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Postada: 31/05/2017

ONE


This was all you, none of it me
You put your hands all over my body and told me, umm
You told me you were ready


definitivamente não era a pessoa que eu pensava, ou a imagem que eu tinha formado dele.
Ele não havia trocado mais do que dez palavras comigo, e eu não sabia ao bem o porquê de eu ter contado-as.
Assim que desembarquei, o encontrei usando um moletom e óculos escuros, como se quisesse se esconder de alguém (e eu torci para que não fosse de mim), segurando uma folha de ofício com meu nome impresso em Times New Roman. “Você deve ser minha intercambista”, ele disse. “Legal ter um rosto para ligar ao nome” e me olhou da cabeça aos pés, sorrindo.
Certo, haviam sido mais de dez, contei mentalmente ao relembrar de suas falas.
O homem dirigia seu carro calmamente sem desviar os olhos da rua por um momento sequer desde o aeroporto, e também não parecia se importar comigo o encarando deliberadamente da maneira mais descarada que eu sabia. Ele era algo bonito de se observar e era uma régua de trinta centímetros mais alto que eu.
Aparentemente eu também havia gostado de ter um físico para meu host dad, com quem eu havia trocado trocentos emails nos últimos dias. Ele era bem bonito e usava seu cabelo moreno naquele corte que era a última moda. Ou host brother, como ele preferia, porque havia sido enfático quando disse que mal tinha seis anos a mais que eu, apesar de morar sozinho e ser meu anfitrião.
— Se importa? — apontei para o ar condicionado tentando quebrar o gelo. Literalmente.
— Não. — deu de ombros.
Aumentei um pouco a temperatura dentro do veículo. Aparentemente a Califórnia não era tão quente como os filmes me fizeram acreditar. No segundo que botei os pés no solo americano, senti falta da quentura do meu Tocantins e meu suéter fino da loja do aeroporto estava sendo bem vagabundo pra bloquear o frio.
não conversava comigo. Eu o olhava esperando algo. Uma pergunta do tipo “como é a Amazônia? Porque você mora lá perto e tal” e ele sabia disso, porque gringo em geral só sabia o que era Rio ou São Paulo, olhe lá Brasília, mas ele disse que também conhecia Curitiba e Belo Horizonte além dessas três, mas não era como se eu conhecesse a floresta, de qualquer modo. Ou “como foi a viagem de quase vinte e três horas, ? Seu traseiro deve doer, você já passou em uns quatro aeroportos”. Mas eu era obrigada a lidar com o nada.
Ele pelo menos havia feito a gentileza de me buscar no aeroporto, pois ele podia muito bem ter falado que não podia me buscar pros motoristas da escola me levarem. também havia me oferecido da sua internet móvel pra avisar lá em casa que eu havia chegado bem.
Eu bem havia aberto a câmera do celular pra tirar uma foto dos canais de Venice quando ele parou o carro e o desligou. Continuei fotografando como quem não queria nada até ele voltar e me perguntar se eu não ia entrar, só então eu entendi que ele morava ali. Parabéns, , você constatou o óbvio. Senti meu rosto esquentar e desci do carro, dando um suspiro. tirou minha mala gigantesca do bagageiro e a carregou pra mim.
Mi casa es tu casa. — ele disse ao abrir a porta da entrada e me dar passagem. Eu ri. — não é assim que vocês falam?
— Quase, isso é espanhol.
— Parece com português. — deu de ombros.
— Parece mesmo. A gente se entende bem.
— Bem, então fique à vontade. Ali é a cozinha, — apontou. — não me dou muito bem com ela, mas lá tem tudo que você precisar, então sempre que der fome, pode ir lá. Tem tudo que você vai precisar. Não faça cerimônias.
— Entendido.
PERFEITO.
Era assim que eu gostava.
Fomos direto ao quarto que eu chamaria de meu pelos próximos meses, ele foi me mostrando cada canto da casa até lá. A cada cômodo novo que ele me apresentava, meus olhos tinham um orgasmo. Aquele lugar parecia acabar de ter saído de uma revista de arquitetura chique do último mês, tudo extremamente contemporâneo. Até o meu cantinho na casa era pura finesse. Eu deixei minhas coisas por ali e o acompanhei pra ver o resto.
O próximo cômodo foi o que eu mais babei. Tinha um piano preto de cauda bem no meio da sala. No fundo, estantes repletas de livros. Não aguentei e cheguei mais perto, deslizando o dedo por cima dos títulos que pareciam organizados por gênero. Quando cheguei aos romances de época, soltei um grunhido feliz.
— Você pode ler, se quiser.
— Jura? — virei de uma vez. Ele estava atrás de mim, sorrindo e observando sua biblioteca particular. assentiu e eu dei um mega sorriso pra ele.
Alguns ali eu já tinha lido, como Jane Eyre, Orgulho e Preconceito… Mas ele tinha a série da Família Bridgerton completa e eu morria de vontade de lê-la.
— Vamos? Ainda tem o último andar.
Eu assenti e o segui. Meus olhares pararam nas estantes de frente às dos livros, essa repleta de prêmios, nunca vi tantos na vida. Também havia algumas pranchas de surfe por ali, uma mesa de trabalho em outro canto…
A gente subiu as escadas espirais e eu quase perdi o ar.
O último andar era só o quarto dele. Apenas.
Uma suíte enorme que tinha de tudo que eu jamais conseguiria imaginar.
— E aqui é meu quarto.
— Uh… au? — ri, ainda de queixo caído. Dei uma volta, observando tudo.
Meu estômago roncou alto. Eu quase morri de vergonha, mas deu uma risada.
— Acho que já pode fazer aquela visita à cozinha.
Minhas bochechas ficaram rosadas pela segunda vez em menos de uma hora. Eu precisava parar com aquilo pra conviver em paz com aquela belezura na mesma casa.
Fica esperta, !
— Bela casa.
Ele assentiu sorrindo e então eu desci correndo.
Poxa, eu até que era bonitinha. Não digna de sair por aí deixando os outros corados, mas eu era bonita do meu jeito. Eu me achava bonita, então estava tudo ok. Mas desafiava os padrões de gostosura e eu precisava ficar ok com aquilo também.
A cozinha era enorme e eu não sabia por onde começar. Ele não deixou instruções, só pra eu ficar a vontade, e eu admito que eu sabia ser bem espaçosa. Então corri e abri a geladeira.
Meus olhos quase se encheram d'água.
Havia um galão de leite, um engradado de pepsi e um de cerveja, ovos e pão de hambúrguer. Também havia um saco da in-n-out com restos. Aquilo estava começando a feder. Torci o nariz e fechei depressa. Pra que ter uma geladeira daquele tamanho se ela estava praticamente vazia? Bem, ele morava sozinho, e eu havia chegado e nem assim ela estava ajeitadinha pra me esperar?
Abri o freezer. Meu coração partiu-se ao meio. Lasanhas congeladas, frango congelado, tudo quanto é tipo de comida industrializada e congelada.
Onde estavam as verduras? Frutas? Natureba?
Após abrir todos os armários e encontrar apenas vasilhames, utensílios, vários nadas, cheguei a triste conclusão de que ia morrer de colesterol alto naquele país.


