Última atualização: 22/12/2017

Capítulo Único


Segunda-feira, Nova York. 2010.
- Bom, senhor , muito obrigada pelo convite, mas acredito que Soraya irá ser uma melhor acompanhante para esse baile do que eu. Ainda sou apenas uma secretária. - repetiu mais um vez seu discurso em frente ao pequeno espelho que ocupava um lugar em sua parede do pequeno banheiro que tinha no seu flat. Entortou os lábios e voltou a escovar seus dentes, levando a escova até o interior de sua boca com certa dureza.
era o sobrenome de seu chefe, o dono do maior escritório de advocacia de Nova York e ela era a secretária. Haveria um jantar de gala entre alguns diretores de hospitais e clínicas de Nova York, para discussão de alguns assuntos com o ministro da saúde dos Estados Unidos e queria ao seu lado como acompanhante. Normalmente em jantares ou noites do mesmo segmento ele levava Soraya, sua assistente pessoal, porém, de um modo que nem Soraya e entenderam, o convite para a noite havia sido deixado na mesa de – que não tinha muita experiência com esse tipo de evento.
já havia percebido um tratamento diferente vindo de seu chefe. Reparara nos últimos dias que estava se aproximando mais dela, coisa que por meses não fizera. Desde que fora contratada se dirigia para Soraya quando precisava passar os compromissos do chefe, as reuniões e coisa do tipo, de praxe do trabalho. quando passava pelas duas antes de entrar em sua sala dizia somente um bom dia e tudo o que tivesse que ser tratado, tratava com Soraya, e pelos últimos dias estava se dirigindo a diretamente. Além de ordenar que seu motorista a levasse embora, deu um cartão de crédito sem limite para que ela usasse sem se preocupar – seguindo suas palavras. estava deslumbrada, porém ainda mantinha os pés no chão.
Na terça-feira seria feriado do tão amado 4 de Julho. havia ligado para na sexta a noite e dito que ela deixasse suas coisas prontas, pois iriam para a fazenda dele no Texas. Iriam com o jatinho particular de um amigo empresário que os acompanhariam na comemoração do feriado e não sabia como reagir a isso. Durante os dias que se passaram depois do convite – intimação – de , ela tentou se concentrar na ideia de viajar com seu chefe e a família dele. Soraya havia instruído ela da maneira como agir, provavelmente iria ficar de babá das crianças. O que Soraya não entendia era que aquela família tão rica não pagava uma babá para cuidar das crianças e sempre acabava sobrando para ela.
- Ugh.
bufou e se sentou em cima do vaso sanitário com a tampa fechada. Apoiou seus braços nas pernas e curvou seu corpo para frente. Diria para o chefe durante a viagem o que estava ensaiando. Além de jantar, a noite seria voltada para causas beneficentes e algo mais social clássico. Teria um leilão para arrecadar dinheiro para uma instituição que cuidava de crianças com câncer de baixa renda, comandada por e alguns outros empresários. A We4Them havia sido fundada devido a um projeto de com seu irmão Scott e o cunhado do mesmo, Serj. Scott e Serj se tornaram apenas embaixadores, já comandava e se colocava a frente de tudo. Apesar de saber sobre a instituição, não a conhecia.
Dali a poucos minutos Bruce estaria em sua porta, pronto para a levar para o aeroporto, talvez junto a . Ela sentia um vazio doloroso no estômago devido à crise de ansiedade, sua bombinha da asma já estava preparada para os ataques de falta de ar que se desencadeiam devido ao nível alto de ansiedade e nervosismo. Em sua mala tinha de tudo um pouco, voltariam para Nova York na quarta de manhã e a noite de gala seria no próximo dia, e ela não estava tão certa sobre levar muita coisa, somente o necessário. Levantou-se e foi em direção ao quarto – que já era o seu apartamento inteiro –, fechou as janelas de vidro e persianas e as cortinas. Caminhou com a mala de rodinha até o pequeno espaço na porta de entrada – seu flat era pequeno, não tinha sala; na entrada tinha um pequeno hall que separava a cozinha no próprio modelo americano do banheiro e o quarto, porém havia colocado um vídeo fumê no balcão para não ficar muito vazado – e então voltou para pegar a outra pequena mala de mão que levava seus produtos de higiene. Quando juntou tudo de uma forma organizada na porta do flat, seu telefone tocou em cima da mesinha que tinha na porta que ela usava para colocar sua bolsa e outros acessórios, pegou o aparelho na mão e viu o nome - Sr. - brilhando na tela. Sentiu um frio na espinha e abriu sua mensagem, ele apenas avisava a moça de que já estava na porta de seu prédio. Sem muita dificuldade ela carregou suas coisas até lado de fora e trancou a porta, caminhou para o elevador e desceu até o hall de entrada do edifício, quando as portas se abriram ela visualizou a figura de seu chefe com certa sutileza. Era surreal como ele ficava extremamente atraente vestindo apenas uma bermuda e uma camiseta branca com uma sandália masculina de couro e um óculos de sol modelo aviador. era um modelo de homem mais velho na flor da idade, ninguém diria que ele já beirava os 40 anos. Tanto que com apenas seus 22 se sentia totalmente atraída por ele.
