Última atualização: 02/07/2019
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Capítulo Único

escrevia em seu diário o que tinha acontecido naquela semana, aquele pedaço de papel era seu porto seguro, seu confidente desde sempre, era lá que ela despejava suas angústias, receios, medos e seus momentos de felicidade também, esses últimos eram raros, só os sentia ao lado de certo alguém... Estava preocupada com que o futuro lhe reservava, já que estava traçado pelos próprios pais, e aquilo lhe deixava terrivelmente triste. Enquanto estava compenetrada na função, pôde escutar batidas na porta, ela já sabia o que era, e autorizou a entrada.
– João chegou para lhe ver – a menina revirou os olhos, cansada. Detestava mais do que tudo receber a corte daquele rapaz.
– Mãe, por Deus, não quero, diga que estou indisposta… – a moça se deitou de uma vez na cama, escondendo o rosto.
– Filha, ele está esperando lá em baixo, você precisa ir, seu pai quer mais do que tudo que você receba a corte dele, estamos falidos, e esse casamento nos ajudará.
– Não estamos mais no século passado no qual as mulheres são obrigadas a casar sem amor, mamãe, estamos no começo do século XX, está tudo diferente. Eu não quero receber a corte do João, ele é repugnante! – ela respondeu a mais velha com a voz abafada pelo travesseiro.
… – a mãe suspirou, sentando-se ao lado dela. – Eu sei que você não o ama, eu também casei sem amor com seu pai, e olha como estamos hoje em dia? O amor nós construímos com o tempo, você verá.
– Não, mamãe, não tente me enganar, acha que eu não vejo a senhora chorando pelos cantos pelas traições do papai? Eu não quero essa vida para mim – Jana engoliu em seco, não tinha como rebater aquilo. Que ela amava o marido era incontestável, mas o sentimento não era recíproco. – Me desculpa, eu não tinha o direito de dizer essas coisas para a senhora… – virou-se de bruços, levantou o tronco e abraçou a mãe de lado.
– Não, filha, está tudo bem, eu vou descer e dizer que você está indisposta, espero que seu pai acredite… – a mãe se levantou magoada. sentiu o coração pequenininho, sabia que seu pai poderia destratá-la e ela não queria ser culpada por mais alguma humilhação que o pai dela pudesse lhe causar.
– Espera! – segurou o braço da senhora. – Eu vou descer, mamãe, não quero causar um mal-estar entre você e o papai, não hoje que as coisas me parecem tão calmas. Eu vou me aprontar.
– Certo, filha – abriu um breve sorriso, saindo do quarto e dando privacidade para a garota.
suspirou fundo, pegou seu diário e o escondeu embaixo do colchão. Deu uma rápida olhadela no espelho, alisou a roupa e saiu do quarto de uma vez descendo as escadas. Pôde avistar assim que entrou na sala, João sentado no sofá ao lado de seu pai, enquanto conversavam sobre negócios. Ela terminou de descer as escadas e se sentou ao lado do pai, tentando demostrar interesse por ver João ali, mas em vão.
– Finalmente desceu, querida, achei que fosse nos dar o desgosto de não aparecer para receber a corte de João… – ela soltou uma risadinha forçada.
– Olá, João, me desculpe, demorei a descer, pois estava indisposta – mordeu os lábios, forçando um sorriso.
– Está tudo bem – ele deu um aceno de mãos, como se aquilo não significasse nada. João era boêmio, todos da cidade sabiam que ele vivia frequentando prostíbulos e bares, inclusive o próprio pai de , que queria obrigá-la a se casar com ele, por interesse financeiro. Seus pais haviam feito negócios com a família Lima, e havia perdido tudo, agora estavam falidos.
– Mas então, João, já vem fazendo a corte a você há um tempo, estávamos conversando sobre o casamento de vocês, vamos ver uma data, ela até dispensou o dote, pois está compadecido com nossa situação e...
– Como é que é? – ela se levantou, nervosa. – Eu não vou me casar com ele, está louco, papai!
, pelo amor de Deus – sua mãe implorava que a filha se controlasse, aquilo era uma total insubordinação.
– Abaixa já esse tom de voz, não estamos em negociação, a decisão já foi tomada! – o pai ralhou com ela, extremamente ríspido.
– Eu não vou me casar com ele de jeito nenhum! – subiu as escadas correndo, deixando a todos na sala perplexos.
– Ah, mas ela vai se ver comigo, João – o rapaz tinha os olhos fechados.
– Peço que os senhores conversem com ela, porque eu a acho muito atraente, mas não estou a fim de ter uma mulher insubordinada, se ela é assim com o senhor que é o próprio pai, imagina casada – ele se levantou, deu um aceno de cabeça e foi até a saída da residência a passos decididos.
– Se essa menina é desse jeito é tudo culpa sua, Jana, você não soube educá-la direito! – o homem estava muito bravo, era possível ver pelas veias do pescoço saltadas. – Você já não prestou para me dar um filho homem e ainda me dá uma filha mulher cheia de ideias! Mas hoje ela vai tomar uma surra para aprender a respeitar o seu pai – o homem subiu as escadas, bravo.
– Meu marido, por favor, não faça isso – Jana subia atrás do marido, tentando contê-lo, mas em vão. O homem escancarou a porta encontrando a filha deitada na cama. Com o susto, se levantou da cama, o pai avançou nela e antes que ele a esbofeteasse, sua mãe segurou a mão dele.
, presta bem atenção no que eu vou te dizer, eu não pedi sua opinião referente ao casamento com o João, ele vai acontecer, você aceitando ou não. Eu já te disse que estamos falidos, menina! Falidos! – o homem suspirou fundo. – Esse casamento vai ser a salvação dessa família.
– M… – a mãe ainda segurava o braço do homem, fez sinal para que a moça se calasse. fechou os olhos, mas se calou, contrariada.
– Ela já entendeu, meu marido, fique tranquilo – o homem se desvencilhou da esposa e saiu porta afora, extremamente bravo. – , não o contrarie, seu pai ficou desconcertado com seu comportamento frente a João, você o desafiou!
– Eu não vou simplesmente me casar com quem não amo e assunto encerrado! Eu vi que ele detesta insubordinação, pude escutar enquanto subia as escadas, ele desistirá de mim, tenho certeza.
– Filha, hoje eu consegui conter seu pai, não sei até quando conseguirei, me escute, por favor! – a mãe lhe deu um beijo na testa e saiu do quarto deixando a filha pensativa.
deitou-se na cama extremamente esgotada, teria que conversar urgentemente com certa pessoa, eles tinham que resolver aquele problema de uma vez!

***


aguardava sentada no banco da pracinha completamente desconfortável, não via a hora em que sumisse de suas vistas para que ela pudesse fazer o mesmo e segui-lo, estava morta de saudades de seus beijos e carinhos, mesmo que tivessem se visto ontem. Ela tinha os olhos fixos nas costas do rapaz, virou-se para trás e deu uma piscadinha marota para ela.
– Você deveria disfarçar mais se quer que as pessoas não saibam sobre vocês… – Bruna zombou dela, com um pequeno sorriso debochado.
– Não me azucrine, sei que deveria disfarçar mais, porém é tudo tão intenso quando se trata de nós, é difícil... – encarou a amiga que estava sentada ao seu lado.
– E como fará com seus pais? O casamento a cada dia se torna algo sólido… – suspirou fundo, cansada.
– Eu não sei, tive uma discussão horrível com meu pai sobre isso, preciso ter com hoje sem falta.
– Vai contar a eles sobre vocês dois? – deu de ombros.
– Uma hora ou outra eles descobrirão, não vejo mais como esconder, aliás, tenho quase certeza que minha mãe sabe, você se lembra quando foi pedir minha mão ao meu pai?
– Lembro, claro que lembro, foi horrível...
– Foi sim, meu pai o escorraçou de casa, dizendo que a família dele era pobre e que uma filha dele jamais se casaria com alguém como . Nunca me senti tão envergonhada – suspirou. – Depois disso, ainda proibiu que nós namorássemos, passou tempos a me vigiar e desde então venho encontrando as escondidas…
– Sinto muito, , privar vocês de viver esse amor é triste demais.
– Eu não quero mais esconder meu amor por ele, Bruna, não quero me casar com João e ter uma vida infeliz.
– Que não esconda, oras, imponha-se de uma vez… também é de boa família, apesar de não ter tantas posses como João.
– Claro que sim – mordeu os lábios. – Pronto, fique aqui, já foi para local, prometo não me tardar desta vez.
– Por Deus, não quero ter que ficar olhando para o nada enquanto você se aproveita nos braços do seu amado, por favor – a amiga riu, seguindo os mesmos passos do amado em direção ao local de sempre.
Subiu as pedras desajeitadamente do pequeno morrinho próximo dali, e no fim do percurso foi amparada por que tinha um enorme sorriso para recepcioná-la. A pegou no colo e a girou, enchendo a bochecha dela de beijos.
– Estava com tantas saudades de você, – ele ainda a tinha em seus braços. Juntou suas bocas de forma terna iniciando um beijo lento, mas que foi tomando intensidade, à medida que se aprofundava. Ela tinha as mãos nas costas do rapaz, e conforme o beijo se intensificava, os apertos nas costas dele ficavam mais fortes. Se separaram completamente ofegantes.
– Eu também estava louca de saudades, – sorriu e lhe deu um singelo selinho casto nos lábios. – Mas não trago boas notícias…
– Como assim? – ele tinha o cenho franzido. – Vem, vamos nos sentar aqui para que possamos conversar – se sentaram em uma pedra, que dava a vista para a cidade inteira, que por sinal não era muito grande, mas muito bonita.
– Não sei nem como começar este assunto, estamos em um clima tão maravilhoso... – suspirou, apoiando sua cabeça no ombro do namorado, enquanto fechava os olhos. Ele a abraçou de lado, a acomodando para ficar mais próxima dele.
– Está tudo bem, seja o que for, daremos um jeito – deu um beijinho no cabelo dela.
– Tudo bem, você sabe que meu pai quer me forçar a casar com João… – ele assentiu. – Eu estou aceitando a corte, até porque não há nada demais, porém meu pai quer marcar a data do casamento.
