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Última atualização: 10/06/2017


Capítulo 1 - Who Am I To Say?



O tempo estava propício para eu escrever em meu diário que tem apenas três meses de existência. Eu adorava o som da chuva caindo no telhado e o cheiro de terra molhada que vinha com ela, que definitivamente não combinava com o som do batuque dos meus dedos naquela mesa de madeira enquanto eu aguardava o neurologista chegar.
Minha mãe estava inquieta e vestia um suéter verde escuro que combinava com a personalidade dela, bom, pelo menos a que eu conheço nesses últimos meses já que eu era apenas a garota que havia perdido a memória e que estava envolvida em um caso de tentativa de assassinato, mas não é tão ruim quanto parece, pelo menos pra mim, porque não me lembro de nada, mas minha mãe insistia nesse caso e pelo o que eu percebi nesses últimos três meses a conhecendo, sei que não vai descansar até que tudo seja provado do jeito que ela quer e eu não ajudo muito não lembrando o ocorrido, só sei que foi por essa suspeita de assassinato que eu perdi a memória, então todos os dias alguém me conta sobre as coisas que eu fazia no passado e de como eu era.
Às vezes é legal ouvir falarem de coisas que eu fazia, onde eu costumava ir, quem eu conhecia, o que eu gostava de fazer... Mas as vezes é agonizante saber que eu tinha uma vida quase perfeita e agora parece que eu renasci e não lembro de nada disso, essas coisas foram tiradas de mim quando fui atropelada e quem estava no volante era meu namorado, ou melhor, ex namorado, já que ele está preso e eu nunca o vi e nem um traço de memória eu tenho dele.

O neurologista entrou na sala e ela ficou ainda mais gelada, se isso é possível. Notei que ele trazia várias pastas de papéis embaixo do braço, provavelmente eram meus novos exames, já que duas vezes por mês eu tenho que fazê-los, esse era o sexto exame e eu ainda não sabia quantos exames a mais eu tinha que fazer para sair da clínica. Ah é, esqueci de mencionar que estou internada em uma clínica de reabilitação desde quando ocorreu o acidente, ou incidente, ou tentativa de assassinato, enfim, são apenas títulos que eu tenho ouvido durante esses longos três meses e tenho a absoluta certeza de que não vou me adaptar a nenhum deles.
O médico apertou minha mão e a da minha mãe nos cumprimentando e sentou-se de frente a nós.
- Bom dia , como está se sentindo hoje? – Perguntou direcionando seu olhar a minha pessoa.
- Do mesmo jeito que eu estava me sentindo ontem – Retruquei.
- E como estava se sentindo ontem? – Ele insistiu.
- Bem normal.
- Ótimo – Ele disse e sorriu sem mostrar os dentes, o que fazia formar pequenas rugas ao redor de seus olhos que dava para ver explicitamente através de seus óculos.
- Como estão os exames, Doutor? – Perguntou minha mãe com um leve tom de ansiedade, o que tem sido uma rotina nesses três meses que eu venho convivendo com ela.
- Estão normais. Atividades cerebrais normais, nenhuma outra lesão – Respondeu ele, sorrindo de novo e formando rugas ao redor dos olhos.
Minha mãe abriu a boca para acrescentar mais alguma coisa, só que ela foi interrompida pelo médico.
- Queria lhe avisar que o pedido que eu fiz há um mês foi aceito pelo departamento jurídico – Ele dizia enquanto apoiava os cotovelos na mesa e entrelaçava seus dedos para descansar seu queixo sobre o mesmo – virá amanhã.
Espere aí, ele disse ? Eu ouvi direito? Pedido aceito, departamento jurídico e ?
Minha expressão facial mudou, posso dizer que naquele momento fiquei de boca aberta. Por essa eu definitivamente não esperava.
, meu namorado, ou melhor, ex namorado vai estar aqui amanhã. A pessoa que eu mais ouvi falar durante essa minha existência pós perda da memória, a pessoa que está sendo julgada por ter me atropelado e me deixado nessa condição. , a pessoa que eu não conheço.
- Mas ele não está preso? – Respondi assim que meu cérebro voltou a funcionar.
- Sim – O médico confirmou – Ele virá sob supervisão de policiais e guardas.
Posso dizer que nesse momento meu chão não existia mais e eu sentia a minha garganta totalmente seca.
- Ainda não acho isso uma boa idéia – Disse minha mãe preocupada.
- Tenho que discordar – Ele retrucou – Ver o rosto dele, ouvir o som da voz dele, pode ser uma evolução para a memória de .
“Ver o rosto dele”. Ao ouvir essa palavra eu congelei e senti um calafrio subir rapidamente por minha espinha.
Eu não sabia como era a sua aparência, mas através do que todos dizem a imagem que eu tenho guardada na minha cabeça é a de uma pessoa horrível, monstruosa e sem sentimentos, o que me deixa em um conflito comigo mesma ao pensar que eu amei um monstro.
- Espere, por que eu estou sabendo disso só agora? De última hora? - As palavras saíram de minha boca enquanto eu apertava os olhos e fazia rugas na testa em oposição de ser a última a saber, se viesse eu deveria ter um aviso prévio, não saber disso um dia antes.
Minha mãe se endireitou na cadeira e cruzou os braços. Eu conhecia essa expressão corporal, tudo indicava que ela também já sabia.
- Eu não imaginei que a justiça iria aceitar esse absurdo – ela disse revirando os olhos e prosseguiu – Ele é um psicopata e eu não concordo com isso, mas aceitarei se for uma chance de você recuperar a memória e nos contar como ele fez aquilo.

Na manhã seguinte...
Eu estava parada em frente ao espelho observando minha palidez, enquanto mil coisas passavam em minha cabeça.
Minha mãe contava com essa visita para eu poder incriminar ainda mais . Meu neurologista contava com essa visita para observar se alguma evolução em minha memória ocorre. A justiça contava com essa visita para saber o que realmente aconteceu naquela noite. Eu contava com essa visita para buscar algumas respostas. Já , eu não sabia o que ele contava com essa visita e isso me assustava demais.
Me aproximei da janela do meu quarto e senti um vento frio tocar minha pele, então me dei conta que eu estava só com uma regata preta.
Fui até meu armário e peguei um moletom cinza e a vesti. Dei uma ultima olhava no espelho quando um dos enfermeiros me chamou alertando que já estava na hora de eu ir para a sala de visitas.

Caminhava pelo longo corredor com minha mãe ao meu lado dizendo tudo o que eu já tinha ouvido antes. “Ele é um assassino” “Ele é um psicopata” “Ele não tem amor no coração” “Ele não se importa com ninguém a não ser ele mesmo”.
Por mais que ela falasse sobre isso, minha cabeça estava em outra dimensão. Pensava que em alguns minutos eu ia saber como ele era. Eu iria ver seu rosto, ouvir sua voz, saber dele o que aconteceu e o porquê aconteceu, só assim eu terei um pouco de paz em minha cabeça.
Adentrei a sala sozinha, minha mãe ficou junto com o meu neurologista do lado de fora em uma janela que parecia um espelho dentro da sala.
Olhei ao redor e vi uma mesa com duas cadeiras bem no centro da sala, então me direcionei até uma das cadeiras e me sentei nela.
Ouvi a porta abrir, e um homem que provavelmente era um policial adentrou, caminhou em minha direção e apoiou a mão em meu ombro. Olhei para cima e o que mais acentuava seu rosto era um bigode grisalho.
- Tudo o que disser aqui vai ser gravado – Ele disse em um tom sério e autoritário – Ele pode usar argumentos para benefício dele – Continuou o policial com bigode e apontou para um botão vermelho do meu lado na mesa – Se você achar que a conversa passou dos limites, é só apertar esse botão que entraremos e encerraremos a visita – Terminou e ficou parado olhando para o meu rosto, esperando que eu desse alguma resposta, então eu acenei positivamente com a cabeça e ele saiu de imediato.

