Postada: 25/10/2017


Capítulo Único

“O que você está fazendo (com) meu amor?”.


02 de março de 2017.

Quase duas da manhã, era a hora que o relógio que ficava em cima do criado mudo, no lado esquerdo da grande cama de casal no quarto principal da casa, marcava.
encarou os números por alguns segundos, sentindo-se preocupada com o homem que já deveria ter chegado em casa há pelo menos cinco horas. Ela estava com as costas na cabeceira da cama, as pernas dobradas, os braços abraçando suas pernas e o queixo repousado em seus joelhos. Seus cabelos estavam soltos por cima de seus ombros que estavam tensos de preocupação.
não era de chegar tão tarde em casa, principalmente em um domingo, sabendo que na manhã seguinte tanto ele quanto tinham trabalho e acordavam cedo.
E ele, mais do que ninguém, sabia que ela só conseguia dormir quando o tinha deitado ao seu lado a abraçando. sabia disso desde que pediu em namoro e foram morar juntos, menos de três anos depois que se viram pela primeira vez. Ele sabia que ela precisava dele para dormir em paz. E sabia e entendia que precisava de um tempo sozinho com seus amigos, por isso não o impediu de sair para uma reunião de amigos que aconteceria na casa de na tarde daquele domingo.
E apesar de estar nervosa de tão preocupada, se recusava a pensar que algo grave havia acontecido com o homem que estava em sua vida há quase oito anos. Seria doloroso e ainda mais desesperador pensar que tinha sofrido algo grave. Era melhor pensar que ele estava bem e com seus amigos. Era mais seguro pensar que seu celular estava desligado porque a bateria havia acabado e ele, distraído do jeito que é, não percebeu. Era melhor pensar que logo estaria em casa e quando se vissem no dia seguinte ele teria historias engraçadas para contar à , de coisas que aconteceram na casa de .
Para o próprio bem de , era melhor pensar que estava são e salvo.

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resolveu se deitar e tentar dormir às duas e meia da manhã. Ela precisaria estar acordada às seis e meia para se arrumar para o trabalho, teria uma reunião importante com seu chefe e um possível cliente para a empresa do ramo de segurança em que trabalhava há pouco mais de cinco anos e não poderia estar com um péssimo humor por ter dormido tão pouco a noite. Então se não podia ter oito horas de sono, que tivesse quatro horas.
A garota olhou a tela do celular mais uma vez antes de colocá-lo debaixo de seu travesseiro e suspirar por não ver nenhuma mensagem de , ou qualquer outro amigo do garoto que estivesse no bendito encontro. fechou os olhos enquanto puxava o travesseiro, que usaria se estivesse ali, para perto de seu corpo e respirou fundo se convencendo a não pensar em nada.
estava bem.

Estava tudo bem.

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Apesar de ter o sono pesado, naquela noite estava tendo um sono bem leve e talvez tenha sido por isso que não demorou a acordar quando escutou passos pelo quarto e a voz de murmurar alguma reclamação. Ele, bem provavelmente, deveria ter batido o dedinho de seu pé no pé do criado mudo. De novo.
Ele estava em casa então.
E a preocupação dele em não acender a luz do quarto para não acordar a garota que fingia ainda estar adormecida junto com sua chegada foram o suficiente para acalmar o coração e a alma de , que agradeceu aos céus por ter a pessoa que ela mais amava no mundo, depois de seu pai e sua mãe, por perto de novo.
ouviu o barulho da água do chuveiro, da porta do guarda roupa e o suspiro que soltou quando se deitou ao seu lado na cama de casal que era tão mais confortável com a presença dele.
E então ela aguardou. Esperou pelo momento em que ele a abraçasse e o mundo voltasse a girar de novo. esperou por pouco tempo porque a abraçou assim que se virou de frente para ela, que estava de costas para ele.
Ela sorriu, não fazendo nenhum movimento brusco que entregasse estar acordada. E naquele momento soube que poderia dormir tranquila porque não estava mais sozinha. tinha seu ao seu lado, então estava tudo bem.
Porém também sabia que o perfume que emanava do corpo de , junto da fragrância do sabonete que tinha no boxe do banheiro, não era de nenhum perfume que um dos dois tinham em suas coisas. Era doce demais para ser de um dos dois. Ambos odiavam cheiros doces e enjoativos como aquele.
sabia também que aquele era um perfume feminino. E estava forte demais para ter sido passado para apenas por um abraço ou toque rápido.
Ela sabia que para passar o perfume de um corpo para o de outra pessoa eram necessários alguns toques a mais.

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02 de junho de 2017.


odiava como observar os gestos, as atitudes e a fala de tinha ganhado um novo significado há três meses. Ela odiava como passou a observar mais atentamente o garoto e tudo que ele fazia quando estavam juntos. E odiava, mais do que tudo, ainda não ter acreditado em quando meses atrás ele lhe disse que tinha chegado em casa tão tarde porque não sabia a hora de parar de jogar e de beber.
Ela não acreditou no motivo que ele deu para justificar a sua chegada às quase três horas da manhã na madrugada de um domingo para segunda feira. E odiou quando não tocou no assunto do perfume feminino que ficou no corpo do garoto por tempo demais. Ou talvez tenha ficado na mente, no coração e no nariz de por tempo demais.
odiava ter chegado naquele ponto em seu relacionamento. Odiava não poder mais confiar em e desconfiar de tudo que ele falava ou fazia. Odiava como ele agia como se nada estivesse acontecendo. Odiava vê-lo olhando e sorrindo para ela como se ela ainda fosse a única mulher em sua vida. Odiava quando ele pegava em sua mão, lhe contava como havia sido seu dia e lhe perguntava sobre o seu. Odiava como ele ainda parecia se importar com ela.
Mas acima do ódio sentia dor.
Doía observar o olhar de em busca de alguma confissão. Doía o ouvir falando como havia sido seu dia na esperança de ouvir algum deslize e tê-lo falando abertamente que ela não era mais a única mulher de sua vida. Doía ter que apertar a mão de na tentativa de segurá-lo mais algum tempo ao seu lado. Doía não acreditar quando ele falava que chegaria mais tarde em casa porque estava indo encontrar seus amigos depois do trabalho, ou quando ele dizia que estava saindo de casa para um encontro com os garotos.
E doía mais do tudo ainda amá-lo grandemente. Porque mesmo sabendo que não era mais totalmente seu, o amava. E isso era o que mais doía: Saber que seu amor pelo homem não foi o suficiente para mantê-lo apenas para si. Doía muito saber que o seu amor tão puro e sincero não era o bastante para ele que um dia lhe jurou amor eterno.
- Quer um babador? – tomou um leve susto quando sentou ao seu lado, lhe fazendo aquela pergunta enquanto ria. – É sério, você precisa disfarçar um pouco desse amor todo. Você baba por ele, .
sorriu sem graça, se sentindo verdadeiramente envergonhada por ter sido pega no flagra encarando o homem que naquele momento ria de alguma coisa junto com , , e no outro lado da sala. Ela e tinham ido até ali para uma pequena reunião que teria na casa de e , o que era de costume do grupo de amigos que sempre se reuniam aos sábados na casa do casal que não se importava em ter a casa bagunçada pelas pessoas mais barulhentas que já conhecera na vida.
- Vou tentar disfarçar da próxima vez. – respondeu sua melhor amiga de infância, que riu e bebeu um gole do refrigerante que tinha no copo que segurava. – Mas não é como se você também não ficasse babando pelo .
- Ops. – estalou a língua no céu da boca enquanto erguia os braços em sinal de rendição.
- Para de olhar pra ele e olha pra mim! – deu um tapa na perna da garota ao seu lado e riu quando soltou uma risada alta.
- Está com ciúmes, meu amor? É? Vem cá, em minha vida ainda tem espaço pra você, minha .
deixou o seu copo com refrigerante em cima do vidro da mesa de centro e abraçou antes que ela conseguisse ter alguma reação de se afastar.
- Ei! – ria enquanto era abraçada de um jeito agressivo, mas fofo. – , eu preciso respirar! – Mas não se importava com a necessidade que a amiga tinha de respirar. A menina continuava jogada em cima de e rindo enquanto as duas estavam deitadas de lado em cima do sofá que era de dois lugares e parecia ainda menor naquele momento. – ! Ai!
- Não adianta chamar por ele. Não vou te largar tão cedo. Acho que vou até dormir um pouco aqui. – tentou se virar para ficar totalmente deitada em cima de com a barriga para cima. – Ai, ai. Ei, fica quieta.
- Sai! – pediu mais uma vez. E mais uma vez foi ignorada. – ! Ajuda-me!
