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When Harry Met Destiny


Última atualização: 13/06/2016




PARTE I


Capítulo 1


HARRY


Harry estava atrasado, mas não era sua culpa. O British Airways 283 não saíra no horário previsto, e não havia nada que ele pudesse fazer. Na verdade, ele podia usar de sua influência e fretar um jatinho. Afinal, qual a vantagem de ser um popstar se não puder utilizar de seus privilégios? Mas preferiu não arriscar. Mesmo quando se é famoso, fretar um jato de última hora não é tarefa rápida, e era mais provável que o voo pelo qual estava esperando decolasse antes, de qualquer forma.
Espreguiçou-se na cadeira em que estava sentado e checou seu relógio: 8:00h da manhã. Rapidamente fez as contas: eram 11 horas e 20 minutos de voo... Se tudo desse certo, estaria em Los Angeles às 19h. Não, espera! Tinha o fuso horário. Estava se esquecendo do fuso horário. Como se esqueceu de uma coisa dessas? Graças à diferença de oito horas, seu status passou de “atrasado” para “bem a tempo”. Ele chegaria em Los Angeles às 11h da manhã. Tudo estava sob controle.
“Ainda bem que não fretei nenhum jatinho”, pensou, soltando um suspiro. E, pela primeira vez no dia, se permitiu relaxar.
Desde que acordara de suas preciosas duas horas de sono, Harry tinha a sensação de que seu cérebro não estava funcionando direito. Era assim que se sentia ao fim de toda turnê, e o episódio que acabara de ocorrer só serviu para lhe provar que, sim, ele estava certo.
(Às vezes, quando se encontrava nesse estado, seus companheiros de banda se aproveitavam para tentar confundir sua cabeça, tentando convencê-lo das coisas mais absurdas possíveis. Já disseram de forma convincente que a realidade em que vivemos é a mesma do filme Matrix, e que seu nome realmente era Harold, mesmo que ele pudesse ler claramente em seu passaporte que se chamava Harry Edward Styles. Já tentaram até enfiar em sua mente que Larry era real, e mesmo tendo plena certeza de sua heterossexualidade, e de que nunca se sentira atraído por Louis, Harry acreditou. Por alguns segundos, acreditou em tudo aquilo. Culpa do seu cérebro que se recusava a funcionar.)
Harry sabia que o dia seria cheio, mas esperava encontrar algum tempo para descansar. Às 19:30h, sua presença era imprescindível na casa de Adam. Haveria uma pequena confraternização — nada de mais, provavelmente um jantar rápido para que todos colocassem a conversa em dia — envolvendo amigos próximos e, em seguida, era sua missão liderar a despedida de solteiro de seu amigo que, por sinal, se casaria no dia seguinte.
Harry estava animado com a ideia por vários motivos: primeiramente, ele gostava de casamentos. Sempre gostou. Nunca compartilhou daquele medo sem sentido da maioria dos homens em relação ao matrimônio. Nunca achou graça das camisetas estampando dois bonecos se casando, juntamente da frase “Game Over” — apesar de já ter rido da piada algumas vezes só para não deixar seus amigos sem graça. Mas o fato de não se assustar com casamento não significava que Harry passava todos os dias de sua vida sonhando em se casar. Ele não tinha planos de se casar em um futuro tão próximo. Era muito novo, e nem estava em um relacionamento sério. Para falar a verdade, sequer tinha tempo para viver um. No momento, o que importava para ele era sua carreira, e continuar fazendo bem aquilo que mais amava.
O segundo motivo que deixava Harry ansioso pelo dia que estava por vir era, talvez, o mais importante: ele fora escolhido para ser o padrinho do casamento e, por isso, deveria fazer um discurso. Ele estava nervoso, não podia negar. Estava acostumado a estar em um palco e falar para milhares de pessoas, mas era diferente quando a plateia em questão era consideravelmente menor, formada por pessoas conhecidas, e piadas de “Toc. Toc. Quem é?” não poderiam ser utilizadas. Sem contar que ele era melhor cantando do que falando, e não poderia cantar... Poderia? Era uma boa ideia. Ele poderia cantar, qual o problema? Não o discurso todo, claro. Mas poderia preparar alguma surpresa. E não podia estar bêbado. Ele sabia muito bem que se bebesse e pegasse o microfone para cantar alguma coisa, iria acabar pelado performando Wrecking Ball.
Retirou seu celular do bolso e, sussurrando, para que ninguém mais pudesse ouvir, gravou uma nota de voz: “Não beber. Lembrar de não beber. Pelo menos não antes da minha hora de falar”.

DESTINY


A boate estava lotada. Eu mal conseguia me locomover entre a enorme quantidade de pessoas que dançava na pista. Naquele momento, papai com certeza estaria deitado em seu camarim, com rodelas de pepino em seus olhos, se preparando para mais um show. Uma verdadeira diva. Não vou negar que, no que diz respeito a entretenimento, meu pai era meu maior ídolo. Maior que Madonna. Maior que Beyoncé. Maior até mesmo que — e eu precisava falar isso bem baixo para que ninguém ouvisse e me chamasse de herege — Cher.
Não que ele fosse tão famoso quanto Cher, Beyoncé ou Madonna. Na verdade, acho que bem longe disso. Meu pai era uma drag queen conhecida em Los Angeles, e também era dono de uma das melhores boates LGBT da cidade. Mas o que me fazia considerá-lo meu maior ídolo não era só seu talento e suas incríveis habilidades em cima de um palco (ele dublava e dançava como ninguém, mesmo com 50 anos). Eu só não podia deixar de admirar a única pessoa que se importou comigo o suficiente para mudar minha vida.

***


Eu vivi em um orfanato até os meus treze anos. Àquela altura, todos já tinham aceitado a ideia de que, não, ninguém iria me adotar. Eu era uma das crianças mais velhas que ainda viviam ali, perdendo apenas para Anne, quinze anos, e Jason, de dezesseis. Todos os casais que consideravam a ideia de adoção só estavam interessados em um perfil: menina, branca, e de até dois anos de idade. Claro que a segunda opção para esses casais estava bem longe de ser adolescentes que, além da chatice inerente à idade, ainda tinham altas chances de estarem traumatizados por terem crescido em um abrigo. Sabe como é, ninguém quer começar sua jornada pela paternidade já tendo que gastar com terapia, absorventes e, sei lá, aulas sobre educação sexual. E tudo bem, eu admito: nós éramos uma bagunça. Anne, Jason e eu éramos provavelmente o maior exemplo de falta de autoestima e esperança que pessoas de tão pouca idade podiam apresentar. Passar pela adolescência é difícil. Passar pela adolescência sendo órfão e esquisito é ainda pior.
Aceitar a tarefa de se tornar nossos pais não seria muito fácil, mas ninguém pensava no lado bom de adotar crianças mais velhas. Anne, Jason e eu chegamos até a fazer uma lista:

1) Nós já sabíamos falar, ler, andar e podíamos até realizar os serviços domésticos, se você é chegado em escravidão infantil.
2) Não existiria necessidade de trocar fraldas porque: tcharan! Nós já sabíamos usar o banheiro, sozinhos. E tomar banho sem ajuda de ninguém.
3) Ninguém para chorar de madrugada e atrapalhar o seu sono.
4) O seguinte diálogo jamais teria que existir:
— Ei, senta aqui, precisamos conversar. Você sempre pergunta por que seus olhos não são azuis iguais aos do papai ou por que sua pele não é branquinha igual a da mamãe. Bem, isso acontece porque os seus coleguinhas da escola estão certos: você é adotado. Mas continuamos te amando do mesmo jeito, okay? Nada muda. Continuamos sendo seus pais.
Seguido de:
— EU ODEIO VOCÊS. MINHA VIDA É UMA MENTIRA. QUEM EU SOU? PRA ONDE VOU? DE ONDE VIM? (E, aí, o então adolescente corre para o quarto e se tranca por três dias, procurando suas origens no Google.)

Tá vendo? O diálogo traumático que acontece na maioria das vezes em que os pais adotivos revelam aos seus filhos a Verdade Sobre Sua Origem simplesmente não existe quando você adota uma criança mais velha. A gente já sabe de tudo. O máximo que podemos dizer é: tá tranquilo, tá sussa, tá beleza. Eu sei que sou adotado e, na verdade, tô feliz da vida porque você me tirou daquele buraco. Valeuzão aí.
Mas enfim.
Em um belo dia de sol, quando eu já havia perdido as esperanças e aceitado que meu destino seria ter de sair dali assim que completasse 18 anos e arranjar um emprego — provavelmente de stripper —, e conseguir um lugar pra ficar — provavelmente dividir uma quitinete com meu namorado traficante, que eu conheceria no meu trabalho, até o dia em que nós dois seríamos presos —, a pessoa que mudaria meu futuro entrou pela porta.
Alto, esbelto, negro e visivelmente afeminado — usando uma camisa com estampa de zebra e calça jeans rosa, que combinava com sua gravata borboleta da mesma cor — George Thomas, também conhecido como Charlene Princess, andava calmamente pelo pátio enquanto conversava com Martha, uma das coordenadoras do local.
Anne, Jason e eu estávamos sentados em um banco mais afastado. Eu me encontrava em uma fase “Madonna dos Anos 80”, então tinha meu cabelo amarrado em um rabo de cavalo propositalmente torto, e usava um tutu preto por cima da minha meia calça arrastão. Além, é claro, das luvas-sem-dedo que eu mesma havia confeccionado.
E depois ainda me perguntava por que ninguém demonstrava interesse em me adotar.
— Olha lá — Anne apontou com a cabeça — Mais um que veio procurar por meninas-brancas-bebês.
— Hum, não sei não. Geralmente os maníacos por meninas-brancas-bebês são casais-héteros-brancos. — eu disse — E ele é negro e bem gay. Será que... será que é nossa chance?
Perguntei, esperançosa. Minoria atraia minoria, certo?
— Eu que não quero ser adotado por essa bicha aí — Jason deu uma mordida em seu sanduíche, e continuou falando de boca cheia: — Vai que eu viro gay também.
Anne e eu reviramos os olhos diante de tamanha ignorância.
— Argh. Por que meninos são tão idiotas? — Anne fez a pergunta que eu fazia a mim mesma até hoje — Ele parece ser legal. Talvez nós devêssemos nos aproximar mais. Você sabe, fazer alguma coisa pra aparecer... Nos exibir.
Anne tocou no nosso ponto forte. Nós duas éramos ótimas em nos exibir. Dava para perceber pela roupa que eu estava usando. E ela não estava muito diferente, em sua versão mais pobre da roupa que a Sandy usa no fim de Grease, quando cansa de ser boazinha. Você sabe, para cantar You’re The One That I Want.
— Boa ideia. Ótima ideia! Talvez a gente deva dançar a coreografia que nós inventamos pra aquela música da Tina Turner, o que você acha? — eu estava realmente animada — Ou aquela das Spice Girls.
— Vocês vão parecer duas malucas, isso sim — Jason continuava comendo seu sanduíche e dando opiniões irrelevantes.
— Okay — Anne se levantou e ajeitou sua roupa. Eu a imitei. — Vamos lá. A da Tina Turner.
E assim, como se fosse completamente normal duas garotas começarem a cantar e dançar desengonçadamente Simply The Best em um pátio cheio de crianças e adultos transitando, nós começamos o nosso espetáculo. Anne era um pouco desafinada, mas tinha confiança o suficiente para compensar por qualquer nota fora do tom. Eu conseguia segurar as notas, mas perdia o fôlego facilmente. No entanto, nada disso foi capaz de impedir que nosso objetivo fosse alcançado: George Thomas, assim como todos os outros que ali estavam, olhava para nós duas.
Martha, a coordenadora, carregava em seu rosto uma expressão preocupadíssima. Com certeza pensava “Meu Deus, o que as pessoas vão pensar? Imagine só o que as vacas que coordenam os outros orfanatos dirão da gente quando isso se espalhar”.
George Thomas, por sua vez, parecia completamente encantado. Ele nos encarava e sorria como se nós fossemos a melhor coisa já inventada depois do rímel à prova d’água e dos cílios postiços. Isso nos deu incentivo para que dançássemos e cantássemos com ainda mais garra e determinação. Sabe como é, artistas precisam de feedback.
Quando terminamos nosso número, George se aproximou.
— Como vocês se chamam? — perguntou.
— Anne. — ela disse, afobada.
— Destiny. — respondi, com um pouco de vergonha — Mas, tipo, você totalmente pode me chamar de Des.
— Olá, Anne. E Destiny! — ele repetiu, abrindo um sorriso enorme. — Que nome fabuloso!
Eu sempre odiei meu nome. Achava brega. Cafona. Era muita ousadia dos meus pais biológicos me darem um nome desses e depois me entregarem para adoção. Mas não pude deixar de sorrir quando George disse aquilo. Ele tinha cara de que entendia das coisas. Talvez meu nome fosse fabuloso mesmo.
Depois de conversar um pouco com George e descobrir que nós três tínhamos uma diva em comum (Madonna!), Anne e eu já podíamos sentir que, a partir daquele dia, tudo seria diferente. Finalmente aparecera alguém capaz de enxergar além do menina-branca-bebê. Alguém que não se assustava com o que era diferente, e sim incentivava o que tornava cada um único — talvez por conhecer exatamente a sensação de não se encaixar, e saber como é receber olhares tortos a vida inteira.
Bem, algum tempo e muita papelada depois, George Thomas nos levou para casa.
Anne e Destiny.
Ann e Des.
Sandy e Madonna.
Finalmente em um lar.

***


— Papiiiiiii — choraminguei, invadindo o camarim e encontrando-o ali do jeito que eu imaginava: deitado em seu divã vermelho de veludo, com duas rodelas de pepino em seus olhos e creme antirrugas espalhado pela sua testa e abaixo dos olhos. Desde que fomos adotadas, Anne e eu o chamávamos de “papi”. Decidimos que “pai” era sem graça demais para um cara que usava salto, peruca e também atendia por Charlene Princess. — Eu preciso de ajuda.
— O que foi dessa vez, Destiny? — ele perguntou displicente, sem se importar em abrir os olhos, como se já soubesse o porquê de eu estar ali. E provavelmente sabia mesmo.
— Eu não sei o que usaaaaaaar.
Aquele era meu dilema antes de todos os meus shows. “Meus shows”. Falando assim, até parecia que eu era uma popstar. Mas não. Pelo menos não ainda. Uma garota podia sonhar, certo?
Desde o Episódio Tina Turner que Anne e eu protagonizamos para chamar a atenção de nosso pai em potencial, o papi sempre se mostrou interessado em nossa veia artística. Assim que saímos do orfanato, ele nos incentivou a participar de aulas de teatro, música, dança e o que mais pudesse aparecer. E sendo filhas de uma drag queen, obviamente que tivemos muitas aulas de dublagem e performance em nossa casa.
“Sejam ferozes, garotas!”, ele dizia, enquanto dublávamos Like a Virgin na sala de estar.
E ele estava certo. Tínhamos mesmo uma veia artística muito forte. Anne sempre foi entusiasta do mundo fashion, e se mostrava realmente talentosa. Chegou a desenhar vários modelos que papai usara em seus shows antes mesmo de ir para a universidade. Depois de se formar, ela se mudou para Nova York, onde, aos poucos, estava se tornando conhecida. Minha irmã mais velha era a nova queridinha das celebridades.
Eu, por outro lado, sempre gostei de música. Já no orfanato tinha mania de escrever canções — fossem elas zoando as crianças que eu não gostava ou me declarando para o professor quinze anos mais velho pelo qual eu era apaixonada. Mas, ao contrário de Anne, eu não tive tanta sorte. Papai sempre me incentivou com a música, e dizia praticamente todos os dias o quanto eu era talentosa. Mas não parecia ser o suficiente para nenhuma outra pessoa. Nenhuma gravadora queria me representar (não sem tentar me moldar e retirar qualquer gota de autenticidade que pudesse existir em meu trabalho), e eu havia feito a belíssima decisão de não ir para a faculdade. Então, com 24 anos, sem um diploma, sem milhares de fãs e nenhum single nas paradas de sucesso, tudo que me restou foi me juntar a uma banda de baile chamada Forever. E nos dias em que não tocávamos em lugar nenhum, eu ajudava meu pai na Gaiola das Loucas, sua casa noturna.
O grande foco da Forever era casamentos. Fazíamos aniversários e bailes de formaturas às vezes, mas acho que por causa do nome (Forever, sabe como é. Deve dar boa sorte), casamentos eram a principal fonte do nosso sustento. Éramos até uma banda conhecida nesse ramo. Tocávamos em muitas festas de gente rica, e algumas vezes tínhamos a chance de encontrar algumas celebridades. Pedir um autógrafo, subir um pouco a saia, dar uma olhada sensual...
Apesar de tudo, eu nunca me deixei abater. Meu pai sempre me ensinou que devemos nos tratar como a estrela que gostaríamos de ser. Por esse motivo, sempre que tínhamos um show, eu me vestia como se estivesse prestes a subir no palco do Madison Square Garden para a gravação do novo filme em 3D sobre a minha carreira. Esse não era um costume que agradava muito meus companheiros de banda, verdade. “Seja mais discreta, Destiny”, eles diziam. “Com essa roupa dourada e esse chapéu na cabeça, você vai chamar mais atenção que a noiva. Não vão querer nos contratar novamente”. Não vou negar, eles estavam um pouco certos. Já teve noiva dando vexame porque eu supostamente estava roubando seu momento, e seu recém-declarado-marido não parava de olhar para minhas pernas. Então eu aceitei atenuar um pouco o jeito como eu me vestia, mas não completamente. Outra coisa que aprendi com meu pai foi que eu nunca deveria deixar que me botassem para baixo ou anulassem minha personalidade. Mas, pelo menos por enquanto, eu iria aposentar meus collants iguais aos da Beyoncé.
— Quais são as opções? — Meu pai perguntou, retirando as rodelas de pepino dos olhos e fixando seu olhar em mim. — O que minha estrelinha vai usar dessa vez?
— Então, eu tô realmente em dúvida entre o vestido amarelo Stevie Nicks e o tubinho preto Rihanna — falei, mostrando as fotos dos vestidos em meu celular — Você sabe como eu fico bem de amarelo, né? Mas o preto é tão sexy. E eu tô me sentindo meio dark ultimamente. Ah, e eu posso usar um headband na cabeça, ou aquela minha rosa.
Meu pai analisava as fotos dos vestidos com muito cuidado, como se estivesse prestes a fazer a decisão mais importante do mundo.
— Hm. Amarelo Stevie Nicks. Definitivamente. E seria o máximo se você passasse um pouco de glitter dourado no corpo.
Se dependesse do meu pai, eu ofuscaria todas as noivas do mundo.
— Mas, paaaaaaaaapi — disse, com a voz arrastada — O amarelo é sexy? Eu quero estar sexy. Nunca se sabe quando eu vou achar o amor da minha vida. Ou melhor: o dono de uma gravadora que esteja disposto a me lançar pro mundo.
— Claro que sim, meu amor. Você puxou a mim, está sexy sempre. — ele fez cócegas em meu nariz com o dedo indicador — E eu tenho certeza de que muito em breve você encontrará um cara lindo, gentil, hétero e bem dotado, pra te amar do jeito que você merece. E uma gravadora disposta a te lançar pro mundo.
Ai. Tadinho do Papi. Acreditava tanto em mim. O negócio da gravadora eu até tinha esperanças, mas um cara lindo, gentil, hétero e bem dotado? Era um pouquinho mais difícil. Só hétero já estava de bom tamanho. E bem dotado.
— Te amo, papi — dei um beijo rápido em sua bochecha — E espero que você esteja certo, porque cansei de ser solteira e fracassada.
Antes que meu pai pudesse começar seu discurso de autoajuda sobre como eu tinha apenas 24 anos, não havia problema nenhum em estar encalhada (ele não usaria essa palavra para não ferir meus sentimentos) e ainda não ter alcançado o sucesso profissional com essa idade, eu me despedi e saí do camarim. A Forever se apresentaria em uma festa de casamento importante no dia seguinte, e nós ainda tínhamos muito que ensaiar.

Capítulo 2


HARRY


Harry sentia como se uma manada de elefantes dançasse a conga dentro de sua cabeça. Ou como se uma bomba relógio tivesse sido instalada ali e pudesse explodir a qualquer momento.
Tic. Tic. Tic. BOOM.
Merda. Por que eu tive que beber tanto?
Tentou abrir os olhos e imediatamente se arrependeu. Quem deixou a cortina aberta? Quem deixou a porra do sol brilhar tão forte? Aliás, era normal que os dias fossem claros daquele jeito? Alguma coisa devia estar errada. Riu fraco ao perceber que a única coisa errada era a quantidade de álcool que havia ingerido na noite passada.
A noite passada. Será que deu algum vexame? Não conseguia se lembrar. As memórias da despedida de solteiro de Adam resumiam-se apenas em borrões e pequenos flashes. Será que Adam havia gostado? Harry esperava que sim, já que despedidas de solteiro a gente só tem uma. Ou não. De acordo com o índice de divórcio na América, na maioria das vezes não. Mas ele esperava que Adam só tivesse uma, e que ela tivesse sido memorável. Não tiveram mulheres seminuas envolvidas. Foi um acordo feito entre Adam e Mandy, sua noiva: sem strippers. Eles tinham bastante certeza de que as amigas de Mandy ignorariam essa regra e contratariam algum gogo boy, mas resolveram obedecer mesmo assim.
Em vez de irem a um clube de strip, Harry conduziu Adam e seus amigos a uma festa em sua própria casa, em Los Angeles. Tinha sinuca, karaokê e muita, muita bebida. Teve também uma drag queen anã que presenteou Adam com uma lap dance, ao som de Don’t Cha, das Pussycat Dolls. Depois de encherem a cara, Harry, Adam e os outros vinte caras que os acompanhavam saíram andando pelas ruas do condomínio com um violão e um tamborim, cantarolando ABBA e outros clássicos dos anos 80. Ele não conseguia se lembrar do que aconteceu depois disso, mas agradeceu mentalmente por ter chegado em casa são e salvo e não ter sido preso por vadiagem ou perturbação do sossego alheio.
— Acorda, raio de sol — Harry ouviu Adam dizer. Juntou toda a coragem que possuía e entreabriu os olhos, podendo, então, enxergar que Adam o estendia seus óculos de sol — Tô te vendo lutar pra abrir os olhos há meia hora.
Harry pegou os óculos e os colocou. Adam também estava de óculos escuros e bebia água de coco. Pelo visto, ele não era o único de ressaca.
— Você não devia estar aqui, devia? — Tentou se levantar e percebeu que, ao contrário do que pensava, não estava deitado em sua cama. Estava no sofá da sala, sem camisa, vestindo um sutiã rosa de paetês com a alça enganchada em seus ombros — Mas o que... De quem é isso? — Tirou o sutiã e o jogou no chão.
— É da Estrella — Adam respondeu, e ao perceber a expressão confusa de Harry, completou: — A drag queen anã, lembra? E eu já estou indo embora, tenho horário no SPA daqui a pouco. A Mandy me marcou uma massagem relaxante pra eu não surtar ou nada do tipo. Eu só não podia deixar meu padrinho dormir o dia inteiro e perder o casamento.
— Ei, cara, eu ia acordar — Harry saltava as almofadas e garrafas de bebida espalhadas pelo chão e tentava chegar à cozinha, enquanto Adam o seguia — Eu já estava acordado, só não conseguia levantar. Acho que eu bebi demais.
Adam soltou uma risada.
— Eu também. Mas pelo menos nós estamos vivos. Toma uma aspirina pra ver se melhora a dor de cabeça. E, cara — Adam segurou Harry pelos ombros, escancarando um sorriso de orelha a orelha — É hoje! Eu vou me casar! Você tem ideia do que significa isso? Acho que eu devia estar entrando em pânico, mas eu tô... feliz?
Harry sorriu de volta.
— Eu também tô feliz por você. — E ele realmente estava. Adam e Mandy eram duas pessoas ótimas que deram a sorte de se apaixonar. Eles faziam sentido. — Não tem por que entrar em pânico. Só espero que meu discurso não seja uma merda completa e estrague tudo.
Adam o encarou seriamente. Então, disse da forma mais dramática e exagerada possível:
— Absolutamente nada do que Harry Styles, deus dos deuses, ícone fashion e sonho de consumo de dez a cada quinze garotas, faça pode ser uma merda completa. Você sabe que se não fosse pela Mandy, seria você naquele altar vestido de branco.
Harry se imaginou vestido de noiva no altar da igreja. Não era uma visão muito agradável. Ele definitivamente não havia nascido para vestidos de noiva.
— Isso é romântico. Agora a gente se beija?
Adam e Harry se encararam longamente e explodiram em risada. Quatro anos de amizade e, quanto mais íntimos se tornavam, mais tinham certeza de que, mentalmente, não passavam dos 13 anos.
Mas não demorou muito para que as risadas se transformassem em gemidos e expressões de dor.
Tic. Tic. Tic. BOOM.
A cabeça de ambos latejava com mais força, servindo como um lembrete de que sim, os dois haviam bebido demais na noite passada.

DESTINY


I wanna be a star. I don’t wanna be a cleaning lady. I wanna be a star. I don’t wanna be a cleaning lady. — eu repetia para mim mesma em frente ao espelho. Era uma espécie de ritual. Antes de qualquer show, eu encarava meu reflexo e começava a repetir frases de efeito. Você sabe, para deixar bem claro para o Universo quais eram minhas intenções aqui na Terra.
I wanna be a star. I don’t wanna be a cleaning lady.*
(Eu quero ser uma estrela. Não quero ser faxineira.)
Repeti mais uma vez. Aquele era um verso que a Stevie Nicks dizia em uma versão demo de Sara, uma das minhas músicas favoritas. Desde a primeira vez em que a escutei, deitada no chão da sala de estar enquanto papai penteava suas perucas e me mostrava sua coleção de discos do Fleetwood Mac, eu sabia que aquela frase — tão simples, mas direta e honesta — seria meu mantra pelo resto da vida. E assim como deve ser feito com os mantras, eu a repetiria diariamente, 8 ou 108 vezes.
Eu queria ser uma estrela, e não uma faxineira. Não que eu tenha algo contra a profissão, e duvido que a Stevie Nicks também tenha. Acontece que a frase era uma metáfora. Eu queria brilhar, viver de arte e sonhar grande ao invés de me conformar com qualquer outra coisa por acreditar que eu não era capaz.
— Eu sou uma mulher forte, independente e poderosa. — Fechei os olhos e prossegui com meu ritual. Nós subiríamos no palco em alguns minutos e eu já começava a entrar no meu modo superstar. — Eu sou uma mulher forte, independente e poderosa. — Olhei ao redor apra ter certeza de que o camarim ainda estava vazio, então fechei os olhos novamente e continuei, um pouco mais baixo: — E gostosa. Muito sedutora. 100% sex appeal. Você está solteira por problema dos outros, Des. Não seu. Homem tem medo de mulher poderosa. Vai lá, sobe naquele palco e arrasa. Você é uma estrela que brilha e brilha e...
— Eu tenho medo quando você fica assim — uma voz conhecida me interrompeu antes que eu concluísse o meu momento sagrado. Droga, e se o universo só pegasse a mensagem pela metade? Abri os olhos e o encarei, dando um sorrisinho amarelo.
— Eu só tô tentando conversar com minha deusa interior — tentei soar casual, fingindo que não estava com vergonha por ter sido pega no flagra. Dei uma última checada na minha imagem no espelho. Batom: ok. Delineador: um olho estava diferente do outro. Merda, por que parece tão mais fácil nos tutoriais do Youtube? Mas ainda assim, ok. Rímel: ok. Glitter dourado: ok. Calcinha da sorte (rosa, e com os dizeres “Like a Virgin” na frente, que eu só usava em ocasiões em que me sentia extremamente inspirada): eu não precisei conferir, mas sabia que também estava ok. — E por que você sentiria medo, Ben?
— Porque da última vez em que eu te vi tão focada em repetir que era gostosa e sedutora na frente do espelho, nós quase fomos expulsos da festa porque você cismou que era a Beyoncé — respondeu. Ben era o baterista e sócio majoritário da banda, e também um dos caras mais sem percepção que eu conhecia — Você prometeu que ia... — ele pausou para procurar pela palavra certa — ... Se conter. Vê se não surta hoje, Destiny.
Soltei o ar com força e girei os olhos.
— “Vê se não surta hoje, Destiny” — repeti, com a voz exageradamente mais fina que a dele — Como você é desagradável. Aposto que a Lady Gaga não faria esse sucesso todo se tivesse dado ouvido a pessoas como você.
Meu vestido estava legal, estava tudo no lugar. Eu estava pronta.
— A Lady Gaga é uma louca, Destiny — Ben esfregava as mãos pelo rosto como se estivesse lidando com uma criança birrenta de cinco anos — E você não é a Lady Gaga. Tira da sua cabeça esse papo de artista. Você não é uma artista, caramba. Olhe ao seu redor! Isso aqui é uma banda de baile, nenhum de nós é um gênio especial e incompreendido. Nós somos um bando de músicos medíocres que precisa de dinheiro pra se sustentar. Então aceita logo a realidade pra doer menos, e vê se não fode tudo outra vez.
I wanna be a star, I don’t wanna be a cleaning lady. I wanna be a star, I don’t wanna be a cleaning lady. I wanna be a star, I don’t wanna be a cleaning lady.
Eu repetia mentalmente, sentindo meus olhos marejarem.
Eu sou uma mulher forte, independente e poderosa. E gostosa. Muito sensual. Não vou chorar. Não vou chorar.
Não era a primeira vez que acontecia. Ben era daquelas pessoas tão negativas que seria capaz de murchar todo um jardim só de caminhar por ele. Trabalhando com ele há dois anos, eu já deveria ter me blindado contra comentários daquele tipo, não é? Mas, infelizmente, ainda me afetava. Em momentos como aquele, eu só queria poder ligar para o meu pai e escutar qualquer coisa que ele tivesse pra dizer. Meu pai sempre dizia a coisa certa, e sabia como lidar com pessoas negativas melhor do que ninguém. Mas eu não teria tempo. Então, tentei imaginar o que ele diria. Provavelmente seria algo parecido com: “Destiny, meu amooor, o que as pessoas pensam de você não é problema seu. Quem se importa com a opinião alheia não vive, e você nasceu para BRILHAR. É seu destino! Hahaha. (ele sempre ria dos seus próprios trocadilhos). Esse Ben é a piranha mais invejosa que eu conheço. Então apenas o ignore e continue desfilando de cabeça erguida. Você é fabulosa. Agora força na peruca, suba naquele palco e ARRASE”.
Ok, papi. Eu vou arrasar.
Fiquei tão entretida com o discurso imaginário do meu pai que nem tinha reparado que os outros integrantes da banda haviam entrado no camarim improvisado em que estávamos. Limpei a lágrima solitária que havia caído contra minha vontade e respirei fundo. Antes de entrarmos no palco, Ben tentou pedir desculpas, mas eu ignorei.
Não tinha tempo para drama. Eu era uma mulher forte, independente e poderosa que tinha um show para fazer.

Capítulo 3


HARRY


As mãos de Harry suavam. A cerimônia havia acabado há algum tempo, e quase todos os convidados já tinham chegado à festa. Em pouco tempo, ele teria que fazer o seu discurso. Qual era o momento certo, afinal? Era apenas um pequeno detalhe do qual ele não tinha certeza. Devia mesmo esperar pelo noivo ou podia ser espontâneo? Sabia que não deveria ter faltado a todos os ensaios do casamento, mas não teve tempo de participar.
Adam e Mandy dançavam na pista enquanto, em cima do palco, uma garota fantasiada de sol cantava You’re Still The One, da Shania Twain. Caramba. Ele não ouvia aquela música há séculos.
You’re still the one I run tooo, the one that I belong toooo — cantarolou para si mesmo e começou a rir.
Porra, Shania Twain é tão bom.
Não sabia o porquê, mas sentiu urgência de dividir sua redescoberta do quanto gostava de Shania Twain com o mundo. O que ela andava fazendo? Mais pessoas deviam se lembrar do quanto ela é boa. Retirou seu celular do bolso e abriu o Twitter.
Shania Twain é tão bom. Digitou rapidamente e clicou em enviar.
— Ei — Harry disse para a garota que tentava parecer despretensiosa, escorada na pilastra ao seu lado. Ele percebeu que ela queria se aproximar, mas sempre hesitava. — Shania Twain é muito boa, não é?
A garota encarou Harry por cerca de trinta segundos antes de ter certeza de que, sim, ele estava falando com ela. Harry sorriu, como se para retirar qualquer dúvida de que a pergunta feita era direcionada a ela, mas a menina só parecia ainda mais perplexa. Harry não sabia do efeito que seu sorriso tinha nas pessoas.
— S-sim — ela finalmente respondeu — Muito. Essa música é legal.
Harry assentiu com a cabeça e voltou seu olhar para seus amigos recém-casados na pista de dança. Ou pelo menos tentou. Um vulto amarelo pairando ao fundo prendia sua atenção. Por que a vocalista da banda de casamento estava vestida daquele jeito? Não que estivesse ruim. Só era um pouco incomum que ela usasse botas de cano longo, um vestido amarelo de lantejoulas e uma rosa vermelha no cabelo, enquanto os outros integrantes pareciam tão... sóbrios. Mas, de uma forma estranha, Harry achou que combinava com ela.
I’m so glad we made it, look how far we’ve come, my ba...by.
A garota cantou os últimos versos da música. Ela encarava fixamente Adam e Mandy, que tinham suas testas coladas e sorriam ternamente um para o outro. Ela parecia... emocionada? Harry apertou os olhos para enxergar melhor. Não, não era só impressão. Ele tinha certeza de que ela estava chorando. Não um choro escandaloso. Apenas algumas lágrimas discretas. Harry a observava de forma tão despreocupada que era quase como se eles não estivessem no mesmo lugar, e ela fosse parte de algum filme que ele assistia. Nem havia passado pela sua cabeça que ela poderia sentir que estava sendo observada descaradamente.
E foi o que aconteceu. A Garota Amarelo Sol (Harry ainda estava tentando arranjar algum apelido, mas nenhum parecia bom o suficiente. Garota Amarelo Sol? Vagalume? Sabre de Luz?) olhou em sua direção e seus olhos se encontraram com os dele. Harry desviou o olhar o mais rápido que pôde, mas não antes de perceber que ela havia ficado surpresa e limpado as lágrimas imediatamente.
Será que tinha o reconhecido ou só ficara constrangida por alguém tê-la visto chorando? E por que ela chorava, afinal?
— Você a conhece? — a garota loira com quem Harry havia conversado anteriormente quis saber. Ele nem tinha percebido que ela ainda estava ali. Achou engraçado o fato de que estava sendo observado enquanto observava outra pessoa.
Ele fez que não com a cabeça.
— Você conhece? — Harry devolveu a pergunta, mais como uma tentativa de ser gentil e não encerrar o assunto tão friamente do que por curiosidade.
— Não faço ideia de quem seja. — ela tocou seu braço — Vem cá, será que nós podemos tirar uma foto juntos? Eu sou sua maior fã.
— Claro.
A garota retirou o celular da bolsa e se posicionou ao lado de Harry, que a abraçou de lado e sorriu, encarando a imagem da câmera frontal que aparecia na tela do aparelho. Não pôde deixar de se perguntar quanto tempo demoraria para que aquela foto estivesse espalhada pelas redes sociais.
Tudo bem. Não tinha importância. Aquela era sua vida agora.
O garçom passou oferecendo mais champanhe. Harry se lembrou da nota de voz que gravara no aeroporto. Lembrar de não beber até minha hora de falar. Mas ok, só mais uma taça não faria mal a ninguém.

DESTINY


Harry Styles estava na festa.
Eu estava muito louca, ou Harry Styles realmente estava no mesmo lugar que eu. E respirando o mesmo ar que eu (a não ser que exista um ar especial para pessoas famosas, ricas e bonitas, mas não quero acreditar que Deus seria, assim, tão elitista).
Eu estava completamente bêbada e sofrendo alucinações, ou Harry Styles realmente tinha me visto chorar enquanto eu cantava You’re Still The One da Shania Twain. Chorar por sentir nada mais nada menos do que INVEJA dos noivos. Sim, inveja. O menos nobre dos sentimentos, o mais verde dos Sete Pecados Capitais, e uma presença constante na minha vida quando se tratava de casais fofos (e pessoas jovens bem sucedidas no geral, mas vamos deixar isso para lá).
É, pode me processar, mas eu sou humana. Não dá para ser romântica, solteira e simplesmente amar todos os casais bonitinhos que existem no mundo.
Só de falar em casal bonitinho eu já tinha vontade de rolar os olhos. Para falar a verdade, sempre que eu avistava um C.S.F. (casal super fofo), meu instinto era o de arranhar a cara de ambos, ou de pelo menos um deles, só para diminuir o grau de meiguice e ter onde descontar minha amargura. E como você pode deduzir, trabalhando no ramo em que eu trabalhava, eu chorava de inveja e/ou tinha instintos assassinos com alguma frequência.
Mas o casal que me fez chorar aquela noite era mais do que super fofo. Eles eram a personificação da química. Apesar de cantar em vários casamentos, ver duas pessoas tão apaixonadas quanto aquelas que dançavam na minha frente não era tão comum quanto você possa imaginar. Muitas vezes, tudo parecia meio mecânico. Os relacionamentos, digo. Era quase como se eles estivessem se casando porque não havia nada melhor pra fazer. Porque era o próximo passo na cartilha de sobrevivência da sociedade: nascer, crescer, casar, ter filhos, morrer. Ou talvez porque queriam dar uma super festa e mostrar para todo mundo a quantidade de dinheiro que eles tinham, e as subcelebridades que conheciam. Desses casais, eu não conseguia sentir inveja. O que não me impedia, é claro, de cair no choro enquanto eu cantava músicas românticas. Sabe como é, batia uma amargurazinha por saber que até pessoas que viviam daquela forma tinham alguém, enquanto eu — protótipo de Bridget Jones — residia na eterna escuridão daqueles que não sabem se encontrarão seu Mark Darcy um dia ou não. Oh, vida, cruel vida.
Mas, de vez em quando, para restaurar minha fé no amor e na humanidade, apareciam casais como os daquela noite. Casais como Adam e Mandy. Os dois pareciam adolescentes que fugiram no auge da paixão para se casar escondido dos pais. Eles dançavam como se ninguém os observassem, e tinham sempre um sorriso no rosto. Era quase como se conversassem por telepatia, e estivessem tirando sarro de todas as outras pessoas que estavam ali e não conseguiam os entender.
Então, tente cantar músicas românticas da Shania Twain enquanto admira um casal assim, tendo consciência de que seu último relacionamento foi há mais de dois anos e que você não transa há mais de um. Pois é, meu amigo. A coisa estava feia. Chorar de inveja era o mínimo que eu podia fazer numa situação daquelas. Existem pessoas que atirariam por menos, então chorar era até uma atitude bacana da minha parte.
Terminei a música me sentindo um tanto quanto abalada, e já planejava a maratona de comédias românticas que eu faria assim que chegasse em casa, quando senti que estava sendo observada. Engraçado essa habilidade que nós temos de perceber quando alguém nos observa mesmo quando não estamos vendo, e como sempre olhamos exatamente na direção do observador. Mas eu definitivamente não esperava ver o que eu vi. Ou melhor, quem vi. Nunca, em um milhão de anos, eu esperaria que, ao virar instintivamente minha cabeça, eu veria Harry Styles parado próximo a uma pilastra, segurando uma taça de champanhe e olhando para mim enquanto eu chorava.
HARRY STYLES!
OLHANDO PARA MIM!
ENQUANTO EU CHORAVA!
O susto que levei foi tão grande que quase pude sentir meu coração saindo pela boca. Limpei as lágrimas e virei o rosto imediatamente. Uma parte de mim quis olhar de novo para checar se ele continuava a me olhar, mas e se continuasse, eu faria o quê? Ele provavelmente acharia que eu era uma louca deslumbrada que nunca viu gente famosa na vida. O que não era verdade, pelo menos a última parte. Morando em Los Angeles, era bem fácil ver celebridades por aí. Elas estavam em todo canto, e, surpreendentemente, algumas tinham plena noção de que eram simples mortais, gente como a gente (com a singela diferença de serem bem ricos e mais gostosos). Já outras, tinham certeza de que eram deuses e estavam acima de tudo e de todos.
Mas fato é: eu estava relativamente acostumada a ver celebridades. Já tinha até visto algumas outras naquela mesma festa, inclusive. Mas nenhuma do porte de Harry Styles. E nenhuma tão bonita quanto ele.
E, caramba, nenhuma estava olhando para mim.
Merda. O cara deve ter visto pela minha cara que eu estava chorando de inveja e achado que eu estava agourando seus amigos. O que é totalmente contra meus princípios. Assim como prostitutas que não beijam a boca de seus clientes, e assassinos de aluguel que não matam mulheres e crianças, eu nunca, em hipótese alguma, agouraria um amor verdadeiro.
— Des? — chamou Susan, a baixista da banda — Tá tudo bem? Você está pálida.
Engoli em seco e fiz que sim com a cabeça.
— Tá sim. Eu só... — tentei me virar discretamente e olhar para o lugar em que Harry estava. Ele não olhava mais para mim, e sim tirava foto com uma garota loira que, provavelmente, era sua fã. Virei-me novamente pra Susan e sussurrei: — Você viu quem tá aqui?
— Aquele carinha do One Direction? — Susan sussurrou de volta, e sua resposta fez com que eu estapeasse minha testa diante de tamanha ignorância.
— Não é carinha do One Direction, Susie. É o Harry Styles!
Susan olhou rapidamente de mim para Harry e deu de ombros. A fã loira não estava mais lá, e Harry já conversava animadamente com outro grupo de pessoas. Obviamente, ele era o tipo de cara que jamais ficava sozinho.
— Ele é bem gato — Susie concluiu.
— Ei, vocês duas — Ben chamou da bateria antes que eu pudesse concordar com a afirmação de Susie — Parem de conversa. Vamos começar a próxima música.
Respirei fundo, tentando me recuperar do choque, enquanto ouvia as primeiras notas de If I Ain’t Got You soarem.