Fiquei sozinha naquela sala gelada por uns quinze minutos, batucando meus dedos na mesa de metal, eu tinha essa mania de batucar os dedos em mesas quando estava preocupada com alguma coisa, foi então que ouvi um alarme tocar e me ajeitei na cadeira.
A porta se abriu e por ela passou dois policiais um de cada lado segurando os braços dele, . Olhei em seu rosto pela primeira vez e se eu tivesse tomando alguma coisa, provavelmente eu cuspiria pelo nariz e pela boca. Ele não era um monstro, ele não era uma aberração, ele era a merda de um Deus. Ele era mais alto que os dois policiais que seguravam seus braços, ele vestia uma blusa de manga comprida cinza e uma calça também cinza junto com um par de sapatos gastos preto, uma roupa de presidiário. Seu cabelo estava penteado para trás e um pouco bagunçado. Naquele momento eu tremi e tentei disfarçar para que ninguém percebesse, ou melhor, para que ele não percebesse.
Os dois policiais o colocaram sentado na cadeira em frente a minha e a única coisa que nos separava era a mesa. Notei que suas mãos estavam algemadas e antes que os dois policiais pudessem sair eu soltei:
- Não precisa de algemas.
Sabe quando a sua boca é mais rápida que o seu cérebro? Então, foi isso o que aconteceu e nesse mesmo instante, olhou bem nos meus olhos e deu um sorriso de lado sarcástico.
Meu Deus, seus olhos eram intensamente e pareciam querer me devorar, já que eu mal conseguia respirar enquanto processava os efeitos que seus olhos provocavam em mim.
- Senhorita, tem certeza? – Um dos policiais disse, acordando-me de meus devaneios.
Assenti com a cabeça, então esse mesmo policial retirou de seu bolso um par de chaves e retirou as algemas de . Assim que o fez, os dois policiais se encaminharam para fora da sala me deixando sozinha com ele.
Eu continuava encarando seus olhos, não foi um momento tenso, mas também não foi tão relaxante assim. Aquele olhar despertava algo familiar em mim, era como se ao mesmo tempo em que me devorava, ele me acolhesse.
- Tem alguma pergunta, ? – Disse e eu mais uma vez gelei, tremi, arrepiei.
Sua voz também despertava algo familiar em mim, mas eu não conseguia reconhecer o que era exatamente.
Eu podia ter perguntado “Como vai?” ou então “Atropelou mais alguém na cadeia?”, mas meu cérebro não conseguia mandar uma resposta rápida para a minha boca.
- Como foi? – Perguntei séria.
franziu a testa e deu outro sorrisinho de volta.
- Como foi o quê? - Ele perguntou.
- Como foi que nos conhecemos?
Eu precisava saber disso, porque eu estava cansada demais de ouvir sobre acidentes, carros, psicoses, leis, cadeia e memória.
- No colégio – Respondeu ele e se ajeitou na cadeira.
- Pode ser mais específico?
Cruzei meus braços sobre o peito e o encarei séria. Se ele pensa que podia me intimidar eu podia fazer o mesmo. Depois de três meses ouvindo horrores dele eu estava com minhas defesas emocionais bem estruturadas.
também cruzou os braços sobre o peito e sorriu mais uma vez, e por pior que pareça eu estava me acostumando e gostando de seus sorrisos, por mais sarcásticos que pareciam ser.
- Foi em uma manhã – fez uma pausa para respirar e continuou – Chovia muito naquela manhã e eu não tinha ido a aula, mas você, sua melhor amiga e meu amigo foram – Ele mordeu o lábio inferior antes de prosseguir – E como a sua amiga estava afim do meu amigo, vocês três e mais quatro pessoas foram até a minha casa, pois eu morava perto do colégio onde estudávamos – Conforme ele ia falando, eu ia sendo sugada para outro mundo que eu não reconhecia – Então todos começaram a beber vodka, inclusive você e começaram a jogar verdade ou desafio. Sua melhor amiga beijou meu amigo e você decidiu vagar pela casa e me encontrou no escritório do meu pai enquanto eu arrumava alguns discos – Ele entortou a cabeça para o lado e apertou um pouco os olhos – Então você começou a me fazer perguntas e eu te ofereci um copo de whisky do meu pai e você aceitou. Ficamos conversando por praticamente meia hora até que eu decidi beijar você e você retribuiu e a partir daquele dia eu não queria mais te deixar ir embora.
Eu conseguia me imaginar nessa cena conforme ele ia contando e isso era tão... bom, em três meses nunca ninguém havia feito isso comigo e em cinco minutos fez, definitivamente eu tinha alguma conexão com ele.
- E como foi depois disso?
Não eram as perguntas que minha mãe ou os policiais queriam saber, mas que se foda, eu queria saber e isso era importante para mim e naquele momento eu só conseguia pensar em mim.
- E depois disso ficamos cada vez mais próximos, a ponto de um não querer mais abandonar o outro.
- E foi por isso que você me odeia? – O interrompi.
- Eu não te odeio, da onde tirou isso?
Ele parecia assustado com a minha pergunta, pude perceber isso através das expressões em sua face, pelo visto peguei o ponto fraco dele.
- Pelo o que você fez não parece gostar – Retruquei irônica.
- Então você não sabe o que é gostar – Respondeu ele.
- Bom, gostar é cuidar um do outro – Respondi séria.
Então ele riu. Sim, ele simplesmente riu.
- A gente costumava a fazer isso – Disse ele, ainda rindo.
- Isso o quê? Cuidar um do outro?
- Não – ele negou – Discutir, argumentar. Era isso o tempo todo, você dizia que era o nosso passatempo favorito.
- Então por que você me atropelou? – Fui direta, eu precisava saber disso também.
Posso afirmar que no exato momento em que fiz a pergunta, o sorriso em seus lábios desmanchou e deu lugar a uma expressão até triste, mas eu não o conhecia tão bem para saber se ele estava triste ou planejando uma estratégia para eu cair em sua armadilha.
- Porque você pulou na frente do meu carro – afirmou, enquanto se mexia na cadeira e olhava para o espelho que provavelmente ele sabia que era uma janela onde as pessoas de fora podiam ver claramente o que acontecia dentro da sala.
Posso dizer que outra vez eu perdi o chão com a sua afirmação. Esse era definitivamente um lado da história que eu não tinha ouvido antes.
- Então você está dizendo que eu pulei na frente do seu carro e perdi a memória por isso? Ta me chamando de burra?
- Foi isso o que aconteceu, não posso mudar as suas atitudes – ele inclinou um pouco o corpo para frente, dando uma proximidade entre nós e então apoiou as mãos em cima da mesa – Nós discutimos feio aquela noite, então eu parei o carro e tentei te acalmar, mas você saiu. Bateu a porta como se não existisse geladeira no mundo e começou a correr. Então eu liguei o carro e fui atrás de você – Ele fez uma pausa, olhou para baixo e respirou fundo – Foi aí que você olhou para trás e simplesmente se jogou na frente do meu carro – Ele deu outra pausa e me encarou, dessa vez ele me olhava sério, transparecia em suas expressões que isso não era nada engraçado para ele – Você não queria se machucar ou perder a memória. Você fez isso pra me atingir, você fez isso para me machucar, porque você sabia que o meu ponto fraco é você.
Meu coração batia tão forte e acelerado que até podia ouvir. “Meu ponto fraco é você” ficou batucando em minha cabeça, essa frase está no presente “é você”. Saber dessa versão da história não deixou as coisas mais fáceis, na verdade deixou tudo mais complicado. Naquele momento eu não tinha mais estruturas nenhuma, não havia mais defesas que eu construí, tudo acabou ali e antes que eu pudesse dar continuidade a conversa, ouvi novamente o alarme e os dois policiais entraram novamente na sala e foi ai que o desespero bateu forte. Ele não podia ir embora, isso não esclarece mais nada, isso me coloca como a louca da história.
podia ver o desespero estampado em meu rosto enquanto os dois policiais voltavam a algemar ele, e então ele foi puxado pelos mesmos, ficando em pé e caminhando em direção a porta enquanto eu via tudo em câmera lenta.
- Isso não acaba por aqui – com todas as forças eu gritei – Você precisa voltar e me contar mais sobre isso, não pode terminar assim.
virou o rosto em minha direção e deu aquele sorrisinho antes de dizer suas últimas palavras pra mim naquele dia.
- Eu vou voltar, pode ter certeza de que vou voltar.