que estava de olhos fechados enquanto ficava deitada com a barriga para cima em cima corpo de , não viu quando seu namorado chegou em frente ao sofá onde as duas estavam. Ela não viu, mas sentiu.
- Amor, deixa a . Desse jeito ela vai ficar com falta de ar. Seu cabelo está no rosto dela, . – Ele pediu usando um tom de voz que só ouvia sair de quando ele se referia a .
- Tira ela de cima. – empurrou o corpo da amiga que se fazia de mole para dificultar ainda mais o trabalho da garota que estava embaixo de si.
- Estou muito bem aqui, obrigada. – os respondeu, não dando a mínima para o pedido de seu namorado ou a tentativa de sua melhor amiga. – , fica quieta.
- , deixa a . Vem, vamos buscar um pedaço daquela torta gelada de chocolate que você queria e eu comprei hoje de manhã.
- Não. Eu te pedi mais cedo e você disse que era pra mais tarde e mimimi. Sai daqui, . – Ela respondeu o garoto enquanto gesticulava com sua mão para que ele fosse embora.
- Você negou um pedaço de torta gelada de chocolate?! Como pôde? – questionou o garoto, incrédula com tamanha crueldade de sua parte. – Isso não se faz, .
- Exatamente! – em um pulo saiu de cima de e ficou em pé em frente ao sofá que antes ocupava com a garota. – E bem feito que a sua consciência tenha ficado pesada, só por isso agora eu vou comer aquela torta inteira. – Ela informou apontando o dedo para que a encarava como se estivesse lhe dizendo uma declaração de amor e não agindo de forma birrenta. – Tchau.
E foi. Ela realmente deixou e sozinhos enquanto caminhava em direção à cozinha da casa sem ao menos olhar pra trás.
- Boa sorte. – desejou ao garoto assim que se sentou no sofá e sentiu algumas partes de seu corpo lhe agradecer por ter saído da posição desconfortável que estava.
- Obrigado. – agradeceu e riu junto de antes de seguir o caminho que havia feito até a cozinha.
e deixaram sozinha sentada no sofá da casa em que moravam, sem que antes soubesse o verdadeiro motivo pelo qual ela encarava tão atentamente minutos antes. foi atrás da tal torta gelada sem saber que, naquele momento e desde alguns poucos meses atrás, sentia um pouco de inveja do relacionamento que sua melhor amiga tinha com um dos melhores amigos de .
e tinham se conhecido assim que entrou na vida de , mas só começaram um relacionamento quase três anos depois. Isso tinha a ver com o muro de bloqueio que havia construído em volta de seus sentimentos depois de um ex-namorado babaca que fora completamente esquecido quando começou a lhe mostrar que poderia ser diferente do imbecil de seu passado. Ele mostrou à que o amor ainda valia a pena e que não era certo desistir dele por causa de uma pessoa. fazia um bem danado para a melhor amiga de . E o agradecia por isso toda vez que via o casal junto ou quando escutava sua melhor amiga lhe contando alguma coisa sobre o garoto ou sobre algo que ele tenha lhe feito.
rezava para que o relacionamento de e não chegasse ao ponto em que o seu e de chegou. Ela não sabia se a amiga aguentaria ser traída, mas ela sabia o que faria caso fosse. sabia que jamais esperaria tanto tempo para perguntar à que perfume era aquele que estava em seu corpo quando ele chegou de madrugada em casa. provavelmente brigaria com ele até que estivesse lhe confessando a verdade. Então a garota gritaria, bateria nele e lhe expulsaria de sua vida em menos de dez minutos após saber a verdade. sabia que jamais esperaria por uma pista clara e transparente da traição de .
Mas esperava. Ela esperava que fosse honesto com ela em algum momento. Por isso ficava nervosa sempre que ele a chamava para conversar com um tom sério. Porém na maioria das vezes só queria lhe assustar e lhe perguntar o que ou onde iriam comer. Ele gostava de assustar . E ela também gostava quando ele lhe assustava e tudo terminava em alguns beijos, pedidos de desculpas manhosos da parte do garoto e algumas vantagens que ela conseguia dele que sempre se arrependia.
gostava. Hoje em dia, ela odeia.

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02 de setembro de 2017.

estava quase chorando dentro do elevador do prédio em que morava. O dia havia sido estressante e cansativo. Quase discutiu com seu chefe e, pra completar, estava chovendo. E ela não gostava quando chovia e não podia ficar em casa ouvindo a chuva cair enquanto assistia a um filme qualquer deitada no sofá da sala de sua casa, encolhida debaixo de uma coberta. detestava quando chovia e não podia aproveitar o dia preguiçoso que o tempo fechado pedia. Era realmente triste não poder sentir o cheiro de terra molhada com calma.
Quando as portas do elevador se abriram, mostrando a porta da casa de bem na sua frente, ela soltou um suspiro que parecia ter tirado metade do peso que sentia em cima de seu corpo. Mas aliviada mesmo iria se sentir depois que tomasse um banho morno, colocasse uma roupa larga e se deitasse na cama, acabando por dormir sem ter hora para levantar. Afinal, amanhã seria sábado e depois da semana cansativa que enfrentou se recusava a acordar cedo no dia seguinte. Mesmo que lhe acordasse às oito horas da manhã dizendo que precisava lhe contar toda a verdade, iria mandá-lo calar a boca e esperar até a hora que ela acordasse sozinha, afinal, quem esperou todos esses meses pode muito bem esperar mais algumas horas.
Mas soube que demoraria a dormir quando abriu a porta do apartamento e viu sentado em um dos sofás com uma roupa que era social demais pra ele estar usando em casa. Ela fechou a porta atrás de si enquanto olhava incrédula para o homem que se levantou do estofado e caminhou em sua direção com aquele sorriso de lado que mexia com todo o interior de .
Ela odiava o jeito com que seu corpo ainda reagia a ele. Era ridículo.
- Por que está vestido assim? – Perguntou quando ele tirou a bolsa de seu ombro e a segurou.
- Hoje nós vamos jantar.
- , está chovendo. – o avisou enquanto o observava colocar sua bolsa em cima da mesa de vidro e se abaixar para desabotoar as sandálias de saltos que ela usou durante o dia inteiro.
- Eu sei, por isso eu mesmo fiz o jantar. – respondeu quando completou sua tarefa e deu uma batidinha na perna de , indicando que poderia sair de cima dos saltos. – Eu sei que sua semana foi cansativa, eu reparei em você todos os dias... Como sempre faço. Então hoje você não vai se preocupar com nada. Vai relaxar e descansar.
odiava como ainda amava o olhar de . Deveria ser proibido ele lhe trair e continuar olhando para ela como se ainda fosse a coisa mais preciosa do seu mundo. Como se ela ainda fosse o seu porto seguro.
não podia segurar na cintura de usando a força necessária para fazê-la se sentir mole e segura apenas com seu toque. Ele não podia usar aquele tom de voz arrastado e manso. Ele não podia lhe receber em casa com uma calça preta social e uma blusa branca também social. não podia deixá-la descalça assim como ele para jantarem juntos a refeição que ele assumiu ter feito.
Por Deus, ele não podia agir como se nada estivesse acontecendo!

