Finalizada em: 16/01/2018

Capítulo Único

se aproveitou da pouca iluminação pra esgueirar-se pela sala, parcialmente abaixado enquanto escondia o rosto para que não fosse visto. Sabia que, independente disso, não conseguiria passar totalmente despercebido, não quando era tão diferente de todas as pessoas que frequentavam aquele ambiente. Todos estavam perfeitamente vestidos. Terno, gravata, roupa social. Uma vestimenta que ele só usava em enterros, basicamente, já que seus conhecidos também não faziam o estilo de casar.
Sentou-se no primeiro lugar livre que encontrou ao fundo, escorregando o máximo que podia na cadeira e apoiando o rosto em uma das mãos. Notou o homem ao seu lado lhe observar de canto de olho por um breve segundo antes de se ajeitar onde estava, encolhendo-se mais para o canto como se ele fosse um louco, ou um assaltante, e apenas revirou os olhos pela atitude, no mínimo, preconceituosa.
Não que ele ligasse para o que os outros pensavam dele ou de suas roupas.
Fazia o que queria, se vestia como queria, se portava como queria e sempre prezou muito sua liberdade para se importar com os outros.
Já não tinha mais dezessete anos para as calças rasgadas e camisa de banda. Para andar com a jaqueta na cintura, um topete no cabelo e rumo nenhum para seguir na vida além daquele, tocando em bares a noite para sobreviver, mas estava bem do jeito que estava.
A verdade era que, por mais bagunçada que sua vida fosse, ele gostava daquilo, da incerteza, e não pretendia mudar, mesmo que vê-la logo mais adiante, discursando na frente de todo um público que estava ali por ela, lhe fizesse se sentir velho. Já fazia quinze anos que havia partido, afinal, aos dezoito, para fazer faculdade.
havia acompanhado sua carreira durante todos esses anos, mesmo que ela não soubesse. Viu todas as fotos da sua formatura e vibrou quando ela conseguiu seu primeiro emprego na área que havia escolhido. Acompanhou seus relacionamentos que não mais o envolviam e tentou não odiar os caras só por ciúmes. Também tentou não ir atrás deles quando terminaram, querendo socá-los por deixá-la ir. Ele havia feito isso, a deixado ir, mas porque ela almejava um futuro no qual ele não se encaixava e queria o melhor para a mulher.
Um homem, na plateia, ergueu a mão, e tentou não bufar pela interrupção mesmo que não estivesse entendendo nada do assunto, mas sorriu quando ela o fez, ouvindo atentamente a pergunta.
A verdade era que estava orgulhoso de tudo que ela havia se tornado, de tudo que havia conquistado, mas ver o quanto o tempo havia lhe mudado o deixava ligeiramente melancólico. Lembrava-se de esperá-la na janela do seu quarto para ajudá-la a fugir de casa no meio da noite, de correr de mãos dadas com ela pela rua como os adolescentes idiotas que eram, rindo como um clichê ruim. Estavam apaixonados, eram o mundo um do outro, o primeiro amor, a primeira transa, e ele sentia aquela necessidade de acompanhá-la assim como as lembranças o acompanhavam.
Estava feliz de vê-la ao vivo novamente, depois de tanto tempo.
Sua intenção não era que o visse ali, não queria que ela soubesse. Ela estava mudada, uma mulher adulta assim como ele, mas vacilou quando ela agradeceu o público pela presença, finalizando a palestra.
Já haviam passado dos trinta, sua disposição física já não era mais a mesma, seu cabelo já começara a cair, mas ele se sentia jovem o suficiente e não tinha motivos para se esconder de verdade.
Enquanto as outras pessoas levantavam-se e saiam, ele esperou, vendo dar as coisas para organizar suas coisas. Quanto o grupo diminuiu, ele saiu do seu lugar e foi até ela, despreocupado, e pigarreou quando chegou perto o suficiente para chamar sua atenção.
A mulher se virou, abrindo a boca para falar o que ele imaginava ser um pedido de desculpas, mas se calou quando o viu, surpresa, fazendo com que ele sorrisse por isso.
- Quando eu vi aquele pôster enorme com o seu nome lá fora, não acreditei. – mentiu. Sabia da palestra desde que fora confirmada. – Senhora e senhores, está de volta.
- ... – ela disse apenas, sua expressão em um misto de espanto e melancolia que, só de olhar, ele soube. ainda tinha por ele o mesmo carinho que ele sentia por ela e abriu os braços para que a mulher fosse até lá. soltou a bolsa e desceu os três pequenos degraus, abraçando-o assim que se viram próximos o suficiente para isso. a apertou contra si, escondendo o rosto em seu pescoço. Seu cheiro era ainda melhor do que ele se lembrava e sorriu por isso antes de se afastar, segurando sua mão para fazer com que ela desse uma voltinha.