Capítulo 2 - Pieces


Minha mochila estava arrumada enquanto eu dava uma última olhada no espelho do meu quarto. Estava tudo em ordem, uniforme, moletom e um enorme guarda-chuva. Sempre odiei ir às aulas com chuva, pra mim deveria ser considerado um feriado, mas eu já havia faltado muito e minha mãe me mataria se eu faltasse novamente, então entrei no ônibus e fui para o meu colégio.
Encontrei no longo corredor que dava para o pátio e ela veio em minha direção com um sorriso fora do comum, eu conhecia minha melhor amiga e quando ela sorria dessa forma é porque queria aprontar algo. Assim que ela se aproximou, tratou logo de envolver um dos seus braços em volta de meu pescoço e ficou na ponta dos pés, já que a mesma era mais baixa que eu.
- O que você queria fazer nesse momento? – Ela me disse, mantendo o mesmo sorriso nos lábios, o que me deixou intrigada.
- Queria estar em casa dormindo? , são sete e meia da manhã – Respondi em um tom irônico e comecei a rir em seguida devido ao ânimo da minha melhor amiga.
Então tirou o braço que estava em volta do meu pescoço e cruzou ambos os braços sobre os peitos e ergueu uma das sobrancelhas, parando seu corpo de frente ao meu.
- Mas tem algo muito melhor do que dormir a essas horas! Vamos lá, vou te dar mais uma chance – Disse ela, continuando a me encarar de forma curiosa e então eu fiquei ainda mais intrigada.
- Ahn... Não sei, melhor do que dormir? Comer? – Comecei a rir, não sabia qual era o plano diabólico dela e nem o porquê ela estava tentando me fazer adivinhar o que era, eu sempre fui péssima em adivinhar as coisas.
- Não – Retrucou ela, dando um leve tapinha em meu braço – Adivinha quem vai na casa do daqui quinze minutos?
começou a dar pulinhos e bater palminhas de um jeito tanto histérico, o que me deixou completamente confusa e indagando como ela ficaria feliz pelo fato de outras pessoas irem à casa de ?
- Os alcoólatras do colégio? As meninas populares que tiveram relações sexuais prematuras?
Foi minha vez de cruzar os braços sobre os peitos e franzir a testa ao responder a pergunta de minha amiga. As festas de eram conhecidas por terem excesso de bebidas e adolescentes fazendo sexo praticamente em público. Eu nunca fui a uma, quase fui convidada uma vez, na verdade foi o meu ex-namorado quem foi convidado já que ele era popular por ser o melhor jogador de futebol do colégio e estava entre os mais bonitos também, mas não chegamos a ir à festa e sei que tinha uma queda pelo melhor amigo de desde o jardim de infância e sempre quis ir a uma dessas festas para ficar perto de , seu melhor amigo, mas assim como eu, ela nunca foi.
- Nós vamos – Respondeu retomando o sorriso anterior.
Posso dizer que nesse momento arregalei os olhos e franzi ainda mais a testa. Como era possível sermos convidadas para ir à casa de em uma quarta-feira às sete e meia da manhã?
- O que? – Posso dizer que minha voz saiu mais alta do que o comum, então tentei dizer o resto da frase com a voz mais baixa – Como assim vamos a casa de ?
- Bom, hoje eu cheguei mais cedo, acho que foi por alguma ironia do destino, então aquela menina com cabelos longos e volumosos, também uma das mais famosas do colégio me pediu as anotações da aula de matemática e enquanto eu passava para ela, chegou e a convidou para ir à casa de e como eu estava junto ele disse – Ela pigarreou por um instante para imitar a voz dele – “Por que você não vem também? Você não é a amiga da ? Aliás, convide ela para vir junto”.
Nesse mesmo momento eu fiquei de boca aberta. Recebemos um convite para matarmos aula e ir a alguma festinha de poucas pessoas na casa de um cara que tem reputação de pegador que descarta mulheres cinco minutos após usá-las e já se deitou com metade do colégio, partindo corações de jovens ex-virgens inocentes e que acabei de descobrir que o melhor amigo dele sabe meu nome, isso tudo era uma loucura.
- Espera aí, como ele sabe meu nome? Ele me conhece? – Perguntei assim que saí do meu surto interno.
- , meu amor, todos te conhecem. Você é popular e nem sabe disso porque nunca se importou com essas coisas – me encarava de uma forma estranha, como se ela estivesse me dizendo o óbvio, só que pra mim não era óbvio – Você é linda, talentosa, ex-namorada de um dos caras mais populares do colégio, além disso, ultimamente sua bunda está ficando cada vez maior, o que torna impossível não chamar a atenção, principalmente dos garotos.
cuspiu as palavras tão rápido que nem consegui digeri-las direito, o que me fez lembrar do meu ex-namorado, será que todo mundo me achava doida por terminar com ele porque ele queria fazer sexo e eu não? Será que todos sabiam que eu era a virgem que deu o fora em um dos caras mais falado do colégio? Oh meu Deus, eu era popular e não sabia? Em que mundo eu estava quando isso aconteceu?
- E aí, vai ficar parada com essa cara de paisagem ou vamos tirar nossas bundas daqui e ir para a casa do ?
me despertou de meus devaneios e então a encarei. Ela tinha um certo brilho no olhar, daqueles em que a esperança do mundo todo estava concentrada e eu não podia dizer não quando ela tinha a oportunidade de ficar perto ou até rolar algo a mais com e para ser sincera eu queria ir. Eu estava curiosa para saber como é estar em uma festinha privada em uma quarta-feira de manhã e eu queria estar na casa dele, onde era conhecida por ter as melhores festas da cidade e então eu sorri para a minha melhor amiga.
- Certo, vamos lá!
Minha voz saiu mais animada do que o previsto, e isso me surpreendeu de certa forma. O que me deixava com os ânimos aflorados é que eu queria estar na casa dele agora com algumas pessoas que conversei poucas vezes na vida e outra nunca tinha nem cumprimentado e, além disso, e eu não éramos do tipo caseiras que ficavam em casa assistindo séries, bom, isso acontecia só quando não tinha nada pra fazer, mas costumávamos ir a bares legais com nossos amigos, lanchonetes, parques e casas de outros amigos quando tinha festa, nossa vida social era boa.
- Ótimo, me siga!
Disse me puxando pela mão, me levando corredor a fora. Descemos a grande escadaria que dava para os portões da escola que estava prestes a fechar e enquanto descíamos, coloquei a toca da minha blusa moletom azul marinho que vestia naquele dia para as gotas de chuva não me atingir. Ao chegarmos aos portões, notei e mais três rapazes junto a três moças perto dele e assim que nos avistou, acenou com a mão para que chegássemos mais perto. Assim que nos aproximamos o suficiente, vi vir em minha direção, fitando meus olhos de um jeito curioso, como se ele quisesse descobrir quem eu sou, mas na verdade ele ia se decepcionar, pois sou alguém comum, sem grandes conquistas e que não é fã de noitadas como ele era.
- E você deve ser a – Disse , estendendo a mão para que eu apertasse e assim o fiz – Prazer, sou .
- Prazer, – Foi a única coisa que consegui dizer enquanto dávamos aquele aperto de mão tanto embaraçoso para mim.
Assim que ele soltou minha mão, virou-se para todos nós e disse em um tom animado:
- Bom, quem não for ficar na aula hoje, sigam-me.