Capítulo 4


HARRY


Harry havia perdido as contas de quantas taças de champanhe tinha bebido. Duas? Quatro? Quinze? Talvez. Quem sabe. Que diferença fazia? Ele estava feliiiiiiz. Feliiiiiiiiiiiz. Feliz. Para. Caramba. E conseguia olhar ao seu redor e perceber que, porra, como o mundo era lindo. Como as pessoas eram lindas. Quase todas, não todas. Algumas não eram. E seus amigos, Andy e Madam, que belo casal eles faziam.
Andy e Madam. Riu sozinho ao perceber que havia trocado o nome dos noivos.
Adam e Mandy. Agora sim. Adam e Mandy, que belo casal eles faziam. Dançando na pista de dança, zanzando pelo salão, dando atenção à enorme quantidade de convidados, e nunca, jamais, parecendo se lembrar de que, supostamente, Harry tinha um discurso a fazer.
Mas Harry também não se importava. Ele estava ocupado demais distribuindo abraços entre todos que encontrava pela frente, independente de serem conhecidos ou não.
Tan. Tan tanan tanan tan. Tan tanan tanan tan.
O riff inicial de My Girl reverberou pelo salão, e Harry iluminou-se instantaneamente. Ele amava aquela música.
— MINHA MÚSICAAA! — gritou, com a voz arrastada, e saiu correndo para a pista de dança. No caminho, puxou uma garotinha para dançar com ele. — Qual é o seu nome? — perguntou, balançando o corpo de um lado para o outro e estalando os dedos no ritmo da canção.
I’ve got sunshiiiiiiine on a cloudy day.
— Lizzie — respondeu a menina, que não aparentava ter mais de oito anos de idade. Ela sorria de orelha a orelha e parecia estar prestes a explodir de animação. — E eu sou sua fã!
When it’s cold outsiiiide, I’ve got the month of May.
— Não, Lizzie, eu que sou seu fã! Essa música é muito boa, não é? — ele a pegou no colo, mas se arrependeu imediatamente. A pequena e rechonchuda Lizzie não era tão leve quanto ele pensou que fosse.
— Sim! — Lizzie respondeu empolgada, mais pelo fato de estar dançando com Harry Styles do que pela música em si.
— Mas nunca veja o filme — Harry se movia com dificuldade, e intercalava giros com passos desengonçados — Ele morre no final. É muito triste, Lizzie. De verdade.
I guess yoooou saaay, what can make me feel this way? My giiiirl.
Harry olhou para o palco e lá estava ela. A garota que não se importava em ir vestida de um híbrido de Stevie Nicks e Shakira para uma festa de casamento. Ele ainda não havia reparado em como sua voz era bonita. Bem, ele tinha notado antes, mas só agora ele sentia. Isso, ou o álcool realmente estava fazendo efeito. Sua voz era suave e reconfortante, e soava quase como se deslizasse entre as escalas da música sem esforço algum. Ela não parecia estar triste naquele momento, e Harry pôde notar o quanto ela era bonita. Seu estilo era um pouco... peculiar. Mas era muito bonita.
Mais uma vez, a Garota Amarelo Sol olhou para Harry no exato momento em que ele estava a observando.
Mais uma vez, Harry desviou o olhar o mais rápido que pôde.
Se isso continuar acontecendo, ela vai pedir uma ordem de restrição contra mim antes do fim da festa.
Harry devolveu Lizzie para o chão e continuou a dançar. Avistou Adam e Mandy sentados em uma mesa, rindo dele descaradamente. Ele riu também, mesmo sem saber o que tinha de tão engraçado no fato de estar dançando com uma criança que nunca tinha visto na vida. Aliás, aquilo era lindo. Se mais pessoas dançassem com outras que não conhecem, talvez o mundo fosse um lugar melhor. Aquele deveria ser o segredo da paz. Talvez ele devesse ligar para o Obama e contá-lo sobre isso.
Harry acabara de ter uma epifania (acontecia com certa frequência quando ele estava bêbado).
Tudo era bonito. Lizzie era uma criança linda. Adam e Mandy eram lindos. As pessoas que o observavam como se ele fosse louco eram lindas, e as que tentavam tirar foto disfarçadamente, pensando que ele não percebia, eram burras, mas lindas também. Seus fãs eram lindos. Seus colegas de banda não estavam lá, mas não deixavam de ser lindos. A Garota Sol Stevie Nicks Shakira era linda e, porra, aquela música... Aquela música era boa pra caramba.
Harry foi tomado por uma enorme necessidade de subir no palco e cantar. Subir no palco e dividir com todos, através da música, a revelação que acabara de ter.
E como nada o impedia, foi isso que fez.
Munido apenas do amor que sentia pela humanidade como um todo — o tipo de amor que apenas o elevado nível de álcool presente em seu sangue seria capaz de proporcionar —, respirou fundo e caminhou em direção ao palco. Percebeu a cara de espanto dos cinco membros da banda ao o avistarem lá em cima junto deles, mas não se deixou abalar.
“Não fiquem assustados. Vocês fazem parte disso tudo”, pensou.
Harry se dirigiu até o microfone da Garota Sol Stevie Nicks Shakira Com-Um-Toque-de-Madonna (a cada vez que ele olhava conseguia perceber mais referências) e, sentindo-se encorajado, acompanhou a letra da música:
I don’t need no mooooney, no fortune or faaaaaame — a garota parecia estar em choque. Como em um reflexo, parou de cantar e se afastou do pedestal, deixando Harry ter todo o espaço para si — I’ve got all the riches baby, one maaaan can claim.
Harry não tinha a intenção de afastá-la do microfone. Ele acreditava que após terem trocado olhares embaraçosos durante a noite, tinham adquirido intimidade o suficiente para cantarem um dueto. Sabe, tipo karaokê.
Weell, I guess you say, what can make me feel this way? My girl — Harry continuou, chamando-a para mais perto com as mãos. — Talking ‘bout my girl.
A Garota Amarelo Sol — com a mesma cautela de quem se aproxima de um animal peçonhento — deu alguns passos em direção ao microfone e, juntos, harmonizaram os últimos versos da canção.
I’ve even got the month of May with my giiiiirl.
Talking ‘bout, talking ‘bout, talking ‘bout my giiiiirl.
Wohooooooo, my giiirl.
Finalizarem em uníssono, e, pela primeira vez, Harry pode encará-la sem ter de se preocupar em desviar o olhar.

DESTINY


Ok. Vamos recapitular.
Primeiro Harry Styles me via chorando. E quando eu finalmente começava a me recuperar do choque de descobrir que estávamos no mesmo lugar, ele decidia que seria legal subir no palco e dividir o microfone comigo, como se fossemos grandes amigos em uma noite de karaokê.
Nenhum desses acontecimentos fazia sentido para mim, e aquele já vinha sendo um dia particularmente estressante. Então, quando vi aquele homem lindo, alto e levemente alcoolizado caminhando em minha direção, sorrindo como uma criança prestes a fazer alguma coisa errada, meu primeiro instinto foi o de gritar de emoção. Mas eu não queria assustar o rapaz. Então acabei obedecendo ao meu segundo e mais plausível instinto: o de me afastar do microfone. Eu tremia como uma vara verde, e a última coisa que eu queria era que ele — ou qualquer pessoa — percebesse isso. Afinal, eu era uma cantora profissional, e não só estava acostumada a estar na presença de celebridades, como também estava muito perto de me tornar uma (o Segredo, Lei da Atração... Sabe como é).
Mas eu não estava nervosa somente pelo fato de Harry ser um cara famoso. Eu tremia como uma vara verde porque, além da aura de mistério que o fator “ser celebridade” trazia, ele era lindo demais para ser de verdade. Os olhos verdes, os cachinhos, o sorriso, as covinha nas bochechas, as tatuagens e até a forma como se vestia pareciam se unir em um complô para tornar Harry Styles o cara mais bonito a caminhar pela face da Terra. E só Deus sabe como eu conseguia ser idiota na frente de caras bonitos que caminhavam pela face da Terra.
Depois de eu ter criado coragem para me aproximar e termos cantado o fim da música juntos, a plateia foi ao delírio. Todos gritavam e aplaudiam, e pude ver Adam e Mandy filmando a coisa toda, quase roxos de tanto rir. Naquele momento, duas coisas se passaram pela minha cabeça:
1) Será que a roupa que eu tô usando fica bem em vídeo? E;
2) EXISTE UM REGISTRO DO MOMENTO EM QUE HARRY STYLES E EU FAZEMOS UM DUETO.
Uau.
Essa é a vida real ou é apenas fantasia?
— Como você se chama?
Uma voz rouca e arrastada me despertou dos meus devaneios. Era ele. Harry Styles estava falando comigo. Ai meu Deus do céu.
— Destiny — tespondi, piscando rapidamente. Se minha vida fosse um filme, Pictures Of You, do The Cure, começaria a tocar naquele momento. — Mas pode me chamar de Des.
Harry sorriu, fazendo com que a covinha em sua bochecha se formasse. Ai. Meu Deus. Do céu.
— Destiny — ele repetiu — Tipo... Destiny’s Child?
Assenti com a cabeça. Eu já havia perdido as contas de quantas vezes tinha escutado aquela associação.
— É um belo nome.
— Não precisa mentir — disse, ainda sem conseguir encará-lo diretamente — Eu sei que meu nome é bem brega.
Arghhhhh, Destiny. O que você tem na cabeça?
— Eeeeeei — Harry franziu a testa, me olhando como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo — É um nome legal. Eu gosto. E eu nunca vou me esquecer porque vou me lembrar das Destiny’s Child.
Sorri com o comentário e tomei coragem de encará-lo diretamente pela primeira vez. Harry era realmente encantador, e parecia ser daquelas pessoas confiantes que não tem o menor problema em manter contato visual durante uma conversa. O que significa que, nem de longe, ele parecia tão desconcertado quanto eu — que agia como uma adolescente atrapalhada conversando com o cara mais popular da escola.
— YO, HARRYYYYYYY! CANTA MAIS UMA! — gritou alguém da plateia, e um coro pedindo bis se iniciou imediatamente. Respirei fundo e contei até dez, me segurando para não descer do palco e matar com as minhas próprias mãos o indivíduo que ousou interromper nosso momento.
— Bem, Destiny, prazer em te conhecer. Eu sou o Harry. — ele apertou minha mão rapidamente e, então, voltou a se aproximar do microfone — EU SOU O HARRY! — repetiu, dessa vez para todos. — E eu queria fazer um discurso.
Suas palavras saíam um pouco emboladas, mas ainda eram compreensíveis. Ele não estava tão bêbado a ponto de não saber o que estava fazendo, mas bêbado o suficiente para agir com a confiança de quem não está nem aí pra o que as pessoas iam dizer.
— Um discurso sobre O AMOR!
Ok. Eu não conhecia Harry há muito tempo, mas já podia afirmar com clareza que ele ficava meio escandaloso quando bebia. E o “discurso sobre o amor” que ele fez naquela noite foi realmente inesquecível, recheado de gritos aleatórios e frases de efeito. E, na íntegra e sem censura, se seguiu exatamente assim:

Discurso sobre o amor
(Por Harry Styles)


“Primeiramente eu queria dizer o quanto todos vocês parecem lindos daqui de cima. VOCÊS ESTÃO LINDOS HOJE. ESTÁ TODO MUNDO PREPARADO PARA SE DIVERTIR??? (Ao se lembrar de que a plateia que o encara não está ali para um show de sua banda e, sim, para uma festa de casamento, Harry limpa a garganta e, então, prossegue).
Ok. ADAM E MANDY, dois dos meus melhores amigos, se casaram hoje. E eu não poderia estar mais FELIZ (começa a bater palmas, sozinho, mas logo é acompanhado por aqueles convidados que não estão ocupados demais filmando a cena). Quando os dois me convidaram para ser o padrinho desse mati... matri... matrinônio, eu me senti extremamente HONRADO. Afinal, quantas vezes na vida eu teria a chance de ser padrinho de um casamento tão ESSSSPECIAL, formado por pessoas tão ESSSSSPECIAIS???
Eu estava dançando com minha amiga Lizzie... LIZZIE, VOCÊ ESTÁ AÍ? Ah, lá está ela. Aquela é minha amiga Lizzie (Harry aponta para a criança que ergue a mão na pista). Bem, eu estava dançando com minha amiga Lizzie, quando My Girl começou a tocar. Ou talvez a música tenha começado antes, eu não me lembro. E se vocês nunca viram o filme, eu sugiro que não assistam, porque, PORRA, QUAL ERA A NECESSIDADE DE MATAR O MACAULAY CULKIN? (Harry fica em silêncio por alguns segundos, e parece realmente estar refletindo sobre a pergunta que acabou de fazer). Mas o fato é que My Girl — tanto a MÚSICA quanto o FILME — faz com que eu tenha vontade de ME APAIXONAR. Faz com que eu queria encontrar alguém especial e amar e amar e amar...
E então eu vi vocês dois, ADAM E MANDY, e pensei: MEU DEUS, ELES ESTÃO APAIXONADOS. NESTE EXATO MOMENTO, ESSAS DUAS PESSOAS POSSUEM TUDO O QUE HÁ DE MAIS IMPORTANTE NO MUNDO. PORQUE O AMOR É A COISA MAIS IMPORTANTE DO MUNDO. (Harry faz uma pausa). “ALL YOU NEED IS LOVE”, cantaram os Beatles. “WHERE IS THE LOVE?”, perguntou o The Black Eyed Peas. Bem, eles com certeza não conheciam vocês dois. Hoje, eu queria apenas dizer: Fergie, eu encontrei o AMOR. O amor está AQUI. E posso afirmar com propriedade: BEATLES... Se amor é tudo o que você precisa, Adam e Mandy NÃO PRECISAM DE MAIS NADA. Porque eles já têm amor. Entenderam? (pausa novamente). Eu não sei, cara... É lindo ver duas pessoas INCRÍVEIS se apaixonarem e serem incríveis JUNTAS. Eu amo vocês PARA CARALHO!!! Vocês merecem tudo de bom que possa existir nessa vida. E na próxima. E na vida depois da próxima, porque vocês têm que ficar juntos em todas as vidas que puderem EXISTIR!!! (Harry olha para os noivos, emocionado, e começa a bater palmas. Sozinho.)
Existe uma música que eu sempre escuto quando penso, sabe, no amor. É meio pessoal, mas eu gostaria de cantá-la pra vocês hoje. É o meu presente: de coração pra coração.”

***


Ainda emocionado, Harry fez um coração com as mãos para Adam e Mandy. Seus olhos brilhavam, e ele parecia acreditar genuinamente em cada palavra que foi dita. Depois, virou-se para trás e sussurrou para Ben: “Hey, vocês sabem tocar You Were Meant For Me, da Jewel?”. Claro que nós sabíamos. Toda banda de casamento que se prezava sabia tocar You Were Meant For Me. Aquela música era tema de quase todos os casais bonitinhos com uma queda pelos anos 90. Era também o tema do meu relacionamento com o Taylor Hanson nas fanfictions que eu escrevia sobre nós dois. E eu não sabia se a imagem de Harry ouvindo You Were Meant For Me no escuro do seu quarto enquanto pensava, “sabe, no amor”, me fazia querer rolar pelo chão de tanto rir ou abraçá-lo bem forte e dizer:
Eu te entendo, meu amigo.

Capítulo 5


HARRY


Harry não havia mentido quando disse que ela tinha um belo nome. Ele achou mesmo. Pelo menos, naquele momento. Não tinha certeza se manteria a mesma opinião quando acordasse sóbrio no outro dia, mas ele não queria pensar no amanhã. Naquele momento, a única coisa que importava era lembrar com precisão a letra de You Were Meant For Me.

I hear the clock, it’s six A.M
I feel so far from where I’ve been.
I got my eggs, and my pancakes too
I got my maple syrup, everything but you


A primeira vez que Harry ouviu aquela canção foi na cozinha da sua casa. O rádio estava ligado e sua mãe a cantarolava enquanto preparava seu lanche da tarde. Torradas com geleia de morango — ele ainda podia sentir o cheiro. Harry tinha 10 anos e nunca havia se apaixonado, mas sabia que aquela música era sobre amor. Para ele, inclusive, era a música mais bonita sobre o tema. Ele não sabia exatamente o porquê. Talvez porque não conhecia muitas músicas sobre amor, ou porque ainda era criança e conseguia ouvir aquelas palavras sem achar tudo brega ou clichê. Ou talvez fosse porque a forma como sua mãe a cantava naquela tarde, na cozinha, acabou a tornando mais especial.

I break the yolks and make a smiley face
I kinda like it in my brand new place
Wipe the spots up off the mirror
Don't leave the keys in the door
I never put wet towels on the floor anymore 'cause


Por duas semanas, You Were Meant For Me foi a música favorita de Harry, e ele a cantava todos os dias, toda hora, em qualquer lugar. Foi em uma dessas cantorias aleatórias que descobriu que não deveria sair cantando Jewel por aí, porque era música de menina, e todo mundo acharia que ele era gay.

Dreams last for so long
Even after you're gone
I know that you love me
And soon you will see
You were meant for me
And I was meant for you


Ou pelo menos foi o que seu primo mais velho lhe disse. Harry não entendeu muito bem a lógica (garotos não podem se apaixonar?), mas resolveu acreditar. Deixou essa música de menina para lá e só voltou a lembrar que ela existia seis anos depois, quando terminou com a sua primeira namorada. Ou melhor, quando ela terminou com ele. Harry sofreu tanto que achou de verdade que ia morrer, e passou dias em seu quarto ouvindo You Were Meant For Me no repeat (tomando bastante cuidado para que ninguém o pegasse no flagra). E a cada vez que ele a ouvia, tudo fazia mais sentido. Aquela música realmente era sobre amor. E agora ele já tinha idade para achar tudo brega e clichê, mas também sabia que, afinal de contas, o amor era brega e clichê. Qualquer coisa que falasse de amor sem soar brega e clichê só poderia ter sido escrito por alguém que nunca se apaixonou na vida. E a Jewel tinha se apaixonado. Ele gostava dela por isso. Ela sabia pelo que ele estava passando.

I called my momma, she was out for a walk
Consoled a cup of coffee but it didn't wanna talk
So I picked up the paper, it was more bad news
More hearts being broken or people being used


E lá estava Harry, alguns anos depois, cantando aquela música na frente de todo mundo. Seu segredo não estava mais a salvo. Agora todo o planeta saberia da sua relação de amizade e parceria com o maior hit da Jewel, e ele já podia imaginar a reação do seu primo quando visse o vídeo no Youtube. Merda. Youtube. Aquilo com certeza pararia no Youtube. Ainda bem que ele não estava errando a letra.

Put on my coat in the pouring rain
I saw a movie it just wasn’t the same
‘Cause it was happy or I was sad
And it made me miss you oh so bad ‘cause


Adam e Mandy dançavam e cantavam juntos, e pareciam estar gostando do show improvisado. Mas como não gostar? Aquela música era genial. Harry olhou para trás e viu Destiny parada ao lado da garota alta que tocava baixo. Era legal não ter mais que se referir a ela como Garota Sol Stevie Nicks Shakira e sei lá mais o quê. Destiny era bem melhor. Ela cantarolava com a mão sobre o peito esquerdo, de olhos fechados, quase como se estivesse cantando o hino do seu país ou algo do tipo. Harry riu da cena. Ela era engraçada, ele gostava dela. Quando, pela terceira vez na noite, Destiny percebeu que Harry a observava, apenas balbuciou por cima do barulho “eu amo essa música”, e continuou cantando o refrão.

Dreams last for so long
Even after you're gone
I know that you love me
And soon you will see
You were meant for me
And I was meant for you


Dessa vez, Harry sentiu que não precisava se preocupar com o possível pedido de ordem de restrição.

DESTINY


Eu não imaginava que, durante a minha vida, eu teria uma versão favorita de You Were Meant For Me que não fosse a da Jewel. Eu era daquelas pessoas que se recusavam a aceitar que um cover poderia ser melhor que a versão original (pelo menos quando eu gostava do cantor original. Quando eu gostava mais do artista que fez o cover, o caso era diferente), mas a versão de Harry me fez mudar de ideia. Ele estava bêbado, verdade. E fazia umas dancinhas engraçadas, mexendo o quadril de um lado para o outro no ritmo da música, também verdade. Mas, ainda assim, sua voz rouca e consistente conseguiu deixar ainda mais bonita — e até mesmo... sexy? — uma canção sobre corações partidos e vontade de morrer. Porque, sim, é isso que a Jewel está sentindo enquanto canta. Eu sei porque já passei por essa situação, conheço o processo. Jewel, minha amiga, você não está só. Mas o importante é que todo mundo supera um dia.
De qualquer forma, Harry realmente deu um show. Foi ovacionado tão intensamente que eu tive que cobrir os ouvidos para não correr o risco de ficar surda. Mas acho que o barulho não o incomodou. Ele devia estar acostumado a gritarias maiores em sua vida. Harry sorria sem parar enquanto as pessoas batiam palma, e era bem claro que ele estava orgulhosíssimo de sua recém-acabada performance. Eu também estava, para falar a verdade. Não pude deixar de torcer para que sua versão de You Were Meant For Me já estivesse disponível no Youtube quando eu chegasse em casa.
Harry desceu do palco e se misturou à multidão.
O set da Forever já estava quase no fim. Nós tínhamos que tocar por mais meia hora, e aí o DJ contratado assumiria o controle. Foi meio difícil cantar depois de Harry, já que as pessoas não prestavam mais muita atenção. Tocamos algumas músicas divertidas dos anos 80 e, então, encerramos.
Vou ser bem sincera: eu não queria ir embora. Eu costumava ir para casa correndo ao fim de cada noite de trabalho, morta de cansaço e louca para tomar um banho e pular na minha cama. Quando não voltava para casa imediatamente, o máximo que eu fazia era encontrar alguns amigos na boate do meu pai. Mas eu nunca ficava na festa, mesmo quando os noivos nos convidavam. Só que em nenhuma das outras ocasiões existia Harry Styles. Quero dizer, ele certamente existia em algum lugar, mas não ali, na minha frente.
HARRY STYLES.
Se eu fosse embora naquele momento, quais eram as chances de que eu me encontrasse com ele de novo por aí? Será que nós nos trombaríamos em algum lugar inusitado? Deus não seria tão bondoso comigo duas vezes. Eu não tinha essa sorte. Inclusive, se naquela semana eu tive a chance de conhecer Harry Styles, já estava me preparando para ficar presa em algum elevador com o Pharrell Willliams cantando Happy sem parar.
Contra minha vontade, eu ajudava meus colegas de banda a guardar os instrumentos na van — que estava estacionada na porta do clube onde ocorria a festa. Eu tentava a todo custo enrolar o máximo que podia e esse fato, infelizmente, não passou despercebido.
— Quantas horas você vai demorar pra chegar aqui, Destiny? — perguntou Ben, rabugento como sempre. Ele estava parado em frente ao carro enquanto me assistia caminhar lentamente em sua direção. E eu caminhava bem lentamente mesmo.
— Eu já falei que tô com dor nos pés. — esquerda. Direita. Um passo de cada vez. Eu segurava um par de baquetas (minha maior contribuição) e qualquer pessoa que me visse caminhando naquele estado pensaria que eu tinha acabado de levar uma surra. Ou realizado atividades sexuais bastante... intensas.
Ben bufou e revirou os olhos.
Vamos lá, Destiny, pense em alguma coisa. Por qual motivo você ficaria em uma festa em que não conhece ninguém, e nem foi convidada?
— Quer que eu te ajude a andar? — Susan se ofereceu, sempre prestativa.
— Na-na-não, está tudo bem. Eu tô legal.
Continuei andando como uma velha com reumatismo, tentando colocar minha cabeça para funcionar. Argh, não iria dar certo. Mesmo que eu ficasse, eu faria o quê? Harry estava ocupado demais com seus amigos, e eu não iria persegui-lo a festa inteira feito uma louca ou coisa parecida. Nós só conversamos uma vez. Tecnicamente, a gente nem se conhecia. Era capaz de o cara até pensar em pedir uma ordem de restrição contra mim.
— Cara, anda direito. Parece até que você tá assada.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Arregalei os olhos e soltei o ar fortemente diante da singela observação de Jake, nosso guitarrista.
Eu realmente precisava encontrar melhores colegas de trabalho.
— Será que ninguém me respeita nesse lugar? — gritei, indignada, desistindo de andar feito uma velha assada. — Eu não estou assada, e é difícil andar direito em cima dessas LOUBOUTINS.
Minhas botas não eram Louboutin, mas foda-se. Jake não seria capaz de saber a diferença.
Apressei o passo e caminhei até a van, me sentindo completamente derrotada. Era isso: eu iria embora e nunca mais veria Harry na vida. Pelo menos não pessoalmente, já que seu rosto aparecia constantemente em todos os veículos de comunicação.
Assim que me preparei para entrar no carro, ouvi uma voz conhecida gritar:
— DESTINY’S CHILD!
Meu coração disparou. Eu não precisei olhar para trás para ter certeza de quem era. A não ser que um fã saudoso do grande grupo de R&B formado por Kelly, Beyoncé e Michelle estivesse ali, do lado de fora da festa, gritando o nome de sua banda favorita para quem quisesse ouvir, aquele só podia ser Harry me chamando.
Pictures Of You, do The Cure, voltou a tocar em minha rádio mental.
Tentei me virar em câmera lenta para acrescentar um pouco mais de drama à cena. Não podia ser coincidência o fato de Harry aparecer ali no momento em que eu estava indo embora. Só podia ser destino. Estávamos conectados.
Harry segurava o celular em seu ouvido, e provavelmente saíra do clube onde acontecia a festa à procura de algum lugar mais quieto para conversar. Mas, assim que me viu o encarando, enfiou o aparelho no bolso de sua calça sem sequer se despedir de quem estava do outro lado da linha.
— Destiny’s Child, você está indo embora? Não vai embora! — Harry cambaleou em minha direção. — Caras, vocês não podem ir embora!
Ele parou de frente para a nossa van.
— Eu gostei de vocês, quero que vocês toquem no meu casamento. Vocês têm algum cartão? Telefone de contato?
— Ca... Casamento? — foi a única coisa que consegui responder. Como assim casamento?
— Ou aniversário — ele continuou, como se não tivesse me escutado. — Vocês tocam em aniversário? Bar Mitzvah?
— Acho... Acho que...
— Claro que sim, nós fazemos tudo isso. — Ben me interrompeu, entrando na minha frente e entregando a Harry um cartãozinho da nossa banda. — É só ligar e agendar.
— Ótimo. Ótimo. Muito bom mesmo — Harry mexia a cabeça afirmativamente e olhava para o cartãozinho com as sobrancelhas franzidas, como se tentasse decifrar alguma mensagem criptografada escrita ali — Vocês provavelmente recebem muitas ligações, não é? A linha está sempre ocupada? — ele não respirava entre as palavras e ainda tinha a fala pastosa, por causa do álcool — Desssstiny’s Child, por que você não me passa seu telefone pro caso de, sei lá, eu tentar ligar e não conseguir?
— Você pode anotar o meu, é 3957...
— Eu acho que ele foi bem claro sobre querer o telefone da Destiny, Ben. — Susan interrompeu um Ben afobado, que hiperventilava diante da ideia de uma celebridade do nível de Harry contratar seus serviços e deixá-lo rico. Como se celebridades do nível de Harry precisassem mesmo de bandas como a nossa.
Susan moveu seu olhar para mim, como se perguntasse “O que você está esperando?”.
Eu não podia dizer o que estava esperando. Talvez que alguém apontasse para uma câmera escondida e revelasse que todo aquele dia não havia passado de uma pegadinha. Harry Styles tinha mesmo usado uma desculpa esfarrapada para pedir meu telefone? Eu sabia que meu horóscopo não estava mentindo quando disse que era um bom dia para pessoas do meu signo saírem de casa.
— Er... Meu telefone — repeti, sem muita certeza do que eu havia escutado. — Você quer meu telefone?
— Pro caso de eu tentar entrar em contato. E não conseguir. Você sabe... Pra aniversário, ou Bar Mitzvah.
Harry parecia um pouco desconcertado. Era como se ele tivesse se dado conta pela primeira vez do que havia feito.
— Okay. — assenti com a cabeça e Harry me entregou seu celular.
— Talvez eu esteja um pouco bêbado demais pra acertar os números. — ele disse, percebendo minha expressão confusa.
Um pouco bêbado demais.
Digitei meu número no celular de Harry e salvei o contato como “Destiny’s Child”, já que aquele parecia ser a única forma que ele sabia me chamar. Eu não queria correr o risco de que ele não se lembrasse de quem se tratava quando acordasse no dia seguinte.
— Prontinho. — devolvi o aparelho, torcendo para que ninguém percebesse que minha mão tremia.
O sorriso que Harry tinha em seus lábios enquanto via meu número na tela do seu celular era tão grande e brilhante que seria capaz de iluminar o mundo inteiro caso um dia, sei lá, as nuvens resolvessem esconder o Sol para sempre. Eu queria pensar que aquele sorriso era um privilégio meu — que tinha a ver comigo —, mas a verdade é que eu havia visto Harry sorrir vezes o suficiente naquela noite para saber que era privilégio dele. Harry Styles provavelmente foi o ser humano escolhido pelos deuses para ter o sorriso mais bonito do mundo.
Ele olhou para mim, ainda sorrindo, e disse:
— Obrigado. Eu vou ligar.
— Quando souber de um Bar Mitzvah ou coisa assim — sorri também, sem conseguir encará-lo direito. Pictures Of You, do The Cure, começava a tocar cada vez mais alto na minha rádio mental e tornava ainda mais difícil pensar. Eu precisava ir embora antes que falasse alguma besteira e estragasse tudo. Olhei para Ben e percebi que ele já tinha percebido tudo e estava louco para sair dali. — Nós temos que ir, Harry. Foi um prazer te conhecer.
— Eeei, até mais, caras — Harry entrou com metade de seu corpo na van e apertou a mão de todos os integrantes da banda, dizendo coisas como “Vocês são ótimos! Vamos marcar de cantar juntos de novo!”. Eu ainda estava parada em frente à porta, e ao chegar a minha vez, Harry olhou em meus olhos e disse: — Te vejo por aí, Destiny.
Quando pensei que ele iria se virar para ir embora, Harry me surpreendeu colocando suas mãos em meus ombros e me olhando como se, dessa vez, a mensagem criptografada estivesse no meu rosto. Juro que por um segundo achei que ele estivesse prestes a me beijar. Harry Styles iria me beijar e não havia nenhuma simpatia amorosa ou chantagem emocional envolvida. Apenas uma grande e inexplicável atração. E talvez um pouco de álcool. Aproximei-me e inclinei um pouco o rosto para facilitar o serviço. Um beijo naquele momento seria meio precipitado? Sim, totalmente. Mas se ele queria, não seria eu quem iria impedir. Foi aí que Harry finalmente abriu a boca e disse:
— Você é legal, Destiny’s Child.
E então se virou de costas, voltando a caminhar em direção à entrada do salão de festas. De longe, pude escutá-lo cantarolar:
I’ve got sunshiiine on a cloudy day.


Capítulo 6


HARRY


Harry estava com os cotovelos apoiados na bancada de sua cozinha. Ele mantinha seus olhos fechados e esperava ansiosamente que a aspirina que havia tomado surtisse efeito e o aliviasse da dor de cabeça que sentia. A cada gole que dava em seu café, tentava decidir se queria ou não se lembrar de tudo o que ocorrera na noite passada. De algumas coisas ele se lembrava, é claro, e elas já eram embaraçosas o suficiente. Mas o fato de ele não fazer a menor ideia de como conseguiu chegar em sua casa o deixava bastante apreensivo em relação às possíveis consequências da noite anterior.
O relógio afixado na parede apontava que já se passavam das 14h e seu celular tocava incessantemente há cerca de vinte minutos. Ele podia imaginar de quem se tratava, e não estava pronto para atender. Preferiu lavar o rosto, beber um café e se preparar psicologicamente antes de ouvir o sermão de sua assessora por qualquer coisa que tivesse feito na festa de casamento de Adam e Mandy.

If you start me up. If you start me up I’ll never stop.


Start Me Up, dos Rolling Stones, continuava a ecoar pela casa vazia.
Caramba, será que ela não desiste?
Harry pegou sua xícara de café e arrastou seus pés até a sala. Seu celular vibrava sobre a mesa de centro e o nome de Katherine brilhava na tela.
Respirou fundo e, finalmente, atendeu:
- Oi? – pigarreou, limpando a garganta. Ele devia se mostrar confiante. – Oi!
- Olá, Harry Styles. Espero que você esteja bem. – o tom de voz de Katherine era carregado de ironia.
- Er, obrigado. Eu estou bem. Você está bem?
- Eu estou ótima! Será que você, por um acaso, teve chance de checar suas redes sociais hoje?
Harry podia imaginar o sorrisinho que Kate esboçava em seus lábios. Era o mesmo sorriso que ela usava quando ele, ou qualquer um dos garotos, fazia algo embaraçoso, mas inofensivo. Ela não parecia brava, apenas divertida. Tal constatação fez Harry suspirar de alívio, já que significava que, pelo menos, ele não havia feito nada capaz de prejudicar sua banda.
- Mmm... Ainda não, Kate. Eu acordei há pouco tempo, pra falar a verdade – Harry coçou a cabeça, intrigado. – Tem alguma coisa que eu deveria ver?
Katherine gargalhou alto, fazendo com que Harry acabasse rindo por reflexo também.
- Bem, digamos apenas que nove dos dez Trending Topics do Twitter estão relacionados a você e a sua tocante apresentação de ontem à noite. Eu não sabia que você gostava de Jewel! Por que nunca me disse?
Harry sentiu seu corpo congelar. Um filme começou a se passar em sua cabeça, como se o nome “Jewel” fosse o gatilho a ser apertado para despertar todas as memórias vergonhosas que ele queria esquecer. Sim, ele se lembrava que bebera demais. Lembrava-se, também, que, tomado por uma urgência enorme de demonstrar seu amor pela humanidade (“será que colocaram ecstasy no meu copo?”), resolveu subir ao palco para cantar My Girl com a banda de casamento. Mas, agindo em autodefesa e para protegê-lo da humilhação eterna, seu cérebro o fez esquecer-se de que, logo após o fim daquela canção, Harry engatou em um discurso confuso e desorganizado sobre o amor, e achou por bem finalizá-lo com um cover de You Were Meant For Me.
- Eu... Eu não sei. Kate? Preciso desligar agora. Desculpa, te ligo depois.
Okay, Harry. Está tudo sob controle. Não deve ter sido tão ruim. Ele repetia para si mesmo, criando coragem para abrir o seu Twitter. É só você cantando uma música. Abre o Twitter e acaba logo com isso.

#HarryYouWereMeantForMe
(HarryVocêFoiFeitoPraMim)

DRUNK HARRY
(HARRY BÊBADO)

JEWEL

My Girl

#ILoveHarryBc
(#EuAmoHarryPq)

#HarryYou’reMySunshineOnACloudyDay
(#HarryVocêÉMeuRaiodeSolEmUmDiaNublado)

#ReplaceASongTitleWith Drunk Harry
(SubstituaOTítulodeUmaMúsicaCom Harry Bêbado)

International Harry Day
(Dia Internacional do Harry)

#PostYourFaveDrunkHarryMoment
(PosteSeuMomentoFavoritoDoHarryBêbado)

Kate não estava exagerando. Nove dos dez Trending Topics do Twitter realmente eram sobre ele e, aparentemente, seus fãs não poderiam estar se divertindo mais. Sua timeline estava inundada de piadas, montagens e fotos da noite anterior e, a cada imagem que via, sua vontade de cavar um buraco em seu jardim e ficar lá para sempre aumentava mais. Continuou descendo pela sua página inicial até seu dedo parar em um link para um vídeo no Youtube.
“OMG! VOCÊ QUE FILMOU ESSE VÍDEO DO @HARRY_STYLES: O FANDOM INTEIRO É ETERNAMENTE GRATO”. Era o que dizia o tweet de @Crazy4Styles, que provavelmente surtaria ao saber que Harry não só leu o que ela havia escrito, como também clicou no link disponibilizado. Ele já sabia do que se tratava, mas precisava ver o estrago com seus próprios olhos.
O vídeo começava pouco depois do momento em que Harry subia ao palco para cantar My Girl. Okay. Tirando o fato de que a vocalista da banda se afastava do microfone tão assustada que mais parecia ter visto um fantasma, até ali não estava tão ruim. Destiny. Harry sorriu ao se lembrar do seu nome, e do vestido amarelo que a deixava parecida com um vagalume. Mas um vagalume bonitinho. Um vagalume... Intrigante. Tão intrigante que Harry achou difícil tirar os olhos dela durante toda a noite e, embaraçosamente, ela percebeu. Harry não acreditava em amor à primeira vista, não era este o caso. Mas ele acreditava em interesse, e havia algo sobre Destiny que o atraía – algo que ia além de seus atributos físicos. Alguma coisa sobre ela fazia com que ele quisesse conhecê-la melhor: saber do que ela gostava, o que fazia quando queria se divertir e se chorava sempre que cantava Shania Twain em casamentos. Destiny despertava seu interesse e, por isso, ao perceber que ela saía da festa, acompanhada dos seus companheiros de banda, Harry decidiu que era hora de tomar uma atitude. Quais eram as chances de que eles pudessem se encontrar novamente? Se ele a deixasse ir, perderia a oportunidade de conhecer melhor alguém por quem realmente havia sentido empatia. Por isso, fez o que qualquer um em sua situação faria: cogitou sair correndo atrás dela, chamando seu nome. Mas, ao perceber que estava bêbado demais e que aquela seria uma atitude levemente desesperada, achou melhor fingir que estava falando ao telefone para sair de perto do seu grupo de amigos e, então, segui-la até a calçada. E ao vê-la, ali, de costas, prestes a entrar na van, tudo o que conseguiu fazer foi chamar pelo nome da antiga banda da Beyoncé. DESTINY’S CHILD!
Uma nova onda de vergonha tomou conta de seu corpo. Será que ela percebeu que foi tudo programado? Que patético, Styles. Que decadente.
“Eu preciso do seu telefone pro caso da linha estar ocupada. Sabe como é, se eu quiser contratar vocês pra tocarem em um Bar Mitzvah ou algo assim.”
Muito convincente. Que merda eu estava pensando?
Mas tudo bem. Pelo menos havia dado certo. Ele agora tinha o número de Destiny salvo em seu celular. Se teria coragem de ligar ou não, ele não sabia. Talvez um dia... Quando deixasse de se sentir tão ridículo.
Harry voltou sua atenção para o vídeo assim que ouviu sua própria voz, arrastada e mais alta que o normal, anunciando que iria fazer um discurso sobre o amor. Os minutos que se seguiram foram especialmente dolorosos de assistir. Ele mal conseguia aguentar três segundos sem fechar os olhos ou cobrir os ouvidos. Era possível sentir vergonha alheia de si mesmo? Como ninguém o impediu de fazer aquilo? A quantidade de besteira que saía de sua boca era imensurável, e ele não podia acreditar que transformara o discurso que havia programado naquela exposição confusa de frases dos Beatles e do Black Eyed Peas. Porra, ele tinha planejado. Seu discurso original era cheio de piadas internas e citações dos artistas favoritos dos noivos. E sim, originalmente, ele pretendia cantar algo para encerrar, mas não era Jewel e sim Mandy, do Barry Manilow. Ele deveria ter dado ouvidos à nota de voz que gravara no aeroporto e não ter enchido a cara antes de falar em público.
Talvez da próxima vez.
O alarme de seu celular disparou, anunciando que seu voo para a Inglaterra partiria em três horas. Era hora de recolher o que restava de sua dignidade, arrumar suas coisas e voltar para os seus compromissos.

