photo yearsgone_zps29d39fcc.jpg


Escrita por: Marii-Marii
Betada por: Abby




 Divórcio não é uma fase agradável na vida de ninguém. Não é fácil quando é amigável; não é fácil quando é contencioso; não é fácil quando da existência de filhos; não é fácil nem quando não há bens a serem divididos.
 O meu divórcio foi especialmente desastroso. Eu deveria me considerar uma sortuda, já que não havia filhos envolvidos – em obediência a uma resolução pessoal que me proibia de ter filhos antes dos trinta anos – mas a verdade é que eu nunca fui especialmente otimista. Outra verdade é que, se o meu divórcio foi catastrófico, ele apenas refletiu a realidade do meu casamento.
 Não eram apenas as brigas; quem dera fossem. A situação do meu casamento se resumia em uma enorme nuvem negra pairando sobre a minha cabeça, me impedindo de trabalhar, de aprofundar meus estudos, de sair com meus amigos, de ter uma boa noite de amor com meu marido. Era uma nuvem que tornava todos os meus dias mais escuros, mais sombrios, monótonos, estressantes, insustentáveis.
 O desrespeito mútuo que regia meu casamento finalmente acabou por desfazê-lo. Era por conta dele que eu me encontrava sentada no chão de uma sala vazia – não de mobília, mas de sentimentos. Enquanto enchia caixas e mais caixas de papelão com objetos pessoais, documentos, lembranças, livros e discos de vinil, tentei recordar os momentos em que fora feliz naquele apartamento. Não foram poucos, eu não podia negar. Uma dedicatória em um livro antigo; um par de ingressos para o show de uma banda que nem existe mais; alguns álbuns de ensaios fotográficos de meu nu artístico; dezenas de reproduções baratas de Monet penduradas às paredes, em alusão à última viagem a Paris. Momentos de felicidade que não arrancavam um sorriso do meu rosto amargurado, preocupado e – por que não admitir? – culpado.
 Em destaque, o álbum de casamento. A edição grossa, de capa dura e acabamento em tecido atraiu a minha atenção. Não era um objeto que eu quisesse levar comigo para onde quer que eu fosse, mas certamente era valioso o suficiente para uma última olhada. Folheei as páginas lentamente, tentando me lembrar da sensação que foi viver cada um daqueles momentos, fotografados três anos antes. Encarei com carinho rostos familiares, como o de minha avó, os dos meus pais, o da minha sogra e o de Emma, minha madrinha. Embora meu peito tenha se enchido de afeição pelas pessoas amadas, ainda assim eu não sorri.
 Não demorou muito, encontrei uma fotografia em que aparecia. Olhos sérios, sorriso tenso, ombros retesados, postura perfeita. Usava um terno elegante, porém calçava um par de tênis Converse, como em uma recusa terminante em amadurecer. A imagem finalmente me fez sorrir.
 Suspirei ao virar a página, pensando em como havia se tornado apenas mais um dos convidados sentados nos bancos da igreja, e nos caminhos que me levaram a ficar de pé no altar, ao lado de Ethan.

***

parou o carro em uma das vagas do estacionamento do aeroporto de Heathrow. Assim que desligou o automóvel, permaneceu com as mãos distantes, fechadas com alguma força ao redor do volante. Suspirou, com certo pesar, e me encarou com o olhar duro. Eu deixei meus ombros caírem, soltei o cinto de segurança e virei todo o meu corpo para a direita, a fim de olhá-lo melhor. Permaneci em silêncio, mas a tensão foi tamanha que o obrigou a falar.
 – Você não precisa ir, – ele desabafou, balançando a cabeça negativamente. – Você pode ficar, ainda tem uma escolha.
 – Na verdade eu não tenho, – rebati, ansiosa por ter aquela discussão novamente. – É o meu sonho, príncipe. É importante para mim. Não é justo que você me peça para ficar.
 – Não estou pedindo – ele se defendeu. – Estou apenas apresentando opções. Eu sei que Munique é um grande passo, mas você também tem outros sonhos – ele acrescentou, olhando atentamente para mim e obtendo a reação que provavelmente esperava.
 É claro que eu tinha outros sonhos. Eu queria ficar na Inglaterra, queria planejar uma vida inteira ao lado de . Ele era meu Aquele; era com ele que um dia eu gostaria de estar em uma igreja, vestida de branco; era com ele que eu queria que meus filhos parecessem; era com ele que eu queria envelhecer, porque com ele eu sentiria que os anos da juventude teriam valido a pena.
 Minha formação profissional, porém, era outro sonho. Eu havia estudado alemão pelos dois anos anteriores, tinha feito o melhor que pude para obter as melhores notas, e tinha sido compensada com uma bolsa de estudos integral em Munique. Aquilo era mais do que eu podia esperar – com certeza mais do que eu merecia – e justamente por ser uma oportunidade única na vida, eu não poderia desperdiçá-la.
 Eu não tinha a menor intenção de abrir mão de qualquer um dos meus sonhos. Entretanto, a bolsa de estudos era para aqueles próximos anos; era para a vida inteira. Eu tinha certeza que iria esperar por mim. Ele tinha seus próprios sonhos profissionais: ficaria em Londres, em busca de qualquer oportunidade para levar à frente sua carreira musical. E eu o admirava por isso, confiava na sua capacidade e apostava todas as minhas fichas nele. Nunca pediria a ele que desistisse de seus sonhos.
 – Vai ficar tudo bem entre nós, meu amor – eu prometi a ele, finalmente tocando em seu rosto. Ao receber meu toque, finalmente a sua expressão suavizou. – Ich liebe dich – acrescentei, com um pequeno sorriso que pretendia lembrá-lo da primeira expressão alemã que ensinei a ele: “eu te amo”.
 Enfim, ele deixou escapar um sorriso, me fazendo respirar, quase aliviada. Aquele sorriso me lembrou de outras centenas de sorrisos iguais, em situações diferentes: o dia em que o conheci, o nosso primeiro beijo, todas as tardes de cinema e as noites de música, a primeira vez em que fizemos amor.
 Inundada por lembranças, ofegante, reticente e morrendo de saudades por antecipação, eu comecei a prometer. Eu voltaria sempre que pudesse; ele respondeu que me visitaria em Munique com a mesma frequência. Não era tanto tempo assim; ele disse que anos não eram nada perto de uma vida inteira. Eu esperaria por ele; ele, é claro, esperaria por mim também.
 Quando ele se despediu de mim com um beijo no saguão do aeroporto, foram as promessas que me levaram até a área de embarque.

*

 Embora as promessas tivessem me guiado até Munique, teria sido mais prudente não fazê-las. Afinal, foi devido a promessas descumpridas que voltei a Londres, poucos anos depois, com Ethan no assento ao lado, usando uma safira no anelar direito e carregando na bolsa um diploma de Psicologia.
 Claro que e eu tentamos, especialmente no começo. O primeiro ano foi difícil, por conta da falta que sentíamos um do outro, mas conseguimos lidar bem com isso. Usávamos a internet para saber como foi o dia do outro. Fazíamos ligações internacionais que duravam horas durante a madrugada. Eu voltei para casa em todos os feriados que durassem mais de um dia, enquanto me visitava algumas vezes ao longo do ano letivo. Estávamos tão apaixonados um pelo outro quanto no dia em que declaramos nosso amor pela primeira vez, na escada de incêndio do colégio.
 Nem sempre amor é suficiente. Às vezes amor não consegue sustentar um casamento; o que poderia o amor fazer por um relacionamento à distância? Por noites em claro com os olhos marejados, pelo ciúme diário que se transformou em gritaria ao telefone, pela frustração de querer estar com alguém e ser impedido pelas regras de espaço-tempo?
 Eu não podia mais voltar com tanta frequência para casa. Tinha me envolvido com projetos educacionais e pesquisas científicas importantes para o crédito da universidade. Por sua vez, estava investindo na formação de uma banda de rock, que fez certo sucesso nas casas de show de Camden. Ele não estava mais disponível para me visitar em Munique e passar uma semana inteira lá, porque estava sempre trabalhando na divulgação de material artístico e fazendo dinheiro com seu próprio talento. Era um orgulho para mim; ao mesmo tempo, era a minha ruína.
 Nós fomos justos um com o outro. No segundo feriado de Natal desde que eu havia me mudado, ficou por dias na casa da minha família em Notting Hill, sendo paparicado pela minha mãe e tomando cervejas com meu pai.
 Passamos a noite de Natal em claro. Depois que meus pais já tinham nos desejado uma boa noite, subimos ao meu quarto silenciosamente, como fazíamos quando adolescentes, rindo como bobos e nos recusando a largar a mão do outro. Deitamo-nos na cama e ficamos em silêncio, olhando nos olhos um do outro, aproveitando a luz do luar que adentrava o quarto através de uma fresta na cortina. O silêncio, naquele momento, foi mais poderoso que qualquer discurso, e quando fizemos amor já sabíamos que aquilo era um adeus. Nosso amor, pois, foi urgente e desajeitado, como na nossa primeira vez; como se fosse a nossa última vez.
 Terminamos o namoro no dia seguinte. Não vou fingir que não houve lágrimas, mas pelo menos posso afirmar que não houve acusações. Na verdade, ao fim de tudo, nos despedimos com um “eu te amo”, que não poderia ser mais verdadeiro, apesar de todas as condições.
 Na noite de ano novo, estivemos novamente juntos. Não fizemos amor; não nos entregamos aos braços um do outro; não reconsideramos nossa decisão de término. Entretanto, o beijo que demos à meia-noite foi suficiente para que eu nunca mais pudesse esquecê-lo, ainda que tivesse seguido em frente nos anos seguintes. Pelo menos em teoria.

