Finalizada em: 04/01/2018

Capítulo Único

O conhecimento de física de tendia a zero. Não se lembrava de nenhuma das fórmulas que tinha decorado semanas antes do vestibular. Tinha uma vaga imagem na memória das explicações cansativas de sua antiga professora sobre as Leis de Newton e a constante atração eletromagnética que envolvia tudo.
era uma negação total em exatas e tinha se esquecido de praticamente tudo. Mas de uma coisa ela tinha certeza: a música que tocava na boate estava em uma intensidade muito acima do limiar da dor. E ela não precisava de cálculo algum para confirmar isso.
Bagunçou os próprios cachos, enquanto rodava os pés pelos apoios do banco do bar. Estava cogitando seriamente pegar um táxi e ir para casa sem Mariana, sua colega de apartamento e melhor amiga nas horas vagas. Se o arrependimento por ter aceitado sair naquela noite não a matasse, provavelmente aquelas bebidas coloridas e doces demais o fariam.
A garota levou longuíssimos dois minutos para conseguir o mínimo necessário de coragem para se sustentar sobre os saltos agulha coloridos a fim de fazer o trajeto menos conturbado possível até o banheiro. Ao menos era essa a sua intenção até um corpo se materializar à sua frente, trombando consigo.
- Merda, Noturno – reclamou para o total estranho.
- Calma! Desculpa! – O garoto tinha as mãos em sinal de rendição. – Mas espere aí... Do que foi que você me chamou?
- Eu me recuso a explicar referências de mutantes da Marvel para um cara qualquer no meio de uma boate. Sinto muito, mas minha veia geek não permitiria.
- Ah, claro! X-Men! – O moreno riu, ajeitando as mangas da jaqueta que parecia grande demais para ele. – Enfim, eu vim aqui em missão de paz.
- Não estou bêbada o suficiente. Muito obrigada pelo convite!
tentou desviar do rapaz, mas a mão do mesmo segurou seu braço quase desesperadamente.
- Não é nada disso que você está pensando! Quer dizer, – começou a dizer, meio sem jeito – até é... Mas não dessa forma.
A garota respirou fundo, contando até dez vagarosamente. Se o arrependimento pela noite ainda não tinha se concretizado definitivamente, algo em seu subconsciente dizia que isso aconteceria dentro de alguns instantes. Cruzou os braços e fez sinal para que o desconhecido prosseguisse.
- Certo. Meu nome é e aquele loiro ali atrás encarando a gente é o Bruno. – Os dois olharam para o tal garoto, que desviou o olhar instantaneamente, fazendo-se de desentendido. – Acontece que ele é meu melhor amigo e tomou um pé na bunda da namorada tipo... Hoje.
- Sinto muito por ele. Agora me diz em que parte eu entro nessa história, porque eu tenho um leve pressentimento de que reconheço os caminhos que ela está tomando e estou pouco à vontade com isso tudo.
- Bom, você sabe bem aonde tudo isso vai chegar, não é? Ele pediu para que eu viesse aqui e falasse contigo, tentasse passar uma boa imagem dele para ver se rolava algo entre vocês dois porque ele precisa esfriar a cabeça e blá blá blá.
limitou-se a revirar os olhos.
- Escuta, – continuou – eu não vim aqui para realmente te pedir para ficar com ele. É que ele é meu melhor amigo e eu não poderia simplesmente dizer não para o pedido de um pobre recém-solteiro atolado na fossa. Agora que ele nos viu conversando, a senhorita pode continuar seu caminho e eu voltarei para lá com uma desculpa que não destrua mais a autoestima dele, ok?
- Sabe, ... Acho que o Bruno não vai se importar muito com isso agora, não.
O moreno se virou abruptamente para a direção em que ela apontava, dando de cara com o melhor amigo desafiando qualquer lei de ocupação do espaço por diferentes corpos ao beijar uma ruiva com um tanto mais de proximidade do que o naturalmente esperado.
- E veja só como esse mundo é menor que uma caixa de fósforos! – A moça fez questão de adicionar. – Aquela ali é a minha melhor amiga, Mariana. Acho que ele conseguiu a compressa gelada que ele precisava para esfriar a cabeça. Pode ficar tranquilo. Agora eu vou chamar um uber porque se depender dela, eu só saio daqui no próximo fim de semana. Ou mês.
se atrapalhou um tanto entre a tarefa de assimilar a nula preocupação do melhor amigo ao se tornar o centro das atenções nas proximidades do bar e entender que a sua possível última companhia da noite estava prestes a escapar quase tão rápido quanto sua atenção durante as aulas de antropologia. Tentou pensar na desculpa mais plausível possível de se inventar rapidamente para impedir uma quase completa desconhecida de ir embora. Se aquilo fosse realmente tão absurdo quanto soava em sua cabeça, certamente se julgaria pelo resto da vida por toda a falta de sutileza que esbanjava.