***


Assim que saiu do táxi, Harry pôde ver o amontoado de paparazzi congestionando sua entrada no Aeroporto Internacional de Los Angeles.
HARRY, HARRY! O fato de você estar bêbado no vídeo da noite passada pode ser má influência para os seus fãs?
HARRY, HARRY! Você faria um dueto com a Jewel?
Harry, é verdade que você está saindo com a Jewel?
Harry, sua apresentação da noite passada pode ser a indicação de uma possível carreira solo?
Você viu que a Jewel elogiou o seu cover?

Harry se concentrava apenas em continuar andando e em ignorar os flashes que explodiam em sua face.
“A Britney já passou por coisa pior.” ele repetia mentalmente “Eu consigo passar por isso.”

DESTINY


Querido diário,
Há exatos dez dias, Harry Styles pediu meu telefone. E há exatos dez dias eu não como, durmo, trabalho, ou faço qualquer coisa que não seja checar o celular com a dolorosa esperança de que Harry possa me ligar a qualquer momento.

Okay. Risca isso. Talvez eu tenha exagerado um pouco. Poucas coisas na vida tinham o poder de fazer com que eu perdesse o apetite, e eu continuava dormindo muito bem. Também não podia me dar ao luxo de deixar de trabalhar, já que precisava de dinheiro para pagar as minhas contas. Infelizmente, as circunstâncias da vida não me deixavam sofrer da forma como uma mulher em minha situação tinha direito. Mas isso não me impedia de checar o celular de dois em dois minutos na esperança de que, em vez de mensagens da operadora, ou ligações do meu pai perguntando se eu havia “roubado” seu rímel azul (a resposta, infelizmente, era sim. Ele sempre descobria), eu fosse agraciada com uma ligação ou algum sinal de Harry. Qualquer sinal. Até mesmo um “;)” estaria ok por mim.
Mas não.
Nada.
Niente.
Quão ingênua eu havia sido por acreditar que ele realmente me ligaria? No calor do momento, cheguei até a pensar que aquela noite fosse um milagre proporcionado pela minha calcinha da sorte. E ele parecia tão convincente. Eu achava que todo aquele negócio de pedir o meu número para o caso da linha oficial estar ocupada (Mimimi, blábláblá! Vou te ligar pra vocês tocarem em um Bar Mitzvah!) fosse papo furado, mas talvez fosse a mais pura verdade. Bom, nesse caso, que cara esquisito esse Harry. A Forever nem era lá essas coisas, e onde ele morava certamente existiam muitas outras bandas parecidas com a nossa. Não precisava ter pedido meu telefone e iludido meu pobre coração. Agora eu estava fadada a passar o resto da minha vida ouvindo o álbum da Adele e encarando a tela do meu celular, até que a catarata cegasse meus olhos.
- Ai, ai – suspirei dramaticamente e deitei meu corpo sobre o balcão. Era sexta-feira e eu estava trabalhando no bar da boate do meu pai, já que não tinha que estar cantando em nenhum casamento. – Ai, ai.
- Ai, meu Deus, Destiny. O que diabos você tem? – Danny, meu amigo, guru espiritual e colega de trabalho na Gaiola das Loucas, quis saber. – Tem meia hora que você tá gemendo nesse balcão.
- Ei! – ajeitei minha postura e o encarei séria. – Não precisa ser grosso. Eu estou passando por um momento difícil. É assim que eu te trato quando você fica triste por ter levado um pé na bunda?
Danny revirou os olhos.
- Eu nunca levo pés na bunda – ele se escorou ao meu lado, ignorando por completo a fila de clientes em busca de algo pra beber. – Mas, caramba, Des, você ainda tá nessa? Já falei pra desencanar e deixar essa história pra lá.
Deixar alguma coisa pra lá? Ai, Danny. Até parece que você não me conhece.
- Argh, é só que... Eu me sinto idiota. Você acha que eu sou idiota? – perguntei, mas prossegui antes que Danny pudesse responder. – Se você estivesse lá, você saberia. Foi tudo tão meigo, Danny. Parecia até os filmes do Freddie Prinze Jr. – àquela altura eu já tinha adotado o meu tom de voz mais teatral e encarava o horizonte, sonhadora. – Harry e eu cantando juntos e a intensa troca de olhares... O nascer de um grande amor, tendo apenas a lua como testemunha...
Danny me observava, estático, com as sobrancelhas erguidas. Qualquer outra pessoa acharia que ele estava me julgando, mas eu sabia que, naquele momento, Danny apenas admirava a minha atuação.
- O ponto é: ele parecia legal. Não parecia o tipo de cara que pede o telefone de uma garota só pra deixar guardado na agenda. – finalmente concluí.
Danny deixou escapar um “awww”, e me puxou para mais perto, me envolvendo em um abraço rápido. Graças a Deus papai tinha outras pessoas trabalhando no bar. Se dependesse de nós dois, ninguém beberia nada naquela noite.
- Des, olhe bem nos meus olhos – ele segurou meu rosto, fazendo com que eu o encarasse. Danny era super fofo. Às vezes, eu queria que ele fosse hétero. - Eu super entendo que seja difícil manter o otimismo nessa situação, ok? O cara é lindo, forte, tem lábios carnudos e rosados...
- Danny, você não está ajudando.
- Voz rouca e sexy, é rico, importante, divertido... E será que é bem dotado? Eu acho que sim. Então por que ele perderia tempo com você quando poderia ter qualquer pessoa, não é verdade?
- Você definitivamente não está ajudando.
Que tipo de amigo ele era afinal?
- E eu sei que, lá no fundo, isso mexe com você. Mas será que já passou pela sua cabecinha que o cara é cheio dos compromissos e pode estar ocupado?
Meu Deus. Era verdade. A ideia de não ser boa o suficiente era capaz de me deixar louca. E não só para Harry, mas para qualquer coisa. Aquilo ainda era algo com o que eu tinha que lidar todos os dias da minha vida, mesmo com todo o empenho de papai em fazer com que eu me sentisse especial. E muitas vezes eu me sentia. As frases de autoajuda realmente faziam efeito. Mas pode ser difícil calar aquela vozinha sabotadora que insiste em repetir que você não é boa o bastante. Você sabe, todo o negócio de ser órfã e passar alguns anos da sua vida em um orfanato realmente podem causar danos à sua autoestima. Mas Danny estava certo. Harry poderia simplesmente estar ocupado. O problema não era comigo. Eu era perfeitamente interessante. Ele não havia entrado em contato porque era uma celebridade. E celebridades têm coisas pra fazer.
Eu olhava pra Danny como se estivesse diante do novo Dalai Lama.
- Oh, Danny, você é tão sábio. Eu queria te beijar agora.
- Por favor, não.
- Você está certo. Talvez Harry só não tenha tido tempo para ligar. Ou talvez ele não ligue nunca, e daí? A vida continua.
Nem eu acreditava que aquelas palavras estavam saindo da minha boca, mas tudo bem. Era melhor relaxar e pensar em outras coisas do que continuar me torturando por algo que eu nem sabia se iria acontecer. Foi só um encontro qualquer em uma festa, no fim das contas. Talvez não tenha significado nada.
- Eu não acredito que essas palavras estejam saindo da sua boca – a expressão no rosto de Danny poderia ser traduzida como um misto de perplexidade e orgulho. – Mas é isso aí, assim que se fala. Agora vaza daqui, Des, porque já deu seu horário e você não me deixa trabalhar.
Era verdade. Meu turno já havia acabado e eu realmente não deixava Danny trabalhar. Sempre que estávamos juntos, tudo o que fazíamos era conversar, e eu não sabia como meu pai ainda não tinha demitido nenhum de nós dois. Quero dizer, eu sabia o porquê de papai não me demitir. Mas o Danny não tinha a vantagem de ser filho do chefe, então eu tinha que deixá-lo ser produtivo de vez em quando.
Ainda que fosse sábado à noite e a vida noturna em Los Angeles estivesse apenas começando, peguei minha bolsa e fui direto pra casa.

***


O prédio onde eu morava não era muito longe da boate do meu pai. Quinze minutos de carro e voilá: lar, doce lar. Mas eu não tinha carro, então trinta minutos à pé e, aí sim: lar, doce lar. Tudo que eu queria era tomar um banho, cair na cama e assistir a qualquer coisa que estivesse passando na televisão. Pensando bem, qualquer coisa não. Alguma comédia romântica. É. Eu estava no clima pra comédias românticas, e ainda havia na geladeira um pedaço da torta de nozes que eu tinha comprado no dia anterior. Nada melhor do que assistir a filmes românticos enquanto se enche a boca de doce.
Assim que abri a porta de casa, avistei Stevie, minha gata, esparramada sobre as almofadas indianas que ficavam no chão.
- Oi, Stevie – cumprimentei minha colega de quarto, que já estava se esfregando entre as minhas pernas. Morar com Stevie era legal, apesar de ela ser meio folgada e nunca ajudar a pagar o aluguel. – Como foi o seu dia? Aposto que você aproveitou que eu não estava em casa pra convidar seus amigos e fazer uma festa cheia de drogas e bebida, não é?
Stevie, como de costume, apenas me julgou com o olhar. Argh, adolescentes.
Apenas reabasteci sua vasilha de ração e desisti de tentar manter um diálogo por aquela noite.
Meu apartamento não era grande, nem chique, mas era aconchegante. Apesar de simples, era um lugar que eu gostava de chamar de lar. Tinha tudo que eu precisava para uma vida feliz: cama, meu violão, TV e internet. Depois que minha irmã Anne se mudou pra Nova Iorque, deixando ainda mais óbvio para todos quem era a parte promissora da família (e provavelmente fazendo com que meu pai se perguntasse “por que eu tive que adotar essa outra louca também?”), eu decidi que não queria mais depender de George Thomas pra nada. Ou, pelo menos, pra nada que não fosse extremamente necessário. Eu já era adulta, e seria inadmissível que eu continuasse sendo sustentada por papai só porque minha carreira ainda não havia decolado. Eu devia ser responsável pelas minhas escolhas. Por isso, assim que me juntei à Forever, a primeira coisa que fiz foi procurar por um apartamento que eu pudesse pagar do meu próprio bolso. Eu já trabalhava na Gaiola das Loucas durante a semana, então deduzi que conseguiria pagar por alguma coisa, pelo menos, decente.
Não foi tarefa fácil, vou te dizer. Pela faixa de preço que eu procurava, tudo que eu conseguia encontrar eram lugares minúsculos, sujos e localizados entre bocas de fumo de gangues adversárias. Então, em um belo dia, como por um milagre, eu o encontrei. Assim que coloquei os olhos naquele apartamento pequeno e fofo, quase sem divisórias, e com uma janela enorme que me permitiria enxergar uma pequena parte de Los Angeles - ali, do oitavo andar -, eu sabia que ele teria de ser meu. A vizinhança era tranquila e cheia de velhinhos, e quando vi o aluguel que estavam cobrando por aquela belezura, tive ainda mais certeza de que havia achado meu cafofo. Assim que me mudei, tentei imediatamente dar um toque pessoal para aquele lugar. Comecei colando cartazes com frases motivacionais nas poucas paredes que tinham ali. Você sabe, pequenas frases de efeito que me dariam forças para lutar. “I wanna be a star, I don’t wanna be a cleaning lady”, “Don’t dream it, be it” e, claro “TAKE MY BREATH AWAY” ao lado de uma foto do Tom Cruise, em Top Gun (que muitos diriam não ser motivacional, mas eu discordava). Não pude, também, deixar de colar acima da minha cama o meu pôster da Stevie Nicks, para que ela me abençoasse enquanto eu dormia. Para finalizar, espalhei pela casa fotos que Anne, papai e eu tiramos ao longo da vida.
Outra coisa que fiz ao me mudar para o meu novo e querido lar foi posicionar a minha cama estrategicamente ao lado da janela. Assim, eu poderia ver as luzes da cidade durante a noite, ou me sentar no parapeito da janela e compor enquanto observava o céu e as pessoas pequenininhas que passavam lá embaixo. Um pouco clichê, não é? Mas era a verdade. Eu era uma grande fã dos clichês, e me sentia infinitamente mais inspirada durante a noite, quando tudo parecia mais calmo e mágico.
E era ali, sentada no parapeito - com o violão encaixado em meu colo - onde eu me encontrava naquela madrugada. Não havia nenhuma comédia romântica do meu agrado sendo exibida na TV, então decidi que era o momento perfeito para fazer covers de músicas da Whitney Houston até que o vizinho resolvesse chamar a polícia. O que não ocorreria, já que meu vizinho da frente – um adorável senhor de 70 e poucos anos – era praticamente surdo e não se incomodaria com o meu barulho.
Eu estava prestes a chegar ao refrão de How Will I Know quando ouvi meu celular vibrar em cima da cama.
Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.
Listarei, em ordem de ocorrência, os pensamentos que se passaram pela minha cabeça naquele momento:
a) Quem está me mandando mensagem à 1h da manhã? Será que o papai morreu? Não, ninguém manda mensagem quando alguém morre. As pessoas ligam.
b) Ai, caralho. Será o Danny bêbado me mandando foto da sua bunda DE NOVO?
c) Talvez seja a Anne querendo me contar sobre mais um dos seus sonhos premonitórios.
d) Ou será que... Harry?
O último pensamento fez com que todo o meu corpo se estremecesse. Seria possível? Um milagre concedido pela própria Whitney Houston? Não... Estava tarde. Nada a ver. Nada a ver. Tira isso da cabeça, Destiny. Estiquei o braço e alcancei o aparelho. Número desconhecido. Tira isso da cabeça, Destiny. Tira isso da cabeça, Destiny. Abri a mensagem.

oi destinbys’s child .x


Oi destinbys’s child? Calma, Destiny. Não tire conclusões precipitadas. Pode ser qualquer pessoa. E essa pessoa pode estar tentando dizer qualquer coisa. Não tem porque se animar, para de tremer, PARA DE TREMER.
O que eu responderia? Eu não poderia parecer louca. Não. Muito menos desesperada. Se fosse Harry, ele jamais poderia imaginar que eu esperei por aquela mensagem por dez dias. Seja casual, Destiny. Respire fundo. Digite o que uma mulher calma e serena responderia.

???????????????


Quinze interrogações foi o melhor que eu consegui pensar, e tudo que seria possível digitar, graças ao meu recém-adquirido mal de Parkinson.
A resposta veio quase imediatamente.

sou eu... Harry .x


ERA ELE. HARRY!
Antes que eu pudesse absorver a notícia e me beliscar para ter certeza de que eu não tinha pegado no sono e estava sonhando tudo aquilo, meu celular começou a tocar. O mesmo número desconhecido aparecia na tela.
Meu primeiro impulso foi o de jogar o aparelho no chão. Eu não estava preparada. Não assim, tão de repente. Eu precisava, no mínimo, de uma água com açúcar para me recuperar do susto.
Harry estava me ligando, e a julgar pelos erros de digitação, estava bêbado de novo.
Ai, ai. Ai, ai, ai, ai, ai.
Respirei fundo, tomei coragem e finalmente atendi, tentando soar o mais natural possível:
- Alô??? - esganicei. Minha voz duas oitavas mais alta que o normal. O mais natural possível.


Capítulo 7


HARRY


Era pouco mais de 4h da manhã em Nova Iorque. Harry estava na sacada da cobertura de alguém que ele não conhecia, mas que, aparentemente, fazia questão de sua presença. Acontecia com certa frequência. Harry costumava ser arrastado por seus amigos para festas de pessoas desconhecidas que tinham interesse em mudar esse status. Geralmente ele não se importava. Sempre fora bastante sociável e conhecer pessoas novas lhe agradava – desde que as pessoas em questão fossem divertidas e não estivessem interessadas em seu dinheiro ou fama. Harry tinha boa intuição para essas coisas. Conseguia notar rapidamente quando alguém se aproximava apenas com o intuito de tirar proveito do que ele tinha e, nesses casos, se afastava assim que percebia.
Naquela festa em especial, as pessoas eram agradáveis. O anfitrião era um antigo conhecido de seu amigo, Jeff, que o arrastara alegando que Harry precisava aproveitar a estadia em Nova Iorque para socializar um pouco mais – como se, de uns anos pra cá, a vida de Harry não girasse em torno de “socializar”.
Mas Harry socializou. Socializou bastante. Conversou com todos, bebeu algumas cervejas e até arriscou alguns passos na pista de dança. E foi então que aconteceu. Depois de uma animada setlist de clássicos dos anos 90, o DJ contratado achou por bem avançar alguns anos no tempo. Assim que conseguiu identificar a música que tinha acabado de começar, Harry foi tomado por um sentimento estranho.

Can you keep up? (baby boy)
Make me lose my breath (bring the noise)
Make me lose my breath (hit me hard)
Make me lose my (hah hah)

Era normal se emocionar com Lose My Breath, das Destiny’s Child? Certamente não. Mas Harry não conseguia conter o sorriso em seu rosto.

Oooh
I put it right there, made it easy for you to get to
Now you wanna act like you don't know what to do
After I done did everything that you asked me
Grabbed you, grind you, liked you, tried you
Moved so fast baby now I can't find you


- Destiny’s Child. - Ele repetiu para si mesmo, mais alto que o necessário.
- Você gosta? – A garota que dançava ao seu lado quis saber.
Harry assentiu com a cabeça.
- Porra, claro que sim. Elas eram ótimas, não eram? Kelly, Beyoncé, Michelle... – ele enumerava nos dedos o nome de cada integrante. – E aquela quarta que ninguém lembra o nome. Todas ótimas. - respondeu de forma tão efusiva que qualquer desavisado acreditaria que Harry Styles era o fã número um do grupo de R&B mais popular dos anos 2000.
O que Destiny estaria fazendo naquele momento? Ele gostaria de saber. Bem, talvez ele tivesse meios para saber. Pediu licença e atravessou o emaranhado de pessoas que ocupava a pista de dança.
Destiny’s Child. Por que uma música das Destiny’s Child? A vontade de Harry era de perguntar para o DJ. Por que Destiny’s Child? O que você quer dizer com isso?
Dez dias havia se passado desde que Harry conhecera Destiny, na festa de casamento de Adam e Mandy. Dez dias desde que ambos cantaram juntos e Harry inventara uma desculpa esfarrapada para conseguir seu telefone. Dez dias havia se passado e Harry cogitou ligar para ela em todos eles. Mas nunca teve coragem. O que ele iria dizer? Durante a única vez em que os dois mantiveram um diálogo, Harry estava bêbado. E ironicamente, enquanto estava ali, na sacada de um apartamento que não era seu, com o celular em mãos e prestes a digitar uma mensagem, Harry também se encontrava levemente alterado.

oi destinbys’s child .x


Digitou rapidamente e apertou enviar. Sequer pensou em corrigir o que havia escrito, já que tinha plena noção de que seu reflexo, afetado pelo álcool, impediria que as teclas certas fossem tocadas.
A cada segundo que se passava sem sinal de resposta, Harry se arrependia mais do que tinha feito.
Merda. Não devia ter mandado. Que horas são em Los Angeles? Quem manda mensagem para alguém essa hora?
Harry continuaria se martirizando pelo resto da noite, mas parou ao sentir o celular vibrar em sua mão. Uma mensagem recebida.

???????????????


Imediatamente digitou de volta:

sou eu... Harry .x


Uma, duas, três... Vinte e cinco interrogações? Harry conseguiu contar todas em questão de segundos. Adorava a forma como se tornava mais esperto e habilidoso depois de algumas cervejas. Ou, pelo menos, a forma como se sentia mais esperto e habilidoso. Vinte e cinco interrogações. Uau. Ela realmente não sabia de quem se tratava.
Ele deveria ter sido mais específico?
Sou eu, Harry Styles, do One Direct...” Não. Harry odiava citar o nome da sua banda em situações desnecessárias. Não queria parecer convencido ou estabelecer qualquer relação de poder baseada em seu status.
Sou eu, Harry... Do Casamento de Adam e Mandy.” Sim. Aquela parecia bem melhor. Simples e direta. Ele deveria ter mandado aquela mensagem.
Eu deveria ter mandado aquela mensagem. Harry pensava, enquanto seus dedos passeavam espontaneamente pela tela do celular. Antes que pudesse se dar conta, já estava com o aparelho em seu ouvido, aguardando que Destiny atendesse sua ligação. Aquela era uma boa ideia, certo? Todos gostavam de conversas às 4h da manhã. Talvez ela só estivesse demorando a atender porque tinha se afastado do telefone. Ou o jogado pela janela.
Harry estava prestes a desistir, quando Destiny finalmente atendeu:
- Alô??? – sua voz estava um pouco mais alta do que ele se lembrava. Será que estava brava ou aquela era a forma como soava ao telefone?
Ele limpou a garganta.
- Sou eu, Harry... Do casamento de Adam e Mandy – proferiu aquelas palavras tão automaticamente que era quase como se tivesse as ensaiado inúmeras vezes, por dez dias seguidos. E, talvez, ele tivesse mesmo.
A respiração de Destiny parecia pesada do outro lado da linha.
- Destiny?
Harry observava a vista da sacada, imaginando se doeria demais caso ele se jogasse, tamanha a vergonha que sentia.
- Desculpa... Ahm... Está tarde. Eu não deveria ter ligado. Até... Qualquer dia.

“Integrante do One Direction se joga do 10º andar de edifício de luxo no Upper East Side, em Nova Iorque. Fontes presentes no local afirmam que o cantor passou a apresentar comportamento estranho após Lose My Breath, das Destiny’s Child, começar a tocar. Fãs de Harry Styles fazem vigília na calçada do prédio há mais de 24 horas.”

Não soava como a melhor forma de morrer.
Mas Destiny finalmente se manifestou e o plano de suicídio de Harry foi adiado um pouco mais.

***


Harry e Destiny em: A Primeira Ligação.
(Um momento patrocinado por The Drifters – Up On The Roof)


Destiny: Não, espera! Não tem problema. Tá tudo bem. Eu só... Não estava esperando pela sua ligação.
Harry: É. Eu pensei em ligar antes, mas... (Confessar que não tive coragem? Não. Melhor mudar de assunto.) Que horas são em Los Angeles?
Destiny: Pouco mais de 1h da manhã. Que horas são na Inglaterra? (Preciso de água com açúcar. Preciso agora.)
Harry: 4h da manhã. Quero dizer, não. Eu não estou na Inglaterra. Eu tô em Nova Iorque. E aqui são 4h da manhã.
Destiny: (...)
Harry: (...)
Ambos: O que você está fazendo? (Risadas nervosas). Pode falar primeiro. (Mais risadas nervosas).
Destiny: (Nós estamos tão conectados).
Harry: (Isso foi... Legal.)
Destiny: Ok, eu começo. Eu estou em casa, sentada no parapeito da minha janela, com o violão no colo e me perguntando o porquê de Harry Styles resolver me ligar às 4h da manhã. (Huuum, olhe para você, Destiny! Tomando a iniciativa. Arrasa, garota!)
Harry: Tocando violão, no parapeito da janela, à 1h da manhã?
Destiny: Eu estava fazendo releituras de grandes canções da Whitney Houston - que descanse em paz. E é a sua vez de responder a pergunta.
Harry: Verdade. Eu estou na sacada do apartamento de alguém que eu não conheço, enquanto pessoas bêbadas dançam lá dentro. E resolvi te ligar às 4h da manhã porque recebi um sinal do universo.
Destiny: Sinal do universo?
Harry: Lose My Breath das Destiny’s Child começou a tocar. E enquanto as doces vozes de Kelly, Michelle e Beyoncé ecoavam pelo salão, eu só conseguia me perguntar: O que minha amiga Destiny’s Child estaria fazendo agora?
Destiny: Uau, tão dramático. É uma ótima história. Eu já estava achando que você precisaria da minha banda para um Bar Mitzvah. (Então nós somos amigos agora?).
Harry: Ah, claro! Eu não me esqueci disso. Pode ser que um dia eu precise.
Destiny: Hmmm. Você é judeu?
Harry: O quê? Não.
Destiny: Ok. Curiosidade. (Não consegui achar uma resposta confiável no Google.)
Harry: Então... Qual música?
Destiny: O quê?
Harry: Você estava tocando. Você sabe, antes de eu ligar.
Destiny: Ah, sim. How Will I Know. Sabe?
Harry: Sim, um clássico.
Destiny: Viva Whitney!
Harry: Viva! Que descanse em paz. (Por que eu estou sorrindo feito um imbecil?). Então... Você também compõe?
Destiny: Sim! Mas faz tempo que eu não escrevo nada. Bloqueio criativo, sabe como é.
Harry: Ô, se sei . Posso ouvir alguma música sua?
Destiny: Ahm... Não sei, acho que sim? Mas não agora. Agora não dá.
Harry: Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje.
Destiny: Eu não posso fazer hoje. Não dá.
Harry: O amanhã não existe, Destiny. E se eu morrer hoje e meu último desejo foi negado por você?
Destiny: Ah, você tá, tipo, zoando com a minha cara. Entendi. (Pare. De. Sorrir. Feito. Uma. Idiota.)
Harry: Eeeei, eu quero ouvir de verdade. Que tal daqui cinco dias?
Destiny: Ok. Daqui cinco dias você pode me ligar, e eu cantarei para você uma das minhas magníficas canções. (Em cinco dias eu consigo me preparar mentalmente.)
Harry: Quem falou alguma coisa sobre ligar? Eu vou estar em Los Angeles daqui a cinco dias. A gente pode se encontrar e aí você canta pessoalmente. Pode ser? (Cedo demais?)
Destiny: (...)
Harry: Destiny? (Definitivamente cedo demais.)
Destiny: CLARO! Er... (Controle-se, Destiny) Claro! Haha. Pode ser. (Caramba. Caramba. Caramba.)
Harry: Então tá marcado. Em cinco dias a gente se encontra. Eu já tô indo, cara, calma.
Destiny: Oi?
Harry: Desculpa, vieram me chamar. Acho que eu tenho que ir. (Droga, eu não quero me despedir.)
Destiny: Ahm. Okay... Até mais? (Mas já?)
Harry: Até mais. Foi bom conversar com você, Destiny.
Destiny: Foi bom conversar com você também, Harry.
Harry: E desculpa pelo horário. Eu tô um pouco bêbado. Culpe a bebida.
Destiny: Ei, sem problemas. (De verdade. Sem problemas.)
Harry: Então... Nos vemos em cinco dias?
Destiny: Fechado. Nos vemos em cinco dias.
Harry: Okay. Até lá. Boa madrugada?
Destiny: Até lá. Boa madrugada. E Harry?
Harry: Oi.
Destiny: Pode me chamar de Des.

***


Harry não queria se despedir. Conversar com Destiny era algo fácil, que não exigia esforço algum. Tinha se divertido mais ali, naqueles minutos (ele não sabia quanto tempo havia se passado), conversando sobre qualquer coisa, do que durante a festa inteira. E a festa estava legal. Mas Jeff teve de interrompê-lo, anunciando que se sentia mal e precisava voltar para o hotel. Não antes, obviamente, de perguntar o porquê de ele sorrir feito um idiota. Harry apenas ignorou a pergunta. Não devia satisfações para alguém que estava mais bêbado do que ele.
Cinco dias.
Para quem deliberadamente esperou por dez dias, cinco não significariam nada. Passariam rápido. Quase voando. Não havia motivos para ansiedade.
Você mal conhece a garota, Harry. Vai devagar.

DESTINY


Naquela madrugada, eu não consegui dormir. Depois de Harry ter se despedido e deixado no ar a possibilidade de um encontro em cinco dias, era como se meu corpo não respondesse mais aos meus comandos. Tudo o que eu conseguia fazer era soltar suspiros e sorrir de orelha a orelha. Para todo o resto, eu estava inútil, e as borboletas em meu estômago, definitivamente, precisavam de um calmante.
Tentei prosseguir com meu tributo improvisado à Whitney Houston – aquele que eu fazia antes de receber a mensagem que me desestabilizou completamente - mas minha mente estava inquieta. Nada conseguia prender minha atenção por mais de cinco segundos. Oh, Deus. Uma ligação de Harry Styles e, de repente, eu era uma criança de dez anos diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.
Eu realmente tenho que trabalhar isso. E se a gente se casar um dia? Eu não posso ficar nesse estado pra sempre.
Sacudi a cabeça para espantar o pensamento.
Vai com calma, Destiny. Você mal conhece o cara.
Sem o clima necessário para continuar o meu show no parapeito da janela, e após algumas tentativas frustradas de pegar no sono, resolvi recorrer ao meu notebook. Mmmmmm. O que eu poderia fazer? Assistir a séries? Não, meu TDAH não permitiria. Ler meu horóscopo? Nah, aquilo poderia ficar pra depois.
Ainda ponderando sobre qual atividade escolher dentre o mar de possibilidades que só a internet seria capaz de proporcionar, vi meus dedinhos, de forma involuntária, digitarem o endereço do Youtube. Eu já sabia o que estava por vir.
Ok. Youtube. O que você vai procurar no Youtube, Destiny? Fingindo para mim mesma que eu não sabia exatamente o que estava fazendo, assisti as palavras “Harry Styles” se formarem na barra de pesquisa. Ok. Melhor não. Eu não poderia ser tão direta no stalk. Apaguei o que havia escrito e, em vez disso, resolvi buscar por “One Direction”.
Isso. Bem melhor. Procurar vídeos sobre a banda inteira não seria tão bizarro, seria? Decidi que não. Claro que não. Vamos lá.
Assim que apareceu na tela a longa lista de entrevistas da One Direction, pude sentir um friozinho na barriga. Era como se, de repente, eu tivesse 13 anos outra vez e um novo mundo me esperasse. Tudo o que eu precisava fazer era clicar em um vídeo e plim! Lá estava eu de marias-chiquinhas, pijama rosa e aparelho fixo nos dentes.
Ah, a adolescência! Uma das minhas fases favoritas. Acne, angústia, histeria e, é claro, a plena certeza de que você irá se casar com a sua celebridade favorita – não importa o quão impossível tal tarefa possa parecer aos olhos dos infiéis. Sabe, havia algo bonito, e até poético, em ser uma garota adolescente. De repente, o fato de eu estar ali, assistindo a entrevistas de uma boy band cujo público alvo certamente estava longe de me incluir, fez com que eu me lembrasse das incontáveis noites em que Anne e eu passávamos acordadas, planejando nossos casamentos com os integrantes do Hanson.
(Meus planos envolviam entrar na igreja usando um vestido vermelho e Nick Carter, dos Backstreet Boys, invadindo a cerimônia para tentar impedir o casamento. É claro que ele seria imediatamente retirado pelos seguranças – aquilo tudo era apenas uma forma de mostrar ao meu noivo que eu era uma mulher disputada - e Taylor e eu viveríamos felizes para sempre. Anne, por outro lado, preferia uma cerimônia simples e discreta, realizada por um xamã, numa praia de nudismo.)
Criar cenários tarde da noite era uma das poucas coisas capazes de tirar nossa cabeça de todo aquele drama sobre viver em um orfanato. O fato de sermos loucas por três garotos cabeludos e bonitinhos que não faziam ideia de nossa existência nos aproximava mais de meninas normais. E enquanto ouvíamos as músicas dos Hanson, odiávamos suas namoradas e aguardávamos ansiosamente pelo dia em que Taylor e Zac se apaixonariam por nós duas, Anne e eu éramos apenas garotas comuns – independente de sermos órfãs ou não.
Recordar da empolgação que ser fã de algo me proporcionava me encheu de carinho por Harry e seus companheiros de banda. Boy bands com certeza não recebiam o crédito que mereciam. Harry Styles era o Taylor Hanson de alguém. Naquele momento, em diferentes partes do mundo, garotas de todas as idades sentiam-se entusiasmadas simplesmente por ele existir. Milhares de meninas viam naqueles garotos uma válvula de escape e um motivo a mais para acordar de bem com a vida pela manhã. E querendo ou não, desde o casamento de Adam e Mandy, eu me encontrava entre aquelas meninas. O simples fato de Harry existir já era o suficiente para fazer com que um sorriso se formasse em meu rosto. E, depois de assistir a mais de trinta entrevistas do One Direction e a alguns clipes, eu sabia que não tinha mais volta. Eu estava ferrada.
Coisas que aprendi durante a minha maratona de vídeos de Harry Styles:
Eu estava apaixonada. Ele era fofo. Eu queria montar um fã-clube. TÃO FOFO. Eu posso ou não ter comprado uma camiseta estampada com os dizeres “Senhora Styles”. E ao mesmo tempo sexy – a pior combinação para um ser humano. Você não consegue resistir a alguém que é igualmente sexy e fofo. Para piorar a situação, ele era super gentil e parecia estar sempre preocupado em tratar todo mundo bem. Não pude deixar de me lembrar de como Harry fez questão de cumprimentar a todos os membros da minha banda quando nós estávamos indo embora. Ele era engraçado também e, meu Deus, eu já mencionei o quanto era sexy? Àquela altura da noite eu já tinha a sensação de que sabia mais de Harry do que deveria, e não tinha muita certeza do que fazer com toda aquela informação. Talvez fingir que nunca descobri nada, pro caso dele comentar algo durante nosso encontro.
Nosso encontro. Será que seria mesmo um encontro? Se sim, aonde nós iríamos? Que roupa eu deveria usar? Eu poderia demonstrar interesse ou teria que ser blasé o tempo inteiro? Arghhhhh, como era difícil a vida de flerte (as pessoas ainda usavam a palavra flerte?). Não era à toa que eu não dormia com ninguém há mais de um ano. Eu não tinha paciência para todos aqueles jogos e... CARALHO. Um pensamento desesperador se passou pela minha cabeça.
E se realmente fosse um encontro? E se Harry e eu ficássemos tão íntimos um do outro a ponto de não conseguirmos mais resistir à tensão sexual que obviamente existia entre nós dois?
SERÁ QUE EU AINDA SABERIA TRANSAR?
Ok, Destiny, hora de ir dormir. Você não está mais fazendo sentido. E claro que você ainda sabe transar. É igual a andar de bicicleta.
AI, MEU DEUS. MAS EU TAMBÉM NÃO SABIA ANDAR DE BICICLETA. EU ESTAVA FERRADA.
Inspira. Expira. Está tudo sob controle. Você consegue, Destiny. Não é algo difícil. Você se lembra. É só abrir as pernas e...
NINGUÉM NUNCA SE PRESTOU A ME ENSINAR A ANDAR DE BICICLETA NAQUELA DROGA DE ORFANATO. Oh, meu Deus. Que tipo de infância eu tive?
Tudo bem. Estava tudo bem. Tudo daria certo, porque eu era uma mulher forte, independente e poderosa. E muito sexy. O universo conspirava ao meu favor. Após o meu mini-ataque de ansiedade, decidi escutar a minha consciência e tentar dormir. O dia já estava amanhecendo e minha mente começava a se voltar contra mim.

***


Finalmente, era quinta-feira. O dia também conhecido como aquele em que Harry e eu havíamos combinado de nos encontrar. Vou te contar, cinco dias nunca passaram tão lentamente. Cheguei até a cogitar a possibilidade de estar vivendo o mesmo dia repetidas vezes, como acontece em alguns programas de televisão, mas percebi que era apenas paranoia. Nada sobrenatural estava acontecendo. Era apenas a ansiedade tentando me deixar louca. Naquela manhã, acordei tão empolgada que quem visse seria capaz de achar que eu tinha ganhado na loteria. Gertrudes, minha vizinha de 80 anos, até perguntou se finalmente eu tinha arranjado um namorado. Gertrudes me conhecia bem demais. Ela sabia da falta de movimentação de pessoas do sexo masculino no meu apartamento (a não ser, é claro, que você conte o Danny). Mas o fato é: naquela quinta-feira eu acordei tão feliz que dancei lambada seminua, comprei roupas novas, ajudei velhinhas a atravessarem a rua e depilei as pernas. Eu estava física e psicologicamente preparada para receber a ligação que eu havia esperado por cinco dias. Para tudo ficar perfeito, eu só precisava que Harry pegasse o celular e discasse o meu número. Ou mandasse uma mensagem, um pombo correio, tanto faz. Eu só precisava saber que ele não tinha se esquecido da nossa conversa e que nosso encontro (por falta de palavra melhor) ainda estava de pé. Minha depilação não podia ser em vão.
Mas não foi o que aconteceu. Horas e horas se passaram e nenhum sinal de Harry. Filho da puta. Isso lá é coisa que se faça? Eu sabia que não devia confiar em caras bonitos e sedutores. Eu assisti a episódios o suficiente de Criminal Minds pra saber que, na maioria das vezes, eles só querem te matar. Ou, no caso de Harry, te deixar esperando plantada. É claro que, agora que eu tinha seu telefone, eu poderia ter ligado. Mas eu não queria. Ele quem deu a ideia, ele que deveria me procurar. Certo? Anne não concordava. De acordo com ela, eu estava envergonhando todas as nossas ancestrais feministas ao esperar pela ligação de um cara para confirmar um encontro.
- Não tem nada a ver com feminismo – eu disse, horas antes, quando nos falávamos pelo FaceTime. – É só que... E se ele estiver ocupado? Além do mais, muitas pessoas devem se aproximar do cara só por interesse. Eu não quero que ele pense que eu sou uma dessas pessoas.
- Mas você é? – ela perguntou.
- Claro que não!
- Então por que ele pensaria isso? – ela prosseguiu antes que eu pudesse responder. – Você tem que parar de analisar tanto as coisas, Des. Relaxar. Você é uma ótima pessoa e extremamente talentosa. Não é nenhuma surpresa que ele tenha se interessado por você. – me preparei para protestar, mas Anne continuou: – Ou pelas suas músicas, tanto faz.
Sorri, assentindo com a cabeça.
- É verdade. Eu sou maravilhosa.
- Esse é o espírito – Anne simulou um high five, levantando sua mão em direção à câmera do celular, e eu fiz o mesmo. – Então, quais são os seus planos para a noite?
- Bem, eu não sei. Se nada acontecer, é provável que eu vá para a boate do papai. Você sabe, trabalhar um pouco. Espairecer. – Anne me repreendeu com o olhar. – E talvez eu ligue para o Harry. Talvez.
- Okay. Um “talvez” já é melhor do que nada.
- Esse é o espírito.
Anne deixou escapar uma risada.
- Eu sinto sua falta, Des. Ser uma estilista em ascensão não é a mesma coisa sem a minha irmãzinha ao lado. Você é a minha esquisita favorita.
- Qual é, cala a boca.
- Toda a fama, o dinheiro, os modelos gostosos... Nada disso é capaz de substituir a sua presença na minha vida.
- Eu queria jogar um sapato na sua cabeça agora. – eu disse, sem conseguir conter o riso ao observar nossas imagens na tela do celular. Anne estava rindo também, fazendo com que seus ombros se movessem para cima e para baixo dentro da sua fantasia de mulher gato. Como eu me sentia introspectiva, usava apenas meu roupão com estampa de oncinha e meus óculos escuros em formato de coração. Aquela era uma tradição que mantínhamos desde que ela foi embora para Nova Iorque: uma vez por semana, nos falaríamos por vídeo-conferência, fantasiadas de alguma coisa. Você sabe, para não perder o costume. – Você é a minha esquisita favorita também.
Anne sorriu:
- Depois da Cyndi Lauper.
- Obviamente – concordei. – Cyndi em primeiro lugar.