TWO


For the big one, for the big jump
I'd be your last love everlasting you and me
That was what you told me


Estava na última aula do dia quando tacou uma bolinha de papel no meu colo.
“Quer ir jantar lá em casa?”
Já fazia uma semana que eu tinha virado uma Cali girl. Uma semana que não ia ao supermercado. Eu já estava farta de comer aquelas porcarias congeladas dele, mas antes elas que macarrão instantâneo, que era o almoço dele. Durante a semana eu almoçava com minha amiga espanhola durante o intervalo, mas no fim de semana com ele, era um Deus nos acuda. Acabei deixando escorregar pra sobre os hábitos alimentares do meu host, ela ficou com dó e me chamou pra jantar na sua casa um dia, depois de passarmos a tarde na praia.
Ela estava ali com seu irmão, que já estava há dois anos no país estudando gastronomia e morava num apartamento alugado. Era quem cozinhava pra ela e foi ele o responsável por me dar a comida mais saborosa que eu havia provado desde quando cheguei ali.
queria fazer a graduação aqui também, mas não tinha tanta certeza se iria se adaptar, então decidiu fazer um intercâmbio de idiomas antes, passar um tempo e testar. Contei pra ela que eu tinha essa vontade também, mas as chances de eu realmente conseguir fazer o ensino superior fora do Brasil eram mínimas.
“Não quero abusar do seu irmão” escrevi de volta e lhe devolvi o papel. Ela estava ao meu lado.
“Na verdade, foi ele quem me falou pra te convidar. Posso dizer que você vai?”
Pensei nas almôndegas congeladas que eu esquentaria naquela noite. Meu estômago me lembrou do chouriço que fez e ficou feliz em pensar o que poderia ser a janta de hoje.
“Pode!!!!!”

***

I'm giving you up
I've forgiven it all
You set me free, oh


— Brasileirinha! — ele abriu seus músculos, quis dizer, braços extremamente malhados pra mim.
Eles haviam achado um vídeo no meu instagram onde eu fazia ginástica ao som de “brasileirinho”, bem Daiane dos Santos mesmo, aí o apelido pegou.
Ri e o abracei.
. Obrigada por me alimentar.
Entrei no carro e me olhou de soslaio com um sorriso safado no rosto. Fechei a cara pra ela. Queria saber qual o problema da galera com o “aja naturalmente”.
Ela tentava me juntar com seu irmão desde quando a gente se conheceu. Eu não acharia ruim se desse certo. não tinha um rosto lindo, maravilhoso, mas era super gente fina e tinha um corpo malhado escultural. Eu fechava os olhos e só imaginava a pegada daquelas mãos.
Abri os olhos e fingi que nada daquilo passou pela minha cabeça.
Havíamos passado a tarde comprando roupas, até parecia que não tínhamos vários meses ali pela frente ou que só tínhamos a do corpo pra vestir. Ele nos pegou perto da escola por volta das sete.
— Só precisamos passar no supermercado antes, ok? Lá em casa tá meio que vazio. — ele me olhou pelo retrovisor e eu assenti automaticamente.
colocou a mão sob a perna da irmã sentada no passageiro ao seu lado enquanto dirigia e eu futricava algumas coisas na internet. Só quando eu vi uns vídeos de receitas no facebook, minha ficha caiu. Dei um gritinho dentro do carro e os espanhóis me encararam como se eu fosse louca.
, tudo bem? — perguntou.
— Tá tudo ótimo.
No supermercado, eles iam depressa e direto naquilo que precisavam. Minha boca encheu d’água quando eu vi milho. Eu era doente com milho. Abri minha bolsa e comecei a revirá-la catando cada nota de dólar que eu via pela frente, no final consegui quarenta e dois. Era o suficiente pra eu comprar umas bobagens. Eu não ia poder fazer aquilo sempre, principalmente porque eu não trabalhava ali e eu não tinha ido pros EUA pra encher a despensa do com minhas economias.
Peguei umas latas de milho, de palmito, frutas e verduras. Eu estava morrendo de desejo de comer bife com batata frita (eu não era 100% go green!), mas eu nem sabia que tipo de carne era boa pra bife e fiquei com vergonha de pedir ajuda a .
— Pra que isso? — perguntou. — não me diga que você vai alimentar aquele rabo folgado do seu host.
— Tecnicamente, isso é pra mim. Mas eu preciso guardar na geladeira dele, se ele comer, quem sou eu pra achar ruim? Mas eu também duvido que aquele monte de gordura saiba o que é comida natural. Ele não sabe fazer nada, é inimigo natural da cozinha. — dei de ombros.
E ele era obrigado a me fornecer comida. Bem, ele fornecia, eu nunca passei fome. Eu só não gostava das opções que ele disponibilizava.

***

Send my love to your new lover
Treat her better
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


— Me sinto mal por abusar da sua boa vontade.
sorriu. Fitei seus dentes brancos e alinhadinhos e pensei se aquela boca beijava bem.
— Não é abuso sendo uma oferta.
— Você faz janta pra mim e ainda me traz até a porta de casa? Vou discordar.
Abri a porta do carro e dei a volta para pegar minhas sacolas no porta-malas, ele veio me ajudar.
— Eu não ia deixar você pegar ônibus com essas sacolas.
— Estou bem acostumada com isso. — empinei o nariz. Até parece, eu nem pegava ônibus no Brasil. Que saudade do meu carrinho popular.
Ele sorriu galanteador, como quem não ia discordar só pra não render e pegou minhas sacolas de comida, eu peguei as de roupas.
— Muito obrigada pelo jantar. Estava uma delícia, de verdade.
— Estarei à disposição sempre que a barriga roncar. — ele piscou e acenou.
Esperei o carro sumir de vista para fechar a porta. Deixei as minhas compras na escada para subir com elas ao meu quarto mais tarde.
, estou em casa. — gritei. Ele gostava de saber quando eu chegava e às vezes nem notava, por ficar o tempo todo no seu quarto, no último andar.
Corri pra guardar a comida na geladeira. Ela já estava aberta, mexia nela, mas eu não esperava vê-lo ali, ainda mais daquele jeito. Primeiro, meus olhos quase caíram. Depois eu quis chorar, porque tinha um popozão de fora na minha cozinha. Mas tudo que eu fiz, foi largar as sacolas, tampar os olhos e berrar.
— Ai, meu Deus!
Dei as costas, ouvi um vidro cair no chão e se espatifar em mil pedacinhos.
— Ai, meu Deus! — ele repetiu. — , me desculpe! Eu me esqueci completamente que você estava para chegar.
— Estou vendo. — resmunguei.
Meu coração estava acelerado, as palmas das minhas mãos suavam frio. Eu não sabia o quê fazer. Destampei os olhos e fitei o chão, minhas laranjas estavam esparramadas. Abaixei-me e catei-as, colocando dentro da sacola antes que ele visse. Eu não queria ter que conversar com ele sobre aquilo naquele momento. Ou até mesmo nunca, preferencialmente.
— Quem é você? — uma voz de mulher me perguntou. Ergui a cabeça e encontrei outra criatura do jeito que veio ao mundo de pé na minha frente, ela pelo menos estava enrolada em lençóis.
— Quem é você? — corrigi. Até onde eu sabia, era solteiro.
— Aly, essa é a , minha intercambista. , Alison, minha amiga. — ele foi direto. Mal terminei de juntar minhas compras e ele chegou ao meu lado, escondi as sacolas atrás de mim. Tampei meus olhos de novo.
— Pelo amor de Deus, se cubra. — grunhi.
— Pronto.
Sentei-me no chão e o fitei. Alison havia passado o lençol nele também.
— Me desculpe pela… Inconveniência. — deu um sorriso amarelo. Apenas assenti.
— Vamos. — a tal de Alison disse e tascou um tapa na bunda dele. Eles subiram as escadas correndo e fazendo barulhos que eu nunca pensei que ouviria de tão perto assim. Eu fazê-los com alguém era uma coisa, mas ver de perto assim era outra totalmente diferente.
Guardei a comida, tomei um banho e fui deitar.
Não consegui dormir. Com um maldito quarto daquele tamanho, a cama dele tinha que ficar justo em cima do meu quarto. Fiquei a noite inteira ouvindo Alison gemendo o nome do meu host, até mesmo ouvindo seus gritos altos sobre “quão bom ele era” naquilo.


