Capítulo Único


I dive into the future
But I'm blinded by the sun
I'm reborn in every moment
So who knows what I'll become?



Tamborilei meus dedos impacientemente na mesa da Drª Montgomery enquanto minha mãe, ao meu lado, tentava se manter imóvel e impassível. Eu sabia que ela estava tentando, através da linguagem corporal, me passar o máximo de consolo possível. Por isso, me senti bastante grata, mas ao mesmo tempo agoniada por ela parecer tão calma num momento tão crítico como esse. Ela só está tentando ajudar.
Respirei fundo, me afastando da mesa da Drª e me recostando no encosto da cadeira. Passei minhas mãos por meus cabelos e senti o pinicar dos primeiros fios crespos e irregulares nascendo novamente. Precisava me manter calma. Vai dar tudo certo. Precisa dar tudo certo. Eu mereço que dê tudo certo. Mentalizei repetidamente tentando me tranquilizar enquanto o momento decisivo não chegava.
- A Drª Montgomery já está vindo atender vocês. - Escutei a voz de Bonnie, minha enfermeira favorita, ecoar atrás de mim abrindo a porta do consultório. Arrisquei um olhar para trás, sentindo meu pescoço duro e meu maxilar contraído de tensão, dando de cara com um sorriso ansioso e esperançoso vindo de Bonnie - Boa sorte! - Ela concluiu baixinho alargando o sorriso, me mostrando que estava torcendo por mim. Sem dizer mais nada, fechou a porta atrás de si e nos deixou sozinhas no consultório novamente.
Talvez fosse obra da minha imaginação fértil, mas eu já conseguia ouvir o barulho do salto da Drª Montgomery vindo de encontro ao chão de pedra, aproximando-se cada vez mais da sua sala. Cada pisada dela correspondia a uma batida do meu coração, que estava começando a ficar frenético novamente. Mentalize coisas boas.
Mas, naquele momento, não conseguia mentalizar outra coisa que não fosse meu último ano. Sem que eu pudesse me dar conta, um filmezinho foi passando por minha cabeça e de repente, me tornei espectadora da minha própria vida, relembrando todos os acontecimentos que me levaram até ali, aquele consultório gelado, esperando pelo resultado que definiria o resto da minha vida a partir de agora. Eu conseguia me lembrar claramente como tudo havia começado….

I feel like I've awakened lately

Os sintomas

- Finalmente posso dizer: FÉRIASSSSS!!! - Louise berrou animadamente ao meu lado enquanto andávamos pelo pátio do colégio apinhado de estudantes com sorrisos frenéticos e empolgados.
- Parece inacreditável que eu nunca mais vou pisar os pés nesse gramado como estudante novamente - Falei num tom nostálgico, percorrendo o olhar pelo perímetro da minha tão amada escola, que havia sido minha segunda casa por tantos anos. Ao meu lado, Louise deu um sorrisinho imitando meu gesto, olhando carinhosamente para nosso colégio.
- Vou sentir saudades, vivemos coisas incríveis aqui. Mas, pense pelo lado positivo: Agora seremos universitárias!!! Ah, eu mal posso esperar! Já recebi cartas de aprovação da… - Ela foi tagarelando animadamente sobre as faculdades que já haviam mandado cartas de aprovação quando dois garotos se materializaram na nossa frente, os sorrisos de orelha a orelha.
- Oi, gatinhas! - Disseram em uníssono, Jack e Ryan, aproximando-se para nos abraçar. Jack deu um selinho de leve nos meus lábios e Ryan beijou Louise animadamente, retirando os pés dela do chão, elevando a minha amiga aos gritinhos, chamando atenção de vários estudantes ao redor.
- E então, vamos comemorar? A Alisha está fazendo a maior propaganda pela escola inteira de uma festa na casa dela! - Louise deu pulinhos animadamente ainda abraçada a Ryan, que olhou meio receoso para Jack ao meu lado. Captei o olhar, mas fingi não perceber, não queria causar uma cena.
- Não sei, Lou, não estou me sentindo muito bem para festas hoje. - Respondi sinceramente. Me sentia absurdamente cansada pelos esforços da última semana de provas. Provavelmente devia ter exagerado nas noites viradas a base de café, mas meu corpo inteiro estava dolorido e eu me sentia imensamente fadigada.
- O que foi isso? - Jack apontou para uma mancha roxa no meu braço, uma que eu não havia me dado conta da existência e jurava que não estava ali até uns dias atrás. - Dói?
- Não sei… Devo ter batido em algum lugar, você sabe como sou desastrada. - Dei de ombros despreocupadamente, recebendo um olhar fuzilante de Louise em resposta. - O que foi?
- Você já pensou que essa será nossa última festa da escola? É importante! Você pode descansar depois! - Ela insistiu batendo o pé no chão e fazendo birra igualzinho uma criança de cinco anos. Revirei os olhos cansada, sentindo -100% de disposição em ir aquela festa. Porém, não queria discutir com Louise. E parte de mim não se sentia nem um pouco confortável em deixar o Jack ir sozinho naquela festa, já que eu tinha certeza que ele não deixaria de ir por minha casa, nem que eu estivesse mesmo doente.
- Vai… Tudo bem, eu vou. - Respondi resignada, sentindo um peso imenso na garganta ao perceber mais um olhar suspeito entre Jack e Ryan. Aquilo não estava me cheirando nada bem…

***


O som estava tão alto que precisávamos gritar no ouvido uns dos outros para conseguirmos ser ouvidos. Alisha havia caprichado dessa vez. Ela já tinha a fama de maior baladeira e melhor anfitriã de festas de todo o colégio, mas, dessa vez, ela se superou. Seus pais estavam viajando mais uma vez e eu definitivamente não iria querer estar no lugar dela quando eles voltassem. Parecia que todo estoque de bebida do mundo estava disponível naquela casa.
Já se passavam das 23h e boa parte da festa já se encontrava alcoolizada. Não tive ânimo para beber. Me sentia nauseada só de pensar em colocar uma gota de vodka na boca. Precisava dormir, descansar do final do semestre. De repente, minha cama quentinha e confortável parecia me chamar há quilômetros de distância. Mas, mantive meu melhor sorriso ao caminhar na cola de Jack, Ryan e Louise durante a noite.
- Vou ao banheiro rapidinho, já volto. Me espera aqui. - Jack me disse, virando-se sem me dar tempo de responder, se esgueirando por entre as pessoas com Ryan em sua cola, rumando para o primeiro andar da casa.
- Louise, eu acho que o Jack está me traindo. - Eu disse de repente, observando os meninos sumirem de vista pela escada. Louise me encarou assustada de repente, gaguejando um pouco ao me responder:
- C-como v-você sabe? Digo, por que você acha isso? - Ela me perguntou nervosamente e eu me senti hiperventilando de repente. Não era possível…
- Há quanto tempo você sabe? - Perguntei sentindo minhas narinas inflarem. Louise nunca foi boa mentirosa, então eu consegui deduzir rapidamente que ela já sabia de tudo pelo jeito como havia ficado nervosa. Não era possível que ela estivesse me enganando também.
- … Eu… me desculpe, o Ryan pediu… - Ela gaguejou debilmente e eu senti que não conseguiria aguentar mais uma palavra dela. Pelo menos, não sem lhe dar um belo tapa na cara. Que bela melhor amiga que eu fui arrumar!
Enfurecida, subi os degraus em direção ao primeiro andar da casa de Alisha, me desviando de algumas pessoas bêbadas e casais se agarrando em pleno corredor. Meu coração palpitava dolorosamente contra o peito, eu sentia como se fosse desmaiar a qualquer segundo, tamanho era meu nervosismo. Eu precisava ver, eu precisava saber. Há dias aquela desconfiança vinha crescendo dentro de mim, sabia que Louise havia confirmado mesmo sem querer, mas precisava ver com meus próprios olhos.
- .. O que você tá fazendo aqui? O Jack… - Ryan, que estava na porta do quarto de Alisha feito um cão de guarda, tentou me ludibriar no instante em que me viu, pálido feito papel.
- Sai da minha frente ou eu soco você. - Resmunguei entre dentes e o punho cerrado. Ele ficou desnorteado por alguns segundos, mas, pensando melhor, eu estava enfurecida, ele não se atreveria a ficar na minha frente.
No entanto, quando abri a porta do quarto de Alisha desejei nunca ter feito isso. Não havia anestesia que me preparasse para dor daquele momento. Ver meu namorado de tantos anos, o meu melhor amigo, meu companheiro em uma situação daquelas partiu o meu coração em trezentos pedaços. Eu soube naquele instante que jamais esqueceria aquela cena. Jack estava sentado na cama de Alisha e a própria, em carne e osso, estava agachada em frente a ele, abocanhando o seu membro com uma volúpia que eu nunca tinha visto antes.
- Nossa… Então é aqui o banheiro? - Arfei no instante em que eles deram por conta da minha presença. Jack ficou tão assustado que deu um pulo na cama, fazendo com que Alisha por reflexo, se engasgasse e mordesse seu membro com força. Jack deu um urro de dor e ela cuspiu e tossiu algumas vezes, engasgada e chocada por ter sido pega no flagra.
Antes que qualquer um deles pudesse dizer alguma coisa ou vir até mim, saí correndo porta afora, sem me importar em esbarrar em algumas pessoas. Senti a mão de Ryan se fechar no meu pulso, tentando me segurar, mas, antes que eu pudesse refrear o pensamento, meu punho já tinha ido de encontro com o rosto dele. Num “creck” pude constatar com felicidade que havia pelo menos quebrado o seu nariz.
Sem dar mais chance dele dizer alguma coisa, e ignorando deliberadamente alguns gritos atrás de mim, corri em direção à porta da casa de Alisha, sentindo meus pés pesarem e minha cabeça explodir com as cenas que tinha acabado de presenciar. Louise e Ryan mentindo para mim. Jack me traindo, Alisha me enganando… Tudo estava perdido.
Minha visão foi ficando turva à medida que eu corria desesperadamente tentando chegar à porta da casa. As lágrimas já queimavam meus olhos e minhas mãos tremiam. De repente, andar parecia um esforço gigantesco, quanto mais correr. Fui perdendo o movimento das minhas pernas, minha cabeça rodava, meu corpo pesava toneladas, minha fadiga parecia ter me atingido por completo, física e mentalmente. A festa pareceu rodar, o ar se tornou rarefeito e a última coisa que lembro antes de cair desmaiada do chão, foi de ouvir o grito desesperado de Louise e os olhos esbugalhados de Jack me encarando.