- Não! Quer dizer... – Ela já tinha os braços cruzados e a sobrancelha direita arqueada, analisando minuciosamente cada um de seus movimentos. – Eles nem devem demorar tanto assim. E, sei lá. A gente pode conversar um pouco e eu até te pago uma bebida à sua escolha.
- Jamais! – tinha soltado aquilo bem mais alto do que deveria. Por sorte a música estava ensurdecedora o suficiente para que ninguém tivesse percebido. – Já deu de bebidas para mim por hoje. Estou declinando essa proposta tentadora de acordar com uma ressaca absurda e também a possível necessidade de ter que parar em algum banheiro pouco confiável. Tendo dito isso, no entanto, aceito a parte da conversa.
O moreno sorriu abertamente ao ouvir aquilo. tinha algo em torno de si que fazia com que sua presença fosse simples e automaticamente confortável. De um jeito estranho e meio sarcástico – palavras de uso inteiramente aceitável para descrever também a própria garota -, era verdade; mas ainda confortável.
perguntou o que ela fazia da vida e se surpreendeu ao ouvir a jovem dizer que cursava psicologia. Seu queixo caiu de vez ao perceber que o campus que ela frequentava era literalmente vizinho ao de direito – aquele doce e singelo local que mais parecia sua casa do que apenas a faculdade.
- Meu Deus! Como nunca nos trombamos por aí?
- Não sei. Eu não conheço muita gente do seu curso – ela admitiu. – Vai ver nossos horários só não batem. Ou não estávamos prestando atenção no mundo ao nosso redor. O que, na verdade, é bem compreensível. Eu, por exemplo, ao sair da última aula, pareço um jato de primeira geração fugindo em busca do conforto do meu lar. E do silêncio que aquece meu coração após um longo dia de psicanálise. Geralmente isso dura um total de dois minutos. Aí a Mariana destrói tudo como de costume. Pelo menos tenho aquele mínimo momento de paz.
A cabeça do garoto pendeu para trás com sua risada. A naturalidade com que conversavam era incrível. Os assuntos passaram a fluir com notável facilidade e vinham um atrás do outro em uma sucessão interminável de histórias e risos.
Conversaram sobre os mais variados temas, caminhando até sobre áreas mais íntimas: os vícios nerds e as comidas preferidas. Perderam pelo menos meia hora discutindo sobre a voz arrastada e cansativa do professor de antropologia logo no começo da manhã e mais vários minutos listando os melhores temakis da cidade.
- Apoio irmos a um rodízio qualquer dia desses – disse , só percebendo o convite que tinha acabado de fazer após as palavras já terem deslizado por sua boca. Só aguardou o fora incrível que tomaria.
- Acho que não é uma má ideia – respondeu, para sua total surpresa. – Comida japonesa é irrecusável de acordo com o primeiro dos dez mandamentos do meu estômago. Os outros nove envolvem não recusar outros tipos de comida.
Conversaram por mais algum tempo até perceberem que as horas se arrastavam e já era tarde demais até para aqueles que acabariam saindo dali e terminando na pastelaria mais próxima ou no primeiro trailer de cachorro quente que encontrassem aberto àquele momento da madrugada. Era a hora de maior lucro dos comerciantes pacientes o suficiente para esperarem a clientela que saía tropeçando pelas ruas com uma necessidade de glicose um tanto maior que o usual.
acompanhou até o lado de fora enquanto esperavam Douglas: “o motorista mais gente boa” do uber na cidade - palavras de um cliente apaixonado nos comentários do aplicativo. O Siena prata chegou rapidamente e o momento estranho da despedida acabou vindo em seguida.
- Bom, - começou ele – acho que a gente se esbarra por aí.
- Pode ser. Talvez eu comece a olhar para os lados quando sair da faculdade – ela brincou e saiu rindo, enquanto bagunçava os cachos do jeito que tinha virado praticamente sua marca pessoal. Era uma mania. E um charme também.
se pegou observando a rua com um sorriso bobo ainda estampado no rosto.
Colocou as mãos nos bolsos das calças jeans gastas e meneou a cabeça, repassando em sua mente cada segundo da noite.
Melhor alguém contatar a Organização Meteorológica Mundial: um novo furacão havia acabado de atingir as redondezas e trazia consigo o nome de .

*****

- Não, Mariana, eu não tenho nenhum tipo de interesse em saber os aspectos do que você acabou de mandar para o esgoto – reclamava, enquanto tentava cobrir a boca da amiga que tinha decidido exercitar suas capacidades descritivas com os mais recentes resultados de um consumo de espetinhos um tanto suspeitos.
- Eu posso morrer com uma intoxicação alimentar e você está se recusando a me ouvir! Que tipo de melhor amiga horrível você é?!
- O tipo que não tem um diploma de medicina e não pode fazer nada por você nesse momento. Quer dizer, nada além de dizer que eu avisei pelo menos umas dez vezes para não comer aquele protótipo de carne mal conservada na rua.
- Por que você está cursando psicologia mesmo? É uma péssima ouvinte e uma conselheira ainda pior. Só não é mais inútil porque vai copiar toda a matéria de hoje para mim, não é mesmo? – Mariana sorria amarelo, rogando pela misericórdia e piedade da outra. Era a grande vantagem de dividir o apartamento e a vida com uma colega de curso.
bufou, revirando os olhos. Às vezes – muitas vezes, diga-se de passagem – tinha vontade de acorrentar a amiga em casa para que ela parasse de fazer besteiras por um segundo pelo menos.
- Não é como se eu tivesse muita escolha, não é mesmo?
Mariana bateu palmas ao ouvir aquelas palavras, mas teve sua comemoração imediatamente interrompida:
- Duas condições: você não vai ver nenhum episódio de How I Met Your Mother ou de Game of Thrones sem mim e se você conseguir causar algum tipo de problema ou lesão a si mesma enquanto eu estiver em aula, eu juro que arranco seu pâncreas com as minhas unhas – disse a garota, enquanto mostrava-as: longas e recém-pintadas com um azul metálico. A arma do crime.
- Parece que temos uma Lannister por aqui! – Mariana se fazia de coitada. Vai embora, Correia. Deixe-me aqui para morrer.
Antes mesmo que a mais nova doente terminasse sua fala, já tinha saído pela porta, ouvindo apenas alguns palavrões ainda endereçados a ela.
O conjunto de apartamentos em que residiam era um ambiente construído especialmente para os universitários: relativamente próximo à faculdade e com o preço mais em conta possível na cidade ao se considerar a famigerada relação custo e benefício. Porque, se tem duas coisas que fazem falta na faculdade, essas coisas são exatamente tempo e dinheiro. Talvez um pouco de bom senso, mas isso é assunto para outro momento.
Em pouco tempo, estava de volta àquele lugar tão conhecido, prestes a engatar em mais uma semana de trabalhos intermináveis e horas extras presa na biblioteca com vários calouros que ainda pensavam que Freud era um tipo de divindade onipotente, onisciente e irrefutável sem sequer ter muita noção da tal “religião” que o homem pregava. Lar, doce lar.
Prestou atenção dobrada nas aulas do dia, na tentativa de anotar tudo que pudesse para ajudar à amiga e para começar a se preparar para as provas que se aproximavam bem mais rápido do que ela gostaria. Sabia que precisava começar a organizar seus estudos o mais rápido possível ou o tsunami das matérias acumuladas a afogaria.
Após todo o esforço para se manter acordada durante toda a manhã e boa parte da tarde – principalmente com a grande conquista de sobreviver a mais um dia de aulas de antropologia com o professor morto-vivo -, quase voou até o estacionamento, desesperada para poder tomar um banho quente o suficiente para machucar sua pele.
Abriu a porta do carona de seu Palio usado de duas portas e despejou todos os livros e blusas que carregava. Nunca se acostumaria com as bruscas mudanças de temperatura ao longo do dia que lhe faziam tirar e colocar mais roupas que uma Barbie na mão de uma garotinha da pré-escola.
Entrou apressada no carro e deu a partida no carro. Estava prestes a fugir daquele lugar, quando o celular escorregou do bolso, caindo ao lado do banco.
- Mas que merda – reclamou, enquanto abaixava-se para pegar o aparelho, diminuindo a pressão que fazia no acelerador, mas não o largando totalmente.
O barulho veio seguido do choque que, mesmo leve, havia sido perceptível, fazendo com que a jovem freasse o carro bruscamente.
- Puta merda, o que eu fiz?
Respirou fundo, apertando os dedos ao redor do volante na vã tentativa de se tranquilizar minimamente antes de checar no que batera. Desceu do carro assim que percebeu que não importaria quantas preces fizesse, o tempo não voltaria num passe de mágica.
- Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Mil perdões – disse ao ver um rapaz ajoelhado, apanhando várias folhas e cadernos que tinham se espalhado pelo asfalto mal pintado do estacionamento. – O meu celular caiu e eu fui pegar e eu sei que isso não é desculpa, mas...
- Eu sei, eu sei. Parece que aquela história de olhar para os lados ao sair da faculdade não funcionou muito bem para você, não é mesmo? – Ele estava rindo na hora em que levantou o rosto e permitiu que sua visão encontrasse o completo espanto no rosto de .
- ?! Meu Deus. Eu não sei se o fato de te conhecer faz com que isso seja melhor ou pior. Puta merda, como eu queria ser a porcaria de um avestruz para poder enfiar minha cabeça em um buraco bem fundo.
Ele riu abertamente mais uma vez, levantando-se ao terminar de apanhar suas coisas.
- Pode ficar tranquila. Não foi dessa vez que você conseguiu quebrar algum membro meu. Acho que eu vou ficar com um roxo no joelho esquerdo, mas, fora isso, está tudo bem. Mas se te consola, eu acho que esse foi um dos maiores sustos que eu tomei na minha vida.
- Eu nem sei como me desculpar – ela disse, tampando o rosto com as mãos. – Eu sou muito desastrada e preciso mesmo levar a sério aquela história de olhar direito para as coisas.
- Bom, eu já te desculpei. Foi um acidente e esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer um. Se tentarmos olhar pelo lado bom da coisa, pelo menos isso fez com que a gente se esbarrasse. Mesmo que essa esbarrada tenha sido um tanto mais brusca do que eu esperava.
riu, ainda sem graça, mas finalmente sentindo seus músculos começarem a relaxar, abandonando o estado de perigo e alerta que tinham adquirido com o solavanco do carro.
- Bom, pelo visto nós dois estávamos de saída juntos – observou. – O que acha de pararmos para tomar um café? Preciso repor minhas taxas vitais de cafeína e uma companhia cairia muito bem.
A garota acabou assentindo, desejando secretamente o chocolate quente cheio de creme e calda acompanhado de biscoitinhos amanteigados da padaria do centro. Mal acreditava que tinha se esquecido daquele pequeno pedaço de paraíso por mais de um mês. Amaldiçoava todas as provas e seminários por tamanho absurdo.
Foram no carro dela, afinal, o único automóvel de sua total posse que ele conhecia era uma miniatura de Ferrari vermelha que tinha ganhado de seu padrinho aos sete anos, após descobrir uma certa fixação pela marca – como a grande maioria dos garotos da idade.
tomou a liberdade de ligar o rádio em uma estação de rock nacional e se pegou batucando as letras do Capital Inicial, enquanto cantarolava a melodia baixinho. O silêncio não os incomodava em nada. Era agradável e fácil e os dois tinham a mais plena consciência disso.
Escolheram uma mesinha do lado de fora da padaria, com vista para uma pracinha onde algumas crianças brincavam em balanços. Pediram dois chocolates quentes completos e uma porção extra de biscoitos para dividirem enquanto conversavam.
- Não que isso te diga respeito de alguma forma – começou -, mas se lembra do Bruno? Bom, ele e a namorada reataram no dia seguinte. Ele não tem a mínima noção do que aconteceu naquela boate. Por sinal, depois que você foi embora, nós fomos enxotados do estabelecimento porque ele decidiu que seria um bom momento para subir no balcão do bar e cantar Marília Mendonça abraçado a uma garrafa de uísque que ele arrancou das mãos do barman.
- Eu não acredito! Eu precisava ter visto essa cena! – A garota mal conseguia parar de rir enquanto imaginava a situação. – Bom, a Mari resolveu deixar o estômago falar mais alto que a cabeça e agora está de cama com uma baita intoxicação alimentar. Eu só espero que ela ainda não tenha se matado, já que está sem a supervisão de um responsável.
- Mas ela é adulta.
- E nem um pouco responsável. Se existe alguém capaz de se quebrar só de pisar para fora da cama, esse alguém com certeza é a Mariana. Lembro que uma vez ela ficou engessada por um mês parecendo uma maluca porque ela conseguiu torcer o tornozelo ao descer da calçada do prédio. Ela passava as tardes brincando de pintar o gesso com canetinhas. Foi assim que a gente teve que juntar dinheiro para trocar o tecido do sofá, já que ele ficou todo carimbado de hidrocor.
- Nós fizemos escolhas bem comprometedoras de melhores amigos. Provavelmente isso nos faça tão malucos quanto eles.
- É, provavelmente – concordou, tomando um longo gole em seu chocolate quente e controlando-se para não revirar os olhos de prazer logo em seguida. Era quase como um orgasmo gustativo.
Continuaram conversando sobre tudo e nada. Falaram sobre videogames, sobre como era engraçado ver as pessoas discutindo nos comentários do facebook por assuntos banais e como era irritante quando os assuntos eram sérios, sobre viagens e sobre voltar para outro chocolate quente qualquer outro dia também. Isso porque mal tinham chegado à metade dos biscoitos, já que dedicavam sua atenção quase total a manter o papo, atraindo alguns olhares e sorrisos de senhoras de meia idade que passavam por ali com seus bolos.
por vezes tinha quase se perdido entre ouvir e responder a tudo, vidrado na forma com que os lábios dela se repuxavam mais no canto esquerdo e seus olhos pareciam brilhar a cada vez que ela mencionava algo que adorava. Alguma coisa dentro dele estava se coçando para sentir se a pele de suas bochechas eram tão macias quanto aparentavam sob a luz da luminária rústica de teto.
, por sua vez, não podia negar que havia notado a bagunça organizada do cabelo dele e como nunca teria esperado aquele senso de humor de alguém com toda aquela pinta de bom moço. É o que acontece quando julgamos um livro pela capa ou uma pessoa pela face. Era o primeiro dos alunos de direito que ela tinha gostado e talvez já estivesse gostando demais.
Começaram a falar sobre trabalhos da faculdade e acabaram decidindo ir até o apartamento da garota, que havia oferecido o empréstimo de um livro de ética que com certeza o ajudaria a estudar.
Abriram a porta para dar de cara com uma Mariana de pijamas das Tartarugas Ninjas fazendo alongamentos para as pernas no minúsculo tapete da sala. Uma música do Panic! At The Disco tocava no pequeno aparelho de som que jazia ao lado de um enorme balde laranja vazio de pipoca.
- Eu não sei se eu tinha mais medo de te encontrar desse jeito ou sentada no chão do banheiro de castigo ao lado do trono – disse , desligando a música. Foi só então que a amiga notou sua presença, sentando-se apressadamente quando notou que a mesma não estava sozinha.
- Muito obrigada por avisar que você ia trazer um indivíduo de outro sexo para cá – reclamou. – De verdade, valeu a consideração de me deixar ser vista parecendo uma fugitiva do hospício infantil.
- Para uma estudante de psicologia, você tem uma mente bem assustadora – comentou, arrancando um risinho de e uma cara de ódio da outra.
- Não te dei intimidade para falar assim comigo. Nem te conheço, garoto.
- Bom - se apressou a tentar amenizar a situação -, esse é o , melhor amigo daquele cara que você pegou da última vez que me arrastou para a boate.
- Então, querida – Mariana retrucou -, você vai precisar ser mais específica se quiser que eu me lembre de qual dos “caras que eu peguei da última vez” você está falando.
- Bruno, um alto, meio loiro – o rapaz arriscou.
Mariana pareceu ponderar, retorcendo os lábios e as sobrancelhas como se estivesse mesmo fazendo um esforço gigantesco para conseguir se lembrar.
- Loiro? Ah, sim. Não, não lembro. Devia estar bêbada demais já. Bom, acontece – ela deu de ombros e voltou a se alongar, ignorando a presença alheia na sala de estar.
revirou os olhos para a amiga, dando um sorriso envergonhado para , que parecia estar se divertindo com a irreverência da garota. Ela acabou puxando-o, sem jeito, pelo pulso até o quarto, onde estava o livro.
- Nossa, quando você disse que era fã de heróis e séries, eu acho que não esperava por isso – comentou, vendo o pôster de cinema do primeiro filme dos Vingadores e uma escrivaninha repleta de funkos de super heróis e Stranger Things.
- São todos presentes – ela respondeu. – Minha família sabe do meu vício secreto e decidiu incentivar. Claro que não sou eu quem vai reclamar, não é? Se eles querem me comprar essas coisas, não vou discutir.
Ela puxou o livro de uma prateleira próxima à cabeceira da cama de solteiro desarrumada e o estendeu para o rapaz, que ainda observava as pequenas miniaturas, analisando especialmente a de Will Byers, colada de ponta cabeça.
- Aqui. Espero que te ajude nas finais.
- É, espero que sim – ele disse, rindo. – Se nem isso der certo, acho que terei que apelar para umas boas promessas e aguardar um milagre.
O ambiente ficou silencioso novamente, deixando os dois incrivelmente sem graça. Nem parecia que estavam conversando como bons amigos há poucos instantes. Mariana apareceu na porta com um estalo no piso, tornando-se o foco das atenções.
- Resolvi vir espiar para ver se a situação era mais interessante que aquele programa tosco de moda, mas pelo jeito tudo que há nesse ambiente se resume a tensão sexual. É bastante deprimente, na verdade. Tomem vergonha na cara e aproveitem um pouco a vida. , meu anjo, você pode mostrar pro seu amigo aquela sua coleção secreta aí do lado da cama – disse risonha e saiu, dando uma piscadinha para os dois. Trancou-se em seu próprio quarto logo em seguida.
começou a rir, fazendo com que sua nova amiga ficasse ainda mais vermelha do que tinha um dia julgado possível ficar.
- Eu vou matar essa retardada.
- Ela só estava brincando – ele respondeu. – Eu levei totalmente na esportiva. Bom, de qualquer forma eu preciso ir. A gente se vê algum dia desses. Se hoje eu conheci a coleção de miniaturas, talvez em breve eu possa conhecer a tal coleção secreta.

*****

Passaram-se pelo menos dois meses desde aquele fatídico e inesperado encontro numa boate. Nesse meio tempo, entre estudar para as provas e finalizar alguns seminários, marcaram de comer uns lanches e tomar uns cafés, aproximando-se cada vez mais. Os sorrisos ficaram mais constantes e as risadas mais fáceis. As mãos começaram se esbarrando e terminaram enlaçadas até os dedos brincarem. Entre piadas, desabafos, carinhos e abraços, aconteceu o primeiro beijo. E foi o primeiro que deu abertura para vários outros em sequência. Quando perceberam, já estavam envolvidos demais e aquele relacionamento se tornara bem mais sério do que esperavam a princípio.
Arranjaram um tempo entre o curto recesso para darem uma escapada até a praia, levando Mariana e Bruno – que, em poucas horas, já tinham conseguido alguns engradados de qualquer bebida barata em uma mercearia próxima e relembrado certos momentos da festa em que haviam se conhecido.
- Esses dois combinam perfeitamente – comentou, enquanto espalhava protetor solar pelas costas de , que se sentava de pernas cruzadas à sua frente na espreguiçadeira de plástico branco que estava esticada logo abaixo de um daqueles guarda-sóis amarelos cheios de propagandas de cervejas. Típicos de quiosques à beira-mar.
desviou o olhar para os dois amigos que chutavam areia um no outro, parecendo duas crianças arteiras que dariam trabalho dobrado para suas mães.
- Realmente – concordou. – Provavelmente bem mais do que eles mesmos pensam.
limpou as mãos sujas de protetor nas bochechas de , deixando-a com marcas brancas na face. Depositou um beijo rápido em seus lábios antes de sair correndo e rindo com os óculos de sol dela no rosto.
sorriu, revirando os olhos. Mal conseguia descrever o que sentira ao lado daquele rapaz nos últimos meses. Claro que já tinha beijado outras bocas e conhecido outros corpos - masculinos e femininos -, inclusive, já contabilizava dois relacionamentos sérios em sua lista (excluindo ficantes fixos): um que durara aproximadamente dois meses e outro de quase três anos. Nem nos momentos mais mágicos dos relacionamentos anteriores ela se sentira dessa forma. Era clichê, era idiota, era novo e estressante por ser tão inexplicável. Não pareciam borboletas no estômago, não parecia um zoológico inteiro. Não dava vontade de vomitar, nem de sair correndo por aí e gritando como uma adolescente tendo crises de fã. Era muito mais complicado que tudo isso. Era como se ela fosse explodir e ainda não tinha se decidido se isso era bom ou ruim. Mas ela sorria; sorria porque tinha vontade e parecia o mais certo a se fazer. Por mais que a cabeça doesse tanto que ela se perguntava se era mesmo apenas uma metáfora para um sentimento inédito daqueles. Talvez devesse marcar uma consulta com o neurologista.
Abandonou os pensamentos e divagações e decidiu seguir seus companheiros de viagem. Sentiu seus pelos eriçarem quando as ondas geladas atingiram seu corpo, fazendo com que ela desse um pulinho involuntário e abraçasse o próprio corpo com os braços. Não demorou muito até sentir outro par de braços passarem por seu abdômen, levantando-a enquanto debatia as pernas rindo.
- Me solta, seu maluco – gritava, tentando atingi-lo com os calcanhares.
estava rindo, enquanto tentava ajeitar os cabelos molhados. Virou a garota de frente para si, segurando seu rosto pelas laterais carinhosamente e beijando-a novamente.
- Sei que é um momento bem... Bom, como posso dizer isso? Peculiar? É, pode ser. É um momento um tanto peculiar e bem longe de ser a coisa mais romântica do universo. Você merecia algo mais legal e eu até ia tentar preparar, mas além da falta de criatividade, olhar você linda assim desse jeito nesse lugar maravilhoso só me faz querer fazer isso logo. , você aceita ser a minha namorada?
A garota arregalou os olhos, em choque total. Não estava esperando por aquilo, por mais que soubesse que tudo se encaminhava para aquilo. Sentiu a adrenalina correr por seu corpo e viu Mariana acenar a meia distância, com “joinhas”, incentivando-a a prosseguir.
- Sim – respondeu, sentindo uma lágrima solitária correr pelo rosto. – Droga, eu gosto muito de você – falou, antes de abraçá-lo com toda a força que seu corpo era capaz de promover no momento.
- Eu sei – ele disse, rindo, enquanto beijava a testa dela. – E sei que você sabe que a recíproca é totalmente verdadeira.

*****

estava dobrando as mangas da camisa da forma mais simétrica possível – e já estava se dedicando àquela tarefa há pelo menos cinco minutos, enquanto esperava descer para o encontro que tinha preparado pelo aniversário de seis meses de namoro. Queria fazer algo especial para a mulher que lhe ensinara um novo significado para o que chamavam de amor. Estavam juntos sempre que podiam, assistiram a todas as maiores estreias do cinema naquele período – com suas carteirinhas da faculdade e nas promoções de terça-feira -, experimentaram todos os lanches da cidade e colocaram todos eles em um ranking, foram a algumas festas de seus respectivos cursos da faculdade e saíram de todas elas cedo demais para maratonar algo novo no Netflix e encontraram tempo para ter uma vida ativa no que dizia respeito ao que descobriram fazer tão bem sem usar o estômago. Diziam que eles eram como um casal de idosos, mas mal sabiam que estavam bem longe disso.
apareceu na portaria do prédio, saltitando com suas sapatilhas coloridas e o largo vestido de um tecido que imitava jeans, com um sorriso ainda mais largo emoldurado pelos cachos definidos.
- Não vai mesmo me dizer aonde vamos? – Foi a pergunta que ela fez enquanto agarrava a mão do namorado.
- Por nada nesse mundo – ele respondeu antes de selar seus lábios.
abriu a porta do carro – emprestado - para ela, fazendo uma reverência digna de realeza e ganhando um beliscão brincalhão no lugar.
Dirigiram por um tempo, cantarolando uns clássicos de Legião Urbana com as janelas abaixadas, aproveitando a leve brisa noturna. Chegaram, finalmente ao destino: uma clareira em meio a um bosque repleto de árvores e flores. Dois longos bancos de madeira estavam colocados junto a uma mesa embaixo de luminárias decoradas e alguns fios de LED que lembravam muito uma imagem natalina.
Pequenas velas claras decoravam a mesa, entre dois pratos cobertos por cloches de inox. Havia um vaso delicado de vidro no centro da mesa, repleto de flores em tons de roxo e lilás, no mesmo tom do vinho que os aguardava.
tinha sua boca aberta em um “o” perfeito, deslumbrada com a cena que via perante si. a encarava com um sorriso tão puro quanto o de uma criança, apaixonado por aquela mulher maravilhosa a quem gostaria de oferecer todo o mundo apenas para deleite próprio, para que nunca precisasse de nada e jamais sofresse por motivo algum. Ela era tudo.
O rapaz segurou sua mão e, com o braço livre, guiou-a pela cintura até o banco improvisado, sentando-se à sua frente em seguida. Retiraram suas cloches, visualizando por completo os pratos com um pedaço generoso de lasanha. A garota riu, soltando algo como “Você me conhece tão bem!”, antes de servirem a bebida e darem início ao jantar, engatando várias pequenas conversas enquanto isso.
Riram, comeram e quando já estavam levemente altos pelo vinho, ligaram uma playlist romântica no Spotify e começaram a dançar lentamente, abraçados, com as testas coladas enquanto sentiam suas respirações se misturarem.
rodou , segurando sua mão como se fosse uma peça de porcelana fina e rara. Trocaram beijos, carícias e sorrisos intermináveis, rindo como se não houvesse um dia seguinte ou problemas do lado de fora. Naquele momento, havia uma redoma intransponível, um cantinho só deles e nada além de felicidade e amor existia por ali.
- Eu sei que meses já se foram, mas eu esperei porque isso realmente é algo que significa demais para mim – disse, colocando uma madeixa do cabelo da garota atrás de sua orelha. – Eu amo você.
sorriu, abraçando-o mais forte, permitindo-se inalar o perfume que ele usava – um que tinha se tornado seu aroma preferido nos últimos tempos.
- Eu também te amo.

