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[War]ning



Última atualização: 09/04/2017



“A guerra havia acabado, mas as bombas persistiam em ecoar nos meus ouvidos. Não era uma contra ataque, muito menos uma reviravolta, eram fogos de artifício que explodiam no céu que pela primeira vez em muito tempo estava estrelado, devia ser alguma obra do destino o céu estar limpo e iluminado um dia depois do término definitivo da grande guerra. Escutava pessoas gritando e comemorando pelas ruas, mas o que me impedia de comemorar com elas era a lápide a minha frente. A lápide daquele que fora meu melhor amigo, daquele que esteve comigo nos piores momentos dessa guerra, daquele que me amou como ninguém mais amou. A guerra havia acabado e levado consigo uma parte de mim, parte essa que se encontrava embaixo da terra e que nunca mais retornaria.”


“A guerra é uma arte e, como tal, não pode ser explicada por fórmulas fixas” – George Smith Patton



Capítulo 1 - The war can start





1941. A guerra já estava completando dois anos de existência e terror no mundo. Eu ainda não havia sido chamado para o exército, mas não temia que esse dia não tardasse a chegar. Havia acordado mais cedo, pois era meu dia de plantão no hospital que havia perto de minha casa. Cheguei ao hospital e estava sem tomar café.
- Doutor ! – uma enfermeira me chamou.
- Pois não? – disse ainda sonolento e tentando raciocinar àquela hora da madrugada.
- O senhor tem uma cirurgia de emergência agora no segundo andar. – ela disse, se virou e continuou seu caminho.
Eu amava minha profissão, sempre quis ajudar as pessoas. Desde pequeno meu sonho era ser um super herói e salvar vidas, quando cresci percebi que super heróis não existiam de verdade, pelo menos não os que tinham super poderes. Mas achei uma profissão que era quase como a de um super herói. Médicos também salvam vidas.
Muito bem. Agora eu estava indo para uma cirurgia de emergência e ainda não tinha tomado o café da manhã, tive que sair às presas de casa para não perder o bonde e tomar cuidado com os militares passando pelas ruas, tudo estava muito perigoso, às 18h tínhamos o toque de recolher. O medo reinava naquele ano e reinaria por mais alguns anos até que tudo se acabasse.
Chegando à sala de cirurgia, as enfermeiras me ajudaram a me preparar. Toucas, luvas, higienização, máscara. Estava pronto. Foi uma cirurgia comum. Um sucesso, o rapaz iria sobreviver e talvez também fosse chamado para a guerra. Ele era jovem devia ter uns dezessete anos.
Assim que acabei a cirurgia fui direto para a cafeteria do hospital comer alguma coisa. Aquela cirurgia foi longa e minha barriga às vezes roncava durante os procedimentos. Tomei uma xícara de café e comi algumas torradas, não pude me demorar muito naquele lugar, pois já tinha mais cirurgias marcadas para aquele dia e para o dia que se seguiria.
Ao final do dia realizei três operações e retirei muitas balas perdidas de corpos de inocentes que tiveram o azar de passar no lugar errado e na hora errada quando iam para seus destinos. A guerra era um inferno! Depois de realizar todos esses trabalhos, tirei um tempo para descansar, a noite pelo jeito seria longa e o dia seguinte seria a mesma coisa. Vida de médio não é fácil, mas até que é legal.
Já tinham dado o toque de recolher, ou seja, só iria aparecer alguém naquele hospital apenas se a pessoa quisesse a morte, pois sair de noite depois do toque de recolher era pedir para morrer. Então quase não aparecia ninguém naquele horário, dava tempo de tirar um cochilo e tentar descansar do dia exaustivo que tive.
O dia amanheceu e com eles mais vítimas de atentados noturnos surgiram no hospital. Fiz mais cirurgias, retirei mais balas e finalmente deu o horário de eu voltar para a casa. Precisava de um banho e de uma noite de descanso merecida. Era de tarde, ainda estava claro, passei por uma padaria que ficava no caminho da minha casa. Vi seis caras entrando no lugar, mas o que me chamou a atenção era que eles não aparentavam ser ingleses. Ignorei esse fato queria mais chegar em casa logo e poder dormir.
Relaxei durante uma hora na banheira, quase peguei no sono, o cansaço me consumia de uma maneira surpreendente. Às vezes quando estava na banheira eu ficava pensando na vida. Aquela guerra havia tirado pessoas importantes de mim. Sophie. Sentia-me só desde que ela partira injustamente depois de um atentado à casa dela. Ela era minha namorada. Pretendíamos nos casar assim que essa maldita guerra acabasse, mas a guerra a tirou de mim para sempre.
Eu já não tinha família, meus pais morreram cedo, minha mãe morrera depois do parto. Meu pai me criou, eu era filho único. Logo que entrei para a faculdade de medicina meu pai morreu depois de um AVC. Ninguém sabia, mas ele tinha sérios problemas no coração. Cheguei em casa um dia depois da aula e o encontrei morto no chão da sala.
Passaram-se anos e me sentia cada vez mais sozinho, até que encontrei Sophie. Ela era uma enfermeira que trabalhava no mesmo hospital que eu. Apaixonamos-nos e eu a pedi em namoro, queria me casar com ela, ela me fazia feliz e me fazia sentir único. Mas quando a guerra surgiu no mundo, a casa de Sophie e seus pais fora bombardeada em uma noite por aviões alemães.
Sophie jamais retornaria e mais uma vez eu estava só.
Terminei meu banho, coloquei meu pijama e deitei-me em minha cama, dormi pensando em Sophie e dormi como uma criança. Sem medo. Imaginava às vezes, se voltaria a amar alguém como amei Sophie daquele jeito.
Amanheceu e eu só entraria no hospital de tarde. Organizei minhas coisas. Li um livro e chegou a hora de eu ir para o trabalho. Caminhando pela rua vi aquela mesma padaria do dia anterior modificada. Os vidros da frente estavam estilhaçados, alguns militares estavam a frente do prédio e havia pessoas curiosas por lá também. Avistei alguns jornalistas entrevistando uma pessoa, passei perto do lugar e vi que era uma garota que estava sendo entrevistada. Ela era bonita e tinha certo ar de autoridade.
Olhei para o relógio e vi que iria me atrasar. Corri para pegar o bonde e cheguei ao hospital para mais um dia de cirurgias e pequenos casos. Passei a noite no hospital como de costume e quando amanheceu uma enfermeira me cumprimentou e logo me entregou o jornal da manhã.


“Garota mata seis nazistas com uma faca de confeiteiro”


Era a manchete principal. Resolvi ler a reportagem só para depois descobrir que o atentado ocorreu tão perto de mim que eu nem imaginava. Sabia que aqueles seis caras entrando na padaria na tarde passada não eram ingleses. E a manchete esclarecia tudo até mesmo o porquê de naquela manhã eu ter visto a padaria totalmente modificada e quase destruída.
Mas não dei muita importância para aquilo continuei com minha rotina.
1942. A guerra já estava no segundo ano e parecia que não teria fim. Tudo estava cada vez mais assustador. Certo dia depois que cheguei do hospital vi Jeeps de militares parados em frente a onde eu morava.
- Pois não? – disse me aproximando e com receio.
- ? – um dos militares perguntou para mim.
- Sou eu, o que desejam?
- Você está sendo intimado para se juntar a nós na 6ª divisão de soldados. Pegue só o necessário e estaremos te esperando aqui. – um dos militares disse.
Eu havia sido chamado para a Guerra. Não estava com medo, era isso o que me restava. Já estava sozinho no mundo. Peguei o essencial e fui com os soldados para uma área afastada da cidade. Em meio a uma floresta surgia um extenso campo que continha Jeeps, tanques, soldados correndo. A base militar estava cada vez mais próxima. Desci do Jeep e um soldado me acompanhou.
- É novo aqui também? – ele perguntou.
- Sim – disse caminhando ao lado dele.
- Prazer George McMahon!
- Parece contente em estar aqui... – disse percebendo o entusiasmo dele.
- Estou aqui para servir minha pátria, não tem honra maior que morrer pela pátria! Como o senhor se chama?
- . – disse sem muitas emoções.
- Prazer! Ouvi dizer que mudaram o instrutor dessa divisão, vamos conhecer ele hoje! – ele disse e chegamos ao vestiário.
Colocamos nossas fardas e seguimos caminho para a tenda onde havia outros soldados esperando para que o treino começasse. De repente duas pessoas entraram naquela tenda e muitos cochichos começaram entre os soldados, não conseguia identificar as pessoas até que uma voz gritou:
- Soldados, formação! – formamos a fila e ficamos em posição de sentido – Sou o Coronel Patrick Foster!
- Quem é aquela garota? – McMahon perguntou baixo para mim.
- Essa garota... – o Coronel havia escutado e olhava diretamente para nós – É a mais nova instrutora de vocês. Tenente... – ele deu passagem para que a garota falasse.
- Muito bem... – ela disse tímida, mas ainda esbanjando autoridade e foi ai que eu me lembrei de quem era a garota – Soldados, sou a Tenente !
Acho que só com o tempo eu iria descobrir que aquela garota seria uma das pessoas mais importantes na minha vida depois da morte de meus pais e de Sophie. Sorri para ela e ela me olhou confusa, mas no fundo um sentimento se formava dentro de mim.
. Tenente . Melhor amiga e paixão da minha vida.
A guerra podia começar que eu estava pronto para os treinos, e obviamente, para conhecer a Tenente.



Capítulo 2 - Explicações





1943. Não parecia que estávamos literalmente no início do fim dessa guerra. Devia ser umas 4h da manhã, pois já havia ido até meus aposentos, se é que eu posso chamar aquele lugar assim, para me acordar, como era uma oficial superior, era meu dever acordar antes de todos os soldados.
- Tenente ! Está na hora de levantar! – me sacudia na cama.
Virei-me lentamente achando uma maldade a cama parecer ser mais confortável quando tínhamos que levantar.
- Já estou indo ! Obrigada por me acordar! – Disse para aquele que considerava meu melhor amigo, pude o ver batendo continência e saindo do quarto.
. Capitão , ele era um oficial intermediário, mas eu o considerava meu melhor amigo, era um dos únicos que não tinha preconceito de ter uma chefe mulher. As pessoas daquela época não aceitavam que as mulheres tivessem um emprego melhor que o dos homens e muito menos que elas fossem militares, pior ainda, se elas fossem Oficiais Superioras, bom, eu era uma exceção como já deu para perceber.
Meu pai era Coronel, ele comandava a sexta e a sétima divisão britânica de soldados alistados na II Guerra Mundial. Eu era sua única filha, minha mãe falecera quando eu tinha quatro anos. Sem ter com quem me deixar, meu pai assumiu o papel de minha mãe e cuidou de mim. Diferente dos outros militares dessa época, meu pai tinha um coração ‘mole’, ele me chamava de ‘pequena tenente’ quando eu era menor, hoje ele me chama simplesmente pelo o título que me fora dado depois de matar seis soldados nazistas que invadiram a padaria na esquina de minha casa. Tenente. Como meu pai era o Coronel, ninguém podia desobedecer às ordens dele, por isso quando ele anunciou para os soldados e os outros oficias da sexta e da sétima divisão que eu seria a nova treinadora dos Praças, todos tiveram que aceitar mesmo que por dentro todos estivessem odiando a ideia. Se bem que alguns até falaram na hora que meu pai estava louco.


“Ela é uma mulher!”
“Uma mulher treinando os Praças? Você só pode estar louco Coronel!”
A resposta que meu pai deu foi a melhor de todas, me fez sentir muito mais orgulho dele do que eu já tinha antes.
“Minha filha matou seis soldados nazistas usando apenas uma faca de confeiteiro, se eu resolvi arriscar a vida da minha única filha nessa maldita guerra é porque eu tenho total confiança de que ela está apta para isso! Eu a treino para momentos como esse desde que ela tinha cinco anos de idade, e eu posso garantir a vocês que ela é muito mais habilidosa do que muitos soldados nessa base militar! Aceitem o fato de que a nova instrutora de vocês é essa garota de dezenove anos de idade, ou vão para o campo de batalha despreparados para morrerem mais rápido!”



Amor de pai. Até onde vai não é?
Esse foi o discurso dele no ano anterior (1942). Já tinha se passado um ano desde que comecei a treinar os novos soldados. Aceitei esse ‘emprego’ de instrutora porque meu pai não me deixou ir para o campo de batalha, segundo ele, minha vida já estava correndo perigo só pelo fato de eu seguir a mesma carreira que ele, e se eu fosse para o campo de batalha e não sobrevivesse, meu pai se culparia para o resto da vida. Eu o amava, não queria o ver triste, por isso aceitei ficar na base militar.
Era segunda-feira. Quatro horas da manhã. já havia me acordado tinha dez minutos, mas eu me recusava a sair da cama. Eu odiava segunda-feira, principalmente quando estava numa base militar no meio de uma guerra. Odiava pelo simples fato de que eram nas segundas-feiras que chegavam novos soldados alistados para serem treinados. Treinados por mim!
Espreguicei-me sentindo todos os ossos do meu corpo estralarem. Saí daquela cama com muita força de vontade, olhei para os lados e vi que meu pai já havia acordado bem mais cedo que eu. Como eu era a única mulher naquela base militar, ou melhor, a única mulher militar daquela guerra, não que eu conhecesse outra, mas eu acho que eu era a única, eu dormia com meu pai. Segundo ele, os soldados já não aceitavam por completo a ideia de ter uma mulher os treinando, se eu dormisse no mesmo lugar que eles eu poderia ser estuprada. Meu pai tinha um ótimo senso de humor.
Caminhei até o banheiro, molhei meu rosto e coloquei minha farda. Saí do quarto e fui em direção ao refeitório que por sorte estava vazio, ainda. Peguei meu café da manhã e me sentei na mesma mesa que .
- Está dez minutos atrasada Tenente! – ele disse com aquele sorriso idiota dele.
- Sou sua superiora, você não tem o direito de ficar contando quantos minutos eu me atraso para vir tomar café! – falei sorrindo.
- Não acredito que você está sorrindo em plena segunda-feira! – ele disse.
- , não me enche ok? Além de controlar meu horário vai controlar os dias que eu posso ou não sorrir?
- Você quase nunca sorri, ainda mais em segundas-feiras, eu adoro ver seu sorriso! É como se a guerra deixasse de existir por alguns segundos! – ele disse de uma maneira tão fofa que eu não controlei meu outro sorriso e não controlei que minhas bochechas corassem.
- Você é um dos únicos que me trata bem aqui. – disse desviando meu olhar do dele.
- Porque eu sei reconhecer a ótima militar que você é, sei deixar essa besteira de preconceito de lado. – ele disse e eu sorri novamente – está sorrindo de novo!
- Ai que saco, você sabe que essas palavras fofinhas me fazem sorrir! Isso é maldade !
- Maldade é você não mostrar esse sorriso ao mundo! – ele falou e eu senti meu rosto arder mais um pouco.
- Estamos no meio de uma guerra, não temos motivos para sorrir.
- Então porque está sorrindo sem parar desde que se sentou a mesa? – ele disse sorrindo e erguendo uma sobrancelha.
- Por que mesmo você é meu melhor amigo? – perguntei lançando um olhar assassino para ele.
- Porque eu sou carinhoso, lindo, cuido de você como se fosse minha irmãzinha e ganhei sua confiança desde o meu primeiro dia aqui na base!
- Lindo? Carinhoso? Esqueceu o modesto, humilde, metido! – disse – e você é um puxa saco isso sim!
- Logo de madrugada e já está lançando facas atrás de facas em mim... Deixa-me ver se eu adivinho, está de TPM não é?
- Tenho que parar de te dar tanta liberdade assim na minha vida pessoal! – disse revirando os olhos.
A corneta soou avisando que já eram 4h30, ou seja, era hora dos soldados levantarem para tomar o café da manhã e começar mais um dia de preparação.
- Está na sua hora Tenente! – disse.
- Obrigada secretário! – revirei os olhos e me levantei para ir para a tenda de treinamentos e me preparar psicologicamente para receber os mais novos soldados machistas.
5h. Meu pai adentrou na tenda.
- Bom dia Tenente! – ele disse.
- Bom dia Coronel! - eu bati continência.
- Descansar! – ele disse e sorriu – Filha, não precisa agir assim quando estamos a sós.
- Tenho que manter a disciplina pai, se eu faço isso na frente de mais alguém, vão fazer mais comentários desrespeitosos.
- Tudo bem querida! Digo Tenente ! Os novos Praças acabaram de chegar, estão vindo para cá!
- Ótimo, mais uma palestra vai começar! – disse ironicamente.
- Quer que eu fique aqui com você?
- Só nos primeiros minutos, sabe como é né? Eles vão ficar indignados... – falei e meu pai assentiu com a cabeça.
Os Praças chegaram e foram para a tenda onde eu e meu pai nos encontrávamos. Havia muitos novos soldados. Estava me controlando para não sentir aquela maldita sensação fria no estômago de nervoso, pois logo mais eu começaria a ouvir alguns comentários sobre o meu sexo. Obviamente mantive minha postura, porque apesar de tudo eu era a superior deles. Isso me fez sentir mais confiante.
- Façam uma fila e se virem de frente para mim! – eu disse quando todos adentraram na tenda.
- Tem uma mulher aqui! – um soldado disse surpreso.
- Por favor, façam a fila! – respirei fundo e repeti.
- Até que ela é bem bonita! – outro soldado disse, eu revirei os olhos e olhei para meu pai pedindo ajuda, eles não me obedeceriam tão cedo.
- Senhores, formação da fila, por favor! – disse meu pai e na mesma hora todo mundo ficou um do lado do outro e todos bateram continência, típico. – Eu sou o Coronel Patrick Foster! Comando a sexta e a sétima divisão britânica de soldados! Essa aqui ao meu lado é a Tenente , vocês devem obedecê-la agora, pois ela é a instrutora de vocês! – dizendo isso ele se retirou da tenda, minha tortura semanal iria começar.
- Bom dia senhores! Como o Coronel disse, sou a superiora de vocês e instrutora também! – comecei a falar e andar do começo para o final da fila, olhando para a cara de indignação de todos os soldados – Estamos no meio de uma guerra! Vocês estão aqui para defender o país de vocês...
- Uma mulher? Isso só pode ser uma piada – estava demorando para as piadas machistas começarem. Ouvi um dos soldados cochichando para outro e dando risadinhas.
- O que disse? – me virei para o soldado que havia falado ele não respondeu, voltei a andar e falar – continuando, vocês estão aqui para defender o país de vocês, mas para isso vocês precisarão de treinos, precisarão saber pegar corretamente em uma arma, saber se esconder, saber sair de situações difíceis, e cabe a mim ensinar tudo isso a vocês!
- Ela tem um bom porte físico, vou ensinar ela a mexer com a minha ‘arma’ – o mesmo soldado cochichou mais uma vez.
- Como é seu nome soldado? – fui até ele e perguntei.
- Chill, Brian Chill! – ele disse sorrindo.
- Soldado Chill, um passo a frente, por favor! – pedi e ele deu um passo na minha direção – Vejamos, alto, forte, aparenta liderança – fui falando e andando ao redor do soldado, esse por sua vez não conseguia disfarçar o sorriso idiota dele – porém, tem um pequeno defeito no rosto... – disse e parei de frente para ele.
- Não tenho não... – ele disse levando a mão até o nariz com certa duvida no olhar.
- Ah tem sim... – disse e logo em seguida o golpeei com meu joelho no meio de suas pernas, o que fez ele se contorcer de dor e ficar a minha altura, logo em seguida dei um soco no nariz dele que começou a sangrar na hora – bom, agora tem! – Todos ficaram assustados com minha reação – é melhor você passar na enfermaria para cuidar desse defeito assim que eu acabar com o meu discurso soldado Chill.
Ele voltou para a fila cambaleando e segurando “algo” entre as pernas.
- Tem mais alguém aqui que vai fazer piadas a meu respeito? – disse olhando para todos os soldados.
- Não! – eles disseram em conjunto
- Não o que? – eu disse.
- Não senhora! – eles disseram e bateram continência, eu adorava essa minha autoridade.
- Pois bem, se tem mais alguém aqui que vai agir como o soldado Chill eu sugiro que se retirem, ou se matem, antes que eu mesma mate vocês! Não estamos aqui para brincadeiras, estamos aqui para derrotar o inimigo! Vocês não são os primeiros a ficarem indignados com a minha presença aqui na base militar! – voltei a andar – cheguei até aqui com muito esforço e dedicação, estão vendo outra mulher aqui? – perguntei.
- Não senhora – eles responderam em conjunto.
- Sabe por quê? Porque NÃO EXISTE outra mulher aqui! Pelo simples fato de os administradores do exército serem um bando de homens machistas e preconceituosos que acham que lugar de mulher é em casa cuidando da família! Como podem ver eu sou a ÚNICA exceção! Só fui aceita aqui porque o Coronel Foster me viu matar seis soldados nazistas que invadiram a padaria perto de minha casa! E ele me trouxe para a base militar!
- Você é a famosa garota que matou os nazistas! – um outro soldado disse sorrindo e com um certo brilho nos olhos.
- Seu nome soldado? – perguntei.
- , ! – ele disse assumindo postura.
- Soldado , um passo à frente! – pedi e ele hesitou no primeiro momento, mas me obedeceu. – Alto, forte – comecei a falar as qualidades dele assim como fiz com Chill – sorriso bonito, olhos – parei na frente dele – Como sabe da minha história?
- Bom... – ele tinha medo na fala – está nos jornais, a filha do Coronel Foster que matou seis soldados nazistas usando uma faca de confeiteiro é a primeira e mais nova Tenente da sexta e da sétima divisão inglesa do exército – ele disse.
- O Coronel Foster é seu pai? – outro soldado disse.
- Volte para a fila ! – ele voltou – Sim! Meu pai é o Coronel! – disse ainda indignada que aquele soldado sabia minha história – Voltando ao meu discurso...
Fui interrompida por uma voz já conhecida.
- ! – gritava e corria na minha direção.
- Quantas vezes eu terei que exigir que não mencione meu apelido na frente dos novos soldados? – cochichei para ele com tom de advertência.
- TPM, já sei! Tenente , os sobreviventes do 29° esquadrão chegaram!
- 29°? – perguntei.
- Sim, o esquadrão do...
- George McMahon. – terminei a frase dele – ele está vivo?
- Sim! Mas muito ferido, é melhor a Tenente ir ver os soldados e começar os relatórios! – disse e olhou para o soldado Chill – UAU, já temos a primeira vítima da sua TPM? – ele disse alto.
- Teremos a segunda em breve se você não parar com gracinhas! – o adverti novamente – soldados! Descansar! – falei e me dirigi até a saída da tenda, mas consegui escutar dizendo para os soldados:
- Relaxem soldados! Vocês aprendem a lidar com ela! – ele disse sorrindo e começou a conversar com todos os novos Praças, não perdi meu tempo tentando escutar a conversa e fui para a enfermaria.



Capítulo 3 - Tática de guerra





Entrei no local e pude ver já em várias camas, soldados realmente feridos, alguns não tinham alguma parte do corpo, outros estavam queimados, consegui reconhecer McMahon e caminhei em direção a ele.
- Tenente ! – ele disse com a voz fraca.
- George... Como você está? – perguntei.
- Vivo... Em breve estarei recuperado e poderei voltar para o campo de batalha! – ele disse confiante.
- George, não costumo fazer isso, mas você lutou bravamente nessa guerra, se quiser...
- Não! Tenente, com todo o respeito, eu tenho condições de ir até o final, se for para morrer, morrerei no campo de batalha! Só tive alguns ferimentos... Em breve estarei bom novamente!
- Alguns ferimentos? George, o médico disse que você está vivo por um milagre! Você levou vários tiros!
- Por favor Tenente, peço permissão para quando me recuperar, poder voltar a treinar e voltar para a ação! – ele pediu.
- Tudo bem McMahon... – disse – Mas você sabe que eu não gosto muito dessa ideia. Que isso fique bem claro!
- Obrigada Tenente! – ele piscou para mim e eu retribuí o gesto com um sorriso.
- Tenho que ir agora, fazer os relatórios e avisar o Coronel para que comece a escrever as cartas para as famílias – disse e fui caminhando para a saída da enfermaria.
Estava quase na porta e esbarrei com um soldado já conhecido.
- Tenente! – ele disse batendo continência.
- Chill. – respondi sem emoções – Vejo que veio cuidar do seu ‘defeito’.
- Defeito que a senhorita causou... – ele disse ironicamente.
- Causarei de novo se não receber o respeito que mereço! – eu disse e ele ficou em silêncio, sai do local segundos depois.
Fui até o escritório de meu pai avisá-lo para começar a escrever as cartas às famílias dos soldados que morreram no campo de batalha. Feito isso voltei para a tenda onde recebi os soldados. Estavam todos lá inclusive Chill que agora já se encontrava com um curativo no nariz. Eles estavam muito à vontade conversando com Capitão . Entrei na tenda e na mesma hora todos ficaram em posição de sentido.
- Vejo que já estão mais disciplinados. – disse tentando esconder o riso, mas percebeu.
- Vejo que está mais alegre! – ele disse piscando para mim.
- Vejo que em breve teremos uma demonstração de como matar um soldado usando uma faca – disse olhando para ele e tirando um canivete do bolso, alguns soldados não conseguiram disfarçar os sorrisinhos.
- Vejo que hoje a TPM está atacada hein? – disse.
- Capitão , sugiro que você pare com as piadas antes que eu te rebaixe a soldado e você terá que ir imediatamente para o campo de batalha!
- Você não teria coragem... Sou o único que te trata sem preconceitos aqui! – nossa discussão estava ficando íntima demais e havia muitos espectadores nos observando brigar.
- Basta! – eu disse – Primeira lição de vocês soldados... – comecei a falar e andar na direção de – Imaginem que o Capitão é um soldado nazista que tinha ligação direta com Hitler, vocês o capturaram e o trouxeram para a base a fim de extrair dele algumas informações comprometedoras para a guerra...
- O que você está fazendo? – me perguntou em tom de medo, mandei um sorriso para ele.
- Obviamente que o soldado nazista aqui – abracei de lado – não irá contar logo de cara para vocês essas tais informações, por isso, vocês terão que ‘forçá-lo’ a falar. – fiz aspas com os dedos quando falei forçá-lo – preciso de um grupo de cinco soldados, voluntários?
- Se algo acontecer com esse meu rostinho e esse meu corpinho lindo, eu faço questão de fazer a mesma coisa com você só que pior! – ele disse, porém sorria, apenas pisquei para ele.
- Eu gostaria de ser voluntário! – ergueu a mão.
- Eu também! – me surpreendi quando Chill também ergueu a mão.
- Nós três aqui vamos completar o grupo! – disse outro soldado enquanto batia levemente no ombro de outros dois rapazes.
- Pois bem! – disse – temos o grupo! Vocês ficarão encarregados de “fazer o nazista revelar os segredos do Führer” tentem usar técnicas psicológicas e não físicas, veremos como se sairão nessa tarefa.
- Mas e os outros soldados? – perguntou.
- Por enquanto essa é uma tarefa mista de prática e observação, eu e os outros soldados ficaremos observando as táticas de vocês, podem começar!
Terminei minha frase e Chill e outro soldado seguraram pelos braços, o que o deixou um pouco surpreso, mas ele logo incorporou o personagem e começou a se debater nos braços dos soldados. Um outro soldado bateu no rosto dele para que ele parasse de se mexer.
- HEY! Você não disse táticas psicológicas? – ele protestou depois do tapa.
- Eu disse TENTEM usar técnicas psicológicas – não disfarcei o riso.
- Isso não é justo! – ele disse.
- Nada é justo na guerra, Capitão! – pisquei para ele.
Chill trocou de lugar com o soldado que bateu em .
- Conte-nos o plano alemãozinho! – Chill falava.
- Eu lá tenho cara de alemão? – falou e Chill deu um soco na barriga dele que fez se contorcer de dor.
Eu juro que eu estava quase desistindo de ensinar essa lição para eles. Cada soco que levava fazia meu coração se comprimir dentro de meu peito, não suportava ver meu melhor amigo sofrendo.
- Não vai nos contar não é? Será que teremos que intensificar sua dor? – Chill fechou o punho e estava quase batendo em de novo quando parou a mão do soldado no meio do caminho.
- Calma Chill! Vamos tentar algo psicológico como a Tenente sugeriu! – disse.
- Como você pretende fazer isso? – outro soldado, o que até àquela hora não havia se manifestado, disse.
- Simples, primeiro começamos com uma chantagem do tipo: nos conte os planos de Hitler e sua família não sofrerá as conseqüências – começou.
- Você não sabe quem é minha família, não sabe nem se eu ainda tenho família! – disse.
- Mas isso não impede de nos fazer investigar mais sobre sua vida... – disse levantando uma sobrancelha e começou a revistar os bolsos da farda de à procura de algo que pudesse ajudar na simulação, o Capitão se rebatia, mas não teve sucesso fazendo isso, achou um pequeno papel no bolso da calça dele – Hum... Interessante, acho que podemos continuar com a chantagem – ele disse olhando para o papel.
Eu estava curiosa para saber o que era aquele papel que tinha na mão, ele parecia muito mais inteligente do que aparentava, comecei a observar toda aquela simulação como se fosse verdade.
- Que papel é esse? – perguntou.
- Ok nazista, sugiro que você fale os planos do Führer ou...
- Ou o que? Vai me matar? Mata logo, você sabe que eu não vou falar! Não adianta me chantagear falando da minha família – incorporava bem o personagem, eu estava indignada.
- Será mesmo? Soldado vá buscar a pessoa da foto! – disse e segundos depois Chill e o outro soldado apareceram a minha frente e me seguraram pelos braços.
- Mas o que... – comecei a protestar.
- Desculpe-me Tenente, mas faz parte da minha técnica – disse, revirei os olhos e assenti, pelo jeito eu fazia parte da peça também – Continuando , ou você nos conta os segredos do Hitler ou sua amiguinha aqui sofrerá as conseqüências!
- Não ouse encostar um dedo nela! – parecia sério ao falar, acho que nessa hora ele não estava mais no personagem.
- Você acha que eu não teria coragem? – olhou para mim – Desculpe de novo – e me deu um tapa no rosto, claro que doeu! Que mão forte que ele tinha!
- Filho da puta! – gritou e começou a se debater com mais força nos braços dos outros soldados.
- Olha que eu posso fazer pior ! – ele ameaçou a me bater com o punho fechado.
- Não! – protestou.
- Então temos um acordo? – o questionava, mas mantinha o punho fechado e pronto para me acertar com força máxima.
- Não ! Não conte nada! – eu disse fazendo minha participação especial na peça – lembra do que o Führer falou? Morra, mas não revele nada aos inimigos!
- Own, que fofos! – parecia se divertir com a ‘peça’, confesso que também não resisti e deixei escapar uma risada – O que vai ser ? Irá nos contar o plano ou teremos que fazer sua amiguinha sofrer mais um pouco – Nessa hora começou a me revistar – Desculpe de novo Tenente – e tirou de um dos meus bolsos o meu canivete e o posicionou em meu pescoço – Ela tem uma voz de autoridade, seria uma pena se alguém a calasse para sempre... – ameaçou a cortar meu pescoço e por um momento eu realmente achei que ele iria fazer isso.
- Não! Eu conto! Mas larguem-na! – disse e os soldados me largaram.
- Bravo! Muito bom! – eu disse batendo palmas – ok soldados, ótima simulação! Podem soltar o Capitão! – eles soltaram.
- Pegou pesado dessa vez Tenente! – disse, mas não parecia brincar, resolvi ignorar esse ataque de ‘ciúmes’ dele.
- Ok senhores, o que vocês presenciaram aqui foi uma técnica pouco utilizada para conseguir extrair informações do inimigo, acredito que muito de vocês pensaram em apenas encher o Capitão de porradas e torturá-lo até que ele revelasse alguma coisa importante. Por isso quando me referi às técnicas psicológicas, pareceu entender o recado. – me virei para o britânico de olhos – Parabéns soldado!
- Obrigada Tenente! – disse.
- Muito bem, que lição importante tiramos dessa simulação? – perguntei.
- Que não devemos torturar os inimigos? – Chill arriscou um palpite.
- Às vezes a tortura é necessária, mas se ela pode ser evitada, é preferível que mude a técnica. Caso essa nossa simulação se torne real, digo, se capturarmos um soldado nazista e o trouxermos para a base, temos que antes de começar a interrogá-lo, pesquisar sobre o passado dele, pesquisar sobre coisas que poderiam servir como ‘chantagem’ assim como fez quando pegou minha foto no bolso do Capitão. – olhei para – Por que você tem uma foto minha no bolso da sua farda?
- Porque eu quero! – ele disse e alguns soldados não disfarçaram os sorrisinhos maldosos. Eu percebi isso.
- Quero deixar bem claro que é apenas um... – não sabia se podia me referir a como sendo meu melhor amigo na frente dos novos soldados.
- Grande amigo! Que ela ama demais! – ele terminou a frase por mim e eu olhei para ele como se saísse fogo de meus olhos – que foi? É a verdade! Para de ser tão durona Tenente!
- A gente conversa depois Capitão! – disse – muito bem soldados essa foi a primeira lição de vocês, sugiro que se dirijam até a tenda de número 7 para ouvir os comunicados que o Coronel tem a dizer! Depois do almoço voltem aqui para a tenda de treinamento! Descansar!
Os soldados bateram continência e saíram da tenda, todos menos e .
- Tenente ? – veio até mim.
- Sim?
- Gostaria de pedir desculpas pelos tapas e pelas falsas ameaças, mas a senhorita disse para que fizéssemos uma simulação...
- Não precisa se desculpar ! Você fez um ótimo trabalho eu mesma não teria pensado em nada do tipo se aquilo fosse real.
- Tudo bem, bom eu vou até a outra tenda... – ele disse e eu assenti com a cabeça, pude o ver batendo continência e saindo
- Você estava louca é?! – disse assim que saiu de nosso campo de visão.
- Louca por que ?
- Me usar como cobaia até que estava tudo bem, mas deixar que esses inúteis te batessem?
- , era apenas uma simulação! Eu quase iria desistir disso quando os soldados começaram a bater em você, mas ai apareceu com essa nova tática, e eu resolvi ver o que ele tinha em mente.
- Ele te bateu! Juro que eu vou retribuir o tapa que ele te deu!
- Você não fará isso! , para de me tratar como se eu fosse uma garotinha indefesa! Se eu não quisesse que ele me batesse era só eu ter falado!
- Você está com a marca da mão dele no seu rosto – ele disse enquanto acariciava minha bochecha.
- Ele é um bom soldado e é inteligente, marcas são apenas detalhes , o importante é que eu consegui passar minha lição para eles! – disse e segurei a mão dele – Não quero mais ver esses seus ataques de ciúmes, ok?
- É só você não fazer mais esse tipo de brincadeira!
- Primeiro, o culpado pela minha participação nessa ‘peça’ foi você!
- Eu? – perguntou indignado.
- Sim você! Se você não tivesse com uma foto minha no seu bolso eu não teria entrado para a peça!
- Tenho culpa se gosto de ter você por perto mesmo estando longe?
- Sim, você tem! – eu disse – se fosse real , eu duvido que o inimigo teria tanta piedade de mim assim como teve!
- Piedade? Você chama a mão dele marcada no seu rosto de “piedade”? – falou.
- Sim! Ele até que pegou leve! Escuta , eu sei que você me considera sua melhor amiga...
- A irmã que eu nunca tive... – ele me interrompeu
- Que seja, é perigoso em tempos como esse você andar com fotos de seus entes queridos nos bolsos da farda, perigoso até mesmo aqui na base militar...
- Tenente, você pode me dar o sermão que quiser, mas sua foto continuará comigo.
- Você está colocando minha vida em risco! – eu disse sorrindo.
- Não, não, você colocou sua vida em risco no momento em que veio para cá! – ele disse sorrindo também.
- Seu idiota! Volte para sua tenda! – eu disse dando um soco de leve no ombro dele.
- Tudo bem menina insuportável! – ele me deu um beijo na bochecha e saiu do local, me deixando sozinha com um tímido sorriso no rosto.



