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Última atualização: 30/07/2018
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Capítulo 1


“I'm damn precious. And, hell yeah, I'm the motherfuckin' princess”

– Não tem nenhuma realidade possível em que eu vestiria isto, ! – Disse, olhando para o vestido longo e os saltos finos que minha irmã estendia em minha direção.
– Ai, , não precisa fazer essa cara de quem vai vomitar!
– Depende de quanto tempo você vai manter esse trapo perto de mim.
– É de marca! E custará uma grana que vai sair do meu bolso! O mínimo que você podia fazer é mostrar um pouco de gratidão. – Falou, girando-me pelos ombros na direção do espelho e colocando o vestido à minha frente. – Olha só como ficaria bonita! Essa cor valoriza muito seu tom de pele.
– É exatamente por você estar gastando seu dinheiro com isso que eu reclamo. – Fiz uma careta para o vestido e desviei o olhar novamente para sua expressão sorridente, que foi murchando ao perceber que eu não mudaria de ideia naquele assunto. – Isso não sou eu, , não é meu estilo. Por favor, só... Confie em mim, ok? – Terminei, virando em sua direção.
– Desculpa, ... É que estou uma pilha de nervos com a proximidade do casamento e não sei o que fazer para manter minha mente ocupada, sabe?!
– Tudo bem, , eu sei que já deveria ter comprado meu traje, e juro que irei logo. Com a troca de escola, tudo tem sido muito mais complicado.
– Eu me lembro como era. – Replicou minha irmã com uma careta. – Dramas adolescentes são os piores. – Provocou com um tom exagerado de tragédia.
– Se disser algo assim de novo, vou te bater, sua boba! – Revirei os olhos. – Você já tentou trabalhar ou ajudar no planejamento para aliviar o estresse?
– Exatamente o que pensei! Eu planejo casamentos, caramba! É tudo o que sei fazer. Mas você acha que meus funcionários me deixaram chegar perto de trabalho? Claro que não! Poxa, quando me pegaram ligando para a florista, quase me expulsaram do meu próprio escritório! Qual a vantagem de se dirigir seu próprio negócio se os trabalhadores da empresa desafiam minha autoridade?
, você nunca mandou na Sander’s Weddings. Quanto mais rápido aceitar isso, melhor.
– Não vou nem responder a esse comentário. Eles dizem que querem me surpreender. Até disseram: “Onde já se viu uma noiva estressando-se com a quantidade gigante de detalhes para seu grande dia! Você nunca deixaria isso acontecer, ”. – Fez aspas no ar e entoou com um tom de voz alterado. – Sinceramente, agora que estou no papel da noiva, eu não sei como nenhuma delas ainda não me matou.
– Talvez por que você consegue entregar a elas exatamente o que sonhavam para seu grande dia, ou até mais. – Respondi, sorrindo e devolvendo o vestido ao rack.
– Eu tenho mesmo um dom, não tenho?
Comecei a olhar em volta, colocando a mão na testa como que para avistar algo.
– O que está fazendo? – Franziu a testa.
– Estou procurando sua humildade. – Repliquei, risonha.
– Ok, mas sério. Eu não tinha o que fazer, e como eu sabia que você ainda não tinha comprado seu vestido de madrinha... – Encolhi-me diante de seu olhar acusatório. – Eu fiz uma pequena busca e encontrei essa loja.
– Essa espelunca? – Repliquei, recebendo um olhar feio de um vendedor, enquanto saíamos.
gargalhou com minha atitude, e antes de nos despedirmos, só o que disse foi:
– Está vendo, maninha? Você já conseguiu me animar mais do que as horas solitárias que estou passando em casa vendo Netflix.
Ao que eu repliquei, acenando:
– De nada, . Continuarei te amando, desde que não critique meu programa de fim de semana. A maratona de Netflix com pipoca é sagrada e não pode ser profanada assim por uma leiga, caloura nesse tipo de programa. Em uma semana ou duas, você estará viciada. Vai ver!
Voltei para casa de bom humor, apesar do jeito em que havia começado aquela manhã de sábado, em particular. Ser acordada por uma noiva histérica às sete da manhã só para encontrá-la duas horas mais tarde em uma loja, para provar um vestido que eu sabia que odiaria, era no mínimo irritante.
Se não fosse ligando, eu provavelmente nem teria atendido à ligação para começo de conversa. Mas ela era minha única amiga, a única pessoa pela qual eu deixaria o conforto de minha cama para fazer algo tão estressante quanto compras.
Em parte, ela estava certa. Eu estava tendo uma dificuldade muito grande de encontrar um meio termo. Não vou nem entrar na questão de ser baixinha demais e ter um tom de pele amendoado que dificultava e muito minha procura. Vamos combinar que a palheta de cores para meu tom de pele é bem diferente do das modelos ideais de beleza pálidas que as lojas costumam usar. Mas tento ver pelo lado positivo, quando eu encontrava o tom perfeito e um corte que abarcasse minhas curvas naturais, a roupa acabava destacando-se da “mesmice”. Fora isso, um traje de gala que combinasse com minha personalidade e que não fosse levar a noiva a ter um ataque cardíaco ao me avistar na posição de madrinha no altar parecia não existir.
Phillip provavelmente riria, ou nem mesmo ligaria se eu fizesse algo como aparecer em minhas botas de combate e um terno preto, mas eu sentia que desmaiaria antes mesmo que chegassem à parte do eu aceito. E eu estava bem em vestir algo extremamente desconfortável em seu grande dia, mas não um traje que gritasse terminantemente algo que eu não era.
Roupas, para mim, são como outdoors. Através delas que eu consigo ter uma catarse da minha personalidade. Meu estilo nunca fez o convencional, refletindo minha própria aparência um pouco fora dos padrões. Na verdade, ninguém nunca sabe como estarei vestida no dia seguinte. Tenho que admitir que possuo uma quedinha pelo gótico, mas isso não me definia. Meu hobby era surpreender os outros. A impressão que tinham do que eu expressava era minha arte. Ao mesmo tempo, eu gostava de passar a declaração clara de que eu não era uma coisa só.
Eu tinha uma aversão aos grupinhos divididos da escola que me tornavam uma párea. Mas essa era eu. Não me mudaria para que alguém se identificasse e sentasse comigo durante o intervalo. Minha mãe sempre dizia: ninguém é obrigado a gostar de você, mas você não pode deixar de ser quem é por causa disso. E eu acredito nela. Afinal, são palavras sábias de uma mulher experiente.
Já em minha rua, fui aproximando-me de meu endereço, número nove na Rua Bacon. Estranhei, percebendo a presença de um caminhão gigante de mudança estacionando quase à porta de minha casa. Abri a porta, caminhando até onde meu pai e minha mãe conversavam conspirativamente na cozinha.
– Bom dia, ! – Falaram, sorrindo para mim enquanto degustavam um copo de vinho.
– Bom dia. Como estão meus progenitores preferidos nesse sábado ensolarado?
Minha mãe revirou os olhos e meu pai deu uma risada.
– Você carrega a pessoa na sua barriga por nove meses e acaba sendo chamada de progenitora! Onde foi que você errou, Gary? – Completou ela, lançando um olhar acusatório ao marido e trazendo-me um sorriso no rosto.
Fui abraçar minha mãe carente, beijando sua bochecha com carinho.
– E nem está sol, até chuviscando está, na verdade. – Falou papai, mexendo na pequena cortina da janela da cozinha.
– Estamos nos mudando ou algo assim? Qual é a do caminhão na entrada? – Perguntei, sentando na bancada para aproveitar dos petiscos que meu pai preparava enquanto o almoço ainda não estava pronto.
– Vizinhos novos! Parece que aquele homem esquisito da casa ao lado se mudou.
– E agora o bairro pode respirar em paz... – Ironizei.
– Tenho certeza de que ao menos eu vou passar a dormir mais tranquila. A casa tinha um barulho tão esquisito durante a noite...
– Nossa, mãe, assim parece que o cara fazia rituais satânicos ou algo do tipo.
– Mas você duvida? Uma vez eu realmente ouvi um grito!
Revirei os olhos, incrédula.
– Bem, só espero que os novos moradores sejam melhores.
Dou duas horas para eles mesmos irem descobrir. Pensei, observando o casal conversar sobre seus planos de fim de semana. Balancei a cabeça com o tanto que eles pareciam duas velhas fofoqueiras.
O almoço passou rapidamente, sem mais menções aos vizinhos misteriosos, porém pontualmente às 14 horas, ouvi nossa porta batendo e fui até a varanda de meu quarto, tentando enxergar do espaço entre minha residência, de número nove, e a onze, onde os novos moradores iriam se estabelecer.
Sim. Lá estavam papai e mamãe passando com uma cesta de frutas até a casa ao lado. Inacreditável como meus pais eram previsíveis. Retornei ao quarto, separando os deveres acumulados durante a semana, precisando que eu tirasse o atraso, e resolvi me livrar logo deles. Pausei somente para jantar rapidamente com meus pais. Estranhei seus cochichos furtivos e seu silêncio. Não deveriam estar enchendo-me de detalhes não requisitados sobre a vida dos novos integrantes do bairro de Portsville? Não que eu fosse reclamar sobre isso. Foram horas tentando desvendar a trigonometria e os poemas confusos de literatura, mas consegui terminar tudo e ainda adiantar os da semana seguinte.
Satisfeita, desci ao primeiro andar, louca para fazer uma maratona de filmes de super-heróis. Preparei pipoca, misturei um suco e me larguei no sofá confortável, ligando a televisão. Essa sensação era quase o meu paraíso pessoal. Quando já estava no fim do primeiro filme, ouvi a campainha tocando.
– Pai, mãe, estão esperando alguém? – Berrei, chamando-os das escadas.
Ambos desceram com caretas igualmente confusas e corremos juntos para atender à porta.
– Boa noite, senhor e senhora . – Disse um menino, sorrindo cortês.
– Ah, boa noite, meninos!
– Entrem, entrem!
Disseram meus pais ao mesmo tempo, enquanto só o que eu conseguia fazer era encarar os dois garotos à minha porta. Entrando em minha casa! Sentando em meu sofá! Ambos eram altos, mas o que tagarelava parecia medir somente alguns centímetros a mais do que eu. Já o calado, que eu apelidei de “Senhor Darcy”, de tão silencioso e taciturno, era tão alto que provavelmente não caberia deitado de lado no sofá de três lugares. A referência que fiz ao protagonista do romance de Jane Austen se demonstrou falha após alguns segundos de convivência. Ele parecia mais cansado e distraído do que realmente grosso ou taciturno.
– Viemos em nome de nossos pais para retribuir a gentileza de vocês mais cedo. Eles sentem muito por não poderem vir, mas estão terminando de arrumar nossa casa. Trouxemos esses doces que são iguarias de nossa cidade natal. – Falou o tagarela, dando um tapa no ombro do irmão, que encarava minha televisão pausada no filme, distraído.
– O quê? – Perguntou com um olhar perdido. – Ah, sim, aqui. – Disse, estendendo uma sacola.
– Muito obrigada, meninos. São muito gentis. Eu e Gary já íamos nos retirar para dormir, mas se quiserem ficar para ver filmes com a , considerem-se em casa.
Meu pai olhou feio para mamãe, enquanto eu corava sem graça com a ideia. Ao perder a batalha de encaradas, papai desejou boa noite e foi arrastado por Sandra até o segundo andar.
Observamos o casal subir em silêncio e eu virei-me, embaraçada, para os meninos em meu sofá. Um deles, o mais baixo e provavelmente o mais novo, levantou-se, estendendo a mão para mim.
– Ah, desculpa, esqueci-me de me apresentar, sou .
Sorri, apertando sua mão.
– Sou , , na verdade, mas todos me chamam de . – Tagarelei, tentando não babar naquela escultura que era seu corpo.
– Muito prazer. – Respondeu, alheio a minha expressão admirada. – Aquele mal-educado ali é meu irmão mais velho, . A gente não precisa ficar se você estiver muito ocupada vendo...
– Maratona de filmes de heróis. – Repliquei, recompondo-me após o impacto inicial da presença dos irmãos. – Claro que podem se juntar a mim.
– O próximo é homem de ferro? – Perguntou , desviando o olhar da TV para mim.
– É, sim! Como sabe?
– Curto a Marvel, só.
Sorri para ele e peguei o lugar a seu lado, enveredando em uma conversa sobre a batalha entre a Marvel e a DC. Como em todas as vezes que eu discutia sobre isso, não chegamos à conclusão alguma. Logo se demonstrou ser o oposto de calado, já sentou-se em meu outro lado, mexendo em seu celular até a hora de começar o filme. Inicialmente, até tentou acompanhar o assunto, mas não parecia ser muito sua praia.
Mesmo com o início dos filmes, eu e ainda comentávamos baixinho sobre algumas cenas mais emblemáticas. De vez em quando, eu lançava olhares e meio-sorrisos a para ter certeza de que ele não estava morrendo de tédio ou ao menos gostando do programa. Porém, sempre me parecia que, por mais que ele não conhecesse muito do M.C.U. (universo da Marvel), estava curtindo assistir às obras da marca.
A noite somente terminou com os créditos do último filme que eu havia programado. cochilara por vários instantes. Sempre que eu o olhava, ele conseguia de alguma forma disfarçar, e para não o envergonhar, eu fingia que acreditava que estava plenamente consciente. O fato era que eu não parecia ser capaz de desgrudar os olhos dele. Mesmo envolvida no assunto com , parecia que minhas pupilas tinham vontade própria e, quando eu me distraía, acabavam nele.
Notei algumas coisas sobre de cara naquela noite. Primeiro: era uma companhia excepcional. Mesmo que estivesse boiando no assunto, dava pequenos sorrisos para mim e caretas para , como que para deixar uma marquinha de sua presença. Segundo: tinha belos olhos. Não eram daqueles evasivos nem incisivos demais, analisando cada movimento. Não, esses me deixariam desconfortável. Mas ele tinha uma forma de vagar sua mira pelo ambiente em reconhecimento, de forma sinceramente agradável. Terceiro: quando participava da conversa, ele parecia ouvir atentamente o que eu dizia, como se minha opinião fosse muito importante, trazendo-me um formigamento esquisito que eu ainda não sabia identificar ao certo.