*****

encarou o telefone pela sétima vez, esperando que o respondesse. Havia enviado uma mensagem convidando-a a ir com ele à lanchonete que tinham classificado como “número 1” em seu ranking de hambúrguer.
Alguns minutos depois, recebeu um “Não posso. Fica para a próxima.” dela. Bufou, arremessando o celular na cama.
Aquilo vinha acontecendo nas últimas duas semanas: qualquer tentativa dele de sair ou pelo menos se aproximar era negada e rejeitada com uma frieza que deixaria a Elsa brincando na neve com muita inveja.
Bruno e alguns outros amigos já tinham zombado da situação, fazendo piadinhas e chamando-o de corno, chifrudo, rejeitado e outros nomes de intenções similares. No começo, ele só os xingava, mas, conforme o tempo passava, começava a acreditar em suas palavras. Simplesmente não podia mais sustentar aquilo. Estava cansado de ouvir “Não” para qualquer pedido ou convite sem receber uma justificativa minimamente plausível para tal. Ele sabia que a amava como jamais havia amado ninguém, mas aquilo era demais até para a pessoa mais apaixonada do universo. Ele ainda tinha um pingo de amor próprio e um punhado de dignidade que o impediam de fazer papel de otário enganado por tanto tempo. Foi por isso que decidiu ir até o apartamento dela, em busca de respostas e da satisfação que merecia após todo aquele tempo.
Bateu à sua porta, sentindo a raiva subir juntamente com um medo absurdo de encontrar outro homem naquele apartamento e descobrir a verdade da maneira mais dolorosa possível – se é que existia alguma forma não dolorosa de descobrir uma traição. Mas não foi o que aconteceu. Ela abriu a porta, com os cabelos bagunçados, o rosto avermelhado com olheiras profundas e o pijama de flanela surrado.
- Eu disse que não posso sair, – disse com a voz fraca e a respiração parecendo mais pesada do que devia.
- É, mas você disse isso ontem também. E no fim de semana. E na semana passada. Qual é, ? Eu tenho cara de idiota por acaso?! Você simplesmente some da minha vida de repente, ignora todas as minhas tentativas de conversar e recusa todos os meus convites para sair. Quanto tempo pensou que pudesse me usar desse jeito? Por quanto tempo você pensou que eu aguentaria tudo isso calado? Se você não quer mais estar nessa droga de relacionamento, então diga, mas não me trate como se eu fosse nada para você.
- Será que você pode parar de falar tão alto? A minha cabeça está prestes a explodir de uma maneira que eu nunca pensei que fosse possível. Eu estava dormindo e, se você puder me dar licença, eu preciso mesmo voltar a me deitar – disse ela, olhando para a vermelhidão nas mãos, que parecia ter aumentado.
- Não, . Você não tem o direito de me tratar assim. Você não pode simplesmente fingir que a pessoa que fez e faz tudo por você não existe só porque você enjoou dela.
- , não é isso. Você está exagerando – disse, fechando os olhos e tentando respirar mais profundamente. – Por favor, será que a gente pode falar sobre isso em outra hora? Eu não estou mesmo me sentindo bem.
- Não, não tem outra hora. É fácil usar essa doença como desculpa agora, não é? Mas você não vai continuar me tratando feito um brinquedinho descartável. Acabou. Se você não tem coragem de terminar isso, saiba que eu tenho, porque eu não mereço esse tipo de tratamento.
tinha lágrimas nos olhos, mas as segurou, mantendo totalmente a postura dura.
- Se é isso que você quer, seja feliz. Se quer achar que minha doença é uma desculpa, o problema é todo seu. Se quer ser esse filho da puta incompreensível, a escolha é sua. Eu esperava mais de você. Aproveite sua vida de solteiro já que é isso que tanto quer, babaca – disse antes de socar a porta em sua cara, deixando seu corpo ceder até o chão, não aguentando ficar em pé por mais um segundo sequer.
Ouviu passos do lado de fora indicando que ele teria ido embora. Ouviu alguma conversa baixa no corredor – provavelmente algo entre os vizinhos -, mas mesmo se esforçando para permanecer de olhos abertos, sentiu tudo ficar cada vez mais escuro e pesado, ficando inconsciente atrás da porta de entrada logo em seguida.

*****

- Ei! – gesticulava de maneira nervosa, tentando chamar a atenção do barman. – Será que você pode me trazer mais uma dose? Ou mais três?
O atendente riu, preparando três shots alinhados com o líquido transparente. virou todos em sequência, percebendo que a queimação na garganta já não incomodava mais.
Tinha retornado para a boate em que ele e haviam se conhecido e percebera que era uma péssima ideia quando cada canto daquele bar o lembrou dela. E isso só o fazia se afundar mais pedindo aquelas doses que provavelmente o levariam à falência em breve.

I keep coming back to that moment
(Eu continuo voltando àquele momento)
Where it all fell apart
(Em que tudo desmoronou)
So I try and drink my emotions
(Então eu tento e engulo minhas emoções)
‘Til I can’t feel my heart
(Até que não possa sentir meu coração)

Um braço esbarrou nele com força, fazendo com que seu equilíbrio já prejudicado o levasse a bater a cabeça com força no balcão.
- Droga, qual o seu problema? – Ralhou, enquanto passava a mão na testa avermelhada.
- Ah, desc... Ah, não. Você merece – Mariana disse quando percebeu de quem se tratava. – Devia ter batido mais forte. Quer saber? Eu nem vou olhar para essa sua cara. É aquele ditado, conhece? Bata na sua cara antes que eu bata.
- Nem vem que eu não estou com paciência – disse ele, passando as mãos freneticamente pelos cabelos já desalinhados. – Eu não fiz nada, sou a vítima dessa história toda.

And I don’t understand
(E eu não entendo)
How you slipped through my hands
(Como você escapou de minhas mãos)
And I do all I can
(E eu faço tudo que posso)
To get you out of my head
(Para te tirar da minha cabeça)

- A grande e única vítima dessa história toda é a , que está lá internada sob observação há dias. A culpa é toda sua e dessa sua insegurança gigantesca que faz você achar que tudo é sobre você e gira ao redor da droga desse seu umbigo. Ela está doente de verdade, seu imbecil. Ela passou aquelas semanas todas trancadas no apartamento, torcendo para que algum dos remédios ajudasse. Ela trancou a faculdade porque não conseguia nem andar direito. Ela começou os tratamentos intensivos e está no hospital. Agora, diz para mim, meu anjo: quem é o babaca agora?
- Do que você está falando? Como assim doente? – se sentia como se tivesse tomado uma surra das fortes.
- Será que eu vou precisar desenhar para você e esse seu orgulho ferido? Ela está internada, decidiram observá-la enquanto esperam que os remédios façam algum efeito. Estão tentando assegurar que os órgãos dela não vão apresentar nenhum tipo de complicação ou falência e tentando monitorar possíveis convulsões.
Eram tantos nomes e termos médicos que mal conseguia alinhar todos os pensamentos em sua cabeça de forma minimamente adequada. Sentia que estava dentro de um pesadelo e só torcia para acordar a qualquer momento.
- O que ela tem? – A voz dele estava falhando.
- Lúpus, . Foi esse o diagnóstico. Os anticorpos dela estão tentando destruí-la. Coisa que você já conseguiu fazer antes deles, não é? – Riu com sarcasmo, dando as costas para o rapaz e o deixando ser engolido pela própria culpa.
Pegou o celular e tentou ligar para o número dela – recém-bloqueado – inúmeras vezes, recebendo um aviso da caixa postal em todas elas. Tentou mandar mensagens no Messenger, Whatsapp, Telegram e percebeu que elas sequer chegavam a suas contas, todas não visitadas nos últimos dias.

So when I call you in the middle of the night
(Então quando eu te ligo no meio da noite)
And I’m choking on the words ‘cause I miss you
(E estou engasgando com as palavras porque sinto sua falta)
Baby, don’t tell me I’m out of time
(Amor, não me diga que não tenho mais tempo)
I got so much of my loving to give you
(Eu tenho tanto amor para lhe dar)

Pediu um táxi, consciente do tanto de álcool que tinha circulando em seu sangue, e pediu que o deixasse no hospital. Pediu e implorou na entrada para que deixassem que ele a visitasse. A funcionária, calmamente, explicou inúmeras vezes que não podia permitir que ele fosse até os quartos naquele momento e pedindo que ele aguardasse pelo período de visita liberada no dia seguinte. Ele chorou, tentou mais vezes, explicou que era urgente, mas nada mudaria aquela decisão.
comprou um misto quente, uma água e um brigadeiro na lanchonete do hospital e decidiu se sentar na poltrona de revestimento verde da recepção. Aguardaria ali até a hora de visitas. Comeu, tentou se distrair com alguns vídeos e joguinhos no maior estilo puzzle no celular e tudo o que conseguiu foi terminar mais entediado ainda. Acabou adormecendo completamente torto naquela cadeira, sem se preocupar com quem o via ou com o estado em que acordaria no dia seguinte. Seu único interesse e propósito era vê-la e se daria por satisfeito se conseguisse, sob qualquer pena ou circunstância.
Mas o que diria, afinal? Pediria perdão? Diria o quão imbecil e sem noção ele era? Eram coisas óbvias demais para sequer gastar saliva dizendo-as. Além de que era pouco demais para todo o mal que tinha lhe causado. Ela merecia o mundo e tudo que ele lhe dera fora decepção, desconfiança e incompreensão.