I'll walk through the fire, I'll begin again

O diagnóstico



O bip bip me incomodou tanto quanto o forte cheiro de éter, me fazendo piscar algumas vezes, embora ainda me sentisse extremamente sonolenta. Meu corpo parecia pesar toneladas e apesar de estar quente e confortável sob cobertores e travesseiros, meu corpo inteiro doía. Minhas juntas pareciam desgastadas há anos, como correntes de bicicletas que não veem óleo e graxa há meses.
Resmunguei, sentindo um gosto amargo na minha boca e me revirei algumas vezes na cama do hospital, abrindo os olhos com dificuldade e mirando o lugar cirurgicamente limpo e bem iluminado ao meu redor. Ao meu lado, minha mãe me encarava com os olhos arregalados, eles estavam vermelhos e injetados, como se ela tivesse passado horas caindo no choro. Preocupei-me ao encarar o semblante tão derrotado de minha mãe.
- Mãe, o que foi? - Perguntei com uma voz rouca, fazendo um esforço enorme para me endireitar na cama. Senti uma agulha pinicando minha mão e só então percebi que estava conectada ao soro.
- Está tudo bem, filha, a Drª Montgomery virá num instante. - Ela respondeu com uma voz baixinha e entrecortada. Franzi o cenho, não entendendo absolutamente nada.
- Quem é Drª Montgomery? O que eu tô fazendo aqui? - Perguntei, dando-me conta de que a última coisa que eu me recordava era de ter desmaiado na fatídica festa de Alisha. Só a recordação foi o suficiente para fazer meus olhos ficarem rasos de lágrimas. Como eu iria explicar aquilo para minha mãe?
Antes que ela pudesse responder ou que eu mesma pudesse dar com a língua nos dentes e sair contando todos os detalhes daquela festa maldita, no entanto, a porta do quarto foi aberta e uma senhora elegante com feições meigas adentrou no ambiente, trajando um jaleco alvíssimo e carregando uma prancheta nas mãos, prancheta a qual julguei ser meu prontuário. Aquela deveria ser a Drª Montgomery.
- Oh, olá, Srtª , bom vê-la acordada. Como está se sentindo? - A Drª Montgomery perguntou gentilmente e eu senti a mão da minha mãe segurar a minha com força. Olhei sem entender muito bem o que aquele gesto queria dizer, principalmente quando a mão da minha mãe estava tão gelada daquele jeito. Alguma coisa não estava indo bem… Senti como se algo áspero estivesse descendo por minha garganta a força.
- Estou cansada, tonta e com dor nos ossos. - Respondi sinceramente, olhando da minha mãe para a médica, tentando captar alguma informação no ar. Porém, ambas continuaram em silêncio - O que aconteceu? Há quanto tempo estou dormindo? Lembro-me de ter desmaiado na festa da… - Mas não consegui concluir. Proferir aquele nome maldito era uma dor imensa para mim. Alisha era uma desgraçada.
- Você nos deu um belo susto. - Drª Montgomery sorriu docemente, mas seu sorriso não atingiu os olhos, era um sorriso comedido. De repente, me senti extremamente desconfortável. Mas o que podia estar acontecendo demais? Eu só desmaiei de exaustão, não foi? Tive um dia cansativo e acabei me estressando com todas as emoções daquela noite. Era isso, nada demais. Por que aquele clima todo de suspense, aquele soro conectado na minha veia e aquelas expressões de velório?
- Tá tudo bem? Quando vou poder sair daqui? - Perguntei um tanto quanto receosa, um pressentimento ruim tomando conta de mim e me fazendo confirmar meus receios ao sentir minha mãe se aproximar ainda mais de mim e apertar minha mão com mais força, enquanto com outra, alisava o meu rosto com sua outra mão trêmula e gelada. O que estava acontecendo?
- Filha, você vai precisar ser forte, ok? Eu estarei aqui o tempo todo. - Ela me disse numa voz falhada que partiu meu coração já tão frágil. Todo aquele clima de suspense estava me deixando aterrorizada. O que poderia ter acontecido de tão grave naquela festa? Será que tinham vazado fotos minhas? Será que alguém abusou de mim enquanto eu dormia? Diversas alternativas mirabolantes surgiam na minha cabeça enquanto eu observava a Drª Montgomery se aproximar do meu leito e tocar o ombro da minha mãe gentilmente. Será que eu estava doente?
- Srtª … Posso te chamar de ? - A Drª pediu meigamente e eu simplesmente assenti, nervosa e impaciente, me empertigando da melhor maneira que podia entre os travesseiros. - Você desmaiou na festa de uma amiga e foi trazida para o hospital. Fizemos alguns exames rotineiros porque o seu desmaio te deixou inconsciente por um tempo. Deixamos-te sedada para que pudesse repousar e enquanto isso os seus resultados saíram, ainda vamos fazer outra bateria de exames para descartar outras opções, mas receamos que…
- O que é que tá acontecendo? O que eu tenho? - Me sentei depressa demais na cama e instantaneamente me arrependi do esforço, sentindo minha vista ficar turva e o peso do mundo inteiro sob minha cabeça de repente. Logo fui amparada por minha mãe, prestativa e atenciosa, que me endireitou na cama, enquanto eu ainda insistia, com a voz um pouco mais falha - O que eu tenho?
A Drª Montgomery suspirou uma última vez e eu senti minha mãe ao meu lado retesar todos os músculos e prender sua respiração. Aquilo não podia ser um bom sinal. Meu coração estava disparado e eu podia sentir aquelas batidas secas na minha garganta, me engolfando de uma maneira sufocante. Aqueles foram os segundos mais longos e torturantes da minha vida. Foi quase um alívio mortal quando a Drª abriu a boca e sentenciou de uma só vez:
- Fizemos um exame de sangue rotineiro para checar como você está “por dentro”. - A Drª foi me explicando da maneira mais didática que podia, percebi e agradeci internamente por isso. Se eu tivesse que ouvir termos médicos, na situação que eu estava, seria capaz de quebrar aquele consultório inteiro. - Mas, antes, percebi algumas alterações na sua pele, algumas manchas roxas e sinais de fadiga, sonolência e dor no corpo, essas informações foram passadas por sua amiga, que lhe acompanhou até aqui, a Louisa.
- Louise. - Corrigi prontamente, sentindo minha bile atingir minha boca, instantaneamente sendo acometida por uma vontade de socar alguma coisa. - E ela não é minha amiga. - Completei ferozmente, embora, no fundo, me sentisse grata por ela ter me acompanhado ao hospital. Era o mínimo que podia fazer, aquela vaca.
- Certo, Louise. - A Drª repetiu pacientemente, dando continuidade ao seu diagnóstico. - Esses sinais físicos podem ser interpretados de diversas formas diferentes, por isso, o exame de sangue poderia nos nortear com mais precisão. Os seus resultados indicaram uma queda considerável nos níveis de plaqueta e hemoglobina e um aumento nos seus glóbulos brancos, que são responsáveis pela defesa do seu organismo. Quando estão em níveis tão elevados podem significar que seu corpo está se preparando contra uma infecção. Esses dados, juntamente com alguns sinais do seu corpo podem ser sintomas de…
- Leucemia. - Completei numa voz rouca, sentindo todo o ar se esvair dos meus pulmões. Eu sabia daqueles sintomas, havíamos estudado sobre “doenças do sangue” na aula de biologia e eu já tinha assistido diversos filmes sobre o tema. Não era possível que isso estivesse acontecendo comigo, não era possível…
- Ainda está cedo para confirmar, vamos realizar outra série de exames e dessa vez fazer uma biópsia, retirando algumas células da medula óssea para analisar melhor antes de concluirmos alguma coisa. - A Drª apressou-se em concluir, mas eu já não estava mais prestando atenção. Minha mãe, ao meu lado, apertava minha mão com tanta força que eu já não sentia mais o sangue circular por ali, mas, ainda assim não me importei. Naquele momento, eu só conseguia ouvir um zunido ao meu redor.
Há dias eu estava feliz, hoje eu estou recebendo a notícia de que estou com câncer.
Dias atrás eu andava com um grupo de pessoas que julgava serem meus amigos, meus melhores amigos. Dias atrás as pessoas me cumprimentavam pelo pátio do colégio, os professores me parabenizavam por minhas ótimas notas. Dias atrás eu roía os dedos de ansiedade esperando aprovações de universidades, dias atrás eu tinha tantas expectativas para minha vida e para minhas tão sonhadas férias de verão.
Dias atrás eu estava planejando uma viagem para um acampamento com meus… amigos. Eu estava cheia de expectativas para perder minha virgindade com meu… namorado. Minha última chance de estar com minha… melhor amiga, antes de nos separarmos durante os anos que se seguiriam na universidade, já que havíamos escolhidos coisas diferentes. Eu estava cheia de ideias mirabolantes para o verão, meu verão dos 17 anos e agora, no entanto, eu não tinha absolutamente perspectiva alguma.
Meus amigos na verdade eram falsos, meu namorado era um traidor e minha melhor amiga era uma mentirosa. Minhas férias por si só já estariam arruinadas por esse fato. Mas, não bastando isso, eu agora estava sentada numa cama de hospital recebendo a notícia de que estava sendo diagnosticada com leucemia, uma doença miserável que eu tinha certeza que me consumiria da cabeça aos pés, uma doença que poderia me consumir a vida. Logo agora que eu estava finalmente ficando bem.
Arrisquei um olhar para minha mãe e não soube o que lhe dizer. Eu sabia que ela estava tentando ser forte por mim, mas no instante em que eu pregasse os olhos ou ela saísse daquele consultório, ela desabaria. Como iria aguentar perder o marido e a filha num período tão curto de tempo? Meu pai tinha nos deixado há um ano, num acidente horrível de carro. Desde então, eu sabia que a vida era muito frágil, só não tinha me dado conta de que seria tão frágil para mim tão cedo.
Tudo estava perdido.