- Senhorita . Deixe-me lhe ajudar com as malas. - Ele sorriu para ela e ela pôde perceber a animação em sua voz. Apenas sorriu e caminhou com ele até o carro que estava estacionado na entrada do edifício, assim como em hotéis 5 estrelas.
Quando chegou perto do veículo sentiu falta de Samuel, o motorista, e viu que o carro estacionado e o qual colocava as coisas dentro do porta-malas era o seu próprio de uso esportivo. Torceu os lábios sem perceber e apertou sua bolsa no ombro; por manter seu olhar em seus pés não percebeu quando ele deu a volta e parou em seu lado, só acordou de seu devaneio quando sentiu a mão fria dele tocando seu braço. Olhou para cima e percebeu seu sorriso.
- Vamos? - Sua animação era extremamente contagiante.
sorriu e concordou com a cabeça, ela não sabia por qual porta entrar no veículo e percebendo sua confusão a guiou.
- Você me acompanha no banco da frente, atrás tem Marylin e as duas babás. - Vendo que ela ficou ainda mais confusa ele completou: - Minha filha, achei que soubesse que tenho uma filha de seis anos. - Desta vez foi ele quem entortou os lábios.
- Não, Soraya nunca comentou comigo, nem mesmo o Senhor. - Ela disse pela primeira vez, franzindo o cenho.
- Bom, então terei que lhe apresentar a ela. - Ele abriu a porta de trás e a pequena estava dormindo. - Quando ela acordar faremos isso. - Soltou um riso abafado.
Os dois tomaram seus devidos lugares no carro. começou a estranhar quando ele seguiu com o carro para a saída pela Hudson St indo pela I-78 em direção a New Jersey, um caminho totalmente diferente da direção do aeroporto.
- Não íamos de jatinho? – Perguntou, olhando para ele.
- Eu gosto de dirigir para Dallas, a estrada é linda. E é bom. - Ele disse desviando um pouco o olhar do caminho para olhar ela.
- São quase 24h de viagem indo de carro. - Ela disse meio assustada.
- Eu sei. - Ele disse e ela se calou.
conhecia Dallas, mas não gostava muito de voltar para lá. Sua avó tinha uma fazenda afastada da cidade. Sua avó morreu quando ela tinha dez anos e estava se mudando com seus pais para Nova York. Seus tios juntamente com seu pai decidiram que deveriam vender a fazenda e levar seu avô embora com eles para Nova York, pois ele estava muito doente para ficar sozinho em um lugar longe. e seus primos nunca adoraram a ideia de venda da fazenda. Todos amavam aquele lugar, era o local onde sempre iam passar as férias e o pensamento de outra família morando ou até mesmo não cuidando da fazenda, a qual seus avós batalharam uma vida inteira par manter, não era agradável. Dois anos após a venda seu avô morreu e a família de dissipou.
estava concentrado na estrada, Nova York havia ficado a milhas de distância e ainda era dia. Do seu lado dormia encostada no vidro e se ele não visse os seus ombros subindo e descendo se desesperaria pois significaria que ela estava morta. No banco de trás, viu pelo retrovisor, Marylin estava acordando e as babás também. Para sua sorte havia uma parada logo a frente para que ele pudesse alimentar todas e usar o banheiro. Assim que parou o carro as babás já levaram ela para o banheiro e afins. ficou um tempo olhando para , procurando um jeito de acordar ela, porém não foi preciso, ela acordou sozinha e o pegou a olhando.
- Ah... - Ele disse meio constrangido enquanto ela se arrumava no banco. - Parei em um... Erhm... Posto. Tem banheiro e conveniência, se você quiser vir conosco, vamos almoçar. -
saiu do carro e pegou apenas sua carteira, depois de vestir seu óculos de sol. Caminhou atrás de até dentro do restaurante e viu em uma mesa no fundo as duas babás com a filha dele. Poucos passos depois já estavam perto delas.