THREE


Send my love to your new lover
Treat her better
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


“Ele já viu q vc estocou a geladeira?”

me perguntou por mensagem.
“Não. Pelo menos n disse nada”
Respondi e voltei a focar no livro que a professora do cursinho havia mandado ler. Era uma história chata pra cacete, mas eu não tinha mais nada pra fazer. Preferia estar devorando qualquer outro livro da biblioteca de .
“Ele deve ter visto, n é possível”
“Ele ainda nem acordou, a Aly já comeu o resto do in-n-out e se mandou. Ela q não é boba de ficar sábado em casa esperando a bela adormecida acordar”
“Podíamos ir à praia tbm”

Olhei para aquele livro chato e decidi que poderia ler um resumo na internet depois. Santa Monica era mais legal e tinha muita gente bonita. Aquele livro era feio. Talvez eu conhecesse alguém. O alguém.
“Ok. Te vejo em meia hr”.

Desci correndo as escadas para pegar alguma fruta para um lanchinho tira-gosto. Quando cheguei à cozinha, me deparei com duas mulheres que definitivamente não eram Aly. Pelo contrário, uma era bem mais velha e a outra mais nova.
— Ah, bom dia… — a mulher disse ao me ver. Eu ergui as sobrancelhas, ainda sem saber o que dizer.
— B-bom dia… — elas não estavam ali até há pouco quando eu havia feito o café da manhã com Aly. Virei-me para a menina que parecia ter poucos anos a menos de mim e sorri amarelo, ela retribuiu meu cumprimento tímido de forma igual.
não me disse que estava namorando — a mais nova reclamou, cruzando os braços e me escaneou de cima a baixo, como se precisasse me aprovar.
Eu travei até o cu com aquela fala, estiquei o pescoço, fechei os olhos e tentei não pirar.
Entretanto, uma gargalhada totalmente artificial escapou de mim. Uma série de risadas nervosas. Ah, meu pai.
— Deus me livre! — berrei.
As duas arquearam as sobrancelhas simultaneamente, me olhando como se eu fosse um extraterrestre. Provavelmente eu era. Havia acabado de xingar o na cara delas.
— Quem são vocês, exatamente? — cocei a nuca.
— A mãe e a irmã dele. E você? — a menina me desafiou com o olhar. Eu engoli seco. Puta merda. Que bola fora.
— Eu, ah… sou a intercambista dele. Digo, ele está me abrigando e tal…
Elas arregalaram os olhos e eu jurei que eles pudessem cair. Dei um passo pra trás.
— Não sabia que ele tinha uma. — a mãe disse de forma sutil.
Nem eu sabia de vocês! Olha que via de mão dupla!
Claro que eu não falei aquilo. Já bastava um deslize.
— Deve ser por isso que ele está com a geladeira cheia. Viemos trazer comida como de costume, mas…
Ah, então estava explicado.
— Na verdade eu que… — engoli minhas palavras. Escaneei o ambiente e vi várias sacolas em cima das bancadas, cheias de comida. Se eram aquelas coisas artificiais que ele comia eu não sabia, mas comida era comida. Elas não podiam voltar com aquilo pra trás.
— De qualquer jeito, ele não come isso. — a garota apontou. — melhor deixar, mãe.
Assenti.
Deixe, mãe do . Bom que criaríamos um território bem específico na geladeira. Ele não comia a minha e eu não comia a dele.
A senhora assentiu e começou a guardar tudo. Eu suspirei de alívio.
— Olha, vocês não reparem, mas eu preciso sair. — disse meio sem jeito e peguei a primeira fruta que vi e saí correndo. Elas disseram tchau.

***

I was too strong you were trembling
You couldn't handle the hot heat rising (rising), umm
Baby I'm so rising


— E então, como está o humor do seu host lindão hoje? — me perguntou depois de nos abraçarmos. Ergui o olhar e percebi de braços cruzados vindo em nossa direção.
— Você veio! — gritei e corri até ele e estendi os braços oferecendo um abraço só como desculpa para poder agarrar seu bíceps que devia ter mais circunferência que minha coxa, e eu tinha uma coxa grande.
Ele ainda era mais alto que eu, pra ajudar. Se abaixou e me envolveu em um casulo.
Aquilo definitivamente era uma surpresa, pois ele estudava demais e quase não saía.
— Vim! — riu.
— Obrigada pela parte que me toca. — reclamou atrás de mim e eu rolei os olhos com o rosto ainda enfiado no trapézio dele. Meu cérebro determinou que era hora de soltá-lo, mas obedecer não era tão fácil quanto aceitar. — sabe, da próxima vez eu vou te deixar em casa. — ela apontou para o irmão e depois se sentou na canga estendida na areia. — vamos fazer uma troca, você me dá o e eu te dou esse aí. — virou-se para mim.
Eu cruzei os braços e ergui uma sobrancelha. Aquilo era uma boa ideia. Sentei-me de frente pra eles, de costas para o mar.
— Ei! Estou aqui. Não sou produto de troca.
— Eu aceito, sabe, sabe cozinhar. te mata de fome. — dei de ombros.
— Talvez eu realmente devesse ficar com a , ela me dá mais valor. — cutucou a cintura da irmã e ela se curvou. Eu assenti. estava se mostrando muito chato.
— Vocês dois se merecem. Talvez devessem se pegar.
Eu virei o rosto pra ela bruscamente e nunca senti minhas bochechas e orelhas esquentarem tão depressa. Filha da puta! Como ela ousava ser tão direta assim?
— Sabe, deveríamos sair algum dia desses. Jantar, talvez. — ele sugeriu, me encarando. Eu sentia seu olhar pesar sobre mim, mas não tinha coragem de devolvê-lo e ainda fitava querendo esganá-la.
— É, nós devíamos. — assenti. Eu talvez podia chamar só para apresentar-lhes e talvez eu conseguisse dar o troco com alguma piadinha durante a refeição. Então algo me acertou. — espera, só nós dois? — finalmente passei a olhá-lo.
— É, claro! Já estou cansada de segurar vela pra vocês. — ela rolou os olhos e se levantou. Quis agarrar-lhe pela perna para que ela não fosse a lugar algum, mas eu já estava me fazendo de ridícula demais na frente de . Eu nem sabia como eu havia descolado um encontro com uma pessoa tão bonita quanto ele.
— Sábado à noite?
— Da semana que vem? — ela se meteu. — Ah vai, hoje é sábado. Eu não deveria ter que escutar por uma semana inteira vocês dois falando sobre isso. Vão hoje… — deu de ombros.
— Você está livre? — ele me fitou. Eu assenti. — ok, então te pego às oito.
deu um sorriso sacana como quem dizia “tarefa cumprida” e caminhou pra longe dali, me deixando sozinha com ele. Eu precisaria aprender a conviver assim.

***

I was running, you were walking
You couldn't keep up, you were falling down (down), umm
There's only one way down