Capítulo 4 - Bala perdida


Passei o resto da manhã fazendo alguns relatórios dos soldados sobreviventes, havia me ajudado em boa parte das papeladas, mas ele tinha outros afazeres, por isso eu tive que terminar os relatórios sozinha. 11h, hora do almoço, a corneta já havia tocado. Fui até o refeitório, peguei a bandeja com a comida e me sentei em uma mesa afastada, sozinha.
Não que eu não goste de ninguém, é só que depois que os soldados me conhecem melhor, eles ficam com um pouco de ‘medo’ da minha pessoa, ainda mais hoje, quando eu agredi o soldado Chill. almoçava mais cedo que eu, por isso eu sempre ficava sozinha. Bom, acabei de mudar meus conceitos. Caminhando na minha direção um soldado se aproximou.
- Posso me sentar com a senhorita? – perguntou.
Fiquei olhando para ele, certa de que aquilo era loucura dele, ele não parecia estar com medo de mim, muito pelo contrário, ele estava falando diretamente comigo, só achei estranho porque mais nenhum outro soldado havia feito aquilo antes.
- Claro, soldado – fiz sinal com a mão para que ele se sentasse à minha frente.
- Por favor, a Tenente pode me chamar de – ele disse enquanto se sentava.
- Ok, – ele riu timidamente por eu insistir em chamá-lo pelo sobrenome – o que te traz à minha mesa?
- Te vi sozinha, achei que a senhorita gostaria de companhia...
- Por favor, ‘senhorita’ é para garotas delicadas - disse e dei uma risadinha.
- Ok Tenente! – ele se corrigiu – com todo o respeito, a senhori... A Tenente não tem cara nem pose de que é delicada...
- Obrigada! Eu acho. – disse – então você acha que eu preciso de companhia?
- Não, é que... Bom... – ele estava se enrolando para falar, só podia ser medo das minhas atitudes.
- Atrapalho? – apareceu atrás de mim e me deu um susto que eu pulei da cadeira, me fazendo ser percebida em todo o refeitório.
- Ai ! Que susto! – disse.
- Desculpe-me Tenente! – ele não parava de rir – já está dando broncas em outros soldados?
- Não. sentou aqui para me fazer companhia.
- Capitão – bateu continência para que apenas balançou a cabeça.
- Hum... Pensei que você iria bater nele por ele ter batido em você... – disse.
- Já disse que aquilo foi uma ótima simulação e que eu não vou bater nele por ter feito um bom trabalho! O que foi que nós conversamos mais cedo?
- Tudo bem! Não está mais aqui quem falou! – ele levantou as mãos na altura do peito mostrando rendição – Só vim avisar que os soldados já estão aguardando para os próximos treinos Tenente.
- Obrigada por avisar Capitão, eu já estou indo.
- Te espero lá Tenente! – disse e se levantou bateu continência e se dirigiu para fora do refeitório.
- Bom, temos que ir , me acompanha? – levantei da cadeira.
- Claro senhor... Digo, Tenente! – iria ser difícil para ele se acostumar.
e eu chegamos até a tenda de treinos.
- Boa tarde senhores! Fila, por favor! – eu disse e os soldados fizeram a fila.
- Muito bem, hoje de manhã, vocês viram uma simulação muito bem elaborada por um grupo de cinco soldados! Agora, vamos para o treinamento ‘de verdade’, como os senhores podem ver, temos aqui uma bancada com armas, mais precisamente AK-47, elas possuem balas de verdade dentro delas. A primeira coisa que vocês vão fazer é aprender a recarregar a arma, mirar e atirar! Capitão ! – me dirigi até que já estava com uma arma na mão.
- Soldados, peguem uma arma cada um e me sigam! – disse e se retirou da tenda sendo seguido por mim e por todos os soldados que já haviam pegado as armas, fomos até um campo de alvos, onde tinha bonecos de palha e algumas frutas que faziam os papéis dos inimigos.
- Primeiro, para recarregar a arma vocês terão que empurrar essa parte para frente – empurrei a parte da arma que havia me referido – colocar as balas uma por uma – coloquei algumas balas – e empurrar para trás a parte aberta – fechei o compartimento das balas – façam o mesmo!
Os soldados começaram a imitar meus movimentos com a arma e quase todos conseguiram concluir a primeira parte da tarefa no menor tempo possível.
- Muito bem, agora a parte da mira! – disse – posicionem a arma à frente do peito de vocês, mirem no alvo com um olho fechado primeiramente, depois abra o outro olho para se certificar de que a mira esta correta, assim que tiverem o alvo na mira, apertem o gatilho, sem hesitar! – disse e fez a demonstração para eles, acertando em cheio o meio da cabeça do boneco de palha. – Posicionem-se de frente para os alvos – pedi e os soldados se posicionaram – mirem! – eles miraram – atirem! – Uma seqüência de balas saía das armas deles, muitos erraram as miras, poucos foram os que acertaram em cheio.
- Vocês precisam ser rápidos, cautelosos e treinar melhor a mira de vocês! – disse se dirigindo aos soldados – Vocês venham comigo – ele pediu para que um grande grupo de soldados o seguissem para o outro lado da área dos alvos, eram os soldados que haviam errado a mira, incrível a capacidade de de saber exatamente quem havia errado e acertado, era por isso às vezes eu pedia para que o Capitão me ajudasse nos treinos.
- Muito bem, vocês, se posicionem de novo! – disse para os cinco soldados que haviam sobrado, incluindo , eles se posicionaram de frente para os alvos – quero agora uma sequencia de cinco tiros estratégicos, ou seja, em locais que se fossem uma pessoa de verdade, os tiros pudessem ser fatais, como por exemplo, cabeça, peito, pescoço... – disse – mirem! Atirem! – os soldados começaram a atirar nos alvos, assim que todos terminaram com a sequencia eu cheguei mais perto deles – muito bom! Com o tempo a mira de vocês vai se aperfeiçoando e a agilidade também, voltem para a tenda e peguem as facas que estão lá! – pedi e os soldados foram até a tenda.
Enquanto isso explicava mais uma vez para o grupo dos quinze soldados que não tinha acertado a mira na primeira vez como mirar corretamente. Ele tinha mais paciência que eu. Os soldados faziam um semi-circulo ao redor de , todos virados para mim. pediu para que eles apenas treinassem a mira, os soldados então, levantavam a arma, miravam e abaixavam a arma, e faziam isso várias vezes. O grupo dos soldados que eu havia pedido que pegassem as facas havia voltado, pedi para que eles também fizessem um semi-circulo ao meu redor e comecei a explicar o que eles iriam fazer em seguida.
- A faca, é um instrumento utilizado apenas para última opção, o uso dela requer muito mais habilidade do que com uma arma, pois com a arma você pode acertar seu inimigo de longe, já a faca, você terá que ter uma boa mira, ou usá-la numa briga corpo a corpo. Os pontos estratégicos para que a pessoa morra através de um golpe com a faca são: o pescoço, cortando a garganta; o coração, mas vocês terão que saber exatamente onde acertar a faca e na cabeça. – eu dizia enquanto ia posicionando a faca em minha mão nos pontos específicos do meu corpo.
Continuei explicando para eles, mas de repente escutei um tiro vindo do grupo que comandava, e segundos depois cai no chão.
- ! – Escutei gritando.
Tinham me atingido na coxa, doía e saía muito sangue, tentei apertar o ferimento com minha mão para impedir que o sangue saísse, a dor era insuportavelmente forte, tentava segurar minhas lágrimas, mas estava ficando cada vez mais difícil.
- Tenente! Oh meu Deus! Ajudem-me a pegar ela! – falava desesperado.
- Aonde pegou o tiro? – chegou perto de mim e eu só consegui olhar para minha coxa – Ah meu Deus! Chill, você está suspenso! E quanto aos outros soldados, voltem para as tendas de vocês! – gritava – calma, vai ficar tudo bem! – ele tentava me acalmar – vou levantar você, se segura nos meus braços ok? – ele disse e eu assenti com a cabeça, incapaz de falar alguma coisa, com cuidado pegou em minhas pernas, mas acabou batendo no ferimento o que me fez soltar um gemido de dor e algumas lágrimas que eu tentava segurar – Desculpa! – ele me ajeitou no colo dele com a ajuda de que resolveu ficar para me ajudar.
me levou até a enfermaria e me colocou em uma maca.
- Pegue naquele armário um pouco de gazes, álcool e esparadrapos – dizia para , que foi o mais depressa possível em busca dos primeiro socorros.
- Aqui está Capitão! – disse colocando a bandeja com as coisas que pediu ao meu lado na maca.
- Vou ter que tirar sua calça ... – a dor era tanta que eu não conseguia nem protestar por estar usando meu apelido, quanto mais de tirar minhas calças, apenas assenti com a cabeça. Com cuidado, ele foi abaixando minha vestimenta, sendo mais delicado na parte que estava o ferimento, mas não contive um gemido de dor. – pegue uma pinça !
- Aqui senhor! – havia pagado a pinça e entregado para que colocava minha calça no chão.
- , a bala está alojada na sua coxa, tenho que tirar – ele me olhou como se a minha dor fosse a dor dele – assenti mais uma vez com a cabeça.
havia feito medicina, antes de entrar para o exército, esse é um dos motivos que eu sabia que ele estava fazendo a coisa certa ao cuidar do meu ferimento.
- Não posso te dar morfina pequena... – ele disse e eu fechei os olhos deixando mais lágrimas caírem – toma, morda isso, prometo que vai ser rápido! – ele disse e me entregou um rolinho de pano, que eu coloquei na boca e mordi com força.
pegou a pinça, se abaixou um pouco para ficar na altura do ferimento, com cuidado ele segurou minha coxa e segundos depois ele colocou a pinça dentro dela, me fazendo gritar de dor, sorte que o som foi abafado pelo pano em meus dentes. revirava a pinça na minha coxa tentando achar uma parte da bala que não escorregasse na pinça, isso só aumentava minha dor. Quando ele finalmente conseguiu fixar a bala na pinça e começou a puxar para fora, eu achei que não iria sobreviver. Não pensei duas vezes e apertei com força a mão de que estava posicionada ao meu lado na maca, deixando ele surpreso e eu mais aliviada por transmitir minha dor para outra pessoa.
- Pronto, pronto, agora é só desinfetar e fazer o curativo – dizia enquanto colocava a bala na bandeja e pegava a gaze umedecida com álcool – agüenta só mais um pouquinho ! – ele disse e logo em seguida começou a passar a gaze com álcool no ferimento, eu gritei mais ainda e a mão de já estava sem circulação, alguns momentos depois pegou uma linha e agulha para dar os pontos no ferimento, eu chorava como uma criancinha, simplesmente porque era alérgica à morfina. Depois de costurar minha coxa, ainda colocou uma faixa ao redor da mesma para imobilizar minha perna – Pronto, acabou... – ele disse e olhou para onde minha mão estava, na mesma hora soltei a mão de e comecei a enxugar minhas lágrimas.
- Obrigada ... – eu disse – e obrigada a você também – os dois ficaram um tanto surpresos quando pronunciei o primeiro nome do soldado.
- Não tem de que! – disse.
- Soldado, você está dispensado – disse para que logo em seguida bateu continência e saiu da enfermaria – Desculpe-me pequena? – Capitão disse.
- Desculpar pelo o que? - respondi enquanto recuperava o fôlego.
- Eu devia ter ido para um lugar mais afastado, eu pedi para que eles apenas treinassem a mira, mas aquele Chill sem querer apertou o gatilho...
- Ta tudo bem ... - falei um pouco cansada.
- Não, não está! A culpa foi minha, se eu...
- ... – peguei na mão dele – Está tudo bem - eu disse olhando nos olhos dele - Estou viva e amanhã já voltarei aos treinos!
- De jeito nenhum! Uma semana é pouco para você repousar! Eu sou médico e exijo que me obedeça! - rebateu ele com um tom de indignação pela minha “imprudência”.
- Vai usar da sua autoridade agora? – disse e sorri levemente para ele.
- Vou! Se eu ver que a senhorita me desobedeceu eu cutuco a sua ferida literalmente! – ele levantou um de seus dedos para cutucar de verdade.
- Ta bom, doutor! - disse enquanto levava minha mão por cima do meu ferimento para proteger, fiz isso por impulso já que ele estava me ameaçando.
- Tenho que ir agora avisar seu pai, não saia daqui viu? – ele disse e pegou um lençol para cobrir minhas pernas sem calça.
- E tem como? – ri.
- Não. – ele disse e saiu da enfermaria.
Enquanto eu o via desaparecer refletia comigo mesma pensado, seu eu fiz todo aquele escândalo por conta de uma bala alojada em minha perna, imagine a dor que George sentiu. Como seria ser socorrido em meio aquele caos. Meu coração se apertou um pouco enquanto eu novamente levava, no impulso, meus dedos sobre a região em que fui acidentalmente baleada.




Capítulo 5 - Visitas e revelações


Estava naquela enfermaria, deitada naquela maca olhando para o teto do lugar quando escuto a porta se abrindo e passos um tanto apressados vindos em minha direção, a cortina que separava meu leito dos outros fora aberta e vi meu pai a minha frente.
- Filha! Capitão me contou o que aconteceu, como você está? – meu pai disse preocupado.
- O pior já passou pai, estou melhor – eu disse.
- Às vezes eu me culpo por ter deixado você entrar para o exército, eu sei que você é forte minha filha, mas só de saber que você está correndo perigo e agora que o Capitão me contou sobre a bala perdida eu...
- Pai, está tudo bem, estamos no meio de uma guerra, normal que as pessoas levem tiros por aí...
- Mas não minha filha que está na base militar! – ele disse sério.
- Pai o senhor tem que parar de me tratar como se eu não soubesse me cuidar, você mesmo me deu um voto de confiança para estar aqui! Assim que eu tiver recuperada irei voltar a instruir os soldados!
- Filha... – ele tinha um olhar de dor.
- Não adianta me impedir Coronel... – eu disse tentando o impedir de falar mais alguma coisa ou mais algum sermão.
- Tudo bem – ele disse respirando fundo – Mas tome mais cuidado da próxima vez! E não se preocupe quanto ao soldado Chill, já conversei com ele e o suspendi por uma semana.
- Pai, você não devia ter feito isso... Chill apesar de ter sido ignorante comigo é um bom soldado, ele será útil em todos os treinos. – disse.
- Mas ele atirou em você!
- Não foi de propósito... Eu acho... – disse insegura.
- Como assim ‘você acha’? – meu pai perguntou.
- Bom, é que eu o agredi hoje mais cedo, acho que o senhor reparou no ferimento do rosto dele quando foi falar com o soldado...
- Você que quebrou o nariz dele? – Meu pai disse, porém não estava bravo, era como se estivesse... Orgulhoso?
- Sim – disse timidamente – ele me desrespeitou, achei justo que ele sofresse por isso...
- Olha, filha, não vou mentir para você e falar que não sinto orgulho de saber que você fez isso, mas é errado, e você sabe disso, Chill agora tem muito mais ódio de você do que já tinha quando chegou aqui pela manhã, e eu não queria nem pensar nisso, mas eu acho que ele se aproveitou da distração de e atirou de propósito na sua perna...
- Você acha que ele seria capaz de fazer isso só porque eu quebrei o nariz dele? – perguntei.
- Não só acho como tenho quase certeza... Vou ficar de olho nesse soldado e qualquer ameaça dele para você me avise imediatamente!
- Não se preocupe pai, vai ficar tudo bem! – disse.
- É o que eu espero, tenho que ir agora, eu volto aqui mais tarde para saber como você está ok?
- Sim Coronel! – bati continência e ele se retirou.
Já devia ter umas duas horas desde que e me trouxeram para cá para fazer o curativo na minha coxa, não agüentava mais ficar naquela maca, mas havia me proibido de sair de lá. Só porque ele era médico iria mandar em mim? Não acho justo. Resolvi ficar sentada na maca para ver se o ferimento ainda doía como antes. Era uma dorzinha chata, mas nada insuportável, comparado com o momento do tiro e com retirando a bala da minha perna. Eu podia muito bem andar, mancando, mas eu podia. Resolvi me levantar da maca amarrando o lençol na minha cintura já que estava sem calças, estava quase colocando o pé no chão quando escuto a cortina se abrindo novamente.
- Não acredito que você está desobedecendo às ordens do médico... - falou alguém com uma voz um pouco familiar.
- Chill? – me virei para certificar-me de que era o soldado que estava lá.
- Boa tarde Tenente! – ele disse.
- O que faz aqui? – perguntei.
- Um ‘boa tarde’ em primeiro lugar iria ser muito legal de sua parte... – ele estava abusando da sorte.
- Boa tarde soldado – disse sem paciência – o que está fazendo aqui?
- Vim ver como a senhorita está... – ele disse.
- Estou aleijada se é isso que você quer saber.
- Acho que estamos quites agora – ele disse.
- Você fez de propósito?! – perguntei enquanto tentava me acalmar internamente.
- Não. Mas vendo e analisando as circunstancias você está com um ‘defeito’ e eu também!
- Diz logo o motivo de sua presença aqui antes que eu lhe proporcione um ‘defeito’ fatal! – disse.
- Já disse, vim ver como a senhorita está – ele se aproximou da maca – e pedir desculpas...
- E por que você acha que eu perdoaria você?
- Não faço ideia, mas não custa tentar...
- Você é muito engraçadinho pro meu gosto! – disse seca.
- É sempre bom ter senso de humor!
- O senhor poderia se retirar, por favor? – pedi.
- Posso ver seu ferimento?
- Você não escutou o que eu disse?
- Foi profundo? – ele perguntou.
- Se retire daqui soldado!
- Foi em que perna?
- Você está me escutando? Saia daqui soldado Chill!
Ele ficou parado à minha frente me olhando nos olhos. Percebi que ele não iria embora tão cedo, a não ser que eu mostrasse o ferimento para ele e o perdoasse.
- Foi nessa perna – disse e levantei um pouco do lençol mostrando apenas o local da bala perdida – Pronto, o senhor já pode se retirar.
- Nossa... Foi profundo, me desculpe mais uma vez Tenente – ele disse assim que viu o curativo.
- Ok, agora se retire, por favor. – pedi e ele se retirou, não sem antes se desculpar pela terceira vez.
Abusado. Brian Chill era um soldado abusado e sem medo do perigo, ainda mais quando se trata de uma mulher de TPM. Voltei a me deitar na maca, mas não porque estava obedecendo às ordens de , voltei para a maca porque... Porque EU queria ficar na maca. Cruzei os braços e fiquei olhando para a parede a minha frente. Fiquei mais um bom tempo sem fazer nada. Eu odiava ficar sem fazer nada, poderia estar treinando, ou fazendo relatórios, mas não, eu tinha que ficar na maca porque tinha levado um tiro na coxa! tinha razão, minha TPM estava atacada hoje.
Mais uma vez, a cortina do meu leito se abriu.
- Espero que você tenha vindo até aqui para me entreter, porque sinceramente, é muito ruim ficar sem fazer nada! – disse para o soldado a minha frente.
- Vim ver se a Tenente precisava de alguma coisa... – disse disfarçando o sorriso.
- Preciso. Preciso sair daqui! – disse.
- O Capitão deu ordens de que...
- Eu não recebo ordens de , ele recebe ordens de mim! – interrompi .
- Com todo o respeito Tenente, mas se a senhorita não recebe ordens dele... Por que ainda está deitada nessa maca? – ele disse e eu fiquei sem resposta.
- Porque... Porque... – eu tentava arranjar um jeito de me explicar, mas as palavras ou as desculpas simplesmente evaporaram de minha cabeça.
- Não precisa se explicar, eu acredito que a senhorita está aqui ainda porque não tem calça para vestir e sair da enfermaria... – ele disse sorrindo depois dessa tentativa de explicar os meus motivos por ainda estar na maca.
- Exatamente! – eu disse – Por que me defende ? – dessa vez foi ele quem ficou sem resposta.
- Porque... A senhorita pode achar que todos os homens dessa base militar são iguais, ou seja, que tem preconceitos por ter uma superior mulher... Mas eu não sou como eles...
- Não disse que você era como eles...
- Mas pensou! – ele disse autoritário, mas logo abaixou a cabeça como se estivesse arrependido – desculpe.
- ... – ele olhou para mim – você tem que parar com essa mania de se desculpar a toda hora – eu disse sorrindo.
- Seu sorriso é bonito... – ele disse corando logo em seguida e me deixando vermelha também.
- O... Obrigada... - senti meu rosto arder. Maldito seja como ele conseguiu?
Ficamos em silêncio. Envergonhados. Aquele silêncio estava me incomodando.
- Ah sim, já ia me esquecendo – quebrou o silêncio – Trouxe uma calça para a senhorita... – ele me entregou a peça de roupa.
- Obrigada ! – eu disse recebendo a calça – você não se incomoda de... – apontei para a cortina.
- Ah, claro que não – ele disse e foi para o outro lado da cortina a fechando em seguida para que eu pudesse me vestir, mesmo ele já tendo me visto sem calça horas atrás.
Retirei o lençol que cobria minhas pernas e fiquei sentada com as pernas para fora da maca. Comecei a colocar a calça. Tive que segurar um gemido de dor quando sem querer bati com certa força no local da bala, fechei os olhos engolindo o choro e continuei vestindo. Depois de vestida resolvi que já era hora de eu sair daquele lugar. Atrevi-me a colocar a perna sem ferimento no chão com cuidado. Logo em seguida coloquei a outra, mas a dorzinha que eu achava ser suportável, se tornou insuportável de novo, eu perdi o equilíbrio e caí da maca fazendo barulho e assustando .
- Tenente?! – ele abriu a cortina rapidamente – Oh meu Deus! O que aconteceu? – ele dizia enquanto ia para onde eu estava no chão e estendia o braço para que eu me apoiasse nele.
- Eu perdi o equilíbrio... – disse me segurando no braço dele.
- A senhorita não devia ter levantado! – ele dizia preocupado enquanto me colocava sentada na maca novamente.
- Obrigada – agradeci pela ajuda – mas é que eu não agüento mais ficar aqui!
- Sei que a senhorita não gosta de receber ordens, mas é para o seu próprio bem! – ele dizia e continuava preocupado, podia ver naqueles olhos .
Fiquei olhando nos olhos dele enquanto ele demonstrava sua preocupação e ajeitava o meu travesseiro.
- Obrigada mais uma vez... . – disse assim que ele terminou de me ajustar na maca novamente.
- Não tem de que senhorita. – ele disse um tanto corado, me olhando nos olhos.
Ficaríamos assim por mais algum tempo se não tivesse aparecido.
- Boa tarde pequena... – ele dizia enquanto entrava na enfermaria e ia desmanchando o sorriso assim que avistou . – Soldado. – ele olhou para .
- Capitão. – disse batendo continência.
- O que faz aqui? – perguntou.
- Vim trazer uma calça para a Tenente...
olhou para minha perna já vestida e para que estava próximo de mim.
- Você... – ele olhava para calça e para .
- Não . Eu vesti a calça sozinha – disse.
- Hum... – ele ficou mais tranquilo – Como você está?
- Bem... Estaria melhor se pudesse sair daqui... – disse como uma menina teimosa e desobediente responderia.
- Você sabe que não pode, apesar de já ter desobedecido às minhas ordens não é?
- Como você sabe? – perguntei.
- te conheço melhor do que ninguém aqui e tenho certeza que você já tentou se levantar.
- Ta você me pegou...
- Caiu no chão não é? – ele perguntava.
- Cai. – falei e fiz um pequeno bico com os lábios.
- Mas é teimosa, só aprende na prática! – disse sorrindo.
- me ajudou a levantar. – disse.
- Hum... – encarou por alguns momentos e depois voltou sua atenção para mim – Te trouxe um remédio que irá amenizar a dor – ele me entregou o remédio e eu tomei – vou te levar para seu quarto agora.
- Ah finalmente vou sair daqui! – disse agradecendo aos céus o que fez e rirem.
- Vem pequena... – estendeu o braço, me pegou no colo. nos seguiu.
Eles me levaram até meu dormitório. Andamos em silêncio o tempo todo. Às vezes eu gemia de dor e os dois me perguntavam a toda hora se eu estava bem.
- Sai de uma cama para ficar em outra... Ô vida... – retruquei fazendo bico novamente quando ele me colocou em minha cama.
- Mas essa menina só reclama viu? – disse fingindo impaciência e riu.
- Obrigada ! – eu disse.
- Por nada Tenente! E é bom que você não TENTE sair dessa cama! – me advertiu e eu revirei os olhos – eu volto mais tarde para te trazer sua janta ok? – assenti.

Saímos do quarto da Tenente.
- Precisamos conversar ! – falou parando no corredor.
- O que o senhor quer falar comigo? – perguntei confuso.
- Siga-me até meu escritório – ele disse e voltou a andar, resolvi não desobedecê-lo. Entramos no lugar – Sei o que você pretende soldado – disse por fim.
- Sabe... O que? – perguntei ainda confuso.
- Percebi desde o primeiro instante que você chegou aqui e viu a Tenente – ele disse.
- Não estou entendendo aonde o Capitão quer chegar...
- Saiba soldado, que é extremamente difícil, quase impossível de amolecer o coração da Tenente a ponto de fazê-la se ‘apaixonar’ por alguém – ah agora eu entendia onde ele queria chegar.
- Capitão... – comecei a falar, mas fui interrompido.
- , vi a maneira como você olhou para ela, pelo jeito o senhor já andou pesquisando sobre a vida dela também, mas eu o alerto, se pretende continuar com isso, saiba que é mais fácil você enfrentar Hitler e voltar ileso do que fazer se apaixonar por você! – disse.
- Sou interessado na Tenente desde quando li a matéria sobre o ataque à padaria, comecei a pesquisar mais sobre ela, quando soube que fui designado para a sexta divisão e vi quem era a instrutora dos Praças, não pude deixar de ficar contente – disse.
- Vai por mim soldado, sei que suas intenções são boas, mas desista dessa missão. - falou.
- Com todo o respeito Capitão, mas por que eu desistiria?
- Porque como eu já disse, é quase impossível obter sucesso nessa tarefa!
- O senhor disse QUASE não disse que era totalmente impossível, eu não irei desistir...
- Se eu fosse você eu desistiria...
- Me dê um motivo para eu fazer isso, um motivo plausível.
- Acredite em mim soldado. não é de se apaixonar tão facilmente... – disse.
- Como o senhor pode ter tanta certeza disso? – perguntei.
- Porque eu já tentei! – ele disse – Eu já tentei fazer com que se interessasse por mim! Na verdade, estou tentando isso já tem um ano!
Fiquei em silêncio, ao que tudo indicava, Capitão gostava da Tenente e se fosse para ter uma ‘disputa’ por ela, ele já estava muitos passos a minha frente, afinal de contas, ele era o melhor amigo dela, ele era o mais íntimo dela nessa base militar e eu era apenas o novo soldado que tinha esperança de que ela se interessasse por mim.
- Capitão, sinto muito te dizer isso, mas eu não irei desistir de conquistar a Tenente.
- Então que vença o melhor, soldado! – ele disse isso e estendeu a mão para mim.
- Que vença o melhor! – eu disse apertando a mão do Capitão e me retirando do local.




Capítulo 6 - ‘Forever mine’


Ver o pai morrendo e sua mãe sendo capturada por nazistas era frustrante, amedrontador, traumático e tudo de ruim que se pode imaginar. A guerra traumatizava a todos. E estava me traumatizando.
- Filho, temos que nos mudar... – minha mãe disse e seu tom de voz era um tanto aflito.
Eu era natural da Inglaterra, meu pai também, mas minha mãe era polonesa. Eles se apaixonaram muito antes da II Guerra estourar, em uma das viagens de meu pai ao redor do mundo. Meu pai conheceu minha mãe em um museu na Polônia e foi paixão à primeira vista, para ambas as pessoas.
Meu pai contava que a primeira vez que viu minha mãe, foi como se o cupido tivesse acertado a flecha do amor em cheio no peito dele. Achei engraçado ele falar aquilo, mas foi romântico. Um dia pretendia conhecer uma mulher que me encantasse assim como mamãe encantou meu pai.
Minha mãe dizia que quando viu papai olhando para ela no museu ficou sem graça, mas tentava disfarçar quando olhava para ele, seu pensamento naquele dia era para que ele se aproximasse e puxasse assunto com ela e como se ele tivesse lido sua mente, meu pai se aproximou, eles se conheceram, tomaram um café juntos e se tornaram grandes amigos. Dois anos depois eles se casaram e mais três anos seguintes eu nasci.
Quando tinha dois anos nos mudamos para a Polônia para que minha mãe pudesse tomar conta de meus avós que estavam muito doentes, e permanecemos por lá mesmo depois de meus avós terem falecido. Até estourar a II Guerra. 1º de setembro de 1939. A Polônia fora invadida pelos alemães dando início a mais assustadora guerra no mundo.
Desde esse dia minha mãe não dormia direito. O motivo? Ela era judia. Assim que se iniciou a guerra de fato meus pais decidiram voltar para a Inglaterra antes que fosse tarde demais. Partiríamos na manhã seguinte até a França e de lá iríamos para a Inglaterra.
Tudo estava ocorrendo como os conformes enquanto íamos para a estação de trem na Polônia. Compramos as passagens e já estávamos quase embarcando quando de repente soldados nazistas surgiram no local. Começou a correria e eles não tinham piedade. Eram frios e cruéis. Sem remorso matavam as pessoas que entravam na frente deles, eles sabiam exatamente quem eram os judeus e os capturavam.
- Vamos sair daqui! – disse para meus pais enquanto os alemães não tinham nos vistos e os puxei pelos braços.
Começamos a correr em direção a saída mais próxima do lugar, mas eles nos avistaram e começaram a correr em nossas direções. Dois soldados nos alcançaram e pegaram minha mãe pelos braços que chorava e gritava tentando resistir.
- Soltem-na! – meu pai gritou e foi ao encontro deles.
- Pai, não! – gritei, mas já era tarde, um dos alemães atirou nele e ele caiu morto no chão. Corri na direção que eles levavam minha mãe – Mãe! – gritei, ela apenas olhou para mim chorando.
- Vai! Fuja! Não fique aqui meu filho! Fuja! – ela gritava e chorava.
- Não! – eu disse ainda correndo na direção dela, um dos soldados me deu um chute na barriga.
- Não vai querer ter o mesmo fim que seu pai não é? – ele disse enquanto eu estava caído no chão, me levantei depressa e continuei indo ao encontro deles. O soldado sem paciência me chutou de novo e apontou a arma para mim.
- vai embora! – minha mãe gritava – Fuja!
- Cala a boca! – o soldado disse para minha mãe e deu um soco no rosto dela. A raiva tomou conta de mim. Eu me ergui de novo, mas o soldado atirou em minha perna.
- ! – minha mãe gritou.
- Disse para você ir embora! – ele ainda tinha a arma apontada para mim, minha perna doía e sangrava muito.
- Vai ... Vai... – minha mãe dizia – Eu te amo filho, agora vai!
Incapacitado de andar, correr ou me mexer, vi aqueles soldados nazistas levando minha mãe para longe de mim para sempre. Com dificuldade cheguei até onde estava o corpo de meu pai. As lágrimas rolavam pelo meu rosto.
- Isso não vai ficar assim... – disse com ódio – Não vai!
Médicos apareceram no lugar, me ajudaram com minha perna. Semanas depois eu embarquei para a França e de lá fui para a Inglaterra, fiquei com minha tia durante os anos que se seguiram depois de perder meus pais.
Digamos que o ódio tomou conta de mim desde aquele dia. Uma sede de vingança. Queria poder destruir todos aqueles nazistas. Fazê-los provarem do próprio veneno. Nem mesmo meu namoro com Juliet ajudava a superar aquilo. Depois de três anos tive que terminar, não queria dar falsas esperanças para ela. Estávamos juntos apenas para eu não me sentir sozinho. Não a amava de verdade, ela era mais uma amiga do que de fato uma namorada. Meu coração nunca batera tão forte por ela, na verdade nunca batera tão forte por nenhuma mulher. Até 1942.

“Garota mata seis nazistas com uma faca de confeiteiro”

Era a manchete principal no jornal daquela manhã. Peguei o jornal do chão e o levei para dentro da casa de minha falecida tia. Herdara aquele lugar e morava sozinho desde então. Sentei-me no sofá e comecei a ler a notícia.

. Uma bela e destemida jovem, evitou que pessoas inocentes morressem nas mãos de seis nazistas que atacaram uma padaria no subúrbio inglês.
Ao perceber o possível ataque, a jovem que tomava seu café da manhã na padaria não hesitou em pegar uma faca do confeiteiro também dono do lugar e dar um fim definitivo nos nazistas logo depois que eles se manifestaram para o ataque. Ágil e rápida, evitou um desastre maior e salvou a vida dos inocentes judeus que estavam naquele lugar.
Pesquisando mais sobre essa jovem, descobrimos que ela é filha do Coronel Patrick Foster e o mesmo disse que sempre a treinou desde pequena para ocasiões como aquela. O exército britânico está avaliando a possibilidade de levar para alguma divisão para que ela treine os soldados para a guerra. Se tudo ocorrer como os conformes, poderá ser a mais jovem e primeira mulher militar no mundo. Sua ajuda será de grande valor durante essa guerra que ainda assusta a todos.”

Uma mulher militar? Uma jovem que matou seis soldados nazistas com uma faca de confeiteiro? A coragem daquela garota me chamou a atenção. Torcia para que dessem um cargo para ela no exército, era merecido, mais que merecido! foi muito mais corajosa e ágil do que muitos soldados que se dizem capacitados para esse tipo de serviço.
Havia uma foto dela no jornal também. Ela era linda. Eu tinha que procurar saber mais sobre aquela garota. A coragem dela me impressionava!
Pesquisas e mais pesquisas e eu sabia quase tudo sobre aquela jovem. Semanas depois o jornal publicou outra notícia sobre ela.

, a garota que matou seis soldados nazistas com uma faca de confeiteiro ganha um cargo no exército. Ela é a mais jovem e primeira Tenente mulher dessa guerra. Será designada para instruir e orientar os soldados das 6ª e 7ª divisões britânicas.
Críticas de alguns militares mais antiquados não foram nada boas, obviamente que ela sofrerá preconceito, mas se a jovem continuar com a determinação e a autoridade que ela tem, ela vai longe. Na próxima semana ela já se dirige para o quartel general.”


Sabia que ela iria conseguir! Se não dessem um cargo para ela no exército seria muita injustiça. A garota era incrível! E digamos que depois de pesquisas feita sobre ela eu acabei me interessando pela mais nova Tenente do exército britânico. As notícias se espalhavam pelo mundo e já lia mais manchetes falando sobre mulheres se tornando mais ativas na guerra, nenhuma outra com um cargo no exército como , mas elas estavam mudando o mundo.
Eu ainda não havia sido convocado para o exército, mas queria ser chamado o mais rápido possível. O motivo? Vingança. Entrando no exército iria para a guerra e assim mataria todos os nazistas que estivessem a minha frente. Vingaria a morte de meus pais acabando com aqueles seres que os tiraram de mim tão cedo.
Até então meu coração estava repleto de ódio e sede de vingança. Mas com o tempo esse ódio e essa vingança se transformariam em outro sentimento. Com o tempo eu descobriria que não valeria a pena me vingar, aquilo não traria meus pais de volta. Então se eu fosse para o exército seria pelo amor a minha pátria. Deus salve a Rainha!

1943.
Na semana anterior haviam me convocado para o exército e seria designado para alguma das diversas divisões inglesas de soldados. Estava no caminhão junto com outros rapazes fardados.
- Sabe para qual divisão estamos sendo designados? – perguntei para o rapaz a minha frente.
- 6ª. – disse o rapaz com ar de superioridade.
- Prazer sou ! – disse me apresentando.
- Brian Chill. – ele disse sem muitas emoções, resolvi parar com a conversa.
Não me lembrava ao certo qual era a divisão que a Tenente fora designada, mas lembrava vagamente que era ou 6ª ou 7ª divisão.
Descemos do caminhão e nos mandaram para uma tenda. Todos estavam conversando entre si até que duas pessoas surgiram naquele lugar.
- Façam uma fila e se virem de frente para mim! – era ela! A Tenente do jornal!
- Tem uma mulher aqui! – um soldado disse surpreso ao meu lado.
- Por favor, façam a fila! – ela disse sem paciência e respirando fundo. Devo dizer que ela estava linda de farda. Autoritária, eu estava encantado com aquela pessoa esbanjando poder militar na frente dos soldados.
- Até que ela é bem bonita! – outro soldado disse mais para o final da fila. Vi a Tenente revirando os olhos e olhando para o Coronel pedindo ajuda.
- Senhores, formação da fila, por favor! – o Coronel disse e nós formamos a fila e ficamos em posição de sentido, eu já estava desde o começo, mas os outros soldados só obedeceram às ordens do Coronel – Eu sou o Coronel Patrick Foster. Comando a sexta e a sétima divisão britânica de soldados! Essa aqui ao meu lado é a Tenente , vocês devem obedecê-la agora, pois ela é a instrutora de vocês! – dizendo isso ele se retirou da tenda. Olhei para a Tenente que tinha um perceptível e maléfico sorriso no rosto.
Não me importava o quão irrelevante fosse minha presença para a Tenente. Eu estava contente por ter sido designado para a divisão que ELA estava. Poderia me aproximar dela, conhecer mais sobre ela e tentaria conquistá-la. Estava decidido. Naquele instante o amor à pátria se tornou amor por outra coisa, mais especificamente por uma pessoa.
Tenente . Aparentemente seria bem difícil conseguir êxito em conquistar aquela jovem. Mas eu estava apaixonado desde o dia que li a primeira matéria no jornal sobre ela. Faria o possível e o impossível, mas aquela mulher seria minha. Para sempre, minha.




Capítulo 7 - Ar fresco


Fiquei a tarde toda olhando para a parede daquele lugar. Acho que em momento algum eu reparei tanto nos mínimos detalhes daquele dormitório. Consegui decorar cada mísero objeto que havia naquele quarto, ou seja, eu era o cúmulo da falta do que fazer! Já era de noite quando a porta do quarto se abriu revelando com uma bandeja, seguido por .
- Boa noite Tenente! – disse sorrindo e caminhando na minha direção.
- Boa noite Capitão. Boa noite . – os cumprimentei.
- Boa noite Tenente! – disse.
- Como prometido, trouxe sua janta – disse me entregando a bandeja.
- Obrigada Capitão! – agradeci e olhei para que ainda não sabia o que estava fazendo ali.
O quarto ficou em silêncio. Nenhum dos dois rapazes à minha frente falava algo. Parecia que o clima estava tenso entre eles. Fiquei os observando até ter coragem de falar.
- , me diz que você não bateu no soldado – disse por fim, preocupada com as possíveis atitudes dele.
- Não! – os dois responderam em uníssono.
- Espero que isso seja verdade – retruquei – Mas, sem querer ser... Indelicada, mas o que o soldado faz aqui?
- Ele insistiu que queria vir ver como a Tenente estava – respondeu um tanto sem paciência.
- Estou bem, obrigada pela preocupação! – disse olhando para .
Enquanto eu comia, ficou na janela observando a luz do luar e ficou na porta, me observando. Odeio quando as pessoas ficam me olhando comer. E então voltei o meu olhar nele.
- Algum problema, senhor ?
- Não senhorita. Mas me pergunto se a comida está boa. – falou ele rindo.
- Não entendi. – respondi um pouco confusa.
- Perdoe-me por fazer esse breve comentário, mas a senhorita faz muitas caretas enquanto come. – disse ele tentando abafar com riso com uma das mãos.
Percebi que ficou um pouco inquieto com o jeito que ria.
- Mais modos, senhor . O senhor está perante a sua superior. Comporte-se! – falou em um tom tão seco, que eu nunca ouvira na minha vida.
Percebi que ficou sem graça e tentei aliviar a onda de pressão que fazia sobre o rapaz.
- Tudo bem , acho que ele pode fazer pequenas piadas de mim, já que eu apertei a mão dele que quase caiu. Além do mais eu nem pedi desculpas. – pigarreei para dizer isso – Desculpe-me, soldado.
- Tudo bem, senhorita. Quando precisar... – falou ele enquanto se aproximava de mim. E logo foi pegando uma de minhas mãos – É só gritar, que eu estarei perto da senhorita para lhe auxiliar no que for preciso. – em seguida beijou minha mão.
Meu Deus, nenhum homem naquele regimento havia sido tão cavalheiro quanto . Meu coração por um segundo havia parado quando ele começou a me fitar com aquele olhar verde penetrante. Senti meu rosto queimar, mas logo vi que puxou para bem longe de mim.
- O senhor é muito abusado, não é mesmo, senhor ? – falou vermelho de raiva.
- Faço de tudo para ganhar essa guerra, senhor. – rebateu com um tom ameaçador enquanto, ao mesmo tempo, seu olhar estava fitando de uma maneira... Nada amigável. Ora, o que estava acontecendo afinal? Os dois ficaram insanos de repente! Os dois continuaram trocando elogios e a minha paciência estava no limite!
- Vocês dois! Como ousam fazer com que eu presencie essa cena patética de vocês brigando? – disse enquanto eu me lembrava do meu cargo – Faça-me o favor!
Os dois gelaram e em seguida permaneceram com a postura rígida, mas era o mais tenso dos dois. Já que estava acostumado como meu estado de Tensão Para Matar quase todo o tempo.
- Ah, está muito quente aqui! – falei com os meus botões. – Vocês dois, esperem lá fora. Eu vou trocar de roupa.
- Mas , por que vai trocar de roupa sendo que já está na hora de gente enferma ir repousar? – falou com um tom tranquilo. Por um acaso eu estou presente de uma pessoa com dupla personalidade? Uma pena que Freud não chegou a conhecer este meu amigo insano!
- Só faça o que eu estou mandando! – disse impaciente.
Os dois saíram como cachorros com o rabo entre as pernas. E eu levemente e saí daquela cama com dificuldades e sentindo minha perna latejar seguindo até meu pequeno armário, e procurei algo mais leve. Eu estava com um pouco de calor. Na verdade eu estava com muito calor, quando percebi que meu pijama estava todo ensopado. Não pude fazer nada a não ser colocá-lo dentro do cesto de roupas sujas. Peguei um vestido branco, que era a única peça de roupa que dava para dormir já que todos os meus outros pijamas estavam sujos, o comprimento dele ia até o joelho. Era meio rodado. Muito feminino para um lugar só de homens. Mas o que posso fazer? Esse vestido era de minha mãe. Meu pai havia me dado quando completei dezesseis anos. Era algo muito precioso. Eu dormia com ele quando morávamos em Londres. Era a única maneira de eu me sentir próxima de minha mãe. De poder sentir seu cheiro doce de jasmim e de me sentir abraçada por ela. Dei um longo suspiro e segui mancando um pouco até a porta. Ambos me esperavam em cada canto. Espantados, me olhavam com outros olhos.
- O que foi? Perderam um braço aqui? – falei enquanto me dirigia mancando até a saída. – Vamos, quero dar uma volta lá fora.
Eles permaneceram petrificados no corredor. Revirei os olhos.
- Vão ficar ai parados esperando a Alemanha atacar ou o que? - disse já sem paciência.
- , você não pode sair! Já falei para ficar na cama. – disse o Doutor . Só agora ele quer dar uma de doutor?
- , você sabe tão bem quanto eu que seres humanos precisam de ar para respirar. E eu preciso de ar fresco! – o peguei pelo colarinho se sua farda. – Entendeu ou quer que eu desenhe? – aproximei muito o rosto dele a minha frente que pude sentir sua respiração, que por sinal estava acelerada, em meu rosto.
- Sim, Tenente – senti seu hálito fresco invadir minhas narinas. O soltei por puro impulso.
- Você vem ? – perguntei enquanto eu via saindo de sua posição rígida para ir até onde eu estava.
Quando abri as portas para o lado de fora o calor havia passado e o frio invadia cada poro de meu corpo. Foi então que senti algo pesado em meus ombros, vi sem o seu sobretudo.
- Obrigada, mas o senhor ficará bem sem esse casaco? – perguntei um pouco preocupada.
- Sobreviverei, não sou um soviético, mas acho que suporto um pouco de frio. – falou ele enquanto sorria para mim. Fiquei um pouco sem graça.
Dirigi-me a um banco próximo ao meu alojamento e me sentei. Senti meus músculos se esticarem e ao mesmo tempo uma dor suportável surgiu. Mas queria ficar um pouco ali, quieta, respirando um ar fresco. Quem sabe até distrair um pouco a cabeça.
- , desde quando tem esse vestido? – perguntou em um tom sarcástico.
- Qual o problema de eu o usar, Capitão ? – rebati com raiva.
- Nenhum, mas nunca imaginei você de vestido. – falou rindo, mas nossa estamos diante do bobo da corte do Führer e ninguém me avisou?
- Às vezes eu tenho que te lembrar que eu sou mulher, não é mesmo? – rebati mais uma vez esperando pela resposta.
- Indelicado de sua parte, Capitão. – falou .
- Intrometido você, não é mesmo, senhor ? – respondeu na mesma moeda.
Mas afinal, que diabos estava acontecendo aqui?
- Vocês dois, será que eu vou ter que jogá-los em um campo de batalha? – respondi praticamente berrando. Malditos hormônios. Joguei minha cabeça para trás e vi a lua mais cheia de todas brilhando lindamente para mim. - Esse vestido era de minha falecida mãe. Ganhei do meu pai quando tinha dezesseis anos... Pode parecer besteira, mas eu gosto dele. Sinto-me mais próxima a minha mãe e... – E o que eu estava falando? Abrindo-me assim? – De qualquer forma eu gosto muito dele. – falei arrumando minha postura e tentando encontrar uma voz mais rígida para o momento.
Os dois nada disseram. Apenas se sentaram ao meu lado. à direita e à esquerda. O banco era muito cumprido para nós. Senti-me por um instante mais acolhida já que ambos bloqueavam o vento gelado britânico.
Ficamos em silêncio por um bom tempo. Bem, por um longo tempo. Às vezes falávamos sobre algo que aconteceu no regimento que eu não sabia. Perguntei para sobre George, mas a resposta foi curta. E senti meus olhos pesarem tanto que tombei minha cabeça até sentir algum ombro. Não sei de quem era, mas era muito reconfortante. E infelizmente o meu período de liberdade havia acabado quando fechei meus olhos e dormi.

Quando ela saiu daquele quarto com aquele vestido delicado, senti meu coração pular. Ela ficara iluminada. Além de ser do jeito que era eu sabia que existia uma parte dela que era bem feminina.
E quando ela encostou a cabeça em meus ombros? Levei um grande susto. Ela dormia com o rosto mais sereno e angelical que já havia visto em toda a minha vida. Tive que me conter para não beijar aquelas bochechas que estavam levemente coradas. Se não fosse pelo Capitão eu teria feito isso.
- Vou levá-la ao seu aposento. – falou ele friamente enquanto se levantava para pegá-la. Mas eu fui mais ágil e a envolvi com o meu braço.
- Não se preocupe – falei enquanto levantava aquele anjo que dormia serenamente em meus braços com muita delicadeza – eu posso carregá-la, mas queria que me acompanha-se para abrir as portas. – Vi que ele queria me matar. Acho que naquela hora ele queria me jogar em uma dos campos de batalhas mais críticos do momento.
O Capitão apenas foi andando em frente até os aposentos. E eu me aproveitei daquele momento para respirar bem fundo o doce perfume da Tenente. Pude sentir o calor de suas pernas nuas por conta do vestido curto. Quanto mais nos aproximávamos de seu quarto, maior era o aperto no meu coração quando eu pensava em deixá-la ali. Eu a desejava perto de mim. Nunca desejei isso na minha vida.
abriu a porta do quarto de e ajeitou sua cama. Em seguida eu a coloquei delicadamente sobre o colchão, como se fosse um tesouro, uma porcelana preciosa. Por pensamento eu desejei a ela uma linda noite de sono. Contive-me para não beijar sua testa. Eu a cobri desejando permanecer ali, vendo-a dormir sempre.
Sai de seu aposento com um leve aperto e percebi a fúria que laçava sobre mim.




