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Finalizada em: 14/04/2021

Capítulo Único

Senti minhas unhas fincarem na pele quente e macia, rasgando a carne lentamente. O sangue, levemente viscoso, escorreu prontamente, molhando meus dedos e trazendo o odor metálico até minhas narinas. Inspirei o ar profundamente, apreciando, me deliciando com aquele aroma. Eu podia ouvir os grunhidos e engasgos de minha vítima, desesperada por ar, por uma chance de sobrevivência por menor que fosse. Meus lábios se abriram num sorriso diabólico porque eu sabia que aquele rapaz não demoraria muito tempo, ele não sobreviveria. Eu havia sido preciso em perfurar sua jugular e a sensação de poder sobre aquela vida era tão maravilhosa que me vi levando meus dedos molhados pelo seu sangue à boca, sentindo o gosto e alargando mais o meu sorriso, agora satisfeito.
— Por fa... — ele tentou emitir algum som, implorando por sua vida, mas estava mais do que óbvio que ele não conseguiria, não com a garganta parcialmente exposta do jeito que eu havia deixado.
Confesso que ao mesmo tempo em que a luta insistente dele pela vida me excitava ela me irritava também. Foi por esse motivo que minhas unhas voltaram a se fincar na carne dele, rasgando sua garganta por completo e fazendo com que um último engasgo o calasse por fim. O sangue dele respingou no meu rosto ao mesmo tempo em que se derramava, inundando as roupas dele, o cheiro metálico ficou ainda mais pronunciado. Fechei meus olhos, apreciando-o por completo. Deixei seu corpo desfalecer, voltando a abrir os olhos para assistir à queda, porém fiz uma careta ao notar o ângulo torto que ele havia formado. Não, eu não queria assim. Não queria que meu ato fosse justificado com um ataque de animal. Eles saberiam que fora feito por um humano, ou melhor, o que eles achavam que eu era.
Me agachei, ajeitando o cadáver de forma que ficasse sentado, tombando minha cabeça para o lado e observando por alguns segundos. Faltava alguma coisa ali, algo para acrescentar o drama. Balancei a cabeça negativamente, reprovando a mim mesmo por ser tão perfeccionista. Tirei um lenço de meu bolso, limpando minhas mãos ensanguentadas, numa mania incontrolável que eu tinha. Por mais suja e impregnada de sangue que minha mão estivesse, eu tinha sempre que tentar limpá-la de algum jeito, depois de provar o doce sabor dele, é claro. Aquele era meu ritual particular. Me livrei de boa parte do sangue, então desviei meu olhar e foi nesse ato que notei a lanterna caída no chão, um pouco afastada do cadáver e então lembrei que era a que ele segurava antes de dar de cara comigo. Levantei-me e andei calmamente até a lanterna, juntando-a do chão e voltando a ligá-la. Voltei a me aproximar de minha vítima e me agachar para colocar a lanterna em sua mão, como se ainda segurasse. É claro que a mão estava flácida e não seguraria por muito tempo.
Bufei, irritado ao ver a lanterna cair da mão dele pela terceira vez, então uma ideia melhor passou por minha mente. Deixei a lanterna ligada apoiada sobre o colo dele, levantando então os seus dois braços para o alto e os unindo, como se algemas os prendessem um ao outro. Aquela posição não duraria por muito tempo para ser desfeita também, mas dessa vez eu estava satisfeito.
Ouvi passos e uma respiração ofegante que se aproximava do local. Era agora que eu teria o drama que tanto queria.
A garota surgiu em meio a escuridão, uma expressão assustada dominava suas feições e ela paralisou com a cena que encontrou. Sua fala parecia ter sumido enquanto ela encarava o corpo desfalecido. O sangue dele ainda vertia e o pavor dela ao ver aquilo era tanto que ela mal me notou ali, silencioso, rondando-a como um leão ronda a sua presa. Seria tão fácil acabar com a vida dela ali, minhas veias pulsavam implorando por isso. Minha sede de matar ainda não estava saciada, mas eu não mataria aquela garota ainda. Isso aconteceria no momento certo, por mais que o medo dela me incitasse cada vez mais.
Ouvi ela murmurar algo com a voz quase nula, levando as mãos à boca, negando como se tudo aquilo fosse um pesadelo. Abri um sorriso. Eu não iria matá-la, mas assustá-la ainda mais seria divertido. Me aproximei ainda mais dela, deixando minha respiração bater em seu pescoço, denunciando por fim a minha presença e sentindo ela enrijecer ao me sentir.
— Fique tranquila. Nada te acontecerá. Pelo menos ainda não — sussurrei em seu ouvido, me afastando de volta para a escuridão, já sabendo que ela viraria assustada em minha direção. Ela só saberia minha identidade quando sua hora chegasse, obviamente.
Uma risada baixa ecoou de minha garganta quando a vi procurando em volta, ainda mais apavorada do que antes e sem hesitar ela saiu correndo, deixando para trás o rapaz que outrora chamava de amigo.
Eu queria correr atrás dela e lhe atormentar mais, perseguir o medo dela e me alimentar dele, já que sua vida seria preservada ainda, mas um grito chamou minha atenção. Esse ecoou de uma voz conhecida por mim, era ela.
Rapidamente, eu segui os son