deu a volta no carro e abriu a porta pra eu descer, estendendo sua mão e me oferecendo silenciosamente. Ele havia estacionado bem em frente à casa de e havíamos ficado um tempão ali dentro do carro jogando conversa fora. Havíamos tido o encontro mais barato que eu já vi na vida, mas nenhuma comida gourmet que ele ou qualquer outro chef fizesse superaria o “burgão” que comemos. Não foi o suficiente para matar a saudade dos trailers do Brasil, mas tinha tanto queijo que eu até perdoei. Depois, me levou ao Observatório Griffith e eu não pude esquecer da cena de La La Land, queria voar também.
Comecei a andar até a porta de casa e notei que ele não me seguia. Virei para trás e ele estava ainda ao lado do carro, coçando a nuca meio sem jeito. Achei fofo, porque eu nunca imaginei que homens musculosos e gostosos pudessem ser tão adoráveis quanto ele. Voltei até lá.
— Você não quer entrar? — apontei pra casa.
Ele ergueu uma sobrancelha em surpresa. Ai porra. Muito cedo? Isso era a educação que eu aprendi no Brasil, mas como que era ali nos Estados Unidos? Ou melhor, na Espanha? Socorro. Só queria um buraco pra enfiar a cabeça.
— Não acho que seu host ia gostar da ideia. — ele apontou com o queixo na direção da casa.
Vinquei a testa e quando percebi que ele continuava sem graça, virei a cabeça pra trás e vi com a porta da entrada entreaberta me espiando. Arregalei os olhos e senti a adrenalina correndo no meu sangue. Desde quando ele estava ali? ME VIGIANDO?
Quis berrar seu nome em uma repreensão, mas eu já havia passado da cota de parecer uma criança na frente de .
— Ah, eu… — fechei os olhos e sorri sem graça pra ele. — fica pra próxima.
Ele assentiu, daí eu assenti também. se aproximou devagar e colocou a mão na minha cintura e eu ergui o rosto em expectativa. Meu coração havia acelerado algumas vezes mais que o tolerável. Ai meu Deus. Ele ia me beijar.
Fechei os olhos e prendi a respiração, quase estiquei os lábios, mas senti os seus em cima da minha bochecha. Soltei o ar de uma vez e abri os olhos, caindo um pouquinho em sua direção. Ele riu.
— Boa noite, .
— Boa… Noite. — falei firme após vacilar.
— Talvez um cinema sábado que vem? Minha irmã disse que tem um filme com um ator que você gosta.
Eu assenti.
— É Fragmentado.
— Não ouvi falar. — riu. Eu assenti. — melhor você entrar, ele parece preocupado.
Olhei de relance e ainda estava me encarando da porta. Rolei os olhos e acenei pra . Enquanto chegava à porta da casa, ouvi seu carro dar partida e o barulho foi afastando-se gradualmente.
se afastou, me dando espaço para entrar. Estava doida pra tomar um banho e cair na cama, mas não fui muito adiante, fiquei ali de braços cruzados esperando ele trancar a porta pra saber por que estava me vigiando.
— Estou colocando um curfew a partir de hoje. — decretou também cruzando os braços pra mim.
Arregalei os olhos.
— Me desculpe? — ri. Achei que eu não havia entendido direito.
— Você precisa de limites. — estendeu o dedo pra mim e veio caminhando na minha direção.
— Eu não sou menor de idade. — arqueei as sobrancelhas.
É, ele parecia falar sério. No momento eu queria voar nele e agarrá-lo pelo topete castanho bonito que eu adorava. O cabelo dele era um paraíso, meu sonho de consumo.
Ai meu Deus. Foco, , você está com raiva dele!
— Mas é minha casa, eu sou seu host dad, minhas regras.
— O que aconteceu com o “mi casa es tu casa”? — comecei a bater o pé no chão impaciente.
— Acabou.
— Desde quando, posso saber?
Rolei os olhos. Ah, ele estava me dando nos nervos! Já não era mais tão bonito assim.
— Desde quando você sai por aí beijando bocas!
— O quê?! — gritei. Meus olhos queriam pular fora de suas orbes e eu estava a ponto de permitir. Meu sangue fervia.
O pior de tudo era que eu não tinha beijado ninguém! INFELIZMENTE.
— Aliás, também posso saber por que temos comida saudável na geladeira? Minha mãe disse que não foi ela. — arqueou uma sobrancelha numa paz de espírito que eu não sabia como alguém conseguia ter numa hora daquelas. Ele voltou a cruzar os braços como se fosse o dono da razão.
Dei uns passos em sua direção na tentativa idiota de poder peitá-lo e parecer que eu tinha moral. Continuei pensando que eu tinha, sem me abalar pra passar firmeza.
— Minha melhor amiga acha que você é uma delícia, mas olha só, eu podia apresentá-lo a ela, mas você é tão bosta que provavelmente a daria sífilis! — gritei. Ele arregalou os olhos e fez uma careta que eu jurei que era naquele momento que eu ia ficar sem casa. — percebeu? Eu não reclamo do tanto de mulher que você traz pra cá. Também devo mencionar o quanto eu odeio ouvi-las gritando o seu nome? — puta que pariu, cala a boca . Você está na casa dele, comendo a comida dele. Mentira, a comida era minha. — e você só compra comida bosta, como você espera que eu vá comer tanta porcaria? Eu sou “go green” mesmo! E botei comida na sua geladeira sim!
Terminei.
Pronto.
Havia arrancado uma tonelada das costas.
E provavelmente eu precisaria pedir abrigo pra e , porque ele ia querer me botar pra fora, eu tinha certeza.
Sua postura foi amolecendo aos poucos e logo ele já tinha até descruzado os braços e me fitava perdidamente.
— Toda segunda vou deixar dinheiro pra você em cima do aparador perto da porta. Use para comprar as comidas que gosta.
E me deu as costas, subiu as escadas e fiquei o resto do dia sem vê-lo.
Segunda-feira achei cem dólares debaixo do vaso de flores. Eu quase tive um ataque cardíaco porque eu nunca ia gastar aquilo tudo pra só uma semana. De tardinha fui ao mercado e larguei o troco no mesmo lugar. Ele ficou lá até a segunda-feira seguinte, quando ele botou mais cem dólares, e então eu tinha cento e sessenta. Peguei só os sessenta e ainda voltei com dez por ter comprado mais que da última vez, porque descobri que tinha ganhado sócio nas maçãs e no creme de milho. Devolvi o troco de novo, mas na terceira semana, ele colocou mais cem, eu tinha duzentos e dez dólares e não gastaria nem um quarto. Com um mês e meio eu aprendi que ele não queria o troco e comecei a comprar roupa.
E um dia encontrei na minha mesa de estudos um monte de resultados de exames que mostravam que ele não tinha sífilis e nenhuma outra DST, eu estava era vendo muito Grey’s Anatomy.
Fora que ele também nunca mais apareceu com nenhuma mulher em casa.
Depois daquilo tentei ficar sua amiga de novo.