Capítulo 8 - Novidades


Não sabia como tinha acordado na minha cama. Ta eu sabia, ou haviam me trazido obviamente. Acordei e olhei para o relógio que ficava no criado-mudo da cama. 9h da manhã! Não podia ser verdade. Eu não poderia ter dormido tanto assim. Estamos no meio de uma guerra e eu literalmente estou dormindo no ponto. Levantei de um súbito. Péssima ideia ter feito isso, minha perna machucada ainda doía, e quando a coloquei no chão pude confirmar essa dor, para minha sorte a cama estava a poucos centímetros atrás de mim, pois eu caí depois do meu momento de desespero.
Respirei fundo e dessa vez com mais calma eu coloquei a perna no chão delicadamente. Fui mancando até meu armário e peguei minha farda. Vesti com cuidado, ajeitei meu cabelo o prendendo em um rabo de cavalo alto. Molhei meu rosto e escovei meus dentes. Estava pronta para sair daquele quarto. Um dia repousando já foi mais que suficiente, precisava voltar aos treinos que pelos meus cálculos já haviam começado tinha umas quatro horas. Eu resolvi que ia ficar com o turno da tarde, já que acabara de levantar.
Ainda mancando sai do quarto e me dirigi até o escritório de meu pai, que ao que tudo indicava, não havia ido para o quarto ontem. Entrei no local.
- Bom dia Coronel! – bati continência.
- Bom dia... Filha? O que faz fora da cama? – ele parecia surpreso a me ver fardada e pronta para os treinos.
- Já repousei o suficiente e uma guerra não se ganha com pessoas dormindo o dia todo. – disse.
- Mas filha, o doutor e Capitão ...
- Eu já estou melhor Coronel. – interrompi antes que ele começasse com os sermões – Só passei aqui para saber o que aconteceu?
- Por quê? – ele perguntou.
- Pai, o senhor quando não volta para o dormitório é sinal de que algo aconteceu em meio essa guerra para fazer o senhor passar a noite aqui no escritório.
- Sente-se Tenente. – ele fez sinal para que eu sentasse na cadeira de frente para sua mesa. Sentei-me. – Recebi uma mensagem ontem.
- Mensagem? – perguntei preocupada.
- Lembra-se do Garbo?
- Juan Pujol García? – perguntei falando o real nome da pessoa.
- Exatamente, bom como sabemos, ele trabalha no serviço secreto britânico... Ele mandou uma mensagem ontem – meu pai dizia e pelo tom de sua voz, era algo sério.
- Algo comprometedor? – perguntei.
- Digamos que é algo arriscado de mais, ele sugeriu trabalhar como agente duplo, prestando serviços para os Aliados enquanto espionava as táticas de guerra dos alemães...
- E o que o senhor decidiu? – perguntei.
- Como eu disse, é muito arriscado, escuta filha, estamos com um plano que pode ser definitivo para essa guerra, a ajuda que Garbo nos ofereceu pode ser que funcione como também pode ser que fracasse. Não podemos arriscar tão alto assim, não sem antes termos certeza de que essa nossa ‘estratégia’ seja fatal para os nazistas.
- Pai, é como Patton nos disse uma vez: “Só se consegue avançar fazendo coisas que outros não fazem” tem certeza que vai deixar essa oportunidade passar? Garbo pode nos ajudar com esse tal plano dele... – disse.
- Eu sei que pode minha filha, mas a questão é que temos que analisar todas as circunstâncias, se o plano de Garbo falhar a guerra será ganhada pelos nazistas. – ele disse respirando fundo e fechando os olhos.
- Tudo bem Coronel. O senhor é o chefe aqui e sabe o que é melhor, mas eu apenas gostaria de deixar claro que na minha opinião devemos aceitar a proposta de Garbo, ele já nos mostrou ser fiel aos Aliados.
- Sim, eu concordo com você filha, mas por enquanto, é melhor não arriscarmos assim. Prometo que pensarei melhor no assunto, na verdade, estou pensando nisso a noite inteira – meu pai disse.
- Imaginei... Bom, se me dá licença Coronel, tenho que tomar meu café da manhã e voltar aos treinos – disse batendo continência.
- Capitão não vai gostar de saber que a Tenente voltará aos treinos... – ele disse como se estivesse fazendo piada.
- Não estou nem ligando para o que ele pensa ou deixa de pensar, não posso mais dormir no ponto! Temos uma guerra para ser vencida! – dizendo isso me retirei do escritório de meu pai.
Com dificuldade, caminhei até o refeitório, como o café da manhã havia sido às 5h, não havia mais ninguém lá a não ser os cozinheiros que estavam preparando o almoço. Fui até a cozinha, abri a geladeira e peguei uma jarra de leite, bebi com vontade. Aquele foi meu café da manhã. Feito isso fui até a tenda de treinamentos onde supunha que estaria treinando os soldados. A surpresa estava estampada no rosto dele quando ele me viu entrando, não só no dele como de todos os outros soldados, incluindo .
- Bom dia soldados! – disse com voz autoritária
- Bom dia Tenente! – eles disseram em uníssono e bateram continência
- O que faz aqui? – perguntou indignado.
- Trabalhando não está vendo? – rebati o óbvio.
- Você não pode fazer muito esforço! Ainda está ferida! – Ele disse franzindo o cenho e eu apenas revirei os olhos demonstrando minha impaciência.
- Ok. O treino de hoje será de camuflagem, agilidade e resistência – disse.
- Tenente, sugiro que volte para seus aposentos e descanse – pediu, mas seu tom de voz era de advertência.
- Capitão , poderia mostrar para os soldados como será o treino? – disse mais uma vez ignorando qualquer coisa que ele tinha me falado.
- Você vai mesmo persistir nisso não é? – disse desistindo e eu afirmei com a cabeça – Pois bem, soldados, peguem suas armas e me sigam – dizendo isso ele se direcionou para fora da tenda.
- A senhorita devia obedecer às ordens do Capitão... – uma voz conhecida disse logo atrás de mim
- Ai que susto ! – dei um passo para trás com a perna machucada, me desequilibrei e QUASE cai, senão fosse por me segurando com aqueles braços fortes que eu já estou reparando mais do que devia. Foco Tenente!
- Desculpe-me Tenente! – ele dizia enquanto me ajudava a voltar à posição inicial – não queria te assustar.
- Obrigada – agradeci pela ajuda – Eu estou bem melhor , outra coisa, o senhor não devia estar acompanhando Capitão?
- Sim, claro, eu já estou indo, só queria mesmo perguntar se a senhorita está bem – ele disse ficando corado.
- Estou bem, é melhor que o senhor se dirija lá para fora... – disse meio sem jeito com tanta preocupação do soldado, ele bateu continência, pegou a arma e seguiu os outros.
Segui até onde estava. Ele estava explicando como os soldados deviam se posicionar enquanto estivessem camuflados, a maneira como a arma deveria estar e enquanto explicava ia se posicionando para demonstrar aos rapazes a maneira correta.
Procurei uma cadeira mais próxima para que eu pudesse me sentar. Pela primeira vez eu me senti inválida de ante a um pequeno obstáculo, porém não desanimei. Lembro-me todos os dias do soldado George e sua bravura. Tomei a liberdade de tê-lo como inspiração, ou simplesmente, tê-lo como um motivo para continuar aqui, antes que eu enlouqueça de vez. Fiquei observando .
é uma pessoa gentil por natureza, percebi isso pelo curto tempo de convívio com ele, tem um coração muito grande. Observei também que se empenhava mais que os outros. O que há de errado nele? E pela primeira vez reparei o quanto era lindo de natureza. Seus olhos penetrantes brilhavam com uma intensidade incrível. Como eu não percebi isso antes? Seus cabelos de cor de castanha eram incrivelmente brilhosos. E seu porte físico era incrível. Tudo nele brilhava. Mas, espere um pouco! Por que diabos eu estou reparando nesses detalhes imbecis agora? Estamos em guerra! Não posso ficar reparando em todos os soldados que aparecerem na minha frente. Isso é muita insanidade. Talvez a bala que o soldado Chill alojou em minha perna tinha alguma espécie de droga. Eu precisava me encontrar com um psiquiatra do quartel urgente!
Enquanto os soldados faziam o que o Capitão pedira eu fiquei observando os que não estavam conseguindo fazer corretamente. Apesar de bastante empenhado e de ter uma ótima mira, o soldado estava com certa dificuldade em se rastejar no chão com a arma apontada para o ‘inimigo’. Resolvi ir ajudá-lo. Levantei-me da cadeira e caminhei em direção a .
- Problemas soldado? – perguntei.
- Um pouco de dificuldade em manter a coordenação motora – ele disse ficando de pé.
- Percebi – não consegui disfarçar o sorriso – Desculpe-me – respirei fundo – Deixe-me te ajudar – peguei a arma da mão dele – Vi que o senhor é muito bom na mira, agora tem que conciliar a mira com o fato de que você estará se arrastando no campo de batalha – por um momento eu parei e fiquei olhando para ele apenas pensando que em algumas semanas ele não estaria mais aqui e que talvez eu não o visse nunca mais. Mas o que está dando em mim?
- Está tudo bem Tenente? – ouvi perguntando depois do meu momento de reflexão.
- Sim! – disse voltando a mim – onde eu estava?
- Eu tenho que conciliar a mira com o fato de que estarei me rastejando no chão... – ele ajudou a me localizar.
- Isso! Deite novamente no chão – assim que ele deitou, pude perceber um olhar fixo na minha direção, estava me observando de longe e parecia... Zangado? Não sei se essa seria a melhor definição para a expressão facial dele, devia ser porque eu o desobedeci. – muito bem – disse me agachando com dificuldade ao lado dele – agora posicione a arma assim – mostrei para como posicionar a arma e logo em seguida o entreguei o equipamento para que ele pudesse fazer igual.
- Tenente, a senhorita não devia estar fazendo esforço desse jeito... – disse olhando para minha expressão de dor quando eu me deitei no chão junto com ele.
- Eu estou bem , faça o que eu pedi! – falei e ele posicionou a arma como eu havia demonstrado – muito bem, mire – ele mirou – agora comece a rastejar tentando manter a mira, se você ver que perdeu o foco, pare, abaixe a cabeça para se arrumar sem que o ‘inimigo’ perceba, ajuste a arma e volte a rastejar apontando a arma – ele fez o que eu pedi, e eu o observei ficando sentada no chão.
havia parado várias vezes de início para se arrumar, mas depois pegou o jeito, fiquei observando ele rastejando. Se não estivéssemos em guerra poderia dizer que foi uma cena um tanto engraçada, esse era meu treino favorito, ver os soldados rastejando era divertido e sensual. Espera, o que eu falei? Sensual? Tenho que mandar analisar a bala que Chill acertou em mim, com certeza havia alguma substância nela que me esta me fazendo ter esses pensamentos indecentes no meio de um treino.
Olhei para o lado e vi ainda me encarando. Assim que olhei nos olhos dele ele desviou. O que estava acontecendo com ele afinal? Fiquei olhando para e analisando seu porte físico, e que porte físico. Ok. É definitivo, estou drogada, mas já que esses pensamentos surgiram em minha mente... era uma perfeição se for pensar por esse ângulo, forte, moreno, olhos castanho-mel que me hipnotizavam, sua postura de Capitão também era bem sedutora e chega! Tenente pare de pensar nessas coisas! Pronto agora dei para mandar em mim por pensamento! Por que ainda estou fazendo isso?
- Tenente? – vi uma voz me chamar e voltei à realidade.
- O que? – perguntei seca me virando para o lado e vendo com um certo ‘medo’ de mim.
- Eu perguntei se havia feito o exercício corretamente, mas a senhorita não me respondeu... – ele disse tentando achar as palavras certas.
- Ah sim, claro, me perdoe, eu estava... Distraída. Sim você fez o exercício corretamente – disse.
- distraída? Posso perguntar o motivo da distração? – havia surgido do nada!
- Não disse que estava distraída.
- Disse sim! – ele sorriu e estendeu a mão para me ajudar a levantar.
- Você está enganado Capitão! – levantei com dificuldade – deve ter escutado errado!
- Agora eu sou surdo? Confirme para mim , ela falou ou não que estava distraída? – perguntava para que não sabia o que responder.
- É... – ele olhava de mim para – Sim, a senhorita disse que estava distraída – ele disse por fim, deixando com um sorriso vitorioso no rosto.
- E qual é o problema de eu estar distraída? – falei seca e encarei .
- Problema nenhum Tenente! – ele disse em tom sereno – mas isso é novidade para mim – ele sorria enquanto falava, por que ele sorria? Por que aquele sorriso era tão lindo? Por que meus pensamentos insanos estavam voltando?
- Ótimo! – disse afastando os pensamentos de minha cabeça – volte ao treino, estou avaliando todos os soldados!
- Sim Senhora! – bateu continência e voltou a instruir os soldados.
- ! – chamei o soldado que se virou para mim – quero que faça o exercício mais uma vez e depois corra dez quilômetros!
- Sim senhora! – ele fez o que eu pedi.
Pedi isso para mais cinco soldados que estava avaliando. não parava de me olhar. Assim que todos os solados haviam terminado os exercícios que eu e pedimos, eles retornaram e se posicionaram em filas. Enquanto falava eu apenas me dirigi até um caminhão que estava estacionado perto do local em que estávamos e peguei uma granada falsa. Disfarçadamente eu voltei para perto dos soldados, tirei a granada do bolso, o que deixou todos surpresos, menos , que já sabia o que eu iria fazer, arranquei o pino e joguei na direção deles. O desespero dos soldados era divertido de se ver. Eles correram desesperados para longe da granada e eu tive que conter o riso. Assim que perceberam que a granada era falsa eles voltaram para a formação da fila.
- Você está louca? – um soldado perguntou.
- No campo de batalha, você não será avisado se o inimigo atirar uma granada real em você, isso foi apenas um treino – eu disse – muito bem soldados, dispensados por enquanto, quero que voltem aqui depois do almoço – disse e os soldados se retiraram do local.
- Quer ajuda para ir até o refeitório? – perguntou.
- Olha para mim , você acha que eu preciso de ajuda? – perguntei e ele me olhou dos pés à cabeça.
- Sim! – ele disse sorrindo e mais uma vez eu revirei os olhos – Por que você está tão teimosa hein?
- Não entendi a pergunta.
- Custa ficar na cama repousando até que sua perna fique boa? Não né? Tem que me desobedecer! – ele perguntava e respondias as próprias perguntas.
- ...
- Poxa eu me preocupo com você... – ele abaixou a cabeça, mas eu percebi que ele estava corando – Sei que você não gosta de receber ordens, mas eu sei o que é bom para sua saúde. Quando peço para você ficar repousando na cama, não estou falando isso porque quero que você fique entediada, falo isso porque é o certo a fazer.
- ... Entendo sua preocupação comigo, mas eu já estou melhor, estamos no meio de uma guerra, não posso me dar ao luxo de ficar deitada o dia todo quando eu poderia estar treinando os soldados – eu disse olhando no olhos dele.
- Eu posso fazer isso por você Tenente – disse.
- Sei que pode, mas eu gosto de acompanhar os treinos, como hoje! – disse e por um breve momento travou o maxilar – algum problema?
- Não. É só que... Você não devia ter se agachado àquela hora.
- Eu estava ajudando o soldado com o exercício!
- Ajudasse sentada na cadeira! – ele disse e seu tom de voz era grosso com um pouco de... Raiva?
- Na cadeira eu não iria conseguir mostrar a maneira correta de fazer o exercício ! – falei um pouco mais alto com ele.
- Mas isso pode piorar a situação da sua perna! E eu não admito que isso aconteça! – ele ‘gritava’ comigo.
- O que está acontecendo com você? – perguntei – Você está estranho e não é de hoje!
- Nada! – ele disse desviando o olhar do meu. Por um momento só se escutavam nossas respirações pesadas depois do nosso distúrbio de ‘gritos’ – já que não quer minha ajuda, eu vou sozinho para o refeitório! – ele se virou e me deixou plantada ali observando ele caminhar para longe de mim.
O que estava acontecendo com ? Por que ele estava agindo daquele jeito? Fiquei ali parada pensando. Resolvi ir até o refeitório, peguei meu prato e sentei em uma mesa afastada de todos.
- Posso lhe fazer companhia? – perguntou.
- Claro , sente-se – fiz sinal para que ele sentasse.
- Se me permite perguntar, está tudo bem com a senhorita?
- Sim, por que não estaria? – rebati com outra pergunta.
- Não sei, a Tenente parece um pouco... Chateada... – ele disse olhando nos meus olhos.
- Não... É impressão sua. – disse desviando o meu olhar do dele. Ficamos em silêncio.
- Com licença Tenente – havia aparecido – podemos conversar?
- Claro. – disse seca olhando para ele.
- A sós? – vi que olhava para .
- , se não se importa – pedi para que o soldado se retirasse e ele se levantou. Era impressão minha ou lançou um olhar intimidador para ele? – diga Capitão , o que o senhor gostaria de falar comigo.
- Capitão ? – ele franziu a testa.
- Ué, não é seu ‘título’? – disse impaciente.
- Você só me chama assim quando está brava com alguma coisa que eu fiz... – ele respirou fundo – e tem razão, me desculpa , por eu ter te deixado lá sozinha é que...
- Eu te desculpo – ele ficou mais calmo quando o chamei pelo nome novamente – Só queria saber por que você está agindo assim?
- É que... São tantas coisas, eu ando um pouco estressado também, me desculpa – ele me olhava nos olhos enquanto falava e sabia que estava sendo verdadeiro.
- Tudo bem ... – ficamos em silêncio novamente.
- Ah, antes que eu me esqueça, o Coronel pediu para eu te avisar que ele quer que você compareça no escritório dele.
- Obrigada por avisar! – levantei da mesa – me acompanha? – me virei para ele e ele assentiu com a cabeça.
Fomos até o escritório de meu pai. Chegando lá vi que tinha um indivíduo desconhecido na sala.
- Mandou me chamar, Coronel? – perguntei e o indivíduo se virou.
Alta, bonita, olhos claros, cabelos loiros, sua farda ficava bem colada no corpo, mostrando suas ‘curvas’.
- Tenente , gostaria que conhecesse a Tenente Belle Antoniett, ela é a primeira Tenente mulher que está representando a França na guerra. – meu pai disse. Involuntariamente meu rosto corou numa mistura de raiva e ciúmes.




Capítulo 9 - Brigas, reconciliação e desabafos


Fiquei parada naquela sala encarando aquela... Aquela... Pessoa na minha frente. parecia fazer o mesmo, mas ele não a encarava da mesma maneira que eu. Como assim havia outra mulher militar nessa guerra? E por que ela tinha que ser francesa?
- Tenente? – me vi perguntando depois de longos segundos de silêncio.
- Sim! Tenente Belle Antoniett – ela estendeu a mão para que eu apertasse – é uma honra conhecê-la Tenente – fiquei olhando para a mão dela ainda suspensa no ar – Ora, ignore minha nacionalidade, temos um inimigo em comum agora.
- Pois bem – apertei a mão dela – se sente honrada por me conhecer?
- Sim, você é a primeira mulher com um cargo no exército! Inspirou muitas outras mulheres! – ela dizia sorrindo, aquele sorriso estava me dando náuseas – Acredito que já ouviu falar de mim!
- Não. – disse seca e respirando fundo, pois já estava ficando sem paciência.
- Sou conhecida como a Joanna D’Arc moderna – ela falou com aquele sotaque que me fazia quere vomitar todo o meu almoço. Era só o que me faltava. O que mais ela queria? Só faltava ela falar que foi o pai dela que montou a Torre Eiffel! Ou que a mãe dela criou o museu do Louvre! – interessante – eu disse por fim.
- O senhor deve ser o Capitão , ao qual o Coronel mencionou! – vi ela se aproximando de e apertando a mãe dele também, juro que se ela se aproximasse mais dele eu a mataria! parecia hipnotizado por Antoniett – é um imenso prazer conhecê-lo – preciso falar que quase voei nela quando ela intensificou a palavra ‘imenso’?
- O prazer é meu, senhorita! – pegou a mão dela e beijou num gesto de cavalheirismo que me fez ficar vermelha de ciúmes... Raiva! Vermelha de raiva! Eu não tinha ciúmes de !
- O que faz aqui? – perguntei seca antes que ela pudesse agarrar ali em minha frente.
- Bom, vejo que a senhorita ainda não ficou sabendo das novidades – ela disse dando uma risadinha irritante.
- Que novidades? – estava ficando impaciente.
- Tenente a Tenente Antoniett irá te ajudar a instruir os novos soldados – meu pai disse.
- O que?! – falei um pouco mais alto do que devia. Ok, eu gritei – eu não preciso de ajuda!
- Ao meu ver, precisa sim, você está ferida e Belle Antoniett tem os mesmo requisitos que você tem, quando o assunto é instruir os Praças – Coronel falava.
- pode me ajudar, não precisamos de sua ajuda Belle – pronunciei Belhe sem querer.
- Belle. – ela me corrigiu.
- O que disse? – pergunte.i
- Belle. Meu nome é Belle e não Belhe – ela só podia estar testando minha paciência – precisa fazer biquinho para que a pronúncia saia corretamente – ela só podia estar brincando comigo! parecia se divertir com minha atual situação.
- Que seja! Tenente Antoniett, sua ajuda não será necessária! Obrigada! – eu disse.
- Infelizmente, quem decide aqui não é você ! – meu pai falou – Belle ficará conosco e te ajudará com os soldados, e antes que eu me esqueça, arranjei um dormitório apenas para vocês duas, suas coisas e as coisas de Belle já foram transferidas para lá.
- Como é que é?! – eu estava indignada, além de ter que ‘aceitar’ que essa francesinha me ajude nos treinos, terei que aturá-la no mesmo quarto que eu? Prefiro o campo de batalha a dividir um quarto com... Com... Esse ser!
- Estão dispensados! – o Coronel disse por fim e me acompanhou até o meu novo aposento, seguido por Antoniett.
Enquanto caminhávamos pelo corredor cochichei para .
- Você sabia? – ele não me respondeu, aquilo já serviu como resposta para mim. Parei no meio do corredor para ficar encarando ele andar, até ele perceber que eu havia parado. Antoniett continuou caminhando e voltou para onde eu estava – Não acredito que você não me contou!
- ... – ele levava a mão até meu rosto na tentativa de acariciá-lo.
- Não. – afastei a mão dele com um tapa – eu pensei que você fosse meu melhor amigo Capitão! – eu olhava para ele com raiva e indignação.
- Pequena... – seu olhar era de culpa e arrependimento.
- Chega. Chega de apelidos, carinhos, piadas íntimas. Chega. Para você eu sou a Tenente , assim como você é o Capitão para mim! Nada mais que isso! – falando isso o deixei parado no corredor e me apressei até alcançar Antoniett.
Entramos no quarto.
- Não é espaçoso, mas acredito que vamos ficar bem aqui – ela dizia com aquele sotaque que eu não suportava.
- Só tenho uma regra Antoniett: não ouse tocar nas minhas coisas que eu não toco nas suas! Estamos combinadas? – intimei.
- Sim Tenente! Fique tranquila, não vou mexer em nada que não é meu... Mas vem cá, por que tanto ódio de mim? – ela perguntou e eu não respondi – Ok... Não quer falar não vou insistir... Mais uma coisinha, o Capitão tem namorada? – ela estava pedindo para morrer!
- Por que não pergunta para ele?! – respondi seca e sai do local.
Ainda no corredor avistei se aproximando. Andei o mais depressa possível para que ele não me alcançasse, mas minha perna doía.
- ! Espera! Vamos conversar! – ele gritava e eu só queria que ele sumisse, ou melhor, só queria que Antoniett sumisse, melhor ainda, EU poderia sumir! – ! – continuei ignorando e andando pelo corredor para bem longe daquele indivíduo que havia me traído.
Não sabia para onde estava indo, só queria ir para longe de . Como ele tinha a audácia de esconder de mim um acontecimento como aquele? Por que ele fizera isso? Custava me contar? E eu achando que podia confiar nele. Estamos em plena guerra , não devemos confiar em ninguém! Nem para coisas banais como contar seus segredos para um militar PRINCIPALMENTE isso! Idiota! Sem mais forças para andar eu parei encostando em uma parede e levando a mão até o local do meu ferimento. Percebi que o local estava úmido e foi então que eu percebi que os pontos haviam sido abertos. Droga! Era só isso que me faltava! A dor que antes parecia ser inofensiva aumentara de repente e me vi caindo no chão e me contorcendo de dor. Não conseguia levantar e lágrimas começaram a se formar em meus olhos.
- Tenente ? Você está bem? – Belle Antoniett surgira no corredor em que eu estava.
- Melhor impossível! – eu disse ríspida.
- Você está sangrando! – ela olhava para meu ferimento.
- Todos sangram! – eu continuava grossa.
- Sim! Internamente todos sangram, mas o seu sangue não está dentro de você! – por que ela fingia a preocupação?
- Deixe-me em paz! Eu estou bem!
- Venha, deixe-me te ajudar! – ela me estendeu o braço e eu fiquei encarando – vamos Tenente! Se for para morrer, morra num campo de batalha e não por uma hemorragia banal! – contra minha vontade eu aceitei a ajuda dela. Ela me ajudou a levantar e me levou para a enfermaria – Espere aqui! – ela disse logo depois que me ajudou a sentar na maca e saiu do local.
Momentos depois a porta se abre com certa violência.
- Oh meu Deus! – entrou no local desesperado – O que aconteceu?
Era tudo o que eu precisava, o cara que eu estava tentando evitar aparece no local, agora além de ter que ouvir uns sermões, terei que encará-lo justo quando acabei de brigar com ele!
- Não sei, parece que os pontos abriram... – Antoniett dizia enquanto revirava os armários do local, procurando os materiais para fazer o curativo.
- Eu avisei, eu avisei que você não devia fazer esforço, mas você me escuta? Não! Óbvio que não! – ele parecia bastante preocupado, foi quando escutei novamente a porta se abrindo e vi entrando.
- O que aconteceu? – ele foi desesperado para meu lado na maca e eu só conseguia olhar para ele segurando as lágrimas que estavam sendo causadas pela dor em minha coxa. segurou minha mão.
- O que faz aqui ?! – parecia zangado com a presença dele.
- Escutei no corredor que a Tenente estava novamente na enfermaria e... – ele percebeu a presença de Belle – quem é ela?
- Tenente Belle Antoniett! Prazer! – ela estendeu a mão para que a cumprimentou em seguida – vou ajudar a Tenente a instruir os Praças!
- Você é francesa? – perguntou.
- Sim! – ela dizia com um sorriso no rosto. ficou encarando-a por mais um tempo até que meu grito quebrou o momento.
havia começado a desinfetar o ferimento. Ele havia cortado um pedaço de minha calça sem que eu percebesse e passava gaze com álcool em minha perna. A mão de estava ficando sem circulação novamente. começou a costurar de novo minha coxa e eu gritava de dor. Antoniett estava assustada, mas nem por isso saiu de lá. Mais uma vez a mão de ficou roxa e quase caiu do tanto que eu a apertava. Ele fazia caretas de dor, mas não deixava de sorrir para mim, pena que eu não poderia fazer o mesmo, pois a dor era tanta – por que eu tinha que ser alérgica à morfina? – que as lágrimas caíam aos montes de meus olhos.
- Calma pequena, calma – dizia e eu chorava de raiva, qual a parte do ‘não me chame mais por apelidos’ ele ainda não entendera?
refez os pontos em minha perna e eu me acalmei um pouco. Após mais um momento de tortura a enfermaria ficou em silêncio. Nenhum dos quatro falava nada.
- Precisamos conversar – quebrou o silêncio e se dirigindo para e Belle continuou – podem nos dar licença? – eles assentiram com a cabeça e saíram do local.
- A menos que o senhor queira falar algo sobre os treinos, não temos nada que conversar Capitão – disse de imediato tentando evitar o assunto que ele queria abordar comigo.
- Pequena... – ele disse em tom sereno.
- Tenente ! – o corrigi – Para você eu sou apenas a Tenente !
- Não! Você é minha pequena! Minha – ele falava intensificando a palavra ‘minha’ – Eu sei que devia ter te avisado, eu sei!
- Basta dessa conversa, já esclareci tudo para o senhor no corredor Capitão! Exijo que me chame pelo meu título!
- E eu exijo que você obedeça às minhas ordens como médico! Mas como eu sei que você não vai obedecer, eu também irei fazer o mesmo! – ele me olhava nos olhos – Pequena, me entenda, por favor, eu sei que devia ter te contado, mas não podia, o Coronel foi claro quando disse que ELE iria te dar a notícia.
- Eu iria fazer cara de surpresa, mas pelo menos estaria mais preparada! – eu falava em um tom alto – e não começaria a desconfiar de você! – lágrimas voltaram a se formar em meus olhos, eu não queria chorar, não pelos motivos que estava quase fazendo aquilo.
- aproximou sua mão novamente de meu rosto e mais uma vez eu afastei, porém ele persistiu e eu deixei que algumas lágrimas caíssem – não... Não chore, me perdoa! – eu não consegui falar – eu sei que sua vontade agora é de me mandar para um campo de batalha ou de me entregar para Hitler, mas me perdoa!
- Você é meu melhor amigo... – falava entre soluços – pensei que podia confiar em você para qualquer coisa – intensifiquei as últimas palavras – eu te contei todos os meus segredos, todos os meus medos, me abri com você como jamais me abri para mais ninguém, nem mesmo para meu próprio pai... – eu olhava para aqueles olhos castanho-mel a minha frente que refletiam culpa e arrependimento, começou a enxugar minhas lágrimas e eu segurei sua mão em meu rosto apertando-a contra minha bochecha.
- Me perdoa... – foi a única coisa que ele conseguiu dizer antes de deixar algumas lágrimas caírem de seus olhos. Fechei meus olhos, apertando as pálpebras com força e liberando mais lágrimas – eu não quero que você tenha raiva de mim... Muito menos que me trate como um soldado novo que chega às segundas-feiras para você instruir e depois mandar para o campo de batalha sem se importar se ele voltará vivo ou morto... Pequena... Por favor... Eu nunca mais irei esconder nada de você!
- ... – abri meus olhos para ver a reação dele quando voltei a chamá-lo pelo nome, ele sorria – eu odeio brigar com você... Você sabe muito bem disso...
- Eu também odeio pequena – ele dizia enquanto enxugava mais lágrimas minhas – mas eu prometo... Prometo que nunca mais irei te esconder nada, NUNCA mais! Só peço que...
- Eu te perdôo... – interrompi a fala dele e ele abriu mais ainda seu sorriso – Mas se você não cumprir com sua promessa... Eu juro que te entrego para Hitler! – eu disse rindo o que fez ele rir também.
- Hitler não vai ter a honra de me conhecer pequena! – ele disse enxugando as lágrimas dele e as minhas. Ele ficou me olhando, sorrindo em silêncio, retribui ao olhar e ao sorriso
- Me tira daqui? – perguntei quebrando a quietude entre nós.
- Só se você obedecer às minhas ordens como médico – ele disse – ou seja, repousar, não fazer esforço com a perna, ficar paradinha na cama!
- Não posso nem acompanhar aos treinos? – fiz cara de piedade.
- Pode... Mas a senhorita terá que ficar sentada, me ouviu? Nada de se agachar para ajudar os soldados! É por isso que Antoniett está aqui...
- Para me substituir. – disse tirando o sorriso de meu rosto.
- Não. Para te ajudar – disse – Você é insubstituível! – não evitei que meu sorriso voltasse. Voltamos a ficar em quietos.
- Ta... Chega disso. Me tira daqui logo – disse rindo, mas com tom de impaciência.
- A Tenente está de volta! E sua TPM também! – ele riu e me pegou no colo – vamos para seus aposentos reais Rainha do Drama – dei um soco forte no ombro dele e ele se virou de dor quase me fazendo cair de seu colo, me agarrei no pescoço dele – Estamos quites – ele disse – e não me bata de novo! – ele riu.
me deixou no meu novo quarto e voltou para os treinos seguido de Antoniett e . Não estava a fim de ficar ali deitada o dia todo. pediu para que eu não me agachasse para ajudar os soldados, mas não me proibiu de acompanhar os treinos. Foi o que fiz. Com cuidado levantei da cama e vesti outra calça. Sai do quarto e fui em direção à tenda de treinamentos. Todos os soldados estavam lá e pareciam atentos ao que falava. Resolvi não me aproximar de imediato.
- ... Antoniett – consegui escutar apresentando a nova Tenente – Ela irá nos ajudar nos treinos! Tenente... – fez sinal para que a francesa desse um passo à frente e se apresentasse.
- Boa tarde soldados – ela dizia sorrindo – Como o Capitão disse, sou a nova Tenente e instrutora de vocês!
- Você vai substituir a Tenente ? – um soldado perguntou.
- Pelo menos ela é mais delicada e não desconta a raiva nos outros – consegui ouvir Chill dizendo.
- Se me permite dizer, a senhorita é bem bonita! – outro soldado disse.
- E simpática – mais um soldado se manifestou.
- É, coisa que a Tenente não chega nem perto – Chill mais uma vez disse.
- Basta soldados! – disse.
- Me diz que não concorda Capitão? – Chill perguntou.
Eram tantas comparações nada positivas para com minha pessoa que resolvi voltar para meu quarto e descontar minha frustração em meu travesseiro, mas ao virar para seguir meu caminho, acabei tropeçando em um latão de lixo que havia ali perto da entrada da tenda, causando um barulho muito alto, fazendo com que todos voltassem o olhar para mim.
- Des... Desculpem atrapalhar... – eu disse e logo em seguida me virei para ir embora o mais depressa possível.
Resolvi não correr, mas andava rápido, estava com medo dos pontos se abrirem de novo. No meio do caminho as últimas falas citadas na tenda voltaram para minha mente, as comparações e as críticas negativas a meu respeito. Meus olhos estavam se enchendo de lágrimas. O que estava acontecendo comigo? Não acredito que iria chorar por isso! Desde quando eu me importava com que os outros pensam de mim? Desde que Antoniett chegara. Essa era a resposta. Parei no corredor para respirar e enxugar minhas lágrimas que escaparam. Encostei na parede respirando fundo e com os olhos fechados.
- Tenente?
Abri os olhos lentamente tomando cuidado para não deixar as lágrimas caírem.
- ! – assumi postura rapidamente e evitei contato com aqueles olhos intensos.

Vê-la daquele jeito era de cortar o coração. Com certeza ela escutou tudo que aqueles inúteis disseram momentos atrás na tenda. Nunca pensei que fosse permitir isso, mas foi ele quem me pediu para que eu seguisse a Tenente.
Assim que me aproximei ela assumiu postura de sentido e disfarçadamente enxugava algumas lágrimas. Eu não sabia o que dizer, só não queria vê-la daquele jeito, triste.
- A senhorita... – estava juntando coragem para falar.
- Estou bem . Pode me deixar sozinha um pouco? – ela me pediu, mas eu apenas fiquei a observando desviar o olhar do meu.
- Desculpe-me a intromissão, mas vejo que a senhorita não está bem – recuei como que por instinto com medo que ela arrancasse minha cabeça depois de minha ousadia, mas ela apenas escorregou na parede e sentou-se no chão voltando a chorar. Sentei-me ao lado dela.
- Você... Você acha mesmo que eu sou tudo aquilo que falaram ao meu respeito, ? – ela me perguntou.
- De jeito nenhum! – respondi.
- Está mentindo. – ela disse virando o rosto para mim.
- Não, não estou. – fiquei olhando para aqueles olhos vermelhos e inchados devido às lágrimas que caiam dele.
- Por que se importa tanto comigo, ? Já te fiz essa pergunta uma vez e você ainda não me respondeu. – ela perguntou me deixando sem reação – Além de meu pai e , você é o único que não me trata mal nesse regimento, por quê?
- A senhorita não merece ser tratada mal só porque é melhor que todos os soldados aqui... Isso é machismo, e é algo que eu não sou! Trato a senhorita como merece, com respeito – e amor, omiti essa parte. Ela ficou me encarando, as lágrimas já haviam cessado, mas seus olhos continuavam vermelhos.
- Obrigada, , digo, – ela disse e se levantou em seguida seguindo seu caminho pelo corredor enquanto eu ficava ali no chão, sentado lembrando de poucos segundos atrás quando ela me chamou pelo primeiro nome.




Capítulo 10 - ‘Pede pra sair’


Adentrei em meu quarto enxugando as lágrimas desnecessárias que eu não devia ter derramado por aqueles seres repugnantes que falaram mal de mim. Lavei meu rosto e fiquei me olhando no espelho. Meus olhos estavam inchados por conta das lágrimas.
Chega. Era hora de eu dar um basta nisso tudo! Já agüentei demais as piadinhas de machismo para com minha pessoa, não iria admitir que eles zombassem de mim e tratassem Antoniett como se ela fosse a Rainha. Se eles disseram que eu sou tudo aquilo de ‘ruim’, vou mostrar para eles que posso ser muito pior. Mesmo machucada eu serei o pior pesadelo deles, vou fazer com que eles implorem para que Hitler os capture. Chega de ser durona, a partir de agora serei mais fria do que um iceberg!
Coloquei a mão sobre meu ferimento. Estava apenas com um esparadrapo. Tirei a calça, fui até minha gaveta e peguei uma faixa, comecei a enrolar a mesma em volta do machucado, apertando cada vez mais a cada volta que dava, para que ficasse bem firme. Dei um nó bem forte na faixa para que essa não saísse tão cedo e vesti a calça novamente. Fiz alguns exercícios com a perna para ver se sentia alguma dor mais forte. Nada. Apenas uma pontadinha como se alguém estivesse me espetando com uma agulha. Tirei a parte de cima da farda e peguei uma regata branca em meu armário. Estava frio, mas como eu disse, serei mais fria que o gelo. Amarrei meu cabelo mais alto ainda deixando uns fios para fazer de franja. Respirei fundo e dei uns tapinhas em meu rosto para corar um pouco.
Voltei ao quarto e fiz alguns alongamentos, nada muito pesado. Levantei-me e saí do local decidida a voltar definitivamente aos treinos. Caminhei pelo corredor em direção à tenda de treinamentos. Chegando lá, pude ver o batalhão todo, parando para prestar atenção no meu ‘retorno’ e acho que em minhas curvas também, até porque aquela regata branca era bem rente ao meu corpo. Olhei para cada um deles e não disse uma só palavra. Era hora da minha tortura começar.

Mas o que ela estava pensando que iria fazer? Por que ela estava com regata sendo que fazia uns 10° hoje? Eu pedi para ela repousar, mas obviamente que ela iria me desobedecer. Aproximei-me dela.
- Posso saber o que a Tenente faz aqui? – Perguntei e olhei nos olhos dela que expressavam nada além do vazio e... Raiva?
- Treinando. – ela disse seca.
- Será que eu terei que desenhar para você o significado da minha frase ‘você tem que repousar’? – disse.
- Fique tranquilo Capitão, não irei fazer nenhum esforço, estou aqui apenas para mostrar minhas técnicas à Antoniett, já que ela irá me substituir – ela falou a última palavra como se estivesse com uma faca no estômago – Antoniett! – ela gritou para a Tenente
- Sim Tenente! – Belle bateu continência para .
- Vou instruir você para treinar os soldados corretamente! – disse seca para a francesa – Soldados! – ela gritou e pude ver todos os soldados em posição de sentido, olhei novamente para minha Tenente e pude ver um sorriso nada agradável saindo do canto de seus lábios – Hora de começar os treinos de verdade! – algo me dizia que iria se divertir hoje.
Ela começou a andar em direção ao campo e parou virando-se para todos os soldados esperando que todos chegassem. Belle estava ao seu lado. colocou as mãos na cintura e ficou encarando todo mundo antes de dizer o que iria fazer, resolvi ir para o lado dela.
- Muito bem! – ela disse – Brian Chill! Um passo a frente! – Vi o soldado tenso dando um passo para frente – , um passo a frente! – ok. Agora eu estava começando a gostar da brincadeira, deu um passo à frente, mas estava confuso, assim como todo mundo. – Você! Seu nome soldado! – ela perguntou para outro rapaz, que se não me engano era um dos soldados que havia falado ‘mal’ dela minutos atrás.
- John Castle! – o soldado disse.
- Castle. Um passo à frente! – pediu e o soldado obedeceu. Eu não sabia o que ela tinha em mente, mas estava adorando ver o desespero dos soldados.
- Capitão ! Junte-se aos soldados cujo nome foi chamado! – ok, retiro o que eu disse. Fui para o lado dos soldados e olhei nos olhos da Tenente, tentando entender o que ela pretendia fazer. Belle estava confusa também. – Muito bem! – ela não disfarçava o sorriso maldoso no rosto – Vocês quatro irão formar grupos de até cinco soldados, e então, vamos – ela olhou para Belle – treinar vocês para o “Grande Dia” – ela fez aspas com os dedos e não parava de sorrir maleficamente.
Um por um ela foi pedindo que se juntasse aos ‘líderes ‘ dos grupos, terminado isso ela chamou Belle de lado e falou algo que eu não consegui escutar. Belle apenas assentiu com a cabeça e foi em direção ao meu grupo e ao grupo de .
- Senhores, queiram me acompanhar. – Belle começou a andar e resolvemos segui-la, mas eu não queria seguir, queria ver o que iria aprontar. Por sorte ficamos próximos dos grupos que comandava – Muito bem, é o seguinte a Tenente pediu para que eu instruísse vocês. Quero quinhentas flexões para começar, depois quero que corram cinco quilômetros e quando acabarem voltem aqui. e irão me ajudar na supervisão. Vão! – Belle deu o sinal e os dois grupos foram ao chão e começaram a fazer flexões.
Fiquei ao lado de Belle e de .
- O que ela falou para a senhorita? – perguntei para Belle.
- Pediu que eu pegasse leve com esse grupo, porque com o outro não iria ser o mesmo – Belle disse e arregalou os olhos.
- Ela está diferente. Como pode uma pessoa que eu vi chorar no corredor, voltar assim depois de dez minutos tão... Mudada? – disse olhando para logo a frente.
olhava nos olhos de cada soldado daqueles outros dois grupos enquanto falava. Se eu estivesse no lugar deles também estaria com o ‘medo’ e a tensão que eles estavam. A Tenente era imprevisível como o clima, uma hora ela poderia estar sorridente como se o sol brilhasse e não houvesse guerra, mas de repente ela muda, como se uma nuvem encobrisse os raios solares e uma tempestade começasse a se formar em sua cabeça.
- Brian Chill e John Castle! Mil flexões, para começar – ela disse intensificando o ‘para começar’ – o restante, trezentas flexões e quero que corram dois quilômetros. AGORA! – os soldados começaram a fazer o que ela estava pedindo, não pude deixar de notar a cara de desgosto nos soldados que foram separados do grupo, mas mesmo assim, eles fizeram os exercícios.
Ela ficou ali ao lado de Chill e Castle apenas observando os dois. Quando os outros soldados começaram a corrida ela ergueu um pouco a cabeça para observá-los, mas voltou a concentração para os soldados no chão. Meu grupo e de também já estavam na corrida, Belle pediu para que os acompanhassem, foi o que fizemos.
- O que ela falou para você no corredor ? – perguntei para o soldado enquanto corríamos.
- Ela chorou, e logo depois me perguntou se eu realmente achava que ela era daquele jeito que Chill, Castle e aquele outro soldado falaram dela – ele me respondeu.
- E o que você respondeu?
- A verdade Capitão, que ela não era nada daquilo! – continuávamos correndo.
- Mais alguma coisa? – perguntei.
- Não senhor! Ela se levantou e foi para o quarto dela – ele disse.
Acho que estava entendendo o motivo daquela mudança de comportamento dela. A Tenente poderia ser durona, mas eu sabia reconhecer quando ela não estava bem. Desde que Antoniett chegara, ela estava diferente, acredito que ela esteja com ciúmes, mas vou mostrar para ela que ela é única e insubstituível. Antes, vou ver o que ela pretendia fazer com os grupos que ela estava instruindo.
Voltamos até onde Belle estava nos juntando aos outros soldados.
- Peguem suas armas soldados e vamos para o Circuito! – Belle pediu e obedecemos
O Circuito era o lugar onde treinávamos como se estivéssemos no campo de batalha, havia arames farpados, lama, muitos obstáculos, para tentar imitar o as trincheiras e a ‘terra de ninguém’. Fomos para lá e nos afastamos de , eu não consegui mais ouvir o que ela falava para os outros soldados.

Aqueles dois iriam engolir tudo o que disseram sobre mim. Castle e Chill iriam se arrepender de terem me provocado. Para começar, resolvi ‘pegar leve’. Mil flexões, enquanto os outros faziam trezentas e corriam dois quilômetros. Era o tempo suficiente de eles fazerem tudo isso enquanto Chill e Castle continuavam com o exercício deles.
Pude ver e olhando confusos para mim. Pedi que Belle pegasse leve com eles, afinal, eles não mereciam enfrentar minha fúria, não hoje pelo menos. Tempo depois avistei os soldados da francesa seguirem para o Circuito. Rapidamente gritei para que meus soldados fizessem o mesmo, exceto Chill e Castle. O circuito deles iria ser diferente. Pedi para que eles me acompanhassem até o Circuito para observar os outros soldados.
O tempo começou a fechar indicando que iria chover em breve, não pude deixar de sorrir. Era o que faltava para que meu treino fosse perfeito. Posicionei meus soldados no início do Circuito e pedi para que eles esperassem até eu dar o sinal, chamei Belle de canto.
- Você fez o que eu pedi? – perguntei.
- já posicionou a ‘bandeira’ no lugar que a Tenente pediu – ela falou com aquele sotaque que me dava raiva, mas ignorei esse fato, ela estava sendo bem útil.
- Ótimo! – eu disse e olhei para o céu, precisava esperar mais alguns momentos. E finalmente a primeira gota de chuva caiu, trazendo consigo mais gotas até que a chuva começou a apertar – Muito bem soldados – disse olhando para meus grupos – no meio do Circuito tem uma bandeira da nossa Nação, ela está escondida entre os obstáculos ou pode estar enterrada na lama, vocês deverão achá-la e trazer para mim, mas não se esqueçam: o ‘inimigo’ não irá facilitar para vocês, agora, VÃO! – assim que terminei eles saíram correndo com as armas (descarregadas obviamente) se rastejando no chão e procurando a bandeira.
O Grupo de Belle também estava no circuito, mas a intenção deles era apenas completar o trajeto, o ‘caça bandeira’ era o exercício do meu grupo. Avistei meus alvos e caminhei até perto deles. A chuva estava ficando cada vez mais forte, mas eu não estava nem aí. Avancei para o obstáculo que em breve Chill e Castle iriam passar e o modifiquei sem que eles percebessem, era uma cerca de arame farpado e eu a posicionei de uma maneira que eles iriam ‘tropeçar’ nela. Dito e feito. Os dois caíram e se enrolaram na cerca, eles gritaram de dor e eu só fiquei observando. Nada disse. Até que dois soldados de meu grupo foram ajudá-los. Mas eu não havia acabado, peguei uma granada falsa.
- Simulação de bomba! Cuidado com a granada! – e joguei para o alto, a granada caiu no meio do circuito e vi os soldados se afastando e se abaixando esperando o ‘falso efeito de bomba’ passar, logo depois ele voltaram a ajudar Chill e Castle.
Aproveitei essa deixa e modifiquei outro obstáculo, para pegar mais soldados, coloquei alguns sacos de areia no meio do caminho para imitar corpos caídos ao chão e fiquei observando mais uma vez. Os soldados conseguiram ajudar Castle e Chill e eles seguiram para outro local, enquanto alguns soldados do grupo de Belle desviavam da minha nova armadilha, pude ver tropeçando em um dos sacos de areia e caindo ao chão espalhando lama para todos os lados e revelando que a bandeira estava enterrada ali. Ele olhou para mim de imediato, eu apenas pedi para que ele prosseguisse. Chill avistou a bandeira e saiu correndo em direção ao local. Porém, eu não iria facilitar as coisas para ele. Caminhei até um lugar onde havia uma corda enterrada no chão devido à correria e a lama, esperei até que Chill chegasse mais perto, me agachei para pegar a corda e quando ele se aproximou eu a puxei levantando, Chill foi pego de surpresa, mas ainda assim conseguiu pular evitando que caísse, ele se jogou no chão e conseguiu resgatar a bandeira. Ele a levantou e olhou para mim, seu olhar expressava raiva e ao mesmo tempo satisfação.
- Ok! – gritei olhando para Chill – A bandeira foi resgatada! Saiam do Circuito! – gritei e todos os soldados inclusive os de Antoniett saíram, nos reunimos no campo novamente, a chuva não havia cessado, estavam todos encharcados e enlamaçados.
Chill começou a caminhar pesadamente em minha direção e jogou a bandeira no chão quando estava a quatro passos de mim.
- Ta aqui sua bandeira Tenente! – ele dizia com raiva, apenas o encarei nos olhos.
- Pegue-a e entregue em minhas mãos! – falei seca, mas com autoridade.
- Pegue você mesma! – ele disse.
- O que disse? – perguntei para me certificar de que ele havia realmente falado aquilo.
- Eu disse: Pegue. Você. Mesma! – ele repetiu pausadamente enquanto todos os outros apenas observavam, pude ver e se preparando para partir para cima dele caso ele fizesse alguma coisa comigo.
- Sinto muito te dizer isso querido, mas sou sua superiora e exijo que você me obedeça!
- Você trapaceou! – ele continuava me encarando.
- E você achou o que? Que no campo de batalha tudo iria ser fácil?! Que o ‘inimigo’ iria deixar você alcançar seus objetivos sem interferir em nada? – eu gritava com ele e ele ficou quieto, sem resposta para minhas perguntas – Só te digo uma coisa Chill: no campo de batalha tudo isso será muito pior! Você pode confirmar para mim SE voltar vivo de lá! – ele ainda não falava nada – Se não está agüentando, PEDE PRA SAIR! Porque não estamos aqui para tratá-los com mordomias! Estamos aqui para treiná-los para uma GUERRA! – ele se virou e ia voltando para o lado dos outros soldados – Chill! – ele se virou novamente – pegue a bandeira! – ele se aproximou ainda mais de mim, estávamos a centímetros de distância.
- Não. – ele disse por fim.
Ah mas aquele ser não iria fazer aquilo, não mesmo! Acho que ele não entendeu no primeiro dia quando eu pedi respeito da parte dele, de todo jeito, teria que ensiná-lo a me respeitar, mais uma vez. Peguei o braço dele e o virei prendendo em suas costas, ele gemeu de dor.
- A menos que você queira ficar sem um braço, eu sugiro que pegue a bandeira do chão. – falei em seu ouvido e forcei seu corpo para frente, sua respiração era pesada, mostrando que ele estava com muito ódio de mim, mas mesmo assim ele abaixou e pegou a bandeira. Soltei o braço dele e ele se virou de frente para mim, estendi minha mão e ele me deu a bandeira – você poderia ter evitado toda essa humilhação se não tivesse me desafiado. – disse por fim – Soldados! – eles ficaram em posição de sentido – Dispensados! – dizendo isso, todos eles se dirigiram até os vestiários da base.




Capítulo 11 - O espião


Fui para meu quarto com a intenção de entrar logo embaixo do chuveiro quente e tomar um banho antes que eu pegasse alguma pneumonia. Mas o banheiro estava ocupado. Arranquei minhas roupas molhadas ficando apenas com as peças íntimas e sentei na cama esperando que Antoniett saísse do banheiro. E esperei. Pensei que franceses não gostassem de tomar banho! Poxa desde que entrei no quarto ela não desligara aquele chuveiro! Estava quase levantando para bater à porta quando a mesma se abre.
- Oh, Tenente! – Antoniett estava com a toalha enrolada no corpo e se espantou ao me ver apenas de roupas íntimas.
- O que foi? – perguntei seca e olhei para meu corpo – desculpa se não tenho o seu corpinho perfeito! – ela ia se manifestar, mas eu entrei no banheiro e tranquei a porta.
Liguei o chuveiro e deixei que o vapor tomasse conta daquele banheiro. Tirei meu sutiã e minha calcinha e entrei em baixo daquela água quente. Cada gota que caía sobre meu corpo era como uma massagem. Estava tão relaxada que acho que fiquei mais de dez minutos apenas pensando na vida. Resolvi tomar o banho realmente, e isso levou mais quinze minutos. Finalmente resolvi sair do chuveiro, peguei minha toalha e comecei a me enxugar. Enrolei-a em meu corpo e sai do banheiro. O quarto estava vazio, Antoniett não estava lá.
Refiz o curativo em minha perna, enrolei a faixa mais uma vez e vesti minha farda, pois ainda iria ter que sair para o jantar, por mais que tivesse falado que levaria minha comida até o quarto, eu achei melhor eu ir até o refeitório. Penteei meu cabelo e sai do quarto.
Passei por vários corredores até chegar ao lugar desejado, havia alguns soldados conversando no campo, outros apenas observando a paisagem enquanto fumavam e olhavam para o nada, alguns deles voltaram os olhares para mim e bateram continência, eu apenas assenti com a cabeça e continuei meu caminho que ficara mais longe por conta do lugar que meu pai arranjara para que eu e a francesa ficássemos juntas.
Cheguei ao refeitório. Tinha ainda muitos soldados lá, poucos me notaram e eu apenas ignorei todo mundo. Peguei minha comida e me sentei a minha mesa de costume, no canto do lugar e que sempre ficava vazia. Olhei para todos naquele lugar, havia uma mesa que tinha mais pessoas, essas formavam uma rodinha, eu estava curiosa para saber o que estava acontecendo lá, mas minha preguiça falou mais alto. Fiquei apenas observando. De repente alguns soldados se afastaram da mesa e pude ver Antoniett, e rindo e conversando como se fossem grandes amigos, alguns soldados entraram na conversa e riam junto com o trio. A fome que eu estava sentindo se fora na mesma hora. Voltei meu olhar para minha comida, tentando ignorar o fato que acabara de ver meu melhor amigo RINDO com a francesa e fingindo que eu não existia. Ok, ele estava de costas para mim, mas custa virar? Não eu não estou com ciúmes! Pronto, voltei a discutir com minha consciência!
Tentei comer um pouco, mas não conseguia, simplesmente havia perdido a fome. Empurrei o prato para longe de mim e me levantei para voltar ao meu quarto. Resolvi passar longe da mesa dos ‘populares’. Se eles não haviam notado minha presença, melhor que continuassem assim. Segui meu caminho para o corredor que daria até o meu quarto.

Antoniett sabia divertir qualquer um. Ela realmente era muito divertida. Começamos a conversa apenas entre eu e ela, mas logo se juntou a nós, o que eu achei estranho, mas acho que era porque ele não queria jantar sozinho. Nossa conversa estava tão divertida que outros soldados se aproximaram de nossa mesa e quando percebi estávamos cercados de pessoas rindo junto com a gente. Belle contava suas histórias engraçadas da França e lendas urbanas.
Houve uma hora em que um grupo de soldados se afastou e pude ver sentada sozinha em sua mesa de costume. Ela olhava para a comida com nojo. Voltei minha atenção à conversa por um segundo e no segundo seguinte quando voltei a olhar para a mesa de , ela não estava mais lá. Havia se levantado e estava caminhando em direção ao corredor com a cabeça baixa. Olhei para o prato que estava na mesa dela e vi que ela nem tocara na comida. Resolvi segui-la. Cogitei a ideia de chamar para vir comigo, mas decidi que iria falar com ela sozinho. Se eu tinha a intenção de conquistá-la, não poderia atrapalhar.
Pedi licença da mesa e fiz o mesmo caminho que a Tenente. Ela andava devagar por conta do machucado na perna, por isso consegui alcançá-la rapidamente.
- Tenente! – chamei sua atenção, ela se virou para mim.
- . – sua expressão era de cansada.
- Vi que a senhorita saiu do refeitório... – comecei dizendo, escolhendo com cuidado as palavras certas para se falar para a Tenente.
- É eu só dei uma passada lá, pra caminhar um pouco... – ela não sabia esconder a tristeza de seus olhos e nem de sua maneira ao falar.
- Com todo respeito Tenente, mas eu vi que a senhorita não chegou a comer nada do que estava em seu prato... E se levantou da mesa assim que... – como eu poderia falar que ela saiu da mesa porque viu Belle e numa conversa divertida sem magoá-la?
- Assim que percebi que perdi a fome. – ela completou minha frase, eu percebi que ela não queria tocar nesse assunto, mas evitá-lo não irá fazer bem para ela, cedo ou tarde ela teria que enfrentar a situação.
- Tenente... Posso parecer bobo, mas não sou eu sei por que a senhorita saiu da mesa... – ela olhava para a paisagem do campo e da floresta atrás de mim.
- Shh! – ela colocou a mão em minha boca impedindo que eu continuasse. Ela colocou a mão em minha boca!
- Sei que está tentando evitar esse assunto, mas... – tentei falar com a mão dela ainda em minha boca.
- Shh! – ela pediu silêncio mais uma vez. Agora ela já estava sendo infantil! Eu amo essa garota, mas fazer isso só para evitar um assunto é infantilidade!
- Tenente... – tentei falar.
- Fica quieto! – ela sussurrou e continuava olhando para a floresta atrás de mim. Resolvi virar minha cabeça para olhar para onde ela estava olhando, mas ela não deixou – Não olha agora! – ela continuava sussurrando – continue falando comigo e vamos caminhando até a tenda de treinos normalmente. – o que será que estava acontecendo? Fiz o que ela pediu e voltei a falar do assunto do refeitório.
- Tudo bem... Olha, eu sei que a senhorita saiu do refeitório porque viu e Antoniett e muitos outros soldados rindo e conversando... – Ela continuava olhando para a floresta, mas assentia com a cabeça, algo me dizia que ela não estava prestando atenção no que eu estava falando.
Chegamos até a tenda que estava iluminada apenas com o brilho da lua. Entramos no local. foi até um grande armário que havia no final da tenda, ela retirou uma chave do bolso da farda dela e abriu o armário. Nele havia muitas armas para o treino. A Tenente pegou uma faca e colocou na bota dela e logo depois me deu uma, eu peguei mas olhava confuso para ela. Será que ela queria treinar aquela? Ela pegou uma pistola 38 e colocou na parte de trás de sua calça, também pegou uma lanterna. Resolvi pegar uma arma também, e coloquei na parte de trás de minha calça.
- O que está acontecendo Tenente? – perguntei sussurrando.
- Apenas me siga , tente não fazer barulho e esteja preparado para qualquer ataque – eu não estava entendendo nada, mas resolvi segui-la.
Ela foi caminhando até uma cerca que separava a floresta da base militar, com cuidado para não fazer barulho ela levantou uma parte da cerca que já estava danificada, ela parecia saber desse dano há algum tempo, pois ela foi certeira naquele lugar. Assim que ela levantou a cerca ela se virou para mim. E colocou os dedos sobre a boca indicando que era para eu ser silencioso. Assenti com a cabeça e a segui passando pela cerca logo atrás dela.
começou a caminhar floresta adentro, tentando ser o mais silenciosa possível. Eu ainda não sabia o que ela pretendia fazer, mas continuava seguindo os passos dela. Caminhamos mais um pouco e de repente ela parou e encostou em uma árvore e indicou outra árvore para que eu fizesse o mesmo que ela. Dirigi-me até o local que ela se referiu. Cautelosamente ela moveu sua cabeça para olhar através do tronco da árvore. Fiz o mesmo e voltei meu olhar para a Tenente. Ela me chamou para que eu fosse até onde ela estava. Cuidadosamente fui até ela.
- ... – ela me colocou contra o tronco, de uma maneira que ela apoiou os braços em meu peitoral e sussurrava em meu ouvido – só saia daqui caso você me escutar gritando ok? – ela olhou em meus olhos.
- O que está acontecendo? – sussurrei.
- Apenas me obedeça! – ela falou baixo e eu assenti com a cabeça.
Vi a Tenente se afastando de mim e tirando a arma da calça dela e com cuidado ela andava para trás da árvore em que eu estava, até que a perdi do campo de visão. Esperei. Esperei e esperei. Nenhum grito, nada. Até que de repente escutei um barulho alto como se algum corpo estivesse caído ao chão, pude ouvir algumas respirações pesadas e finalmente o grito da Tenente.
- Ah! – ela gritou de dor, e resolvi sair da árvore onde eu estava já pegando a arma que estava em minha calça.
A cena que vi me fez entender o porquê de ela ter pedido para que eu ficasse quieto àquela hora, o porquê eu devia estar preparado. estava sentada em cima de um homem qualquer que se debatia enquanto a Tenente tentava imobilizá-lo. Aproximei-me o mais depressa possível dela e pude vê-la batendo com a arma na cabeça do indivíduo que desmaiou na hora.
- Mas o que... – comecei a perguntar.
- Fique quieto! Pode haver outros! – ela olhava para todos os lados – Venha aqui – fui e me agachei ao lado dela – imobilize-o antes que ele acorde, eu vou verificar se tem mais deles por aqui. – ela se levantou.
- ! Melhor eu ir! – notei que foi a primeira vez que a chamei pelo primeiro nome sem ser em meus pensamentos, ela também notou, mas ignorou o fato.
- Faça o que eu pedi! – ela advertiu e começou a vasculhar o lugar.
Arranquei um pedaço de minha camiseta com a faca, de forma que ficou uma tira de tecido e amarrei os pulsos do ser a minha frente, fiz a mesma coisa com os pés. Revistei-o à procura de alguma arma, achei uma pistola e uma faca, imediatamente peguei e coloquei em meus bolsos. já estava voltando.
- Parece que ele está sozinho. Vamos voltar para a base imediatamente! – ela disse e eu peguei o soldado desacordado e refiz o caminho junto com até a base.
Chegando lá, nos avistou e foi ao nosso encontro no campo.
- Onde você estava... – ele começou a pergunta direcionada à , mas logo que me viu mudou – o que é isso?
- Chame o Coronel, agora! – disse e saiu correndo em busca do Coronel – venha comigo ! – ela pediu e mais uma vez eu a segui. Fomos até um lugar no quartel general. – largue-o nessa cadeira amarrado! – ela pediu e eu coloquei o soldado desacordado na tal cadeira e sai do local.
Minutos depois apareceu com o Coronel ao seu lado.
- Que história é essa de ‘espião’? – O Coronel parecia indignado, bom, todos estavam.
- Avistei algo na floresta enquanto conversa com fora do refeitório, achei que era um bicho, mas ai eu vi a cabeça de uma pessoa, pedi para que fosse comigo até o armário de armas e entramos na floresta em silêncio para capturá-lo. – dizia na maior calma do mundo, como se aquilo fosse da rotina dela.
- Havia mais? – perguntou.
- Não. Bom, pelo menos eu não achei. De todo jeito, precisamos tomar providencias e começaremos com o interrogatório! – disse a última palavra como se aquilo não fosse ser bom para o espião.
- Você ou eu? – perguntava para a Tenente.
- Você vai primeiro, se não der certo, eu vou! – ela disse com firmeza e eu senti um pouco de pena do soldado que estava dentro daquela sala desacordado, algo me dizia que era melhor ele colaborar com .
- Ok. – disse e entrou na sala.
Eu ia me dirigindo para a saída do local, quando senti alguém puxando meu braço.
- Fique ! – pediu para que eu ficasse, mas não era isso que me deixava surpreso, o que me deixava surpreso era que ela me chamou pelo meu primeiro nome!
- Tudo bem! – respondi com um sorriso no rosto.




Capítulo 12 - Interrogatório


Fiquei ao lado de fora da sala de interrogatório junto com e meu pai. era tão passivo para interrogar uma pessoa que quase não se escutava a voz dele atrás da porta. Comigo já era diferente.
- Filha – meu pai começou a dizer - Digo, Tenente – ele se corrigiu quando viu que estava olhando – Tenho que avisar as outras bases...
- Tudo bem Coronel! – eu respondi.
- Você vai ficar bem? – ele me perguntou e olhei para .
- Sim Coronel! A pior parte já passou que foi capturá-lo, pode deixar que do resto eu cuido!
- Ok. – ele respondeu e se retirou do lugar.
Fiquei encostada na parede olhando para que olhava para o chão. Sua farda estava aberta e pude ver sua camiseta rasgada até a altura do umbigo, quem visse de longe acharia que ele havia acabado de retornar do campo de batalha. Não consegui abafar a risada e percebeu. Ele voltou seu olhar para mim.
- Algo errado Tenente? – ele me olhava nos olhos.
- Não... – devolvi o olhar – Obrigada por me ajudar .
- Disponha – ele respondeu com um pequeno, porém simbólico sorriso no rosto – Se me permite perguntar...
saiu da sala impedindo que terminasse a frase.
- Não funcionou né? – perguntei para o Capitão e ele balançou a cabeça negativamente – Quantas vezes eu tenho que dizer para você que você tem que ameaçá-lo? Ou aquele primeiro treino da semana não serviu de nada ?
- Você sabe que eu não consigo! – ele respondeu emburrado.
- Venha comigo, e assista como é um interrogatório de verdade! – disse – ! – o soldado olhou para mim e me encarou como se eu tivesse acabado de pronunciar o nome de Hitler. – fiquei aqui fora caso meu pai volte! – ele assentiu com a cabeça e eu entrei na sala com .
Loiro, dos olhos azuis. O típico alemão. Entrei na sala e fechou a porta e ficou encostado na parede logo atrás de mim. Comecei a andar ao redor da cadeira que aquele nazista estava sentado e ele acompanhava meu andar com os olhos.
- Sei o que está passando pela sua cabeça. – comecei a falar e pude ver ele me olhando nos olhos – “Uma mulher?” é essa pergunta que você está pensando não é mesmo? – ele não respondeu e eu fui para frente do soldado – acredite soldado, teria sido bem melhor se você tivesse colaborado com o Capitão. Como se chama? – ele não respondeu e abaixou a cabeça, segurei em seu queixo nada delicada – eu te fiz uma pergunta – o forcei a olhar para mim – Como se chama?!
- Por que quer saber meu nome se depois que você não conseguir tirar nada de mim vai me matar? – ousado, ele era muito ousado. Um soldado ousado com sotaque.
- Gosto de saber os nomes dos soldados para que depois possamos avisar a família sobre o paradeiro dele. – respondi seca – Então loirinho, vai me dizer seu nome ou terei que forçá-lo a falar? – ele riu maliciosamente.
- Gostaria de saber como você vai me forçar a dizer meu nome – ele me olhou de cima a baixo focando seu olhar em meus seios e coxas. Na mesma hora dei um tapa em seu rosto com quase força total, aqueles tapas ardidos que a mão fica marcada por muito tempo.
- Isso é só o começo. Se não colaborar e parar com essas gracinhas, os tapas só tendem a piorar! – Pude escutar uma risada abafada de atrás de mim. – vou perguntar mais uma vez: como se chama? – ele não respondeu – Capitão tire a farda dele! - me olhou curioso e o soldado fez o mesmo – Ande logo! – começou a se aproximar do nazista.
- Digo meu nome se você disser o seu. – o loiro disse por fim.
- Tudo que precisa saber a meu respeito é que sou a Tenente desse batalhão e serei seu pior pesadelo se não colaborar comigo! Agora diga seu nome!
- Franz. – ele disse e eu fiquei olhando para ver se ele não estava mentindo, mas se estivesse não ia ter problema, de todo jeito ele iria morrer.
- Franz... – repeti – vejo que está colaborando, Capitão tire a farda dele! – me olhava ainda confuso, mas fez o que eu pedi. Assim que ele tirou a parte de cima da farda do nazista fiz a mesma coisa que ele fez comigo, o olhei de cima a baixo, deixando um tanto vermelho.
- Quer dizer que eu não posso fazer isso com você, mas você pode me comer com olhos? – Franz dizia.
- Quem faz as perguntas aqui sou eu! – disse seca e me dirigi até um dos armários que ficava no canto da sala.
Abri uma das portas e fiquei analisando os equipamentos que tínhamos guardado naquele local. Aparelhos para dar choque, porretes, cordas, nada muito útil, resolvi ficar com meu ‘material de costume’. Caminhei até a frente dele e fiquei analisando o porte físico do alemão. Ele era forte, bonito também. Ora não me julguem, não é só porque ele é meu inimigo que eu devo olhar para o corpo estrutural dele com nojo.
- Vai ficar me olhando desse jeito? Essa é sua técnica de tortura? – Franz voltou a falar e olhei para ele com fúria nos olhos.
- Tinha mais alguém com você? – perguntei.
- Eu estava achando que você ia começar com a pergunta clássica: o que você estava fazendo perto da base militar? – ele TENTOU imitar minha voz, com certo tom de zombaria. Ele não devia ter feito isso. Dei outro tapa nele. – Só sabe dar esses tapinhas? – ele já estava me estressando com tanta ousadia!
- Sabe Franz, mudei de ideia. Não vou matar você. – eu disse tentando controlar minha vontade de rasgar a garganta dele com a faca que tinha em minha bota.
- Nossa, fico lisonjeado! – ele fingiu comoção.
- Vou deixar você vivo, porém com muita dor. – disse olhando-o nos olhos.
- Se a dor que você se refere é a dor dos seus tapinhas... – Peguei rapidamente minha faca que estava em minha bota e fiz um pequeno (grande) corte em seu braço. Ele gritou de dor.
- Vai continuar com suas piadinhas? – perguntei ameaçando passar a faca em seu outro braço – Sugiro que pare ou seu corpo todo será ‘tatuado’! Capitão tire a parte de baixo da farda dele! – pedi para que não se mexeu – AGORA Capitão! – se dirigiu perto do soldado.
- Você é muito ‘pau-mandado’ vai deixar que uma mulher lhe dê às ordens? – o soldado falava para . O Capitão por sua vez deu um soco forte no rosto do nazista e voltou a tirar a calça do alemão.
- Quais são os seus planos vindo até aqui? – perguntei para aquele ser que estava apenas com a roupa íntima no corpo.
- Espionagem – ele disse com calma.
- Você foi o primeiro? Têm mais quantos com você? – eu perguntava rapidamente e com raiva.
- Acha mesmo que eu vou falar? Você vai acabar me matando, mas eu não revelarei mais nada para você!
- Veremos. – disse fingindo paciência.

Já tinha umas duas horas que e estavam naquela sala. De início só consegui escutar as perguntas da Tenente, mas algum tempo depois escutei gritos de dor do nazista e esses gritos só se intensificaram com o passar das horas. estava certa quando disse para que com ela eram diferentes os interrogatórios. Não imaginava o que podia estar acontecendo naquela sala. Ok eu imaginava uma porção de coisas.
De repente um momento de silêncio e pude escutar a voz da Tenente.

- E aí? O que vai ser? Vai colaborar ou não?
- Te vejo no inferno vadia! – o soldado disse.
- Pode ter a certeza de que o inferno é bem melhor do que aqui, loirinho! Como eu disse, vou te deixar vivo para que você retorne para sua terrinha e diga ao seu amado Hitler, ou melhor, mostre ao seu líder o que acontece quando se invade a minha base militar! – escutei um grito do soldado e logo depois o silêncio voltou para aquela sala.

Esperei mais um pouco e a porta da sala se abriu. e saíram de lá juntos.
- Ai eu odeio isso, agora terei que tomar outro banho! – disse e saiu do local em que estávamos seguindo o caminho que dava para seu quarto. Fiquei observando com o olhar meio assustado. A Tenente tinha sangue espalhado na roupa e em suas mãos.
- Ainda vai querer conquistá-la soldado? – escutei dizendo e abafando o riso e me virei para encará-lo.
- Ela o matou? – me vi perguntando e olhando para a porta da sala que estava fechada.
- Não. Ele está vivo, por enquanto, vai sobreviver mais alguns meses se não sofrer hemorragias nos ferimentos. – disse tranquilamente e engoli em seco.
- Ferimentos? – repeti a última palavra pronunciada pelo Capitão que soltou uma risadinha
- Um conselho para você , se for persistir nessa sua ideia de conquistar minha Tenente – ele intensificou o pronome possessivo – tenha a certeza de que se você a magoar... Bom, ela irá te ‘castrar’ - e olhou para minhas calças, engoli em seco mais uma vez.
não havia feito isso, havia? Quero dizer, ela literalmente ‘castrou’ o nazista? Não, não. Acho que está só de gozação comigo para ver se eu iria desistir de conquistar . Mesmo assim não evitei minha pergunta.
- Ela... Realmente... – estava tentando achar a melhor maneira de falar aquilo
- Não . Ela fica meio atordoada só de ver um ferimento qualquer, você acha mesmo que ela seria capaz disso? – ele ria – foram apenas alguns cortes que com toda a certeza irão arder mais tarde, se é que já não estão ardendo agora. – Ok. Cortes. Mas ele não especificou aonde foram esses cortes. Sim, eu estava curioso e acho que percebeu – E sim, foram em TODAS as partes do corpo do soldado, alguns profundos, outros apenas para arder.
Muito bem, só de pensar que a Tenente despiu o nazista e segurou lá para fazer os cortes, já me deixou vermelho. De raiva, que fique bem claro! Respirei fundo e engoli em seco mais uma vez.
- O que vocês vão fazer com ele agora?
- ainda não decidiu, provavelmente vai segurá-lo aqui na base por mais algum tempo e depois mandá-lo de volta para Alemanha – disse calmo, como se aquilo fosse normal – de todo jeito, mesmo não gostando de admitir, eu sou grato a você por estar perto da Tenente nessa hora, acredito que se você não estivesse lá, ela não iria pedir ajuda a ninguém e enfrentaria o nazista sozinha, e isso não seria bom, então, obrigado.
- Só estava com ela porque ela saiu do refeitório cabisbaixa – disse.
- estava no refeitório? Que horas? – Ele não tinha percebido a presença dela no refeitório? Vejo que a outra Tenente está distraindo o Capitão. Tenho que agradecê-la depois.
- Sim, ela saiu sem comer porque... Bem, porque ela nos viu rindo e nos divertindo com Antoniett...
- Ela te falou isso? – estava indignado, acho que ele não acreditava que tinha de fato ignorado .
- Não diretamente, mas eu percebi... Por isso a segui para conversar com ela e foi ai que ela avistou o espião.
- Eu sou um idiota mesmo... – disse baixo, mas eu consegui escutá-lo – De todo jeito – agora ele falava alto – Obrigado mais uma vez ! – dizendo isso ele saiu do local.
Ótimo. O que eu iria fazer agora? Ficar de vigia para que o nazista não saísse daqui? Será que o Coronel iria voltar? O Capitão iria voltar? A Tenente iria voltar? Não acredito que me largaram aqui. O jeito era esperar.



Até aqui betada por: Carolina Bezerra



Capítulo 13 - Lembranças




Adentrei no meu novo quarto decidida a tomar um banho demorado para tirar aquele sangue todo de minhas mãos.
- O meu Deus Tenente! O que aconteceu? – esqueci que aquele ser ainda existia, e o sotaque dela também.
- Capturamos um espião – respirei fundo para falar, mas meu tom era de impaciência – Fizemos o interrogatório e estamos aguardando ordens do Coronel, para resolvermos o que vamos fazer com ele.
Disse isso e entrei rapidamente no banheiro, não estava a fim de responder a mais nenhuma pergunta da francesa. Comecei a lavar minhas mãos para tirar o excesso de sangue, feito isso tirei minha farda e me encarei no espelho, eu estava acabada, precisava dormir, mas ai lembrei do estado que o soldado estava e... Como pude me esquecer do soldado? Vesti minha farda novamente e sai do banheiro passando rápido por Antoniett e seguindo em direção ao local que fizemos o interrogatório.
com certeza não iria ficar lá com ele, não sei por que não gosta de , ele é um rapaz gentil, preocupado e muito dedicado. Cheguei até o local. Eu estava certa, deixara sozinho lá. Ele estava encostado na parede sentado no chão com a cabeça baixa.
- O senhor pode retornar ao seu dormitório – disse e ele levantou a cabeça para me olhar nos olhos.
- Se a Tenente quiser eu fico de vigia.
- Não será necessário soldado, o senhor deve descansar para os treinos de Antoniett amanhã. – disse.
- Não se dorme na guerra Tenente. Além do mais, eu não me importo, posso ficar de vigia – ele era insistente.
Percebi que ele realmente iria ficar a noite toda encostado naquela parede. Aproximei-me dele e sentei ao lado de .
- O que está fazendo? – ele perguntou depois que me sentei com dificuldade.
- Sentando – disse.
- Disso eu sei, estou perguntando o porquê disso?
- Ora, você se recusa a ir para seu dormitório para ficar de vigia, sendo que esse é meu trabalho, então eu irei ficar de vigia com você!
- Tenente a senhorita precisa descansar, foi um dia exaustivo...
- Não se dorme na guerra Soldado – interrompi-o dizendo a mesma frase que ele dissera para mim e sorrindo. ficou me olhando nos olhos.
- Você devia sorrir mais – ele disse baixo e desviando seu olhar do meu.
- O que disse? – perguntei só para me certificar.
- Nada... – ele olhou para a paisagem logo à frente.
- me disse isso uma vez – encarei para onde olhava e pude perceber que ele virou o rosto para me olhar novamente assim que descobriu que eu escutei o que ele disse.
- Pelo menos nisso nós concordamos... – ele disse pensativo.
- Por que vocês dois se odeiam? – perguntei e encarei que me encarava também.
- Não nos odiamos... É só que é... Complicado...
- Quando chegou aqui no batalhão, ele também agia como você, digo, me tratava com carinho, respeito, era o mais esforçado dos soldados. Ele conquistou minha confiança no primeiro dia, assim como você. – Não olhava mais para , mas eu sabia que ele me olhava.
- Quer dizer que...
- foi escolhido por meu pai para ser o Capitão do Batalhão... A meu pedido. Eu não queria que ele fosse para o campo de batalha e morresse, ou voltasse ferido. Pedi para meu pai que o nomeasse Capitão, pois ele era o único que me tratava bem, que me fazia sentir como se não existisse guerra alguma. O tornando Capitão, ele ficaria na base para ajudar nos treinos dos outros soldados e não iria para a ‘terra de ninguém’. Meu pai só aceitou porque ele viu que eu precisava de um amigo nesse lugar.
- sabe disso? – perguntou.
- Não. Ele acredita que meu pai o tornou Capitão porque ele foi muito eficiente... O que não deixa de ser verdade, mas a essa hora ele estaria morto ou se recuperando dos ferimentos do campo de batalha se eu não tivesse implorado a meu pai que o deixasse ficar – olhei para – Por favor, não conte a ele.
- Não irei contar nada Tenente, minha boca é um túmulo.
- E não precisa! – me virei para ver o dono daquela voz, apesar de já saber quem era.
- ... – pude vê-lo saindo do local em que estávamos com passos pesados – ! Espera! – me senti como ele quando tentou conversar comigo no corredor, me levantei com dificuldade – ! – ele não parava e andava depressa – Se continuar andando rápido desse jeito eu terei que correr! E se meus pontos abrirem de novo, mais uma vez a culpa será sua! – ele parou no meio do caminho e eu parei também, ele começou a se virar para mim e... Droga! Ele estava chorando. – ... – senti meus olhos se enchendo de lágrimas e ele se aproximava de mim.
- É verdade aquilo? – ele dizia já bem próximo deixando algumas lágrimas caírem de seus olhos.
- Por favor, entenda... – eu não conseguia falar por conta do choro – Eu não queria... Que você fosse para o campo de batalha... Não queria que você... Morresse... – me abraçou.
No primeiro momento eu não tive reação, mas logo em seguida retribui o abraço. Os braços de me envolviam como se caso ele me largasse ele morreria. E eu sentia a mesma coisa. Ninguém dizia uma só palavra, mas aquele abraço já traduzia tudo o que queríamos dizer.
- Pequena, você fez isso por mim? – disse ainda me abraçando.
- Na verdade ... Foi por mim, para que você ficasse comigo, para que eu não ficasse sozinha... – nós ainda chorávamos.
- Isso é errado pequena... Você sabe disso...
- Não... ... – ele afastou do abraço – O que vai fazer?
- Vou fazer o que tem que ser feito...
- Não ! Por favor, não faça isso! – ele começou a andar, mas segurei em seu braço – Por favor... – estava implorando – não peça para ser rebaixado! Por favor, não faça isso comigo! Se você é Capitão hoje é porque você mereceu!
- Não foi o que você disse para ele! – ele apontou logo atrás de mim e eu me virei para encarar – vai nomeá-lo Capitão também? – chorava.
- ... Me escuta – ele tentava andar, mas eu ainda o segurava pelo braço.
- Eu já escutei o bastante pequena! Agora vou desfazer o que você fez!
- Você poderia me escutar só por cinco minutos?! – gritei – cinco minutos... – abaixei a cabeça. nada disse, resolvi começar a falar antes que ele tentasse sair dali de novo – Independentemente de eu ter pedido ou não para que meu pai o nomeasse Capitão, você receberia esse título de qualquer jeito, cedo ou tarde... Meu pai mesmo, já estava avaliando a ideia, ele me falou antes de eu pedir que ele fizesse isso. Era questão de dias até que você se tornasse Capitão, eu só quis adiantar o processo, antes que meu pai mudasse de ideia... E te mandasse para a guerra.
- Mas pequena... – começou a dizer.
- Capitão ... Esse seu título é muito mais que merecido! – olhei em seus olhos – Não, desfaça isso, por favor... – me envolveu em seus braços de novo – eu prometo que fico na cama o dia todo até meu ferimento cicatrizar, eu prometo que te obedecerei, mas não peça para ser rebaixado a soldado, não me deixe sozinha aqui...
- Por você... Eu não irei te abandonar. Se o que me disse é verdade, não irei mais desfazer nada, porém, a senhorita terá que cumprir sua promessa...
- Eu cumpro! Começando agora! Vamos, uma cama me espera agora e para o resto da semana até meu ferimento cicatrizar! – comecei a andar em direção ao quarto puxando pelo braço.
- Hey... Pequena, calma... – ele ria apesar das lágrimas – só assim para você me obedecer né? – parei para observá-lo
- Só, por favor, não use mais isso como chantagem, me prometa que você vai continuar sendo meu Capitão!

MEU. Pronome possessivo. Fica ainda mais perfeito se pronunciado com intensidade pela boca mais perfeita desse mundo.
- Promete pra mim? – ela repetiu.
Só consegui olhá-la profundamente nos olhos. Aqueles olhos inchados e vermelhos por conta das lágrimas anteriormente derramadas. Aqueles olhos que brilhavam na esperança de minha resposta. Eu poderia ficar a noite toda ali apenas olhando naqueles olhos.
- Responde ! – ela estava impaciente e isso me fez voltar à realidade.
- Prometo. – disse e vi abrir um sorriso maravilhoso naquele rosto lindo o que me fez sorrir também. Ah, como eu queria beijá-la agora! Era tudo o que eu mais queria nesse mundo! Mas é melhor não agir por impulso, no momento me considera seu melhor amigo, acho que mais um pouco e já poderei mudar nosso relacionamento.
- Então... Vamos! Tenho que repousar! – ela disse decidida, mas ao mesmo tempo como se fosse uma criança, eu devia estar com o sorriso mais bobo desse mundo, porque ela reparou.
- O que foi ?
- Nada... – disse balançando a cabeça – Vamos. – comecei a caminhar do lado dela, mas ela parou de repente.
- Não. Ah meu Deus, esqueci do ! – uma faca imaginária atingiu meu peito quando ela pronunciou o primeiro nome do soldado, ela começou a refazer o caminho seguindo em direção a ele. – ... – ela parou – Você poderia ficar com na vigia hoje? Eu ficaria, mas sei que você não vai deixar...
- Eu fico... – disse e o sorriso dela voltou ao rosto.
- Então vá para lá! – ela ordenou – não se preocupe Capitão, eu irei para meus aposentos, deitarei na minha cama e dormirei como nunca, ok? – ela disse sorrindo. Acho que já falei que amo o sorriso dela não é?
- Ta bom – disse relaxando os ombros – Quero que descanse, durma bem, ok pequena? – ela assentiu com a cabeça, não resisti e dei um beijo em sua testa, achei que ela fosse reclamar ou me bater, mas ela apenas ficou na ponta dos pés e me deu um beijo na bochecha. Um beijo. Na bochecha. O mundo poderia acabar agora que eu morreria feliz!
Pude observá-la indo para o quarto dela, assim que ela sumiu do meu campo de visão me dirigi até onde estava.
- Já pode voltar para seu dormitório Capitão, ela não vai perceber. – Ele disse.
- Prometi para ela que ficaria, vou cumprir com minha promessa . – disse autoritário.
- Sei que o senhor não está nem um pouco a fim de ficar a noite toda aqui comigo, na verdade, você nunca gosta de ficar junto a minha pessoa, não se preocupe, caso ela apareça de manhã cedo, o que eu não acho que vá acontecer já que ela realmente pareceu bem preocupada em você abandoná-la, eu digo que o senhor resolveu ir mais cedo tomar café, ou que tinha que fazer algum relatório... – estava quase aceitando a proposta dele, afinal de contas, não estava a fim de ficar com o cara que quer roubar MINHA Tenente.
- Primeiramente , não se engana , segundo, eu fiz uma promessa a ela e irei cumprir, acho que você deveria pensar nisso antes de voltar com sua ideia de querer roubá-la de mim. – olhei-o nos olhos o intimando.
- Para eu roubá-la de você, ela antes precisaria ser sua, como ela não é nada além de sua melhor amiga não terá nenhum problema, caso ela fique comigo. – ele estava brincando com fogo!
- Por algum acaso o senhor prestou atenção no desespero dela quando eu disse que iria pedir para me rebaixar a soldado? O Senhor notou quando ela intensificou o pronome possessivo ao falar meu Capitão? – também intensifiquei o pronome.
- Sim, eu notei – ele dizia sorrindo, por que ele estava sorrindo? Será que ele tinha algum plano? – Acredito que o senhor não estava aqui no início da conversa, quando ela mencionou que o senhor conquistou a confiança dela no primeiro dia que veio para cá... – ele parou um pouco antes de falar algo que me deu vontade de matá-lo – assim como eu, ora não me olhe com essa expressão, essas palavras saíram da boca da Tenente.
- Você não tem noção do perigo soldado! – foi a única coisa que conseguir dizer.
- O senhor diz que a ama, mas nem se quer se importou em checar se ela havia ido ao refeitório, se ela estava bem! Não se importou em querer saber o que aconteceu para deixá-la cabisbaixa! – ele estava falando as mais claras verdades, mas eu não queria admitir isso, seria como admitir que eu fingi que não existia no jantar – eu a observo muito Capitão , sei dizer quando ela não está bem, quando ela está com ciúmes, quando ela está com raiva e olha que eu só a conheço pessoalmente não tem nem quatro dias! E o senhor que já a conhece há mais tempo, bem mais tempo que eu, não se importou em procurar saber do estado emocional dela! – ele parou para respirar – Minhas chances com ela podem ser nulas, afinal, ela te ama... Mas eu não irei desistir, tenho a esperança de que esse amor que ela sente por você seja apenas de amizade. – ele começou a caminhar na direção dos dormitórios.
- Aonde o senhor vai? – perguntei.
- Trocar a farda para continuar na vigia Capitão, se me permite. – apenas assenti com a cabeça e o vi se afastando de mim.
Tudo o que ele havia falado era verdade, eu não observava como ele, mas nunca é tarde para começar, certo? Agora, sobre o que ele falou de ela me amar... Seria verdade? E se fosse, seria como amizade, como tem a esperança de que seja, ou seria o amor de duas pessoas que não conseguem viver sem o outro, assim como eu sinto por ela?




Capítulo 14 - Você não vai sem mim




Acordei com um barulho de alguma coisa caindo no chão.
- Perdão Tenente! Sou muito desastrada, não queria te acordar – Antoniett dizia enquanto pegava uma caixa de madeira que estava no chão.
Meu cansaço era tanto que eu só consegui olhar o relógio e ver que eram 4h50 da madrugada. havia me feito prometer que eu iria ficar repousando até meu ferimento cicatrizar por completo, então virei de lado e voltei a dormir. Sabia que não devia estar fazendo aquilo, afinal, não se dorme na guerra, mas e se eu levantasse junto com Antoniett para começar os treinos junto com ela e resolvesse me punir se rebaixando a soldado e indo para o campo de batalha? Eu sei que ele me prometeu que não iria fazer isso, mas eu também já prometi muitas coisas para ele e acabei não cumprindo, por isso continuei na cama.
- Tenente ! – uma voz me chamava e eu não sabia se era no meu sonho ou se era de verdade – Sei que você tem que repousar, mas não precisa imitar um urso e hibernar! Vamos pequena, acorde!
Abri os olhos lentamente querendo matar o ser que estava me acordando.
- ? – perguntei sonolenta.
- Em carne, osso e impaciente! – disse – finalmente! Achei que tinha morrido, ô sono pesado que você tem hein?
- Bom dia para você também... – me ouvi perguntando e esboçando um sorriso.
- Bom dia? Pequena, são 14h!
- O que?! – pulei da cama praticamente, e comecei a andar pelo quarto em busca da minha farda, foi quando olhei para o lado e vi meu pijama pendurado na porta do banheiro. Espera um pouco, se meu pijama estava lá... Com o que eu tinha ido dormir na noite passada? Voltei a olhar que olhava para a janela, olhei para meu corpo e percebi que estava apenas com as roupas íntimas – AH! – gritei e corri para o banheiro e me tranquei lá dentro – Primeiro: por que você não me acordou antes? Segundo: você não viu nada não é?
- Quis deixar você dormir mais um pouco pequena, eu vim aqui mais cedo, mas você dormia tão tranquila que eu não tive coragem de te acordar... Não vi nada pequena, não se preocupe, mas se me permite perguntar... Por que dormiu sem o pijama?
Eu nunca mais iria sair daquele banheiro! Por que eu dormi sem o pijama? Porque... O que aconteceu mesmo?

XX

Dei uma última olhada para trás e pude ver que já estava ao lado de . Ao invés de ir para meu quarto, fui para o refeitório, obviamente não havia ninguém lá, todos já estavam em seus dormitórios uma hora daquelas. Entrei na cozinha e abri um armário onde havia uma coisa que eu precisa já havia um tempo. Peguei a primeira garrafa que vi. Qualquer coisa alcoólica agora serviria. Eu estava exausta, havia acabado de interrogar um nazista que invadira minha base militar, havia acabado de quase fazer com que se rebaixasse a soldado e me abandonasse, sem contar na aparição de Antoniett para me substituir, naquele nojento do soldado Chill e seu amiguinho. Eram tantos problemas e a solução para que eles sumissem por algumas horas estava ali em minhas mãos.
Não pensei mais que uma vez e abri aquela garrafa e bebi como se fosse água. Fiquei mais um tempo naquela cozinha. Não me lembro exatamente o que aconteceu depois, mas alguns flashes me aparecem na mente de eu jogando a garrafa fora, indo cambaleando para meu dormitório, Antoniett falando alguma coisa do tipo: Você está bêbada Tenente? E eu apenas a ignorando. Lembro-me de ter tirado minha farda e do mesmo jeito que cai na cama fiquei. Acho que Antoniett teve o bom senso de me cobrir, menos mal.

XX

Se descobrisse que eu havia me embebedado acho que ele me mataria. Primeiro que eu não posso tomar bebidas alcoólicas porque estou tomando remédios para cicatrizar meu ferimento, segundo porque odeia quando eu bebo, segundo ele, meninas não devem se acabar na bebida.

UAU. Sabia que ela era bem definida por conta dos treinos, mas nunca tive a oportunidade de conferir. Percebi que ela estava sem a parte de cima do pijama quando comecei a chacoalhar ela na cama e o cobertor desceu um pouco mostrando seu decote. Depois de longos segundos observando voltei à realidade e a cobri novamente com o cobertor. Comecei a chamá-la pelo nome e ela começou a dar indícios de que iria acordar. Quando falei das horas para ela e ela saiu desesperada da cama, foi ai que eu percebi que ela estava completamente sem o pijama. Confesso que enquanto ela ainda não percebera que estava sem a vestimenta eu reparei um pouco mais do que devia no corpo dela e resolvi olhar para a janela antes que percebesse e me matasse por isso.
Ela se trancou no banheiro e começou a gritar lá de dentro. Perguntei para ela o porquê de ela estar sem o pijama, mas ela ficou em silêncio.
- ?
- Não se pode mais dormir sem pijama não?! – ela gritou.
Fiquei sem resposta. Algo me dizia que minha Tenente havia aprontado alguma coisa na noite passada.
- Está escondendo alguma coisa de mim ? – ela abriu a porta e já estava trocada e com o cabelo preso
- Capitão , dormi sem pijama porque eu quis, fim, ponto final, agora vamos! – ela disse autoritária e foi caminhando em direção a porta.
- Onde pensa que vai? – perguntei.
- Ver o nosso hóspede! Se ele ainda está vivo...
- Já cuidei dele essa manhã, os ferimentos estão com curativos e o Coronel resolveu que vai mandá-lo de volta para a Alemanha ainda hoje.
- Hum... – ela disse olhando para o chão – Então vamos para os treinos!
- Já esqueceu da promessa que me fez?
- Não esqueci , eu só quero observar, você sabe que eu não consigo ficar parada numa cama por muito tempo, eu quero ver se Antoniett está treinando os soldados corretamente – ela disse quase como uma súplica.
- Não vai ter jeito mesmo de você ficar na cama né? – respirei fundo – Tudo bem, mas se você se levantar para fazer alguma atividade que seja eu te amarro na cadeira com algemas se for necessário!
- Ta bom Capitão, só irei observar!
- Toma pelo menos o café que ta mais para um almoço que eu te trouxe... – disse apontando para a bandeja que estava na cômoda ao lado da cama dela, ela revirou os olhos, mas estava sorrindo e foi em direção a bandeja, sentou na cama e começou a comer. Sentei-me ao lado dela.
- Você sabe que eu odeio quando me olham comendo... – ela disse se virando de costas para mim.
- tinha razão... Você faz caretas enquanto come! – Soltei uma risada e ela se virou mostrando seu olhar assassino para mim – Não está mais aqui quem falou! – disse me desculpando.
- Pronto, vamos! – ela disse limpando a boca com o guardanapo e indo em direção à porta. Levantei-me e a acompanhei.

Observar. Era só isso que eu iria fazer. Iria ser tedioso, mas pelo menos era melhor do que ficar na cama olhando para a parede sem fazer nada. me acompanhou até a área dos treinos, os soldados já estavam lá atentos às informações de Antoniett. foi até a tenda e voltou com uma cadeira obviamente para que eu me sentasse. Sem que ele pedisse eu me sentei e fiz sinal para que Antoniett prosseguisse, assim que percebi que todos haviam parado para prestar atenção a minha chegada.
- Iremos fazer uma sequência de exercícios – a Tenente francesa continuou falando – Mira, camuflagem, corrida e depois iremos para o circuito!
- Sim senhora! – os soldados falaram em uníssono e bateram continência.
- Peguem as armas e vamos começar com a mira! – Antoniett falou e os soldados correram para a tenda para pegar as armas já carregadas.
- Boa tarde Tenente! – uma voz conhecida surgiu ao meu lado.
- Boa tarde ! – respondi.
- Dormiu bem? – ele se preocupava muito comigo, mas agora não era hora para conversas, ele tinha que treinar.
- Sim , obrigada pela preocupação, agora vá buscar sua arma para treinar – ele bateu continência e foi para a tenda.
- Ai de você se levantar dessa cadeira hein? – Escutei dizendo.
- Se você continuar falando isso ai que eu levanto para te bater! – disse sorrindo – Vá ajudar os soldados! Estou avaliando vocês – começou a se afastar para ir até a área em que os soldados estavam – Espera! – ele voltou ao meu chamado – Pegue minha prancheta, vou começar a escolher os mais aptos para formar o próximo esquadrão. – assentiu com a cabeça e foi buscar a prancheta, ele me entregou o objeto e foi ajudar a francesa.
Fiquei observando os soldados no primeiro treino da tarde e já adicionei alguns nomes na lista. Fiz o mesmo nos outros treinos, cheguei ao total de dez soldados para montar o esquadrão, fora os que já estavam se recuperando da última ida ao campo de batalha e outros que ficaram uma semana a mais se preparando. Revisei a lista mais uma vez ao final de todos os treinos e de repente foi como se tivesse recebido uma facada no peito. estava na lista, ele era um ótimo soldado, não podia deixar de colocar ele, mas eu não queria. Não queria que ele fosse para lá e morresse, assim como não queria que fosse no ano passado, não sabia definir o que estava acontecendo comigo, mas tive que levantar e me afastar do soldado assim que vi se aproximando. Só tinha ele e mais alguns soldados no circuito. tinha ido falar com meu pai e Antoniett havia ido tomar banho.
Levantei-me e ‘fugi’ de , não suportaria olhá-lo agora, algo me dizia que se encarasse aqueles brilhantes olhos eu começaria a chorar. Resolvi entregar minha lista para meu pai. percebeu que eu não estava a fim de conversar e seguiu para seu dormitório. Estava me aproximando do quartel general quando escuto e meu pai conversando.
- Mas Capitão, você tem certeza disso?
- Sim Coronel, sei que o que ela fez foi para me proteger...

Resolvi escutar a conversa de longe.
- Capitão , pelo o que o senhor me contou, você prometeu para ela que não se rebaixaria a soldado... – Coronel falava
- Sim, e não estou pedindo para que o senhor me rebaixe, se ela perceber que eu continuo sendo Capitão, ela não irá desconfiar de nada...
- Até o dia que os soldados forem para a guerra... – meu pai completou a frase – Capitão , você é muito importante para ela, minha filha não suportaria saber que você está indo para a guerra muita menos se ficasse sabendo que o senhor tem grandes chances de não voltar de lá.
- Por favor Coronel, sei que as intenções dela foram boas, mas sinto que não estou cumprindo com meu dever...
- Você pretende falar com ela antes de ir para a guerra?
- Melhor que ela não saiba, pelo menos até a hora que eu estiver aqui ainda, vou me despedir dela, mas sem dar indícios de que estarei partindo, talvez, para sempre...
- O senhor sabe que eu não concordo com isso... Mas discutir não vai adiantar com o senhor, tudo bem, eu não te rebaixarei a soldado e permitirei que você vá para a guerra, mas tenha a certeza de que se o senhor morrer, minha filha irá arranjar um meio de te reviver, só para te matar novamente.
- Irei fazer o possível para ficar vivo! – disse autoritário – Obrigado Coronel!

Percebi que a conversa já estava no fim. Resolvi que não iria contar a ninguém que havia escutado essa conversa, mas poderia ter certeza de uma coisa: se ele fosse para a guerra, ele não iria sem mim! Resolvi entrar no quartel como se não tivesse acontecido nada.
- Com licença Coronel, Capitão – eles pararam de falar na hora – Trouxe a lista de soldados que formarão o próximo esquadrão para a batalha...
- Ah sim! Ia te perguntar isso agora mesmo – A tensão em meu pai era explícita e em também.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntei.
- Não. – os dois disseram em uníssono, cúmplices!
- Tudo bem então, se me dão licença agora, tenho que fazer alguns relatórios. – eles assentiram com a cabeça e eu saí do local.




Capítulo 15. Pré-guerra




Obviamente que menti sobre os relatórios, precisava pensar, mas não poderia ser em meu dormitório, teria que ser em um lugar tranquilo, precisava tomar a decisão correta e liberar a angústia que tinha dentro de mim. Olhei para a floresta que cercava a base militar e caminhei discretamente para o único lugar que eu teria sossego por algumas horas.
Aproximei-me da cerca já danificada, olhei para todos os lados para ver se havia sido seguida, me senti uma fugitiva, ou espiã. Assim que me certifiquei de que estava sozinha, passei pela cerca e caminhei mata adentro, certeira de cada passo meu e fui me aproximando do lugar que eu poderia pensar em paz.
Parei de frente para a árvore mais alta, rodeei-a e achei a corda camuflada, exatamente do jeito que eu havia deixado da última vez que estive lá há dois anos. Enrolei a corda nas mãos e com cuidado fui escalando até chegar a minha casa na árvore. Aquele era meu refugio desde pequena, ficava perto da vila onde morava e às vezes eu ia para aquele lugar para me afastar do mundo, a última vez que estive lá foi pouco antes da II Guerra estourar no mundo. Adentrei a pequena construção de madeira que ficava bem escondida pela árvore ser alta e conter uma quantidade absurda de folhas.
Meus brinquedos ainda estavam lá, o que significava que ninguém ainda havia descoberto meu refúgio, caminhei mais um pouco naquele pequeno lugar até que parei de frente para uma parede onde eu pendurava minhas fotos. Havia uma bem velhinha de minha mãe e meu pai juntos comigo, uma de alguns amigos que tinha antes da guerra, uma minha quando tinha dezessete anos. Passei a mão nos bolsos de minha farda, os revistando até encontrar o que eu procurava. Retirei a foto do bolso e fiquei observando.
No primeiro treino da semana havia revelado que continha uma foto minha junto com ele, claro que eu dei uma dura no Capitão, mas o que ele não sabia era que eu também o levava sempre comigo, uma foto dele, minha e dele na verdade, foi logo que nos aproximamos na base militar, foi antes do Ano Novo. Estávamos os dois sorrindo um do lado do outro, com pistolas na mão porque havíamos acabado de treinar nossa mira. Fiquei olhando para na foto e não consegui impedir que as lágrimas começassem a sair pelos meus olhos.
Ele havia prometido para mim que não iria para a guerra, como ele teria coragem de me abandonar? Mas se ele estava pensando que ele iria sozinho, ele estava muito enganado. Na sexta feira iria sair o caminhão que levaria os soldados para o campo de batalha, se havia falado a verdade sobre ele querer ir também, ele estará nesse caminhão junto com e os outros soldados. E eu. Tinha poucos dias para me preparar, para que minha perna estivesse pelo menos 80% recuperada para poder ir à Guerra. Nesse tempo eu iria repousar ao máximo, assim como queria e na sexta feira eu entraria no caminhão rumo ao inferno.
Respirei fundo e enxuguei as lágrimas. Tinha que voltar antes que alguém sentisse minha falta. Olhei mais uma vez para aquele lugar. Não sabia se voltaria a vê-lo mais uma vez, gravei cada detalhe em minha memória, coloquei a foto do Ano Novo junto com as outras, olhei mais uma vez para a parede de fotografias e sai da casa na árvore. Desci pela corda e a camuflei novamente. Voltei para a base militar.

Algo muito estranho estava acontecendo com a Tenente. Tinha quase certeza que meu nome estava na lista de soldados que iriam para a guerra no final da semana, mas aquilo não era motivo para ela me ignorar. Estava saindo do meu dormitório quando a vi passando pelo circuito e indo em direção à cerca onde havíamos passado na noite anterior para capturar o espião. Pelo jeito que ela agia, era como se ela não quisesse ser seguida, ela deu uma última olhada para os lados antes de passar pela cerca e adentrar na floresta. Óbvio que a segui.
Cuidadosamente para que ela não descobrisse minha presença a segui até que a vi parando e olhando para o topo de uma alta árvore no meio da mata. Ela rodeou a árvore em busca de algo que eu descobri que era uma corda, segundos depois ela começou a escalar a mesma até desaparecer na copa da árvore. Não sabia se devia subir também, achei melhor ficar esperando por ela lá embaixo. Ela deve ter ficado lá em cima por uns dez minutos. Quando ela começou a descer novamente eu tive que ser rápido e me esconder. Percebi que ela estava com os olhos inchados. Esperei até que ela sumisse do meu campo de visão e subi na árvore.
Então agora estava tudo explicado porque já sabia o lugar certo para passar pela cerca na noite anterior, ela havia danificado a cerca. Ela tinha um ‘forte’ só para ela e pelo o que eu via, não era recente. Bonecas espalhadas por todos os lados, bolas e uma parede com fotos. Alguma coisa estava acontecendo para ter ido para aquele lugar, algo me dizia que aquele era um refugio para ela e que era o culpado por ela ter ido frequentar esse lugar justo naquele dia. De todas as fotos daquela parede, a de e parecia ser a mais recente. Resolvi voltar para a base antes que escurecesse e eu me perdesse.
Voltei para a base e discretamente passei pela cerca, fui caminhando em direção ao refeitório, já estava na hora do jantar.
- ! – me chamou e eu me virei para olhá-la.
- Pois não Tenente? – será que ela havia me visto saindo da cerca?
- O que fazia fora da base? – sim ela havia me visto, boa , você é muito discreto!
- Eu... Eu... – eu estava ferrado, essa era a verdade!
- Não conte a ninguém sobre a casa na árvore.
- Sim senhora! – respondi mais aliviado. Ela olhava em meus olhos e pude perceber que eles estavam se enchendo de lágrimas, o que será que estava acontecendo? – Tenente? A senhorita está bem? – de repente ela fez algo inesperado, pulou em meus braços me dando um forte abraço, e claro que eu retribuí.
Minha farda começou a ficar molhada na parte dos ombros por conta das lágrimas que ela derramava. Eu nada disse apenas a segurava em meus braços e passava as mãos em seus cabelos. Senti-a começando a se afastar e por mais que eu não quisesse, tive que liberá-la.
- Desculpe-me. – ela disse enxugando as lágrimas.
- Está tudo bem Tenente...
- Não conte nada sobre...
- Não irei contar. – interrompi-a – Se a senhorita quiser falar sobre...
- . – dessa vez foi ela quem me interrompeu – Pode me chamar pelo meu nome ...
- Vai demorar um pouco para eu me acostumar com essa liberdade de te chamar pelo nome... – disse sorrindo.
- Eu sei. – ela olhou ao redor da área na qual estávamos – Me acompanha até o refeitório? – assenti com a cabeça e fomos caminhando para o refeitório.
Não falamos nada no caminho, chegando ao local, pegou sua refeição e se dirigiu a sua mesa de sempre, resolvi segui-la. Sentei-me na frente dela e ia começar a falar quando fui interrompido.
- Boa noite! Atrapalho? – estragou o momento, percebi que ficou um pouco desconfortável com a presença dele, mas logo se endireitou e olhou para o Capitão.

- ! Claro que não! Sente-se conosco! – ok, eu tinha que disfarçar, mas eu não sei disfarçar, com certeza os dois perceberam que eu agi estranhamente.
- O que aconteceu? – perguntou um pouco receoso – isso faz parte da TPM?
- Bipolaridade – disse baixinho, mas eu escutei e olhei para ele – Desculpe-me...
- Está tudo bem. Sim, isso faz parte da TPM, sente-se logo antes que o mau-humor volte! – ordenei e se sentou ao meu lado.
- Já contou a novidade para o soldado? – disse.
- Que novidade? – eu e falamos juntos, não pude deixar de rir baixinho.
- Sobre o novo esquadrão...
- Me permitem sentar com vocês? – Antoniett havia surgido do além.
- Fique à vontade! – eu disse e todos se espantaram com minha educação para com a Tenente – Já estava de saída mesmo – resolvi agir como a menina imatura novamente e me levantei e sai de perto da mesa, pelo menos eles não desconfiariam de nada.
Estava caminhando perto do circuito quando escuto uma voz.
- Quer conversar sobre o que está acontecendo? – me virei para olhá-lo – Não sou o Capitão , mas sou um bom ouvinte e algo me diz que a senhorita precisa desabafar, antes que me esqueça, desculpe-me pela intromissão em sua vida pessoal.
- vai para guerra... – eu disse me sentando com dificuldade atrás de uma tora deslocada do circuito
- Mas ele prometeu para a senhorita que não iria fazer isso...
- Parece que ele mentiu... – disse e olhei para – Escutei-o falando sobre isso com meu pai mais cedo...
- Não vai contar para ele que a senhorita sabe?
- Não. Vou fazer pior. – disse e me levantei do chão e caminhei para meu dormitório deixando sozinho.
A semana infelizmente passou rápida. Eu acompanhava a todos os treinos de Antoniett e ajudava os soldados escolhidos para o mais novo esquadrão a se prepararem para o grande dia. Conversava com todo dia, ele estava se tornando um ótimo ombro amigo. não dava nenhum indício de que iria me contar a ‘novidade’ dele, mas a gente continuava conversando normalmente, afinal, ele não poderia desconfiar dos meus planos. Apesar de conversar muito mais com nos últimos dias sobre todos os tipos de assuntos, eu não revelei nada para ele que iria junto para a guerra.
Era quinta feira de noite, eu tinha acabado de sair do refeitório e estava caminhando para meu quarto quando me parou no corredor e me puxou rapidamente para um abraço. Tive que segurar minhas lágrimas para não chorar, pois se chorasse na frente dele ele perceberia que eu sabia que ele iria para a guerra no dia seguinte.
- O que é isso ? – disse tentando disfarçar a voz chorosa.
- Um abraço! – ele disse e eu percebi que a voz dele também estava chorosa.
- Mas eu quero saber o porquê disso a essa hora? – disse me afastando.
- Não posso mais abraçá-la? – ele disse olhando em meus olhos – Já estava indo dormir? – ele perguntou.
- Sim. – disse.
- Tão cedo? Só quem tem que acordar cedo amanhã são os soldados do esquadrão...
- O remédio que estou tomando para a perna está me deixando com sono ultimamente e você mesmo disse que eu tinha que repousar!
- Sim, você deve repousar, só queria te desejar boa noite...
- Ok, boa noite Capitão, nos vemos amanhã nos treinos! – fiquei olhando para ele esperando que ele falasse a verdade.
- Boa noite pequena! – ele me abraçou novamente, um abraço forte. Eu sentia que ele não queria me soltar tão cedo, mas ele teve que fazer isso, após me soltar ele me deu um beijo na bochecha e outro no na testa e se afastou de mim até sumir do meu campo de visão. Uma lágrima caiu de meus olhos, mas eu sabia que o veria amanhã.
Fui para meu quarto e aproveitei que Antoniett ainda não havia voltado para escrever uma carta para meu pai, como uma despedida, eu não iria ter coragem de falar com ele antes de partir. Escrevi a carta e coloquei embaixo do meu travesseiro e fui tomar um banho.
Belle
Entrei no quarto, olhei para o banheiro e vi a porta fechada. devia estar tomando banho. Resolvi esperar sentada na cama dela até ela sair. Quando me sentei na cama o travesseiro dela caiu sem querer e com ele, um papel dobrado. Sei que nosso acordo era de não tocar em nada que não era nosso, mas não resisti e abri o papel. Era uma carta de despedida para o Coronel.
Não estava acreditando no que eu estava lendo, iria MESMO para a guerra? Por quê? Será que eu deveria avisar o Coronel? Ou o Capitão ?
Escutei o barulho da torneira fechando e dobrei o papel novamente colocando embaixo do travesseiro e levantando da cama da Tenente rapidamente. abriu a porta já vestida para dormir, me mandou um ‘boa noite’ e deitou-se na cama. Entrei no banheiro para tomar meu banho e naqueles momentos de reflexão decidi que iria para a guerra também, pelo menos para tentar salvá-la.




Capítulo 16. O inferno - Parte I


Já era de manhã e uma enorme preguiça invadiu o meu corpo. Não queria de maneira alguma me levantar da cama. Mas era preciso, aquele era um dia importante. Ainda tinha que pensar em uma maneira de entrar no caminhão sem que ninguém notasse minha presença, seria uma missão quase impossível. Vi que Antoniett não estava na cama. Olhei para os lados e me perguntei onde estava aquela francesa. Vi uma fresta de luz vinda do banheiro, provavelmente ela estava lá. Não me importava o que ela estava fazendo. Andei de um lado para o outro conferido se minha perna já estava cicatrizada. Por Deus eu podia andar sem sentir muita dor, eu não iria morrer por causa disso!
De repente a porta do banheiro se abre. Dei um passo para trás assustada com o ser que estava a minha frente. Um homem?
- O que é isso? – perguntei para aquilo.
‘Ele’ não respondeu, apenas ficou da mesma maneira que eu, ou seja, assustado. Como se tivéssemos visto um fantasma.
- Pode me explicar, quem ou o que é você? – perguntei ainda mais assustada – E o que faz no meu quarto?
Foi quando uma voz já conhecida e um tanto feminina saiu daquela boca meio escondida por conta do enorme capacete.
- Acalme-se... – falou a pessoa tentando se aproximar de mim – Sou eu... Tenente Belle. – disse ela tirando o capacete e deixando cair suas longas e loiras madeixas.
Aquilo foi um grande choque. O que cargas d’água ela estava fazendo vestida daquele jeito?
- Explique-se... Agora! – quase berrei.
Belle se encolheu e foi de frente ao espelho arrumar novamente o capacete que por sinal era bem grande.
- Tenente, eu vou para a guerra. Com você! – disse ela toda confiante.
- Como? Quem disse que eu vou para a guerra. – falei tentando desviar de seu olhar.
- Eu já sei de tudo... – disse ela se encolhendo ainda mais – Eu... – respirou fundo, acho que estava tentando criar coragem para dizer alguma coisa, algo importante – Eu vi a carta...
Como ela pôde? Não tínhamos um acordo? Percebi que ela não era uma mulher de palavra e de confiança.
- Sentei-me em sua cama para esperar que você saísse do banheiro... – ela novamente tentou recuperar o ar com um longo suspiro – Seu travesseiro caiu e com ele a carta. Sei que não devia mexer nas suas coisas, afinal, temos um acordo a ser cumprido. Mas algo me dizia que o conteúdo daquela carta era de extrema importância. Sinto muito... - Pensei em palavras chulas para dizer a ela.
- Por que você quer ir para a guerra também? Isso é um problema meu e você não tem nada a ver com isso! – virei o rosto querendo ignorá-la, mas senti que ela estava muito triste – Você será apenas um obstáculo no meu caminho – disse me arrependendo amargamente pelo o que havia falado.
Quando voltei meu olhar para o de Belle vi que algumas lágrimas estavam escorrendo por aquelas tão pálidas bochechas. Senti um leve aperto no coração. Posso me fazer de durona, mas ainda tenho sentimentos, por mais que não os demonstre.
- Desculpe-me Tenente... – Antoniett começou a falar enxugando algumas lágrimas.
- Não... – criando coragem para dizer o que eu tinha em mente - Eu que tenho que te pedir desculpas...
- Como? – ela perguntou se certificando que eu havia dito mesmo ‘aquilo’.
-Você escutou e eu não irei repetir. – disse enquanto observava o jeito que ela estava vestida e, de repente pensei e vi que não era uma má ideia, afinal de contas a Tenente Antoniett tinha cérebro e às vezes ela usava. – Bom, já que você irá me acompanhar, é melhor eu me disfarçar também... – olhei em seus olhos e vi por de trás daquelas lágrimas um brilho de felicidade.
- Fico feliz que irá usar minha ideia e irá me acompanhar... – ela disse esboçando um sorriso.
- Espero que ninguém nos descubra... – disse e comecei a me arrumar.
- Tenente se me permite perguntar... Por que a senhorita pretende ir a essa guerra? – ela tentava puxar assunto enquanto me observava tentando prender meus seios com uma faixa – quer ajuda? – ela se ofereceu para me ajudar.
- Só preciso que você dê um nó apertado aqui nessa faixa... – disse e logo ela se dirigiu para trás de mim e apertando mais a faixa deu um nó que com certeza não iria se desamarrar tão facilmente. Ela era forte.
- Desculpe insistir na pergunta, mas por que...
- Não te interessa! – disse seca, mas me arrependi novamente – Desculpe-me...
- Tudo bem... – ela disse cabisbaixa
Depois de disfarçadas saímos discretamente de nosso dormitório e seguimos para a área onde se localizava os caminhões que levariam os soldados para a guerra. Entramos em um caminhão aleatório e torci para que não fosse o dos rapazes. Mas como eu não tinha nenhum pingo de sorte, e entraram no mesmo veículo. Olhei para Belle e pude perceber que ela também estremeceu.
O caminhão começou a andar e dirigir-se para fora da minha base militar. Agora não tinha mais volta. começou a puxar assunto com os soldados e eu temia que ele se dirigisse a minha pessoa ou a de Belle. Sem pensar puxei um cigarro que levava em minha farda. Percebi que virou seu olhar para mim naquele momento. Tentei disfarçar olhando para o lado. Belle começou a me cutucar quase como uma súplica para que eu parasse de tragar aquela fumaça perto dela, mas eu não conseguia. Não era de fumar com freqüência, apenas em momentos de extremo nervosismo e tensão, como aquele que estávamos passando.

Todos estavam tensos. Comecei a puxar assunto para descontrair. Havia dois soldados que pareceram ainda mais tensos quando comecei a falar. Quando um deles começou a fumar percebi algo de diferente e familiar. Fiquei encarando-o por mais alguns segundos até que falou próximo ao meu ouvido.
- Capitão, é impressão minha ou temos alguns intrusos nesse caminhão?
- Não , não é impressão, mas algo me diz que esses intrusos já nos conhecem e eu temo que também os conheça – disse encarando o soldado ao lado do que fumava.
- Não entendi Capitão... – parecia confuso.
- Espero que eu esteja errado... – disse mais para mim do que para ele e continuava olhando para aqueles dois a minha frente.

parecia preocupado com aqueles intrusos, mas temia dirigir a palavra a eles. Mas eu era diferente.
- Não me lembro do senhor nos treinos soldado – disse ao que fumava, ele não me respondeu – Como disse que se chama mesmo? – insisti em mais uma pergunta, mais uma vez o silêncio predominou.
Eles pareciam cada vez mais tensos, percebi que o jeito que o soldado fumava era uma tanto peculiar, diria até que era um pouco afeminado. E espera. Aquilo era batom? Cheguei a me sentir desconfortável com aquele soldado. Nada contra a opção sexual dele, mas era estranho. No fundo eu sabia que ‘eles’ na verdade eram ‘elas’, mas não tinha provas.

Belle

Seja um homem. Aja como um homem. Você é um homem, temporariamente, mas é. Eu repetia isso querendo que acontecesse algum milagre que fizesse aqueles dois pararem de me encarar. Rezava para que não se dirigisse a mim ou eu acabaria revelando tudo antes da hora, e iria me matar, antes mesmo de chegarmos ao campo de batalha. Continuava refletindo esse mantra na minha cabeça. Por sorte o caminhão parou e o medo de ser descoberta se transformou no medo de estar no campo de batalha e não conseguir sair viva de lá. Mas eu precisava ser forte por ele.

O caminhão havia parado. De repente todos ficaram tensos. e param de me olhar e tentar puxar assunto. Os soldados começaram a descer do veículo e eu e Belle fizemos o mesmo. O medo que eu sentia era inevitável, não apenas de ser descoberta, mas de morrer e não conseguir salvar os rapazes. O comandante daquele esquadrão separou os soldados em pequenos grupos contendo cinco pessoas. Mais uma vez a sorte não estava ao meu lado. Ou será que estava?
Belle, e estavam no mesmo grupo que eu. E o outro indivíduo era ninguém mais ninguém menos que o nojento do soldado Chill. Isso sim que era sorte, ironicamente falando. Adentramos na trincheira já com as armas carregadas. Havia uma pequena névoa e ficamos ali esperando o apito do comandante para avançar para a “terra de ninguém”. Aquela espera era insuportável meu coração não parava de pular, porém o apito soou em meus ouvidos e vi os soldados subindo indo em direção ao combate. Belle olhou para mim e pude sentir sua tensão. Dei uma última olhada para e antes de subir a escada e partir para o ataque. Antoniett estava atrás de mim.
Assim que chegamos à superfície havia uns barulhos estrondosos de bombas e tiros. Via alguns soldados caindo mortos ao meu lado fazendo com que eu ficasse mais desesperada do que nunca. Senti minha respiração acelerada, mas tinha que manter a calma ou pelo menos tentar.
Meu grupo se escondia atrás de um forte misturado de corpos e sacos de areia. Atirávamos e nos escondíamos várias vezes. Até que Belle se levantou para mirar em um soldado inimigo que estava muito próximo e o mesmo atirou em seu capacete, fazendo com que este caísse soltando seus lindos fios de cabelos loiros. O sol nascendo trouxe magicamente um brilho peculiar aos cabelos da francesa. Ela parecia um anjo jogando seus cabelos para os lados na tentativa de tirá-los de sua vista. Quando olhei para o lado , e muitos outros soldados estavam parados em estado de choque foi quando eu os deixei hipnotizados com a beleza da francesa e atirei no soldado o qual estava também em choque. Mas quando peguei impulso para atirar no inimigo meu capacete também caiu e pude escutar palavras chulas vinda da boca de e concordando com ele. Os ignorei me preparei para o segundo ataque.
- O que estão fazendo parados aí! – gritei o óbvio – Movam-se!
Todos os outros soldados saíram do transe exceto e . Preparei-me para o segundo ataque, mas vi Belle caindo gemendo e segurando sua perna direita. Com muita raiva comecei a atirar em todos a minha frente. Mas os inimigos faziam o mesmo. Foi quando senti uma dor em meu braço esquerdo. Não tive tempo de ver o que era, tinha que continuar a batalha. Corri para o lado de Belle e a levei para trás de um pequeno “forte”.
- Você está bem?! – perguntei para a francesa.
Ela apenas assentia com a cabeça, mas vi lágrimas em seus olhos.
- E você? – perguntou o mesmo.
- Vou sobreviver, assim espero. Isso não é nada. – respondi tentando controlar o meu nervosismo.
se aproximava de nós duas.
- O que cargas d’água vocês duas estão fazendo aqui? – falou ele com um olhar de desespero.
- Te pergunto o mesmo, Capitão . – intensifiquei o título dele, mas ele ficou calado por um momento, apenas as bombas falavam por nós.
- Pequena você tem que sair daqui. AGORA!
- Você não manda em mim , só saio daqui morta ou seriamente ferida! - ao terminar de falar senti minha perna doendo e sangrando de novo. Cai no chão, pois por incrível que pareça o tiro atingira o mesmo local de meu outro ferimento na perna. Ótimo, mais algumas semanas na cama caso eu não morra aqui.
Minha visão começou a ficar turva por conta da dor e pude ver um vulto se aproximando e senti meu corpo rastejando e cai em algum buraco. Pronto, estavam me enterrando viva. Era só o que me faltava. Escutei uma voz conhecida falando comigo.
- Jen! – gritou a voz familiar. – Aguenta firme! – caso ele não havia percebido eu estava tentando agüentar firme.
Por alguns segundos minha visão escureceu por completo, mas logo a imagem de George McMahon apareceu em minha mente. Aquele bravo homem que estava na base militar se recuperando de sua ida ao campo de batalha e que implorou para mim pedindo que eu permitisse sua volta àquele inferno. Já havia usado ele como inspiração para continuar resistente naquela guerra e dessa vez não seria diferente.
- Tenente ! Acorde! Abra os olhos! – uma voz feminina gritava e só podia ser a de Antoniett.
- Vamos Jen! – uma voz masculina gritava junto com a da francesa. Ele usava meu apelido, a voz era familiar, mas eu não sabia identificar se era ou gritando. Minha visão continuava turva devido à dor.
- Não podemos dar morfina a ela? – Antoniett gritava e eu me sentia uma inútil mais uma vez. Por que eu tinha que ser tão fraca?!
- Ela é alérgica! – outra voz masculina ecoou em meus ouvidos – Pequena, por favor, agüente mais um pouco!
Dessa vez era que falava comigo. Estava com ódio de minha pessoa. Ódio por eu ter sido fraca, ódio por ser alérgica à morfina. Dando um grito de raiva eu criei forças e consegui fazer com que minha visão voltasse a clarear. Pude ver , e Antoniett olhando para mim. Na mesma hora arranquei a faixa que segurava meus seios por debaixo de minha farda e a enrolei em minha perna, dando um nó firme e levantei de um súbito.
- Vamos! – disse ficando de pé e pegando uma arma que estava caída naquela trincheira não conseguindo evitar que as lágrimas de dor caíssem de meus olhos – A guerra ainda não acabou! – subi novamente aquela maldita escada e parti para o terceiro round.




Capítulo 17. Déjà Vu


Parecia que aquele dia nunca iria acabar. Estava exausta. Minha perna doía, meu braço doía, tudo em meu corpo doía. Mas eu não podia ser fraca novamente. Agüentei até cair desmaiada no meio daquela terra cheia de corpos já sem vida. Não sei quem me tirou de lá, mas quando acordei novamente estava em alguma enfermaria, não sabia exatamente em que lugar do mundo.
Abri os olhos lentamente e tentei me mover só para então perceber que meus ferimentos doíam, mas estavam já com curativos. Virei-me para o lado e vi um par de olhos verdes um tanto inchados olhando para mim e com um leve sorriso em sua boca.
- Por Deus você acordou! – disse com um suspiro de alívio.
- Onde estamos? – me ouvi perguntando com voz fraca.
- De volta à base Tenente. – ele disse.
- ... Belle... Onde eles estão? – perguntei novamente.
- Calma... Eles estão bem. Belle está em outro leito e está conversando com seu pai... – ele disse e passou a mão em meus cabelos – Por que fez aquilo? – ele perguntou um tanto confuso.
- mentiu para mim... Não queria que ele fosse para a guerra, assim como não queria que você fosse... – segurei em sua mão e esse gesto o deixou um tanto surpreso.
- você já pode voltar para seus afazeres e... Pequena? – entrou devagar na enfermaria e parou de falar assim que me viu acordada.
- Vou deixá-los a sós... Vocês têm muito que conversar – ele disse levando minha mão até seus lábios e a beijando.
Pude perceber que ficou um tanto vermelho com aquele último gesto de antes de sair da enfermaria. Observei saindo e assim que a porta se fechou voltei a olhar para .
- Já imaginou se tivesse acontecido coisa pior com você?! – ele começou a falar, mas se ele achava que iria sair como o ‘certo’ da história, ele estava enganado.
- E você? Já imaginou?! – fiz a mesma pergunta.
- Por que não me contou que sabia que eu iria para a guerra? – ele disse se aproximando de mim.
- Por que VOCÊ não me contou? – disse a mesma coisa, a eu era boa naquele jogo – você me prometeu que não iria se rebaixar para ir para aquela maldita guerra!
- Eu não me rebaixei!
- Mas foi para a guerra! – gritei, já que ele estava gritando comigo.
Por alguns segundos intermináveis, nós dois havíamos ficado em silêncio.
- Se algo mais sério tivesse acontecido com você... – seus olhos começaram a se encher de lágrimas – Eu... Não me perdoaria...
- Bom saber que pelo menos você iria ficar com remorso!
- Guarde seu sarcasmo para depois ! Eu falei sério! – gritou.
- E eu também! – senti meus olhos ficarem úmidos – , , ... Quando que você vai aprender que você não irá se livrar de mim tão cedo?! – fiz sinal para que ele se aproximasse mais e ele sentou-se ao meu lado na cama e pegou em minha mão – Só queria te proteger... Por que é tão difícil entender isso? – disse chorando.
- Tive um momento nostalgia agora... – ele disse sorrindo e chorando ao mesmo tempo.
- Hã? – perguntei curiosa e ele riu da minha expressão facial.
- Já brigamos e nos reconciliamos nessa mesma enfermaria uma vez... – ele disse enxugando minhas lágrimas.
- Quando você vai perceber que essa é sua ‘maldição’ por ser meu melhor amigo?
- Maldição? – ele disse com expressão de dúvida – Não chamaria esse meu ‘fardo’ da vida de maldição... Tudo bem que é uma tarefa extremamente difícil, às vezes exaustiva, tem que ter MUITA paciência... – bati em seu ombro e ele sorriu para mim – mas mesmo assim... Não chamaria de maldição. Pelo contrário... Isso é uma benção para mim! – não pude deixar de sorrir quando ele terminou de falar.
Ficamos nos olhando nos olhos por alguns momentos e de repente soltei uma risada que o deixou confuso, mas ele continuava sorrindo.
- Posso saber o motivo dessa sua risada tão bonita agora? – ele disse me olhando ternamente.
- Eu estava aqui pensando... Se eu estou ferida, e Belle também... Quer dizer que você terá que treinar os soldados para a próxima batalha!
- E você acha isso engraçado?
- Se eu acho isso engraçado? – soltei outra risada – Isso é MUITO engraçado! Você terá que aturar os soldados sozinhos agora, porque nem minha substituta irá poder te ajudar!
- To começando a achar que você quer me ver sofrendo... – ele disse sorrindo.
- Só um pouquinho... Digamos que é um ‘castigo’ por você não ter cumprido sua promessa... – ele ficou sério – ... – fiquei séria também.
- O que foi? – ele disse quase que com um suspiro.
- Não faça isso de novo... Por favor! – eu disse voltando a chorar.
- Hey... – ele disse enxugando minhas lágrimas novamente – Já aprendi minha lição... Te ver numa cama de hospital ferida é o pior castigo que eu poderia receber... Me perdoa pequena...
Levantei-me com esforço na cama até ficar sentada na altura dele. Aproximei-me de seu rosto e dei um beijo em sua bochecha e logo depois um abraço e fui retribuída por um abraço reconfortante e um beijo na testa.
- E ai doutor... Tem como eu sair dessa enfermaria? – disse olhando em seus olhos.
- Deixe-me ver seus ferimentos... – ele levantou o lençol que cobria minha perna e olhou para a mesma novamente ferida – Sabe quando dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar? Bom... Isso também devia servir para balas perdidas... Mas pelo o que vejo... Essa teoria é falsa – ele disse rindo – Terá que dobrar os cuidados com essa perna me ouviu Tenente? – assenti com a cabeça, se dirigindo para meu lado esquerdo ele verificou meu braço o qual havia recebido um tiro de raspão – Sorte que só raspou pequena...
- Ou seja...? – queria que ele chegasse logo ao ponto.
- Sim, você pode sair da enfermaria, mas agora e mais do que nunca você terá que redobrar os cuidados com essa perna!
- Isso eu posso fazer!
- E como você já está experiente nos ferimentos na perna – ele riu mais uma vez – vou pedir que você cuide de Belle também... Afinal, ela também fora atingida na coxa...
- Tudo bem...
- Bom, vou te levar para seu quarto. já deve ter levado Belle para lá... Vamos? – ele perguntou.
- Sim! – parecia uma criança quando recebe um convite para ir a algum passeio.
me ajudou a levantar e me levou até o quarto. Antoniett já estava em sua cama repousando, ela lia um livro. me arrumou na cama e dando um beijo em minha testa saiu do quarto.
- Agora estamos as duas presas a essas camas – Belle disse rindo.
- Bem vinda ao meu mundo! – disse não evitando que uma risada saísse de minha boca e ficamos em silêncio.
Virei-me de lado na cama e fiquei olhando para a janela até que o sono chegou e eu adormeci.




