Finalizada em: 29/06/2017

Capítulo Único

Madrid, dezembro de 2016.

Era quase 3h da manhã quando despertou ao ouvir passos no corredor seguidos pelo som de uma porta se fechando. Se virou para o outro lado da cama e encontrou o marido também acordado. Desde que se tornara técnico do Real Madrid, aquela cena era bastante comum. As preocupações eram tantas que, muitas vezes, a insônia o pegava de jeito.
- Acho que a Lena chegou - ela comentou em um sussurro, quebrando o silêncio.
- Pensei que nem fosse dormir em casa hoje - o outro rebateu com um sorriso divertido e sonolento nos lábios, fazendo a esposa soltar um riso anasalado.
- O que você tá achando desse possível romance dela com o Bale?
- Não estou preocupado, os dois são muito responsáveis - disse, dando de ombros. - Não quero impedir uma história de amor de acontecer se realmente for pra acontecer. Tive um monte de gente se metendo na minha e sei como é frustrante.
não conseguiu evitar um sorriso. Não apenas por ele parecer tão compreensivo quanto ao envolvimento da afilhada deles (e também assistente técnica no Real Madrid) com um dos jogadores mais badalados do time madridista, mas também por vê-lo citar a história deles como um casal. Depois de 27 anos juntos, sendo 22 deles como marido e esposa, e de terem botado quatro filhos no mundo, era até engraçado olhar para trás e ver os obstáculos desnecessários que tiveram que superar por conta da intromissão de terceiros, que, provavelmente, os viam como um garoto e uma garota que não sabiam nada da vida e estavam brincando de formar uma família.
- Vou desejar boa noite pra ela, já volto - disse e se inclinou para depositar um beijo rápido nos lábios do marido antes de sair de baixo do edredom e se levantar da cama.
Ao sair no corredor, caminhou silenciosamente na direção de um dos quatro quartos de hóspedes da casa, o quarto que havia sido reservado para a afilhada desde que eles precisaram trocar Turim por Madrid por conta da transferência de para o Real Madrid, pois a presença de Alaina na casa deles sempre havia sido constante mesmo antes de ela ir morar com eles.
- Lena? - questionou, dando algumas batidas leves na porta.
- Pode entrar, tia! - a outra exclamou do outro lado.
Ela, então, levou a mão até a maçaneta e abriu a porta para encontrar a sobrinha jogada na cama, ainda vestida com as mesmas roupas que usava quando saiu de casa algumas horas mais cedo.
- Como foi a festa? - perguntou, fechando a porta atrás de si.
- Ah, como todas as festas do Benzema - Alaina respondeu, sorrindo, e deu espaço para que a mais velha se sentasse na cama.
- Esse brilho nos olhos tem alguma coisa a ver com o galês? - questionou em um tom divertido, fazendo a outra soltar uma gargalhada.
- Tá tão na cara assim?
- Não, mas eu te conheço - disse, piscando um olho. - Me conta o que aconteceu. Vocês se beijaram de novo?
- Muitas vezes - ela confessou e baixou os olhos para a almofada em seu colo, se perdendo nas lembranças das últimas horas. - Pelo jeito, vai continuar acontecendo.
- Seu tio pensou que você nem ia dormir em casa hoje, acredita? - a mais velha disse e acabou rindo junto à sobrinha.
- É um pouco constrangedor saber que seus padrinhos confabulam sobre a sua vida sexual - ela retrucou, fazendo uma careta. - A gente só ficou curtindo a companhia um do outro. Pra mim já foi o suficiente.
- Então você está realmente gostando dele - pontuou.
- Parece que sim - Alaina respondeu em meio a um suspiro. - Estou tentando deixar rolar, mas, às vezes, ainda me pego avaliando todos os inconvenientes que esse envolvimento com ele pode trazer.
- Você sabe que isso não vai levar a nada, né?
- Eu sei, mas é muita coisa pra lidar ao mesmo tempo. Ele é jogador de futebol, nós trabalhamos juntos, a única mulher com quem ele se envolveu antes foi namorada dele por 8 anos enquanto eu nunca me dou bem com relacionamentos sérios… - ela dizia conforme enumerava cada uma de suas preocupações nos dedos.
