Postada em: 11/01/2018

Capítulo Único

Alguém puxava e repuxava meus cabelos para todos os lados, passando o pente por entre os fios enquanto o barulho do secador ecoava bem ao ladinho da minha orelha esquerda e eu me perguntava “Raissa, por que você tá fazendo isso com você?”. Eu tinha meus olhos fixos no celular tentando manter minha mente longe do fato de que eu estava tremendo igual vara verde em dia de chuva de vento. Se eu ficasse em pé com certeza em dois segundos eu já estaria estrebuchando no chão. Não sei o que estava me deixando mais ansiosa e apavorada: se era o grande evento da noite ou se era o fato deu ter um cara arrumando meu cabelo e uma mulher pintando as unhas da minha mão direita, tudo ali, ao mesmo tempo, como se eu fosse uma madame de Los Angeles ou a minha vó paterna, aquela perua. Acontece que quem vem de onde eu venho não está acostumado com tanta atenção assim, então só de ter duas pessoas completamente à minha disposição já era de me deixar paralisada.
Salão de beleza nunca foi um lugar muito frequentado por mim. Pelo contrário, acho que só pisei em um salão quando eu fui obrigada a ser dama de honra da minha vizinha, no auge dos meus oito anos. Nesse dia eles alisaram meu cabelo contra a minha vontade, encheram meu rostinho de maquiagem e pintaram minhas unhas de branco. Eu detestei. Primeiro porque eu odiava branco, que criança quer pintar a unha de branco? Eu queria mais era um verde limão com rosa-chiclete, sabe? Segundo que doeu um bocado pra alisarem meu cabelo naquela época e quando eu me olhei no espelho, eu não me reconhecia de jeito nenhum. Uma pessoa que passou oito anos vendo os cachos rolarem soltos pelas costas estranharia mesmo a se ver com um cabelo lambido. Claro que com os anos as coisas mudaram, alisar o cabelo já não doía tanto, mas eu continuava me achando estranha sem meus cachos.
Acho que naquele dia no salão o único momento que eu consegui me sentir à vontade foi quando fizeram a maquiagem no meu rosto. De maquiagem eu entendia, e não era pouco. Quer dizer, era pouco sim, é que eu sou exagerada. Eles fizeram o famoso delineado gatinho, mas a sombra tinha um tom marrom alaranjado misturado com marrom escuro e preto esfumado e mais uma papagaiada de coisa lá que eu não entendia. O resultado tinha ficado a coisa mais bonita do mundo! Quando eu disse que de maquiagem eu entendia, eu quis dizer que eu era apaixonada por qualquer coisinha que alguém fazia. Eu achava lindo, vivia morrendo de vontade de comprar aqueles “mimos” das blogueirinhas, mas não dava, né...
Por fim, terminaram de arrumar meus cabelos de uma forma que os cachos estavam bem mais definidos e volumosos do que quando eu fazia em casa. Tinha ficado muito bonito e eu não via a hora de mostrar toda essa beleza pro mundo.
Fui pra minha casa com meu carrinho recém-adquirido e lá terminei de me arrumar. Tomei um banho relaxante de sais minerais espessos que agiam diretamente nos olhos dos inimigos, ou seja, tomei um banho de sal grosso mesmo que era pra tirar a nhaca e olho gordo que eu sei que ia cair em cima de mim assim que eu pisasse na rua. Depois disso me vesti. E essa parte merece muita atenção.
Eu tinha mandado fazer aquele vestido especialmente pra noite de hoje. Ele era verde-musgo meio cintilante. Se eu me mexesse, eu brilhava. Tudo bem que eu já brilhava mesmo sem aquele vestido, só com jeans e blusinha, mas naquela peça eu estava FA-BU-LO-SA. Eu tinha decidido aproveitar que ele ia ser feito sob medida pra mim e pedi pra que a costureira caprichasse no decote. Na verdade aquele não era um decote muito fundo devido à ocasião daquela noite, mas ainda assim era perfeito pra evidenciar os meus peitos. Depois do decote, o vestido descia colado no meu corpo e tinha um detalhe na cintura: um pedaço de pano igual ao resto do vestido, porém em formato de um cinto bem espesso. Aquilo dava sustentação para meus peitos além de dar forma a minha cintura. Abaixo desse cinto, o vestido descia normalmente, entretanto decidi ousar e pedir um corte que ia do meio da minha coxa direita até meus pés. Magnífico, nada menos do que eu merecia. E finalizando todo esse look da deusa que eu era, nos meus pés eu tinha decidido por uma sandália dourada de correias finas e salto mais fino ainda. De chorar de tão lindo, era esse o adjetivo que eu dava pro meu look.
Até aqui está tudo muito bem, tudo muito bom. Mas eu vou jogar uma informação na sua cara que eu sei que vai ser muito pra você. Eu sou gorda. Gorda. Gorda mesmo. Não sou gorda que usa 40, não, Raissa usava 40 com oito anos de idade. Esse meu vestido maravilhoso foi feito em um belo e bem estruturado número 52 que eu sei que não é todo mundo que consegue lidar. Não é qualquer um que consegue vestir um 52 tão magnificamente como eu consigo. Geralmente as pessoas ficam em choque quando aumentam dois números, indo do 38 pro 40. Essa galera fica desiludida e chora as pitangas pra mim dizendo “ai, nossa Raissa, eu tô tão gorda” e eu só consigo rir e pensar “amadores...”.
Antigamente eu até me ofendia quando uma menina magra dizia que estava gorda porque aumentou um quilo na balança, mas hoje em dia eu nem me importo. Tudo bem que ainda acho uma extrema falta de respeito e empatia alguém completamente dentro dos padrões de beleza dizer que é gordo só pra inflar o ego com os típicos comentários “imagina, você não está gorda, está linda”, como se o oposto de linda fosse gorda, né? Além de amadores são burros, se você entrar no site antonimos.com vai constatar que “O contrário de lindo é: 1. feio, horroroso, disforme, horripilante, repulsivo, desproporcionado, hediondo, desengraçado, deformado, horrendo, monstruoso, pavoroso, repugnante, hórrido, esquisito, fedo, feioso, mal-apanhado, mal-apessoado, mal conformado, malfeito, mal parecido, mal proporcionado.”. Em nenhum momento estava escrito gordo. Mas paciência, nem todo mundo consegue lidar com a verdade.
Até eu aprender a me amar demorou uns bons 22 anos. Os piores momentos eram as épocas de escola/faculdade, em outras palavras, minha vida toda basicamente. Na escola regular eu ainda não entendia o bullying, eu me sentia mal, me deixava abalar, me isolava e sofria calada todos os anos escolares só porque eu pesava 30 ou 40 quilos a mais do que minha coleguinha de sala. Porque, nooooossa, que tragédia ter uns quilos a mais. Realmente, por que gordos existem? A gente bota em perigo todo o equilíbrio do planeta terra, né? Amanhã capaz de o planeta cair porque eu comi um x-burger, imagina se pega no olho, né?
Quando você vai pra faculdade, você se sente pior. Por mais que eu tenha estudado todo o tempo em uma universidade pública, com alguns estudantes de humanas da Federal zanzando pelo campus, o meu curso foi exatas, Engenharia Elétrica. E pessoas que mexem com números tem uma grande dificuldade em lidar com gente. Então o que eu sofri na faculdade foi pior do que na escola e sabe por quê? Porque na faculdade as pessoas já tem mais noção do mundo, então elas sabem direcionar melhor a metralhadora de bosta que elas chamam de boca. E outro lado negativo é que todo aquele povo de humanas que prega o “meu corpo, minhas regras”, “se ame como você é” nunca, NUNCA se relaciona com quem é fora do padrão. Porque ser gordo na internet é maravilhoso, mas na vida real você vai ver aquele esquerdomacho namorando ou tendo um “lancinho poliamor” com uma gorda? Não. Você vai ver uma lésbica namorando uma menina gorda? Não vai. E eu falo isso com autoridade porque eu já passei por isso. Tanto com homens, quanto com mulheres. Os comentários do Facebook me deixavam sentindo a melhor pessoa do mundo, mas era eu tomar uma breja pra ganhar coragem e chegar nas pessoas na festa que sempre ouvia um “você é linda, mas eu não posso” e dez segundo depois a mesma pessoa tava se atracando com alguém magro. Mas com o tempo eu aprendi que se eu não perco nem meus quilos, vou tá perdendo uma pessoa dessas? Imagina, meu bem. Eu tô é ganhando me livrando de embuste.
Os cinco anos do curso foram bem difíceis pra mim. Eu era uma das três únicas garotas da sala. Uma já tinha um emprego fixo na Embraer, era magra, linda, estonteante, mas me olhava torto e me media de cima à baixo quando eu aparecia com um shorts na sala, porque realmente minha roupa devia influenciar muito a rotina dela, coitada... A outra mal ia na aula, e pra ser sincera nem sei se se formou. Então era sempre eu contra a Embraerzete. Não que a gente brigasse, porque odeio mulheres que brigam com outras mulheres, mas se meu peso a incomodava, eu não ia me sentir culpada por isso. Paciência... Quem fazia todo o trabalho de nos colocar uma contra a outra eram os meninos da sala. Sim, meninos. Que serão eternamente meninos, porque né... Quantas não foram as vezes que ouvi comparações bestas de nós duas, quantas foram as vezes em que eu sobrava em um trabalho em grupo quando a Embraerzete tinha que escolher entre todos os que tinham rodeado sua carteira se oferecendo pra ser parte do grupo? Olha, foram muitas vezes mesmo.
Quando você nasce mulher, você se depara com um monte de desafios. Tudo se torna mais difícil ou mais perigoso. Você ganha menos, você trabalha mais, você sempre perde os créditos pelo que fez e também sempre desacreditam de você. Foi exatamente por isso que passei durante os cinco anos de graduação por “ousar fazer coisa de homem”, como cursar Engenharia Elétrica. Como se só homens conseguissem mexer na fiação ou fazer uma planta das instalações elétricas de uma casa porque só o homem tem uma parte do cérebro chamada “capacidade de saber se a energia passa por aqueles fios ali”. Agora, imagina toda essa dificuldade aliada ao fato deu ser gorda. Pronto! “A Raissa tá indo longe demais, a Raissa não tem noção das consequências, como a Raissa vai conseguir subir escada pra fazer instalações, como a Raissa vai fazer isso, como ela vai fazer aquilo, como ela vai cagar, mijar, comer? Meu Deus, que louca”. Acho que as pessoas acham que gordo não devia viver. A gente incomoda só por existir e isso é foda... Mas ainda bem que tudo isso acabava hoje. Não que eu nunca mais vá sofrer preconceito por ter uns quilos a mais, mas pelo menos não ia mais olhar pra cara daquela galera imbecil. Eles cansavam muito minha beleza.
Quando me olhei no espelho, toda produzida e linda pra minha colação de grau e festa de formatura, eu quis chorar de orgulho da mulher que eu tinha me tornado. Raissa, 25 anos, formada em Engenharia Elétrica pela USP – São Carlos. Finalmente, depois de cinco anos aturando gente que não sabia lidar com o peso e com a alta autoestima alheia! Arrumei melhor meus peitos no vestido, aproveitando que mesmo que “olha lá a gorda achando que tem peito quando na verdade é só gordura”, peito ainda era peito, não é? Sorri pro espelho e tirei uma foto, postando no Instagram logo em seguida. Eu tinha que registrar cada momento do dia.
O caminho até o anfiteatro da faculdade foi tortuoso, minha família não parava de falar animadamente no carro e eu só queria estar lá de uma só vez. A cerimônia ia ser bem chata, como qualquer outra, mas eu não via a hora de estar no salão rebolando minha raba ao som de Anitta.
Todo o processo de pôr a beca, entrar na fila, sentar na cadeira, ouvir o discurso do paraninfo tinha sido tortuoso, mas pior ainda foi quando eu ouvi o tão esperado “Raissa Salles” ser dito, indicando que era hora deu receber meu diploma.
Um filme se passou na minha cabeça. Tudo que eu sofri minha vida inteira. Todas as vezes que botaram em cheque minha capacidade, todas as vezes que me chamaram de “baleia” ou que disseram estar preocupados com a minha saúde enquanto bebiam cerveja fumando cigarro e comendo uma porção de bacon com um toque de óleo tipo entope-veia. Todas as vezes que eu chorei em casa porque não conseguia emagrecer, todas as comidas que eu deixei de comer pra poder “ficar mais bonita”, todas as vezes que eu entrei numa loja sem conseguir encontrar uma roupa, todas as vezes que me disseram que eu não ia conseguir me formar porque Engenharia Elétrica era algo pra pessoas mais “decididas”, como se um pinto fosse medidor de dedicação. Eu estar recebendo aquele diploma ali significava muita coisa. Significava que mais uma mulher, ainda mais gorda, tinha conseguido se infiltrar e ainda sair vitoriosa de um ambiente considerado tipicamente masculino. Significava que eu era a primeira pessoa da família a se formar em uma Universidade Pública. Significa que tudo que eu sofri até o momento não valeu a pena, porque ouvir pessoas te xingando por conta do seu peso nunca vale a pena, mas sim te ajuda a ter forças pra aprender a ignorar e seguir em frente, te ajuda a ter forças pra você se agarrar mais ainda a você mesma e fazer de você um porto seguro. Te ajuda a se amar sempre, independendo do corpo que você tem ou do curso que você escolheu. Gente imbecil serve pra muita coisa, além de motivo de piada alheia; Gente imbecil serve pra criar gordas fabulosas como eu. Quando segurei aquele diploma, eu percebi que tinha concluído mais aquela etapa na minha vida, que eu tinha vencido todos os obstáculos e que eu tinha chegado onde nunca, jamais quiseram que eu estivesse. Mas eu sou teimosa, já dizia minha mãe. Recebi aquele diploma com todo o orgulho que eu sentia de mim e pra minha sala eu mandei um dedo do meio junto com um “foda-se” mentalmente. Nada do que eu já não tenha falado ao vivo e pessoalmente nos últimos cinco anos...
Enfim graduada!
Para comemorar o feito, saí do anfiteatro e fui direto para o salão de festas. Lá eu extravasei tudo que eu tinha pra extravasar. Dancei, comemorei, desci até o chão junto com minhas amigas de longa data e também minhas amigas de outros cursos que eram tão fabulosas e gostosas quanto eu nos seus vestidos 46, 48, 54 e etc. Éramos o bonde das gordas, sim. Mas o bonde das gordas graduadas pela USP, ou você tá achando que a gente é pouca bosta?
Aprender a lidar com o preconceito é muito difícil, requer muita prática e muita ajuda, muita paciência e desprendimento. A gente falha, e falha muito. Eu, por exemplo, mesmo sendo essa gostosura toda, ainda choro às vezes quando um imbecil decide abrir a boca pra falar merda. Mas o que seria da vida sem uma lágrima aqui e ali, não é mesmo? E cada dia que passa é uma vitória nova quando você é mulher e gorda em um ambiente majoritariamente masculino. Tudo é uma vitória.
Mas a vitória de hoje era o meu diploma.
Raissa, 25 anos, gorda, formada em Engenharia Elétrica pela USP – São Carlos. Porque ninguém para essa belezinha aqui não, queridos.

“Tonight we are victorious
Champagne pouring over us
All my friends were glorious
Tonight we are victorious”


E esqueci de mencionar: eu tinha passado no Mestrado ;)


Fim!



Nota da autora: E aí, pessoas! Tudo bem com vocês? Essa fanfic fugiu de tudo que eu já escrevi na minha vida, mas quando ouvi a música pela primeira vez, eu decidi que esse era um tema que tinha muito que ser trabalhado. Não quis colocar romance, porque tive medo de demonstrar que a felicidade de uma mulher também depende de ter um namorado. Mas como pudemos ver, a Raissa é muito bem resolvida mesmo sem eu ter mencionado nada relacionado à romance. Não sei se tenho tanta autoridade assim pra falar do assunto que tratei, que foi mulheres gordas, porque não me considero gorda, embora eu seja totalmente fora do padrão. Me sinto muito a vontade pra falar desse tema porque já passei pela maioria das coisas que a pp passou. Meu apelido era Faustão, muito cara ainda não fica comigo porque não tenho 1,60 e não peso 50 quilos, entre outras coisas. Mas tô aqui, formada em uma faculdade e indo pra segunda com apenas 22 aninhos, trabalhando desde os 18 e muito feliz, apesar de todas as merdas que eu já ouvi. E se você se identificou com alguma das coisas que a Raissa sofreu e sofre, fica tranquila. Ninguém é obrigado a lidar com sua beleza, e isso não significa que ela não está aí. É só que tem muito panaca no mundo mesmo. Enfim, espero que você tenha gostado e que essa história tenha, de alguma forma, te dado força pra seguir. Você é maravilhosa sim e bora seguir o baile  Até a próxima!

P.S. 1: pra quem ficou curiosa, me inspirei nesse vestido pra linda Raissa

P.S. 2: em fevereiro/março entra fic nova minha, 04. Be the one, do Ficstape “Dua Lipa”!



Outras Fanfics:
Garotos não choram - primeira fic no site
MyPsychoKiller Girl - segunda fic no site
Em Fogo - terceira fic no site
Uma Estória da Realeza - quarta fic no site (essa é restrita!)
Quebrando a porra do protocolo - quinta fic no site
Controlla - sexta fic no site (essa também é restrita!)
14.Been You - sétima fic no site
18.All in it - oitava fic no site
Ficstape Death Of A Bachelor

Nota da beta: Meu Deus, que fic maravilhosa! Me senti muito representada, como mulher em geral, e amei a autoestima de Raissa e quão maravilhosa e destruidora ela estava ali. Adorei de verdade a fic, parabéns Andrea!! Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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