I admit, it's been painful, painful
O tratamento


Era câncer.
Quando o resultado da biópsia finalmente saiu, eu já estava resignada. Minha mãe ainda estava esperançosa e me dizia palavras de conforto e eu apenas tentava suportar para não desanimá-la, mas, no fundo, eu sabia qual seria aquele resultado. Foi por isso que não me surpreendi muito quando a Drª Montgomery adentrou no consultório com panfletos, tagarelando a respeito de alternativas de tratamento.
Iríamos começar com a quimioterapia. Não prestei muita atenção ao que a médica ia dizendo a respeito da perspectiva de sucesso, estava ocupada demais em desfiar ainda mais minha calça rasgada. Quando a médica deixou o consultório, recebi um olhar de desaprovação da minha mãe, mas não fiz questão de sustentar.
- Você podia fazer pelo menos um esforço, filha. - Minha mãe disse calmamente, embora não pudesse esconder 100% o tom de censura em sua voz. Respirei fundo, revirando os olhos o máximo que pude.
- Esforço maior do que perder todos os fios do meu cabelo, vomitar por segundo, ter dor o corpo todo, não poder curtir o verão por conta do sol, perder vários quilos e dar adeus a minha vida social? - Respondi com ferocidade, naquele momento sentindo um ódio crescente por toda aquela situação. - Isso fora o fato de que meus amigos não vão estar por aqui para me ajudar a passar por nada disso porque, novidade: eu não tenho amigos! Meu namorado é um desgraçado que me traiu e meus amigos são uns falsos, eu não tenho ninguém! - Completei sentindo uma infelicidade absurda me acometer. Eu não estava nem um pouco preparada para o que estava para acontecer e estava odiando minha mãe por cobrar tanto de mim naquele momento. Não era justo.
- Você tem a mim. - Minha mãe falou baixinho num tom visivelmente magoado, o que só fez meu ódio crescer ainda mais. Não tinha tempo para lidar com os sentimentos frustrados dela e nem tinha saco para argumentar. - Além do mais, seus amigos já vieram te visitar algumas vezes, você não quis recebê-los.
- Quero que todos vão para o inferno. - Falei com agressividade, antes de deixar o consultório, batendo a porta com força. Estava tão chateada que não olhei por onde andava, logo me esbarrando em uma enfermeira que deixou cair uma papelada no chão.
- Desculpe. - Murmurei constrangida, me abaixando para ajudá-la a recolher a papelada do chão. Logo que voltamos a nos erguer, ela me lançou um olhar curioso e perguntou:
- Você é ? - Ela perguntou me analisando e eu assenti insegura com a cabeça.
- Ah, oi, , eu sou a Bonnie. - Ela me cumprimentou animadamente - Tenho orientação de te levar até a sala de medicação, vamos?
Assenti, de má vontade, sentindo-me extremamente desconfortável e um tanto quanto arrependida de ter sido tão arrogante com minha mãe, segundos atrás. Teria sido bacana ter o apoio dela naquele momento. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Bonnie seguiu andando pelo corredor, forçando-me a ir em seu encalço, enquanto ela tagarelava sem parar.
- Tem alguma coisa que eu possa fazer para deixar você mais confortável? Se tiver, é só chamar. Meu nome é Bonnie, todo mundo aqui me conhece! - Ela foi dizendo de maneira simpática e meu constrangimento por estar tão aborrecida só foi aumentando. As pessoas estavam se esforçando para me ver melhor.
Quando entramos na sala de medicação, meu estômago embrulhou completamente e meu coração se comprimiu no meu peito. Eu não estava pronta para aquilo. Definitivamente não estava pronta para absolutamente nada do que me aguardava dali em diante. A sala não estava lotada, mas alguns pacientes estavam ocupando lugares distintos e alguns acompanhantes também estavam por perto, o que fez meu estômago embrulhar ainda mais.
Meu olhar vagou pelo ambiente, prestando atenção em cada uma das pessoas que estava por ali, sentindo uma onda de compaixão absurda por elas, ao mesmo tempo em que era acometida por um medo irracional. Aquele seria o meu destino de agora em diante. Pessoas carecas ou com cabelos falhos e ralos, expressões abatidas, algumas estavam até deitadas, outras arriscavam-se a conversar e algumas mais dispostas jogavam baralho com seus acompanhantes. Outras, no entanto, vomitavam sem parar. Uma vontade absurda de sair correndo me invadiu de repente. Talvez prevendo meus próximos movimentos, Bonnie segurou delicadamente no meu braço e me direcionou a uma cadeira um pouco mais afastada no fim da sala.
- M… Minha mãe, e-ela tá no consultório. - Gaguejei feito uma criança assim que me sentei na cadeira acolchoada e reclinável, sentindo uma onda terrível de pânico me invadir ao perceber que Bonnie, ao meu lado, já preparava minha medicação injetável. Bonnie apenas sorriu daquela maneira pacífica e tranquilizadora, dizendo que já iria chamá-la.
Bonnie me deu alguns avisos a respeito da medicação que eu estava prestes a receber por vias intravenosas. Não prestei muita atenção no que servia, visto que os efeitos colaterais me apavoraram instantaneamente. Eu não estou pronta para isso. Sabia que quimioterapia era um tratamento intenso e extremamente doloroso, passei horas no google lendo sobre quando descobri que estava doente. Achei que estivesse pronta apenas por saber os efeitos de cor, mas, no momento em que senti a medicação, soube que não estava. Só o nervoso já era o suficiente para acabar com meu psicológico e me fazer sentir coisas antes da hora.
- Sua primeira vez aqui? - Uma voz me chamou atenção assim que Bonnie se afastou silenciosamente indo atrás da minha mãe. Virei-me para o lado, ajeitando-me na cadeira e me deparei com um rapaz, uns dois anos mais velho do que eu, sentado na cadeira ao meu lado, recebendo uma medicação também.
Assenti um pouco assustada, reparando um pouco no rapaz que havia me chamado a atenção gentilmente. Ele estava careca, a pele pálida e a expressão um tanto quanto abatida, embora ele estivesse sorrindo calmamente. Não consegui retribuir o sorriso.
- Meu nome é , mas pode me chamar de , gosto de doce de leite. - Ele disse descontraído, estendendo uma mão para mim, a qual apertei rapidamente, retribuindo o cumprimento. - Sei que é bastante assustadora a primeira vez.
- Há quanto tempo você está aqui? Digo… você parece… - Não soube o que completar, já me arrependendo imensamente de ter aberto minha boca para início de conversa. Eu diria “experiente” no assunto, mas, é óbvio que ele saberia algo sobre, ele também está doente. - Desculpe, não quis ser rude.
Mas, para minha surpresa, ele riu.
- Não se preocupe, não foi. - Ele deu de ombros, divertindo-se da minha tensão. - Falar sobre o câncer não vai me deixar ainda pior, sabe. Bom, eu estou nessa já vai fazer um ano. - Ele respondeu tranquilamente, o que me deixou potencialmente incomodada.
- Como é? Digo… conviver com isso? Alguma dica para ajudar a caloura? - Perguntei, me sentindo absurdamente idiota mais uma vez. Ele estava tentando ser positivo comigo, gentil, e, no entanto, eu estava tentando tirar dúvidas como se a única coisa que interessasse a respeito dele fosse sua doença. Mas eu precisava conversar com alguém que entendesse o que eu estava prestes a passar.
- Não venha com o estômago completamente cheio para fazer suas sessões de quimio. - Ele respondeu de primeira, com um sorrisinho debochado, embora continuasse sendo simpático e otimista tentando tirar bom proveito daquela situação. - Compre protetores labiais, você vai precisar. O pudim de chocolate do hospital é realmente delicioso e ããh… o que mais? Bom, eu te aconselharia a cortar os cabelos bem curtinhos para o seu choque não ser tão grande. E a providenciar uma boa peruca, caso ficar de cabeça pelada seja um grande problema pra você.
Fiquei tão surpresa pela forma descontraída e divertida que estava falando sobre o câncer e seus efeitos colaterais que nem me dei ao trabalho de me sentir ofendida ou ultrajada por ele estar falando do meu cabelo e que eu iria ficar - inevitavelmente - careca. Ele não parecia sentir que aquele assunto era proibido para mim e algo me fez duvidar fortemente de que ele iria se importar se dissesse que briguei com minha mãe várias vezes quando ela tentou olhar modelo de perucas comigo.
- Mas acho que o mais importante mesmo é tentar não descontar sua raiva nas pessoas próximas. Elas não têm culpa de não saber o que dizer num momento como esse, sei que o olhar de pena pode irritar muito, mas é o que podem fazer. - concluiu um pouco menos descontraído, me encarando com gentileza, como se pudesse ser capaz de verbalizar os meus pensamentos. - É difícil passar por isso, no fim das contas você vai precisar ter um bom motivo para continuar lutando.
- Obrigada. - Eu disse, apenas porque não sabia de que outra forma expressar aquilo que tinha significado para mim ouvir todas aquelas coisas. Eu podia bancar a adolescente rebelde e respondona, mas, naquele momento, me senti absurdamente grata por ter alguém que não me olhasse com pena ou como se eu fosse me desmontar no próximo segundo. - Prazer, , sou a , e eu prefiro paçoca.
- Filha! A enfermeira me disse que você já estava aqui, como está se sentindo? - Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, minha mãe apareceu, adentrando a sala de medicação um tanto quanto afobada. Sorri um pouco mais paciente quando ela se aproximou, tomando minhas mãos entre as suas, só então me dando conta do imenso enjoo que estava começando a sentir. - Tá tudo bem? - Ela perguntou atenciosa e eu apenas assenti, tentando me manter forte… sabia que as coisas ainda iriam piorar.