– Ele o quê!? – ele se virou bruscamente, a assustando. – Eu não vou suportar que você se case com outro, vamos conversar com seus pais agora, contamos que nos amamos e pomos fim de uma vez nisso.
– Por Deus, acalme-se – ela segurou a face dele. – Eu te amo mais do que qualquer coisa, tanto que as palavras não podem sequer tocar o que está em meu coração, mas precisamos agir com cautela.
– Só de pensar que aquele imbecil quer encostar em um fio de cabelo seu, me deixa extremamente irritado. E muito me admira seu pai apoiar João, aquele boêmio não vale nada.
– Meu pai só pensa no dinheiro que esse casamento pode nos proporcionar, não está pensando em minha felicidade, – ele a abraçou apertadamente.
– Ninguém vai destruir o nosso amor, eu juro! – ela suspirou fundo, sentindo o perfume do namorado. As coisas ficariam bem, sempre ficavam quando ele estava ao seu lado. – Eu tive uma ideia que pode nos ajudar nisso, mas o que lhe contarei precisa ser um segredo só nosso, é uma ideia louca, mas é a nossa única solução…
– Certo, sou toda a ouvidos – ela o encarou atentamente.

***


– Finalmente você desceu, achei que tivesse que subir até lá para chamá-los, está ficando tarde… – Bruna se levantou, levemente irritada. Todas as vezes que o casal precisava se encontrar, sempre era ela quem tinha que encobri-los, mas aquilo a entediava, porque na praça só haviam crianças brincando, ou casais namorando.
– Nos desculpe, aparentemente teve uma ideia incrível para que possamos ficar juntos – Bruna abriu um sorriso enorme, animada.
– Conte-me tudo, amiga – ela segurou no braço de .
me fez prometer que não poderia contar a ninguém, Bruna, como a ideia é dele, não minha, devo isso a ele.
– Você não pode simplesmente fazer algo assim, vai matar-me de curiosidade! – Bruna apertou a barriga da menina, fazendo cócegas e arrancando risadas das duas. – Ah, meu Deus! Não olhe agora, mas João está acompanhado por duas moças, parecem estar em atividades ilícitas – revirou os olhos.
– Mas agora que olho mesmo! Vem, vamos até lá, quero que ele me veja – puxou o braço da amiga enquanto caminhavam a passos rápidos.
– Está louca? Você irá intimidá-lo? Tem tudo para dar errado essa ideia de gerico – Bruna ralhava com a amiga, mas sem sucesso. Não tardou muito e elas estavam paradas bem próximas a João.
– Oi, meu noivo – ela abriu um enorme sorriso. – Ainda somos noivos, não é? – o homem se assustou com a aparição repentina dela, mas rapidamente recobrou as ideias.
– De certo que somos, oras – ele abriu um sorriso galanteador. – Estas moças são minhas amigas, não tente maldar.
– Mas eu não disse nada – fingiu uma face inocente. – Papai deveria ser avisado sobre suas amizades com essas moças, que me parecem bem íntimas do senhor, meu noivo.
– Conte a ele, conte tudo, vamos ver em que ele irá acreditar, na minha palavra, ou na sua. Aliás, caso rompamos o compromisso, quem perderá será seu pai, afinal, todos sabemos que sua família está falida. Passar bem!
– Não precisamos do seu dinheiro, seu nojento mulherengo – gritou a plenos pulmões ao rapaz, mas pode escutar risos vindo por parte dele. – Ria mesmo, pois quem ri por último, ri melhor – arqueou a sobrancelha, voltando a andar, deixando uma Bruna estupefata correndo atrás de si.