– Boa noite, . – Falou , dando um beijo em minha bochecha.
– Tchau, , sonhe comigo. – Brinquei, atrevida.
– Boa noite, . – Imitou , dando-me um abraço sem graça.
– Er, boa noite, . – Repliquei, recebendo um encarar do menino.
– O que foi? – Perguntei, segurando a porta com força.
Eu estava sendo muito óbvia?!
– Eu não ganho um apelido também? – Perguntou com um biquinho.
Fiz uma careta pensativa e estalei os lábios, dando um tapinha em seus braços cruzados.
– Boa noite, boy. – Disse com um meio-sorriso sarcástico.
Sua boca abriu-se em um “o”, e quando começou a protestar, eu o cortei:
– Ahn-Ahn! Nem comece, você que pediu, gatinho.
A princípio ele pareceu irritado, mas logo depois abriu um sorriso e replicou triunfante:
– Tudo bem então, , até amanhã.

Balancei a cabeça, tentando livrar meus pensamentos dos estranhos irmãos . Um deles era claramente meu tipo de amigo. e eu tínhamos muito em comum, e o modo como conversávamos era mais próximo de uma amizade do que de um breve conhecimento.
me deixava completamente desconfortável. Eu e ele não parecíamos vibrar na mesma sintonia, e isso era intrigante. Deitei em minha cama com um último pensamento antes que perdesse a consciência: Os irmãos ainda iriam me dar muita dor de cabeça.


Capítulo 2


“Hey hey you you I don't like your girlfriend”
Dois meses depois...

Não foram necessárias nem duas semanas para que minha previsão se confirmasse. era uma dor de cabeça e um pé no saco constante. Entre maratonas e conversas trocadas de nossas varandas, foi surgindo uma amizade quase natural. O tempo se encarregara em nos tornar unha e carne. Não havia mais escola para mim sem , por isso me entristecia que este fosse seu último ano, enquanto eu ainda teria que aguentar mais um até a formatura.
”Mas e ?” Você poderia perguntar. No começo até que éramos um trio. Eu e fazíamos o máximo para encher o saco de , a única coisa que parecíamos ter em comum. Nós pregamos várias peças no garoto dentro e fora da escola. Nunca era algo humilhante demais. Somente gostávamos de dar sustos ou surpreendê-lo, mas nem sempre dava certo. Eu corava só de lembrar a ocasião em que eu e nos escondemos em meu quarto com máscaras assustadoras que compramos na lojinha da senhora Carmichael de Antiguidades e afins. Tudo parecia simples. Eu e sempre nos falávamos de nossas varandas respectivas quando batiam 18 horas, mas naquela noite o menino tinha outros planos. e eu esperamos. E esperamos. E então mais um pouco. Ao não ouvir nenhum chamado da casa ao lado, mudamos de plano e decidimos nos esgueirar até o quarto dele por dentro da casa dos Armstrongs mesmo.
Subimos as escadas de fininho e entramos no quarto berrando... Para encontrá-lo vazio. Foi só quando a porta do banheiro privativo se abriu que entendemos o que estava acontecendo. saiu do banho e estava bem... Como Deus o criou, beeem pelado. Uma visão que eu nunca apagaria. Estremeci. Eu não sabia se ria mais da situação, da expressão de , da de , ou de suas tentativas de cobrir meus olhos.
Suspirei, sentindo saudades de meu companheiro de travessuras. parara de sair conosco tão logo se enturmara e começara um namoro com a menina mais nojentinha do colégio. Eu achava que Entojo seria um bom nome para a recalcada, mas todos a chamavam de Tracy.
Tracy era maníaca. Tracy era controladora. Tracy era mesquinha. Basicamente a mulher era como a chefe da personagem principal de O Diabo Veste Prada, em uma versão mais jovem. Já a mãe de Tracy, bem... Ela, sim, era a réplica exata de Miranda Priestly.
Eu já não suportava a menina desde o momento em que comecei a estudar em South High. Agora que namorava o doce , meu ranço só tinha a crescer. E não era porque eu gostava dele ou nada do tipo. Ok, talvez eu gostasse... Um pouco. Mas esse não era o X da questão. O ponto era que a garota, só por ser mais velha, mais popular, ou qualquer que fosse o motivo que criava em sua mente doentia, vivia destratando .
Se ele fizesse o tipo mulherengo, eu aplaudiria Tracy. Diabos, eu até poderia passar a sorrir para ela quando passasse por mim no corredor da escola... Ou não. Mas não era assim. Assim como o Shrek, porém em uma versão deus grego, meu tinha camadas. De primeira, você podia ter uma impressão de que era o típico menino de ouro metido e para quem tudo vinha facilmente em sua vida privilegiada. Mas se você se importasse o suficiente para dar uma segunda olhada, encontraria uma pessoa extremamente extrovertida, divertida e que batalhava muito para se tornar a melhor versão de si mesma.
O problema era que tinha péssimo gosto para mulheres. Sem brincadeira. Antes de começar um relacionamento com Tracy, ele ficara com Jessica O’Connel, Melanie Higgins e Jill Perkins. JILL PERKINS! Eram meninas extremamente diversificadas? Claro. Bonitas? Algumas quase modelos, outras bem fora dos padrões, mas todas tinham algo em comum que meu amigo não devia nem perceber que buscava nas mulheres. Todas, sem exceção, eram ambiciosas. Acredito que isso o fazia conectar-se com elas a um nível superior.
Apertei meus olhos, tentando retornar ao presente. A ladeira da memória que eu revisitara certamente não me faria bem. Se não queria mais andar com a gente, a perda era dele! Se queria namorar a menina mais ridícula da face da terra, o problema era dele. Eu não tinha nada a ver com suas escolhas. Infelizmente...
Risquei esse último pensamento, recorrendo à boa e velha negação. Pois, como diria Dory, do filme Procurando Nemo, em uma versão por mim adaptada: Quando temos um problema, qual é a solução? Continue a negar, continue a negar, continue a negar, negar, negar, para achar a solução, negar, negar.
Aguardei recostada nas grades do colégio South High, cantarolando meu mantra baixinho, até ver aproximando-se do portão. Fui até ele, dando-o um beijo estalado na bochecha e um aperto em seu braço. Fomos andando até o corredor dos armários, enquanto eu massageava os ombros do menino e, como sempre, provocava-o.
– E aí, campeão?! Último ano, hein?! Está preparado? – Dei um meio-sorriso de escárnio.
– E eu já estive preparado para alguma coisa na minha vida, ? – Disse com uma careta perturbada.
Parecia que ele realmente havia se ofendido com minha brincadeira. Não que fosse criar rancor ou algo assim, mas provavelmente estava remoendo esse fato em sua mente pelos últimos dias. Eu dizia que ele deveria se preocupar menos com isso, mas não era como se ele fosse aceitar logo meu conselho. Afinal, eu era só a amiga, não é?
Agora o clima e o ritmo seriam outros. Terceiro ano do colegial não era fácil, muito menos para quem não tolera muita pressão como meu novo melhor amigo.
– Eu estava só tentando te zoar, . Tenho certeza de que se sairá muito bem. É um dos caras mais inteligentes que eu conheço! – Assegurei.
– EI! Sou só um dos? Por que não o mais inteligente? – Replicou, voltando ao seu modo brincalhão de costume.
– Olha, você está no top cinco... Ou talvez no top dez. Definitivamente no top quinze! – Sorri, envolvendo-o em um abraço que não tardou em corresponder.
Esse era só o seu jeito. Já o vira abraçando até a Diretora Fields, e espontaneamente! Aquele dia realmente foi muito estranho. fora chamado à sala da direção por ter arrebentado a porta da classe. Até hoje não sei como o fez, mas o jeito desastrado do menino não tinha limites. O ponto é que, em vez de ligar para seus pais, pediu socorro a , que atuou como uma espécie de testemunha de caráter do irmão e convenceu a Senhora Fields que fora somente um acidente, sem necessidade nenhuma de chamar a tia Grace ou o tio Kevin.
Sim, eu visitava tanto a casa deles que já estava na base do “tio” e “tia”. Sorte minha que ambos me amavam e eram uns doces, assim como seus filhos. Pensando bem, somente como . era o quarto porquinho perdido da estória dos três porquinhos, mesmo. Prova número um: seu quarto, uma verdadeira zona de guerra. Prova número dois: seu apetite animal que não tinha nem filtro, nem limites. Eu já o interrogara sobre o tamanho de sua fome, mas ele deu de ombros e, ao parar de mastigar o maior hambúrguer que eu já havia visto, uns minutos depois respondeu: , preste atenção no meu momento sensei de lições para a vida: quem tem limite é município. Eu, pelo contrário, tenho a liberdade de comer tantos desses quanto eu quiser!”. Prova número três: ele tinha uma lábia que podia convencer qualquer um de qualquer coisa.
vivia livrando a cara de seu irmão por confusões de todos os tipos. também o ajudava, mas de outras formas. Acobertando suas escapadas para os pais, por exemplo. Mesmo que reprovasse esse comportamento, era tão leal que nunca delataria seu irmão. Eu admirava muito esse seu traço.
Logo que os Armstrongs passaram a frequentar a South High, eu e passamos a ficar juntos no almoço. Mesmo que ele fosse muito sociável, na maioria do tempo éramos somente nós dois. Como eu não tinha amigos tão próximos antes, exceto minha irmã, , que já estava formada e trabalhando há uns cinco anos, foi natural que nos uníssemos ainda mais.