Seguíamos mesmo não precisando, conseguiríamos chegar a casa de sozinhas já que todos conheciam a casa dele. Ele morava perto do colégio, na casa mais bonita e grande que existia naquela rua. Sua família era muito rica e tinha muitas propriedades espalhadas pela cidade, além de uma empresa de remédios internacional.
Não demorou muito para avistarmos os grandes telhados do segundo andar da casa dele, eu já tinha visto antes, mas não tão de perto, era realmente incrível. Passamos por um imenso jardim e subimos a escada até chegar à porta da frente da casa e bateu três vezes.
abriu a porta e pareceu que aquela manhã cinzenta clareou. Ele estava com uma regata branca e uma calça jeans preta, combinando com um tênis que parecia absurdamente caro. Fitei seu rosto enquanto o mesmo estava distraído com as visitas, que iam entrando um por um enquanto esperava do lado oposto de na porta. Ele parecia um predador que faria qualquer garota de vítima facilmente e eu estava sendo sugada por suas expressões, até que desci meu olhar para sua boca que movia em câmera lenta, dando um sorriso expressivo para todos os que ele cumprimentava. Eu estava tão perdida em meus devaneios observando que notei que estava bem atrás de todos e que era a próxima a passar pela porta.
- E você quem é?
perguntou olhando de cima para baixo e então tomou a frente e disse:
- Essa é , minha convidada.
manteve seu semblante sério, parecia que não estava com paciência para pessoas novas e nesse instante eu me arrependi amargamente de ter ido até sua casa, tudo o que eu queria era voltar para a minha cama e ter faltado. Estava torcendo para que não entrasse. Ela estava parada bem a frente dele, sendo intimidada pelo seu olhar, sendo julgada e eu querendo que ela desse meia volta, me pegasse pelo braço e fosse embora como uma campeã, mas ao em vez disso ela simplesmente ficou parada sem dizer nada, parecia amedrontada.
- Pode entrar.
Disse de uma forma sarcástica e deu espaço para que ela entrasse e assim ela o fez e nesse momento eu a amaldiçoei em pensamento, pois a próxima a ser passada por aquela porta era eu e não estava preparada para isso.
Comecei a caminhar até a porta lentamente já que eu era a última a entrar e se desse tempo eu podia dar meia volta e ir embora como devia ter feito , mas meus pés não me obedeciam, eles simplesmente me levaram até a entrada da porta e no instante seguinte senti algo me impedindo de passar.
Olhei para a frente e havia esticado o braço sobre a porta, o que fez meu busto chocar contra o mesmo e me fez dar um passo para trás.
- Sem capuz aqui, princesa.
Disse sarcasticamente referindo à toca da blusa de moletom que eu usava devido à chuva. Eu deveria ter saído correndo, mas ao contrário disso eu tirei a toca e revirei os olhos encarando . Seus olhos eram ameaçadores assim tão de perto e senti minhas pernas falharem por alguns segundos, eles pareciam querer me hipnotizar de alguma forma com alguma intenção desconhecida e eu tive medo naquele momento, medo do desconhecido, do mistério e posso dizer que senti um frio muito forte atingir a boca do meu estomago, o que me fez estremecer de leve sob o olhar de .
- Oh, é você – Respondeu ele, ainda fitando meus olhos.
- Por que o tom de surpresa?
Minha boca abriu antes que meu cérebro mandasse uma mensagem de “não seja rude” para ela. Notei me encarando de boca aberta e se eu conheço a minha melhor amiga, ela estava me condenando por ter dito aquilo, mas era tarde demais para voltar.
- Digamos que eu não esperava a sua visita em minha casa, , e me surpreendi com isso.
Um arrepio forte correu por minha espinha ao ouvir ele dizendo meu nome, sua voz era suave e tanto sedutora, foi aí que minha ficha caiu. Ele me conhece. Meu coração começou a bater mais rápido e sentia a adrenalina correr por meu corpo. Eu o conhecia e caras como ele não sabiam da minha existência, não no meu mundo, mas parece que namorar o capitão do time de futebol fez minha carreira se espalhar por aí.
- Então, vai me deixar entrar ou vai ficar o dia todo com o braço esticado me impedindo?
Meu tom era de puro sarcasmo, por mais que eu estava deslumbrada com a sua presença, não podia deixar transparecer que ele me deixava afetada, não queria o deixar ver uma menina frágil, não ele, então eu mantive o meu sarcasmo para me defender de tudo aquilo que eu tinha ouvido falar sobre ele ao longo dos anos no colégio e de tudo o que ele me fazia sentir naquele momento com apenas um olhar. Eu não queria, não podia ser outra conquista dele, não queria ser como uma mocinha fragilizada em um livro de romance, eu nunca fui assim e não deixaria alguns sinais fisiológicos me fragilizar.
Foi então que sorriu, mas não foi um sorriso sarcástico ou forçado como ele fez com o resto da visita, foi um sorriso sincero e algo em seu olhar tinha mudado, um brilho, uma curiosidade continha naqueles olhos tão grandes. Ele começou a abaixar o tronco em minha direção e posso dizer que minhas pernas tremeram naquele momento, mas eu consegui disfarçar e manter meu rosto sério, então senti seus lábios perto de minha orelha, o que me fez inspirar fundo naquele instante.
- Seja muito bem vinda então e fique a vontade – Sussurrou , tirando o braço da minha frente para que eu pudesse entrar e assim o fiz.

O salão principal era realmente enorme, daqueles que a gente só vê em filmes, a escadaria que dava para o andar de cima era toda moldurada pelo corrimão e naquele momento eu estava ainda mais deslumbrada com toda aquela visão.
Logo em seguida, parou do meu lado e me olhou de lado.
- Aqui é muito bonito, não é?
No momento em que meus olhos encontraram os deles eu sorri, sim, eu simplesmente sorri, estava tão deslumbrada com a visão que qualquer sentimento de revolta que estivesse dentro de mim sumira no mesmo instante e então respondi sincera.
- Muito bonita, estou de boca aberta.
Então apenas piscou para mim e saiu andando a minha frente, enquanto eu observava alguns quadros ao redor da sala e o resto do pessoal se acomodava na sala de estar para jogar verdade ou desafio.

Eu já havia perdido o número da rodada que estávamos no jogo, embora estivesse feliz por e terem se beijado em um desafio, parte de mim estava inquieta, pois havia saído do jogo para pegar mais bebida e eu sabia que estava aguardando sua volta. Mais duas rodadas passaram e eu disse que ia ao banheiro, mas na verdade era só uma desculpa para sair daquela situação.
Andei pelos grandes corredores da casa, observando os quadros antigos que havia sobre as paredes. Eu sempre gostei de quadros, artes e essas coisas, então posso dizer que naquele momento eu estava totalmente deslumbrada com aquilo, até que me deparei com uma porta entreaberta, iluminada por uma luz fraca. Eu sabia que ele estava ali, então sem pensar duas vezes, adentrei o local e me deparei com parado em pé em um tipo de escritório. Ele observava alguns discos de vinil. Na mão direita, segurava um copo de whisky, enquanto fumava seu cigarro. Ele estava tão distraído que nem notou que eu estava o encarando encostada no batente da porta.
- Você sabe que fumar faz mal, não sabe? – Perguntei em tom provocativo.
Imediatamente virou-se para onde eu estava com um olhar assustado, mas em seguida ele riu e apagou seu cigarro.
- Bom, eu sei, mas eu gosto de me fazer mal às vezes.
disse enquanto se aproximava de mim. Fitei seu rosto, tentando desvendar suas expressões, mas confesso que ele era um mistério para mim, então, involuntariamente eu sorri. Sim, eu sorri. Não sei como isso aconteceu e o porquê, mas quando eu me vi, já estava sorrindo e ele também. Encaramo-nos em silêncio e o que era para ser constrangedor, foi espontâneo. O clima não estava tenso, pelo contrário, estava leve, mas confesso que naquele momento eu queria ler seus pensamentos, porque jamais ninguém fez isso comigo. Eu mal podia acreditar que havia saído de um jogo aparentemente divertido para procurar e ficar um tempo a sós com ele e bom, eu havia conseguido o que eu queria e essa não era a primeira vez.
- Por que esse silêncio não é constrangedor? – Perguntou já próximo a mim.
Ele estava tão próximo que eu podia sentir sua respiração quente tocar de leve minha pele, e isso me torturava por dentro.
- Isso está me intrigando também – Respondi e o vi arquear uma das sobrancelhas – O silêncio não ser constrangedor entre duas pessoas que não se conhecem.
- Mas eu conheço você – Disse com a voz baixa, enquanto apoiava uma das mãos na porta, o que me fez ficar presa entre seu braço.
- Ah é? Mas eu duvido disso – Respondi o encarando tanto séria, e então ele riu. Ele simplesmente riu.
- Não é porque eu te conheço apenas de vista que eu não andei dando umas pesquisadas.
disse no mesmo momento em que levou uma das mãos em meu queixo e segurou o mesmo. Levantou meu rosto para que pudesse encará-lo melhor e ainda mantendo seus olhos nos meus, ele depositou seu copo de whisky em uma pequena mesa que estava bem ao lado dele.
- E se o que você pesquisou for mentira? – Perguntei enquanto era devorada por seus olhos.
- Então eu vou me importar o suficiente para procurar a verdade.
Eu não conseguia dizer mais nada e muito menos refletir direito, estava perdida em devaneios enquanto observava os olhos de ficarem ainda mais próximos dos meus, e segundos depois, senti os lábios quentes e macios de sobre os meus. Inspirei fundo e quis empurrá-lo e até bater nele, mas eu não o fiz, eu tinha gostado desse contato, então eu fui abrindo meus lábios lentamente junto com os dele e inspirei fundo quando senti sua língua tocar na minha, o que fez um choque percorrer meu corpo. Tratei logo de levar minha mão até seus cabelos e entrelaçar meus dedos nos mesmos e ouvi um grunhido baixinho escapar dos lábios dele, e eu quis sorrir satisfeita com aquilo, mas eu estava praticamente hipnotizada por seus lábios.
Ele segurou minha cintura com certa força e me prendeu contra a porta, o que fez a mesma fechar com brutalidade e quando dei por mim, estava presa entre o corpo de e a porta, foi então que decidi puxar seus cabelos que estavam emaranhados em meus dedos de leve, só para provocá-lo e em resposta ao meu ato, senti ele morder meu lábio inferior e no mesmo instante eu senti um arrepio mais forte percorrer meu corpo. Esse definitivamente era o beijo mais quente, mais ousado que eu já havia experimentado, eu nunca havia provado nada igual e por mais que meu cérebro gritasse “não”, o restante implorava o “sim”. retomou o beijo com mais avidez, parecia que esse era o nosso último beijo e não o primeiro. Sentia como se ambos precisassem desse contato, e nesse momento não existia mais jogos, provocações, ironias, apenas existia o agora e o agora era nós dois.
Um relâmpago clareou o escritório, o que nos fez parar o beijo e em seguida um barulho alto de trovão e então eu abri os olhos... E de repente estava em minha cama.

Meu coração estava disparado e minhas mãos estavam trêmulas. Eu havia sonhado com , com o que ele me contou quando veio me visitar na clínica, só que com muito mais detalhes. Não podia ser simplesmente um sonho, era real demais, eu senti tudo como se fosse real, seria um vestígio de minha memória?
Levantei-me da cama e perambulei pelo quarto por uns cinco minutos, pensamentos e mais pensamentos sobre o que eu havia sonhado invadiam minha consciência, me fazendo duvidar se era realmente um sonho ou um traço de memória. Eu precisava falar com o meu médico, com o neurologista, mas eram duas horas da manhã e ele não estava na clínica. Olhei para a pequena escrivaninha que ficava de frente para a janela e corri até a mesma, quando o quarto clareou com um relâmpago e em seguida veio um trovão, igual o do sonho, igual aquele que me acordou. Peguei algumas folhas em branco e uma caneta e depois liguei o pequeno abajur que ficava sobre a mesa e comecei a escrever cada detalhe desse sonho, tendo a certeza de que não era apenas um sonho.

