Finalizada em: 28/05/2016

Capítulo Único

- 2010 -

I've got fire for a heart
I'm not scared of the dark
You've never seen it look so easy


Caí com um baque no chão. Eu ainda conseguia sentir as travas da chuteira do adversário se chocando contra minha canela, mas tal incômodo foi completamente esquecido quando senti uma pontada no joelho se irradiar por toda minha perna direita. A dor era quase alucinante e, para a minha infelicidade, era bastante familiar também. Eu sentia meu joelho direito latejar, o mesmo joelho que fora operado há menos de quatro meses, fazendo com que uma onda de desespero se dissipasse por todo meu corpo. Involuntariamente, levei minhas mãos ao meu rosto, tentando conter algumas lágrimas que se misturavam com o suor. Lágrimas de dor e angústia por pensar que a mesma lesão que me impediu de jogar durante três meses pudesse ter voltado para me assombrar.
Em meio às vaias da torcida, eu podia escutar meus colegas de equipe proferirem palavras nada simpáticas para o zagueiro do Benfica responsável pelo carrinho desleal que me levou ao chão. Os dois fisioterapeutas da equipe se aproximaram, afobados, e me fizeram diversas perguntas que respondi monossilabicamente. Após receber um analgésico e uma rápida massagem, pude ficar novamente de pé.
- Dá para segurar até o final do jogo? - um dos fisioterapeutas perguntou em um tom de voz alto, próximo ao meu ouvido, e eu prontamente assenti, mesmo que a dor estivesse estampada no meu rosto.
- É melhor fazer a substituição logo - o outro fisioterapeuta interveio com preocupação. - É o joelho direito de novo, , essa lesão pode ser coisa séria.
- Não, está tudo bem - falei de imediato, pisando mais forte com meu pé direito para constatar que a dor era suportável. - Dá para continuar.
Não esperei que qualquer um dos dois contestasse minha decisão e fiz um sinal para o árbitro para que ele soubesse que estava tudo bem e, então, pudesse dar prosseguimento ao jogo.
Até o final da partida, a dor estivera ali, me acompanhando, crescendo consideravelmente nos momentos que eu corria com maior velocidade, mas eu não podia deixá-la se tornar um obstáculo e me derrubar. Eu precisava ajudar minha equipe, nós tínhamos um jogo para virar. Aquela era a partida de volta das quartas de final da UEFA Europa League e estávamos perdendo por 1-0, sendo que, no placar agregado, perdíamos por 3-1, pois a partida de ida havia sido 2-1 para o Benfica. Precisávamos de pelo menos dois gols para igualar o resultado e levar a disputa para a prorrogação. Me lembrei de quando , antes de eu sair de casa na manhã daquele mesmo dia, brincou que eu faria dois gols, um para ela e outro para , nossa filha que havia acabado de completar 9 meses de vida. Eu ainda conseguia escutar a voz da minha esposa ecoando na minha cabeça, os lábios dela tocando os meus em um beijo repleto de carinho, e foi o que me deu forças para suportar a dor e marcar dois gols, exatamente como eu havia prometido. Somados aos dois gols de outros jogadores do meu time, vencemos aquela partida por 3-1 e fechamos o placar agregado com 5-3.
Quando o apito do árbitro sinalizou o final do jogo, meu joelho lesionado estava inchado e eu, provavelmente, estava com um problema gigantesco que poderia me custar caro, mas meu objetivo daquele dia estava cumprido. O Liverpool estava nas semifinais UEFA Europa League e enfrentaria o time no qual iniciei minha carreira, o Atlético de Madrid.

- 2001 -

I got a river for a soul
And baby you're a boat
Baby, you're my only reason


- Acorda, - uma voz suave sussurrava, mas parecia tão distante. Mesmo que eu não conseguisse distinguir quem me chamava, aquela voz era bastante familiar. - , - meu apelido continuou a ser sussurrado com tanta delicadeza que me fez sentir uma paz crescer dentro de mim e eu até conseguia sentir meus lábios esboçarem um sorriso. - , a gente vai se atrasar para a prova!
Abri os olhos, assustado com aquela súbita irritação expressa na voz anteriormente tão calma, enquanto duas mãos me chacoalhavam, e me deparei com alguém me fitando de perto.
- ? O que está acontecendo? - perguntei quando, finalmente, meu estado sonolento me permitiu reconhecer a garota em pé ao lado da minha cama.
- Você está atrasado, só para variar - falou, impaciente. - Anda logo, senão a gente vai perder a prova de Matemática.
- Caralho, se eu perder essa prova estou fodido! - exclamei e, após jogar o cobertor para o lado de qualquer jeito, me levantei da cama em um pulo.
- Olha a boca suja… Porra, ! - ela começou a reclamar, mas acabou exclamando outro palavrão, o que me fez rir. - Se você continuar dormindo só de cueca, eu vou parar de vir te acordar.
- Quem tem a boca suja mesmo? - questionei, lançando um olhar divertido na direção dela, e, em seguida, me aproximei do guarda-roupa para pegar o uniforme da escola. - Isso é medo de não resistir ao meu corpinho sarado?
- Me poupe, . Não tem nada demais aí, só tem pele e osso.
- Assim você me magoa, .
- Tanto faz - ela falou, rolando os olhos. - Só se arruma rápido, se eu perder a prova por sua causa, vou te matar.
- Você quem manda, Capi.
Ri quando ela rolou os olhos mais uma vez, dessa vez por tê-la chamado pelo apelido que ela mais odiava que eu a chamasse, e beijei sua bochecha antes de deixar o quarto e seguir em direção ao banheiro no fim do corredor para escovar os dentes, lavar o rosto e trocar de roupa, já que não daria tempo de tomar banho. Eu não tinha tempo sequer para lamentar pela falta de banho, senão não chegaria a tempo de fazer a prova de Matemática, matéria que estava quase me reprovando em pleno último ano da escola. E eu não podia, de forma alguma, me dar o luxo de jogar um ano de estudo no lixo quando estava prestes a ter a oportunidade da minha vida no clube de futebol pelo qual eu torcia desde que me entendia por gente. Aquilo poderia atrapalhar minha carreira como jogador de futebol profissional que nem havia começado ainda.
Entretanto, graças a Deus, existia.
para os mais íntimos, carinhosamente apelidada por mim de Capi - uma forma reduzida de “capitã” -, minha vizinha, colega de turma e melhor amiga desde os 7 anos. O dia que nos conhecemos ainda estava vivo na minha memória como se tivesse acontecido há poucos dias, não há uma década.
Estávamos em plenas férias de verão de 1991 e, como de costume, eu estava jogando futebol com meus amigos do bairro, até que um caminhão despontou no início da rua e fomos obrigados a interromper o jogo por alguns minutos para não sermos atropelados. A família estava se mudando para a casa ao lado da minha e logo uma garotinha tagarela veio se apresentar para a gente e nos obrigou a deixá-la participar do jogo. Meio a contragosto, acabamos deixando, já que os pais dela estavam por perto e não queríamos arranjar confusão. Acabei descobrindo que ela era uma ótima goleira da pior forma, já que defendeu inúmeros chutes a gol meus. Aquilo me deixou bastante irritado, pois eu era o melhor atacante do bairro e não conseguir marcar gol em uma garota, naquela época, era um insulto para mim. Apesar da forma não muito amistosa que nos conhecemos, descobri que ela também era torcedora do Atlético de Madrid, e aquela paixão em comum acabou nos unindo e nos tornando melhores amigos.
- Tenho uma novidade para te contar - falei ao adentrar meu quarto novamente e me deparei com guardando dentro da minha mochila os livros de que precisaríamos para as aulas daquele dia.
- Boa ou ruim? - ela questionou, levantando os olhos na minha direção com interesse.
A encarei por alguns segundos, ponderando em qual dos dois adjetivos poderia ser enquadrado o que eu estava prestes a contar, o que a fez ficar ainda mais curiosa.
- O que aconteceu, ? - ela perguntou, começando a demonstrar preocupação.
- Depende do ponto de vista - respondi e ri fraco quando ela franziu o cenho. - Fui chamado para jogar uma partida com o time principal.
Os olhos dela se arregalaram cada vez mais, conforme eu proferia cada palavra, e a surpresa em seu rosto a deixou adorável.
- Você só pode estar brincando! - ela exclamou, largando minha mochila de qualquer jeito em cima da cama, e correu na minha direção para me dar um abraço apertado.
Eu correspondi, envolvendo o corpo dela com meus braços. Enterrei meu rosto nos fios de cabelo úmidos dela e fechei os olhos, apreciando o cheiro delicioso que emanava deles.
- Isso é maravilhoso, ! Você vai estrear no time profissional, isso é tudo o que você sempre quis!
- Só tem um problema - falei quando ela se afastou e soltei um longo suspiro. - Como sou menor de idade, preciso da autorização dos meus pais.
O sorriso estampado no rosto de sumiu em um segundo quando ela se deu conta do motivo da minha hesitação.
- O que você vai fazer?
- Acho que chegou a hora de contar para eles - respondi, dando de ombros.
O futebol sempre esteve presente na minha vida; meu avô materno era torcedor fanático do Atlético de Madrid e, antes mesmo de nascer, eu já era também um torcedor do clube espanhol. Até os meus 9 anos, quando ele faleceu, era com meu avô que, todo fim de semana, eu assistia aos jogos do Atlético de Madrid logo depois do almoço ou no final da tarde. Foi ele que me levou ao estádio pela primeira vez e também quem me ensinou a jogar futebol. Diferente dele, meus pais nunca gostaram do esporte, achavam perda de tempo e, sempre que possível, me enfiavam brincadeiras educativas goela abaixo.
Sendo dois advogados de renome, o que meus progenitores mais valorizavam na vida era o estudo e exigiam que, assim como eles, eu também exercesse uma profissão considerada por eles digna de orgulho e respeito. Certa vez, quando um parente distante me perguntou o que eu gostaria de ser quando crescer, arranquei gargalhadas de meu pai e minha mãe quando respondi que queria ser atacante do Atlético de Madrid. Eles nunca levaram meu desejo de ser jogador de futebol a sério, nunca sequer perderam cinco minutos do tempo precioso deles para me verem jogar e, então, poderem decidir se eu tinha talento ou não para tal.
Eles nunca se importaram.
Foi por isso que, aos 16 anos, decidi fazer um teste para a categoria de base do Atlético de Madrid por minha conta e fui aprovado. era a única que sabia disso e, durante o último ano, me ajudou de todas as formas imagináveis a comparecer a todos os treinos e jogos do time. Lavando meus uniformes e pulando a janela do meu quarto todo dia para me acordar, por exemplo, já que eu sempre estava cansado demais para ouvir o despertador.
- Fica tranquilo, . Eles vão te apoiar - minha melhor amiga disse, quebrando o silêncio e me despertando dos pensamentos nada agradáveis que me distraíam.
- E se não apoiarem? - perguntei baixo em meio a um suspiro.
- A gente dá um jeito - ela rebateu com um sorriso doce nos lábios. O sorriso que tinha o poder de me tranquilizar nos momentos mais oportunos. - A gente sempre dá.
Dito isso, saiu pela janela, já que seria complicado explicar aos meus pais o porquê de ela estar ali àquela hora da manhã, e eu saí pela porta da frente após pegar um pacote de biscoitos na cozinha. Caminhamos juntos até a escola e entramos na sala de aula junto com a professora.
- Coloquem as listas de exercícios aqui em cima da minha mesa, por favor - a professora disse, chamando a atenção de toda a turma. - Como combinamos, essa lista vai valer três pontos da prova.
Em pânico, virei a cabeça para encarar , que estava sentada na carteira ao lado da minha. Eu tinha esquecido completamente da existência daquela bendita lista de exercícios e estava ferrado, já que começaria a prova com três pontos a menos.
- , o que seria de você sem mim?
Ela tirou duas folhas de caderno de dentro de uma pasta e, em seguida, se levantou com um sorriso esperto nos lábios.
- Você é a melhor, - falei e, antes de caminhar até a mesa da professora, minha melhor amiga piscou um olho.
Naquele dia, eu consegui tirar a nota que precisava para ser aprovado em Matemática, o que me deu coragem para chegar em casa e enfrentar meus pais. Eles não ficaram nem um pouco contentes em saber que, há um ano, eu escondia que vinha jogando na categoria de base do Atlético de Madrid. Após levar uma bela bronca, ganhar um castigo de tempo indeterminado e chorar copiosamente por incontáveis minutos, eles acabaram concordando com que eu participasse do jogo do time profissional, o mesmo jogo que eu marquei dois gols e, graças a isso, me foi oferecido um contrato que me oficializou como jogador profissional de futebol. Foi também depois desse jogo que eu e , finalmente, demos nosso primeiro beijo e me dei conta de que há muito tempo não a via apenas como minha melhor amiga.
Eu era o atacante do Atlético de Madrid, exatamente o que queria ser quando crescesse, e estava perdidamente apaixonado por .

- 2010 -

If I didn't have you there would be nothing left
The shell of a man who could never be his best
If I didn't have you, I'd never see the sun
You taught me how to be someone, yeah


Naquela tarde, cheguei inconsolável em casa.
Após fazer uma bateria de exames, descobri que as dores que senti durante o jogo do dia anterior eram consequência de uma ruptura do menisco externo do meu joelho direito. Mesmo antes de receber o diagnóstico, eu soube, pela condolência presente nos olhos do médico do clube, que a lesão era séria. Eu precisa ser operado o quanto antes e, mesmo assim, perderia o final da temporada do Liverpool e corria o risco de perder a Copa do Mundo. Para completar a onda de má sorte, as erupções na geleira Eyjafjallajökull, na Islândia, fizeram com que uma nuvem de fumaça vulcânica cobrisse toda a Europa, ocasionando uma paralisação do tráfego aéreo, o que me impossibilitava de voar até Barcelona para que o Dr. Ramón Cugat pudesse operar meu joelho. Dr. Cugat era o único cirurgião a quem eu confiaria uma cirurgia que poderia ser crucial para o desenrolar do meu futuro, pois, além de ele ser um médico renomado e experiente em tratar tal tipo de lesão, havia sido com ele que eu havia operado o mesmo joelho alguns meses antes.
Depois de ganhar a Eurocopa de 2008 e terminar a Copa das Confederações de 2009 em terceiro lugar, a Seleção Espanhola era uma das favoritas a conquistar o título. Lá no fundo do meu coração, eu sentia que a Espanha seria campeã. Por causa daquela maldita lesão, eu não poderia fazer parte daquele título inédito tão desejado por todos os espanhóis. Eu estava vendo meu sonho de ser campeão do mundo se desmoronar diante dos meus olhos.
Caminhei pela casa silenciosa sendo seguido por Pomo e Llanta, meus buldogues ingleses, e, conforme subia as escadas, notei o barulho do chuveiro ao longe, o que me fez concluir que estava tomando banho. Em vez de seguir em direção ao som, entrei no primeiro quarto do corredor, todo decorado em um tom de rosa claro e com enfeites infantis e brinquedos por toda a parte. Segui até o berço, onde encontrei uma sonolenta, o que indicava que ela havia acabado de acordar. Me inclinei e peguei minha filha no colo, que instantaneamente começou a chorar baixinho.
- Shh, shh… Calma, filha, é o papai - sussurrei conforme a balançava levemente em meus braços.
Em poucos segundos, estava mais calma e, inclusive, com um pequeno sorriso nos lábios. Fiquei observando seu rostinho tão sereno, um dos meus passatempos favoritos desde que minha filha viera ao mundo. Admito que eu era um pai bastante babão, mas não me arrependia nem um pouco. Toda a preocupação que me atormentava sumiu assim que a peguei no colo. Se tudo desse errado, eu sabia que aquela garotinha faria minha existência valer a pena. Ela e a mulher que a carregara por 9 meses na barriga.
- É, filha, parece que não será dessa vez que o papai vai ser campeão do mundo - falei em meio a um suspiro. - Quem sabe em 2014, uh? Você já vai estar maiorzinha e vou poder te levar para correr no campo, enquanto a gente comemora. Até lá você vai ter um irmãozinho… ou quem sabe dois? É, a ideia não é tão ruim.
- Que ideia, ? Posso saber?
Me virei e encontrei parada na porta do quarto, com as mãos apoiadas na cintura e um sorriso esperto nos lábios. Senti meus olhos marejarem ao me dar conta de quão decepcionada minha esposa ficaria quando soubesse que eu seria cortado da Copa; afinal, aquele não era um sonho apenas meu.
- Você está chorando? O que aconteceu, ? - ela questionou em um tom de voz preocupado, se aproximando.
Acomodei novamente no berço, entre as almofadas, e virei-me novamente na direção de . Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ela me envolveu com seus braços. Enterrei meu rosto em seu pescoço ao mesmo tempo que retribuía ao abraço, me sentindo um pouco melhor por conta dos beijos que ela depositava em meu ombro de forma carinhosa.
- É o joelho, né? - ela questionou, se afastando para me encarar nos olhos e secar as poucas lágrimas que escorreram por meu rosto com seus dedos, e eu apenas assenti com um aceno de cabeça. - Vai ter que operar de novo?
- Sim, e não vai dar tempo de me recuperar até a Copa - respondi com certa dificuldade, devido ao nó em minha garganta.
Pude enxergar o pesar em seus olhos e aquilo era o que doía ainda mais. Eu não me importava com as derrotas, não me importava em falhar… Mas desapontar , desde quando éramos apenas melhores amigos, sempre fora meu ponto fraco. Eu me sentia na obrigação de fazer por merecer todo o apoio que ela sempre estava disposta a me dar, faça chuva ou faça sol.
- Tem certeza? Você já falou com o Dr. Cugat? O que ele disse? Tem que haver um jeito, - ela disparou a falar em um tom de voz extremamente preocupado.
- Falta só um mês e meio para a Copa, eu precisaria operar o joelho, tipo…. agora - eu disse e ri baixo, sem realmente achar graça. - E mesmo assim não é certeza de que conseguiria estar em boas condições para ser convocado.
- O que você está esperando, então? - ela questionou com indignação. - Vamos para Barcelona! Você vai operar esse joelho.
- , os aeroportos de toda a Europa estão fechados e não tem previsão de reabertura. Não vou ter como ir para Barcelona tão cedo - expliquei o óbvio, afinal, não era à toa que eu estava tão arrasado.
- Sei disso, . Nós vamos de carro - com determinação na voz, falou sem me encarar, ao mesmo tempo que pegava uma bolsa que usávamos para guardar as coisas de nas viagens para Madrid ou para nossa casa em Ibiza. - Liga para o seu empresário e pede para ele alugar um carro e contratar dois motoristas para se revesarem durante a viagem, e aproveita e liga para o Dr. Cugat para avisá-lo que estamos indo para Barcelona. Enquanto isso, vou arrumar nossas coisas.
Por algum tempo, eu não tive reação. Fiquei observando minha esposa caminhar de um lado para o outro do quarto, colocando algumas peças de roupa, fraldas e itens básicos de higiene dentro da bolsa de nossa filha.
- ! - exclamei, fazendo-a me encarar com surpresa.
- Você ainda está aí? Vai fazer o que mandei! - ela falou, apontando para a porta do quarto.
- Você está doida? Uma viagem de carro de Liverpool até Barcelona deve durar quase um dia - falei, indignado, tentando fazê-la ver quão absurda era aquela ideia.
- E daí, ? Isso é motivo para desistir do seu sonho? - ela rebateu, rolando os olhos. - Se sairmos daqui a uma ou duas horas, chegamos amanhã pelo final da tarde. Você só vai perder um dia. É melhor do que esperar os aeroportos se normalizarem e perder sabe-se lá quantos dias.
- Eu vou sozinho e você fica aqui com a , então - ponderei, conformado com a ideia de pegar a estrada e um pouco esperançoso diante daquela possibilidade. - Não tem o mínimo cabimento levar um bebê de 9 meses de idade em uma viagem tão longa.
suspirou longamente e largou a bolsa de em uma poltrona antes de se aproximar de mim e envolver meu rosto com as mãos.
- Não vou te deixar passar por isso sozinho, meu amor. Vou estar ao seu lado amanhã quando você for operado e vou te ajudar na fisioterapia - ela sussurrou e colou os lábios aos meus para um beijo, embora rápido, repleto de carinho. - E nossa filha é uma , lembra? Ela é forte, vai tirar essa viagem de letra.
Foi impossível não retribuir ao sorriso tão confiante de .
- Pode até ser que vocês não sejam campeões do mundo - ela continuou a falar -, mas você vai para a África disputar essa Copa.
- Eu já devia ter entendido que é impossível contestar as suas decisões - falei, rindo. - Seja como quiser, Capi.
- Só não vou te bater por usar esse apelido irritante porque já perdemos tempo demais - disse, também rindo, e me deu um leve tapa no ombro antes de continuar: - Vá fazer as ligações.
Não deixei ela se afastar, puxando-a pela cintura.
- A gente pode perder mais uns minutinhos - sussurrei e choquei meus lábios aos dela.
não relutou em permitir que minha língua buscasse pela sua e se entregou ao beijo. Não importava quantas vezes nos beijássemos, os sentimentos que explodiam em meu peito sempre eram os mesmos. A cada beijo eu tinha mais certeza de que nenhuma outra boca despertaria em mim aquelas mesmas sensações.
Quando perdemos o fôlego, após algum tempo nos beijando, nos separamos.
- Obrigado, - falei, sorrindo, ao me deparar com os olhos dela me fitando de perto.
- Não precisa agradecer. Faço qualquer coisa para ver você feliz - ela disse, deslizando as mãos dos meus ombros até minha nuca. - Mas você tem que me prometer que nunca mais vai se dar como derrotado antes de esgotar todas as possibilidades, ok? Não foi esse o por quem me apaixonei.
Balancei a cabeça, concordando. Depois daquela fala, eu jamais teria coragem de não prometer aquilo a ela. Na verdade, eu nunca mais teria coragem de desistir do que quer que fosse. Tive vontade de dizê-la que foi ela que me ensinou a ser aquele por quem ela era apaixonada, mas as palavras simplesmente não saíram.
Cada um de nós, então, foi fazer o que precisava ser feito para que aquela viagem de carro até Barcelona acontecesse e, pouco mais de duas horas depois, estávamos deixando Liverpool. A viagem foi cansativa, como já esperávamos, mas tudo correu perfeitamente bem e até pudemos parar em Paris para passar uma noite confortável em um hotel. Chegamos a Barcelona à tarde e fomos direto para o hotel que costumávamos ficar na cidade, onde eu permaneci apenas o tempo necessário para tomar um banho e, então, rumei para o consultório do Dr. Ramón Cugat.
Após alguns exames, o cirurgião confirmou o diagnóstico já dado pelo médico do Liverpool e, imediatamente, operou meu joelho direito. Durante as semanas que se seguiram, trabalhei intensamente com o fisioterapeuta da Seleção Espanhola. O que me tranquilizava era que Vicente del Bosque, o técnico da Seleção, estava confiante de que eu me recuperaria até o início de junho, quando o time viajaria para a África do Sul para dar início aos treinamentos de preparação para a Copa do Mundo.
A corrida contra o tempo estava apenas começando, mas ter e ao meu lado fez toda a diferença.

- 2007 -

All my life
You stood by me
When no one else was ever behind me


Era meu primeiro dia oficial de férias.
O último jogo da temporada havia ocorrido no dia anterior, e fora também meu último jogo defendendo a camisa do Atlético de Madrid, pois eu estava prestes a ser vendido para o Liverpool. Já estava tudo certo e, dentro de alguns dias, eu iria para a Inglaterra assinar o contrato. A despedida foi incrível e eu me emocionei bastante com o carinho da torcida. Acho que nunca me acostumaria a estar do outro lado, sendo um dos ídolos dos colchoneros¹. Eu esperava que, no futuro, pudesse vestir a camisa do meu clube do coração novamente e, quem sabe, seria com ela que eu encerraria minha carreira.
Apesar de estar animado com toda aquela mudança que estava prestes a acontecer na minha vida, eu estava também apavorado. Dentro de algumas semanas, estaria indo para um lugar novo, com cultura e futebol totalmente diferentes do que eu estava acostumado e, para completar, não sabia falar uma única palavra em inglês. Apesar de o treinador e alguns jogadores da equipe serem espanhóis, o que facilitaria bastante a minha vida, eu precisaria aprender o idioma e não sabia se daria conta.
Além da comunicação, outra questão me atormentava desde o dia que recebi a proposta do Liverpool: eu e .
Nós ainda não morávamos juntos e minha namorada havia acabado de se formar na universidade e ainda estava se adaptando ao primeiro emprego. dizia que ter um namorado podre de rico - palavras da própria - jamais a impediria de batalhar para realizar seus sonhos. A garotinha mandona que conheci havia se tornado uma mulher forte e decidida, fato que me orgulhava e, inclusive, me inspirava muito, mas também me deixava sem saber como agir. Seria muito mais fácil se ela simplesmente aceitasse ir comigo para Liverpool. Eu não sabia como lidaríamos com um namoro à distância, apesar de ela ter me garantido que aquilo não afetaria nosso relacionamento.
Mas aquele, definitivamente, não era o momento para pensar sobre o que o futuro nos reservava. O que estava acontecendo ali no presente era muito mais... interessante.
As unhas de arranhavam minhas costas, conforme eu beijava seu pescoço e deslizava minhas mãos por seu corpo nu. Ela estava arrepiada e suspirava a cada vez que eu sugava de leve sua pele. Vê-la completamente entregue aos meus toques, impossibilitada de assumir as rédeas da situação, era algo que me excitava bastante, eu confesso. Era uma honra ser o único capaz de fazê-la baixar a guarda. Aproveitei o momento para subir uma das minhas mãos por suas coxas até atingir o ponto quente no meio de suas pernas. Meus dedos se moviam com calma e destreza, como se tivessem uma vida toda pela frente para dar prazer àquela mulher.
Busquei pela sua boca e grudei meus lábios aos dela, dando início a um beijo cheio de desejo. Em contraste com meus dedos, que acariciavam a parte mais sensível do corpo da minha namorada, nossas línguas se chocavam violenta e intensamente. Senti-la se contorcer de prazer embaixo de mim já era o suficiente para eu sentir uma onda de satisfação percorrer todo meu corpo. Eu amava tanto aquela mulher que, simplesmente, não conseguia imaginar uma vida sem .
Desgrudei nossos lábios e, em um sussurro, questionei:
- , casa comigo?
- - ela começou em meio a um gemido -, esse não é um bom momento para esse tipo de pergunta, vou concordar com qualquer coisa que você disser.
Minha risada foi abafada quando enterrei o rosto em seu pescoço.
- Isso foi muito bem pensado, se você quer saber - brinquei.
A verdade é que, até aquele momento, eu sequer havia cogitado a possibilidade de pedi-la em casamento. No fundo, eu sabia que receberia um curto e grosso não como resposta. Desde quando éramos apenas melhores amigos, dizia planejar se casar somente quando sua vida profissional estivesse estabilizada, o que ainda não era o caso.
Entretanto, eu tinha certeza de que era com ela que eu queria passar o resto da minha vida. Eu queria que ela fosse comigo para Liverpool, queria poder contar com o apoio dela de perto e que, depois de cada jogo, ela estivesse me esperando em casa para me lembrar que eu nunca precisaria comemorar uma vitória ou chorar uma derrota sozinho.
Puta madre, como eu queria subir ao altar com !
- Você vai comigo para Liverpool e procura emprego por lá - eu dizia em um tom de voz baixo, roçando os lábios em seu pescoço. - Aposto que não terá dificuldade, você é inteligente e seu inglês é ótimo. Quando você estiver empregada, a gente se casa. O que você acha, uh?
- Acho que você só quer uma intérprete - ela disse, rindo, e gemeu quando eu intensifiquei a carícia entre suas pernas. - Alguém para pedir em inglês a comida nos restaurantes.
- Isso também - falei, a acompanhando na risada. - Mas eu quero mesmo é ter você gemendo desse jeitinho todo dia.
- Todo dia, é? Essa proposta é tentadora - falou com malícia.
- Se esse é o preço para você aceitar o meu pedido de casamento, eu pago com todo o prazer do mundo.
- Quer saber de uma coisa? Não vou aguentar ficar longe de você um dia sequer - ela disse e puxou meu rosto para que pudesse me encarar nos olhos. - Eu aceito.
Eu aceito.
As duas palavras que fizeram meu coração bater mais forte, com a certeza de que tudo daria certo. Afinal, estaria ao meu lado para compartilhar aquela nova fase da minha vida. Nosso futuro estava em Liverpool. E olha que, naquele momento, eu nem imaginava que não apenas dividiríamos uma casa pela primeira vez naquela cidade, mas também seria lá que teríamos nosso primeiro filho. Ou melhor, filha. O pinguinho de gente a quem, depois de analisarmos uma extensa lista de possíveis nomes, decidimos chamar por .
Passamos o resto do dia ali, só eu, ela e todo o amor que precisava ser extravasado. E ele foi extravasado da maneira mais gostosa possível.

- 2010 -

All these lights
They can't blind me
With your love, nobody can drag me down


O cheiro do almoço que estava sendo preparado invadia a sala, mas todos estávamos mais preocupados com a coletiva de imprensa que passava na televisão. Era uma tarde de quinta-feira e a família toda estava reunida na casa dos meus pais, em Madrid. Vicente del Bosque estava prestes a revelar quem eram os vinte e três jogares selecionados para viajar para a África do Sul. Depois de semanas de trabalho intenso, eu estava quase que completamente recuperado da lesão no joelho e, com mais algumas semanas, certamente estaria em perfeitas condições. Eu havia estado na lista dos pré-convocados, mas, dependendo da decisão do treinador, eu poderia ficar de fora da lista oficial. Del Bosque precisaria confiar em mim, e eu queria muito que ele, de fato, confiasse.
- Os jogadores que representarão a Espanha na Copa do Mundo de 2010 serão os seguintes. Goleiros: Iker Casillas, do Real Madrid; Víctor Valdés, do Barcelona; e Pepe Reina, do Liverpool. Defensores: Raúl Albiol, do Real Madrid…
O nome de cada um dos meus conterrâneos era dito e eu ficava feliz por cada um deles, afinal, depois de anos de convivência na Seleção, eles havia se tornado meus grandes amigos. Entretanto, era pelos nomes dos atacantes que eu esperava ansiosamente.
- Atacantes: David Villa, do Valencia; , do Liverpool…
Após escutar meu nome, senti meu coração bater com mais força. Tão forte que parecia que, a qualquer momento, sairia pela boca.
Eu era um dos convocados.
Eu iria à minha segunda Copa do Mundo. Além de que, dessa vez, eu estaria mais experiente, minha Seleção também era uma das favoritas à conquista do título.
Minha emoção era tão grande que demorei um tempo para perceber que meus familiares explodiam em comemoração, todos festejando aquela convocação tão importante. Cada um deles me cumprimentava e eu agradecia pela parabenização. Por último, foi quem se aproximou de mim e me puxou para um beijo.
- Eu sabia que você conseguiria, amor - ela disse com a testa grudada à minha.
- Sem você, jamais teria conseguido - rebati, sorrindo. - Obrigado.
- Você merece - falou e correspondeu ao sorriso. - Acho que você terá mais um motivo para comemorar hoje.
- Qual? - questionei sem entender a o que exatamente ela se referia.
- A vai ganhar um irmãozinho - ela disse, mordendo o lábio inferior em seguida. - Bem, ou uma irmãzinha.
Pisquei algumas vezes, absorvendo o significado daquelas palavras, e tudo o que consegui dizer foi:
- Como assim?
- Estou grávida, - ela respondeu, rindo. - Estou no segundo mês de gravidez.
- Isso é… maravilhoso! - exclamei e a puxei para um abraço apertado.
A felicidade que eu sentia era indescritível. A minha convocação, se comparada a ser pai novamente, era quase insignificante. Não existia alegria maior do que saber que alguém estava vindo ao mundo por consequência do amor que eu e sentíamos um pelo outro.
- Espera aí, desde quando você sabe que está grávida?
- Eu ia te contar no dia que viajamos para Barcelona para você operar o joelho - ela confessou e riu baixo, nervosa. - Não fica bravo. Se eu te contasse, você provavelmente desistiria da viagem. E achei melhor te contar só depois da confirmação da convocação porque, se fosse antes disso, você ia ficar me bajulando e não ia se concentrar na fisioterapia.
- Você é inacreditável…
Permanecemos nos encarando por um momento. Eu mal acreditava que ela, mais uma vez, havia segurado uma barra sozinha apenas para me ajudar.
- Eu te amo - falei, por fim. Não conseguiria me chatear com aquilo, não diante de um gesto de companheirismo daquele. - Você, , essa criaturinha que está na sua barriga e os que estão por vir também.
- Credo, . Nem tive esse daqui e você já está pensando nos próximos. Não sou parideira.
- Você sabe que, por mim, a gente pode ter um time de futebol.
- Sendo você o pai, eu quase aceito essa loucura - falou, rindo. - Te amo.
Tivemos muito o que comemorar naquele dia.
Na semana seguinte, fui para a concentração da Seleção para começar os preparativos para a Copa. Com o coração na mão, admito, pois seria muito difícil, caso avançássemos para as fases de mata-mata, passar um mês longe de e , ainda mais com ela estando grávida e, talvez, precisando da minha presença. Mas eu sabia que ela era forte e daria conta, como sabia! Por isso, dei o melhor de mim para fazer uma boa Copa do Mundo, mesmo não estando totalmente recuperado. Joguei por mim e pelo meu sonho desde moleque, mas, principalmente, por e pela família que construímos juntos.
Enquanto eu tivesse minha melhor amiga, a mulher da minha vida, ao meu lado, ninguém me derrubaria.
Ah, e nosso filho, , nasceu no final daquele ano, saudável e campeão do mundo.

Nobody, nobody
Nobody can drag me down




¹Colchoneros: apelido pelo qual são conhecidos os torcedores do clube de futebol espanhol Atlético de Madrid.




Fim.



Nota da autora: Olá! Espero que essa história tenha feito jus a essa música sensacional que é Drag Me Down, além de ter sido o primeiro single do MITAM (que responsa!). Confesso que ela não era a minha primeira opção quando me inscrevi no ficstape e demorei um bom tempo até conseguir definir como seria a história, mas adorei o resultado!
Decidi usar o Fernando Torres como inspiração porque, além de ser meu jogador de futebol favorito da vida, achei que a história dele com a Olalla, a esposa dele, combinava perfeitamente com essa música. Amo tanto esse casal que precisava escrever sobre eles! Claro que a maior parte da fic foi tirada da minha cabecinha criativa, mas tentei colocar o amor deles como eu, na minha posição de fã, vejo. O drama pré-Copa realmente aconteceu, mas ainda bem que deu tudo certo e ele foi pra África e participou daquela Copa memorável que foi a de 2010 (waka waka ê ê), e foi campeão do mundo com a Espanha. Me enche de orgulho esse Nando! hahaha.
Vou parar por aqui, já falei demais. Obrigada por ter lido! Entre no grupo do FB caso queira bater um papo! :)
Beijos!





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