– Até mais, . – Murmurei, correndo para minha sala ao perceber o alto soar do segundo sinal.

Quando havíamos entrado, os corredores já estavam parcialmente vazios, já que a primeira campainha sinalizando o início da aula já havia tocado. A segunda era um alerta para os atrasados, como eu, que chegavam à classe no último segundo e sempre acabavam sentando-se nos piores lugares.
Não era que eu não gostasse de ficar no fundão. Muito melhor para evitar os professores que falassem cuspindo, dessem piti ou que amassem fazer perguntas que eu geralmente sabia a resposta, mas não tinha o menor saco de respondê-las. Mas esse não era o principal motivo.
Meu transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, que atendia pelo apelido carinhoso de TDAH, não me deixava ser uma aluna modelo. Na verdade, eu estava muito longe disso tudo. Aquele modelo de escola tradicional para mim não funcionava tanto assim. Eu não conseguia prestar atenção no que o professor de voz monótona dizia. O primeiro barulhinho, o movimento das pás do ventilador da sala ou uma cor mais chamativa conseguia me distrair.
Resumo da ópera: eu era muito repreendida pelos professores por ter a cabeça no mundo da lua e de quebra ainda tinha que estudar tudo novamente, em casa, segundo meus próprios métodos. Sinceramente, o colegial era uma droga e um tédio completos para mim, ao menos até eu conhecer os irmãos .
Recebi um bilhetinho de em minha mesa e abri discretamente debaixo de minha carteira.
Bom dia,
Sorri, revirando os olhos para o garoto. Isso era só algo que fazíamos. Ou mais algo que ele sempre fazia para me deixar irritada. Ao menos era como eu fingia estar. Mas a verdade é que eu sentia um calor espalhando-se em meu peito sempre que ele fazia algo do tipo. Mostrava que, de alguma forma, mesmo não estando tão próximo de mim quanto no primeiro mês desde a mudança, ele ainda se importava.
Bom dia, , sabia que o desmatamento faz mal para o meio ambiente? As árvores choram todas as vezes que você me dá um desses post-its. Assim como o bolso de seus pais! Você sabe quanto isso custa?
Colei o post-it em sua mesa, com uma careta de reprovação. Observei seus traços enquanto lia. Sua testa franzindo e depois suavizando com um meio-sorriso que poderia arrasar muitos corações. Mas não o meu. Tracy, era ela que devia ficar derretida com... Aquilo tudo.
Vale a pena se é para você sorrir, e não é como se jogasse eles no lixo. Já te peguei grudando eles na sua agenda, ! Espere-me depois da aula que quero falar contigo.
Corei furiosamente, sentindo-se flagrada. Minha sorte era que minha pele era escura, não denunciando tanto o quanto estava envergonhada. Fechei a cara e fiz o ponto de amassar o papel e fingir voltar minha atenção para o professor. Assim que ele se virou, joguei o bilhete em minha mochila para grudar em meu diário mais tarde. Como eu era patética! Sorte que ele pensava que era minha agenda, e não um caderno em que despejava todas as minhas frustrações existenciais.
Ao final da aula, fui direto até o estacionamento para buscar meu carro. Não ia dar o gostinho de esperar por após aquele flagra humilhante. Parei quando estava bem próxima do veículo ao ouvir meu nome sendo chamado pela voz que atormentava meus sonhos acordada.
! Espera. – Berrou , correndo até mim em seu uniforme do time de futebol.
Mais uma diferença de seu mundo para o que eu e vivíamos. Não fazia sentido eu ter uma queda logo por se era o irmão que gostava das mesmas coisas que eu. Odiava comparar os dois, não era como se me sentisse da mesma forma por cada um. era meu melhor amigo, era só um amigo. ”Ou talvez nem isso...”, constatei, sentindo um aperto no peito.
– Oi, . – Respondi, com um meio-sorriso forçado, ajeitando meu cabelo para trás da orelha, nervosamente.
E como a distraída que sabia ser, derrubei meu material no processo.
– Eita, deixa eu te ajudar! – Disse, ajoelhando-se do meu lado e tentando resgatar meu material do chão úmido.
Formei uma carranca para o garoto que era o culpado por me deixar nervosa e o objeto de minhas maldições.
– O que você quer, ? – Respondi secamente.
– Desculpe, eu só queria confirmar se você vai lá para casa hoje à tarde.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. Eu criara o hábito de quase viver na residência dos , mas nunca ficava em casa. A popularidade dele cobrava seu preço, pensei, suspirando. Queria muito perguntar se dessa vez ele ficaria, mas não consegui ter coragem de formular essa pergunta. Mais uma fragilidade que só acontecia quando se tratava dele.
Eu não gostava nem um pouco do jeito que me sentia exposta em relação ao garoto. Enquanto com eu sentia-me confortável como se ele fosse um irmão ou amigo muito próximo (o que de fato se tornara), destruía toda e qualquer barreira que eu pudesse ter. Era como se, diante dos seus olhos, eu estivesse nua e ele me visse como realmente sou. Ou qualquer uma dessas baboseiras que me recuso a engolir.
– Eu vou. – Repliquei, arrancando meu livro de álgebra de seus braços e marchando até meu carro, irritada e confusa.
Quando olhei pelo retrovisor ao arrancar com o carro, ele ainda observava meu veículo afastando-se da garagem da escola.