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Como o prometido, não se preocupou com nada naquela noite. Ela apenas relaxou e descansou. Durante todo o jantar a serviu e não deixou que fizesse nada, nem puxar a cadeira da mesa para se sentar antes de começarem a refeição, que estava uma delicia assim como todas as outras que ele já havia feito para ambos. O vinho que escolheu estava tão bom quanto à comida, e a sobremesa com sorvete, também feita pelo homem, estava ainda melhor.
Depois do jantar, foi tomar banho enquanto colocava as louças sujas na lava-louças e guardava o resto das comidas. E foi nesse momento, debaixo do chuveiro, sozinha, que lhe perguntou se sua mente não tinha inventado toda aquela situação que ela insinuava que vivia longe de suas vistas. Será que o perfume que sentiu emanar do corpo dele não era de nenhuma mulher que já conhecia e que o abraçou como comprimento? Será que toda a sua certeza de que estava sendo traída não era algo de sua mente? Afinal, não era possível que ele a traísse e continuasse lhe tratando tão bem. não poderia estar vivendo outro relacionamento com outra mulher e conseguir agir perfeitamente bem com , como se nada estivesse acontecendo. seria mesmo capaz de estar lhe enganando e vivendo sua vida como se isso fosse a coisa mais natural e normal do mundo para ele?
A recepção, o jantar, os toques que lhe deu quando adentrou o banheiro e foi fazê-la companhia debaixo do chuveiro depois de ter ajeitado a cozinha do melhor jeito que pôde, somado a quantidade de vezes que ele sussurrou que a pertencia enquanto ambos estavam molhados e suspirando pesado, fizeram com que implorasse para que toda certeza que tinha sobre a traição de fosse invenção de sua mente. Porque não saberia o que fazer caso descobrisse toda a verdade e soubesse que conseguia sim lhe tratar feito uma rainha na casa deles enquanto também tratava como uma rainha a mulher que ele tinha na rua.
Seria doloroso e decepcionante demais descobrir que sabia descer a um nível tão baixo e jogar tão sujo.

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18 de dezembro de 2017.


estava sentada na cama com as costas encostadas na cabeceira enquanto tinha uma bacia com pipoca em cima de suas pernas que estavam dobradas. Ela ria de uma cena do filme que a fez se perguntar o que era mais idiota: a cena do filme de comédia idiota ou ela que estava rindo da cena, quando adentrou o quarto e foi em direção ao closet.
esperou em silêncio pelo momento que saiu de dentro do lugar onde ficavam as roupas, sapatos e acessórios do casal. Esperou com o coração acelerado e a garganta ficando seca por saber que a movimentação de indicava que ele estava se arrumando para sair de casa.
E isso só poderia significar uma coisa.
- Vai sair? – questionou o homem quando ele saiu do closet e apareceu no quarto, colocando a carteira e o celular no bolso da calça jeans que tinha vestido junto com um casaco de moletom que o deixava, infelizmente, adorável.
- Sim. me ligou. Parece que ele quer fazer alguma surpresa para a , e... Ei, não conta pra ela. – riu quando deixou o segredo escapar e piscou para ele, lhe dando a certeza de que não contaria nada para . – Não demoro. É o tempo de eu conseguir acalmar aquele desesperado.
fez um aceno positivo com a cabeça e recebeu o beijo que deixou em seus lábios.
Já fazia alguns meses que o beijo do homem havia ganhado gosto diferente. Que causava sensações diferentes em .
Ela observou o homem calçar o par de tênis que pegou no closet e respirou fundo algumas vezes. viu sair do quarto com uma pressa que ele não usaria se fosse se encontrar com .
- ! – o gritou saindo de dentro do quarto e parando no corredor. parou onde estava e se virou, dando toda atenção a sua namorada, que sorriu ao que lhe fez um pedido: – Quando voltar traz um sorvete pra mim daquela loja que vende perto da casa do ? Estou com vontade.
- Claro. – Ele a respondeu com um sorriso e sentiu seu coração se apertar como na noite em que sentiu aquele perfume em . – O mesmo sabor?
- Sim, o mesmo sabor. – Ela o respondeu ao que mordeu o interior de suas bochechas.
- Claro, sempre o mesmo sabor.
Ele brincou como sempre fazia quando estavam falando da preferência de sobre sorvetes. Ela sempre pedia sabor chiclete e sempre implicava com o fato da garota não escolher qualquer outro que estava à disposição.
continuou parada olhando caminhar para fora do corredor, mas não permaneceu parada dez segundos após ter escutado o barulho da porta principal do apartamento sendo fechada. Ela voltou para o quarto sentindo seu coração tão acelerado que poderia jurar que o órgão sairia de seu corpo sem a necessidade de uma cirurgia. Sua respiração estava acelerada e lágrimas deixavam sua visão turva quando adentrou o closet e começou a trocar suas peças de roupa.
Ela sabia que independentemente de para onde estivesse indo, ele voltaria para casa com o sorvete que lhe pediu. Então ela precisava ter a certeza de que compraria o sabor correto.
Na verdade, precisava saber se iria fazer a compra sozinho ou acompanhado. E se fosse acompanhado, ela sabia que ele não estaria com .
Afinal, já tinha informado à amiga que não estava em Londres naquele dia e nem estaria pela próxima semana porque ele havia ido para Nova Iorque à trabalho.

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conseguiu estacionar seu carro em um ponto estratégico que encontrou depois que passou em frente a sua loja de sorvete preferida em Londres. Ela estava dentro do veículo que tinha estacionado do outro lado da calçada, sem deixá-lo em evidência para quem chegava ou saia do estabelecimento.
Suas pernas não paravam de balançar, assim como suas mãos não largavam o celular que ela olhava de minuto em minuto a hora na tela do aparelho.
O mundo parecia girar tão devagar durante aqueles quarenta minutos que estava ali, que parecia um castigo ou um aviso divino. Talvez alguém não quisesse que ela descobrisse alguma coisa. Ou talvez estivessem lhe castigando por duvidar do homem que vivia consigo há anos demais para que duvidasse de seus sentimentos.

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Se há trinta minutos o mundo parecia estar girando devagar, naquele momento ele estava parado.
O mundo, com certeza, havia parado enquanto observava adentrar a loja... Acompanhado de uma mulher.
teve que passar suas mãos pelos seus olhos para observar melhor a cena sem que as lágrimas lhe atrapalhasse. Ela precisava ver perfeitamente que segurava a mão da mulher loira à sua frente. Que ele ria junto com ela e que eles tinham praticamente a mesma altura.
precisava ver nitidamente o beijo que deixou nos lábios da mulher antes de adentrar a loja para, provavelmente, comprar o sorvete da idiota da que deveria estar esperando ele chegar em casa depois de ajudar em uma surpresa.

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Talvez não precisasse dirigir tão rápido pelo caminho de volta para casa se tivesse saído de frente da loja antes de .
Mas precisou assistir até o final. Ela precisou ficar lá até o momento em que saiu de dentro da loja com a mulher loira. precisou ver dar mais um beijo nos lábios da outra mulher e abrir a porta de seu carro para a loira que não deixou de sorrir em momento algum.
precisou ficar até o final para ter a certeza de que sabia descer a um nível tão baixo e jogar tão sujo.

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estava sentada no sofá com as pernas dobradas, uma coberta em cima de si e o controle remoto na mão enquanto trocava de canais quando a porta do apartamento foi aberta, exatos vinte minutos depois de sua chegada.
- Hey. – Ela escutou a voz dele e um enjôo lhe subiu a garganta junto com a vontade de chorar. Era decepcionante o jeito que seu corpo correspondia a agora. – Trouxe o seu sorvete. Quase não consegui, esse era o último pote. Você precisa começar a gostar de outros sabores, amor.
Amor.
Ele a chamou de amor.
riu baixo ouvindo o apelido que até poucas horas atrás fazia seu coração acelerar de um jeito bom. E não de um jeito ruim como naquele momento.
- Me desculpe por te dar trabalho, amor.¬ – Ela se desculpou de um jeito tão falso, quando o homem voltou da cozinha e se sentou ao seu lado, que deveria ter percebido. E ele teria percebido meses atrás. Quando era a única que tinha toda atenção de .
- Sem problemas. – Ele riu despreocupado e ela continuou a observá-lo.
Era realmente decepcionante ver como conseguia agir normalmente com depois de ter estado com outra mulher.
Era decepcionante.
Doloroso.
Frustrante.
- Como o está? Conseguiu acalmá-lo? – o perguntou, tendo que pigarrear quando sua voz falhou ao pronunciar o nome do amigo que não tinha nada a ver com a traição de .
- Sim. Você sabe que eu sempre consigo acalmar aquele idiota. – Ele respondeu e olhou para a menina. – Vou tomar banho, já volto.
avisou e se levantou do sofá. Parou em frente à que sentiu uma lágrima escorrer de seus olhos, que estavam fechados, para sua pele segundos após ter recebido um beijo nos lábios de .

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não soube identificar o que viu nos olhos de quando o homem voltou para a sala vinte minutos depois que saiu dali dizendo que iria tomar banho. Ela não sabia descrever se o que viu em sua expressão facial quando enxergou as duas malas de viagens no meio do cômodo foi desespero ou a graça que ele tentou demonstrar em uma piada.
- Outch. Vamos viajar? – Ele perguntou sorrindo enquanto olhava das malas para .
- Não. – Ela o respondeu enquanto deixava o copo de vidro que tinha água dentro em cima da mesa de vidro e caminhava em passos curtos e lentos em direção ao homem, que tirou o sorriso dos lábios e ergueu uma sobrancelha em confusão. – Eu estou indo embora, amor.
- O quê?! – abriu a boca em total surpresa e o odiou ainda mais quando estava próxima o suficiente para sentir o cheiro do perfume doce e enjoativo misturado com o cheiro do sabonete que eles tinham no banheiro. – , me explica isso.
- Eu cansei, .
- Cansou? Do quê? – Ele questionou quase interrompendo a resposta de , que observou cada pequeno detalhe do rosto à sua frente.
- Eu cansei de sentir esse cheiro de perfume doce e enjoativo vindo de você. Cansei de te esperar chegar em casa de madrugada com esse cheiro que me dá ânsia. Cansei de ser fiel sozinha a um sentimento que, aparentemente, só eu sinto. Eu cansei de amar sozinha, . Cansei de ser feita de idiota. – abriu os braços ao que terminou de falar nem a metade das coisas que tinha guardado dentro de si.
- Do que você está falando?! – a perguntou enquanto dava alguns passos na direção dela, que havia se afastado enquanto jogava tudo aquilo em cima dele. – Amar sozinha? Eu te-
- Não! Não se atreva! – o interrompeu erguendo um dedo na direção do rosto do homem que se calou ao ouvir a voz dela soar tão alta. – Não se atreva a dizer que me ama, . Não se atreva a continuar mentindo.
- Eu não minto pra você! – Ele a respondeu e sorriu.
- Então me diz, ... Responde-me... – mordeu seu próprio lábio inferior enquanto fechava seus olhos e respirava fundo pedindo forças aos céus para não chorar na frente de . Ele não merecia ver suas lágrimas. Ele não merecia ver a sua dor. – De onde você veio? Pra onde você foi quando saiu daqui de casa? Me responde, . – Ela pediu enquanto abria seus olhos para encarar a cor pálida que tinha em seu rosto naquele momento. – Como você estava com se ele foi para Nova Iorque à trabalho?
- -
- Em menos de quatro horas você foi até Nova Iorque e voltou? – o questionou interrompendo qualquer coisa que ele fosse lhe dizer. – Eu quero a verdade, . Eu já sei a verdade, mas preciso que você me diga. Vamos, . Diga-me a verdade!
gritou e ele deu alguns passos para trás.
observou enquanto alternava seu olhar entre a mulher e as malas que naquele momento o incomodavam mais do que nas vezes em que teve que carregá-las sozinho para o carro quando ambos iriam fazer alguma viagem e exagerava na bagagem.
- Eu preciso que você me escute. – Ele afirmou em um tom de voz tão baixo que ficou realmente em duvida se ele estava com vergonha de si mesmo ou se iria começar a chorar na sua frente.
- Eu quis te escutar, . Durante meses eu quis te escutar. – confessou o deixando entender que ela não iria ouvi-lo. – Durante meses eu quis que você me contasse para onde sua mente vai quando você fica quieto. Eu quis que você me chamasse para conversar e me contasse tudo que estava acontecendo. Mas você não me chamou. E eu tive que durante meses, sentir o gosto da desonestidade em seu beijo. Em seus toques, seu olhar e em seu cheiro.
- -
- Durante meses eu desconfiei das suas atitudes. De todas elas. Eu comecei a ver um motivo obscuro por detrás de cada uma delas, . – o interrompeu e se sentiu ainda mais fraca quando suas lágrimas molharam seu rosto antes mesmo que conseguisse impedi-las de cair. – Você mudou. Ficou tão diferente... Tão irreconhecível para mim. E nada... – suspirou enquanto olhava diretamente para o homem à sua frente que tinha aquela expressão facial que conhecia e tinha visto poucas vezes... estava quase chorando. – Nada nunca doeu mais que o sorriso em seu rosto... Quando ele ficou apenas em minha memória. Você foi para a minha memória mesmo morando comigo, . Você mudou tanto... Que eu não te via mais na minha frente. Você se tornou uma nova pessoa bem diante dos meus olhos. E doeu não gostar dessa nova pessoa. Doeu não ser verdadeira e inteiramente feliz com essa nova pessoa como o antigo você me prometeu que seriamos.
- Me desculpa.
- Eu quis que você me contasse. Eu quis não precisar te testar. Eu quis não te seguir. Eu quis tanto que você me contasse! – continuou a falar, ignorando totalmente o pedido do homem que tinha o rosto molhado por algumas lágrimas. O choro de não doía tanto em quanto deveria. Afinal, aquele não era o que ela amava. Era o que tinha pegado nojo. – Mesmo cansada de tudo isso... Eu quis escutar de você. Eu mantive meus ouvidos atentos. Por vezes eu fingi estar dormindo e rezei para te pegar sussurrando... Rezei para que você me flagrasse escutando. , eu rezei para que você me contasse a verdade e que eu não precisasse vê-la com os meus olhos! Porque doeria bem menos. Eu confiei que você fosse me contar. E eu esperei, mas... - passou a manga de seu casaco em seu rosto, secando sua pele. – podemos perceber que todo e qualquer esforço que eu tenha feito foi em vão.
- Amor. , ei. Me escuta. Olha pra mim. Por favor.
começou a chamar, a implorar pela atenção de que o ignorava enquanto segurava as alças de suas duas malas e caminhava em direção à porta do apartamento.
Ela precisava sair dali. Precisava sair de dentro daquele imóvel e da presença de . precisava respirar ar puro e não aquele pesado que estava ali dentro. Ela precisava se sentir leve novamente e não continuar com a sensação de peso que tomava todo o seu corpo, coração e mente.
- , eu terminei com ela! – Ele gritou desesperado ao que conseguiu segurar um dos braços da mulher e puxá-la, fazendo com que parasse e se virasse para olhá-lo. – Dentro do carro! Antes de vir pra casa! Eu juro por Deus que terminei com ela!
encarou o rosto do homem e sorriu devagar.
A mão de se afrouxou no braço de , a liberando de seu toque que queimou a pele dela, que se sentiu aliviada quando deixou de senti-lo.
virou seu rosto para a porta que estava a poucos centímetros de distância e respirou fundo antes de voltar a andar.
tinha mudado e sabia que não poderia e nem conseguiria viver ao lado de um estranho. E, principalmente, jamais conseguiria amar aquele homem que ficou em seu campo de visão quando ela atravessou a porta e parou no corredor do prédio, olhando para dentro do lugar onde morou por tantos anos.
- Tudo bem, eu acredito em você. Eu acredito que você tenha terminado com ela. – Ela o respondeu depois de minutos e viu quando uma ponta de esperança surgiu no rosto de . – Mas eu terminei com você.
jogou a cópia da chave do apartamento que tinha em seu chaveiro antes de fechar a porta.
Ela não precisaria mais daquela chave.
Aquela chave, aquele apartamento e aquele homem que ficou dentro dele não tinham mais espaço em sua vida.


Fim.



Nota da autora: Mais um ficstape pra lista, rá! Espero que tenham gostado! X



Outras Fanfics:
Cause You’re the Only One – One Direction/Em andamento
Meeting – Cause You’re the Only One – One Direction/Finalizada
12. The End – Little Mix – Ficstape/Finalizada
02. Sign of the Times – Harry Styles – Ficstape/Finalizada
She Was Pretty – Dorama/Finalizada

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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