02. We All Roll Along






Última atualização: 05/08/2017

Sorri instantaneamente quando Road Trippin começou a tocar no som do carro e deixei que meus dedos indicadores batucassem o volante no ritmo da música. Sem que eu pudesse evitar, uma enxurrada de lembranças me atingiu, fazendo com que eu sorrisse nostálgica para a longa GO-118 à minha frente.
Estava em meu caminho de volta para Alto Paraíso e desde aquela manhã, quando saí cedinho de Brasília, já me sentia um tanto saudosa e sensível. Não é como se eu não visitasse minha pequena cidade com frequência, mas a presença de uma pessoa em especial fazia de mim uma confusão de sentimentos.
These smiling eyes are just a mirror for... – cantarolei, ainda sem tirar os olhos da estrada e sem conseguir deixar de sorrir.
costumava cantar esse verso para mim, quando no resto da canção ele e nossos amigos brincavam de trocar as palavras referentes a lugares nos Estados Unidos pelos nossos lugares. A Rodovia 1 virava GO-239, estrada de ligação entre Alto Paraíso e São Jorge, que muitas vezes percorríamos para apreciar o céu em Jardim de Maitreya. Big Sur era Chapada dos Veadeiros, Parque Nacional famoso que conhecíamos desde crianças.
Foi como se o carro tivesse se enchido com as risadas escandalosas de Joanna e Fernando; eu podia ouvir Ádria dizer para os dois pararem de gritar ou o guarda do estacionamento acordaria e teríamos que sair correndo de novo e ela ficaria irada com isso, pois da última vez havíamos deixado uma garrafa de vinho cheia para trás; e eu podia ver rir calmamente enquanto tomava um gole de sua cerveja, até que sentisse meu olhar nele e piscasse pra mim, arrastando-se para o meu lado e colocando um de seus braços em meus ombros, para depois perguntar o porquê do meu copo ainda estar tão cheio.
Tinha sido assim a maior parte dos nossos dias, buscando cada oportunidade de diversão em nossa pequena cidade e longe da supervisão de nossos pais. Sempre havia uma vizinha fofoqueira para contar que havia nos vistos saindo da loja de conveniência com bebidas alcoólicas, mas no final das contas, um castigo ou um sermão extenso nunca foram suficientes para fazer-nos parar. E eu era muito grata por isso.
E estava grata por estar dirigindo de volta para casa, para reencontrar tudo que me era familiar, mas não podia negar que ele ocupava um maior espaço em minha mente. A minha eu de dezessete anos estava ansiosa para vê-lo novamente, seu sorriso acolhedor que combinava perfeitamente com seus olhos escondidos pelos cílios cheios mais lindos que eu já havia visto. Estava curiosa para saber se essa volta despertaria aquele antigo amor platônico ou se eu apenas desfrutaria das lembranças. Das minhas mais belas lembranças.
Your smiling eyes are just a mirror for... – cantei o último verso da música vendo a placa do município se aproximar e aproveitei o quentinho no peito que aquela visão me trazia.
Depois de estacionar o carro à entrada da casa de meus pais, fui recebida por abraços carinhosos e perguntas sobre meu trabalho, minha saúde, minha alimentação e minhas horas de sono. Sorrindo, respondi todas as perguntas pacientemente enquanto caminhávamos até a cozinha. Meu irmão mais novo foi quem me disse que todos já esperavam por mim no hostel de Joanna e Fernando, então eu sequer quis me acomodar, apenas deixei que papai levasse minhas coisas para meu quarto e me despedi brevemente deles.
Deixei o carro e percorri a rua estreita a pé, segurando a barra do leve e longo vestido florido, e cruzando a esquina da conhecida avenida em poucos minutos. Não fazia muito tempo desde que estive ali, mas a cada volta eu podia observar um novo estabelecimento comercial, que geralmente estava sendo aberto por pessoas de outros estados e até mesmo de outros países. A fama da pequena cidade por causa da Chapada dos Veadeiros fazia essa movimentação crescer com o passar dos anos. Os moradores locais precisavam cada vez mais ampliar e modernizar seus empreendimentos para que não fossem engolidos pelos que chegavam.
Sorrindo, avistei o letreiro do hostel de meus amigos. Eles haviam começado com o negócio há três anos, logo depois do casamento, e apesar de não ser o maior e mais movimentado da cidade, era uma graça, cheio de aconchego e com uma decoração caprichosa que eu só poderia esperar de Joanna.
Passei pela entrada de cercas envernizadas e observei os jardins laterais onde os dois cultivavam plantas que os serviam como medicamentos e temperos naturais. Quando cheguei à recepção, a jovem que trabalhava ali logo me reconheceu e disse que todos estavam no espaço dos fundos.
Da cozinha compartilhada, onde alguns hóspedes estavam, eu já podia ouvir seus risos e ri junto, sem sequer saber o motivos deles. Quando cheguei à porta que dava ao jardim dos fundos, onde grandes árvores frutíferas davam a sombra para as mesas e as redes, eu os vi. Fernando estava de pé, contando alguma de suas histórias engraçadas; Joanna estava no topo da mesa, sentada com o pé apoiado na cadeira e o queixo apoiado no joelho, enquanto ria do marido; Ádria estava ao lado dela e se debruçava sobre a mesa, gargalhando; e de frente para mim, rindo daquele jeito relaxado de sempre, estava . Ele vestia a camisa clássica de nosso time de futebol e estava lindo como eu me lembrava, como se os traços de adulto apenas tivessem melhorado tudo.
Como se sentisse meu olhar, como sempre acontecia, ele foi o primeiro a me ver sorrindo ao observá-los.
! – sua exclamação foi seguida de um sorriso enorme que iluminou seus olhos de um jeito lindo e eu senti meu coração adiantar uma batida.
Eu tinha dezessete de novo?
No segundo seguinte eu senti os braços fortes de Joanna ao meu redor, me abraçando enquanto dizia que sentia saudades. Eu sorri ainda mais, abraçando-a de volta.
– Eu também estava com muitas saudades! O jardim de vocês tá tão lindo! – elogiei e cumprimentei Fernando, que apertou meu nariz ao me abraçar de lado.
Inclinei-me para abraçar Ádria, que continuava sentada, e apertei meus braços ao seu redor ao sentir seus beijos em minha bochecha. Olhei novamente para que nos observava carinhoso. Dei a volta na mesa e sorri quando ele abriu os braços em minha direção.
– Quanto tempo! – ele arrastou as vogais ao me abraçar e eu me aconcheguei em seus braços por um momento até nos afastar e voltar a olhá-lo.
– Claro, né? O garoto do interior ganhou o mundo... – sentei-me à mesa e apoiei o rosto nas mãos enquanto olhava meus amigos sorridentes.
– E a gente continua só sendo do interior... – Ádria brincou.
– Mais ou menos. agora é da cidade grande!
Rolei os olhos ao comentário de Fernando.
– Eu sempre acabo voltando pra cá de uma forma ou de outra. Ainda sou a menina do interior também.
Sorrimos juntos até passar um dos braços pelos meus ombros e olhar para mim novamente.
– Eu acho isso ótimo.
Devolvi o sorriso e não fui capaz de tirá-lo do rosto pelas próximas duas horas em que ficamos conversando por ali. Fernando nos trouxe alguns petiscos e cervejas geladas, e entre beliscar o salame frito e um gole da bebida, falamos sobre nossas vidas, sobre a obra que nosso casal de amigos tinha concluído na laje do hostel, com mais um espaço coletivo para os hóspedes; sobre como Ádria e namorada estavam quase casadas graças ao bar que tinham aberto naquele ano; sobre meus dois gatinhos que haviam ficado com minha colega de apartamento e sobre como tinha sobrevivido um mês em Dallas trabalhando num lava-jato.
E entre relembrar momentos do início de nossa juventude, pensamos sobre como aproveitar aquele fim de semana para reviver os velhos tempos e criar novas memórias.

[...]


– Tem mais coisas lá? – gritou da entrada do bar para Ádria, que conversava com o fornecedor de bebidas.
Nossa amiga negou e ele esfregou as mãos nas laterais da bermuda jeans antes de se juntar a mim nos bancos altos ao lado do balcão principal do bar de Ádria e Lídia. Já anoitecia e lâmpadas amarelas iluminavam a entrada do local, onde mesas de madeira estavam organizadas para os clientes que começavam a chegar. A grama bem cuidada da entrada deixava o espaço bonito e combinava com a estrutura rústica do imóvel.
Kid Abelha tocava não muito alto quando as atenções de , que virava uma garrafinha de água, foram até um grupo grande de jovens que juntavam algumas mesas do nosso lado esquerdo. Eles riam alto e faziam muito barulho só para juntar quatro ou cinco mesas que acomodassem todos. apontou para eles com a cabeça antes de falar.
– Parecem certas pessoas que eu conheço... – ele riu e eu o acompanhei.
– Acho que é por isso que nossos amigos começaram o bar e o hostel. – comentei, virando para ele – Nunca vão esquecer como é ser barulhento e ligado nos 220V tendo tanto contato com jovens assim.
fez uma careta fofa que me fez rir novamente.
– Não fale como se você fosse tão velha! Nem chegamos aos trinta ainda! – ele apoiou um dos braços no balcão enquanto me dava um de seus sorrisos calmos.
– Mas estamos quase lá! – eu ri abertamente quando ele me pediu para não lembrá-lo disso.
Apesar de já não estarmos com dezoito ou vinte e cinco anos, eu não sentia que muito havia mudado. Ainda queríamos basicamente as mesmas coisas, nos vestíamos quase da mesma maneira e fora algumas mudanças capilares, ainda parecíamos como quando tínhamos vinte. E não era só isso. O clima parecia ser o mesmo. E agora com de volta depois de dois anos rodando o mundo em suas viagens malucas, estávamos completos de novo, e quase parecia como antes, porque adicionando algumas responsabilidades da vida adulta, havíamos, por exemplo, passado aquele dia inteiro como costumava ser quando éramos mais novos. Eu me sentia muito bem por isso. Era um alívio saber que o mundo não poderia destruir tudo tão fácil assim.
– Gosto do que você fez no cabelo. – ele disse de repente, enquanto levantava, contornava o balcão e abria um dos freezers para pegar duas cervejas para nós.
Sorrindo, passei uma das mãos nos meus cabelos mais curtos antes de aceitar a garrafa.
– Alguma coisa precisa mudar pelo menos, né? – olhei para mim mesma e para meu vestido florido que se estendia até pouco antes dos joelhos.
– Gosto do fato de você não ter mudado muito... – seu sorriso pequeno fez algo afundar em meu estômago – Tive medo de que morando sozinha em Brasília muitas coisas tivessem mudado pra você. A gente sabe o quanto de esforço é preciso pra não pirar nesse mundo maluco, né? Pra atender todas as demandas doentes que nos impõem...
Ele divagou e eu me coloquei em sua atmosfera, sorrindo de leve pra ele.
– Eu também tive medo, mas acho que encontrei as pessoas certas pelo caminho. – tomei um gole da bebida antes de continuar – E no final das contas, eu sempre podia voltar para casa.
– É um alívio ver que seus olhos continuam me passando a mesma sensação.
Ele disse despreocupado, como se não soubesse o efeito daquelas palavras sobre mim, como ele sempre fazia. Seus olhos tão lindos estavam nos meus e eu me vi transportada para quando éramos mais novos, quando eu nutria por ele uma paixonite platônica, que eu relutava em compartilhar com quem quer que fosse.
Aos quatorze, quando realizei o que sentia pela primeira vez, Joanna tentou me fazer dizer a ele, mas eu nunca tive coragem. parecia demais, parecia tão mais maduro. Engoli aquilo até que passasse. Aos dezessete, com todo o fervor da idade, tudo que eu havia escondido voltou com uma intensidade três vezes maior.
Todo o lance entre e eu era complicado. Nunca havíamos tido nada. Nem um beijo sequer. Mas parecia que, ao menos para mim, todos os olhares, as palavras doces e os toques inocentemente carinhos eram tudo que eu poderia ter. E parecia bastar para mim àquela época.
Eu só não sentia ser o suficiente agora.
Pelo visto, ele ainda me tinha tão fácil quanto antes. E continuava a agir como antes. Eu só precisava saber se avançaríamos essa linha, ou se para nós o platônico seria para sempre o ideal.
Tomei mais um gole da bebida antes de responder.
– É um alívio ver que você também não mudou tanto – sorri – Exceto por algumas tatuagens e por estar talvez ainda mais bonito do que antes.
Ri como se estivesse brincando, mas falava sério. riu um pouco sem jeito e antes que pudesse me responder, Ádria chegou perto de nós e avisou que nosso casal favorito estava chegando para que pudéssemos começar a noite.
Mais tarde, muitas cervejas e doses de cachaça artesanal depois, continuávamos sorridentes na mesa. Eu vi soltar uma exclamação animada quando Djavan começou a ser ouvido pelo lugar. Alguns clientes que permaneciam ali igualmente se animaram. Eu achava engraçado como as músicas antigas eram a melhor coisa dos fins de noites.
Teus sinais me confundem da cabeça aos pés, mas por dentro eu te devoro! – ele cantou com a música, a voz tão bonita como eu me lembrava das noites em que passávamos cantando e tocando no violão até tarde.
Joanna e Fernando cantavam igualmente animados e logo estavam trocando beijos apaixonados. Eu me limitei a cantarolar baixinho enquanto observava imitar os sons de bateria da música, cantando todos os versos de olhos fechados, como se estivesse concentrado naquilo, inclusive franzindo a testa.
É um milaaaaaagre tudo que Deus criou pensando em você! Fez a Via-Láctea, fez os dinossauros! Sem pensar em nada, fez a minha vida... E te deu... – cantamos toda aquela parte juntos e gargalhei de mim mesma no final e de como minha voz falhou.
Nas estrofes finais, quando eu ainda observava vez ou outra, nossos olhares se cruzaram. A intensidade em seus olhos fez meu estômago revirar ansioso novamente. Suas íris nubladas pela ebriedade pareciam ainda mais atraentes para mim. E só piorou quando ele cantou novamente, sem tirar os olhos de mim.
Eu quero mesmo é viver pra esperar, esperar... Devorar você... Meu peito esquentou com a lascividade que brilhava ali. Ou eu estava alucinando? Porque logo depois meu amigo continuou a cantarolar o final da canção de olhos fechados e em seguida toda a atmosfera mudou quando a música terminou e todo mundo aplaudiu.
Demorei alguns segundos até voltar a interagir com todos e esquecer o calor em meu peito.

[...]


Na manhã seguinte, The Middle de Jimmy Eat World tocava no som do carro enquanto eu dirigia pela entrada do distrito de São Jorge. Nem parecia que tínhamos bebido até as 4h da manhã, pois pouco passava das 7h e estávamos cantando e rindo no carro em direção à entrada do Parque.
Tínhamos decidido fazer a Trilha dos Saltos, uma das mais famosas na Chapada dos Veadeiros e que conhecíamos como nossas próprias mãos. Não estávamos na alta temporada, mas como sabíamos que a qualquer época os turistas costumavam se aglomerar na entrada, na maioria das vezes confusos e sedentos por informações, achamos melhor chegarmos bem cedo para que o passeio não fosse prejudicado.
O Parque abria sempre às 8h e fomos um dos primeiros grupos a fazer a entrada. Fingimos prestar atenção no vídeo informativo que passavam após o cadastro – sabíamos dos riscos e cuidados melhor que qualquer um ali –, ignoramos alguns guias novatos que tentavam cobrar para nos conduzir e seguimos para a caminhada.
Fernando ia à frente contando para Lídia sobre quando éramos mais novos e ganhávamos alguns trocados ajudando os turistas na trilha, ou quando vendíamos sanduíches naturais na porta do Parque. Éramos malucos por aquele tipo de aventura e diversão.
sempre se deu muito bem nisso! – Ádria lembrou, rindo enquanto ajudava a namorada a descer o pequeno declive – As turistas amavam esses olhinhos !
Era verdade. Ri ao lembrar como ele por vezes ganhava mais gorjetas que nós e até mesmo alguns presentes. Ele dificilmente correspondia às investidas, mas sempre aceitava os mimos.
– Eu também fazia muito sucesso, ok? – Joanna riu mais à frente – Ou vocês se esqueceram daquele finlandês lindo? Ele ficou muito apaixonado por mim! Acho até que ainda tenho ele no Facebook. Isso se ele mão me excluiu depois das fotos do casamento.
Gargalhamos juntos e logo foi possível ouvir o barulho forte da cachoeira. Após mais alguns minutos de caminhada chegamos ao primeiro mirante da trilha. Paramos para apreciar a vista de tirar o fôlego. Os paredões verdes faziam com que eu me sentisse pequena e eu me apoiei na cerca ao lado de meus amigos, respirando fundo e fechando os olhos, sentindo-me plena. Parecia uma pintura de tão lindo!
Quando o grupo que estava atrás de nos chegou e parou, decidimos continuar a caminhada. Mais alguns minutos e estávamos olhando admirados para a vista do Salto de 120m do Rio Preto. A queda d’água gigantesca continuava impressionante mesmo depois de vista tantas vezes. O barulho forte da queda nos fez silenciosos pela primeira vez desde que a caminhada começara. Nunca conseguirei descrever a beleza daquilo.
Mais dez minutos de caminhada, a qual ainda comentávamos a beleza do Parque, chegamos às piscinas naturais do Salto de 80m do Rio Preto. Soltei gritinhos de animação as ver que éramos os primeiros a chegar ali e tínhamos o lugar todo para nós. Enquanto deixávamos as bolsas e Lídia estendia algumas toalhas no chão, sentamos para começar a nos despir enquanto observávamos a queda d’água a nossa frente. A água caía veloz entre as folhagens verdes e nos davam mais um visual incrível.
Fernando e Ádria foram os primeiros a correrem para a água escura do rio, mergulhando e gritando como crianças. Terminamos de acomodar nossas coisas sobre as toalhas e corremos todos também.
Fui novamente teletransportada para anos anteriores, quando passávamos as tardes por ali, sem nenhum tipo de preocupação, fazendo nadas que significavam tudo no lugar mais bonito do mundo.
Que beleza é sentir a natureza! Ter certeza de pr’onde vai e de onde vem... – Joanna cantou Tim Maia enquanto flutuava o corpo com a ajuda do marido.
Que beleza é vir, da natureza... E sem medo de distinguir o mal e o bem... – cantei também ao emergir de um mergulho e sorri para que me encarava.
Uh, uh, uhhhh, que beleza!
Cantamos juntos, ouvindo nossos ecos pelo lugar e gargalhamos no final.
– Vocês não sabem como é bom estar em casa. – comentou, a voz baixa e calma agora perto de mim, quando ele passou um de seus braços por seus ombros descobertos. Sorri pela sensação boa que aquilo me causava.
– Você esteve em lugares lindos nos últimos dois anos, cara – Lidia começou – Nossos saltos te impressionam mais que as cataratas no Niágara?
abanou a mão livre, como se fizesse pouco caso. Ri dele.
– A beleza a nossa própria casa é muito melhor.
– Eu não sei sobre os outros lugares do mundo – comecei –, mas isso aqui é a coisa mais bonita de todas pra mim.
Senti me aproximar mais dele e quando concordou comigo. Olhei pra ele sem seguida.
– Podem ter certeza – seus olhos intensos estavam em mim novamente –, o que eu vejo aqui é muito mais bonito que qualquer outra coisa no mundo.
Eu esperava que ele não tivesse percebido, mas os pêlos de meu braço se eriçaram com aquela confissão. Simplesmente porque meu coração queria que ele estivesse se referindo a mim.

[...]


Voltamos cedo da trilha. Precisávamos de tempo suficiente para um cochilo da tarde antes de irmos até a festa do hostel. Um sábado no mês era sempre escolhido para organizar uma festa para os hóspedes, e Joanna e Fernando acertaram tudo para que a aquela acontecesse naquele final de semana em que estávamos juntos.
Eu estava terminando de passar o batom quando mamãe avisou que estava na sala, conversando com meu pai enquanto me esperava. Sorri surpresa. Ele não disse que passaria para me buscar.
– Vamos? – apareci no cômodo e sorri para ele, que logo se levantou do sofá e devolveu o sorriso. Estava lindo.
– Vamos! Resolvi passar aqui para irmos juntos. – ele sorriu tímido e eu escondi meu sorriso bobo.
Despedi-me de meus pais e seguimos pela rua enquanto ele me contava que nossos amigos estavam arrumando um karaokê. Imediatamente me animei com a ideia. Eu amava cantar mesmo que não soubesse.
mudou de assunto quando cruzamos a avenida.
– Eles diminuíram... – ele falou olhando para mais longe, segui seu olhar e sorri ao entendê-lo.
– Depois que o dono morreu os filhos venderam uma parte do terreno. O estacionamento ficou bem menor...
Olhei para o lugar de que ele falava, do outro lado da larga avenida, e sorri com as lembranças.
– Nossos pais sabiam onde nos encontrar quando passávamos das dez da noite na rua...
– Número 8123! – falamos juntos e gargalhamos em seguida.
– Acha que podemos voltar lá antes de você ir? – ele perguntou depois, me olhando de uma forma um tanto carinhosa.
Sorri ao negar.
– Só se for da mesma forma que todo mundo vai até lá... – ri ao vê-lo fazer uma careta – Nossos amigos agora são donos de estabelecimentos na cidade. O que as pessoas vão dizer se eles forem vistos bebendo de madrugada em um estacionamento? – gargalhei com a visão – Algumas coisas vão ser apenas lembranças pelo visto.
– Podemos ir só nós dois então! – ele riu, passando o braço pela minha cintura quando passamos pela entrada do hostel.
– Quem sabe? – brinquei com ele antes de sermos atingidos pela música que tocava no local.
Alguém cantava Madonna e eu tomei um susto ao que Ádria surgiu em minha frente, me oferecendo uma dose de nossa cachaça artesanal favorita. Aceitei, mas não bebi de imediato.
– Ainda não é nem meia-noite e você já está assim? – gargalhou ao meu lado, dirigindo-se a ela – Você sempre foi das minhas!
Ádria gargalhou e nos levou até a mesa onde nossos amigos estavam. logo serviu sua própria dose e viramos uns para os outros para um brinde, antes de eu sentir o líquido descer quente pela garganta.
– Quem me acompanha com Sandy e Júnior? – Joanna perguntou e eu gargalhei quando ela e foram para frente e pegaram os microfones. De repente, todo o sono que eu sentia pelas poucas horas dormidas desapareceu.
Com o avançar da hora, as performances só se tornavam piores e os proprietários resolveram recolher os microfones e deixaram apenas a música tocar. Eu olhava distraída minhas amigas dançarem alguma música do Seu Jorge, quando a música trocou. Dei um gritinho ao ouvir a introdução de Borbulhas de Amor . Mamãe sempre amou essa música e eu aprendi a gostar também.
Logo estava em minha frente, sorrindo e estendendo sua mão para mim. Aceitei de bom grado e passei meus braços por seus ombros no instante em que suas mãos deslizaram pela minha cintura marcada pelo vestido, até pararem suavemente em minha lombar.
Nossos corpos juntos começaram a se mover assim que a voz de Fagner foi ouvida. Com um sorriso nos lábios, cantarolei a música bem perto do ouvido de meu amigo e o senti aumentar a pressão em minhas costas. Sorri ainda mais.
Eu me movia de acordo com a melodia suave da canção, que agora parecia muito mais sensual para mim, conforme os quadris de acompanhavam o meu e sua perna direita se colocava entre as minhas, aumentando nosso contato. Quando uma de suas mãos subiu pelas minhas costas, ele usou seus dedos para desenhar caminhos por ali. Em êxtase, eu passei a massagear sua nuca com minhas unhas curtinhas. Um suspiro quente foi deixado em meu pescoço.
– Eu quero você, . – um beijo foi deixado no meu ombro e eu apertei sua nuca involuntariamente.
– Eu sempre quis você. – sorri sem que ele visse, sentindo meu corpo leve enquanto nos movíamos.
nos afastou minimamente para que pudesse me olhar. Seus olhos me olhavam quase inocentes, até que ele os desviou para meus lábios. Podia jurar que suas íris se tornaram mais escuras. Estremeci quando ele me beijou, apertando-me em seu abraço tão urgentemente que eu suspirei sobre sua boca. Minhas duas mãos estavam em seus cabelos, emaranhando meus dedos entre eles em puro deleite.
Havia algo de inacreditável ali. Toda aquela vontade guardada há tantos anos, finalmente saciada. Ao menos em parte. Havia todas aquelas vezes em que seu sonhara com seus beijos e a adolescente apaixonada jamais poderia saber como era bom e como era excitante. Talvez fosse toda aquela espera? Não sabia dizer ao certo, mas quando nossos lábios se afastaram, eu só conseguir rir.
– Você me deixa maluco! – sussurrou contra meus lábios quentes – Isso é engraçado pra você?
Busquei seus olhos, que me encaravam divertidos e ri mais ainda. Quando ele me apertou novamente em seus braços, eu não quis adiar mais nada, e me permiti um avanço.
– Vamos sair daqui... – rocei nossos lábios – Eu cansei de esperar...
– Temos uma chance de corrigir isso, toda essa espera.
Ele riu sobre minha boca e me puxou pela mão em direção à saída.
– Ei, bonitos! – paramos ao ouvir a voz risonha de Joanna – Podem ficar com o quarto maior do segundo andar.
Ri descrente pela oferta de minha amiga e habilmente pegou a chave que ela jogou em sua direção. Subimos as escadas às pressas e não conseguíamos parar de rir.
Joguei-me em seu colo assim que ele virou a chave na fechadura. Empurrei as sapatilhas dos pés e me agarrei em seus ombros quando ele começou a beijar meu pescoço. Ele chutou os sapatos assim que sentou na cama comigo em suas coxas. Busquei seus lábios apaixonadamente, sentindo meu peito queimar em ansiedade para tê-lo me tocando em todos os lugares e para descobri-lo por inteiro também.
se arrastou pela cama e eu engatinhei junto. Parei sobre seu quadril e puxei meu vestido, mostrando apenas minhas peças íntimas, que sequer combinavam. Imediatamente busquei seus olhos e eles brilhavam em uma escuridão intensa. Em luxúria e admiração.
– Você é tão bonita – ele sussurrou, passando suas mãos pelas minhas coxas agora descobertas – Tão inacreditavelmente linda...
Inclinei-me para ele, sorrindo.
– Eu não acredito que eu vou finalmente...
Sequer deixei que ele terminasse e me apressei para beijá-lo novamente.
Aos poucos nossas peças de roupas foram deixando nossos corpos e eu pude senti-lo em cada pedacinho de pele. E pude me sentir plena daquilo que tanto desejei e agora sabia que ele também desejava.

[...]


Na manhã seguinte, fui acordada por seus beijos suaves. Sorri em sua direção e me deleitei com a sua imagem sonolenta, os olhos ainda quase fechados e a carinha amassada que me fazia ter vontade de beijá-lo para sempre.
Enquanto ríamos e falávamos sobre a noite anterior, tocou no assunto que eu não queria me lembrar.
– Quando você volta pra Brasília? – sua voz despreocupada não me impediu de ficar levemente tensa, mesmo que seus dedos passassem levemente pela lateral de meu corpo, me trazendo uma sensação gostosa.
– Amanhã de manhã bem cedo – suspirei e fixei meu olhar na tatuagem em seu braço esquerdo.
– E quando você pode voltar?
Confusa, busquei seu rosto e o vi me encarar sorridente.
– Você vai ficar aqui?
riu de minha pergunta e eu fiquei ainda mais confusa.
– Eu ainda não contei pra ninguém, mas – ele fez suspense e riu mais ainda quando eu exclamei seu nome, curiosa –, eu contei pra vocês que fiz muitos cursos de esportes radicais, né? Escalada, rapel, tirolesa...
– E aí? – perguntei o interrompendo, ansiosa demais para aquela enrolação proposital dele.
– E aí que eu vou começar meu próprio negócio aqui também! – ele sorriu um sorriso enorme – Esses gringos acham que podem chegar aqui e tomar conta de tudo? Espero que aquele charme da adolescência ainda funcione...
Soltei um grito animado e me coloquei sobre ele, sentando eu seus quadris e sorrindo tanto quanto .
– Você vai mesmo ficar?
– Uhum! – ele se inclinou para deixar um beijo rápido em meus lábios – Eu só preciso saber quando você vai deixar Brasília também...
Ele apertou os olhos para mim e eu ri. Pensaria no resto depois. Era informação demais para apenas algumas horas.
– Você já pensou? – ele voltou a falar, animado, sentando-se na cama e apoiando as costas na cabeceira; permaneci em seu colo – A turma mais incrível de Alto Paraíso reunida de novo?
Sorri com o pensamento e o beijei brevemente antes de falar.
– Eu só sei que, enquanto estivermos juntos e em casa, faremos tudo ficar bem...



FIM!



Nota da autora: Essa música é sobre lembranças e amizade, e a melodia dela sempre passou algo de aventura pra mim. Aí saiu essa estória sobre esses amigos que eu amei escrever!
Espero que tenham gostado e aproveitem as outras fics inspiradas nas músicas dessa banda incrível! <3
xx
Thainá M.

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