***


Como sempre, abriu a porta antes mesmo que eu pudesse tocar a campainha. Quando eu o questionara sobre isso, ele desconversara e afirmara se tratar de um sexto sentido dele. O termo que usara era: Alerta Chatinha. Uma luzinha vermelha que acendia em sua mente sempre que eu estava perto. Eu desconfiava que, na verdade, ele ficasse observando de sua janela para me surpreender de alguma forma. Porém, nunca o confrontei quanto a isso, imaginando que talvez fosse um pensamento muito narcisista de minha parte.
– Graças a Odin você chegou, ! Eu já não aguentava mais tentar responder às questões de história mundial. Não estava só chato, mas deprimente.
– É por isso que você me convida, não é? Só para eu te livrar do dever... – Provoquei, passando por ele e sentindo-me em casa, após uma recepção tão calorosa daquela família.
– Tia Grace, Tio Kevin! – Cumprimentei a ambos, sorridente.
Encontrei os dois no corredor entre as escadas e a sala de estar.
, querida! Noite de filmes com os meninos?
– Sim, tia... Ao menos com o . – Corrigi, contendo meu revirar de olhos e rindo ao ver ambos revirando os seus próprios.
– Não aguento mais que fique saindo...
A campainha tocou, enfatizando o ponto que claramente queriam fazer. desceu as escadas como um raio, indo atender.
– Por falar do diabo... – Disse tio Kev, recebendo um tapinha de sua esposa.
– Comporte-se, Kevin, não podemos escolher por nosso filho.
– Mas eu preciso cumprimentar...
– Não seja bobo, claro que precisa. – Falou seriamente para ele e desviando o olhar para minha careta de desgosto. – Precisam!
– Por que eu? – Perguntei com um biquinho.
– Querida, você já faz parte dessa família.
– Além do mais, é a única que suporta ela menos que a gente. Se iremos fingir gostarmos dela, é bom ter um contraste. – Completou Kevin.
– Não sei se sou tão boa atriz. – Grace debochou, levando uma mão à testa e arrastando nós dois para a entrada.
– Kevin, Grace, não sabia que estariam aqui. – Disse Tracy com um tom de voz enjoado.
Revirei os olhos com a audácia dela de chamá-los pelo primeiro nome, sendo somente a terceira vez que os encontrava. Nenhum dos dois havia dispensado o uso de senhor e senhora. Mas também, não dava para esperar muito daquela menina. Se nem classe ela tinha, imagina respeito.
– Eles já estavam de saída, amor. – Respondeu , sorrindo como um idiota para Tracy.
– E vamos mesmo. Até mais, queridos. – Replicou Grace, fugindo com Kevin e deixando-me à mercê da fera.
– Você também está aqui... – Sibilou a nojenta. – Que surpresa. – Murmurou, em um tom baixo, mas alto o bastante para que eu ouvisse.
– Hey, Trudy, como vai o nariz? Soube que fez cirurgia. – Brinquei, sorrindo falsamente.
– É Tracy! – Replicou, com um olhar assassino. – E está muito bem, obrigada pela preocupação.
– Ah, não me preocupei, “amor”. – Debochei, revirando os olhos para e seus apelidos ridículos.
– Você é vesga ou algo assim? – Perguntou ela, apertando os olhos.
Virei para com um alerta claro em minha expressão. Tira sua namoradinha daqui agora, senão vou meter a porrada nela. , que antes olhava para uma e para a outra, confuso, lançou-me um olhar decepcionado e pediu para Tracy esperá-lo no carro.
Assim que ela saiu, após uns protestos e um beijo mais longo e exibicionista que o comum, voltou-se para mim com a face magoada. Sua decepção atingiu-me como um soco. Recuei, dando passos para trás, em direção à sala.
– O está esperando-me, bom encontro para vocês, então. – Expliquei, tentando fugir.
– Não vai agora. – Suplicou, segurando meu braço, mas com gentileza, como ele sempre agia. – Qual é o seu problema?
Levantei meus olhos de sua agarra em meu cotovelo para sua cara fechada.
– Meu problema? Estou maravilhosa, não tenho problema nenhum.
– Então é comigo que tem implicância? – Questionou com tristeza.
– Claro que não. Não sei se você sabe disso, mas o mundo não gira a seu redor, .
... – Suspirou, soltando-me e andando de um lado para o outro a minha frente.
– Ah, qual é?! Como você suporta essa cobra? – Perguntei, voltando à nossa velha e batida discussão, recebendo de volta um encarar magoado.
– Eu só não entendo. Você se dá bem com todo mundo, nunca implica com ninguém. Mas quando se trata da Tracy...
– Sua namoradinha me dá nojo. – Disse, dando um passo à frente. – E você também, enquanto estiver trocando saliva com ela. – Continuei aproximando-me até estar grudada em seu peito, olhando para sua face diretamente.
– É assim mesmo que se sente? – Perguntou, estreitando os olhos e transformando sua mágoa em raiva.
– Sim! – Gritei. – E ela nem mesmo gosta de você. É só um cachorrinho para ela! – Berrei, observando-o recuar como se eu tivesse o atingido fisicamente. – E sabe do que mais?! Quando Tracy se cansar, vai te trocar por um modelo masculino mais popular. É tudo o que o cérebro de ovo da sua namorada consegue processar: níveis de popularidade.
– Só porque ninguém quer sair com você, não quer dizer que possa julgar quem realmente tem amigos. – Replicou com a voz séria.
Encaramo-nos por um tempo, ambos arrependidos por coisas que dissemos, mas machucados demais para recuar da briga que recomeçara. Era tarde demais para isso. Oficialmente e estavam em pé de guerra, e não havia nada que pudesse impedi-los. Era sempre assim conosco: dois passos para frente e três para trás. Nesse ritmo, em algum momento chegará a hora em que não haverá mais perdão ou amizade a ser salva. O intermédio de não será mais o suficiente para superarmos nosso orgulho e ego machucados. Eu temia muito que esse dia chegasse.
Mais tarde, e eu conversamos sobre o ocorrido, já que não havíamos sido exatamente silenciosos com nossos berros raivosos.
– Ele é um idiota saindo com aquela menina. – Comentou no meio da cena da luta em Wakanda, no filme Pantera Negra.
– Você concorda comigo? – Perguntei, surpresa, mas nem tanto.
Não era como se Tracy fosse muito querida naquela casa, com exceção de seu namorado.
– Dá para perceber que ela só está com ele porque ele faz parte do time. – Deu de ombros. – Meu irmão sempre enxergou o melhor nas pessoas, não importa o quanto converse com ele sobre isso, nunca vai perceber estar sendo enrolado até que seja tarde demais.
Observei , curiosa, querendo perguntar mais sobre os relacionamentos anteriores de , mas orgulhosa demais para isso.
– Bem... – Comecei, limpando a garganta. – Só de mim, então.
– O quê? – Perguntou, distraído.
– Ele vê o pior em mim. Não ouviu o que ele disse? – Falei com uma careta.
– Ah, mas é claro. Ele não sabe lidar com a paixonite que nutre por você.
– O QUÊ? – Berrei, pausando o filme e forçando a me contar cada detalhe.
– Você não percebeu? É meio óbvio. – Deu de ombros, bufando.
Logo depois arregalou uma sobrancelha e adicionou com um tom entediado:
– Assim como é óbvio que é recíproco.
– Eu não... Está maluco? Ele não pode estar... Gostando de mim, que seja! Assim como EU. NÃO. GOSTO. DELE!
franziu o cenho como se não acreditasse em uma palavra. Encolhi sobre seu olhar avaliador e bufei, jogando minha cabeça no encosto do sofá.
– Está tão evidente assim? –Suspirei, sentindo-me exausta.
pegou minha mão entre as suas e chamou-me.
– Olha, , eu podia jurar que você sabia. Quer dizer, qual é?! Os bilhetinhos, vocês dois passando tardes bolando como me pregariam uma peça, o jeito que ele fala de você aqui em casa, mesmo quando o assunto não tem nada a ver.
– Tipo o quê? – Arregalei os olhos, curiosa, abandonando minha negação por uns segundos.
– Ah, sei lá. Uma vez a gente estava fazendo compras. Sabe como nossos pais fazem com que a gente ajude na casa e tudo mais. – Eu assenti veementemente para que prosseguisse. – Então... Passamos na seção de congelados e ele ficou duas horas falando sobre como era um absurdo que você não gostasse dos sabores de sorvete ou picolé mais tradicionais. – Suspirou. – Olha só, eu concordo que Tracy não seja a garota certa pra . Já você... Eu amaria te ter na família.
Não aguentei a fofura do momento e, como raramente faço, pelo menos por iniciativa voluntária, abracei-o forte, sentindo seu inalar profundo em meu pescoço.
– Também não vai doer que ele pare de ficar enchendo-me sobre seus gostos para comida. – Completou, recebendo um tapa no pescoço.
– Uma pena que seja tarde demais. – Torci meus lábios, tentando conter a tristeza que ameaçava vir à tona, mas falhando ao sentir lágrimas pinicando em meus olhos.
Não importava que eu negasse para mim mesma. Eu era um espelho de minhas emoções, principalmente para meu melhor amigo.
– Não seja boba. Nunca é tarde para um amor verdadeiro. Já viu How I Met Your Mother? Essa série é o melhor exemplo para mostrar que o amor vem em diferentes formas, para alguns vêm cedo e tem outros que só o encontram mais tarde na vida.
– Nossa, você soa igual ao Ted falando. – Revirei os olhos. – Claro que já vi essa série. Tem alguma que eu já não tenha assistido?!
Rimos brevemente e ele esperou que eu limpasse minhas lágrimas antes que continuasse.
– Não só ainda dá tempo, como eu tenho o plano perfeito. – Replicou, com um olhar maquiavélico.
– E qual é? – Sussurrei, transpirando curiosidade.
devia possuir o gene Complexo de Super-Herói. Não aguentava ver uma causa perdida que já ia querendo ajudar...”, pensei, pessimista.
– Meu irmão nunca ficaria com Tracy se ele percebesse que está na verdade apaixonado por outra pessoa.
– Então teríamos que fazê-lo cair em si. – Assenti, acompanhando seu raciocínio, tentando ignorar o fato de que, no fundinho de meu coração, eu tivesse grandes dúvidas de que a tal paixonite ou inclinação amorosa realmente existisse.
Se realmente houvesse algo, devia ser no máximo um sopro, um pequeno desvio. Fingi que acreditava na nossa capacidade de tornar esse sopro em uma paixão sólida. Forte o suficiente para ser capaz de derrubar seu deslumbre por Tracy.
– Como faríamos isso? – Cedi.
– Simples. Assim como você provavelmente percebeu que gostava dele após ele começar a namorar Tracy, ele terá a mesma reflexão ciumenta se você começar a namorar alguém.
– Você quer que eu use uma pessoa para fazer ciúmes em seu irmão? – Perguntei, estranhando a atitude mesquinha e infantil.
– Eu sei como isso parece, mas não quero que se aproveite de ninguém. Eu e você podemos fingir. A escola já pensa isso mesmo... E eu estaria consciente de tudo. – Murmurou, encarando-me intensamente. – Aí é só você me dar um pé na bunda e ficar com meu irmão assim que ele acordar para a vida. – Continuou sua explicação, como se fosse igual a tirar doce de criança, e não um plano complexo e exposto a falhas.
– Tem certeza de que não se incomodaria em fazer isso? – Perguntei, cautelosa.
Algo em meu interior gritava um grande não para aquilo tudo, desejava apagar aquela tarde por completo e voltar a recitar meu mantra da negação. Mas eu não aguentava mais continuar daquela forma, enfeitiçada pelos olhares furtivos que me lançava, por sua risada divertida toda vez que conseguíamos pregar uma peça no , seu mal jeito que o fazia derrubar mil coisas por onde passasse, ou até sua expressão pensativa quando tentava resolver as questões da prova de matemática. Eu já fui até acusada de colar por causa de minha inabilidade de manter meus olhos longe dele. Aquele crush fora longe demais e chegara a hora de ter alguma conclusão. Fosse para o bem ou para o mal.
– Não, eu vou me mudar para a faculdade ano que vem mesmo...
Hesitei por mais uns segundos, contemplando tudo o que poderia dar errado. Porém, como muitas vezes em minha vida, pensei ”dane-se!” e joguei tudo para o alto. Em um segundo, todas as preocupações foram ignoradas e minha impulsividade tomou conta. A resposta de foi toda a confirmação que eu precisava.
– Está bem... Então estou dentro.