***


viu que já passava das 04hrs da manhã e se levantou, naquela noite, ela não havia pregado o olho, de acordo com tudo estava pronto, ela só precisava se arrumar adequadamente e assim ela o fez, colocou um de seus melhores vestidos, passou um pouco de pó de arroz e suspirou fundo se olhando no espelho e gostou do que viu. Abriu a porta do quarto, pegou os sapatos nas mãos para que não fizessem barulho enquanto descia as escadas, passou pela sala e porta e foi bem-sucedida, não havia acordado nenhum dos pais. Fez uma breve comemoração e andou o mais depressa possível, podendo ver a esperando na esquina. Pulou nos braços do amado com um grande sorriso. tinha ajeitado tudo, agora era a hora de fazerem o que precisavam fazer. Caminharam juntos até o local e se sentaram nos degraus em frente ao mesmo, esperando que abrissem as portas. Seriam os primeiros a entrar, e isso não tardou a acontecer.
– O que fazem aqui tão cedo? – o padre os encarou de cenho franzido. Um olhou para o outro e falaram juntos.
– Viemos nos casar! – Padre Antônio arregalou os olhos, completamente surpreso.
– Como assim? Se casar assim, sem mais, nem menos? – coçou a cabeça, fingindo uma cara desconcertada.
– Padre, nós pecamos… – olhou para baixo. Na verdade, eles não haviam feito nada, ela permanecia virgem, sempre a respeitou, mas se eles não mentissem, aquele matrimônio jamais seria realizado. – Eu sei do nosso erro, por isso desejo consertá-lo me casando com ela.
– E os pais de vocês sabem? – abraçou o noivo, escondendo a face para fingir que chorava. Toda aquela encenação fazia parte do plano.
– Não sabem, mas já queremos nos casar para evitar algum mal estar. Falaremos depois a eles, tenho convicção que não brigarão se souberem que estamos casados. Por favor, padre, nos case.
– Por favor… – falou com a voz abafada. – Não quero ficar mal falada por essa cidade – o padre suspirou fundo, balançando a cabeça.
– Estou decepcionado com você, , muito. Você estava noiva de outro rapaz, meu Deus! – apertou os braços ao redor da cintura do namorado. – Mas, eu casarei vocês para evitar um mal maior – a moça largou o namorado e abraçou o padre feliz.
– Muito obrigada, padre, de verdade. Salvou nossas vidas – ele deu tapinhas nas costas da menina com um breve sorriso.
– Bom, então vamos realizar este casamento, esperem aqui, por favor, vou pegar a batina matrimonial.
– Por Deus, as coisas estão mesmo acontecendo, vamos nos casar! – ela deu pulinhos animada.
– Sim, vamos nos casar e vai ser para sempre – eles deram um selinho para selar aquela promessa.
– Sim, independente das dificuldades que possamos passar, eu sei que eu te amo, te amo tão profundamente, querido… Eu sou maluca por você, só isso mesmo para me fazer acordar às 04 da manhã, correndo o risco de ser pega por alguém.
– Você não é mais louca do que eu, sem sombra de dúvidas, amo você, muito mesmo.
– Venham, estou pronto para casar vocês, que Deus os proteja… – ele fizeram o sinal da cruz, e sorriram um para outro, seriam mesmo muito felizes, era o que mais desejavam, deram um selinho para selar a promessa.





Fim.



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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