FOUR


I'm giving you up
I've forgiven it all
You set me free, oh


e eu estávamos caminhando tranquilas e alegres pela avenida da escola no horário de almoço. Ela fazia uma live no instagram e falava espanhol rapidamente, eu não entendia nada.
Ela estava completamente distraída e não tinha coisa que eu falasse que chamasse sua atenção, mas qualquer coisa atraía a minha. Tipo o montinho de fotógrafos que brotou logo adiante à nossa frente.
Eu comecei a olhar os arredores na hora, procurando quem era o famoso que aqueles paparazzi estavam atrás pra poder correr até ele ou ela e pedir uma foto. Comecei a entrar em desespero quando eu não reconheci ninguém, a simples ideia de que eu poderia deixar o Robert Downey Jr. passar batido me deixava com as pernas bambas de terror. Se bem que ele estava no set do próximo filme dos Vingadores, em Atlanta.
, caramba, sai dessa porra e me ajuda. — a cutuquei.
— Ajudar com o quê?
— A achar.
— Achar o quê?
— Quem eles estão fotografando. — apontei com o queixo.
Ela olhou naquela direção e franziu a testa, e terminou a live. Depois ela também começou a olhar ao seu redor e vincou ainda mais as sobrancelhas. Ela me olhou de cima a baixo e riu.
— Parece que é a gente.
— O quê?! — estranhei, gritando. — por que fariam isso?
— Porque somos lindas — ela riu e jogou seu cabelão castanho de lado. Eu continuei fitando os paparazzi com uma pulga atrás da orelha.
Ainda bem que chegamos à escola logo. Enfiei lá pra dentro e soltei o maior suspiro aliviado do mundo. Não queria que ninguém me sequestrasse. Puta merda, cara. Eu não estava nem no meu país. Eu ia pirar e ia esquecer como que falava inglês. Encostei-me na parede mais próxima enquanto tentava me acalmar.
— Hey, você está bem? — ela pôs a mão no meu ombro.
— Não! — berrei, a encarando como se ela fosse louca. — como você fica tranquila com isso?
Ela arqueou uma sobrancelha pra mim.
— Você não sabe por que estavam te fotografando?
— Você sabe? — gritei mais uma vez, totalmente surpresa e assustada.
Ela arregalou os olhos.
— Por um acaso você tem alguma ideia do que está acontecendo na internet?
— Você está falando a mesma língua que eu?
Ai, Jesus. Aquela menina estava louca. Ou eu. Ou nós duas. As chances de que eles estivessem nos fotografando, eram, realmente, mínimas.
— Ai caraca, você não sabe de nada — ela deu um tapa na própria testa e fechou os olhos. O sinal tocou e a gente deveria estar dentro da sala de aula — olha, quando você estiver em casa, você vai abrir qualquer rede social sua, de preferência o twitter, e aí você entende.
OI?
— Porra, ! — gritei e na mesma hora todo mundo se virou pra me encarar, eu murchei de novo no meu cantinho e ela me puxou na direção da sala de aula. — me conte!
— Agora não dá. É sério. Olha a internet. Quantos dias você não abre o twitter? — vincou a testa.
— Alguns. — fiz bico.
Ela amava me mandar bilhetinho na aula e agora que ela realmente precisava ela amarrava o bico? Mas que porra!
Travei na porta da classe e ela estranhou quando não a segui, fechando-a e se voltando até mim.
— Quer saber, estou meio que passando mal… Acho que vou embora mais cedo… — botei a mão na cabeça fingindo que eu estava tonta. Provavelmente eu ficasse quando aquietasse em qualquer canto.
— Você quem sabe. — ela assentiu.
Eu também assenti e voltei pra entrada, peguei o celular e chamei um Uber. Nem a pau que eu ia de ônibus com gente lá fora querendo a minha cabeça daquele jeito.
estava muito estranha, ela era a coisa mais saltitante e purpurinada que eu conhecia, falava pra caralho e hoje ela mal havia olhado na minha cara.
Fiquei dentro da escola vigiando o meu carro encostar e só saí de lá quando ele parou bem em frente, fui depressa em sua direção e nem olhei se tinha mais gente ali perto.
O motorista foi conversando comigo por todo o trajeto e me fitava pelo retrovisor toda hora, percebendo minha inquietação. Ele foi bem adorável e fez o possível pra me distrair. Não tive tempo pra mexer no celular e descobrir o que era aquele fuzuê todo.
Quando cheguei em casa, descobri que não estava ali e sinceramente eu senti sua falta. Queria que alguém me abraçasse e dissesse que eu que era paranoica demais, que eu estava sã e salva. Bem, sã era difícil, mas a seguro, sim. Precisava de alguém pra conversar comigo.
Joguei-me no sofá e fiquei encarando a tela escura do meu celular, meio incerta se eu realmente queria descobrir o que estava acontecendo.
Enquanto eu divagava, ouvi a campainha tocar e quis enfiar debaixo das almofadas. Eu nunca havia ouvido aquela coisa tocar antes. No fim das contas era uma entrega online para o meu host dad. Quando voltei com a caixa pra dentro, decidi que precisava ler meu twitter.
Minhas notificações estavam lotadas.
Cheias.
Impossíveis de ler tudo.
Eu tinha mais seguidores do que pude sequer imaginar um dia na vida.
“Venice, huh? Nada mal” um antigo colega meu de escola me mencionou com o link de um site de fofoca com as fotos de mais cedo anexadas. A gente nem conversava, só era da mesma sala, mas eu quis morrer e processar todo mundo.
Ele não era o único.
“Como é morar com ele?” uma usuária que eu nunca vi na vida me mandou.
“Sua vadia, deixe nosso em paz”
“Ele não merece você”

E todos os outros tipos de coisa horrorosas que o ser humano era capaz de dizer para ferir alguém.
Eu me afundava dentro do sofá a cada novo tweet que eu lia e não quis admitir o estranho padrão fangirl por trás deles e o excesso de menções do nome do . Alguns vinham com o usuário dele também. Eu nem sabia que ele tinha twitter. Cliquei e me deparei com uma conta verificada e praticamente abandonada, ele usava menos que eu. O selo azul chamou minha atenção de novo. tinha uma conta verificada? Desde quando!? Olhei para seus seguidores e meus olhos quase caíram. Dez milhões.
Porra.
Ele era famoso.
Super famoso.
Foi como se eu sentisse alguém jogar uma pedrinha na minha cabeça pra ficha cair.
Eu estava hospedando com uma super celebridade e não havia me dado conta daquilo.
Fechei o twitter e abri o navegador da internet, digitei o nome dele. Diversas fotos dele preencheram a tela do meu celular, desde ensaios profissionais à aparições públicas e tapetes vermelhos. Haviam capas de álbuns. Fui olhar o box que vinha com um resumo de informações sobre ele.

Cantor-compositor

Corri o olho de forma rápida e senti meu estômago embrulhado. Vencedor de dois Grammys, uma indicação ao Oscars. Eu ia colocar meu almoço pra fora.
Lembrei-me de sua biblioteca e dei um pulo do sofá, subi as escadas correndo para poder ver seus prêmios. As pranchas eram do Teen Choice Awards. Haviam também alguns People’s Choice Awards, MTV Music Awards e diversos outros.
Minha mão coçou quando meus olhos pararam sobre as vitrolas do Grammy e quando menos dei conta, um deles estava em minhas mãos. Ai meu Deus, eu estaria em apuros se acontecesse algo com aquele prêmio, mas era muito lindo. Era uma daquelas coisas que você olhava na TV e imaginava que nunca veria. Eu estava vendo.
era famoso.
havia feito uma carreira da porra e depois havia deixado-a de lado. Há anos ele estava entocado dentro dessa mansão fazendo vários nadas. Coçando saco.
— Hum, você chegou cedo.
Ergui o olhar e lá estava ele, na porta da sala. Ai meu Deus. E eu com seu Grammy nas mãos. Ele percebeu e seu olhar foi de encontro ao seu prêmio. Fiquei congelada e não pude nem escondê-lo.
— Me desculpe, eu…
— Não precisa — ele ergueu a mão num sinal para que eu parasse. Engoli as palavras e ainda não consegui me mover pra botar o maldito Grammy no lugar.
— Juro que foi a primeira vez que fiz isso. — abaixei a cabeça e quando menos me dei conta, comecei a rir da minha desgraça. — de qualquer maneira, — dei de ombros. — passei mal e saí mais cedo.
— E está bem agora? — ele caminhou até mim e eu quis recuar na minha mania idiota de sentir intimidada por ele. — me parece meio pálida.
Ele estendeu a mão e tocou suas costas na minha testa, vendo se eu estava quente. Provavelmente sim. Engoli seco e ergui o olhar até seus olhos, fiquei o encarando meio desnorteada. Ele sempre foi tão bonito assim? Não? Sim? Porque tipo, agora ele estava mais atraente que o normal. Eu sempre o achei bonito, mas agora ele parecia uma aberração da natureza. Era o efeito da fama? Será que antes ele era menos bonito porque eu não sabia?
Dei um passo pra trás e balancei a cabeça, colocando o Grammy de volta na prateleira.
— Não sei. Acho que foi o susto. — falei meio desnorteada.
— O que houve? Quer conversar? Podemos ir pro meu quarto, é mais confortável. — deu de ombros.
Eu fiquei o encarando como se ele fosse me morder ou algo do tipo, mas tentei não transparecer e acho que deu certo, ele não demonstrou nada além de esperar minha resposta.
— Você está usando isso como uma desculpa para me levar pra sua cama? — ergui a sobrancelha. Aquilo era influência das suas fãs doidas que achavam que namorávamos.
— Céus, não. — ele vincou a testa e depois riu. Eu relaxei as costas e o acompanhei de forma forçada. — vem, vou pegar alguma coisa pra gente beliscar. — estendeu sua mão para mim. Eu assenti e quando passei por ele, ele a pôs em meu ombro. Oh meu Deus. Sua mão famosa me tocava.
Ficamos esparramados na sua cama jogando conversa fora pelo resto do dia, até a hora que eu comecei a bocejar de sono e achei melhor descer, se não era capaz de eu desmaiar bem ali.
Quando o contei que havia descoberto só então que ele era famoso, me chamou de lerda na maior cara dura. Não era pra menos, já haviam passado dois meses que eu estava ali. Ele me pediu desculpas pelos eventuais problemas e disse que tentaria dar um jeito naquilo, mas que muito estava além do seu alcance.
Ele até era uma pessoa legal e eu havia decidido de vez que ia parar de ter medo dele. Não pela fama, claro. Aquilo era um plus. Mas porque naquele dia eu também havia aprendido muito sobre ele e vice versa.