I’ve got no good explanation
(Eu não tenho nenhuma explicação boa)
For what I put you through
(Para o que eu te fiz passer)
Managing my expectations
(Controlar as minhas expectativas)
Is what I never do
(É algo que nunca faço)

Acordou com o aumento dos sons de conversas na recepção. Já passava das oito da manhã. Comprou uma escova de dentes e uma pasta na farmácia – que por sorte era logo em frente ao hospital, em uma bela jogada de marketing – e tomou seu café da manhã, antes de fazer sua higiene matinal.
Aguardou novamente, torcendo para que os 23% de bateria durassem pelo menos o suficiente para que o Candy Crush o auxiliasse a esperar que o tempo simplesmente passasse. E olha que ele simplesmente detestava aquele jogo ridículo. Sua vontade era de pegar um pacote de balas e jogar na cabeça do criador daquela porcaria irritante e viciante – sua mãe mesmo já havia completado mais de dois mil níveis.
Quando percebeu que chegara a hora das visitas, correu para a mesma moça na recepção, com um sorrisinho pidão como o de uma criança que pergunta “Já estamos chegando? E agora? E agora?” setecentas vezes. A funcionária sorriu de volta, um tanto encantada com a força de vontade do rapaz para ver a paciente. Mostrou o corredor e lhe disse o número do quarto: 51. O garoto se esforçou para conter a piadinha sobre a bebida e agradeceu imensamente pela ajuda.
Respirou fundo antes de abrir a porta com o maior cuidado que já tivera em toda a sua vida. Ao perceber o silêncio no quarto, pestanejou, olhou ao redor, pensou em como simplesmente odiaria vê-lo e ele só pioraria tudo mais uma vez. Mas decidiu que tinha que fazer isso, independente de quão dura fosse a decepção que se seguiria. Entrou quase na ponta dos pés e fechou a porta atrás de si, encontrando-a ainda adormecida. Fez uma nota mental para reclamar de permitirem que qualquer um a visitasse tão facilmente, principalmente enquanto sonolenta. Maldita segurança, nem em uma maca você podia descansar em paz.
Sentou-se na poltrona ao lado da cama e a observou por completo. Ela estava totalmente coberta até o busto, apenas com os braços – levemente avermelhados, com a agulha do soro marcante na imagem – de fora. O rosto estava em uma situação um pouco melhor, mas as maçãs do rosto estavam inchadas e um pouco manchadas. O cabelo de que ela tanto se orgulhava estava mais ralo que da última vez e mais fino também. Uma das mulheres mais fortes que conhecera e agora parecia tão frágil, tão desgastada.
- Vai continuar me encarando enquanto eu durmo? – A voz era fraca, mas determinada como sempre. – Eu não posso gritar, mas eu tenho um botãozinho aqui no controle da maca e não tenho medo algum de usar.
riu, fazendo ela sorrir levemente um pouco.
- Por que você está aqui sozinha?
- Meus pais tiveram que voltar para a nossa cidade para resolver algumas coisas e vão trazer mais roupas para ficar comigo. A Mari tinha uma entrevista de estágio hoje. Basicamente, por hoje sou eu, os canais de TV aberta e a enfermeira Carmem que se lembra de me dar comida de vez em quando. Apesar de que às vezes o purê de batata é tão insosso que eu fico torcendo para ela esquecer que eu devia almoçar.
- Entendi. Se quiser, eu posso fazer um contrabando do seu lanche favorito.
riu, levando a mão até o peito, que doía um pouco.
- , o que você realmente veio fazer aqui?
- A Mariana me contou que você estava internada e eu decidi fazer uma visita. Na verdade, eu queria ter uma chance de falar com você sobre o que aconteceu entre nós.
- Sinceramente, eu já te perdoei. Você foi bem babaca e não me deu nem tempo de explicar o que estava acontecendo e eu também não tinha coragem de admitir a doença. Não queria nem admitir para mim mesma que poderia estar morrendo. Mas é isso, sabe? E já passou. Pode seguir sua vida em paz, eu não guardo rancor algum disso. Está tudo bem, . De verdade. E se você veio aqui para discutir de novo, eu peço que tenha o mínimo de consideração e desista.
- Não, eu não quero mais brigar. Eu cansei de brigar. Eu vim para pedir perdão por tudo que eu te disse. Fui um inseguro idiota e caí nos deboches dos meus amigos sobre você estar me traindo. Sei que não mereço que você me desculpe, mas ao mesmo tempo sei que é uma pessoa muito melhor que eu e compreensível, coisa que eu não fui. Eu sinto muito por não ter acreditado em você, sinto muito por ser tão inseguro e deixar isso falar mais alto do que tudo que a gente tinha. Você é importante demais para mim e eu não quero perder isso por uma burrice. Eu te amo, . Sinto muito por tudo que eu fiz. Não tem desculpa, não tem justificativa, apenas a certeza de que eu posso e vou ser muito melhor que isso.
- Sabe que eu devia mandar você ir se foder e dizer para você sair daqui agora, não é?
- Sei.
- Sabe que você é um idiota gigantesco por jogar fora um mulherão da porra que nem eu?
- Sim, o maior imbecil da história da humanidade. E me arrependo amargamente de tudo isso. Só quero uma chance para tentar consertar.
- Sabe que eu te amo, não sabe? A última coisa que eu queria no mundo era ficar sem você – ela disse, sentindo uma lágrima escorrer pela face.
- A única coisa que eu quero é ficar do seu lado e te provar que eu posso ser aquele que vai te apoiar, seja nas coisas boas ou em momentos como esse.
sorriu, estendendo a mão para que ele segurasse.
- Sabe que eu tenho pouco mais da metade do cabelo que tinha e estou toda inchada e vermelha parecendo um tomate podre, não é?
Ele riu, beijando sua mão com toda a delicadeza que podia utilizar.
- Está maravilhosa como sempre. Nós somos para a saúde e para a doença. Você até cuidou de mim quando fiquei gripado.
- E você é ridiculamente falso e mentiroso. Mas eu tenho certeza de que posso aguentar essa falsidade se você ficar dizendo a cada dez minutos como eu sou linda. E quero chocolate. São as condições para você ficar. Quer dizer, se quiser ficar.
- É tudo o que eu mais quero – disse com o semblante iluminado e saiu correndo para comprar chocolates, deixando para trás uma sorrindo por cima de toda a dor, sabendo que eles eram mesmo para a saúde e para a doença, para a alegria e para a tristeza e nem precisaram de um padre para isso.




Fim



Nota da autora: Mais um ficstape entregue com emoção!O Galvão já estava gritando "ACABOU! ACABOU!"
Ficou curtinho, mas foi feita com muito carinho sobre essa música que eu acho tão maravilhosinha.
Se você gostou, deixa seu comentário aí embaixo me lembrando que tu passou por aqui. E se quiser saber mais sobre as minhas histórias, esse é o link do grupo.







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