***


Já se passavam das onze da noite e, ainda, nenhum sinal de Harry. Então, resolvi seguir com o meu plano e ir para a Gaiola das Loucas. Uma das maiores vantagens de se trabalhar em uma casa noturna LGBT é que não importa o quão pra baixo você esteja, mais cedo ou mais tarde, o ambiente vai te animar. Afinal, quem consegue se preocupar com trivialidades enquanto assiste a uma Drag Queen anã dublando Nicki Minaj?
Assim que cheguei à boate, avistei papai caminhando em direção ao bar. Pra ser honesta, seria meio difícil não notá-lo. Ele não era mais George Thomas e, sim, Charlene Princess – seu ainda mais espalhafatoso alter-ego. A volumosa peruca loira e os enormes saltos que usava deixavam papai com pouco mais de dois metros de altura.
- Papi! – chamei de longe, tentando me desviar das pessoas em meu caminho. Apesar de estar cedo para a vida noturna em Los Angeles, a boate já começava a lotar.
Papai deu meia volta e me encarou, surpreso.
- Destiny! O que você está fazendo aqui? – ele veio em minha direção e, ao parar em minha frente, entortou os lábios e ajeitou a coroa rosa que estava na minha cabeça. Era parte do uniforme, sabe como é. – Eu achava que você tinha um encontro!
- Bem, eu achava também, mas o filho da mãe me deu o bolo. Então eu vim trabalhar – dei um sorrisinho amarelo, esperando que a desculpa colasse.
Papai olhou de mim para Danny – que se ocupava com seu celular, ignorando por completo seus afazeres - e sacudiu a cabeça em reprovação.
- Trabalhar. Eu sei. – ele colocou o braço ao redor dos meus ombros e foi me guiando para a lateral da pista de dança – E que tipo de pessoa daria o bolo na minha princesinha?
- Eu sei! Que tipo de pessoa daria o bolo em mim? – Henry. Zach. Mark do ensino médio. Assisti papai se sentar no sofá que ali ficava e, então, me acomodei ao lado dele. – Eu sou adorável.
Meu pai não sabia que meu encontro em potencial seria com Harry Styles. Eu não quis contar nada porque não queria que ele criasse expectativas - ou pior: me perguntasse quem diabos Harry Styles era.
- Bem, querida, você sabe o que eu sempre digo: você não deve perder tempo com quem não percebe o quão maravilhosa você é.
Papai me encarou por entre seus longos cílios postiços e acariciou de leve a minha bochecha.
- Ai, pai. Ele é bem gentil, na verdade – choraminguei, me lembrando da conversa que Harry e eu tivemos pelo telefone. – Talvez ele tenha esquecido. Talvez eu ligue pra ele.
- Mmm. E quem seria esse moço tão gentil, afinal?
Papai colocou uma mecha dos meus cabelos atrás da minha orelha e, antes que eu pudesse pensar em uma forma de mudar de assunto, ouvi a introdução de Crazy In Love vir de dentro da minha bolsa. Era o toque do meu celular. Ai meu Deus. SERÁ?
- Você não vai atender? – papai perguntou. Eu encarava minha bolsa, sem reação, enquanto Beyoncé cantava o único pensamento que se passava pela minha cabeça: oh, oh, oh, oh, oh, oh, oh, no, no. – Destiny?
Retirei o celular da bolsa e, ao ver o nome que aparecia na tela, o joguei imediatamente em cima da mesa.
- Ai, caramba. Ai, caramba. É ELE.
Eu gritava eufórica e papai, também descontrolado, me acompanhava no mesmo tom de voz.
- ELE QUEM?
- É ELE. AI CARAMBA.
- QUEM?
- HARRY STYLES.
- O QUE TEM O HARRY STYLES?
- EU PRECISO ATENDER.
- DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO? – papai me sacudia pelos ombros e nós parecíamos duas pessoas completamente piradas. O celular parou de tocar e só então eu me dei conta do que havia feito.
- ELE PAROU DE LIGAR? Ele parou de ligar. Meu Deus, e agora? PAPI, E AGORA?
Papai me olhava, atormentado. Em momentos como aquele, eu não conseguia deixar de imaginá-lo se perguntando: “por que eu tive que adotar AS DUAS?”
- Harry Styles? Era com ele o seu encontro?
Mordi o lábio inferior e fiz que sim com a cabeça. Não vou negar que parte de mim estava aliviada e orgulhosa por papai parecer saber quem era Harry Styles.
Papi ainda parecia estar tentando ligar os pontos e, antes que ele pudesse decidir se eu estava louca ou não, meu celular começou a tocar outra vez. Era Harry.
- Atende logo, Destiny. – Charlene Princess ordenou, me entregando o celular.
Hesitei um pouco antes de pegar o aparelho, mas obedeci. Eu não queria que ele me batesse com o leque que estava entre seus peitos de espuma.
- Alô? – atendi. Outra vez, minha voz duas oitavas mais alta que o normal. O mais natural possível.

***


Harry e Destiny em: A Segunda Ligação.
(Um momento patrocinado por The Drifters – I Count The Tears)


Harry: Destiny?
Destiny: S-sim.
Harry: Sou eu, Harry! Ahm... Tudo bem?
Destiny: (Ok, Destiny. Aja naturalmente.) Tudo ótimo! Hahahahahahaaaaaaa. E com você? (Merda.)
Harry: (...) Tudo ótimo também. Desculpa por ligar a essa hora. É só pra avisar que eu já estou em Los Angeles, sabe como é... E te lembrar do nosso combinado. (Conto o que aconteceu ou não? Ok, melhor esperar ela responder.)
Destiny: Que... Que combinado? (Não vou deixá-lo saber que eu passei o dia inteiro esperando por uma ligação. JAMAIS.)
Harry: Ahm, da gente se encontrar e você me mostrar suas músicas?
Destiny: Ahhhhh, claro! Esse combinado. Eu me lembro.
Harry: Então... Você está ocupada?
Destiny: Não! Quero dizer, sim. Quero dizer, estou trabalhando agora. (Isso, Destiny. Seja difícil.)
Harry: Hm... Você vai cantar em alguma festa hoje?
Destiny: Oi? Não! Eu trabalho na boate do meu pai durante a semana.
Harry: Oh.
Destiny: O que foi?
Harry: Nada, é só que... (Vamos lá, Harry.) Eu posso passar aí? Se não for te atrapalhar, é claro.
Destiny: (...)
Harry: Des?
Destiny: (Awww. Olhe só pra ele, me chamando pelo apelido.)
Harry: Destiny?
Destiny: Claro! Pode vir. Não vai atrapalhar. (Conto que é uma boate gay ou deixo que ele descubra sozinho?)
Harry: Okay. Então me passa o nome e o endereço por mensagem, pode ser?
Destiny: Gaiola das Loucas. É uma boate gay. Fica em West Hollywood. É bem conhecida na região, não tem como errar. (Pronto. Agora ele vai fugir. Adeus, Harry Styles. Foi bom te conhecer.)
Harry: West Hollywood? Ei, eu não tô muito longe.
Destiny: Sério? (Sério? Nenhuma reação? Ele não se importa?)
Harry: Muito sério. Me manda o endereço e em no máximo meia hora eu chego aí.
Destiny: Okaaaay. Seu desejo é uma ordem, senhor Styles.
Harry: (Pare de sorrir feito um idiota, Harry.) Até mais, Destiny.

***


Assim que desliguei o telefone e me dei conta do que estava acontecendo, minhas mãos começaram a suar frio. Harry estava vindo para a Gaiola das Loucas. Dentro de pouco tempo ele estaria na minha frente, pela primeira vez, desde o casamento de Adam e Mandy. E só pra me ver. Uau. Meu pai queria que eu o explicasse toda a história direito (“Como assim você conhece o garoto do One Direction? Destiny, o que você andou aprontando?”), mas eu não tinha tempo. Não naquele momento. Apenas fiz papai me garantir mil vezes que eu estava bonita e corri para o bar da boate, afinal de contas, eu disse pra Harry que estava trabalhando.
Como em um milagre divino, por trinta minutos, eu realmente atendi as pessoas. Anotei seus pedidos, registrei os mesmos em suas comandas e sorri exageradamente para todas. Sabe como é, eu queria parecer natural quando Harry chegasse (tudo bem, talvez o sorriso exagerado não fosse tão natural assim), e estava tentando não enlouquecer enquanto esperava por ele.
- Ahm, Des? – Danny chamou, desviando minha atenção do computador em minha frente. – Acho que seu cara chegou.
Acho que seu cara chegou.
Na minha cabeça, as cenas que se seguiram ocorreram em câmera lenta, e pareciam ter saído diretamente de um comercial de perfume. Um comercial de perfume dos anos 80, talvez, mas um comercial de perfume ainda assim. No momento em que olhei para a entrada e avistei Harry, Pictures Of You, do The Cure, voltou a tocar em minha rádio mental. Ele usava uma camiseta branca, skinny jeans azul e seus cabelos bagunçados caíam sobre seus ombros. Ok, Destiny. Respira fundo. À medida que Harry se locomovia, todos em seu caminho o encaravam, admirados, e davam espaço para ele passar. As pessoas pareciam tão assustadas que era como se Jesus tivesse finalmente voltado para a Terra e escolhido uma boate gay como o local do seu primeiro passeio. Harry parecia um pouco desconfortável com toda a atenção, mas sorria de forma amigável para todos que o olhavam diretamente. Não pude deixar de perceber a expressão confusa em seu rosto quando ele viu Estrella - a drag queen anã que fazia ótimas interpretações de Nicki Minaj – parada em sua frente. Estrella disse algo que eu não consegui entender, e Harry apenas sorriu e acenou com a cabeça. Achei esquisito, mas tudo bem. Depois eu conversaria com ela sobre o assunto. Quando Harry finalmente olhou em direção ao bar e me viu ali, atrás do balcão, o admirando boquiaberta, seu rosto se iluminou. Eu juro que nunca havia visto nada parecido. Era como se dezenas de vagalumes voassem ao seu redor e o sorriso que ele tinha em sua face era tão largo e brilhante que eu quase fiquei cega. A cada passo dado por ele meu coração batia mais forte, e eu só conseguia pedir a Deus que não me deixasse desmaiar ali, na frente daquele homem. Que humilhação seria. Vamos lá, Destiny. Aja naturalmente. Engoli em seco, o observando chegar cada vez mais perto. Harry estava quase em minha frente. Só mais cinco passos e...
- Destiny’s Child! – ele disse, divertido. Seu sorriso ainda mais largo e brilhante do que antes. Seus olhos tão verdes que pareciam pequenas esmeraldas. Harry apontou para a minha cabeça e, então, continuou: – Bela coroa.
Eu estava paralisada. E enquanto Harry me encarava, ainda com um sorriso infantil em seus lábios, as borboletas em meu estômago gritavam cada vez mais alto: “Destiny? Você está aí? Nós precisamos de um calmante. AGORA.”


Capítulo 8


HARRY


Harry não sabia se estava imaginando coisas, mas teve a impressão de ter visto Destiny acariciar a barriga discretamente e sussurrar para si mesma “está tudo bem. Nós estamos bem.” Okay. Aquilo não fazia sentido. Ele só podia estar imaginando coisas. Mas não importava. Harry estava feliz por estar ali, naquele momento, e mais feliz ainda por ela não estar brava. E, caramba, como ele estava com medo de que ela estivesse brava.
Assim que seu avião pousara em Los Angeles, naquela manhã de quinta-feira, a primeira coisa que Harry pensou em fazer foi ligar para Destiny. Você sabe, só para deixá-la saber que ele já estava lá e que o compromisso (compromisso, não encontro. Ele passou todo o voo se convencendo disso) que haviam firmado ainda estava de pé. Por mais que não quisesse admitir, Harry aguardara ansiosamente por aquele momento, e em sua opinião, cinco dias nunca se passaram tão lentamente. Mas, por vários motivos, Harry resolveu não ligar. O primeiro deles era incontestável: eram 8h da manhã. Quem gostaria de receber ligações às 8h da manhã? Ele não sabia se ela ainda estava dormindo e, por isso, achou melhor não arriscar. Além do mais, ele não queria parecer desesperado. Não. E se Destiny nem estivesse se lembrando de nada? E se ele tivesse sido o único a aguardar ansiosamente pela chegada daquela quinta-feira? Seria vergonhoso. Ele se sentiria patético. Na verdade, desde que Niall o pegara sorrindo sozinho enquanto assistia, pela décima vez, ao vídeo do casamento de Adam e Mandy – aquele no qual ele e Destiny cantavam juntos os versos finais de My Girl – Harry já se sentia patético o suficiente. E o fato de ele ter resolvido contar para seu colega de banda sobre o súbito interesse que sentia por aquela garota que havia acabado de conhecer agravou ainda mais a situação.
“Então você está apaixonado por uma garota que mal conhece”, dizia Niall, enchendo a boca de Doritos, “e tudo o que você sabe sobre ela é que ela chora enquanto canta Shania Twain?”
Harry perdeu as contas de quantas vezes teve de repetir para Niall que não estava apaixonado. Pff. Até parece. Ninguém se apaixonava assim, de uma hora pra outra. Era só interesse. Talvez uma queda. Iria passar se ele quisesse. E, oras, ele sabia outras coisas além do fato de que ela chorava enquanto cantava Shania Twain. Como Whitney Houston, por exemplo. Ela gostava de Whitney Houston. Harry se pegou sorrindo sozinho ao se lembrar da conversa que tiveram pelo telefone. Ele queria falar com Destiny de novo. Tudo o que precisava fazer era esperar um pouco e realizar a ligação. Enquanto o momento certo não chegava, Harry decidiu ir para o estúdio onde alguns de seus amigos se encontravam e trabalhar em algumas canções. Afinal de contas, aquele era um dos motivos para ele estar em Los Angeles. Mas foi difícil para Harry conseguir se concentrar e produzir alguma coisa. Além da falta de foco, era quase impossível pensar direito enquanto Niall o bombardeava de mensagens.
N: E aí, cara, já falou com a sua garota? Niall. xx
N: Eu acho que você deveria falar. Sabe como é, mostrar para o que você veio. Niall. xx
N: Quer saber? Pensei melhor, não manda nada. Se faz de difícil. Deixa ela esperando um pouquinho e aí BAM! Você joga o charme do Styles. Niall. xx
N: Pensando bem, manda alguma coisa agora. YOLO. SÓ SE VIVE UMA VEZ hah. Niall. xx
H: Caralho, Niall, para de assinar no fim das suas mensagens. Eu sei que é você. E para de me atormentar, eu tô ocupado.
H: Harry xx.
N: Idiota.
Harry se esforçava para não rir em voz alta. Por mais que Niall fosse mais velho, Harry às vezes o via como uma criança avoada e incapaz de ver maldade nas coisas. Ele o admirava por isso. Não conseguia imaginar o quão entediante seria sua vida sem o senso de humor e a companhia de Niall Horan.
Harry checou seu relógio. Ainda eram 14h, mas a impressão que tinha era que havia passado o dia inteiro no estúdio. A hora não passa em Los Angeles? Harry ainda não sabia o que fazer. Ele poderia ligar naquele momento. Duas horas da tarde era um bom horário. Destiny não estaria dormindo às duas da tarde. Mas e se estivesse no pilates? Passeando com o cachorro? Fazendo algo que não pudesse ser interrompido? Droga, Styles. O que aconteceu com você? Harry não gostava de estar agindo daquela maneira. Ele sempre fora um cara confiante e nunca teve problemas para conhecer garotas. Mas nem o mais confiante dos mortais seria capaz de escapar dos efeitos colaterais de gostar de alguém (Droga. Gostar não. Ter uma queda. Uma queda que passaria se ele quisesse). Você sabe: o frio na barriga, a ansiedade, o medo de estar sendo óbvio demais, entregando o jogo e nunca saber se está incomodando ou não. Sem contar, é claro, o famoso fantasma da rejeição. Por mais que Harry quisesse pegar o celular e discar o número de Destiny, o medo de ser o único interessado parecia bem maior.
Enquanto refletia sobre o que fazer e, mentalmente, dava para si mesmo um discurso motivacional sobre a importância de se arriscar, Harry resolveu esticar seu corpo sobre o sofá de couro que havia no estúdio. Seus amigos – aqueles com os quais Harry deveria estar trabalhando em alguma canção – já haviam percebido que ele estava completamente alheio à realidade e nem se incomodaram com o fato de o garoto ter resolvido se deitar. “Eu só vou dormir um pouquinho” Harry pensava, sentindo os olhos pesarem enquanto se aconchegava entre as almofadas. “Trinta minutos. Quando acordar, ligo para a Destiny. Vamos lá, Harry, você pode fazer isso...” E em questão de segundos, já dormia intensamente. Aquilo era algo que o acompanhava desde que se entendia por gente. Havia algo em sofás que o atraía de forma magnética, e ele não conseguia resistir muito tempo sem se deitar e tirar uma soneca. E, claro, o fato de ele ter dormido pouco na noite anterior, somado à diferença de fuso horário, acabou colaborando para a ocorrência do que já era inevitável. Então, deitado naquele sofá, Harry dormiu como um bebê. Mais tarde, quando despertou de suas longas e merecidas horas de sono, ele se sentia perdido. Onde estava? Aquele não era seu quarto. Ainda confuso, esfregou os olhos e olhou ao seu redor. Ah, é claro. Ele estava no estúdio. Mas não havia mais ninguém ali. Onde estava todo mundo? Avistou um bilhetinho deixado perto dos seus pés, na ponta do sofá. Esticou o corpo para alcançá-lo.
“Querido Harold,
Foi mal por não termos te acordado. Você estava muito fofo dormindo com a boca aberta. Ficamos com pena. Bruce, Julian e Gavin.”

Novamente, Harry observou o espaço ao seu redor. Estava tudo escuro e a única luz que ele podia enxergar vinha da cabine do vigia noturno, que assistia a algo em sua TV.
Merda. Que horas são?
Harry checou o relógio em seu pulso. 22h55.
Merda, merda, merda.
Destiny. Ele não deveria ter dormido tanto. Por que ninguém me acordou? Merda. O plano era que ele dormisse por trinta minutos e, então, acordasse pronto para ligar para Destiny. Merda. Merda de cansaço. Merda de fuso horário. Merda de atração magnética por sofás. Ele sabia que não deveria ter adiado. E agora? Já estava tarde, mas a sensação de ter perdido a chance de fazer algo pelo qual antecipara tanto fez Harry perceber que ele não podia esperar por mais um dia. Na verdade ele podia, mas não queria, e tomar consciência desse fato fez toda a diferença. Todo aquele tempo Harry temia que Destiny não se lembrasse do combinado que fizeram, mas e se ela tivesse aguardado tanto quanto ele? Merda. Naquele caso, ela teria bons motivos para estar brava.
Ainda sem ter certeza do que fazer, Harry recolheu seus pertences, despediu-se do vigia e saiu do estúdio. Já em seu carro, dirigindo sem destino certo, decidiu que era hora de tomar uma atitude. Sim. E ele faria isso da mesma forma que qualquer pessoa madura e de sua idade: pedindo ao Universo por um sinal. Apesar de ter um lado espiritual, Harry nunca fora de pedir por sinais. Não que ele não acreditasse – na verdade, não sabia dizer exatamente qual era sua relação com o assunto – mas desde a festa em que o DJ resolvera tocar Destiny’s Child, o impulsionando a fazer a ligação que adiara por tanto tempo, Harry resolveu que valeria a pena tentar.
Harry ajeitou a postura e limpou a garganta.
- Ok. – ele dizia para si mesmo, já começando a se sentir ridículo. – Olá, Universo. Como é que vão as coisas? Eu não sei exatamente como fazer isso. – Harry dirigia com cuidado, e temia, a todo o momento, que alguém o filmasse conversando sozinho. - É sobre a Destiny. Você se lembra dela, certo? Aquela garota do casamento do Adam e da Mandy. Mmmm. Você já me ajudou com ela antes. Por falar nisso, obrigado. Foi uma bela jogada tocar Destiny's Child naquela festa.
Harry soltou uma risada nervosa. Tentar socializar com o Universo era mais difícil do que ele pensava.
- Eu gostaria de encontrá-la hoje à noite. Mas acabei pegando no sono e, bem... Você provavelmente sabe o que aconteceu. Então, se você acha que eu devo ligar para a Destiny agora, me mande um sinal. Pode ser... – Harry passou os olhos pelos objetos ao seu redor, tentando achar algo que pudesse servir como um meio de comunicação entre o Universo e ele. – Pode ser pelo rádio. Eu vou ligar o rádio. A música que tocar, eu considerarei como a resposta. Pronto? – ele respirou fundo. - Lá vai.
Harry franziu o cenho, apreensivo, e ligou o rádio. Estava em uma estação que ele não conhecia, mas foi capaz de reconhecer a canção sendo tocada.
Oooooooooh, livin’ on a prayer, oooooooh, ooh! Living on a prayer.
Bon Jovi?
- Bon Jovi? – Harry perguntou, dessa vez em voz alta. – Mas o quê...
Antes que pudesse terminar sua frase e cogitar o que Livin’ On a Prayer estava tentando lhe dizer, Harry foi interrompido pela voz grave do locutor.
E essa foi Livin’ On A Prayer, do Bon Jovi, na sua Máquina do Tempo - o programa que toca os maiores clássicos das décadas passadas. E essa próxima canção é especialmente pra você, que aguardou por esse momento a noite toda...
Harry arregalou os olhos, assustado.
- Pra mim? – sussurrou debilmente. Caramba. Aquele negócio de Universo funcionava mesmo.
Sim, pra você, Jennifer! Aqui está a música que você pediu. Encerrando nosso bloco, de Jennifer para Thomas: Whitney Houston – How Will I Know.
How Will I Know? Não podia ser verdade. Aquela era a música que Destiny cantava antes de Harry interrompê-la com sua ligação. Era isso! Aquele era o sinal! Harry não sabia quem era Jennifer, ou qual era sua relação com Thomas, mas naquele momento sentia como se fossem melhores amigos na terapia em grupo.
- Ótima escolha, Jennifer. – ele dizia empolgado, sorrindo de orelha a orelha. De repente, era como se o mundo inteiro conspirasse em seu favor e nada pudesse o abalar. – Viva Whitney! Wohoooooooo!
Finalmente tomado pela confiança que lhe faltara durante o dia, Harry estacionou o carro na primeira vaga que encontrou. Já se passava das onze da noite, mas nada iria o impedir. Não agora, que ele tinha o aval do Universo, de Jennifer e da própria Whitney Houston. Ele não poderia desapontar toda aquela gente. Respirou fundo e, tentando conter sua excitação, ligou para Destiny.
Uma, duas, três chamadas e nada. Sua primeira ligação foi para a caixa postal. Mas Harry não havia chegado tão longe para desistir. Ligou de novo, até que Destiny finalmente atendeu.

***


E lá estava Harry, no Gaiola das Loucas. Ele não conhecia aquele clube, mas, a julgar pela quantidade de pessoas ali presentes em plena quinta-feira, parecia ser um lugar famoso. Uma boate gay legal. Harry ficou um pouco surpreso ao associar as palavras ditas por Destiny. “Estou trabalhando na boate do meu pai. Gaiola das Loucas. É uma boate gay, não tem como errar.” Não que ele tivesse algo contra pais proprietários de casas noturnas LGBT. Só não era exatamente o que ele esperava ouvir quando Destiny mencionou estar trabalhando no negócio do seu pai. Mas, enquanto ele estava ali, em um ambiente tão acolhedor, cheio de cores, e com pessoas dos mais variados tipos, era como se nada mais pudesse fazer tanto sentido. Logo na entrada, Harry avistou um rosto conhecido. Como era o nome dela mesmo? Estrella? Isso! Estrella! A drag queen contratada para a despedida de solteiro de Adam. Então ela trabalhava ali? Que mundo pequeno.
- Olá, garotão.
Estrella disse, dando uma piscadela. Harry apenas sorriu e acenou com a cabeça. Continuou andando em direção a Destiny e, à medida que se aproximava, podia sentir seu coração bater mais forte. Mas, como num passe de mágica, Harry não estava mais nervoso. Ele estava confiante, e a visão de Destiny o encarando atrás do balcão, com uma coroa rosa em sua cabeça, o transportou de volta para a noite em que os dois se conheceram.
I’ve got sunshiiiiiiine on a cloudy day.
- Ob-Obrigada. – ela finalmente respondeu, levando a mão à sua coroa – Faz parte do uniforme.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Harry foi surpreendido por um corpo estranho se intrometendo entre ele e Destiny.
- Oi, eu sou o Danny. – o garoto, com um sorriso atrevido em seus lábios e a mesma coroa rosa na cabeça, estendeu a mão para Harry, que o cumprimentou rapidamente. – Eu sou o melhor amigo da Destiny. Ouvi bastante sobre você.
- EI! É mentira! – Destiny protestou, empurrando Danny com o quadril e retomando o lugar onde estava antes. – Ele não ouviu coisa nenhuma. E ele não é meu melhor amigo. Eu mal conheço esse cara.
Harry estava confuso e não sabia o que dizer, então apenas continuou sorrindo e acenando educadamente.
- Ahm, ok. Prazer em te conhecer, Danny. Essa é uma boate legal – ele dizia, olhando por cima dos seus ombros. – Eu não conhecia.
- S-sim, é bem legal. – Destiny encarava o balcão timidamente e brincava com as pontas dos seus cabelos. – É meio famosa por aqui. Tem shows de drag queens e às vezes temos apresentações de uma que parece bastante a Cher. Ela vem de Las Vegas e...
- Des, por que você não vai pro outro lado do balcão conversar com seu amigo antes que ele morra de tédio? – Danny interrompeu novamente, empurrando Destiny em direção à saída do bar. – Eu fico aqui pra você.
Destiny olhou para Danny como se estivesse prestes a pular em seu pescoço, mas apenas assentiu com a cabeça e o obedeceu. Harry não sabia o porquê, mas estava achando toda aquela situação extremamente divertida. Ele observou enquanto ela saía de trás do balcão e se aproximava, ainda desconcertada. Será que ele estava incomodando? Talvez ela realmente tivesse que trabalhar.
- Então... – Destiny disse, dessa vez encarando Harry diretamente. Tinha glitter dourado espalhado pela região dos seus olhos e maçãs do rosto. Vagalume bonitinho. – Você veio! Aposto que amanhã todos os sites de fofoca vão estar cheios de boatos sobre a sua sexualidade.
- Mmm, amanhã? Eu não iria tão longe. Agora mesmo já devem estar falando alguma coisa. – Harry riu e deu de ombros. - Mas eu não me importo.
Era verdade, ele realmente não se importava. Harry já se importou bastante com a opinião alheia quando começou naquele ramo, verdade. Mas o tempo o ensinou a ter a confiança necessária para se manter são e fiel a quem ele era. Se ele cogitasse deixar de fazer alguma coisa por medo de boatos sobre sua sexualidade ou qualquer outra área de sua vida, ele não viveria.
- Isso é legal. – Destiny sorriu tão honestamente que Harry não pode evitar sentir orgulho de si mesmo. O porquê? Ele não sabia exatamente. Mas se ela achou legal, então era legal. – Você quer se sentar em algum lugar?
Harry estava prestes a dizer que sim - já que ficar parado em frente ao bar, além de ser desconfortável, atrapalhava o fluxo de pessoas que passavam por ali – quando foi interrompido por uma melodia conhecida. A música estava alta e vinha do palco, cerca de dez metros a sua frente. Ele conhecia aquela canção.
- Uau, você deu sorte. – Destiny disse animada, provavelmente percebendo a expressão confusa no rosto de Harry. – Essa apresentação é um clássico.
Harry, assim como todos os ali presentes, dirigia sua atenção para o palco, na expectativa do que iria acontecer. Enquanto o piano de This Will Be ressoava pelo ambiente, o projetor de luz começava a revelar uma silhueta feminina. Ela estalava os dedos e mexia o quadril no ritmo da música e, assim que os holofotes a revelaram por completo, Harry pôde identificar que se tratava de uma drag queen.
- Essa não é a que faz imitações da Cher, eu suponho – Harry brincou, observando a plateia que assobiava e dava gritinhos animados.

This will be an everlasting love
This will be the one I’ve waited for
This will be the first time anyone has loved me


- Não, essa é bem melhor – Destiny parecia hipnotizada pela mulher que dublava Natalie Cole em cima do palco, e Harry não sabia se prestava atenção na performance ou na garota que sorria encantada ao seu lado. Quem quer que fosse aquela drag queen, ela parecia ser importante. – O nome dela é Charlene Princess.
Charlene Princess. Legal.
- Ela é o meu pai.
O pai dela. Legal.
Ahn???
- Sério? – Harry perguntou um pouco surpreso. Mas, novamente, nada poderia fazer mais sentido.

I’m so glad you found me in time
And I’m so glad that you recrefied my mind
This will be an everlasting love for meeeeeee


- Ou mãe, nesse caso – ela continuou, sem tirar os olhos do palco. – Ela arrasa.
Harry voltou a observar Charlene Princess, que dançava e dublava cada palavra em perfeita sincronia. Ela realmente era muito boa, e parecia uma estrela dos anos 60. Então Destiny era filha de uma drag queen. A cada minuto que passava com ela, Harry sentia uma maior necessidade de conhecê-la melhor. Qual era sua história, afinal? Seu pai era gay, então... Será que era adotada? Talvez não. Mas será que tinha outro pai? Irmãos? Namorado? Namorada? Ele esperava que não. Havia tantas perguntas a serem feitas, mas Harry não queria ser invasivo ou acabar a ofendendo sem querer.

Loving you is some kind of wonderful
Because you showed me just how much you care
You've given me the thrill of a lifetime
And made me believe you've got more thrills to spare, oh!


- Essa foi a música que papai performou quando ganhou um concurso de talentos em 1982 – ela dizia por cima do barulho, aproximando-se um pouco mais para que Harry pudesse ouvir melhor. – Ele tinha apenas 17 anos e teve que burlar o sistema pra participar, porque ainda não tinha idade. É claro que algumas pessoas ficaram chocadas com um garoto de 17 anos vestido de mulher e cantando e dançando como uma. Muita gente ainda não entendia o que era uma drag queen naquela época. Mas todos os jurados se apaixonaram e ele ficou em primeiro lugar.
Enquanto Destiny contava com tanto afinco a história da participação do seu pai em um concurso de talentos, Harry não conseguia tirar seus olhos dela. Ele sabia que devia estar prestando atenção em Charlene Princess, que já era ovacionada antes mesmo da música acabar, mas não era capaz de olhar para qualquer outra direção sem sentir que estava perdendo algo importante. Aliás, desde a noite em que se conheceram, Harry parecia ter dificuldade em olhar para outra coisa quando ela estava por perto. Era algo... Magnético. Um sofá. Ela é como um sofá.
Não, espera. Péssima metáfora.
- Natalie Cole era uma das juradas, você acredita? – Destiny continuou, trazendo Harry de volta para a realidade. – Natalie Cole! Ela amou, eles tiraram uma foto juntos e tudo.

This will be, you and me
Yes sir-ee, eternally
Hugging and squeezing, and kissing and pleasing,
Together forever throughever whatever.
Yeah, yeah, yeeeah. You and meeeee


Charlene Princess apontava o dedo indicador para a sua boca, chamando atenção para o fato de que dublava os versos finais da música no tempo perfeito. Aquele foi o ponto alto de sua performance, e toda a boate foi à loucura. Harry aplaudia e assobiava genuinamente empolgado.
Wooooooo-hooooooo!
- EU DISSE QUE ELA ERA INCRÍVEL!!! – disse Destiny, novamente tendo que gritar por cima do barulho. – SER UMA ESTRELA CORRE NO SANGUE DA FAMÍLIA.
Ela estava brincando, mas Harry não poderia concordar mais.
- EU TENHO CERTEZA QUE SIM – ele gritou de volta. – E ISSO ME LEMBRA DO NOSSO ACORDO.
- QUE ACORDO?
- O DAS SUAS MÚSICAS.
- AH, CLARO.
- EU QUERO OUVIR.
- AGORA?
- SIM.
- EU NÃO POSSO AGORA.
Pelo canto dos seus olhos, Harry pôde ver pessoas ao redor prestando atenção na conversa – incluindo Danny, que sequer fazia questão de disfarçar. Só então ele percebeu que os aplausos e gritarias haviam cessado, e não havia mais motivos para que Destiny e ele continuassem gritando.
- Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje, Destiny’s Child. – Harry respondeu, dessa vez mais baixo, sorrindo de lado.
Destiny piscou rapidamente algumas vezes.
- Mas eu não posso fazer hoje! – ela disse, recriando a conversa que os dois tiveram pelo telefone. – Como eu vou cantar alguma coisa aqui no meio?
- Vamos pra um lugar mais tranquilo então – Harry estava tão entusiasmado que levou alguns segundos para perceber que sua frase havia soado como uma cantada barata. Ele limpou a garganta e continuou: - Quero dizer, algum lugar onde você possa cantar. Se você quiser. Você sabe. Tem alguma ideia?
- Mmm. Meu apartamento? – ela sugeriu, mas arregalou os olhos assim que as palavras saíram da sua boca. – Não que eu esteja... É só que... Meu violão está lá. E é bem silencioso. É o único lugar que eu consigo pensar.
- Deus. Heterossexuais flertando são uma tragédia. – Danny sussurrou ao fundo, balançando a cabeça negativamente.
- Se nós fingirmos que ele não existe, ele vai embora – Destiny sorria sem graça, evitando olhar para o seu amigo. – Então... Vamos?

This will be an everlasting loooove


- Sim – Harry estava imaginando coisas ou This Will Be tinha começado a tocar outra vez? – Vamos lá.

So long as I'm living true love I'll be giving
To you I'll be serving cause you're so deseeerving
Yeaaaaah, yeah, yeah, whooooooa.



DESTINY


AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH.
Era tudo o que se passava pela minha cabeça enquanto Harry e eu saíamos pela porta dos fundos da boate do meu pai.
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH.
A entrada da Gaiola das Loucas estava abarrotada de paparazzi, e seria quase impossível para Harry sair dali sem causar um alvoroço. Ele não queria parar para tirar fotos, e muito menos ser seguido até a minha casa. Aquilo estava mesmo acontecendo? Harry Styles estava prestes a ir comigo para o meu apartamento?
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH.
O que eu tinha na cabeça quando tive aquela ideia? Meu apartamento estava uma bagunça. As roupas espalhadas pela sala. As calcinhas, recém-resgatadas da lavanderia, jogadas sobre a mesa de centro. Céus. Eu precisava arranjar um jeito de organizar aquilo antes que Harry entrasse ali. Eu não esperava receber ninguém, muito menos ele. Arghhhhhh, e agora? O que eu iria servir pro cara? Água? A ração da Stevie? Até que não era tão ruim. Eu já tinha provado uma vez.
Ok, Destiny. Foco.
Após alguns minutos de conversa, Danny e eu decidimos que Harry teria que sair pela porta dos fundos. Até aí tudo bem. O problema era que ele tinha estacionado seu carro na esquina da boate, e nós não poderíamos ir até a minha casa caminhando – pelo menos não sem sermos descobertos e perseguidos por centenas de pessoas enlouquecidas. Então, enviamos Estrella para performar um de seus números na entrada da frente, desviando a atenção dos paparazzi. Enquanto isso, Danny correria até o carro de Harry e o levaria até a porta dos fundos. O plano deu tão certo que eu me sentia o próprio Tom Cruise em Missão Impossível - sabe como é, se a missão impossível do Tom Cruise consistisse em ir para casa com um popstar bonitão pelo qual ele se sentia extremamente atraído sem a) parecer idiota; b) ser notado e c) deixar que o tal popstar avistasse suas calcinhas em cima da mesa. Caralho. Eu tinha que dar um jeito naquilo.
O caminho até o prédio onde eu morava foi um pouco... Constrangedor. Harry e eu passamos boa parte do tempo sem saber direito o que falar, e ele sempre cantarolava How Will I Know, da Whitney Houston, quando nós ficávamos em silêncio.
- Cara, eu amo essa música – ele dizia, tamborilando os dedos no volante. – Eu e a Jennifer. Você conhece alguma Jennifer? Você gosta daquele programa de rádio que toca clássicos dos anos 80?
Eu apenas encarava Harry com as sobrancelhas erguidas, tentando acompanhar sua linha de raciocínio. Jennifer. Programa de rádio. How Will I Know. OK. Devia fazer sentido. Respeite as diferenças, Destiny. Entre na onda. Ele já é gostoso. Não tem a obrigação de ser normal.
- Eu acho que fui colega de uma Jennifer na época da escola – respondi, ainda sem entender direito a relevância daquele assunto. – Ahm... Você conhece alguma Jennifer?
- Não, mas eu sinto como se conhecesse. – ele sorriu, como se estivesse se lembrando de algo importante, e então se virou para mim: - Sabe quando algo simplesmente faz sentido?
Ai, meu Deus. Era o que me faltava. Uma Jennifer no meio do caminho. Será que ele tinha namorada? Quem era Jennifer? POR QUE ELA NÃO APARECEU NO GOOGLE?
- Deixa pra lá. – ele prosseguiu. - É aquele seu prédio?
Harry apontou o dedo para o pequeno edifício poucos metros a nossa frente, e eu fiz que sim com a cabeça.
QUEM É JENNIFER?
Mas tudo bem. Não importava. Foda-se Jennifer. Aquele não era um encontro romântico. Era praticamente uma reunião de negócios.
Minha rua estava quieta e um pouco escura, como de costume. As poucas luzes que a iluminavam vinham dos postes e da enorme lua cheia brilhando no céu. Uau. Aquela era uma bela noite. Pensei em comentar algo com Harry, mas achei melhor deixar pra lá. Não havia ninguém por ali para presenciar Harry Styles e eu entrando no meu condomínio, e muito menos para perceber que meu coração estava quase saindo pela minha boca. Nem mesmo o porteiro, que era pago pra ficar acordado durante a madrugada, tinha seus olhos abertos para testemunhar aquela cena milagrosa. Meu Deus. Há quanto tempo eu não levava nenhum homem comigo para casa? E lá estava eu, indo para o meu apartamento com um cara que poderia muito bem estar em um anúncio de cuecas da Calvin Klein. (Pare de pensar nele de cueca, Destiny). Não que fosse acontecer alguma coisa. Mas ainda assim, era um grande feito. Eu estava orgulhosa de mim.
Quando saímos do elevador e entramos no corredor que dava para o meu apartamento, me senti aliviada por não estar sentindo o característico cheiro de sopa, mingau e creme para assaduras que inundava o prédio quase que diariamente. Morar em um prédio ocupado por pessoas idosas era uma das coisas mais não-afrodisíacas que poderiam existir. Está vendo? Aparentemente nem o universo conspirava a favor da minha vida sexual. Talvez a culpa não fosse só minha. Harry caminhava atrás de mim, em silêncio, e vez ou outra eu olhava para trás pra checar se ele continuava me seguindo. Ele continuava e parecia sempre estar com um meio sorriso em seus lábios.
Eu tinha acabado de tocar a maçaneta do meu apartamento quando ouvi uma porta se abrindo.
- Destiny, é você? – perguntou uma voz familiar. Eu não precisei me virar para saber de quem se tratava: minha adorável vizinha de 80 anos.
- Boa noite, Gertrudes – respondi rapidamente, focada em destrancar a porta e entrar em casa o mais rápido possível. Se eu bem conhecia Gertrudes, eu já sabia o que estava por vir. Vamos lá, Des. Você não vai ser humilhada essa noite. Não na frente desse deus grego.
- Destiny! Que maravilha! – ela continuou, efusiva, e dessa vez eu tive que encará-la, implorando com os olhos para que ela se calasse. - Eu nunca te vi trazendo um homem para casa! Quero dizer, tirando aquele garoto que está sempre com você. Mas ele não conta, não é?
- Hahahahahahahaaahaa – soltei uma risada forçada e me virei para Harry, atenta a sua reação. Não acredite em nada que ela diz. Ela é demente. Caras frequentam a minha casa o tem-po to-do. Harry mordia o lábio inferior em algo que me parecia uma tentativa de prender o riso. – Ai, Gertrudes. Você é ótima. Eu quero ser hilária igual a você quando tiver a sua idade. São quantos anos mesmo? 120?
Ela ignorou a minha pergunta.
- Eu achava que você era lésbica! Se bem que, de certos ângulos, ele parece um pouco uma menina. – Gertrudes apertou os olhos e se aproximou de Harry, analisando-o minuciosamente. Ela tocou o rosto dele com as suas mãos enrugadas e se aproximou ainda mais, deixando seus narizes a poucos centímetros de distância. - Eu acho que te conheço de algum lugar...
Dessa vez, Harry não parecia estar prendendo o riso, e olhava pra mim como se implorasse por socorro.
- Gertrudes, não tá na hora de tomar o seu remédio para os ossos? – disse, puxando Harry pelo braço e o tirando das garras da avó de Satanás. Gertrudes era uma boa pessoa, mas, Deus, como ela sabia ser inconveniente. – O que você está fazendo acordada essa hora?
- Oh, eu não consegui dormir. Estavam reprisando Ghost na televisão.
Droga. E eu perdi?
- Poxa, eu gosto desse filme. – Harry disse, genuinamente interessado na conversa. Os olhos de Gertrudes brilharam.
Ó, céus.
- Oh... My love... My darlin’...
Gertrudes cantava com a voz trêmula, e encarava Harry como se ele fosse o Troy Bolton da sua Gabriella Montez. Boquiaberta, eu deslocava meu olhar de Harry para Gertrudes. Por um segundo, Harry pareceu estar prestes a abrir a boca para continuar a canção. Okay. Aquilo era constrangedor.
- Opa! Ótima voz, Gertrudes. Mas nós temos que ir agora. – abri a porta e empurrei Harry para dentro do apartamento antes que ele e minha vizinha fizessem um dueto de Unchained Melody na minha frente, e me traumatizassem pelo resto da vida. - Até mais. Boa noite.
- Boa noite, Destiny! – Gertrudes gritou antes me ver bater a porta na sua cara. - Usem camisinha!