- O tempo te fez muito bem, definitivamente. – brincou, não conseguindo deixar de notar o quão boa ela ficava naquele vestido social justo ao seu corpo.
sorriu em resposta, mas não era mais o mesmo sorriso que ele se lembrava, despreocupado. Era o sorriso de quem tinha muitas coisas na cabeça, mas ela disfarçou muito bem ao continuar:
- Você também não está nada mal. – respondeu enquanto o olhava de cima a baixo e ergueu uma sobrancelha antes de olhar para si mesmo. Ele definitivamente estava fora dos seus padrões. Até mesmo os namorados que ela havia tido eram totalmente o oposto dele. Sempre bem vestidos, roupas de marca e ela riu como se soubesse exatamente o que se passava em sua mente. – Deixa eu contar um segredo. – ela falou, aproximando-se mais um passo dele para sussurrar. – Ainda gosto de um toque de rebeldia.
- Ah, é isso que eu sou? – perguntou, sorrindo enquanto ela voltava a se afastar, rindo. – Um toque de rebeldia? – se fez de ofendido mesmo que não estivesse e sabia que ela sabia, mas não importava. apenas deu de ombros e ele deixou o queixo cair.
- Eu achava que éramos mais que isso, . – negou com a cabeça e ela sorriu.
- O que você tem feito, ? – ela perguntou, sentando-se no palco alto o suficiente para que ela mal precisasse se abaixar e ele fez o mesmo, despreocupado.
- Ah, o mesmo nada de sempre, tocando por ai. – respondeu, usando as duas mãos, apoiadas no chão do palco atrás dele, para sustentar o corpo enquanto olhava para o alto por um instante antes de se voltar para ela. - Mas você está muito bem, pelo que vejo. – disse e a viu morder o lábio inferior, incerta. – Não? – perguntou, confuso, e ela suspirou.
- Profissionalmente sim, mas... Eu não sei... – falou, sendo tão vaga quando poderia ao encarar um ponto qualquer a sua frente e sentiu como se soubesse exatamente ao que ela se referia. O tempo estava passando, a vida e seu aparecimento provavelmente não tinha ajudado. Lembrar de quando eram jovens. – Eu gostava de ser livre, agora sinto como se apesar de tudo, de todas as conquistas, eu não tivesse feito nada.
lhe encarou por alguns instantes, seus traços mais maduros, porém ainda joviais embora ele pudesse apostar que ela também não achava aquilo. Ela nunca gostou de maquiagem, mas ele podia notar que agora, ela usava. Podia, de alguma forma, até mesmo imaginá-la reclamando enquanto passava, tentando esconder imperfeições que só ela via. sempre fora um tanto quanto neurótica, mas ele gostava e sorriu mais uma vez, desviando o olhar antes que ela notasse.
- Ninguém nunca vai estar cem por cento feliz. – respondeu o obvio e sentiu o olhar dela sobre si dessa vez, virando-se para encará-la também. – Mas o que você tem feito pra mudar isso?
- O quê? – ela perguntou, mais por força do hábito do que por não ter escutado de fato, ou entendido.
- Não somos mais tão jovens, fica a cada dia mais claro que não temos a vida toda, mas ainda temos todos os fios de cabelo na cabeça e levando-se em consideração que ainda temos, pelo menos, mais uns trinta anos, acho que está bom. Somos jovens o suficiente para aproveitar, pra viver e deveríamos fazer isso, sabe, antes que fiquemos carecas como um homem velho.
- Eu não vou ficar careca. – ela riu, e ele deu de ombros.
- Você não sabe disso. – devolveu, vendo-a erguer uma sobrancelha divertida em sua direção. – Sério que depois de tudo que eu disse, você só absorveu essa parte? – acusou e ela mordeu o lábio inferior novamente. Era uma mania nova, ele notou. Ela não fazia aquilo com tanta frequência antigamente, mas achou um tanto quanto adorável.
- É só que... Não, eu acho que não tenho feito nada pra mudar. Mas é complicado. Não é como seu pudesse simplesmente largar tudo e sair por ai.
- Ninguém está dizendo pra largar tudo. Só pra fazer algo por você. Uma loucura no seu dia livre. Arrastar alguém pra pular de paraquedas ou sei lá. O que você quiser fazer. O que fizer você se sentir livre, mesmo que seja só... Dançar a noite toda ou andar por ai. Deixar seus bloqueios para trás.
- Parece mais fácil falar do que fazer. – ela fez uma careta e ele riu. Isso sim era um hábito antigo e como se soubesse exatamente o motivo de sua risada, ela sorriu também. Ligeiramente corada, mas sorriu.
Satisfeito pelo clima confortável entre eles, como se jamais houvessem se separado, se levantou, estendendo a mão para que ela fizesse o mesmo.
- Vamos.
- O quê? Para onde? – ela perguntou, mas aceitou sua mão e deixou que ele lhe ajudasse.
- Segredo. – respondeu, a puxando para que lhe acompanhasse.
- , minhas coisas, eu não posso só sair assim! – exclamou, mas o fez sorrir ao notar que ela ria, não parando de arrastá-la. – ! – reclamou novamente, lutando para acompanhá-lo com os saltos altos. Quando conseguiu, o estapeou para que a soltasse e ele o fez, entre risos.
- Certo, certo, você venceu! – revirou os olhos em um pouco caso forjado. – Mas sabe, você não está colaborando com isso de deixar os bloqueios para trás.
- Mas são as minhas coisas! – ela insistiu, gesticulando exageradamente para o palco e ele riu. – Preciso pegar as minhas coisas! – riu também e ele deu de ombros, fingindo insatisfação ao cruzar os braços.
- Vai logo então. – resmungou, vendo-a guardar o restante das folhas espalhadas por ali em sua pasta antes de fechá-la, segurando-a em frente ao peito após pendurar a bolsa em seu ombro.
- Pronto, apressadinho. – provocou, juntando-se a ele novamente. estreitou os olhos para ela, passando um dos braços por seus ombros quando ela passou por ele.
- Você sabe que vai ter que se livrar disso pra andar comigo, não sabe? – perguntou casualmente e ela deixou o queixo cair antes de se voltar para ele.
- O quê?! Por quê?! – quis saber, chocada, e tirou suas chaves do bolso para sacodí-las a sua frente.
- Estou de moto.
- Moto? – ela repetiu e ele concordou com a cabeça.
- É, sabe, aquela coisa com duas rodas. Parece uma bicicleta, mas motorizada e menos infantil. – caçoou, recebendo um olhar um tanto quanto irônico em resposta, o fazendo rir. – Você perguntou.
- Nós dois sabemos que não. – devolveu, tirando o braço dele de seus ombros e fez bico pelo gesto. – E eu não vou andar de moto. – completou, fazendo com que ele lhe encarasse totalmente perplexo.
- Por que não? – perguntou, avançando alguns passos para ficar de frente para ela, andando de costas enquanto caminhavam. – Qual o seu problema com a minha moto?
- O problema não é a sua moto, o problema é que eu estou de salto e vestido. – respondeu, o fazendo revirar os olhos.
- Qual é, . São apenas meros detalhes. – reclamou e ela ergueu uma sobrancelha.
- Meros detalhes? Não se anda de moto com vestido, .
- . – ele a chamou, parando onde estava para que ela, consequentemente, fizesse o mesmo antes de segurar seu rosto entre as mãos. – Você gostava de ser livre, lembra? – perguntou e quando viu que ela iria retrucar, negou com a cabeça, tocando seus lábios gentilmente com o polegar. – Você não vai viver enquanto arrumar uma desculpa para tudo. E sim, é desculpa porque você não liga de verdade se as pessoas vão ver alguns centímetros a mais da sua perna, você está preocupada com o que vão pensar em ver uma mulher sentada atrás da garupa de uma moto, usando vestido social, mas aqui vai a novidade: Você nunca vai ser livre se preocupando com o que vão pensar ou dizer de você. Nem feliz. Não é assim que funciona, okay?
Ela lhe encarou por alguns segundos, sem dizer nada, e só então se deu conta da proximidade dos dois, da forma intima como lhe tocava e sentiu coisas demais voltarem, sentimentos que não deveria ter, mas apenas sorriu para ela em retorno, sentindo-se confortável com aquilo de certa forma, mesmo ciente de que não existia espaço para os dois.
- Tudo bem, você venceu. – ela respondeu por fim, em um fio de voz e ele concordou com a cabeça sem deixar o sorriso morrer antes de passar um dos braços por seus ombros, guiando-a até o estacionamento onde deixou as coisas em seu carro antes de acompanhá-lo até sua moto, encontrando-o já sentado nela, com um capacete em mãos. – Não acredito que você vai realmente me fazer sentar nesse negócio. – reclamou e, em retorno, ele apenas estendeu o capacete para ela que revirou os olhos antes de enrolar o cabelo no topo da cabeça para vestí-lo, sob o olhar atendo de . Assim que terminou, a mulher olhou da moto, para si mesma e para seu vestido e ele viu por isso, lhe estendendo a mão.