***

 – Isso sim é cerveja! – eu berrei, levantando uma garrafa da Fuller’s London Pride com gosto, muito embora estivesse sendo injusta. As cervejas alemãs eram maravilhosas.
 – Ao Orgulho Londrino – gritou Ethan Underwood ao meu lado em resposta, batendo sua garrafa na minha.
 E, em uníssono, o The Arc inteiro respondeu, batendo garrafas:
 – Ao Orgulho Londrino! – E todos nós bebemos.
 Eu ri muito alto após o gole, já levemente embriagada pela segunda garrafa de cerveja. E não era também apenas o álcool, mas o momento. Estar ali, com amigos britânicos em um pub britânico perdido em Munique, era tudo o que eu precisava para aflorar meu patriotismo. Cheirei a cerveja mais uma vez. Não era casa, mas era o cheiro de casa, ou pelo menos o cheiro dos meus amigos em Londres.
 Já era primavera, e eu não havia voltado para casa desde o réveillon. Olhar para as bandeiras penduradas atrás do balcão, com o azul e vermelho refletindo a iluminação amarelada do bar local, era simplesmente demais para mim. A nostalgia chegou a mim com um nocaute, e me deixou desnorteada por alguns momentos. Meus olhos se perderam enquanto eu pensava em , que era um dos vários conceitos de “casa” para mim.
 Imaginei o que ele estaria fazendo naquele exato momento. Era uma noite de quinta-feira. Pensei nele em diversas situações: sentado em um bar com os amigos, assim como eu; em cima de um palco, tocando para um público pequeno, mas fiel; sentado no sofá de seu quarto, usando apenas cuecas, compondo; na sua cama com outra pessoa, fazendo amor com ela, expondo cada detalhe daquele corpo que eu amava para alguém que não era eu.
 A ideia era ruim demais para aguentar sem mais um gole de cerveja. Voltei à realidade por um momento, só para ouvir Ethan, Emma e Lisa discutindo algum episódio de Dr. Who. Meus amigos mais próximos, tão longe de casa quanto eu.
 Quando se está longe da terra onde se nasceu, um fenômeno incrível acontece: qualquer pessoa na mesma situação é sua melhor amiga. Conheci Emma em uma dinâmica de análise comportamental, e desde então ela se tornou o que eu posso chamar com maior proximidade de amiga. Em seguida, ela me apresentou à sua namorada, Lisa, que estudava artes cênicas, e a Ethan, que cursava Fotografia. E todos eles formavam meu pequeno refúgio britânico em meio germânico.
 Emma gritou meu nome, completamente bêbada. Virei-me para ela, com um sorriso no rosto, e a encontrei no colo de Lisa, gargalhando de alguma piada, os olhos verdes cheios de lágrimas de júbilo. Meus amigos despreocupados e contentes. Meus amigos que não deixaram nenhum amor em casa. Meus amigos livres.
 Entrei na brincadeira e gargalhei junto, em busca de distração, mesmo que não soubesse sobre o que se tratava. Terminei minha bebida e pedi outra cerveja, que veio prontamente. Assim que comecei a beber, percebi uma mudança de tom no ambiente. Fiquei confusa por alguns segundos, até entender que a música de fundo havia mudado. E assim que começou Bohemian Rhapsody, do Queen, o pub inteiro entrou êxtase, começando a cantar e sentindo saudades de casa.
 Eu não cantei. Fiquei apenas quieta, pensando no passado, na música inglesa, na minha cidade, na minha família, no meu namorado.
 No meu ex-namorado. O pesar de ver a alegria ao meu redor, sem conseguir senti-la, me fez ter mais saudades de . Uma vontade enorme de falar com ele. Peguei o celular. Olhei para o contato dele, que ainda estava na lista dos favoritos, e pensei em ligar.
 Ponderei tal situação em alguns segundos. O lugar estava barulhento, e seria impossível conversar. Sempre supondo, claro, que ele estivesse sozinho e com tempo para falar comigo.
 Além disso, o que poderia eu falar? Que o amava? Disso ele já sabia. Que eu sentia saudades? Era óbvio. Que eu queria voltar a ser sua namorada? Que eu voltaria para casa? Que, por ele, eu faria qualquer coisa?
 Sim, era exatamente isso o que eu falaria. Exceto que não por ligação; eu mandaria uma mensagem. Tomei mais um gole da cerveja, para tomar coragem, respirei fundo e comecei a digitar, na tela minúscula, tudo o que meu coração e o álcool me diziam.
 Eu tinha uma leve consciência de que não deveria estar contando tudo isso a . Uma vaga noção de que nos comprometer novamente com aquela história era errado, já que tínhamos escolhido a separação, por mais dolorosa que fosse. No entanto, uma vez que havia começado, não consegui parar, até preencher cada linha da mensagem com as minhas angústias, até que meu peito ficasse menos apertado, após a confissão.
 Em um momento de dúvida, encarei a tela do celular, fitando o botão de envio. Ponderei mil possibilidades, ainda que nenhuma delas fosse concreta, especialmente pelo estado de confusão mental que derivava de algumas cervejas. Olhei ao redor e percebi que a música ainda não tinha acabado. Toda a tensão não havia passado de dois minutos.
 Descobri também que eu não era a única pessoa que não cantava. Ethan, ao meu lado, estava em silêncio, apenas me olhando, com um olhar carinhoso. Sorri para ele, balançando a cabeça negativamente, como quem não entende o que está acontecendo. Ele atentou brevemente para o celular na minha mão, e eu virei a tela para baixo na mesa, para que ele não pudesse ler a mensagem.
 Ele ergueu uma sobrancelha, me fazendo rir. E então, em um movimento inesperado, segurou a minha mão, que estava antes apoiada em cima da mesa. Eu olhei para as mãos unidas e, mais por instinto que por sentimento, entrelacei os nossos dedos. Ethan sorriu de lado, se inclinou para mim e falou:
 – Quer ir para um lugar menos barulhento?
 Olhei ao redor, para meus conterrâneos ainda cantando os versos finais da música. Nothing really matters... To me...
 Acenei com a cabeça várias vezes, vislumbrando uma nova possibilidade. O sorriso de Ethan alargou, e ele me puxou pelo braço para além da mesa, jogando alguns euros para Emma e Lisa, que estavam aplaudindo o fim da música.
 Segui Ethan para fora do pub. Não apertei o botão de enviar.

*

 Parando para pensar, Ethan e eu formávamos o casal perfeito, em teoria. Nós estudávamos na mesma universidade; fazíamos parte do mesmo grupo de amigos; tínhamos em comum a nacionalidade, o idioma e a saudade. Eu era estudiosa e aplicada em todas as pesquisas nas quais me envolvia, e por isso Ethan me considerava inteligente. Ethan era sensível e sabia absolutamente tudo sobre arte, e por isso eu o considerava um gênio.
 A paixão que ele despertou em mim não foi instantânea, arrebatadora, incontrolável. Ao contrário, foi uma escolha minha. Ao que me dava conta, estava pensando em como Ethan era doce, carinhoso e amável. Em seguida, devaneava acerca de seu dom artístico. Por fim, me entregando à futilidade, percebia que ele era lindo, e me punha a analisar os olhos verdes e a covinha no queixo. Decidi que eu não poderia querer ninguém melhor que Ethan, e que era sortuda por ser alvo de seu interesse. Começamos a namorar menos de um mês após compartilharmos a cama pela primeira vez.
 Eu era sua musa. Ethan poderia passar horas me fotografando, e a maioria dos seus projetos envolviam alguma versão existencialista de mim. Nudez, júbilo, loucura, obsessão: Ethan me destrinchou em suas fotografias, revelando diversas facetas que nem eu mesma conhecia. Eu amava ser retratada conforme os temas dos ensaios. Adorava transportar meu conhecimento da psique humana para aquelas imagens, como se meu próprio relacionamento com Ethan fosse interdisciplinar.
 E, claro, a distração de uma nova paixão parecia ter calado meus sentimentos por . Até o Natal seguinte ao nosso término, quando eu levei Ethan para casa, como meu novo namorado, e encontrei meu pretérito amor sentado na sala de estar, comendo os biscoitos de mamãe e forçando o riso em alguma piada – provavelmente homofóbica – de papai.