- Papai! - A menina gritou.
analisou bem o rosto da menina. Seus traços eram suaves e seus olhos grandes eram a única diferença entre o pai e a filha. Enquanto via a felicidade da criança em ver seu pai, não percebeu que ela tagarelava sem parar enquanto puxava a cadeira para que pudesse se sentar ao seu lado. Depois de um longo almoço decidiram voltar para a estrada. No caminho até o carro pegou pelo braço e a puxou delicadamente para dizer:
- Relaxe um pouco, ... - Ele disse descontraído. - Posso te chamar pelo seu nome?
- Pode. - Ela gaguejou.
De volta com o carro na estrada, Marylin voltava a tagarelar enquanto assistia algum desenho animado pelo seu tablet. As duas babás se revezavam para dormir e aproveitou para tirar um cochilo.
observava tudo em sua volta. Não conseguia tirar de sua cabeça que talvez seria uma péssima ideia trocar Soraya por , uma vez que a segunda o fazia ter pensamentos sórdidos. Nos dias atuais o que ele estava fazendo, se descoberto, seria retaliado. Reportado como assédio. Mas ele não podia negar o interesse menos profissional que tinha por ela. Sua firmeza em palavras, seus olhos que o encaravam com brilho, o sorriso meio amarelo, o tique nervoso de cobrir o lábio inferior com o superior. Ela tinha detalhes que ele reparava, como fez com sua falecida esposa e mãe de sua filha, Maryl.
Em meio aos faróis que já ficavam fortes por estar anoitecendo – e ele nem sequer notou que tanto tempo já havia passado – ele piscou forte, pensando em como ele e Maryl eram um casal e tanto. Só deixou o cansaço o vencer. Pôde sentir alguém jogando o corpo em cima do seu e com o barulho de uma buzina acordou, vendo o carro voltar para sua faixa. Ele, assustado, voltou as mãos ao volante. Olhou para o lado e viu assustada e sem o cinto, pelo retrovisor viu que Marylin dormia e ele agradeceu mentalmente por isso. Piscou algumas vezes e sussurrou um pedido de desculpas.
- Você está cansado. - disse trocando o ‘senhor’ por ‘você’ e ele se sentiu melhor por isso, soava menos submisso. - Não prefere parar para dormimos? Ou eu posso dirigir até Dallas, conheço aquela cidade muito bem, estou bem descansada. -
Sem dizer alguma coisa, para não admitir sua derrota, ele parou no acostamento. Tirou o cinto e respirou fundo antes de abrir a porta e sair em silêncio. pulou de um banco para outro, arrumou o espelho retrovisor e assim que se sentiu confortável e na posição correta, deu a partida no carro. Não demorou muito para que dormisse. Prestando bem atenção no caminho ela não viu a hora passar e nem as milhas rodarem. Quando estava chegando perto da primeira entrada da cidade acordou e percebeu que ela estava tensa.
- Está tudo bem? - Ele perguntou baixo.
- Sim. - Mentiu.
Depois da venda da fazenda ela não havia voltado para Dallas, e aquele era um lugar que havia marcado sua vida.
- Quer que eu dirija? - Ela concordou e eles trocaram novamente os lugares. Marylin despertou e se animou quando percebeu que estavam no caminho em direção à fazenda que ela tanto amava. percebeu na menina a empolgação que ela mesma tinha quando era criança. Respirou fundo e se manteve firme no banco, suando frio conforme reconhecia o caminho que fazia. As árvores ainda eram as mesmas, faziam o mesmo desenho na estrada, o que havia mudado fora seus galhos envelhecidos alguns anos. A primeira casa da estradinha de terra ainda era verde, a primeira fazenda ainda tinha o mesmo nome - Roseveelt’s Place - , algumas outras apareceram no meio do caminho, mas seus olhos só souberam focar em um único ponto no fundo, que iluminado com o farol do carro, parecia totalmente abandonado. A fazenda - Butterfly’s Home - estava apagada.
Segurou mais a respiração com as lembranças e se concentrou no caminho, a fazenda onde ela passaria o feriado era do outro lado da rua. Era a fazenda que ela via desde pequena e sempre sonhara em conhecer. Bisbilhotava sempre os movimentos vindos de lá, os cavalos, os porquinhos, todos os animais. E principalmente o moço que aparecia lá nos feriados, que para ela era um adolescente bonito, pelo qual sua prima babava. Desviou o olhar para que entrava com o carro na fazenda de portões automáticos, seus traços eram mais familiares para ela agora. era o adolescente da fazenda vizinha que Agnela tanto falava e gostava. Por um momento desejou não estar naquele carro.