***


Quando me escorei na porta atrás de mim e vi Harry ali, parado em minha sala de estar, com as mãos dentro dos bolsos traseiros de sua calça, Pictures of You voltou a tocar na minha rádio mental. Ele observava cada detalhe do meu apartamento com extrema atenção e abriu um sorriso ao passar os olhos pelas frases motivacionais coladas na parede. I wanna be a star. I don’t wanna be a cleaning lady. Don’t dream it. Be it. O sorriso alargou-se ainda mais quando ele avistou o pôster do Tom Cruise, em Top Gun, ao lado dos dizeres TAKE MY BREATH AWAY. Não pude deixar de sorrir também, mesmo sabendo o quão ridículo aquilo poderia parecer. Apesar de algo em minha consciência insistir que eu deveria estar sentindo vergonha naquele momento, eu não conseguia. Meu apartamento era provavelmente o espaço mais pessoal que eu poderia ter criado. Era um pedaço do meu mundo, independentemente do quão brega, colorido ou sem noção pudesse parecer. E, talvez, fosse esse o motivo pelo qual eu não permitia que muitas pessoas entrassem ali. Mas, por alguma razão, a presença de Harry não fazia com que eu me sentisse vulnerável ou envergonhada por ser quem eu era. Pelo contrário. Por mais esquisito que pudesse parecer, Harry se encaixava no meio de todas as frases, fotos e cores. Era quase como se ele fizesse parte daquele mundo também.
Eu estava tão entretida observando Harry se mover, olhar para coisas e sorrir de orelha a orelha que nem percebi o fato de seu olhar ter congelado em uma direção específica. Segui os seus olhos e me dei conta do que ele tinha visto. Ai, meu Deus. Ali, sobre a mesinha de centro, estava a pilha de calcinhas recém-lavadas. E no topo de todas elas estava ela: a minha calcinha da sorte. Aquela que eu usara na festa de casamento de Adam e Mandy, com a frase Like A Virgin escrita na frente.
NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO.
Esquece tudo o que eu falei sobre não sentir vergonha. Eu queria me jogar da minha janela e ser engolida por um buraco negro.
- Ahmmmmmm. Pode ficar à vontade – disse, correndo em direção à mesa de centro e apanhando todas as roupas que estavam ali. Incluindo as calcinhas. Principalmente as calcinhas. – Eu já volto.
Girei em torno de mim mesma, feito uma barata tonta e, então, acabei indo para o banheiro. O apartamento quase não tinha divisórias e aquele seria um dos únicos lugares onde minha roupa íntima estaria longe do alcance de Harry. A não ser que ele resolvesse usar o banheiro. Mas isso não seria um problema, já que eu tinha escondido as calcinhas no cesto de roupa suja. Aproveitei que já estava por ali para checar meu visual no espelho. Céus. A coroa rosa ainda estava na minha cabeça e eu tinha glitter dourado espalhado por todo o meu rosto. Ugh. Eu parecia um vagalume. Quem se sente sexualmente atraído por um vagalume? Talvez fosse por isso que, desde que nos encontramos na boate, Harry às vezes sorria sozinho olhando para a minha cara. Tirei a coroa e joguei parte do meu cabelo para o lado. Isso, Destiny. Selvagem. Rawr. Você consegue. Retoquei o batom, reforcei o desodorante e ajeitei os seios dentro do sutiã. Eu estava gata. Estava tudo bem. Respirei fundo e me preparei para sair do banheiro. Ok. Vamos lá.
- Você realmente gosta da Stevie Nicks, não é? – Harry disse ao perceber que eu me aproximava de onde ele estava. Tentei fazer uma entrada triunfal, escorando a lateral do meu corpo, de forma sexy, em uma das paredes da sala, mas Harry sequer moveu a cabeça para me olhar. Ele estava muito ocupado agachado no chão e brincando com a minha gata.
- Só por causa do pôster colado acima da minha cama? – brinquei, me aproximando dos dois. – O nome dela é Stevie, por falar nisso. Acho que ela gostou de você.
Harry desviou a atenção da minha gata e, então, olhou para mim. Senti um arrepio percorrer a minha espinha quando os olhos dele se encontraram com os meus. Algo naquele momento fez com que eu me lembrasse da noite em que nos conhecemos e nossos olhares se cruzavam o tempo inteiro. Caramba. Ele realmente tinha que fazer aquilo?
- Nah. Desde a primeira vez em que eu te vi eu tenho esse pressentimento – ele apoiou as mãos em suas pernas e se levantou. Stevie, a gata, miou em protesto. Eu também, Stevie. Eu também. – O pôster só confirmou a teoria.
Teoria? Então ele tinha... Teorias sobre mim?
- Provavelmente foi porque eu estava usando o meu vestido Stevie Nicks. Eu estava em dúvida entre ele e o tubinho preto Rihanna, mas aí meu pai... – Wow, Destiny. Você quer matar o cara de tédio? Ouvi a voz de Danny ecoar na minha mente. O Danny imaginário estava certo. Eu tinha que mudar de assunto. – Então, posso te oferecer alguma coisa pra beber? Chá? Vocês britânicos gostas de chá, não gostam?
Ele ignorou a minha pergunta.
- Você dá nome para as suas roupas?
- Eu gosto de pensar que são referências.
- Okay. – Ele balançou a cabeça afirmativamente. – E nós gostamos de chá, mas acho que vou aceitar uma água.
Graças a Deus. Água era a única bebida que eu tinha em casa. Não sei nem por que pensei que seria legal oferecer chá.
- Eu gostei do seu apartamento, sabia? – Harry disse, me assistindo retirar a jarra de água da geladeira. – É aconchegante. É bastante... – ele deslizou as palmas das mãos no ar como se quisesse simular um letreiro: - “Destiny”.
- Muito obrigada. – despejei a água em um copo de vidro e voltei para a sala, que era separada da cozinha apenas por um balcão. – Eu espero que “Destiny”– e imitei o gesto que ele fez com as mãos – seja uma coisa boa.
Ele pegou o copo e sorriu, olhando diretamente para mim:
- Com certeza é.
Oh... My love... My darlin’...
Fechei os olhos e sacudi a cabeça. Ok, Destiny. Foco. Eu podia sentir o sangue esquentar em meu rosto.
- Então... É... Obrigada. De novo.
Harry pareceu ter se constrangido ao me ver sem graça, pois rapidamente tirou os olhos dos meus e caminhou em direção aos porta-retratos que ficavam sobre a cômoda. Ele deu um gole em sua água e foi passando os olhos pelas quatro fotos que estavam ali: 1) Anne, papai e eu num jantar de Ação de Graças em 2006; nós fazíamos a clássica pose d’As Panteras, com papai no meio e Anne e eu em cada lado.
2) Eu, vestida com meu tutu preto, meia calça arrastão e luvas-sem-dedo, me apresentando num concurso de talentos promovido pelo orfanato. Era 2004 e eu tinha acabado de entrar na minha fase Madonna Anos 80. Infelizmente, eu não ganhei o prêmio, já que as pessoas escolhidas para julgar o concurso não tinham a menor visão artística (eles disseram que minha performance de Like a Virgin foi “um pouco demais” para uma garota da minha idade). Na foto que tiraram da vencedora – uma criança de 5 anos de idade cujo único talento consistia saber de cor o hino dos Estados Unidos (UAU. QUE GÊNIO. DÊ O PRÊMIO PRA ELA), é possível me ver ao fundo olhando para a câmera como se dissesse: “Um dia eu volto aqui e mato todos vocês”.
3) Papai, em sua versão Charlene Princess, recebendo de mim e Anne um beijo em cada bochecha. Ele tinha seus olhos fechados e fazia um biquinho para a câmera. A foto foi tirada em seu aniversário de 46 anos, pouco antes de minha irmã mais velha se mudar para Nova Iorque.
- Quem é? – ele perguntou, apontando para a minha foto favorita: Anne e eu no baile de primavera do colégio onde estudávamos. A foto foi tirada na casa em que morávamos com papai, e nós duas estávamos vestidas idênticas às personagens de Mira Sorvino e Lisa Kudrow no final do filme Romy e Michele. Anne era Romy e eu, Michele. – Vocês parecem próximas.
Sorri, sentindo-me subitamente animada ao me lembrar das circunstâncias por trás daquela foto.
- Essa é minha irmã, Anne. Nós fizemos as roupas sozinhas – me aproximei, parando ao lado de Harry, que observava a imagem atentamente enquanto eu conversava. – Quero dizer, Anne fez a maior parte. Ela sempre levou mais jeito com roupas. Eu tinha 14 anos na época e ela tinha 16. Foi nosso primeiro ano na escola nova. Você sabe, depois de termos saído do orfanato.
Harry franziu as sobrancelhas e virou-se para mim, curioso:
- Orfanato?
- Aham. – fiz que sim com a cabeça e o encarei de volta. Ele olhava pra mim como se eu estivesse prestes a contar a história mais interessante do século. Jesus. Ele realmente queria saber? – É uma longa história.
- Bem, não sei você, Destiny’s Child, mas eu tenho a noite toda. – ele brincou, encostando seu braço no meu e me empurrando de leve. Foi um dos poucos contatos físicos que tivemos desde que nos encontramos algumas horas antes, mas era o suficiente para fazer com que uma corrente elétrica percorresse todo o meu corpo. – A não ser que você queira me expulsar daqui. E por mim tudo bem, sério. Eu vou para a casa da Gertrudes.
- Aposto que ela ainda está cantando Unchained Melody e pensando em você.
Nós começamos a rir e não pude deixar de notar a maneira como os olhos de Harry ficavam pequenininhos quando ele ria. Ele ri com os olhos, awwwwn. E, para completar a fofura, ainda tinha a bendita covinha na bochecha. Caramba. Eu me sentia tão hipnotizada olhando para aquele homem que tinha medo que meus olhos estivessem em formato de coração. Aquilo não era possível, era? Se fosse, Harry com certeza fugiria de mim. A sensação que eu tinha era a de que não importava quanto tempo nós passássemos juntos, eu nunca iria me acostumar com toda aquela beleza. Muito menos as borboletas em meu estômago, que não me deixavam em paz desde o momento em que Harry pisou os pés na Gaiola das Loucas.
Borboleta 1: Ó MEU DEUS, DESTINY. VEJA SÓ QUE HOMEM.
Borboleta 2: E as mãos dele. OLHE O TAMANHO DAS MÃOS DELE.
Borboleta 3: Mmm. Eu consigo imaginar mil maneiras de me divertir com aquelas mãos... Eu sei que você também, Destiny. Eu conheço a sua mente poluída. Eu sou fruto dela.
Borboleta 4: E ele é tão fofo. Olha como ele presta atenção em tudo que você fala. Até nas merdas que você fala.
Borboleta 5: Ele bebeu a água tão rápido. Você viu aqueles lábios? Tão rosados. Eu quero beijar aqueles lábios.
TODAS JUNTAS: AGARRA ELE, DES. AGARRA ELE!
NÃO. Eu não podia dar ouvido àquelas borboletas desorientadas. Pelo menos não naquele momento. Mmm. Mais tarde? Talvez. Mas e... Jennifer? Ok, Destiny. Tira isso da cabeça. Apenas respirei fundo e me sentei em uma das almofadas indianas espalhadas pelo chão (só havia uma poltrona em meu apartamento e, bem, Stevie já tinha tomado conta dela), convidando Harry a fazer o mesmo. Se ele queria ouvir a minha história, era bom que estivesse sentado – não que minha vida fosse cheia de acontecimentos loucos e reviravoltas, mas eu realmente falava demais. Houve gente que pegou no sono antes que eu pudesse chegar no meu aniversário de 12 anos. E meu aniversário de 12 anos foi bem interessante.
Harry se sentou ao meu lado e, então, dei início às aventuras que um dia fariam parte da biografia autorizada de Destiny Thomas – A Superstar (Lei da atração. Pensamento positivo. FÉ EM DEUS). Comecei contando a Harry sobre como fui parar em um orfanato de Los Angeles aos três anos de idade, com nenhum documento que pudesse indicar o paradeiro ou a identidade dos meus pais biológicos. A única coisa que sabiam sobre mim era que meu nome era Destiny, já que, aparentemente, essa foi a minha resposta quando perguntaram como eu me chamava. Harry parecia um pouco aflito ao me ouvir dizer tudo isso. Ok, eu entendo. O abandono de uma criança nova demais para se virar sozinha, mas com vivência o suficiente para ter uma noção da sua identidade realmente pode causar esse efeito. Então tentei amenizar o clima fazendo algumas piadas e pulando para uma parte mais feliz da minha vida. Contei sobre a primeira vez que Anne e eu interagimos, quando ela tinha 10 anos e eu 8, e nós duas unimos forças para assistir a um especial do Hanson que seria exibido ao mesmo tempo em que o desenho mais amado pelas crianças mais novas. Nós ocupamos a sala de TV e levamos bronca da diretora do orfanato, mas pelo menos descobrimos sobre a existência uma da outra, e que não éramos as únicas fãs de Hanson por ali. Daquele momento em diante, nós nunca nos desgrudamos, e enquanto víamos muitos de nós indo embora, nós sabíamos que não estávamos sós. Um pouco depois, acabamos nos aproximamos de Jason - o garoto esquentadinho que, assim como Anne e eu, já tinha perdido as esperanças de sair dali antes dos dezoito – e fizemos o trio do Antes Tarde Do Que Nunca. Os garotos mais velhos do local. Algo que seria até legal, não fosse o fato de nós sabermos muito bem que eram os mais novos quem mandavam de verdade. Argh. De novo, a expressão aflita no rosto de Harry. Céus, minha história era tão triste assim? Sabia que não era uma boa ideia sair despejando tudo no primeiro encontro. Quero dizer, encontro não. Atividade recreativa. Sei lá.
Finalmente, cheguei ao ápice da minha vida no orfanato: o dia em que George Thomas resolveu nos visitar e Anne e eu improvisamos uma apresentação de The Best, da Tina Turner, pra todo mundo ver. Ok, talvez improviso seja exagero. The Best fazia parte dos números artísticos que Anne e eu ensaiávamos diariamente. Nós só não sabíamos quando teríamos a oportunidade de mostrar para o mundo inteiro o nosso talento, mas isso não nos impedia de nos preparar pro dia em que a chance chegaria. E, aí, a chance chegou. Contei a Harry sobre as roupas que usávamos, a coreografia e a forma como papai pareceu encantando assistindo a nós duas naquele dia. Ok, coincidência ou não, o jeito como Harry me olhava ao me ouvir dizer aquilo tudo lembrava muito a reação de papai durante o fatídico episódio Tina Turner. Uau. Será que a ideia da apresentação foi tão boa assim? Lembro que papai olhava para Anne e eu como se fôssemos a melhor invenção depois dos cílios postiços – o que significa muito, especialmente para uma drag queen. Mas, naquele momento, Harry olhava pra mim como se eu fosse a coisa mais interessante na qual ele já havia colocado os olhos. Como se eu fosse uma constelação ou algo do tipo. Ele não movia o olhar e sorria tanto que eu não conseguia encará-lo diretamente, e estava cada vez mais difícil ignorar a sensação de frio na barriga.
- Então Anne acabou indo para Nova Iorque e eu consegui o emprego na Forever. E, bem, acho que é isso. – disse alguns minutos depois, finalizando a Grande Epopeia de Destiny Thomas. – Eu disse que era uma longa história. E olha que essa foi a versão com cortes.
Harry me olhava e sorria da mesma forma que antes.
- Você pode me contar a versão sem cortes qualquer dia desses. Mas, espera. Anne Thomas? – ele perguntou, parecendo ter acabado de perceber alguma coisa importante. - A estilista Anne Thomas? Eu sabia que conhecia a sua irmã de algum lugar.
- Sim! – respondi empolgada. – Ela é demais. Ela está se tornando conhecida agora, eu imaginei que você pudesse conhecer.
Harry balançava a cabeça afirmativamente.
- Acho que o talento corre mesmo no sangue da família. O que nos leva de volta... – ele se levantou e caminhou em direção ao meu violão, que estava escorado ao lado da minha cama. Eu notei que ele olhava pra lá de vez em quando, mas não passou pela minha cabeça que ele iria tocar nesse assunto de novo. –... A você, Destiny’s Child. Não vai achando que eu me esqueci.
Harry voltou com o violão e entregou o instrumento em minhas mãos.
- Chegou a hora.
Outra vez, ele se sentou ao meu lado e voltou a me observar, cheio de expectativa. Eu sabia que não tinha como fugir, e dessa vez eu não queria. Sabe, cantar músicas de outras pessoas durante uma festa onde você está longe de ser o centro das atenções é bem diferente de cantar algo que você escreveu para uma pessoa só. Eu era muito boa em vestir minha melhor roupa e arrasar em cima de um palco, mas o fato de Harry estar tão perto de mim, e não ter nada ali para desviar a sua atenção, me deixou um pouco nervosa. Mas eu queria mostrar para Harry o que eu sabia fazer, e estava feliz por ele parecer interessado em descobrir também. Então respirei fundo e comecei.
Quero dizer, tentei começar.
EU PRECISAVA QUE AS PORCARIAS DE BORBOLETAS CALASSEM A BOCA.
OLHE PARA O JEITO COMO ELE OLHA PRA VOCÊ.
AGARRA ELE, DES.

- Okay, eu preciso que você feche os olhos – aquele par de olhos verdes me encarando como se eu não fosse nada menos que incrível não me ajudava a manter o foco. Caralho. Qual foi a última vez que um cara me olhou daquele jeito? – Eu vou fechar os meus. Você fecha os seus. Combinado?
- O quê? Por quê? – Harry parecia realmente indignado com a minha sugestão. – Não é assim que funciona.
- É, sim. – disse já de olhos fechados, esperando que ele fizesse o mesmo. Limpei a garganta e continuei: - Pois bem. Essa música é um pouco romântica – afinei a voz e pronunciei a frase dramaticamente. Minhas piores manias incluíam, mas não se limitavam a: roer as unhas, julgar os outros e tentar mascarar meu nervosismo com piadas. Ouvi Harry soltar uma pequena risada. Wohooooo. – Não que eu seja romântica ou algo assim. Longe de mim, argh. – outra vez, mais risadas de Harry. Eu sorri também. Vai lá, Destiny. Não deixe ele levar a sério. Você está prestes a abrir seu coração. Pera aí, por que eu não quero que ele leve a sério? – Ela foi escrita há mais ou menos um ano e não foi dedicada a ninguém em especial. Acho que... Eu só estava sentindo falta de me apaixonar. – silêncio. Nada de risadas. Droga. Pense em outra piada. Ahmmmmm... Nada? ¬– Ok. Espero que você esteja de olhos fechados, porque eu vou começar.
- Cala a boca e começa logo.
- Uau. – eu não sabia que nós já estávamos próximos a ponto de fazermos brincadeiras abusivas um com o outro. AQUILO ERA ÓTIMO. - A falta de respeito.
- Destiny... – A forma como Harry disse meu nome naquele momento fez com que eu voltasse a mim. Era mais do que um pedido. Ele realmente queria me ouvir. – Meus olhos estão fechados. Vai.
Respirei fundo outra vez e, sem querer, acabei abrindo os olhos. Os deles estavam fechados. Fechei os meus de novo e, então, comecei.

Who’s fault is this that I’m crazy about you
You were there in every single dream, and I’m thinking about you


Minha voz estava um pouco trêmula e eu torcia para que Harry não percebesse o meu nervosismo. Por que eu decidi cantar logo aquela música?

If you wanna do, do, do me right
Do, do, do, do, do
If you wanna leave it all tonight
Do, do, do, do, do


Ok. Eu sabia o porquê. Aquela era provavelmente uma das coisas mais honestas que eu havia escrito e, realmente, não era dedicada a ninguém. Foi toda feita em uma noite, depois de eu ter voltado da festa de casamento de mais um daqueles Casais Super Fofos.

When there’s nothing left except you and this
Champagne kisses
Champagne kisses
Champagne


Adam e Mandy não foram os primeiros alvos da minha inveja desde que me juntei à Forever. Vieram alguns outros antes deles. E, bem, eu sempre fui péssima em segurar o choro enquanto cantava canções que basicamente diziam: Te amo. Quero ficar com você pelo resto da vida. Você não tem pena dessa coitada que está chorando enquanto a gente dança? Ok. Talvez a última parte seja coisa da minha cabeça.

I count every kiss
Till I'm finally sleeping
This love supreme
That's why I'll always give in


Então, naquela noite, em vez de chegar em casa e assistir ao Diário de Bridget Jones pela quinquagésima vez, peguei o meu violão e compus uma música sobre um relacionamento que nem existia. Escrevi sobre a forma como eu gostaria de me sentir, caso estivesse com alguém, e acabei me dando conta de que, Deus, como eu sentia falta de me apaixonar. Eu sentia falta das noites em claro, do frio na barriga, da cumplicidade e até de todo o drama que poderia vir junto. Mas ninguém capaz de fazer com que eu me sentisse daquela forma aparecia, e eu não iria forçar a barra.

And I won't be mad
I won't be mad
Champagne kisses
And I won't be mad
I won't be mad
Champagne kisses


Assim que cantei a última palavra, senti como se um peso enorme fosse retirado do meu corpo. Eu não estava mais nervosa, pelo contrário. Eu me sentia... Leve. Era como se eu estivesse no lugar certo, na hora certa, e sequer fazia sentido o fato de eu ter pedido a Harry que ele não olhasse pra mim.
Abri os olhos e vi que Harry tinha o corpo inclinado na minha direção, e já parecia me observar há muito tempo. Ele continuava a me encarar como se eu fosse uma constelação. Como se eu não fosse nada menos que incrível. Ai, meu Deus do céu.
- Eu abri os olhos depois do primeiro verso. Espero que você não me mate. – ele disse, sorrindo. Imagina, fica à vontade. – Caramba, Des. Isso foi... Incrível.
- Ob-obrigada – sorri também, sentindo minhas bochechas esquentarem. Eu enrolava as pontas dos meus cabelos com os dedos, como uma garotinha da quinta série. – Que bom que você gostou.
Muito sexy, Destiny.
- Gostar? – perguntou Harry, como se eu tivesse acabado de ofender a sua mãe. – Eu não gostei, Destiny’s Child. Eu amei a sua música. Eu... – Harry parou subitamente e encarou o chão, pensativo. Um novo sorriso se formou em seus lábios e eu podia ver um EURECA escrito em sua testa. Ele prosseguiu, afinando a voz e pronunciando as palavras de forma afetada: – Destiny, agora que somos amigos, eu decidi te transformar no meu novo projeto.
Mas que merda?
Eu olhava pra Harry sem piscar, metade encantada e metade confusa. Ele realmente tinha acabado de...
- Você acabou de citar Wicked?
Harry desviou o olhar e deu de ombros.
- Talvez. Mas o ponto é... – ele se levantou e me estendeu a mão para que eu me levantasse também. – Você é uma estrela, Destiny! Você deveria estar tocando nas rádios, e não cantando em casamentos. E eu posso te ajudar.
Eu estava um pouco zonza e não conseguia pensar direito, já que Harry continuava segurando a minha mão mesmo depois de eu ter ficado em pé. Mas ele havia falado alguma coisa sobre estrela, casamento e me ajudar?
AAAAAAAAAAAAH, MOLEQUE.
- EU ACEITO! – gritei empolgada, só depois me dando conta de que eu havia formado a frase errada com as palavras que consegui captar. Ele não tinha acabado de me pedir em casamento. Mas ok, a proposta feita ainda era boa. Ignorei a expressão confusa no rosto de Harry e continuei: - Quero dizer, eu aceito os seus elogios. – dei um sorriso amarelo. - E a ajuda também, é claro.
Harry riu e, ainda segurando a minha mão, começou a me rodopiar pela sala. Assim, do nada. Como se fosse normal.
- Ótimo – ele dizia, afobado, tentando saltar as almofadas que estavam no chão. Jesus. Será que ele estava bêbado esse tempo inteiro e eu não notei? – O mundo está prestes a conhecer DESTINY THOMAS. – ele me parou em sua frente e franziu as sobrancelhas. - Quero dizer, qual vai ser o seu nome artístico?
- Mmm – entortei os lábios e olhei para cima, refletindo sobre a pergunta. – Acho que só Destiny.
- Só Destiny. Tipo a Cher. – ele deu uma piscadinha. - Gostei.
- E Beyoncé.
- Rihanna.
- Adele.
- Jewel – eu disse, e nós dois começamos a rir, provavelmente nos lembrando da mesma coisa. Oh, Adam e Mandy. Obrigada por terem contratado a Forever para o seu casamento. – Por falar nisso: melhor versão de You Were Meant For Me que eu já ouvi.
Harry continuava rindo, mas como se tivesse se dado conta de algo, a expressão em seu rosto transformou-se completamente. O sorriso em seus lábios foi se desfazendo aos poucos, e vi que seu olhar estava fixo na altura da minha boca. Só então notei o quanto nós estávamos próximos, e na forma como suas mãos estavam firmes em minha cintura. Deus. Como eu não percebi isso? Eu podia sentir o aroma amadeirado do seu perfume e, outra vez, Pictures Of You voltou a tocar em minha rádio mental. Meu coração batia tão forte que eu tive medo que Gertrudes conseguisse ouvir lá do seu apartamento. Harry ergueu uma de suas mãos e tocou o meu rosto gentilmente, se aproximando devagar. Ele continuava desviando o olhar da minha boca para os meus olhos, como se quisesse ter certeza de que nós dois estávamos pensando a mesma coisa. Eu não sei se consegui enviar nenhum tipo de mensagem, já que estava ocupada demais admirando o que estava na minha frente. Observá-lo de perto era uma experiência tão incrível que deveria figurar na lista de direitos humanos básicos de cada cidadão. Isso aí. Todo ser humano teria direito à vida, à dignidade, e a ver de perto os olhos verdes de Harry Styles (e a pintinha que ficava perto da sua boca). Harry inclinou a cabeça e diminuiu ainda mais a distância entre nós. Eu podia sentir a sua respiração quente na minha bochecha. Ele ia me beijar. Ele ia me beijar e a reação que tive foi a mais estúpida possível.
- Caramba. Está um pouco tarde, não está? - eu disse, me afastando e apontando para a janela. – Daqui a pouco começa a clarear.
POR QUE EU FIZ AQUILO? POR QUÊ?
As borboletas em meu estômago estavam revoltadas, e eu sabia que merecia a ira de todas elas.
“O QUÊ?
VOCÊ TÁ DE BRINCADEIRA?
É POR ISSO QUE VOCÊ VAI MORRER SECA!!!”

Sim. Elas estavam certas. Eu iria morrer seca. Não havia motivo plausível para que eu deixasse de beijar Harry naquele momento. Eu queria. Ele também. E, ainda assim, eu tive que fugir. POR QUÊ? Tinha a Jennifer. E se ele namorasse a tal da Jennifer? Eu não queria ser a outra. Argh. Mas eu nem estava me lembrando de Jennifer nenhuma enquanto os lábios dele estavam tão perto dos meus. Talvez eu fosse mesmo uma máquina de auto-sabotagem. Danny já havia me dito isso uma vez, e geralmente ele estava certo. Talvez eu devesse parar de gastar dinheiro em roupas e pagar um terapeuta.
A palavra frustração não era o suficiente para descrever a expressão no rosto de Harry. Talvez confuso e completamente perdido fosse melhor. Ele não parecia ter ideia do que estava acontecendo, já que, se eu fosse uma pessoa normal, nós estaríamos nos beijando agora. Ele soltou o ar com força e deu dois passos para trás, desfazendo qualquer contato físico que ainda pudesse existir entre nós.
“NÃÃÃÃÃÃO,” as borboletas gritavam.
- Aham – Harry assentiu com a cabeça, checando o relógio em seu pulso. – São mais de três da manhã. - ele passou a mão em seus cabelos, parecendo estar constrangido. Parabéns, Destiny. Ele nunca vai tentar te beijar de novo. - Acho melhor eu ir embora.
- Sim. Quero dizer, sua namorada vai acabar ficando brava com você. – sorri sem graça, aproveitando pra jogar a isca e descobrir logo se ele estava comprometido ou interessado em alguém.
Harry franziu as sobrancelhas e me olhou como se eu fosse louca:
- Namorada?
- Sim. Jennifer. – respondi. - A garota que faz com que tudo pareça fazer sentido.
Ele jogou a cabeça para trás e começou a rir. Mmm. Não vejo a graça.
- Jennifer não é minha namorada. – ele disse, após o seu ataque de riso. - Eu não tenho namorada. – ele me observou por alguns instantes e continuou, estreitando os olhos para mim: - E você? O seu namorado vai ficar bravo por eu estar aqui?
Aquela foi a minha vez de rir. Bom, pelo menos ele não levou muito a sério o que foi dito pela Gertrudes.
- Se ele existisse, talvez.
- Okay. – ele sorriu satisfeito. – Eu tenho que ir agora, Des. – Harry me puxou para um abraço rápido e tudo o que eu consegui fazer foi ficar parada com os braços estendidos. – Obrigado por hoje. Você tem meu número, não tenha medo de usá-lo.
Como ele conseguia sair do estado de Constrangimento Total para o de Charme em Pessoa tão rápido?
- E-eu não terei – gaguejei, ainda me sentindo inebriada com o seu perfume. – Você também. Quero dizer, não tenha medo de usar o meu. Número. No caso.
- Pode deixar.
Acompanhei Harry até a portaria e torci para que Gertrudes não estivesse acordada. Ela me chamaria de perdedora pelo resto do mês se descobrisse que eu deixei um cara tão bonito escapar daquele jeito. Antes de ir, quando já estávamos lá embaixo, na calçada, Harry olhou para o céu e disse:
- É uma bela noite, não é?
Fiz que sim com a cabeça e sorri, lembrando-me de como eu pensei em dizer a mesma coisa quando chegamos ali. Aquela era uma bela noite. Ele sorriu também e, então, virou-se de costas, andando em direção ao seu carro. E eu fiquei ali, o admirando caminhar. E enquanto ele se afastava, alguns versos da Jewel insistiam em martelar na minha cabeça.

You were meant for me
And I was meant for you



EXTRA!
CENA DELETADA: CAPÍTULO 8


- Gostar? – perguntou Harry, como se eu tivesse acabado de ofender a sua mãe. – Eu não gostei, Destiny’s Child. Eu amei a sua música. Eu... – Harry parou subitamente e encarou o chão, pensativo. Um novo sorriso se formou em seus lábios e eu podia ver um EURECA escrito em sua testa. Ele prosseguiu, afinando a voz e pronunciando as palavras de forma afetada: – Destiny, now that we’re friends, I’ve decided to make you my new project. (Agora que somos amigos, eu decidi te transformar no meu novo projeto)
Mas que merda?
Eu olhava pra Harry sem piscar, metade encantada e metade confusa. Ele realmente tinha acabado de...
- Você acabou de citar Wicked?
Ele continuou olhando pra mim, como se houvesse uma fala perfeita para ser dita naquela ocasião. Algo diferente da pergunta que eu havia feito.
Ó, céus. Eu sabia onde ele estava querendo chegar.
Soltei o ar, me rendendo ao destino.
- You really don’t have to do that. (Você realmente não precisa fazer isso) – eu disse, sem muita emoção.
- I know (eu sei) – Harry sorriu de orelha a orelha, afinando sua voz ainda amais. – That’s what makes me so nice! (é isso que me torna tão legal!)

______________


Senhoras e senhores: interrompemos a narrativa para a transmissão de um número musical aleatoriamente inserido na história.

HARRY E DESTINY EM: POPULAR
CONHEÇA OS ATORES!

Harry Styles é Glinda – a bruxa boa de Oz. “Glinda é doce e engraçada. Eu consigo me identificar bastante com a sua personalidade. Ela nunca desiste e está sempre disposta a ajudar. É um prazer interpretar alguém assim. Além de tudo, ela tem um ótimo cabelo, e eu tenho um ótimo cabelo. Eu sinto que há uma conexão aí.”
Frase que o define:Esse é o papel da minha vida.
(H: Você pode colocar uma exclamação aí.
Entrevistador: O quê?
H: “Esse é o papel da minha vida!”. Exclamação. Pra mostrar que eu estou empolgado.)
Frase que o define:Esse é o papel da minha vida!
Destiny Thomas é Elphaba – a bruxa malvada do Oeste. Destiny se recusou a fornecer seus insights sobre a personagem.
Frase que a define:Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo.

Na cena a seguir, Glinda se dispõe a ensinar a Elphaba, sua colega de quarto, tudo o que ela precisa saber para se tornar popular. Afinal de contas, verde é o novo rosa.

Plim.


O som do piano dá a Harry a deixa para que ele inicie a grande performance da sua vida. Ele deseja estar usando um vestido rosa naquele momento, mas sabe que sua atuação será capaz compensar a falta do figurino.

Whenever I see someone less fortunate than I
(sempre que vejo alguém menos afortunado que eu)
And let's face it: who isn't less fortunate than I?
(e vamos encarar: quem não é menos afortunado que eu?)
My tender heart tends to start to bleeeeeed
(meu terno coração tende a sangrar)


Destiny observa Harry cantar de olhos fechados, com a mão sobre o peito esquerdo. Ela não sabe, no momento, se vergonha alheia ou emoção. Em sua mente, a mesma frase continua passando como num letreiro: Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo.

And when someone needs a makeover
(e quando alguém precisa de uma transformação)
I simply have to take over
(eu simplesmente tenho que ajudar)
I know - I know! - exactly what they need
(eu sei – eu sei! – exatamente o que eles precisam)
And even in your case
(E mesmo no seu caso)


Harry olha para Destiny e balança a cabeça negativamente.

Though it's the toughest case I've yet to face
(Ainda que seja o caso mais difícil que eu tenho a enfrentar)
Don't worry - I'm determined to succeed
(Não se preocupe – eu estou determinada a ter sucesso)
Follow my lead
(Siga-me)


Ele se aproxima, e Destiny teme pelo que está prestes a acontecer.

And yes, indeed
(E sim, certamente)
You. Will. Be.
(Você. Vai. Ser)


Harry toca o dedo indicador no nariz dela, marcando cada palavra. Depois, se afasta e dá um pulinho no ar.

Popular!
(Popular!)
You're gonna be pop-u-lar!
(Você vai ser popuular)
I'll teach you the proper ploys when you talk to boys
(Vou te ensinar o jeito certo para falar com garotos)
Little ways to flirt and flounce,
(Jeitinhos de flertar e se arrumar)


Ele rodopia pela sala com a graça de uma fada – se a fada em questão estivesse bêbada e sofresse de labirintite. Harry tropeça nos próprios pés e nas almofadas indianas e, sem querer, pisa no rabo de Stevie – a gata*, em sua tentativa de subir na poltrona.

Ooh, I'll show you what shoes to wear
(Oh, te mostrarei quais sapatos usar)
How to fix your hair
(Como ajeitar o seu cabelo)
Everything that really counts to be popular
(Tudo que realmente importa para ser popular)


Mas nada disso é capaz de atrapalhar a sua apresentação. Ele encara a expressão surpresa de Destiny como um incentivo a continuar dando o melhor de si. Se ela estava interpretando a Elphaba tão bem, ele não poderia ser uma Glinda meia boca.

I'll help you be popular!
(Te ajudarei a ser popular)
You'll hang with the right cohorts
(Você sairá com as pessoas certas)
You'll be good at sports
(Será boa nos esportes)
Know the slang you've got to know
(Aprender as gírias que você tem que saber)
So let's start, 'cause you've got an awfully long way to go
(Então vamos começar, porque você tem um caminho terrivelmente longo a percorrer)


Por alguns segundos, Destiny cogita estar no meio de uma viagem de ácido. Sim, uma viagem de ácido. Agora tudo faz sentido. É por isso que Harry Styles está pulando pela sua sala e alcançando notas que ela nem sabia que ele era capaz.

Laaaaaaaa laaaaaaaaaaaaa laaaaaaaaaa laaaaaaaa
We’re gonna make you pop-u-lar
(Vamos te tornar po-pu-lar)


Harry aproveita os objetos espalhados pela casa de Destiny para enfeitar a garota com o que encontra pela frente. Mmm, esse cachecol roxo vai ficar magnífico! Ele olha para a mesa de centro e percebe que, debaixo dela, está a calcinha rosa com a frase “Like a Virgin” escrita na frente. Destiny provavelmente deixou-a cair enquanto levava a sua pilha de roupas para o banheiro. Perfeito! Harry pega a calcinha e a coloca na cabeça de Destiny, como se fosse uma touca. Ele retira o celular do bolso e aponta a tela para ela. A câmera frontal está ativada, para simular um espelho. Sabe como é. Ele teve que improvisar.

Why, Miss Elphaba. Look at you.
(Nossa, senhorita Elphaba. Olhe pra você.)


Harry quase enfia o celular no rosto de Destiny.

You're beeeeautiful.
(Você está linda)


Ela não está. Câmeras frontais nunca valorizaram a sua beleza.
Destiny observa aquela imagem inconsolável. Puta que pariu. Como ela deixou a sua calcinha da sorte para trás? Mas essa nem é a pior parte. Olhe para o tamanho das suas bochechas. As olheiras. O queixo duplo. Ela estava daquele jeito a noite inteira? E se a sua verdadeira face fosse a que aparecia na câmera frontal, e não aquela que ela vê no espelho? Oh meu Deus. Destiny abre a boca, em choque, se dando conta de que a face que ela vê no espelho é refletida ao contrário, e ela nunca se viu como verdadeiramente é.
Perturbada pela descoberta e ainda sem entender se aquilo era uma viagem de ácido ou não, ela diz:

I... I have to go.
(Eu... Eu tenho que ir.)


E sai correndo para o banheiro.

You’re welcome!
(De nada!)


Harry exclama, indignado, com as mãos na cintura. Depois de todo o discurso motivacional que ele fez, e de ter alcançado notas capazes de fazer suas bolas explodirem, é assim que ela agradece? Mas tudo bem, ele pensa, sorrindo sozinho para o nada. Ele sabe que a sementinha da autoestima foi plantada.
Harry olha para o horizonte, esperançoso. Stevie, a gata, julga em silêncio.

And though you protest
(E embore você proteste)
Your disinterest
(E mostre desinteresse)
I know clandestinely
(Eu sei que clandestinamente)
You're gonna grin and bear it, your new found popularity - Aaaah!
(Você irá sorrir e desenvolver a sua recém-descoberta popularidade!)


Harry volta a dançar sozinho pela sala. Dessa vez, ele gira com os braços abertos, da mesma forma que a Noviça Rebelde – outro musical no qual ele adoraria se aventurar.

Laaaaaa la laaaaaa la
You'll be popular
(Você será popular.)
Just not quite as popular
(Só não tão popular)
As meeeeeeeee
(Como eeeeeeeeeeeeeeeeeeeu)


Harry finaliza de olhos fechados. Seu coração está acelerado. Em sua alma, ele sente que a missão foi cumprida.
Sentada no chão do banheiro, Destiny balança o corpo para frente e para trás, desejando que esse sonho ruim acabe logo.
De longe, pode-se ouvir uma sirene de polícia.
Aparentemente, nem todos os vizinhos de Destiny tem problema de audição.

*Nenhum animal foi realmente machucado durante a produção dessa cena.

Capítulo 9


HARRY



“E começamos mais um SAY WHAAAAAT? com uma B-O-M-B-A. Retirem as adolescentes da sala: a notícia que vamos dar a seguir pode quebrar o coração da sua filha. A não ser, é claro, que ela seja uma Larry Shipper (se você não sabe o que é uma Larry Shipper, fique de olho no especial que exibiremos amanhã. Nossos repórteres foram às ruas dispostos a explicar esse fenômeno).
Harry Styles, galã da One Direction e, segundo a revista People With Money, um dos jovens mais ricos e bem relacionados do entretenimento, foi visto noite passada, em Los Angeles, se divertindo na casa noturna Gaiola das Loucas. Nada de mais, certo? Errado! O Gaiola das Loucas é um dos clubes LGBT mais conhecidos de West Hollywood – uma área que, por si só, já é LGBT o suficiente. Fontes relatam que Harry chegou ao local pouco antes da meia-noite, e aparentava estar feliz e à vontade. Apesar de estar sozinho, o cantor demonstrava familiaridade com alguns dos funcionários. Ele aplaudiu e se animou com a apresentação de Charlene Princess – drag queen proprietária da casa noturna – e, segundo as mesmas fontes, deixou a boate pela porta dos fundos, acompanhado de uma transformista.
SAY WHAAAAAT?
É isso aí. Harry Styles deixou a boate pela porta dos fundos, acompanhado de uma transformista.
Uau, Harry.
Seria verdade ou apenas intriga? Estaria o time de Harry Styles jogando em mais de um lado? Baixe o app do nosso programa e continue por dentro dos escândalos das suas celebridades favoritas...”


Harry desligou a TV. Ele sempre achou esquisito assistir a notícias sobre sua vida serem anunciadas por aí. Era estranho, invasivo e, na maioria das ocasiões, os fatos divulgados pela imprensa não poderiam estar mais distantes da realidade. Muitas vezes, Harry tinha a sensação de estar assistindo a alguma série de fantasia: uma nova versão de Game Of Thrones, mas sem os dragões e todas aquelas mortes. Ou, talvez, uma novela mexicana na qual, ao mesmo tempo, ele era capaz de interpretar a mocinha, o mocinho e a vilã.
Harry Styles é cotado para interpretar Justin Timberlake em filme sobre a vida e obra do N’ SYNC.
Harry Styles assume namoro com protagonista de série teen e com o presidente dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo!
Harry Styles briga com companheiros de banda e admite: É hora de voar sozinho.
BOMBA: “Música não é pra mim.” diz Harry Styles “Vou correr atrás do meu verdadeiro sonho: ser um caça-fantasmas.”

Aquelas eram algumas das manchetes favoritas de Harry. Quando estava triste, ele recorria a elas, e se divertia imaginando o que estaria acontecendo caso uma daquelas afirmações fosse verdade. Talvez ele realmente tivesse se tornado um caça-fantasmas em um universo paralelo. Vai saber?
Desde o início de sua carreira, cinco anos antes, histórias loucas faziam parte da rotina de Harry. Algumas vezes, sua mãe o telefonava, preocupada, querendo saber se ele realmente havia quebrado a perna ou se estava mesmo pensando em raspar o cabelo para a caridade. Mas tudo bem. Era parte do trabalho. E Harry amava demais o que fazia para se deixar abater pelos aspectos que não gostava tanto assim.
No entanto, a notícia divulgada pelo “SAY WHAAAAAT?” naquela tarde era uma das coisas mais reais que Harry havia visto sobre si mesmo, na mídia, em meses. Na noite anterior, ele realmente estava se divertindo na casa noturna Gaiola das Loucas. Ele aparentava estar feliz e à vontade porque, de fato, estava. Harry nunca havia pisado naquela boate antes, mas demonstrava familiaridade com uma funcionária em especial porque, bem, ela era o motivo para ele estar ali. A tal “fonte” responsável por repassar ao programa de fofoca os detalhes da noite passada só pareceu errar em um aspecto: Harry realmente foi embora pelas portas dos fundos, e, sim, ele estava acompanhado. Mas Destiny não era uma transformista. Não que a garota fosse se irritar por ser comparada a uma drag queen. Ele não sabia se Destiny já estava ciente daquele boato, mas não conseguia imaginá-la se sentindo ofendida por algo do gênero.
Harry tentou imaginar uma possível reação:
“Transformista? Eu? Mas logo ontem que eu estava tão básica?”
Ele balançou a cabeça e riu sozinho. É. Soava como algo que Destiny falaria.
Merda. Harry se deu conta do que estava acontecendo. Eu estou mesmo rindo sozinho por causa dela? De novo?
Okay. Aquilo era preocupante. Talvez Niall estivesse certo. Quer dizer, não totalmente. Niall dizia que ele estava apaixonado – mas Harry sabia que, no fundo, era apenas uma brincadeira a fim de irritá-lo um pouquinho. Ele faria o mesmo se fosse o seu colega de banda na mesma situação. Mas talvez Harry estivesse se apaixonando. Talvez, naquele exato momento, ele estivesse no meio do processo de se apaixonar por alguém. Sabe como é. A fase do encantamento. Você pensa na pessoa vinte e quatro horas por dia, e cada música parece ter sido escrita especialmente sobre vocês dois. Você quer saber sobre o seu objeto de desejo mais e mais. Nunca é o suficiente.
Qual a sua cor favorita? Que filme já te fez chorar? Qual a sua pessoa favorita no mundo inteiro e, sei lá, será que um dia você poderia dizer que sou eu? Não ainda, é claro. Ainda é cedo. Biscoito ou bolacha?
E você realmente não se importa com a resposta. Quer dizer, você se importa, mas não para fazer nenhum juízo de valor. Você sabe que não vai julgar. Sabe que não vai achar certo ou errado (a não ser que a pessoa responda que sua maior inspiração é Hitler ou algo assim). Independente da resposta, a sua certeza é uma só: você vai encontrar mais um motivo para seguir se apaixonando.
E aí, se você der sorte, inicia-se a fase da convivência (muitas pessoas ficam presas no encantamento. É fácil cultivar um amor platônico, e, com as redes sociais, é possível encontrar respostas para todas aquelas perguntas usando a internet). Você quer estar com a pessoa todo o tempo e, novamente, nunca parece ser demais. Como é possível que dois indivíduos conversem o dia inteiro e jamais se cansem? Vocês querem fazer coisas juntos. Qualquer coisa. Corrida, assistir filmes, escalar o Everest. Noite de karaokê. Aos poucos, você se sente parte do mundo de alguém, e permite que esse alguém faça parte do seu mundo. E tudo bem, porque parece certo.
E depois... Harry não sabia muito bem o que vinha depois. Ele continuava na segunda fase quando sua ex-namorada decidiu que não poderiam mais ficar juntos. A mesma ex-namorada pela qual Harry chorara por dias, sozinho no seu quarto, enquanto ouvia a música da Jewel. Até aquela manhã, Harry tinha ciência de que só se apaixonara de verdade, daquele amor que é tão grande que dói, uma vez na vida. O fim não foi como ele esperava, e foram necessárias longas noites de insônia e incontáveis abraços de sua mãe para que ele se recuperasse. Dois anos após o término precoce, quando ambos tinham apenas dezesseis, Harry e Kara encontraram-se novamente. Ainda havia uma certa chama, e o fantasma do “e se...” fez com que os dois resolvessem tentar novamente. Não deu muito certo. Alguns meses juntos foram o suficiente para ambos perceberem que haviam se tornado pessoas diferentes. O único sentimento cabível entre os dois era um extremo carinho um pelo outro. E, então, se separaram.
Depois, é claro, Harry conheceu outras meninas, teve alguns casos e um ou outro relacionamento sério. E, não o entendam mal, ele gostou de cada uma delas. Cada uma possuía algo que ele admirava e que, à época, o deixava encantado e contente. Mas amor, amor mesmo, só aconteceu uma vez.
E enquanto estava ali, sentado em sua sala de TV, com o olhar perdido em um ponto qualquer, Harry chegou à conclusão de que, talvez, sentisse um pouco de receio de se apaixonar de novo. Ele gostava de se apaixonar, sentia falta do sentimento, mas aquilo era algo viável? A vida que levava, no momento, permitiria que ele se envolvesse em algo sério sem acabar com o coração quebrado? Ou pior, quebrando o coração de alguém? Alguns de seus colegas de banda conseguiam. Muitas outras “celebridades” conseguiam. Não era impossível.
Wooooow, Harry. Nada de se precipitar.
De qualquer forma, ele havia lido em algum lugar que a paixão dura cerca de três meses. Extrapolado esse prazo, aí sim podia ser amor. Harry ainda tinha alguns meses pela frente.
Ele ainda podia pensar em Destiny e sorrir sozinho em paz.
O celular vibrou em sua mão.
N: Eu não acredito que vocês não se beijaram. Cara??? Niall xx’
H: Na verdade, foi ela que não me beijou. Você não prestou atenção?
Mais cedo, no telefone, Harry contou a Niall tudo sobre a noite passada. Ele não quis deixar nada de fora porque cada detalhe parecia importante. Ele falou sobre o clima ameno e a leve brisa que soprava em West Hollywood. Falou sobre Charlene Princess, Danny e Estrella – a drag queen anã que, por coincidência ou não, também estava na despedida de solteiro de Adam. Falou sobre o quão bonito estava aquela noite, e como a enorme lua cheia iluminava a pacata rua de Destiny.
Niall não parecia muito impressionado:
“Cara. Você vai me fazer vomitar.”
E, é claro, Harry não poderia deixar de comentar sobre Gertrudes e o quase dueto de Unchained Melody que por pouco não aconteceu no corredor.
Fazer o quê. Ele sempre se deu bem com idosos.
Após ter dado um tempo para Niall rir escandalosamente do outro lado da linha, Harry prosseguiu a contar sobre o pequeno e aconchegante apartamento de Destiny, e sobre como ele se sentia à vontade ali. Era engraçado pensar nisso, mas entre as cores, os pôsteres, as frases motivacionais - e, é claro, Stevie, a gata – Harry tinha a sensação de que estava em casa (e sua casa não poderia ser mais diferente). Ele pensou em dizer a Niall sobre a calcinha rosa estampada com a frase “Like a Virgin”, mas acabou mudando de ideia. Calcinhas eram algo... Íntimo, certo? E pela forma como Destiny correu para o banheiro, carregando a pilha de roupas íntimas em seus braços, ela realmente não queria que mais ninguém soubesse. O que era uma pena, na verdade. Harry achou engraçado. Chegou até a se imaginar descobrindo sobre a existência daquela calcinha em outras circunstâncias, mas se forçou a espantar o pensamento da sua cabeça.
Foco, Styles. Foco.
Durante aquela noite, Harry pensou em beijar Destiny inúmeras vezes. Ele quis beijá-la quando ela voltou do banheiro, um pouco agitada, e com o cabelo bagunçado – o que não o ajudou em nada a tirar os pensamentos impróprios de sua cabeça. Ele quis beijá-la enquanto a assistia contar sobre as histórias por trás das fotos espalhadas por sua cômoda, e ao perceber a forma como ela se iluminava ao falar de qualquer coisa que envolvesse Anne e seu pai, George Thomas. Harry quis beijá-la após ouvi-la contar sobre a sua vida no orfanato (Harry descobriu que, quando estava empolgada, Destiny conversava rápido e gesticulava bastante), e ao chegar à conclusão de que aquela garota, sentada à frente dele, era uma das pessoas mais interessantes que ele já havia conhecido. E ele poderia escutá-la falar por horas e horas e horas...
Harry quis beijar Destiny assim que o primeiro verso da canção que ela havia escrito saiu da sua boca. Mas ele não a atrapalharia. Ele precisava terminar de ouvi-la cantar. Então, eventualmente, a chance apareceu. Ele nem se lembrava de como foram parar tão próximos um do outro, mas assim que percebeu uma de suas mãos na cintura da garota, tudo ao seu redor pareceu ter se congelado. “Ainda tem glitter espalhado pelo seu rosto”, ele pensou em dizer. Mas achou melhor deixar pra lá. Quando a distância entre os dois estava prestes a se tornar nenhuma, Destiny resolveu se afastar e quebrar o clima totalmente. O que foi meio confuso para Harry. Quer dizer, ela queria também. Certo? Tudo dava a entender que sim. O que a fez mudar de ideia? Jennifer. Talvez ela realmente tenha achado que Harry namorava alguma Jennifer. Mas tudo bem. Se fosse para acontecer um dia, aconteceria. Harry não tinha pressa.
Niall, por outro lado, continuava sem entender como aquilo poderia ter acontecido, e o bombardeava com mensagens desde o fim da ligação:
N: Tem certeza de que ela não tem namorado?
H: Ela disse que não. Talvez eu não seja o tipo dela?
N: Tá maluco? Você tem espelho em casa? Você é o tipo de qualquer uma.
Harry checou seu reflexo na superfície da TV desligada e passou a mão pelos cabelos. Nada mal.
H: Nahhh. Também não é assim.
Harry observou o visor do seu celular acender. Dessa vez, não era uma nova mensagem de Niall e, sim, uma ligação de Katherine, sua assessora. Harry não estava no clima para levar broncas, mas sabia que nem o pior dos sermões seria capaz de tirá-lo do bom humor no qual se encontrava.
- Ó, Katherine, minha Katherine! – ele atendeu, sorrindo.
- Você viu? – a voz de Katherine estava dura do outro lado da linha.
- Sim.
- Você estava em uma boate gay ontem?
- Sim – Harry respondeu. – O que há de errado nisso, Katherine?
Novamente, Kate ignorou sua tentativa de descontração.
- E você saiu com uma... Erm... Transformista?
- SAY WHAAAAAT – Harry imitou a vinheta do programa de fofocas e riu logo em seguida. Kate não demonstrou nenhuma reação. Ok. Ela realmente não estava para brincadeiras. – Não. Eu saí com uma amiga.
- Você não parece preocupado.
- Por que eu deveria estar?
- Harry... – Kate suspirou pesadamente. - Você sabe as consequências de boatos desse nível, não sabe?
Perguntas indiscretas em entrevistas, sites internacionais divulgando a notícia sem sequer checar a fonte, mais paparazzi em seu encalço e fãs desesperadas subindo hashtag no Twitter.
Harry sabia.
- Está tudo bem, Kate – ele assegurou – Você não precisa se preocupar com isso. Logo eles arranjam outro assunto pra falar sobre.
- Tudo bem... - Kate murmurou, não parecendo estar muito convencida. Então, mais relaxada, prosseguiu: – Existem fotos de você saindo do prédio dessa sua amiga, sabia?
Ok.
Daquilo Harry não sabia.
- Tá falando sério? – perguntou, franzindo o cenho – Mas... Não tinha ninguém por lá.
Merda. Ele não queria que ninguém soubesse do endereço de Destiny. E se ela ficasse brava?
Kate riu alto.
- Ai, Harry... Pra alguém com o seu nível de fama, você é muito inocente. – O tom de voz de Katherine era quase maternal, o que fazia com que Harry se sentisse um pouco idiota. – Depois da invenção dos celulares com câmera, tem sempre alguém em algum lugar.
Harry soltou o ar com força e escorou a cabeça no descanso da poltrona. Era verdade. Tinha sempre alguém em algum lugar. Não havia muito que se fazer.
- Se serve de consolo, a qualidade da foto está horrível. Postaram no Twitter. Parece ter sido tirada por alguém que mora no prédio. – Kate continuou – Mas sabe o que dá pra ver direitinho? O seu sorriso gigante. – Ela mantinha o tom de voz maternal, e Harry continuava se sentindo um pouco idiota. – Estaria Harry Styles apaixonado?
Ótima pergunta, Kate. Devo repetir meu monólogo de momentos atrás?
- Não se passaram três meses ainda, então acho que não. Hum, Kate?
- Sim.
- Who’s fault is this that I’m crazy about you?
- Oi? – Kate replicou, confusa. – Você está dando em cima de mim?
Harry limpou a garganta e continuou:
- You... – ele se esforçava para lembrar a letra. Como era mesmo? Você... Você... Você... estava lá? Droga. Ele gostaria de tê-la gravado cantando. – You were there in every single dream, and I’m thinking about you.
- Harry, você está bem?
- Eu não me lembro direito da próxima parte, mas tem algo a ver com do do do... Do do doooo – ele cantou em um falsete e, então, continuou: - E aí vem o refrão. – Harry tropeçava nas palavras por tamanha excitação. Caramba. Aquela canção deveria estar tocando nas rádios. – O refrão... Imagine, tipo, a voz mais doce que você já ouviu. E aí começa...
- Harry, o que você está..
- When there’s nothing left except you and this, champagne kisses, champagne kisseees – ele cantarolou, torcendo para ter se lembrado do ritmo correto. – When there’s nothing left...
- Harry! – Kate interrompeu, exasperada. – Você está bem? Isso é algum tipo de epifania? Quer que eu anote?
Okay. Talvez ele devesse ir com calma.
- Não... – respondeu com cautela. Ele não queria que Kate aparecesse ali, de surpresa, pronta para interná-lo em alguma clínica psiquiátrica. Ela poderia ser dramática, às vezes. – Mas é muito bom, não é?
- É lindo. – Katherine concordou. – Você escreveu?
- Não. – Harry balançou a cabeça negativamente, mesmo sabendo que sua assessora não poderia ver. Novamente, seus olhos estavam fixos em um ponto qualquer, e sua mente estava longe. Ele dissera a Destiny que iria a ajudar. E já sabia o que poderia fazer. – Kate, eu tenho que desligar agora.
- Mas...
- Qualquer coisa eu te ligo, ok? – ele se levantou e foi buscar a chave do seu carro. – Não se preocupe, está tudo bem. Até mais.

***


Leonard Winston era uma das figuras mais poderosas do mundo da música. O seu selo de gravadora – com filiais espalhadas ao redor do mundo – foi construído com esforço, e era responsável por representar artistas dos mais variados gêneros. Do country à música latina: não importava. Se houvesse talento, os olhos e ouvidos de Leonard estariam lá. Por mais que fossem de estilos diferentes, os músicos lançados pela gravadora de Winston tinham uma coisa em comum: todos alcançavam sucesso absoluto. Milhões de álbuns vendidos, turnês lotadas, rostos estampados pelos outdoors das cidades e tudo o que mandava o figurino. Mas aquilo não acontecia porque Leonard e seus representantes assinavam unicamente com pessoas extraordinárias. Os artistas eram bons, verdade. Mas Leonard era um gênio. Ele sabia o que fazer – e quem contatar - para transformar alguém em uma estrela.
Por coincidência ou não, Harry e sua banda eram um dos muitos artistas representados pelo selo de Leonard.
Por coincidência ou não, Leonard Winston – um homem extremamente ocupado – encontrava-se em Los Angeles durante aquele fim de semana. E Harry sabia que era uma das poucas pessoas no mundo que não precisava de hora marcada para conversar com alguém tão importante. Por quê?
“Você é como um filho pra mim, Harry”, o homem dizia quando se encontravam “o filho que eu nunca tive”. Leonard tinha três filhas, e nenhuma parecia interessada em jogar golfe com o pai.
- Bom dia, Veronica! – exclamou Harry, parando de frente para a recepcionista.
Veronica era uma mulher baixa, de cabelos castanhos, e já nos seus cinquenta e poucos anos. Ela trabalhava ali desde que Harry se juntou à gravadora – e, aparentemente, continuava com a mania de jogar Paciência quando não havia muito mais o que se fazer. Veronica moveu os olhos da tela do computador para Harry e abriu a boca, surpresa:
- Harry! – ela levantou de sua cadeira, animada, e Harry abriu os braços para envolvê-la em um abraço – Há quanto tempo! Pensei que nunca mais te veria por aqui. – Veronica separou o abraço e segurou o rosto de Harry em suas mãos – Olhe só pra você. Está tão bonito.
Havia pouco mais de dois anos desde que Harry estivera naquele andar da Winston Co. de Los Angeles pela última vez, então Veronica tinha motivos para se surpreender.
- Quer dizer, eu te via na TV e nas revistas, mas pessoalmente está ainda melhor. Adorei o seu cabelo assim.
Ela tocou os cachos de Harry – que agora já alcançavam os seus ombros - e o garoto contorceu o rosto em uma careta.
- Obrigado. E a senhorita está melhor do que nunca. – Harry segurou Veronica pela mão e girou-a em volta do próprio corpo. – O que você está fazendo? Dormindo no formol?
As bochechas de Veronica coraram, e a mulher abanou uma de suas mãos no ar.
- Oh, você sempre galanteador, não é mesmo? – ela sorriu, ainda corada, e então se aproximou, diminuindo o tom de voz: – Eu posso ou não ter aplicado um pouquinho de Botox na testa.
Harry observou o rosto de Veronica por alguns segundos e chacoalhou a cabeça, fingindo indignação.
- Eu não notei. Sabe por quê? – Ela fez que não. Ele continuou, quase sussurrando: – Pra mim, Vee, você nunca pareceu ter mais de 25 anos.
Veronica corou novamente, rindo como uma garotinha.
Harry resolveu ir direto ao ponto:
- Vee, eu preciso falar com o Leonard. Ele está?
- Ah, você deu sorte. – Veronica voltou para trás de sua mesa e retirou o telefone do gancho, pressionando uma das teclas – Ele acabou de chegar e já vai sair de novo. Ele marcou de se encontrar com a esposa, sabe como é... Ahm, oi, senhor Winston! Harry está aqui para te ver. Harry Styles. Eu sei! Hahaha. Também pensei que fosse uma alucinação. Tudo bem. Vou dizer. – então, ela se virou para Harry e sorriu. – Ele está esperando por você.
- Obrigado, Vee.
Parado diante da porta de Leonard Winston, Harry relaxou os ombros e respirou fundo. Okay. Ele tinha um plano. Tudo bem, o plano havia sido desenvolvido no percurso até a gravadora. Mas ele tinha até o dividido em passos, para facilitar a execução:
1º PASSO: Ele falaria com Leonard sobre Destiny. Fácil.
2º PASSO: Leonard se apaixonaria por Destiny e pela canção que ela havia escrito, já que Destiny era incrível e não havia discussão sobre o assunto.
3º PASSO: Destiny se tornaria a mais nova artista representada pela Winston Co. e teria a carreira de sucesso que merecia ter.
Simples, prático e eficiente. Não poderia dar errado. Harry sabia exatamente o que estava fazendo.
Vamos lá.
Assim que abriu a porta, Harry foi surpreendido por um Leonard aguardando de braços abertos. Leonard sorria como se milhões de dólares acabassem de caminhar pela sua porta. E, talvez, ele estivesse certo.
- Harry! – O homem exclamou, cheio de entusiasmo, ainda parado na mesma posição.
Harry entendeu que aquela era sua deixa para se aproximar e abraçar o senhor barrigudo que o esperava.
- Senhor... Winston – ele tentava dizer, sentindo suas costelas serem esmagadas aos poucos por Leonard – Que... Bom... Te ver... De novo.
Eu vou morrer.
Não havia se passado muito tempo desde que os dois se encontraram pela última vez. Era comum que Harry e Leonard Winston se esbarrassem em festas e eventos por aí, ou combinassem de se encontrar para partidas de golfe ou tênis. E, vez ou outra, Harry entrava em contato com Leonard, ou alguém de sua equipe, com propósitos muito similares ao que o levava à gravadora naquele dia em especial. Não era culpa dele. Harry adorava tentar ajudar novos artistas (e, ok, tinha dificuldade para dizer “não”).
- Ei! Não me chame de senhor, garoto – Leonard advertiu, finalmente soltando Harry e permitindo que ele respirasse – O que deu em você hoje?
- Desculpa. – Harry fechou os olhos e contorceu o nariz, se repreendendo mentalmente. Ele quase nunca chamava Leonard Winston de senhor (o próprio homem havia requisitado que ele deixasse as formalidades de lado). Harry estava... Nervoso? Merda. Suas mãos suavam frio. Por que ele se importava tanto? – Não vai se repetir.
Leonard sorriu satisfeito.
Após alguns minutos de conversa fiada, Leonard foi para trás de sua mesa e apontou para uma das cadeiras à sua frente, indicando a Harry que se sentasse. Harry assim o fez, observando Winston se acomodar em sua poltrona também.
- Então... – Winston começou – O que te traz aqui?
Harry engoliu em seco ao perceber que Leonard estreitava os olhos para ele. Droga. Ele sabia. É claro que Leonard sabia o porquê de Harry estar ali. Novamente, lá estava ele em mais uma tentativa de lançar novos talentos. A diferença era que, das outras vezes, Harry não se sentia tão pressionado. Ele tentava ajudar e, caso não funcionasse, tudo bem. Ele fizera sua parte. Mas com Destiny era diferente. Ele prometera à garota que iria fazer alguma coisa. E, caramba, ela era tão boa. Ela merecia aquela chance. Tudo tinha que dar certo. Era por isso que ele estava ali, conversando pessoalmente com Leonard, e se sentindo tão nervoso que era como se sua própria carreira estivesse em jogo.
Harry deu de ombros, tentando parecer relaxado:
- Bem, eu só estava passando por perto e quis saber como você estava.
- Harry... – Leonard repreendeu de forma amigável – Você não acha que eu vou acreditar nessa história, não é? – Ele apoiou os cotovelos sobre a mesa, inclinando-se em direção ao garoto – Vamos lá. Quem é dessa vez? Mas seja rápido, tenho que encontrar minha esposa em meia hora.
Ótima forma de estimular alguém.
Vamos lá.
- Destiny. Destiny Thomas. Mas esquece o Thomas, ela planeja usar somente Destiny como nome artístico. O que é meio engraçado, já que ela não gosta muito do próprio nome – ele olhou para Leonard, que o encarava sem piscar os olhos. Talvez ele estivesse falando rápido demais. Talvez ele estivesse falando demais, ponto. Harry se endireitou na cadeira, limpou a garganta e continuou: - Detalhes. Mas você tem que acreditar em mim, Leonard, ela é realmente boa. Eu juro. Ela é...
- “Yoooooooo, ela tem um sonho, cara. Vamos ajudá-la a realizar esse sonho!”
Leonard encarava o horizonte enquanto pronunciava as palavras de forma arrastada, e em um trágico sotaque britânico.
Mas que merda?
Harry não conversava daquele jeito. Nada a ver. Nem durante a puberdade, quando seu corpo passava por todas aquelas transformações, a sua voz soava irritantemente aguda daquele jeito. Harry se sentia ofendido. Se não fosse por uma causa maior, ele já teria dado o fora dali.
- Foi o que você disse sobre Amy Woods. – Leonard continuou, já com o seu tom de voz normal. - E sobre aquele cara que veio antes dela. Qual era o nome dele mesmo? John?
- Joel. – Harry corrigiu rapidamente.
- Isso, Joel. O cara talentoso que mal conseguia segurar uma nota. E a Amy. Por Deus, nem me faça começar a falar sobre ela.
Era verdade. Amy Woods realmente foi um desastre. Harry estava bêbado quando a conheceu em um festival de música. A garota – também bêbada e, possivelmente, sob o efeito de entorpecentes – se aproximou, alegando que os dois possuíam uma conexão forte e que se conheciam desde vidas passadas. “Você é meu irmão astral”, ela dizia a poucos centímetros do rosto dele, ignorando qualquer noção de espaço pessoal. Veja bem, Harry não possuía muito discernimento depois de algumas doses de álcool, e a música estava muito alta para permitir que ele conseguisse pensar. Então a teoria da garota parecia perfeitamente plausível. Inclusive, se ele se concentrasse, era possível sentir mesmo a conexão. Então Amy começou a falar sobre a vida dela, e sobre como ela sonhava em ser uma cantora e compositora famosa desde que se entendia por gente. Emocionado com a história de sua “irmã astral”, Harry decidiu tomar uma atitude. Afinal, sua mãe o ensinara que quando chegamos ao topo, temos que estender a mão para aqueles que desejam chegar ali também. “EU POSSO TE AJUDAR”, ele gritava, também ignorando qualquer noção de espaço pessoal (àquela altura, quem se importava?). Ainda durante o festival e com Amy à tira colo, Harry deixou 29 mensagens na caixa postal de Leonard. A maioria era curta e consistia apenas nos dois cantando as músicas tocadas no palco mais próximo. Mas houve uma que se destacou: uma mensagem que excedia quinze minutos, e começava assim:
YOOO, Leonard! Você precisa conhecer a Amy. (diz pra ele que eu sou sua irmã astral). MINHA IRMÃ ASTRAL. Ela tem um sonho, cara. Vamos ajudá-la a realizar esse sonho!!!! Vai, Amy, CANTA PRO LEONARD. Ei, espera, será que tá gravando ainda?
O pedido era seguido de minutos de Amy se esgoelando sobre seus órgãos genitais, a admiração que ela sentia por Charlie Manson* e as propriedades medicinais da maconha.
Amy não cantava bem.
Leonard não gostou das mensagens.
Harry nunca mais foi a festivais.
- Olha, garoto, você tem um bom coração – Leonard disse com cautela, tornando-se a segunda pessoa no dia a conversar com Harry como se ele fosse uma criança. – Mas isso não torna ninguém talentoso. Às vezes, pessoas querem mais do que podem conseguir. É a vida.
Harry se sentiu incomodado por aquela frase. Tudo bem, talvez ele tivesse um bom coração. Talvez sua dificuldade em dizer não a pessoas com aspirações artísticas não fosse sempre sinônimo de qualidade. Mas não daquela vez. Ele não estava fazendo nada por pena, ou porque estava bêbado demais para pensar. Destiny sequer pedira a ele alguma coisa. Ele estava ali porque ela era boa – boa de verdade – e porque ele queria que o mundo inteiro ouvisse o que ele ouvira na noite anterior. Ele queria que todos soubessem da Garota-Amarelo-Sol que chorava ao cantar Shania Twain em casamentos – e da forma como ela despejava seu coração em tudo que fazia. Qualquer coisa que fazia. Era fácil perceber.
Leonard checou o relógio em seu pulso e, sem dizer mais nada, levantou-se de sua cadeira. Harry fez o mesmo, mas estava longe de ter dado o assunto por terminado. Leonard Winston não sairia dali sem aceitar dar uma chance para Destiny.
- Leonard, olha, eu sei – ele disse, posicionando-se em frente a Winston e bloqueando a sua passagem – Eu sei de tudo o que você falou, e você está certo. Mas, por favor... Só uma chance. – Harry fez contato visual. Ele precisava que Leonard soubesse que ele estava sendo sincero. – Uma chance e, se eu estiver errado, você nunca mais vai me ouvir falando sobre o assunto outra vez.
Leonard estalou a língua no céu da boca e observou o rosto de Harry por alguns segundos, parecendo ponderar sobre o assunto. Então, soltou uma lufada de ar, se rendendo, e estendeu a mão:
- Tudo bem. Me entregue a demo.
Ok. Demo? Que demo?
- Você não tem uma demo? – Leonard indagou, notando a expressão perdida no rosto de Harry. Merda. Como ele não pensou nisso? Qual é o seu problema, Styles? O que você tem na cabeça? – Ah, claro. Eu me esqueço dos meios de divulgação que vocês, jovens, usam hoje em dia. Vídeos no Youtube? Conta no Soundcloud?
Harry se sentia pior a cada item listado por Leonard. Imbecil. Animal. Como ele não tinha pensado nisso? Merda. Ele sabia que o plano de três passos que ele havia criado estava simples demais. Para que Leonard se apaixonasse por Destiny e ela se tornasse a nova artista representada pela Winston Co., era necessário que Leonard OUVISSE ela cantar.
Kate estava certa. Para alguém com aquele nível de fama, Harry era mesmo muito inocente. Ou, no mínimo, desligado.
Harry queria se jogar da janela do escritório de Winston só para ver se conseguiria voar antes de atingir o chão. Convencer Leonard a dar uma chance a alguém depois do episódio de Amy Woods já havia sido difícil o suficiente e, para completar, ele conseguira se esquecer do mais importante.
- Então... – Harry esfregava as mãos na parte da frente de sua calça – Eu não posso te entregar. Ainda.
Leonard parecia não acreditar no que estava ouvindo. Harry podia imaginar toda a afeição que o dono da gravadora sentia por ele se esvair a cada segundo que se passava.
- Você quer que eu dê um tiro no escuro?
Sim.
- Não – Harry foi rápido em negar, lançando seu melhor sorriso amarelo. Ele sentia como se estivesse no ensino médio novamente, e fosse sua vez de apresentar um trabalho sobre um livro que ele sequer tinha lido. Era hora de improvisar. Ou flertar com a professora (o que, no momento presente, seria inútil). – Eu só não tenho a demo aqui comigo. Mas eu vou te enviar.
Leonard ainda o encarava cético.
- Okay. De quantas músicas nós estamos falando?
Droga.
- Cinco. – Destiny teria cinco canções? – Três? De três a cinco. Talvez mais.
Aquilo era um desastre. Ele se saía melhor no ensino médio.
- Você está sendo chantageado por essa menina, garoto? Você fez algo de errado? – Perguntou Winston, se mostrando arrependido assim que as palavras saíram da sua boca. – Pensando bem, eu não quero saber. Estou velho demais para isso. Eu gosto mais de você quando nós falamos sobre golfe. – Ele murmurou, contrariado, fazendo a Harry um sinal para que ele desbloqueasse o caminho. Antes de passar pela porta, Leonard olhou para o garoto mais uma vez: – Me mande o que você tiver. Mas mande rápido, antes que eu mude de ideia.
- Obrigado, senhor – Droga. – Leonard.
- É melhor que essa garota seja incrível. – Winston bufou, saindo do seu escritório.
Harry seguiu em seu encalço, tentando disfarçar um sorriso satisfeito.
O plano não havia falhado tão miseravelmente no fim das contas.

***

Sábado. 16h16. Horário de Los Angeles.
Me mande o que você tiver. Aquilo era ótimo. É claro, não fosse o fato de Harry não ter nenhuma demo de Destiny em suas mãos. Ele sequer sabia se a garota já havia gravado alguma coisa na vida.
Mas tudo bem, Harry, nada de se estressar. É 2015. Ela tem um celular. E internet. Ela pode ser uma daquelas pessoas com milhares de seguidores no Youtube e você nem sabe.
Na pior das hipóteses, ela poderia gravar algo de improviso e já estaria bom o suficiente. Destiny não precisava de nenhuma super produção para impressionar alguém. Harry era prova disso.
Sábado. 16h17. Como de costume, o céu estava ensolarado em Los Angeles. Era uma tarde agradável. Pessoas transitavam pelas ruas trajando roupas leves, e todas pareciam saber exatamente para onde estavam indo: do senhor que passeava com três chihuahuas na coleira à mulher que gesticulava exageradamente enquanto conversava ao telefone. Harry não tinha nenhum compromisso para o dia. Seu celular vibrava vez ou outra, alertando que algum amigo havia o convidado para fazer algo – seus amigos sempre estavam o convidando para fazer algo. E, geralmente, ele gostava da atenção.
Mas naquela tarde, Harry não respondeu ninguém.
Enquanto vagava sem sentido pelas ruas de Beverly Hills, Harry chegou à conclusão de que não queria ir para casa, mas também não estava disposto a ir para qualquer outro lugar onde tivesse que socializar com mais de duas pessoas. Ele pensou em dirigir até West Hollywood e aparecer no prédio de Destiny (assim, como quem não quer nada. Quem sabe visitar a Gertrudes?), mas seu bom senso o impediu. Ele não queria parecer pegajoso, ou ser confundido com um stalker. Mas ele realmente precisava falar com ela. Ela gostaria de saber sobre Leonard.
Harry estacionou o seu carro em frente à Go Greek Fro. Ele sequer notara que tinha a intenção de parar ali, mas fazia sentido. Seu cérebro provavelmente entrara no piloto automático e dirigira em direção a um dos maiores companheiros de Harry em seus momentos de dúvida e reflexão: o frozen yogurt. Era um jogo perigoso, ele sabia. Um dia poderiam encontrar o corpo dele em um quarto de hotel, rodeado de copinhos vazios de frozen yogurt. Mas um homem não escolhe seus vícios. O coração quer o que o coração quer.
A loja não estava tão cheia como de costume, e enquanto caminhava até a fila que dava para o balcão, ninguém tentou se aproximar de Harry para pedir por uma foto ou por um abraço. Apesar de não se importar em dar atenção aos fãs que o abordavam de forma educada, Harry gostou de ser ignorado. Afinal de contas, ele ainda pretendia não ter que socializar com mais de duas pessoas.
Bzzzzzzzzzz.
Mais uma vez, o celular vibrou no seu bolso. Harry soltou uma lufada de ar. Será que não vão me deixar em paz? Seus amigos tinham que aprender a dar espaço. Harry tirou o celular do bolso, determinado a acionar o modo silencioso, mas deparou-se com algo que não esperava.
Você tem 1 (uma) nova mensagem de Destiny’s Child.
Aquilo era muito melhor do que o que ele esperava.
Mas espera. Ele poderia estar imaginando coisas. Destiny nunca havia entrado em contato com ele – era sempre o contrário. Por que ela mandaria uma mensagem agora?
Porque eu disse ontem pra ela não ter medo de me procurar.
Então ela tinha medo antes? Por quê??? Tudo bem. Relaxe. Ele queria mesmo falar com ela. Ele só desejava que seu coração não estivesse batendo tão forte.
Porra, Harry. É só uma garota.
Ele abriu a mensagem.

hey.


Hey. Ok. Harry sorria sozinho na fila do frozen yogurt, e nem percebeu que sua vez estava prestes a chegar.

Hey!

Ele respondeu de volta. Droga. Pra que a exclamação?
- Ca-ham – Harry ouviu alguém limpando a garganta. Ele ergueu o olhar e deu de cara com um dos atendentes o olhando entediado. – Seu pedido?
Pedido? Harry nem se lembrava do que estava fazendo ali. Ele estava empolgado demais para pensar no sabor de frozen yogurt que ia querer.
- Ah, desculpa. Eu estou pensando ainda – ele sorriu sem graça, se retirando da fila – Eu já volto.
Harry caminhou até uma mesa mais afastada, localizada ao fundo da loja, e se acomodou ali. O celular vibrou outra vez.

***

Harry e Destiny em: MENSAGENS DE TEXTO.