- Eu vou te dar um conselho do fundo do meu coração, Lena, porque eu também tive muitas dúvidas quando comecei a namorar o seu tio e, se pudesse voltar no tempo, não faria nada diferente - falou, transmitindo uma ternura em seu modo de fitar a afilhada. - Só existem duas possibilidades: dar certo ou não. Se der, todas essas dificuldades que te afligem vão ter valido a pena, se não der… Pelo menos você tentou e só isso já vai te satisfazer. Se você não arriscar, é quase certo que você vai se arrepender no futuro.
Alaina concordou com a cabeça e não pôde deixar de imaginar quais empecilhos que os tios poderiam ter tido ao começarem a se relacionar. Não sabia muito sobre a história deles, mas os dois pareciam feitos um para o outro e era até um pouco difícil imaginá-los na situação em que ela estava, com medo de se entregar àqueles sentimentos novos e se decepcionar.
- Que tipo de dúvida você tinha? - perguntou curiosa.
- Quando ele foi jogar no Bordeaux, eu precisei largar tudo pra ir com ele - disse e soltou um longo suspiro. - Você deve saber que a gente morava em uma espécie de república e foi lá onde nos conhecemos. Levou um tempão até seu tio ter coragem de me dar um oi, inclusive. Éramos muito tímidos - ela comentou, rindo ao se lembrar das inúmeras vezes que os dois cruzavam um com o outro pela casa e, apesar da intensa troca de olhares, nenhum dos dois dizia nada. - Ele jogava no AS Cannes e eu estudava em uma academia de dança, queria ser professora de ballet. Quando ele conseguiu juntar um dinheiro, alugou um apartamento e fomos morar juntos, mas, pouco tempo depois, ele recebeu a oferta do Bordeaux. Como era muito difícil manter um namoro à distância naquela época, eu sabia que, se não o acompanhasse, a gente terminaria em pouco tempo… E eu não queria isso, tinha certeza de que ele era o homem com quem eu queria me casar, então larguei tudo em Cannes e fui pra Bordeaux com ele. Consegui um emprego como vendedora em uma ótica e essa foi minha ocupação até a gente decidir se casar - ela contou e acabou rindo ao ver a surpresa no rosto da afilhada, que não sabia daquele último detalhe.
Alaina sempre pensara que a madrinha havia abandonado a dança com o nascimento do primeiro filho para se dedicar única e exclusivamente a cuidar de Enzo e, posteriormente, de Luca, Théo e Elyaz também. Não sabia que, na verdade, havia parado de dançar muito antes disso e por causa da carreira de jogador de futebol do namorado.
- Ter abandonado a dança pra viver o sonho do meu tio não te incomoda?
- Não vou mentir pra você, eu me senti uma fracassada por muito tempo, mas, quando eu paro pra pensar em tudo que construímos juntos, sinto que fiz a escolha certa - respondeu com um sorriso verdadeiro estampando seu rosto. Em seguida, fez uma careta. - Até enfrentar minha mãe valeu a pena. Ela só foi começar a gostar do quando o Théo já era nascido, acredita?
Alaina não pôde evitar rir. Era cômico imaginar que uma sogra só parasse de implicar com um genro que ela não aprovava após o nascimento do terceiro neto.
- Eu tenho uma lembrança de quando o Luca nasceu - ela falou, tentando recuperar a cena de quase vinte anos antes gravada em sua memória. - Vocês demoraram pra conseguir avisar meu tio e a Francine usou isso pra esculachar ele, né?
- Sim - a outra respondeu, rindo. - O hobby favorito da minha mãe era procurar motivos pra me fazer pedir o divórcio e, dessa vez, o seu tio deu um de bandeja.
- O que ele fez? - Lena questionou, franzindo o cenho em confusão.
- Tudo começou quando eu entrei em trabalho de parto quando o estava concentrado com a seleção pra Copa de 98 e ninguém conseguia entrar em contato com ele…