não sabia se falava ou se mantinha aquele nervoso para si. Depois de descarregar as coisas com ajuda de empregados e ser devidamente apresentada à família como uma - amiga - , ela resolveu dar-se o toque de recolher. Enquanto se arrumava no quarto que dormiria, que era ao lado do quarto de Marylin, não conseguia se concentrar. O amigo milionário de chegaria pela manhã em seu luxuoso carro, talvez. Ela não fazia parte daquilo, daquele mundo; era muito luxo para pouca . Havia estudado para estar em patamar como aquele, estava chegando a isso, mas não tinha se preparado psicologicamente para isso. Depois de um banho e de relaxar com a sua própria massagem durante o tempo que passava o creme de corpo, decidiu ler seu livro favorito: Tess Of The D'Urbervilles. Tentou por muito se concentrar, mas não conseguia. Levantou e olhou pela janela o breu da noite que tampava a fazenda que já fora de sua família. Desceu de seu quarto para a cozinha e pediu a um dos funcionários uma lanterna boa, se esquivou de perguntas e fez o caminho para o lado de fora do casarão. Nem sequer colocou uma bota para proteger seus pés ou um roupão para cobrir seu corpo devidamente, foi de chinelo e camisola. Durante o trajeto ela foi sentindo a brisa do vento bater contra seu rosto e fazer seu cabelo voar levemente. Saiu pelo pequeno portão que não estava trancado e continuou caminhando para o outro lado da estrada, entrou na fazenda sem precisar pular uma cerca ou forçar o portão, uma vez que não havia mais nenhum dos dois ali. A grama molhada do sereno incomodava um pouco seu pé e pinicava, o mato alto cobria toda a volta da enorme varanda que rodava a casa inteira. Respirou fundo e iluminou a porta para entrar sem nem pensar duas vezes.
pensou que poderia chamar para uma volta na varanda da casa, que para ele em particular era linda a noite. Conversaria com ela mais um pouco para ficar mais próximo, já que ela o acompanharia ao jantar de gala na quinta. Então calçou seu chinelo e foi até o quarto dela, não muito distante do seu, e quando foi bater na porta ouviu uma voz dizendo um pouco de longe:
- Ela saiu, Sr. . - Era Albridge, mulher do caseiro, ela carregava alguns lençóis dobrados e passados em mãos e estava na ponta da escada, de tão concentrado em sua tarefa não a viu chegando. - Pediu uma lanterna e saiu da fazenda em direção à antiga Butterfly’s Home. - Albridge concluiu.
O homem ficou curioso em saber o porquê ela havia ido lá tão tarde da noite e depois do cansaço da viagem que haviam feito. Também se preocupou pelo fato de ser tarde da noite e a casa estar escura, talvez cheia de bichos peçonhentos e sem proteção alguma. Não pensou por muito mais tempo e foi até a área de materiais e ferramentas atrás de uma lanterna, com a ajuda de Somers logo encontrou. Caminhou até rápido demais e logo chegou até o outro lado, entrou aos tropeços na casa e se sentiu incomodado com o abandono. Subiu alguns degraus da escada e chamou por algumas vezes. Ela não o respondia. Desceu os degraus e foi para o lado de fora, andou para o espaço que um dia fora o estábulo, ele reconhecia. havia visto quando aquela fazenda brilhou um dia, cheia de vida e de crianças, visitas para os donos. Ele mesmo ia com seus avós para visitas, mas porque gostava dos cavalos que tinham lá e dava atenção às crianças também. Desde mais novo fora fácil de lidar com crianças, então quando sua filha nasceu e sua então noiva morreu em um acidente de carro meses depois, ele não se sentiu com medo de cuidar da criança sozinho.
Cuidadosamente ele foi entrando no estábulo abandonado, ainda chamando por , mas prestando mais atenção nos detalhes do abandono. As paredes de madeira estavam todas com os pregos enferrujados, a tinta que era branca estava quase preta de tanta sujeira. O feno velho espalhado pelo chão fazia o lugar ficar sujo e o cheiro de algum bicho morto incomodava bastante.
- Dá pra acreditar que eu cresci nesse lugar? - Levou um susto quando ouviu a voz de ; em primeira instância não a reconheceu, apenas virou e apontou a lanterna para seu rosto, o que fez com que a moça cobrisse os olhos com o braço. Ao reconhecer ela, pediu desculpa e abaixou a luz.
- O que faz aqui? - Ela perguntou, um tanto quanto desinteressada.
- Eu... - Ele olhou para o chão por alguns instantes tentando assimilar o que estava acontecendo. - Fui até seu quarto, queria levar você para conhecer a fazenda a noite, temos uma vista linda do céu... Mas Albridge me contou que viera para cá.
não disse nada, apenas ficou quieta. Se afastou um pouco para esconder dele que estava tensa e que havia chorado, porém a mesma quantia de passos que ela deu para trás ele deu para frente, entretanto os passos dele foram mais largos, o fazendo ficar bem próximo.
- Está tudo bem? - Ele perguntou com a voz calma. - Por que veio aqui, afinal?
engoliu em seco e virou-se de costa para ele, limpou a lágrima que escorreu com a costa de sua mão.
- Eu passei minha infância inteira aqui, . - Ela começou, sua voz era suave e ele achou tão bonito ouvir seu nome saindo por aquele tom e esperou ela continuar. - Meus avós morreram e tudo o que poderia ficar de legado deles era isso aqui, mas virou pó. É tão ruim ver um lugar como esse que era cheio de vida se tornar esse monte de lixo.
Então as coisas que se passaram em sua mente faziam sentido, era neta dos donos da fazenda e era a criança que sempre pedia a ele que a ensinasse a andar de cavalo. Que volta o mundo tinha dado para parar naquele mesmo lugar?
- Você... Você era a menina que sempre me pedia para ensinar a andar de cavalo. - Ele disse meio nostálgico e ela concordou em silêncio. - Ual.
- Estranho, né? - Ela fez uma careta.
- Sim.
Estranho sim, ele estava de frente com alguém que nunca imaginaria encontrar na vida, a qual nem lembrava da existência, e sentia coisas em relação à ela que o seu - antigo eu - o repreenderia. A imagem de quando criança fora totalmente apagada porque ele nunca se importara com ela, mas a imagem dela com os olhos vermelhos por se sentir mal ao ver o local que crescera estar destruído daquele jeito, o tocou de certa forma.
Quando o dia amanheceu, com um sol tão forte que ficava impossível não aproveitar a imensa cachoeira que tinha a poucos metros, e já estavam um pouco mais a vontade um com o outro. Saíram cedo para a cachoeira com Marylin e as duas babás e só voltaram quando estava perto da hora do amigo milionário de chegar. e Marylin se deram incrivelmente bem, a criança não desgrudava um minuto dela e se sentia confortável para tagarelar o dia todo.
Porém quando a tarde chegou e apresentou para , ele desejou não ter feito isso. Sua assistente e seu amigo se deram extremamente bem. Passaram mais tempo conversando sobre negócios, coisas que ele não tinha conhecimento que sabia – economia para ser mais exato –, também falaram sobre coisas aleatórias e futebol americano. Prestando atenção na conversa dos dois ele pôde saber que ela era uma grande torcedora do New York Giants e que tinha o sonho de conhecer o estádio MetLife e que nunca fora ao SuperBowl; também aproveitou para se apaixonar por sua risada e seus traços, sua voz e seu jeito de franzir o cenho quando fala algo de que se arrepende. Então se ofereceu para leva-la até um jogo e algum dia ao SuperBowl e ele se sentiu bobo por sentir inveja disso.
Quando o final do feriado chegou, ofereceu uma carona em seu jatinho para , e os demais, mas o amigo não aceitou, deu uma desculpa de que iria ficar mais um dia, porém foi junto. No dia seguinte seria o tal jantar de gala e ela precisava deixar as coisas arrumadas e ir atrás do seu vestido. Seu chefe, que voltara com a postura rígida para com ela depois da presença de , concordou relutantemente e então ela foi.
Levar ela para a fazenda seria um bônus e a deixaria mais confortável quanto ao jantar e mataria sua curiosidade em conhecer mais sua funcionária que havia despertado um certo interesse nele. E vendo Marylin se despedir de , pedindo por mais dias assim com ela, que ele ficou com o interesse maior ainda. Quando ela acenou e entrou no carro de com a ajuda do mesmo, sorriu de volta para ela sem perceber. Viu o carro se afastar e o seguiu com o olhar, estava na varanda da casa e quando o carro sumiu e ele voltou com o olhar para Marylin, a fazenda abandonada do outro lado apareceu em seu campo de visão e por um instante ele se recordou de sua adolescência ali e daquela criança irritante que vivia prestando atenção em como ele andava de cavalo. Fixou seu olhar na fazenda e tirou o blackberry do bolso, na discagem rápida estava o telefone de Anthony, seu advogado.
- Preciso que você procure o dono de uma fazenda e a compre para restauração. - Ele disse sem antes que Anthony pudesse terminar de o cumprimentar formalmente.

Quinta-feira, Nova York; 2010.
andava de um lado para o outro enquanto esperava a limousine que Soraya a avisara que iria buscá-la no salão em que ela estava se arrumando. Se não fosse o ar condicionado em uma temperatura bem baixa sua maquiagem teria derretido com o suor de seu corpo. Ela estava nervosa, se culpou por ter se distraído com na fazenda e ter esquecido de dizer a que não estava preparada para uma noite de gala daquele porte; talvez Soraya a assustara demais com seus comentários sobre o evento. De tão nervosa que estava e ansiosa, não escutou a moça do salão te chamar, falando que o motorista estava lhe esperando, foi preciso que a mulher lhe tocasse no ombro a assustando.
Todo o trajeto para onde ocorreria o jantar, no Metropolitan Museum Of Art, pareceu ser feito em um supersônico de tão rápido, ou ela só estivesse em um salão tão perto. Quando o carro parou e um rapaz abriu a porta para que ela pudesse descer, ela percebeu a dimensão na situação. Um enorme tapete vermelho a levava para a escadaria coberta por fotógrafos da imprensa, algumas celebridades dando entrevistas e bem na ponta do último degrau tinha vestindo o terno Armani que ela mesma havia separado para ele, como Soraya a havia orientado. Saiu do carro com certo cuidado por causa do seu vestido, um Le Lis Blanc da cor vinho bem escuro, de alças bem finas que se cruzavam nas costas, a deixando totalmente exposta, e uma fenda que se iniciava na metade de sua coxa da perna direita; nos pés usava um scarpin preto da Louboutin com o salto alto, sua bolsa/carteira de mão era da mesma marca e acompanhava o sapato. Ela estava com um vestido simples, mas que a deixava deslumbrante aos olhos de muitos ali, principalmente para .
Ela caminhou pelo tapete tentando evitar o incômodo dos flashes, no pé da escada ela encontrou que conversava com nada mais nada menos que David Beckham, ele a reconheceu, para seu extremo choque e a chamou sutilmente, sorrindo de orelha a orelha. A apresentou para Beckham e Victória que logo após , também chegara. Um fotógrafo do evento passou e pediu para que eles tirassem uma foto, os dois casais juntos, depois pediu para uma foto separada com a sua - acompanhante - e antes que pudesse dizer que não estava o acompanhando, eles se posicionaram e tiraram a foto juntos. Beckham e sua esposa logo foram para dentro do local e antes que ficasse envergonhada por estar sozinha com ; Briane, a irmã do mesmo chegou tão deslumbrante quanto qualquer outra celebridade e convidada dali. O rapaz apresentou as duas uma para a outra e educadamente se despediu de , lhe dando um beijo na mão dizendo um - Te vejo depois, querida - cheio das intenções. Ele a deixou aos cuidados de sua irmã e sumiu entre a multidão de pessoas.
Uma vez dentro do local onde as pessoas conversavam e tomavam drinks, algumas até dançavam a música lenta, havia se esquivado de Briane para ficar um tempo sozinha e se habituar. a procurava com os olhos enquanto ouvia Scott reclamar sobre sua esposa Harmony, quando finalmente seus olhos pousaram no corpo de com aquele vestido maravilhoso a valorizando, ele saiu do mundo. A viu ficar de costas em um movimento para devolver ao balcão do bar a taça vazia e sentiu seu corpo estremecer com a vista de sua costa apenas coberta pelas alças do vestido que faziam um X. Seu cabelo estava preso no topo da cabeça com alguns fios soltos por charme, mostrando somente o brinco enorme que brilhava de longe, mas que ainda sim não ofuscava o imenso decote do vestido. Ele pediu licença ao irmão e foi até ela. Em sua cabeça, se não conseguisse completar suas intenções de provar como seria estar entre aquela mulher, nunca mais usaria um Armani.
- Boa noite, Srta. . - Disse galanteador.
que não o tinha visto se aproximar ficou paralisada com o sorriso dele que escondia muitas intenções.
- Senhor ... - Disse cordialmente.
Ao fundo a música agitada dava lugar para uma mais calma e ele aproveitou para tirá-la para dançar.
- Me concede essa dança? - Estendeu a mão e ela pegou.
Ao som de uma melodia mais calma de Cheek To Cheek* eles foram para a pista de dança e deixou que ele apertasse suavemente sua cintura. Ela sempre fora fã de jazz, seu pai tinha diversas coleções de vinis e a fazia dançar com ele na sala de sua casa. Sua paixão era ouvir Frank Sinatra para dormir e acordar e não tinha como não reconhecer a melodia calma da música tocando no salão e sendo cantada por uma moça, mesmo que estivesse modificada da original.
- Este terno foi escolhido por você? - perguntou próximo a seu ouvido.
- Sim... Eu achei que combinaria perfeitamente com...
- Seu vestido? - Ele a interrompeu.
- Não, a ocasião. - Ela disse baixo. - Um leilão como este representa poder, usando uma edição super limitada de uma coleção Armani significa que tem poder, Senhor .
- Me chame de ... Por favor. - Mais um sussurro em seu ouvido que a fizera se arrepiar. - Você está deslumbrante.