Capítulo 3


“No way, no way, I think you need a new one”

Assim como me instruíra, eu pedira desculpas a tão logo este chegou à casa. Tudo isso fazia parte de minha mais nova fachada de indiferença em relação ao casal dele com a Tracy. Essa era a única forma de demonstrar ao garoto que o ciúme que viesse a ter por mim e – se isso acontecesse, o que eu sinceramente duvidava – seria um ciúme desmedido, desproporcional e fora do comum, acelerando o processo.
– Rápido, ele está chegando, fica mais perto.
abraçou-me lateralmente, beijando minha testa assim que chegou até nós na escola. O congelar do menino por nossa proximidade foi tão perceptível que eu escondi meu sorriso no peito de meu namorado de mentirinha.
– Bom dia, ! – Exclamei, sorridente.
– Bom dia, . – Falou quase ao mesmo tempo que eu, fazendo-nos trocar um olhar falsamente apaixonado e suspirar.
Se eu fosse uma observadora de fora e não soubesse que aquilo tudo é uma farsa, era provável que ficasse enojada com a doçura exagerada. Nunca fui muito afetuosa publicamente, mas algo sobre saber que não era realidade me transformou em uma ótima atriz.
– Bom dia. – Sussurrou com um olhar estranho, analisando minha proximidade com seu irmão. – Vocês são um casal ou o quê? – Perguntou, apertando a mandíbula.
– Eu pedi a em namoro assim que você saiu com a Trudy. – Brincou , não resistindo à provocação.
– O nome dela é Tracy, “amor”. – Repliquei para com o mesmo apelido carinhoso que insistia em dirigir ao Entojo. Fingir me importar com a nojentinha infelizmente era um mal necessário. – Não é, ? – Indaguei como se eu fosse a pessoa mais angelical e simpática do mundo.
– S-sim. – Disse com a boca escancarada em surpresa e uma pontada de desgosto. – Bem, felicidades ao casal. Preciso ir encontrar Tracy.
E retirou-se com um olhar perdido.
– O que acha, ?
– Acho que ele já está confuso. Isso é bom, quer dizer que vai questionar seus sentimentos quanto a nós.
– Fui só eu ou ele pareceu...
– Desconfortável, sim. E triste também. Tem rumores rolando de que Tracy beijou um outro menino em uma festa no sábado passado.
– Pera, mas não foi nesse dia que...
– Ela deu um bolo nele? Sim. E meu irmão, sendo o bobo romântico que era, tinha preparado algo especial para os dois comemorarem seu aniversário de namoro.
Uma raiva quente me dominou, subindo em meu peito. Por que ele tinha que ser tão bobo? Ok, eu não estava sendo justa. O garoto não era bobo. tinha uma boa alma. Provavelmente estava defendendo Tracy, mesmo tendo provas concretas de que ela realmente estava na tal festa. Eu o amav... admirava por isso. Outros caras em sua posição sairiam apontando dedos para ela, acreditando em todos os rumores. Mesmo que eu acreditasse que ela o tinha feito, traído ele na cara dura, quem era eu para atirar pedras? Nem mesmo fui à tal festa.
O sinal tocou e entramos em South High de mãos dadas, cumprindo nosso papel de casal apaixonado. Atraímos vários olhares em nosso percurso até a sala. me deixou em minha porta, beijando minha mão e despedindo-se. Viajaria naquele fim de semana junto ao resto do terceiro ano, incluindo Tracy, para visitar algumas universidades próximas.
Eu ficaria em casa e completamente entediada, não fosse a data do jantar de ensaio do casamento de minha irmã. A família se reuniria no quintal dos fundos de nossa casa, onde meu pai cultivava um lindo jardim, e lá celebraríamos o casamento entre as famílias. Sendo o arquiteto habilidoso que era, meu pai montou uma decoração quase cinematográfica, com pisca-piscas branco-amarelados em meio às plantações que rodeavam o quintal e sua gigante mesa de mogno.
Após o rotineiro dia no colégio, larguei minha mochila em meu quarto e retornei as mil ligações de para meu celular. Não deram nem dois toques e ela já atendeu com uma voz nervosa, animada e um pouco irritada. Tudo ao mesmo tempo! Phillip devia estar sofrendo com os ataques de sua futura esposa, o pobre coitado.
? Onde estava? Por que não atendeu? Você viu que mandei as flores? Elas chegaram?
, ! Respira fundo comigo. – Falei, fazendo-a inalar e exalar comigo três vezes antes de responder qualquer pergunta. – Ok, então. Sim, é a falando, se ainda não percebeu. Eu estava na escola e não podia atender durante a aula. As flores foram difíceis de não notar, porque, sim, elas chegaram e estão são e salvas decorando nosso jardim. Está tudo pronto para a chegada de vocês amanhã à noite, maninha.
– Desculpa, . Sei que estou despejando todo meu nervosismo de casamento em você.
– Não tem problema. É bom que você não vai poder reclamar quando chegar minha vez de surtar por algo importante na minha vida.
Minha irmã riu do outro lado da linha.
– Duvido que você seja do tipo que surta. É tão confiante sobre tudo... – Suspirou. – Se depender de mim para te acalmar, é porque a situação está feia mesmo. – Fez uma pausa. – Tipo no nível fim do mundo.
– E não é que você tem razão? – Debochei, conversando com ela mais alguns minutos sobre meu dia e assegurando-a de que tudo estava nos trinques para sua festa.
Como meus pais estavam trabalhando, viajando e tendo miniataques de pânico em seu apartamento, resolvi fazer uma caminhada até o senhor Rick, do picolé, no fim da rua. Com o calor que estava, eu quase morri antes de chegar lá.
Porém, se eu esperava me refrescar, tinha sido ingênua. A fila estava enorme, então suspirei derrotada e sentei-me em um banco na pracinha, quase desistindo de ficar um tempão no sol esperando por um sorvete para aliviar o calor. Aquele era um paradoxo que eu estava sem o menor saco de tentar resolver.
Senti uma mão gelada em meu ombro, pulei e abri os olhos para encarar um sorridente.
?
– Hey, . Parece que tivemos a mesma ideia. – Pontuou, gesticulando para a loja lotada.
– Sim... Assim como todos da vizinhança! – Reclamei. – Mas não vou esperar nessa fila nem morta. Quero um picolé, mas nem tanto assim.
– Ah... Que pena. – Replicou com um biquinho. – Então o que eu farei com esse aqui que comprei para você? – Perguntou com os olhos brilhando.
– AHH, EU TE AMO! – Berrei, tascando um enorme beijo em sua bochecha e levantando-me animada.
Resolvi fingir que não havia acabado de falar a palavra com “A” para ele. Até porque era muito cedo para saber disso, e nem era verdade mesmo... Certo? Como ainda não tinha resposta para essa pergunta, resolvi aderir à tática dos pinguins de Madagascar e fiquei só no “sorriam e acenem”, como se nada tivesse acontecido.
O menino corou, entregou-me meu picolé de manga, abrindo seu próprio, de uva, e gesticulando para que começássemos uma caminhada tranquila pelo Parque Grandaisy. Graças a Deus não comentou nada sobre minha explosão súbita de carinho. Andamos em silêncio, por uns minutos, somente aproveitando nossos gelados, a companhia um do outro e o belo dia que estava fazendo em Portsville.
– Como sabia? – Perguntei, lambendo o picolé, já pela metade.
– Que você queria um? – Indagou, entendendo onde eu queria chegar. – Bem, na verdade, eu não sabia. Fui olho grande ao perceber a fila e já comprei logo dois para se fosse querer outro mais tarde. Encontrei você e me senti no clima para fazer uma boa ação. – Deu de ombros, jogando seu palito fora.
Sorri, agradecendo e voltando a observar os passantes, correndo por nós, andando de bicicleta e jogando frisbees no gramado. Claro que o menino trombara em umas vinte pessoas no caminho. Acredite, eu contara! Não entendia como, em toda sua falta de jeito, conseguia ser um quarterback. Mas também, eu não era nenhuma perita de futebol, e quando se tinha o dom, se tinha o dom.
Quando nos demos conta, estávamos às portas do enorme aquário da cidade.
– Vamos? – Supliquei como uma criança prestes a entrar na Disney.
– Claro, disseram-me que é bem legal, e hoje estou de bobeira, mesmo. Tracy não quis vir, disse que não era seu tipo de programa. – Deu de ombros.
– Ah, então eu sou sua última opção, né, senhor ? Muito bonito isso, hein?! – Comentei, ignorando que o nome do Entojo tivesse surgido.
Ele soltou a gargalhada gostosa que eu amav... adorava tanto ouvir. Antes que pudesse responder, interrompi assim que abriu a boca.
– Espera. – Disse, parando-o quando íamos comprar os ingressos. – Você nunca veio aqui?
– Não.
– Nunquinha?
– Não.
– Nenhuma vezinha, tem certeza disso?
! – Revirou os olhos, para logo abrir um enorme sorriso.
– Já parei. – Repliquei com os braços estendidos em rendição.
Minha face devia ter uma expressão similar de diversão, e se eu fosse ser sincera, não era só por causa da visita ao aquário. Era muito bom ter essa mudança de ares e esse clima gostoso entre nós. E assim foi durante o resto daquele dia. Eu o puxava de um lado para outro, mostrando os animais que amava e compartilhando minha paixão pela vida marinha. me ouvia com atenção e me seguia, absorvendo cada coisa que eu dizia, rindo de forma adorável com o modo como eu agia.
Se eu fosse parar para pensar como eu devia parecer a seus olhos, certamente devia estar igualzinha a uma criança, dizendo:
– Vamos, você tem que ver a ala dos cavalos marinhos!
– Os pinguins são iguaizinhos ao do filme Madagascar, você vai amar!
, olha só o tamanho desse tubarão!
– Os golfinhos e tartarugas ficam ali virando o corredor, a gente não pode ir embora sem ver essa ala!

Com meu entusiasmo e seu bom humor, saímos do local quando já era noite e o lugar estava para fechar. A lua já se figurava imponente no céu, em seu estágio minguante. Torci meus lábios, parando para encará-la um pouco.
– Tudo bem? – Perguntou , com um olhar estranho.
– Sim. Estou só admirando a lua e seus significados.
– O que quer dizer? – Perguntou, curioso, a meu lado quando recomeçamos nossa volta para casa.
– Bem, eu gosto de pensar que essa fase minguante simboliza o fim de algo.
– Deve estar certa. – Suspirou inocentemente.
Se eu não o conhecesse tão bem, não perceberia que sua resposta teve um quê a mais muito intrigante.
– Como assim? – Mirei o fundo de seus olhos, confusa. – Quer dizer, eu sei que sempre estou certa. – Corrigi, rindo de seu revirar de olhos e o habitual murmurar de “metida”. – Mas me pareceu que você quis dizer algo a mais com isso.
– Para mim também é uma fase de fins. Só isso. – Desconversou, balançando a cabeça como que para espantar maus pensamentos e sua angústia. – E o que significa o eclipse, então? – Perguntou, suplicante para que eu pegasse a deixa para mudar de assunto.
– O vazio entre o fim e o recomeço, ou os novos começos da lua crescente. – Disse e estremeci em seguida, encolhendo meu corpo e passando as mãos por meus braços para tentar aliviar a sensação gelada que a brisa noturna deixou em meu corpo.
– Aqui, meu casaco. – Cobriu-me com sua jaqueta do time, gentilmente.
Andamos o resto do caminho cada um perdido em seus próprios pensamentos. Ambos confusos e absorvendo o dia maravilhoso que passamos juntos. Eu odiava que as coisas não pudessem ser mais simples. Ele só um garoto e eu só uma garota, tirando todos os outros elementos da equação complexa da vida que eu nunca parecia aprender a desvendar.
E claro que eu tinha que agir como uma das protagonistas de fanfic de romance e tropeçar no meio fio, bem quando chegamos ao gramado de nossas casas. Lógico que eu tinha que acabar grudada em seu peito, com o rosto muito próximo do seu. Algo do tipo realmente aconteceu. Porém, não era um cara qualquer. Ele tinha o gene da falta de jeito, então ao invés de conseguir me segurar, tudo o que realizou foi servir de almofada para o tombo conjunto.
Fiquei mais tempo do que consigo admitir deitada em seu corpo, compartilhando de seu ar. Encostei meu nariz no seu, sem querer selar nossas bocas. Não o faria, mesmo que ele namorasse uma Regina George da vida real. Também sabia que ele não iria querer fazê-lo. Mas confiou em mim o suficiente para não protestar quando recostei minha testa e meu nariz nos seus. Abri os olhos após cerrá-los, inspirando profundamente, e encarei os seus, que me observavam, interpretando cada movimento. Levantei, sem graça, sob seu olhar investigativo.
– Boa noite, . – Murmurei, estendendo seu casaco e correndo para casa antes que pudesse ouvir sua resposta sussurrada ao vento.
– Boa noite, .


Capítulo 4


“Hey, hey, You, you, I could be your girlfriend”

Seria de se esperar que um fim de semana como o que passei com no aquário fosse mudar algo em nossa relação. Eu certamente esperava, mas fui completamente decepcionada.
Na verdade, nossa aproximação pareceu surtir o efeito contrário. Como eu já disse, conosco sempre é no esquema de dois passos para frente e três para trás. Não só não estava mais próxima de , como também sentia que nossa relação havia levado um balde de gelo! Tudo bem que não era só comigo, o garoto ficara irritado a semana toda e fora mandado para a sala da diretora várias vezes.
Eu não entendia que bicho tinha picado aquele idiota enigmático que me deixava maluca com tantos sinais confusos. O fato era que, com seu mau humor, eu não pude evitar de ativar o modo megera indomada que tinha dentro de mim, esperando por uma deixa para infernizar a todos. Até sofreu com os efeitos disso, acabando por também ser contaminado por esse clima de instabilidade que seu irmão havia criado.
A única diferença era que, com a proximidade do vestibular, tinha algo em que focar sua mente irritada, enquanto eu e só tínhamos os pobres dos seres humanos a nossa volta.
Mesmo sabendo de todas as histórias sobre a fase bad boy mal-encarado de , tudo isso eu ouvia através de fofocas, rumores ou até mesmo por meio de seus berros pela vizinhança. Somente o vira uma vez, quando eu fora deixar uns formulários que eu precisava preencher para a matrícula antecipada no terceiro ano.

FLASHBACK ON
– Aqui estão, Senhora Pattie!
, querida, como vai? E , está bem? Já matou o Phillip de tanto surtar com o casamento? – Perguntou a secretária, prima do noivo de minha maninha.
– Estou bem. – Menti, forçando um sorriso. – E você conhece a , sempre perfeccionista. Esse casamento com certeza dará o que falar.
– Tenho certeza disso. – Riu ela. – Eu ouvi algo mesmo sobre pôneis na entrada?
Encarei-a, horrorizada, até perceber que estava brincando. Suspirei, despedindo-me após o susto e saindo da secretaria. Quando passei na porta da sala da senhora Byrnes, vi uma cena que me deu um susto ainda maior. Nesse ritmo meu coração não aguentaria ao fim do dia.
. – Sibilou . – Está aqui para me irritar? – Perguntou, cambaleando para fora da sala da diretora, com certa dificuldade.
, você está bem? – Questionei, ignorando o que ele disse e tentando dar suporte a seu corpo provavelmente anestesiado por algo a mais.
– Você está bêbado?! – Perguntei, indignada, parando com o menino na frente da enfermaria para checar seu rosto, que (SURPRESA!) estava com um enorme roxo de um soco.
– Beber é divertido, !
Revirei os olhos para seu estado deplorável e auxiliei-o até a sala da enfermeira.
– O que está acontecendo contigo, ? – Perguntei, meio para mim mesma, suspirando e acariciando seu cabelo com carinho, enquanto ele era checado.
Seus braços estavam envolta de minha cintura como se estivesse com medo dos remédios de limpeza de ferimentos e eu fosse sua tábua de salvação.
– Calma, querido, está quase terminando.
... Eu não pude... Tive que acabar... Não tinha outra escolha... – Falou, sem fazer muito sentido. – Mas você me perdoa, não é? – Perguntou ele com os olhos enormes lacrimejando e brilhando para mim como duas pedras preciosas.
– Perdoo. Seja o que for, vai dar tudo certo. – Assegurei, mesmo sem saber do que se tratava, imaginando que ele estivesse falando do pobre coitado que se meteu em uma briga com ele.
Eu não sabia ainda, porém iria saber logo o quanto eu estava errada em minhas suposições. Primeira regrinha para a vida: não pule para as conclusões tão rapidamente. Se não ponderar os fatos antes, pode se arrepender de suas escolhas.

FLASHBACK OFF

Com nosso gelo mútuo recém-estabelecido e ligado no modo vestibulando ansioso e dedicado, eu tinha um total de zero coisas para fazer e nenhuma paciência para as neuras da , que estava um porre com a chegada do dia do jantar de ensaio.
É por isso que estava tranquilamente fazendo uma de minhas (muitas) maratonas de séries quando ouvi meu celular soar com a chegada de uma nova mensagem. Achei esquisito, ainda mais quando recebi mais outro ding. Desbloqueei a tela, surpreendendo-me ao ver os remetentes das mensagens.
”Isso vai ser bom”, pensei com uma risada maquiavélica. Uma delas, a primeira, era de uma menina qualquer da escola, que por acaso tinha meu telefone por termos feito um trabalho de grupos juntas, naquele modelo de que o professor escolhe as malditas duplas.
A mensagem dela, que eu abri primeiro, salvando o mais bombástico para o fim dizia assim: É verdade que e Tracy terminaram? Arregalei os olhos, sem acreditar no que eu estava lendo. Mônica, da classe de Literatura, ainda ousou terminar com um: Ih, desculpa, celular errado.
Não podia ser! Se ele já tinha terminado, por que não falou nada?!
De repente todo seu mau humor desde nosso fim de semana mágico e sua fala enquanto estava bêbado começaram a encaixar-se em minha mente.
... Eu não pude... Tive que acabar... Não tinha outra escolha...

Impedi-me de ter qualquer esperança nesse ponto. Se ele gostasse de mim ou tivesse terminado por mim, já teria vindo até aqui me contar de seus sentimentos. Mas não. Ficara em silêncio, dera-me um gelo. E era isso que eu iria fazer. Somente dar a ele o que tanto desejava: espaço de mim.
Acabei esquecendo-me, por completo, da segunda mensagem, em minha ira e decepção. Arrumei-me o mais apresentável que consegui para o jantar pomposo e coloquei meu melhor sorriso para funcionar. Desci de meu quarto até a varanda, onde já havia uma sentada relaxadamente ao lado de Phillip na namoradeira. Fui cumprimentá-los tão logo abracei a tia Carmen e o tio Robert.
! – Sorri para minha irmã, envolvendo-a em meus braços e apertando-a carinhosamente. – Você está muito linda, devo dizer.
– Obrigada, querida! Você está um arraso também, não está Phillip? – O homem corou e assentiu, concordando com a futura esposa.
Deixar Phillip desconfortável era o passatempo preferido de minha irmã, eu sinceramente não sabia como ele não fugia correndo por nossa porta. Assim que tive esse pensamento, logo me corrigi, captando o olhar apaixonado que ele dirigia à . O pobrezinho nunca teve chance diante da personalidade cativante de minha irmã. Ela com certeza sabia como causar uma impressão. Foi por isso que batalhou com seus próprios avós paternos, preconceituosos, e ameaçou cortar relações com eles se não aceitassem de braços abertos e a tratassem como a rainha que merecia. Phillip era um cara decente. Era o mínimo que se podia esperar. Só sonhava que eu também tivesse a mesma sorte.