FIVE


Send my love to your new lover
Treat her better
We gotta let go of all of our ghosts
We've both know we ain't kids no more


Cheguei em casa querendo me jogar no primeiro sofá ou cama que eu visse. Estava exausta em níveis inexplicáveis e só queria dormir. Minha cabeça pulsava e meu corpo pedia por um banho. Mas se eu dormisse, tudo estava bem.
Era sexta-feira e amanhã eu ia sair com e , o que era um milagre, porque ela não gostava de sair com nós dois. Mas íamos ao Museu do Sorvete e assim como todo mundo, ela estava louca para conhecê-lo.
Mas eu mal dei três passos na direção da escada e fui interceptada por .
— Olha só o que chegou hoje. — ele carregava uma caixa de uma máquina de fondue. Eu dei um sorriso amarelo sem nem mostrar os dentes.
— Que legal.
— Você comentou que gostava.
Meu Deus, ele irradiava alegria. Eu irradiava negatividade e preguiça.
Cocei a nuca.
— Ah, podemos deixar pra outro dia, você quem sabe… — a felicidade presente em sua voz se diminuiu consideravelmente e eu fiquei morrendo de dó.
Todos os dias à noite, nós tínhamos uma social. Eu e ele, ele e eu. Nossa amizade havia melhorado consideravelmente muito desde então e nunca havíamos falhado um dia sequer.
— Não, tudo bem… é que eu tive um dia terrível, meu corpo precisa de uma trégua. — suspirei com a mão na testa. Ele ficou me analisando. Acho que eu estava fedendo. — por que você não vai arrumando tudo enquanto eu tomo um banho? — dei um sorriso sugestivo.
Ele assentiu.
— Estarei no quarto te esperando, então. — assentiu.
Eu mencionei que as sociais eram na cama dele? Não fazendo sexo, claro, por mais que aquele pensamento já tivesse atravessado minha mente idiota. Aquela parte eu estava deixando por conta do irmão super sexy da minha melhor amiga. Quando ela não estava em casa, claro, o que era raro porque ela só saía comigo. Ou quando ela percebia e ia ao mercado só pra nos deixar propositalmente a sós. Eu nem queria pensar que droga deveria ser pra ela. Enfim, eu me jogava na cama de como se fosse a minha própria e ficávamos trocando ideia.
Quando cheguei ao seu quarto depois de um banho delicioso, cabelo lavado e todos os bônus, o encontrei esticado na cama, sempre do lado direito, com uma bandeja de café da manhã, que na verdade tinha nossa janta; sua máquina de fondue cheia de queijo. Fiquei salivando. Havíamos aprendido a gostar da mesma comida numa balança entre meu natureba e sua gordurice. Queijo dali era super calórico, mas eu era viciada. Ele sabia que eu odiava chocolate, então queijo era uma boa ideia.
— E então, me conte sobre seu dia bosta. — ele deu tapinhas no colchão, me chamando para sentar ao seu lado. Puxei o travesseiro e deitei-me. Era aquilo que meu corpo queria, ficar esticado.
— Pra começar, eu perdi o ônibus. — bufei. — depois quando eu desisti de esperar outro passar, fui chamar um Uber e o motorista errou o caminho umas duas vezes pra chegar até mim. Cheguei à escola atrasada e perdi a primeira aula.
— Uau. — ele arqueou as sobrancelhas e me estendeu uma taça de vinho. — acho que você precisa disso.
Assenti e ergui o tronco, apoiando o cotovelo no travesseiro e a cabeça no ombro. Peguei o vinho e tomei tudo de uma vez.
— E não é só isso. — pausei e lhe estendi a taça, pedindo mais. Ele pegou a garrafa e a encheu enquanto eu provava do fondue. — aparentemente está a fim de um menino novato e hoje ela me trocou por ele no almoço. Sabe, eu odeio andar sozinha.
Ele concordou. Ele sabia. Sabia de muito, exceto de e também não sabia da minha amizade com ele. Eles não se davam bem, então algumas coisas eram melhores omitidas. Eu também achava que àquele ponto, ele me conhecia melhor que . Nós éramos algo diferentes de namorados, não nos intitulávamos assim, mas também não era sexo sem compromisso. Claramente estranho. Eu não ligava.
Mas uma coisa, nenhum dos dois sabiam. Fato era que eu ficava bêbada muito depressa, então quando eu terminei a segunda taça, já estava dando gargalhadas estranhas e na terceira eu não parava quieta na cama. Meu corpo não queria mais saber de deitar, só queria saber de vinho. Se soubesse, ele não teria me dado sempre que eu pedisse para enchê-la novamente. Mas ele enchia a minha e a dele. O queijo acabou e ainda nos divertíamos. Ele estava me ajudando a aprimorar meu canto. Eu adorava cantar e se pudesse viveria da música. Estava chapada trocando os pés quando voltei a me sentar ao seu lado, cantando “Shape of You” juntos.
I'm in love with the shape of you, we push and pull like a magnet do, although my heart is falling too, I'm in love with your body… — cantarolei o final, enquanto ele balançava a cabeça no ritmo da batida.
Como eu estava uma bosta, ele cantou o trecho final comigo, olhando em meus olhos e eu para os seus lábios para acompanhar direito e ver de forma clara o que ele dizia.
Last night you were in my room, and now my bedsheets smell like you, every day discovering something brand new, I'm in love with your body… Come on, be my baby, come on, come on, be my baby, come on, I'm in love with your body, come on, be my baby, come on, come on, be my baby, come on, I'm in love with your body, come on, be my baby, come on, come on, be my baby, come on, I'm in love with your body, every day discovering something brand new, I'm in love with the shape of you.
Quando a música acabou, eu ergui a cabeça e fiquei encarando seus olhos. Eles eram expressivos e profundos e eu estava bêbada. Não sei se caí em sua direção ou se eu me aproximei inconscientemente, mas estava bem próxima dele quando coloquei a mão na sua bochecha e colei nossos lábios. Eu o vi fechar os olhos antes que fizesse o mesmo com os meus e ele me puxasse pela nuca. Senti um choque percorrer a espinha por onde ele tocou e encolhi o pescoço, sua língua aumentando o contato entre nós de forma precisa e firme. O beijo começou de forma tranquila e quando começou a intensificar, eu entrei em desespero e o empurrei pelo peito, levantando de uma vez.
, volta aqui… — ele pediu mansinho. Neguei com a cabeça enquanto saía dali correndo rumo ao meu quarto.
Não sei como eu não rolei escada a baixo.

***

Send my love to your new lover
Treat her better
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


Subi as escadas do prédio só pensando que eu era realmente muito idiota por fazer aquilo. Se ele me pegaria na porta de casa de carro, eu não precisava ir para a dele de ônibus, certo? Mas eu fui. Queria chegar mais cedo e fazer surpresa e talvez outras coisas. Talvez percebesse e saísse, ela sempre notava, tinha muito mais maldade que eu.
Estendi a mão pra tocar a campainha e a porta se abriu na mesma hora. Uma mulher que eu nunca vi na vida passou correndo por mim, esbarrando e jogando minha bolsa no chão. Bufei e me abaixei pra pegá-la.
? O que você tá fazendo aqui?
Ergui o olhar e senti meu cérebro ser esmagado. Eu sabia que não deveria ter ido. Tinha algo dentro de mim berrando para que eu não fosse.
estava completamente nu. Aquilo geralmente faria minha cabeça rodar num bom sentido, mas um mais um eram dois e eu não conseguia acreditar que ele estava enfiando aquela coisa em mim e em outra mulher ao mesmo tempo.
— Aparentemente, nada. — me levantei. — ou interrompendo algo, não sei. — dei de ombros.
— Olha, posso explicar.
Estendi a mão, lhe impedindo. Ele parou na hora.
— Não se dê o trabalho, por favor. — ri. — afinal das contas, a gente não tinha exclusividade, né? — dei de ombros de novo.
Eu sempre soube que não namorávamos. Sempre soube que não era só sexo. Talvez estivesse errada e pra ele era só sexo sim.
— Eu não queria que você descobrisse assim.
— Eu acho que você não queria que eu descobrisse de jeito nenhum. — arqueei as sobrancelhas. — fala pra sua irmã que eu não vou mais ao museu. — vinquei a testa e fiquei assentindo para poder abstrair direito aquilo.
Eu lhe dei as costas e fui embora. Ele tentou vir atrás de mim, mas estava sem roupa nenhuma e não era legal sair no corredor do prédio assim. Então ele ficou me chamando e eu fingia que não ouvia.
De alguma maneira, aquilo não tinha me afetado tanto quanto era esperado.

***

If you're ready, if you're ready
If you're ready, I am ready
If you're ready, if you're ready
We both know we ain't kids no more
No, we ain't kids no more


Cheguei em casa e joguei minha bolsa no pé da escada e fui direto pra cozinha. Estava morta de fome, contava em comer uma casquinha de sorvete, mas agora eu teria que ir conhecer o museu do sorvete depois e sozinha porque minha amiga já conheceria. Eu estava na pior agora, porque provavelmente eu nem amiga teria mais. Ninguém me mandou ser a rainha da timidez e isolação. Provavelmente eu só tinha e ele não era o maior fã de sair de casa.
Deparei-me com ele no fogão cozinhando. Aquilo me fez travar e já imaginar aonde eu poderia arrumar um extintor de incêndio. Em todo o meu tempo ali, ele nunca tinha cozinhado e havia sido bem claro quando me disse que não o fazia.
— Chegou cedo.
Abri a boca para lhe responder, mas eu não sabia o que ia ou deveria sair dali, e não falei nada. Fiquei encarando ele cozinhar e me aproximei.
— O que é isso?
— Mingau de amido de milho, acho. Não parece meio duro?
Arregalei os olhos. Aquilo estava parecendo massa de cimento, exceto pela cor.
— Muito.
— É, acho que a receita está errada.
— Não é mais fácil você estar errado? — arqueei a sobrancelha.
— Estou tocado com sua sensibilidade. — espalmou a mão no peitoral. — comeu fora? — neguei com a cabeça — não estava te esperando, fiz só pra mim, mas posso dobrar a receita, se quiser.
Naquele momento, eu comeria qualquer coisa. Até presunto, que eu odiava. Mingau era gostoso. Mas eu precisava me lembrar que era o preparando e ele estava duro, mas ao mesmo tempo ele estava oferecendo com tanta boa vontade… me comoveu. Peguei uma colher e enfiei na panela, tirando um pouco pra provar. Até que não estava ruim, só estava muito doce.
— Coloca mais leite, é suficiente.
Ele assentiu e me obedeceu. Me sentei na bancada e fiquei o observando. Imaginei se ele faria comigo o mesmo que caso ele fosse meu casinho americano. Bem, era espanhol. Ah, enfim. Ele havia parado de trazer presentinhos desagradáveis pra mim, ou melhor, casinhos para casa e eu até duvidava se ele estava transando ultimamente.
— E então, sua amiga desistiu de sair?
Olhei pra cara dele e levantei uma sobrancelha. Ele estava sendo totalmente descarado e estranho. Deduzi que estava jogando verde comigo. Foda-se, agora eu até concordava com ele por ter birra de . Eu deveria ter sabido melhor que homens estereotipadamente perfeitos eram sinônimo de problema. Já não era o estereótipo de beleza, mas eu o achava bem lindinho, fazia o meu tipo.
— Na verdade, eu peguei pelado com outra. — apoiei o queixo na mão e fiquei esperando pra ver a reação dele.
Eu o percebi vacilar. Por uma fração de segundos ele congelou e depois voltou a mexer o mingau normalmente e continuou jogando verde pra mim e eu lhe entregava a fruta bem madura.
— Quem é ?
— O irmão dela que você não gosta.
— Isso explica muita coisa. — ele riu, tirou a panela do fogo, ergueu a cabeça e me encarou. — espera, vocês estavam juntos? — arregalou os olhos.
Ele não sabia? COMO ele não sabia? Tipo, eu jurava que ele sabia e por isso implicava com . Ai meu Deus, eu era uma otária iludida. Parecia que eu estava a fim dele, agia como tal. Precisava de ajuda e não tinha ninguém pra me ajudar, pois quem eu recorria naquelas horas estava bem dentro do ninho das cobras. Coitada de mim.
— Algo do tipo. — dei de ombros. — não me importo, na verdade.
Ele largou a panela na pia, fazendo barulho. Travou os braços na bancada e fechou os olhos. Ele estava com raiva? Bufou. Ai, estava sim. Aquilo não era coisa de falar com ele, eu deveria ter saído fora na hora que ele começou a indagar. Que burra.
, por que você me beijou ontem?
— Eu o quê? — arqueei uma sobrancelha e virei a cabeça, olhando-o de lado. Aquilo era engraçado. Até parece que eu tinha coragem pra fazer aquilo.
se virou pra mim e eu vi tudo desenhado em seu rosto. Ele não estava com raiva. Ele estava confuso. E agora eu também.
— Você tá falando sério?
— Você não se lembra? — ele me imitou. Eu neguei devagarzinho e até timidamente. Ele suspirou. — é claro que não.
Eu não devia ter bebido aquele tanto.


SIX


I'm giving you up
I've forgiven it all
You set me free


— Quero te mostrar uma coisa. — ele me chamou com os dedos assim que apareci em seu quarto.
Havia acabado de chegar da aula e estava cansada, mas agora eu mal chegava e já íamos pra nossa social. Eu não tomava banho antes, porque provavelmente eu faria isso com ele depois. Estávamos juntos há alguns meses. Ele já saía mais de casa, comigo inclusive, e já havíamos sido fotografados juntos diversas vezes. A mãe e a irmã dele diziam que era um milagre ver o rosto do filho de volta ao círculo de fofoca, revistas ou sites. Aparentemente gostavam daquilo, pois achavam meio depressivo antes.
Ele comia fondue de fruta com chocolate quente e vinho Famille Delavoux. Era o tal vinho que tinha me deixado doida meses atrás, mas eu bebia dele sempre e adorava, agora eu já sabia como beber sem ficar loucona. Com algumas pesquisas no Google, eu descobri que ele vinha da França e era super bem conceituado na indústria, a vinícola era cheia de prêmios e sua família era uma das produtoras de vinho mais ricas.
Eu havia engordado três quilos depois que ele começou a me fazer comer das suas coisas e eu já não odiava chocolate tanto quanto antes.
Sentei-me ao seu lado e roubei o morango do espeto dele. me olhou com uma feição indignada e eu dei um beijinho em seus lábios que formavam um bico.
— O que é?
Ele me estendeu um moleskine e eu o abri na página marcada enquanto ele me servia vinho. Comecei a ler e beber. Arqueei as sobrancelhas e comecei a sorrir. Aquilo estava bonito e profundo.
— Uma música nova.
Deixei o queixo cair e virei para lhe encarar. Ele sorria.
— Não! — falei com descrença, mas já gritava feliz. Ele não escrevia uma música nova desde quando lançou o último álbum, há anos.
— Sim! Terminei hoje.
Voltei a fitar o caderno, sorrindo. Falava sobre ter alguém pra lhe estender a mão em momentos de dificuldades com certo toque de paixão. Aquilo me soava meio familiar.
— É sobre mim?
Ele assentiu.
Larguei a taça de vinho no criado-mudo, comecei a rir e passei os braços pelo seu pescoço, dando beijos em sua bochecha e sentei-me em seu colo. pôs as mãos na minha cintura e me puxou pra perto, deitando-se em meu ombro.
— É linda. Ninguém nunca escreveu para ou sobre eu. Obrigada. — ele assentiu. — agora você precisa cantá-la pra mim. Quero ver a melodia. — falei animada.
concordou e descemos para sua sala. Ele tocou-a no piano e eu ficava olhando-o de forma completamente admirada e encantada. Era meu instrumento favorito e eu tinha vontade de aprender a tocar. Ele sabia daquilo e vinha me ensinando.
No dia seguinte, cheguei em casa e ele me disse que tinha enviado-a ao seu produtor e a gravadora queria lançar como um single. Ele preferia esperar, ter mais músicas para fazer um álbum completo, então liberaria como primeiro single do álbum.
Com o tempo, eu passei a chegar em casa cada dia vendo-o trabalhar numa música nova. Ver sua paixão e dedicação para produzir aquilo me deixava em êxtase e até me contagiava, de forma que eu comecei a rabiscar uns refrães e criei coragem de mostrá-los para ele. Ele me ajudou a melhorar, trabalhamos em cima daquilo e escrevemos juntos nossa primeira música. Depois fizemos mais outras e também me arrisquei em uma ou outra sozinha. Ele queria comprá-las de mim, mas eu não tinha motivos para comercializá-las e simplesmente dei tudo pra ele.