Ele desceu sutilmente a mão até um pouco acima de seu quadril e a puxou um pouco mais para perto. A música havia sido trocada e agora era um jazz mais dançantes e ficou admirada em ver que ele conseguia dançar sem errar um passo, a acompanhando nos movimentos. Pararam de dançar algumas vezes para uns drinques e se ela não aceitasse por conta própria, diria que ele estava a embebedando. Quando se deu conta os dois subiam as escadas em busca de algum lugar que tivesse um pouco de ar.
- Fazia tempos que não dançava assim com alguém um bom jazz, .
Os dois estavam em um tipo de sacada, encostados no parapeito, um ao lado do outro, tão próximos que se tornou inevitável se beijarem após o comentário feito por .
Por dentro ele se sentia feliz com aquilo de uma maneira diferente da que se sentia por fora, excitado.
, por sua vez, se sentia com alguma borboletas no estômago e um pouco receosa ao passo que ele descia sua mão da cintura para seu quadril.
O beijo se intensificou um pouco mais e quando os dois iam dali em busca de um banheiro para acalmar os ânimos, os parou para dizer que estava na hora de o acompanhar para o leilão e deixou com sua irmã.
- Vamos, querida, temos que entrar. me pediu para que a levasse para mesa dele.
Não demorou para que uma das organizadoras aparecesse e guiasse e Briane até onde ocorreria o leilão. Subiram escadas e mais escadas, encontraram conhecidos da família e Briane apresentava como uma amiga de seu irmão, e tudo o que a moça pensava era o que seu chefe pensaria sobre isso. Na verdade o beijo dos dois e o fato de que estavam procurando um banheiro para possivelmente transarem, a perturbava mais.
Ele queria isso com ela? Era essa a inicial intenção de seu convite para o feriado se não tomasse todo a sua atenção na fazenda?
Livrou os pensamentos de sua mente entornando uma taça de champanhe.
e – juntamente com outros que fazem parte da We4Them – comandariam a cerimônia e como embaixadores tinham seus lugares separados no palco.
O começo do leilão foi calmo e muito interessante. ficou deslumbrada com o tanto de dinheiro que rolou, de tudo era leiloado. Começou com roupas de algumas celebridades ali presentes ou não, artigos de esportes – até uma chuteira do David Beckham foi leiloada por 5 mil dólares – e no momento eram terras sendo leiloadas. deu uma escapada depois de sua parte no leilão – ele tinha apresentado a chuteira do esportista citado – e se sentou na mesma mesa que e sua irmã, ficando na cadeira vazia entre elas. Embalou uma conversa com sobre o feriado; quando a voz de se fizera audível ambos pararam para prestar atenção. Ele discursou olhando diretamente para .
- O terreno que eu tenho para leilão aqui senhores fica localizado na zona rural de Dallas, a poucas milhas da cidade, e está abandonado...
Ele sorriu de lado e se virou para o telão que imediatamente mostrou uma foto da fazenda de sua família. ficou séria e olhou para sem entender, ela havia contado a ele sobre a fazenda de sua família que era de frente com a de e ele também ficou confuso. Enquanto ele explicava por cima a história do abandono do terreno, se mantinha incrédula, olhando uma vez ou outra para ; o mesmo pegou em sua mão carinhosamente que estava em cima de sua perna nua pela fenda do vestido e a puxou para cima dando um delicado beijo. Se entreolharam e ela sorriu.
- Em primeiro lance teremos 20 mil dólares.
Em cima do palco ia leiloando a cada número mais alto, totalmente satisfeito, achando que tocar numa ferida que ele não conhecia de , iria a fazer se sentir bem.
- Ouvi 80 mil?
Ela apertou a mão de quando o último lance foi dando e ninguém mais se pronunciou.
- Então este será o último lance? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...
- 100 mil dólares.
virou seu rosto devagar e viu o sorriso mais sincero que poderia receber em sua vida. estava com a placa de sua mesa levantada pela mão livre, enquanto a outra apertava a mão dela. Ele deu um beijo em sua testa e quando outra pessoa tentou lançar 120 mil dólares ele revidou com um lance mais alto, ficando com o terreno por 200 mil dólares.
- Vendido! Para o senhor da mesa sete, 200 mil dólares. - bateu o martelo com a maior desconfiança do mundo, estava em disputa com seu amigo e não sabia?
Depois do final da cerimônia, puxou e foi a guiando para a saída, e ela foi por conta própria. A bebida já havia abaixado o efeito e ela estava tão zangada com que se pudesse arrancaria o vestido e todos os apetrechos que usava, ali mesmo. Iria na manhã seguinte pedir sua demissão. Estava cega de ódio. Quem pensava que era para tocar naquilo que ele não conhecia? Ainda mais depois de seduzi-la com aquele terno caro e aquele sorriso, que também deveria ter custado várias notas.