***


E pioraram.Sessão de quimioterapia era definitivamente a pior coisa que eu já tinha presenciado em minha vida. Graças aos deuses que aconteceriam em doses homeopáticas, os efeitos colaterais duravam dias após a aplicação da medicação e eu não me lembrava de ter vomitado tanto em toda minha vida. Essa era a parte absurdamente ruim de fazer quimio: Ela não apenas afetava as células cancerígenas, ela afetava tudo, até mesmo as saudáveis. E aquilo era muito doloroso.
Ainda precisava frequentar o hospital com certa assiduidade, fazendo exames, coletando materiais, mas, pelo que eu agradecia imensamente, não precisaria ficar internada. Tudo parecia um pesadelo absurdo para mim, mas a ficha de que eu, no auge dos meus 17 anos, estava com câncer, ainda não tinha caído.
Nas semanas que se seguiram era comum me ver chorando pelos cantos da casa, chorando no café da manhã, no almoço, na janta, na hora de dormir. Meu coração estava partido em mil pedaços e não havia cola nenhuma naquele mundo que pudesse me reparar naquele momento. É horrível quando seu motivo para chorar triplica de repente, parece que todas suas tristezas se acumulam com o único objetivo de te destruir por completo.
Eu sentia uma imensa saudade do meu pai. Pensar que não poderia abraçá-lo, que não poderia provar das suas deliciosas panquecas no café da manhã, pensar que não iria sentir seu cheirinho gostoso ou ouvi-lo me chamar de minha boneca. Por outro lado, com bravura, pensava que talvez tivesse sido melhor assim. Amava o meu pai infinitamente para não querer vê-lo triste e desamparado ao lidar com sua amada filha sofrendo com o câncer. Já era doloroso demais ter que ver minha mãe se esconder pela casa para chorar. Sabia que estava sendo uma barra danada para ela e ela, mais do que qualquer outra pessoa, estava sentindo a falta do meu pai naquele momento para ser um amparo. Eu não era a única que me sentia sozinha.
Eu sentia uma tristeza enorme ao pensar em Jack e nos nossos momentos felizes. Por mais que ele tivesse me magoado, me traído e me humilhado, inevitavelmente eu não podia deixar de sentir saudade dele. Era horrível, doloroso e inconsequente, mas eu sentia. Gostaria de ter um controle que pudesse me fazer deixar de sentir as coisas que eu ainda sentia por ele, mas não era possível. Era uma dor absurda. Ele tinha sido meu primeiro amor, estávamos juntos há tanto tempo… Martelar nossos momentos bons era uma tortura para mim.
Pensar em Ryan e em Louise também era muito difícil. Eu ainda os amava e sentia falta de estar ao lado deles - e me odiava por isso. Me odiava por ser tão difícil esquecer e superar. Odiava o fato de estar em pleno verão trancafiada em casa quando todos da minha turma estavam saindo, se divertindo, bebendo em festas e fazendo irresponsabilidades enquanto eu estava em casa lidando com meus dramas adolescentes e um visitante indesejado no meu corpo - é, o câncer. Ainda mais essa.
Das coisas que me faziam suportar melhor toda aquela situação eu podia facilmente citar e Bonnie. , com quem eu agora trocava sms com bastante frequência, mesmo quando estava em casa e não no hospital, ou quem fazia minhas sessões de quimioterapia serem mais suportáveis. E Bonnie, por ser tão positiva e carinhosa e, é claro, por contrabandear pudins de chocolate sempre que possível nas minhas visitas rotineiras ao hospital.

I've been under self-restoration, I've become my own salvation

Sobrevivência


Em meados de agosto eu acordei achando que aquela seria a última vez que eu veria a luz do sol.
Pela primeira vez, senti o impacto do câncer em mim. Não apenas as náuseas pós-quimioterapia, não apenas as queimaduras na minha pele, não apenas a aspereza das minhas mãos, nem as rachaduras nos meus lábios ou secura dos meus olhos. Não apenas as feridas na minha boca nem os tufos de cabelo que já estavam caindo descontroladamente, embora eles já estivessem curtos - diminuindo os impactos.Não. Embora esses efeitos fossem incômodos, nenhuma dor poderia ser comparada com aquela que eu estava sentindo naquele momento. Eu não tinha forças para chamar minha mãe no andar de baixo e o pânico estava me envolvendo de uma maneira que eu não encontrava maneiras de sair daquela viva e ilesa. Meu nariz sangrava e eu estava sufocando no meu próprio sangue. Meu corpo estava todo dolorido, como se um trem tivesse passado por cima de mim. Minha visão estava turva e meu coração estava descompassado.
Eu vou morrer
E eu não estou pronta para morrer


Com um súbito de força que não parecia estar ali há segundos, me debrucei sob a cama, alcançando o criado mudo, fazendo o máximo de força que podia, derrubei alguns objetos que tinham em cima dele no chão - um porta retratos com uma foto minha, do meu pai e da minha mãe retirada um pouco antes do meu pai morrer. O barulho do vidro se espatifando no chão foi o suficiente para minha mãe vir ao meu encontro como uma águia de prontidão.
Eu estava a salvo.
***