Capítulo 3 - My Salvation


Fazia dois dias que eu havia falado com o meu neurologista sobre o meu sonho e ele simplesmente ignorou qualquer informação que eu trouxe, dizendo que fiquei impressionada com as palavras de em seu dia de visita e que imaginei tudo o que ele havia me dito e ainda por cima ignorou os detalhes que o sonho teve, detalhes que não havia me contado naquele dia.
Era uma quarta-feira, e eu simplesmente encarava a vista da janela do meu quarto que dava para um grande jardim com várias estatuas de todos os tipos possíveis. Inspirei fundo e fui até o pequeno armário que havia em meu quarto e peguei um cardigã preto, afinal, hoje era dia de atividades ao ar livre, ou seja, qualquer atividade que fosse fora do quarto e dos corredores da clínica.
Saí do meu quarto, cumprimentei alguns enfermeiros que passavam por ali e fui em direção ao jardim. Era um lugar agradável, nem parecia que eu estava presa em uma clínica especializada em reabilitações da mente, até porque o meu caso parecia ser o menos grave comparado aos outros pacientes. Avistei Marylinny ao longe, uma paciente também desmemoriada brincando com uma flor, ela tinha apenas 12 anos de idade e estava passando por todo esse transtorno, mas às vezes eu penso que seria mais fácil ser mais jovem e passar por isso, porque crianças constroem um mundo somente deles com a imaginação, um mundo capaz de deixar tudo melhor. Apenas sorri com essa possibilidade e acenei para a garotinha, que retribuiu o aceno e fiquei mais longos minutos sentada, admirando o verde daquele jardim.
Cansada de ficar sentada no mesmo banco, comecei a caminhar pelos cantos do jardim, até que avistei um corredor que eu ainda não conhecia bem próximo e quando dei por mim já tinha adentrado o mesmo e vagava distraidamente por ele. Esse corredor em particular era feito todo com janelas de vidro, onde havia pessoas dentro de suas respectivas salas exercendo suas respectivas funções, foi quando vi um jovem rapaz de costas observando o comportamento de uma pequena tartaruga marinha na terra. Comecei a rir comigo mesma com aquela cena, então me encostei ao batente da porta com os braços cruzados sobre o peito e disse em um tom alto.
- Essa tartaruga não se comportaria melhor na água? – Falei rindo.
Foi então que o rapaz que estava cuidando da tartaruga deu um pulo e virou-se imediatamente para mim e foi aí que congelei, sim, eu simplesmente congelei. Ele tinha uma barba tanto longa e seus cabelos estavam maiores do que no meu sonho, mas era ele, só podia ser ele, era , o melhor amigo de , o cara que eu sonhei há dois dias.
- ? – Ele gaguejou e arregalou os olhos, fitando diretamente meu rosto.
Eu não conseguia me mover naquele momento, era ele! Meu Deus, o que ele estava fazendo na clínica onde eu estava internada? O que ele fazia com aquela pobre tartaruga? Por que eu só fiquei sabendo disso agora? O que nós dois fazíamos ali?
- Você... Me conhece? – Meus lábios moveram antes que eu pudesse pensar em alguma outra pergunta do por que ele estar ali, tão perto de mim.
O rapaz passou as mãos por seus cabelos, de uma forma nervosa e logo se virou de costas a mim e colocou a tartaruga na água novamente e em fração de segundos, virou-se novamente a minha frente.
- Eu te conheço do colégio – Ele respondeu em um tom suave e seus olhos passaram pelo meu corpo, provavelmente estava se perguntando o que eu fazia ali – O que você faz aqui? – Perguntou ele.
- ? – Ignorei totalmente a pergunta dele e arrisquei saber se ele era realmente o com quem eu tinha sonhado.
- Você se lembra de mim? – Ele respondeu assustado.
Naquele momento me faltava tudo, me faltava o ar, me faltava o chão, me faltava um batimento cardíaco regulado, me faltava um ponto fixo para onde olhar.
- Podemos sair daqui? – Perguntei angustiada – Eu preciso de ar.
- Claro, – Ele disse, arrumando o que restava em sua mesa e logo passou pela porta e me segurou delicadamente em meus ombros – Vamos para o jardim.
Posso dizer que ele praticamente me carregou pelo corredor, ele era cauteloso e uma de suas mãos estava em meu ombro, enquanto a outra estava apoiada em minhas costas para que eu não caísse, e naquele momento eu me senti um pouco mais confortável com o seu cuidado comigo. Avistei um banco escondido no jardim e percebi que ele estava nos guiando exatamente até ele e assim que chegamos, me colocou sentada delicadamente no mesmo e logo se sentou ao meu lado e ficou em silêncio, sim, ele simplesmente ficou em silêncio esperando eu me recuperar. Fiquei alguns minutos inspirando e expirando com certa frequência e notei que mantinha seus olhos pacientemente focados em mim.
- Me desculpe por isso – Eu disse quando recuperei daquele pequeno surto.
Ele sorriu enquanto olhava diretamente em meus olhos e eu confesso que fiquei hipnotizada por seu sorriso. Seus olhos eram gentis, diferentes dos de , que queriam me devorar, me encantar, os deles pareciam querer me entender, me acalmar, eram olhos brilhantes e cheios de energia e naquele momento eles me confortaram, como se eu pudesse encontrar um lar de novo.
- Tudo bem , fique tranquila, eu te entendo – Ele disse, pousando uma das mãos em meu ombro e massageando o local delicadamente em seguida – Agora posso saber o que faz aqui?
- Bom, eu estou internada porque perdi a memória em um acidente de carro, não ficou sabendo? – Perguntei, ainda fitando seus olhos acolhedores.
- Sim, eu tentei te visitar, mas sua mãe não permitiu que eu o fizesse porque sou amigo do... – Ele pausou e me encarou, parecia sem jeito para terminar a frase.
- Eu sei de quem você é amigo – Finalizei.
- Mas como você sabe disso? – Ele perguntou, retirando sua mão de meu ombro e virando seu corpo e ficando de frente a mim.
Suspirei fundo, como eu iria explicar que eu sonhei com ele? Que veio me visitar? Eu realmente não sabia por onde começar, então me arrisquei novamente.
- Bom, veio me visitar com a supervisão de minha mãe, neurologistas e guardas – Comecei e tomei coragem para continuar – E depois disso, eu sonhei com o que ele me contou, eu sonhei exatamente com o dia em que fui a casa dele naquela manhã chuvosa que você convidou e eu para irmos até lá – Fiz uma pausa e coloquei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha – Você estava lá, eu vi o seu rosto, bom, tirando a barba e esse cabelo que está maior, mas eu te vi lá.
Assim que terminei a frase, eu estendi meu braço e toquei o rosto dele com a minha mão direita. Ele não pareceu hesitar e nem tentou me impedir, ao contrário, ele fechou os olhos por alguns segundos e voltou a abri-los e olhou nos meus. Foi um movimento ousado, mas eu sentia alguma coisa naquele momento, como se eu pudesse contar com ele, confiar, como se ele fosse me entender e me dar algumas respostas que eu procurava, como se ele fosse a única pessoa que pudesse me compreender.
- Você acha isso uma loucura? Eu sonhar com os rostos, com o acontecimento detalhadamente?
Vi seus olhos brilharem e um ar de alegria tomou conta de seu rosto sereno, e nesse momento eu tirei minha mão de seu rosto, acordei de meu transe e percebi que havia invadido o espaço dele, mas ele não pareceu se importar com isso.
- , eu estudo mentes, eu não acho que isso que sonhou seja apenas um sonho – Começou ele, e nesse momento sua mão tocou a minha de leve – Eu acho que o que te contou te deu indícios de volta de memória.
Posso dizer que nesse momento eu estava radiante, e um sorriso sincero surgiu em meus lábios pela primeira vez nesses meses que eu acordei do coma. Ele acabou de citar a minha teoria, então, sem hesitar eu segurei sua mão e senti entrelaçar seus dedos nos meus. Sua mão era gelada, mas macia e seus movimentos eram delicados, tudo o que eu precisava naquele momento para manter a calma.
- Então você pode falar com o meu neurologista? Você pode dizer a ele essa teoria?
- Infelizmente não , eu sou apenas um estagiário de neuropsicologia, não posso ter acesso a pacientes e nem aos seus prontuários, muito menos interferir no trabalho dos demais – Nesse momento nossos rostos adquiriram um tom mais triste – Mas existe isso em psicologia, mas não acredito que eles usem dessa teoria aqui, mas em outras clínicas sim.
- Então eu deveria mudar de clínica? – Perguntei.
- Não necessariamente, mas eu posso buscar essas informações com outros profissionais se você quiser.
Posso dizer que outro sorriso largo brotou em meus lábios, em eu encontrei um porto seguro, uma esperança. Ele realmente me entendia e eu estava feliz e entusiasmada para descobrir o que mais a minha memória tinha reservado.
- Eu gostaria muito – Respondi.
- Só uma coisa, – Ele comentou em um tom baixo – Ninguém pode saber disso, sabe? De nós dois, desse encontro e que eu estou pesquisando por fora – Ele mordeu o lábio inferior antes de prosseguir – Você pode manter isso em segredo?
- Sem problemas, esse será o nosso segredo – Coloquei a minha outra mão sobre nossas mãos com os dedos entrelaçados e o vi sorrir de volta para mim.
- Combinado.
Então várias perguntas surgiram em minha cabeça e infelizmente não foi sobre o processo da minha memória, mas sim dele.
- Você ainda é amigo de ? – Perguntei receosa e o vi ficar com o semblante completamente sério.
- Sim, ainda sou, apesar de que não tenho contato com ele diariamente por causa da prisão, mas ainda somos bons amigos.
- Você me conhecia? – Perguntei.
- Sim , conhecia.
- O quanto você me conhecia?
- Não tanto quanto te conhece, mas conheço bastante.
- Você acha que causou o acidente ou eu fiz de propósito?
Nesse momento, retirou a sua mão que estava sobre a minha e levou até seus cabelos novamente, parece que esse era um assunto delicado para ele também.
- Olha , você e tinham o gênio forte, eram teimosos, gostavam de se provocar e brigavam feito gato e rato, mas se amavam completamente – Ele fez uma pausa e olhou para baixo – Eu realmente não sei o que aconteceu naquela noite depois que vocês brigaram em minha casa.
Posso dizer que arregalei os olhos encarando que encarava o chão. Como assim tivemos uma briga antes do acidente?
- Qual briga? Do que você está falando?
- Merda, esqueci que você não se lembra de mais nada. Me desculpe, .
- Tudo bem, , eu só quero que me conte o que aconteceu antes.
- Bom, vocês estavam em casa, eu havia dado uma festa aquele dia e como sempre vocês compareceram, apesar de serem um casal, vocês nunca perdiam uma festa – Ele fez uma pausa e vi um pequeno sorriso se formar no canto de seus lábios – Bom, no meio da noite, vocês começaram a discutir e isso virou uma briga, uma briga bem feia. Eu segurei pelo braço e arrastei para outro cômodo a fim de acalmá-lo, mas você veio atrás de nós e começou a provocar novamente a discussão, então disse que era melhor levar você para casa e que vocês conversariam melhor de manhã, e tudo o que eu sei é que vocês entraram no carro dele e mais ou menos meia hora depois fiquei sabendo do acidente e fui até o hospital onde você estava e encontrei desesperado e aos prantos, mas sua mãe estava incriminando ele e a polícia o levou até a delegacia – Ele fez outra pausa e dessa vez ele voltou a fitar meu rosto – Parece que um casal estava passando pela rua e viu a cena e incriminou , a polícia veio atrás e algum tempo depois ele deu outro depoimento dizendo que você pulou na frente do carro e até agora não há ninguém que possa desmentir ou consentir com esse fato.
Tudo girava na minha cabeça em câmera lenta, eu podia ver alguns flashes de nós discutindo e entrando no carro dele, mas depois disso era apenas um grande vazio branco. As informações trazidas por eram de importante relevância e apesar disso eu não podia contar a mais ninguém, mas será que eu poderia sonhar de novo para buscar algumas pistas? Será que eu veria toda essa cena em meus sonhos?
notou que eu estava imóvel por um bom tempo, na verdade eu estava chocada com esse banho de realidade.
- Você está bem? – Perguntou ele.
- Sim – Respondi, acordando de meus devaneios – Eu só queria ter mais respostas desse dia, mas parece que só pode me dar e será que essas respostas são confiáveis? – Voltei a olhar em seus olhos, que agora pareciam assustados e preocupados – Eu posso confiar nele, ?
- Eu realmente não sei – olhou para baixo novamente, a verdade é que nós dois queríamos confiar, mas não sabíamos se era certo.
Ouvi o sinal de recolher soar bem atrás de nós, então bufei baixinho, mas acho que percebeu e no instante seguinte o vi rindo sozinho.
- Eu tenho que ir agora, mas preciso manter contato, vai ser escondido, prometo.
Então tirou do bolso de seu jaleco branco um bloco de notas e uma caneta e marcou o número de seu celular em um papel e em seguida me deu. Dobrei o mesmo e guardei no bolso de minha calça, quando chegasse no meu quarto, eu ia guardar no celular como um nome de alguma menina para minha mãe não notar e sim, minha mãe tinha me dado um celular para manter ainda mais contato comigo, mas eu podia usar ele poucas vezes no dia, mas nessas poucas vezes eu definitivamente iria me comunicar com .
Me despedi do mesmo com um beijo em seu rosto e comecei a correr em direção ao bloco do meu corredor, não queria que ninguém soubesse e nem desconfiasse do que aconteceu e do que ia acontecer, não queria que ninguém soubesse que estava cheia de esperanças novamente, não queria que ninguém soubesse que pela primeira vez eu me sentia feliz.