SEVEN


Send my love to your new lover
Treat her better
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more
Send my love to your new lover
Treat her better
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


Ele havia construído um mini estúdio em casa, pra gravar as músicas do álbum de lá quando não animasse a sair. O problema era que aquilo não passava de uma desculpa esfarrapada. Saíamos juntos de manhã cedo, ele me deixava na escola e ia pra gravadora. Quando eu chegava em casa, à tarde, todos os dias o encontrava gravando e gravando. já não fazia mais nada. Só trabalhava. Nosso sexo já até perdia cores. Era incrível no começo, era tão bom que parecia que jamais conseguiríamos aquele resultado com qualquer outro parceiro. Hoje em dia, eu já sabia que era uma ilusão pensar assim. Nem na época que ele pegava eu e mais uma ficava tão sem graça assim.
Nossas sociais também começaram a morrer. Já não havia mais reuniãozinha em sua cama para contar um ao outro sobre como havia sido nosso dia, mesmo porque todos os dias eram iguais. Pra mim, aula, ser fotografada pelos paparazzi, não todos os dias, mas na maior parte da semana, voltar pra casa de ônibus e ler, ler, ler. Pelo menos ele tinha muitos livros, que eram meu refúgio. O dele, eu sinceramente não sabia, porque àquela altura eu até duvidava que ele fosse pra gravadora todos os dias, mesmo porque os paparazzi tiravam menos fotos dele lá na porta do que de mim na escola.
Um dia resolvi questionar, reclamar. Eu já estava me sentindo só. manteve-se conversando comigo mesmo depois do que houve com seu irmão, mas não era a mesma coisa, principalmente porque começamos a namorar e nos afastamos, ficamos cada uma pro seu lado. Não havia jeito de reconquistar, havia bastante tensão entre a gente. Ele era tudo que eu tinha.
Mas não adiantou. Ele não me ouviu. Estava afundado no trabalho, mergulhado de cabeça. As músicas gravadas para o álbum eram a maioria sobre mim, mas já não havia mais nenhum motivo para lançá-las.
O contato foi diminuindo, era como a época que eu tinha chegado ali e não nos dávamos bem. Era pior, porque ficávamos sem jeito próximos um ao outro. Eu voltei pra minha dieta saudável e comecei a perder, pouco a pouco, os quilos que havia conquistado. Não tinha motivos para comer as gordices dele.
Quando completou três dias seguidos sem trocarmos uma palavra sequer, o surpreendi falando que deveríamos terminar e seguirmos somente como amigos. Ele assentiu, abaixou a cabeça pro seu moleskine e continuou escrevendo outra música como se eu não estivesse ali.


PROLOGUE


If you're ready, if you're ready (Send my love to your new lover)
If you're ready, are you ready? (Treat her better)
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


Já haviam se passado dois anos desde quando pus o pézinho em LA pela primeira vez, no meu intercâmbio de inglês.
Quando estava prestes a concluir, decidi que eu ainda não estava feita com aquele país. Não podia deixá-lo, não ainda.
Então apliquei em universidades. Ganhei bolsas. A surpresa? Eu sabia meu rumo. Sabia qual curso eu queria fazer e devia aquilo inteiramente a ele. era o responsável por ter despertado e aumentado minha paixão pela música. Havia me ensinado a tocar instrumentos e a compor.
O álbum que ele escreveu inteiramente para mim foi o responsável por trazê-lo de volta ao topo. Ele estava no auge de sua carreira, mais famoso que nunca. Recebi os devidos créditos em cada música que tinha uma palavra minha, mas nenhum dinheiro, pois eu não havia feito questão daquilo na época. Ele também havia faturado mais três Grammys e diversos outros prêmios. Todo mundo o queria em suas trilhas sonoras, os shows da turnê mundial inicialmente divulgados esgotavam-se na velocidade da luz e ele precisava abrir outra data na mesma cidade. Ele era o queridinho de Hollywood.
E eu era a bebê.
Havia fechado contrato para um EP com a mesma gravadora dele, já havia lançado um single. A música falava sobre . Dizia que os problemas em nosso relacionamento eram culpa dele, que ele se dizia pronto para um comprometimento maior, mas não se dedicou a tal. Dizia que eu já não estava mais disposta a esperar por ele e que ele havia me deixado livre. Havia escrito essa parte logo quando terminamos, mas adaptei quando a lancei como single.
Ele tinha uma nova namorada, ela também era famosa, vivia no nosso meio. Eu gostava dela, já havia a conhecido, não através dele. Ela merecia coisas boas, então eu escrevi para que ele a tratasse de forma melhor do que fez comigo.
Mentalizei isso quando entrei no palco do MTV Music Awards para cantá-la ao vivo pela primeira vez. Eles estariam na primeira fileira, me observando bem de pertinho. Eu queria que ele pensasse em minhas palavras, refletisse e fosse um namorado melhor.
Enquanto isso, eu estaria pensando na minha liberdade.
This was all you, none of it me…

If you're ready, if you're ready (Send my love to your new lover)
If you're ready, are you ready? (Treat her better)
We've gotta let go of all of our ghosts
We both know we ain't kids no more


Fim



Nota da autora: GENTE QUEM VIU REFERÊNCIAS DE VIDE (uma longfic minha, pra quem não sabe) LEVANTA A MÃO KDKDKDKDKD ps: o Delavoux do meu pseudônimo é por causa da personagem da fic e não o contrário!
Precisei usar uma técnica totalmente diferente nessa fic por causa do tempo, que é a descrever menos e contar mais, e eu quase morri de nervoso porque eu sou super detalhista aaaaaaaa queria ter conseguido :(
Essa fic teria duas partes, a primeira ia ser do ficstape Purpose e a continuação aqui no ficstape 25, mas quando eu percebi que o do Justin não sairia antes do da Adele, como havia sido inicialmente planejado, precisei abandoná-lo e fiz uma só fic, em cima de Send My Love. Já a inspirei em várias músicas e tirei um pouquinho de cada, inclusive Love Yourself (que era a primeira parte) e até Shape of You, mas a ideia central veio de um sonho, onde eu estava na cama de um antigo ídolo comendo queijo com vinho e ele quem me beijou heheheh (Logan that's all on you!)
O final ficou bem apressado, porque eu sempre deixo pra última hora, e bem no dia que eu planejei terminar, passei a tarde inteira tomando soro no hospital. Kinda sad :(
Então espero que gostem! Realmente faz muito tempo que eu não escrevia um ficstape que não fosse spinoff de Best Nanny Ever (outra long minha) e eu gostei bastante da história, ela ficou até bem grandinha, apesar de decidir que não farei isso novamente porque desvia bastante meu foco de bne e eSSA NÃO É A INTENÇÃO LDJDLDKD
Não se esqueçam de comentar!
Beijos!






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