- , você tem visita! - A voz de Bonnie me despertou e eu abri os olhos preguiçosamente, dando de cara com , que sorria segurando um pequeno buque nas mãos. Me endireitei na cama e forcei um sorriso, observando Bonnie trocar as flores ressecadas do criado mudo por outras novas - Essas aqui chegaram da sua amiga, Louise. Acho que você já devia receber a coitada, teve aqui umas dez vezes. - Bonnie completou, me fazendo revirar os olhos, embora tivesse sido bacana saber que a Louise ainda se importava comigo. Bem como Jack, que havia ligado chorando algumas vezes e até mesmo o Ryan, que me enviou um cartão. Babacas.
- Flores morrem, te trouxe algo bacana. - disse sentando-se na beira da minha cama, me entregando o buque. Só então quando fui reparar bem nele é que percebi que na verdade estava repleto de mini embalagens do meu doce favorito.
me entregou um buque de paçocas, provavelmente feito por ele mesmo.
- Meu Deus, !!! - Eu exclamei sorridente sentindo-me imensamente feliz e emocionada de repente, ninguém nunca tinha feito algo tão simples e bacana pra mim. Aquilo era a cara do . - Você lembrou! Obrigada!!!
- Claro que eu lembrei! De nada, só não deixe a Drª Montgomery te ver exagerando nisso, pode não ser bacana pra você. - Ele disse brincalhão e Bonnie se aproximou para roubar um doce. - Trouxe também alguns filmes. Já assistiu Star Wars? O QUE? NUNCA? - Ele exclamou quando eu balancei a cabeça negativamente. - Pois então, vamos ver agora.
- , você tem uma sessão hoje, sabe disso não sabe? - Bonnie falou num tom de aviso e apenas lhe respondeu com uma careta. - É sério.
- Ele não pode receber a medicação aqui no meu quarto? - Perguntei imediatamente, logo vendo o sorriso de tornar a aparecer no rosto.
- Vocês sabem que não… protocolo médico…
- Ah, Bonnie, por favor, por favor mesmo! Olhe, aqui tem até outra cama, eu não tô dividindo o quarto com ninguém por enquanto, é só a medicação, sim? - Insisti e fiz minha melhor expressão de gatinho, sendo imitada por , fazendo Bonnie rir e revirar os olhos.
- Vou falar com a Drª Montgomery, pestinhas. Mas não prometo nada.

Depois de muito insistirmos e até de receber o apoio da minha mãe e do pai do , a Drª Montgomery finalmente mexeu os pauzinhos e nós pudemos fazer uma pequena maratona de Star Wars no meu quarto, enquanto recebia a medicação.
No começo estava sendo divertido ver as reações dele, ou me irritar por ele continuar a dizer as falas dos personagens. Mas, depois, acabou se tornando um pouco difícil acompanhar o filme porque logo ele começou a passar mal, vomitando várias vezes.
- Me desculpe por isso. - Ele disse depois de vomitar pela terceira vez - Não estava nos meus planos vomitar no nosso primeiro encontro, sabe? - Ele disse num tom bem humorado, colocando um vonal embaixo da língua.
- Ah, então estamos num encontro? - Perguntei bem humorada, embora estivesse preocupada com a situação em que ele se encontrava. apenas riu, era impressionante como o bom humor dele não parecia ter fim, mesmo num momento crítico daqueles.
- A gente faz o que pode com aquilo que a gente tem, não é mesmo? Transformamos esse quarto de hospital em cinema e essa televisão minúscula em telão. E bom, Star Wars é um clássico que nunca sai de moda. - Ele respondeu, forçando para me dar uma piscadela, afastando a bacia que ele havia vomitado de perto.
- E se eu te dissesse que eu tenho namorado? - Perguntei bem humorada, entrando no jogo dele. espalmou a mão em sinal de pouco caso.
- Nah, eu te diria que está mentindo. Você foi chifrada, lembra? - Ele falou dando de ombros e eu caí na gargalhada. Só mesmo para ser capaz de falar sobre um assunto daqueles e me arrancar risos. - Além do mais, é dos carecas que elas gostam mais. - Ele completou me fazendo rir ainda mais.
- Vejo que estão se divertindo por aqui. , como está se sentindo? - Bonnie entrou na sala para nos avaliar mais uma vez, trazendo seu kit embaixo do braço, pronta para trocar meu soro e limpar a bacia do .
Nunca pensei que veria um garoto vomitar na minha frente e não teria nojo dele, pelo contrário. Parecia louco de se dizer, ou pensar, mas fazia com que meu coração doesse menos e que tudo aquilo fosse um pouco mais suportável.

***


Fiquei internada no hospital por duas semanas inteiras, fazendo baterias de exames e tomando medicação o tempo inteiro. Tinha liberdade de sair pelos corredores às vezes para esticar as pernas e não morrer de tédio. Naquele período, fiz amizade com diversos funcionários do hospital e soube das maiores fofocas dos médicos e enfermeiros. Bonnie, é claro, era uma fonte valiosa de informação. Recebia sms 24hrs por dia de e a essa altura, podia dizer que tínhamos nos tornado amigos. Embora eu sentisse falta de assistir filmes e jogar baralho com ele, me sentia feliz por ele estar em casa e melhorando gradativamente.
Finalmente depois de muita insistência, em uma daquelas tardes, aceitei a visita de Louise. Achei que ela fosse fazer uma cena e chorar, implorar pelo meu perdão, mas ela apenas ficou em silêncio por alguns momentos, sondando minhas reações. E, milagrosamente, não me olhou com pena. Acho que foi muito bem instruída por minha mãe.
- Eu queria te perguntar como você está, mas não sei se é a pergunta certa a ser feita. - Ela confessou, por fim, depois de nos encararmos por minutos em silêncio, ainda na porta do quarto.
- Você pode perguntar. - Eu disse por fim, apontando para a cadeira ao lado da minha cama. Ela rapidamente apressou-se em tomar o lugar, me encarando com uma emoção difícil de compreender.
- Como está?
- Já estive melhor…Mas também já estive pior. - Respondi por fim, dando de ombros. - Quando cheguei aqui estava muito mal, passei um tempo desacordada, minha mãe ficou desesperada. Mas depois a situação foi normalizando. Estou tomando remédios e todos os cuidados possíveis.
- Que bom que está melhorando, estive muito preocupada com você. - Louise respondeu e eu percebi que ela estava sendo sincera. As bolsas ao redor dos olhos diziam aquilo por conta própria. Louise andara chorando.
- … Sei que provavelmente eu sou a última pessoa que você quer ver, e sei que você nunca vai me perdoar, mas eu precisava tentar. - Ela começou, visivelmente sem conseguir se conter e eu apenas respirei fundo, não tinha intenção de interrompe-la. Se ela precisava falar, que falasse de uma vez.
- Quando eu soube o que o Jack estava fazendo eu o confrontei, sabe? Eu disse que estava errado, eu briguei com ele, mas não adiantou muito. O Ryan se voltou contra mim, disse que se eu te contasse alguma coisa ele terminaria comigo, ele sempre defende o Jack e eu… eu…
- Teve medo que ele terminasse com você, sei. - Respondi secamente e Louise me olhou com os olhos marejados, assentindo derrotada.
- Eu gosto tanto dele, você sabe disso. Eu tive medo que ele me abandonasse, tive medo que a gente terminasse e eu acabei não te contando. De certa forma insisti tanto pra gente ir pra festa pra você descobrir por conta própria e eu não precisar contar.
- Louise, você não pensou que talvez eu preferisse saber por você? Minha amiga? Do que ter que abrir a porta do quarto e ver meu namorado recebendo oral de uma pessoa que eu também achei ser minha amiga? Foi doloroso pra mim, essa cena ainda martela na minha cabeça dia e noite, você não imagina como é isso!
- Eu sei, eu sei! Eu me senti um lixo todos esses dias, ainda mais quando soube que você estava doente! Eu nunca me perdoaria se você… Se você…
- Se eu morresse sem você me pedir desculpas. - Conclui, visto que Louise agora estava tomada pelas lágrimas e não podia fazer isso sozinha. Ela assentiu, tentando inutilmente secar as lágrimas que caiam furiosamente.
- Eu terminei com o Ryan, sabe? - Ela disse por fim, numa voz baixinha e isso sim me pegou de surpresa. A Louise era obcecada pelo Ryan desde o jardim de infância e conseguir ser namorada dele era o troféu da sua vida. O cara mais bonito e popular da escola, nunca achei que ela teria coragem de fazer isso. - É, percebi que não era saudável pra mim. Ele me manipulava e me forçou a ficar contra você, mas defendeu o amigo. Coisa que eu deveria ter feito e me custou sua amizade pra sempre.
- Não custou. - Eu respondi rapidamente e Louise me olhou alarmada. Senti meu coração palpitar e a olhei com censura. - Não vou dizer que não estou magoada com você e nem vou dizer que será fácil te perdoar. Mas, significou muito pra mim saber que você se arrepende e que finalmente tomou coragem para fazer o certo.
- Ah, … Eu posso te abraçar? - Ela me perguntou receosa, já se levantando e eu assenti com a cabeça. Louise se jogou nos meus braços e me apertou com muita força, quase me sufocando. - Meu Deus, eu senti tanto sua falta!!! Me perdoe, me perdoe! O Jack é um idiota e o Ryan é um imbecil.
A tarde se passou de forma mais leve e nós nos divertimos um pouco falando mal do Jack e do Ryan, dois imbecis que não nos mereciam. Eu entendia que a Louise tinha errado, tinha colocado seu relacionamento acima da sua amizade, mas também entendia que para ela tinha sido uma situação difícil. Ser colocada contra a parede pelo cara que se ama, mas só abusa de você. No fim das contas, a Alisha tinha sido uma escrota, mas pelo que eu soube, também rondava minha casa querendo notícias minhas, me mandando bilhetes e parecendo culpada.
Naquela mesma tarde, enquanto penteava meus cabelos e deixava Louise me maquiar como uma boneca, percebi novos tufos de cabelo caindo novamente. Uma parte do meu couro cabeludo já estava completamente à mostra. Bonnie já havia sugerido raspar meu cabelo em outras oportunidades, mas logo tratava de desaparecer de vista ao receber o meu olhar. Hoje, no entanto, eu não conseguia ver outra alternativa.
- Posso ficar com você, se quiser. - Louise se ofereceu quando eu me apressei em esconder uma mecha de cabelos entre os lençóis. Ela notou que eu estava chorando e me abraçou de lado.
- Você continuará sendo linda. - Ela me disse e eu soube que havia sinceridade em suas palavras, não apenas para me agradar.
E honrando nossa amizade recém instaurada, Louise permaneceu do meu lado em todo o momento que Bonnie raspava meu cabelo. Foi horrível e eu não quis fazer aquilo me olhando no espelho, achei que seria sofrimento demais. Embora tivesse me ajudado bastante ter minha mãe e Louise ao meu lado, segurando minhas mãos, as lágrimas caíram copiosamente dos meus olhos conforme eu observava meus cabelos caindo no meu colo e no chão.
Naquele momento, a ficha de que eu estava com câncer e lutando por minha vida havia caído mais do que nunca. Eu só precisava achar algo que valesse a pena para lutar.
- Você continua sendo a menina mais linda do mundo. - Minha mãe disse, segurando os dois lados do meu rosto enquanto eu chorava abertamente. Ela beijou minha careca e sorriu pra mim, limpando minhas grossas lágrimas, segurando as dela também. Mamãe estava fazendo um trabalho imenso, sendo forte por nós duas e eu a amava mais do que nunca. - Isso é prova da sua força. Isso serve de inspiração para que outras pessoas saibam pelo que você está passando e sobrevivendo.
E, mais tarde naquele mesmo dia, quando me olhei no espelho, foi isso o que vi: Uma pessoa que estava lutando, que estava tentando.

***


- , tô pensando em criar um blog. - Comentei certo dia quando foi me visitar no hospital. Ele tinha trazido os filmes de Indiana Jones dessa vez. Outra saga que confessei nunca ter assistido.
- Um blog? Sobre o que? - Ele me perguntou ainda muito concentrado no filme, abocanhando uma quantidade considerável de pipoca.
- Sobre minha experiência com o câncer. Não sei, pensei que talvez pudesse ajudar outras pessoas a passar por isso. - Respondi dando de ombros e percebi pausar o filme e me olhar com atenção. - É, complicado passar por isso na adolescência, mas não queria dar um tom fúnebre na coisa, sabe? Queria falar sobre minha experiência, sobre como passamos a valorizar pequenas coisas, sobre o perdão...E também sobre coisas divertidas que dá para se fazer enquanto isso, sei lá, sobre alternativas, troca de experiências. Quem sabe um dia posso usar o blog como uma alternativa para arrecadar fundos para ajudar outras pessoas.
Fui tagarelando, só então reparando na expressão que me encarava. Ele sorria com todos os dentes, um sorriso lindo e sincero que atingia os seus olhos.
- Você encontrou uma coisa para qual vale a pena lutar.


What I've learned is so vital

Amadurecimento


E era assim que eu me sentia.
Finalmente eu tinha parado de sentir pena de mim e tinha parado de culpar Deus e o universo pelo que tinha acontecido comigo. Numa das vezes que eu estava revoltada e afetada pelos efeitos do remédio e pela voz do câncer, saí xingando todo mundo, sendo ranzinza com todos e destratando qualquer pessoa que aparecesse no meu caminho. Aquele havia sido um dia em que minha sessão de quimioterapia e a do seria em conjunto. Aquele dia mudou a minha vida.
me levou até a ala infantil e eu senti naquele momento que meu coração já dolorido e despedaçado, iria se espatifar. Enquanto eu me sentia injustiçada por ter 17 anos e estar sendo privada de viver minha adolescência e as emoções características da minha fase, existiam crianças que estavam lutando com apenas 5 anos de vida e lutavam com sorrisos lindos nos rostos. Eu tive 16 anos bem vividos e cheios de saúde. Naquele momento internalizei que eu não tinha uma vida ruim, era um ano ruim, uma fase ruim.
Estar com uma doença traiçoeira como o câncer me fez valorizar as pequenas coisas da minha vida, me fez ser grata por cada manhã em que eu me encontrava respirando bem, disposta a sair da cama e fazer qualquer outra coisa. Por mais clichê que pudesse parecer, passei a entender a importância de cuidar da própria saúde. Somos tão terminais, porém só nos damos conta disso quando uma doença aparece na jogada.
Quando a inspiração para o blog surgiu, agarrei aquela ideia com unhas e dentes. Criei a plataforma com ajuda do e da Louise - que logo se tornaram amigos. Num instante, percebi que já tinha diversos seguidores nas redes sociais, maioria deles do meu antigo colégio. Pessoas que eu não fazia ideia estavam compartilhando, curtindo e me mandando mensagens de apoio. Pessoas que eu ignorei com minha popularidade, pessoas que eu neguei ajuda, pessoas que eu não me interessei em conhecer durante aqueles anos estavam naquele momento me mandando o máximo de energia positiva possível.
Os meses foram se passando e conforme minhas sessões de terapia aconteciam, o conteúdo do blog ia aumentando. Passei a fazer diversas postagens diferentes. Desde dicas de alimentação, de saúde, bem estar e beleza até colunas com entrevistas com a Drª Montgomery, um guia sobre minha vivência no hospital, as fofocas dos médicos e enfermeiros e minha relação com essas pessoas.
- , olha esse comentário que deixaram na nossa foto do instagram. - Falei certo dia durante uma reunião do grupo de apoio - que eu fazia parte como membro assíduo agora. - Estão dizendo que somos o OTP supremo.
- Sério? As pessoas estão nos shippando? - Ele perguntou visivelmente animado, tomando o tablet da minha mão para ver melhor os comentários da foto. Uma que tiramos das nossas carecas pintadas de tinta, certo dia desses. - Uau, somos um casal muito querido.
- Nós não somos um casal, . - Eu disse num tom brincalhão, revirando os olhos e tomando o tablet da mão dele novamente. deu de ombros e me deu uma piscadela.
- Não somos porque você não quer. Mas agora que eu descobri que tenho um fã clube, vou aproveitar. Vai que você se torna #Team também? - Ele respondeu descontraído e eu apenas me limitei a rir.
A verdade é que eu ainda gostava um pouco do Jack. Era difícil me desfazer de um sentimento que esteve dentro de mim por tantos anos. Por outro lado, eu morria de medo de me apegar ainda mais ao . Minha mãe adorava nossa amizade e idolatrava o , mas ela mesma sentia muito medo da nossa relação. Se eu já estava apegada a ele dessa forma como uma amiga, imagina o que eu não sentiria caso o pior acontecesse. Eu já tinha lido A Culpa é das Estrelas e não queria repetir a dose. Por mais que eu desejasse e acreditasse na melhora do , morria de medo de um dia acordar com a notícia de que ele morreu. E não imaginaria como seria doloroso para ele se eu morresse também.
Minhas preocupações, no entanto, a respeito de não duraram por muito tempo. Meses depois tivemos a feliz notícia de que o câncer parecia ter ido embora e ele agora entrava numa outra fase do tratamento. Fazendo exames de tempos em tempos para checar aparecimento de novas células cancerígenas. Mas, agora oficialmente não era mais um paciente com câncer. Embora aquilo tivesse enchido o meu peito de alegria, me deixou também apavorada. Me sentia uma bruxa egoísta e o pior ser humano do mundo por pensar que eu estava nessa sozinha agora.
- Não precisa se preocupar, eu estarei aqui em todas suas sessões se você quiser. Ainda posso te derrotar na dama, no xadrez, no baralho, no poker e em qualquer jogo que inventarem. - me disse naquele mesmo dia, quando a equipe do hospital fez uma festa para ele em comemoração a sua recuperação. - Daqui uns dias será a sua também!
Mas minha festa demoraria a acontecer.
Drª Montgomery chamou a mim e a minha mãe no consultório certo dia para nos dizer que eu não estava respondendo muito bem ao tratamento da quimioterapia e que o transplante de medula óssea, aquele ponto do tratamento, seria minha melhor opção. No entanto, minha mãe não era compatível e, portanto, fora de cogitação ser uma doadora. Sabíamos que a melhor opção era através dos irmãos, mas meu pai estava morto e eu não tinha irmãos.
Durante vários anos da minha vida fiquei me perguntando se iria querer saber caso alguém pudesse me dar à informação de como, quando e onde eu iria morrer. Agora, no entanto, eu não fazia a menor questão de pedir uma estimativa de vida para a médica. Não conseguia acreditar que iria deixar de existir, que havia uma possibilidade muito grande de morrer dali a algum tempo e que não estava pronta para isso ainda.
O meu blog me ajudou muito a passar por esse período turbulento. Minhas postagens se tornaram um pouco mais sombrias nesse período e acabei recebendo apoio de diversos seguidores diferentes, de diversos lugares. Me sentia emocionada, mas, no entanto desamparada.
Havia aprendido muitas coisas naquele ano. Aprendi a valorizar minha vida, minha família e os pequenos momentos cheios de alegria. O nascer do sol se tornou minha hora favorita do dia e eu fazia questão de acordar cedo o suficiente para ver os primeiros raios. Aprendi a não culpar as mulheres pelos erros dos homens e me fortaleci com as minhas amizades. Aprendi a ser menos arrogante com as pessoas, menos prepotente e cheia de mim. Entendi que as vezes a ajuda vem de onde menos esperamos.
Mas, acima de tudo aprendi que nada é tão ruim que não possa piorar.
- Quando você sair daqui e estiver curada nós vamos ter um encontro de verdade. - me disse quando dei a notícia sobre o transplante de medula óssea. Estávamos sentados no balanço na varanda da minha casa.
- E como será o nosso encontro? Jantar, cinemas, flores? - Perguntei forçando um meio sorriso para me distrair daquele imenso buraco em que eu estava. sorriu daquele jeito sapeca e bonito que fazia meu coração ficar leve.
- Não, nós vamos à esquina comer um hotdog e nos embebedarmos de coca cola, não tenho dinheiro para bancar jantar, e é você quem vai pagar pra mim. - respondeu dando de ombros me fazendo rir um pouco.
- Podemos ir à praia. Sinto saudades do mar. - Respondi baixinho, sentindo uma lágrima quente escorrer por minha bochecha. Que droga. Eu estava fazendo planos que nunca poderiam ser cumpridos. E eu estava gostando disso.
, ao ouvir minha voz entrecortada, se aproximou de mim, limpando minha lágrima com seu polegar, acariciando minha pele. Afastei um pouco meu rosto, mas ele continuou me tocando, dessa vez com as duas mãos, segurando os dois lados do meu rosto.
- Olha pra mim. - Ele pediu, me encarando com uma intensidade que me deixou completamente desarmada. Obedeci, ainda sentindo meus olhos arderem.
- Você é forte e vai passar por isso. - me disse serenamente e eu pude perceber naquele olhar, o mesmo menino que me chamou no meu primeiro dia de quimioterapia, assustada, sozinha e desamparada. A mesma expressão calma, doce e paciente que me fazia questionar se ele era um ser humano de verdade ou se era um anjo enviado do céu para me ajudar a passar por aquele momento deprimente. Mas o universo não gira ao meu redor e eu tinha certeza que o propósito de nesse universo era muito maior do que me ajudar. Mas, para mim, aquilo significava o mundo.
- Eu estou com medo. - Confessei num sussurro, sentindo todas minhas forças se esvaindo naquele momento tão frágil. sorriu para mim daquele jeito meigo e beijou minhas bochechas, secando minhas lágrimas de uma vez só.
- Você não está sozinha.
E realmente, eu não estava.
Um mutirão havia sido feito através do meu blog nas semanas que se seguiram. Diversas pessoas diferentes se dispuseram a fazer o teste de medula óssea para saber se eram compatíveis para me ajudar. Embora tivéssemos falhas e falhas a cada dia, a iniciativa me emocionava muito.
, mamãe e Louise não me deixavam sozinha um segundo sequer. Se não estava na companhia deles, estava com Bonnie ou o resto da equipe do hospital, que torcia por mim e divulgava meu blog para amigos, familiares e até outros pacientes, para quem me tornei uma inspiração e logo trocávamos experiências e palavras de incentivo.
Eu, que estava acostumada a ter alguns poucos amigos, agora estava rodeada de pessoas que emanavam boas energias e me desejavam o melhor. Recebia por dia tantos depoimentos de crianças, adolescentes e até adultos que tinham se emocionado com algum conteúdo que eu havia postado, ou com algum pedido de ajuda ou até mesmo me desejando melhoras.
- Seu pai deve estar muito orgulhoso de você. - Mamãe me disse durante um jantar, certo dia quando estávamos sozinhas em casa. Louise e milagrosamente não estavam por lá naquela noite.
- Eu estou fazendo o melhor que posso. - Respondi com um meio sorriso, tentando me manter forte diante toda a situação.
- Sei que sim, querida. E me escute muito bem: Embora o seu pai te ame muito, ele não quer te encontrar agora, ok? É hora de você ficar com sua mãe. - Ela me disse com um sorriso amável, controlando suas lágrimas e eu retribui com uma risadinha lacrimosa.
Em outras palavras: Filha, você está proibida de morrer.
Mas a minha doença estava piorando e conforme eu parava de responder ao tratamento, mais o meu corpo dava sinais de fraqueza. Foram várias internações e cada uma delas em que eu saia do hospital, me sentia mais fraca. Meus amigos faziam esforços para me ajudar e me distrair, mas até mesmo respirar tinha se tornado uma tarefa árdua e complicada.
- Veja essa peruca, que linda! - Louise disse outro dia provando uma peruca azul bic, enviada por uma leitora do blog. , ao seu lado, provou uma peruca rosa choque chanel me fazendo dar uma risadinha baixa.
- Eu sou mais essa! - Ele respondeu, estendendo o celular e tirando uma selfie com Louise para postar nas minhas redes sociais. Eles estavam alimentando todo o conteúdo online enquanto eu me encontrava internada mais uma vez.
- Você precisa ficar logo boa para usar essas coisas ou eu terei que roubar todas!

***


Aquela altura do campeonato eu já não respirava mais por conta própria. O câncer havia atingido proporções absurdas e era cada vez mais frequente ter recaídas. Foram tantas recaídas que os médicos acharam por bem me manter internada. Mamãe estava um pouco relutante, eu não podia culpa-la, acho que no fundo ela pensava que eu não voltaria mais para casa daquela vez. Eu mesma cheguei a pensar sobre isso. Estava começando a me resignar.
Era dolorido, respirar era um esforço enorme, abrir os olhos pela manhã era uma tortura. Tortura a qual eu passava, fazendo o máximo de esforço possível para manter um sorriso no rosto, muito embora tenha feito mais caretas de dor.
Num daqueles dias em que respirar era um absurdo e manter meus olhos abertos era um esforço enorme, mamãe permitiu que Jack fosse me visitar no hospital. Ela tinha muita sorte que eu não estava em condições de brigar, ou ela teria sérios problemas comigo. Era difícil e constrangedor para mim que Jack me visse num estado tão deprimente quanto aquele. Tão frágil, tão vulnerável.
Quando a gente termina com um namorado babaca, nosso primeiro pensamento é de dar a volta por cima. Aparecer um dia linda, cheirosa e maravilhosa na frente dele com um sorrisão no rosto e de preferência com um boy novo, esfregando na cara que estamos bem e felizes. Confesso que não tive nem a chance de ter um pensamento desses, mas estar deitada moribunda num leito de hospital, careca, pálida e com a pele ressecada não era a forma mais interessante de me reencontrar com aquele que me chifrou. Mas, eu não estava em posição de negar. Estava respirando por aparelhos e apenas mexia meus olhos, deixando bem clara minha desaprovação à presença dele.
- Sei que você não quer me ver, sei que eu fui um imbecil com você. - Jack começou dizendo, sentando-se numa cadeira ao meu lado. Parecia fazer força para não chorar. - Eu realmente gostava e gosto muito de você. Éramos amigos. Acho que mais amigos do que namorados. Eu me senti atraído pela Alisha, tive medo de contar, tive medo de te magoar, tive medo de me arrepender. Não estava nos meus planos gostar dela. Nunca, nunca na vida quis que você tivesse presenciado o que você presenciou.
“Eu fui imaturo, criança, bobão, infantil, tudo o que você quiser me dizer e ainda mais. Eu me arrependo do que fiz e vim te pedir perdão, mesmo sabendo que você provavelmente nunca vai me perdoar. Você é uma pessoa incrível, uma menina linda, especial e muito amada. Eu não soube te amar direito e peço desculpas por isso. Mas por favor, nunca pense que você não significou nada pra mim ou que você foi descartável. Eu errei e somente eu”
Senti que meus olhos estavam em brasas e naquele momento Jack já estava chorando muito. Ele segurou minha mão com delicadeza e fez alguns desenhos invisíveis na minha pele. Tive vontade de pedir para ele tirar as mãos de mim, mas não encontrei a minha voz.
- Quero fazer algo por você. Não para aliviar a minha culpa, não para que você fique me devendo alguma coisa e nem para que você me perdoe. Quero fazer porque você merece. - Jack disse beijando a minha mão, se levantando da cadeira. - Fiz os testes para doador de medula óssea, e se forem positivos vou doar para você. Quero que fique boa, se cure e continue inspirando outras pessoas. Eu prometo nunca mais aparecer, nunca mais encher seu saco e nunca mais falar com você, mas quero saber que está bem.
Tive muita vontade de encontrar a minha voz, retirar aqueles tubos da minha garganta e gritar. Gritar de ódio, gritar de dor, gritar pela injustiça daquilo tudo. Gritar que eu não queria nada do Jack, embora não tivesse em posição de negar. Queria chorar, chorar porque eu estava infeliz, chorar porque ele finalmente tinha me pedido desculpas, chorar porque meu relacionamento não deu certo, chorar porque ele estava chorando. De repente, toda a intensidade daquele momento me invadiu. Jack não era uma má pessoa. Era um idiota, um babaca tomado pelos seus hormônios adolescentes e estúpidos. Era um mentiroso, um infantil, um nojento. Mas eu sabia que ele não era uma má pessoa. Que aquele erro faria com que ele aprendesse e jamais cometesse algo assim com alguém novamente.
Eu sabia que nós nunca teríamos volta e que eu possivelmente jamais o aceitaria no meu convívio, aquelas imagens e a humilhação ainda nítidas em minha cabeça. Mas, sabia que um dia iria perdoa-lo. E, por mais que eu não quisesse admitir, tinha significado muito para mim ouvir o pedido de perdão. Se era sincero ou não, não fazia diferença. Tinha sido importante ouvir do mesmo jeito.

E Jack era compatível. Às vezes, a vida prega peças na gente.
Os médicos fizeram de tudo para que o transplante acontecesse o mais breve possível. Ele seria dividido em três fases e as duas primeiras eu já estava muito bem acostumada: quimioterapia e aplasia.
A terceira era a recuperação medular, que assim como as outras fases, também seria cheia de efeitos colaterais. Mas eu me sentia pronta.
A quimioterapia dessa vez fora extremamente dolorosa. Eu vomitei mais vezes do que o normal, me sentia mais fraca do que nunca tinha me sentido, mas, agora eu tinha mais um motivo para lutar. O meu transplante.
Quando finalmente o dia chegou, Drª Montgomery entrou no consultório e me explicou que não seria uma cirurgia e sim algo como uma transfusão de sangue. Ainda assim, era incômoda e me deixou absurdamente dolorida. Mas estávamos todos confiantes.
Foram dias e mais sentindo comichão nos olhos, nas solas dos pés, nas palmas das mãos. Dias e dias sem que eu tivesse vontade de falar com alguém e tudo o que eu fazia era ser cuidada por minha mãe, que não arredava o pé da minha cama um só segundo se quer.
Drª Montgomery estava confiante, a medula estava pegando bem em mim, mas o processo de recuperação ainda era lento. Durante quatro semanas, medicação durante seis horas. As dores iam diminuindo aos poucos, já podia andar, colocar uma máscara e sair por aí. Já sentia até mesmo alguns fios de cabelo voltando a crescer.
Mas ainda não podia me dizer curada. Ainda faltavam alguns exames.
Todos estavam ansiosos pelo resultado que definiria se eu estava ou não livre daquele maldito pesadelo.


More than just survival

Renascimento


- , ? - Ouvi a voz da Drª Montgomery e despertei dos meus devaneios. Estava tão absorta nas minhas próprias lembranças que não escutei enquanto a doutora falava comigo. De repente, dei por conta de nossa proximidade e do envelope que ela trazia nas mãos. Busquei o seu olhar, doente de tanta expectativa, sentindo meu coração voltar a acelerar contra o peito.
- E então? - Perguntei nervosa, sentindo minha mãe ao meu lado se empertigar na cadeira. Drª Montgomery estava impassível, seu semblante era muito difícil de decifrar. Comecei a me sentir mal, estava nauseada e tinha certeza que não tinha absolutamente nada a ver com medicação alguma. Eu estava nervosa, agitada, esperançosa. Precisava desesperadamente de boas notícias.
- Eu nunca me senti tão feliz em “perder” um paciente em toda minha vida. - Drª Montgomery fez uma aspas com as mãos ao pronunciar o “perder”, sorrindo abertamente para mim - Parabéns, ! O transplante foi um sucesso, sua recuperação foi ótima e estamos muito positivos!
- O que isso quer dizer? - Perguntei, já me levantando da cadeira, segurando com força a mão da minha mãe que agora já chorava abertamente. Drª Montgomery sorriu para mim e me entregou o envelope branco nas mãos.
- Você está curada.
Curada.
Eu estava curada.
Aquele pesadelo infernal estava finalmente tendo um fim. Depois de dores físicas e psicológicas, eu estava finalmente livre. Eu poderia ir para casa, eu não precisaria ficar no hospital dia e noite, eu poderia dormir sempre na minha cama, poderia voltar a fazer boas refeições, meu cabelo voltaria a crescer. Poderia me inscrever em faculdades e poderia seguir uma carreira. Eu tinha uma vida pela frente. Eu estava curada.
- Você ainda precisará retornar para o hospital pelo menos uma vez por ano para realizar exames de rotina. Precisaremos ficar de olho no câncer para evitar que ele retorne, mas, por hora, estamos muito felizes com sua recuperação! - Drª Montgomery completou e antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, me atirei em seus braços, lhe apertando com toda a força que eu podia.
- Obrigada, obrigada, obrigada por tudo! - Falei repetidas vezes sentindo minhas lágrimas quentes escorrerem por meu rosto, mas sem dar muita importância a isso - Eu nem acredito que isso está acontecendo!
- Filha, que notícia maravilhosa, ah, eu estou tão feliz! - Minha mãe correu para me abraçar e eu desabei nos braços dela. Eu devia tudo àquela mulher. Ela havia cuidado de mim tão pacientemente, tinha suportado meus piores dias, tinha cuidado das minhas feridas e entendido meu mau humor e minha depressão. Finalmente eu poderia ser uma filha melhor e te retribuir todo amor e carinho.
- Vamos, tenho certeza que o resto da turma está esperando para você se despedir. - Drª Montgomery disse sorrindo, referindo-se a Bonnie e a equipe médica por quem eu havia me afeiçoado bastante durante o tempo que havia ficado por aqui.
Saí do consultório com minha mãe e a Drª Montgomery em meu encalço, me dirigindo até a sala dos médicos, a qual eu sabia que não tinha acesso, mas insistia em pentelhar sempre que possível. Assim que abri a porta para me despedir de alguns residentes, no entanto, fui surpreendida com uma gritaria ensurdecedora, apitos, balões e confetes sendo jogados na minha direção. Levei minhas mãos a boca devido ao imenso choque e apreciei os rostos conhecidos e amados na minha frente, sorrindo para mim segurando cartazes motivadores. Na parede, balões dourados estavam cheios com meu nome e o letreiro que dizia “curada”.
Aquela altura, eu já não segurava as minhas lágrimas. Qual era o objetivo de me conter se eu estava finalmente feliz depois de tanto tempo? Procurei nos rostos cúmplices aquele que eu mais queria ver. E encontrei. No meio dos médicos e enfermeiros, ao lado de Louise, lá estava . Entre quimioterapias e transplantes, o meu melhor remédio no combate ao câncer. Não pensei duas vezes antes de correr em disparada ao encontro dele, me jogando em seus braços com toda empolgação que podia.
já parecia preparado para me segurar, visto que o abraço dele me tirou do ar, me tomando com força e delicadeza. Naquele abraço singelo muitas coisas estavam sendo ditas. Eu não apenas me sentia curada do câncer, me sentia curada do coração partido, me sentia curada da dor da perda. Ainda abraçada a ele, afastei meu rosto apenas o suficiente para lhe beijar com toda vontade que eu podia. Nunca em toda minha vida tinha sentido tanta vontade de beijar alguém como senti naquele momento de beijar . Quando nossas bocas se encontraram, tudo pareceu se encaixar, tudo pareceu fazer sentido.
Ao nosso redor, gritos, vivas e palmas puderam ser ouvidos e nós sorrimos contra o beijo. Quando finalmente nos soltamos, rimos bobamente um para o outro. Estávamos genuinamente felizes. Ao meu lado, Louise correu para participar do abraço, logo depois Bonnie, logo depois minha mãe e antes que eu desse conta já estava tomada por mais beijos e abraços do que pude contar.
- Que data é hoje? - Perguntei para alguns minutos mais tarde enquanto provávamos do bolo que haviam feito para mim.
- 26 de julho, por quê? - Ele me perguntou enquanto roubava um pouco do meu recheio de doce de leite. Apenas dei de ombro e sorri, sentindo meu coração mais leve do que já havia sentido em toda vida.
- Este será meu segundo aniversário de agora em diante.
- O dia que você sobreviveu. - Ele respondeu com um sorriso meigo e eu o beijei novamente. Gostava dessa nova sensação de poder beijar a todo momento. Sua boca tinha um gosto de doce de leite que eu poderia facilmente trocar todas as paçocas do mundo.
- Mais do que isso. É o dia que eu revivi.

This is my revival




Fim!




Nota da autora: Oi, amorinhos! Minha primeira ficstape para o FFOBS, yay! Espero que tenham gostado! Pensei por um bom tempo em “matar” o pp, mas depois achei esse caminho clichê até demais, hahahaha. Além de que, o pp é tão divertido e fofinho que merecia ficar vivo <3 O que acharam? Gosto muito dessa música! <3
Para críticas, elogios, sugestões, venham na ask! Besitos molhadinhos da Pri!

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