Capítulo 4 - Loving and fighting


Os indícios de que eu estava em um sonho era evidente, já que não estava na clínica, mas sim no banco passageiro de um carro e quem estava dirigindo era .
Observava as luzes da cidade pela janela do carro, enquanto segurava uma garrafa de vodka. Sentia a brisa gélida noturna tocar meu rosto, ouvindo uma música aleatória que tocava no rádio do carro de . Olhei para ele e sorri e em seguida o vi olhar de lado em minha direção e retribuir o sorriso, nesse instante eu percebi o quanto amava vê-lo sorrindo. Ele vestia uma jaqueta de couro e seu cabelo estava bagunçado, usava jeans preta que o deixava ainda mais sexy, sim, eu namorava o cara mais sexy do planeta e eu tinha noção da sorte que tinha por isso, muitas meninas venderiam a própria família para estar no meu lugar, e eu fui apenas a escolhida dele.
parou o carro em frente à casa de , era uma casa exageradamente grande e bonita, vinda de uma família rica e bem estruturada financeiramente, mas naquele dia, dava uma festa porque ia se mudar para um apartamento sozinho, já que ele conseguiu ingressar na faculdade de psicologia, assim como eu, e estávamos ansiosos para sermos colegas de classe.
Assim que adentramos os grandes portões daquela casa, a cabeça de todos virou em direção a e de repente todas as atenções estavam voltadas para ele. Ele era enigmático, selvagem, como a atração da gravidade que te puxa de volta para o solo quando tudo o que você mais quer é voar. Eu sabia desde quando o encontrei que ele era o único pra mim e de certa forma ele sentia isso também, se eu dissesse que não havia nada a nosso favor, eu estaria mentindo, porque havia a vontade de estarmos juntos, o amor louco que um sentia pelo outro, os planos que fazíamos para o futuro, os gostos musicais, os gostos pelas artes em geral, mas infelizmente, por outro lado, havia coisas demais que nos desfavoreciam. Ele não conseguia se controlar quando estava com raiva, seu pai não nos queria juntos, nossas discussões duravam dias, o ciúme sempre dava um jeito de entrar no meio de qualquer coisa e estragar simplesmente tudo.
O senti segurar minha mão com firmeza e delicadeza ao mesmo tempo, o que me fez acordar de meus pensamentos e o encarar. Ele sorriu para mim, o que me incentivou a continuar a caminhar para dentro da casa de , mesmo sabendo que estava sendo julgada e devorada por cada olhar a cada passo que eu dava.
Avistei alguns conhecidos assim que chegamos à sala e os cumprimentei e logo todas as pessoas possíveis vieram falar com , parecia que elas precisavam conversar com ele, como se isso fosse uma aprovação de que eles seriam populares o suficiente para encarar a nossa cidade. Fiquei sem saber o que falar, na verdade, não havia nada para eu falar, então apenas fiquei quieta, observando os grandes garotos do time de futebol fazendo brincadeiras com e todos riam em seguida, como se eles se conhecessem há anos, mas eu sabia a verdade, eles precisavam daquilo para se sentir suficiente socialmente com as garotas, que encaravam todos nós.
Estava a ponto de bocejar, quando notei conversando com um grupo de pessoas e logo tratei de acenar para ele. Olhei para e o mesmo estava entretido com os garotos populares do colégio, então caminhei até . Assim que cheguei até ele, cumprimentei com um forte abraço e um beijo estalado em seu rosto.
- Há quanto tempo estão aqui? – perguntou em um tom alto por causa da música.
- Acabamos de chegar – Respondi no mesmo tom que ele.
- Estou vendo mesmo – disse se referindo a multidão que estava em volta de .
Apenas sorri e dei de ombros, afinal, não havia muito o que fazer naquele momento.
- Onde eu posso colocar isso? – Disse, levantando a garrafa de vodka que segurava em uma das mãos.
- Vem, me segue.
Fui seguindo pelos longos corredores daquela casa, era todo feito em madeira e podia sentir o cheiro da madeira antiga ao longe, o que me proporcionou um sorriso, já que era um cheiro maravilhoso. Ele entrou em uma sala com pouca iluminação, onde havia dois sofás, uma estante, que era do tamanho de quatro paredes, repleta de livros e uma lareira no centro da mesma. Ele pegou a garrafa de vodka da minha mão e colocou em cima de uma mesinha de madeira bem em frente a estante e logo em seguida abriu a gaveta da mesma, tirando de lá uma pequena caixinha preta de veludo e veio em minha direção novamente.
- Eu sei que é meio cedo ainda, mas queria te dar isso – Disse ele, abrindo a pequena caixinha que tinha em mãos.
Coloquei as mãos em minha boca, com um sorriso largo nos lábios ao olhar para o fino cordão de dourado com um pingente de psicologia no mesmo.
- Eu não acredito que você fez isso! – Minha voz soou mais alto do que o normal.
- Você gostou? – Perguntou ele.
- Tá brincando? Eu amei! – De novo, minha voz saiu mais alto do que o devido.
Então retirou o pequeno e fino cordão de ouro da caixinha e abriu o feixe do mesmo e então virei de costas a ele e segurei meu cabelo para cima. Senti suas mãos passar em volta de meu pescoço e com delicadeza ele abotoou o colar em minha nuca e em seguida um leve toque em minha pele, o que fez o local ficar levemente arrepiado e me fez sorrir com isso.
Virei novamente em frente a ele e o abracei apertado. Senti seus braços envolver minha cintura com firmeza e meus braços já estavam em volta de seu pescoço. Inalava o perfume que vinha de sua pele e fechei os olhos por alguns instantes, podia ser a minha maior tempestade e eu não me importava com isso, mas eu encontrava em um porto seguro, um amigo, um confidente e isso me deixava aliviada, pois se algo ruim acontecer, eu sabia que podia contar com ele.
Ouvimos alguém pigarrear em direção à porta e ambos viramos o rosto em direção e lá estava parado com os braços cruzados sob seu peito.
Nesse exato momento, e eu nos separamos do abraço e viramos nossos corpos em direção a .
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – disse, arqueando sua sobrancelha de um jeito sexy e nessas horas eu indagava do por que ele precisa ser tão sexy sempre.
- Não é nada, só estava agradecendo por esse presente – Eu respondi, mostrando minha gargantilha dourada para e então o vi caminhar em minha direção com a feição séria.
- E que porcaria é essa? Desde quando vocês se dão presentes? – Os olhos de passaram por mim e foram de encontro a .
- , não é nada, foi só um presente de ingresso na faculdade, afinal, seremos colegas de sala – Tentou explicar .
- E desde quando isso te dá o direito de dar presentes para a minha namorada? – Disse de um jeito grosseiro e até eu me assustei.
- Vamos esquecer isso, foi só um presente e mais nada – Eu disse, tentando acalmar .
Levei uma das mãos até seu rosto para tocá-lo a fim de pacificar as coisas, mas ele se esquivou e simplesmente nos deu as costas e começou a caminhar porta a fora.
Olhei para e pelo olhar dele eu entendi “Vá buscar ele”, então eu balancei a cabeça positivamente e fui atrás de .
Procurei ele pela cozinha, mas só encontrei algumas pessoas se pegando e outras se embebedando, então fui direto até a sala e encontrei sorrindo para outra garota, enquanto anotava alguma coisa em um papel e entregava para a mesma.
- O que é isso? – Foi minha vez de perguntar assim que parei de frente aos dois.
- Não é nada, ela só queria o meu número de telefone e já que você ganhou um presente, eu pensei que ela poderia ganhar um também.
Fechei o punho naquele momento e inspirei fundo, mas era tarde demais para eu tentar me conter, eu estava com raiva, me sentia injustiçada, me sentia apavorada. Em fração de segundos, agarrei o punho da garota e escutei um “ai” em oposição, mas não me importei com isso, apenas tirei o papel da mão dela e rasguei o mesmo em pequenos pedaços, jogando-os para o alto em seguida.
- Escuta aqui, , e eu somos amigos que logo vão ser colegas de classe – Fiz uma pausa antes de continuar – Pelo amor de Deus, é o seu melhor amigo, esse ciúme seu não faz sentido algum!
- Na minha cabeça faz todo o sentido, não quero você de gracinha com ninguém – Retrucou .
Então eu fiz o inesperado, sim, eu acertei em cheio um tapa na cara dele e comecei a gritar, não me importando se todos estavam olhando ou julgando naquele momento.
- Eu não estou de gracinha com ninguém, ao contrário da nossa amiguinha aqui – Disse apontando para a menina que ele havia dado o número minutos atrás – Desculpa querida, ele não está a fim de te foder – Respondi a ela em um tom sarcástico.
Sentia o sangue fervendo em minhas bochechas e meu corpo tremer de raiva, foi quando vi vindo em minha direção com fúria em seus olhos. Seu rosto parou próximo ao meu, mas estava tão próximo que nossas testas estavam praticamente coladas e foi então que ele me segurou pelos braços com força e gritou em seguida.
- Você perdeu o juízo?
Ele ia gritar mais alguma coisa, mas o segurou pelos braços, o que fez largar os meus, e o arrastou para o escritório.
Eu estava imóvel, não acreditava que havia feito aquilo. Tudo bem que eu passei dos limites, mas nunca o vi tão descontrolado assim e por incrível que seja eu estava com mais raiva ainda, odiava me sentir vitimizada, então fui correndo até o escritório e vi que estava quase acalmando , mas eu retomei a discussão.
- A sua atitude foi ridícula, tanto de passar o número para a garota, quanto à de me segurar pelos braços, quem você pensa que é?
- , vamos nos acalmar, eu sei que as intenções de foram as melhores, eu só perdi a cabeça – disse numa tentativa de me acalmar, mas eu ainda sentia o sangue bombear rápido demais pelo meu corpo.
- Você está tentando me machucar, é isso? – Perguntei – Você não vai conseguir isso, eu não sou vítima, melhor ainda, eu não sou a sua vítima.
veio cuidadosamente em minha direção e colocou as mãos em meus ombros com delicadeza.
- Vamos embora, amanhã de manhã conversaremos melhor sobre isso, me desculpe pelas minhas atitudes, , eu sei que fui um idiota.
Olhei profundamente em seus olhos e inspirei na tentativa de manter a calma, mas eu estava longe de estar calma, muito longe.
- Tudo bem – Eu disse de um jeito grosseiro.
passou o braço em volta de meu pescoço e foi me guiando para fora da casa. Sentia todos me olharem, me julgando, e isso me deixava ainda mais furiosa se é que isso é possível. Entramos no carro de , o observei fechar a porta para mim e logo ir no banco do motorista. Ele ligou os faróis do carro e de repente tudo ficou branco e eu não conseguia enxergar mais nada, não conseguia ouvir mais vozes, não conseguia ver mais cores...

Acordei em um pulo da cama. Minha respiração estava acelerada e coloquei a mão em minha testa e notei que a mesma estava suada. Olhei para a escrivaninha e observei meu celular sob a mesma e então o peguei e vi que eram três e meia da manhã.
Eu havia sonhado de novo com ele, com o acontecimento que me contou e eu estava certa de que não era apenas um sonho e sim mais um vestígio de memória.
Apertei a tela do celular e fui direto para o número que sanaria a minha angústia, estava com nome de mulher, mas era dele, era o telefone de e sem hesitar, apertei o botão da chamada e levei meu celular até meu ouvido.
- Alô? – atendeu no terceiro toque, sua voz era de sono e nesse momento me julguei por ter acordado ele.
- ? É a , desculpa te acordar, eu só precisava falar com alguém – Eu disse aflita.
- ? Você está bem? – Senti sua voz adquirir um tom de preocupação.
- Não muito, eu sonhei com a sua festa, – Suspirei fundo antes de prosseguir – Da briga que e eu tivemos.
- Conseguiu se lembrar do acidente? – Ele perguntou ainda preocupado.
- Não, depois que eu entrei no carro dele ficou como um clarão borrado e não consegui ver mais nada – Disse em um tom desanimado.
- Ei , não fique assim, é muita coisa para você assimilar, o importante foi que você se lembrou novamente.
- ? – Eu disse em um tom suave.
- Hum? – Respondeu ele.
- Você me deu uma gargantilha com o símbolo da psicologia naquele dia, não foi?
- Sim, você se lembrou disso?
- Claramente, com detalhes – Eu respondi e ouvi-o rindo baixinho do outro lado da linha.
- Sim, eu te dei naquele dia e foi o começo a discussão entre você e ...
- ? – Perguntei de novo.
- Oi.
- Eu posso ver essa gargantilha qualquer dia desses? – Ousei a perguntar, não sabia onde estava, mas deduzi que estava com ele.
- Claro – Disse ele.
Então ambos ficamos em silêncio por alguns minutos e sim, foi um silêncio tanto constrangedor.
- , o que você vai fazer agora com essas evidências de memória? - A voz de quebrou aquele clima chato.
- Eu vou anotar tudo em meu diário, cada detalhe.
- Isso é ótimo – Disse ele.
- Desculpe te incomodar, eu vou desligar porque tenho uma longa escrita agora, mas quero que volte a dormir e durma bem, certo? – Disse um tanto mandona e ouvi rir do outro lado da linha.
- Tá certo, Senhorita , até mais.
- Até mais.

Continua...



Nota da autora: (10/06/2017) Eu tô sabendo que cada capítulo que passa tá deixando a gente mais confusa, não é? Mas tudo vai se esclarecer em breve, vocês não perdem por esperar.
Queria agradecer a minha nova leitora July Moreira, obrigada pelo apoio e por ter paciência para ler, o apoio de uma leitora é o que me dá forças para continuar a escrever.
Vejo vocês no próximo capítulo. <3




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