, que bicho te mordeu? – Perguntei, sem conseguir conter meu estranhamento.
– Como assim, mana?
– Ah, é só que você está estranhamente calma. – Levantei uma sobrancelha em dúvida. – Está doente? Quer um remedinho?
riu, RIU, da minha cara e puxou-me pelo braço após cochichar algo no ouvido de Phill.
– Vamos, vamos até a varanda da frente, por um segundo.
– O-okay. – Respondi, sem ter muita escolha quanto a ser arrastada para fora de minha casa.
– Tudo bem, chegamos, agora pode me dizer por que está parecendo um alien? – Indaguei novamente, de saco cheio.
– Decidimos não contar ainda, mas...
– AI, MEU DEUS, VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA! – Berrei, dando pulinhos animada.
– Quem está grávida? – Perguntou , aproximando-se vestido formalmente.
– Ninguém! – Replicou minha irmã, revirando os olhos.
– A ! – Respondi, ao mesmo tempo.
olhou para uma, depois para outra, e fez a melhor decisão que podia. Manteve-se fisicamente ao meu lado, mas fora da conversa.
– Ué, você não está? – Disse com a face murchando.
– Claro que não, sua maluca! Você nem me deixou terminar de falar!
– Então o que houve? – Questionei, ainda mais curiosa.
– Minha empresa está prestes a virar internacional! Uma princesa de um pequeno principado na Escócia insistiu para que eu organizasse seu casamento com o grão-duque norueguês. Esse casório vai abrir muitas oportunidades para a Weddings.
– Caramba, , estou tão orgulhosa! Parabéns. – Disse meio chorosa, mas com um orgulho enorme de minha irmã talentosa.
– Ah, querida, obrigada. Agora vou voltar ao jardim. Deixamos o Phillip com a tia Trudy, você sabe como ela é. – Revirou os olhos. – Ah, que falta de educação minha! – Continuou, batendo em sua testa. – , não é? Muito prazer. – Abriu um enorme sorriso e saltitou até o interior da residência sem esperar resposta.
Virei para o homem a meu lado e suspirei.
– Nossa, você está simplesmente maravilhoso, . – Pisquei provocativamente.
– Você também não está nada mal, .
Agradeci e fiz um último comentário antes de entrarmos.
– Eu não esperava que viesse com todo o rolo do vestibular.
– Não perderia por nada, você me convidou há um tempão! Além do mais, somos amigos, não somos? Não posso te deixar passar por isso sozinha.
– Obrigada. – Funguei, sinceramente emocionada.
– De nada, . Vamos que estou faminto!
– Sabia que era só pela comida! – Reclamei, indignada.

***


O jantar foi tão comum quanto qualquer outro, o problema foi o que aconteceu depois dele. Mas, não, o ocorrido não teve nada a ver com o casamento de e Phillip ou minha família. Na verdade, a briga se deu quando só restava eu e na sala de estar, exaustos e com a barriga lotada após a maravilhosa refeição.
– Você deveria ter me dito que era um churrasco! – Exclamou ele, largado a meu lado no sofá.
– Por quê? –Perguntei, sem desviar o olhar do teto.
– Eu podia ter me preparado para aquela orgia gastronômica! E o que foi aquilo com as sobremesas? Nunca vi tantas em um mesmo evento.
– Eu disse que minha família não media a mão na fartura.
– Isso foi bem diferente, . Dava para alimentar um batalhão! Mesmo eu levaria mais de uma semana para devorar aquilo tudo.
– Você não está subestimando suas habilidades? – Ri, ajeitando-me mais confortavelmente.
Antes que ele pudesse responder, recebi uma mensagem em meu celular. Abri no automático, pensando que fosse ser , porém era de Tracy. Havia duas mensagens da cobra, uma eu devia ter me esquecido de visualizar mais cedo.
Você venceu, pode ficar com os dois Armstrongs. e você se merecem!
Você é mesmo uma vaca de ficar com os dois ao mesmo tempo. Contei tudo a , vou assistir de camarote o circo pegar fogo.

– Terra para ! Nossa, aqueles bolinhos de menta estavam divinos, sabe o que mais gostei foi aquela tortinha que...
– Vo-você sabia? O terminou de verdade? Por minha causa? – Perguntei, levantando a voz gradualmente de um sussurro a um berro em poucos segundos.
congelou, dizendo-me o que eu precisava saber.
– Como pôde me deixar pensar que o plano não tinha funcionado?! Sabe o quanto isso machucou, ?
– Eu não podia contar! – Soltou, mordendo o punho em nervosismo.
– Por que não? O que na Terra poderia impedir que um amigo revelasse à sua amiga uma informação crucial para a felicidade dela?
– Minha paixão por você, ! – Berrou com o rosto vermelho. – Eu comecei a gostar de você, ok?! Sei que foi errado. Mas não pude evitar.
– Sai. Daqui. Agora. – Sibilei. – Você não é mais meu amigo! Devia ter me contado tudo de uma vez! – Seu olhar machucado me compeliu a continuar. – Você sabe que eu te amo, , mas não dessa forma.
Ele mirou-me, miserável, erguendo-se e buscando seu casaco. Quando ia abrir a porta, parei-o tendo uma realização.
– Desde quando? Quando começou a... – Engoli em seco. – Gostar de mim?
– Sinceramente... Eu não sei. Acho que desde o início. – Suspirou e foi-se embora, deixando-me sozinha com meus pensamentos.
A sensação de ter sido traída por meu melhor amigo foi massacrante. Eu tivera receio de usá-lo para fazer ciúmes no irmão, mas fora ele que me usara o tempo todo, sem nunca revelar seus verdadeiros sentimentos.
Foram horas até que eu ouvisse a campainha soar. Olhei para o relógio, estranhando o quanto estava tarde. Meus pais já haviam até se retirado para dormir. Arrastei-me até a porta e escancarei-a, deparando-me exatamente com o rosto que mais e menos queria ver.
...
continuou onde estava, com uma expressão sombria.
– É verdade? Você... Realmente gosta de mim? – Levantou os olhos brilhantes, com esperança.
Fechei os olhos, debatendo-me para finalmente ser verdadeira com ele. Foi nesse momento que perdoei . Eu era muito hipócrita, já que eu mesma havia mentido a por tanto tempo e recorrido à manipulação. Eu e éramos mesmo muito parecidos...
– Sim. Eu gosto. Muito. – Disse, olhando para baixo, envergonhada.
O garoto fechou os olhos como em uma prece silenciosa e aproximou-se um passo.
– Eu também, . Que merda! Eu também. Não pude ficar com a Tracy depois que percebi... – Replicou, com um pequeno sorriso, fazendo-me erguer novamente meu olhar para vê-lo aproximando-se ainda mais.
me contou tudo.
– Tudo? – Perguntei com uma careta.
– Sim.
– Tudinho, mesmo?
! – Rebateu com uma expressão nostálgica.
Envolvi meus braços a sua volta e recostei minha cabeça em seu peito, finalmente sentindo-me confortável ali, e não como uma intrusa. Ali me sentia... Segura. Não que eu fosse indefesa, odiava aquela ideia idiota de donzela em perigo. Mas era como se, após tantos anos sendo uma das únicas pessoas lutando por mim mesma, eu finalmente tivesse um companheiro de batalha.
– Por que não me disse antes? – Suspirou, beijando minha testa.
– Iria adiantar?
– Talvez. Não sei. Quem sabe?!
– Eu tive medo. – Respondi, dando de ombros.
Surpreendi-me com o tremer de seu peito em uma breve risada.
– Foi a mesma coisa que ele disse. Você e sempre combinaram tanto. Desde o início pensei que não tivesse a menor chance.
– Por que pensaria isso? – Franzi a testa, saindo um pouco do casulo de seus braços.
– Terminei com uma ex-namorada, Lilly, justamente por perceber que ela não estava satisfeita só com a minha atenção. Vivia tentando chamar a de meu irmão. Eu percebi tarde demais, e foi um término bem complicado.
– Sinto muito. – Murmurei, passando os dedos pelas linhas de estresse em sua face.
Cada toque meu parecia ser capaz de suavizá-las uma por uma, até ele voltar de sua viagem às águas passadas.
– Eu posso dizer que, para mim, sempre foi você. Foi muito infantil o que fiz com o , eu me responsabilizo por isso. Mas nunca pense que nutri qualquer sentimento por ele que não fosse a mais profunda amizade. Eu o amo, sim, mas como um amigo, só.
– Eu acredito em você. Como que diz mesmo aquele carinha chato do filme que você me fez assistir duzentas vezes quando faltou à noite de filmes?!
– Orgulho e preconceito? – Perguntei, corando internamente, recordando da ocasião em especial que havia viajado para ficar com os avós.
– Ah, lembrei! “És muito generosa para troçar de mim”. – Recitou com o peito estufado.
Ri com sua imitação pomposa e muito malfeita, devo acrescentar, da declaração final do senhor Darcy no filme.
– Essa frase é no final, se você tivesse odiado tanto assim, estaria dormindo nessa parte. – Acusei, e foi a sua vez de desviar os olhos, ligeiramente envergonhado.
– Bem, você mesma disse que é um clássico.
Gargalhamos, encostando nossas testas e encarando a confusão que tínhamos entrado. Tudo poderia ter sido bem mais simples se tivéssemos sido mais honestos desde o início.
– E agora? – Perguntei, olhando sua bela face, buscando alguma luz.
– Agora é a parte em que eu te beijo. O resto a gente decide depois. – Falou, acariciando meu rosto.
Antes mesmo que ele pudesse fazer algum movimento, agarrei sua camisa e puxei-o para um longo e eletrizante beijo, que me deixou com as pernas tremendo e o pulmão quase em asfixia ao nos separarmos.
Era isso que nunca teria com . Eu era muito igual a ele em tantos aspectos que a surpresa que me proporcionava, a incerteza, as aventuras que eu sentia que teria com ele... Nada disso poderia receber de . Muito menos poderia dar ao mais velho o que ele precisava. Estremeci, pensando em sua ex, Lilly. Como pudera não achar aquele homem o suficiente era um mistério para mim.
Beijando , eu percebi que casais não precisam ser combinações perfeitas. Na verdade, são as imperfeições, as diferenças que tornam tudo mais interessante, misterioso e mágico. Onde eu faltava, me completava. Onde eu era contida, ele era expansivo, quando eu era fogo, ele era gelo. Não acreditava que fôssemos feitos um para o outro, mas quando estávamos juntos, era como se finalmente estivesse completa.


Epílogo


“I think about you all the time, You're so addictive. Don't you know what I can do to make you feel all right?”
Um ano depois

Eu pendurava porta-retratos na parede do apartamento que dividiria com nesse novo período da faculdade, relembrando todas as nossas pequenas primeiras experiências juntos.
Ri com a foto que ele tirara de minha primeira vez comendo alguns frutos do mar exóticos que ele gostava. Eu parecia uma criança em uma manhã de natal trucidando o pobre do caranguejo. Nunca pensei que pudesse gostar de animais marinhos também como alimento.
Peguei outra imagem em minha mão, acariciando-a antes de pendurá-la. Era comigo em sua primeira Comic Con Experience. Sua expressão de perdido no meio de todos os cosplays e de stands de seriados que eu amava era impagável. Ambos trajávamos uniformes de Hogwarts, escolhendo o tema Harry Potter. Eu fora fantasiada de Angelina Johnson, uma personagem da Grifinória, e , um quase perfeito Cedrico Diggory, da Lufa-Lufa. Eu nunca imaginei que ele pudesse parecer ainda mais atraente, mas nesse dia eu descobri que era possível.
Acabamos nos pegando atrás de um estande e sendo expulsos do evento, mas valera totalmente a pena. Pelo menos eu já havia visto tudo o que queria.
A última foi uma minha dele e de no casamento de no final do ano. e eu havíamos retomado nossa amizade, mas com muita cautela. Como ele se mudaria para a Universidade da Califórnia, não havia tanto sentido em manter distância por um tempo. Acabou que a própria vida já se encarregara disso.
“Eu realmente sou o Ted.” Dissera. “Só vou demorar mais tempo para encontrar minha Tracy” Terminara, com uma careta após a coincidência de nomes da alma-gêmea do protagonista de sua série preferida com o da ex-namorada irritante de . Rimos e nos despedimos, ao menos por um tempo. Ele nunca deixaria de ser meu melhor amigo, fiz questão de deixar isso bem claro. Não queria nenhuma garota qualquer da Califórnia roubando meu posto.
O casamento de acabara por não ser tão gigante e supérfluo quanto eu esperava, mas com certeza um dos mais lindos que eu já comparecera. Eu fora com um vestido dado de presente por que acabara por ser a escolha perfeita. Não era bufante nem tipicamente formal, mas ao mesmo tempo era fino e muito meu estilo.
Parecia que ele me conhecia e sabia me ler até melhor do que eu mesma. Tudo fazia parte de sua capacidade de me apresentar coisas que eu pensava que nunca experimentaria. Eu sempre acabava embarcando na do idiota. Algo em seu modo de propor coisas diferentes sempre as tornava muito mais apelativas. Claro que nem sempre foram boas experiências, mas em todas as vezes valera a tentativa. A vida era muito curta para manter uma mente fechada para o resto do mundo.
Senti braços envolvendo minha cintura e abri um sorriso, suspirando em contentamento. Recostei minha cabeça no ombro direito de e senti sua cabeça virar-se para beijar meu pescoço.
– Acabou aí, ?
– Sim. E você com a sala de jantar?
– Tudo pronto. – Respondeu, soltando uma de suas mãos para pegar o celular.
Tentei ver o que estava fazendo, mas ele insistiu em cobrir meus olhos ou tentar levantar o aparelho para fora de meu alcance. Quando ouvi o som do sistema de música por bluetooth ligando, entendi o que estava tentando fazer.
– Aqui, amor, deixa que eu ligo. – Ri com sua inabilidade perto de tecnologia.
Quando vi a playlist que ele pretendia colocar, arregalei os olhos, emocionada.
– Você fez uma seleção de músicas só para a gente? – Indaguei, virando para envelopar seu rosto em minhas mãos.
– Não só fiz, como fiz duas. Uma para a fossa, outra para comemorações. – Replicou com um sorriso espertinho.
– E em qual estamos agora? – Perguntei, fingindo uma expressão pensativa.
Sua resposta foi aumentar o volume do som e me puxar em uma dança desajeitada, em que ríamos mais com nossa inabilidade na dança do que conseguíamos juntar mais do que um passo corretamente.
– Sabia que eu te amo, vizinha irritante? – Perguntou, beijando meu nariz.
– Na verdade, ex-vizinha irritante. – Corrigi.
– Então você concorda comigo? – Olhou-me de soslaio.
– Bem, alguém tem que manter você na linha, , ou você acha que te provoco por diversão? É um fardo constante.
Ele me olhou feio balançando a cabeça.
– E eu que tenho que aguentar o seu ronco? A senhorita também não é nada fácil, senhorita .
Fiz uma expressão indignada e bati em seu peito.
– AI!
– Você mereceu. Eu sou uma dama, não saia por aí difamando meu bom nome. – Fiz um biquinho convencido.
– Bobinha... Você não me respondeu.
– Tá, , também gosto de você, amo e tudo mais. Agora vamos que tenho uma surpresa. – Respondi, como sempre melando a parte romântica da relação.
Sinceramente, não sabia como ele ainda não tinha fugido. As mulheres não eram nada fáceis. “Se e Phillip haviam conseguido, pelo menos tinha um precedente a nosso favor”, pensei, já começando meu raciocínio do curso que eu seguiria. Eu acabara escolhendo Direito, e , Antropologia Forense. Confesso que sua escolha me chocou um pouco e a seus pais, mas quem diria que o menino mais doce do mundo escolheria justamente uma área em que andaria com ossos o dia inteiro?! Se eu acreditava que meu hobby era surpreender, meu namorado levava o conceito a outro nível.
Meu namorado. Era tão bom poder chamá-lo assim. De certa forma, nosso relacionamento ainda era um bebê e dava muito trabalho. Exigia muito cuidado. Mas no fim do dia, tudo era recompensado e estávamos aos poucos amadurecendo para algo mais estável.
Nossa mudança fora acompanhada de alguns protestos de familiares, mas não ligamos. Era nossa escolha, afinal de contas, e como iríamos para a mesma universidade de qualquer forma, uma que não oferecia alojamento, dividir um apartamento parecia o racional a fazer-se, ao menos matematicamente. Era um risco que estávamos dispostos a correr.
Assim como ele me dera um enorme presente quando chegamos a nosso lar pelos próximos anos, eu também resolvera lhe fazer uma surpresa. Foi difícil pensar em algo à altura da versão antiga do livro Orgulho e Preconceito e um box com uma seleção de filmes da Marvel, mas após muita investigação de minhas conversas com e com sobre , lembrei-me de algo que meu amigo comentara certa vez. Só esperava que ele gostasse, e estava muito nervosa para saber sua reação à surpresa.
– O que é? – Perguntou, incrédulo.
– Eu disse que é uma surpresa, cabeção, se eu dissesse o que é, acabaria com a parte de ser surpresa. – Repliquei, revirando os olhos.
Levei o até a porta do apartamento, parando-o na porta.
– Fique aqui! E tape os olhos.
– Sim, senhora. – Respondeu com os braços levantados em rendição após eu encará-lo duramente por mantê-los abertos por uns segundos a mais, em desafio.
Bati na porta ao lado e esperei que Dona Providence abrisse as mil trancas que insistia em usar. Eu dera muita sorte de tê-la conhecido tão rapidamente, após ficar trancada fora do apartamento.
– Quer o pacote, querida?
– Isso, Dona Providence. Muito obrigada mesmo por esse favor! – Agradeci, recebendo a caixa de papelão que eu pedira para ela esconder em sua casa até a hora certa.
Aproximei-me de , sorrindo para o que tinha dentro.
– Ok, pode abrir. – Disse quando já estava com o filhote de cachorro em meu colo.
Quando os olhos de se abriram, ele arregalou-os sem acreditar.
– Um filhotinho! Eu amei, ! Como você sabia?
– Bem, me disse que tinha alergia e uma vez sua mãe comentou comigo que você sempre quis ter um. Eu só juntei os pedaços de informação. Aí eu pensei que, como moraríamos juntos agora, você iria gostar de talvez...
Ele interrompeu-me com um selinho demorado, pegou o filhotinho de minhas mãos e pôs o braço em volta de meus ombros.
– Eu amei, , muito obrigado. Mesmo. Significa muito. – Afirmou com intensidade.
– Ah, por nada. – Respondi, sem graça.
– Ok, agora qual nome iremos dar a ele? – Questionou, pensativo, depositando o animalzinho no chão para ficar habituado à residência.
– Que tal Snow?
– Tipo os lobos de Game of Thrones? – Perguntou, mordendo minha isca.
– Você lembrou! – Disse, aliviada. – Quer dizer que já está pronto para sua reeducação do gosto em filmes. Em séries, eu já fiz o máximo que podia. – Balancei as mãos, frustrada.
, como o santo que era, deixou-me tagarelar por horas sobre todos os longas-metragens que eu o faria ver até entender a trama. Era só algo que fazia parte de nossa relação. Todos os dias me mostrava um mundo novo, fora de minha zona de conforto. E eu fazia o mesmo quando podia. Em nosso caso, não era questão de os opostos se atraem, mas talvez de os diferentes se complementarem.


Fim.



Nota da autora: Olá pessoal! Espero que tenham gostado do ficstape! Ao mesmo tempo que peguei um pano de fundo bem clichê, tentei trazer algo a mais, ou alguma mensagem um pouco diferente com a fic. Acredito que essa música seja realmente o hino dos clichês, e quem não gosta de um de vez em quando?! Bem, obrigada novamente por terem lido <3! Por favor, não se esqueçam de deixar seu comentário ali embaixo, seja surtando, elogiando ou fazendo uma crítica construtiva. Amarei ler seus feedbacks e reações. No mais, quem quiser, será super bem-vindo no grupo do Face ou do Whats!





Outras Fanfics:

One More Dream (Outros/Em Andamento — Longfic)
Give My Hart a Break (Restritas – Series/Em andamento – Longfic)
Sixth Sense (Outros/Finalizada – Longfic)
You Give Love A Bad Name (Outros – Shortfic)
05. I’m not the only one (Ficstape)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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