Capítulo 18. Acampamento


O tempo foi passando. Três meses haviam se passado, estávamos em Dezembro de 1943. Belle e eu ficávamos a maior parte do tempo na cama para que nossa recuperação fosse boa, mas às vezes íamos até os treinos para observar como estava se saindo, até ajudávamos de vez em quando. Nesses meses, muitos novos soldados chegaram à base, muitos saíram de lá rumo à Guerra e poucos voltaram em boas condições, isto é, quando voltavam. Meu pai quase quis me matar quando contou a ele que eu e Belle havíamos ido para a guerra. Acho que ele só não me acorrentou na cama porque teve bom senso.
não havia sido um desses soldados. Nem ele, nem . Proibi-os de voltarem àquele inferno enquanto estava inválida, mas por dentro eu havia os proibido para sempre. Digamos que havia se tornado um grande amigo para mim. Às vezes enquanto estava nos treinos, vinha me visitar no quarto, quero dizer, NOS visitar, afinal, Antoniett também estava lá. Ele conversava com nós duas, mas quando Belle adormecia, eu e ele ficávamos conversando até altas horas ou até Belle acordar ou até que entrasse no quarto com cara emburrada, dando uma dura no soldado e ficando vermelho de ciúmes.
Sim. Eu sabia que sentia ciúmes de comigo, acho que ele não queria que fosse meu outro ‘melhor amigo’. Coisa besta dele. é único pra mim. Mas também é um grande amigo.
Minha recuperação e de Belle foi perfeita devido nosso repouso absoluto. Uma semana atrás nós já havíamos voltado aos treinos ajudando o Capitão nas tarefas. Os soldados novos que chegavam já vinham para a base sabendo que havia duas mulheres lá, por isso as piadinhas contra minha pessoa e a de Belle cessaram um pouco, mas não por completo. Chill continuava com suas piadinhas, sim ele havia sobrevivido às muitas idas ao campo de batalha, ele era um soldado forte e bem dedicado, apesar de sua arrogância, mas descobri que esse seu comportamento era o normal dele, por isso aprendi a aceitar, mesmo não gostando.
Levantei cedo junto com todos os outros soldados e Belle e fomos tomar o café da manhã para iniciarmos os treinos do dia. Nesses três meses que se passaram minha mesa no canto do refeitório passou a ser ocupada diariamente por mais algumas pessoas. , e Antoniett. Conversávamos muito durante as refeições. Muita coisa havia mudado. A ida ao campo de batalha havia ME mudado interna e fisicamente também, já que agora eu possuía marcas definitivas da guerra em meu braço e em minha perna.
Tomamos o café da manhã e seguimos em direção à tenda de treinos. Era segunda-feira, ou seja, novos soldados chegariam para serem treinados.
Não sabia o que estava acontecendo, mas dessa vez a tenda estava lotada. Fiquei até espantada pela quantidade de soldados que lá estavam. , e Belle pararam ao meu lado e esperaram que eu começasse o discurso.
- Bom dia soldados! – gritei, fazia tempo que não tomava a frente da situação, estava com saudades de ser autoritária.
- Bom dia! – eles responderam em uníssono e fizeram posição de sentido
- Sou a Tenente...
- ! – um soldado interrompeu – já sabemos... Sim rapazes, ela é uma mulher e sim, há duas mulheres nesse batalhão, querem um conselho? Não as desafiem... Elas não são delicadinhas assim como aparentam... – Chill apareceu na tenda e começou a falar no meu lugar – outro conselho, a menos que tenham mais de 50% de intimidade com elas, não interrompa o discurso inicial de todas as manhãs assim como eu estou fazendo agora.
- Você não tem nem 1% de intimidade comigo soldado! – disse seca e pude escutar algumas risadinhas.
- Será? – ele me desafiou.
- Seu nariz deve estar com saudades do meu punho! – ameacei a bater nele no nariz.
- Quanta violência Tenente! Não está mais aqui quem falou! – ele disse erguendo as mãos na altura do peito em sinal de rendição – De qualquer forma, vim aqui só para comunicar que alguns soldados retornaram do campo de batalha, não foram muitos e quase nenhum deles está inteiro, mas estão vivos.
- Obrigada soldado! – agradeci mesmo que por dentro eu estava com vontade de quebrar o nariz dele novamente por me interromper – agora volte para seus afazeres! – ele bateu continência e saiu da tenda.
Fiquei olhando aqueles soldados que me olhavam a espera de que eu continuasse o discurso. Respirei fundo. Olhei para , , Belle e os soldados. Era Dezembro, faltava uma semana para o Natal. Sempre gostei do Natal e do espírito que nele surge. Esperança, amor, coisas boas. Meu último Natal também fora aqui na base e por mais que estivéssemos no meio da Guerra, não deixei passar essa data me deprimindo, pelo contrário, tentei ficar o mais feliz possível. O que quero dizer é que antes de falar o que eu tinha para falar àqueles soldados eu simplesmente relaxei e comecei a rir.
- Ela está bem? – escutei falando com .
- Iria perguntar a mesma coisa agora – respondeu para .
- Querem saber? – levantei a cabeça e comecei a falar sorrindo para os soldados – Vamos mudar os treinos de hoje! Estamos no meio de uma guerra, eu sei, mas isso não significa que temos que ficar com essas caras de que o mundo vai acabar. Os treinos hoje seriam de mira, camuflagem e depois iríamos para o circuito...
- Tenente... O que está fazendo? – perguntou confuso.
- Daqui uma semana é Natal. Para mim, essa é uma data importante, apesar de estarmos no meio de uma Guerra sem motivos para celebrá-la, mas é exatamente por isso que devemos comemorar. Minha falecida mãe dizia que o Natal faz surgir nas pessoas um sentimento bom, seja ele de esperança, alegria, amor... – abaixei a cabeça – ou a junção de diversos sentimentos que nos fazem sentir bem – ergui minha cabeça novamente, todos estavam confusos com aquele meu discurso, mas todos prestavam muita atenção – Que tal esquecermos por pelo menos um dia que essa guerra existe? Sei o que todos estão pensando: “Ela é louca? Está passando bem? Como podemos esquecer uma Guerra?” Não podemos. Nunca esqueceremos essa guerra, mas por pelo menos um dia eu queria que TODOS se divertissem e tentassem fingir que não há guerra nenhuma... – falei – podem fazer isso por mim? Por um dia? – perguntei e vi que todos se entreolhavam confusos.
- Eu topo! – disse um soldado que estava na fila e logo em seguida todos os outros concordaram com ele.
Olhei para , e Belle que estavam ao meu lado, apesar de confusos eles sorriram e assentiram com a cabeça concordando com os outros soldados. Sorri de volta.
- Obrigada. – disse e esperei que todos ficassem em silêncio novamente – Por um dia, eu quero que todos voltem à infância, quando essa guerra não estava nem perto de acontecer... O que iremos fazer é simples e espero que todos se divirtam comigo. – eles aguardavam ansiosamente o que eu iria falar – Vamos transformar essa base militar em um acampamento infantil – todos me olhavam como se eu fosse retardada – Calma, o que quis dizer é que, hoje, eu quero que todos vocês treinem como se fossem crianças, ou seja, brinquem! Sim! Brinquem, de jogos que vocês jogavam na infância, brinquem de qualquer coisa que seja, mas brinquem, e esqueçam por algumas hora o terror da guerra.
- Tenho uma ótima brincadeira para começarmos esse nosso ‘dia de acampamento’ Tenente! – Belle falou.
- Diga Belle!
- Taco! – ela disse com um sorriso no rosto – Vamos brincar de taco!
Brinca-se de taco com uma bolinha, dois tacos e duas "bases" (que podem ser uma latinha vazia de refrigerante, ou qualquer outra coisa que pare de pé.)
Os jogadores se dividem em dois times. Um time começa com os tacos (os rebatedores) e o outro com a bolinha (os lançadores). Os lançadores devem tentar derrubar a base oposta com a bolinha, e o rebatedor deve defender a base com o taco. Se o rebatedor acertar a bolinha, o lançador da base oposta (que jogou a bola acertada) deve correr para pegá-la. Enquanto o lançador não pegar a bolinha, os rebatedores correm entre as bases e batem os tacos quando se cruzam. Cada batida vale um ponto. Quando o lançador pega a bolinha, ele pode jogá-la para o parceiro ou tentar acertar um dos rebatedores. Quando um rebatedor é acertado pela bolinha fora do círculo, ele é queimado. Quando a base é derrubada ou um jogador é queimado pela bolinha, invertem-se os times: lançadores passam a ser rebatedores. Tem que combinar o número de pontos necessários para ganhar antes de começar o jogo.
Até que não era má ideia, apesar de não ter jogado muito na infância eu sabia as regras básicas, aceitei na hora e muitos outros soldados também. Alguns disseram que iriam jogar futebol, outros que iriam apenas observar. Apenas permitir, só queria que todos se divertissem naquele dia.
Montamos os times e começamos a jogar. Belle e eu não duramos muito tempo no jogo, nossas pernas estavam boas, mas não 100% recuperadas, ou seja, não podíamos correr muito e os rapazes eram muito mais rápidos que a gente.
Belle foi conversar com alguns soldados novos e eu me sentei na frente da tenda de armamentos para descansar um pouco enquanto via que todos estavam se divertindo de alguma maneira. Não só os novos soldados como todos os outros que já estavam na base já tinha um tempo. Não tardou muito para a noticia chegar até meu pai e o mesmo aparecer com uma expressão duvidosa no rosto perto do circuito.
- Mas o que está acontecendo aqui?! – meu pai falou e todos pararam de ‘brincar’ e ficaram em silêncio. Meu pai virou o rosto até me achar sentada no chão rindo do medo dos soldados – , pode me explicar o que significa essa algazarra na minha base?! – eu ria e todos estavam apreensivos com as atitudes do Coronel, até que o mesmo começou a rir junto comigo – Voltem para as brincadeiras de vocês! Eu já sei de tudo que esta acontecendo aqui, só queria chegar aqui e ver a cara de espanto de todos, já valeu meu dia! Agora retornem à infância mais uma vez! – dizendo isso os soldados riram também e voltaram para seus jogos. Meu pai se aproximou de mim.
- Você deu um baita susto neles hein Coronel! – disse sorrindo.
- Só você mesmo para fazer essas coisas hein filha... Está se divertindo? – ele me perguntou.
- Muito! – disse.
- Por que está aqui sozinha então?
- Minha perna não está completamente boa, parei só pra descansar e observar os outros se divertindo... Quem entrar aqui agora não vai acreditar que isso é uma base militar...
- Não mesmo! – ele riu.
- Não está bravo, está? – perguntei.
- De jeito nenhum! Sempre quis fazer algo assim, mas nunca tive coragem, sorte que tenho uma filha maravilhosa e meio louquinha que pode fazer isso por mim! – ele sentou-se ao meu lado e me abraçou – Nunca fui de dizer isso, mas têm vezes que precisamos dizer e escutar mais vezes... Eu te amo!
- Eu também te amo papai! – falei como uma criancinha, ele me deu um beijo na testa.
- Bom, tenho que ir fazer alguns relatórios já que os oficiais superiores estão brincando! – ele riu e bateu continência e voltou para o quartel general.
Fiquei observando os soldados rindo e brincando como se realmente estivessem em um acampamento de férias.
- Atrapalho? – se aproximou e sentou-se ao meu lado.
- Nunca! – disse sorrindo para o soldado.
- O que foi isso? – ele perguntou olhando para os soldados se divertindo também.
- Estava de saco cheio desse clima tenso da base... Um pouco de diversão não mata ninguém não é? – olhei para ele.
- Não... Pelo contrário, ela nos revigora! – ele olhou para mim também – queria que esse dia nunca acabasse... Te ver sorrindo assim só por ver alguém sorrindo e EM PÚBLICO – ele riu – é muito revigorante...
- Queria que não houvesse guerra...
- Hey! Hoje estamos no acampamento de férias! Nada de falar de guerras, a não ser que tenha guerra de comida no refeitório mais tarde! – ele riu.
- Talvez, quem sabe... – eu ri e olhei em seus olhos e ele retribuiu o olhar.
- Vamos! – ele disse se levantando.
- Aonde? – perguntei.
- Brincar! – ele sorria.
- Estou descansando! – disse, mas ele me puxava pelo braço me erguendo do chão.
- Não ligo para seu descanso - ele soltou uma gargalhada – venha, estamos montando os times!
- Times? – perguntei novamente.
- Caça a bandeira! – ele disse o nome do jogo.
- Não posso correr muito ! – disse querendo ficar sentada apenas observando.
- Você fica na defesa da bandeira! Vamos Jen! – escutar meu apelido vindo da boca dele era meio contagiante, não hesitei de novo e fui com ele até o campo onde estavam sendo separados os times do jogo.
Os times continham dois líderes. Antoniett e . Fiquei no time de , já que Antoniett também ficaria na defesa por conta de sua perna. ficou no time da outra Tenente e ficava me ‘ameaçando’ durante o jogo. corria demais e era o melhor naquele time. Quando os soldados se aproximavam para pegar nossa bandeira eu defendia. Final do jogo: vitória do time de Antoniett. Não achei justo. armou uma emboscada para que eu me distraísse e conseguisse pegar a bandeira. O moreno de olhos verdes estava próximo de mim e fingiu cair no chão fazendo parecer que tinha se machucado de verdade. Fui socorrê-lo e outro soldado conseguiu pegar a bandeira e voltar para o lado do campo do time dele. pediu desculpas rindo e eu bati em sua barriga. Um soco forte que o fez cair no chão e se contorcer de dor. De verdade.
Foi um dia exaustivo. Mas foi bem divertido. Aproveitei como nunca, afinal, não sabia quando iria ter um dia como aquele novamente, SE iria ter um dia como aquele novamente. Alguns soldados ficaram brincando até o anoitecer, eu voltei para meu quarto para descansar um pouco.




Capítulo 19. A triste história de Belle


Era noite, depois de tudo que se passou eu fiquei um pouco mais calma. Não por completo, estávamos cansadas. Entrei em meu quarto e vi que Belle não estava na cama descansando, dei de ombros. Fui em direção de meu armário para colocar uma roupa limpa, porém minha curiosidade falou mais alto e vi uma fotografia pendurada no armário aberto de Belle. Lá estava ela com um homem, muito bonito por sinal, perto da Torre Eiffel e estavam juntos e felizes. Aproximei-me da fotografia e percebi a aliança nos dedos anelares de ambos. Senti meu coração apertar. Belle é muito jovem, ela tem a mesma idade que eu e já fora casada? Ela estava linda na fotografia. Se aqui os homens enlouquecem com sua beleza, isso é porque não a viram com o conjuntinho social mais meigo de todos. Senti uma ponta de inveja de sua beleza. O homem por sua vez estava usando uma farda com a bandeira da França estampada, obviamente um soldado francês. Os dois pareciam tão felizes...
- Tenente? – falou a voz de Belle que me pregou um grande susto – O que estava fazendo? – falou ela com um tom de desespero e foi se dirigindo ao pequeno armário para fechá-lo.
Não sabia exatamente o que dizer.
- Olha, eu sei que fizemos um acordo de não mexer nas coisas alheias, mas... – o que mais eu poderia falar? – Foi inevitável... – olhei para seu rosto que não expressava nada – Já que a porta estava aberta. Sinto muito.
Ah, como eu pude fugir de minhas próprias regras? Senti-me a pior de todas. Fui em direção ao meu armário me concentrando em pegar meu pijama.
- Tenente, não se preocupe com isso. – falou ela percebendo a minha tensão.
Tenente Antoniett, saiba de uma característica minha. Eu odeio não seguir minhas próprias regras. Ela fora em direção de seu armário o abriu e pegou a foto. Ficou admirando com um olhar que eu não entendia, uma grande incógnita. Ela levou a foto ao peito e ficou ali por algum tempo. Continuei com as minhas atividades. Peguei meu pijama e fui em direção ao banheiro para poder tomar um banho. Não é que eu não gostasse de Belle, é que às vezes ela me irrita. Acho que é assim por conta de sua nacionalidade. Meu pai falava tão mal dos franceses para mim quando era pequena que acabei pegando esta birrinha infantil. Sim, isso é uma grande infantilidade por parte de meu pai e minha. Entrei no banheiro. Quando adentrei na pequena ducha quente pude sentir cada músculo do meu corpo que estavam rígidos, amolecerem. Lavei muito bem meu rosto. E me senti tão livre, tão leve. Parecia que o peso da guerra havia ido ralo a baixo. Quem dera se eu pudesse ficar ali por toda a eternidade. Quem dera que Hitler nunca tivesse nascido e quem dera que o homem não tivesse ódio... Quem dera que guerras não existissem. Talvez sonhar com um dia em que a paz seja a soberana me acalme... Não, foco nos dias de luta, para alcançarmos os dias de glória. Mas que a glória não demore muito para chegar.
Sai do banho com o meu pijama que era de minha mãe. Nunca havia usado na frente de Belle, pois sentia vergonha de mim mesma já que ela era tão... Dói-me tanto dizer isso, mas ela era muito bonita. E depois que vi aquela foto, este pijama era a única roupa mais feminina que eu tinha. Sai do banho e me olhei no espelho, tentei arrumar meus cabelos que estavam úmidos, dei alguns sorrisos para ver se eu ficava como Belle na fotografia, mas de nada adiantou. Eu era simplesmente... Tenente . Devo me conformar que cada um tem a sua beleza, apesar de eu não ter ligado para mim depois de alguns meses. Depois dessa sessão de “tentar ficar bonita” me deparei com Belle sentada no chão, com o rosto vermelho como as rosas e com lágrimas grossas rolando em suas bochechas.
- Tenente ! – falou ela depois de ter pulado como uma gata do chão deixando várias fotos caírem de uma caixinha que estava abraçada ao peito da francesa.
As fotos só tinham a mesma pessoa. O soldado de Belle, o seu marido. Todas aquelas fotos tinham eles dois juntos. Algumas só ele. Outras só ela. Arregalei meus olhos quando vi a quantidade de fotos. Mas juntos delas caíram também envelopes de cartas.
- Vou guardar isso imediatamente – falou ela entre soluços, como uma criança que tentava engolir o choro.
- Permita-me ajudá-la. – disse me abaixando para recolher as cartas e as fotos.
Não pude deixar de reparar na beleza de Belle nas fotos. Tão feminina e delicada. Como alguém como ela pode ir para a guerra? Olhei para ela que me olhava com seus olhos azuis arregalados.
- Algum problema, Belle? – perguntei um pouco assustada.
- É, nada. – disse ela se virando para continuar a recolher suas fotos. – Obrigada, .
Ah, eu não me estava aguentando de curiosidade! Tinha que perguntar quem era aquele cidadão.
- É seu marido? – nossa como sou delicada!
- Sim – falou ela depois de um longo suspiro – Ele se chamava Pierre Chevalier, era um Capitão do primeiro batalhão da França. – ela suspirou mais uma vez – Desculpe, mas acho que você não se importa com essa história, não é mesmo?
- Se você não quiser me contar vou respeitar o seu silêncio. – disse com um maldito nó na garganta.
- Não, estou cansada de guardar essa história para mim e fingir que está tudo bem porque não está! – falou ela aos prantos.
Assustei-me novamente quando recolheu todas as coisas de uma vez e colocou de qualquer jeito na caixa de madeira. Sentou-se na beira da cama e fez um sinal para que eu meu juntasse a ela.
- Belle, você está me assustando. – disse.
- Quer ouvir uma história antes de dormir? – perguntou ela – É uma história que não tem um final feliz.
Fui em direção a ela. Fiz isso por impulso, estava me corroendo de curiosidade de saber essa história. Sentei um pouco afastada dela.
- Pierre e eu nos conhecemos em Paris um ano antes da guerra explodir de verdade. Eu tinha dezessete anos e ele vinte e três. – começou a contar ela com um sorriso tímido no canto da boca. – Desde aquela época ele já servia ao exército francês, mas só aparecia no quartel algumas vezes já que eram dias de paz. Pode parecer besteira, mas foi tão romântico como nos conhecemos.

“Eu não era de Paris, era de uma cidade no interior e era minha primeira visita a Torre Eiffel. Aquela criatura gigante que parece que nunca vai cair me encantava de todas as formas. Eu estava no segundo andar admirando a paisagem da minha amada França, quando o meu chapéu havia caído. Corri todas as escadas para pegar o meu acessório, e quando eu vi um lindo homem de terno e gravata preta estava segurando e olhando para cima.
- Com licença – falei timidamente – Este chapéu é meu.
Senti meu rosto queimar quando o belo rapaz se virou para me encarar.
- Vi um belo anjo lá de cima, achei que era uma miragem. Agora vejo que ele existe e é dono deste lindo chapéu.
Naquele momento senti meu coração acelerar. Naquele momento eu senti que Paris estava quieta e que só havíamos nós, embaixo da Torre Eiffel.
Ele estendeu as mãos.
- Sou Pierre Chevalier, muito prazer em conhecer a senhorita.
Educadamente eu estendi minha mão para cumprimentá-lo, mas ela foi erguida até seu rosto para ser beijada. Fiquei sem palavras. O ar que tanto havia agora me faltava.
- Como se chama? – perguntou ele me tirando do meu pequeno transe.
- Me chamo Belle Antoniett. – falei enquanto recuperava meu fôlego.
Meus pais me permitiram passar à tarde com aquele jovem, já que ele havia conquistado o carisma de meu pai e a confiança de minha mãe. Andamos em círculos em volta da Torre e passamos a tarde falando sobre as nossas famílias e nossos passatempos. Descobri que era militar e algo em meu peito doeu tanto que tive que me conter para não gritar. Uma sensação tão estranha apareceu de repente. Mas logo passou quando fomos tomar um chá.
A hora do adeus foi pior, mas por pura sorte ou por coincidência eu ficaria alguns meses em Paris na casa de uma tia.
Assim, deu tempo de nos apaixonarmos profundamente. Nunca me senti tão amada antes de conhecer Pierre. Ele era o meu refúgio, meu melhor amigo e minha outra parte. Quando ficávamos longe um do outro era como se algo nos matasse por dentro.”

Belle contava a história com os olhos brilhando, mas quando foi terminando de contar seus olhos brilharam mais ainda. Meu coração pedia mais e mais dessa história.

“O pedido de casamento foi o mais lindo de todos. Nós iríamos passear por toda a Paris, como no dia que nos conhecemos, assim coloquei meu melhor vestido, passei o melhor perfume e coloquei o melhor batom para ir ao encontro dele.
Foi como um sonho de toda garota, lá estávamos nós embaixo da Torre Eiffel. Ele ajoelhado me mostrando um anel fino e simples, com um pequeno pontinho de brilhante. Ele deve ter gastado uma fortuna.
- Foi de minha mãe. – disse ele ainda ajoelhado.
Não havia outra resposta a não ser um enorme sim. Lágrimas de felicidade escorreram de meu rosto. Ele me pegou e nos abraçamos por muito tempo.”

Ela abriu novamente a caixinha e pegou a foto que estava pendurada no armário e me mostrou.
- Foi nesse dia que ele me pediu em casamento. Meus pais ficaram surpresos com a decisão já que eu era jovem demais, mas minha mãe se casou com quinze anos. – ela deu de ombros.

“Meu casamento foi o mais simples de todos. Mas foi o mais emocionante. Fomos morar em uma casinha perto da de minha tia. Fora um presente de toda a minha família junto com a dele. Ali tivemos nossa primeira noite de amor. Tivemos nossa primeira briga e nossa primeira reconciliação... Era um pedacinho do céu. Foi também naquele ano que eu descobri que estava grávida do nosso primeiro filho no dia do meu aniversário.
Mas para a nossa infelicidade, quando eu estava no sexto mês de gestação Pierre recebeu uma carta de convocação para a Guerra. Ele deveria se dirigir o mais rápido possível para Paris.
- Prometo que eu vou voltar, com a cabeça de Hitler e Mussolini! – falou ele com confiança.
Nossa despedida foi uma das mais longas.
Meus olhos ardiam tanto que eu não saberia se aguentaria a nossa distância. Trocamos juras de amor, e ele passava a mão na minha barriga que protegia o fruto do nosso amor.
- Promete que vai voltar? – perguntei entre soluços. – Diz pra mim que você vai voltar inteirinho são e salvo! E que vamos ser muito felizes até o fim? – falei chorando ainda mais.
- Prometo, Belle. Eu prometo. Mas quero que prometa uma única coisa. – falou ele limpando minhas lágrimas – Quero que o nome do nosso filho seja Jean e se for uma linda menina quero que se chame Belle.
- Belle?
-Sim, e que tenha também a sua beleza. – falou ele com algumas lágrimas nos olhos.
E assim ele partiu. E não cumpriu sua promessa.”
- Como assim? – perguntei entre lágrimas, pela primeira vez eu não estava sendo egoísta o suficiente para chorar só por mim. – Como assim ele não cumpriu?
Ela deu um longo suspiro e continuou a contar.
“Houve um pequeno conflito entre França, Itália e Alemanha. Meu Pierre estava lá. No primeiro batalhão. Esse conflito não foi tão estrondoso, mas matou um pouco mais da metade do exercito francês. E meu Pierre se foi não cumprindo a promessa. Antes de partir ele me enviava cartas me dando esperança de que a guerra estava acabando e que era pra eu preparar um almoço para sua volta. Mas toda a esperança foi em vão.
Quando a última carta foi entregue pessoalmente pelos oficias eu perdi meu chão, pois junto deles veio a noticia de que ele falecera e que seu corpo havia se perdido.
Eu não aguentei e nem meu filho aguentou a minha tristeza. A dor era intensa demais que tive um aborto espontâneo. Eu matei o nosso amor e ele levou o nosso filho junto. Nada me sobrou a não ser as lembranças dele.
Voltei para a casa dos meus pais. Vendi nossa casa. Tentei apagar ele da minha vida, fingir que ele nunca existiu, mas tudo isso foi em vão.”


Pela primeira vez, depois de muito tempo eu comecei a chorar como um bebê junto de Belle. Ela secava as minhas lágrimas enquanto sorria levemente para mim.
- Foi você que me salvou de mim mesma sabia? – falou ela.
- Como assim? – perguntei enquanto assoava meu nariz em um lenço.
- Me alistei para o exército para me vingar da morte do meu marido. Você me inspirou. - falou ela passando sua mão macia em meu rosto. – Eu gostaria de te dizer algo que eu nunca consegui. Obrigada por me salvar de mim mesma. – falou ela.
Não aguentei, nos abraçamos e ficamos ali chorando por um bom tempo. Chorei não só por Belle, mas por todas as mulheres que perderam seus maridos na guerra. Chorei pelos pais que perderem seus filhos. E chorei pelos filhos que perderam seus pais. A guerra quebra laços, mas também une. Vi isso quando eu e Belle nos olhamos e rimos uma da cara da outra, como se fôssemos grandes amigas. Estávamos com os olhos inchados e vermelhos.
- Às vezes, eu dou em cima de alguns soldados para tentar me livrar do fantasma de Pierre. – falou ela. – Mas tudo isso é em vão, por que nenhum homem está à altura dele.
- Oh, Belle, me desculpe... Por tudo o que eu fiz. Desculpe-me! – falei enquanto a abraçava.
- Pelo que? Cheri, você não fez nada.
- Sim, Belle. Julguei-te antes mesmo de te conhecer. Chamei-te de vagabunda antes mesmo de te conhecer melhor! Senti-me a pior das piores.
- , todos nós usamos máscaras. Eu uso essa para aliviar minha tensão. – disse ela afagando suas mãos em seu rosto. – Mas eu vou parar, não acho certo. Assim como você usa essa máscara de durona. Mas tem um coração mole e lindo. Como demonstrou hoje no ‘acampamento’ – terminou ela enquanto admirava meu rosto.
- Belle, obrigada. – foi a última coisa que consegui falar.
Belle tinha razão, eu usava uma máscara para eu não me machucar. Mas será que eu deveria parar de usá-la?


Continua...



Nota da autora: Olá meus amores, está na hora de dar uma atualizada no recado, não é mesmo? Pois então vamos atualizar!
A vida está corrida, sempre esteve e sempre vai estar, mas estou num momento de redescobertas e de recuperação/reabilitação da minha vida de escritora. Assim como disse para uma leitora que aqui comentou, fiquem na torcida que um dia volto a ser a escritora que até mesmo eu sinto saudades de ser.
Como muitas sabem e quem não sabe ficará sabendo nesse momento, a [War]ning é fanfic, mas ela já virou livro, publicado e tudo, eu ainda não tenho certeza do futuro dela aqui no site, se postarei tudo ou até certo capítulo, e isso invoca também a questão de que eu possa estar fazendo ou não um final alternativo do original que está no livro, exclusivamente para postar aqui no site. Vamos aguardar porque são cenas dos próximos capítulos.
Como falei para uma leitora nova da minha bebê, eu fico muito feliz de ainda receber comentários recheados aqui, fico feliz de saber que a [War]ning ainda está viva no coração da galera e espero que nunca morra. Ela não foi a minha pioneira nos sites de fanfics, certamente não será a última, mas ela é a história que querendo ou não, mais amo na vida, ela me trouxe muitas alegrias e pelo jeito continua me trazendo.
Desculpem a nota enorme, acredito que muitas não vão ler, mas para quem ler: eu amo vocês (e quem não leu também).
Beijos amores.




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