***

 Eu não fazia ideia do motivo para estar ali. Não é como se minha visita fosse uma surpresa de Natal – em bem da verdade, eu havia avisado a toda a família da minha volta ao lar para o feriado. Eu também havia avisado que levaria alguém comigo. Finalmente eu iria rever meus pais; finalmente eu poderia apresentar Ethan a eles. O que infernos meu ex-namorado estava fazendo ali?
 Ethan sabia sobre , mas não muito. Ele sabia que fora meu namorado e meu primeiro, informação essa arrancada após alguns shots de tequila em um jogo de cartas. O que Ethan não sabia: que fora meu amor incondicional por anos; que apenas a visão do garoto foi suficiente para me deixar alarmada e sem fôlego; que nosso ponto final mais pareceu uma vírgula do que qualquer outro sinal gráfico.
 Por vez, eu não sabia o alcance das informações que possuía a respeito de Ethan. Em alguma ligação via Skype, eu havia contado à minha mãe que estava namorando alguém, mas não entrei em muitos detalhes, mesmo porque queria que ela conhecesse Ethan pessoalmente, e não através de uma descrição simplificada em uma chamada de vídeo.
, porém, não parecia surpreso pela presença de Ethan. Ao contrário, ao nos ver abriu um sorriso – não largo, do jeito que ele costumava dar apenas para mim, mas tranquilo, quase apaziguador. O único momento em que hesitou foi quando seu olhar encontrou minha mão entrelaçada à de Ethan. Ainda assim, não foi seu sorriso que vacilou; mas sim seus olhos, que perderam um pouco de brilho por um instante.
 Aquilo foi suficiente para que meu peito se apertasse, e em reflexo eu segurei a mão de Ethan com uma força ligeiramente maior. No entanto, apesar de abalada, não deixei transparecer minha confusão; ao contrário, cumprimentei meu pai com um abraço apertado e com beijos rápidos nas bochechas. Apresentei Ethan a ambos, e os três logo começaram a falar de futebol. Felizmente, tanto papai quanto Ethan eram fãs incondicionais do Manchester United, e o papo sobre os red devils seguiu com toda a tranquilidade possível.
 Quando mamãe me chamou, na sala de jantar, pude finalmente dar adeus à conversa sobre futebol. Deixei Ethan mostrando algumas fotografias do Old Trafford feitas por ele mesmo, e me encaminhei na direção da voz de minha mãe, não sem antes dar uma olhadela em . Ele estava participando ativamente da conversa, mas desviou o olhar para mim assim que percebeu que eu o encarava. Comprimi meus lábios, tensa, e tratei de apressar o passo para chegar até minha mãe.
 Assim que a alcancei, não pude conter minha ansiedade.
 – Será que alguém pode me explicar o que diabos está fazendo aqui? – sussurrei, com urgência, inquirindo minha mãe.
 Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu de lado, enquanto me passava os pratos para que eu a ajudasse a por a mesa.
 – , minha filha, não é só porque vocês decidiram terminar o namorado que deixará de ser bem-vindo a esta casa – ela finalmente respondeu, em tom decisivo.
 Assenti com a cabeça, mas insisti: – Certo, mas por que hoje? – Parei por um momento para me lembrar da ordem dos talheres, e em seguida prossegui: – De todos os dias do ano, por que foi convidado justamente hoje, quando eu avisei que traria Ethan?
 – Isso causa algum dilema em você? – ela rebateu com outra pergunta, colocando uma mão sobre a cintura e parando de distribuir os guardanapos para me olhar atentamente. Ao que eu me recusei a responder, ela continuou, falando mais baixo: – Liguei para ele hoje, para desejar boas festas de fim de ano. Acabei descobrindo que ele iria passar o Natal sozinho. A sra. viajou com a irmã de para Brighton, e ele estava considerando ir para aquele bar em Camden no qual toca às vezes. Em pleno Natal!
 Joguei a cabeça para trás, pensativa. Era típico da minha mãe, acolher perdidos da noite de Natal. Ainda assim, eu não me conformava.
 – Mais alguém vai aparecer aqui hoje? – eu perguntei, finalmente me dando conta do número de pratos postos à mesa.
 – Sim, querida – ela respondeu tranquilamente, retornando ao trabalho de dispor corretamente os copos na mesa. – Sua tia e Cameron vão trazer sua avó para a ceia. Por favor, , não traga à baila o assunto do tio Kevin, não queremos sua tia estragando a noite com um sem-número de lágrimas, e toda vez que...
 Desliguei meus pensamentos do casamento fracassado de tia June e me permiti respirar aliviada, pensando que a noite não seria tão estranha assim, afinal. Cameron provavelmente traria seu namorado; vovó faria comentários mordazes a respeito de papai, como sempre; Ethan conheceria o resto de minha família e não seria uma presença tão importante.
 A quem eu queria enganar? . , , . Agora que havia entendido – muito embora não tenha concordado com ela – a decisão de mamãe de chamar para a ceia, apenas faltava compreender por que ele havia aceitado. Uma parte de mim gostaria que ele tivesse aparecido para me ver; que, achando que eu não tinha um novo alguém, ele pudesse me convencer a reatar o namoro. Mas algo na expressão dele, algo que vi em seu sorriso logo que adentrei a casa, me dizia que sabia sobre Ethan. Como ele tivera a coragem de aparecer?
 Murmurando uma desculpa para minha mãe, retornei à sala e aos garotos, que agora discutiam hóquei como se entendessem alguma coisa sobre o esporte. Antes de anunciar minha presença, parei para observar minimamente a cena: meu pai e Ethan em um debate caloroso, os dois sérios e gesticulando abertamente enquanto opinavam; com um sorriso divertido no rosto, concordando com a cabeça minimamente quando meu pai falava. Ainda não era o meu sorriso, mas ainda assim era bom vê-lo sorrindo novamente. Esquecendo momentaneamente a enrascada em que me encontrava, sorri junto, embora não pudesse ver.
 Exceto que ele viu. foi o primeiro a reparar na minha presença junto ao batente da divisória entre as salas, e cutucou meu pai com o cotovelo, alertando-o sobre mim. Ethan seguiu o olhar de papai, e estendeu os braços assim que me viu, me chamando. Fui até o trio e sentei no braço da poltrona de Ethan, repousando minha mão em seu ombro.
 Meu pai parecia exultante com o debate, e logo se apressou em dizer o quão satisfeito estava com a presença de Ethan, e o quão orgulhoso ele estava de mim. Entretanto, sua voz vacilou por um momento, e ele olhou para com certo receio, como se tivesse acabado de lembrar que, um ano antes, era que ocupava o lugar sob meus braços. Tentando ser discreta, segui seu olhar, mas ainda mantinha um sorriso no canto dos lábios.
 Fiquei me perguntando se ele não se sentia minimamente abalado por eu estar ao lado de outra pessoa, enquanto que apenas a presença dele me deixava nervosa e insegura. Tentei me distrair desse pensamento, desviando o olhar para Ethan e estalando um beijo na sua bochecha. Meu namorado ergueu o olhar para mim e sorriu o mais fofo dos sorrisos, enquanto ouvíamos retomar o assunto com meu pai.
 Em questão de minutos, Ethan pediu licença e se retirou da conversa, me perguntando onde era o banheiro. Eu indiquei-lhe as direções, e observei-o se afastar, quase ao mesmo tempo em que ouvi a campainha tocar.
 Fiz menção de me levantar, mas papai foi mais ligeiro e prontamente se encaminhou para a porta. Assim que ele saiu do meu campo de visão, congelei, porque sabia que estaria a sós com na sala de estar. Respirei fundo e me ajeitei na poltrona, finalmente parando para encarar . Ele já estava me encarando, mas dessa vez permanecia sério. Nenhum traço de riso brincava em seus lábios. Ele se aproximou e falou baixinho:
 – , a gente precisa conversar.
 Eu estreitei meus olhos para ele, acusando-o de algo que nem sabia o que era. Na minha concepção, ele havia perdido o direito de “precisar conversar” comigo quando nós decidimos não prosseguir com o namoro. E foi por isso que, em vez de ouvir o que ele tinha a dizer, eu apenas perguntei:
 – Por que você veio aqui hoje, ? O que você esperava com isso?
 Ele ponderou a pergunta por alguns segundos, tempo durante o qual eu permaneci inquieta. Virei o rosto para olhar para o corredor de onde Ethan voltaria, mas nenhum sinal dele se mostrava presente. De certa forma, eu me sentia culpada por estar conversando com desse jeito, averiguando suas intenções, como se elas modificassem alguma coisa. Não mudavam.
 – Eu vim hoje porque senti sua falta – ele disse, de uma vez só, quase entediado, como se não fosse nada de importante. – , eu quero ter você de volta na minha vida. Eu não me importo em que termos. Não é só porque você não é mais minha namorada que deixou de ser importante para mim.
 Eu assimilei as palavras, compreendendo o significado delas lentamente, fonema por fonema. Parecia óbvio, quando apresentado daquele jeito: eu não deixara e nunca deixaria de me importar com , por mais que tentasse.
 – Você sabe que estou com Ethan agora – eu comecei, e abriu a boca, fazendo menção de falar. Eu o impedi: – Não me interrompa, , apenas ouça.
 Ao que ele concordou com um aceno rápido de cabeça, eu prossegui:
 – Isso não vai mudar agora. Ethan é o que me mantém viva e sã na Alemanha. Ethan é meu porto seguro, e é o meu lar agora. Ele é uma das melhores pessoas que eu já tive a sorte de conhecer. – ergueu as sobrancelhas para mim, então eu sorri. – Mas você também é, , e eu nunca seria capaz de esquecer isso.
 Ele pareceu compreender, e sorriu em concordância. – Amigos? – perguntou, olhando-me com humildade.
 – Amigos – eu falei por fim, suspirando e fechando os olhos. Ouvi os passos de Ethan e abri os olhos com um sorriso, estendendo a mão diretamente para o garoto que chegava.
 Assim que Ethan se acomodou, o resto da família se uniu a nós na sala de estar, e houve uma pequena confusão de cumprimentos e apresentações. No meio da bagunça, porém, eu tive tempo de ver , que me retribuía o olhar. Mais do que isso, seus lábios carregavam um sorriso. E desta vez, aquele era o meu sorriso.

*

 O toque do celular me despertou dos devaneios. Era a Sra. Phillips, minha advogada de família. Suspirei pesadamente antes de atender, torcendo para que fossem boas notícias. Assim que levei o celular ao ouvido, a Sra. Phillips, que não gostava de perder tempo, logo informou:
 – , querida, ele assinou. Finalmente parou de resmungar pelo valor dos carros, acho que ficou morrendo de medo de irmos a julgamento... – Ela pausou por um momento, me dando a chance de concordar com um monossílabo, e logo continuou: – Ele quer que você saia, no máximo, às 20h de hoje, querida. Disse para levar tudo que se relacionasse minimamente a você.
 Fiquei em silêncio, avaliando a mágoa e a acusação contidas nesse ultimato. Como eu poderia levar tudo o que se relacionasse a mim, se aquele apartamento também fora meu, se eu tinha vivido por anos ali, deixando meus rastros, meu cheiro, minha desorganização?
 – , querida? – perguntou a Sra. Phillips ao telefone.
 Ethan realmente devia me odiar. E aquilo devia me machucar, mas eu simplesmente não conseguia sentir a dor.
 – Tudo bem, Sra. Phillips – disse por fim, porque realmente estava tudo bem.
 Pus fim à ligação, parando para prestar atenção em minhas mãos. Com surpresa, percebi que ainda usava a aliança.
 Retirei o anel do dedo, me perguntando o motivo da demora. Joguei-o para o alto três vezes, questionando-me se eu ainda me importava o suficiente para não deixá-lo cair. Segurei o anel com firmeza em todas as vezes, e, frustrada, decidi guardá-lo dentro de um estojo que estava por perto.
 Ao abrir o estojo, encontrei meu anel de noivado – esse sim estivera guardado há muito tempo, de forma que me senti constrangida ao encará-lo novamente. Era uma joia pesada, por conta da pedra enorme de safira que carregava. Sempre detestei diamantes e o lugar-comum da Tiffany & Co. Ethan, nesse ponto, acertara em cheio nos meus desejos, e eu sorri ao lembrar-me da felicidade que tomou conta de mim quando recebi o anel, anos antes, quando a inocência ainda era permitida e sonhar não custava nada.

***

 Acordei com um sorriso bobo no rosto, e esfreguei os olhos antes de abri-los. Apesar de as cortinas estarem totalmente fechadas, a luz do sol teimava em entrar pelas frestas, o que só poderia significar que a manhã já havia avançado em suas horas.
 Procurei Ethan ao meu redor, rolando na cama, e não o encontrei. Estiquei o braço, bocejando, até a mesa de cabeceira, a fim de alcançar o celular. Havia mensagens piscando na tela principal, e eu logo soube o paradeiro de Ethan: comprando café-da-manhã para nós dois.
 Ethan era sempre tão romântico! Eu não conseguia parar de pensar na noite anterior, quando ele finalmente propusera o casamento. Fechei os olhos, bem apertados, e em seguida olhei para a mão direita, apenas para ter certeza de que a pedra azul ainda estaria ali.
 Eu estava tão animada que sentia precisar compartilhar toda essa alegria com alguém. Eu ainda não havia contado a ninguém sobre o noivado, muito embora Emma já soubesse da notícia porque Ethan a avisara previamente sobre o pedido.
 Se, por um lado, Emma já sabia de tudo, continuava em sua plena ignorância em relação ao novo rumo que minha vida acabara de tomar. Nos últimos meses, nós mantivemos contato quase semanal, e estávamos sendo bons amigos um para o outro. me contava como estavam as coisas em casa, enquanto eu o atualizava sobre a faculdade e a vida na Alemanha. Ele enviava vídeos de apresentações de sua banda, e eu respondia com fotografias minhas no campus da universidade, feitas por Ethan. tinha uma namorada, Jane. Eu agora era uma noiva.
 Era por isso, pelo fato de ser um amigo tão importante para mim ultimamente, que eu decidira que ele merecia saber do meu noivado antes de todos. Além disso, eu gostaria que as notícias chegassem a ele pelas minhas próprias palavras, e não que ele soubesse de outra forma, o que certamente aconteceria caso eu contasse previamente aos meus pais. Por fim, uma parte de mim estava simplesmente curiosa com a reação dele, e eu precisava saciar essa curiosidade.
 Encontrei o contato dele na minha lista de favoritos, e esperei a chamada completar, praticamente roendo as unhas de ansiedade. Por um momento, fiquei preocupada com a possibilidade de ainda estar dormindo, por conta da pequena diferença de fuso. Mas logo relaxei, quando ele atendeu à chamada no terceiro toque.
 – Hallo, ! Wie geht’s? – ele perguntou, em tom brincalhão, usando uma das poucas expressões em alemão que aprendera comigo, anos antes.
 – Estou bem, , querido – respondi, rindo. Pensei em perguntar a ele como estava, mas decidi deixar a educação de lado: – De fato, estou melhor que bem. Estou ótima, na verdade!
 – O que infernos poderia te causar tanta empolgação na manhã de um domingo chuvoso? – ele perguntou, rindo de volta, muito embora eu possa ter sentido em sua voz uma pontada de desconfiança.
 – Primeiramente, porque o sol em Munique está brilhando como nunca, , aqui não é Londres – eu alfinetei. Ele começou a protestar, mas eu rapidamente completei: – Estou noiva, !
 Um momento de silêncio se seguiu à afirmação, enquanto parecia estar processando a informação. Se ele ficou desapontado, porém, não demonstrou, porque respondeu com animação:
 – Uau. ! Uau. Nem sei o que dizer – ele soltou em uma risada, e eu sorri do meu lado da linha, muito embora ele não pudesse ver. – Parabéns, . De verdade. Você merece. Vai ser a noiva mais bonita de todas, sabia?
 Suspirei e agradeci, me perguntando por que motivos eu estaria decepcionada com a reação de . Havia algo em suas felicitações que não me parecia sincero. Talvez fosse o clichê de dizer à noiva que ela seria a mais bonita de todas. Talvez fosse a ligeira hesitação da parte dele antes de me parabenizar. Alguma coisa não estava certa, eu podia sentir, apenas não sabia o quê.
 – Eu sei – respondi, brincando. – Obrigada, .
 O silêncio reinou na linha durante alguns segundos, mas pareceram horas. Eu francamente esperava que quebrasse tal silêncio, mas tinha um instinto de que ele esperava a mesma coisa de minha parte. Desesperada para sair daquela situação, falei a primeira coisa que veio em minha mente:
 – , quer ser meu padrinho?
 Aquilo nem era justo da minha parte, para início de conversa. Eu e Ethan ainda não havíamos discutido sobre quem participaria do casamento, embora com certeza Emma fosse a escolhida para madrinha. Ainda assim, o convite me pareceu certo, ainda que houvesse sido usado como uma mera desculpa para interromper o silêncio.
 – Você não pode estar falando sério – retrucou, e eu me senti gelada com a frieza do seu tom de voz. Ao que eu não o contradisse, ele prosseguiu: – , você não pode estar seriamente esperando que eu vá participar da cerimônia.
 Naquele momento, eu esqueci a culpa e a surpresa. Fiquei apenas com raiva. Como poderia dizer que não participaria do meu próprio casamento? Como ele poderia simplesmente ignorar todos os momentos que passamos juntos, o quão importante ele era na minha vida, a nossa promessa de amizade?
 – Sim, eu espero – eu disse pausadamente, saboreando cada fonema de cada palavra. – Você que não pode estar falando sério em não participar do meu casamento.
 Ele aguardou alguns momentos antes de falar, e eu sinceramente achei que estava planejando um pedido de desculpas.
 – Você só pode estar maluca – ele disse, baixa e pausadamente, e a lentidão das palavras doeu em mim mais do que se elas houvessem sido gritadas. Fiquei exasperada, sem saber o que responder, ainda remoendo o sentimento de irritação, de modo que apenas aguardei a sua explicação. – Por que eu deveria fazer isso? Por que você espera que eu ao menos consiga fazer isso, depois de ter passado anos da minha vida apaixonado por você?
 Eu já estava preparada para uma resposta, mas agora suas palavras jorravam como a nascente de um rio, seguindo seu curso, naturalmente livre: – Como – ele prosseguiu – você espera que eu esteja presente quando você entrar na igreja, vestida de branco, linda, para ver seu pai entregando sua mão a outra pessoa no altar?
 Foi neste momento que a minha raiva se dissipou. Porque aqueles termos possuíam um significado mais abrangente; especialmente, aquela insinuação teimosa de que ainda sentia algo por mim, além de amizade.
 – Por que você está dizendo isso agora? – eu questionei, exasperada, passando as mãos pelos cabelos, muito embora ele não pudesse ver o gesto. – , nós temos um acordo – eu acusei, desgostosa. – Nós combinamos que seríamos apenas amigos, que não haveria estranheza entre nós. Eu tenho cumprido fielmente esse pacto, , e não disse uma palavra sobre Jane, embora ela seja uma vaca pretensiosa, egocêntrica, fútil...
 – , chega – ele me interrompeu, e a ira retornou, embora eu estivesse incerta sobre os seus motivos. – Eu tenho cumprido minha parte do acordo também, muito embora você seja egoísta demais para perceber isso.
 – O que você quer dizer com isso? – eu exigi, transtornada, gritando a plenos pulmões. Já havia esquecido a educação, o horário, os vizinhos, e mesmo o anel.
 – Eu quero dizer – ele retrucou, firme, ainda sem levantar o tom de voz – que eu tenho me esforçado, durante todos esses meses, para ser um bom amigo, e apenas amigo, para você. Que eu me abstive de qualquer esperança de que você me quisesse novamente. Que eu respeitei o seu relacionamento com o Ethan e nunca tentei influenciá-la contra ele. Que eu não lhe pedi nada além da sua amizade. Portanto, não me acuse de descumprir o acordo, , porque, muito embora eu ainda te ame e, muito provavelmente, sempre irei amar, nós somos apenas amigos.
 Segurei meu rosto entre as mãos, sem saber como me comportar, o que responder. Seria hipocrisia fingir que eu nunca desconfiara dos seus sentimentos; entretanto, eu sempre atribuíra as suspeitas a um suposto excesso de autoestima e, por que não?, egocentrismo. Ouvi-lo usar a palavra me prevenia de recusar a realidade, tornando-a indesejada, desconfortável, insustentável.
 – Não goste de mim desse jeito, , por favor – eu pedi, murmurando. Surpreendi-me com a risada de , e por um minuto pensei que tudo aquilo houvera sido uma encenação, uma brincadeira na qual eu havia caído como uma tonta. Entretanto, o riso dele não possuía humor algum, apenas desgosto.
 – Sinto muito, , mas eu me recuso a rejeitar o que sinto por você.
 Foram aquelas as últimas palavras ditas antes que o som da porta de entrada se fechando chegasse aos meus ouvidos, o que só poderia significar o retorno de Ethan. Suspirei, olhei para o anel mais uma vez e, ansiando a presença de meu noivo, declarei ao telefone:
 – Bem, , eu ainda espero que você esteja lá. – E terminei a ligação.

*

 O anel não possuía mais qualquer sentido. Nenhum dos anéis possuía.
 O papel simbólico do anel sempre me intrigou. Parecia-me inacreditável que tanta confiança fosse depositada em um aro de metal. Os egípcios o utilizavam para simbolizar o amor infinito, que deveria ser carregado para a vida toda, porque o elo não possuía ponto: portanto, não possuía fim. Esse simbolismo era quase risível para mim, uma mulher oficialmente divorciada antes dos trinta anos de idade.
 Afinal, quem seria louco de depositar o sucesso de um relacionamento em um anel? O anel de noivado, hoje em dia, parecia a mim mais um capricho que um compromisso. A troca de alianças, um ritual insignificante. Eu encarava com ceticismo todo o rito matrimonial, irritada por ter sido tão inocente ao ponto de me submeter a ele.
 Desde o início, eu fui uma tola. Começando pelo deslumbramento de receber a safira que representava o noivado; passando por um ano de preparativos estressantes da cerimônia e da festança; assinando contratos e lidando com a mudança de volta para a Inglaterra; chegando até a semana de véspera da data marcada, com a despedida de solteiro de Ethan, a qual eu não me opus por considerar “uma tradição”.
 Dessa forma, encontrei-me sozinha, no nosso novo apartamento em Londres, numa sexta à noite, enquanto Ethan sairia com seus amigos para celebrar sua última noite sem o compromisso da monogamia. Procurei não ficar paranoica, e terminantemente me recusei a acreditar que ele me trairia com outra mulher. Depois, tentando ser razoável, disse a mim mesma que, caso ele dormisse com outra pessoa, aquilo não chegaria a ser uma traição. Nós ainda não estávamos casados.
 Agarrei-me a esse pensamento, justificando uma atitude dele que eu nem sabia se seria concretizada. A verdade é que sempre fui boa em enganar a mim mesma: acreditei tanto nessa justificativa que, naquela noite, telefonei para .

***

 Levei meu iPod ao dock station e coloquei Oasis para tocar em um volume ensurdecedor. Estar sozinha nesta nova casa não estava me fazendo bem. Eu não conseguia parar de pensar em Ethan e no que ele poderia estar fazendo em sua despedida de solteiro. Por outro lado, eu sentia como se não pertencesse a este lugar, mesmo que estivesse de volta a Londres.
 Eu passara as últimas horas inventando desculpas para Ethan, e já estava cansada do esforço mental. Decidida a não me torturar com as possibilidades, fui até a cozinha – cômodo do apartamento menos explorado por mim – e comecei a preparar um Cosmopolitan, muito consciente de sua fama como “drinque feminino”.
 Estava tocando Live Forever quando eu terminava de despejar o coquetel cor-de-rosa em um copo de plástico, e eu decidi me entregar à música enquanto bebia. Girei ao redor de mim mesma, levantei o braço livre para o ar e gritei a letra a plenos pulmões, cada vez mais alerta para a minha adolescência.
 Tive então uma ideia: corri até o guarda-roupas embutido na parede do quarto, ainda com o copo na mão, e revirei todas as roupas até encontrar minha velha camisa do Oasis. Eu não a usava desde o colegial, mas sempre a guardava como recordação dos meus quinze, dezesseis anos. Aquela camisa passara por bons momentos comigo: lembrei-me de ter querido usá-la no meu primeiro dia de aula do Ensino Médio; lembrei-me de estar vestida com ela no dia em que levei para conhecer meus pais; lembrei-me de usá-la em uma centena de momentos com ; lembrei-me até mesmo de retirá-la do meu corpo em outra centena de momentos com o mesmo garoto.
 Terminei o coquetel com um último grande gole, e retornei à cozinha com o objetivo de preparar mais. Carreguei a camisa comigo, e a deixei na bancada, me encarando, enquanto batia a vodca na coqueteleira.
 Bebi o segundo copo do Cosmo sem parar para respirar. Não estava mais preocupada com o gosto da bebida ou mesmo com a música que estava tocando. Apenas encarei a blusa, os olhos ardendo pela bebida. Em um movimento rápido, segurei a camisa pela gola e aproximei-a do meu rosto, passando o nariz suavemente pela malha. Inspirei profundamente, e não fiquei surpresa quando senti o cheiro de . Muito provavelmente, o aroma fazia parte da minha imaginação, mas a ideia já estava lá: despi toda a roupa, exceto a íntima, e vesti a camisa. Inebriada pela fragrância, corri para o celular; sem me preocupar em procurar o número na agenda, disquei os dígitos que há muito estavam decorados.
 Enquanto aguardava atender à ligação, busquei a garrafa da vodca, pela metade, e comecei a beber do gargalo, indo sentar-me no sofá da sala. Eu ainda não estava ébria, portanto tinha consciência de todo o meu plano. Ainda assim, eu precisaria de um pretexto, de forma que pudesse enganar a mim mesma e fingir que a culpa era da bebida.
 – ? – sussurrou assim que atendeu, e meu estômago pareceu dar uma volta em si mesmo.
 Pensei em tudo o que havia ocorrido nos últimos meses. havia terminado o namoro com Jane pouco tempo após o meu noivado. Eu nunca perguntara o motivo, embora nós tivéssemos resolvido nossa briga em poucas semanas. Nosso pacto de amizade continuava firme e forte, embora eu não houvesse convencido a participar da minha cerimônia de casamento. Cada vez que eu tocava nesse assunto, um princípio de discussão surgia entre nós. Além disso, cada negativa dele me fazia lembrar do motivo, e eu não me permitia prolongar meus pensamentos sobre o fato de ele ainda me amar. Dessa forma, respeitei sua decisão, embora ela ainda me magoasse, e segui em frente.
 – – eu respondi, subitamente insegura sobre meu plano. Embora pudesse perceber que ele estava em casa, dada a ausência daquele barulho de fundo, característico das noites de Londres, perguntei-me se ele não estava acompanhado.
 – Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou, alarmado. Enquanto eu pensava no que responder, ele me pressionou: – ? Está tudo bem?
 – Não, – eu choraminguei, fazendo uma manha completamente desarrazoada para uma jovem na casa dos vinte anos. – Eu odeio esse apartamento. Não me sinto confortável nele. Não quero ficar sozinha aqui, – completei, levando a mão livre à garrafa e tomando mais um gole do gargalo.
 – Você está sozinha? – ele questionou, claramente estranhando. – Onde está Ethan?
 – Despedida de solteiro – murmurei, infeliz. – Saiu daqui com os amigos há uma hora, e vai ficar a noite toda fora.
 Ele pareceu entender a insinuação, e abaixou o tom de voz até ficar parecido com o meu.
 – E o que você quer fazer a respeito, ?
 Respirei fundo, criando coragem, e pedi: – Quero que você venha para cá. Não quero que me deixe sozinha aqui.
 – Certo – ele concordou, o que me surpreendeu. – Chego aí em dez minutos – adicionou, desligando em seguida.
 Olhei ao redor do apartamento, considerando arrumá-lo para a chegada de . Descartei logo essa possibilidade, dando de ombros. era amigo e família, e conhecia melhor do que ninguém meu jeito desorganizado. Amava essa minha desorganização, acresci em pensamento. Meu coração começou a bater muito forte, e eu olhei para o meu próprio corpo, tentando me sentir segura de mim mesma. Corri para o espelho e encarei a camisa do Oasis, os boy shorts e as pernas expostas. Evitei o rosto, por pura vergonha do desejo e dos sentimentos que me assolavam naquele momento. Desviei o olhar do espelho, voltando para a garrafa de vodca. Antes que pudesse dar outro gole, porém, ouvi o interfone e corri para atender.
 – ? – perguntei, quase sussurrando, subitamente consciente do risco que estava correndo.
 – Sou eu – ele respondeu com simplicidade, e eu destravei o portão, agitada. Corri para a porta do apartamento e igualmente a destranquei. Voltei para o sofá e fiquei aguardando, sentada de joelhos, prestando o máximo de atenção, até ouvir seus passos do lado de fora.
 Ele bateu três vezes à porta, e eu o mandei entrar. Ele não abriu a porta de imediato; aguardou alguns instantes, e em seguida adentrou o apartamento. Absolutamente lindo, como quem acabou de sair da cama: o cabelo bagunçado, o jeans surrado, aquele moletom antigo, com o qual já me protegi do frio tantas vezes.
 O sofá ficava de costas para a porta, de forma que ele não me viu de imediato. Fechou a porta atrás de si, com cautela, olhando ao redor do apartamento com desconfiança, embora já houvesse estado ali uma dúzia de vezes. Quando nossos olhos se encontraram, ele podia apenas me ver da cintura para cima; ainda assim, pareceu não aprovar meu traje.
 – Olá, – ele disse, andando bem devagar na minha direção. Eu engoli em seco enquanto ele se aproximava e comecei a respirar rápido. Estava nervosa e, claro, me sentia culpada.
 – Oi – eu respondi, me dando conta que ainda segurava a garrafa de vodca. Inclinei-a em sua direção, como em um oferecimento, mas ele negou com um gesto.
 – Camisa legal – ele comentou, em um princípio de deboche. Eu apenas aguardei, até que ele completou: – Não te traz lembranças demais?
 Eu confirmei com a cabeça, e acrescentei, ainda que não estivesse certa da realidade da afirmação: – Ainda tem o seu cheiro, sabe.
 Ele finalmente chegara perto o suficiente para perceber que o resto do meu corpo estava seminu; com isso, parara de andar, e encarou meus quadris por um tempo. Observei sua expressão, tentando ler o que passava pela sua mente, em vão. Quando ele ergueu o rosto na direção do meu, porém, pude ver que se tratava de desejo, talvez combinado com confusão.
 – O que você está fazendo, ? – ele perguntou, exasperado. – Isso é uma espécie de tortura? É uma vingança por eu não querer ir ao seu casamento?
 – Claro que não, , não seja estúpido – eu retruquei, irritada pela menção ao casamento. Ele abriu a boca para responder, mas eu o interrompi: – Desculpe. Não quero discutir, ... Não hoje, não agora.
 Com a mão, eu o pedi para chegar mais perto. Ele deu a volta no sofá e se sentou ao meu lado, enquanto eu me voltava para ele.
 – Você não vai me abraçar? – eu murmurei, me sentindo, de certa forma, rejeitada. Estava desapontada com a resistência de , e repentinamente me senti fisicamente feia, emocionalmente suja, pouco atraente. Ele não me abraçou.
 – Não posso fazer isso, – ele respondeu, passando as mãos sobre o rosto e afastando os cabelos da testa. – Teria mais significado para mim que para você.
 Ele finalmente olhou nos meus olhos. Seus belos olhos me encaravam com pesar, como se ele estivesse sentindo dor. Eu percebi como aquela situação era difícil para ele. Mas, novamente, também era difícil para mim. Com movimentos lentos, eu me levantei e ajoelhei na sua frente, tocando seu rosto. Fechei os olhos, apenas sentindo a maciez de sua pele, guiando meus dedos ao local da cicatriz que eu conhecia tão bem. Toquei seus lábios, reconhecendo a pele solta dos machucados derivados daquela mania insistente de mordê-los.
 Abri olhos, a visão turva, e afastei uma lágrima. , que estava me observando com atenção, fez menção de falar, e mais uma vez eu me adiantei a ele:
 – Para mim teria significado também.
 Ele me puxou do chão para o seu colo, me abraçando com muita força. Enterrei minha cabeça na curva do seu pescoço, e senti seu cheiro. Não resisti e beijei o local. Uma, duas, três vezes. Senti as mãos dele me puxando para mais perto, e em seguida descendo até minhas coxas, apertando-as enquanto eu mordia de leve a pele do seu pescoço.
 Impaciente pelo contato, mudei de posição e sentei no colo dele, de pernas abertas. arfou, excitado, e segurou meu rosto com as duas mãos, aproximando nossos lábios e me beijando. O toque morno de sua língua foi suficiente para me extasiar, e eu embrenhei minhas mãos em seus cabelos, puxando-os de leve.
 Como eu sentira saudade daquilo! Com , eu me sentia uma rainha. Eu sabia que era amada pelo modo como ele me olhava; sabia que era desejada pela pressão que suas mãos faziam em meu corpo; sabia que estava fazendo a coisa certa por aquela sensação no meu peito, que me aquecia, que me completava. E, depois de tudo aquilo, por mais inacreditável que pudesse parecer, eu sabia que ainda amava . Que nunca havia deixado de amá-lo.
 – Me leva para o quarto, – eu murmurei entre beijos. Ele levantou os olhos para mim, parecendo magoado, e retrucou:
 – Você não pode brincar comigo desse jeito, ... Simplesmente não é justo.
 Seu tom era triste e acusatório; ao ouvi-lo, senti meu coração apertar, sabendo que, se ele sofria por alguma razão, essa razão era eu.
 – Não estou brincando com você, príncipe – sussurrei, usando um apelido que há muito fora deixado de lado. Encostei nossas testas e forcei-o a me olhar nos olhos. – , você lembra o que me disse... Ao recusar ser padrinho do meu casamento?
 – Como se fosse ontem – ele respondeu, sorrindo de lado.
 – Você ainda se sente da mesma forma?
riu, o que me assustou por um momento. Em seguida, ele beijou meu rosto, avançando pela bochecha até chegar ao meu ouvido. Então sussurrou:
 – , desde aquele primeiro dia em que te vi na escola... Durante todas as vezes em que nos beijamos e todas as vezes em que fizemos amor. Todos os dias em que você esteve longe, na Alemanha. Mesmo daqui a cinquenta anos, daqui a cem, ou se houver vida após a morte... , sempre foi e sempre vai ser você.
 Eu senti os olhos arderem novamente, e os fechei, fazendo as lágrimas pularem. Uma enxurrada de lembranças surgiu na minha mente, lavando todos os pensamentos que não tinham a ver com . E, de repente, as principais memórias apareceram: aquele primeiro sorriso, o primeiro beijo, o pedido de namoro, a primeira vez que fizemos amor. Não conseguia deixar de sorrir, nem mesmo quando murmurei para ele de volta:
 – Não importa o que eu diga, , nunca vou deixar de amar você.
 Ele sorriu o meu sorriso e se levantou, comigo ainda em seu colo, carregando-me para o quarto que haveria ser meu e de Ethan. Deitou-me na cama de casal e levantou a camisa do Oasis lentamente, beijando minha barriga no mesmo movimento. Satisfeita, eu sorri para mim mesma, deixando que, naquela noite, eu fosse novamente a namoradinha adolescente de .

*

 O telefone tocou novamente, me assustando. Era . Eu ainda não estava preparada para ter a conversa na qual ele tanto insistira nas últimas semanas. Apenas a ideia de traduzir os sentimentos em palavras já era sufocante. Atendi a chamada mesmo assim, em razão de uma dependência e fragilidade que eu esperava não encontrar em mim mesma.
 – , não agora – falei, sem nem ao menos cumprimentá-lo antes. Assim que percebi a excessiva agressividade em minha voz, corrigi minha postura: – Desculpe, . Oi.
 Ele suspirou ruidosamente, parecendo buscar tolerância para lidar comigo naquele momento.
 – Oi, – ele afinal respondeu, cansado. Ao fundo, eu podia ouvir o som de um violão, o que só poderia significar que estava com algum de seus alunos. – Não liguei para insistir em nada... Só queria saber como você está.
 Naquele momento, eu estava confusa e constrangida. A percepção de que havia interrompido a aula para me ligar, com o único propósito de saber se eu estava bem, foi a gota d’água para o meu cansaço.
 – Eu não sei explicar... – Parei para pensar por um momento. – A Sra. Phillips me ligou há pouco tempo... Ethan assinou. Tenho que sair do apartamento em – consultei o relógio de pulso – duas horas.
 – Sinto muito, – ele disse, reduzindo o tom de voz. Por algum motivo, a saudação dele me fez rir, o que era um grande conforto em uma tarde como aquela.
 – Não, não sente – eu comentei, ainda achando graça da polidez de .
 Com bom humor, ele entrou na brincadeira:
 – Não, não sinto – ele admitiu, mas logo em seguida pareceu falar sério: – E você, sente?
 Ponderei a pergunta, sabendo que a eu devia sinceridade. Pensei em todo o drama que havia se desenrolado durante os anos de casada, em toda a dualidade de sentimentos, em toda a culpa e em todo o desrespeito. Assim, encontrei minha resposta.
 – Acho que eu finalmente posso afirmar que não, príncipe.
 Em um fiapo de voz, ele respondeu: – É muito bom ouvir isso, . – E desligou.
 Andei até aquele que costumava ser meu quarto e de Ethan. Assim que abri a porta, fui assolada por um sentimento de remorso que não me era característico. Especialmente, a visão da cama – onde tantas vezes me deitei com Ethan, onde já passei bons e maus bocados – causou o efeito esperado. Exatamente a mesma cama na qual fiz amor com às vésperas do meu casamento.
 À época, eu deveria ter percebido que era um mau sinal o fato de eu ter feito amor com na cama marital antes mesmo de fazê-lo com Ethan. Entretanto, você não pode pedir para uma noiva ser sensata, especialmente no dia de seu casamento.
 Naquele dia, foi embora ainda de madrugada, antes que Ethan sequer cogitasse retornar. Eu mesma não o vi indo embora e, quando acordei, fiquei preocupada com a possibilidade de tudo haver sido um sonho. A única pista deixada por de que tudo havia sido real foi o sumiço da minha camisa do Oasis; por mais que eu tivesse me esforçado em procurá-la enquanto arrumava o caos no qual o apartamento se encontrava, não a encontrei em nenhum lugar.
 Cedo pela manhã, Ethan chegou, sorridente e nem ao menos parecendo bêbado, o que contribuiu para que eu começasse a odiar a mim mesma. Ele parecia verdadeiramente animado com a cerimônia que estava por vir, emocionado até. Diante de tudo isso, eu nem ao menos considerei a possibilidade de contar a ele o que havia acontecido na noite anterior, ou mesmo de recuar frente ao compromisso e abandonar o casamento. A traição havia sido um erro. Um erro justificado, eu dizia a mim mesma, pela insegurança provocada pela despedida de solteiro de Ethan. Nunca haveria de se repetir.
 O dia do meu casamento foi composto por estresse emocional e tortura psicológica. Logo cedo Emma e minha mãe apareceram para me levar para a suíte nupcial do hotel reservado, onde eu seria preparada. A cerimônia se daria em uma igreja próxima, e a festa, em um dos salões luxuosos do hotel.
 Eu passara o dia inteiro sendo tocada por mãos estranhas e profissionais que pintavam, arrumavam, escovavam, depilavam e até mesmo costurava. Era uma boneca de porcelana, um brinquedo frágil que era o favorito de todos dentro da suíte. Ethan, é claro, não possuía acesso ao quarto, porquanto não estava autorizado a ver o vestido de noiva antes do casório. Emma opinava em cada detalhe e imperfeição da minha aparência, enquanto minha mãe não conseguia parar de derramar lágrimas. Até papai fizera uma visita, e pareceu emocionado quando eu rodopiei no vestido, sorridente.
 Enquanto eu aparentava ser a noiva mais feliz de todas, internamente lutava para me libertar da culpa. E estava me saindo bem nesse entrave, até que um fator com o qual eu não contava se inseriu na equação: apareceu.

***

 – Devo dizer – começou mamãe, me analisando de alto a baixo – que estou muito agradecida por Ethan ter escolhido uma safira. Certamente nos livrou do problema do “algo azul” – completou ela, segurando meu queixo entre o indicador e o polegar da mão direita.
 – Mãe, você sabe que eu não me importo com essas coisas – afirmei categoricamente, balançando a cabeça em negativa para a atitude dela.
 Mamãe pareceu ofendida.
 – Como você pode dizer isso depois de eu comprar essa lingerie maravilhosa que você está usando, como seu “algo novo”? – ela perguntou, escandalizada. Depois, fazendo ar de riso, trocou olhares maliciosos com Emma. – Só para dar sorte mesmo, querida. – Ambas explodiram em gargalhadas, como se a minha vida sexual fosse uma grande piada.
 Apenas ignorei as duas e rolei os olhos, tentando não pensar no quão enganadas elas estavam, principalmente no que se tratava de relações sexuais que não envolviam meu próprio noivo. Assustada com o pensamento, logo o afastei da mente, fingindo estar interessada no velho ditado britânico.
 – Certo, vocês venceram. O que temos para “algo emprestado”? – questionei, suspirando.
 Emma não perdeu tempo e me entregou uma caixinha de veludo. Dentro, uma tornozeleira de ouro branco. Emma ajoelhou, tomando cuidado com o próprio vestido, e fechou a corrente ao redor do meu pé, com muito cuidado.
 – Ela foi da minha mãe, antes de ser minha – explicou Emma, pensativa. – Não pense por um segundo sequer que vai ficar com ela, . Não vai acontecer.
 Eu ri, mas fiquei emocionada com o gesto. Estava prestes a agradecer quando ouvi uma batida à porta. Imaginei que seria papai novamente, ou talvez Cameron, minha segunda madrinha, e me adiantei para atender, tendo alguma dificuldade com o vestido. Emma, porém, me censurou com o olhar e andou mais rápido, conseguindo alcançar a porta antes de mim. Dei de ombros, indiferente, e aguardei que ela abrisse a porta.
 Era . Justamente a pessoa que havia prometido não pisar na minha cerimônia de casamento. Exatamente a única pessoa em quem eu evitara pensar durante todo o dia, com medo de ser traída pela minha confusão emocional.
 Não havia outra forma de descrevê-lo, senão admitindo que ele estava maravilhoso. Usava um terno de alta costura, o que não condizia muito bem com seus rendimentos de professor de música. Por outro lado, seu cabelo ainda parecia úmido, fazendo-me crer que aparecer ali fora uma decisão de última hora. Por fim, calçava um par de tênis Converse, clássicos e surrados, como se desafiassem qualquer um a criticá-los.
 Emma deu passagem, e entrou, sorrindo e carregando flores. Adiantou-se para mim em um abraço, que eu retribuí, sabendo que mamãe e Emma desconfiariam caso eu o rejeitasse. Seu sorriso não se desfez em nenhum momento, embora algo em seu olhar denunciasse que algo não estava certo.
 – Aqui, – ele me disse, entregando o arranjo. Eu sorri e ele coçou a nuca, forçando o riso: – Sei que em breve você estará carregando outro buquê, mas eu não tive nenhuma outra ideia de que outro presente poderia te dar.
 – Qualquer outra coisa? – Emma arriscou, parecendo desconfortável com a situação. Eu a encarei, tentando reprimi-la pelo modo como se dirigiu a , mas ela sustentou o olhar, sem o menor remorso.
 Tudo se resumia ao simbolismo: me entregava flores, sabendo que eu as trocaria pelas flores da minha própria cerimônia de casamento. Era uma metáfora cruel para o que eu estava prestes a fazer com o próprio , uma figura que tomava muito mais força depois da nossa recaída.
 Fiquei sem saber o que responder; felizmente, mamãe correu para falar com – ela, que sempre aprovou nossa amizade, mesmo com o término do namoro, carregada de inocência. Elogiou sua aparência, alisando as mangas do terno e arrumando a lapela. agradeceu, talvez um pouco envergonhado, mas definitivamente satisfeito consigo mesmo. Finalmente, pigarreou e aumentou o tom da voz, se dirigindo tanto à minha mãe como a Emma:
 – Vocês se importam se eu falar com a a sós por alguns minutos?
 O olhar que Emma lançou na minha direção foi decididamente acusatório, mas minha mãe deu de ombros, não vendo maiores problemas:
 – Claro que não, , querido... Vamos, Emma. – E saiu pela porta, arrastando Emma junto com ela, não sem antes lançar um olhar de dúvida em nossa direção.
 Assim que a porta se fechou, voltei-me para e, tentando ignorar o frio na barriga, sussurrei, zangada:
 – O que você está fazendo, ? – Ele levantou as sobrancelhas e sentou no braço de uma das poltronas próximas ao grande espelho da sala. – Você passa meses se recusando a ser meu padrinho, ignorando todos os meus pedidos, e agora aparece aqui, absolutamente do nada, sem aviso prévio?
 – Você está realmente linda, – foi a resposta que ele me deu.
 Enquanto eu procurava palavras para replicar, ele me contemplou de cima a baixo, e seu rosto não possuía mais traço algum de sorriso. Seus olhos se demoraram no meu decote, e eu enrubesci.
 – Obrigada – eu enfim disse, não sendo capaz de elaborar mais. E em seguida observei: – Você ignorou minha pergunta.
 – Sabe, eu realmente não queria vir hoje – ele começou a justificativa, tamborilando os dedos no encosto da poltrona. – Decidi de última hora, e para ser sincero... Machuca tanto quanto eu pensei que machucaria.
 Com a confissão, as imagens da noite anterior retornaram, como em uma punição por eu ter me esforçado em esquecê-las ao longo de todo o dia. beijando minhas costas, da curva do pescoço ao cóccix. Deslizando um dedo pela minha barriga, descendo até as coxas. Prendendo meus pulsos, enquanto virava meu corpo de lado e sussurrava que me amava ao pé do meu ouvido...
 Fechei os olhos e escondi meu rosto entre as mãos, sabendo que lidar com as memórias seria inevitável. Não percebi que havia se aproximado de mim até sentir seu toque. Ele afastou minhas mãos e beijou meu rosto. A proximidade foi sufocante, especialmente por causa do cheiro dele. O mesmo perfume que eu imaginara na noite anterior, que possuía um apelo sensual que me tirava da razão.
 – Você está pensando na noite passada, não? – murmurou, encostando nossas testas e beijando meu nariz. – , não case com ele.
 Ergui os olhos para ele, assustada com as implicações da proposta.
 – Você está louco, ? – eu disse, em um sussurro urgente. – Você não pode vir ao meu casamento para me convencer a largar meu noivo no altar!
 – Por que não? – ele rebateu, teimoso. – Se Ethan te fizesse feliz, você não teria me ligado ontem à noite – acusou.
 Recusei-me a pensar naquelas palavras. Eu tinha uma história com , isso era verdade. Mas Ethan sabia me fazer feliz. Ethan era doce e artístico, sensível e apaixonado. Ele expressava suas emoções e sentia com o corpo todo, não apenas com o coração. Ele declarava seu amor todos os dias, sem exceção, não necessariamente com palavras. Em Ethan eu podia confiar: ele estivera comigo quando eu precisei, quando eu morri de saudades de casa, quando eu me formei.
 – Isso não é verdade – eu retruquei, consultando o relógio em seguida. – Desculpe, mas eu não vou abandonar o meu noivo a trinta minutos da cerimônia. Talvez ele já esteja no altar. Você não pode me pedir isso, .
 Ele bufou, sem qualquer ânimo, e me soltou, fazendo um gesto de negação com a cabeça. Com a voz seca, falou:
 – E eu que acreditei quando você disse que me amava, .
 Eu o empurrei, com raiva, porém sem conseguir afastá-lo realmente. A descrença dele na minha declaração, somada à frieza com a qual me tratou, apenas tiveram a consequência de me ofender. Como se as minhas palavras não fossem dignas de confiança.
 E embora eu estivesse a meia hora de jurar meu amor e me comprometer por toda a vida com Ethan, embora eu soubesse que o melhor a fazer era deixar ir embora, acreditando que eu o enganara, eu simplesmente não pude fazê-lo. Apontei o dedo indicador para ele, com os olhos já ardendo pela vontade de chorar, e o desmenti:
 – Você é um tolo, – eu disse pausadamente, saboreando cada palavra. – Eu não mentiria para você. Se você pensa isso de mim, quem não ama é você – completei, triunfante.
 Imaginei que ele ficaria irritado com o meu discurso, mas as palavras pareceram causar o efeito oposto. Seus ombros murcharam, e durante um bom tempo ele apenas me encarou, com olhos bem abertos e brilhantes. Ele soltou o ar pelas narinas pesadamente, e perguntou:
 – Implorar faria alguma diferença? Porque eu estou disposto a isso.
 – , eu sei o que vim fazer aqui. Vim casar-me com Ethan. Nada vai mudar isso agora... Sinto muito, príncipe.
 Eu sabia que era crueldade usar o apelido àquela hora. Não pude resistir à tentação, porém, de mantê-lo preso a mim, por mais que isso revelasse todo um egoísmo contra o qual eu lutara por anos.
concordou com a cabeça, ainda que entristecido. Em um gesto simples, beliscou minha bochecha com os dedos em um movimento leve, suspirando. Em seguida, sem dizer mais nada, levantou do braço da poltrona e se encaminhou à porta, saindo do cômodo sem olhar para trás.
 Não demorou muito para que Emma aparecesse em seguida, informando que minha mãe havia subido ao altar e que os convidados já haviam chegado, em sua maioria. Se ela reparou que meus olhos estavam vermelhos, não comentou.
 – Só falta a noiva – ela disse, abrindo um sorriso nervoso que refletia preocupação.
 Apaziguadora, eu sorri de volta, e perguntei por papai, que me levaria até o altar. Ela me estendeu a mão, entregou-me o buquê de noiva e me puxou para além da suíte. Antes de sair, consciente do grande passo que estava dando, olhei para trás, em direção ao arranjo com o qual me presenteara.
 Sacudi a cabeça, numa tentativa de afastar do pensamento a cena que acabara de se desenrolar, e apertei o passo para acompanhar Emma.
 Quando me tornei Underwood, não estava usando nenhum “algo velho”.

*

 Olhei para o relógio e percebi, assustada, que nunca terminaria minha mudança a tempo caso continuasse com devaneios. De um salto, corri para terminar de encaixotar tudo o que queria levar comigo para a casa dos meus pais, onde ficaria por pelo menos um tempo. Em seguida, começando pelas mais pesadas, desci de elevador com as caixas para o estacionamento do prédio, arrumando-as no porta-malas do carro. Logo na segunda caixa, cansada pelo esforço físico, me arrependi de ter recusado a ajuda que oferecera na noite anterior. A verdade é que, além do próprio orgulho, outra concepção motivara a recusa: a de que aquele apartamento não era o lugar de , e colocá-lo novamente lá dentro seria a afronta final ao meu casamento arruinado... Especialmente depois de tudo.
 Quando faltavam apenas duas caixas leves – que ficariam no banco do carona, já que o resto do espaço do carro já estava tomado –, eu me permiti respirar fundo uma última vez dentro daquele apartamento, olhando ao redor apenas para perceber a minha ausência daquele local. Ethan conseguiria o que pediu: nada mais naquele lugar lembrava uma vida a dois, muito menos uma vida comigo. Balançando a cabeça negativamente, empilhei as caixas restantes e as levantei à altura do peito, equilibrando-as em direção à porta. Entretanto, meu caminho foi bloqueado por uma figura alta e corpulenta, na qual eu teria me chocado, se o meu instinto imediato não fosse recuar. Confusa, olhei por detrás das caixas e percebi que um par de olhos verdes me encarava. Era Ethan.
 Ele me olhava com um misto de sentimentos, todos facilmente reconhecíveis: desprezo, desrespeito, ojeriza. Além disso, um riso debochado brincava em seus lábios; era um sorriso detestável, que causava uma ebulição dentro de mim. Apenas a boa educação me prevenia de socá-lo, unicamente com o propósito de desfazer aquela expressão sonsa de seu rosto.
 – – ele cumprimentou, mas não de modo simpático. – Não esperava vê-la aqui a essa hora. – Eu não respondi, preocupada apenas em encontrar uma maneira de livrar-me dele o mais rápido possível. – Produto da incompetência da sua advogada ou só da sua mesma?
 Suspirei e rolei os olhos para o teto, cada vez mais consciente do peso das caixas nos meus braços.
 – Últimas caixas, Ethan – respondi, levantando-as de leve para chamar a atenção para elas. – Papéis assinados, eu indo embora e levando minhas coisas comigo... Você já tem tudo o que quer, sabe?
 Ele negou com a cabeça, de forma veemente, apertando os lábios com tanta força que eles se tornaram uma linha fina em sua face. Acreditei por um momento que, com o gesto, ele estaria guardando as palavras para si, mas estava enganada.
 – Na verdade, não tenho nada do que quero, . Nunca tive – ele rebateu, e eu preferi ignorar a provocação. Sabia que entrar em uma discussão com Ethan seria satisfazer exatamente suas vontades, o que não estava dentre meus planos. – Entretanto, devo dizer que fiquei satisfeito em encontrá-la ainda aqui – ele adicionou, fechando a porta atrás de si e finalmente adentrando o apartamento.
 Fiquei um pouco assustada com a situação de estar fechada no apartamento com ele, mas sabia que estava exagerando. Ethan nunca foi uma pessoa violenta.
 – E por que estaria? – perguntei, cansada.
 – Porque – ele começou, e sua voz revelava verdadeira ira – agora tenho a oportunidade te jogar na sua cara tudo o que você é, .
 Eu permaneci em silêncio, já imaginando o que estava por vir. Mais uma sessão de xingamentos, de ofensas e acusações. Ethan não me decepcionou.
 – Eu nem sei como você tem a coragem de pisar nesse apartamento, . Depois de tudo o que você fez, depois de ser uma puta miserável que só olha para o próprio umbigo. Você se acha demais, não é, ? – ele prosseguiu, elevando o tom de voz. – Você é menos que nada. É só uma vagabunda egoísta que não faz a menor ideia do que é amar alguém! – ele gritou ao fim, socando a parede atrás de si.
 Senti o nó sendo formado em minha garganta, porém me recusei a responder. Argumentar com Ethan, nessa situação, não levaria a lugar algum. Portanto, eu apenas concordei com a cabeça, frustrada, esperando que ele apenas parasse de falar alto.
 – Muito obrigada, Ethan. Agora, se me der licença...
 – Você transou com ele na minha cama! – ele berrou, apontando para mim, os olhos brilhando de ódio. – Você deu para ele durante todos esses anos, não foi, sua putinha? Enquanto eu estava trabalhando, você estava abrindo as pernas para ele, sua arrombada! E é por isso – ele adicionou, andando pelo apartamento e apontando para todos os cantos – que isso tudo ficou para mim! Porque você não merece nada, porque você é uma vadia, porque você é uma prostituta que...
 Corri até a porta e, enfrentando alguma dificuldade com as caixas, saí do apartamento. Eu não aguentava ouvir mais; pior ainda, eu não aguentava ouvir calada, sem saber o que responder. Porque era tudo verdade. Porque eu traíra Ethan desde a véspera do casamento, e não deixara de traí-lo em nenhum momento posterior. Porque eu nunca deixara de amar , nem quando disse sim a Ethan no altar. Porque eu não fui capaz de abandonar essa paixão, e dormi com diversas vezes naquela cama que deveria ser sagrada. Porque mesmo naquela hora, depois de ouvir todos os gritos de Ethan, eu estava indo atrás de , esperando receber um abraço de consolo e um sussurro calmo no meu ouvido, dizendo que tudo ficaria bem.
 Ansiosa demais para esperar o elevador, eu corri para as escadas de emergência, a visão embaçada por conta das lágrimas. Desci cada degrau com dificuldade, carregando não somente o peso das caixas, mas também o da minha consciência.

***

 Encontrar geleia de morango dentro dos armários da cozinha de era uma missão impossível, eu decidira naquele exato do momento. Arrastei uma das cadeiras para perto do armário mais alto, compelida a continuar a busca. Subi na cadeira e, quando finalmente avistei o pote vermelho no fundo do armário, escutei o molho de chaves batendo contra a porta, o que só podia significar que havia chegado em casa.
 Eu não me enganei. Em poucos instantes, apenas o tempo de eu me esticar para alcançar a geleia, entrou na cozinha, e pareceu divertir-se olhando o meu esforço. Ergui uma sobrancelha para ele, desafiando-o a fazer algum comentário, mas ele apenas riu, erguendo a mão para me ajudar a descer da cadeira. Eu aceitei o apoio e, assim que pus os pés no chão, fui puxada para um abraço apertado e um beijo molhado, o que me deixou surpresa.
 – Vejo que alguém está de bom humor hoje – eu comentei, rindo, assim que nossos lábios desgrudaram. Apoiei o pote de geleia na bancada e, com as mãos livres, baguncei os cabelos de , fazendo-o rir junto.
 – Bom dia no trabalho – ele comentou, dando de ombros. – Um garoto realmente talentoso me pediu ajuda com uma composição. Fiquei orgulhoso – ele completou, com um sorriso satisfeito.
 – Parabéns, amor – eu comentei casualmente, enquanto passava geleia nas torradas que havia separado anteriormente. – Para ser justa, não é difícil ser talentoso, tendo você como professor – argumentei, apontando para ele com a faca. Ele levantou os braços, como se estivesse se rendendo, e gargalhou em seguida. Postou-se atrás de mim e envolveu com os braços, beijando minha bochecha, enquanto perguntava:
 – E o seu dia, como foi?
 Eu inspirei e soltei o ar com força, quase bufando.
 – Realmente ótimo – respondi, com sarcasmo. – Ethan viajou hoje para uma exposição de fotografia em Nova York, e fez questão de criar confusão antes de sair.
 – O que foi dessa vez? – perguntou, parecendo cansado e desconfortável. Ele voltou para o meu lado e roubou uma torrada.
 – Ah. Você sabe. Trabalhar com psicologia infantil não é artístico o suficiente para ele. E se não é artístico, não é válido, na sua concepção.
concordou com a cabeça, pensativo. Em seguida, deu de ombros.
 – Você sabe o que eu penso sobre o valor que Ethan dá a você, – ele disse, irritado. – Ainda assim, você continua com ele.
 Senti o sangue subir e um calor forte chegou às minhas bochechas, me fazendo corar. Desviei os olhos de , envergonhada. A verdade é que eu nunca soubera explicar para ele o motivo de continuar com Ethan. Isso porque pareceria mesquinho demais admitir que eu insistia na relação apenas para não admitir o fracasso: o nosso fracasso, o meu fracasso.
 Eu merecia uma pessoa que reconhecesse as minhas virtudes, e não apenas criticasse as minhas falhas. merecia alguém que se comprometesse verdadeiramente com ele, alguém que assumisse um relacionamento sério, público e duradouro. Ethan, por sua vez, merecia alguém que não o traísse toda semana e que não imaginasse outro a cada momento que era tocada por ele. Aquela situação não era justa para ninguém; e ainda assim, contra toda a razão e lógica, eu a sustentava, pouco sentindo o seu peso.
 – , de novo não – eu pedi, a cabeça baixa, mas os olhos erguidos para ele. – Por favor, não vamos falar de Ethan.
 – Tudo bem – ele concordou. – Desculpe, amor. É só que...
 – Eu sei – eu interrompi, embaraçada.
 – Eu simplesmente não suporto isso! Odeio ver você sendo tratada desse jeito – ele desabafou, frustrado. Procurando o meu olhar, ele tocou no meu rosto, me fazendo encará-lo nos olhos. – , acho que você não tem a menor ideia do quão incrível, linda e inteligente é. Não deixe Ethan te enganar.
 Antes que eu tivesse tempo para pensar em uma resposta, me pegou nos braços e puxou meu corpo para si, me fazendo soltar tudo o que estava na minha mão. Encostou seus lábios nos meus suavemente, e eu pude sentir o gosto de morango da geleia de minutos atrás. Ele pressionou a boca contra a minha com mais força, e acariciou minha língua com a própria, de forma urgente. Eu pus uma mão em sua nuca, e com o outro braço guiei sua mão até minhas costas, sabendo que ela desceria dali rapidamente.
não me decepcionou, e deslizou a mão por dentro do meu vestido, não parando de me beijar nem por um instante. Com um impulso, joguei minhas pernas ao redor da sua cintura, completamente consciente da reação que o movimento causaria em . Sorri internamente quando alcancei o efeito esperado. Certas coisas nunca mudavam.
 Carregando-me no colo, andou até o sofá da sala, beijando meu pescoço enquanto eu passava a mão pelos seus cabelos. Ele soltou o laço que amarrava meu vestido à cintura, puxando as fitas calmamente, um gesto que emanava certa poesia. Sentou-me no sofá ao mesmo tempo em que levantava o meu vestido e beijava a minha barriga nua. Passei o resto da roupa pelos braços e pela cabeça, jogando a peça em algum lugar perto da parede da televisão. Nesse momento, já beijava a curva dos meus seios, enquanto eu levava as mãos atrás do corpo para abrir o fecho do sutiã. Foi quando a campainha tocou.
 – Você está esperando alguém? – eu perguntei, em voz baixa e imperativa. Ele negou, ofegante, olhando para a porta com uma expressão de dúvida.
 A campainha tocou novamente, o que pareceu irritar .
 – Já vai! – eu gritei em direção à porta, principalmente para evitar que o inoportuno visitante apertasse o botão da campainha uma terceira vez.
 Levantei do sofá, correndo até meu vestido, enquanto se adiantava em direção à porta. Eu tinha acabado de vestir a peça novamente quando a porta foi aberta, e uma voz furiosa berrou:
 – Eu sei que ela está aqui, , quero apenas ver com os próprios olhos!
 Não precisei pensar uma segunda vez antes de reconhecer a voz de Ethan. Meu marido. Subitamente conscientizei-me do meu vestido torto, dos cabelos desgrenhados e do batom borrado. Antes que eu tivesse tempo para processar, com horror, o que tudo aquilo significava, Ethan empurrou com o ombro e entrou no apartamento como um furacão, enquanto este chamava a sua atenção com um “Ei!” e corria atrás dele.
 Ethan me encarou da cabeça aos pés, com ódio no olhar e apontou para mim com o indicador.
 – Você é uma vagabunda, – ele gritou, cuspindo as palavras. – Eu sempre soube que você não valia o chão que pisava! Como – ele adicionou, parecendo saborear cada palavra – você pôde ser tão baixa?
 Eu não tinha resposta pronta à altura da situação, de modo que minha reação foi apenas o silêncio e as lágrimas. Àquela altura, já havia se colocado entre mim e Ethan, de modo protetor, muito embora eu estivesse tão pouco predisposta a encarar um quanto a encarar o outro.
 – Vá embora da minha casa, Underwood – disse pausadamente, mantendo o equilíbrio que parecia faltar ao resto de nós.
 Ethan se virou para , os olhos ainda ardendo em fúria.
 – Quem é você para falar comigo desse jeito, ? – questionou Ethan, meneando a cabeça em negação. – Você é um filho da puta de um perdedor, , um músico fracassado que precisa comer a minha mulher para se sentir alguém na vida. Vocês se merecem – ele completou, voltando os olhos para mim, cheios de desprezo.
 – Eu disse: vá embora da minha casa agora, Underwood – repetiu, com violência, dando um passo na direção de Ethan.
 Sem se intimidar, Ethan arrancou a aliança do anelar e jogou em mim. Ela ricocheteou no meu braço e caiu no chão, o som do metal contra a tábua corrida ecoando pela sala.
 – Você – ele disse, apontando para mim. – Nunca mais pise na minha casa.
se adiantou para ele, e por um instante eu tive medo que aquilo se tornasse uma briga física. Entretanto, Ethan finalmente deu meia-volta e foi embora, batendo a porta ao sair, em uma atitude piegas e imatura.
 Atônita, virei meus olhos para , como se buscasse uma resposta do que fazer. Aquele que fora meu namorado, aquele que era meu príncipe e meu amante, andou calmamente na minha direção, enquanto eu afastava os cabelos da face, sentindo-me perdida. Por mim, eu deixaria as lágrimas correrem livremente pelo meu rosto, mas as secou com o polegar.
 Ele não forçou um beijo, ou mesmo um abraço, atitudes pelas quais eu me senti agradecida. Apenas me acompanhou até o sofá e, enquanto eu sentava na beirada da almofada, ajoelhou-se na minha frente, segurando minhas mãos.
 – – ele me chamou, falando baixinho. Encarei-o nos olhos, surpresa pelo calor e confiança que aquele olhar me passava. – Eu amo você, lembra? Vai ficar tudo bem.
 Eu concordei com a cabeça, acreditando verdadeiramente nas suas palavras. Ainda assim, foi com culpa e nó na garganta que eu procurei a aliança no chão. Quando vi o brilho dourado, jogado de qualquer modo aos pés da mesa de centro, senti um aperto no coração ao constatar o que deveria ter reconhecido há muito tempo: meu casamento finalmente estava acabado.

*

 Após deixar o carro lotado de caixas na garagem dos meus pais, peguei a linha District do metrô em Notting Hill Gate até a estação de Edgware Road. me pedira para encontrá-lo na praça, aparentemente se recusando a fornecer informações mais detalhadas. Ele não precisava, na verdade – eu poderia imaginar que ele se referia à mesma pracinha onde ele havia me pedido em namoro, muitos anos antes, e à qual havíamos retornado tantas vezes durante nossa adolescência.
 A caminhada da estação até os jardins da Rua Broadley durava cerca de cinco minutos. Já passava das nove horas da noite, o que se significava que o sol já havia se posto e que as ruas estavam cada vez mais vazias. Andei apressada pela noite fresca, cruzando os braços.
 Assim que atravessei o portão da praça, percebi que algo estava diferente no ambiente. Era a iluminação, eu logo me dei conta, que parecia vir do chão. Surpresa, percebi que havia uma trilha delimitada por velas aromáticas. Acompanhei a luz e o cheiro de madressilva, e logo vi sentado sobre uma toalha xadrez, perto dos balanços. Rindo, segui a trilha até o rapaz, que abriu um sorriso enorme quando me viu.
 – – ele me saudou, e bateu com uma mão no espaço livre à sua direita. Eu me apoiei nas mãos e joelhos, e por fim sentei na toalha.
 – Pretendendo causar um incêndio na praça inteira, amorzinho? – impliquei, reparando no belo efeito das chamas iluminando a grama.
 – Estava tentando ser romântico! – ele protestou, fingindo ofensa. – E a propósito, eu cuidei das coisas para evitar acidentes. Não me subestime – completou, segurando o riso.
 – Eu não ousaria fazer isso – respondi, sorrindo. Depois, reparei na garrafa ao seu lado e nas taças que ele segurava coma mão esquerda. – Vinho? – adivinhei, apontando para a garrafa com a cabeça.
 – Tinto – ele especificou, sabendo que eu detestava vinho branco. – E uma variedade de queijos sem graça – completou, apontando para uma bolsa térmica que havia passado despercebida. – Se não vai ao jantar, o jantar vai até . Embora eu tenha certeza que vamos ter que passar no Burger King quando sairmos daqui.
 Eu concordei com a cabeça, rindo e me esticando para uma embalagem de pequenos cubos de queijo. Gargalhei ainda mais quando percebi que a embalagem ainda tinha o selo da Tesco.
 – Isso sim é namorado exemplar – comentei, apontando para o selo. Ele riu, mas eu fiquei tensa assim que percebi a palavra que havia usado. Olhei para , em dúvida, mas ele não pareceu se importar. Ainda assim, percebeu meu desconforto e, pegando minha mão livre e entrelaçando nossos dedos, inclinou-se para um selinho.
 – E como foi o seu dia, namorada? – ele alfinetou, parando para analisar minha reação.
 Eu decidi que não me importava com o título. Parecia natural, principalmente se combinado à velha pracinha e a todos os anos em que estivemos juntos.
 – Sua namorada acaba de se tornar uma mulher de vinte e cinco anos com estado civil de divorciada. Oficialmente – ressaltei, comendo o queijo. Percebi que fazia círculos com o polegar na minha mão, e sorri. A sensação era boa.
 – Uau! – exclamou. – Que namorada fracassada eu fui arrumar – ele brincou, e os ombros subiram e desceram junto com as suas risadas. Eu larguei o queijo e usei a mão para bater de leve em seu ombro, fingindo indignação. Ele segurou o meu pulso e, agora no controle de ambos os meus braços, me puxou para si, de forma que eu sentei no seu colo. Ele beijou a ponta do meu nariz, mas logo depois sua expressão tornou-se séria. Logo a seguir, ele confirmou essa impressão:
 – Falando sério agora, ... Como você se sente?
 Eu sabia que ele não estava falando da minha saúde física. Parei para analisar minhas emoções por um momento. Esforcei-me para olhar para trás, para os últimos anos, procurando arrependimentos.
 Eu encontrei um arrependimento. Por Deus, não o divórcio: ele acabaria acontecendo, mais cedo ou mais tarde. Mas eu me arrependia de como ocorreu. De como eu enrolei durante anos, completamente necessitada do seu carinho, e de como enrolei Ethan pelos mesmos anos, fazendo-o crer que eu estava comprometida a fazer nosso casamento dar certo. Arrependida não de ter amado , mas de não ter a coragem de me separar de Ethan antes que a situação ficasse insustentável.
 Mesmo assim, considerando os arrependimentos, eu não conseguia ficar verdadeiramente triste com o fim. Já estava nascendo no meu íntimo a ideia de que aquilo não representava meu fim com Ethan, mas meu começo com . No entanto, eu logo percebi o quanto infactível era essa compreensão. Eu não estava começando com , nem mesmo recomeçando. A verdade é que, com ele, eu nunca havia acabado.
 Foi fácil, naquele momento, admitir para mim mesma algo que eu só admitira antes para : que eu nunca havia e nem haveria de deixar de amá-lo. E depois de presa por anos a tentativas infrutíferas de me convencer do contrário, eu podia afirmar que estava verdadeiramente...
 – Livre – respondi a , com um sorriso.
 Ele concordou com a cabeça, parecendo saber exatamente do que eu estava falando. Como se compartilhasse da mesma liberdade, depois de tanto tempo de sentimento enclausurado. me apertou dentro do abraço, e eu apoiei meu rosto no seu ombro, aproximando meu nariz do seu pescoço e absorvendo o cheiro delicioso de almíscar.
 Os anos se passaram, mas ainda havia um lugar onde eu sempre me sentiria em casa: onde quer que estivesse, dentro de seus braços.


Fim.


Nota da autora:
Mais de três anos se passaram desde a última vez que eu vim ao FFOBS para escrever uma N/A. No entanto, como ficou demonstrado ao longo de Years Gone, algumas coisas simplesmente não mudam, não importa quanto tempo passe.
Gostaria de agradecer, primeiramente, ao Fanfic Obsession, pelo convite de me juntar a ótimas autoras do site em um Especial da Saudade. Claro que me senti uma idosa (o que, no auge dos meus vinte anos, talvez seja verdade), mas uma idosa muito honrada. Depois, sempre tenho que agradecer à Abby, minha beta-reader alfa, minha crioula número 1 e minha carioca-curitibana-brasiliense mais amada!
Agora, à fanfic. Atendendo à proposta do Especial da Saudade, ela se passa anos após Into Your Arms, muito embora eu tenha tentado escrevê-la de modo a prescindir da leitura da primeira fiction. Mesmo assim, deixei algumas pistas ao longo do texto, que apenas quem leu e gostou de IYA conseguiu pescar. Alguma de vocês conseguiu? Caso sim, deixe aqui um comentário!
Além disso, só me resta dizer que eu espero que tenham gostado de Years Gone! Se puder, deixe sua crítica, elogio ou xingamento na caixa de comentários. Cada um deles significa muito para mim :)
Marii-Marii
fb | @summer_giirl

Outras fictions da autora:
Into Your Arms [Restrita – Finalizada]
Living Backwards [Challenge Interno #1]
My Apocalypse [McFly – Finalizada]
The Best Not Wedding [McFly – Finalizada]

comments powered by Disqus