🏆🌟⚽

Marselha, maio de 1998.

De olhos fechados, respirou fundo e, enquanto acariciava sua barriga de 35 semanas com ternura, expirou o ar lentamente.
Havia sido pega de surpresa por leves contrações no dia anterior e, imediatamente, entrou em contato com o obstetra que vinha acompanhando sua gravidez. O médico pediu que ela se mantivesse em repouso e receitou um remédio para aliviar a cólica. Entretanto, as dores não diminuíram e as contrações foram ficando mais intensas conforme as horas se passavam.
estava tranquila, bem mais calma do que esteve durante o trabalho de parto de Enzo, seu primogênito. Mesmo que aguardasse o nascimento do neném somente para o início do mês seguinte, havia passado por tudo aquilo três anos antes e sabia o que esperar de um parto. Ela só desejava que pudesse ver o rostinho de Luca o mais rápido possível. Mesmo antes de vir ao mundo, o garoto já começava a mostrar sua personalidade forte.
- Mãe, tenta falar com o mais uma vez.
Francine, que acompanhava a filha no banco traseiro do táxi que as levava até o hospital, bufou.
- Eu já tentei um milhão de vezes, ele simplesmente não atende o celular.
- Eu sei, mas tenta de novo - falou, pela primeira vez demonstrando um pouco de preocupação desde que ligou para a mãe algumas horas mais cedo e pediu que ela a acompanhasse até o hospital. - Liga pra Lila e diz pra ela pedir pro Farid ou pro Nourredine entrarem em contato com o hotel.
- Querida, esquece o . Os irmãos dele já estão fazendo o possível pra entrarem em contato com ele - a mais velha rebateu em um tom firme e pôs a mão que não segurava a da filha sobre a barriga que servia de abrigo para seu neto, mas que logo deixaria de servir. - Você tem que se preocupar é com essa criança que está prestes a nascer.
meneou a cabeça, concordando, e soltou um longo suspiro. Sabia que, no final das contas, aquilo não faria diferença, Luca nasceria dentro de algumas horas de uma maneira ou de outra. Porém, ela não podia negar que o fato de seu marido estar concentrado com a Seleção sem ter a mínima ideia de que o segundo filho deles nasceria durante aquela madrugada, causava um certo incômodo.

🏆🌟⚽

Paris, maio de 1998.

O trabalho de preparação para a Copa do Mundo da Seleção vinha sendo intenso. Naquele ano, além de terem uma seleção forte o bastante para conquistar o título inédito para o país, eles estariam jogando em casa, o que fazia com que a pressão fosse ainda maior, mas, apesar disso, todos estavam prontos para a estreia no torneio, que seria em menos de duas semanas.
Depois de disputarem um amistoso no dia anterior, o treinador presenteou seus jogadores com uma noite de folga naquela terça-feira. O único compromisso do time havia sido a realização de alguns exercícios de recuperação pela tarde e, então, os mais festeiros surgiram com a ideia de curtir algum clube noturno da cidade em que estavam hospedados que foi acatada pelo time quase inteiro. O fato de a noitada ter sido bem no meio da semana não fez qualquer diferença, a diversão foi garantida com música alta, bebida liberada e muitas mulheres loucas por chamarem a atenção de algum dos jogadores da seleção.
não era muito de festas, sempre havia sido um cara mais caseiro e prezava pela sua vida pessoal mesmo defendendo a camisa de um dos maiores clubes do mundo, a Juventus, e sendo uma estrela do futebol mundial. Naquele dia, porém, ele decidiu acompanhar seus amigos, beber e jogar conversa fora. Esteve junto a Didier Deschamps, Laurent Blanc, Emmanuel Petit e Thierry Henry por horas (pelo menos até os dois últimos arranjarem companhias femininas), e o grupo entrou madrugada adentro em meio a um papo divertido e muitas gargalhadas. Quando todos estavam cansados e bêbados o suficiente, voltaram para o hotel em uma das vans alugadas pela confederação.
Adentrando o hall do hotel com seus companheiros de time e as duas moças que acompanhavam Petit e Henry, ria de alguma besteira qualquer dita por Blanc, que se tornava simplesmente hilário quando bebia.
- Com licença, Sr. - disse a recepcionista, o fazendo parar no meio do caminho até o elevador.
- Sim? - ele indagou, mostrando-se solícito ao imaginar que a jovem fosse pedir uma foto ou um autógrafo.
- O seu irmão Noureddine nos ligou e pediu para que o senhor retornasse a ligação o mais rápido possível.
franziu o cenho e fez sinal para os outros jogadores subirem sem ele antes de se aproximar do balcão.
- Ele disse do que se trata?
- A sua esposa - a outra começou e foi o suficiente para que o coração do jogador batesse com mais força ao mesmo tempo que mil e uma hipóteses do que poderia ter acontecido com passavam por sua cabeça -, ela entrou em trabalho de parto.
Enquanto absorvia as palavras ditas pela moça, ele prendeu a respiração e a encarou por alguns segundos sem piscar os olhos.
- Eu posso usar seu telefone? - perguntou ao sair do estado de choque.
Se sentia aliviado, em parte, por saber que nada de ruim tinha acontecido, mas estava apreensivo pela possibilidade da existência de algum risco naquele nascimento prematuro de seu filho.
- É claro. Fique à vontade - a recepcionista falou e o entregou o telefone sem fio.
discou o número do celular de Nourredine o mais rapidamente que conseguiu e esperou, impacientemente, que ele atendesse.
- Alô.
- Irmão, é o . Como assim a entrou em trabalho de parto?
- Finalmente! Faz horas que a gente tá tentando falar com você - o outro disse, demonstrando o alívio que sentia em um suspiro. - Ela começou a sentir contrações ontem e, agora pela noite, as dores ficaram fortes, mas pode ficar tranquilo porque o obstetra acompanhou tudo. Já a levaram pra sala de parto tem pouco mais de uma hora. Eu, Lila e Francine estamos aqui no hospital.
- Eu vou pedir autorização pra comissão técnica e estou indo para aí - falou, decidido.
Mesmo que não fosse autorizado a passar o dia fora, não havia nada nem ninguém que pudesse impedi-lo de ir apoiar sua esposa e conhecer seu segundo filho.
- Liga pro Farid. Ele ficou de reservar uma passagem pra você e resolver tudo.
- Certo, vou fazer isso - o jogador disse e respirou fundo. - Nourredine, cuida deles até eu chegar.
- Sempre que precisar, .

🏆🌟⚽

Marselha, maio de 1998.

- Ele é tão fofinho - a garotinha disse, deixando que o neném, acomodado nos braços de , segurasse seu dedo indicador. Bufou, em seguida, e continuou: - Eu queria tanto um irmãozinho, mas minha mãe e meu pai não querem me dar um.
A mais velha riu levemente, fitando a expressão emburrada da afilhada.
- Mas seus primos são seus irmãozinhos, Lena - ela disse, brincando com o cabelo da menina, que estava preso em uma trança. - O Enzo, o Mehdi, o Drisse… E agora também tem o Luca.
- Não é a mesma coisa, tia. Eles não moram comigo - Alaina rebateu, fazendo uma careta que achou mais fofa do que qualquer outra coisa. - Posso segurar ele?
- Mais tarde eu deixo, tudo bem? Ele tá quase pegando no sono - a outra respondeu, sorrindo, e piscou um olho.
A menina não se importou muito, apenas assentiu com a cabeça e continuou admirando seu mais novo priminho com um pequeno sorriso nos lábios.
Alaina era a filha única de Nourredine, o irmão mais próximo a e que era também seu agente, quem tomava conta de cada detalhe de sua carreira como futebolista. Havia sido a primeira da nova geração da família a nascer, oito anos antes, e logo conquistou a todo mundo por ser um bebê tão risonho. era apenas namorada de na época, mas sequer pensou em recusar o convite de Sylvie para ser madrinha da menina, já que eram duas católicas entrando para uma família de muçulmanos, e acabou criando laços tão fortes com Lena que, às vezes, sentia como se ela fosse também sua filha.
Depois de se curvar sobre a cama para depositar um beijo na testa de Luca, Alaina se afastou e foi se sentar no sofá ao lado de Enzo, que dormia feito pedra.
Conhecer seu primeiro irmãozinho acabou não o envolvendo tanto quanto o sono que o menino sentia por ter acordado tão cedo para acompanhar os tios e a prima até o hospital em que sua mãe estava.
Alguns minutos depois, a porta do quarto foi aberta em um rompante, quebrando o silêncio agradável que havia se instalado no ambiente. Francine foi quem adentrou o cômodo apressadamente e apenas a assistiu pegar o controle da televisão e ligar o aparelho sem entender patavinas do que estava acontecendo.
- Olha por onde seu marido andava enquanto você estava parindo - ela disse em um tom acusador, apontando para a TV.
O aparelho mostrava um programa esportivo que dava as últimas notícias sobre a Seleção e, naquele momento especificamente, falavam sobre a noite de folga que os jogadores tiveram em um clube noturno parisiense. Os cinegrafistas haviam conseguido imagens do time retornando em grupos ao hotel durante a madrugada e sentiu como se um buraco abrisse em seu estômago ao reconhecer um alegre demais para estar sóbrio.
Talvez ela não desse muita bola, caso não tivesse notado duas mulheres desconhecidas adentrarem o hotel junto a ele e outros quatro jogadores, mas não pôde simplesmente ignorar esse detalhe.
- Eu te falei que se casar com jogador de futebol era idiotice, - Francine disse aos sussurros, sem dar a chance de ela dizer qualquer coisa. - Ele até pode ser uma boa pessoa, mas é como todos os outros. Olha lá! As primeiras maria-chuteiras que veem pela frente já estão levando pro hotel! E isso porque era pra estarem preocupados com a Copa do Mundo.
- Mãe… - tentou falar, mas foi interrompida.
- E enquanto isso você tá aqui botando o filho dele no mundo.
- Chega, mãe! - ela disse em um volume de voz um pouco mais alto, fazendo a outra se calar. Olhou para o sofá rapidamente e encontrou Alaina encarando Francine com os olhos levemente arregalados e um Enzo desperto, sonolento e confuso com a cena. - Eu sei que você nunca foi a favor do meu casamento, mas ele é o pai dos meus filhos e você tem que respeitar isso.
- Que paizão, hein? Não tá presente nem no nascimento do próprio filho.
- É o trabalho dele, mãe. O que você queria? - rebateu e bufou, irritada. - Além do mais, você sabe muito bem que ele largou tudo pra vir pra cá assim que soube que o Luca estava nascendo. Daqui a pouco tá chegando.
- Depois de quase ligarem pro Papa João Paulo II atrás dele, o mínimo que ele podia fazer era largar as marias-chuteiras e vir conhecer o filho - a mais velha disse, revirando os olhos, e desligou a televisão com o controle remoto. - Eu só estou te alertando pra você não fazer papel de boba.
- Se eu estiver fazendo papel de boba, o problema é meu.
Francine soltou um longo suspiro, enquanto observava a filha ninar o bebê recém-nascido com a cara fechada, e, se dando por vencida, se retirou do quarto.

🏆🌟⚽

Marselha, maio de 1998.

só chegou à sua cidade natal por volta das 9h30min da manhã. Mesmo que Farid tivesse feito de tudo para encaixá-lo em um voo que o permitisse chegar mais cedo, aquele havia sido o único ainda pela manhã que conseguiu. Além do sono, uma dor de cabeça decorrente da leve ressaca ocasionada pela bebedeira da noite anterior atormentava o jogador, mas ele apenas ignorava tudo o que sentia enquanto procurava pelo irmão, que estava o esperando no aeroporto para levá-lo até o hospital.
Logo que avistou Farid ao longe, se aproximou e os dois se cumprimentaram com um abraço.
- Você tá horrível - o mais velho disse, rindo levemente, e pegou a mochila que carregava por apenas uma alça. - A noite foi mesmo boa, uh? Eu estava quase indo até Paris te buscar.
- Se eu imaginasse que o Luca estava nascendo, não teria saído com os caras. Por que ninguém me avisou quando a começou a sentir dores? - ele perguntou, soando aborrecido, enquanto caminhavam em direção à saída do aeroporto, ambos de boné e óculos escuros para evitar chamarem a atenção.
- Ela não quis preocupar ninguém, poderia ser apenas um alarme falso. A gente só ficou sabendo quando ela já estava de saída pro hospital.
soltou um longo suspiro. Compreendia o raciocínio da esposa de não querer movimentar todo mundo à toa, pois ele próprio largaria tudo no momento que soubesse sobre a primeira contração, mas ainda achava que deveria ter sido avisado mesmo que não fosse a hora de o bebê nascer.
- Como ele é? - perguntou, fitando o irmão, que mostrou um sorriso fechado.
- É a sua cara. Vamos torcer pra que não seja tão feio - Farid brincou, o fazendo rir baixo, e o empurrou pelo ombro.
Os dois não demoraram mais do que vinte minutos para estarem passando pela porta de vidro do hospital. Subiram até o terceiro andar e, logo que saíram do elevador, reconheceu a sogra encostada em uma parede do corredor, de braços cruzados. Parecia estar de péssimo humor.
- Tá tudo bem, Francine? - ele perguntou ao ter sua presença notada.
- Não tão bem quanto você, né? - ela retrucou com ironia, fazendo o jogador franzir o cenho.
- Francine - Farid a chamou ao perceber a tensão que começava a se formar no ambiente -, sabe se o Nourredine e a Sylvie estão lá dentro?
- Não, eles foram buscar os pais de vocês - respondeu, referindo-se a Malika e Smail . Indicando uma das portas do corredor com a cabeça, completou: - A ficou com as crianças.
- Certo - o outro disse e pôs uma das mãos no ombro de . - Eu vou na recepção ligar pra Lila, ela pediu pra avisar quando você chegasse.
O jogador concordou com a cabeça, contente por saber que logo teria seus irmãos e pais reunidos pelo nascimento de seu segundo filho, e observou o irmão fazer o caminho de volta até o elevador. Quando se voltou para Francine novamente, a encontrou o encarando com um olhar cortante.
Seu relacionamento com a sogra nunca havia sido dos melhores e tinha plena consciência de que, se ela pudesse escolher, jamais iria querer como genro um jogador de futebol que havia feito sua filha abandonar os estudos e a família em Cannes para acompanhá-lo para qualquer cidade ou país que ele tivesse que ir. Por mais que se esforçasse para mostrar que amava e que fazê-la feliz era sua prioridade na vida, parecia que ele nunca conseguiria conquistar a simpatia de Francine. Sentia-se bastante frustrado quando parava para pensar sobre o assunto.
Como sempre fazia, apenas ignorou o ar de reprovação nos olhos da sogra e andou na direção do quarto. Respirou fundo e, calmamente, abriu a porta, temendo que ou Luca estivessem dormindo.
- Tio!
- Papai!
Foi impossível conter o sorriso ao ver as duas crianças correndo na sua direção. Quando Alaina o abraçou pela cintura e Enzo se agarrou a uma de suas pernas, ele se inclinou para depositar um beijo no topo da cabeça de cada um.
- Vocês cuidaram direitinho do Luca enquanto eu não chegava? - ele questionou em um tom divertido e riu baixo quando ambos concordaram com a cabeça.
- Vem, tio! Você precisa ver ele! - Alaina exclamou, o pegando pela mão.
Só então, enquanto era puxado na direção da cama, levantou os olhos e encontrou com o bebê aconchegado em seus braços e sussurrando algo para o filho. Embora não conseguisse compreender uma palavra sequer devido ao volume de voz tão baixo, a cena trouxe uma paz para o coração de , que estava agitado desde que recebera a notícia de que seu filho estava nascendo. Ele sentia-se aliviado vendo com seus próprios olhos que os dois estavam bem.
se calou quando os três se aproximaram da cama e levou o dedo indicador aos lábios para pedir silêncio a Alaina e Enzo, que estavam agitados com a chegada de .
O homem se inclinou para depositar um beijo nos lábios da esposa e, em seguida, outro na testa do filho recém-nascido. Um sorriso estampou seu rosto conforme contemplava a fisionomia de Luca pela primeira vez e o menino o encarava com os olhinhos curiosos que eram tão familiares.
- Ele herdou os seus olhos - ele comentou, fazendo a esposa levantar a cabeça para fitá-lo nos olhos.
- Acho que sim - ela disse sem demonstrar qualquer tipo de emoção e voltou a observar o filho.
sentiu algo ruim tomar conta de seu peito quando percebeu que aquela cena não se parecia em nada com a do nascimento de Enzo, apesar de os dois estarem praticamente nas mesmas posições em que estiveram quando ele conheceu o primeiro filho. Na cena de três anos antes, sorria de orelha a orelha e tinha um brilho nos olhos, totalmente diferente da impassibilidade que ela tinha estampada no rosto na cena que acontecia naquele instante.
- Aconteceu alguma coisa? - questionou cautelosamente. - Primeiro a sua mãe quase solta os cachorros em mim, agora você tá com essa cara…
- Eu não sei, - após alguns segundos de silêncio, respondeu. - É você quem tem que dizer se aconteceu alguma coisa, não fui eu quem sumiu enquanto minha esposa estava dando à luz.
O jogador soltou um longo suspiro.
- Me desculpa, eu saí com o pessoal ontem à noite e voltamos pro hotel de madrugada.
- É, eu sei que você saiu com o pessoal - a outra rebateu com um sarcasmo que, embora quase imperceptível, percebeu. - Na verdade, o país inteiro sabe porque passou na televisão. Todo mundo sabe, inclusive, que vocês voltaram acompanhados.
- Você tá falando das duas mulheres que estavam acompanhando o Thierry e o Emmanuel? - o outro questionou, dando ênfase aos nomes dos companheiros de seleção e a outra, como resposta, apenas levantou os ombros. - , você realmente acha que eu seria capaz de te trair?
A mulher permaneceu calada por algum tempo, fitando a incredulidade no rosto do marido.
- Lena, leva o Enzo lá pra fora e pede pra vovó Francine acompanhá-los até a lanchonete pra vocês comerem alguma coisinha - disse e a menina, que assistia a conversa que se desenrolava sem entender o que estava acontecendo, assentiu com a cabeça.
- Vem, priminho - ela falou, pegando a mão de Enzo.
observou as duas crianças se retirarem do quarto e, assim que a porta foi fechada, voltou a encarar a esposa.
- Eu não acredito que a gente tá tendo esse tipo de estresse depois de quase dez anos juntos - ele disse, deixando sua indignação mais do que clara.
- Você pode colocar ele no berço? - perguntou, ignorando sua fala.
Quando tirou Luca de seus braços, ela sentiu um alívio instantâneo percorrer pelos músculos de seus membros superiores. Fazia quase meia hora que estava naquela mesma posição.
O homem ficou algum tempo ninando e observando o bebê sonolento em seus braços até deixá-lo no berço ao lado da cama cuidadosamente.
- Mesmo tendo passado meses me acostumando com a ideia de que o Luca nasceria enquanto você estaria longe, disputando a Copa, eu não estava preparada pra isso - ele ouviu a voz de dizer, baixa e calma, e se virou para encarar a esposa. - Pra piorar, esse nascimento antes da hora me pegou de surpresa e eu fiquei apavorada por você não estar aqui comigo. Foi desesperador tentar falar com você e não te achar em canto nenhum. Eu fiquei preocupada, pensando que algo poderia ter acontecido.
- … - ele tentou dizer algo que a confortasse em resposta, mas foi cortado.
- Aí eu vejo na televisão você chegando bêbado ao hotel e acompanhado de duas mulheres… - ela continuou a falar, se desencostando do travesseiro para ajeitá-lo sem muita delicadeza e bufou. - Pra completar, ainda tive que aturar minha mãe jogando isso tudo na minha cara e dizendo que me casar com você foi uma idiotice.
soltou um longo suspiro, sentindo-se frustrado, e se aproximou da cama a passos lentos.
Que Francine não era a sua maior fã não era nenhuma novidade, mas costumava deixar as palavras da mãe entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, nunca se deixava levar pelas coisas que ela tentava enfiar em sua cabeça.
- , deixa eu te falar uma coisa - disse baixo para evitar incomodar o neném, pondo as mãos sobre as da esposa. - A sua mãe me odeia por eu ter te levado pra longe e eu entendo o lado dela. Acho que, com o passar dos anos, a gente vai acabar provando pra ela e pra todo mundo que duvidou e ainda duvida da gente que isso que temos é verdadeiro, mas, sinceramente, eu não estou nem aí pra o que as pessoas pensam. O que eu não quero é ver você duvidando do nosso casamento - ele falou e, por alguns segundos, encarou os olhos marejados da esposa. Em um sussurro, questionou: - Você realmente acha que foi uma idiotice ter se casado comigo?
- Claro que não, - respondeu sem sequer pensar, o fazendo suspirar aliviado.
- Eu não tive nada a ver com aquelas mulheres terem ido lá pro nosso hotel. Como eu disse, elas foram pra lá com o Petit e o Thierry. Não aprovo a atitude deles, porque, mesmo que estivéssemos de folga, é um ambiente de trabalho, mas eles são bem grandinhos e podem responder pelas besteiras que fazem - o jogador falou categoricamente. Soando bastante sincero, completou: - E eu não tenho motivo pra te trair, . Você é minha esposa, mãe dos meus filhos e eu jamais teria coragem de acabar com a melhor coisa que já me aconteceu.
A mulher meneou a cabeça, mostrando que acreditava nas palavras dele, e deixou algumas lágrimas rolarem por suas bochechas.
- Me desculpa. Eu fiquei muito estressada com isso tudo e… - ela começou, mas levou o dedo indicador aos seus lábios, fazendo-a se calar.
- Acho que ninguém aqui precisa se desculpar por nada. Eu sinto muito por esse desencontro, mas aconteceu e não temos como voltar no tempo e fazer diferente. O importante é que o Luca nasceu com saúde e que logo, logo o Enzo vai ter com quem jogar futebol - ele falou com diversão e riu.
- É, logo você vai ter o seu tão desejado time de futebol - ela falou, sorrindo. - A gente precisa ter pelo menos uma menininha pra me fazer companhia.
- Não me oponho à ideia, mas os meninos serão ótimas companhias pra você também.
- Eu sei, estou só brincando. Em todo caso, a Lena já é minha aliada - ela falou e, em seguida, o sorriso que tinha nos lábios foi substituído por uma careta. - Ok, nem tanto assim, essa daí também respira futebol.
riu anasaladamente. Era a mais pura verdade, a afilhada, com apenas 8 anos, era completamente apaixonada por futebol.
- Acho que vou pedir uns dias de folga, o que você acha? - ele questionou, mudando de assunto. - Só vamos ter um último amistoso antes da Copa, não teria problema se eu ficasse de fora. Assim, a gente pode curtir juntos os primeiros dias do Luca.
- Curtir? Você sabe muito bem que os primeiros dias são os piores - falou, soltando uma gargalhada, e pôs as mãos na boca ao perceber que havia rido alto demais.
- E daí? Desde que estejamos juntos, até um bebê chorando dia e noite nos nossos ouvidos parece empolgante - falou, sincero, fazendo a esposa esboçar um sorriso enquanto rolava os olhos.
- Você é muito bobinho, mas eu te amo - ela disse, observando o rosto do jogador se aproximar do seu.
- Eu também te amo - ele falou contra os lábios de antes de grudar suas bocas e dar início a um beijo calmo e apaixonado.

🏆🌟⚽

Madrid, dezembro de 2016.

- Vocês são o meu casal favorito, sabia? - foi tudo o que Alaina conseguiu pensar em dizer quando a tia terminou de narrar a pequena confusão que se desencadeou no nascimento de Luca. As partes vividas por com menos detalhes, é claro, mas eles haviam conversado sobre aquele dia tantas vezes que quase sentia como se estivesse estado com o marido o tempo inteiro. - É sério, eu não conheço outras duas pessoas que combinem tanto. Vocês formam um casal tão bonito.
- Eu também acho - disse, deixando a modéstia de lado, e sorriu. - A gente passou por outros incidentes, esse não foi o único. E minha mãe volta e meia tentava me botar contra o seu tio. Era bem desgastante às vezes, mas nós procuramos trilhar nosso caminho sem que nada disso nos atingisse. Sem contar a questão de a mídia sempre ficar nos nossos pés, foi complicado dar uma vida normal pros meninos, fora dos holofotes. De vez em quando a gente se desentendia por causa disso.
- Eu nem lembro de ter visto vocês brigados alguma vez - Lena pontuou, pensativa.
- Claro que a gente briga, como qualquer casal, mas nunca é tão sério. Nós somos resistentes, não é qualquer tempestadezinha que nos abala - a outra respondeu em um tom divertido que fez a afilhada rir.
Alaina nunca havia sido uma garota de sonhar em encontrar sua alma gêmea, por quem se apaixonaria, com quem se casaria e teria filhos e formaria uma vida de fazer as pessoas de fora suspirarem ou sentirem inveja. Seu foco sempre havia sido ser uma técnica de futebol de sucesso e prestígio, o que ela ainda buscava ser, mas, às vezes, a cumplicidade de seus padrinhos fazia despertar nela uma pequena vontade de dividir a vida com alguém.
- Os seus sentimentos por ele sempre foram os mesmos? - Lena questionou. - Quer dizer, é que são tantos anos que vocês estão juntos… Eu não consigo entender como um casal pode ficar tanto tempo junto sem um enjoar da cara do outro. Meu namoro com o Jérémy durou dois anos e meio e, quando eu terminei, me senti até mais leve - completou, fazendo uma careta que fez a outra gargalhar.
- Não sei se é assim com todo mundo, mas eu ainda gosto do seu tio na mesma intensidade de quando a gente começou a namorar - respondeu, sorrindo. - Ele ainda faz meu coração disparar de um jeito que me deixa até sem graça às vezes. Me sinto uma adolescente bobinha e apaixonada.
Assim que ela terminou de falar, uma batida na porta chamou a atenção das duas.
- ? Lena? - elas escutaram a voz de falar do corredor e Alaina não pôde segurar a risada ao ver as bochechas da madrinha corarem.
- Pode entrar, tio!
A porta logo se abriu e revelou o homem de pijama e com o rosto amassado de sono.
- Sobre o que vocês tanto tagarelam, hein? - questionou e assistiu às duas se entreolharem.
- Tem certeza de que quer saber? - questionou com um sorrisinho esperto nos lábios.
- Esquece, eu prefiro ficar na ignorância mesmo. Vocês não acham que tá meio tarde pra ficar de fofoquinha?
- Tio, estou sabendo que você andou aprontando antes da Copa de 98, hein? A tia estava aqui me contando essa história. E que a Francine te venerava nessa época - Alaina debochou, fazendo o mais velho rir.
- A Francine só parou de implicar comigo na época que ela passou uns meses com a gente aqui em Madrid quando o Théo era bebê. Foi quando ela, finalmente, se deu uma chance de me conhecer melhor.
- Hoje em dia é Deus no céu e na terra - falou, rolando os olhos, mas acabou rindo junto com os outros dois. Puxou a sobrinha para um abraço, em seguida, e disse: - Boa noite, Lena. E pensa no meu conselho. Vamos evitar arrependimentos futuros.
Piscou um olho enquanto levantava da cama e a mais nova concordou com a cabeça.
- Boa noite, Lena - disse, ainda parado no batente da porta.
- Boa noite pra vocês dois - a mais nova disse e observou ir até o marido.
O casal trocou um olhar apaixonado antes de entrelaçar as mãos e sair do quarto juntos.





Fim.



Nota da autora: Oi, gente! Adorei ter escrito essa short pra “Boom!”, uma das minhas músicas favoritas do Taking One for the Team e espero que vocês tenham gostado de viver um pouco da história dos padrinhos da PP de Bola de Ouro na pele da Véronique.
Se você leu essa short e ainda não conhece Bola de Ouro, está mais do que convidada a ler e participar desse mundinho! Lá você vai conhecer melhor a Alaina, que teve uma participação aqui como sobrinha e afilhada dos PPs, acompanhar a ida dela pro Real Madrid e também saber se ela vai seguir os conselhos dados pela tia. hahaha
Se quiser bater um papo e ficar por dentro das novidades sobre as minhas fics, é só entrar no grupo do Facebook.
Beijos!





Outras fanfics relacionadas:

Bola de Ouro
10. A.D.I.D.A.S.
10. La Bicicleta
11. Private Show
Bola de Ouro: Éxtasis


Nota da Beta: OTP DA MINHA VIDA!! Que amor, que casal, quês pessoas maravilhosas! Eu os venero tanto, mais tanto, que nem cabe em mim. Obrigada por essa short, Babi, amei esse trechinho da história deles, inclusive acho bem digno uma fic só deles viu, fica a dica. E acho bom dona Alaina seguir a voz da razão mesmo, senão a gente acaba com a raça dela hahaha
Agora quero ver todo mundo deixando um lindo comentário pra Babi aqui embaixo e indo ler Bola de Ouro em seguida pra se apaixonarem num certo príncipe aí. Ah e fiquem a vontade pra ler as outras fics igualmente maravilhosas desse lindo ficstape. Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus