Finalizada: 31/10/2017

My Lover, My Liar

É um fato bem conhecido que os corações partidos sempre consertam. Seja um novo alguém ou algo.
É mentira.
Corações partidos sempre serão partidos.
A ciência prova que a condição causa danos a longo prazo e as chances são de que você nunca possa se recuperar disso.
Ela nunca conseguiu.

Julho de 1991, Nova Iorque


Ela exalava medo e poder. Mas ela tinha moral para aquilo.
Em tempos de poucas oportunidades, Dorothea Chase- havia conquistado diversas.
— Já lhes contei a novidade? — Doutora Chase- falou mais alto e claro, para que todos na sala pudessem ouvi-la, e eles faziam questão de mostrar à chefe que prestavam atenção, porque ela não era a pessoa mais amigável de todas — James estará frequentando medicina em Stanford na próxima temporada — ela deu um tapinha nas costas do filho e ele sorriu sem jeito.
Os olhares de todos os cirurgiões na sala voltaram-se para o garoto, que espremeu os lábios. Todos bateram palmas e alguns disseram “parabéns”, repetindo o gesto da mãe ao passarem por ele e saírem da sala, indo atrás de suas primeiras cirurgias do dia.
— Obrigado… — agradecia com simplicidade
— E a sua filha? Ela não ia seguir a carreira médica também? — uma neurocirurgiã perguntou, pendurando o estetoscópio no pescoço.
também irá. — James deu de ombros, afinal não era o único com tais méritos. A irmã também havia sido aceita.
Talvez com mais méritos que ele, até. Chase- era dois anos mais nova e mesmo assim havia parado na mesma turma que o irmão mais velho.
— Para medicina? — Outro médico perguntou, com a sobrancelha erguida. Dorothea Chase- inflou o peito e assentiu. — Ela não é mais nova do que você? Já tem bacharel?
— Sim ela é. Uma coisa, essa menina. — sorriu — se formou no ensino médio alguns anos mais cedo e um na faculdade. Ela me alcançou — ele sorriu brilhantemente, dando de ombros.
— Muito genial, vejo. — o médico assentiu.
No exato momento, a menina de olhos azuis entrou na sala segurando dois livros pesados, como sempre, fazendo jus ao apelido de traça livros que ganhou em Duke quando obtinha seu bacharel em biologia, e todos os olhos viraram-se mais rápidos do que a luz para ela. Ela notou e seu rosto ficou vermelho antes que ela pudesse tentar entender o que estava acontecendo.
— Bom dia, doutores — ela falou baixo e seguiu até a família, entregando alguns papéis para a mãe que uma enfermeira havia pedido.
— Ouvi sobre sua aprovação em Stanford. Parabéns! — uma médica disse, aproximando-se. Era a única que conhecia melhor dentre os funcionários do hospital da mãe. — Duke e Stanford? Você terá um excelente currículo.
Ela assentiu com um leve sorriso, orgulhosa.
— Obrigada.
Desviou o olhar até o irmão, que deu um sorriso, encorajando-lhe. Tomou os livros de sua mão e os colocou na mesa ao lado. Dorothea se afastou e foi conversar com a colega sobre a colectomia que faria dentro de instantes.
— Você não deveria estar carregando todo esse peso, vá aproveitar suas férias enquanto ainda pode.
— Prefiro me preparar para a jornada.
— Como sempre… — James sorriu de lado.
A mãe do casal voltou e tocou o filho no ombro.
— James, querido, vamos. Não queremos chegar atrasados para sua estréia no bloco. — o empurrou levemente para levantar-se.
— Sua filha não vai juntar-se a vocês?
Um médico questionou, ao ver os dois prestes a saírem e deixarem a mais nova para trás.
virou o rosto em direção a voz. Não precisava que ninguém fizesse aquilo por ela, tentasse comprar sua briga ou fizesse-a sentir-se ainda pior por ser deixada de lado. Ela não sabia ao certo quais eram as intenções dele e também não sabia se queria descobrir. Mas ela o encarou e por um segundo se distraiu.
Dorothea virou-se com a testa franzida. Aquilo era suficiente para fazer qualquer um com sã consciência sair correndo. Mas ele não saiu, ficou quieto a encarando e esperando uma resposta.
Foi ali que a garota sabia que tinha algo de diferente nele. Não sabia se era burrice ou apenas vontade de confrontá-la, mas tinha suas suspeitas de que não era nenhum dos dois, que era apenas falta de conhecimento. Ele não era um rosto muito comum por ali, aparecia uma vez em nunca para uma cirurgia ou outra, mas sempre muito importantes.
Todos os outros cirurgiões sumiram, deixando apenas os quatro ali na sala. Os filhos de Dorothea prendiam a respiração.
— Temo não ter espaço suficiente para mais um. — deu de ombros e olhou para a filha, que abaixou a cabeça.
— Sem problemas, então. — cruzou os braços. — , por que não se junta à mim? Eu tenho um tumor pancreático para remover. E também tenho muito espaço. — deu de ombros.
Dorothea olhou da filha até o filho e ficou o encarando, esperando uma resposta, se ele faria companhia para ela ou para o outro cirurgião.
— Claro… — James deu de ombros. Assim Dorothea teria espaço para a irmã e ele entraria em uma cirurgia mais legal. Whipples eram mais raras que colectomias.
— Não… — Ele riu fraquinho. — você não… — balançou a cabeça. — ela. — apontou para .
— Eu? — ela apontou para si mesma, arregalando os olhos.
Ela nunca era a primeira opção. Por que, exatamente, ele não queria James?
— Sim. O que você me diz? Vamos acabar com um tumor?
A mulher abriu a boca, mas não emitiu nenhum som. Ela olhou para o irmão, procurando ajuda. Ele assentiu, sorridente, e gesticulou com a cabeça para que ela fosse até ele.
— Adoraria. — deu de ombros, voltando a atenção para o cirurgião.
— Excelente! Aqui está o prontuário. Parece que você adora ler… Vá se preparar, te encontro no bloco em cinco minutos!
Ela pegou as folhas de sua mão, assentiu e saiu da sala. Dorothea não tirou o olhar de cima da garota por um segundo sequer, até ela sumir de sua vista.
correu pelos corredores do Hudson Valley Memorial sorrindo, sentindo a alegria correr por suas veias. A sensação de privilégio, de poder ter aquela experiência em primeira mão, antes mesmo do seu primeiro dia de aula da escola de medicina, era surreal. Entrou no elevador e se espremeu entre os demais e começou a correr o olho pela ficha médica.
Gary Smith, sete anos.
Era apenas uma criança.
Aquilo a pegou desprevenida feito um soco no estômago, fazendo-a apoiar o corpo no fundo do elevador, mas não o suficiente para deixá-la abalada. Ela olhou para o teto e respirou fundo.
Ela não ia matar ninguém, muito pelo contrário. Com um pouquinho de sorte, veria a vida de alguém ser salva.
Pois as chances maiores eram que o paciente morresse na mesa. Whipples eram raras e difíceis, pois achar a janela de oportunidade que o câncer dava para o momento ideal da operação era uma raridade. A maioria já estava em estágios muito avançados quando diagnosticados.
olhou o prontuário mais uma vez, precisava saber o nome do cara que havia sido tão sortudo em encontrá-la, ou apenas bom demais naquilo que fazia.
Doutor .
Um nome para ser lembrado.
Ela chegou à sala de preparo muito antes de qualquer membro da equipe cirúrgica. Já sabia todo o registro do garoto de cor e salteado.
— Então, como você se sente? — mal entrou na sala, pôs uma máscara e perguntou, logo começando o preparo de esfregar as mãos.
— Privilegiada, doutor. — sorriu, fechando o arquivo e deixando-o de lado, pegando uma máscara. — imagine, todos enfrentam cadáveres para começar a escola médica, e aqui estou eu, pronta para enfrentar um corpo que o coração ainda está pulsando.
— Bom, esse é o espírito sobre cirurgias. A oportunidade de determinar o curso de uma vida com suas próprias mãos. — sorriu e terminou, ergueu suas mãos e caminhou de ré até a entrada da sala operatória, empurrando a porta com as costas. — lave-se também. Talvez tenha a chance de tocar em algo.
E então, ele sumiu.
A equipe da cirurgia já estava pronta e o aguardando. os encarava através do vidro, ainda sem entender muito bem porque tudo aquilo estava acontecendo. Duvidava que o próprio James teria tais chances na cirurgia da mãe.

[...]


A cirurgia já havia se estendido por cinco horas. Suas pernas começavam a ficar dormentes, nunca havia permanecido de pé por tanto tempo, mas gostava da ideia de acostumar-se com aquilo. Um dia ainda seria a cirurgiã principal e talvez chegasse a reproduzir procedimentos muito mais longos, com um pouco de sorte.
suspirou, esticou o corpo e voltou-se para sua residente auxiliar.
— Por que não damos espaço para a senhorita ? Acho que ela adoraria conhecer algo tão maligno.
O pediatra ao seu lado franziu a testa, mas permaneceu calado.
arregalou os olhos e fitou o cirurgião geral, completamente pega fora de guarda. A residente assentiu e afastou-se, a garota deu um passo à frente e ficou encarando os movimentos que ele fazia com o colega da pediatria.
— Eu sei que a taxa de sucesso dessa cirurgia é uma das mais baixas. Me parece um grande negócio, operar uma criança. — sussurrou.
Doutor ergueu a cabeça e encarou a morena diretamente nos olhos.
— E é. Nunca se esqueça.
— Jamais.
Ele retomou sua concentração de volta para o tumor, usando o bovie.
— O que está achando?
— Fede.
riu e a maior parte da equipe acompanhou.

Agosto de 1991


Tudo era uma notícia antiga, apesar de parecer nova. Ela tinha passado por aquilo alguns anos atrás, então pensava que estaria acostumada com isso por agora, mas não estava. O primeiro dia de aula na faculdade era uma grande coisa. Significava fazer novas amizades e tudo mais, e ela não era a melhor pessoa para lidar com aquilo.
caminhou para dentro da sala de anatomia carregando livros pesados nos braços e nas costas. Tudo que queria era livrar daquele peso e ter James ao seu lado. É, ela preferia ter a companhia do irmão. Porém ele havia desaparecido desde o café da manhã, então não podia contar com ele.
Ela colocou seus pertences numa mesa não tão perto do quadro, mas também não muito distante. Só não queria ficar evidente bem na frente.
Enquanto organizava os cadernos e livros na mochila, ela ergueu o olhar e viu seu professor fazendo o mesmo na sua mesa. Não lhe era um rosto estranho… Ela puxou o papel que a secretaria havia lhe dado e procurou pelo nome dele. Doutor .
Ela definitivamente sabia quem era. levantou-se e foi caminhando até ele, devagar e com um pé atrás. Não sabia bem porque havia tido aquele impulso, talvez fosse melhor continuar disfarçada no meio dos outros trocentos alunos, mas quando já se encontrava parada em frente a pessoa, não parecia muito certo simplesmente dar as costas e voltar para o seu lugar.
— Olá, doutor . Se lembra de mim? — ele ergueu a cabeça e a encarou.
— Mas é claro. s são difíceis de esquecer… eles deixam uma… — ele parou para escolher uma palavra — marca — sorriu de lado e estendeu a mão para a garota, que ajeitou a postura e a sacudiu brevemente.
— Não sabia que você era professor aqui em Stanford.
— Eu também não, até outro dia. — cruzou os braços.
— Sabia no dia da cirurgia?
— Sim. — ele debruçou-se na mesa, abaixou a cabeça e voltou a mexer em seus livros, passando pelas páginas e agindo como se ela não estivesse ali.
— E não passou pela sua cabeça em me contar?
— E por que eu estragaria a diversão? — a encarou com um sorriso de lado. engoliu em seco e assentiu.
Diversão, é? Aquilo que as aulas significavam para ele? E a parte em que ele era responsável por ajudar a formar novos médicos, simplesmente não contava?
— Espero que se saia bem, então. — ela deu de ombros e se virou para voltar para seu lugar.
— Você também, .

[...]


— Formem duplas, se alguém não encontrar um par, venha e me diga.
finalizou, deixando o giz no canto do quadro ao terminar de passar o trabalho. Primeiro dia de aula e já tinha algo enorme para fazer, tão enorme que ele havia deixado para entregar no final do ano, pouco antes das férias de inverno.
Duplas no primeiro dia só tinham um único propósito, o de enturmar. E eles tinham acabado de dissecar corpos, precisavam de uma pausa para respirar. Bem, alguns. Outros lidavam com maestria.
Haviam trocentos burburinhos na sala de pessoas se selecionando, tudo que ela queria era se sentir à vontade, por isso seus olhos só queriam saber de encontrar James. Ele estava nos fundos e aparentemente feliz com a sua dupla. O colega parecia bastante conversado, o que tinha certeza que era bem compatível com o irmão. James se dava bem com todos. Ela também, porém só tinha mais dificuldades para chegar naquele ponto.
Quando ela desviou o olhar, toda a turma já estava dividida. Havia piscado e sobrado sozinha. Todo mundo conversava alto e se entrosava, enquanto ela apenas sentia saudades do toque macio do seu colchão e da quietude de seu quarto. deu um suspiro e espalhou as mãos na mesa, se levantou e caminhou mais uma vez até a mesa de .
— Doutor , sinto que sobrei. — deu de ombros.
— Ah, não coloque dessa forma. — as sobrancelhas franziram sua testa, se viu sem saída e sentiu suas pernas tremerem — vamos lá, pequena . Vamos ver o que podemos fazer juntos. — bateu na mesa e levantou-se de uma vez. recuou e arregalou os olhos.
— Como?
— Vou ser sua dupla. Não me desaponte. Tenho uma sensação de que você não vai. — coçou o queixo e a guiou com a mão no seu ombro de volta até sua mesa.
Em que ela havia se metido?

Dezembro de 1991


estacionou o carro na calçada, bem de frente à entrada da casa. Ela pegou o trabalho no banco do passageiro e desceu. A rua estava silenciosa e quieta, com um frio daqueles ninguém ficava fora de casa naquele horário a não ser que fosse extremamente necessário. Arrepios tomaram conta de seu corpo quando ela abriu o portãozinho e colocou o pé na propriedade. Aquilo havia sido um erro. Ir na casa de um professor às dez da noite? Fala sério. Podia ter esperado a manhã seguinte, pelo menos não precisaria ir até sua casa, poderia ir ao seu escritório. Encarou os papéis em sua mão e respirou fundo, subindo na varanda e tocando a campainha. Nunca na vida havia deixado de entregar um trabalho, ou sequer atrasado. Mas ali estava ela, para tudo tinha uma primeira vez.
Ela só preferia que não tivesse sido justamente com a pessoa que mais havia lhe ajudado em todo o semestre.
abriu a porta parcialmente. Estava vestindo roupão e pantufa, a última coisa que esperava ver na sua porta era uma aluna. Ou aquela aluna em questão. Ele vincou a testa. apertou os lábios, sua vontade de sair correndo dali havia exponencialmente aumentado.
— Por que não foi na aula hoje? Você foi a única a não entregar o trabalho.
Ela sentiu um frio na barriga e abaixou a cabeça, entreabrindo os lábios para responder, mas a voz simplesmente parecia não estar disposta a sair.
— Eu estava em casa, terminando para te entregar.
Por quê? — repetiu devagar, cruzando os braços.
ergueu a cabeça e encarou o homem. Como ele conseguia ser tão…
— Você poderia me chamar pra entrar? Está frio aqui fora. — se abraçou e encolheu dentro do casaco. Ele friamente terminou de abrir a porta, dando-lhe passagem.
Uma vez em que ela estava segura em um lugar mais quentinho, ele fechou a porta e virou-se para ela.
— E então?
— Você não vai me oferecer uma xícara de café ou…? — sua voz sumiu ao ver a expressão na face do médico. Ele rolou os olhos.
— O que mais você quer? Um braço? Porque eu te dei uma mão e você claramente me desapontou. Não foi suficiente, né? — suspirou.
— Se você me deixasse explicar, saberia que eu estava ajudando meu irmão porque o meu estava adiantado e ele estava atrasado. Então eu não acabei a tempo, me desculpe, mas eu esperava que você pudesse aceitar umas horinhas de atraso. — ela estendeu o trabalho pra ele. abaixou o olhar e hesitou em pegar os papéis.
Ele abriu o trabalho e desviou o olhar da garota até o material em suas mãos. Havia a ajudado no começo, havia lhe dado todas as dicas, por onde começar, como escolher um órgão e tudo mais para criar seu próprio caso clínico. E ela havia escolhido justamente o pâncreas.
— Uma criança com tumor pancreático que precisa de um whipple. — assentiu, sem humor algum. mordeu o lábio — escolha muito interessante. Você não acha que já usaram isso demais?
— Não. — deu de ombros. — na verdade, acho que foi bastante ousado, porque ninguém do meu ano tem o que precisa para poder fazer um caso desses, exceto eu.
Ele passou a língua pelos lábios e voltou a encarar a garota, que colocou as mãos no bolso do casaco e ficou balançando o corpo.
— Muito bem, senhorita . — assentiu, fechando a pasta e colocando-a debaixo do braço.
— Obrigada. E eu também gostaria de uma torrada ou pão para acompanhar o café, porque eu estou morrendo de fome, ou qualquer coisa que você tiver, sério. — deu de ombros, soltando-se.
Já havia ganhado o território e provavelmente não conseguiria chegar de volta em casa naquele estado, ia morrer de fome no meio do caminho. Ele não poderia ser tão malvado assim, podia?
— Você gosta de pizza?
— Sim, por quê? — vincou a testa.
— Bem, se você esperar um pouco, posso pedir uma.
— Gosto disso — empinou o nariz, querendo sorrir.
É, ele não era tão malvado.
Até o momento em que seu estômago roncou tão alto que ela jurou que alguém do lado de fora era capaz de ouvir. sentiu seu rosto esquentar na hora, e ela passou a encarar o chão.
E ele percebeu como estava sendo um merda quando o rosto da menina ficou vermelho igual um pimentão. Ela provavelmente passou o dia inteiro sem comer, ficando horas e horas terminando aquele trabalho porque o irmão dela não era capaz de terminar o seu próprio com a sua dupla. Precisava de uma terceira pessoa.
Ela tinha feito não apenas um, mas dois casos. Ela era praticamente um soldado, e ele era uma bosta. suspirou e deu alguns passos em direção à garota, colocando sua mão sob a barriga dela. rapidamente ergueu o olhar até ele e tentou recuar, mas ele a segurou.
— O que você tá fazendo?
— Mesmo quando o estômago está vazio, ele não para de trabalhar. Os gases se movem, chamado movimento peristáltico. Quando a musculatura contrai, as paredes estomacais funcionam como amplificadores, e por estarem vazios emitem o som alto. — seu olhar se encontrou com o dela e não conseguiu encará-lo por muito tempo, e passou a olhar para seus lábios.
— É, eu sei… tenho diploma em biologia — ela o segurou pelos punhos e o afastou — vou embora. — se virou.
— E a pizza? — a segurou pela ponta dos dedos.
— Bem, eu quero pizza, não sei se quero você junto, doutor . — ela virou-se em sua direção, dando de ombros e encarando o chão.
cruzou os braços.
— Você pode me chamar de . Você é bem pra frente. — deu de ombros.
— Sou realista. — O imitou, desafiando. Ela era boa naquilo, ou pelo menos achava ser. Até o ponto em que a pessoa invadia certos territórios.
— O que tem de errado comigo?
— Absolutamente nada — debochou.
— Então por que não podemos ter algo?
— Bem, eu só não quero ser a garota que ficou com o professor por notas. — deu de ombros.
— Não estou trocando sexo por notas, que tipo de imagem você tem de mim? — arregalou os olhos e recuou.
Ela deu de ombros.
— Olha, me desculpa. Mas eu não sou esse tipo de homem. E por que você importaria com o que dizem, de qualquer modo? Você é inteligente, tenho certeza que terá uma das melhores notas, se não a melhor. Fora que somos amigos, não somos?
assentiu. Se é que aquela era uma boa palavra.
— Ok, mas eu continuo querendo a pizza antes do sexo. — a garota caminhou até e estendeu as mãos, segurando seu rosto, e colando seus lábios depressa.
Ele riu e retribuiu o gesto. ficou na ponta dos pés e fechou os olhos, amolecendo-se nos braços dele.

Junho de 1992


Era uma vez, lá atrás, na época do colégio, ela decidiu que seu plano B na vida seria tornar-se aeromoça.
Sua mãe teria um infarto. Afinal, não havia batalhado tanto para chegar ali sem que a filha tivesse um diploma em medicina. Ela até aceitaria direito, mas outro ou nenhum diploma ela não concordaria.
Para a sorte de todos, era uma aluna espetacular. Primeira da classe de todas as turmas que frequentou. Conseguiu aprovações que nenhum na história havia conquistado. Parou em Duke porque era mais longe de casa, queria um tempo longe de tudo, mas poderia ter ido para Harvard. Era uma escolha perigosa, mas ela não se arrependeu. Nunca. E nem arrependeria. Não era seu feitio olhar para trás.
E ali estava ela, dentro de um avião, algo que ela adorava. Voltando para casa, algo que odiava. Mas não havia tido tempo de providenciar umas férias decentes, e ficar em San Francisco sozinha no verão parecia uma ideia monstruosa, pior do que ter que ficar perto da família. Ainda mais que James já havia partido há algumas semanas antes, muito antes da aula acabar, sem motivo algum pra mochilar na Europa. Ela não concordava, mas compreendia, pois ele andava no auge do estresse.
Ela não aguentava ficar sozinha. Não quando tinha com quem conversar.
E estava ali, ao seu lado, dormindo.
— Me conta sobre a paciente. — ela o sacudiu pelo braço.
estava farta de olhar pela janela. Era sempre a mesma coisa, nuvens e mais nuvens na imensidão azul. Aquilo não era distração. era uma péssima companhia para um voo de praticamente seis horas, porque ele só sabia dormir.
— O quê? — disse letárgico, abrindo os olhos devagar e virando a cabeça para a mulher ao seu lado.
— Seu transplante de fígado. O das irmãs que você me chamou para participar.
havia nascido para dar aulas. As cirurgias eram hobbies, e durante as férias ele voltava para a cidade natal e trabalhava como cirurgião no Hudson Valley Memorial.
— Sério? — suspirou. — teremos mais tempo para isso quando chegarmos em Nova Iorque, inclusive o prontuário em mãos — deu de ombros e voltou a fechar os olhos, confiante que conseguiria voltar para o seu cochilo.
bufou e pegou uma revista de viagens no bolsão da poltrona. Milhares de destinos que ela queria conhecer, alguns que já havia conhecido… Mas dificilmente poderia, devido a sua agenda apertada de estudante de medicina. Ela levava bem a sério, ao contrário do irmão que naquele exato momento estava conhecendo aqueles lugares. E aparentemente voltar para Nova Iorque nas férias era uma exigência de Dorothea, mas que aplicava somente a ela, mas o porquê do tratamento especial, ela não sabia. Enquanto isso, James era aplaudido. Então todo o tempo que tinha para conhecer o mundo havia sumido. Ela não ia implicar, só estudava em Stanford porque a mãe pagava, e enquanto tivesse aquilo, ela concordaria com tudo. Se considerava uma pessoa fácil.
O som agradável e relaxante que precedia algum aviso da tripulação foi acionado. tinha os olhos em alguma praia grega estampada na revista, mas a atenção estava ligada aos detalhes funcionais.
Se houver algum médico a bordo, favor se identificar para a tripulação.
engoliu seco, fechou a revista e levantou-se um pouco em seu assento e olhou ao redor da cabine. Ninguém se manifestou, várias pessoas a imitaram por pura curiosidade. Ela voltou a sentar-se e cutucou mais uma vez.
, acorda. Eles precisam de médicos.
— Você é uma médica. — balbuciou, ainda de olhos fechados, não movendo nada além dos lábios. — Me chame se precisar de mim. — deu de ombros e ajustou o corpo na poltrona, mostrando que ele realmente ia dormir.
Ela suspirou e acionou o botão para chamar um comissário. Não demorou muito para alguém aparecer e ela já estava de pé.
— Oi, como eu posso ajudar?
— Você é médica? — o comissário perguntou. espremeu os lábios, não ia negar. Apenas concordou, assentindo. — me siga, por gentileza.
A estudante se levantou e passou por suspirando, queria mostrar a ele quão magoada aquilo havia lhe deixado. Ela realmente esperava que fosse algo que suas habilidades não dessem conta só para ele levantar aquela porra de bunda folgada dali. Ela seguiu o comissário e eles saíram da primeira classe, atravessaram o avião inteiro até chegar na passageira aos fundos.
— Ela chamou a tripulação informando que sua bolsa rompeu há alguns minutos. — O homem falou com . A mulher arregalou os olhos assim que eles pousaram na paciente.
Ela suava e estava amarela. Sua feição não era das melhores, devia estar suportando uma tremenda dor, e ainda por cima, calada.
ficou ali, parada, apenas a encarando e sem saber o que fazer.
— Doutora? — o homem chamou. balançou a cabeça e aproximou-se da mulher.
— Olá, — ela sorriu e ajoelhou-se no corredor, de frente para a grávida e colocou sua mão sobre a da paciente. — meu nome é doutora Chase- — ela disse, assim como havia aprendido na escola. — como se sente?
— Oi. — ela gemeu. — sou Catherine. — Catherine virou a mão, deixando de apertar o encosto de braço e passando a concentrar sua força na mão da médica. — por favor, me ajude. — ofegou.
assentiu.
— Ela disse que vem sentindo dores na barriga pela última hora. — a aeromoça que lhe fazia companhia acrescentou.
só sabia assentir. Suas próprias mãos começaram a suar frio e ela jurava que ouvia um zunido no fundo da cabeça.
— Eu pensei que estava tendo apenas uma indigestão, de novo. — lamuriou. — Preciso chegar a Nova Iorque. Nunca pensei que o bebê iria querer chegar às 34 semanas.
— Espera, 34? — ela deixou cair o queixo.
Puta merda.
Ela definitivamente precisava de . Ela não ia aprender a fazer partos até o terceiro ano da escola de medicina. Agora, ela não estava apenas prestes a fazer um, mas de um prematuro.
— Posso empurrar? Eu realmente preciso — grunhiu.
— Vamos ver se você já está lá — ela disse para a mulher em trabalho de parto. — Eu preciso do kit de primeiros socorros. — virou-se para a tripulação, mais deles já haviam se aglomerado ali. — O que vocês têm pra desinfetar? Têm luvas? Gaze?
— Vou buscar. — O homem se levantou.
A médica virou-se para a futura mãe e sorriu, tentando lhe transmitir coisas boas.
— Qual sua especialidade?
Ela não tirou o sorriso do rosto.
— Eu não tenho uma. Ainda.
— Então você é residente.
— Sou mais tipo uma estudante… Mas não se preocupe…
— Claro que não. Vou dar a luz a 39 mil pés de altura. Eu vou ficar com o que eu puder. Mas você já fez isso antes, não é? — ela tentou sorrir.
entreabriu os lábios e ficou encarando a mulher sem palavras.
— Não, ela não fez. Mas não se preocupe, ela é muito boa em seu trabalho e eu vou assisti-la o tempo todo.
Uma mão tocou o seu ombro e deu um aperto reconfortante. Ela virou o rosto apenas o suficiente para ver .
— Me assistir? Que diabos? — sussurrou. Sua voz estava carregada de escárnio e até uma ameaça.
Então ele finalmente havia resolvido que seu sono havia deixado de ser mais importante? Após o que, ela desejar ter um ataque do pânico, mas se segurar apenas para deixar a grávida calma? Ótimo exemplo de ética, Doutor .
— Quem é você? — ela grunhiu. Sua testa franzia a medida em que ela fechava os olhos e o apertava com força, fazendo o mesmo com a mão da médica.
— Catherine… Este é Doutor . Ele é um cirurgião. — disse.
Ela abriu as pálpebras e ficou encarando a mulher. Seus olhos verdes transmitiam sua dor, seu medo e agonia. Tudo que a médica soube naquele momento era que ela não queria estar em seu lugar. Jamais.
— E ele também é meu professor… — completou, nem um pouco entusiasmada. Mas estava fazendo qualquer coisa para ajudá-la a sentir-se segura.
— E nós vamos ajudá-la a fazer esse parto. — sorriu e colocou sua mão sobre as das mulheres. As duas o encararam ao mesmo tempo. Catherine engoliu seco e assentiu, vincou a testa e ergueu uma sobrancelha pra ele, que ignorou com êxito.
— Aqui está o kit — o comissário chegou correndo e ofegante.
Todos se soltaram, a estudante estendeu as mãos para pegá-lo. Colocou no chão e abriu a maleta, revirando-a e olhando o que tinham para trabalhar.
— Gel desinfetante para mãos? Sério isso? — ela pegou o vidrinho e chiou. Aquilo era uma merda.
— Tudo que você tem. Pensa rápido. O que você precisa fazer agora? Você está comandando o espetáculo. — sussurrou.
— Não entrar em pânico. — brincou, e fechou a cara. A grávida soltou outro grunhido alto, atraindo o olhar de — ok, as contrações dela estão com menos de dois minutos de intervalo. Eu preciso que ela se sinta confortável para fazer um exame pélvico, ou talvez nem seja necessário.
— Ótimo. Você consegue — ele sorriu e se virou para a tripulação — vocês a ouviram, pessoal! Vamos arranjar espaço!
O casal se levantou, deu dois tapinhas no ombro da mulher.
— Senhores, precisamos de seus assentos para emergência médica. — uma das comissárias de bordo falou com os dois homens desconhecidos que estavam ao lado da grávida. Eles se levantaram rapidamente e assustados, passando por Catherine e sorrindo sem jeito. — me sigam, vamos encontrar novos assentos para vocês.
— E eu vou me lavar — avisou o professor, que assentiu. Ela correu ao banheiro logo atrás dos assentos que Catherine estava.
Ao abrir a porta, ela se debruçou na pia.
O que era tudo aquilo acontecendo? Havia sido tão rápido! Um minuto ela estava planejando férias e viagens e no outro ela faria um parto?
Ela precisou rir.
Aquilo era exatamente tudo que ela queria. Seu maior sonho.
E ela ainda não sabia até então.
ergueu o olhar e se encarou no reflexo do espelho.
Ela podia fazer aquilo. Ela faria aquilo.
A mulher pegou o sabonete líquido e fechou os olhos, lembrando-se da sua primeira semana de aula, quando aprendeu a fazer o procedimento de limpeza antes de uma cirurgia.
Limpe todo o local, unhas, ao redor dos punhos, todo o canto. “Este é o ponto em que você tem que ter sua mão mais alta que seu cotovelo. Você quer que o sabão corra do limpo para o sujo, e não o contrário”. A voz da professora ecoou no fundo de sua mente. Ela não tinha espaço, mas fez o melhor que pôde. “Você passa pela a água uma e outra vez, e novamente, e novamente, até tirar o máximo de sabão possível. Você não quer suas mãos onde você não pode vê-las”.
Era isso.
Ela secou as mãos nas toalhas descartáveis por falta de alternativa e saiu do banheiro com as mãos erguidas, havia deixado a porta aberta. a aguardava no corredor e entrou assim que ela saiu para fazer o mesmo. Quando ela voltou, as aeromoças já estavam de volta esperando novas instruções. Ela respirou fundo e prosseguiu.
— Ok, Catherine, agora você vai se deitar para mim. — Ela esticou a mão para tocar o joelho da mulher, mas parou a tempo de lembrar que teria que se lavar de novo. A grávida assentiu e obedeceu. virou-se para a sua equipe. — Eu vou precisar que vocês peguem alguns lençóis e mantenham-nos aqui como cortinas. Um pouco de privacidade é sempre bem vinda. — elas concordaram e foram buscar o que ela pediu — E ? — virou-se por último para o cirurgião, que havia acabado de retornar.
— Sim?
— Você vai segurar as mãos dela.
Ele havia se abaixado para pegar o pacote de luvas e congelou no mesmo lugar. Devagar, o cirurgião ergueu a cabeça e a encarou no fundo dos olhos azuis, lançando a maior súplica de todos os tempos. Aquilo era bom demais pra ele ficar de fora.
— Você está brincando.
— Olha pra minha cara, ela parece estar?
— Não. — rolou os olhos e levantou-se com o pacote de luva e o gel desinfetante.
Ele abriu o vidrinho e despejou um pouco nas mãos da mulher, que esfregou por todos os cantos mais uma vez, assim como havia feito com o sabão.
— Então não estou. Segure-a, . Diga a ela que ela não está sozinha e ela pode fazer isso. Estou comandando o espetáculo, lembra?
Ele suspirou e rasgou a embalagem das luvas, auxiliando-a para colocá-las.
— Ok. ? Você consegue. — Ele pôs a mão no ombro dela e deu um aperto enquanto a olhava no fundo dos olhos.
— Eu sei que sim. — esnobou de brincadeira e riu. Ela era sempre uma graça.
Ele passou pelas poltronas e sentou-se onde estava a cabeça de Catherine, colocando-a em seu colo e oferecendo suas mãos. Ela segurou-as sem hesitar. Os nós dos dedos já estavam amarelos de tanta força, mas ela não parava. Concentrava toda sua dor ali e não havia nada para aliviar além daquilo.
— Certo, Catherine. Você vai sentir minhas mãos agora. — suspirou e balançou os ombros.
Quando ela ajoelhou-se e afastou as pernas da mulher, seus olhos e coração quase pularam fora.
— Oh, uau!
— O que houve? — perguntou.
— Você disse uau? — Catherine ergueu a cabeça.
, o que houve? — falou mais uma vez.
— Ela está coroando. — respondeu. — Catherine, quando a próxima contração vier, quero que você empurre. Ok?
— Ok. — ela concordou, suando frio. Ela olhou para o cirurgião e sorriu de volta para ela.
— Continue respirando fundo… Vamos lá, faça comigo. — ele disse e fez para que ela pudesse imitá-lo.
esticou as mãos e tocou a cabeça do bebê.
— Você consegue.
— Sabe, meu noivo vive em Nova Iorque. Eu estava indo lá para poder ter o bebê. Agora vou chegar com um nos braços. Ouch. — ela gemeu e apertou as mãos de ainda mais forte.
— Está na hora. Grande empurrão para mim no três, Catherine. Um, dois…
E ela empurrou. Seu rosto estava vermelho, mas ela estava focada.
E o bebê estava vindo. Céus. podia sentir as entranhas do corpo tremendo. A expectativa, a adrenalina.
— Meu Deus. — ela mordeu seus lábios, soltando um grande suspiro e parando de empurrar. A médica a encarou.
— Ei, ei, continue empurrando. Você está fazendo um trabalho incrível. — ela assentiu e voltou o foco, obedecendo. — Catherine?
— Sim? — grunhiu.
— Você pode gritar. Não segure.
— Há tantas pessoas a bordo, eu não quero perturbá-las.
— Nesse momento nenhuma delas está sentindo sua dor. Vá em frente, outro grande impulso para mim.
Catherine gritou. Catherine empurrou. Catherine apertou .
E a cabeça saiu, toda distorcida por ter passado o canal. E a segurou na palma de suas mãos. Um grande sorriso tomou conta de seu rosto.
— Oh meu Deus.
— O que houve? — a mãe ofegou após uma pausa.
, você não pode dizer ‘oh meu Deus’ no meio de um procedimento. — repreendeu.
— Sim, doutor . — assentiu. — Catherine, a cabeça do bebê está fora! Outro grande empurrão para mim quando a dor vier, está bem? Apenas mais um grande impulso e acabamos!
Ela assentiu. lançou um olhar preocupado para . O bebê estava quieto demais. Um pouco roxo ou era impressão? Mas o cirurgião logo percebeu que algo estava errado. “O cordão”, balbuciou. O cordão umbilical estava preso ao redor do pescoço.
— É agora. — Catherine grunhiu ao mesmo tempo que fez força novamente.
A mãe urrou.
E a bebê estava fora.
Nas mãos de .
Pequena, indefesa e quieta.
— Você conseguiu! — comemorou. Na primeira oportunidade, ele soltou suas mãos e massageou-as. Tentava levantar, agora seria o pior momento e precisava dele.
— Parabéns, Catherine! Você tem uma menina linda! — disse, fingindo ter a mesma alegria que , escondendo seu descontentamento e lhe lançando um olhar de súplica.
O homem levantou e foi na direção da aluna, olhando a bebê. A mulher desenrolava o cordão, tirando-o do pescoço da recém-nascida, mas ela não havia respondido.
— Oh meu Deus, deixe-me vê-la. — Catherine sorriu, indo de um extremo ao outro em segundos — por que ela não está chorando?
? — disse em um apelo por ajuda. — , diga algo. O que eu faço?
— Respire fundo. Qual é o primeiro passo?
— Virá-la e esfregá-la. — disse em voz alta e seguiu as próprias ordens.
— Alguém fala comigo! O que está acontecendo? — Catherine gritou.
— Bom. — se voltou para a comissária. — Diga ao capitão que precisamos pousar o mais rápido possível. — ela assentiu e saiu. — Catherine, estamos fazendo o nosso melhor, ok?
me ajuda, eu não acho que ela vai sobreviver. — murmurou.
Ela jurava que ficaria cega a qualquer momento e perderia os sentidos. Aquilo era uma pressão maior que o normal. Se estivessem no solo, em um hospital, não passariam por tantas urgências e delicadezas.
— Ela está morta? — A mãe berrou.
— Preciso de algo para sugar. — pediu quando percebeu que não estava dando certo. Precisava limpar as vias aéreas.
— Você tem canudinho? — uma terceira voz falou.
e viraram a cabeças juntos para o idoso.
— Quem é você? — Doutor perguntou.
— Eu sou paramédico. Aqui, deixe-me ajudar. — Ele estendeu as mãos.
ergueu a sobrancelha, mas entregou a criança sem pensar duas vezes. Ela estava apavorada demais para fazer seu trabalho. abriu a boca, mas nada saiu. O cirurgião abaixou o olhar até a aluna e a encontrou tremendo. Ele a puxou e a abraçou contra seu peito, virou o rosto e o apertou contra o homem, passando os braços por sua cintura e o apertando com força. Ele retribuiu o gesto, envolvendo-a pelos ombros.
Onde ela errou?
Por que a menina nasceu naquele estado?
O que ela havia feito de errado?
Ela queria gritar, sair correndo e encolher-se em algum canto.
a afastou brevemente, colocando a mão no seu antebraço.
— Ei, ei, o que foi? — ele falou calmo. — Você foi incrível! Eu não teria feito melhor… A maneira como lidou… Eu sinto muito por ter te feito passar por isso, você não tinha a experiência e eu achei que seria legal, pura adrenalina, sabe? Do jeito que você gosta. Mas eu estava errado, você não estava pronta… me desculpe. Mas você foi incrível e…
E um choro preencheu seus ouvidos.
O alívio a atingiu em cheio. Seus pulmões se inflaram e ela sorriu enormemente.
— Está tudo bem… vai ficar tudo bem… — Estamos a 40 minutos de Nova Iorque, estaremos aterrisando em breve e eles vão direto para um hospital, uma ambulância estará esperando. — a aeromoça informou os médicos. assentiu.
— Diga-lhes para levá-los ao Hudson Valley Memorial, por favor. — a mulher assentiu e se afastou. A aluna virou-se para o professor e suspirou. — e ?
— Sim?
— Nunca mais me diga o que estou pronta ou não para lidar. Você não sabe como eu me sinto. Esta criança está viva por minha causa. Ela está viva porque eu tive as bolas de responder o chamado e a trouxe a este mundo, não você. Você pensou que seu sono valia mais a pena. Nunca mais me diga que você sente muito por eu ter feito o meu trabalho.

Abril de 1993


Aquela manhã era um milagre.
James estava indo para a aula com ela.
Isso acontecia uma vez em cada lua cheia. Também conhecido como quase nunca.
Mas ela acordou atrasada pela primeira vez.
Então talvez ela estivesse indo com ele.
Assim que eles entraram no anfiteatro para as aulas do semestre que parecia nunca ter fim, ela notou que algo diferente terminava.
Algo .
— Porcaria, o que ele está fazendo aqui? — suas sobrancelhas franziram e ela pulou para o outro lado do irmão, de modo que seu corpo escondesse o dela.
— Quem? — Ele olhou para a mesma direção que ela estava olhando — oh, seu namorado? Ele está substituindo a doutora Hill hoje. Ela nos contou ontem que enviaria alguém.
— Ele não é meu namorado. — Ela corrigiu, estalando os lábios. olhou para , que cumprimentava todos que mexiam com ele com um sorriso simples.
— Por que você está se escondendo, afinal? — James afastou-se, revelando a sua irmã que tentava desesperadamente tornar-se menor.
— Senhorita ? — A voz de chegou aos ouvidos dela e ela apertou os olhos, soltando um suspiro.
— Viu o que você fez? — revirou os olhos e deixou seus livros sobre a mesa, virando as costas para o mais velho.
— Ei, não se esqueça da HFK esta noite. — James disse rindo antes de ir para a parte de trás da sala.
— Não esqueci! — ela disse mais alto.
Ela continuou caminhando e olhando para ele. Ele parecia um ponto de interrogação, um enigma puro que não gostava de resolver, não minutos antes da aula, de qualquer maneira. Não quando a classe era muito importante para o teste final de segunda-feira.
— Você não fez o quê? — perguntou quando ela finalmente chegou até ele, tirando alguns papéis de lado.
— Nada… — ela cruzou os braços.
— Então, eu ouvi dizerem que haverá uma festa hoje à noite no campus… É por isso que você disse ‘não’ para o meu convite para jantar fora?
— Talvez. — Ela encolheu os ombros, desviando o olhar. Ela sabia que seus olhos lhe dariam a verdade, por isso ela nunca retribuía o olhar em momentos como aquele. Péssima mentirosa. E odiava mentira, por cima.
— Eu pensei que você não gostava de festa de fraternidade. — ele sentou-se na cadeira como se o mundo estivesse a seus pés e cruzou os braços esperando por uma resposta que ele sabia que estava conseguindo.
Ele sempre conseguia.
E ela parecia gostar de dá-las. Parecia um jogo onde ela se fazia de dificil para depois ceder. Era divertido jogá-lo.
— Bem, é bom pegar algum ar diferente de vez em quando. — ela deu de ombros mais uma vez.
revirou os olhos e se inclinou sobre a mesa.
, eu não acho que essas sejam os tipos de festas que você queira participar. — ele disse de forma simples e direta. Como se ele pudesse controlá-la.
— Bem, eu não vejo nenhum problema, James também está indo. Na verdade, ele que me convidou. — ela olhou para o relógio sobre o quadro negro, desejando que o sino pudesse simplesmente tocar.
Quando seu olhar desceu, ela viu rolando os olhos uma vez mais. Ele levantou-se com impaciência e caminhou ao redor da mesa como um chefe, parando na frente dela, a milímetros de distância. A conversa sumiu no interior da sala, porque todos tinham seus olhos e ouvidos na discussão dos dois no palco.
— Você sabe que estas são festas cheias de drogas, certo?
— Sim, — ela zombou. — não se preocupe, ficaremos longe delas.
E o som estridente do sino finalmente veio para começar a aula, salvando-a com uma desculpa para se afastar.

[...]


Isso definitivamente tinha que ser o inferno na Terra. Não havia outra palavra para descrever aquela festa. Enormemente ridícula. Todos pareciam ficar bêbados apenas para fazer sexo e muitos garotos iam forçando as meninas a beberem…
estava certo. O que diabos ela estava fazendo lá, afinal? Ela precisava de uma saída e ela chamava ‘James’, que também devia estar chapado demais para levá-la a qualquer lugar. Se ela pudesse ao menos encontrá-lo e pegar as chaves do carro…
Seus olhos pararam no co-anfitrião da festa no mesmo minuto e ela sabia que era isso. Eles foram apresentados no início da festa por seu irmão, com um pouco de sorte ele se lembraria disso. A pista mais próxima que ela teria para James.
— Ei, Tom… — ela o cutucou no ombro. Ele estava conversando com uma garota e ele ia odiá-la por interromper. — Você viu James? — ela sorriu ao ver que ele virou-se tranquilo.
— Ele está no quintal, querida. Como posso lhe servir?
— Não, isso é tudo. Obrigada. — lhe deu um sorriso amarelo. Ela tinha que reconhecer que ele era melhor do que os outros. Não muito para a frente. Talvez porque ele já tivesse uma. Nada de sua conta, de qualquer maneira. Logo, logo ela sairia dali.
Fazer o caminho pelas pessoas suadas foi o pior. Toda aquela água e sal eram meio desagradáveis. Ela não deveria pensar isso, não com sua profissão, mas era meio impossível com aquele cheiro terrível em todo o lugar. Chegar lá fora para pegar um pouco de ar fresco foi um alivio.
Até que aquele outro cheiro chegou ao seu nariz.
Esse foi a verdadeira parte ruim. Ela poderia voltar para dentro? “Não sem as chaves do carro”, lembrou a si mesma.
Ela desceu a varanda e caminhou na grama com os saltos fincando. Era uma merda, ela torcia os pés toda hora. A mulher abaixou-se e tirou-os, carregou-os em suas mãos e continuou procurando por James.
Quando o encontrou, desejou que não tivesse o feito.
Ela desejou que nunca estivesse lá. O arrependimento a atingiu com força.
— James? — ela perguntou normalmente. Como ele não respondeu, ela gritou e deixou os sapatos para caírem no chão, junto com sua dignidade. — James!
Todos os seus amigos se calaram e se viraram, ele incluso. Quando eles perceberam quem era, eles voltaram para suas vidas cheirando cocaína.
— O que? — ele gritou de volta.
encolheu. Ele nunca, durante toda sua vida de vinte e tantos anos, gritou com ela. Nem mesmo quando criança. Nunca. Ele adorava e venerava aquela garotinha tanto para fazer-lhe mal.
E lá estava ele.
Filho da puta! Como ele podia? Não estava estudando medicina o suficiente para saber o que isso poderia fazer com ele?
— Não é nada! Eu certamente não esperava te ver alto!
— Você quer dizer com um “senso de consciência” amplificado? — ele riu.
Senso de consciência? Aquilo nem fazia sentido!
— Meu Deus! Eu te odeio! — ela gritou, virando as costas e correndo para dentro.
Não se deu o luxo de parar para pensar.
Ela sabia o que ela queria…
Esquecer…
Não com algo tão poderoso quanto ele havia escolhido… Algo menos… Nocivo. Ela sabia onde conseguir. E ele estava exatamente onde ela o deixou.
— Tom, onde eu arrumo uma vodka? Tequila? Uísque? Qualquer coisa? — Ela gritou no final. Tom riu.
— Você parece um pouco desesperada. Você não acha? — ele se virou para a colega, que simplesmente ignorou. — Tem certeza de que não quer nada mais…
— Não. Apenas me dê uma garrafa e ficarei bem.
Ele sorriu.
— Como quiser.
Thomas seguiu para o bar montado dentro da casa da fraternidade com a garota atrás dele. O nome do pub que patrocinava suas festas estava estampado em todos os lugares em milhares de balões coloridos. O nome era um pouco estranho, combinava com o cenário. Hopeless Fountain Kingdom.
Reino da fonte sem esperança.
Sumarizava bem a festa.
E ele tinha passe grátis como todos os outros, talvez VIP para conseguir a garrafa. Então ele a chamou mais perto e mostrou-lhe toda a coleção brilhando para ela escolher.
Então ela foi direto para a tequila.
Mas não conseguiu chegar ao fundo da garrafa, porque tudo desapareceu antes que ela pudesse finalizá-la, como era sua meta.

[...]


Havia algo… Tão distante… Tão longe… Inacessível às próprias mãos. Um barulho. Um borrão. Alguém que chamava seu nome fê-la abrir os olhos, mas a claridade era muito intensa, que parecia que ela estava olhando diretamente para o sol, então eles fecharam novamente.
— 14 horas.
— O que? — ela perguntou.
bufou, ela estava falando um idioma completamente incompreensível, muito dopada para todos os efeitos.
Seus olhos não podiam lidar com todo aquela branquidão, então ela não ousaria abri-los novamente. Algo no seu interior estava fortemente anormal. Tão errado… doía como o inferno.
— Você é tão ingênua, não é? Você honestamente pensou que eles não drogariam sua bebida?
— Que merda, ? — ela balbuciou. Sua voz estava tão embaçada. Tudo estava embaçado.
Ele soltou um suspiro e ela sentiu o corpo sendo sugado até que tudo sumiu de novo.

[...]


O eco fez o seu caminho através de seu cérebro, certificando-se de deixar sua marca.
“Algo está errado. Acorde.”
As almas estavam ligadas ao corpo até a pessoa morrer.
“Você não está morta. Acorde.”
De volta ao espaço profundo, seus olhos estavam descansando. Seu organismo não.
“Acorde.”
Ela abriu suas pálpebras mais uma vez. Tudo estava em seu devido lugar.
levantou a cabeça um pouco e olhou em volta. As paredes eram tão cremosas que podiam mergulhar qualquer pessoa na depressão. Soros, monitores cardíacos e tubos estavam ao seu redor. A TV também estava ligada, falando com ninguém. Ele estava de frente pra ela naquela pequena cama desconfortável, tirando um cochilo.
? — ela o chamou. Sua voz também voltou ao normal e merda, aquilo era fantástico.
Ele abriu os olhos calmamente, como se o mundo fosse um lugar tranquilo, e olhou para ela, sorrindo com os olhos e depois com a boca. Seus lábios muito embriagantes que a deixavam louca a cada dia nos últimos anos. O doutor levantou-se e caminhou até sua cama, segurando suas barras como se ele estivesse segurando sua vida.
— Você está aí? ? - ele disse suavemente.
? — sua testa transformou-se em um vale — que inferno é esse?
— Oh meu Deus, obrigado! — Ele soltou um suspiro cheio do mais puro alívio. A percepção de que quanto ele se importava com ela fez com que ela abrisse um sorriso. - Sua voz parece normal novamente.
— Eu me sinto normal.
Ele assentiu e levantou o polegar na direção dela, mas parou logo antes que ele pudesse alcançar sua pele já não tão pálida, virando-se de costas e deixando-a sozinha naquele miserável quarto de hospital.
Não por muito tempo.
Ela deu um sorriso pequeno e tímido no momento em que ele entrou pela porta de novo. Ele estava lá com ela.
Com ela.
— Você tem olhos lindos.
— O que? — Demorou um segundo ou dois para processar o que ela disse, e quando seus neurônios fizeram o trabalho de levar a informação ao cérebro, ele riu incontrolavelmente.
— Não importa, devem ser os medicamentos falando. — ela deu de ombros.
— Você não está em remédio nenhum no momento que isso causaria isso.
— Droga… — falou num tom brincalhão. Ela revirou os olhos, tirando-os dele. Ele era uma distração, uma muito agradável.
— Tenho olhos lindos? — ele perguntou, ela podia perceber o sorriso por sua voz. Era o que ele fazia melhor, ele abaixava a guarda dela com ele.
— Você tem. — ela olhou de volta para o rosto dele, tentando não desviar o olhar, resistindo à tentação que a timidez explorava nela.
— Você gosta de mim. — ele deu um sorriso tão grande que ela jurou que podia sentir a dor nas bochechas dele.
Culpada.
— Muito. — a cabeça dela concordou por ela. Era isso. Não havia mais um caminho de volta.
— Bem, a boa notícia é: — ele disse alegre, fazendo com que ela tivesse arrepios por pura curiosidade. Caramba, como ela chegou ali? — Eu também gosto de você.
sorriu quando notou que suas pupilas se dilataram, quase tomando suas íris por completo. Ele deu um passo para trás, dando espaço para a enfermeira que ele havia chamado para verificar a paciente.
Ela fez alguns exames rápidos em e deu um passo para trás, não demorou muito para voltar para seu lado.
— Você e seu irmão tiveram sorte. Vocês quase não sobreviveram — ela disse alegremente, como se fosse uma coisa boa estar ali, naquele estado. Os olhos dela ergueram para e ele desviou o olhar. Ela soube que se passava alguma coisa. Todas suas ideias divergiram e nada pareceu fazer sentido, seu rosto estava tão torcido como seus pensamentos. — Parece que eu terminei aqui. Você está indo bem, o médico virá em breve, talvez te dê alta. Vou deixá-los sozinhos. — ela disse e fugiu antes de poder enfrentar o problema que criou.
— O que aconteceu? — Sua voz estava envenenada, traída. Era o que sentia e nem sequer conseguiria explicar.
finalmente pegou sua mão. olhou para os dedos entrelaçados e afastou os dela. Ele estava tentando suavizar e aquilo era a última coisa que ela precisava.
— Desembucha.
— Você teve intoxicação alcoólica aguda. — Deu alguns passos para trás, até que ele pousou a bunda na cadeira. — Eles tiveram que enfiar um tubo nos seus pulmões nas primeiras horas para ajudá-la a respirar, e um cateter na bexiga, porque você estava muito inconsciente para responder qualquer coisa.
— Intoxicação alcoólica aguda? — zombou. — Você está dizendo que eu tive um coma alcoólico?
Isso era mesmo possível? Ela odiava álcool e a mera idéia de sua existência!
— Eu te avisei! — Ele gritou, respondendo ao tom ultrajante da mulher.
— Eu estava chateada com você! — ela tentou gritar de volta, mas sua garganta doeu tanto que teve que desistir de tentar ficar igual a ele — você não é meu dono. Não sou seu brinquedinho. — Ela cruzou os braços e olhou para a janela. Estava tão claro lá fora que podia sentir a paz do azul tentando estender a mão para ela. Mas ela não o deixou entrar.
— Claro que não! Mas era uma festa do HFK!
— E eu deveria saber que diabos é isso? — ela encontrou seu tom e descobriu que poderia fazer um escândalo sem ter que gritar com ele. Suave como margaridas, afiada como uma navalha.
— O pub mais louco que patrocina as festas mais loucas. Todos sabem disso! — ele continuou gritando e ela desejou que pudesse arrancar seus tímpanos fora, mas, em vez disso, ela simplesmente revirou os olhos.
Eu não sabia! — rosnou.
— Eu deveria ter insistido um pouco mais para você não ir! — Ele sacudiu a cabeça, sentindo seu sangue esquentar. Ele falhou com ela, ele falhou si próprio.
— Que bom que eu não dependo da sua aprovação para viver!
— Eu estava tentando cuidar de você! Você não estaria aqui se tivesse me ouvido! — gesticulou com os braços, como se eles pudessem ajudá-lo a provar para ela o ponto de tudo aquilo.
— Adivinha só! Eu não preciso disso!
— É! Fala de novo! Você está deitada num leito hospitalar. Poderia ter morrido!
, cala a boca! — ela bateu na cama com as duas mãos na mesma hora. Seus olhos se arregalaram e ele caiu de costas na cadeira dura.
— Não, você cala! Eu te quero bem! — apontou o dedo para o rosto dela.
— Você não tem o direito de mandar em mim!
Todo o hospital deveria estar ouvindo-os, mas quem se importava, afinal? Ou quem tinha coragem de entrar naquela sala e fazê-los parar? Ele não faria, se coubesse a ele como médico.
, pare com isso! Eu sou seu namorado, é isso que os namorados fazem!
Ela deixou cair o queixo e um barulho estranho veio de suas cordas vocais. Ela tentou afastar-se, mas o monitor do coração tocou tão alto que disparou todos os alarmes em torno da equipe. jogou a cabeça para trás em seu travesseiro e sentiu seu rosto ficar tão quente que ela simplesmente não conseguia lidar com o fato de que ele estava lá, vendo tudo acontecer. levantou-se mais uma vez e caminhou até ela, agarrando um estetoscópio numa bandeja próxima e enfiando-o no peitoral dela, sem delicadeza alguma. Ela olhou para o céu através da janela e tentou se concentrar nas nuvens, ficando quieta para que a sensação pudesse simplesmente ir embora e pudessem ignorar aquele momento embaraçoso, onde ela teve uma arritmia amorosa anexada a uma máquina, enquanto seu namorado médico assistia de camarote VIP.
A enfermeira voltou, mas ela parou na porta. Uma vez que terminou, ele deu um sinal de que estava tudo bem, para que ela pudesse voltar para seu trabalho monitorando outra pessoa e deixando-os com alguma privacidade.
— James está aqui? — ele assentiu. — Posso vê-lo? Diga-lhe para entrar.
— Ele não pode. — ele cruzou os braços, olhando para baixo até encontrar-se com ela. Seus olhos estavam quase mais tristes que os dela, e aquela realização disparou todos os tipos de alarme dentro de si.
— Para de decidir! Ele entra quando eu quiser!
— Lá vai você de novo… — zombou, deixando a última gota de paciência que ele tinha ir embora. — Ele não pode porque ele quase teve uma overdose! Não tenho ideia de como as pessoas daquela festa conseguiram perceber que algo estava errado com vocês dois, na verdade, com as cinco pessoas que desmaiaram, e ligaram para o 911. Eu realmente não sei, mas vou rezar por eles todos os dias da minha vida a partir de agora. E sua mãe endoidou a porra da cabeça!
James quase teve overdose.
Sentia-se sendo rasgada em pequenos pedaços e sendo jogada no espaço como lixo espacial.
— Ele o que? — ela ergueu a cabeça mais uma vez e virou-se para , para que pudesse encará-lo no fundo de seus olhos e ver que ele não mentia. A sua voz soou tão calma que aquilo preocupou muito mais do que um grito faria — espera, você chamou minha mãe? Ugh! — ela puxou o travesseiro de debaixo de si e tampou a cara, escondendo-se do mundo, do seus problemas.
— Não foi eu, foi o hospital.
— Merda, ! Eu quero vê-lo. — ela gemeu, tirando o travesseiro e dando-lhe os olhos de coitadinha mais tristes que ela poderia naturalmente fazer. Ela não precisava de muito esforço, não depois de todas as circunstâncias.
— Você sabe que não pode… Ele está num tratamento para drogas agora. Você está sendo tratada também. Está ligada a tantos soros e…
— Como não!? Eu devo receber alta em breve. De qualquer modo, quando a minha mãe chega? Quanto tempo eu tenho para me preparar para ela?
— Ah… sobre isso… — ele desviou o olhar. o seguiu com os olhos, para que ele não pudesse escapar. — Ela já está aqui. — ele confessou como pecadores faziam com padres.
Então, como um padre, ela manteve-se ouvindo. Tão silenciosa que sequer um murmúrio seria ouvido vindo dela.
— Ok… — ela lentamente descansou seu corpo no colchão.
Ele manteve-se silencioso também. Já havia revelado todos os seus pecados, só precisava do perdão agora. ergueu uma sobrancelha.
— Ela não veio me ver, não é?
— Eu sinto muito… — Ele foi até ela tão rápido e segurou a sua mão que não a deu tempo de ter qualquer reação. Ele sempre segurava, mas apenas quando havia problemas.
Ela jogou a cabeça no travesseiro com tanta força que deixou um gemido de dor escapar.
— Eu quero alta. Pegue alguns papéis para eu assinar.
Se Dorothea Chase- não dava a mínima para a própria filha, não daria a mínima para ela também.

Dezembro de 1993


As manias eram pequenos vícios capazes de consumir você. Ela tinha uma pequena mania que incomodava um pouco, mas não o suficiente para tentar abrir mão dela. adorava zoar, até ele começar a fazer igual. Toda vez que estava chegando perto de casa, ela já separava as chaves da porta. Não esperava ficar plantada na porta e revirando a bolsa, já chegava e enfiava na fechadura. Simples e rápido.
E ela havia passado a tarde inteira com ele. Havia ido para a casa dele com ele depois da aula e ficou estudando enquanto ele corrigia provas do primeiro ano. As dela ainda não haviam acabado, a mais importante de todas estava há uma semana de distância.
A fechadura estalou quando ela destravou a porta de entrada, quando virou-se para acenar um ‘adeus’ para , ele já havia ido. Estava ocupado. Ela havia insistido que não precisava da carona, que uma caminhada de dez minutos não ia matar ninguém, mas ele não gostava da ideia de ela andar sozinha por aí.
Ela trancou a porta. Já era tarde da noite, ia jantar e cair na cama.
Isso se tivesse janta.
A casa estava toda escura, exceto a cozinha. Ela chegou à escada e gritou pelo irmão.
— James, estou em casa! Você fez o jantar? — As luzes do andar de cima também estavam acesas, ele provavelmente estava estudando também. Ou namorando. Dava na mesma.
O silêncio que sucedeu-se indicava que provavelmente era a segunda opção. Ela suspirou e virou-se para seguir para a cozinha.
— Bem, é melhor você ter feito, porque estou morrendo de fome. — ela cantarolou alto e entrou no ambiente.
Seus olhos foram direto para o chão e ela quase tropeçou nos próprios pés. Eles congelaram onde estavam enquanto seu cérebro processava aquela cena.
Para , sangue significava trabalho. Sangue era algo que você deveria esperar ver bastante durante a escola médica, então ela tirava de letra. Ela colocava uma bata e luvas estéreis para fazer o trabalho e mais tarde as descartava. Principalmente em cirurgias, o que era o que ela sempre quis seguir.
Ela definitivamente não queria seguir um caminho que a levava a encontrar James abatido no chão de sua cozinha. Mas lá estavam eles.
Seu doce James.
Ela correu até ele e seus joelhos se dobraram, atingindo o chão duro e a poça escarlate de sangue com força, molhando sua calça.
— Não, não, não, não, não… — sua voz era um cântico.
Suas mãos não sabiam exatamente o que fazer ou quando fazer. Elas se agitavam ao redor de seu corpo e do dele, não parando em lugar algum, só molhando-se cada vez mais e mais no sangue viscoso, até ela finalmente respirar fundo e alcançar o seu pescoço exposto, esperando que encontrasse um pulso.
Mas ela encontrou o vazio. O vazio escuro e profundo. O vazio do espaço sideral. Aquele vazio que ela sabia que teria de enfrentar. O vazio do tipo que suga a sua vida.
— James! — ela urrou.
Suas mãos migraram para os seus pulsos, uma em cada um. Ele estava esparramado no chão como se tivesse passado por uma enorme queda. Corpo virado para baixo, uma mão acima de sua cabeça e outra perto de sua barriga. Uma faca ao seu lado, cheia de seu sangue.
E ela não sentiu nada. Nenhum pulso.
— Você não pode morrer! — seus olhos se inundaram e sua voz tornou-se tão frágil que ela ficou com dó de si mesma. Mas ela respirou fundo e ficou de pé, correndo para o telefone que sempre ficava preso à parede, porque ninguém usava.
911, qual é a sua emergência?
— Meu irmão está morto. — engoliu seco e no minuto seguinte ela soube que sua laringe não faria qualquer outra palavra a qualquer momento, então ela deu ao despachador seu endereço antes que eles pudessem pedir, e desligou.
Ela correu para ele e olhou diretamente em seus olhos. Seus olhos sempre tão alegres não tinham mais vestígios de luz. Como futura médica, sabia que ele estava longe demais para ser salvo, mas ela o rolou e o deixou de costas de qualquer jeito, subiu no topo dele, entrelaçou seus dedos e começou a fazer compressões no seu peitoral incansávelmente. O líquido vermelho viscoso nem se espalhava mais, era muito velho e já estava congelando.
O cheiro nunca a incomodou, mas James era demais.
E ela não via nada direito. Os olhos dela estavam cheias de lágrimas, escorrendo como as Cataratas do Niágara rastejando pelo seu rosto, levando a última energia que ela tinha para dar.
Ele estava tão pálido…
— Não se atreva a me deixar na mão. Não. Se. Atreva! — Ela empurrou mais forte e abaixou-se colando seus lábios, fazendo respiração boca a boca mais uma vez.
Ela ouviu um estrondo vindo da porta e ergueu o olhar por um segundo, vendo as luzes azuis e vermelhas borradas brilhando tão fortemente através da janela. Os sons ardentes das sirenes a garantiram que estavam lá.
Um par de mãos fortes a puxou para trás. Eles deviam estar chamando-a, mas ela não conseguia ouvir. Havia apenas um zumbido muito alto ao fundo. Um homem entrou na sua frente. olhou para o rosto do paramédico e viu seus lábios se moverem, mas não conseguia entender o que ele estava dizendo. Ele desapareceu.
— Me solta! — ela gritou, puxando os braços de quem a segurava, mas eles eram mais fortes.
Suas pernas começaram a chutar tudo o que estava por perto, os braços estapeavam todo o redor, e do nada ela já não sentia mais o chão. Seu corpo inteiro estava tremendo, mas eles davam conta dela. Suas cordas faziam um ótimo trabalho dificultando o trabalho de todos, porque não tinha nada que a fizesse parar.

[...]


Médicos vestiam branco a maior parte do tempo. A etiqueta de funerais exigia que as pessoas estivessem de preto. E certamente também era responsável pela presença de 80% das pessoas ali. Presentes apenas para mostrar respeito à chefe deles. Não se incomodavam em conhecer seu filho, apenas se preocupavam com a imagem que teriam no fim do dia.
Aquilo tudo era uma fraude para ela.
O céu cinza só servia para certificar de que o dia ficaria ainda mais sombrio e difícil de viver. A Califórnia era muito mais bela no inverno do que Nova Iorque, fazendo com que ela desejasse estar lá assando uma ave para o natal com e James. Ela não sabia cozinhar, mas faria o esforço.
Mas James estava morto.
E seu funeral era tão frio como uma briza silenciosa. Ela não tinha ideia de onde todas aquelas flores vieram, onde elas floresciam naquela época do ano apenas para decorar aquela igreja velha acastanhada, só para apresentar seu caixão para as pessoas. Um quadro com uma fotografia dele havia sido pintado com tinta a óleo em tempo recorde, real demais para o seu próprio bem. Toda aquela situação era tão insuportável.
Mas estava quase acabando.
Eles só precisavam enterrá-lo.
A pior parte.
Ela não parava de pensar quão difícil seria colocar seu irmão seis pés debaixo do chão.
caminhou pelo corredor principal da igreja após o fim da cerimônia como uma sombra engatinhando na Terra. Ninguém a notava ou sequer a conhecia. Era tudo sobre sua mãe, nem mesmo seu irmão. Ela não sabia se devia se sentir aliviada ou triste por não receber os consolos do tipo “eu orarei por você”.
A mulher pisou do lado de fora e olhou para cima, para o céu. Um pequeno floco de neve pousou em seu nariz, fazendo seus olhos marejarem mais uma vez. Ela e James brincavam muito na neve quando crianças, construindo bonecos de neve e se jogando no chão para desenharem anjos com seus corpos.
— Vou colocar você e sua família nas minhas orações. — mais um falou, fazendo-a rolar os olhos. Ela olhou em direção a voz e viu sua mãe sendo confortada por outro médico.
— Obrigada, Adam. Ele já tinha tentado antes, sabe… — ela suspirou, não terminando a frase.
virou-se, devagar demais para todos os efeitos.
— Ele o quê? — sua voz estava fraca e indisposta a sair. Cada palavra era escorregadia.
… Esse é o… — sua mãe estendeu a mão, tentando introduzi-la para alguém que ela não queria conhecer.
— Eu não quero saber — ela a deteve ali mesmo, dando uma palmada em seu braço para longe — por que você não me contou? Que ele já tinha tentado se matar? — rosnou.
— Porque você sabia! Você estava lá! — ela retrucou no mesmo tom, tentando tanto em não chamar muita atenção.
Seus olhos se arregalaram olhando a mãe, mas seu foco estava longe. Ela imediatamente se abraçou, tentando afastar o frio. Ou sua mãe. Qualquer coisa, na verdade.
Aquela overdose não era um acidente.
O mundo se tornou tão pequeno debaixo de seus pés, que ela não sabia como conseguiu manter-se de pé.
— Não. — seu tom não poderia ter sido mais cético.
Você era a mais próxima a ele, você deveria ter visto isso chegando. — sua mãe ergueu o dedo e apontou na direção do peitoral da filha. — se ele não está entre nós hoje, é porque você falhou em ajudá-lo, porque você estava ocupada demais trepando com o brilhante doutor .
Seu queixo teria caído tanto que sua mandíbula doeria, mas ela manteve sua dignidade como havia aprendido a fazer ao longo dos anos por causa de sua mãe, por não escolhê-la nunca. Dorothea Chase- moldou-a em uma garota forte, mesmo que não tivesse muita participação direta naquilo.
Ela virou os pés e seguiu o caminho oposto.
— Por sinal, diga a ele que ele foi demitido. — ouviu a voz da sua mãe vindo alta através da multidão. Todos podiam ouvi-la.
Mas ela não parou ou olhou para trás. Ela nunca quis ver James debaixo do chão, então não ficaria, de qualquer forma.
Ele deveria estar lá com ela, fazendo-a esquecer o monstro que a mãe deles era com ela. Ele a amava tanto, apesar de ser o filho favorito da mãe e receber tudo, ele sempre superava aquilo. Ele ficaria com ela, sempre.
Uma mão firme a alcançou pelo antebraço e a segurou com tanta firmeza que ela não tinha lugar algum para ir a não ser para trás. Ela virou o corpo e viu seu pai com seus olhos nebulosos sem vida a encarando. Mais triste do que a Dorothea sempre ficaria.
— Perdoe sua mãe, ela está confusa e de cabeça quente. — Horace pediu.
fechou os olhos, pendeu a cabeça e a balançou, negando.
— Eu também estou! — sua voz estava indignada. Toda aquela encenação era um insulto a ela e ao pobre James. — Se você não se lembra, fui eu quem o encontrou deitado em uma piscina de seu próprio sangue. — ela cerrou os dentes para ele, a pessoa errada na história, mas ela nunca foi forte o suficiente para encarar sua mãe — Eu sou a que teve que ser jogada debaixo de um chuveiro frio pelo próprio namorado para que pudesse voltar a si novamente! Eu sou a que teve que voar todo o caminho de San Francisco até Nova Iorque com o corpo dele para ser enterrado! Eu sou a que vai dormir com essa imagem na cabeça todas as noites da vida. O sangue do meu irmão nas minhas próprias mãos! Nem você, nem ela! Eu! — rosnou.
virou-se mais uma vez e marchou direto para a avenida.
Dorothea Chase- estava tão morta para ela.
Ela deu sinal para o primeiro táxi que passou. Quando abriu a porta e estava prestes a entrar, ela ouviu a voz de seu velho mais uma vez.
— Por favor, não vá… Fique… se não por ela, por mim. — ele suplicou.
A mulher não se deu o luxo de virar. Talvez por medo de ceder. Inclinou a cabeça um pouco para o lado apenas o suficiente para ver sua silhueta atrás de si.
— Eu vou direto para o aeroporto e vou pegar um voo pra Califórnia agora mesmo, e por favor, papai, se você tem qualquer consideração por mim, não tente me parar.
E Horace não o fez.

Janeiro de 1994


Aquele lugar era tão barulhento. Ela só queria voltar para a paz de seu colchão novamente. De volta aos seus papéis, suas anotações, os amigos dele.
Mas não tinha terminado de comer e ela sequer tinha tocado em seu prato. Ela não estava com fome. Ela nunca estava. Os diversos quilos que havia perdido serviam muito bem para confirmar aquilo. Havia uma bela e enorme planta num vaso caro na entrada do restaurante atrás de e ela não conseguia parar de olhar para ela. inclinou a cabeça em um ângulo que a permitia vê-la melhor. Qual era o seu nome? Ela compraria uma para sua casa nova, talvez. Ela precisava ter um pouco do seu próprio toque.
? — falou e moveu-se na cadeira, entrando no campo de visão dela e a atrapalhando de ver a planta.
— Hmmm?
— Você está me ouvindo?
desviou o olhar até o cirurgião. Ele mastigava o último pedaço da sua comida.
— Não.
Ele finalmente calou a boca. Não que ela estivesse o ouvindo antes, de qualquer modo. Ela percebia que sua voz estava lá, ela passava pelos seus ouvidos, mas as palavras não eram absorvidas.
colocou suas duas mãos sobre a mesa e esticou-as até as dela. A mulher pôs a faca e o garfo de lado, eles não tinham uso algum para o seu bife intocado, de qualquer modo. Ele entrelaçou seus dedos.
— Casa comigo?
Agora ela estava definitivamente olhando para ele. Seus olhos brilhavam tanto e estavam tão sérios que causaram um arrepio em sua espinha.
— Você está louco? — ela deixou uma risada nervosa escapar.
— Não, estou falando muito sério. É seu aniversário. Vamos ter um bom motivo para celebrar.
Droga.
Celebrar?
Ela não estava em humor para comemorar nada. Ela oficialmente odiava seu aniversário. James havia partido recente, o natal mal havia passado e o ano novo então, nem se fala.
afastou o olhar e encarou a cidade pela janela. Estava escura e a noite trazia muitas surpresas consigo.
Era por isso que ele havia insistido tanto em jantar fora? Ela achou que era para distraí-la, afastá-la de seus problemas, não que fosse funcionar, de qualquer jeito.
Mas onde estava o anel? Quão sério ele estava?
— Bem, a resposta é não. Pelo menos até eu formar — ela soltou suas mãos e voltou a pegar o garfo e a faca, cortando um pedaço pequeno do seu bife e colocando em sua boca. Tinha um gosto bom, mas comer forçado o tornava terrível.
— E depois?
— Depois você me pede de novo. — ela deu de ombros e partiu para o segundo pedaço.

[...]


A campainha era estridente. Aquela da casa de era muito mais irritante que a de sua antiga casa. Talvez a única coisa que ela sentia falta de lá. Ela tocou novamente. Não. Ela definitivamente não tinha sentia falta de nada lá. Sim, era irritante, mas as únicas lembranças que ela tinha daquele lugar eram as da morte de James. Seus nervos eram destruídos sempre que esse som alcançava seus tímpanos, principalmente enquanto ela estava dormindo, ainda mais que ela já não dormia normalmente há tanto tempo.
Ela rolou na cama e olhou o relógio no criado mudo. Oito da manhã.
— Você vai. — ela gemeu quando percebeu que estava acordado também.
Ele soltou um suspiro e se levantou. Ela rolou para o outro lado e observou-o vestindo seu roupão azul escuro, saindo do quarto para responder quem quer que fosse.
Ela rolou mais uma vez para que ela pudesse tentar fechar os olhos de novo… Não dormir, porque ela não podia fazer isso. Talvez uma soneca rápida e leve. Mas seus olhos não estavam dispostos a fechar e ela continuava encarando as pílulas de dormir que conseguiu arranjar-lhe, mas nunca usou.
Talvez ela devesse usar. Talvez se ela sucumbisse ao mundo do sono REM, ela não sentiria tanta dor.
Ou talvez ela tivesse pesadelos constantemente. Talvez fosse pior do que estar ciente.
O medo estava consumindo-a viva de dentro pra fora.
— Tem uma amiga do James lá embaixo procurando por você. — Sua voz preencheu o quarto.
Ela se virou para olhar seu rosto, ver se havia algum traço de piada. Mas ele estava tão sério que doeu. Ela ficou em pé rapidamente, pegou seu próprio roupão e vestiu sobre o pijama enquanto corria escada abaixo.
apontou para ela direita, ela virou o rosto e viu uma mulher um pouco mais nova que ela sentada em um dos seus sofás.
— Você deve ser … — Ela ficou de pé quando a viu e estendeu a mão.
A mulher caminhou até a visita e cumprimentou-a.
— Sim! E você é…
— Sky! Eu ouvi alguns amigos em comum dizendo que você estava atrás de algumas coisas… Eu pensei que se eu pudesse ajudar…
Seus olhos brilharam. Sua pequena investigação não estava lhe dando muitas respostas ainda, mas estava tão confiante que descobriria os motivos que levaram James a tomar aquela decisão. Não que ela fosse entender ou concordar, mas pelo menos ela saberia.
— Sim, estou coletando tudo que puder conseguir. Quem é você? — vincou a testa e sentou-se de frente para a garota.
— Sou a ex-namorada de James. A última, eu acho. — ela riu, mas parou logo quando notou que não era tão agradável para a irmã de luto.
— Vou fazer café pra gente. — disse, mas as duas mulheres nem sequer estavam prestando muita atenção nele. Ele se afastou, deixando as duas a sós para conversarem.
— Como aconteceu? — perguntou.
— A morte dele? Você sabe, você estava…
— Lá, eu sei. — ela interrompeu antes que ela pudesse dizer mais do que ela aguentava ouvir. — eu quis dizer o término. — corrigiu — por favor, me diga. — suplicou.
Sky assentiu, isso não era um problema para ela, afinal.
— Foi depois que ele quase teve overdose. Estávamos juntos por três meses, não queria lidar com um viciado. Eu nunca pensei que era o que era… Eu me arrependo tanto… ele era uma boa pessoa, eu deveria ter ajudado.
Havia algo naquela confissão que fazia sentir empatia pela garota. Ambas o ignoraram. Mas fez porque achou que estava bem, ele estava tratando o seu vício.
Exceto que ele não era viciado.
Como disse, ela era tão ingênua.
— Faz um tempo que ele estava falando sobre não querer mais ser médico, mas ele disse que era o sonho da sua mãe, que ele não podia desistir. Mas a crise piorou e ele disse que iria deixar a escola de medicina e mochilar na América do Sul. O dia em que ele finalmente teve coragem de contar a ela sobre sua decisão, foi o dia em que ele havia teve a overdose.
soluçou alto, percebendo que as lágrimas escorriam pelo rosto há algum tempo. Seu coração apertou-se tanto que parecia ter ficado sem espaço para bater.
— Você quer que eu pare?
— Não! — gritou — por favor, continua. Eu quero saber de tudo. — afastou as lágrimas com as mãos e respirou fundo, tentando fazer parar, em vão.
— Ele a enviou uma carta porque ele não queria encará-la, mas ela o ligou quando recebeu.
— Presumo que tenha sido pesado.
— Enquanto eles conversavam ao telefone, eu estava ao lado dele. Houveram muitos gritos, você não estava em casa. Eu acho que ele não gostava que você conhecesse as namoradas… Enfim, ele estava com muita raiva, bravo e triste. Ela gritava tão alto que eu conseguia ouvir. Parecia o fim do mundo.
tinha uma mão sobre a boca, o queixo caído. colocou as xícaras de café deles sobre a mesinha de centro e entregou a de Sky em suas mãos. Também tinha trago torradas. Ele sentou-se ao lado de e deu um aperto em seu braço, tentando puxá-la para si. Ela estava imóvel, então ele passou o braço ao redor de seus ombros.
— Não é minha culpa. — ela disse aliviada, um sorriso brotou em seus lábios.
— Claro que não. — a envolveu com o outro braço e a apertou ainda mais.
— Minha mãe disse que era. Que eu deveria ter previsto isso. Eu fui burra.
Um silêncio pesado se instalou sobre eles. A garota mexeu-se desconfortavelmente no sofá, desviando o olhar de , dando-lhe privacidade. Ela terminou o café e colocou a xícara na mesa.
— Bem… Parece que já acabei por aqui. Obrigada pelo café. É melhor eu ir, não quero chegar atrasada na aula.

Maio de 1994


O ar parecia mais fresco do que nunca. A sensação de estar finalmente de férias era maravilhosa. ainda tinha mais uma semana para lecionar, mas ela havia terminado o ano. E um banho refrescante proporcionava um alívio ainda maior. secava os cabelos úmidos quando saiu do banheiro da suíte e encontrou na cama com uma caneca quente e poucas roupas.
Uma, apenas.
— O que está fazendo aqui? — ela ergueu as sobrancelhas. — achei que tivesse dito que ficaria a madrugada toda corrigindo provas.
— Bem, eu quis voltar para casa para a minha linda namorada.
— Isso não me cheira bem.
Ele suspirou, tirou os óculos de leitura e dobrou a revista, jogando-o na beirada da cama próximo aos seus pés. foi até lá e deixou a toalha cair, pegando-a em suas mãos e abrindo. Seus olhos foram direto para a imagem enorme que ocupava metade da primeira página.
— “O Império Britânico tomou conta”, a manchete diz. — falou. deixou o corpo cair na cama, sentando-se aos seus pés.
— E o que isso significa?
— Significa que a maior rede hospitalar do Reino Unido comprou os 30% do Hudson Valley Memorial que ainda não eram da sua mãe. — desligou o abajur e cruzou os braços. Já estava farto de leituras pelo dia. — Você consegue imaginar quão irritada ela deve estar? A dragão está a solta. — imitou garras com as mãos, dando uma risada cínica no final.
— É, ela queria tanto aquele lugar todo… — suspirou, levando a revista médica para longe. — Devo comemorar?
— Eu não sei… Acho que não, porque aí você teria herdado um hospital inteiro se ela fosse a proprietária.
— Quem disse que eu quero um hospital?
continuou observando a mulher por algum tempo em silêncio. Ele assentiu e tirou os óculos, colocando-os de lado no criado mudo.
— Ou que ela vai me dar um… É mais fácil ela dar pra minha prima, deve gostar mais dela do que de mim… — deu de ombros e virou-se, subindo pela cama de joelhos até o namorado.
— Não diga isso. — falou, pesaroso. Ela até via um pouco de dó em seus olhos.
— Você não pode falar nada, você tem uma família perfeita. — bufou, jogando o corpo de lado, sentando-se ao lado dele contra a cabeceira da cama.
— Seu pai te ama.
— Meu pai tem direito a alguma opinião, por acaso? Nós dois sabemos que não… Ela acha que o coitado só serve para pegar as consultas mais simples dela, só porque não é cirurgião… Eu nem sei como eles acabaram se casando. Será que a Dragão é capaz de amar alguém que não seja do seu próprio sangue? Isto é, eu sou sangue dela e ela sempre me odiou. Acho que pais ricos que podem comprar-lhe um hospital não têm muito tempo para dar atenção aos filhos, então ela nunca soube como lidar com o seus, porque ela não cresceu assim. — bufou — Não, espera… — afastou-se, gesticulando com os braços. — isso é apenas meu lado chateado falando. Isso não faz sentido, porque ela sempre falava muito da minha avó Mabel e do meu avô Earl, os agricultores que conquistaram o estado e se tornaram um de seus maiores produtores. Ela parecia amá-los.
— Qual é a história?
— Eles eram fazendeiros, produziam de tudo. De vacas leiteiras a plantações de batata, maçã. Quero dizer, eles realmente significaram muito para ela, porque eles a fizeram uma médica. É um campo governado por homens, naquela época era muito mais. Digo, eu já tenho um monte de barreiras, ela é uma delas. Não consigo imaginar o que enfrentou. Ela sempre disse a James que ela tinha apenas sete colegas mulheres na turma dela. Dizia que eles fizeram dela quem ela é. Eles lhe deram a lua e as estrelas. Ela os amava tanto que quando se casou, ela se recusou a trocar seu sobrenome, então ela criou toda essa coisa com o sobrenome do meu pai; Chase-, bem estranho, né? Digo, quem faz isso? De qualquer forma, eles fizeram tanto dinheiro que quando morreram foi dividido em partes iguais entre seus quatro filhos o suficiente para crescerem. Exceto o tio Richard, ele foi muito idiota. Meu tio Ben comprou um grande hotel em DC e criou a “Rede ” que conhecemos hoje. Tia Tess comprou a parte dos irmãos nas fazendas aos poucos e agora expandiu a sua rede de supermercados “Valley Farms” de produtos naturais por toda a costa leste. Dorothea comprou um assento no conselho do hospital que ela trabalhava, algo em torno de 40% eu acho, e agora cresceu para 70%. Ela era a única entre seus irmãos que chegou à faculdade. Tio Richard viajou para Las Vegas e perdeu tudo no cassino, então sua filha Virginia, que é afilhada de Dorothea, deve ganhar o hospital porque são os únicos pobres. — ela gritou a última frase, levantando-se e ficando de joelhos, enquanto puxava os cabelos.
O silêncio tomou conta do quarto e o peso do ambiente ficou insuportável.
— O que eu vou fazer neste verão, já que eu não posso voltar para Nova Iorque? Estou finalmente conseguindo as férias nas praias da Grécia? — ela sorriu, não acreditando em suas próprias palavras. Levou as mãos à boca e ficou traçando os lábios com os dedos, pensando no que havia dito.
— Bem, você não tem que sair de San Fran porque esta casa também é sua. E eu também não posso voltar para Nova Iorque, porque não tenho mais emprego lá. Mas nós poderíamos viajar juntos. Grécia parece legal. — finalmente voltou a falar, dando de ombros com um sorriso pequeno de lado.
virou-se para ele e sorriu, mostrando todos os dentes. Ela pulou em seu colo e passou os braços ao redor de seu pescoço.
— Ok. Eu quero um cruzeiro. Eu preciso conhecer Mykonos. — ela falou suavemente, olhando no fundo dos olhos do namorado.
esticou o rosto um pouco e juntou seus lábios suavemente. Ela fechou os olhos e retribuiu.
— Você vai?
— Vou o que?
— Saber como lidar com nossos filhos?
Ela abriu os olhos e afastou a cabeça, observando a face do homem. Sua testa estava enrugada e ela o imitou. A conversa sobre a criação de Mabel e Earl com os quatro filhos e a de Dorothea com os seus voltou em suas lembranças. Seu queixo caiu, mas não por isso.
— Teremos filhos? — ela sorriu, abobada.
— Eu estava pensando em três. — deu de ombros, fazendo massagem na cintura dela.
— Porcaria. Pensei em quatro. — ela deu uma linda risada boba. não podia amá-la mais.
— Podemos chegar lá… Mas devíamos começar agora, então.
Ele rapidamente subiu em cima dela e deu um beijo em seu pescoço, arrancando-lhe gargalhadas.
— Porra, como eu amo você… — ela resmungou baixinho, tirando sua cueca.

Maio de 1995


“Cara Doutora Chase-…”
“Por favor aceite essa carta como uma nomeação formal para uma vaga na residência de cirurgia geral iniciando-se dia 1 de Julho, 1995, na Baylor College of Medicine…”
“Parabéns! É com grande prazer que eu lhe ofereço admissão ao Programa de Cirurgia Geral de Stanford de 1995…”
“Parabéns! Temos o prazer em dar-lhe boas vindas à UCSF, e em informá-la da sua admissão ao Programa de Cirurgia Geral…”

Ela já estava olhando para aquelas três cartas dispostas na mesinha de centro há horas e não tinha ideia de qual lhe agradava mais. Só tinha mais dois dias para tomar a decisão de sua vida, e ela simplesmente não conseguia se decidir.
ergueu a mão até a carta do meio e a puxou para frente, lendo-a mais uma vez.
Precisava colocar na balança qual seria mais relevante para seu futuro. Qual era mais viável. Qual a levaria mais longe. Quais sacrifícios teria de fazer.
Faria qualquer um, na verdade, por sua carreira.
E mudar-se para o Texas parecia a mais tentadora de todas. A que falava mais alto.
Ela nunca tinha ido em Houston. Será que ainda dava tempo de arrumar uma passagem aérea de última hora e partir ainda naquela noite para conhecer o local de trabalho?
Por que estava tão insegura com aquela escolha?
“Porque a escolha certa não está aqui”.
Ela havia passado dias pensando naquela opção. Meses. Anos. O curso inteiro. Desde o dia em que escolheu sua especialidade, ela já sabia qual era a sua meta para o programa de residência. Ficava em Baltimore, Maryland. Na costa leste. Do outro lado do país. De onde ela tinha saído.
Precisava admitir que sentia certa falta do clima. Havia passado a maior parte da vida lá. A Califórnia sempre soou como uma ideia temporária.
A porta da entrada se abriu. Ela virou o rosto e viu chegando de mais um dia de trabalho. Ele tinha um sorriso enorme nos lábios e parecia muito mais satisfeito do que ela.
— Eu não posso escolher. Você tem que me ajudar. Qual é a melhor? — ela levantou-se e apontou para as cartas.
colocou a bolsa na cadeira e caminhou até ela de braços esticados.
— Você não precisa. Eu recebi uma ligação no escritório. Uma oferta de emprego no Massachusetts General! — ele sorriu, e a garota entreabriu os lábios, começando a entender onde ele queria chegar e não estava nem um pouco contente com aquilo — e eles disseram que guardariam uma vaga pra você! — comemorou, segurando-lhe nos ombros.
Aquela era sua segunda opção.
Ela deixou o queixo cair e tirou as mãos dele de si, dando um passo para trás.
— Ok, você precisa calar a porra da boca. Agora. — rosnou.
… quê? — ele falou, incrédulo.
— Vou escolher um que ganhei por meus próprios méritos!
soltou um longo suspiro. Aquela era uma batalha que ele não podia brigar. Uma que ele precisava abrir mão de vencer caso tivesse interesse em ganhar a guerra. Ele virou-se e voltou até sua pasta, pegando um papel dentro dela e entregando-o para a mulher.
Ela vincou a testa e tomou-lhe de suas mãos com um brilho confuso nos olhos. virou o envelope e quando viu o selo de Johns Hopkins, ela não soube muito bem o que sentir. Era tudo que ela queria. Desde sempre.
“Estamos contentes em lhe informar que você foi aceita como candidata ao Programa de Treinamento de Residência em Cirurgia Geral.”
— Eu não tenho tanta certeza de que conseguirei um emprego lá.
— Você tá brincando comigo? — ela gritou e jogou a carta pro lado. — Você tinha a carta esse tempo todo? ! É Hopkins! O melhor para o meu futuro em pediatria! — seu rosto ficou vermelho. Foi a vez de ele recuar.
— Eu sei, me perdoa. — sentou-se no sofá, suspirando — Mas por que pediatria? Você poderia ficar em qualquer outra área! Eles têm programas incríveis!
— Não acredito que você é apenas mais um daqueles que pensa que pediatria é idiota! Eu não te perdôo! Mas isso abre portas pra mim! Imagina uma especialização em Hopkins! Ugh, ! — ela simplesmente não acreditava que ele tinha feito aquilo. Ela não conseguia olhar nem em sua direção no momento, ou veria sangue. — Eu me lembro daquelas duas crianças todos os dias da minha vida. Sua whipple e meu parto a 11 mil metros de altura. Eu queria tanto salvá-los! E mesmo que eu não tive participação alguma na sua whipple, entregar aquela prematura ao paramédico porque eu entrei em pânico e não soube o que fazer foi o pior sentimento da minha vida. Eu quero ser capaz de salvá-la!
— Isso já é passado! Isso foi no começo da faculdade de medicina! Você pode salvá-la agora!
— Eu quero salvá-los! — corrigiu. Ele simplesmente não conseguia enxergar a imagem maior, e doía ter que explicar — Quantas outras crianças na América precisam de cuidados médicos? Imagina no mundo! — ela virou-se para ele de uma vez, abaixou o rosto a sua altura e o confrontou.
balançou a cabeça, negando. Ele simplesmente não entendia qual a necessidade de ter que mudar de lugar, mais uma vez. Ele havia feito aquilo a vida inteira. Não seria ótimo simplesmente parar um pouco?
Mas ela ainda não havia feito praticamente mais da metade que ele tinha.
Esse era o problema da diferença de idade. Ele tentava ignorar. Fazia o seu melhor, mas momentos como aquele não ajudavam!
pôs as mãos na testa e saiu andando até a cozinha para pegar um copo d’água. Quando fechou a geladeira, percebeu que ele estava atrás dela.
— Você sabia que eu ia aceitar, né? Por isso você guardou. Porque esse tempo todo que eu estive quebrando a cabeça, planejando ir para Hopkins, planejando minha vida em Baltimore. Eu fui até lá mês passado para conhecer, ! E aí você faz isso comigo? Você viu quanta energia isso sugou de mim? Ter que pensar em uma cidade totalmente diferente?
— Eu sinto muito, , mas eu não vou poder ir com você.
Ele suspirou e inclinou-se contra a bancada. Ela bufou e virou de costas na pia.
Era sempre assim.
Eles sempre precisavam estar no controle. Ter o poder. Ter a maior posição. Ela não podia ser a que trabalhava e mantinha tudo enquanto ele buscava um emprego. Tinha que ser o contrário, nem que isso custasse sua residência.
— Encontre algo por perto, então! — ela socou o granito.
— Eu tentei. — ele falou, sua voz vazia e distante. ergueu a cabeça e virou, finalmente o encarando nos olhos. — Por todos esses dias. É por isso que eu estava segurando a carta.
Mentiroso filho da puta. E ele achava que podia enganá-la? Dois jogavam aquilo. Ela limitou-se a assentir.
— Estou disposto a tentar a distância, se você estiver.
Ela assentiu, mais uma vez. Deu as costas e saiu da cozinha. Ia tomar um banho e acalmar, já que já era tarde demais para ligar para o escritório de Johns Hopkins, alguns fusos a mais.
— Devíamos comprar celulares, então. — ela falou alto para que ele se virasse como bem entendesse, já que era só aquilo que ele sabia fazer.

Janeiro de 1996


Seu corpo estava tão cansado. Ser uma interna exigia tanto dela. Ela nem sabia mais o que era um sono natural, porque ela se tornou totalmente dependente de pílulas para dormir. Além de compartilhar uma casa com outros três estranhos, soava tão errado em tantos níveis que ela não conseguia explicar. Ela sentia tanta falta de . Dormir sozinha numa cama de solteiro estava deixando-a vazia por dentro.
No momento em que ela entrou em sua casa, ela viu sua colega de casa vestindo apenas calcinha e sutiã em pé, de frente pra porta, com um pote de sorvete nas mãos. Como se estivesse esperando-a. O que havia de errado com ela? Ela também estava se tornando uma cirurgiã, pelo amor de Deus!
— Há uma carta para você do Hudson Valley Memorial. — Lisa disse, apontando para a mesa do telefone. assentiu, silenciosamente agradecendo-lhe pelo aviso e foi pegá-la com um arrepio na coluna.
Ela não recebia aquelas há um bom tempo… Estava preocupando-se o suficiente para crescer cabelos brancos.
— Você pediu transferência? — Dylan perguntou, o colega que era residente em dermatologia.
Ela não tinha certeza se ele não gostava dela o suficiente para querer que ela fosse embora. Mas a verdade era que ele não gostava de ninguém naquela casa, tinha suas dúvidas se ele sequer gostava de pessoas.
— Você não está se livrando de mim ainda, se é isso que você quer saber.
rasgou o envelope e correu escada acima para ter privacidade em seu quarto. Não parecia ser dela, porém era a coisa mais próxima que ela considerava ali.
“Estou esperando por você quarta-feira à noite. - D”, estava escrito no pequeno bilhete.
Simples assim?
Qual quarta-feira? Ela tinha tanto trabalho para fazer!
Ela olhou o envelope mais uma vez e encontrou uma passagem de avião para dali a dois dias.
Quarta-feira seria o dia em que ela participaria de um transplante de rim! Ela estava tão entusiasmada com isso que nenhuma mãe no céu ou na Terra a levaria para longe da cidade, principalmente quando ela nem sabia o porquê daquilo.
E Dorothea honestamente pensou que simplesmente a invocaria e ela apareceria? Que erro terrível.

[...]


— Ok, quem é o próximo? — ela perguntou ao supervisor enquanto arrancava as luvas e as descartava, pegando o prontuário de suas mãos.
— Dorothea Chase-, 58 anos.
— Minha mãe? — ela perguntou, parando no lugar em que estava, fazendo careta. — o que ela tá fazendo aqui?
“Estou esperando por você quarta-feira à noite”.
— Ela disse que quer te ver. Que você não têm respondido suas cartas.
Cartas.
Que mentirosa.
O melhor jeito de se livrar de Dorothea a partir de então oficialmente era resolvendo aquilo.
respirou fundo, contou até três e foi até a mãe. Ela nem estava em uma maca ou sentada, aguardava pela filha no meio do saguão.
— Então, agora tenho que fingir que sou paciente para conseguir uma interna para me ver. E pra conseguir determinada interna, nem se fala. — rosnou, cruzando os braços debaixo do casaco, segurando a bolsa.
— Eu não tenho nada pra discutir com você. — se aproximou e falou baixinho perto do seu ouvido para não chamar atenção, apertando o prontuário forjado contra o peito.
E continuou andando como se aquele encontro nunca tivesse acontecido.
Ela sentiu uma mão apertá-la no braço e forçar seu caminho para dentro do depósito ao lado. bufou e jogou as mãos para o alto enquanto a mãe fechava a porta, isolando as duas do mundo.
— Como ousa não aparecer em uma reunião com os ingleses quando eu explicitamente te falo para fazer isso? Você me fez passar tão feio que não há palavras para descrever o seu bolo.
A mais nova virou-se e apoiou as costas na prateleira, encarando a mãe. A veia do pescoço de Dorothea até saltava, sua cara representava todo o seu mau humor de sempre que nem se importava. Havia crescido olhando para aquela cara feia de quem havia comido e não gostado. Odiado.
— Bem, primeiramente, eu não sou sua pessoa favorita no mundo e nem nos falamos mais. Você não pode simplesmente me convocar e esperar que eu apareça sem que, segundamente, me fale o motivo. — cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, falando com todo o sarcasmo do mundo. — Você nunca mencionou pra o que era, e terceiro, caso você não saiba, eu tenho trabalho a fazer aqui. Eu salvo vidas. Até onde me lembro, você sabe disso muito bem, porque você já esteve no meu lugar e também tem os seus próprios internos pra cuidar em casa.
— Isso não importa agora. Você volta pra casa comigo hoje a noite. Eu já notifiquei Hopkins que sua residência vai ser temporariamente suspensa, efetivando imediatamente. Eles vão esperar. Venha comigo, agora temos muito a discutir. — ela virou-se para abrir a porta.
Como se ela fosse simplesmente obedecer.
— Você o quê? — rosnou, fechando os olhos e inclinando a cabeça. Ela não conseguia acreditar no que tinha ouvido. Como Dorothea conseguia aquilo? Por Deus, ela já era de maior e crescidinha! Mandava em sua própria vida, não tinha responsável. Como ela conseguiu suspender a residência da filha enquanto a mesma estava bem ali, e completamente sã? Só podia ser brincadeira. Que tipo de mãe parava a carreira da filha sem seu consentimento? Tirando-lhe aquilo que mais era importante em sua vida, como se fosse um brinquedinho de criança. — Você não quer que eu seja bem sucedida como você? — soltou. Sua voz era puro escárnio. — Eu pensei que esse era o propósito da sua mínima participação em como as babás criavam seus filhos. Ter certeza de que eles tornariam adultos extraordinários.
E ela resumiu-se em rolar os olhos e suspirar.
Afinal, era apenas mais um problema da sua filha para lidar.
— Eu quero. É por isso que você vai se casar com .
Ela teve o coração despedaçado. Pedaço por pedaço. Pouco a pouco. Literalmente. era capaz de sentir seu corpo querendo escorrer pelo piso feito manteiga derretendo. A cada momento que Dorothea roubava-lhe uma parte de si, ela ia perdendo a integridade, a sanidade. No fim do dia era apenas mais uma mulher estragada, tentando seguir a vida emendada por fita adesiva falhando constantemente. Danificada pela própria pessoa que lhe deu a vida, que irônico.
Não era seu mundo que estava em ruínas. Era ela mesma.
— Perdão? Eu o quê?! — gritou, fechando os olhos — Você por acaso precisou se casar com meu pai pra comprar o hospital? Pra ser uma das melhores em sua área? Até onde eu sei, não. Você fez tudo sozinha. Eu não tenho que casar com ele porque isso me fará crescer. É porque você precisa que eu case. Me diga o porquê, agora.
— Vamos lá, , você me ouviu…
— O que meu pai pensa disso? Estou exigindo algumas respostas, D. — simplificou. D havia se tornado o diminutivo do apelido que havia criado, Dragão, mas para ela e para todos os efeitos, seria o diminutivo do seu nome.
— Ele não tem direito a uma opinião! — ela gritou com os dentes cerrados — então… vamos. — ela se recompôs, alisando as roupas e ajeitando a postura. não moveu um centímetro. — Não tenho muito tempo. Estamos agendadas em um voo na próxima hora para Nova Iorque, com sorte chegaremos a tempo do jantar com os .
— Eu também não tenho tempo, fui chamada para uma emergência no pronto atendimento — ela se reorganizou, tentando unir-se novamente e caminhou até a porta do depósito, tentando se safar das garras de sua mãe.
— Você não trabalha mais aqui. Não por um bom tempo. — ela falou, fazendo a mulher parar com a mão na maçaneta. apertou os olhos e respirou fundo, tentando não perder a razão.
— Você não pode simplesmente colocar minha residência em espera e ter esperança que eu te siga de bom grado. Eu não terminei sequer o primeiro ano, eles não vão esperar por mim, eles vão colocar outra pessoa na minha vaga!
— Você acha que sequer estaria aqui se não fosse por minha causa, em primeiro lugar? Eu te coloquei aqui! — recuou e vincou a testa, tirando a mão da maçaneta, deixando-a cair. — Eu não fiquei tão surpresa em descobrir que você não aplicou para o meu programa de residência, então eu arranjei alguém para descobrir para onde você queria ir. Você não estava nem sendo considerada. Se eu não tivesse mexidos uns pauzinhos e arrumado umas cartas de recomendação, você…
Sua voz sumiu quando a porta foi escancarada. O quartinho escuro já não era mais uma bolha das duas.
ergueu o olhar e viu seu superior. Atrás dele, . Ela franziu a testa.
— O que você tá fazendo aqui? — ela perguntou ao namorado.
Em Baltimore. Do outro lado do país. Sem dar nenhum aviso prévio de que ia aparecer.
E o que mais a deixava em pânico era que ele estava em um jaleco. Não era uma visita normal. Era formal. Ela sentiu as pernas tremerem e engoliu seco.
? O que você está fazendo aí? — ele apontou para o lugar. — dentro do depósito de limpeza… — ele uniu as sobrancelhas e passou a olhar para a companhia dela. — e com sua mãe… Doutora ! Você está aqui! — ele disse, fingindo que era uma boa surpresa, fazendo rolar os olhos.
— Vou arrumar outro interno. — o residente sênior disse, se afastando. Aquele pessoal era louco demais pro seu gosto. Já não bastava enfiarem num armário e gritarem achando que ninguém do lado de fora ouviria a lavação de roupa suja, precisavam colocar ele e o novato no meio.
— Eu poderia dizer o mesmo a você, mas “” já explica bastante…
A mais nova rolou os olhos e saiu do depósito. Quando sua mãe passou, ela puxou a porta, fingindo que nunca estiveram ali.
, já contou a novidade ao doutor ? — Dorothea virou-se para a filha com um sorriso maléfico. não desviava o olhar, sabendo que aquilo tudo era puro veneno.
— Que novidade? — ele franziu a testa ainda mais, levando a mão ao maxilar. Ele sequer piscava.
— Que você vai se casar! — ela bateu as mãos. Sua voz soava tão animada que qualquer um que passasse por ali e escutasse a conversa alheia ficaria feliz pela mulher.
— Eu não vou! — ela reafirmou, elevando a voz mais um nível.
sentiu um calafrio percorrer a coluna e seu estômago enrijecer.
Eles estavam noivos e ele não sabia?
O homem inclinou a cabeça, ainda mantendo os olhos em Dorothea. A velha virou-se com um trunfo no olhar para ele e soltou a bomba.
— Com . — mostrou seus dentes em um sorriso de puro deleite.
— O quê? — Ele soltou devagar, sem entender tudo aquilo, finalmente desviando o olhar até a namorada. Ela evitou o contato e olhou para outro canto. — !
Ela suspirou.
— Era esse o motivo da reunião? — falou firme, tentando conquistar as rédeas da situação ao revelar os planos da mãe para o namorado, para ter mais um ao seu lado. — você queria me apresentar para um cara totalmente aleatório que eu não sei nada sobre para casar com ele?
— Eu não quero que você faça isso. Você vai fazer isso. — ela balançou a cabeça e deu um passo pra frente, segurando a garota no ombro. — , querida… é uma ordem.
O seu queixo mal teve tempo de cair e já havia dado as costas. Ela suspirou e olhou para sua mãe mais uma vez, pensando como ela era capaz e tinha tanta frieza para orquestrar tudo aquilo e foi atrás de , que marchava pelos corredores afora.
, espera. — ela disse, correndo. Quando ela conseguiu botar a mão nele, ele se virou bruscamente, fazendo-a quase tropeçar para parar.
— Vai em frente, . Deixa a mamãe decidir sua vida que nem ela fazia com a do seu irmão. E você falava que eu era seu dono? Há! — ele balançou a cabeça. — você sabe quão duro eu dei pra conseguir um emprego como atendente aqui? Há quanto tempo eu tentei isso? Por você? Por nós? — ele enfiou a mão no próprio peito e fez careta de dor, mordendo os lábios com tanta força para redirecionar o aperto de seu coração que arrancou sangue.
, me escuta… — ela estendeu uma mão, colocando-a em seu peitoral sobre a dele, entrelaçando seus dedos, sentindo seu ritmo acelerado. — eu vou para Nova Iorque para resolver isso. — ela o tranquilizou com tanta segurança que ela passou a acreditar no que dizia. — Vou resolver tudo. E eu prometo que vou voltar. Se não for esta noite, o mais tardar amanhã de manhã. Ninguém está se casando com ninguém.
Ela tirou sua mão com cuidado, hesitando. Ele deu um passo pra frente e estendeu a mão para a cintura da garota, aproximando seus lábios. estendeu o dedo e pôs em sua boca, impedindo-o de fazer aquilo.
— Isto não é um adeus.
Ele assentiu. Por mais que aquilo o despedaçasse e acabasse com sua sanidade. o imitou e girou seus pés, correndo de volta até a Dragão, que a aguardava no mesmo lugar.
— Eu vou com você pra Nova Iorque. Mas só pra deixar bem claro com eles, com você, ou com o raio que o parta que ninguém vai me colocar em um casamento que eu não quero.
Dorothea assentiu, cruzando os braços e ajeitando sua postura, preparando-se para uma grande jornada. Quando deu as costas e foi andando em sua frente, ela deu um sorriso triunfal.
Ela tinha a filha na palma da mão.

Março de 1996


“— Quer sair daqui? — ele deu um sussurro em seu ouvido. Aos olhos dos outros, era um gesto fofo a maneira em que ele conversava com ela.
— Por favor.”

Ela arrependeu daquela escolha. Ficar em uma festa que você odiava era melhor que ficar em um quarto de hotel enorme a sós com uma pessoa que você odiava, na sua noite de núpcias. Ódio era uma palavra muito forte para definir o que ela sentia por ele. Ela não gostava dele, afinal, mas ela sentia que conseguia simpatizar mais com do que com seus pais, porque ele também parecia não gostar da decisão daquela união.
Haviam pétalas vermelhas em todos os cantos da suíte real. Estavam no hotel mais alto de Londres, em um dos últimos andares. Ela chegou até a janela e observou todo o parque a sua frente. não tinha ideia do seu nome ou de onde estava, mas era melhor aprender logo. Era melhor conhecer aquela cidade inteira logo, pois seria sua casa.
Casa.
A última coisa que ela achava de Baltimore era que era seu lar. Mas tinha convicção de que isso era apenas por estar sozinha no lugar. Não tinha uma amiga sequer, ou amigo, uma pessoa pra conversar, o que fosse. Nunca teve uma amiga, por isso não teve madrinhas ou padrinhos no casamento. E quando ia deixar de ser sozinha, foi arrancada de lá.
O cheiro do quarto lhe causava enjoo. Tantas rosas… Ela nunca foi fã. Mas a brisa da cidade na janela estava uma delícia. Dali ela podia ver tanto… Era como se o mundo tivesse aos seus pés. Doutor Frank havia lhe dito que devia acostumar, pois o Hospital George tinha quase 160 metros e ela trabalharia a maior parte do tempo nos últimos andares. Aquilo lhe dava náusea. E ali o programa nem se chamava residência.
Ela afastou-se da janela e foi até o outro cômodo, ignorando a presença do seu marido e parou de frente para a cama.
Era a maior que ela já tinha visto na vida, aparentemente Dorothea Chase- não era nem um pouquinho luxuosa, apesar de todo o dinheiro. E ela achava que era muito… Agora já não sabia mais se era porque a mãe não sabia mostrar ou o quê, mas os tinham um jogo pesado. E a senhora lhe disse que era fácil se adaptar. Supostamente ela teria muito dinheiro à sua disposição para torrar como bem entendesse. Ela nunca soube o que era aquilo. Cresceu confortável, mas nunca esbanjando.
Sogro e sogra… Ela nunca teve aquilo. Ela não sabia o que era, mas ela definitivamente odiava Frank. Evelyn parecia simpatizar um pouco com ela, ter dó ou o que quer que aquilo fosse. Parecia a única gota de esperança que tiraria dali.
— Aceita vinho? — a voz grossa de ressoou pelo quarto, fazendo-a sobressaltar, dando um pulinho.
— Não. — engoliu seco, mas não se virou. Continuou encarando a cama toda decorada com pétalas de rosas que desenhavam corações. — obrigada. — falou baixinho e abaixou a cabeça, pegando o laço de cetim do seu enorme e pesado vestido de noiva, brincando com ele.
Vera Wang, eles disseram. $100,000 de dólares, eles disseram.
E Dorothea pagou sorrindo.
— Tem certeza? É uma garrafa de Inglenook Cabernet Sauvignon 1941.
Quê?
— Tenho, obrigada.
Aparentemente nomes significavam muito por ali. Ela olhou o anel de noivado. Cartier Solitaire 1895 platina com diamantes, ela não lembrava de quantos quilates. Evelyn sabia. Ela tinha ajudado a escolher. O preço? definitivamente nem queria sonhar.
Mexer com o laço do vestido era muito atrativo.
Ela viu uma taça de vinho estendida em sua frente, de todo jeito. Ela suspirou e virou-se, encarando .
— Não precisamos fazer isso esta noite. — ele ofereceu, bebericando. desceu o olhar até a taça que ele a oferecia e entreabriu os lábios, sem saber ao certo o que sairia dali.
— Eu não sei se…
— E não até que você esteja pronta. — ele abaixou a cabeça, tentando acompanhar seu olhar.
Ela o deixou.
Ele parecia , de certa forma. A mesma cor de cabelo, a mesma cor de olhos, a mesma idade… mas parecia mais sábio, parecia uma criança mimada. Talvez crescer daquela maneira afiava as pessoas. Ela olhava para e se via no espelho, mas não podia julgar. Evelyn não parecia com Dorothea, se parecia com Horace. Frank se parecia com Dorothea. Era complicado.
só não sabia dizer a diferença entre máscaras e realidade. Não eram dois meses atrás quando foram apresentados e agora estavam ali, compartilhando um sobrenome.
De Catherine Chase- a Catherine .
Talvez ele apenas estivesse passando por legal para enganá-la também. Mais um para a lista.
— E se eu nunca estiver pronta? — ela olhou para o vinho mais uma vez, hesitante.
— Então nunca chegaremos lá — ele deu de ombros e esticou o braço ainda mais.
Ela pegou a taça antes que pensasse mais um pouco, mas não ingeriu nada. Aquilo não era um pacto com o diabo. Essa parte já tinha passado. Essa parte foi o momento em que assinou os documentos se tornando uma . Uma britânica.
— Mas seu pai disse que…
— Não importa o que o meu pai disse. Não foi ele quem se casou. — ele sorriu. — Eu vou dormir no sofá, você pode ficar com a cama. — ele apontou pra trás, indicando o outro cômodo. Ela assentiu e no mesmo instante ele lhe deu as costas.
? — ela chamou quando ele estava na porta.
— Sim? — ele se virou.
— Preciso de ajuda. — ela virou de costas e passou o cabelo para o lado, expondo os milhares de botões das costas do vestido.
sentiu ele aproximar-se e fechou os olhos quando seus dedos alcançaram sua lombar. Aos poucos ela sentia o vestido afrouxando e tudo ficava mais confortável. Ela continuou segurando a taça de vinho, pronta para tomar quando sentisse que precisava ficar inebriada. Se fosse preciso.
Estava tudo tão tranquilo. Ele não podia ser uma farsa. Caso contrário, céus, ele era uma excelente farsa. Devia ter diploma de atuação e tudo.
Mas os únicos diplomas que ela sabia que ele tinha, também eram de medicina. “O Cirurgião Cardiotorácico Prodígio do Reino Unido” era seu apelido.
— Pronto.
— Obrigada.
Ele assentiu, embora ela não pudesse ver.
— Feche a porta quando você sair. — fez um último pedido antes de ir para um banho naquela enorme banheira real.

[...]


Ela saiu do banheiro usando o roupão branco peludo do hotel. Tinha o nome bordado. Ela provavelmente deveria saber qual era, mas não estava a fim. Com uma toalha nas mãos secando os cabelos, ela correu o olho até sua taça de vinho intocada no aparador.
Aquilo estava chamando-a. Berrando seu nome.
Quando ela finalmente decidiu tomá-la, ela ouviu batidas na porta
? Bebi quase metade da garrafa. Preciso usar o banheiro… — ela ouviu a voz abafada de do outro lado da porta e correu até lá, abrindo-a de uma vez.
Ele parecia normal.
— Você bebeu tudo isso? Já? — ela arregalou os olhos, pegando a garrafa das mãos dele.
— Eu não estou bêbado.
Claro que não. Ainda. Era cedo demais pra aquilo ter tido efeito.
— Quero dizer, eu quis ficar. — riu — Bem, eu estou casado não fazem nem cinco horas e minha esposa já me odeia. É, talvez eu já esteja na fase BFF.
— Fase BFF? — ela franziu a testa.
— Quando você acha que não está bêbado e quer ser amigo de todos, já está inclusive pronto para contar a história da sua vida. — explicou gesticulando.
— Ok… — ela falou, assentindo.
Não julgava o álcool. Não depois do que tinha passado.
— Mas eu fico com isso. — ela indicou o Inglenook Cabernet Sauvignon 1941 nas suas mãos. — Você já acabou por hoje.
Ele assentiu. A mulher afastou o corpo da porta, dando-lhe passagem.
— Sabe, eu nunca bebi. — deu de ombros, indo ao banheiro. Ele não fechou a porta e ela pôde escutá-lo urinando. — mas hoje é uma ocasião especial. Hoje foi o dia em que meu pai me arrastou para um casamento. — continuou falando quando saiu. Ele ergueu o braço, fingindo que fazia um brinde. Ela riu.
— Você não é o único… — suspirou.
Ao menos se ela pudesse ter um pingo de conforto…
Um amigo…
Porque ele nunca chegaria além daquilo. Nunca chegaria aonde estava.

— Obrigado por me deixar usar o banheiro — ele falou, subindo o zíper da calça enquanto passava por ela.
Ele parecia tão à vontade perto dela… Aparentemente muito mais conformado que ela, com certeza.
Ela só precisava igualar-se.
— E se tivéssemos um acordo? — perguntou, fazendo-o frear na saída.
— Um acordo? — repetiu.
— Sim, um acordo.
virou-se devagarinho.
— O que você tem em mente? — cruzou os braços, escutando com atenção.
sorriu sem jeito e foi até o aparador, trocando a garrafa de vinho pela taça e bebendo tudo de uma vez, deixando-a de lado em seguida, caminhando até o marido.
— Eu vou abrir meu coração pra você. — estendeu suas mãos, oferecendo-as a ele. Ele engoliu seco, pensando no que estava se metendo, mas correspondeu, segurando-as firmemente e erguendo o olhar até o rosto dela — Eu preciso que você diga que posso confiar em você. Preciso ouvir essas palavras.
— Você pode confiar em mim. — repetiu. o encarava no fundo dos olhos, assim como costumava fazer com .
Ali ela encontrou a verdade. A compreensão.
— Ótimo. — sorriu — você tem alguém que você ama?
— Eu não vejo… Qual é o ponto? — ergueu uma sobrancelha.
Ela suspirou antes de entregar tudo de bandeja.
— Eu tenho uma pessoa… lá na minha terra. Ele está me esperando, você sabe. E eu acho que você deve ter alguém também, porque esse casamento agrada você tanto quanto a mim.
soltou suas mãos e elas caíram em câmera lenta. Ele deu um passo para trás.
— Eu sinto muito se é isso que você pensa, é só que…
— Não precisa se explicar. Eu só estou dizendo que… e se pudéssemos tê-los ainda assim? E se tivéssemos um acordo? E se tivéssemos o bebê que seu pai mandou agora? Então precisaríamos ter relações sexuais somente até que eu fique grávida e depois nós poderíamos voltar para eles. — explicou rápido demais, com medo de hesitar ou dar pra trás. Incrivelmente não tinha essa vontade.
— Um relacionamento aberto?
— Uma relação aberta. — concordou.
— Vamos supor que estou dentro… — falou desconfiado, com quinhentos pés pra trás — meu pai não concordaria.
— Ninguém nunca saberá.
— Ninguém precisa… só…
Eles… — concluiu, assentindo.
Agora ele acompanhava sua linha de pensamento. E ele gostava dela.
caminhou devagar até e estendeu a mão até o seu rosto com suavidez, testando as novas águas que estavam à sua frente. Ele tocou-a no maxilar e embrenhou os dedos nos seus fios de cabelo, enquanto o polegar massageava sua bochecha. Ele tinha uma mão grande e gentil. Diferente de .
Mas não importava.
Ela só precisava fechar os olhos para fazer parecer-se com .
Então ela o fez, deixando os outros sentidos tomarem conta.

Now if I keep my eyes closed he looks just like you
But he'll never stay, they never do
Now if I keep my eyes closed he feels just like you
But you've been replaced
I'm face to face with someone new


— Você não precisa se preocupar. Nunca te machucaria.
Ela quis rir, mas conteve-se. Ele tinha entendido aquilo errado, mas ficaria daquele jeito.

They don't realize that I'm thinking about you
It's nothing new, it's nothing new


— Você não precisa também. — abriu os olhos. — Eu vou garantir que você saiba que o bebê é seu, porque eu só vou atrás dele depois de ter certeza de que estou grávida. — sussurrou. Com um pouco de sorte, seria em breve.
— Eu confio em você. — ele respondeu, baixinho. — você confia em mim?
assentiu, puxando-o para um beijo.

Would've gave it all for you, cared for you
So tell me where I went wrong
Would've gave it all for you, cared for you
(My lover, my liar)
Would've trade it all for you, there for you
So tell me how to move on
Would've trade it all for you, cared for you
(My lover, my liar)


[...]


dormiu no momento em que terminaram. Poucos minutos depois. Simples e fácil assim. Ela invejava aquilo.
suspirou e virou o rosto, certificando-se daquilo, escorregando pra fora de seus braços. Ela sentou-se na beirada da cama e pegou sua pílula de dormir, colocando-a sobre a língua. Quando ia alcançar o copo d’água, o telefone disparou. Ela deu um pulo no colchão macio e percebeu mover-se. Havia acordado. Ela bufou e alcançou o aparelho, cuspindo o comprimido na outra mão.
— Oi?
Doutora ?
Ela queria falar que houve um engano. Mas Frank certificou-se que ela não colocasse seu nome como Chase- ou -.
— Sim? — engoliu seco.
acendeu a luz do abajur no criado mudo ao seu lado, ela apenas mordeu os lábios. Que merda!
O Hospital George está na linha.
— Vou passar para o Doutor . — suspirou. Ele ergueu o tronco e estendeu a mão para pegar, mas a recepcionista não lhe deu tempo.
A ligação é pra Doutora, mesmo.
engoliu seco e corrigiu a postura.
— Pode passar.
Ela fechou os olhos, tentando se preparar para o que viria a seguir. Já havia sido testada o suficiente.
Doutora ?
— Sim?
Aqui é Doutor Kennedy da Emergência do Hospital George . Seu pai deu entrada há pouco. Ele está sofrendo um ataque cardíaco e está pedindo por você.




Fim



Nota da autora: OI GENTEM!
Se você parou aqui sem ser por BNE (ou até mesmo se já acompanha a fic), antes que diga algo, quero dizer que tudo nessa fic foi minuciosamente planejado com muito cuidado e carinho. Não tem um pingo de cena problemática que não tenha sido proposital, porque eu precisava que fosse assim. Esse não é o tipo de fic que dava pra aniquilar o machismo ou coisas do tipo. Quando dava pra fazer, eu encaixava. Espero que compreendam. Grace é uma mulher forte e poderosa apesar de tudo que passou. Pra quem chegou agora, convido-lhes a lerem Best Nanny Ever pra ver como ela está se saindo dezoito anos depois.
Segundo, queria agradecer a minha helper maravilhosa que me arrancou do bloqueio criativo na marra e me apoiou todo o caminho, me ajudando com cada dificuldade que eu tive. Bella, sem você isso não tinha saído ♥
Geralmente eu chego aqui falando das referências de Grey’s na fic, mas dessa vez nem precisa né? DSKLDSLKDSL é grey’s all over. Então vamos mudar o foco: viram a referência de Game of Thrones? HEHEHEHE
ENFIM, Tal mãe tal filha!!! Já se perguntaram de onde vieram os culhões da Liv? Aqui está a resposta. Aqui também tem a resposta de muita coisa e buracos que deixam perguntas novas ( ͡° ͜ʖ ͡°) Fiquem ligados em Best Nanny Ever para obterem-nas!

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Da autora


Da fanfic


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10. A Year Without Rain (Ficstape For You, Selena Gomez - Finalizada)
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15. Young God (Ficstape Badlands, Halsey - Restrita, Finalizada) Spin-off de Best Nanny Ever, crossover com American Boy, da Mandie
17. Superman (Ficstape Speak Now, Taylor Swift - Restrita, Finalizada)
18. The Best Day (Ficstape Fearless, Taylor Swift - Finalizada) Spin-off de Vide

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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