- Sobe no pedal pra ficar mais fácil. Eu estou segurando. – ofereceu e ela o fez após suspirar, tentado segurar o vestido enquanto sentava. Foi inútil, a peça subiu de qualquer forma e não conseguiu se conter ao olhar para suas pernas, perfeitamente encaixadas ao seu redor. Recebeu um beliscão na barriga por isso e pulou onde estava, massageando a região. – Ai! – reclamou, olhando por sob os ombros para repreendê-la, mas ela também olhava feio para ele.
- Não olha para as minhas pernas. – falou e ele fingiu estar chocado com a acusação.
- Mas são ótimas pernas! – respondeu, rindo ao receber outro beliscão.
- Eu vou descer, . – ameaçou e ele ergueu as mãos em sinal de rendição, virando-se para frente ao pegar o próprio capacete.
- Okay, não está mais aqui quem falou. – disse ele, vestindo o capacete antes de ligar a moto. – Se segura. – pediu, sorrindo quando sentiu seus braços envolverem a sua cintura.
deu partida, saindo devagar para não assustá-la, mas riu satisfeito quando ela pediu por mais, dirigindo pelas ruas da cidade sem cuidado. Se perguntou, por um momento, se aquilo soava tão familiar a ela quanto para ele, que imediatamente foi tomado pelas lembranças de todas as vezes que fizeram aquilo no conversível de seu pai. Era o mesmo vento em seus rostos, a mesma sensação de satisfação e ele se sentiu jovem em poder fazer aquilo novamente, embora o simples fato de poder estar com ela mais uma vez já fosse o suficiente para melhorar sua noite.

+++


estacionou em uma das poucas vagas livres em frente ao parque de diversões da cidade e desceu, rindo ao tirar o capacete de sua cabeça. Frequentava muito o lugar antigamente, com ele, e viu a melancolia em seu olhar quando ela desviou sua atenção brevemente para a fachada do local.
- Essa é a sua ideia de rebeldia agora? – ela caçoou quando se voltou para ele, lhe entregando o capacete para que guardasse embaixo do banco.
- Rebeldia? – perguntou antes de fazê-lo. – Mas quem disse que eu estou tentando ser rebelde?
- “Seja livre, faça o que quiser fazer”. – ela repetiu e riu antes de se voltar para ela, após prender o seu próprio capacete sobre a moto.
- E por que fazer o que quer precisa ser um ato de rebeldia? – perguntou, gesticulando para frente para que ela o acompanhasse enquanto seguiam caminho para dentro do parque. – Eu posso só querer comer pipoca e andar no carrossel. – deu de ombros. – Mas claro que andar de carrossel seria um ato de muita coragem. Acabaria completamente com a minha reputação de cara mal.
- Cara mal? – ela riu, em deboche, e ele olhou chocado para ela por isso.
- É a primeira impressão que todos têm de mim, okay? Eles atravessam a rua quando eu passo. – falou e, quando ela concordou com a cabeça sem acreditar, fez sinal para que ela parasse, pegando os óculos escuros que estavam presos a sua camisa sem nenhum motivo aparente, levando-se em consideração que já era noite.
vestiu os óculos e cruzou os braços em frente ao peito, deixando o sorriso morrer para colocar uma expressão séria em seu rosto para provar o que dizia. Em resposta, apenas riu mais uma vez.
- Entendo perfeitamente porque as pessoas atravessam a rua quando você passa agora. – falou e ele tirou os óculos, satisfeito. – Medo de serem assaltadas. – completou, entre risos, e ele deixou o queixo cair pela resposta. – Calça rasgada, pose de garoto rebelde. Eu atravessaria.
- Isso é preconceito. – se defendeu, mas ela apenas riu antes de continuar o caminho, deixando-o para trás fingindo estar muito ofendido, o que ambos sabiam, não estava.
Para fazer drama, deixou que ela se afastasse ligeiramente, mas seu rebolado acabou chamando muito mais atenção do que deveria e sem que pudesse se conter, deixou que sua atenção fosse desviada para a bunda na mulher, ressaltada com o vestido justo.
- Dá pra parar de olhar para a minha bunda? – ela chamou sua atenção e ele ergueu o olhar rapidamente, mas franziu o cenho ao notar que ela não o encarava. Quando o fez, ela imitou sua expressão.
- Acertei, não foi? – perguntou, convencida, mas ele preferiu se fazer de idiota, mesmo duvidando que fosse acreditar.
- Eu estou é surpreso por você realmente pensar isso de mim. – respondeu, voltando a andar para acompanhá-la. – Que tipo de homem você pensa que eu sou? – perguntou, soando quase ofendido e ela apenas riu.
- O tipo que não perderia a chance de olhar para minha bunda. – respondeu. - Mas tudo bem se não quiser admitir, eu sei a verdade. Isso que importa.
- Você deduziu a verdade para amaciar o seu ego. – ele retrucou, mostrando os dentes em um sorriso.
- Então você não estava olhando para a minha bunda? – perguntou e ele riu.
- Eu estava olhando para sua bunda. – confessou, olhando por sobre os ombros como se fosse repetir o gesto e ela o beliscou novamente, fazendo com que ele gargalhasse. – Ai, você não era tão agressiva assim antes!
- Gostaria de dizer que você não era tão pervertido antes, mas estaria mentindo.
- Pervertido na dose certa e você não reclamava. – devolveu, sorrindo quando ela corou. – Ah, adoro estar certo. – se gabou, colocando ambas as mãos atrás da cabeça enquanto caminhava e ela o empurrou com o ombro, fazendo com que risse mais uma vez
- Nunca disse que estava.
- Ah, não precisa. – ele respondeu. – Você sempre foi bem expressiva e essas bochechas. – apertou uma delas, afastando-se rapidamente quando tentou estapeá-lo. – Essas bochechas não mentem. – finalizou.
- Pervertido e totalmente chato. – ela retrucou, fechando a cara em um bico. – Foi isso que você se tornou.
Após uma gargalhada, imitou sua expressão e ela virou a cara por isso. Pouco atrás dela, ele a segurou pelos ombros, fazendo com que a mulher se virasse para a barraca de algodão doce. Viu os olhos dela se arregalarem levemente e segurou outra risada.
- Se tirar esse bico do rosto, eu te compro algodão doce. E não qualquer algodão doce, é o algodão doce. – falou, ciente de que ela se lembraria. Iam dá quase todos os finais de semana na adolescência simplesmente porque era louca pelo algodão doce do Sr. Ramirez.
- Ai meu Deus, não acredito que ele ainda está vivo! – ela exclamou, um pouco alto demais e ele riu quanto as pessoas olharam feio para ela. Sr. Ramirez era popular no parque, lendário, por assim dizer. Tinha todos os anos possíveis e estava mais velho do que nunca, não tinha como negar.
- Pode ser sua última chance de comer esse algodão doce. – falou, sério. – Está me amando quanto agora, em uma escala de zero a dez? – perguntou, mas ela o ignorou totalmente ao afastar-se de suas mãos, seguindo em direção a barraca e com um sorriso no rosto, ele a acompanhou, maravilhado com o brilho de satisfação em seus olhos.
Era besteira, apenas o algodão doce de um velho em um parque mais velho ainda, mas sabia que ela jamais iria até lá se não a levasse e perderia uma grande chance de se conectar ao passado. De relembrar as coisas boas, que a faziam feliz. De ter aquele brilho nos olhos novamente, mesmo que por um pequeno instante. O brilho que já não estava mais lá graças a vida adulta. Quando ele falou de se permitir viver, era de coisas como aquela, momentos como aquele, aos quais se referia de verdade. Na maior parte das vezes, não era necessário algo grande ou um ato de rebeldia para se sentir vivo. Apenas algo que lhe fizesse bem, algo que você não se permite fazer normalmente. Um momento para si, que as pessoas deixam de lado por falta de tempo.
- Não acredito que o senhor ainda se lembra de mim! – ela exclamava animada quando ele chegou perto o bastante para ouvir a conversa.
- Claro que me lembro! Minha principal cliente! – ele respondeu, rindo, embora todo seu corpo parecesse tremer pelo esforço. O homem já era velho quando eram adolescentes e parando para pensar, era realmente uma surpresa que ele ainda conseguisse se manter de pé. – Como chegou aqui...? ! – voltou a falar, animado, quando viu o outro logo atrás dela. – Está explicado! Vocês juntos de novo, nem acredito!
- Fiquei sabendo que ela tinha voltado a trabalho e fui buscá-la, claro. – respondeu e recebeu um olhar interrogativo de . Olhar que ele ignorou. – Acredita que ela não ia passar aqui?
- Como não? – o senhor olhou para , surpreso, e ela sorriu envergonhada. – É o melhor algodão doce do mundo! – falou, lembrando-se das falas da mulher quando mais jovem e ela riu.
- Eu só... – ela começou, se defendendo. – Isso nem passou pela minha cabeça! – riu novamente enquanto ele lhe estendia o seu algodão doce.
- Você também, rapaz? – perguntou a , que sorria abobalhado com a atenção de ao doce. concordou sem olhar para ele, o fazendo um segundo depois, antes que notasse o que ele fazia.
- Sim, claro. – respondeu, já tirando a carteira do bolso para deixar o dinheiro sobre o pequeno galpão da barraquinha. Quando o senhor terminou, lhe estendeu o algodão e aceitou, o cumprimentado mais uma vez, junto com , antes de se afastarem.
- Meu Deus, isso é muito bom. – riu enquanto puxava mais um pedaço com a mão, sem se importar com a meleca que fazia no caminho. – Me sinto uma criança. – falou e ele apenas concordou com a cabeça, decidindo que aquele momento, definitivamente, não tinha como ser melhor.
O som familiar dos brinquedos do parque, a música característica que eles traziam. As pessoas andando de um lado para o outro, rindo. Crianças gritando e correndo umas atrás das outras. O cheiro de doce e, claro, . ao seu lado, esquecendo-se de absolutamente tudo e até mesmo dele enquanto comia.
- O melhor momento do dia, definitivamente. – ela sorriu, voltando-se para ele e repetiu o gesto antes e erguer a mão, limpando o açúcar na sua bochecha. Desejou, por um instante, poder beijá-la agora, como costumavam fazer. Sentir o doce em seus lábios, mas não ousou se aproximar mais, vendo-a corar novamente pela atitude antes de se afastar.
- Eu tenho certeza que você vai gostar da próxima também. – ele respondeu, estendendo o braço para que ela segurasse ali mesmo que aquilo complicasse a tarefa que os dois tinham de comer o algodão doce. Sem se importar com isso, ela aceitou, levando o doce até a boca para comê-lo daquela forma mesmo.
- Não vai me levar, de verdade, a um carrossel, vai? – perguntou após mastigar. – Não vou subir de vestido no carrossel, ai já é demais. – falou, o fazendo rir mais uma vez.
- Não, só vamos dar mais uma olhadinha no passado. – respondeu, fazendo com que ela lhe encarasse por um instante, sem entender, mas apenas deu de ombros, comendo mais um pedaço do doce em sua mão.
Após mastigar, voltou a falar:
- Ficou sabendo que eu tinha voltado, é? – quis saber, e ele apenas sorriu.
- Quando vi a placa. – se defendeu, mesmo que a expressão em seu rosto, cômica, lhe entregasse.
- Uhm... Sei. – duvidou, mas ao invés de respondê-la, ele apontou.
- Lembra dela? – mudou de assunto e novamente viu o espanto na face da mulher. Ela lembrava. Não sabia, na verdade, se tinha como esquecer de Stacy, infelizmente. Era a pior pessoa que ele conhecia. ainda se lembrava de tudo o que ela havia causado no passado, inclusive o acidente que deixou hospitalizada por duas semanas por um motivo tão mesquinho quanto perder os votos no tema para organização de um dos bailes do colégio. Era esnobe porque o pai havia sido prefeito da cidade em um passado distante demais mesmo naquela época e vivia falando sobre seus estudos em Londres, que ela iniciaria assim que terminassem a escola. Estava sempre criticando o lugar, odiava as pessoas e odiava crianças. Passava o tempo todo falando que seria importante um dia, mas terminara ali, trabalhando na área infantil do parque. Havia sido recusada na única universidade que ela julgava ser boa o bastante porque ela nunca havia sido boa o bastante para estudar ou respeitar os professores e por mais horrível que pudesse ser sentir satisfação pela desgraça alheia, não conseguia deixar de pensar que ela apenas pagava pelos erros do passado. Sentia como se fosse, basicamente, o mundo dando o troco e imaginou que ela fosse gostar de ver.
- Céus, como ela acabou aqui? – perguntou e ele apenas deu de ombros, vendo Stacy, de longe, fazer careta para um menininho que lhe abraçava.
- O mundo dá voltas. – respondeu simplesmente, guiando para se sentar com ele em um banco próximo. – Ela colheu o que plantou.
- Disso eu não tenho dúvidas. – respondeu, chocada.
- As atitudes dela a mantiveram aqui. Presa nisso. – falou, olhando para a mulher alheia aos dois enquanto prendia sua atenção nele. – Eu sei que ainda estou aqui também, mas estou bem aqui. Nunca quis algo além, mas ela, apesar de querer, achou que era boa o bastante para correr atrás e a oportunidade passou. Ela se acomodou, e agora está fadada a isso. – explicou, jogando-se para trás, no encosto do banco, para continuar. – Não estou dizendo que é exatamente o mesmo caso, você sempre teve garra para fazer o que queria, mas se não está satisfeita, não pode se acomodar ou também ficará infeliz pelo resto da vida. Precisa traçar outro plano se acha que esse deu errado, ainda dá tempo. Coloca a idéia na cabeça e segue com ela, sem se importar com o que vão dizer, ou se parece absurdo. Ninguém pode te dizer o que fazer, ou comoo agir. Não se importe, só faça o que for te fazer feliz. – quando terminou, se voltou para ela e a garota sorria com suas palavras. Ele repetiu o gesto, sorrindo também em resposta, mas antes de dizer qualquer coisa, tudo o que fez foi juntar seus rostos, colando seus lábios aos dele enquanto segurava sua camisa.
No primeiro segundo, não se moveu, surpreso demais para assimilar o que havia acontecido, mas não demorou para segurar seu rosto com uma das mãos, entreabrindo os lábios para que pudessem iniciar o beijo no qual ele havia pensado muito mais do que gostaria e deveria admitir.
Como o esperado, ela tinha gosto de açúcar devido ao algodão doce, mas a melhor parte não era essa e sim ao fato de seu beijo ser ainda tão bom quanto ele se lembrava, de seu cheiro inebriar totalmente seus sentidos, como se fossem feitos para aquilo, para serem um do outro, mesmo que não tivessem qualquer chance de ficarem juntos. Enquanto a beijava, lentamente, desejou, por um instante, que as coisas pudessem ser diferentes, que pudesse ter mais dela, daquilo, mas tudo bem. Tudo que ele sempre quis foi que ela seguisse seus sonhos, seus planos, e estaria feliz enquanto ela estivesse.
Um beijo e saber que ela ficaria bem, bastava, e ele sorriu com os lábios colados ao dela, sentindo o sorriso da mulher se formar também. Abriram os olhos, sem se afastarem, e acabou rindo, levando-o a fazer o mesmo.
- Eu queria muito fazer isso. – disse ela, chegando mais perto. – Desde que você apareceu na palestra.
- Você fala como se isso não tivesse acontecido há tipo, vinte minutos atrás. – ele respondeu e ela apenas sorriu mais uma vez. Um sorriso que parecia ainda mais bonito visto de tão perto e aproveitou-se da proximidade entre eles para beijá-la novamente, não recebendo qualquer vacilo em retorno, muito pelo contrário. subiu uma das mãos até sua nuca enquanto a outra ia para seu pescoço e viu aquilo como incentivo para puxá-la para mais perto, odiando a posição que estavam, de repente, por impedí-lo de juntar seu corpo ao dela como ele preferia fazer.
- Eu vou embora só amanhã de manhã. – ela rompeu o beijo para dizer e mordeu seu próprio lábio inferior enquanto os olhos mantinham-se fechados. – Acho que podemos... Ir para outro lugar. – ela sugeriu e ele riu antes de abrir os olhos, definitivamente satisfeito com a sugestão.
- Posso lidar muito bem com essa ideia. – respondeu, fazendo com que ela sorrisse. – Meu apartamento? – perguntou e ela concordou com a cabeça antes de beijá-lo mais uma vez, ali mesmo, antes que fossem embora.

+++


se remexeu na cama, sentindo a luz incomodar seus olhos. Não havia tido tempo de fechar as janelas na noite anterior e sorriu sozinho ao se lembrar no motivo. . Sentindo o cheiro dela nos lençóis, ele suspirou e levou alguns minutos para se dar conta de que estava sozinho na cama, o fazendo somente quando estava prestes a cair no sono novamente.
Finalmente, ele abriu os olhos, sonolento, e constatou exatamente o que havia imaginado. Ela já não estava mais lá, tampouco suas roupas.
Passando as mãos pelos cabelos, se sentou na cama, com os olhos ainda parcialmente fechados enquanto olhava ao redor. A porta do banheiro estava aberta, então ela não estava mesmo lá e não se lembrava exatamente onde ela havia deixado os sapatos se garantir de que ela não estava, talvez, apenas andando pelo apartamento.
Preguiçosamente, ele se levantou, vestindo o jeans da noite anterior sem se importar em colocar nada por baixo antes de sair do quarto. Ele não tinha muitas esperanças, de verdade, que ainda estivesse lá. Ela havia falado que ia embora pela manhã e duvidava, mesmo sem olhar no relógio, que tivesse acordado antes do meio dia. Gostaria apenas de ter tido oportunidade de se despedir e não conseguia entender como ela havia simplesmente levantado e ido embora, sem falar absolutamente nada. Sequer parecia condizer com ela.
Mas como o esperado, realmente não estava na casa e ele suspirou decepcionado antes de voltar para o quarto.
Nem ao menos tinha pego seu número de telefone.
se jogou na cama, os braços abertos e só então notou o post-it colado em sua televisão, levantando-se para ir até lá.

“Quinze anos e eu ainda sou péssima com despedidas, então me desculpe por não ter te acordado. Você provavelmente perambulou pela casa antes de ver isso, então me desculpe por decepcioná-lo também.
Meu vôo era cedo, já estava agendado, então precisei ir. Também imaginei que você não acordaria antes da uma.”


interrompeu a leitura para olhar no relógio e riu ao notar que havia se passado dez minutos da uma hora da tarde. Duas frases e ela havia acertado em absolutamente tudo.

“Obrigada pela noite. Com apenas assuntos simples e uma hora de conversa, me diverti mais do que me lembro de ter me divertido em meses. Me senti viva, jovem, como também não me sentia mais.
Só para constar, em uma escala de zero a dez, você definitivamente chegou no dez. E sim, eu ouvi quando você disse isso. Haha
Mais uma vez, obrigada. Não vou me esquecer dessa noite e farei com que tudo valha a pena.”


se pegou sorrindo ao terminar o bilhete e o levou consigo para a cama, jogando-se lá com ele em mãos. O ergueu no alto, sentindo-se um adolescente idiota por isso e só então viu que havia mais atrás. Virando-o, ele encontrou seu número de telefone, junto com um: “Me ligue” e sorriu novamente.
Uma noite com ela era algo que ele não esperava ter, não da forma como haviam terminado, mas por melhor que se sentisse por isso, nada superava a satisfação de saber que havia, de alguma forma, feito a diferença.
Não sabia se, mesmo tendo seu número, manteriam contato. Eram diferentes demais para isso. Haviam tentado aquilo na adolescência e, em algum momento, se perderam, mas tudo bem.
se importava com ela o suficiente para nunca deixá-la ir, não definitivamente e sabia que, agora mais do que nunca, acompanharia seus passos aonde quer que ela fosse, como sempre havia feito.


Fim.



Nota da autora: Mais uma, manas! Espero que tenham curtido! Hahaha
Abaixo, deixo link de outras fics, longs e ficstapes, caso queiram.
Bjão! E não deixem de comentar, pls.



Outras Fanfics:
Phoenix [Restritas-Originais/Em Andamento] ● Lucky One [One Direction/Em Andamento]
Cheap Thrills [Restritas-Originais/Em Andamento] ● Fabulous [Restritas-One Direction/Em Andamento]
When Your Nightmares Come True [McFly/Em Andamento] ● Flashbacks de Verão [Originais/Finalizada]
Survive The Halloween [One Direction/Finalizada] ● Boy [One Direction/Finalizada]
Shout About It [The Vamps/Finalizada] ● My Dirty Secrets [Restritas-Originais/Finalizada]
01. Black Magic [Little Mix Ficstape/Finalizada] ● 03. Somebody To You [The Vamps Ficstape/Finalizada]
03. It's You [Zayn Ficstape/Finalizada] ● 05. You Gotta Not [Little Mix Ficstape/Finalizada]
06. Heart Attack [One Direction Ficstape/Finalizada] ● 08. Yeah, I Said It [Rihanna Ficstape/Finalizada]
08. OMG [Little Mix Ficstape/Finalizada] ● 09. Honest [Shawn Mendes Ficstape/Finalizada]
12. They Don't Know About Us [One Direction Ficstape/Finalizada] ● 12. She Was The One [The Vamps Ficstape/Finalizada]
12. Too Much To Ask [Avril Lavigne Ficstape/Finalizada] ● 14. Lovestruck [The Vamps Ficstape/Finalizada]
15. Smile [The Vamps Ficstape/Finalizada] ● 17. Like I Would [Zayn Malik Ficstape/Finalizada]
Mixtape: Cartas Pra Você [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada] ● Mixtape: Erva Venenosa [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
Mixtape: Na Sua Estante [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada] ● Mixtape: Don't Cry [Mixtape: Classic Rock/Finalizada]
Father's Little Girl... Or not [Restritas-Originais/Finalizada] ● By Our Hearts [Super Junior/Finalizada]

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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