Quando estavam entrando na limousine, e foram parados por .
- Aonde vão? - Ele estava com o terno aberto e sua gravata um pouco frouxa. - Aliás, Srta. , você veio acompanhada de mim. Tem que ir embora comigo. - Disse autoritário.
- Ela não parece querer sua companhia, . - tomou a frente de .
- Não falei com você. Vamos, me devolva minha secretária. - Voltou com sua arrogância.
- Eu não sou mais sua secretária . - soltou a mão de e foi para cima de . Apontou o dedo em sua cara e disparou a falar: - Você é um cretino. Me seduziu, me beijou, aposto que achou que eu iria pra sua cama hoje. - Riu amarga e ele se assustou, não havia conhecido durante esses poucos dias de convivência mais próxima, uma de opiniões. - Você não me conhece e não sabe minhas histórias. Eu sou aquela criança que você ignorou. Você não sabe das minhas feridas e deveria saber pelo menos respeitar elas, como sua funcionária. Aliás, ex funcionária, porque pra você eu espero não trabalhar nunca mais! -
Quando ele tentou entrar no meio e puxar seu braço, avançou e a puxou para trás, a tempo de dar um soco em .
- Você sempre fora um babaca . - Disse entrando no carro com .
A limousine avançou e ela olhou para trás somente para ver um se levantando com ajuda de outros homens, com a mão no queixo que parecia molhado de sangue. Pela quantia de flashes, ela sabia que no outro dia teria uma manchete daquela situação em tudo quanto é lugar.
Respirou fundo e deitou sua cabeça no ombro de se sentindo exausta.

Dallas, TX. 2018.
- É seu aniversário papai, então fecha os olhos e vem comigo.
Olivia foi guiando o pai até a saída da casa pela cozinha e dizia uma vez ou outra sobre degraus, o que o fez tropeçar algumas vezes.
- Espero chegar com um pé inteiro a seja qual for o lugar. - reclamou com humor à criança de cinco anos.
Quando viu o marido chegando com os olhos fechados pediu para que todos ficassem prontos e ao que a pequena Olivia ordenou-o que abrisse um coral de - Parabéns para você - começara a ecoar em seus ouvidos. O primeiro pedaço foi para a filha, claro, e depois foi uma ordem de sua mãe, irmã e os parentes que ali estavam. Riu com uma piada ou outra e novamente refletiu ser o homem mais sortudo do mundo, tinha uma família maravilhosa. Depois do ocorrido com ele e começaram a sair a princípio como amigos, em questão de poucos meses ambos estavam envolvidos demais. Um ano depois veio o casamento e depois de dois anos de casamento veio Olivia, a primogênita do casal.
havia saído da We4Them por questões óbvias, depois do ocorrido – a discussão após o leilão e parte dos patrocinadores acharem ridícula a atitude dele de vender a fazenda daquele modo – foi unânime o voto pela saída do criador. Até mesmo seu irmão e cunhado votaram a favor de toda a maioria, perderia patrocínio se ele continuasse na presidência da instituição. Por decisão de todos fora apresentada como a presidente. não a queria ver trabalhando, já que ele podia bancar qualquer estilo de vida que ela quisesse ter, mas depois de muita discussão ele entendeu que sua, então, noiva não aceitaria e a convidou para presidência da We4Them.
Eles eram felizes mesmo que a fazenda que passavam verões e feriados fosse de frente com as do .
- , pega mais copo lá dentro, querida. - A moça ouviu sua cunhada pedir e levantou prontamente, deu um beijo em seu marido de foi.
Quando foi para dentro de sua cozinha ouviu um barulho de buzina e foi até o portão, eram amigos que havia chegado. Saiu da varanda e foi recebê-los. Quando todos entraram e ela ficou sozinha do lado de fora, sentiu um frio pelo vento que passara e olhou para frente, inevitavelmente trocando olhares com que estava parado no portão de sua fazenda ao lado de Somers – ela pensou que talvez eles estivessem resolvendo algum problema. Se não fosse por saber que só ele estava frequentando a fazenda de sua família, ela não o reconheceria com a aparência que estava. Uma barba cumprida com alguns fios brancos para acompanhar o enorme cabelo e o corpo que havia ganho alguns quilos a mais.
Em questão de segundo pensou consigo mesma que talvez um dia ela realmente o quis vestido num Armani e agradeceu por toda aquela aparência de poder e generosidade fosse mostrada a ela com tempo para correr.


Fim.



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus