúdo no rosto e molhar o cabelo como se ele fosse um maldito modelo. Eu simplesmente não conseguia desviar o olhar.
- Já chega! – quase gritou furioso e todos olharam para ele de imediato. – Vem aqui. – chamou e eu o acompanhei até o gramado novamente, já impaciente com o que ele tinha a dizer que tinha que ser dito debaixo do sol quente do meio dia.
- O que foi? – perguntei cruzando os braços.
- O que foi? – ele perguntou sarcástico. – Você está praticamente em cima de uma bandeja pro filho da puta do seu ex e você pergunta o que foi? – seu tom de voz estava alto e todo mundo ao redor da mesa nos encarava.
- Dá pra você falar baixo? Todo mundo tá olhando. – pedi ainda mantendo uma calma que eu não sabia que existia.
- Que se foda! Não sou eu que tô dando mole pro meu ex sendo que, essa parte é novidade, presta atenção, EU TENHO A PORRA DE UM NAMORADO! – berrou e eu tampei a sua boca com os olhos arregalados.
- Abaixa esse tom pra falar comigo! – falei alto demais. – Você não é o meu namorado de verdade pra vir tirar satisfação comigo. Isso é tudo atuação.
- Atuação? Que seja, mas eu não quero sair como o “chifrudo” da história. – fez aspas, ainda irritado. – E se enxerga, , você veio com o papo de que já tinha superado, não sei o que você superou se ainda continua babando pelo cara que te humilhou dois anos atrás, não se esqueça disso. – encolhi-me diante de suas palavras porque ele estava certo, a minha visão foi embaçando aos poucos e abaixei a cabeça para que ele não me visse assim. – Desculpa, eu não queria... Eu só queria te alertar que você tá fazendo papel de trouxa e... Desculpa de novo.
- Tanto faz. – tentei me afastar dele, tentando engolir o choro que se formava na minha garganta, mas a sua mão me puxou para trás novamente. – Me solta! – gritei. – Me solta. – repeti mais baixo e uma lágrima escorreu.
Não tive nem tempo de raciocinar quando os seus lábios já estavam nos meus, ele segurava o meu rosto com as duas mãos e secou a lágrima que tinha caído. Eu não sabia por quantos segundos ficamos paralisados na mesma posição, eu só sabia que se era para beijar, era para fazer direito. Deixei que a sua língua invadisse a minha boca, deixei que a minha brincasse com a sua, deixei que os nossos corpos se aproximassem, deixei que os meus braços o abraçassem.
Uma salva de palmas fez com que parássemos com o show e nos separarmos minimamente, ainda segurava o meu rosto e encostou a sua testa na minha, abri os meus olhos e encontrei os seus me analisando.
- Promete para mim que você não vai mais derrubar nenhuma lágrima por aquele babaca? – perguntou baixinho e eu concordei com a cabeça. – Então me dá um sorriso para voltarmos para lá.
Dei um sorriso forçado e ele sorriu me soltando, respirei fundo e olhei para a mesa vendo que todos ainda nos olhavam.
- Essa é a minha garota. – segurou a minha mão e me puxou para a plateia.
- Como você é dramático. – falei repassando a cena anterior.
- Vai dizer que você não gostou? – olhou para mim com um sorriso sacana no rosto e eu lhe dei um tapa no braço de brincadeira. – Acho que isso foi um sim.
- Idiota!
- Será que podemos almoçar agora? – Zoey perguntou assim que nos acomodamos na mesa e todo mundo voltou a fazer o que faziam antes.
- E tinha alguma coisa te impedindo? – rebati achando graça da expressão que ela tinha feito.
- Está louca, querida? Vocês são, definitivamente, o melhor casal. É legal ver que tudo continua o mesmo, só que com um toque de romance. – balancei a cabeça mordendo os lábios para não rir enquanto me servia com um pouco de purê de batatas. – , como é essa coisa de amor e ódio, tapas e beijos? – ela voltou a sua atenção para o .
- Sexo de reconciliação é a melhor parte. – quase cuspi a comida que estava na minha boca quando ele respondeu. Meus pais estavam almoçando, cacete! Lancei um olhar matador para ele, que apenas piscou. – Acredite.
- Imagino. – Zoey disse.
Dei uma olhada na mesa vendo que meus pais provavelmente nem tinham ouvido o nosso diálogo, porque estavam mais ocupados conversando sobre hipoteca com os vizinhos que foram convidados para o almoço. Mas alguém tinha prestado atenção, e esse alguém era o Matt que me encarava como se não acreditasse no que via e ouvia. Afinal, passei seis anos da minha vida xingando o ser que agora eu teoricamente fazia sexo de reconciliação. Era inacreditável até para mim.

Depois do almoço, eu, Zoey e Sophia nos reunimos na sala para combinarmos o chá de panela, que na verdade seria mais um chá de lingerie e outras coisinhas a mais para apimentar o casamento. Obviamente, os homens não estavam inclusos nessa brincadeira.
- Então, fica combinado assim: terça-feira de noite na casa da Sophia, vinho liberado e queijos de todos os tipos. – citei a conclusão de uma hora e meia de discussão sobre o que fazer. – Eu fico responsável pela bebida e a comida, a Sophia combina com as amigas dela, e a Zoey ajuda com a arrumação.
- Eu já tenho bastante ideia para a arrumação. – a morena sorriu de lado e a Sophia revirou os olhos. – Claro que eu vou chamar uns gogoboys né, pelo amor que vocês têm ao Magic Mike.
- Vocês estão loucas? – minha cunhada perguntou como se tivesse escutado a coisa mais absurda de todos os tempos. – Se o Tony descobrir, eu tô na merda.
- Ele não vai descobrir. – tentei acalmá-la.
- Credo, eu sou a única que ainda tem os parafusos no lugar? Deus me livre arrumar um homem para me prender tanto assim. – Zoey queixou-se e eu olhei para ela gargalhando.
- Eu tô pouco me fodendo para o que o vai ou não pensar ou fazer, mas a noiva aqui precisa se acalmar.
- Não quero discutir com o meu futuro marido poucos dias antes do meu casamento por causa de um chá de panela. – Sophia reclamou.
- São só homens. – Zoey começou como se quisesse convencer uma mocinha a sair do convento. – Eles vão entrar na sua casa com roupas super sexys, aí eles vão tirar essas roupas e vão ficar mais sexys ainda, eles vão dançar sensualmente e você vai ficar molhada. Pronto, acabou, é só isso.
Sophia não conseguiu resistir e acabou rindo do pequeno discurso da Zoey.
- Na próxima, a gente tem que fazer surpresa, . – minha prima comentou.
- Que próxima? – levantei uma sobrancelha, que não seja eu.
- Sei lá, quando uma de nossas primas casarem, a Diana por exemplo.
- Você tá de brincadeira? A Diana vai sair correndo, a religião dela não permite tal proeza. – respondi rindo da sugestão dela.
- Então trate de se casar logo, . – Sophia falou.
- Olha, eu acho que vocês já perderam a chance de fazer algo do tipo há dois anos. – dei de ombros.
- Tudo bem, eu concordo desde que seja supersecreto. – a loira finalmente aceitou.
- Acho que assim vai dar até mais emoção. – Zoey disse animada e pegou um DVD na estante da minha mãe. – Que tal vermos “Como perder um homem em dez dias”?
- Tô dentro, vou fazer pipoca. – consenti me levantando para preparar a pipoca.

Depois que o filme acabou os meninos se juntaram a nós na sala com garrafas de cerveja na mão e o ofereceu uma para mim quando se sentou na poltrona do meu pai. Eu e as meninas estávamos sentadas no sofá ainda suspirando pelo final do filme e nos perguntávamos se homens românticos ainda existiam. Foi quando o Tony resolveu intervir.
- Vamos agitar isso aqui, vamos brincar de “quem lembra?”.
- Que brincadeira é essa? – Zoey perguntou.
- A gente fala qualquer coisa que se passa na nossa cabeça com mais de 3 anos atrás. – respondeu e eu entendi o porquê de mais de 3 anos atrás, já faz dois anos que não nos reunimos dessa maneira e com certeza ele não queria que detalhes do meu noivado viesse a tona.
- Você inventa cada brincadeira, Tony. – disse indiferente.
- Ok, então, quem começa? – Sophia pegou uma garrafa de cerveja na mesa, álcool era sempre o necessário para tais brincadeiras, ainda mais aquelas que mexiam com o passado. Então tomei um gole da minha cerveja.
- Eu começo. – falei. – Quem lembra quando o Tony fez a primeira tatuagem dele e chorou igual um bebezão? – sorri com aquela lembrança doce de quando o meu irmão tatuou um mapa com uma bússola em cima no antebraço.
- Em minha defesa, eu chorei de emoção de finalmente ter transformado o meu melhor desenho em tatuagem. – contestou. – Minha vez, quem lembra quando a voltou com a roupa toda rasgada para casa depois do primeiro dia de aula na faculdade?
- Maldito trote, eu amava aquela blusa do Oasis. – proferi indignada.
- Eu lembro quando aqueles caras te chamaram de gostosa no estacionamento. – Matt comentou e a Zoey gargalhou.
- Aposto que a realizou o sonho dos veteranos aquele dia.
- Cala a boca, Zoo. – mencionei o apelido que eu usava quando queria irritá-la.
- Gostaria de aproveitar o momento para dizer que a ideia foi minha. – se pronunciou e todos arregalaram os olhos.
- O quê? – perguntei revoltada.
- Dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas você estava realmente “quente” naquele dia. – provocou e a sala toda ria enquanto eu o encarava furiosa.
- Seu filho de uma... – evitei o palavrão. – Era a minha blusa favorita! Eu vou te esganar. – Levantei decidida a esganar ele de verdade quando ele me puxou para o seu colo, anos atrás ele estaria correndo de mim porque ele sabia que eu não brincava com as minhas ameaças.
- Matt está um pouco puto com isso, mas eu não me arrependo do que fiz e falei agora, . – sussurrou no meu ouvido e eu senti o meu rosto queimar.
- Eu ainda vou te matar, anota isso. - murmurei sarcástica e o Matt limpou a garganta.
- Quem lembra quando o apanhou na faculdade? – Matt falou e eu soltei uma risada, claro que ele tinha que dormir com uma garota que tinha namorado, e o cara lutava MMA, mentira, ele jogava futebol americano mesmo.
- Foi demais, eu quase comprei pipoca pra assistir. – comentei.
- Há há há, engraçadinha. Volta pro chão! – falou e eu voltei mesmo para o chão, ficar no colo dele não era uma boa ideia de qualquer forma.
- Essa foi muito boa! – Zoey ainda gargalhava. – Minha vez, quem lembra quando o Matt caiu da escada de madrugada e ops, não era pra contar pra todo mundo, né?! – minha prima soltou essa de propósito, porque essas brincadeiras sempre tinham que chegar nesse nível baixo.
- Espera, por que o Matt caiu da escada de madrugada? – Sophia perguntou rindo e ele revirou os olhos.
- Porque na época era proibido ele passar a noite aqui e, bem... – Tony contou e a Sophia murmurou um “ah” em entendimento.
- Quem lembra quando a Zoey não gostava da Sophia? – falou como quem não queria nada e elas riram.
- Ainda bem que o tempo passa, porque essa menina era ridícula. – Zoey falou e abraçou a Sophia quanto esta a fuzilou com os olhos.
- Como vocês eram falsas, fala sério. – meu irmão comentou novamente.
- Minha vez, quem lembra quando a colocou fogo nas roupas do e ele teve que ficar só de cueca trancado do lado de fora enquanto a rua estava lotada. – Sophia falou e todo mundo gargalhou.
- Meu Deus, aquela foi uma das minhas melhores armações. – falei e ele estava rindo também.
- Agora você já sabe da minha vingança. – disse e de repente tudo se encaixava; como eu pude ser tão burra? Ele esperou dois meses para ter a sua vingança, que por sinal foi um sucesso.
- Vocês eram duas obras do demônio quando brigavam. – Matt proferiu rindo.
- Ei, ela queimou a minha calça jeans favorita, agora ela sabe que nesse quesito estamos quites. – ele se defendeu.
- Eu te odeio. – cruzei os braços fingindo indignação, mas tudo não passava de brincadeira, porque afinal se passaram anos.
- Vocês levavam essa coisa de se odiar bem a sério. – Sophia comentou como se tivesse entrado na família ontem, ela realmente não deve saber da metade de nossas proezas já que está junta de verdade com o meu irmão tem 5 anos.
- Eram as melhores brigas, senti falta quando o foi embora. – Tony falou.
- Então você sentia saudade das brigas que eu tinha com a sua irmã e não de mim? – perguntou ofendido. – Cara, acabou o nosso caso.
- Que isso, meu amor? É claro que senti a sua falta, pra caralho! – meu irmão pulou em cima do .
- Quem é o próximo? – perguntei.
- Quem lembra... – começou. – Quando a bebeu até cair na festa da fraternidade. – tampei o meu rosto sentindo vergonha de mim mesma por não me lembrar de nada daquela noite, só me lembro de encher a cara com o desgraçado e acordar no dia seguinte com o Matt do meu lado encarando o teto, eu nem lembrava que cama era aquela.
- Eu não me lembro de nada, só lembro o que o Matt me contou. – respondi derrotada e o Matt sorriu satisfeito enquanto o estava com uma feição desagradável.
- A gente briga feio e você enche a cara até não lembrar de nada, foi o seu marco histórico, . – Matthew apontou sorridente.
- Tudo bem, eu vou pegar o violão e o pode cantar pra gente. – Tony se pronunciou na tentativa de quebrar a tensão que tinha ali e eu me arrependia ainda mais de não me lembrar de nada sobre aquela noite, eu questionei o Cooper anos atrás e ele disse que nada tinha acontecido, além de estar puto da vida. Com certeza eu devia questioná-lo novamente, outra hora talvez.
As meninas começaram uma conversa qualquer com o Matt e eu me aproximei do sentando no braço da poltrona dele, fiz um cafuné em seu cabelo para ver se ele relaxava e ele até fechou os olhos em resposta ao carinho. Anthony apareceu com o violão e o entregou, era o único que tocava violão e cantava muito bem ali.
- Senta aqui, eu vou sentar no chão. – ele pediu e eu concordei, não dava para ele tocar o instrumento sentado na poltrona.
Ele se sentou entre as minhas pernas e afinou as cordas antes de tocar alguns acordes aleatórios.
- Pedidos para hoje, moças?
- Change The World. – meu irmão reivindicou.
- Tony, eu sei que você é uma moça, mas deixa as que não têm pinto pedir.
- Eu quero essa, do Eric Clapton, tá ótima. – Sophia falou e começou a tocar, era incrível como ele guardava tantos acordes e letras na cabeça.
Acabou que ele só tocou e o casal que cantou a música, eles sabiam a letra de cor visto que o Tony amava a música. pediu para a Zoey escolher uma música e eu ficaria por último, já que só as meninas podiam fazer pedidos especiais.
- Quero o casal cantando One do U2, a versão com a Mary J. Blige é maravilhosa.
- Eu não sei quem cantar essa música inteira. – Tony reclamou e a Zoey deu um tapa na cabeça dele.
- Não vocês seu idiota, eu quero a e o no vocal. – ela pediu.
- Oi? - perguntei querendo fugir daquela sala. – Essa música é muito bonita pra ser estragada pela minha pessoa, melhor o cantar sozinho.
- Nem pensar. – ela falou balançando a cabeça. – Você só é desafinada quando quer, , vocês vão dar um show... De novo. – concluiu.
me entregou o celular dele com a letra da música para que eu o acompanhasse e um pedido mudo escrito em seu olhar, concordei relutante e ele começou os primeiros acordes.
- Is it getting better or do you feel the same? (Está melhorando ou você ainda sente a mesma coisa?) – ele fez a introdução com a voz rouca e um arrepio subiu pela minha pele. – Will it make it easer on you now you got someone to blame? (As coisas vão ficar mais fáceis pra você agora que tem alguém para culpar?)

You say one love, one life
(Você diz um amor, uma vida)
It’s one need in the night
(É uma necessidade na noite)
One love get to share it
(Um amor, temos que compartilhá-lo)
Leaves you darling, if you don’t care for it
(Ele te abandona querida, se você não cuidar dele)

Ele cantou o refrão e no final ele brincou falando o meu nome em vez de “Mary”.
- Did I disappoint you? (Eu desapontei você?) – cantei sorrindo enquanto ele olhava para cima, para mim. – Or leave a bad taste in your mouth? (Ou deixei um gosto ruim na sua boca?)

You act like you never had Love
(Você age como quem nunca teve amor)
And you want me to go without
(E você quer que eu continue sem nenhum)
Well it’s too late, tonight
(Bem, é muito tarde, esta noite)
To drag the past out into the light
(Para trazer o passado à tona)
We’re one but we’re not the same
(Somos um, mas não somos os mesmos)
We get to carry each other, carry each other
(Temos que carregar um ao outro, um ao outro)

- One, one. (Como um só.) – Ele cantou junto comigo essa parte e a nossa pequena platéia aplaudiu, para um dia só são muitos aplausos e eu estava surpreendida com a minha própria voz.

Have you come here for forgiveness?
(Você veio aqui pelo perdão?)
Have you come to raise the dead?
(Você veio levantar os mortos?)
Have you come here to play Jesus?
(Você veio aqui brincar de Jesus?)
To the lepers in your head?
(Para os leprosos em sua cabeça?)

Cantar essa parte da música me machucou, mas o continuou tocando e eu estava finalmente entendendo que a música tinha tudo a ver com a nossa realidade, era tudo uma coincidência e aquilo era incrivelmente assustador.

Well did I ask too much? More than a lot?
(Bem, eu pedi demais? Mais do que muito?)
You gave me nothing, now it’s all I got
(Você não me deu nada, agora é tudo que eu tenho)
We’re one but we’re not the same
(Somos um, mas não somos os mesmos)
Simply hurt each other then we do it again
(Nós simplesmente ferimos um ou outro, e estamos fazendo de novo)

Mantive o fôlego para continuar a parte que eu mais gostava na música.

You say love is a temple, love is a higher law
(Você diz amor é um tempo, amor é a lei suprema)
Love is a temple, love is a higher law
(Amor é um tempo, amor é a lei suprema)
You ask me to enter but then you make me crawl
(Você me pede para entrar, mas então me faz rastejar)
And I can’t keep holding on to what you got
(E eu não posso continuar me segurando ao que você tem)
Cause all you got is hurt
(Porque tudo o que você tem são feridas)

Parei para respirar e então todo mundo começou a cantar junto, e eu não sabia se sorria por aquele momento ou se chorava.

One love. One blood. One life.
(Um amor. Um sangue. Uma vida.)
You got to do what you should
(Você tem que fazer o que deve)
One life with each other
(Uma vida entre si)
Sisters and my brothers
(Irmãs e meus irmãos)
One life but we’re not the same
(Uma vida, mas não somos os mesmo)
We get to carry each other, carry each other
(Temos que carregar um ao outro, um ao outro)
One, one...
(Como um só...)

- One love. (Um amor.) – finalizei e todos nós aplaudimos; inclusive os meus pais que apareceram na porta.
Dei um beijo no rosto do entregando o seu celular e sussurrei para ele o meu pedido, e foi assim que fechamos com chave de ouro a nossa rodada de músicas. I’m yours do Jason Mraz. Chupa essa, Matthew.


Capítulo 6


O final da noite se resumiu em comida, bate-papo e War, já que não tinha muito que se fazer em um domingo à noite. O curioso foi que eu ansiava a hora em que todo mundo iria dormir e eu podia me ver livre da atuação por um tempo, eu não sabia o quanto aquilo era cansativo. Jogar, brigar, beijar, cantar, fingir. Eu queria urgentemente um tempo só para mim, eu queria falar um pouco de mim, mas tudo agora envolvia o . E eu sabia que era um ponto positivo todos estarem falando sobre nós, eles acreditavam que éramos mesmo um casal. Isso é o principal, não?
- Amor, vou subir e tomar um banho, ok? – chamou a minha atenção, enquanto eu olhava para a janela da sala ainda envolvida em pensamentos depois de perder a última partida de War.
Apenas confirmei com a cabeça olhando cansada para ele, esfregando a minha nuca em busca de algum conforto. Assim que ele sumiu de vista, Zoey prontamente sentou-se ao meu lado e me abraçou. Às vezes eu achava que tínhamos algum tipo de conexão sobrenatural. O meu irmão também foi para o seu quarto com a namorada, o Matt também aproveitou a deixa para tomar banho antes da minha prima e meus pais já estavam dormindo, visto que se recolhiam cedo aos domingos.
- Me conta o que tá se passando nessa cabecinha. – ela perguntou e eu dei de ombros.
- É complicado ficar no mesmo lugar que o e o Matthew. – respondi.
- Só isso?
- Não sei, estou cansada. – reclamei.
- E...? – incentivou e eu a encarei com uma cara de interrogação. – Eu sei que você quer falar sobre o Matt.
- Ele é um filho da puta. – proferi o óbvio. – Ele... Anda por aí como se tudo estivesse ótimo entre ele e todas as pessoas dessa família, inclusive, o dono dessa casa que, não sei se você reparou, ignora totalmente a existência dele. Deus, eu amo o meu pai. Mas sabe o que é pior? Que ele me deixou sozinha naquela porra de jantar de noivado sem nenhuma explicação e acha que não deve dar nenhuma satisfação até hoje, porque não é possível...
- Respira, . – Zoey pediu e eu arregalei os olhos, me dando conta do que tinha se passado na minha cabeça desde ontem.
- Eu sou louca! – exclamei e ela gargalhou.
- Disso todo mundo sabe.
- Não, sério, desde ontem eu só tenho pensado o quanto ele ainda continua lindo. – confessei e ela apertou a minha mão, como se quisesse me dizer “vamos, amiga, onde está a sua sanidade?”.
- Por isso você e o brigaram antes do almoço? – deduziu.
- Sim, ele percebeu todos os meus deslizes durante o jogo. Espera! – quase gritei quando me dei conta de uma coisa. – Dava pra escutar a nossa discussão?
- Não. – riu. – Infelizmente, você sabe como gosto de uma treta.
Respirei, aliviada pelo fato da discussão não ter sido ouvida... Ou então adeus, disfarce. Então arrumei um jeito de contornar a situação.
- Seria horrível se o Matt ouvisse que aquilo era sobre ele. – revirei os olhos, eu era patética por ter chegado àquele nível.
- Verdade. – concordou. – Você tem um homem maravilhoso em mãos, não devia estar nem dando trela para o Matt.
- Você tem razão. – admiti e suspirei, cansada até para conversar sobre aquilo.
- Agora que estamos entendidas, quero saber tudo sobre a vida em Nova York. – ela falou animada.
- É maravilhosa, eu queria muito que você me visitasse, sua vadia! – comecei e ela deu uma risada se desculpando.
Contei tudo sobre Nova York para a minha prima, sobre o que eu mais gostava e odiava, sobre os primeiros eventos que promovi no início da Ruby, sobre o meu apartamento que era mais do que incrível para uma pessoa que mora sozinha, sobre as celebridades que tinha conhecido no trabalho. Foi gratificante contar tudo a ela. Bom, quase tudo. Eu me sentia um pouco mal por esconder isso dela, mas não era um assunto questionável no momento.
Ficamos uma boa hora conversando e já estávamos bocejando de sono, subimos a escada nos arrastando igual fazíamos na adolescência quando ficávamos vendo série até de madrugada. Ela foi para o seu aposento rezando para que o seu colega de quarto já estivesse dormindo e eu entrei no meu, esperando o mesmo, mas o ser estava estirado na cama só de cueca.
- Do seu lado da cama, por favor. – passei direto por ele entrando no banheiro, precisava de um banho e uma boa noite de sono. E espaço.
Saí do banheiro igual um zumbi, pronta para deitar e fechar os olhos. E foi exatamente isso que fiz, apaguei e a segunda noite no inferno que eu chamava de Califórnia, foi a melhor noite bem dormida em todos os tempos.

Acordei sozinha novamente e me espreguicei, jogando no travesseiro ao lado. Inalei aquele cheiro de perfume masculino bom até demais, me dando conta do quanto eu estava sendo uma merda de colega de quarto, acompanhante, e o caralho a quatro. Ele arrumou a cama ontem e apagou a luz sem eu ao menos perceber tais feitos, ele estava realmente se esforçando para aquilo dar certo e tudo o que eu sabia fazer era... Não dar a mínima? Passei grande parte da vida o odiando, era tão natural anos atrás. Mas não estávamos mais no passado, agora somos duas pessoas maduras e melhores. E desde quando maturidade significa que as coisas estão melhores, ? Se ele estava me ajudando tanto assim, não custava nada eu tentar ser agradável, no mínimo.
Olhei as horas no meu celular e ainda eram 7 horas da manhã, levantei e fui para a cozinha me perguntando por que diabos o já estava de pé naquele horário. Acabei encontrando o meu irmão debruçado no balcão da cozinha, quase dormindo sentado.
- Tony. – falei um pouco alto para despertá-lo e ele deu um pulo, foi inevitável não rir.
- Hm? – resmungou esfregando os olhos.
- Por que você não vai dormir na cama?
Peguei um copo e me servi com um pouco de água, satisfazer a minha sede e voltar a dormir era o meu plano.
- Sei lá, tava aqui refletindo. – respondeu rindo de si mesmo. – Acho que vou subir.
Balancei a cabeça concordando que subir era uma ótima ideia, mas achei válido perguntar para o Tony se ele sabia onde se meteu o .
- É... – fiz uma careta quando fui lavar o copo e a água estava gelada. – Você viu o agora de manhã?
- Não. – ele respondeu já na porta da cozinha, só de cueca e uma camisa branca. – Ele não está dormindo? – perguntou estranhando a minha pergunta.
Neguei com a cabeça e cruzei os meus braços, imaginando todos os lugares que ele poderia estar. Tony deu de ombros e sussurrou com um tom de diversão um “ele deve ser sonâmbulo”. Claro, como eu não tinha pensado nisso? Fui descalça mesmo até o quintal e não encontrei nada, andei até a quadra de basquete que ficava um pouco mais acima e nada. Caminhei até a frente da casa e a rua estava completamente vazia, ou as pessoas estavam se arrumando para trabalhar ou dormindo, e eu estava aqui procurando pelo meu querido namorado.
Bufei irritada e um lampejo se passou pela minha cabeça quando a casa do vizinho entrou em foco. Dei a volta por trás da casa até onde tinha uma cerca mais baixa e encontrei o balanço antigo no mesmo lugar de sempre, nele estava a pessoa que eu tanto procurava. Ele costumava me empurrar quando éramos crianças, felizes, sem nenhuma preocupação ou responsabilidade.
- . – chamei e ele levantou a cabeça, que estava escondida em suas mãos, ele tinha os cotovelos apoiados na perna e uma expressão indecifrável no rosto. – Isso é invasão de propriedade.
Ele continuou me encarando com uma cara de nada e eu levantei as mãos desistindo de alertá-lo que aquilo era crime, não lhe interessava mesmo. Pulei a cerca, e fui até onde ele estava com a grama pinicando em meus pés descalços.
- Sempre dizem que a grama do vizinho é mais verde. Bom, tá comprovado, a grama daqui é mais verde e bem cuidada. – tentei fazer um trocadilho assim que me aproximei dele.
- Meu pai ficaria orgulhoso com o gramado. – falou depois de incontáveis segundos em silêncio e eu já começava a ficar preocupada com a sua falta de reação. Então, tudo começou a fazer sentido, ele sentia falta do pai.
- Ah, sim, ele teria gostado de ver que está bem... Verdinha. – comentei sem jeito me sentando no balanço ao seu lado.
nutria um ódio irreparável pela sua mãe, sim, é mais fácil começar a contar sobre a sua mãe. Ela era amiga dos meus pais antes de tudo, talvez ela seja responsável pela forte amizade do seu filho com o meu irmão, talvez ela tenha dado uma segunda família para ele. O pai dele era bem fechado e falava conosco por educação, ou não sei, mas o era bem ligado a ele. A relação dos seus pais não estava indo muito bem quando a mãe dele finalmente saiu de casa e se mudou para o Texas, onde se casou de novo e construiu uma nova família, mas o principal motivo pelo qual o não conseguiu olhar em sua cara por anos foi porque ela os deixou no momento em que o seu pai foi diagnosticado uma doença fatal.
O Sr. tratou e ainda sobreviveu por alguns anos, mas um pouco depois do completar 21 anos a doença voltou com tudo e dessa vez ele não resistiu. A sua morte deixou o único filho devastado, porém tinha algo que não ficou destruído: o gramado.
Lembro como se fosse ontem do dia que o apareceu na minha casa depois da sua formatura, um ano depois, dizendo que estava indo embora, tinha vendido a casa para alguém que ele tinha certeza que cuidaria da mesma e que não aguentava mais respirar o ar pesado da Califórnia. Ele e o meu irmão choraram igual dois bebês e eu me sentia culpada por estar feliz com a sua despedida.
- Sente falta daqui? – perguntei olhando para os morros, a visão privilegiada era apenas um charme a mais para o balanço.
- Não. – respondeu de imediato. – Eu só sinto falta dele. – completou e eu balancei a cabeça. – Senti falta das pessoas também, digo, vocês.
- Vocês? – repeti, eu estou inclusa na sua saudade?
- Sim. – ele me encarou. – Senti sua falta, era bom ter alguém pra implicar.
- Você já foi melhor, . – contestei sentindo a tensão do momento se dissipar e me senti mais a vontade para falar. – Eu não conheci direito o seu pai, porque ele era bem fechado, mas eu lembro que vocês eram super juntos e eu sinto muito.
Respirei fundo e agachei na sua frente, me apoiei na sua perna e coloquei uma mão no seu rosto. Ele esteve sozinho por tanto tempo e eu queria estar ali para ajudá-lo pelo menos uma vez na vida, nem que seja para confortá-lo. Seus olhos azuis tinham um brilho a mais quando alcançaram os meus.
- Eu sinto muito de verdade, eu não pude estar no enterro porque eu era uma babaca e nem para te oferecer condolências eu fui capaz, mas eu estou aqui agora. – sorri fazendo um carinho em seu rosto. – Um pouco atrasada, mas estou.
Ele estava realmente emocionado, eu nunca tinha o visto daquela maneira e foi de partir o coração quando ele soluçou. Puxei o seu corpo para um abraço e eu mesma não resisti quando lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto também, eu era chorona demais.
- Tudo bem chorar. – sussurrei me lembrando de uma música do Ed Sheeran e cantei alguns versos baixinho. – Even my dad does sometimes, so don’t wipe your eyes. Tears remind you you’re alive.
Sem querer, acabei rindo da minha falta de habilidade até para confortar pessoas, olhei para a parte da frente do gramado e encontrei o meu possível maior pesadelo. Era um monstro sob quatro patas e um sorriso não muito bonito no rosto, ouvi o primeiro rosnado e me afastei devagar de .
- , acho melhor a gente sair daqui porque alguém não tá muito feliz com a nossa presença. - constatei o mais baixo que eu pude, tentando sorrir para o Rottweiler como se isso amenizasse um pouco a situação, mas eu tinha certeza que o sorriso tava mais para careta.
- O quê? Quem? – franziu a testa não entendendo o meu estado e eu virei a sua cabeça para trás. – Puta merda! – exclamou alto e eu lhe dei um tapa.
Levantamos-nos lentamente procurando não alarmar mais o cachorro que parecia ser feroz, ou pelo menos, tinha capacidade para isso.
- Ok, a gente sai correndo no três. – revelou o seu genial plano e eu concordei com a cabeça. – Um...
- TRÊS! – gritei correndo em direção à cerca e o cachorro começou a nos perseguir latindo sem parar.
O homem agarrou a minha mão e puxou me dando suporte e mais velocidade, quando enfim chegamos à cerca eu já podia sentir o cachorro enfiando os dentes no meu calcanhar, pulei de qualquer jeito para o outro lado, caindo sentada no chão. No mesmo instante tive um ataque de riso e me joguei para trás não me aguentando, passou perfeitamente pela cerca e me estendeu a mão para me ajudar a levantar, porém como eu não estava no meu estado normal eu o puxei fazendo ele cair no chão também.
- ! – resmungou, mas logo deitou de barriga para cima e começou a gargalhar me acompanhando.
- Nós somos loucos. – pronunciei depois de tentar normalizar a minha respiração umas 10 vezes.
- Aquele cachorro é louco. - rebateu e eu me dei conta que até o bichinho já tinha se acalmado.
- Você invadiu a casa dele. – corrigi.
- Você também invadiu. – falou virando a cabeça para mim.
Olhei para ele e fiquei satisfeita em ver que ele já tinha se recomposto, entre chorar e rir sem parar, eu prefiro mil vezes rir sem parar.

- Preciso de um banho. – resmunguei quando encarei a minha mão suja depois de passar pela minha bunda, agora dolorida, ao levantar do chão.
- Graças a você eu também preciso. – falou se levantando.
- Graças a mim? Será que tenho que te lembrar que quase ser devorada por um cachorro é culpa sua? – protestei indignada, não era possível que ele tava reclamando de algo que ele mesmo causou.
- Você veio até aqui porque você quis, . – respondeu me dando as costas e voltando para a casa.
- Inferno! – suspirei, claro que aquele cara sentimental de minutos atrás era o mesmo de sempre, quase tinha me esquecido. – Não perco mais o meu tempo me preocupando com você, então. – falei um pouco mais alto para que o mesmo me escutasse.
- Legal, agora você se preocupa comigo? Quem é você e o que fez com a ? – ele virou para mim e andou de costas apenas para cuspir acusações.
- Você some às 7 horas da manhã e não quer que eu me preocupe? – revirei os meus olhos. – Tudo bem, se você quer à moda antiga. – respondi passando por ele e abrindo a porta da cozinha, que, diga-se de passagem, eu queria socá-la na cara dele.
Eu podia prever que logo na manhã que eu tentasse ser simpática e demonstrar um pouco de compaixão para com o ser que o meu irmão chama de melhor amigo ele seria totalmente do contra. Minha mãe já estava na cozinha fazendo o café da manhã e percebeu que eu não estava muito feliz no momento, então me analisou de cima a baixo com uma cara de quem queria entender o que tinha acontecido para eu estar suja de terra, quando o adentrou a cozinha. Uma pena não poder ter feito a minha vingança e fechado a porta com força antes que ele entrasse.
- Ok, entendi. – ela segurou o riso e eu não sabia se me escondia ou enforcava o ali mesmo.
- Não é isso que você está pensando, Dona Amy, isso que a senhora está vendo é o resultado de uma fuga ao dinossauro que o vizinho tem porque alguém aqui andou invadindo domicílios. – tentei explicar a situação para minha mãe, mas tudo que o fez foi rir da minha cara.
- Não era um dinossauro, para de ser exagerada.
- Se as minhas malas são monstros para você, aquele cachorro é um dinossauro para mim! – tratei logo de responder e bufar irritada, era tão cedo e eu já estava sem paciência.
- O Hades? – ela perguntou.
- Olha isso, o cachorro ainda tem o nome do deus dos mortos. – comentei decidida a deixar aquilo tudo pra lá, tomar um banho e dormir de novo, até a hora de ir ao supermercado comprar as coisas para a pequena festa de lingerie, fora que ainda precisava comprar o mesmo para a noiva em questão.
- Claro, e você é a Perséfone. – apontou divertido.
- E você agora é especialista em mitologia grega? – cruzei os meus braços e a minha mãe, que ainda achava graça daquilo tudo, balançava a cabeça como se dissesse “continuam os mesmos”.
- Não precisa ser um especi...
- Cala a porra da boca! – cortei logo a sua resposta mal educada e sai da cozinha para não me estressar mais.
- Entre tapas e beijos. – ouvi a voz da minha mãe ecoando enquanto eu subia a escada e comecei a imaginar se ela soubesse que não existiam beijos no meio dos nossos tapas. Eram acordos de paz em meio a uma guerra não aclamada.
Ri sozinha ao perceber que a palavra “paz” estava mesmo dentre os meus pensamentos e só pude encontrá-la durante o meu banho, com a porta trancada.

Saí do banheiro vestindo uma roupa limpinha e pronta para encarar o Hades de novo, só que não. Aquele cachorro eu não queria encarar sem uma cerca entre nós nem coberta de ouro, eu adorava cachorros, mas os gigantes me davam um medo surreal de ser atacada e engolida.
entrou no quarto, ainda imundo, e levantou as duas mãos como se estivesse se rendendo.
- Acho que pra isso dar certo precisamos levantar uma bandeirinha branca. – afirmou o óbvio e eu me segurei para não respondê-lo de forma inadequada.
- Eu estava tentando fazer isso agora pouco e olha como me saí... Com a bunda roxa e um pijama sujo. Sem contar os seus trocadilhos ridículos. – respondi enquanto arrumava a cama, tinha desistido de dormir novamente.
- Não foram ridículos. – falou e eu fingi que ia atacar o travesseiro na sua cara. – Tudo bem, foram desnecessários.
- Que bom que você sabe. – conclui meu serviço contente com o resultado.
- Ér... – ele começou querer falar alguma coisa e eu o encarei, ansiosa. Se ele estava sem jeito, lá vinha... – Obrigado por... Você sabe. – disse encabulado e eu balancei a cabeça com a memória fresca do nosso pequeno momento sentimental.
- Não precisa agradecer, você já está fazendo tanto por mim. – ele procurou com as mãos um possível bolso em sua calça de moletom, aquilo era uma mania sua, deduzi.
- Eu também ajudei a sua mãe a fazer panquecas, foi uma forma que achei de me desculpar com você sobre ser um idiota depois e me certificar que tudo está em ordem. – pronunciou tudo de uma vez só, não era bom com alguns tipos de desculpas também, ele estava nervoso.
- Tudo bem, muito obrigada. – sorri verdadeiramente sobre como aquilo era fofo, a futura namorada dele provavelmente receberá essas panquecas na cama quando ele pisasse na bola.
- Eu vou tomar banho. – sorriu também, mostrando as covinhas e eu apontei o banheiro para ele.
- Fique à vontade. – sugeri e vi a sua expressão mudando como se fosse em câmera lenta. – Guarde essas palavras pra você. – retirei-me do quarto o mais rápido possível, mas ainda escutei a sua risada.
“Você sabe que eu fico”. As suas provocações eu já sabia de cor.
Desci as escadas e a minha cunhada sorria de uma orelha a outra parada na porta que dava para a sala de jantar, franzi a testa me perguntando o que estava acontecendo e ela fez questão de me explicar.
- Boatos que o namorado mais fofo da casa fez panquecas com mel para uma certa pessoa.
- Ah. – senti as minhas bochechas ruborizarem e abri um sorriso.
- Fala pra ele ensinar para o seu irmão, eu agradeço. – pediu e eu pisquei.
- Pode deixar que eu falo.
A mesa do café da manhã estava bonita, com panquecas, frutas e uma xícara de café bem em frente da cadeira que eu costumava me sentar. Espalhado pela mesa estava o bule de café, torrada e outra coisa que eu deduzi ser para o resto da família, já que as panquecas eram para mim. Senti-me especial de todas as formas possíveis, porque eu amava panquecas e adicionando mel era para me deixar louca, e um café da manhã feito por para se desculpar com uma mulher era um marco histórico.
Sentei para devorar o meu prato, convencida de que aquilo era uma bandeira branca, também era um ótimo início... Do quê, eu ainda não sabia dizer.

Capítulo 7


- Eu não pedi pra você me esperar no carro? – perguntei assim que vi 3 pacotes de nachos serem jogados dentro do meu carrinho de compras.
- Concordei em te acompanhar e não de ser o seu motorista. – Abriu um dos pacotes e complementou com a boca cheia. – Aliás, eu adoro nachos. Já estava ficando com fome dentro do carro.
- Você não tem fundo? Acabamos de almoçar. – Revirei os meus olhos colocando mais alguns pacotes de nachos no carrinho e empurrando o mesmo em direção ao caixa.
A festa na casa da Sophia seria no dia seguinte, na terça-feira de noite, e como eu fiquei responsável pela comida, eu tinha que fazer as compras de uma vez. Eu estava prestes a pegar a chave do carro escondido, mas fui pega no flagra pelo - document.write(Cooper) Ele que estava com os braços cruzados olhando aleatoriamente para a televisão posicionada acima de nós, fitou a mulher e demorou alguns segundos para reagir. Eu tinha quase certeza que ele não fazia ideia de quem ela era.
- Eu? – ele franziu a testa tentando se lembrar dela e o sorriso dela murchou um pouco. – Espera, eu vou lembrar... Alicia? Sim! Você é a Alicia, como você tá diferente, pintou o cabelo?
- Meu cabelo tá do mesmo jeito que antes. – ela riu e ele a acompanhou sem graça. Eu segurei a risada, adorando observar aquela cena.
- Tá mais claro... Não sei. Você sabe, sou péssimo com essas coisas – falou a cumprimentando com um abraço.
- Algumas coisas nunca mudam. – Continuou com o sorriso no rosto. – Você ainda tá naquela vida bandida?
- Eu saio da vida bandida, mas ela não sai de mim pelo visto – comentou com o tom de voz um pouco baixo, e eu percebi que ela era mais uma dentre as várias mulheres daquela cidade que já foram pra cama com ele. – Você sabe, Alicia, é um estilo de vida. Não me prendo a ninguém e não quero que ninguém se prenda em mim.
- Sim, achei mesmo que era a sua filosofia, mas um dia ela vai chegar, querido. Só aguarde. – Não resisti e acabei dando uma risada um pouco alta demais, o que acabou chamando a atenção da loira.
- Desculpa. – Fiz um movimento com a mão para que continuasse a conversa. – Não queria atrapalhar.
- Aguarde pelo o quê? – - Você é a irmã do Tony, certo? – balancei a cabeça confirmando, a semelhança física me entregava. – Dê meus parabéns a ele, eu nunca imaginei que veria esse moleque noivo.
- Você o conhece? – estava curiosa para saber como ela os conhecia tão bem. Meu irmão nunca foi nenhum tipo de santo, inclusive tendo o ser humano ao meu lado como melhor amigo.
- Sim, eles sempre invadiam a irmandade onde eu morava na época da faculdade.
- Bem a cara deles.
- Mas isso ainda não explica o que eu quero entender, Alicia. – ela voltou a atenção para um - Você é burro, ou o quê? – questionou e logo eu gostei dela. – Você acha que essa vida de curtição vai durar até quando? Um dia você vai conhecer uma mulher que vai fazer você comer na mão dela, acredite em mim, esse dia vai chegar. Chegou pro Tony, chega pra você também.
Por mais que ele não quisesse acreditar nisso agora, era a mais pura verdade. Ele vai ter uma estabilidade financeira, e quando a palavra estabilidade começa a ser concreta na vida de um homem, significa que já é a hora para procurar uma mulher, formar uma família. Era uma coisa natural, isso chegaria com o tempo e mesmo que ele seja traumatizado por causa da sua mãe, e não quisesse algo sério, ele procuraria por isso desesperadamente. Um dia.
- Entendi, mas por enquanto estou feliz com a minha vida do jeito que tá. – Ele pareceu pensar antes de responder, se ele falasse para ela que ainda estava solteiro, eu realmente não ia me importar.
- Eu sei disso, mas você também pode ser feliz dentro de um relacionamento, você não precisa se prender a ninguém, apenas amar. – Ela terminou o sermão e eu quis aplaudi-la.
- Amar é o problema.
- Você se ama tanto que não consegue amar outra pessoa, né?! – Alicia riu. – Às vezes você já amou ou ama e nem sabe.
- Talvez. – Deu de ombros voltando a sorrir.
A fila andou e a vez dela tinha chegado, ela só tinha uma cesta com poucas coisas dentro, então foi rápido. Despedimos-nos, e antes de ir ela deixou um pequeno recado.
- Você sabe onde eu moro, quando quiser é só me procurar. – Mordeu os lábios segurando um sorriso e piscou para ele, dando um tchauzinho para mim.
- Que mulher atirada. – Ele balançou a cabeça me ajudando a tirar as coisas do carrinho e eu ri.
- Gostei dela, foi um ótimo sermão.
- Então, enquanto você enche a cara de vinho amanhã, vou dar uma passada na casa dela – provocou.
- Pode ir, - É sério, eu não me importo. Se você quiser ir pode ir, não vou te prender por causa dessa coisa... – Apontei para mim e ele várias vezes.
- Você é uma ótima namorada, sabia? – riu enquanto eu paguei as coisas e me ajudou a carregar as sacolas até o carro, que estava estacionado bem ali na frente. – Eu realmente não quero, quando disse que saí dessa vida de curtição eu falei sério; Tô bem sozinho.
- Pelo jeito a sua mão tá fazendo um ótimo trabalho. – Brinquei e ele colocou as mãos na cintura, tentando parecer irritado, mas acabou rindo ainda mais. – Aquela coisa gostosa no silêncio da noite. – Pisquei pra ele, que abriu o porta-malas para colocar as sacolas.
- Tenho um relacionamento saudável com a minha mão – revelou e eu gargalhei.
- Com certeza, carrega umas revistas pro banheiro também?
- Porra, - Te falei que te colocaria dentro do porta-malas.
- Girls just wanna have fun.
- algo. Abri a boca para provocá-lo mais um pouco, mas ele logo voltou a sua atenção para o trânsito a nossa frente.
- Agora não, namorado.
Toda vez que eu parava para pensar nisso, eu queria sumir, por dois anos de novo, só que não voltaria mais.
Voltei para cozinha e me deparei com a Zoey analisando os vinhos que eu tinha escolhido.
- A filha da puta é boa para escolher vinho, né?!
- Ei – Ele estava em pé apoiado no batente da porta, fui até ele e coloquei uma mão em sua cintura.
- Obrigada, amor – agradeci irônica pela defesa que ele fez a minha mãe.
Senti sua mão acariciando a minha bochecha até descer para o meu queixo e o levantou para si, como ele era mais alto que eu, ele precisou abaixar um pouco a cabeça para que seus lábios encontrassem os meus.
E dessa vez eu tava preparada para o seu beijo, fui até ele com essa intenção, ele nem precisava de palavras para entender que eu o queria. Foi um beijo calmo, sem urgência, como se agora estivéssemos com tempo para nos conhecermos ali, por um âmbito diferente. Seus dedos agora estavam na minha nuca, me puxando para mais perto, quando ele então aprofundou o ato.
Nossas línguas pareciam estar em uma luta sem fim, quando o ar pareceu desaparecer dos meus pulmões e eu tive que partir o beijo. Sim, se tinha uma coisa que document.write(Cooper) - Mas sério obrigada pela ajuda. – Pisquei para ele, que sorriu de volta e virei para minha prima que tampava os olhos com a mão.
- Já acabaram com a agarração? – perguntou e eu ri da cara dela. – Façam isso no quarto da próxima vez.
- Para de ser exagerada, Zoo.
Dei um abraço nela e a puxei para sentarmos no banco de madeira que tinha na varandinha de trás, ela me colocou a par das programações para o dia seguinte e me contou a ideia genial que ela teve. Não teríamos gogo boy, mas a Sophia teria uma grande surpresa.
E eu mal podia esperar para que a noite de terça-feira chegasse logo.



Capítulo 8


- Vamos de pedalinho!
- Bote.
- Pedalinho.
- Bote.
- Que problema você tem com a droga do pedalinho?
- Caralho, , que problema você tem com a porra do bote?
Parece muito infantil dizer que eu e já estávamos naquela por minutos? Desde pequenos costumávamos ir para o lago que tinha perto de casa, era divertido e ajudava a renovar os ânimos. Eu sempre gostei de andar no pedalinho, mas os meninos sempre navegavam de barco. O pedalinho com uma cara de cisne me agradava mais que o barquinho pequeno que tinha ali, fora que eu tinha pavor de subir naquilo. Ainda mais com o que adorava tirar uma com a minha cara.
Cruzei os meus braços cansada daquela discussão sem cabimento e bufei andando em direção do maldito barco que estava atracado na pseudoareia que tinha ali. Pude ver o vislumbre de um sorriso aparecer no rosto do cidadão, mas o ignorei.
Entrei no bote segurando os remos e o empurrou o mesmo em direção da água, até que as suas canelas estivessem submersas. Ele subiu na embarcação com facilidade e pegou um dos remos, então começamos a remar em direção do que parecia ser o meio do lago. Aquele lago era imenso, no entanto, e os outros já tinham desaparecido da minha visão. Até parece que o Tony ia perder tempo esperando a gente se resolver e perder o nascer do sol ao lado da sua futura esposa.
- , você tá remando pro lado errado – falou assim que troquei o remo de lado, quebrando o sagrado silêncio que tinha tomado conta do lugar.
- Ah, tanto faz. – Soltei o remo em cima do bote e deixei que ele remasse sozinho, não fazia muita diferença se eu remasse mesmo.
Definitivamente, eu não era uma pessoa matinal.
- Nascemos para discutir um com o outro, não é mesmo?
- Minha mãe não me trouxe à vida pra você ser o centro dela.
- Incrível a sua capacidade de me odiar desde sempre.
- Não é desde sempre e você sabe. – Encarei seu rosto pela primeira vez desde que subimos naquilo.
Eram 6 horas da manhã e mesmo sem o sol ter nascido ainda, já estava abafado. Enquanto eu estava com um short e uma regata larga, estava com uma bermuda e uma camisa sem manga, que deixava os seus braços expostos. Desci os meus olhos para o seu braço, seus músculos ficavam bem explícitos quando remava daquela maneira, e o tecido da camisa praticamente grudava em sua barriga.
Deus, por que ele usava uma roupa tão justa? Isso era tão injusto.
Voltei meu olhar para o dele e ele tinha um sorriso de lado no rosto revelando que ele tinha percebido a minha análise pelo seu corpo. Não desviei, apenas esperei pela sua resposta.
- O que eu sei, ? – usou o meu apelido de forma debochada.
- Que você mudou de colégio e se tornou um babaca. Qual é, ? Você me ignorou por meses – pronunciei indignada.
Eu nunca tinha conversado sobre aquilo com ninguém, a não ser meu irmão. E mesmo assim Tony achava certo, porque afinal eles saiam para fazer molecagem e eu era largada em casa por ser uma menina. Ingênua. Indefesa. Em que mundo eles achavam que viviam?
- Achei que você preferia brincar de boneca – provocou.
- , você sabe que eu não sou uma pessoa matinal. Eu ataco esse remo na sua cabeça sem nem pensar duas vezes – estava impaciente para os seus comentários ridículos.
- Desculpe, . Eu não sei o que eu tinha na cabeça antigamente, mas não era a minha intenção te machucar ou algo do tipo. Acho que foi até por isso que resolvi te afastar, eu não era um bom exemplo, aliás, nunca fui um bom exemplo pra ninguém e não queria ser um para você.
- Merda, isso que você tinha na cabeça. – Esperei ele terminar o mini discurso para lhe contar o que ele não sabia e ele fez uma cara de entediado. – Um exemplo pra mim?
- O Tony sempre andava comigo, você sabe que acabei sendo um espelho pra ele por eu ser um ano mais velho.
- Você foi um mau exemplo pro meu irmão, disso eu sei. Mas o que eu tenho a ver com isso? Falar pelo menos um “oi” doía?
- Um “oi” nunca foi o suficiente pra você. – Ele riu. – Preciso te lembrar que você era mais colada comigo do que o seu irmão?
- E qual o problema manter a amizade? Não consigo entender essa parte. – Dei um sorriso sofrido, pronta para lhe contar o quanto ele me machucou quando em um bendito dia eu decidi que não ficaria sentada vendo ele me ignorar daquela maneira. – Lembro do dia que eu te encontrei sozinho jogando futebol e nós dois sabemos que odeio futebol, mas eu pedi para jogar com você.
- ... – sua voz sumiu e eu continuei.
- Você apenas fez o que sempre fazia, largou a bola no chão e me deixou falando sozinha.
- E dessa vez você não se contentou, não é mesmo?! Eu não queria dizer aquelas coisas. – proferiu como se não quisesse ouvir o meu lado da história, mas ele ia ouvir.
- Tentei te dizer que eu ainda era sua amiga, mesmo você fazendo aquele papel de idiota, que eu sempre estaria lá para ouvir qualquer desabafo... Qualquer coisa, eu queria saber como tinha sido o seu dia, como estava se saindo no novo colégio, se você já tinha arrumado colegas, eu queria ouvir isso da sua boca e não do meu irmão me dando notícias vagas do tipo “ele tá bem”.
“Você só deu uma de filho de puta e falou que não queria ser mais o meu amigo, que eu não era mais nada pra você além de vizinha e isso já era muito. Eu me senti um lixo, sabia? Porque foi assim que você me tratou e simplesmente virou as costas. – despejei tudo de uma vez, como era bom dizer aquilo na cara dele.
Ele ficou olhando para o nada por um tempo absorvendo o que eu tinha dito e esperei. Um pouco mais de 10 anos tinham se passado, aquele fatídico dia foi o gatilho para que eu começasse a odiá-lo. Eu queria ao máximo evitar estar no mesmo lugar que ele de novo. Porém o destino sempre me pregou peças e no ano seguinte eu e meu irmão trocamos de colégio, fomos para o mesmo que o dele. E foi aí que fomos obrigados a convivermos juntos, porque, infelizmente, eu tive que estudar na mesma sala que ele.
Por mais 3 anos. Foi um pesadelo.
- Acredite, eu não queria ter te magoado assim. Eu só queria te afastar. – mexeu nos cabelos, parecendo considerar as suas palavras.
- Mesmo assim você fez – disse com a voz firme, os primeiros raios de sol já surgiam no horizonte. – Se a sua intenção era mesmo me afastar, conseguiu mais do que isso.
- Puberdade é uma merda – ele xingou a puberdade como se ela fosse a culpada de todos os seus problemas.
Realmente ele foi uma pessoa que não controlou os hormônios, a sua fama não era por nada.
- Mas olha, o Tony nunca falou nada pra te machucar, ok? Se ele foi grosso ou falou algo sem sentido quando o meu nome estava envolvido foi para te proteger – voltou a falar parecendo ler os meus pensamentos minutos atrás.
- Agora não importa mais. Isso ficou no passado, assim como muitas coisas na minha vida – respondi admirando o sol que começava a desabrochar e deixava o céu pintado nos tons laranja e amarelo.
Aquela paisagem era de tirar o fôlego, o sol nascia entre os morros além do lago, mas a estrela ainda refletia na água, deixando a cena mais impecável ainda. Aquela sensação de estar de volta em casa finalmente encheu o meu peito, era confortável de novo estar li. Por mais que eu amasse Nova York, Lancaster sempre foi o meu lar, foi ali que eu cresci.
já tinha parado de remar e admirava embasbacado aquele nascer, assim como eu. Perdi a noção de quanto tempo ficamos ali, parados, apenas observando, mas eu tive a impressão de que pisquei os olhos e o sol já estava inteiro acima dos morros e o calor já ficava insuportável.
- Você passou o protetor solar? – perguntou e eu balancei a cabeça na negativa.
- Obrigada por lembrar disso agora. – Ele soltou uma risada nasalada e dei de ombros.
- Eu também não passei, acho que vamos ficar um pouquinho vermelhos.
A peste fez o favor de balançar o barco e eu gritei desesperada. Eu odiava botes por causa disso, eles mexiam muito e um pavor inexplicável se apossava de mim.
- Para com isso! – pedi e consegui me equilibrar, enquanto ele ria da minha reação. Eu juro que eu cheguei a pegar o remo e eu ia socar ele com aquilo, mas o meu irmão apareceu de pedalinho com a minha cunhada do nada.
- ? – Tony gritou rindo da minha cara de desespero. – Não mata o cara.
- Ele que tá querendo me matar – gritei em resposta e o parou de balançar o barco colocando o remo de volta na água.
- Para de ser dramática, garota. Não tem como isso aqui virar ou algo do tipo. – começou a remar de volta para onde tínhamos saído.
- Mesmo assim. – comecei a remar também, eu não queria me queimar e ficar ardendo depois, mesmo que o sol da manhã não queimasse tanto assim.
- Então... – ele começou. – Voltando ao ensino médio, como era o nome daquele seu ex-inglesinho de merda mesmo?
- Ele não era um “inglesinho” de merda. O nome dele era Leith. – revirei os meus olhos.
Era óbvio que o nunca gostou de nenhum dos meus namorados, mas entre os dois que eu tive em toda a minha vida o Leith era de longe o melhor. Eu sabia que não devia comparar nenhum deles, o Matt pode ter sido um babaca e me largado um pouco antes do casamento, mas tivemos momentos bons. No entanto, o Leith era simplesmente perfeito, ele tinha sido o meu melhor amigo e nos respeitávamos acima de tudo, nós tínhamos o tão sonhado relacionamento saudável.
Quando mudei de colégio eu já conhecia algumas pessoas da turma que eu estava entrando, e sem perceber acabei me tornando “popular”, eu falava com todo mundo e logo tive meu passaporte direto para o grupo de lideres de torcida. Era divertido estar ali, era agradável e o pessoal do time de futebol não fazia o estilo babaca e acéfalo como é citado em alguns filmes. E foi em um dos jogos que conheci o Leith, ele estava um ano a minha frente e era o capitão do time de futebol. Engatamos em um típico namoro clichê entre uma líder de torcida e o capitão do time, porém ele não era e nunca foi galinha, esse cargo era do goleiro do time, o famoso .
Ficamos por um bom tempo juntos, mas quando ele se formou teve que voltar para a Inglaterra, e por mais que nos amassemos não investimos em um relacionamento a distancia, foi bom enquanto durou e foi isso que guardamos para nós mesmos.
- Sim, ele não foi tão ruim quanto o que veio a seguir. – comentou se referindo ao meu segundo namorado.
- Acho que ruim nunca foi um adjetivo aplicável para o Leith, você que tem birra só porque ele foi o capitão do time. – provoquei e ele fez uma careta.
- Ei, goleiro também pode ser capitão e eu fui quando ele não podia jogar! – contestou e eu ri.
- O segundo preferido da galera.
- O primeiro das mulheres, já que da população masculina eu não fazia muita questão.
- Sim, claro. – finalizei aquela discussão concordando com ele e o bote já estava chegando perto da areia, desci do bote molhando metade das minhas pernas e o desceu logo depois terminando de arrastar a embarcação para a areia.
Meu irmão nos esperava pacientemente no carro junto com a Sophia, claro que a Zoey ia preferir a cama e o Matt eu não queria nem saber. me lançou um último olhar antes de caminharmos em direção da estrada e engoliu em seco.
- Se eu pudesse voltar no tempo eu faria algumas coisas diferentes.
- Se pudéssemos voltar no tempo eu deixava você socar a cara do Matt.
- não me faça querer construir uma máquina do tempo só para este feito.
Sorri com as suas palavras e com a lembrança de como o Matt chegou à escola no nosso último ano, e já chegou causando. Gostei dele exatamente porque foi o único que tentou colocar o Sr. Cheio de arrogância no seu devido lugar, ele me ganhou ali, então segurei o braço do quando o mesmo estava tão tomado pela raiva que eu tinha certeza que iria quebrar um nariz. O se afastou do garoto, mas depois que chegamos em casa foi uma discussão sem fim, pois ele podia muito bem ter me machucado nesse acesso de raiva e eu não dava a mínima para o que ele estava me dizendo.
- Bons tempos. – em meio aos meus devaneios chegamos no carro e o Tony deu partida, meu estômago já reclamava de fome por não termos tomado café antes de sair de casa.

Eu não costumava muito ir à quadra de basquete do meu irmão, mas como a quadra ficava em um morrinho, era possível ver uma parte da cidade e a lagoa lá de cima. Arrastei os meus pés pelo chão gasto e o vento do fim de tarde bagunçava os fios de cabelo para todos os lados, fazia tempo que eu não andava descalça por aí, usando apenas um vestido solto e sem maquiagem nenhuma. Por mais que eu amasse a cidade, a rotina era pesada e eu mal tinha tempo para os meus pensamentos, para deixar que o vento levasse todos eles para bem longe. Era como se um grande peso tivesse sido tirado das minhas costas e eu pudesse sair saltitando como uma criança feliz novamente, com toda aquela inocência de anos atrás.
Assim como a calmaria vem depois da tempestade, a tempestade começa com a calmaria. Claro que eu não podia ter um momento sozinha - observando a cidade lá embaixo - sem uma presença desagradável. Bom, eu finalmente estava sozinha com o Matthew, mas eram tantas perguntas e parecia que eu ainda não estava preparada para saber as respostas. Então fiquei quieta.
Ele não.
- Você parece ótima. – Idiota!
- Eu estou ótima! – respondi um pouco grossa demais, sério que depois de anos ele só sabia dizer que eu estava ótima?
- Tudo bem, olha sobre dois anos atrás...
- Eu não quero ouvir sobre isso agora, Matt. – dei uma olhada rápida para ele e vi a sua expressão se suavizar em um misto de alívio e decepção.
Se ele queria falar sobre aquilo agora e se livrar das desculpas esfarrapadas que ele provavelmente estava guardando há anos, eu só podia sentir muito por ele, mas ele se matizaria por mais um tempo.
- Já que estamos nostálgicos hoje. O que aconteceu naquela noite que brigamos? – perguntei e ele me encarou curioso.
- Você quer dizer àquela noite que você terminou comigo e reatamos na manhã seguinte?
- Sim, essa mesma.
- Você não se lembra de nada mesmo? – deu um sorriso e por um segundo eu pensei que ele estava debochando da minha cara.
- É claro que eu não me lembro, se não eu não estaria te perguntando. – grossa de novo.
- Eu não sou a melhor pessoa pra te contar isso, eu não passei a noite com você. – respondeu seco e eu franzi a minha testa sem entender muita coisa.
- Você falou que me encontrou bêbada de madrugada e fizemos as pazes.
- Eu não te encontrei de madrugada, . Nós ao menos fizemos as pazes, eu te encontrei de manhã dormindo em uma cama que nem era sua. – soltou uma risada ácida. – Foda-se, não temos mais nada mesmo.
- Você mentiu pra mim todo esse tempo? – espera, eu estava irritada por quê?
- Eu não menti quando disse que te amava e queria voltar na manhã seguinte, mas sim, menti porque eu era egoísta e queria a minha namorada de volta. – colocou as mãos nos bolsos da sua calça caqui e eu cruzei os meus braços, estava ainda mais curiosa. – E na época a melhor coisa que aconteceu foi você ter realmente esquecido da noite, eu não sei se você quer saber dela ainda, mas você deveria perguntar ao .
- Alguém falou o meu nome? – entrou na quadra trazendo duas canecas em mãos e continuou. – Só coisa boa, eu imagino.
- Pergunte a ele, . – Matthew pediu e saiu acenando com a cabeça para o outro que se aproximava de mim.
me deu um selinho demorado e me entregou uma das canecas, o fato dele me beijar não me surpreendia mais, “treinamos” aquilo a tarde inteira. E obviamente, eu não podia reclamar do carinho e dos beijos que estava recebendo.
- Perguntar o quê? – seus olhos brilharam em hesitação e eu sorri para acalmá-lo. Ele já sabia o que eu iria perguntar.
- A noite esquecida, . – falei com toda calma do mundo e ele tomou um gole de seu chá gelado. – Ele me contou a verdade, mas eu preciso saber o que aconteceu naquela noite, e eu lembro que eu estava com você no início dela.
- Toda vez que vocês falam dessa maldita noite é quase uma ofensa. – sorriu nervoso. – Por algum motivo eu sabia que esse dia chegaria.
- Então, por favor, disserte mais sobre o assunto.
- Você lembra o que estávamos fazendo? – balancei a cabeça em resposta e então ele concordou com a minha negativa. – Era uma festa na irmandade Kappa Beta Gamma, foda-se...

Flashback

Droga, como eu odiava ir às festas sem o meu parceiro de crime. Acho que era um recado dos céus que eu não deveria ter vindo para essa merda. Primeiro o Tony ficou doente, depois a minha moto enguiçou, com certeza era um recado. Mas eu vim mesmo assim. Aquela era uma das maiores festas do ano, e pra eu faltar um evento daquele, só estando morto.
Entrei na casa sentindo o chão tremer aos meus pés e vários colegas passavam me cumprimentando, algumas mulheres já passavam por mim com copos de bebida na mão e um sorriso sugestivo no rosto. Ah sim, era por isso que eu vinha nas festas. Então, fui direto para cozinha caçar uma garrafa de cerveja quando eu encontrei ninguém mais, ninguém menos, que Hall. Mas que porra, realmente não era um bom dia para ter saído de casa. Ela tentava pegar uma garrafa de cerveja com um pouco de dificuldade pelo fato da cozinha estar lotada, e eu me perguntava o que diabos ela estava fazendo ali. Ela odiava essas festas, ainda mais dentro de irmandade.
- Olha só... O que a princesinha está fazendo em uma festa dessa? – perguntei ao chegar por trás dela e peguei uma cerveja para mim.
- Não enche, . – respondeu me empurrando e abrindo caminho pelas pessoas que já pareciam estar bêbadas demais.
O namoradinho tinha trago a sua garota e ela não estava nem um pouco feliz com isso, eu podia apostar nessa teoria. Todo mundo tem seu dia de merda, e fico feliz que a Hall tenha o dela também. Aliás, eu fui atrás dela só para zoar mais um pouquinho a sua cara. Mas me surpreendi quando a encontrei sozinha debruçada no muro da varanda segurando a garrafa e parecia estar... Chorando? Era isso? Ela tinha vindo para uma festa chorar?
Tentei me aproximar dela novamente e ela encarava o nada, sua feição estava tão tensa que eu tinha certeza que ela estava chorando de raiva. Ela chorava por tudo, inclusive quando estava com raiva.
- Sério que você veio pra cá chorar? – tentei de novo e ela nem teve o trabalho de me olhar, continuou compenetrada fungando. – Você tá chorando de raiva, e dessa vez não é de mim. Milagres.
- Homens são tão babacas. – falou com um tom de grosseria.
- O que aconteceu?
- Não é da sua conta. – ela não ia me contar mesmo, nem sei porque tentei. Porém a curiosidade me fazia persistir em tentar arrancar alguma coisa dela.
- Vamos lá, Hall. Você pode me contar, não é como se eu fosse sair espalhando por aí igual as suas amiguinhas. – joguei sujo ao citar as amiguinhas falsas dela, ela me encarou por um segundo e pareceu desistir.
- Ah foda-se, terminei com o Matthew.
Gargalhei, foi inevitável, e a garota apenas me ignorou. Quando finalmente consegui respirar de novo, olhei para ela e vi que não tinha sido uma brincadeira.
- Sério mesmo? – perguntei e ela revirou os olhos. – , Deus decidiu ser legal com você e você fica aí chorando?
- Cala a porra da boca, você só fala merda. – pediu e se encolheu. Cara, ela estava mal mesmo.
- Tudo bem, o que aconteceu pra vocês terminarem? – encostei-me no muro ao seu lado, tomei metade da cerveja em um gole e esperei que ela me respondesse.
- Ele foi um babaca. – falou simplesmente e eu respirei fundo. Eu nem estava me reconhecendo por tentar ajudá-la.
- Que ele é um babaca, todo mundo sabe. – frisei bem o é e ela até forçou um sorriso.
- Ele falou tanta merda pra mim que eu não quero olhar pra cara dele tão cedo. – ela tomou um pouco do líquido em sua garrafa e voltou a falar. – É inacreditável eu ter que ficar o ouvindo excretar pela boca, o meu próprio namorado! Inacreditável.
- Ex, né?!
- Isso, tanto faz. – levantou os ombros como não se importasse e terminou de virar a sua cerveja. – Preciso de álcool.
- Hmmm, saquei qual é a sua. – disse ao puxar seu braço quando ela se afastou de mim.
Claro que ela tinha ido até ali encher a cara, e se tinha alguém que estava muito a fim de acompanhar ela nessa, essa pessoa era eu. Fala sério, ela estava solteira em uma festa da faculdade querendo beber, óbvio que eu ia me aproveitar disso.
- Tenho uma ideia ótima! – ela me encarou interessada no que eu tinha a dizer; e eu sorri malicioso. – Só preciso de uma garrafa de tequila.
- O que você está inventando, ? – questionou e eu a puxei para a cozinha em procura da garrafa, era fácil achar bebidas alcoólicas naquelas festas.
Assim que achei, nos guiamos para a escada que levava para o andar de baixo, o idiota do dono da casa sempre deixava aberto e a chave ficava por dentro. Eu sabia porque não era a primeira vez que eu descia com uma garota.
Entramos no cômodo e tranquei a porta para caso alguém tivesse a mesma brilhante ideia que a minha não nos atrapalhasse. logo analisou toda a sala, que tinha a presença de sofás confortáveis, uma televisão imensa e uma mesa de sinuca. Então coloquei a garrafa em cima da mesa e ditei as regras do jogo.
- Eu sei que você sabe jogar sinuca muito bem, então cada vez que alguém encaçapar uma bola é uma boa golada de tequila, pode ser?
- Pode. – ela sorriu e pegou o taco, ajeitei as bolas na mesa e seu sorriso ficou cada vez mais aberto.
- Você começa, moça. – pisquei e ela ajeitou o taco concentrada para fazer a primeira tacada.
Foi bem divertido passar o tempo com ela, nós tínhamos aberto uma brecha nas brigas e apenas conversávamos sobre tudo. Colocamos anos de conversa em cima de uma mesa de sinuca e dentro de uma garrafa de tequila. E como ela tinha encaçapado mais bolas que eu, ela já estava bem chapada no final do jogo.
- Vou lá em cima pegar umas cervejas. – avisei e ela concordou se jogando no sofá.
Não demorei mais do que dois minutos para chegar com as garrafas de cerveja e ela já tinha arrumado a mesa de sinuca de novo.
- Como eu tô morrendo de calor, as regras do jogo mudaram. – começou a explicar. – Quem encaçapar a bola tira uma peça de roupa ou sapato.
- Eu não tenho tantas peças de roupas pras bolas que eu vou encaçapar, Hall. – murmurei com o meu melhor tom de malícia.
- Problema seu. – deu de ombros e apontou o taco para mim. – Você começa.
Ela deu um sorriso tão filha da puta que eu não conseguia acreditar no que os meus olhos viam. Abri uma garrafa para ela, antes de focar no jogo e quando eu encaçapei duas bolas logo na primeira jogada eu tinha certeza que ela não queria só tirar as suas roupas, como queria tirar a minha sanidade também.
Estávamos tomando as últimas garrafas de cerveja, ela estava de sutiã e ainda conservava a calça, eu estava só de cueca e repensava a minha vida inteira com aquela última bola.
- Você sabe que se eu acertar a bola, eu vou mesmo tirar a cueca. – provoquei, mas aquilo só a fez sorrir mais ainda.
- Eu sei, e pelo volume da sua cueca eu arrisco te dizer que eu vou gostar muito da visão. – piscou marota e como eu quis mandar aquela bola pra puta que pariu, jogá-la em cima daquela mesa de sinuca e enlouquecê-la, assim como ela estava me enlouquecendo.
Fiz a jogada e errei de propósito, eu não ia perder a chance de vê-la só de calcinha e sutiã, ou quem sabe ela tiraria o sutiã. Ela já estava pra lá de bêbada mesmo.
- Ops. – fiz um beicinho fingindo estar triste e ela gargalhou, fez a última jogada e acertou a bola.
- Seria uma pena, , se eu não conseguisse abrir essa droga de botão. – apontou para o fecho da calça e eu caminhei em sua direção.
- Quer ajuda? – perguntei manhoso e ela mordeu o lábio inferior segurando um sorriso ao concordar com a cabeça.
Cheguei perto dela devagarzinho e coloquei um dedo na barra de sua calça a puxando para mim, ela levantou um pouco a cabeça encarando os meus lábios como se tivesse perdido o ar, então eu não perdi tempo em abrir a sua calça e me agachar na sua frente descendo as suas calças. se apoiou em mim quando levantou o pé para tirar uma perna de cada vez, olhei para ela sorrindo de um jeito maldoso e comecei a espalhar beijos e mordidas pela sua pele. Fui subindo e o seu corpo reagia ao meu toque em forma de arrepios gostosos, ao chegar à sua barriga eu fiz questão de dar leves chupadas, fazendo a garota estremecer em minhas mãos. Demorei um pouco mais do que o necessário no seu colo e no seu pescoço, e ela já estava totalmente rendida a mim.
- ? – chamou um pouco rouca e eu coloquei as minhas mãos na sua cintura, beijando agora o seu queixo, a sua bochecha. Sussurrei um “hm”, continuando a minha trilha de beijos pelo seu rosto de forma lenta e era quase inaudível a sua voz. – Por favor.
- É pra já, princesinha. – soprei no ouvido dela e a beijei.
Eu não sabia explicar porque tachei aquele beijo como o mais louco da minha vida, mas foi como se eu quisesse fazer aquilo por anos e agora eu finalmente podia. Na verdade, eu realmente queria fazer aquilo por anos. era uma garota muito linda, desejada por muitos pela faculdade e pela porra da cidade inteira, porém ela tinha que ter escolhido o playboyzinho que era o seu namorado. Ex-namorado. Ex soava tão bem aos meus ouvidos. E o que soava muito bem aos meus lábios eram o seus, a sua língua travando uma guerra deliciosa com a minha, e a falta de tecido pelo seu corpo me deixava mais doido ainda.
Por mais que estivéssemos bêbados, a noite se resumiu a isso: beijos loucos, gritos insanos e uma maluca satisfação que nos fez sorrir como dois retardados.

Fim do Flashback.



Capítulo 9


- Foi isso, . Colocamos as nossas roupas e subimos para um dos quartos para dormir. Eu só tinha levantado pra comprar alguma coisa decente pra comer, mas o maldito do Matthew já tinha te encontrado. – finalizou o seu relato e eu ainda o encarava tentando assimilar todas aquelas informações.
- Espera, nós transamos? – perguntei só para ter certeza que eu realmente tinha escutado direito.
- Sim, nós transamos, fodemos, fizemos sexo. Se você quer saber as posições eu também posso te contar – falou com um sorriso cheio de si no rosto e eu ainda me encontrava com a boca escancarada, sem reação.
Que o era um safado sem nenhuma vergonha na cara, todos já sabiam. Mas aquela história era totalmente nova e como eu não me lembrava de ter feito sexo com o cara que eu odiava? Era inacreditável. Era suspeito também. Porém eu preferia acreditar na veracidade da coisa, aliás, ele nunca tinha mentido para mim, muito menos perderia seu tempo inventando uma versão tão elaborada como aquela, fora que ele escondeu aquilo por anos e guardava rancor do Matt por não ter me contado.
- Que novela. Eu queria me lembrar dessa noite. – Ainda sem saber o que pensar, as palavras saíram da minha boca apenas para tirar a expressão de preocupação que apareceu no rosto do depois de algum tempo em silêncio.
- Claro que queria. Eu posso apostar que foi a melhor noite da sua vida – disse casualmente e tomou o resto do seu chá.
- Abaixa a bola, . O seu ego é tão grande...
- Posso encher o meu ego como eu quiser, agora eu acho que você tem uma festa pra ir. – Deu um jeito de me cortar logo.
- Mas... – fiz uma careta tentando assimilar todas as informações, porém as palavras morreram na minha boca.
- Não faça essa cara de ofendida, eu que deveria estar ofendido, mas a gente supera. – falou com cara de poucos amigos e me deixou sozinha na quadra.
Analisando toda a situação com mais calma, eu sabia que a noite teve algum tipo de importância para ele e aquilo sim tinha mexido com o seu ego. Definitivamente eu não deveria ter me esquecido daquela noite, eu não deveria ter bebido daquela maneira e muito menos feito sexo com alguém. O Matt sabia disso, sabia que eu não ia querer saber, mas será que as coisas seriam diferentes se eu acordasse de manhã e me lembrasse de tudo? Será que as coisas seriam diferentes se o não tivesse guardado o “segredo” para si e me contasse a verdade anos atrás? E chegando nesse pensamento eu percebi o quanto ele feriu o seu ego para proteger um casal que ele não tinha obrigação nenhuma de proteger, talvez ele esperasse que o Matt me dissesse a verdade algum dia, talvez ele esperasse que eu me lembrasse de alguma maneira. Agora ele tem a certeza que eu não me lembrava, porém eu não podia deixar de pensar que ele achava que eu fosse a mais megera de todas por fingir que nada tinha acontecido. E é por isso que passou a me odiar ainda mais depois.
Tudo fazia sentido, tudo se encaixava agora.
Eu não podia mentir para mim mesma e dizer que estava tudo bem porque não estava, mas aquilo tudo era passado, e como o meu atual namorado tinha dito, “a gente supera”.

Zoey tinha feito um ótimo trabalho na decoração do apartamento da Sophia, havia um painel simples com algumas flores e bandeiras feitas com papel colorido, era diferente e bonito. A mesa de vidro estava coberta com os variados tipos de queijos e taças na cor vermelha para serem preenchidas com o vinho, além dos aperitivos tinha um bolo de chocolate com alguns detalhes também em vermelho que eu tinha comprado na padaria antes de ir para a festa.
As convidadas aos poucos foram chegando e a minha ansiedade só ia crescendo, e quando eu estava ansiosa era normal eu encher a cara de comida e bebida. Já era de se esperar que antes das 9 eu já estivesse alta com o vinho, temendo pela ressaca horrível no dia seguinte, mas nada me impediria de curtir aquela noite. Então, exatamente ás 9:30h nós entregamos nossos presentes para a noiva, que arregalou os olhos e abriu um sorrisão a cada objeto inusitado que recebia, com certeza o meu irmão ia ter muito com o que brincar junto de sua futura esposa.
Minha prima também tinha sido responsável pela trilha sonora da noite, que ia de Promiscuos girl até Crazy in love. Entretanto ela conseguiu uma informação valiosa com o Tony, ele tinha mexido nas lâmpadas não fazia muito tempo, sendo assim os planos dela dariam mais do que certo.
Na hora marcada eu lancei um olhar para Zoey que foi discretamente até a cozinha e simulou uma queda de luz, eu discretamente mexi rapidamente no aparelho de som colocando You can leave your hat on do Joe Cocker, escolha do meu irmão obviamente, quando a energia voltou. Fui aumentando gradativamente o volume da música e a Zoey abaixou um pouco a luz dando um ar mais misterioso, a essa altura todas as mulheres já gritavam e riam. Sentei-me ao lado da Sophia para apreciar o show e então gelo seco foi espelhado por toda a sala, mostrando assim a silhueta de 6 corpos masculinos, eu não sabia se ria ou se chorava quando reconheci todos eles. Joe, Michael, Tony, , Nick e Matt, respectivamente. Eles estavam vestidos de policial, índio, bombeiro, terno, dançarino e um já se aventurava só de cueca. Hotline Bling do Drake começou a tocar e alguns deles dançavam realmente como se fossem strippers ou algo do tipo, levando a mulherada a loucura, enquanto o Tony com a sua fantasia de bombeiro rebolava para a sua noiva fazendo dessa uma surpresa agradável e nada constrangedora para a mesma. Nós não precisamos mentir para ninguém, afinal.
O moreno vestido de índio fazia uma coreografia digna de ser filmada para a Zoey e eu não pude deixar de notar como ela só faltava o engolir com os olhos. Inicialmente os seus planos pareciam coisa de louco, mas como o meu irmão também era louco aceitou o desafio de tirar uma noite para ser gogo boy, ele nem tinha adorado a ideia. Claro que o não ia quebrar a corrente, como dançarino quase profissional ele não teve problemas em dançar sensualmente com o terno arrancando suspiros de todas as outras que também observavam aquele show. Mantive meus olhos sobre ele e em como desafrouxava a gravata, eu não sabia se era o efeito do álcool, mas eu queria muito tirar aquela gravata dele, arrancar aquele terno e sussurrar palavras sujas no seu ouvido. Com certeza aquela conversa que tivemos de tarde tinha me abalado também, de uma forma diferente do esperado. Naquele momento eu queria e muito um replay da noite que eu tinha esquecido, na verdade eu não queria lembrar, queria que ele fizesse de novo e desse o seu melhor.
Partition da Beyonce começou a tocar, os olhos dele encontraram os meus como se ele fosse um gato muito perigoso ao encontrar o rato, sorriu de lado e fez alguns passos elaborados até mim, colocou as pernas ao meu redor como se fosse sentar em cima de mim, mas apenas rebolou me prendendo entre os seus braços.
- Você pode tirar a minha gravata, por favor? – pediu e eu estava perdida entre encarar os seus movimentos ou me concentrar em tirar a sua gravata.
Assim que tirei o acessório de seu pescoço ele se levantou e tirou o terno em um piscar de olhos, ele não usava uma daquelas cuecas que deixavam a bunda aparente por ser quase um fio dental, mas usava um boxer bem sexy. Aliás, ele não era um profissional para usar aquilo e mesmo assim eu era capaz de encher a bunda dele de dinheiro. Respirei fundo acompanhando a sua dança e ele não tirou seus olhos de mim nem por um segundo sequer. Ele dançava para mim. Ele queria me levar à loucura.
Olhei para o lado vendo que aquela vibe strip se dissipava um pouco, Zoey já estava enfiando a língua na garganta do Índio e Tony se esbaldava com um quase volverismo, me fazendo sorrir e revirar meus olhos para a cena. Mas quando Supermassive Black hole começou a tocar algo mudou dentro de mim, um desejo anormal se apossou do meu corpo e me levantei do sofá, passei a gravata por trás da nuca do e o puxei colando as nossas bocas com tamanho desespero que ele mal conseguia me acompanhar. Ele era meu namorado, não era? Eu tinha demorado até demais para beijá-lo diante daquela situação em especial. Girei nossos corpos e o empurrei até que ele encostasse no sofá, logo sentando e eu subi em cima dele refazendo os seus movimentos anteriores.
- Parece que o jogo virou, não é mesmo? – sorri e o encontrei um pouco desnorteado, mas aquela reação não durou nem mais um segundo até que ele exibisse um sorriso cheio de escárnio.
- Se quiser tirar esse vestido também, fica a vontade .
- Eu até tiraria, mas eu não sou a stripper da noite. – passei minhas mãos por seu tronco nu, sentindo cada pedacinho de carne.
- Pelo que eu saiba tem um quarto disponível nessa casa. – sugeriu e então tombou a cabeça para o lado e eu logo tentei me preparar para o que estava por vir. – Mas pode ficar calma, eu só vou te comer quando você estiver sóbria e me pedir por isso.
Bom, eu tentei.
Suas mãos seguraram a minha cintura com força antes que eu levantasse dali, ele puxou a minha nuca e me beijou novamente, fiz questão de morder o seu lábio talvez com a intenção de machucar, mas quando senti que algo crescia embaixo de mim eu tive o vislumbre de que ele mesmo estava se martirizando. Por isso eu continuei ali, provocando-o até que ele não aguentasse mais.
Ou até que meu irmão chamasse o meu nome.
- ? Acho que vocês deveriam ir para casa. – falou apontando com a cabeça para algumas pessoas que nos observavam com a expressão variando entre agrado e desaprovação.
- Ah fala sério, não é possível que elas nunca foram pra uma boate de strip – reclamei e o apenas sorriu me colocando com facilidade sentada ao lado dele.
- Elas vieram aqui hoje para ver gogo boys e não para ver uma louca estuprando um deles. – Tony sussurrou rindo.
- E vocês nem tavam se engolindo, né!?
- É diferente. – Sophia se pronunciou também rindo e eu levantei do sofá a procura de algum vinho bem gelado.
- Tá bom então. – respondi antes de entrar na cozinha. – Aproveitem aí que eu já tô indo pra casa.
Nem me dei o trabalho de ouvir a resposta deles, peguei a primeira garrafa de vinho que encontrei na geladeira e virei na tentativa de apagar um pouco aquele fogo que me queimava por dentro. Aquilo tudo era desespero por estar na seca por meses? Você devia se envergonhar . Encostei meu corpo no batente da ilha que tinha no cômodo e tentei me acalmar, mas mal tive tempo, pois o homem que me deixou naquela situação adentrou a cozinha, passando direto por mim e pegando uma mala escondida atrás da porta.
Fiquei quieta apenas tomando o meu vinho e observando enquanto ele colocava uma bermuda e uma camisa rosa claro que contrastava com os seus olhos o deixando estonteante. Fechei meus olhos e balancei a minha cabeça tentando tirar aqueles pensamentos pecaminosos dali, eu precisava de foco, foco no álcool e não no fogo.
Eu queria abrir meus olhos e não me deparar com o causador dos meus problemas recentes, mas eis que ele estava justamente na minha frente e todo o meu esforço para me desvencilhar dele e dos seus efeitos foram por água abaixo. Seus glóbulos me encaravam como se procurassem por algum deslize na minha feição que eu tentava manter impassível a todo custo. Então, ele se aproximou, colocou suas mãos no batente atrás de mim me encurralando ali, me observando cuidadosamente. Ele tirou a garrafa de bebida da minha mão e o colocou longe, passou as costas de sua mão no meu rosto e eu fechei meus olhos de novo sentindo todas as células do meu corpo pegarem fogo mais uma vez. Senti seu torso se aproximando mais do meu, seu nariz encostando no meu pescoço e inalando o cheiro do meu perfume, causando arrepios na minha pele e foi naquele momento que eu falhei em tentar me manter impassível, meu próprio organismo me traindo daquela maneira.
Se eu era álcool, ele era o fogo, eu só precisava evaporar para que a combustão estivesse feita. E eu estava evaporando com o contato da sua pele na minha, a sua boca tão perto da minha, o juízo se esvaindo da minha mente. Minhas mãos encontraram as suas costas e foi inevitável não brincar com os meus lábios nos seus, sua língua provocando a minha, nossos gostos se misturando.
estava pronto para me levantar, e sentar naquele mármore frio levaria aquela relação para outro patamar. Porém a cozinha foi invadida pela amiga da Sophia que também seria madrinha, olhei para ela esperando que ela se retirasse ou algo do tipo, enquanto o homem mordia e beijava o meu pescoço, mas ela apenas ficou parada surpreendida demais para reagir de alguma forma. Então me conformei que dentro daquele apartamento não teríamos privacidade suficiente para chegar onde queríamos, afastei o corpo dele do meu e ele lançou um olhar assassino para a garota.
- Vamos embora. – disse pegando minha bolsa e a chave do carro que estavam jogadas em cima da ilha.
- Hoje tá difícil. – resmungou e eu sorri ao constatar como ele estava sem jeito devido ao volume já aparente da sua bermuda.
- Não era pra ser. – dei de ombros, mas antes eu joguei as chaves na sua mão. – Você dirige, tô um pouco bêbada e cansada demais pra qualquer outra coisa.

O caminho até em casa eu passei desmaiada no banco do carona, perto de chegar o me balançou para que eu acordasse porque ele não iria me carregar escada a cima. Portanto, quando chegamos eu fui a primeira que me enfiei no banheiro para escovar os dentes, tomar um banho e dormir.
Por eu estar cansada demais, acabei esquecendo de trancar a porta, na verdade eu não esqueci, mas como o meu colega de quarto nunca tentou invadir o banheiro eu decidi deixar aberta e aquele foi o meu maior erro naquela noite. Ele se enfiou dentro do banheiro e colocou pasta na escova como se não tivesse ninguém ali tomando banho.
- . O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – gritei desesperada tentando tampar o que dava do meu corpo. – Meus pais tão dormindo, cassete!
- Escovando os dentes, você não tá vendo? – ele olhou para o box e continuou. – Não tem nada aí que eu já não tenha visto, .
- Não. Olha. – falei pausadamente. – Presta atenção na sua escova ou sei lá, que droga.
O cidadão gargalhou audivelmente e a minha vontade era de atacar água nele para que ele calasse a porra da boca, quem sabe se engasgasse, mas me contentei em tentar terminar de me ensaboar e sair logo dali. Privacidade naquele dia eu não estava tendo.
Como tudo o que já estava ruim piora, assim que abri o box para pegar a toalha, ele abriu o zíper da bermuda, desceu um pouco a cueca e simplesmente começou a fazer xixi, comigo dentro do banheiro. Arregalei meus olhos ao me dar com o tamanho real daquilo que ele carregava no meio das pernas e em menos de um segundo tampei meus olhos.
- Eu precisava mijar. – disse ainda rindo. – Aliás, quer ajuda com a toalha?
Olhei para mim mesma percebendo que eu tinha enrolado a toalha de qualquer jeito e o tecido mal cobria os meus peitos.
- Você é um pervertido. – respondi e me retirei o mais rápido possível do banheiro, antes que meus olhos descessem pelo seu corpo de novo.
Coloquei uma calcinha e uma camisola em tempo recorde, e exatamente no momento que me deitei da cama ele saiu do banheiro apenas com a cueca, já que ele só dormia assim. Cobri-me com os lençóis e fechei meus olhos, tentando evitar pensar muito na cena que eu tinha visto minutos atrás, evitar que as lembranças da festa invadissem meus pensamentos, evitar que meu corpo me traísse novamente. Mas ele estava ali, bem do meu lado, e eu o queria tanto.
Você queria dormir, . Durma.

E depois de tanto tempo, eu sonhei, sonhei com o , sonhei que nunca nos odiamos, que estávamos juntos todo esse tempo, namorando, sorrindo, nos amando. Não existia a mentira que inventei para me livrar dos julgamentos da minha família, não existia um ex-namorado babaca para mostrar que eu tinha seguido em frente, só existia e . Um casal imperfeito em um mundo perfeito.



Capítulo 10


Sabe aquela sensação de acordar pela manhã, se lembrar das coisas que tinha feito na noite anterior e quase se arrepender? Eu me sentia assim. Não era a forte ressaca que me incomodava, muito menos a impressão de que o meu corpo pesava toneladas, mas sim a certeza de que eu quase tinha cometido o erro de me deixar levar pela tentação que o carinha que dormia logo ali exercia.
Aquela maldita tensão sexual era mais do que real. Mas era só isso, não era? Então, por que diabos, além de passar dos limites na noite passada, eu estava sonhando que éramos um casal de verdade? O vinho só podia estar adulterado, ou tinha algum tipo de droga alucinógena no meio daqueles queijos.
Eu não podia cair na lábia dele, não mesmo.
Porque eu tinha certeza que era isso que ele queria, se beneficiar com o acordo que tínhamos feito e conseguir mais algumas noites de sexo com quem um dia falou que não olharia mais na cara dele. Era o tipo de vingança perfeito, fazer a garotinha indefesa se render, apaixonar-se e depois voltar para a vida normal em Nova York. Onde ele continuaria com o seu brilhante futuro pela frente e eu voltaria novamente com o coração partido para o meu solitário apartamento no Brooklyn.
Exceto que: eu não era mais uma garotinha indefesa.
Levantei da cama e busquei pelo meu celular na mesa de cabeceira procurando ver as horas. 9 horas da manhã. Ótimo, quando eu achava que podia tirar uma pequena “férias” e acordar meio dia todos os dias, eu acordava cedo. Pensei em ligar para a Holly e contar a ela toda a loucura que tem sido, já que não nos falávamos desde segunda, mas pelo fuso horário ela ainda estava dormindo, então me contentei em mandar uma mensagem dizendo que estava com saudades. Ela me ligaria quando acordasse.
Depois de trocar de roupa, fui até a cozinha procurar algo para comer e só encontrei o meu irmão dormindo na bancada, para variar. Sério, eu não fazia ideia de como ele conseguia fazer aquilo, era coisa de gente retardada. Mas se ele achava a bancada mais confortável do que a cama, quem era eu para argumentar? Peguei alguns ovos na geladeira, leite, farinha de trigo, açúcar e óleo, depois alcancei o liquidificador no armário com um sorriso diabólico no rosto, infernizar o Tony nunca ia perder a graça. Coloquei os ingredientes no liquidificador e logo o liguei na tomada, apertei o botão e a cena que presenciei foi impagável, eu deveria ter gravado o susto que ele levou.
- Filha da puta – resmungou quando se recuperou do susto.
- Nunca vi gostar tanto de dormir na cozinha – respondi ainda rindo, falando um pouco alto por conta do barulho do liquidificador.
- Por que você não come cereal ou sei lá, ovo mexido? Mas não, escolhe logo fazer a porra da panqueca.
- Não reclama das panquecas que você vai comer, rapaz. – Desliguei o aparelho e procurei pela frigideira no armário.
- Tanto faz. – Voltou a deitar nos seus braços em cima da bancada, então eu peguei uma espátula e bati na frigideira para que ele não dormisse de novo.
- Vai pra cama!
- Porra, você é insuportável! – levantou estressado do banco e se dirigiu as escadas.
- Também te amo, irmãozinho – gritei para que ele me ouvisse para então focar na minha tarefa.
A casa voltou a ficar silenciosa depois da barulhada que eu tinha feito. Meus pais provavelmente tinham saído para caminhar e eles já estavam acostumados a só tomar café da manhã depois. Era estranho. Na verdade a minha família era estranha, mas de novo eu não ia argumentar sobre isso, porque eu também era estranha em certos pontos.
Estava eu divagando enquanto fazia a quinta panqueca quando escutei uma voz bem parecida com a do Michael Bublé cantando Can’t help falling in love, originalmente do Elvis Presley. Era uma música maravilhosa, porém eu não estava com paciência para aquele ser naquela específica manhã.
Like a river flows surely to the sea. Darling so it goes, some things are meant to be...
Ele colocou o pó de café no coador da cafeteira, depois encheu de água e colocou na tomada para ligá-la. Passou por trás de mim ainda cantarolando, e quando coloquei a quinta panqueca no prato ele puxou a minha mão me girando.
- Take my hand, take my whole life too. – Soltou-me gentilmente e me abraçou por trás me deixando um pouco desnorteada. - For I can't help falling in love with you.
Balancei a cabeça e continuei fazendo as panquecas enquanto ele continuava agarrado em mim agora sussurrando a letra da música, com certeza alguém tinha acordado de bom humor, mas seria uma pena se eu não estivesse disposta a me derreter por cada palavra que ele murmurava. Portanto, apenas tentei manter a expressão de indiferença.
Meus pais chegaram no exato momento que terminei de arrumar a mesa, foi um timing perfeito e todos nos sentamos para tomar café, junto com o restante das pessoas que estavam dormindo na casa. Sophia parecia bem satisfeita com a noite anterior, porém não pude deixar de notar que eles sempre dormiam na casa dos meus pais e não no apartamento dela, sendo que o apartamento dela seria a moradia deles. Já era para eles estarem morando juntos há muito tempo, mas cheguei à conclusão de que talvez eles quisessem deixar a estreia do apartamento para depois do casamento.
Zoey tinha uma expressão de cansada no rosto, imaginei que ela tenha ficado até tarde limpando a bagunça e por um minuto me arrependi de não ter ficado até o final e ajudado, mas assim que seu olhar encontrou o meu ela lançou um sorriso enviesado que dizia “aprontei essa noite e preciso te contar depois”, então aquela sensação de que eu deveria ter ficado foi para o espaço.
Nem perdi o meu tempo olhando para a cara do Matt, no entanto acabei encontrando com o que comentava algo sobre a noite passada com o meu irmão, sustentando uma conversa nada saudável para aquele horário.
- ? – Sophia chamou e eu beberiquei o café antes de me voltar a ela. – O que você acha de irmos para aquela boate hoje a noite?
Pensei na possibilidade de sair de noite e na falta de variedade de roupas que eu tinha trago, se eu aceitasse teria que ir ao shopping comprar alguma coisa para vestir e aquela pareceu a desculpa perfeita para me afastar um pouco do . Por isso dei de ombros e ela sorriu anunciando para todos que iríamos para a boate mais tarde.

Meu plano era não pronunciar mais nenhuma palavra para ninguém naquela manhã e fugir um pouco do contato com o , mesmo com a aproximação mais cedo eu preferia me manter afastada até colocar as ideias no lugar. Ainda não tinha digerido toda a situação de ter transado com ele e esquecido, muito menos me livrei das lembranças da noite passada, minha mente facilmente viajava para os momentos em que a minha pele formigava sob o toque dos seus beijos.
Por Deus, , deixe a mente limpa! Foco!
Eu encarava Hades na casa do vizinho sem muito sucesso em tentar me afeiçoar a ele e no meio dos meus devaneios Zoey acabou aparecendo, logo me puxando para sentarmos no banco de fora.
- , você precisa me dizer se o ganso foi afogado várias vezes essa noite, por favor! Você e são como fogo e gasolina como diz a Sia – exclamou e foi inevitável não rir com a sua constatação.
- Você é louca, Zoey! – falei ainda rindo. – A única coisa que quase foi afogada ontem foi o .
Ops. Não era para dizer isso a ela.
- Porque ele acabou me estressando e você sabe... – tentei contornar meio sem jeito, mas a minha prima ainda sorria.
- Entre tapas e beijos – completou. – Mas não é só isso que eu tenho que falar com você, eu acho que acabei usufruindo mais do que o necessário do sofá da Sophia. – Ela foi abaixando o tom de voz e no fim eu quase não ouvi.
- O quê? Como assim? – perguntei baixo também.
- Então, ficou eu e mais alguns dos rapazes para limpar um pouco da bagunça, mas no fim você sabe, sobrou eu e o...
- O ÍNDIO? – dei um grito cortando a minha prima e ela quase me estapeou.
- Shhhh, fala baixo! – pediu e eu comprimi os lábios. – Não, não foi o índio. – fui obrigada a arregalar os olhos.
- Zoey? – articulei lentamente.
- Sim. – concordou com as bochechas já ruborizando. – Eu fiquei com o Joe, mas depois ele foi embora com os outros e só ficou o Mike.
- Então você achou seu Magic Mike, hein? – brinquei e ela sorriu parecendo aliviada por ter contado aquilo para mais alguém.
Ela então contou todos os detalhes sórdidos da sua noite e que ele a trouxe para casa no meio da noite, porém a casa já estava toda fechada e ela teve que acordar o Matt para abrir a porta para ela. Fiquei satisfeita em saber que ele estava sofrendo com a Zoey, era bom ele pagar um pouquinho pelos pecados dele.
Quando ela terminou seu relato foi jogar basquete com os meninos e eu continuei sentada, olhando para o meu celular e esperando que por algum milagre Holly me ligasse. Ela era a única com quem eu poderia desabafar e por algum motivo tinha se esquecido da minha existência, sendo assim mandei outra mensagem dessa vez pedindo para que ela me ligasse no momento que visse o recado.

No início da tarde aproveitei para tomar um banho e trocar de roupa, eu queria ir para cidade sozinha fazer minhas comprinhas em paz, mas claro eu não poderia ter isso enquanto estivesse na Califórnia. Estava tão irritada comigo mesma que eu me perguntava se era normal ter duas TPMs no mesmo mês.
- Para onde você vai com essa saia longa e toda arrumadinha desse jeito? – o moço do nome que eu não queria nem pensar perguntou me analisando de cima a baixo.
- Não te interessa. – respondi seca, voltando a minha atenção para o espelho para passar um batom qualquer que coloquei em cima da minha penteadeira.
- ? Tá tudo bem? – perguntou e eu apenas balancei a cabeça para não ter que retorquir o quanto eu estava ótima. – Você vai precisar do carro para chegar ao lugar onde você tá indo toda arrumadinha? – balancei a cabeça novamente e pelo canto dos olhos pude vê-lo passando a mão pelos cabelos receoso.
- Eu preciso comprar algumas roupas. – falei por fim, porque aí ele já saberia que eu ia fazer compras e ele não teria paciência para me acompanhar, assim deixando as chaves comigo. Era um plano perfeito, mas não foi isso que aconteceu, para a minha desagradável surpresa.
- Tudo bem, só espera eu tomar um banho rapidinho que te levo. – proferiu e eu o encarei assustada.
- Quem é você e o que fez com o ?
Ele deu de ombros e pela primeira vez naquela semana fechou a porta do banheiro.
Alguma coisa estava muito errada.
Catei as chaves do carro e desci para esperá-lo na sala, pelo menos ali eu poderia ver um pouco de televisão. Sophia comia uma bacia de pipoca sozinha e eu pensei em fazer algum comentário do tipo “que bicho mordeu o seu cunhado?”, mas ela ficaria sem entender nada e eu não podia explicar o que estava acontecendo sem estragar o disfarce. Então continuei quieta prestando atenção no filme.
Não demorou muito para o meu chofer descer as escadas vestindo uma bermuda e uma camisa azul todo perfumado, o cordão escondido e o tênis que parecia combinar com tudo que ele usava. Estava bonito como sempre.
Joguei a chave em suas mãos quando me levantei para encontrá-lo na porta e seguimos rumo ao centro da cidade. Não era muito longe, então fiquei olhando a rua pela janela para que ele não tentasse puxar nenhum assunto, mas mesmo assim o silêncio formou uma tensão quase palpável dentro do carro. Liguei o rádio e a Kesha fez o favor de cantar o inicio de We R Who We R. Logo troquei a sintonia e começou a tocar uma música não tão insinuante quanto aquela, porém só era a minha mente pregando peças, a música era inofensiva e as palavras “quente” e “perigoso” na mesma frase fazia sentido até demais quando o assunto era Cooper.
- Por que trocou? Quanto tempo eu não escuto Kesha por aí.
- Sei lá, prefiro ouvir algo mais... – prestei atenção no que tocava e era algo tipo Bob Marley.
Eu nem precisei terminar a frase porque ele já tinha entrado no estacionamento do shopping, só me restou desligar o rádio e focar no que eu tinha ido fazer lá: compras.
Sai do carro sem nem olhar se ele estava me acompanhando ou não, mas quando eu estava chegando perto das portas automáticas do paraíso do consumismo me chamou.
- ? – gritou e não estava com uma expressão muito boa no rosto quando me virei para respondê-lo.
- O que foi?
- Por que você tá estranha? – perguntou quando se aproximou mais de mim, normalizando a voz.
- Não tô estranha. - revirei os olhos.
- Olha, se é por causa do que te contei ontem você precisa superar isso. – cruzou os braços.
- Eu não posso superar o que eu não lembro, ! – repliquei impassível.
- Tá vendo, essa não é você. Você é a garota que quanto tá puta comigo ataca coisas em mim, grita comigo, mas essa. – ele apontou para mim. – Não. É. Você.
- Então deixa eu te contar uma novidade, muitas coisas não estão sendo como antes desde que chegamos aqui, na verdade, desde o momento que te encontrei naquele maldito bar. – falei com firmeza.
- Seu problema é comigo, disso eu já sei. – dessa vez ele revirou os olhos e em outra realidade eu até riria.
- Não é com você... Não totalmente. – corrigi e suspirei frustrada.
descruzou os braços e se aproximou mais de mim, por impulso me abracei e ele descansou uma de suas mãos no meu braço me puxando para si. Encostou o rosto do lado do meu e falou baixinho para que só eu escutasse.
- A sua tia tá saindo do shopping e acho que ela nos viu.
Fechei os olhos decepcionada com a informação e me preparei para ser abordada pela minha tia, que eu podia chutar ser a tia Wanda.
E de fato era.
Ela nos alcançou e o se afastou de mim para que eu cumprimentasse a senhora, ela me abraçou com um sorriso imenso no rosto.
- , não te vejo desde o jantar de noivado, faz quanto tempo? Dois anos? – questionou e eu concordei com a cabeça exibindo um sorriso falso no rosto. – Aquele menino não te merecia, ainda bem que ele meteu o pé.
Tia, a senhora tá se ouvindo?
- Bom te ver de novo, tia. – tentei contornar a situação. – Como tá o tio Barney?
Nós o chamávamos assim porque ele tinha a voz parecida com a do famoso dinossauro roxo.
- Ele tá bem, fez exame de próstata semana passada. – tentei evitar que meus olhos arregalassem, mas foi quase impossível.
- Que bom, eu acho.
- E quem é esse rapaz bonito? – pareceu enxergar o ao nosso lado e ele sorriu diante do elogio.
Ninguém, tia.
- É o , o melhor amigo do Tony, lembra?
- Nossa, como você cresceu! Como tá a sua mãe? – bati a mão na testa desistindo de tentar manter algum diálogo com a minha tia, ela não dava uma dentro e perguntar logo sobre a mãe dele foi pior do que falar do Matt comigo.
- Tia, a gente tá com um pouquinho de pressa, manda um beijo pra todo mundo lá. – dei outro abraço nela. – A gente se vê no jantar do Tony.
Finalizei e puxei o comigo acenando para ela. Ele ainda parecia confuso com toda a situação e eu bufei irritada.
- A gente não pode nem mais discutir com o namorado que aparece alguma tia maluca.
- Então agora eu voltei a ser seu namorado? – levantou uma sobrancelha assim que entramos no shopping, e de novo estávamos parados olhando um pra cara do outro.
- Não foi esse o nosso acordo?
- Não é isso que parece, .
- O que parece, então?
- Até ontem de noite parecia que eu era seu namorado, mas hoje... Não fui eu que te evitei o dia inteiro.
- Eu não...
- Nem tente negar.
- Caramba, isso aqui não é real, eu e você, não é real. Eu preciso de espaço.
- Que espaço? Você tá ficando louca? – franziu a testa e levantou os braços desistindo de conversar.
- Sim, estou. - concordei com ele nem me importando com as pessoas que passavam e assistiam o segundo round de discussão.
Um sorriso sujo apareceu no seu rosto e eu dei as costas a ele, eu não tinha paciência para mais um dos seus comentários ou o que seja. Eu só queria comprar um vestido novo e sair dali. Era só isso. Todavia, eu também tinha os meus pecados para pagar, porque o capeta, quer dizer, me puxou pela cintura e o seu corpo ficou em uma distancia perigosa do meu. No. Meio. Da. Porra. Do. Shopping.
- Admita que você tá se apaixonando.
Eu ia dar uma risada, mas deixei que um sorriso tímido aparecesse no meu rosto e o abracei como se fossemos um casal de adolescentes com os hormônios a flor da pele que iam para o shopping tomar sorvete. Seu sorriso sumiu e dei um selinho no canto da sua boca, então me afastei o suficiente para vê-lo fechando os olhos e tentar roubar mais um beijo, porém virei o rosto me direcionando dessa vez para o seu ouvido. Dei uma mordidinha leve no seu lóbulo e sussurrei.
- Admita que não consegue ficar sem um beijo meu. – Sorri satisfeita e o larguei.
Ele não estava nem um pouco feliz, estava muito puto. Mas eu não podia ligar menos. Dei de ombros e mal ouvi quando ele proferiu uma frase inteira para mim. Uma audaz.
- O que acha de uma aposta?
- Que tipo de aposta? – perguntei interessada.
- De não nos beijarmos por 24 horas. – Tirou o celular do bolso e deu uma olhada na hora. – São 3 horas agora.
- Aposta aceita. – Retruquei com um sorriso maior que o meu rosto.
- Você sabe que vai perder, né?! – sorriu seguro de si e eu neguei com a cabeça.
- É o que veremos.



Capítulo 11


Entrei na loja de roupas com o meu namorado no meu encalço, dei uma olhada nos manequins e araras que estavam dispostos pela loja um pouco perdida sobre qual tipo de vestido escolher. Era para ir a uma boate, então não tinha necessidade de nada muito elaborado.
Uma morena com os braços cobertos de tatuagens se aproximou de mim oferecendo ajuda, mas logo uma voz conhecida a interrompeu.
- Querida, deixa que essa eu faço questão de atender. – o loiro apareceu atrás dela e ela apenas concordou com a cabeça se dirigindo para outros clientes.
- Finn? – reconheci o homem a minha frente totalmente surpreendida.
- Finn Larcker? – pareceu tão surpreso quanto eu.
- Oh, se não é a dona da Ruby comprando na minha loja novamente e o bonitão destruidor de hímens, e outras coisas também devo dizer. – ele piscou para o homem ao meu lado que sorriu sem graça, fazendo-me dar uma boa risada diante da cena.
- Eu não sou dona da Ruby, Finn.
- Ainda, docinho. – frisou a palavra ainda e eu não pude deixar de me imaginar por um segundo dona da empresa. E conclui que seria uma loucura.
Finn era dono de uma grande rede de lojas conhecida pelo país inteiro, ele morava em Nova York e estava sempre na loja de lá, onde eu comprava as minhas roupas. Porém, extraordinariamente, ele estava com os seus pés na Califórnia também. Aliás, ele estudou junto comigo e , éramos amigos no colégio e eu sempre tive certeza que ele teria sucesso no ramo do estilismo e moda.
- O que está fazendo perdido nesse lado do país, Larcker? – perguntou e eu compartilhei da sua curiosidade.
- Vim resolver alguns probleminhas na loja, vocês sabem, sou perfeccionista e tive que vir pessoalmente. – explicou e nós concordamos com a cabeça. – Então, o que a senhorita deseja?
- Eu preciso de um vestido pra sair hoje a noite, não trouxe muitas roupas de casa e me pegaram despreparada hoje. – falei e ele abriu um sorriso como se já soubesse quais modelos jogaria no meu braço para que eu experimentasse.
- Já sei do que você precisa. – puxou a minha mão me guiando até o fundo da loja, onde ficavam os provadores. – Espera aí que já trago alguns modelos perfeitos pra você!
Assenti com a cabeça e ele saiu pelo estabelecimento como se fosse o flash. veio logo atrás andando preguiçosamente com as mãos no bolso e se jogou sentado em uma poltrona localizada estrategicamente na frente do provador.
- Deixa ele saber que você trouxe duas malas imensas cheias de roupas. – comentou e eu revirei os meus olhos ignorando-o.
O estilista não demorou muito a chegar com uns quatro vestidos em mãos e me entregar animado para que eu experimentasse todos. Entrei no provador e decidi começar por um azul. Era um vestido rendado curto, de mangas também curtas e possuía uma abertura entre os seios, onde uma renda fina cobria a pele. Fiquei alguns segundos me encarando pelo espelho pensando se aquele vestido era um pouco largo mesmo, sem chegar a nenhuma conclusão sai para que os meninos opinassem sobre.
- Hm. – foi o que balbuciou quando me viu.
Não era uma reação boa, certo?
- Acho que você usa um número a menos, docinho. Experimenta outro enquanto eu procuro um número menor. – Finn falou e logo saiu de vista de novo.
Portanto só me restou trocar de vestido. Coloquei um rosa claro de alcinhas e seu comprimento ia um pouco acima dos joelhos, o tecido era de seda lembrando um pouco uma camisola mais sofisticada. Era simples e ficava bem no meu corpo, só não sabia se combinava com a ocasião.
- Isso aí é um pijama? – meu querido acompanhante perguntou assim que sai da cabine e eu não pude evitar outro rolar de olhos.
- Pelo amor de Deus, . Cala a boca! Você não entende nada de moda. – então Finn chegou com mais um vestido na mão, preto dessa vez. – Você ficou linda com esse modelo, .
- Sim, esse modelo seria ótimo para uma das festas de abertura da Ruby, mas acho que não dá muito certo pra ir em uma boate. – coloquei para fora o que eu pensava e o loiro me estendeu o vestido preto.
- Experimenta esse. – sorriu confiante e eu peguei o vestido entrando novamente na cabine.
Enquanto eu brigava com o zíper do vestido de seda tentando tirá-lo, escutei o início de uma conversa do lado de fora.
- Até onde me lembro você e não se bicavam. – consegui abrir o zíper com custo e tentei prestar mais atenção na conversa.
- Pois é, o mundo realmente dá voltas e a vida gosta de fazer gracinhas. – seu tom irônico não me impressionava.
- O que você quer dizer?
- O que parece quando um homem acompanha uma mulher para fazer compras? Das duas uma, ou o cara é retardado, ou a mulher obrigou. – fechei os meus olhos com força e tive que fazer uso de muito autocontrole para não gritar que ele se voluntariou para me trazer. Mas me mantive quieta, deslizando o tecido pelo meu corpo para colocar o outro.
- Ou você é um louco apaixonado. Quem diria hein. – Finn respondeu enquanto eu vestia a peça, era uma frente única de lantejoulas na parte de cima com algumas pregas na cintura que deixavam a saia um pouco rodada.
- Quem sabe. – o outro respondeu e eu sem querer bati com a cabeça na porta.
- ? Tá tudo bem aí? – o loiro perguntou e eu abri a porta para exibir o look.
- Tá tudo ótimo. – sorri satisfeita com o vestido que modelava o meu corpo perfeitamente, as costas nuas era um detalhe ousado que passei a amar só para provocar um pouco meu namorado.
- Uau! – exclamou boquiaberto e Finn sorriu com certo orgulho.
- Você ficou magnífica com esse vestido! – foi tudo o que disse e eu concordei.
- Mas não vai para uma cova de leões com ele, . Olha, acho que prefiro aquele vermelho, já experimentou ele? – se referiu a um dos vestidos no meio dos que eu ainda não tinha experimentado e eu dei uma risada maldosa não me esquecendo da nossa aposta.
- Não, eu vou levar esse. – anunciei com convicção.
- Droga. – resmungou e eu me tranquei para colocar minhas roupas, mas ainda pude ouvir o que o Finn tinha para lhe falar.
- Não deixa essa escapar, boy.

Chegamos em casa e meu pai estava fazendo algum tipo de home Office com o notebook na sala de jantar, minha mãe estava no telefone conversando com a sogra do meu irmão mal percebendo que tínhamos voltado para casa. Apenas acenei para que ela soubesse da nossa presença, enquanto estava com as mãos no bolso da bermuda ainda perturbado, como se tivesse recebido a notícia de que tinha sido demitido ou despejado.
- Por Deus homem, é só um vestido. – falei quando chegamos ao nosso quarto. Ele saiu da loja todo emburrado, então só podia ser a droga do vestido.
Eu não sei se foi a convivência ou a intimidade que tínhamos, mas peguei um short e coloquei por baixo da saia a tirando logo em seguida e não liguei de ficar só de sutiã na frente dele na hora de trocar a camisa.
- Tira essa roupa na minha frente de novo...
- E vai fazer o que? – dei o meu melhor sorriso. – Vai perder a aposta?
- Não me atenta, . – ele arrancou os tênis e tirou a camisa. – Da próxima vez que formos ao shopping eu faço questão de comprar um vestido com renda transparente pra você, já que gosta tanto de se exibir.
- Em toda a minha vida eu nunca pensei que estaria discutindo a roupa que eu uso com meu namo... – então eu parei.
Fiquei atordoada ao me dar conta que eu já estava o chamando de namorado mesmo quando estávamos sozinhos, e aquilo acabava comigo por dentro. Eu estava o usando, ele sabia disso. Tínhamos uma puta de uma tensão sexual, ele sabia disso. Mas eu não estava sabendo lidar com o que era mentira e o que era verdade. Ele podia muito bem me usar com toda aquela baboseira, porque era isso que fazia, fez a vida inteira, por que seria diferente comigo? E por que eu estava me perguntando se seria diferente comigo? É isso mesmo, ? Está considerando o sentimento de paixão pelo melhor amigo do seu irmão? Sério?
E ainda tinha essa maldita aposta, sempre apostava para ganhar. Mas foi aí que uma nova sensação se apossou de mim fazendo eu me sentir renovada, eu estava decidida a fazê-lo perder pelo menos uma vez na vida. Eu era uma mulher, era poderosa, independente, eu não precisava dele, não precisava do beijo dele.
Na verdade, fora daquele quarto, fora do nosso mundinho, eu precisei dele para provar algo idiota para minha família. Família é uma coisa complicada, e mentir para eles me dava um ódio de mim mesma que eu não sabia nem como definir. E por isso eu sabia que também era fraca, era covarde. No entanto, meu único conforto era saber que logo, logo, meu irmão ia se casar, eu voltaria para Nova Iorque e o resto seria mais fácil.
- Namorado? Continue assim, estou quase acreditando. – ele respondeu assumindo a postura de antes, nenhuma bandeira branca daria certo para nós.
Acordei dos meus pensamentos e ele saiu do quarto batendo a porta atrás de si. Voltei a pensar em nós dois de novo, e eu estava decidida a fazer que ele comesse o pão que o diabo amassou na palma da minha mão.
Ah, , você vai perder essa aposta.

Eu estava ajudando a Sophia junto a minha mãe na bancada da cozinha com a lista de coisas que ainda faltavam para o jantar no dia seguinte para que nada fosse esquecido. Era incrível a capacidade do meu irmão e da minha cunhada de esquecer as coisas e/ou deixá-las para cima da hora. Estava concentrada quando o surgiu do nada todo suado e me abraçou por trás me dando um beijo na bochecha.
Virei o meu corpo, ficando de frente para ele. Sem camisa, os cabelos pingando e o peitoral todo suado.
Deus me leva.
- Eu vou fingir que você não está todo encharcado de suor. – falei afastando o corpo dele do meu.
- Ah, é mesmo? – ele esfregou um braço cheio de suor no meu com um sorriso imenso no rosto e eu respirei fundo, contando até 10.
Passou o seu suor no meu outro braço também, deixando a minha pele melada e aquilo foi a gota d’água. Sophia e Dona Amy riam, se divertindo com o meu desespero em tirá-lo de perto de mim, juntamente com o cheiro de suor misturado com desodorante.
- Você é pior do que criança, fala sério! – elevei um pouco a voz e ele me puxou pela cintura, agora esfregando o seu pescoço no meu enquanto eu tentava empurrá-lo sem sucesso. – Sai ! Vai tomar banho!
- Vocês dois são piores do que criança para falar a verdade. – Sophia comentou ainda rindo.
No entanto, peguei a mão dele e o puxei escada acima, só o soltei quando estávamos dentro do banheiro.
- Pronto. Agora por favor, chuveiro! – apontei para dentro do box e ele me olhava exibindo um sorriso malicioso no rosto.
Semicerrei os olhos, já prevendo que ele tinha algo em mente. Algo que eu não gostaria de fazer parte, mas estava em seus planos. Foi quando ele fechou a porta atrás de mim e passou a chave.
- O que você está fazendo? – perguntei colocando uma mão na têmpora, segurando o impulso de socá-lo ou de enfiar a sua cabeça dentro da privada. Hm, a segunda opção era tentadora.
- Tentando fazer você tomar um banho comigo.
- O quê?
Foi tudo muito rápido, arregalei meus olhos e tentei chegar à porta, mas quando toquei a maçaneta ele me pegou no colo. Soquei o seu peito com força, a cor da sua pele ficava rosa, eu gritava, porém nada o impediu de me colocar dentro do box, nos fechar lá dentro e ligar o chuveiro.
A água gelada descia pelas minhas costas me fazendo tremer e a minha pele se arrepiar, levantei a cabeça e a água encharcava os meus cabelos. Fiquei quieta, não tinha mais o que fazer. Olhei para o parado em minha frente, feliz pela sua vitória, então me abracei sentindo frio, meu queixo bateu e ele colou o seu corpo no meu.
Enquanto a água gelada caia sobre ele também, o frio se esvaiu um pouco com o calor que seu corpo emanava colado ao meu. Seu braço passou por mim novamente, abrindo a água quente e outro choque percorreu a minha espinha. Tudo tinha ficado em silêncio, era apenas eu e ele ali, não tinha mais nada. Sua expressão agora estava séria e foi inevitável não tocar o seu rosto, sentir cada pedacinho de pele, a barba por fazer, a sua boca... A aposta.
Minha mão desceu para o seu pescoço, eu ainda encarava os seus lábios me perguntando se valia a pena perder a aposta, mas eu não ia dar mais esse gostinho para ele. O que eu não esperava era ele escorando na parede atrás de mim, seu rosto se aproximando do meu, sua boca quase encostando a minha. Ficamos assim por segundos, a sua respiração encontrando a minha, a água já morna caindo sobre nós.
- Eu não vou te beijar, .
- Droga! – ele me deu um beijo rápido no canto da minha boca e começou a me fazer cócegas.
- Ai de novo não. – falei desesperada, não sabia se ria ou chorava.
- Tudo bem. – ele parou tirando a minha blusa e me deixando com o sutiã. – Vamos só... Tomar banho?
- Isso é uma pergunta? – perguntei rindo da careta que ele tinha feito.
- Vamos tomar banho. – repetiu dessa vez afirmando. – Não estrague o momento.
Então tirou a bermuda, eu tirei o short, ficamos só com as roupas íntimas e foi divertido um ensaboar o corpo do outro. Sem segundas intenções.



Capítulo 12


Encarei o meu próprio reflexo no espelho da penteadeira. Desejei silenciosamente que a Holly estivesse ali, pois ela saberia exatamente que tipo de maquiagem fazer que combinasse perfeitamente com o vestido jogado em cima da cama. já tinha se arrumado e descido para comer alguma coisa antes de sair, enquanto eu continuava ali enrolada em um roupão apenas de calcinha esperando que um milagre acontecesse e a inspiração viesse para eu terminar de arrumar.
O milagre veio, por fim. Meu celular vibrava em cima da madeira da penteadeira e a foto de Holly sorrindo alegremente apareceu.
- Oh, vadia, esperei o dia inteiro pela sua ligação. – foi a forma que atendi.
- Meu amor, alguém aqui precisa trabalhar, né!? – resmungou e escutei o som de buzinas, o que significava que estava na rua indo para casa depois do serviço. – O escritório tá um caos. Deus, eu desisto de ser advogada de gente rica.
- Falou a que não é nem um pouco consumista.
- Me deixa reclamar em paz, . – gritou e eu ri.
- Ok, ok.
- E como tá o clima na Califórnia? – perguntou enquanto parecia andar entre as pessoas.
- Sol todo dia, você sabe...
- Não digo esse tipo de clima, bobinha. Espero que a essa altura você já tenha saído da seca.
- Oh, muito obrigada por se preocupar com a minha vida sexual. – revirei os olhos enquanto ela ria do outro lado gritando por um táxi.
- Vamos, me conte o que é tão urgente a ponto de eu ter que te ligar.
- O tá me deixando louca. Tá tudo me deixando louca, temos uma puta atração, mas eu não sei se vou saber lidar com isso, sabe? – confessei logo de uma vez.
- Sei não. – respondeu fazendo pouco caso.
- Caramba, Holly! Eu preciso que você me ajude. – pedi desesperada. – Você sempre me ajuda.
- Você tá gostando dele? – perguntou com a voz séria e respondi imediatamente.
- Não. – então hesitei, eu teria que ser sincera pelo menos agora. - Quer dizer... Eu tô com medo de que algum tipo de sentimento apareça nessa brincadeira de ficar se pegando por aí, inclusive a gente quase se comeu na festinha de lingerie da minha cunhada.
- Gosto disso, continue.
- Eu tô falando sério, criatura!
- Então faça sexo com o homem, se é isso que você quer. Vocês deviam mesmo aproveitar as oportunidades, por Deus. – eu podia jurar que ela estava gesticulando igual louca enquanto falava.
- Mas eu tenho medo de levar isso a sério, cassete. Eu sei que ele é cafajeste de primeira linha que só quer isso mesmo, aproveitar as oportunidades. Não é assim comigo. – disse e ela assobiou para um táxi que pareceu parar, houve um silêncio por um instante.
- Então pare de se preocupar consigo mesma e cai pra dentro, . Vai ser bom para os dois. Se ele gosta de ser casual, seja também. Simples. – ouvi sua respiração cansada, talvez aliviada por finalmente estar dentro de um táxi. – Você tem essa capacidade de fazer tempestade num copo d’água.
- Sentimentos são uma tempestade em um copo d’água, Holly. – suspirei.
- Mas não é qualquer sentimento, né!? É a paixão, e se você tá desse jeito é porque tá se apaixonando.
- Tudo bem, sem filosofias agora. E eu preciso me arrumar pra ir a uma boate hoje, amo como vocês conseguem me arrastar pra lugares assim na quarta e na quinta.
- Boate? Bom lugar pra você treinar o desapego então, já que não quer assumir que tá apaixonada... Ops, não quer filosofar.
- Tenho amor próprio, obrigada.
- Seeeeei.
- Aliás, a gente fez uma aposta às 3 horas da tarde, quem se render a um beijo em menos de 24 horas perde.
- Que demais, mulher bota essa sensualidade pra fora e faz o boy perder a cabeça. – falou animada.
- Meu plano era esse mesmo.
- Isso, não fica pensando muito.
- Comprei até um vestido com frente única, ele ficou puto.
- Arrasou.
Ficamos em silêncio por um tempo.
- Eu queria que você estivesse aqui pra me maquiar e arrumar meu cabelo. – lamentei.
- Claro que você me queria aí pra dar uma de salão de beleza, óbvio. Não é porque você me ama ou algo do tipo. – ironizou.
- Também. – sorri.
- Você fica bem de delineador e rímel, passa aquele blush marrom e um batom mais leve que tá tudo certo. Você sabe fazer isso, não sabe?
- Sei. – olhei para o que tinha dentro do nécessaire que eu tinha trago, tinha tudo ali. – Obrigada, te amo.
- Por nada, e dá uns pegas no homem.
- Ok. Beijos.
Ela se despediu e eu desliguei, agora determinada a só jogar uns jatos quentes no cabelo para que ele secasse mais rápido, ia deixá-lo natural mesmo. Fiz a maquiagem que a Holly tinha sugerido e de fato ficou muito bom, depois de semanas de treinamento de como se passar o bendito delineador, aquilo tinha que dar certo eventualmente.
Terminei não muito tempo depois, coloquei o vestido e o ankle boot com detalhe de renda que eu tinha trazido. Estava pronta. Tirei uma selfie e mandei para Holly que logo mandou uma mensagem aprovando o look.
- , que vestido maravilhoso é esse? – Zoey gritou na base da escada enquanto eu descia cuidadosamente fazendo todos que estavam na sala me olharem.
Meu pai levantou uma sobrancelha e sorriu, minha mãe semicerrou os olhos provavelmente por causa da falta de tecido nas costas do vestido, Tony só faltava bater palmas e pediu para que a noiva comprasse um igual enquanto ela me elogiava junto com a Zoey que estava orgulhosa de mim. Foi impossível não ver o queixo de Matt caindo e olhar para ele como se fosse matá-lo ali mesmo. Quase gargalhei com a cena.
- E esse vestido, Zoey? – perguntei para ela, que ostentava um vestido vermelho bem decotado.
Ela deu de ombros segurando a minha mão quando cheguei ao primeiro andar e me girou assoviando.
- , querido, você abre esse olho. – falou encantada. – E já aviso que vou de carro com vocês.
- O quê? Por quê? – perguntou e eu não sabia se era por causa do “abre esse olho” ou porque Zoey queria ir com a gente.
- Tony ainda vai passar na casa da Dani, a amiga da Sophia, e eu quero ir pra essa boate logo.
- Tudo bem. – respondi, já que ainda estava meio atônito. – Pode ir com a gente.
- E você vai com a casal. – ela apontou o dedo na cara do Matt que fez uma cara feia.
- Passar um pouco de tempo longe de você faz bem. – ele disse fazendo a Zoey puxar o meu braço e o do com força para fora dali.
- Boa noite pais. – gritei antes que eu estivesse totalmente fora de casa e a porta se fechasse atrás de mim.
- Eu não tô aguentando mais o Matt, ele me dá nos nervos.
- E quem aguenta? – comentou inexpressivo dando a volta no carro e destravando as portas.
- Boa pergunta, acho que só a Sophia. – Zoey se jogou no banco de trás e eu sentei no carona.
Por incrível que pareça foi pelo Matt que o meu irmão tinha conhecido a futura esposa, ele e Sophia eram amigos, mas nunca na vida eu pensei que ficariam best friends forever depois do desastre que foi o meu noivado. Ela sabia das coisas, sabia dos motivos, porém não se meteu porque defende a ideia de que ele deveria conversar comigo e pelo visto essa conversa não aconteceu até hoje. Ainda me perguntava se não era melhor continuar sendo ignorante, saber demais das coisas às vezes faz mal, e surpreendentemente eu não estava ligando tanto para aquilo como antes.
- Hoje vocês vão ouvir o meu repertório. – declarou ao conectar o celular dele com o Bluetooth do carro.
- Lá vem... – falei e ele arqueou uma sobrancelha me encarando quando deu play em alguma música que começava com um cara falando no telefone.
- I don’t make music just for you nigga? – Zoey repetiu o que entendeu da introdução e quando a batida começou ela gritou. – YAYYYY NIGGA!
Peguei o celular dele para ver que música era, Bring it out of me do Ty Dolla $ign. Aumentei o volume porque música R&B/Hip Hop no volume baixo não tinha graça. Diante disso deu partida no carro com um sorriso discreto no rosto.
- Vocês voltando às origens, amo isso. – minha prima jogou os braços pra cima dançando e eu ri.
- Saudades de quando eu tinha um carro para andar com música no volume máximo. – sim, eu era dessas que andava com o “som rufando” como diz meu irmão.
- Saudades, saudades. – Zoey cantarolou. – E saudades disso também, Nigga. Mais o que tem nesse celular?
Zoey mal esperou a música acabar para que Trap Queen do Fetty Wap começasse a estourar os auto falantes do carro.
- , meu amor, a gente realmente devia voltar a trocar músicas pelo skype. – gritou. – Adoro o Fetty Wap.
- Óbvio que adora, ele é tipo o novo Akon. – ele falou e eu dei uma gargalhada.
- Só que não, né!?
- Por favor! – Zoey completou. – Aliás, saudades Akon também.
- Deixa eu fazer a merda da comparação, que saco.
- Naaah. – ela falou quase pulando no meio de nós. – Or nah, quero ouvir essa música.
- Sossega com esse celular! – pedi.
- Olha a letra dessa música. MEU DEUS É THE WEEKND? Tá explicado.
- Zoo, se comporta, por favor. – ri da coreografia que ela fazia no banco de trás.
- OR NAH!
- Zoey, eu te amo. – falou. – Vamos fazer uma playlist amanhã e tal, sabe o jantar? A gente precisa colocar música decente naquilo.
- Concordo, porque dependendo do Tony... Aliás, nem é o Tony, é a Sophia. – ela respondeu.
- Sophia e a síndrome do certinho. – comentei olhando para os prédios que passavam rápido pelo meu campo de visão.
- Olha quem fala, a menina que queria música acústica no jantar de noivado. – rebateu.
- Nem me lembre.
- E é por isso que estamos ouvindo a minha playlist hoje, tenho que ensinar a dona aqui a ouvir boa música. – provocou.
- Imagina que música ela ia colocar pro aquecimento pré-boate... – Zoey fingiu pensar. – Florence and the machine?
- Ou Coldplay. – eles citaram as minhas bandas favoritas e eu revirei os olhos.
- Ou quem sabe... – abri a playlist do meu celular e olhei para a primeira música. – Axwell e Ingrosso.
- Bom, aí estamos falando a mesma língua. – ela falava com a cabeça no meio dos bancos da frente, quando uma música do Twenty One Pilots começou a tocar. – PUTA QUE PARIU NATE EU TE AMO, CARALHO EU TE DARIA UM BEIJO AGORA SE AS CIRCUNSTANCIAS FOSSEM OUTRAS.
- Senti sua falta, parceira de crime. – ele falou rindo do surto dela e eu quase tinha me esquecido que a Zoey era o Tony versão mulher na vida do .
- Blurryface, melhor álbum. – ela fez um toque de mão com ele que ainda prestava atenção na estrada em frente.
Comecei a cantar junto com a música ignorando a conversa deles, quando do nada tudo ficou quieto.
- Wish we could turn back time... – diminui mais a voz e eles me encararam como se eu fosse um extraterrestre.
- Você sabe cantar essa música? – Zoey perguntou.
- Sei, eu fui ao show deles em Nova York com a Holly, uma amiga minha.
- Eu tô amando vir de carro com vocês! – ela gritou aumentando o volume e olhou pra mim chamando minha atenção com um “psiu”.
- O que foi? – olhei para ele segurando uma risada ao me deparar com a minha prima se esgoelando no banco de trás.
- Você tem que casar comigo. – falou se referindo ainda ao fato de eu saber cantar a música.
- Vocês me subestimam! – gritei rindo e então a gente terminou de cantar a música juntos até que estacionou o carro perto da boate.
Entramos na boate sem muitos problemas, eu e Zoey estávamos uma em cada braço de , o que o fez se divertir com a imagem de ter duas mulheres pra noite. Gostosas, segundo ele.
Zoey me puxou para a pista de dança e pediu para que fosse buscar bebidas no bar, ele aceitou de bom grado já avisando que podíamos ficar a vontade, porque ele ia ficar responsável pelo carro.
- Escravo. – ela gritou quando ele deu as costas para a gente ainda rindo. – Você o mudou, . Eu não tava levando muita fé, mas agora eu tô vendo. É diferente.
- O que é diferente? – perguntei tentando ao mesmo tempo raciocinar as palavras dela e analisar detalhadamente a roupa que ele usava. Calça jeans de lavagem escura, o mesmo sapatênis de sempre, mas a blusa branca de manga comprida estava dobrada na altura do cotovelo. O tecido grudado no corpo dele também era uma tortura.
A aposta.
Ele sabia que aquilo ia chamar a minha atenção, não como o vestido tinha o afetado, mas quase da mesma maneira. Era justo, não era? Ah, a arte da sedução.
- Ele entrou de cabeça nesse relacionamento, não entrou? – questionou e eu me forcei a acordar, prestando atenção só nela dessa vez. – É como se só existisse você no mundo dele agora. Já sai muito com ele e nunca, NUNCA, N-U-N-C-A eu tinha o visto entrar em uma boate sem falar “quantas você aposta que eu pego hoje?”. Ele foi direto para o bar sem olhar pra nenhum rabo de saia, entrou aqui prestando atenção no que você falava, e é só olhar pra ele que eu sei que ele tá se apaixonando. E é lindo ver vocês juntos nessa.
Fiquei sem reação. O que eu podia falar? O que eu podia pensar? Eu não queria pensar.
- Caramba, Zoey, eu vim aqui pra me divertir e não pra ouvir filosofias. – sorri sem graça e ela riu. – Ainda não sei lidar muito bem com as impressões das pessoas de fora. – fui sincera. – Ele é , né!? É no mínimo bizarro.
- Tudo bem. Escolhi um péssimo lugar pra conversar, eu sei. Mas queria dizer isso porque sinto que você ainda tá com um pé atrás. – piscou e se virou de costas para mim dançando.
Segurei a cintura dela e a acompanhei, dançamos duas ou três músicas até que a sede foi mais forte e fomos para o bar encontrar o que pegava as nossas bebidas.
- Isso aqui tá cheio, hein. – falei e ele assentiu me entregando um drink.
Tomei a bebida que tinha um gosto de café fraquinho em tempo recorde e pedi outro.
- O que é? – perguntei passando a mão pela cintura dele que logo espalmou a mão na base da minha coluna descoberta.
- Expresso Martini, gostou?
- Gostei! Você sabe que gosto de tudo que envolve café.
- Eu sei. – piscou e meu irmão se juntou a nós no bar junto com o Matt.
Minha prima já tinha voltado para a pista de dança e as meninas que tinham chegado se juntaram a ela.
- O que eu fiz pra merecer o seu ex-namorado aqui? – ele perguntou no meu ouvido me fazendo rir.
- Me pergunto a mesma coisa.
- Seria divertido se... – ele passou o nariz debaixo da minha orelha puxando o cheiro do meu perfume para si e fazendo um carinho ali, mas eu bem sabia o que ele queria.
- Eu. Não. Vou. Te. Beijar.
Dei um beijinho na bochecha dele antes de me afastar. Joguei outro beijo no ar piscando e me retirando para a pista, deixando-o sem muita reação em frente do bar.
Eu e as meninas dançávamos e nos divertíamos como se o mundo fosse acabar no dia seguinte, era a mesma sensação boa que eu não sentia desde a noite do pub quando coincidentemente reencontrei .
Zoey tirou várias fotos comigo e a Sophia, depois pulou em cima do que parecia estar confortável parado no mesmo lugar que antes batendo altos papos com o Tony. Continuei dançando e alguns caras chegavam para me acompanhar, mas eu sempre dava um jeito de me desvencilhar deles.
Minha prima voltou com um novo copo de bebida para mim e continuamos dançando, cantando e pulando como loucas. Ficamos um bom tempo assim até dois homens se aproximassem da gente, acabei dispensando o rapaz loiro que tinha chegado em mim, ao contrário de Zoey que já estava dando uma de Holly. Ri sozinha da situação e olhei para o bar novamente, encontrando o olhar de preso em mim, ele tinha um copo de whisky na mão e parecia estar apreciando muito bem a vista.
Virei de costas para ele e dancei sensualmente com how deep is your love. Eu sentia os olhos dele queimando a extensão de pele exposta, me virei novamente para ele que exibia um sorriso de lado no rosto ciente que o showzinho foi para ele. Mas o Matt chamou a sua atenção e eu terminei de beber o conteúdo que tinha no meu copo já imaginando que coisa boa não era, porque eu pude enxergar que ele tinha travado o maxilar na hora. Fui até alguma lata de lixo jogar o plástico fora e quando voltei para a pista, já caminhava descontraidamente em minha direção.
Suas mãos encontraram a minha cintura numa velocidade impressionante e uma música do Flo Rida tocava fazendo que ele movimentasse a cabeça de forma engraçada.
- O que o Matt queria? – perguntei quando a curiosidade foi maior que o meu bom senso.
- Não vamos falar sobre inutilidades agora. Vamos falar de coisa boa, vamos falar de você perdendo a aposta. – dei uma risada e ele se aproximou mais.
Colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha, seu polegar percorreu a minha bochecha até parar no queixo fazendo um carinho por ali. Por um segundo pensei que ele falaria “foda-se” e me beijaria, mas só manteve a sua boca a centímetros da minha quando sua mão se acomodou na minha nuca.
Permaneci abraçando o seu pescoço enquanto nossos corpos se movimentavam junto com a música, que não era mais Flo Rida, era The Weeknd e eu ouvi claramente o grito da Zoey em algum lugar daquela boate. Sorri ao imaginar a cena, enquanto ainda me torturava com aquela proximidade, aquela sensação de ansiedade pré-beijo, aquela expectativa, adrenalina sendo jogada no sangue. Seus olhos brilhavam quando o encarei, mas não consegui manter muito contato visual porque os seus lábios pareciam muito mais atrativos. Era isso, eu ia perder a droga da aposta.
- O que você acha de perdermos a aposta juntos? – sugeriu com a testa colada na minha, balancei a cabeça positivamente e comecei uma pequena contagem regressiva.
- 3... – fechei os olhos. – 2... – os lábios dele roçavam nos meus e mal falei o 1 quando estava feito.
Perder ou ganhar. É a regra, ou você perde ou você ganha. Mas tínhamos acabado de criar a exceção: perder e ganhar.


Capítulo 13


Existia alguma lei da natureza que dizia que a felicidade devia ser medida ou guardada para si mesmo, porque se tem uma coisa certa nessa vida é a que você pode estar muito feliz agora, mas vai ficar muito triste logo em seguida.
Depois de tanto apanhar da vida, eu tinha aprendido a lição de que eu precisava curtir cada momento de felicidade, cada sorriso que não cabia no meu rosto, cada segundo em que o meu coração pulava de alegria dentro do peito.
Era muito bom.
Mas eu sabia que sempre era muito bom para ser verdade.

Naquela fatídica manhã...
Pela primeira vez não só naquela semana, mas na vida, eu tinha acordado com os braços do ao meu redor.
Se um mês atrás alguém me contasse que um dia eu acordaria com ele abraçado em mim eu teria gargalhado da piada. Mas agora a coisa toda era real e – de certa forma – fofo.
Abri os olhos para encontrar os raios de sol atravessando a cortina do quarto, sorri involuntariamente ao perceber que eu estava tentando curtir os mínimos detalhes. O que acontecia quando eu estava feliz.
Então flashs da noite passada começaram a passar pela minha cabeça e eu não podia ignorar a lembrança de beijos doces e ternos, quentes e famintos. Toda a expectativa que criamos deu um resultado sensacional. E pelo sorriso que eu não conseguia tirar do rosto pelo resto da noite eu tinha certeza que as coisas não seriam mais as mesmas, começando pelo fato de sentarmos e conversamos igual as duas crianças que já fomos um dia. Não era a mesma coisa, era um sentimento totalmente novo, mas não deixava de ser diferente de uma forma maravilhosa.
As fotos que tiramos no meu celular não me deixava mentir, inclusive uma que a Zoey tinha tirado enquanto eu o abraçava e não dava para ver o seu rosto, mas era bem espontânea a risada que eu tinha dado, foi parar no meu instagram.
Holly foi a primeira a comentar “otp supremo #nash”, mostrei a ele que deu altas risadas por causa da junção de nossos apelidos e depois me perguntou o que era otp. Apenas respondi que o Google estava aí para isso e ele apenas franziu as sobrancelhas, não insistindo no assunto e voltar a falar sobre como tinha conseguido o emprego na New York Times.
No fim da noite viemos para casa, Zoey desmaiada no banco de trás e cantando Gap do The Kooks do meu lado. Eu estava com os olhos fechados, mas sentia a música invadindo cada poro da minha pele, entrando em minha mente e me fazendo repensar sobre a escolha dele de ter colocado exatamente aquela música, com aquela letra.
And I miss you, and I need you and I do...
Chegamos em casa em silêncio, fui direto para cozinha beber um copo de água e ele me acompanhou. Ficamos ali, um olhando para a cara do outro ainda em silêncio, então ele me beijou. Por longos minutos.
Don't go, take my love. I won't let you, I'm saying please don't go...
E quando o cansaço foi maior, subimos para o quarto e nos deitamos. Sem nenhuma palavra. Apenas carinho. Mas eu ainda cantarolava mentalmente a música que tinha ouvido no carro até que eu finalmente dormisse, com os braços dele ao meu redor me aninhando.
And I miss you, and I love you and that's true.

Depois do café da manhã, Sophia levou todo mundo até um salão de dança que tinha na cidade alegando que tínhamos que ensaiar pelo menos algumas vezes para a valsa. Ela e Tony começaram primeiro, depois os outros casais se juntariam a eles. Eu e ficaríamos juntos, Zoey fez um alarde porque não queria dançar com o Matt, então decidiu dançar sozinha, já que o primo da Sophia só estaria presente no jantar. Por fim, Matt acabou pedindo para dançar com a amiga da noiva.
Na adolescência, foi aquele tipo de cara que era chamado para ser o príncipe em todos, repito TODOS, os aniversários de 15 anos. Obviamente ele era o pé de valsa em pessoa. E eu não sabia dizer se existia alguma coisa em que ele era péssimo, o cara sabia tocar violão, cantar, beijar – muito bem – e ainda dançava. Fora outras qualidades. Ele era inacreditável.
Sophia e Tony passaram umas três vezes a valsa deles, em seguida a professora pediu para todos nos juntarmos para a segunda valsa que juntaria todos os padrinhos. A primeira música era clássica, mas a segunda fez todos no salão gargalharem com Time of my life. Como foi pedido, eu estava com um vestido rodado e saltos, enquanto , calça e camisa social juntamente com os sapatos devidamente engraxados.
Levantei-me da cadeira para começar o ensaio, mas ele continuou sentado na cadeira com os braços cruzados me encarando com uma expressão de quem tá armando alguma coisa.
- Anda, levanta, não temos o dia inteiro. – cruzei meus braços me postando em sua frente.
- Acho que eu não sei mais dançar. – falou sério e eu desacreditei até da respiração contida dele.
- Ok, e eu não sei mais falar. – revirei os olhos.
- Bom, isso você tá fazendo perfeitamente bem. – sorriu emanando uma inocência que nunca existiu.
- Eu desisto de você. – virei as costas e dei um passo em direção da Zoey, mas não mais do que isso porque uma mão segurou o meu braço me parando.
pegou a minha mão como se fosse um cavalheiro e curvou um pouco o corpo em uma breve reverência.
- Senhorita, me concede essa dança? – sorri em resposta e ele deixou um beijo no dorso da minha mão.
Como a música já tinha começado ele me puxou delicadamente e segurou a minha cintura, me girou e fizemos os primeiros passos da coreografia.
- Droga, eu gosto tanto do início. – reclamou.
- Culpa sua se você ficou enrolando. – falei quando ele me girou de novo.
- Mas fico bem feliz em saber que você se lembra de dirty dancing. – sorriu travesso e continuamos dançando a coreografia como se não fizesse anos que tínhamos aprendido aquilo.
Na época eu tinha aprendido com o Matt, porém a professora insistia em trocar os casais, então acabei caindo nas mãos dele. Eu pisava firme com o salto no pé dele fingindo errar o passo, enquanto ele quase me deixava cair no chão na parte que eu curvava o corpo para trás.
- Como esquecer das eternas semanas ensaiando só pra dançar no festival. – um festival que acabamos entrando só por experiência de vida.
- Foi divertido, vai... – ele riu e eu me afastei só para juntar nossos corpos, ele segurou a minha mão atrás do meu corpo e encostou a boca no meu ouvido. – Tô ansiosa pela parte em que você rebola.
E me girou com maestria, me fazendo dar risada e falar um “você também, bonitinho”. Então, quando a parte finalmente chegou caímos na gargalhada e todo mundo nos olhou como se fossemos anormais.
Sophia estava tendo dificuldade com os passos, já que nem sonhava em conhecer o Tony quando aprendemos a coreografia. Enquanto meu irmão já estava formado em dirty dancing de tanto que ensaiávamos e assistíamos ao filme em casa.
A coreografia não era exatamente a mesma do filme, porque era impossível fazer igual, mas ficou bem legal e era divertido fazer aqueles passos.
beijou a minha mão e até o final da música ficamos tentando reproduzir o salto em que a Jennifer dava e o Patrick a segurava no alto. Foi um desastre, mas no final do ensaio já tínhamos conseguido alguma coisa.
- Vocês não vão fazer isso no dia, eu sou a noiva, eu que deveria saltar e o Tony me segurar no alto. – Sophia reclamou.
- Bom, eu até te pegaria, mas nem a coreografia você tá conseguindo fazer direito, amor. – Tony grunhiu frustrado, a noiva dele era o que nós chamávamos de “dois pés esquerdos”.
Sophia o encarou ultrajada, passou as mãos pelo rosto impaciente. Ela queria que o casamento fosse aquele digno de princesa, mas definitivamente não tinha nem um pouquinho de jeito para dançar.
- Não me faça desistir da valsa. – ela pediu choramingando e Tony a puxou para um abraço.
- Oh meu amor, me desculpa, eu não queria que você desistisse da dança, mas não vamos fazer o salto. – tentou contornar a situação e então voltaram a ensaiar, dessa vez a sós de novo.
Olhei para que fazia uma cara de nojo para a cena e dei uma risada. “É muito doce”, sussurrou e segurou minha mão me puxando para o canto da sala, onde dançamos a valsa, às vezes entre risadas, às vezes com a testa dele encostada a minha e olhos fechados.
- Será que vocês vão fazer bonito assim no dia do casamento de vocês? – minha mãe perguntou nos interrompendo e eu abri os olhos assustada.
- Oi? – falei. – Mãe? A senhora por aqui...
- Desculpa interromper. – disse e me separei de para prestar atenção nela. – Mas eu preciso de ajuda pra comprar uma roupa para o jantar, . Esqueci de te falar antes.
- Tudo bem, mãe. Eu vou com a senhora. – conclui e olhei para ao meu lado.
- Podem ir, fico por aqui. – ele enfiou a mão dentro do bolso e me deu a chave. – Pelo amor de Deus, não bate esse carro.
Eu não sabia se ria em empolgação de finalmente poder dirigir o carro ou revirava os olhos com a constatação dele de que eu bateria o carro.
- Só não vou te xingar em respeito a minha mãe. – olhei feio para ele que deu um sorriso de lado.
- Tia Amy, coloca o cinto e, por favor, faz uma oração bem forte... , NÃO. – gritou quando fiz menção em lhe dar um soco.
- Você abre esse teu olho, . – apontei para ele como se eu fosse uma grande ameaça e já ia puxar minha mãe para irmos logo, mas ele ainda segurou minha nuca para me dar um selinho.
- Estão bem abertos.
Dona Amy olhava para nós dois com um sorriso no rosto como se fosse tudo muito interessante e divertido.
- Mãe, para de agir como se isso fosse algo de outro mundo. – pedi.
- Tudo bem. – ela riu e saímos do salão rumo ao outro lado da cidade.

Não demoramos muito para chegar na loja que ela queria, estacionei o carro, sem bater em lugar nenhum, e escolhemos o vestido dela. Depois decidimos almoçar em algum restaurante, visto que minha mãe ainda queria conversar comigo.
- Eu estava mesmo querendo passar esse tempo mãe e filha com você. – falou assim que nos sentamos. – Dois anos conversando pelo telefone, e quando você finalmente volta mal temos tempo.
- Desculpa, mãe. Deveria ter voltado antes, mas você sabe... – coloquei uma garfada do fettuccine na boca e ela balançou a cabeça fazendo o mesmo.
- Por que o Matthew ainda te incomoda tanto se você parece estar bem com o ? – perguntou e parei para pensar.
O Matt realmente me incomodava, ele ainda era o mesmo de anos atrás, o mesmo homem pelo qual eu era apaixonada. Tinha jurado amá-lo pelo resto da minha vida, até ia fazer isso perante todos os meus familiares e amigos dentro da casa de Deus. Mas o homem me faz o favor de simplesmente desaparecer e não deixar nem um recadinho dizendo que tinha desistido de tudo, que tinha outra, ou que tinha virado gay. Qualquer coisa serviria se era isso que ele queria, eu só precisava de pelo menos um desfecho. Isso me incomodou por muito tempo, depois eu foquei no trabalho e na nova vida que estava tendo em Nova York.
Ele me incomodou nos primeiros dias que tinha voltado para a cidade, mas agora ele não me incomodava mais. Porque como minha mãe tinha dito: eu pareço estar bem com o .
- Eu estou bem com o , e é por isso que o Matt deixou de me incomodar. A senhora sabe como foi difícil lidar com tudo aquilo e de repente estamos todos de volta no mesmo espaço e tempo para fazermos parte de outro casamento. – expliquei. – Sou uma pessoa que não perdoa tão fácil, sei que é uma coisa tóxica, mas eu não consigo só deixar ir. Mas agora, sendo bem sincera, acho que finalmente tô deixando toda aquela dor ir, e o tá sendo uma peça fundamental para isso.
Admiti sentindo um grande peso sair de cima de mim, eu podia tê-lo detestado grande parte da minha vida, mas agora eu não podia negar que ele tinha tornado tudo mais fácil e facilitado as coisas. Se essa relação realmente existisse, eu com certeza seria a parte que faria uma tempestade em um copo d’água e ele falaria meia dúzia de palavras que simplificariam tudo.
Mas então me dei conta que a relação não existia, e não tinha chances de existir.
Ele me conhecia bem o bastante para não querer nada comigo, e eu o conhecia bem o bastante para saber que ele não é o tipo de cara que namora.
- Fico feliz em saber disso, saber que ele tá cuidando de você do outro lado do estado, enquanto não podemos fazer muita coisa por aqui. – ela falou e meu coração se apertou, porque o que ela falara não era verdade.
A única pessoa que cuidava de mim era eu mesma e minha melhor amiga, uma cuidava da outra. Então pensei em contar para ela sobre tudo o que tinha acontecido, sobre o relacionamento com o ser inexistente, contar sobre como estamos nos dando bem afinal, contar que eu sentia tanto por tudo. Porém, eu não podia, não agora.
- Mãe, eu já tô sentindo tanta saudade, e olha que ainda faltam alguns dias. – sorri triste e ela fez o mesmo com o nariz avermelhado.
Já falei que minha mãe era uma manteiga derretida antes, né!? Pois é. E sempre que eu a via daquele jeito eu queria chorar junto, mas nós duas engolimos o choro e voltamos a comer, mudando o assunto.
E então ela me contou sobre como sentiria falta dos filhos, já que Tony se mudaria e a casa ficaria vazia sem nenhum dos filhos. Todos os pais sabem que um dia isso vai acontecer, que as crias vão crescer e cada um vai para um lado viver a sua própria vida. É para isso que são criados com tanto amor e carinho. E é por isso que o casamento é tão importante, porque a única coisa que deveria separar um casal é a morte, porque é dentro dele que um se apoia no outro, que um serve de companhia para o outro, que uma amizade inquebrável é cultivada.

Chegamos em casa e todo mundo já tinha almoçado também, Zoey e Sophia limpavam a cozinha e tudo parecia em silêncio demais para uma casa que era tão barulhenta.
- Onde tá o ? – perguntei a elas, que deram de ombro.
- Vê lá fora. – Sophia falou. – Acho que ele tá conversando com o Tony.
Fui até a varanda e tudo o que encontrei foi o Matt andando de um lado para o outro como se estivesse ansioso para alguma coisa.
- Homem, contenha-se. – brinquei e então ele me encarou com os olhos arregalados.
- , precisamos conversar.
- Conversar sobre o que? – franzi a testa já me dando conta que o seu nervosismo tinha a ver comigo.
- Sobre o casamento. – gesticulou nervoso. – O nosso. E eu não posso mais adiar isso.




Capítulo 14


Estávamos na boate que Sophia tinha falado mais cedo, viemos eu, e Zoey no carro e as duas juntas são as melhores companhias. E só para atentar eu tinha falado que era maravilhosa a sensação de jogar na cara que eu tinha duas mulheres gostosas junto comigo, uma em cada braço.
O poderoso cafetão.
Ri sozinho com o rumo dos meus pensamentos.
Zoey queria dançar e já ia arrastar a para a pista quando eu falei que elas podiam beber a vontade, visto que eu era o motorista da rodada. Ainda não tinha convicção suficiente para deixar o carro na mão da . Então fui até o bar pedir uma bebida para elas enquanto ainda pude ouvir a morena me chamando de escravo. Oh garota abusada.
O bar estava lotado, mas consegui me enfiar ali no meio para pedir uma bebida à base de café para e um sex on the beach para Zoey, que adorava o drink. Demorou um pouco para o barman finalmente me atender, e quando as bebidas chegaram, as meninas chegaram junto. virou o copo e pedi outro igual para ela, que parecia ter gostado do drink. Porém, não demorou muito para Tony se juntar a nós no bar junto com nada mais, nada menos, que o babaca do ex-namorado dela.
- O que eu fiz pra merecer o seu ex-namorado aqui? – perguntei no ouvido dela.
Queria aproveitar a noite e ganhar uma certa aposta, mas para variar ele tinha que vir junto.
- Me pergunto a mesma coisa. – ela riu.
Então uma ideia se passou pela minha cabeça, fazer me beijar bem ali, na frente do babacão. Seria tão legal.
- Seria divertido se... – a provoquei passando meu nariz debaixo de sua orelha e inalando o cheiro de seu perfume, mas ela foi irredutível.
- Eu não vou te beijar. – falou pausadamente, me deu um simples beijo na bochecha e piscou saindo em direção da pista. E pra completar ainda jogou um beijo no ar.
Eu tentava enlouquecer a mulher, mas tudo que conseguia era ser enlouquecido. nunca me decepcionou no quesito “se vamos fazer isso, faremos de forma igual”. Era sempre uma disputa bem acirrada.
Tony e eu ficamos papeando sobre trivialidades, nos últimos anos sempre conversávamos pelo celular ou pelo skype, mas nada como botar os assuntos em dia pessoalmente. Depois Zoey pulou nas minhas costas para tirarmos uma foto e pediu duas bebidas, uma para si e outra para a . Acabei pedindo um pouco de whisky, não era apropriado, mas precisava de um pouco de álcool para tentar me manter ligado.
Dei uma olhada para pista e encontrei dançando e se divertindo, parecia estar aproveitando bastante e não pude deixar de dar uma boa olhada no corpo dela, com aquele vestido que a deixava deslumbrante. Gostosa. E antes que eu pensasse em algo a mais, Tony chamou minha atenção.
- Tem uns caras dando em cima da Sophia, vou lá fazer o resgate porque a diversão de ficar só olhando acabou quando colocaram a mão na cintura dela. – avisou e eu concordei com a cabeça.
Encostei-me na bancada do bar, de olho na pista e na , que também parecia estar tentando se livrar de um loiro. Um sorriso repuxou os meus lábios com a cena, era realmente divertido. Zoey por sua vez aproveitava a vida de solteira e se agarrou ao outro cara. balançou a cabeça ao constatar aquilo rindo sozinha, quando seus olhos encontram os meus.
Se meus olhos fossem raio lazer ela tinha derretido bem ali, e eu consequentemente tinha virado lava também com a dança sensual que ela fazia. Alguns homens olhavam, mas eu sabia que era para mim, no fim da noite era para os meus braços que ela iria e eu tinha quase certeza disso.
Ia abrir mão da maldita aposta só para dar uns bons beijos naquela boca, porém alguém que não deveria estar ali estava.
- Ela nunca usou um vestido assim quando estava comigo.
Será porque você era um merda?
- Por que será?! – levantei uma sobrancelha, tirando os olhos dela e olhando para o imbecil ao meu lado.
- Aqueles caras que lançam olhares maldosos pra ela, não te incomodam? – balancei a cabeça negativamente, não ia jogar nada de bandeja nas mãozinhas sujas dele. - Ela é sua. – ironizou.
- Ela não é minha. Ela é livre pra fazer o que quiser, usar a roupa que quiser, andar nua se quiser. Mas se um dia ela quiser ser minha, vai ser por escolha própria.
- Que bonitinho, depois de esperar tanto tempo ainda continua altruísta pra deixar ela solta por aí. – fechei as minhas mãos com força. Respirei fundo, contei até mil, tentei lembrar qualquer mantra que Arthur insistia em ficar repetindo no meu ouvido.
- Você é um babaca, sabia? que me perdoe por dizer isso, mas a melhor coisa que você já fez na vida foi sair correndo com o rabo entre as pernas antes de colocar uma aliança no dedo dela.
- Nossa, como você tá profundo hoje. – ele riu em deboche colocando a mão no peito. – Falou o cara que sempre teve inveja de mim.
- Inveja de quem joga sujo? Nunca. – sorri. – Inclusive acho que quem tem inveja aqui é você, que ainda se lamenta sobre o tempo perdido e foi ficando com cada figurinha repetida do meu álbum.
Ele ficou em silêncio.
- Dizem que o Karma é uma vadia, aproveite. – virei o resto de whisky que ainda tinha no copo e fui em direção da mulher que merecia toda a minha atenção.

Eu não sabia mais o que estava acontecendo comigo, se antes eu sentia que estava na merda em relação à , agora estava tudo pior. Ela parecia ter finalmente desistido de ficar me ignorando, e ao mesmo tempo em que eu queria que ela parasse de agir estranho comigo, eu sabia que aquilo estava muito errado.
Ela queria foder comigo ou o que?
Passamos o resto da noite conversando como nunca tínhamos conversado, nunca desde quando eu passei a confundir as coisas. E aquilo era demais para mim. Eu sempre soube admitir para mim mesmo que a era muita areia para o meu caminhão, e quando ela me vem com essas coisas de One True Pairing eu não sabia nem como proceder.
A música sempre foi a melhor forma de comunicação que eu tinha. Então na volta para casa, eu coloquei Gap do The Kooks para tocar no carro e cantei para ela, que parecia estar tão adormecida quanto a Zoey no banco de trás, mas eu sabia que ela estava ouvindo quando os seus olhos fechavam com mais força e alguns suspiros baixos eram soltos.
Chegamos em casa e a acompanhei até a cozinha, onde ela tomou um copo de água e ficamos nos olhando por um tempo. Parecia outra disputa silenciosa de quem se rende primeiro, dessa vez eu tomei a iniciativa de tomar seus lábios para mim. E eu ficaria ali a noite inteira se o sono não tivesse nos atingido com força.
A divisa da cama não existia mais, por isso não hesitei em abraçá-la e aninhá-la nos braços. Assim como ela tinha feito comigo noite passada sem ao menos perceber. Portanto, era uma coisa totalmente nova para mim, porque não tinha a ver com sexo, não tinha a ver com as mulheres que eu ficava só por ficar, tinha muito mais do que parecia ser ali. Porém, apenas fingíamos que não, assim como fingíamos que o relacionamento não era real para que ele parecesse real. Era complexo. era complexa.

Acordei pela manhã ainda com a em meus braços, suspirei já tentando me preparar pelo surto da mulher e alguma desculpa do tipo “eu tinha bebido demais e você se aproveitou disso”, e eu só diria um lindo e sonoro “foda-se”. Mas não foi isso que aconteceu, quando me mexi ela se virou para trás com os olhos verdes bem abertos e um sorriso tímido no rosto.
- Bom dia. – sussurrou, a voz ainda rouca.
- Você tá bem? – coloquei a mão em sua testa e ela estava realmente quente. – Tá sentindo alguma coisa?
- Não? – ela respondeu incerta. – Eu tô ótima.
- Não tá não. – falei segurando uma risada quando ela franziu a testa sem entender nada. – Você tá dando bom dia e nem são 9 horas ainda.
- Que decepção, . – revirou os olhos. - Pensei que já tinha aprendido que toda regra tinha exceção.
- Nesse caso, bom dia. – dei um beijo no rosto dela e alguém bateu forte na porta do quarto, logo a abrindo.
- Bom dia, casal. – Zoey falou e nós dois olhamos para trás, se apoiando em mim para levantar a cabeça. – Chega de namorico, desçam para tomar café e se preparem porque a Sophia inventou moda.
Na mesma velocidade que ela invadiu o quarto, ela saiu. Eu e nos entreolhamos por alguns segundos, antes dela se levantar e ir para o banheiro. E naquele dia em especial, eu estava bem convencido que ela tinha finalmente desistido de tentar resistir ao inevitável. Porque convenhamos, eu era mesmo irresistível.

A moda que a Sophia tinha inventado era que os padrinhos também dançariam, segundo o Tony a ideia principal era só a valsa dos noivos, mas depois que ela tinha visto o vídeo da gente dançando no festival alguns anos atrás ela se empolgou. E assim como ela inventou moda, eu e a também inventamos de tentar fazer o salto de Dirty Dancing, o que só deu resultado depois de umas 15 tentativas.
Quase no fim do ensaio a tia Amy apareceu e pediu para que a filha a acompanhasse para fazer compras. me encarou como se pedisse permissão para ir, e eu sabia que ela queria ir sozinha, assim como a sua mãe queria passar um tempo a só com a filha, que por sua vez tinha passado dois anos longe dali. Então, para que elas não precisassem andar de ônibus, ou gastar dinheiro com táxi, eu entreguei a chave do carro para a minha namorada, que pularia de animação se eu não tivesse pedido que ela não batesse o automóvel.
Eu não confiava na habilidade da para dirigir um carro, muito menos aquele que era alugado, porém me rendi à necessidade delas. Eu pegava uma carona para voltar para casa.
Dei um beijo nela antes dela sair. Eu nem sabia se fazia isso porque queria, ou porque precisávamos manter as aparências. Mas eu não podia negar que eu adorava as vantagens de poder beijá-la e abraçá-la quando eu bem quisesse. Portanto, tinha algo muito errado com tudo aquilo. E eu não queria parar para pensar sobre isso.
Eu sempre tive um carinho muito especial pela , já gostei muito dela, de verdade. Depois que ela ficou com o Matthew eu chutei o balde de vez e segui em frente, por fim, achei que tinha me livrado de tudo aquilo. Mas, quando fui embora eu podia jurar que tentei fazer de tudo para sentir qualquer coisa parecida por alguém, mas tudo o que eu sentia era um grande e espaçoso nada.
Chegava a ser engraçado eu, que sempre fui desapegado, tentar ter algum tipo de relacionamento com alguém. E todo mundo sabia que eu tinha medo de relacionamentos, porque o meu pai me fez prometer que quando eu a achasse eu iria cuidar dela, assim como ele não teve a chance de fazer com a minha mãe.
E eu estava cuidando da , ou ao menos, eu tentava.
E parar para pensar naquilo me assustava para o senhor caralho.

Assim que chegamos em casa, combinamos que eu faria o almoço e o Tony serviria a sobremesa, enquanto as meninas lavariam a louça. O Matthew eu não fiz muita questão de saber o que ele faria, então para não atrapalhar na cozinha ele ficou na sala conversando com elas.
Eu não demorei em preparar a rocambole de carne com vinagrete, que todo mundo apreciou muito bem, e como sobremesa Tony serviu um cheesecake de morango. Estava realmente tudo uma delícia, e o meu sogro até apareceu para almoçar com a gente antes de voltar para o trabalho.
Depois deixamos as meninas cuidando da cozinha, enquanto eu e Tony fomos conversar no gramado, do outro lado do campo de baseball. Sentamos debaixo da sombra de uma árvore.
- Mano, eu queria respeitar isso, mas você é meu melhor amigo e eu preciso muito saber o que realmente tá rolando entre você e a . – ele questionou e eu franzi a testa, já esperava por aquele momento.
- Você sabe o que tá rolando. – dei de ombros.
- Por favor, só não jogue fora 20 anos de amizade por causa de sexo sem nenhum fundamento com a minha irmã. – Tony pediu.
- Não é sexo sem fundamento. – retruquei.
- Então você realmente tem sentimentos por ela? – perguntou.
- Eu... – comecei. Admitir aquilo era um passo bem grande. – Eu acho que tenho.
- Ah, fala sério. – meu melhor amigo riu ainda desacreditado, nem eu mesmo acreditava às vezes.
- Você acha que quero ter sentimentos por ela? Você acha que eu... – apontei para mim. – Quero ter sentimentos por alguma mulher?
- É claro que não, você gosta de ser o fodão desapegado que come de graça. – revirou os olhos.
- Talvez eu queira pagar pela comida agora. – repliquei mal pensando nas minhas palavras.
- Você tá chamando minha irmã de puta? – esbravejou e eu arregalei meus olhos.
- O quê? – AHN? – Eu não...
- Tá, como você pretende “pagar pela comida”? – me interrompeu.
- Ah pelo amor de Deus, a quase se casou com o Matt e ele nunca se esforçou pra fazer ela feliz. Então, quem sabe? Talvez eu possa. – tentei argumentar e ele logo retrucou.
- Você nem sabe o que é paixão, .
- E você sabe? Só porque tá se casando adquiriu o diploma de guru da paixão?
- Não estamos falando de mim...
- Ok, se você não quer acreditar em mim, a escolha é sua. Mas eu não vou desistir dela sem lutar.
- Que filósofo você. – Tony gargalhou, como se a pequena discussãozinha não fosse nada. – Se você está disposto a tentar e é isso que ela quer, eu não vou ficar me posicionando contra.
- Anthony, seu puto, você fez a porra de um teste comigo? – semicerrei os olhos esperando que ele parasse de rir da minha cara.
- Sim, e você foi ótimo. – aplaudiu ainda dando risada.
- Continua com a palhaçada que eu vou é aplaudir na sua cara. – cruzei os meus braços, visivelmente parecendo uma criança emburrada.
- Cara, eu vejo como vocês lidam um com o outro e tô achando até bonitinho. – ele comentou ainda achando graça da minha birra e apertou a minha bochecha.
- Para com isso, cacete! – dei um tapa na mão dele e ele sossegou.
- Enfim, sei da promessa que você fez pro seu pai e sei que você vai cuidar dela. – concluiu e eu realmente quis que aquilo fosse real.
Tudo só dependia dela, afinal.
- Aliás, o Matt vai contar o que aconteceu pra ela hoje. – Tony quebrou o sagrado silêncio depois de alguns minutos e eu o encarei alarmado.
- Como?
- Isso mesmo que você ouviu, boy. Ele vai contar pra ela porque foi embora daquele jeito.
- E por que o filho da puta foi embora? – perguntei e ele deu fim a minha curiosidade contando tudo o que a Sophia havia lhe contado.
Depois do relato me levantei do gramado, eu estava puto, confuso e ainda queria socar alguma coisa.
- Calma, cara. Fica calmo. – Tony levantou também e me segurou pelos ombros.
- Onde ele tá? Eu quero muito socar alguma coisa, e essa coisa certamente vai ser a cara dele. – ironizei e o meu amigo exibiu um sorrisinho quase doentio.
- Você acha que fiz o que quando descobri? – jogou a cabeça para o lado. – Foi um soco muito bem dado, ele ficou com o olho esquerdo inchado por um bom tempo.
- Mas que porra. – passei as mãos pelo cabelo ainda sem saber o que fazer ou como reagir sem parecer impulsivo demais, então apenas voltei para a varanda.
Encontrei os dois ali, Matthew terminando de falar algo que não soube decifrar e paralisada como se não soubesse também como reagir, as duas mãos foram até a boca igual ela fazia quando o nosso time perdia um gol feito na época do colégio.
Foram longos segundos em que ficamos os três parados na mesma posição, quando a olhou um pouco para trás e me viu.
- Você sabia disso? – perguntou e eu neguei.
- Não, o Tony acabou de me contar. – respondi e deixei que meus ombros caíssem. Eu tinha chegado tarde demais.
Ela olhou para o irmão, que observava tudo de longe, como se o fuzilasse com os olhos e então olhou para Matthew que parecia surpreso com a reação dela. Eu tinha certeza que ele esperava por tiro, porrada e bomba. Era isso que a gente esperava de uma que tínhamos conhecido anos atrás. Porém, todo mundo sabia, mas negava que ela também tinha mudado nesse meio tempo.
A de agora só suspirou como se saber aquilo fosse um grande alívio e estava com os olhos brilhando de lágrimas que caíram logo em seguida. Aproximei-me dela e a abracei sem saber muito o que fazer, mal sabia se era alívio mesmo o que ela sentia naquele momento, mas eu sabia que aquele tormento que ela vivia finalmente tinha acabado e aquilo era o desfecho que ela tanto esperava depois de anos.

Capítulo 15


- Matthew... – eu murmurei, mas ele logo me interrompeu.
- Por favor, só me deixe falar, ok? – pediu e eu concordei, realmente não podíamos mais adiar aquilo. – Primeiramente eu queria te falar que eu não te traí, ou qualquer coisa do tipo. Eu só descobri tarde demais que eu não te amava mais o suficiente pra querer seguir em frente com a loucura que é um casamento.
Então, era isso? Eu olhava para ele sem saber como reagir, eu não sabia se o socava ou se sentava e chorava mais um pouco por ter sido abandonada daquela maneira por causa de uma coisa tão mísera.
Ele não me amava mais, e por algum motivo eu já imaginava aquilo, mas soube tarde demais. Em algum momento da minha adolescência, uma amiga minha tinha me falado sobre uma palavra, que não me recordo agora, mas tinha como definição o ato da pessoa se afastar do nada, sem nenhuma explicação, sem nenhuma desculpa. Exatamente o que o Matt tinha feito, e com certeza eu ficaria a ver navios se meu irmão não decidisse se casar com a melhor amiga dele.
Atrás do Matt estava o , olhava para nós dois com uma expressão estática, como se soubesse o que tinha acontecido.
- Você sabia disso? – perguntei e Matt franziu a testa como se não entendesse, olhando para trás logo em seguida.
- Não, o Tony acabou de me contar. – respondeu deixando os ombros caírem, uma expressão triste no rosto, mesmo que ele não tivesse nada a ver com aquela situação.
Encontrei meu irmão nos observando de longe e eu quis esganá-lo por ter escondido aquilo de mim por tanto tempo, ele sabia e nunca falou caralho nenhum comigo. Puto de filho.
Olhei para o Matt de novo, ele parecia ansioso por alguma reação, mas tudo que pude fazer foi suspirar sentindo o meu nariz arder e as lágrimas quererem descer sem escrúpulo algum. E eu só deixei que a minha mente se tornasse um caos, o sol do lado de fora não conseguia se infiltrar na chuva que estava dentro de mim.
Mal percebi quando o se aproximou e me abraçou, passou as mãos pelo meu cabelo e falou que tudo ia ficar bem depois que eu assimilasse aquilo.
Mas eu só conseguia lembrar do fatídico dia em que eu estava super feliz por finalmente poder me casar, todavia, o meu ex-noivo tinha caído em si e percebido tarde demais que não me amava tanto como amava antes. Isso sendo bem otimista. Chegando a conclusão que não podia mais se casar e fugiu, só fugiu como se não pertencesse mais àquele lugar. Porém, ele não deixou nenhum bilhete avisando isso, então o sentimento de humilhação se apossou de mim só com a lembrança de estar em frente de duas famílias inteiras, amigos e colegas, completamente sozinha.
Nenhum casamento acontece quando você está sozinha.
Portanto, eu não podia negar que foi melhor ele me largar sozinha antes do que depois do maldito casamento, mas teria sido muito melhor se ele tivesse percebido isso bem antes de um noivado, explicado toda a situação e então eu o entenderia.
No meio da confusão dentro da minha cabeça, eu já tinha passado por três estágios em menos de dois minutos. Primeiro a tristeza, depois a humilhação, agora a raiva. Soltei-me dos braços do e me virei para o Matt, que me encarou com certa pena.
Pena? Ah, isso deveria sentir de si mesmo.
Minha mão foi de encontro ao lindo rosto dele em um tapa ardido, eu podia sentir a minha palma queimando e ficando vermelha, a bochecha dele ficando da mesma cor.
- Eu mereço isso. – sussurrou, passando a mão no rosto.
- Isso é pouco para o que você merece, seu covarde filho de uma... – segurei o palavrão. – Como eu quero te socar agora.
Semicerrei os olhos, meu rosto ainda estava encharcado pelo choro recente, a minha mão ardendo e a vontade de dar mais na cara dele só crescia.
- Eu sinto muito, , de verdade. Eu percebi um pouco depois que não deveria ter ido embora e deixado que você se virasse sozinha com toda essa merda. Eu não sou muito bom em comunicação e, por mais que você implorasse por isso, eu deixei que a bomba caísse na hora errada. É idiotice eu vir aqui e te implorar um perdão que talvez eu nunca ganhe, mas preciso ficar com a mente limpa...
- Cala a boca, só cala a boca. – pedi depois de toda aquela explicação meia boca dele. – Só some da minha frente. Ou melhor, deixa que eu sumo, pra variar um pouco.
Rumei casa adentro sem olhar para trás, subi até o quarto e fechei a porta. Não desmoronei como achava que desmoronaria quando eu estivesse sozinha, me joguei na cama e fiquei encarando o teto por longos minutos esperando que a minha mente se organizasse. Mal percebi quando se jogou ao meu lado.
- Tony e Sophia estão transando no banheiro de baixo, não sei como conseguem fazer isso e não trancar a porta. – comentou casualmente.
- Então quer dizer que agora você quer trancar portas de banheiros? – perguntei, sentindo a minha boca se repuxar em um sorriso. Por que eu o odiava antes? Eu não sabia mais.
- Eu não ia transar com você no banheiro onde os seus pais poderiam entrar a qualquer momento com a porta aberta. – respondeu e eu soltei uma risada balançando a cabeça. – Como você tá?
Fiquei alguns segundos em silêncio, nem eu sabia responder como eu realmente estava ou o que eu sentia.
- Vou ficar bem. – foi tudo o que falei.
Ele segurou a minha mão e levou até a boca dando um beijo, virei a cabeça para o lado só para não perder a cena e ele sorriu. Ficamos assim por mais algum tempo até que ele se levantou da cama e me puxou junto.
- A gente precisa se arrumar para o jantar.
- Eu não quero. – reclamei fazendo uma cara de sofrida, realmente alguma coisa ainda doía dentro de mim.
- Vem comigo.
me puxou para dentro do banheiro e começou a se despir. Perdi a linha dos meus pensamentos quando todo o seu corpo estava ali, exposto bem na minha frente. Fiquei paralisada quando ele me puxou e desfez o laço da parte de cima do meu vestido puxando o tecido para baixo.
- Virou moda tomarmos banho juntos?
- Enquanto você continuar fazendo pirraça, sim. Apesar de economizarmos água tomando banho juntos.
- Isso teoricamente, né!?
Ele abriu as torneiras do chuveiro, dessa vez climatizando a água, e eu entrei primeiro, sentindo a água morna descendo pelo meu corpo e funcionando quase como uma sessão de descarrego. Fechei meus olhos e um flashback se passou pela minha mente, deixei que todas as memórias viessem pela última vez. então me abraçou debaixo do chuveiro e chorei, chorei para que minhas lágrimas tivessem o mesmo efeito da água: limpassem tudo que estava impregnado em mim.

Quando acabei de me arrumar para o jantar do Tony e da Sophia, todos já tinham saído e a casa estava silenciosa novamente. Aquilo até me assustava um pouco, mas era só chamar um táxi. Pedi para o se arrumar primeiro e ir com todo mundo, o que curiosamente ele foi obediente. Separei um vestido azul de mangas compridas com uma grande abertura em V atrás, era curto e a saia rodada. Tinha trazido dentro de uma das malas “monstro” especialmente para aquele evento, junto com uma sandália aberta de salto alto prateada. Prendi meu cabelo em um coque mais chique que a Holly tinha me ensinado pelo celular depois que sai do banho, tinha ligado para ela só pra não perder o costume e desabafar sobre tudo o que tinha acontecido. Fiz uma maquiagem leve nos olhos, que tinham uma quantidade razoável de corretivo para esconder as olheiras, e investi no batom vermelho. Ensaiei vários sorrisos em frente ao espelho e sai de casa, pronta para enfrentar o que viesse pela frente.
Não demorou muito para o táxi parar em frente ao luxuoso salão que Sophia tinha escolhido a dedo. Entrei e analisei toda a ornamentação, os tecidos em tons neutros, espelhos distribuídos em pontos estratégicos, velas e lírios, e para completar um som ambiente agradável. As mesas espalhadas proporcionalmente, o palco montado ao fundo para a banda que tocaria depois dos brindes, tudo para que a noite fosse perfeita. Todo o ar sofisticado que Sophia queria e ao mesmo tempo confortável como Anthony tinha pedido. Tudo minimamente planejado do outro lado do país pela irmã do noivo. A madrinha. Eu.
- Oi querida, você está maravilhosa. – tia Wanda falou ao se aproximar e me cumprimentar com dois beijos no rosto.
- Obrigada, tia! – tentei fingir uma animação quase inexistente exibindo um sorriso imbatível no rosto.
- Você tá mais bonita do que há dois anos. – Começou... – Aquele menino tá mesmo fazendo bem pra você.
Apontou para o que parou ao meu lado com uma blusa social branca, com as mangas já dobradas nos cotovelos, calça jeans, o sapatênis e um sorriso aberto no rosto. Minha atenção foi totalmente desviada para ele, enquanto a minha tia o elogiava. Mas os meus pensamentos voltaram para a última frase que ela tinha dirigido a mim, “aquele menino tá mesmo fazendo bem pra você”. Eu não posso estar muito bem sozinha? Estar bem não é um mérito meu? É dos outros?
Peguei duas taças de bebida quando o garçom parou para nos servir, virei um e depois virei o outro. Minha tia me olhou com uma expressão estranha e logo se pronunciou.
- Tia Wanda, cadê o tio Barney? Eu ainda não o achei por aqui. – disse e puxou tia Wanda junto com ele para uma mesa que estava com metade da minha família perto do palco.
- ! – Zoey gritou. – Te procurei pelo salão inteiro.
- Eu enrolei um pouco pra vir. – falei, sorrindo do mesmo jeito que fiz com a minha tia.
- Não precisa sorrir assim comigo, piranha. – ela fingiu brigar, mas sorriu logo depois. – Tenta ignorar essa parte mais velha e chata da família. Aliás, meus pais chegaram e querem te ver.
Zoey me puxou para a mesa em que estavam os meus tios e ali estava oficialmente aberta a sessão tortura vulgo o jantar de noivado do meu irmão, e bem lá no fundo eu pedia silenciosamente para que ele fosse o foco das atenções e não eu.

Por incrível que pareça o jantar caminhou tranquilamente, até então só a tia Wanda tinha feito questão de perturbar o meu santo. Cumprimentei a família inteira, passei por algumas mesas cumprimentando alguns amigos e colegas que tinham vindo prestigiar os noivos, mas logo depois me sentei à mesa onde todos os padrinhos estavam, exceto Matt que estava infiltrado na mesa da família da Sophia. O jantar foi servido e logo em seguida foi dado início aos brindes. estava ao meu lado, com o braço escorado na minha cadeira, confortavelmente. Ele estava de olho em mim o tempo inteiro e fazia piadinhas sempre que podia, fazendo do jantar o mais agradável possível para todos nós.
O pai da noiva levantou de sua cadeira batendo na taça de vidro, chamando a atenção de todos nós e olhamos para ele.
- Eu sempre quis fazer isso. – riu e todos o acompanharam. – Bom, eu vou dar início aos brindes agradecendo aos céus por dar a minha filha um homem tão paciente com ela como o Anthony. Brincadeira. – disse, bem-humorado. – Mas sim, muito obrigado, senhor Deus. Vou deixar o texto bonitinho para o casamento.
Ele terminou de falar e todos nós aplaudimos, o pai da Sophia era uma figura e sempre muito carismático, característica de um ótimo vendedor mobiliário. O próximo foi o meu pai que falou breves palavras, ele não era muito de falar em eventos, logo depois a minha mãe e em seguida a mãe de Sophia. Assim que eles falaram, foi aberto para o público no geral, meus primos fizeram palhaçada, inclusive a Zoey, os amigos de Sophia eram uma figura, mas tudo pareceu parar quando a tia Wanda resolveu falar.
- Meu Deus. – resmunguei tentando escorregar para baixo da mesa, já imaginando as lindas comparações que ela ia fazer e não deu outra.
- Acho que é a minha vez... Pelo menos agora eu vou ter uma vez, já que da outra vez foi um desastre, vocês lembram, né!?
- Alguém para ela! – sussurrei mais para o ao meu lado do que para qualquer outra pessoa.
Ele então segurou a minha mão e apertou, assim como tinha feito quando tínhamos chegado na casa dos meus pais, aquela promessa silenciosa de que ele seria meu porto seguro.
- Fico muito feliz de poder presenciar mais um jantar de noivado desses meus sobrinhos que são os favoritos. – nisso todos os meus primos começaram a rir e gritar. – Também amo vocês, meus queridos, mas adoro como a sempre me escuta e o Tony ainda vai me visitar, diferente de vocês. Falo mesmo.
Ela cometia tantas atrocidades que era difícil não querer sair correndo do lugar, como minha tia conseguia?
- Desejo muitas felicidades ao casal, a Sophia é uma moça muito bonita e uma ótima escolha para o meu sobrinho. E quero aproveitar pra pedir ao amigo do Tony que agora está com a ... – apontou para nós e agora sim eu queria me enfiar debaixo da mesa, senti minhas bochechas queimando e todos os olhares pra cima de nós. Minha tia estava fazendo o que tentei evitar o jantar inteiro. – Por favor, se casem logo. E antes que eu esqueça, Tony eu quero bebês em breve, sim?
Meu irmão gargalhou e balançou a cabeça, depois falou que era um passo de cada vez e ainda era muito novo para ser pai. Todos aplaudiram rindo e meu coração mal tinha se acalmado quando largou a minha mão e se levantou carregando a sua taça junto. Olhei para cima mais nervosa do que antes, meu estômago se afundando e um desejo absurdo de sumir.
Todos os olhares para ele agora e eu tentei sorrir, aquela noite estava sendo uma grande provação para as minhas habilidades de ser uma atriz.
- Perdemos um soldado. – disse para os amigos dos dois que também estavam ali e todo mundo riu, inclusive o próprio. – Brincadeiras a parte, gostaria de fazer um brinde especial para o meu melhor amigo que merece toda a felicidade do mundo, e espero eu que tenha encontrado junto com a Sophia. E quero fazer as honras de chamar ao palco a banda do nosso amigo Giordano, The Unforgettables.
anunciou e a banda começou a tocar, eles cantavam versões de várias músicas tanto novas, quanto antigas. E normalmente a versão ficava melhor que a original. Ele logo se sentou ao meu lado e me encarou preocupado.
- Você tá bem? – perguntou.
- Sim, por quê?
- Você tá mais branca que papel.
- Ah. – murmurei abaixando a cabeça.
- ? – chamou levantando o meu queixo para que meus olhos encontrassem os seus, que faiscavam um azul impecável. – Sei que você teve uma tarde de merda, sei que todas as atenções eram pra você há dois anos, sei que você quer ficar o máximo longe dos holofotes por aqui e que parte da sua família simplesmente não ajuda em porra nenhuma. Mas caralho, você tá do meu lado e tô sentindo como se você estivesse há quilômetros de distância. É o casamento do seu irmão, um jantar totalmente diferente daquele, que inclusive parabéns, nem os créditos por essa ornamentação incrível você quer pra não chamar atenção. Só para. Para com isso.
“O que aconteceu com você ficou no passado, os motivos só dizem respeito a você e mais ninguém. Deixa eles acharem o que quiserem, deixa eles falarem o que quiserem, mas faz um favor pro seu irmão: aproveita essa noite. Você pode fazer isso?”
Ele terminou de falar e pela segunda vez naquela noite o meu coração parecia querer sair pela boca, eu não sabia como respondê-lo então apenas o beijei. E por incrível que pareça eu tinha sentido falta de beijá-lo, me acalmava de uma forma inexplicável. Sua língua ficou junto da minha por longos segundos, até alguém pigarrear do meu lado e quebrar o beijo só para fuzilar o ser com os olhos.
- Muito obrigada. – disse, dando um beijinho na bochecha dele e deitando a minha cabeça em seu ombro, para podemos curtir o show.
A banda fez uma pausa para que a sobremesa fosse servida, e quando a taça de pavê foi posta na minha frente o se levantou negando o doce e caminhando em direção do palco. Ele pegou o violão e passou por seu ombro, logo segurando o microfone e fingiu tossir para chamar a atenção de todos os convidados.
- Dizem que depois do doce todo mundo vai embora, mas antes vocês vão ter o privilégio de me ouvir cantar não só uma música, mas talvez três. – anunciou e uma salva de palmas inundou o salão, junto de urros e uma torcida organizada que gritava “lindo, tesão, bonito e gostosão”.
Organizada basicamente pelos amigos dele e do meu irmão.
- Então, essa é pra você Tony. – ele sorriu e começou a cantar Can’t help falling in love.
O que me fez sorrir de orelha a orelha ao lembrar quando ele cantou essa mesma música na manhã anterior. Quando ele terminou algumas pessoas aplaudiram de pé, inclusive eu, mas ainda pude escutar meu irmão gritando que sempre soube que o estava apaixonado por ele.
deu uma risada gostosa no microfone e eu me derreti todinha, sentando novamente para terminar de comer o pavê.
- Muito obrigado. – agradeceu e continuou. – Essa próxima música eu quero dedicar a moça responsável pela ornamentação do salão, tá de parabéns.
Ele lançou um olhar rápido para mim e sorriu dedilhando os primeiros acordes, logo começando a assobiar. Era Patience do Guns N’ Roses.
Eu me arrepiei imediatamente, ciente que ele tinha falado da moça para não citar o meu nome, porque eu pedi para manter isso em sigilo para não chamar mais atenção do que o necessário. Então, eu prestei atenção em cada nota e em cada letra. A dedicação era particular e aquela música, só nossa.
A letra parecia uma confissão dele, como a música do carro e enquanto ele cantava com os olhos fechados eu sentia de novo a felicidade me invadindo.
- Said, woman, take it slow and it'll work itself out fine. All we need is just a little patience. – ele abriu os olhos me encarando, o recado era definitivamente para mim.
Seria capaz de deixar alguém entrar em seu coração? Naquele momento eu queria fingir que sim e que toda aquela farsa era verdade.
Um coro de “little patience, yeah” começou antes de ele cantar a última parte da música e eu não pude deixar de cantar junto. Eu admirava como ele conseguia mover uma plateia inteira, ele estava parado no mesmo lugar, mas ao mesmo tempo era cativante.
Depois que a música terminou todo mundo aplaudiu de novo e várias pessoas perguntaram quem era a moça da ornamentação que merecia uma música tão bonita como aquela. Tony gritava que estava sendo traído e quando olhou para mim de novo, ele pediu permissão sem emitir som algum.
- Obrigado, obrigado. Mas a moça da ornamentação nada mais é que a irmã do noivo. Vou te contar, tenho uma queda do tamanho do Everest por essa família. – brincou e todo mundo me encarou no mesmo segundo.
E não era com olhar de pena e muito menos de deboche, era de admiração pelo ótimo trabalho que eu tinha feito com a festa?
- Pra finalizar, essa música também é para e para os noivos. Animando um pouco isso aqui. I believe in a thing called love. – afinou a voz cantando e eu não pude deixar de rir da cena impagável, peguei o meu celular para filmar enquanto a banda se juntava a ele no palco.
O guitarrista fez então a introdução e começou a cantar, o que me fez lembrar de quando ele estava cantando aquela música no dia que fui ao shopping comprar lingerie e ele insistiu por um beijo no rosto que virou um selinho. Parecia que a coisa tinha acontecido há séculos atrás, mas foi só há dois dias.
- I wanna kiss you every minute, every hour, every day! – apontou para mim e depois fez sinal para que eu subisse ao palco com ele.
Neguei com a cabeça, mas a Zoey fez questão de se levantar e me puxar até o palco. Quando subi ele cantou igual no carro aquele dia e eu ri, logo depois me entregaram um microfone para cantarmos juntos.
- I believe in a thing called love, just listen to the rhythm of my heart. There’s a chance we could make it now. We’ll be rocking till the Sun goes down. I believe in a thing called loooove. Uuuuh.
O solo de guitarra começou e deixei que ele cantasse a parte seguinte sozinho, puxei as palmas para que todos me acompanhassem e quando terminou de cantar me puxou para um beijo. Onde nós dois sorriamos.
- Eu não pude brindar antes. – falei de repente quando a música acabou e todos os convidados ficaram em silêncio. – Mas eu quero dizer que eu tô muito feliz de poder presenciar esse momento, o momento em que o meu irmãozinho está pertíssimo de se casar, e tenho certeza que ele é o homem mais feliz do mundo ao lado da Sophia. Meus parabéns ao casal, vocês merecem tudo isso... – abri os braços mostrando toda a ornamentação. – E muito mais. Eu te amo muito, Tony.
Terminei e desci do palco para abraçá-lo, e como uma digna filha de dona Amy, chorei. Dessa vez de felicidade pelo irmão, por poder fazer parte daquilo, pelas coisas finalmente estarem em seus devidos lugares. E o que eu achava que agora daria certo, na verdade, já tinha dado.

Capítulo 16


- A limusine chegou, . – minha mãe avisou batendo na porta do meu quarto.
estava colado ao meu corpo, sua boca grudada no meu pescoço em uma tentativa um pouco exacerbada de me fazer desistir da despedida de solteira da Sophia, enquanto ele estava prestes a fazer o mesmo. O que eu não sabia se estava dando muito certo, por quase me fazer ceder, ou muito errado, por perdermos a despedida de solteiro.
Eu tinha acordado bem melhor, era o dia antecedente ao casamento do meu irmão e eu não podia estar mais leve. Já tinha chegado à conclusão que ficar remoendo o passado não me levaria a lugar nenhum, eu já sabia as duas versões do ocorrido, então era só seguir em frente. Sem olhar para trás. De preferência.
Tirei força de onde não tinha e afastei o seu corpo do meu lhe dando um beijo como despedida, saí do quarto e o deixei plantado ali.
- Prontas, meninas? – Zoey perguntou assim que eu me juntei a ela e Sophia na sala.
- Eu nasci pronta, meu amor. – respondi dando uma risada.
- Mas eu posso saber o que vamos fazer depois desse passeio de limusine? – Sophia questionou.
- Surpresas. – foi tudo o que a morena falou e eu já sabia que lá vinha merda.
A pior coisa que a Sophia deveria fazer era colocar a minha prima como a organizadora da despedida de solteiro, era pedir para perder a dignidade. Mas guardei isso para mim mesma e dei um beijo no rosto da minha mãe e do meu pai antes de sairmos.
Entramos na luxuosa limusine que possuía um banco enorme que cobria os 3 cantos do automóvel todo em couro da cor marfim, luzes coloridas piscavam e havia um balde com gelo e 2 garrafas de Champagne. Sentamos as 3 aos berros de animação, eu já me imaginando deitada no carpete que tinha no chão e isso só podia ser consequência do pensamento que tive durante o dia inteiro. Hoje eu não ia ligar para nada. Se era para curtir, então vamos curtir.
Tinha colocado um vestido vermelho de alças um pouco grossas, não muito decotado e com zíper atrás. Um salto alto prateado combinava com a bolsa onde eu carregava o meu celular, que logo vibrou com uma mensagem.
“Se precisar de alguma coisa é só me ligar.”
Era dele obviamente, não pude evitar sorrir ao ler a mensagem, mas Zoey logo catou o meu celular enfiando de novo dentro da minha bolsa e me entregou uma taça cheia de Champagne. Antes de ir buscar as outras meninas que também foram convidadas para participar da nossa festinha, Zoey fez as honras.
- E que comece a sua última e melhor noite como uma mulher solteira, Sophia! – brindamos e gritamos várias coisas que juntas ficaram desconexas.
O som alto da limusine combinava perfeitamente com as risadas das moças dentro do automóvel, eu e Sophia tínhamos enfiado a cabeça pelo teto solar e gritávamos para as pessoas da rua como se fossemos celebridades ou algo assim. Além disso, eu ainda cantava todas as músicas que tocavam, balançando os braços de um lado para o outro como se os outros carros fossem a minha plateia. E olha que eu só tinha bebido três taças de champanhe e virado dois shots da tequila que tínhamos achado dentro do frigobar.
Limusine era uma das coisas mais legais do mundo, ainda mais quando era alugado para um evento tão importante como aquele.
E eu não podia deixar de mencionar que ficar com metade do corpo para o lado de fora e abrir os braços era como se sentir infinito, então eu finalmente podia dizer que entendia o Charlie e a Sam em As vantagens de ser invisível.
Naquele momento eu era infinita.
Eu não era só , eu era parte do universo. Daquele infinito espaço. Se Carl Sagan dizia que éramos feitos de poeira estelar, consequentemente éramos todos iguais, o que me levava a pensar que sim, éramos todos infinitos.
E ficar filosofando era coisa que eu fazia quando o álcool já estava firme no meu sangue.

Quando a limusine parou em frente a uma boate já ia dar dez horas da noite, eu desci um pouco cambaleante do carro me apoiando na Zoey, que era bem mais resistente pra bebida do que eu. Passamos pelos seguranças sem muita dificuldade e lá dentro eu percebi que não tinha nada demais no ambiente, era igual a todas outras. Mas vindo da minha prima, eu ainda esperava por qualquer coisa surgindo de qualquer lugar.
Porém quando digo qualquer coisa, eu quero dizer gogo boys.
Ela era movida literalmente pelo amor ao Magic Mike. Se um dia ela encontrasse com o Channing Tatum na rua ela não sairia viva daquele encontro, era enfarte na certa.
Fomos direto para o bar pegar uma bebida e, assim que encostei por lá, pedi a bebida mais quente que tinha no cardápio, aquela que acendiam fogo para que a pessoa bebesse. O barman explicou que o nome era flamejante, que era um pouco forte e que, se eu já tinha bebido, aquilo ia me deixar um pouco zonza. Concordei e ele preparou a bebida de cor verde, espirrou álcool e colocou fogo, assim que apagou peguei o canudo e suguei todo o líquido que descia quente pela minha garganta. O sabor de menta era muito bem vindo, mas o baque foi imediato e eu tive que me sentar para me recuperar.
- Você tomou o drinque do diabo? – Zoey perguntou se encostando do meu lado e eu concordei.
- Hoje eu liguei o foda-se. – sorri e ela me abraçou.
- É tão bom te ver feliz, .
- Me conta, o que essa boate tem de tão especial pra você nos trazer até aqui? – perguntei e ela abriu um sorriso diabólico.
- Tá vendo aquela cortina preta ali? – falou no perto do meu ouvido e eu concordei. – Atrás dessa cortina tem um palco, e quando for meia noite e a cinderela perder o sapatinho de cristal, os deuses do Olimpo vão aparecer.
- Meu Deus, o que que foi isso? – arregalei os olhos com aquela combinação terrível que ela tinha feito, Cinderela e Hércules?
- Homens maravilhosos com corpo esculturais aparecem naquele palco. Já me certifiquei que eles sabem da presença de uma ilustre noiva aqui hoje. – explicou.
- A Sophia vai te matar. – comentei rindo.
- Mas antes de me matar, ela vai curtir muito. – piscou para mim e saiu com o drinque em mãos para a pista de dança e depois de me recuperar um pouco, fiz o mesmo.

Exatamente quando deu meia noite o som parou, um barulho de relógio tomou conta do ambiente em um volume absurdo. A minha cabeça, que já estava girando, passou a girar mais ainda. O gelo seco invadiu todo o local junto com uma brisa gelada, era de arrepiar. Mas quando as cortinas se abriram, Sophia olhou boquiaberta para o palco até então inexistente para ela, e dali surgiu um cowboy em meio à luz e ao gelo seco.
- Oh meu Deus! – ela falou sem saber como reagir, enquanto eu e a Zoey acompanhávamos ela de perto.
- Fiquei sabendo que alguém tinha um fetiche muito bem escondido com cowboy. – minha prima comentou. – Mas eu sou boa no stalker e descobri esse curioso fato sobre a futura Sophia .
- Você é inacreditável. – comentei sobre as façanhas dela e voltamos a prestar atenção no show.
A trilha sonora ainda era de suspense, o homem usava um colete sem nada por baixo, exibindo um abdômen perfeitamente esculpido, uma calça de couro marrom da mesma cor do colete, o cinto que continha uma corda pendurada e botas nos pés. A música que tocava agora era aquela típica de desenhos que se passavam no meio de uma cidade perdida, um duelo estava prestes a começar e o moço tirou a corda de seu cinto fazendo com habilidade um laço, logo começando a girar. Ele jogou a corda para o lado e puxou uma cadeira que saiu do breu, ajeitando-a na sua frente e tiros foram ouvidos no exato momento que ele simulou investidas contra o encosto da cadeira de madeira, que agora era mais visível diante da maior quantidade de luz que foi acesa, variando entre o azul e o vermelho.
Sophia estava estática do meu lado com as mãos na boca, ela estava adorável com um vestido preto colado ao corpo, uma coroa presa em seus cabelos e uma daquelas plumas rosa enrolada no pescoço. A mulherada gritava e aplaudia enlouquecidamente para o show que estava apenas começando, algumas já levantavam as mãos com notas e mais notas de dinheiro.
Voltei a minha atenção para o homem em cima do palco, que fazia uma performance que nem se comparava à que os meninos tinham feito na terça-feira. Claro que ele era profissional, mas caramba, aquilo não chegava nem perto.
O moço pegou o microfone e uma luz branca acendeu na minha cara, mas propriamente em cima de Sophia. Todo mundo nos encarou e Zoey sorria de orelha a orelha por estar no centro das atenções.
- Fiquei sabendo que uma princesa perdeu o sapatinho de cristal por aí. – ele falou no microfone, logo retirando um sapatinho de cristal de algum lugar que não pude enxergar. – Será que é seu, senhorita?
- Eu não vou subir lá, não, não, não. – Sophia balançou a cabeça sorrindo envergonhada e dizendo vários não ao mesmo tempo.
- Claro que vai! – Zoey a empurrou até a beira do palco onde o homem ofereceu a mão para ajudá-la a subir os degraus.
Ele falou alguma coisa com ela que não demorou muito para se sentar de frente para a plateia, enquanto a trilha sonora de Cinderela tocava ele tirava uma das sandálias de salto do pé dela e experimentava o sapatinho, que magicamente coube. Para o desespero de Sophia que gritou nervosa em meio a uma risada. Para a nossa alegria.
- Espero que você aprecie muito essa última noite como solteira, princesa Sophia. – falou ao microfone e a música mudou novamente.
Agora para uma mais sensual, o gelo seco tomando conta do palco e a luzes ficaram todas vermelhas. O homem girou a cadeira de Sophia com facilidade, deixando-a agora de lado para a gente e retirou o colete lentamente. E eu estava totalmente hipnotizada, ele dançou para Sophia e subiu em seu colo, refazendo os movimentos de investida que me deixavam louca. Mas mal pude piscar quando ele pareceu falar algo no ouvido dela e no segundo seguinte ela puxava com força a calça dele, deixando-o apenas com uma daquelas cuecas fio dental que eu não sabia o nome e o chapéu na cabeça.
Eu gritava junto com todo mundo, porém quando ele tirou o chapéu e jogou longe simulando outra posição, eu comecei a berrar que ele podia levar todo o meu dinheiro.
Aliás, o que era aquilo? Era inexplicável o quanto aquele gogo boy era sensacional. Ele tinha algumas tatuagens espalhadas pelo corpo e uma entrada fenomenal, sem contar as covinhas nas costas. Mas a minha mente travessa logo começou a achar que o corte de cabelo dele era parecido com o do .
).
O meu próprio gogo boy particular.
Assim que meus pensamentos chegaram a ele eu perdi total interesse na apresentação, um calor extraordinário se apossou do meu corpo e eu fui até o bar pedindo uma bebida qualquer. O que só causou o efeito contrário. Minha mente agora trabalhava engenhosamente, imaginando coisas que eu queria muito botar em prática, cada uma delas.
Puxei meu celular da bolsa e reli a mensagem que tinha me mandado.
“Se precisar de alguma coisa é só me ligar.”
E eu precisava absurdamente de uma coisa naquele instante. Eu precisava dele.
Respondi a mensagem perguntando onde ele estava e ele respondeu no mesmo segundo que estava em casa. Franzi a testa me questionando por que diabos ele estaria em casa, mas só mandei que precisava dele.
A G O R A.
Só passei a considerar que talvez ele também estivesse bêbado quando ele me ligou e eu ainda estava no bar refletindo, atendi no primeiro toque, no entanto. Com tanto barulho eu mal conseguia ouvi-lo, então a ligação pareceu cair, para que então uma mensagem de que ele estava do lado de fora surgisse na tela.
Enfiei-me no meio de toda aquela gente de novo, Sophia já não estava mais em cima do palco e aquela já era a terceira apresentação. Eu tinha perdido totalmente a noção do tempo enquanto enchia a cara de todas as bebidas alcoólicas no bar e maquinava diversos planos de como desvirtuar o . Não que ele já fosse desvirtuado.
Consegui achar a Zoey e avisei que estava indo embora, mostrei a mensagem do e ela logo pescou toda a informação jogada no ar sorrindo maliciosamente. Despedimos-nos e segui em direção de onde eu achava que era a saída, o que por sorte era.
- Meu amor. – falei assim que o vi parado encostado no carro do outro lado da rua.
- O quanto você bebeu? – perguntou não muito feliz, pelo jeito que avisei que precisava dele, talvez ele achasse que eu estava passando mal.
- Eu tô bem. – respondi cambaleando e ele me segurou quando cheguei perto dele.
- Você não tá nada bem. – deu uma risada não muito feliz.
Ele me ajudou a sentar no banco do carona abrindo a porta para mim, coloquei o cinto enquanto ele dava a volta e arrancava com o carro. A música que tocava na rádio era No ordinary love da Sade, deitei a minha cabeça no encosto, mas uma das minhas mãos encontraram o caminho para se apoiarem na coxa dele. continuou olhando para a estrada sem reagir de início, porém não demorou muito para ceder e entrelaçar os seus dedos nos meus.
Fechei os olhos sentindo a segurança que ele me passava apenas com aquele toque, todas as expectativas para a noite se multiplicando por mil.
Keep flying for you. Keep flying for you, I'm falling. I'm falling...
E eu estava mesmo me apaixonando por ele.
Abri os olhos e encarei o seu perfil, sua mão ainda na minha enquanto nos guiava apenas com a outra. Tirei o cinto e me aproximei dele beijando o seu rosto, o seu pescoço, atrás do seu ouvido. Quando de repente ele soltou a minha mão e estacionou o carro. Voltei a me sentar corretamente percebendo que já tínhamos chegado e ele saiu do carro batendo a porta atrás de si.
entrou em casa primeiro, parecendo estar irritado enquanto eu fingia que nada tinha acontecido e fazia o de sempre quando achava que tinha bebido demais: tomava água. Subi aos tropeços pela escada, rindo de mim mesma e quase cheguei a sentar em um degrau para recuperar o fôlego.
Entrei no quarto e fechei a porta, olhei ao meu redor me sentindo um pouco melhor depois das crises de risada que tive sozinha. O quarto estava todo escuro sendo iluminado apenas com um dos abajures que tinha no cômodo. já estava só de cueca dobrando as suas roupas para guardá-la, quando então uma ideia muito excitante surgiu na minha cabeça.
Hoje ele não me escapava.
Foda-se casamento, foda-se passado, foda-se tudo. Eu estava dividindo a porra de um quarto com um cara muito gostoso e ainda não tinha me aproveitado disso, que tipo de mulher eu era?
- , eu preciso de uma ajudinha. – pedi e ele me encarou como se não entendesse o que mais eu queria. – Preciso de ajuda com o meu zíper.
Pude ver os seus olhos brilharem apesar da pouca luz no quarto, ele tinha alguma lembrança sobre isso que eu não tinha, mas eu tinha certeza que precisava revivê-la. Caminhei lentamente até ele, tirando meus saltos um por um, largando-os pelo chão, enquanto o homem assistia ao pequeno show com a testa enrugada, parecia estar se esforçando muito para manter o controle.
Eu estava bêbada de novo e se ele perdesse a linha novamente era capaz de tudo se repetir, mas eu sabia que aquela noite seria memorável, exatamente porque eu queria que ele perdesse a linha, a cabeça e o juízo. Assim como ele estava fazendo comigo desde o momento que colocamos os pés na Califórnia.
Dei as costas a ele que rapidamente desceu o zíper, então virei de frente para ele novamente deixando que o tecido caísse pelos meus ombros. Seus olhos azuis faiscavam contra os meus, mesmo estando só de calcinha na sua frente ele se demorou parecendo querer encontrar algum vestígio da minha alma. Eu pude enxergar a guerra que se erguia dentro dele, assistia enquanto os muros que ele tinha levantado contra mim caíam tijolo por tijolo.
Segurei as suas mãos sem tirar os olhos dos seus, levantei-as até estarem na frente do nosso corpo e o guiei lentamente para trás. se deitou e eu retirei o último pedaço de tecido que tinha no meu corpo antes de me sentar em cima dele, segurei o seu rosto esperando até que ele fechasse os olhos para então beijá-lo. Beijei com tudo o que eu tinha e ele retribuiu da mesma maneira totalmente entregue, soltei um suspiro de alívio recheado com luxúria.
Por fim, os beijos não duraram muito quando ele pareceu acordar de um transe e jogar o meu corpo para o outro lado da cama. Prendeu-me dentro de seus braços e tomou as rédeas da coisa, sorri satisfeita e ele me lançou aquele sorriso sujo que eu adorava.
- Eu acho bom você se lembrar disso pela manhã, . – sussurrou no meu ouvido, chupando o meu lóbulo logo em seguida. – Eu acho muito bom, porque dessa vez eu não vou te perdoar.



Continua...



Nota da autora: É despedida de solteiro que vocês querem???? Será que a noite foi realmente caliente pra esse casal? Esperamos que sim, né?! Ahahaha não deixem de me contar o que acharam! Até o próximo capítulo (tá acabando aaaaaaaa). O nosso grupo no facebook se chama “Fantasias da Rai”, entrem lá e serão todas muito bem vindas! Quem quiser falar comigo tem o ask também: @RaisaPerosini.




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