(Um momento patrocinado por: The Drifters – This Magic Moment)


Destiny’s Child @ 4:35 p.m: Harry!
Harry @ 4:35 p.m: Ahm, Destiny?
Destiny’s Child @ 4:35 p.m: SIM! Lembra de mim? Nós nos conhecemos há alguns anos, numa festa de casamento.
Harry @ 4:36 p.m: ????
Destiny’s Child @ 4:36 p.m: Oh, meu Deus. Você não lembra? Nós cantamos juntos e tudo mais.
Harry @ 4:36 p.m: (Haaa. Ok, espera. Entendi). Destiny’s Child! Claro que eu me lembro. Não dá pra esquecer. Seu rosto está espalhado por toda a cidade.
Destiny’s Child @ 4:36 p.m: Jura??? (gostei desse futuro. elabore.)
Harry @ 4:36 p.m: Vai dizer que você não sabe do outdoor na Time Square com a sua foto?
Destiny’s Child @ 4:37 p.m: Argh, desculpa. Eu acabei de voltar de um retiro espiritual na Índia, sabe como é. Tô tentando me desapegar do Ego.
Om shanti shanti shanti!!!
Harry @ 4:37 p.m: Ommmmmm shanti shanti shanti.
Destiny’s Child @ 4:37 p.m: Você anda acompanhando a minha vida, Harry Styles?
Harry @ 4:37 p.m: Nah, você sabe. Eu vejo uma coisa ou outra no TMZ. Por falar nisso, parabéns pelas suas seis indicações ao Grammy.
Destiny’s Child @ 4:37 p.m: Seis indicações? Uau. Obrigada. Conte mais. A Índia me deixou esquecida.
Harry @ 4:37 p.m: O que você quer saber?
Destiny’s Child @ 4:38 p.m: Eu não sei, alguma coisa importante. Eu sou amiga da Beyoncé?
Harry @ 4:38 p.m: Melhor amiga.
Destiny’s Child @ 4:38 p.m: RÁ, eu já sabia. Eu fui convidada pra ser a madrinha do filho caçula dela, sabia?
Harry @ 4:38: Caramba. O… Jay-Z Jr?
Destiny’s child @ 4:39 p.m: (hahahahahaHAHAHAHAHAHAHA) Sim! O pequeno Jay-z Jr. Ótima criança.
Harry @ 4:39 p.m: Hahahah a minha favorita.
Destiny’s Child @ 4:39 p.m: Ok, vejamos. Você se lembra do meu primeiro sucesso?
Harry @ 4: 39 p.m: Champagne Kisses? Claro que sim. Tocou tanto nas rádios que eu achei que nunca mais ia parar de ouvir.
Eu me lembro de quando escutei pela primeira vez...
Destiny’s Child @ 4:40 p.m: (Eu nunca te contei que esse era o nome da música. Como você sabia?) Caramba... Faz tanto tempo. Eu me lembro. Foi uma noite legal.
Harry @ 4:40 p.m: (Você repete esse verso 20 vezes. Acho que eu deduzi?) Eu sei. Parece até que foi ontem. Como está a Gertrudes?
Destiny’s Child @ 4:40 p.m: Ela provavelmente está morta agora :-/
Harry @ 4:40 p.m: (Isso foi... cruel, Des.) Poxa. Descanse em paz, Gertrudes.
Destiny’s Child @ 4:41 p.m: Descanse em paz... Mas vamos mudar de assunto. Sinto muito pelo fim da sua boyband.
Harry @ 4:41 p.m: (HEY.) Por isso você entrou em contato?
Destiny’s Child @ 4:41 p.m: Sim. Ouvi dizer que você estava mal.
Harry @ 4:41 p.m: Eu vou sobreviver.
Destiny’s Child @ 4:42 p.m: É, mas a forma como tudo terminou, cara... Um horror. Fico feliz por você já ter saído da rehab. Esteróides nunca mais!
Harry @ 4:42 p.m: (Você me odeia, Destiny?)
Harry @ 4:45 p.m: (Encararei o seu silêncio como um “sim”)
Destiny’s Child @ 4:46 p.m: Hahahahahahahahahahahhahaa
Destiny’s Child @ 4:46 p.m: Oi, Harry.
Harry @ 4:46 p.m: Nós estamos de volta pro presente?
Destiny’s Child @ 4:47 p.m: Sim. Você ainda não foi pra rehab.
Harry @ 4:47 p.m: Talvez dê tempo de eu não me viciar em esteróides.
Destiny’s Child @ 4:47 p.m: Estarei rezando por você.
Harry @ 4:48 p.m: Obrigado, Destiny’s Child.
Destiny’s Child @ 4:48 p.m: Eu vi que você saiu de uma boate gay acompanhado de uma transformista ontem.
Harry @ 4:48 p.m: Hum. Desculpa por isso.
Destiny’s Child @ 4:48 p.m: Tudo bem, eu gosto de transformistas! Meu pai é um.
Harry @ 4:48 p.m: Hahahaha. Você não está brava? Quero dizer, às vezes, essas coisas acontecem... Ahn... Na minha vida. Você sabe. As pessoas inventam coisas.
Destiny’s Child @ 4:49 p.m: Ei, tudo bem. Sem problemas. Ser famoso deve ser um saco, às vezes. Tipo, se você ignorar o dinheiro, o reconhecimento e as coisas que você recebe de graça.
Harry @ 4:50 p.m: Hahaha, finalmente alguém que compreende o meu drama.
Você gosta de frozen yogurt?
Destiny’s Child @ 4:51 p.m: Sim. Por quê?
Harry @ 4:51 p.m: Acha que pode me encontrar na Go Greek Fro de Beverly Hills?
Destiny’s Child @ 4:51 p.m: SIM
Desculpa, sim. Foi em maiúscula sem querer.
Harry @ 4:52 p.m: Sem problemas. Eu preciso mesmo falar com você.
Destiny’s Child @ 4:52 p.m: Ai. Odeio quando dizem isso. Sempre acho que vão terminar comigo. O que você precisa me falar?
Harry @ 4:52 p.m: Eu não vou terminar com você, Des.
Destiny’s Child @ 4:53 p.m: Obrigada por responder à minha pergunta. Me sinto mais tranquila agora!!!!
Harry @ 4:53 p.m: Você realmente gosta de exclamações, não gosta? Eu posso te buscar, se você quiser. Onde você está?
Destiny’s Child @ 4:53 p.m: Eu adoro exclamações!!!!!!!!!!!!!
Destiny’s Child @ 4:54 p.m: Não precisa me buscar. Tô num ensaio da Forever, mas já vou sair daqui.
Harry @ 4:54 p.m: Okaaay.
Destiny’s Child @ 4:54 p.m: Eu não estou muito perto de Beverly Hills, então posso demorar um pouquinho.
Harry @ 4:55 p.m: Tudo bem. Eu estou disposto a esperar.
Destiny’s Child @ 4:55 p.m: Hum. Okay. Até mais, Harry!!!
Harry @ 4:55 p.m: Até mais, Des
Harry @ 4:56 p.m: !!!!!

***


Sábado. 16h56. O céu continuava ensolarado em Los Angeles. Pessoas ainda transitavam pelas ruas trajando roupas leves, e todas pareciam saber exatamente para onde estavam indo.
Harry era uma delas agora.
Enquanto Destiny fazia o seu caminho até ali, Harry estava exatamente onde deveria estar.

Capítulo 9 - Parte 2


DESTINY


Qualquer pessoa com um bom nível de audição seria capaz de identificar que Girls Just Wanna Have Fun tocava nos meus headphones enquanto eu saía do meu apartamento naquela manhã. A música estava no volume máximo, e eu me sentia feliz demais para me preocupar com a possibilidade de ficar surda.
Naquele sábado, eu acordei antes mesmo de o despertador tocar. Antes mesmo de Stevie resolver deitar sobre mim e dar leves batidinhas na minha cabeça (que progrediriam para fortes batidas, até eu me levantar por completo). Às 8h eu já estava de pé e completamente energizada. Parecia até que eu havia tido a melhor noite de sono da minha vida. O que do ponto de vista lógico não fazia o menor sentido, já que eu tinha dormido pouco mais de quatro horas. Mas, aparentemente, horas de conversa com caras lindos, charmosos e extremamente interessados no que você tem a dizer podem ser tão eficientes quanto as oito horas de sono recomendadas pelos especialistas por aí.
Ahhhhhhhh.
Eu ainda tinha dificuldade para acreditar em tudo que ocorrera noite passada. Harry Styles esteve mesmo em meu apartamento? Eu realmente cantei para ele e, caramba, ele realmente quis me beijar? Tudo parecia bom demais para ser verdade. A única coisa que afastava a hipótese de eu ter sonhado tudo aquilo era o aroma do perfume de Harry, que ainda impregnava minha sala de estar. Isso e o fato de que, se eu fechasse os olhos, ainda poderia senti-lo bem ali, parado em minha frente. E aquilo era o suficiente para que o meu coração começasse a palpitar outra vez.
Então, naquela manhã de sábado, influenciada pela maré de sorte que o universo resolvera me proporcionar, eu fui realmente produtiva. Acordei cedo, organizei a casa, brinquei com Stevie e me arrumei para ir de encontro aos meus colegas de banda – tudo isso enquanto ouvia Girls Just Wanna Have Fun (o meu hino particular da vitória) sem parar.
They just wanna, they just wannaaaaa...
A música já deveria estar em sua 40ª execução no momento em que saí de casa. Enquanto eu cuidadosamente trancava a porta do meu apartamento, pude perceber pela minha visão periférica que algo se movia ao meu lado.
Ai, não. A Gertrudes de novo não.
Eu não estava com paciência para perguntas indiscretas naquele momento. Não. Eu não permitiria que nada abalasse o meu bom humor. Foquei em girar a chave dentro da fechadura mais vezes que o necessário, na esperança de que Gertrudes pudesse ignorar minha existência. Ela tinha 80 anos e a sua visão não era das melhores. Talvez ela nem me reconhecesse, certo? Argh. Eu era péssima para mentir. Imagina o quanto ela riria de mim se descobrisse que, em vez de termos passado a noite reencenando a cena da argila de Ghost, Harry fora embora do meu apartamento porque eu não deixei que ele me beijasse? Eu estaria fadada à humilhação eterna.
Mas algo me chamou a atenção. Um vulto de cabelos loiros? Gertrudes não tinha cabelos loiros. Aposto, inclusive, que há décadas o cabelo dela não tinha nenhuma cor. A pessoa parada junto a mim no corredor não poderia ser Gertrudes. Oh, meu Deus. Será que...
- Cassie?!?
Não podia ser. Saindo do apartamento ao lado estava Cassidy: a garota de 12 anos de idade que tinha como missão na Terra transformar a minha vida em um inferno. Cassie tinha longos cabelos loiros e olhos castanhos, e quase sempre vinha de Sacramento para passar as férias escolares na casa da sua avó: Gertrudes.
Mas era Fevereiro, pelo amor de Deus. Não era época de férias. O que ela estava fazendo ali?
- O que você está fazendo aqui? – perguntei apreensiva, tirando os headphones do ouvido.
Ela não poderia ter se mudado para cá, poderia?
- É bom te ver também, Destiny. – ela disse, mal tirando os olhos do iPhone que estava em suas mãos. Droga. Já foi mais madura que eu. - E eu acho que posso visitar minha avó sempre que me der vontade. - ela deu de ombros.
Cassie virou o corpo em minha direção, finalmente olhando para mim. Só então pude notar a sua camiseta rosa, estampada com os dizeres MRS. STYLES. E para o caso de haver qualquer dúvida sobre a que Styles a declaração se referia, uma foto de Harry vinha logo acima dela.
Caramba. Era igualzinha a que eu havia comprado por impulso na noite em que passei assistindo aos vídeos da One Direction.
Naquele momento, eu concluí duas coisas:
a) talvez Cassie e eu não fôssemos tão diferentes assim, no fim das contas. Nós tínhamos o mesmo gosto para membros de boy band E para camisetas.
b) se ela soubesse do meu pequeno envolvimento com Harry, ela me mataria.
Aquela parecia a hora certa para tentar uma aproximação.
- Verdade. Desculpe pela pergunta idiota, Senhora Styles. – enfatizei as últimas palavras, achando graça da situação. Em nossos árduos anos de convivência, eu nunca soube que Cassie era fã de One Direction. – Gostei da sua camiseta.
Cassie me olhava como se quisesse me estirar em pedacinhos.
- Você se acha muito engraçada, não é?
- Não vou negar que é um dos meus pontos fortes. - dei de ombros e sorri triunfante.
Cassie bufou, irritada, e caminhou com passos fortes até o elevador. Fui andando em seu encalço sem dizer nada, já que eu também precisava chegar à portaria, e não seria uma pirralha que me faria utilizar as escadas. Assim que entramos no elevador, memórias da noite passada voltaram a emergir. Será que Cassie surtaria ao saber que seu ídolo pisou no mesmo lugar onde ela estava parada naquele momento? Não vou negar que pensei em contar tudo só para tirar vantagem. Mas então me lembrei de que eu era uma mulher adulta e deveria me comportar como tal. Vamos lá, Destiny. Irritar garotas de 12 anos não é algo do seu nível espiritual. Você é evoluída. Além do mais, Cassie saber que Harry já esteve naquele prédio não parecia ser uma boa ideia.
Lembrar de todas as peças que Cassie havia pregado em mim era o suficiente para fazer com que um frio percorresse a minha espinha.
Deus. Espero que Gertrudes não tenha contado nada.
Olhei para Cassie, numa tentativa de ler em sua expressão facial se ela sabia ou não de alguma coisa. Não deu muito certo, já que a garota estava ocupada demais fixada em seu celular. Jovens. O que poderia ter ali de tão interessante? Como quem não quer nada, inclinei o corpo em sua direção e tentei ler o que ela estava lendo.
- Você não tem celular com acesso à internet? – ela quis saber, ainda fixada na tela do seu aparelho.
- Claro que sim – disse, retirando meu celular da bolsa. Cassie não precisava saber que eu estava quase estourando o plano de dados. – Eu sou moderna.
- Então olhe para a sua tela.
Argh. Pirralha insuportável. Qual era o problema em me deixar ver o que ela estava fazendo? Não poderia ser nada de muito interessante. No máximo ela estava se divertindo no site da Barbie enquanto montava um novo visual para a boneca.
Oooh! Será que ainda existe esse joguinho?
Era o que eu estava prestes a perguntar para o Google quando Cassie me interrompeu:
- “Harry Styles, galã da One Direction e, segundo a revista People With Money, um dos jovens mais ricos e bem relacionados do entretenimento, foi visto noite passada, em Los Angeles, se divertindo na casa noturna Gaiola das Loucas.” – ela dizia de forma robotizada. Então, olhou diretamente em meus olhos e perguntou: - É a boate do seu pai, não é?
Engoli em seco, sentindo uma gota solitária de suor escorrer pela minha testa.
- O que é isso? Você está lendo isso aí? – novamente, tentei bisbilhotar a tela do seu aparelho, sem nem me preocupar em ser discreta. De onde tinha saído aquele texto?
Cassie retirou o celular do meu campo de visão e continuou:
- “Fontes relatam que Harry chegou ao local pouco antes da meia-noite, e aparentava estar feliz e à vontade. Apesar de estar sozinho, o cantor demonstrava familiaridade com alguns dos funcionários.”
Aparentava estar feliz e à vontade?
- Espera, repete a última parte?
- “Ele aplaudiu e se animou com a apresentação de Charlene Princess... blábláblá blablablá... e, segundo as mesmas fontes, deixou a boate pela porta dos fundos, acompanhado de uma transformista.”
Transformista? Mas eu estava tão básica.
- Gaiola das Loucas – Cassie cantarolou, erguendo a sobrancelha direita de forma desafiadora – é a boate do seu pai. – dessa vez, não era uma pergunta.
- S-sim.
Minha mente trabalhava numa velocidade de mil por hora.
O que eu digo agora? Será que ela sabe? Ai. Jesus. Cristinho. De onde é essa notícia? “Fontes relatam”? Quais fontes? Que diabos? Existem fotos minhas e de Harry circulando por aí? Oh, meu Deus, será que eu estou FEIA nessas fotos?
Eu tinha muito no que pensar.
- Você sabe quem é essa transformista? – indagou Cassie, apoiando o celular em seu queixo. Cada dia ela parecia mais uma vilã mirim.
Ah, mas agora tudo fazia sentido. Era a parte da transformista que estava a tirando do sério.
- Uaaau. Por isso a cara azeda? Relaxa, Cass. Tenho certeza de que não era uma transformista. Aposto que era uma garota. Seu ídolo não é g-
- Eu sei que ele não é gay. – Cassie me interrompeu, incisiva. Faíscas saíam de seus olhos juvenis. - Aposto que era uma garota bem estúpida.
Ei.
- Não sei, não. Talvez ela não fosse tão estúpida assim.
Ainda estávamos no 4º andar? Será que aquele elevador estava ao menos TENTANDO se mover?
- E loser.
- Cassie, pra que tanto ódio?
- E indecente, para estar naquele antro de perdição.
- Cassidy! – a repreendi, estranhando toda aquela agressividade. Ela nunca gostou de mim, verdade, mas jamais pareceu ter algum problema com a profissão do meu pai. – Você virou pastora ou algo do tipo?
Cassie franziu o cenho e me olhou como se eu fosse a pessoa mais burra com quem ela já teve de lidar. Ou, pelo menos, foi como eu interpretei.
Ela ajeitou a postura, respirando fundo e estufando o peito.
- Você pode ter ganhado a batalha, Destiny. Mas não ganhou a guerra.
- Do que você está falando, pirralha? – coloquei as mãos na cintura, tentando parecer igualmente intimidadora. O que, provavelmente, não estava funcionando.
Ela deu um passo em minha direção, fazendo com que eu recuasse.
- Minha avó me falou que você estava com o cara do meu pôster no corredor. No começo eu pensei que ela estava louca ou tivesse esquecido dos remédios, já que Harry jamais olharia para uma garota igual a você. Mas aí eu vi vocês dois pela janela do meu quarto e… – Cassie fez uma careta, parecendo sentir nojo da imagem mental que se formava em sua cabeça. - Não importa. Está vendo essa blusa? – ela disse depois de uma pausa, apontando para sua camiseta com os dizeres MRS STYLES. – Eu não a uso em vão.
É. Ela sabia.
Num timing perfeito, certamente proporcionado por intervenção divina, as portas do elevador se abriram. Finalmente estávamos na portaria. A tensão entre nós era tão real que poderia ser cortada com uma faca. Eu nunca havia sido ameaçada por alguém de 12 anos de idade antes – bem, só quando eu também tinha 12 anos. As coisas podiam sair do controle num orfanato - mas era uma experiência bastante intensa. No entanto, eu não poderia deixar uma pré-adolescente ter controle sobre mim. Eu era uma mulher forte, independente e poderosa. Eu precisava dizer algo de efeito. Algo que fizesse Cassie ir chorando para casa. Ou, pelo menos, que a fizesse me respeitar. De qualquer forma, eis a única palavra que saiu da minha boca:
- Veremos.
Cassie e eu cerramos os olhos uma para a outra, como se estivéssemos competindo para ver quem desviava o olhar por último. Ainda sem quebrar o contato visual, saímos do elevador frente a frente, e pude notar ao fundo que o porteiro nos observava confuso. Não o julguei, já que realmente deveria ser uma cena incomum. Olhei para o lado, finalmente quebrando o contato. Não por ter fraquejado - jamais. Eu só não queria que Cassie tivesse um torcicolo de tanto olhar para cima. Ela não era muito alta.
Assisti Cassidy virar as costas e caminhar em direção a saída, exalando autoconfiança. O tipo de confiança que você vê em filmes de ação, quando a personagem principal explode um prédio e sai andando sem olhar para trás.
A única diferença era que, no caso, o prédio era eu.
Coloquei de volta os headphones e dei play em Girls Just Wanna Have Fun. Como eu havia dito: nada poderia estragar aquele dia.

~*~


No caminho para o ensaio da Forever, eu refletia sobre o que acabara de acontecer. Eu não sabia exatamente quais eram as consequências de Cassie saber que a) Harry e eu saímos juntos e b) ele esteve no meu apartamento. Ser objeto de ira de fãs adolescentes não estava nos meus planos. Só Deus sabe o que eu seria capaz de fazer se, no auge dos meus 12 anos, eu descobrisse que Taylor Hanson estava saindo com a vizinha da minha avó, que não só coincidia de ser minha antiga babá, como também alguém que eu odiava sem motivo nenhum. Bem, provavelmente eu choraria e escreveria uma carta para Deus o culpando por nunca me deixar ter nada. Mas o que eu tinha de dramática, Cassie tinha de demoníaca. Okay, talvez fosse exagero, mas eu nunca entendi o porquê de ela me odiar tanto. Desde que nos conhecemos – quatro anos atrás, quando Gertrudes pediu para eu tomar conta de sua netinha – nós nunca nos demos bem. Eu tinha acabado de me mudar para aquele prédio e realmente precisava de uma grana, então achei que aquele bico de babá tinha caído do céu. Foi aí que eu descobri que a neta de Gertrudes era a versão feminina de O Pestinha e, provavelmente, a cria de satanás.
A brincadeira favorita de Cassie era descobrir formas diferentes de causar a minha morte. Ela adorava me dar sustos, sujar a minha roupa de tinta, colar chiclete no meu cabelo e, num dia de extrema criatividade, chegou até a fingir que estava possuída (sua atuação foi tão real que, enquanto eu me trancava no banheiro, procurava vorazmente no Google sobre como fazer um exorcismo). Tudo isso para me ver desesperada. E é claro que eu tentei alertar a minha vizinha de que sua neta era extremamente mimada e louca, mas foi tudo em vão: Cassie era a queridinha da avó e a caçula da família. Gertrudes não acreditou em mim e ainda sugeriu que, se Cassie foi “aleducada” comigo, era porque eu havia dado motivos. Então, depois de um tempo, comecei a revidar. O fato é que de lá para cá, nosso relacionamento não melhorou muito. Cassie cresceu, é claro, mas continuava a mesma garotinha irritante. Era a minha Regina George particular. Eu sei que deveria ser vergonhoso sofrer bullying de alguém que tem metade da sua idade, mas eu preferia não pensar no assunto. Eu tinha outras coisas com o que me preocupar. Como o meu trabalho, por exemplo.
A Forever se apresentaria em uma festa de casamento no dia seguinte, e Ben insistia para que nós sempre ensaiássemos o repertório – por mais que o mesmo não mudasse nunca. Assim que cheguei ao galpão onde aconteciam os ensaios, percebi que Susan, minha única amiga naquele lugar e, também, a baixista da banda, olhava estranho para mim. Enquanto cantávamos as mesmas músicas de sempre, Susie me lançava olhadas significativas e algumas piscadinhas. Resolvi ignorar e apenas continuar cantando, já que não tinha certeza se ela tentava dizer alguma coisa ou se era apenas um cisco no seu olho.
O comportamento esquisito de Susan continuou durante as próximas canções, e se agravou quando começamos a tocar Every Breath You Take.
- Every breath you take, every move you make, every bond you break, every step you take, I’ll be watching you – eu cantava sem emoção, cada vez mais indignada por Sting nunca ter recebido uma ordem de restrição por escrever tamanha atrocidade. – Every single day, every word you say, every game you play, every night you stay, I’ll be watching you…
Hum. OLÁ, STALKER.
Eu gostava da maioria das músicas do repertório da Forever. Geralmente, elas eram canções requeridas pelos próprios noivos. More Than Words, You’re Still The One, I Will Always Love You… Todas perfeitamente clichês, e que até eu gostaria que tocassem no meu casamento. Mas Every Breath You Take me irritava. Sempre que eu tinha que cantar um dos maiores hits do The Police enquanto recém-casados encaravam-se ternamente na pista de dança, sem sequer perceber do que a música realmente tratava, eu questionava toda a minha existência. Era como um lembrete de como tudo o que eu fazia não tinha sentido. Como casais poderiam escolher uma música sobre perseguição para marcar o início da sua vida a dois? E por que eu, logo eu, estava lá em cima, sendo cúmplice daquela falta de noção, quando eu queria estar em outro lugar? Em um outro palco, por exemplo. Cantando coisas nas quais eu acreditava. Para pessoas que estivessem prestando atenção em mim. E usando faixas com meu nome em suas testas e...
Ai.
Olhei ao meu redor para ver se mais alguém compartilhava da minha indignação. Susan continuava agindo de forma esquisita, piscando pra mim pela milésima vez assim que nossos olhos se cruzaram. Franzi a sobrancelha, confusa, e segui em frente. Ben tocava sua bateria da mesma forma que um robô o faria: com precisão e sem paixão. Já Josh, o guitarrista, mascava um chiclete e balançava a cabeça no ritmo da música, sem dar o mínimo sinal de que passava pela mesma crise existencial que eu.
Rolei os olhos e suspirei alto no microfone.
- Blablablublu Blake, tchutchutchu milk shake, I’ll be watching you – como todos estavam morrendo de tédio e a canção já estava no final, resolvi improvisar a letra. – I’ll be watching you. And then I’ll kill you, ‘cause I’m a male stalker, and that’s what male stalkers doooooo.
(Estarei assistindo você. E então eu te matarei, porque eu sou um stalker do sexo masculino, e é isso que stalkers do sexo masculino fazem.)
Ben parou de tocar imediatamente, e todos os outros o imitaram. Aquele cara se beneficiaria de um senso de humor.
- Que merda é essa?
- É a realidade – cruzei os braços e dei de ombros – Não sei porque você nos obriga a cantar essa música horrorosa.
- Talvez seja porque as pessoas querem nos ouvir tocar essa “música horrorosa” – ele fez aspas com os dedos, deixando bem claro que aquela opinião pertencia somente a mim. Depois, se levantou e saiu de trás da bateria. – As pessoas nos pagam para ouvir o que elas querem ouvir, Destiny. Não é o seu show.
- Não é como se você tivesse que me lembrar disso – tentei parecer indiferente enquanto analisava as pontas do meu cabelo.
Ouvi Josh soltar um “uuuuuuuuuuuuh” do lugar onde ele estava. Josh tinha a idade mental de um garoto de dez anos e sempre soltava interjeições daquele tipo quando Ben e eu discutíamos.
- Okay. – Ben disse, olhando especificamente para os outros dois membros da banda. - Quinze minutos de intervalo enquanto nossa diva se recupera de mais um de seus ataques.
- Não é ataque, Ben. É visão! – gritei, assistindo-o se afastar. – Algo que você obviamente não tem!
Pude ouvir Ben esbravejar um singelo “foda-se, Destiny!” ao sair do galpão. Ó, Ben. Sempre tão delicado. Era divertido saber que ele não iria me demitir. Apesar de nossas diferenças, Ben sabia que eu era boa e que eu me dedicava ao meu trabalho. Além do mais, onde ele encontraria outra pessoa para ocupar o meu lugar? Uma garota deve saber o seu valor.
Susan encaixou o seu baixo no apoio e veio andando em minha direção. Ela sorria para mim como se nós fôssemos cúmplices de um crime perfeito.
- Então... – Susan disse, me empurrando de leve com o ombro – Como você está hoje?
- Mmm. Bem. – respondi, estranhando a sua atitude. Será que ela estava chapada? – E você, Susie?
- Eu tô legal. Tô tranquila. – novamente, Susie esbarrou o ombro no meu. - Não tanto quanto você, eu imagino. O que você fez noite passada?
Meus olhos se esbugalharam diante da revelação que tive naquele momento. ELA SABIA. Susan sabia que Harry e eu havíamos passado a noite juntos. Bem, mais ou menos. Não da forma como pessoas do século XXI costumam passar a noite juntos, mas, ainda assim, era de se admirar. Por isso ela sorria e piscava para mim desde o momento em que eu havia chegado. E eu achando que a pobre Susie estava drogada.
- Susan! – esganicei, sem conter a minha excitação – Você sabe!
- Eu sei! – ela berrou de volta. Depois, olhou para os lados e baixou o tom de voz: – Eu tenho o aplicativo do SAY WHAAAAT? no celular. Foi a primeira coisa que vi pela manhã. Eu estou tão feliz por você, Des!
- Eu também! – cantarolei, dando pulinhos. – A noite passada foi tão linda. Eu senti como se minha vida fosse um filme e alguém estivesse escrevendo o roteiro.
- Um filme como Cinquenta Tons de Cinza, eu imagino – Susan sorriu, erguendo as sobrancelhas sugestivamente. – Huh?
- O quê? Não. Eca.
- Ah, qual é, Des – Susan se aproximou e assumiu um tom de voz ainda mais discreto do que o de anteriormente. – Você não vai me contar?
- Sobre o que aconteceu? Claro. Assim que o ensaio acabar nós podemos... Espera aí! – exclamei, finalmente compreendendo o verdadeiro motivo pelo qual Susan estava tão “feliz por mim”. – Você acha que nós transamos? Por isso “Cinquenta Tons de Cinza”?
- Hummm, sim? – Susan respondeu como se fosse óbvio – Eu sei que não é seu filme favorito, mas...
- Okay. – eu a interrompi, erguendo o dedo indicador - Primeiramente, me sinto ofendida por você ter insinuado que uma noite de sexo selvagem entre Harry e eu seria algo como Cinquenta Tons de Cinza.
Josh, que se encontrava sentado ao fundo do galpão, acompanhado apenas de suas espinhas e uma lata de cerveja, ergueu a cabeça assim que ouviu as palavras “sexo selvagem”.
- Tente algo como “De Olhos Bem Fechados” ou “9 Semanas e Meia de Amor”. – continuei, assistindo a Susan rolar os olhos. Ela realmente gostava de Cinquenta Tons de Cinza. – E em segundo lugar... – dessa vez, sussurrei para que Josh não me escutasse: - Nada aconteceu, Susie.
- O quê?!? - Susan estava tão desapontada que a sua feição pareceu murchar – Mas como? Por quê?
- Porque não, ué – dei de ombros, sentindo-me levemente envergonhada por não ter feito sexo com alguém. Isso não faz sentido. – Sou obrigada a transar com qualquer cara que entra no meu apartamento agora?
- Não, claro que não – Susie se retificou prontamente. – É só que... Totalmente rolou um clima entre vocês dois naquele casamento. E mesmo estando longe, ele lembrou de te procurar. E aí foi para a sua casa. E faz tanto tempo que você...
Eu sabia o que ela queria dizer, mas também sabia que Susie era discreta demais para finalizar a frase da forma como ela pretendia: “e faz tanto tempo que você NÃO TRANSA COM NINGUÉM.”
- Eu sei. Eu nem sinto muita falta, na verdade – falei, encarando minhas unhas como se meu esmalte azul fosse a invenção mais brilhante da face da Terra. – Você gostou do meu esmalte?
Estendi minha mão esquerda para Susan, que olhou para mim com piedade.
Deus, Destiny. Você é realmente boa em mudar de assunto suavemente.
- Eu adorei. – ela respondeu, soltando um suspiro. Então, acrescentou: – E eu ainda quero saber sobre que aconteceu ontem, Des!
- Hum, sério? – voltei a admirar minhas unhas, fingindo indiferença. - Eu pensava que você só tinha interesse em histórias que envolvessem chicotes e psicopatas.
- Não! – ela protestou. – Eu me interesso por histórias que envolvam cantores gatinhos e minha amiga adorável também.
- Awn. Você me acha adorável. – tentei me aproximar para abraçá-la, mas Susie me repreendeu com o olhar. – Tudo bem, entendi. Sem enrola.
Susan e eu nos sentamos no único sofá que havia ali e, então, comecei a contar sobre a noite passada. Contei desde a espera interminável pela ligação de Harry – muito antes de ele aparecer em carne e osso na Gaiola das Loucas – até o quase beijo que ocorreu no meu apartamento. Eu sentia a estranha necessidade de falar sobre cada detalhe, como se até as coisas pequenas tivessem a sua magia. Nada merecia ficar de fora. Falei sobre a minha música, sobre as borboletas no meu estômago e sobre a forma como Harry prestava atenção em tudo o que eu dizia. Para a minha sorte, Susan não parecia entediada. Enquanto eu narrava os fatos da noite anterior, o corpo de Susie reagia a cada detalhe, com direito a gritinhos empolgados e tapas no meu braço:
“Eu não acredito que ele é real. EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ NÃO BEIJOU ESSE CARA!”
Quando acabei, Susan estava boquiaberta.
- Isso é... – começou ela, segurando o rosto em suas mãos -... Tão melhor que Cinquenta Tons de Cinza.
- Eu sei! – respondi, inclinando o corpo para frente. – Você me entende agora? Não foi, tipo, a noite mais mágica do mundo?
- A noite mais mágica do mundo – Susan repetiu, afirmando com a cabeça. – E vocês nem chegaram a se beijar.
- Você não precisa esfregar isso na minha cara para sempre, Susie.
- Não, Des. Você não percebe? Vocês nem se beijaram, e já tiveram momentos mais românticos que muitos casais que eu conheço. – ela sorriu, tocando a minha mão. – Tenho certeza de que isso significa algo.
Antes que eu pudesse dar atenção ao que Susan tentava insinuar, Ben atravessou o portão, trazendo com ele toda a sua graça e leveza. Àquela altura, eu sequer acreditava que ele iria voltar, já que os quinze minutos de intervalo tornaram-se quase uma hora. Ben ignorou a nossa presença e foi direto para a sua bateria, dando a entender que o ensaio prosseguiria a partir daquele momento. Fiz menção de me levantar para caminhar até o meu posto, mas Susie me segurou pelo braço:
- Ei, Des. – ela chamou. – Pode me emprestar o seu celular? O meu está sem bateria.
- Claro – dei de ombros, apontando para a bolsa, na outra extremidade do sofá – Pode pegar.
Fui para detrás do microfone e assisti Susan, já com o meu celular em mãos, digitar algo com empolgação. Hum. Devia ser algo interessante.
- Um minutinho, Ben – ela disse, percebendo que só dependíamos dela para o ensaio continuar. – Pronto.
Susan estava prestes a guardar o celular de volta em minha bolsa quando algo a surpreendeu. Seus grandes olhos se arregalaram e um pequeno “oooh” saiu de seus lábios. Então, ela se virou para mim:
- Des? – o sorriso travesso de Susan estava me deixando bastante preocupada. - Chegou mensagem para você.
- Tudo bem – ironizou Ben, erguendo dramaticamente as mãos no ar. – Não é como se nós tivéssemos um ensaio para continuar ou algo assim.
Corri em direção a Susan, estreitando os olhos.
- É de Harry – Susan respondeu antes mesmo que eu pudesse perguntar.
Borboletas: VOCÊ DISSE HARRY?
E lá estavam elas outra vez.
Corri até Susan e retirei o celular das mãos dela com certa agressividade.
Você tem 1 (uma) nova mensagem de Harry.
Okay. Era ele mesmo.
- Talvez eu tenha mandado algo para ele primeiro. – Susan confessou, timidamente, enquanto eu clicava no ícone de mensagens.
Fuzilei Susie com o olhar.
- Você o quê?!
- Mas olha como ele respondeu rápido!
- Susan...
Okay, Destiny. Conte até dez. Aposto que não foi nada de mais. É da Susan que estamos falando. Não do Danny.
Respirei fundo e relaxei os ombros, voltando a atenção para a tela do celular.
hey.

Era o que Susan, se passando por mim, havia mandado.
Hey!

Não pude evitar sorrir.
- Awww, olhe só, Susie – passei o braço por cima dos ombros de Susan, puxando-a para mais perto, de supetão. – Ele disse ‘Hey!’. Com exclamação e tudo.
Eu tinha certeza de que meus olhos estavam em formato de coração.
- Isso quer dizer que você não está mais brava? – perguntou Susan, tentando, discretamente, se afastar de mim.
- Não – sibilei, depositando um beijo desengonçado na testa da minha colega de banda. – Eu não estou brava. Obrigada por existir.
- Okay – Ben interrompeu o nosso momento ternura. Eu poderia estar enganada, mas tive a sensação de ter ouvido Susan soltar um suspiro de alívio. – Quer saber? Chega de ensaio por hoje – ele se levantou, irritado, enfiando as baquetas no bolso de trás da calça. – Josh, você vem comigo.
Josh levou dois segundos para assimilar a mensagem, mas assim que o fez, guardou a guitarra e seguiu no encalço de Ben. Aquele garoto fumava muita maconha.
Antes de Ben e Josh saírem do galpão, eu já me encontrava sentada no sofá e segurava o celular como se fosse o meu bem mais precioso. Como era de se esperar, as borboletas em meu estômago já estavam bem despertas, e todas batiam suas asas desesperadamente.
Harry!

Mandei de volta, sem saber exatamente o que dizer em seguida.
Borboleta 1: CONVERSEM BAIXARIAS. MANDE FOTOS NUA.
Borboleta 2: Nããão! Fale sobre coisas românticas. Pergunte se ele pensa em se casar um dia.
Borboleta 3: Conte sobre a camiseta que você comprou. MRS STYLES.
Borboleta 4: Você está louca? Se ela conta da camiseta nós perdemos a chance.
Borboleta 5: Talvez você deva esperar ele responder e o ignorar. Homens adoram ser ignorados.
- Apenas... Seja você, Destiny. – disse Susan, como se percebesse o meu dilema interno. Deus. Distraí-me tanto com as borboletas opinativas que havia até me esquecido da presença de Susie. – Seja você e não tem como nada dar errado.
Eu não sabia se deveria confiar naquele conselho, visto o número de vezes em que coisas deram errado na minha vida quando eu estava apenas sendo eu mesma. Mas eu não tinha muitas alternativas. Resolvi acreditar.
O celular apitou novamente.
Ahm, Destiny?

Apenas seja você, repeti para mim mesma, meneando a cabeça e pressionando as teclas do celular. Eu posso fazer isso.

***


Sábado. 17h30min. O sol começava a se pôr em Beverly Hills. O céu assumia um tom alaranjado que, em contraste com as palmeiras que enfeitavam as calçadas, formava uma paisagem de tirar o fôlego. O clima estava ameno e agradável, e as ruas encontravam-se lotadas de turistas impressionados, descobrindo e registrando tudo o havia para se descobrir e registrar.
Ah, fins de tarde. Eu sempre gostei de fins de tarde. A ideia do sol se escondendo e dando lugar à noite me relaxava desde criança. Era como um lembrete de que estava tudo bem. Não importava o quão ruim meu dia pudesse ter sido, ou o quão sem esperança eu me sentia em relação ao amanhã: o sol havia se posto. A noite estava nascendo. A natureza continuava funcionando e tudo estava em seu devido lugar. Então, de repente, meus problemas pareciam pequenos demais para eu me preocupar, e eu me enchia de expectativa. Porque era fim de tarde, tudo poderia acontecer. Porque era noite, o mundo inteiro era feito de mágica.
Infelizmente, minha tática de olhar para o céu e ficar tranquila não estava funcionando naquele dia. Tudo está em seu devido lugar, eu pensava, olhando ao meu redor. Uma celebridade aqui ou ali, paparazzi a postos - preparados para uma nova perseguição – e, claro, milionários de meia idade que passaram tempo demais na sessão de bronzeamento artificial. Tudo, realmente, estava em seu devido lugar. Bem, tudo exceto Susan e eu.
Assim que Harry sugeriu que eu o encontrasse na Go Greek Fro, em Beverly Hills, Susan se ofereceu para me levar em seu carro. Graças a Deus Susan tinha um carro. Eu estava disposta a pegar um ônibus e ir até lá sozinha, mas a) o transporte público em Los Angeles era um horror; b) eu só chegaria ao meu destino depois das sete da noite e; c) minha maquiagem se derreteria toda no caminho. Eu não poderia esperar tanto para me encontrar com Harry. Especialmente depois de ele ter insinuado que tinha algo para me falar. O que poderia ser, afinal?
Fim de tarde, Destiny. Foque no fim de tarde.
“Preciso falar com você.”
A última vez que alguém afirmou precisar falar comigo, eu levei um belo de um pé na bunda. Inclusive, meu traseiro ainda tentava se recuperar. Mas Harry não poderia terminar comigo, certo? Nós sequer namorávamos. Não havia nada para terminar. A não ser, é claro, que ele quisesse terminar a nossa amizade. Nunca tinha acontecido antes. Ninguém nunca tentou terminar uma amizade comigo, mas sempre havia uma primeira vez...
Susan freou o carro bruscamente, me obrigando a prestar atenção em algo que não fosse meus pensamentos.
- Ai! – reclamei, sentindo meu corpo ser lançado para frente e voltar. – Você está louca?
- Desculpa, Des – Susie sorriu acanhada, encolhendo os ombros. – Nós já chegamos.
Olhei para frente e percebi que estávamos a poucos metros da Go Greek Fro.
- Uau – eu encarava Susan assombrada. - É assim que você freia normalmente?
Susan era uma motorista terrível. Eu ainda não sabia como ela tinha conseguido tirar carteira. E o fato de ela dirigir um Fusca ‘61, herdado de sua avó, não colaborava em nada na sua falta de habilidade atrás do volante. Aquele, inclusive, devia ser o único fusca transitando em Beverly Hills naquela tarde - talvez até naquele ano. Bem, pelo menos era conversível.
- Acontece de vez em quando – ela respondeu, parando o carro quase em frente à loja de frozen yogurt. Algumas pessoas nos encaravam perplexas, como se Susie na verdade dirigisse um artefato histórico. Era fácil perceber que não pertencíamos àquele lugar. – Vai, Des.
- Okay – assenti, destravando o cinto de segurança. – Você me espera aqui?
Susan riu sarcasticamente.
- Eu tenho cara de vela para você?
- Bem...
- Não, Des. Eu vou dar uma volta. – ela ajeitou o espelho retrovisor interno, aproveitando para checar a sua imagem. – Mas não irei muito longe. Então, se precisar de mim... É só ligar.
Fiz que sim com a cabeça e, após obrigar Susan a me garantir mil vezes que eu estava bonita, saí do carro. Quero dizer, eu sabia que estava gata, mas é sempre bom ter a opinião de um terceiro confiável e sincero. E Susan, no caso, era as duas coisas.
Assim que cheguei à Go Greek Fro, avistei Harry sentado em uma cabine ao fundo da loja. Ele usava uma camisa estampada e olhava distraidamente para o cardápio, mas seus pensamentos pareciam estar em outro lugar. Tenho bastante certeza de que sua intenção ao se sentar ali era passar despercebido para os outros clientes, mas aquilo jamais aconteceria, uma vez que: a) a mesa era localizada de forma que possibilitava uma visão quase panorâmica do local e; b) era impossível ignorar o tipo de luz que Harry emanava. Ele, com toda certeza, havia nascido para brilhar. Ainda parada na entrada, o admirei por alguns segundos antes de vê-lo erguer a cabeça e olhar em minha direção. Harry sorriu abertamente e levantou-se para me cumprimentar. Ele parecia ainda mais bonito do que na noite anterior. Como aquilo era possível? Com as pernas bambas, caminhei de encontro a ele para colaborar com a sua tentativa de discrição (que, por sinal, não estava dando muito certo, já que várias pessoas olhavam para nós dois).
- Destiny! – Harry exclamou, me abraçando como se nós não nos víssemos há vinte e sete anos. – Finalmente você chegou.
Por alguns segundos, Harry descansou o rosto no vão entre meu ombro e meu pescoço, e suas mãos estavam firmes em minha cintura. Oh, Meu Deus. Eu estava hiper ventilando. Por que ele me abraçava como se eu estivesse acabado de voltar da guerra? Aquilo não era bom para a minha saúde.
- Harry! – respondi, o abraçando de volta e aproveitando para tirar uma casquinha. – Senti sua falta também.
Droga.
Harry se soltou de mim e ergueu uma sobrancelha, confuso.
- Hah, não foi isso que eu quis dizer. Eu troco as palavras às vezes. Eu quis dizer que eu sinto falta de Beverly Hills. – fiz um grande gesto com as mãos, me referindo ao espaço. – Faz tempo que eu não venho aqui.
- Claro – ele disse, sorrindo. – Eu senti sua falta, Des. – e deu um soco de leve no meu ombro. – Quer se sentar?
Harry apontou para a cadeira em sua frente e eu me sentei antes que pudesse sair correndo de tanta vergonha.
Nota mental: procurar no Google o que caras querem dizer com socos leves no ombro. O que ele acha que eu sou? Um “brother”?
Harry voltou para o lugar onde se encontrava anteriormente e apoiou as mãos sobre a mesa.
- Então – ele começou, ainda com um sorriso infantil em seus lábios. – Vai escolher o seu frozen yogurt?
- Para ser sincera, eu estou muito mais interessada no que você tem para me falar. – respondi, inclinando o corpo para frente e cruzando as mãos sobre a mesa. – Vai, desembucha.
Não sei se Harry chegou a dizer alguma coisa. Ele pode ter me pedido em casamento, anunciado que ganhei na loteria ou ofendido as Doc Martens que eu usava: eu nunca saberei. Em questão de instantes, eu sequer era capaz de dizer onde eu estava. Meus olhos estavam fixos em um ponto específico, e meu coração batia em minha garganta.
Aquele não pode ser ele. Pode?
Apertei os olhos para enxergar melhor. De frente para o balcão, a poucos metros da cabine onde Harry e eu nos encontrávamos, havia um cara que eu jurava conhecer. Mas aquele não poderia ser Zach. Devia ser um clone ou um irmão gêmeo perdido. Ou talvez ele estivesse morto e aquele era seu espírito disposto a me atormentar. Qualquer uma dessas hipóteses seria mais plausível do que Zachary Jordan em carne e osso, no mesmo lugar que eu.
O homem de cabelos escuros virou-se de lado, permitindo que eu enxergasse melhor o seu rosto. O mesmo nariz. As mesmas sobrancelhas. A mesma cicatriz na bochecha esquerda. Eu não estava ficando louca. Aquele definitivamente era Zach.
E ele estava acompanhado.
- Hum... Você está bem? – Harry perguntou, provavelmente preocupado com o fato de eu estar cobrindo o meu rosto com o cardápio.
- Aham. Pode falar. Tô escutando.
O que ele está fazendo em Beverly Hills? Ele não frequenta Beverly Hills. Quero dizer, pelo menos não frequentava quando estava comigo. Hum. Acho que as pessoas mudam.
- Você está se escondendo de alguém?
- Oi? Não! - soltei uma risada desesperada. – Parece que eu estou?
Abaixei um pouco o cardápio e lancei para Harry o meu melhor olhar de pessoa equilibrada.
- Na verdade, parece que você está louca. Mas estou tentando ser otimista.
Suspirei alto e relaxei os ombros, me rendendo. Eu não queria tocar no assunto. A história era longa e eu não sabia ser sucinta. Mas talvez fosse melhor contar tudo do que deixar Harry acreditando que eu era maluca.
- Okay – disse, deixando de lado o cardápio que me servia de escudo. - Está vendo aquele cara ali? Próximo do balcão, camisa azul, gola polo, 1,78 m de altura, cabelos escuros, sobrancelhas expressivas e olhos cor de mel?
Indiquei de leve com a cabeça e Harry me acompanhou, atento.
- Acho que sim. - ele disse, parecendo não estar impressionado.
- Nós dois frequentávamos a mesma escola.
- Hummm. – Harry murmurou, analisando Zach da cabeça aos pés.
- Ele também foi um dos pontos chaves da maior humilhação da minha vida.
Os olhos de Harry voltaram a se focar em mim.
- Humilhação?
- Shhh. – olhei de relance para o meu ex-namorado. Aquele que havia me dado um pé na bunda há mais de dois anos e praticamente sumido desde então. - É uma longa história
Observei Zach e sua provável namorada entrelaçarem as mãos e sentarem-se em uma mesa mais distante. Ela era baixinha e tinha cabelos vermelhos, cortados na altura dos ombros. Muito provavelmente, ela não se parecia em nada comigo. Harry forçou uma tosse, fazendo com que a minha atenção voltasse para ele. Pela segunda vez em menos de 48 horas, Harry parecia estar mais do que disposto a ouvir a história que eu tinha para contar.
- Okay. - apoiei os cotovelos sobre a mesa e me aproximei de Harry. - Lembra da foto que você viu no meu apartamento? Da minha irmã e eu vestidas de Romy e Michele?
Harry mordeu o lábio inferior e sorriu, meneando a cabeça afirmativamente.
Tão. Lindo.
Foco, Destiny. Foco.

- Bem, tudo aconteceu há 10 anos - eu disse, assistindo Harry se acomodar em seu assento. - E, para ser honesta, se eu fechar os olhos, consigo voltar exatamente para aquele dia...

***


Anne e Destiny em: O Baile de Primavera.
(Um flashback patrocinado por: Cyndi Lauper – Time After Time)


Muitas coisas importantes aconteceram no ano de 2005. Eventos decisivos e indispensáveis para a existência da realidade que conhecemos hoje. Bush iniciava seu segundo mandato como Presidente dos Estados Unidos. Enquanto isso, no Vaticano, morria o Papa João Paulo II, após 26 anos exercendo a liderança da Igreja Católica. Mariah Carey dominava as paradas de sucesso com seu hit We Belong Together, e Gwen Stefani, com Hollaback Girl, ensinava toda uma geração a soletrar B-A-N-A-N-A-S.
O ano de 2005 também fora bastante agitado na vida de Anne e Destiny. As duas irmãs - então com 16 e 14 anos - mal podiam acreditar na nova vida que levavam.
Ao lado de George Thomas, Ann e Des não poderiam estar mais distantes da realidade do orfanato. Cada uma tinha o seu próprio quarto e, também, a liberdade para decorá-lo da forma que bem entendessem. Elas possuíam até uma TV, e podiam assistir ao que quisessem sem terem de se preocupar com crianças mais novas e sua prioridade estúpida. Além do mais, George Thomas - o terno rapaz de meia idade que também atendia por Charlene Princess - colecionava perucas e estojos de maquiagem, e suas filhas se aproveitavam desse fato sempre que podiam.
(Naquele ano em especial, Anne e Destiny - recém-descobertas góticas - fizeram grande uso das maquiagens escuras de seu pai. “Não é uma fase, papi. É quem nós somos”, elas diziam, com as bocas pintadas de batom preto. No fim das contas, acabou sendo, sim, uma fase. Mas como elas poderiam saber?)
Ainda no orfanato, quando passavam noites em claro conversando sobre filmes e boy bands, Anne e Destiny reservavam um tempo para imaginar um universo paralelo onde as duas possuíam um lar. Quão louco seria ter um quarto só seu? Uma família? Quem sabe até um cachorro. Bem, agora elas sabiam que ter um lar era muito melhor do que imaginavam. A única coisa que faltava era o cachorro. Mas era assunto para outro flashback.
Apesar de todos os acontecimentos marcantes de 2005, para Anne e Destiny, nada seria capaz de superar o baile de primavera da Pacific Hills School. Aquela seria a primeira escola que as duas frequentariam em suas novas vidas, e a noite mais importante do ano letivo permaneceria fresca em suas memórias por muito tempo.
- Eu não acredito que você está nos obrigando a fazer isso. – Anne bufou, emburrada, assistindo, pelo espelho da penteadeira, George Thomas pentear os cabelos dela. Quando o assunto era beleza, George era um perfeccionista. Ele não descansaria até que o cabelo de sua filha mais velha estivesse idêntico ao de Mira Sorvino em Romy e Michele.
- Nem eu – Destiny cruzou os braços. - Nunca fui tão humilhada em toda minha vida. E olha que foram...
- “Anos e anos de humilhação em um orfanato.” – completou George, retirando de sua caçula a chance de proferir mais uma de suas frases de efeito. Des era uma drama queen. Ele sabia, e não poderia se divertir mais. – Eu sei. Eu sei.
A humilhação em questão? Ir ao baile mais importante de sua vida tendo como par a própria irmã. Destiny não conseguia pensar em algo pior. Especialmente não depois do que havia acontecido naquela mesma semana.
Vale frisar que Destiny sempre amou a ideia de bailes estudantis. Durante sua infância no orfanato, quando assistia a filmes adolescentes situados em colégio, a parte do baile era a que mais gostava. Ela sabia de cor todas as falas de Ela É Demais, e rezava todo os dias para que sua vida fosse como uma daquelas comédias românticas que tanto assistia. Ela sequer se incomodava com a ideia de ser apostada - caso fosse necessário - desde que pudesse dançar Pictures Of You, do The Cure (sua nova banda favorita), com o amor de sua vida no baile de primavera.
É importante frisar também que, aos 14 anos de idade, Destiny nunca havia sido beijada. Durante uma noite das garotas, ao ser questionada por suas amigas sobre sua ideia de Primeiro Beijo Perfeito, eis o que respondeu:
"OH, MEU DEUS. Meu primeiro beijo? Bem, eu não sou muito exigente. Eu não penso muito nisso. Só quero que seja... Especial. Você sabe. Seria ótimo se o cara que eu gosto me convidasse para ser seu par no baile de primavera. Ele me buscaria em casa às 18h, e às 18h30 - depois dele ter conhecido papai e Anne - nós iriamos para o ginásio. No carro dele. Aí, ele e eu chegaríamos na festa. Nós cumprimentaríamos todo mundo, dançaríamos um pouquinho... E aí... Pictures Of You começaria a tocar. Sabe nos filmes, quando só de escutar uma música, você já sabe que algo importante está para acontecer? Você escuta uma canção e sabe que aquelas pessoas vão ficar juntas para sempre. É isso que eu quero. Pictures Of You começaria a tocar e, então, nós nos beijaríamos. E eu veria fogos de artifício. E as borboletas no meu estômago dariam piruetas e... eu estou falando demais, não estou?"
Ao contrário do que havia dito, Destiny pensava muito nisso. E sim, ela tinha alguém em mente enquanto descrevia o seu tão sonhado primeiro beijo. Zachary Jordan, seu veterano e sonho de consumo de boa parte das garotas daquele campus. Era inocência acreditar que um dos caras mais populares do colégio a convidaria para o baile de primavera. Destiny não era popular. Não chegava a ser excluída como os matletas, ou tão atormentada quanto os membros do coral acappella, mas as pessoas a consideravam... Esquisita. Ninguém queria se aproximar das duas garotas órfãs, adotadas por uma drag queen, e que frequentavam a aula vestidas como personagens do filme Jovens Bruxas. Outro motivo pelo qual Zach dificilmente convidaria Destiny para ser seu par era a existência de Rosie, sua namorada. Mas, por coincidência ou não, os dois resolveram terminar justamente na semana do baile. Des podia jurar que era destino. Era missão dela confortar o coração do seu amado.
Ela fez tudo certo: sempre tinha Pictures of You tocando em seu MP4, e devorava todas as matérias de revistas para adolescente que ensinavam a conquistar o “gato dos seus sonhos”.
Um dia, antes do início da aula, Destiny decidiu o convidar. Ela havia lido na Cosmopolitan que as mulheres dos anos 2000 deveriam ter atitude, e deduziu que o mesmo se aplicaria às garotas adolescentes daquele mesmo milênio. Anne não achou uma boa ideia, já que Zach e Rosie eram conhecidos pelo seu relacionamento de idas e vindas. Mas Destiny ignorou os conselhos de sua irmã (Anne provavelmente não queria ser a única a ir sozinha para o baile, já que também não tinha par) e o convidou mesmo assim. Ele disse que daria a resposta depois da aula, no campo de futebol americano. Destiny deveria ir sozinha, “sem aquela outra estranha que está sempre com você”.
Palavras de Zachary, não de Des.
Mas ela foi. Com o coração na boca e as mãos suando frio, Destiny fez o seu caminho até o campo de futebol. O que estava prestes a acontecer? Será que ele tentaria beijá-la, assim, tão rápido? Não era o que Destiny havia planejado, mas, ei, se acontecesse, ela deveria estar preparada. Colocou um dos fones de ouvido e deixou Pictures of You no ponto para ser tocada em seu MP4. Se o momento chegasse, ela só teria que apertar play.
Quando Destiny chegou ao local combinado, não precisou de muito tempo para perceber que Zach não estava sozinho. Na arquibancada estavam presentes alguns rostos que ela não esperava ver.
Tina. George. Clarke. Rob. Ela nomeava os que reconhecia. Todos os amigos de Zach. Rosie? Oh, meu Deus.
Naquele momento, Des soube que toda a sua fantasia tinha ido por água abaixo. Nada de beijo. Nada de trilha sonora. Nada de borboletas dando piruetas em seu estômago.
Somente seu coração sendo quebrado em mil pedaços.
A estratégia de Zach não era muito elaborada. Apenas o velho clichê do garoto popular humilhando a garota esquisita da escola. Ele fez questão de contar para todos os seus amigos que uma das estranhas, órfãs e filhas do “cara que se veste de mulher” estava apaixonada por ele. Foi o suficiente para que todos aceitassem se reunir no campo de futebol com o único objetivo de rir de Destiny até que ela chorasse.
Mas Destiny não chorou. Bem, pelo menos não na frente deles. Seus olhos encheram-se de água, verdade, mas ela saiu dali antes que qualquer lágrima pudesse cair. Naquele mesmo dia, ela fez uma promessa: jamais ouviria Pictures of You de novo. A não ser que ela não pudesse controlar. Ou que o próprio Taylor Hanson aparecesse em sua vida. Nenhum cara era bom o suficiente para merecer aquela canção.
Quando Charlene Princess ouviu sobre o que fizeram com o seu bebê, a sua vontade foi a de matar alguém. Ele quis matar Zach, o pirralho infeliz. Quis, também, matar os pais de Zach, por terem criado um garoto tão mimado e desrespeitoso. Mas ele não poderia ir para a cadeia e sustentar duas adolescentes. Ele sabia que a paternidade viria com desafios, e não se tornar uma leoa super-protetora era apenas um deles. Então, George decidiu ensiná-las a lidar com a adversidade da melhor forma que sabia: com autenticidade e de cabeça erguida.
As duas iriam ao baile, sim. Mas não sozinhas. Anne e Destiny sempre teriam uma a outra.
- Eu estou com a Des. - concordou Anne, admirando seus cabelos no reflexo do espelho. George finalmente tinha finalizado o seu trabalho. Nada mal. – Essa é, tipo, a maior humilhação de todos os tempos.
- Eu não acredito no que estou ouvindo. – George Thomas posicionou as mãos na cintura. - Vocês não aprenderam nada com Romy e Michele?
Romy e Michele fora o primeiro filme que os três assistiram juntos, como uma família. Desde o momento em que George avistara as duas garotas no orfanato, cantando e dançando Tina Turner como se não houvesse amanhã, ele sabia que, de um jeito ou de outro, teria de apresentá-las àquele clássico dos anos 90.
- Mais ou menos. - as duas responderam em uníssono.
- E qual é a moral da história? – George perguntou de forma quase didática.
- Se nada der certo, finja que inventou o post-it? – Destiny deu um sorrisinho amarelo, e Charlene Princess a repreendeu com o olhar. Tudo bem. Não era o momento para piadas. – Elas tinham uma a outra. Sempre. Independente da situação.
- Mesmo quando a vida delas era uma bagunça ou, no final, quando tudo dá certo... – foi a vez de Anne se pronunciar. - Elas estavam juntas. Sempre juntas.
George Thomas sentia tanto orgulho observando suas garotinhas que, por um momento, acreditou que seu peito iria explodir. Ele ainda não sabia como podia amar tanto e tão intensamente pessoas que conhecia há tão pouco tempo. Elas não eram bebês. As duas entraram em sua vida trazendo suas próprias ideias e personalidades. E, ainda assim, era o encaixe perfeito. Não precisava de ajustes. George sentia como se os três sempre tivessem sido uma família. E, talvez, ele estivesse certo.
Charlene Princess sentou as duas lado a lado e, olhando-as nos olhos, disse:
- Preciso que me prometam que, não importa o que aconteça, nada vai atrapalhar a amizade de vocês. – Anne e Destiny prestavam atenção em cada palavra. – O amor acontece de diversas formas. Isso... – George juntou as mãos das duas, observando o contraste entre os tons de pele. –… É amor. Nossa família é amor. Vocês não precisam de um garoto para irem ao baile. Vocês podem ir juntas e ter a melhor noite de suas vidas!
Destiny sentia as lágrimas pinicarem os seus olhos. Ela sempre fora sensível e chorava com facilidade. Mas o que a fazia querer chorar naquele momento era a sinceridade do que seu pai havia dito. Por mais louco que pudesse parecer, ela conseguia sentir todo o amor que os envolvia.
- Eu amo vocês. – ela disse, finalmente deixando as lágrimas caírem. – E eu amo a nossa família. Mas e se eu morrer sozinha? Sem garoto nenhum para me amar?
Charlene Princess jogou a cabeça para trás, rindo com vontade.
- Ei, não é pra rir! – Anne o repreendeu, franzindo o cenho. – Quer dizer, eu não ligo pra essas coisas. Mas a Des liga. É uma preocupação válida.
- Minhas princesinhas – ele apertou com carinho as bochechas de cada uma. Engraçado como George conseguia se enxergar nas filhas. As mesmas preocupações e inseguranças que o perturbavam naquela idade, e que o acompanharam por muito tempo depois. – Vocês merecem a história de amor mais bonita que a vida puder proporcionar. Nunca duvidem disso. Mas as coisas acontecem quando tem de acontecer…
Ele limpou as lágrimas de sua caçula, que aparentava estar mais calma.
- Eu só espero que a vida não espere até eu ter 90 anos. - Destiny disse depois de uma pausa, fazendo todos rirem.
Ah, Destiny. Sempre com os comentários afiados.
Era quase a hora do baile. Anne e Destiny ajeitavam os últimos detalhes de seus vestidos, orgulhosas do resultado final. Anne realmente possuía talento para confeccionar roupas. George Thomas também estava satisfeito com o cabelo das filhas. Elas não se pareciam em nada com Mira Sorvino e Lisa Kudrow, mas ninguém seria capaz de negar que, naquele momento, as duas eram Romy e Michele.
- Prometam que irão se divertir! – disse Charlene Princess, preparando as irmãs para a foto que enfeitaria a cômoda de Destiny anos depois.
- Nós prometemos! – elas responderam, posicionando-se lado a lado.
- Vamos lá. – George Thomas iniciou a contagem. – Um, dois, três e... XIIIIS.
~
No baile, Anne e Destiny se divertiram como nunca. Elas entraram de mãos dadas e ignoraram os olhares curiosos de todos que não esperavam vê-las por ali. Inclusive os de Zach e Rosie que, de tão estupefatos, mais pareciam estar vendo uma assombração.
Nada seria capaz de atrapalhar o plano das duas.
Naquela noite, por bem ou por mal, Anne e Destiny dançariam Time After Time, recriando a cena mais marcante do filme que tanto amavam. Juntas, foram até a cabine do DJ e o subornaram para que ele tocasse o CD da Cyndi Lauper que haviam trazido. (Na verdade, Anne acabou mostrando os seios para o rapaz. Não era realmente necessário, mas Anne sempre fora de tomar medidas drásticas).
Quando a música começou, as duas foram para o meio do salão. Elas sabiam a coreografia de cor. Não havia nenhum cara para guiá-las, então tiveram de improvisar algumas partes, mas sempre se mantendo fieis à coreografia original. Algumas pessoas as observavam em puro, profundo terror. Outras, em estado de choque. Havia ainda aquelas que, lembrando-se do filme, sorriam e tentavam acompanhar.
Mas Anne e Destiny sequer percebiam. Estavam imersas em seu próprio mundo. Afinal de contas, quem diria?
Ann e Des.
Sandy e Madonna.
Finalmente em um lar.

***


- E você sabe qual é a pior parte? - perguntei.
Harry, que escutava toda a história com atenção, agora ria da imagem de minha irmã e eu dançando juntas no baile de primavera.
- Não – ele respondeu, limpando a lágrima solitária que caía de um dos seus olhos. – Não acabou aí?
- Nope. – fiz que não com a cabeça e parei um segundo para refletir. Nem eu conseguia acreditar no que estava prestes a dizer. – Depois de tudo isso... Zach e eu... Nós fomos namorados.
Harry arregalou os olhos, em um misto de choque e desaprovação.
- Wow, Des... Você namorou aquele idiota? – ele deslocou o olhar para Zachary, que ainda se encontrava algumas cabines a nossa frente -... Por quê?
Mentalmente, eu me perguntava a mesma coisa. Por quê?
- Eu tinha baixa autoestima. – concluí – Foi depois de eu ter me formado na escola. Nós namoramos por três anos e terminamos há cerca de dois.
- Três anos... Caramba. – Harry murmurou para si mesmo. – Então foi algo sério. Você quer ir para outro lugar?
- Não, não. Está tudo bem, nós terminamos de um jeito legal. Quero dizer, ele terminou comigo, mas foi legal. Tranquilo. O monólogo que ele fez antes de me dar um pé na bunda foi um pouco desnecessário. Mas sabe? Me ajudou a crescer.
Droga. Por que eu estava falando tanto?
- Monólogo?
- Ah, nada de mais. Zach tinha acabado de se formar na faculdade e precisava de alguém que compartilhasse dos mesmos ideais de futuro que ele. Ou que, pelo menos, tivesse um futuro. E eu não tinha nenhum. – dei de ombros e sorri sem graça, tentando parecer indiferente. Só então notei a expressão indignada de Harry. - Palavras dele, não minhas.
O rapaz sentado à minha frente nunca demonstrou tamanha seriedade. Ele parecia realmente incomodado pelo que eu havia acabado de contar. Era quase como se toda aquela história tivesse o ofendido. Eu estava prestes a dizer “ei, calma, amigão. Eu fui a verdadeiramente ofendida aqui e juro que tô bem. Acho.” Mas a preocupação no rosto de Harry me deixou... Tocada. Aquele cara mal me conhecia e parecia se importar mais comigo do que o babaca com quem eu namorei por três longos anos. O babaca com quem eu quis namorar por tanto tempo.
Agora eu entendia a famosa frase de Stephen Chbosky.
Nós aceitamos o amor que acreditamos merecer.
Naquela época, eu não achava que merecia muita coisa.
- Ahm... Des? – a voz rouca de Harry me trouxe de volta para a realidade. Ele olhava fixamente para um ponto atrás da minha cabeça, e movia os lábios como se tentasse me dizer alguma coisa. – Eu acho que... hum...
- Destiny!!!
Eu conhecia aquela voz. Eu conseguiria reconhecer aquela voz estridente mesmo se eu estivesse no meio do deserto, isolada da civilização, e me esquecendo pouco a pouco da minha identidade. Ainda assim, eu estava surpresa. Eu não esperava escutar aquela voz ali.
- Rosie?!? – respondi antes mesmo de fitar a garota baixinha parada ao meu lado. Engraçado. Ela estava usando roupas iguais as da provável nova namorada do...
- Benzinho, eu te disse que era ela! – Rosie acenava freneticamente para Zachary, que já se levantava de seu assento. Cacete. Tinha como aquela situação piorar? – Oh, meu Deus, Destiny. Zach e eu estávamos há dez minutos tentando decidir se era você ou não.
Hum. Ele realmente precisava de tanto tempo para me reconhecer?
Rosie então soltou uma de suas risadas características. Um som tão agradável quanto o de unhas arranhando um quadro negro.
- Ei, Des, há quanto tempo! – exclamou Zach, assim que se aproximou. – Rosie pensou mesmo que fosse você.
Aquilo parecia um pesadelo. Meu ex-namorado e a ex-namorada dele (agora atual) reunidos no mesmo lugar que eu. Como se não bastasse, também estava presente o cara pelo qual, talvez, eu estivesse bastante interessada. Todos ali, juntos, me encarando como se fosse minha obrigação dizer alguma coisa. Para tudo ficar mais aterrorizante, só o que faltava era que eu estivesse pelada. Mas como era a realidade, apenas respirei fundo, dei o meu melhor sorriso falso e tentei agir naturalmente.
- Zach! Haaaahahaha – em questão de segundos, meu sorriso falso havia se transformado em uma risada pavorosa. – Que bom te ver. Você e sua, hum, namorada. – analisei Rosie calmamente pela primeira vez. – Desculpe, eu... Não te reconheci.
- Oh, é porque eu pintei o cabelo. – ela chacoalhou as mechas vermelhas - Zach adora ruivas.
Verdade e verdade. Rosie costumava ser loira e Zach realmente adorava ruivas. Mas não de um jeito normal. De um jeito irritante e extremamente juvenil.
- Vocês estão juntos de novo? Hahahaaa. Isso é ótimo. – olhei para Harry em busca de socorro. Por favor, me impeça de continuar falando. Mas ele apenas estudava Zach como se tentasse o decodificar. – Como nos velhos tempos. Uau.
- Sim. Zach e eu retomamos o contato pelo Facebook e percebemos que a chama nunca havia se apagado – Rosie acariciava o peitoral de Zach e o olhava de forma terna. – Inclusive, nós vamos nos casar! – ela estendeu sua mão direita, exibindo o enorme diamante que brilhava em seu dedo anelar. – Olha!!!
Agradeci aos céus por não estar bebendo nada pois, caso estivesse, aquele seria o momento perfeito para cuspir o líquido da minha boca.
- Casar? – perguntei, quase num berro. Eu precisava manter a compostura. – Isso é... Lindo. Realmente maravilhoso! Dois namoradinhos do colégio se casando. Hahahahahahahaha – novamente, a risada de pavor. – Daria um ótimo filme!
- Eu sei... – Rosie suspirou apaixonada e, então, virou-se abruptamente para Harry. – Mas e você, Destiny? Desde quando conhece Harry Styles?
E, de repente, eu não me sentia tão na merda assim. É uma verdade universal que reencontros com ex-namorados são, em sua maioria, traumáticos. É por isso que você os evita. Sabe como é: para não dar o azar de esbarrar com a pessoa por aí e descobrir que ela realmente está melhor sem você. Ou, no meu caso, que vai se casar com a namorada da época de colégio (a mesma que o acompanhou enquanto ele ria da minha cara quando estudávamos juntos). Minha vida não tinha sofrido grandes mudanças desde que Zachary terminou comigo, dois anos atrás. Mas, ei, ele não precisava saber disso. Existe forma melhor de esbarrar em um ex do que quando você está acompanhado de uma celebridade?
- Bem, nós...
- Já faz um tempo – Harry me interrompeu, lançando para Rosie um sorriso galanteador. Quis rir da expressão de Rosie naquele momento, mas tinha certeza de que eu parecia igualmente idiota sempre que Harry sorria para mim. – Olá. É um prazer conhecer vocês.
- Isso é... Inesperado. – Rosie concluiu, já livre do transe que o sorriso de Harry lhe causara. – Destiny nunca foi de ter amigos. Pelo menos não na escola... Oh! Eu nem mencionei. Nós estudamos juntas.
- Sério? – Harry fingiu surpresa – Destiny nunca mencionou nada sobre você.
Mas eu acabei de...
- Eu tenho certeza de que Destiny falou sobre mim... – Zachary, que até então só observava a conversa, resolveu se manifestar. – Nós éramos namorados.
Ele sorriu convencido, e Rosie beliscou sua barriga logo em seguida.
Harry estreitou os olhos e apertou os lábios, parecendo estar forçando a memória.
- Humm. Eu realmente não me lembro.
O sorriso convencido de Zach se desmanchou aos poucos. Ele provavelmente sentia-se desolado diante da ideia de ser irrelevante para alguém.
- Bem, isso não importa. Passado é passado. – Zach então se virou para mim. - Mas, ei, Des. Que coincidência termos nos encontrado aqui. Você sabe, Rosie e eu estamos planejando nosso casamento e precisamos de uma banda de baile. Você ainda canta em uma?
Eu estava prestes a dizer sim quando Harry me interrompeu outra vez.
- Na verdade, ela acabou de sair da Forever. Não é, Des?
Ele me lançou um olhar significativo, como se dissesse “apenas me acompanhe.
- Sim! – respondi, ainda mantendo o contato visual com Harry. Ok, eu te acompanho. Mas para onde? – Literalmente. Acabei de sair.
- Des está muito ocupada me ajudando a compor para o meu álbum. E eu estou produzindo o álbum dela.
Oh, Deus. Aquilo estava saindo melhor que o esperado. Eu mal podia acreditar que Harry estava fazendo tudo isso por vontade própria. Eu queria abraçá-lo imediatamente.
- Cara…mbolas! – foi a resposta de Zach. Meu ex-namorado mantinha uma política anti-palavrões, e usava “carambolas” sempre que a) sentia-se realmente surpreso e b) era tentado a usar a outra palavra com C. Caralho. - Que pena. Queria que você cantasse no nosso casamento. Foi ideia da Rosie. Mas você fez uma boa escolha, Harry. Essa garota aqui – ele massageou meu ombro com uma de suas mãos - escreve ótimas músicas.
Retirei a mão de Zach do meu ombro e tive a sensação de que Rosie queria fazer a mesma coisa.
- Eu sei – Harry respondeu incisivo, sorrindo de forma cínica.
Tensão por minha causa?
- Bem, nós temos que ir agora. – Harry segurou minha mão, me pegando de surpresa. – Vamos, babe? – ele olhou para mim, esperando uma resposta.
Eu gostaria de ter sido mais rápida. Eu sabia que era um teatro. Tudo o que Harry estava fazendo não passava de um ato para me ajudar a sair por cima de toda aquela confusão, e eu estava grata por isso. Eu só não cogitava a possibilidade de mais uma reviravolta. Ser a parceira de trabalho já estava de bom tamanho. Mas ele me chamou de... babe?
Devido a minha lerdeza, Harry teve de agir sozinho, levantando-se da mesa e me levando junto dele.
- Até mais, Rosie. – ele acenou com a cabeça. – Prazer em te conhecer, Zaff.
- É Zach – Zachary corrigiu prontamente, observando a tudo embasbacado.
- P-prazer em rever vocês. – foi o que eu consegui dizer, enquanto permitia que Harry me guiasse para fora da Go Greek Fro.
Eu podia ver as expressões confusas nos rostos de Rosie e Zach. Eles provavelmente tentavam digerir o que acabara de acontecer. Mas eu podia apostar que nenhum dos dois estava mais confuso do que eu. Harry ainda segurava a minha mão com firmeza, e seu toque era tão quente e macio que parecia natural que continuássemos de mãos dadas. Parecia natural, também, que ele soubesse tudo sobre mim e até me chamasse por um nome carinhoso – como fizera ainda há pouco. Era estranho. Com exceção de Anne e papai, eu nunca havia me sentido tão confortável com outra pessoa em tão pouco tempo.
Ainda me segurando pela mão, Harry me levou até o seu carro, estacionado a poucos metros dali, e abriu a porta do passageiro para que eu entrasse. Apenas o obedeci e observei enquanto ele dava a volta e se acomodava no banco do motorista.
- Não se preocupe, eu não vou te sequestrar – ele brincou, encaixando a chave na ignição. – É só que... Paparazzi.
Ah, sim. É claro que dezenas de paparazzi aguardavam ansiosamente por Harry na porta de onde estávamos. É claro também que fotos de nós dois foram tiradas enquanto saíamos, mas assim que Harry deu partida em seu carro, nenhum deles tentou nos seguir. Bem, pelo menos não explicitamente.
- Deixe-me ver se eu entendi. Você acabou de fingir que era meu namorado? Na frente do meu ex e da noiva dele? – todas aquelas perguntas eram retóricas. Era exatamente aquilo que ele havia feito. Eu só ainda tinha dificuldade para acreditar. – Uau, Harry. Você é demais.
Harry olhou para mim e sorriu. Era incrível. Sempre que Harry sorria, todo o seu rosto se iluminava. Ele era o próprio sol.
- Eu estou falando sério. Você é a melhor pessoa da face da Terra.
- Não foi nada. – ele deu de ombros, prestando atenção no caminho.
Nós já estávamos a alguns quarteirões de distância da Go Greek Fro quando Harry decidiu estacionar em uma rua não muito movimentada. Apenas algumas crianças brincavam em um parque mais adiante, e nenhuma delas parecia interessada na Range Rover parada ali perto.
- Eu não estava mentindo, sabia? – Harry disse, depois de alguns segundos em silêncio. – Quero dizer, eu estava. Mas eu queria não estar.
- Oi?
- Quero dizer, claro que depende de você. – ele continuou, como se não tivesse me escutado. – Na verdade, foi por isso que eu te chamei aqui.
Harry deve ter percebido o ponto de interrogação estampado em meu rosto, pois se calou subitamente e pediu desculpa.
- Deixe-me começar de novo. – ele limpou a garganta e ajeitou a postura, assumindo um tom de voz bastante profissional. - Você conhece Leonard Winston?
- Claro que eu conheço Leonard Winson. – respondi. - Quem não conhece?
Provavelmente muita gente. Ninguém tinha a obrigação de conhecer uma das figuras mais influentes do mundo da música. Mas eu conhecia. E sentia-me empolgada só de ouvir aquele nome.
- Bem, nós somos amigos. – ele disse, como se não fosse nada. – Na verdade, eu trabalho com ele.
- Você o quê???
Eu estava genuinamente em choque.
- Desde ontem eu não tiro a sua voz da minha cabeça. Quero dizer, a sua música. – ele se corrigiu rapidamente. – A sua música, Des... Não é algo que você escuta todo dia. Então eu fui conversar com o Leonard, e falei com ele sobre você.
- Você O QUÊ?!? – repeti, dessa vez duas oitavas mais alto.
- E ele quer te ouvir. – Harry sorriu orgulhoso, ignorando minha pergunta. – Ele realmente quer. Mas tem que ser rápido, ele é um cara ocupado. Então... Hum... Será Você teria alguma demo que eu possa mostrar?
Era fofa a capacidade de Harry de tratar assuntos importantíssimos como se fossem coisas corriqueiras.
“Olá, Destiny. Bom dia. O céu é azul. Você gosta de frozen yogurt? E, ah, existe alguma demo que eu possa mostrar para o grandioso LEONARD WINSTON?”
- Sim! – afirmei, sentindo-me sobrecarregada pela emoção. – Quero dizer, não exatamente. Mas eu posso ter! Você está mesmo falando sério?
Eu estava prestes a chorar. Eu sei, eu sei. Parecia exagerado, certo? Era apenas uma possibilidade. Leonard Winston sequer tinha ouvido minhas canções, e eu não sabia se ele iria gostar ou não. Mas, naquele momento, tudo parecia prestes a mudar. E eu havia esperado tanto tempo...
Os olhos de Harry brilhavam com excitação.
- Eu estou falando sério, Destiny’s Child! – ele estava quase tão empolgado quanto eu. – Tudo o que você precisa fazer é me enviar uma demo. Nada muito elaborado. Três músicas estariam de bom tamanho.
- Ok. Eu tenho uma demo antiga em casa. – eu balançava a cabeça afirmativamente, como se estivesse recebendo instruções de um técnico de futebol. – E posso gravar Champagne Kisses hoje mesmo e te mandar... Por email!
- Isso! Por email! – Harry retirou uma caneta do porta-luvas e agarrou a minha mão. Então, começou a rabiscar algo em minha palma: - Esse é o meu email... Droga, por que essa caneta não funciona?
- Harry... – disse, encarando-o com preocupação. Será que ele estava bem? – É 2015. Você pode me mandar o endereço pelo celular.
- Oh.
Ele soltou a minha mão, parecendo sem graça diante do meu comentário.
Borboleta 1: Qual é o seu problema??? Ele só queria segurar a sua mão, sua estúpida.
Borboleta 2: Igualzinho àquela música dos Beatles.
Borboleta 3: I wanna hold your haaaaaaaaaand.
TODAS JUNTAS: POR QUE VOCÊ NOS ODEIA, DESTINY?
Será que elas estavam certas?
Senti o celular vibrar na minha bolsa. Havia chegado um email de Harry:
Pronto.” Era o que dizia o corpo da mensagem.
Ergui os olhos para encontrar Harry me observando, exibindo um sorriso despreocupado. Uma das minhas várias coisas favoritas sobre ele era que, quando estávamos juntos, não havia muitos momentos constrangedores. Sempre que algo acontecia para arruinar o clima – como na noite anterior, quando quase nos beijamos -, ele parecia contornar a situação da forma mais descontraída possível. Eu invejava aquela qualidade, e me sentia grata por ele ser assim.
- Então... – ele quebrou o silêncio. – Eu vou dar uma festa na minha casa amanhã, e você está convidada. Aí você aproveita e me passa a demo.
- Ai, droga. – estapeei minha própria testa, lembrando-me da realidade na qual eu me encontrava. – Eu trabalho amanhã. Dá pra acreditar que algumas pessoas escolhem se casar num domingo?
Harry riu.
- Bem, você pode ir depois. Quero dizer, se não estiver cansada. Tenho certeza de que não vai acabar cedo.
Ah, pessoas ricas. Fazendo festas sem hora para acabar, independente do dia da semana.
- Humm. É verdade. – disse, sem muita segurança. Por que eu estava tão nervosa diante daquela ideia? – Acho que posso ir.
- Okay. Te passo meu endereço pelo celular. Você sabe... – ele piscou para mim, divertido. - É 2015 e tudo o mais.
Ri, sentindo minhas bochechas esquentarem.
- Você pode escrever na minha mão, se quiser – estendi a palma da mão direita. A mesma que ele havia tocado anteriormente. – Acho que é mais seguro para um popstar. Pessoas não podem hackear palmas de mão.
Harry fez que sim com a cabeça, parecendo refletir sobre o que eu acabara de dizer. Então, retirou a tampa da caneta com os dentes e segurou a minha mão estendida.
- Bom ponto. Espeho que hocê entenda a miha letra. – ele disse, começando a rabiscar o seu endereço em minha palma. A tampa da caneta ainda estava entre seus dentes, o que atrapalhava um pouco a sua fala. – E, por favor... – Harry olhou diretamente em meus olhos. – Não pense em lavar a mão antes de decorar o que está escrito aqui.
Demorei alguns segundos para responder. Eu estava completamente absorta naqueles olhos verdes, que mais pareciam pedrinhas preciosas. Quanto mais eu prestava atenção, mais parecia ter o que descobrir.
- Não vou.
Olhei para as mãos de Harry, firmes ao redor da minha. Ele já havia terminado de escrever o endereço de sua casa e, outra vez, não tinha motivo para continuarmos de mãos dadas. Ainda assim, parecia o certo a se fazer. Senti Harry acariciar de leve a palma da minha mão com o polegar, enquanto um sorriso teimava em surgir no canto da sua boca. Ele não parecia estar com pressa, e eu também não estava. Na verdade, eu podia sentir o tempo passando devagar, e conseguia aproveitar cada segundo. Naquele momento, me lembrei das palavras de Susie:
Vocês nem se beijaram, e já tiveram momentos mais românticos que muitos casais que eu conheço. Tenho certeza de que isso significa algo.
Mordi o lábio, sem conseguir conter o sorriso. Talvez Susie estivesse certa. E talvez Harry se sentisse daquela forma também.
Sem pressa, e sem nostalgia.
Nós estávamos exatamente onde deveríamos estar.


Continua...



Nota da autora: “Gente, que história é essa que morri? Tava lavando o cabelo...” ARANTES, Ariadna. (2008)
Essa atualização é pra todo mundo que achou que When Harry Met Destiny tinha morrido, batido as botas, partido dessa para uma melhor. Por favor, não criemos pânico!!! Assim como nossa querida Ariadna Arantes, WHMD não morreu, só estava lavando o cabelo. E há momentos na vida do cidadão em que ele leva mais tempo que o considerado normal pra lavar o cabelo, fazer o quê. Temos que respeitar o tempo de cada um. Mas o importante é que estamos aqui, e a PARTE II DO CAPÍTULO 9 FINALMENTE CHEGOU. YAAAAY. Vamos conversar sobre o capítulo: qual foi a parte favorita de vocês? Gostaram da Cassie? Do flashback? Do, ew, ex-namorado da Des? E dos momentos do nosso querido OTP (Hastiny? Hestiny? Ainda não tenho nome para o ship). Olha, espero que sim, porque quase pari um filho escrevendo esse capítulo. Nem acredito que terminei. Mas Deus é pai e nunca falha.
Enfim, chega de conversa. Obrigada a todo mundo que lê essa fic e pelas coisas bonitinhas que vocês dizem. Eis aqui minhas redes sociais, caso queiram ter um contato mais íntimo (ui):
Twitter: @WhenHarryMetDes
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Até a próxima!





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