Finalizada em: 05/11/2018
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Prólogo

A máscara cirúrgica que cobria seu rosto impediu que um totalmente ansioso o visse ao sair da editora. , é claro, havia feito de propósito porque sabia que ele estava ali, contando os segundos impaciente por notícias.
Aquele dia, afinal, tinha tudo para ser especial de certa forma, marcante, mas nem imaginava o real motivo para isso ainda, apesar de acreditar que sim. Havia assinado contrato para publicar seu primeiro livro. De muitos, ele esperava. Mas foi então que do outro lado da rua, ele a viu, e como no maior clichê que já havia lido, foi como se o tempo parasse, literalmente. O mundo simplesmente congelou, e até mesmo os ponteiros do relógio, na torre do outro lado da rua, repentinamente deixaram de se mover.
A garota, que dificilmente era mais velha que ele, passou a andar em câmera lenta e teria coçado os olhos para ter certeza de que não era delírio se fosse capaz fazer isso. A verdade era que, apesar do tempo ter desacelerado, ela ainda era a mulher mais bonita que já havia visto e mesmo que conseguisse se mover normalmente, o que não era o caso, provavelmente não o faria, surpreso demais com sua beleza para que fosse possível.
Mesmo com o tempo parado, os cabelos da mulher ainda voavam com o vento enquanto atravessava a rua. Quando ela sorriu, sentiu uma paz interior que jamais soube que precisava até então. Ela o iluminou, a garota que ele nunca antes havia visto o iluminou, mas apesar da beleza contida nisso ele não pôde deixar de se sentir assustado, perguntando a si mesmo o que diabos deveria ser aquilo. Eram sentimentos fortes demais, especialmente para se ter com uma completa estranha.
Ainda sorrindo, ela seguiu em sua direção e sentiu todo o calor se esvair de seu corpo. Era nervosismo. A mulher era totalmente desconhecida, mas apenas a possibilidade daquele sorriso ser para ele o deixou tenso e inquieto como nunca antes havia estado. Pelo menos não por uma garota, mas foi quando ela passou direto por ele, como se nem o visse ali, que o tempo voltou a andar de forma normal.
Totalmente confuso, se virou para trás em tempo de vê-la cumprimentar uma mulher logo atrás dele. Era para ela o sorriso e a decepção consumiu suas entranhas, mesmo que devesse ser óbvio que o sorriso não era para ele, afinal, não se conheciam.
Mas, então, chegamos a parte marcante da história. Ou apenas o começo de tudo, por assim dizer. Pelo menos para , que desde muito novo escutava sobre a maldição da família, acreditando ser apenas uma história.
"Começou há tantas gerações, que eu nem saberia dizer com precisão a data, ou como foi." — era como seu avô sempre iniciava a história e naquele momento, pôde ouvi-lo como se o homem já falecido repetisse as palavras bem ao seu lado. "A maldição dos ", ele contava, e quando um arrepio gélido subiu pela espinha de , a história voltou a sua mente de imediato, as palavras do avô há anos atrás, antes de morrer, contando a história pela última vez. — "Mas a maldição existe, filho. Ela está aqui. E você pode não acreditar agora, mas vai acreditar quando acontecer, porque vai. Está no seu destino, se apaixonar por alguém que nunca vai poder ter até que ela morra, ou você."
"E se eu nunca me apaixonar?" — lembrava-se de ter perguntado na época. Se tinha algo em que não acreditava, era naquela história do velho homem.
"Mas se apaixonar também faz parte da maldição." — ele respondeu. — "Encontrar a pessoa ao acaso, sentir todo seu mundo balançar por ela, mas nunca poder tê-la de verdade, nem mesmo em seus sonhos."
"Isso soa muito triste, vovô." — o garoto tão jovem respondeu com um sorriso nos lábios, deixando claro o que pensava do conto que escutava. Era isso que era para , que sempre havia sido, um conto.
"É para ser triste, meu jovem, por isso se chama maldição." — ele devolveu. — "Tentar fugir, te deixa doente. Tentar vencer, te coloca mais longe da pessoa que ama. Nunca descobrimos como quebrar o destino, e por isso só posso sentir por você."
Aquela noite havia sido a última do seu avô em vida e ainda lembrava de ter dito para o homem não se preocupar. Ele ficaria bem, e não acreditava em nenhuma maldição.
Mas naquele momento, assim como seu avô havia descrito, ele simplesmente soube que algo estava errado. Ele sentiu, com todas as forças, que havia chegado a sua vez. Até cogitou ser apenas paranóia porque aquela havia sido a última conversa dele com seu avô, mas não.
Os próximos dias que se seguiram, meses, apenas provaram que a maldição era muito mais real do que ele imaginava.


Capítulo 01

Estava escuro apesar de não ser noite e a neblina cobria o local de forma um tanto quanto mórbida. não podia enxergar muito longe, tudo a mais de um metro e meio era um mistério escondido atrás de uma cortina branca de névoa.
Mas ele já conhecia aquele lugar muito mais do que gostaria de fato para saber tudo o que ele escondia.
Todos os dias ali eram noites cobertas pela neblina. Todos os dias eram frios como se estivessem sempre no inverno. Ele sentia o vento gelado cortar sua pele, embora a vegetação morta do local nunca se movesse com ele. Era um vento que apenas sentia, como parte de sua punição para sabe-se lá o que. Ele havia perdido aquela parte, a do que havia feito para estar ali, mas aquele jardim era seu companheiro sempre que descansava a cabeça nos travesseiros e fechava os olhos, assombrando seus sonhos e o lembrando diariamente do que nunca poderia ter.
Hoje entendia as palavras do avô, mesmo que preferisse não entender. via-se perguntando quem ele havia perdido, ou quem seu pai havia deixado para trás. Se perguntava como conseguiram viver uma vida daquela forma, sentindo todos os dias aquela agonia que o consumia um pouco mais cada vez que acordava pela manhã, após uma noite de angústia. sentia-se mentalmente exausto, esgotado. Dormir não o deixava descansar, apenas o cansava mais e o deprimia. Não havia um momento durante o dia ou a noite em que pudesse respirar tranquilo. A maldição não o deixava fazer isso. Nunca, e por isso chamava-se maldição.
respirou fundo e olhou em direção ao castelo, ou pelo menos onde ele deveria estar, a enorme construção de areia onde sempre ficava. Ela já deveria estar ali, costumava sentir quando chegava. Ela, de certa forma, trazia alguma dose de alívio para sua sina, mas claro que era momentâneo. Momentâneo demais para realmente fazer algum efeito, mas ele precisava daquilo, seu sorriso era o único motivo pelo qual não havia enlouquecido ainda.
Ouviu passos atrás de si e virou-se imediatamente para trás, esperando vê-la ali, mas isso não aconteceu.
estreitou os olhos.
? — chamou, o uso do apelido provando a intimidade que já tinham um com o outro, isso graças a enorme quantidade de vezes que havia estado ali.
Mas ninguém respondeu além da mais nova rajada de vento que o fez fechar os olhos por um instante.
Novamente ouviu passos, e virou-se de súbito, agora desconfiado. O jardim abandonado sempre foi o tipo de lugar que fazia um arrepio subir por sua espinha. Nenhum tipo de luz além da que vinha do castelo ao longe, o frio, a noite, a neblina. A folhagem alta, as flores mortas. A estufa de vidros quebrados e o rio seco ao fundo. O cenário perfeito para qualquer filme de terror, um dos bons, mas com o tempo ele parou de temer o local. Nada pior do que a maldição poderia acontecer ali. O cenário era apenas uma personificação do que ele sentia, de como ele estava: morto por dentro.
, eu sei que é você. — disse novamente. Não existia nada vivo ali além dela. Nenhum animal ou planta, era apenas os dois e tinha a sensação de que sempre seria apenas os dois. Presos naquele ciclo sem fim de sofrimento.
Não sabia o que se passava na cabeça dela, se é que se passava alguma coisa. Não sabia se a real também tinha aqueles sonhos, se aquele era o local onde ambos se encontravam a noite, se ela também sofria, ou se apenas ele tinha aqueles sonhos, como um grito desesperado de sua mente para poder estar junto dela de verdade, ou pelo menos sem a máscara cirúrgica que ele usava diariamente para esconder seu rosto. A verdade era que ele não entendia nada daquilo, nada além do pouco que seu avô havia dado a entender, mas o homem não estava mais vivo, assim como seu pai, as duas únicas pessoas que poderiam clarear um pouco as coisas.
Ouviu passos novamente, mas dessa vez não disse nada, apenas esperou. Havia aquela tensão no ar, aquela sensação de que alguma coisa iria acontecer. Era o cenário, ele sabia, e exatamente como esperava, no instante seguinte gritou atrás dele, em uma tentativa falha de assustá-lo:
— BUH! — exclamou atrás dele, e fez bico quando apenas se virou de frente para ela, a expressão repentinamente suave e um sorriso terno no rosto, porém uma sobrancelha erguida em desafio, como se debochasse dela pela tentativa.
cruzou os braços em frente ao peito, e lhe mostrou a língua por isso sem encará-lo, fazendo com que sorrisse com sua reação. Ele costumava fazer muito aquilo perto dela, sorrir. Não sabia se a paixão intensa também fazia parte da maldição, apenas para lhe fazer sofrer mais cada vez que acordava, mas a paz que sentia quando estava junto dela, mesmo sem poder tocá-la, era seu único momento de alívio. Um breve alívio, apenas um gostinho do que nunca conseguiria para lhe derrubar com mais força em seguida.
E a cada dia ali, se apaixonava ainda mais por ela para saber, sempre que acordava, que estavam fadados a jamais ficarem juntos.
Mas era inevitável estar com ela, assim como era impossível tentar evitá-la. Já havia tentado, tanto em vida quanto em seus sonhos, mas a garota era um tanto quanto persuasiva e ele estava apaixonado demais para simplesmente conseguir ignorá-la, ou não sorrir sempre que ela o fazia.
— Por que você nunca se assusta? — ela perguntou, como uma criança emburrada e só faltou chutar uma pedrinha no chão para completar o pacote que o fazia querer apertar suas bochechas. Não que pudesse, obviamente.
— Porque eu já sabia que era você. — respondeu. — A névoa ainda não me deixou surdo, .
Ela estreitou os olhos, e ele riu antes mesmo de ouvir a bronca que sabia que iria receber.
— Não seja estúpido, . — o repreendeu, como uma mãe, exceto que obviamente não era ou não teriam aquele problema, só para início de conversa.
— Eu não fui estúpido, eu falei delicadamente. — observou, mas sabia que ela não ia aceitar aquela desculpa.
— Isso não faz com que a resposta seja menos estúpida. — ela devolveu, e ele riu novamente, fazendo com que ela bufasse fingindo estar muito irritada, o que nem em um milhão de anos ela estava. já a conhecia bem demais para saber. A única coisa que não sabia era se aquilo, de conhecê-la tão bem, era bom ou ruim.
A verdade era que, quando estava com ela, tudo ficava momentaneamente bem. Quando estava com ela, rindo por qualquer besteira como se a vida fosse muito simples, tudo parecia normal mesmo em um jardim repleto de névoa, flores mortas e árvores secas, mas então sempre tinha aquele momento, onde eles se aproximavam o suficiente para se tocar, ou se beijar, e desaparecia diante de seus olhos. Aquele momento em que a maldição o lembrava de que aquilo era só um sonho e ela não estava ali de verdade, então nunca poderia tê-la daquela forma.
E no dia seguinte, quando ele voltava ali, não se lembrava do acontecido. Ela nunca lembrava. Era um sonho afinal, e para ela, apesar daquele encontro ser mais um de muitos, como se já se conhecessem há muito tempo, ele era sempre o primeiro em que dariam um passo a diante, o primeiro beijo que nunca poderiam trocar pois antes que seus lábios se tocassem, acordava e lembrava o motivo daquilo tudo ser uma maldição: era cruel.
— Você tem uma definição estranha de estupidez. E de grosseria. — ele retrucou em tom de brincadeira, e ela o imitou com a voz afetada, fazendo-o rir enquanto a seguia, já que para fazer birra, cruzou os braços e saiu andando à sua frente no meio da névoa.
Era incrível como a cada passo, a névoa parecia se dissolver ao redor dela, apenas para se fechar novamente sobre ele assim que ele tentava avançar, mas aquela era apenas outra coisa com a qual ele já havia se acostumado. Não deixava nunca de ser impressionante, como se ela literalmente irradiasse luz em meio àquele lugar tão sombrio, mas já sabia disso, assim como também sabia das consequências disso em seu coração tão irritantemente apaixonado.
— Não é possível que você não tenha nenhum amigo assim, tão legal quanto eu. — continuou ele, antes que perdesse o foco, como acontecia constantemente, aliás.
— Não, meus amigos são educados. — ela devolveu, erguendo o olhar para encará-lo quando passou a sua frente, andando de costas para encará-la. Ele, em retorno, deixou o queixo cair, como se estivesse muito surpreso com a resposta, e ofendido.
— Mas eu sou educado. — respondeu, falsamente chocado. — Também duvido, inclusive, que tenha amigos mais educados do que eu.
— Você tem uma definição estranha de educação. — disse ela, não conseguindo esconder a satisfação por ter imitado suas palavras. estreitou os olhos.
— Eu disse isso primeiro.
— Você não falou nada sobre educação. — ela retrucou, agora sem esconder um sorriso que, de certo modo, soava até mesmo infantil. Aquele jeito era uma das coisas que ele mais admirava nela. A alegria, como se o seu mundo fosse sempre colorido. A risada divertida, que ela soltava quando algo lhe agradava, e a forma leve com a qual ela lidava com a vida, como se tudo estivesse sob o seu total controle.
ainda se lembrava de ser exatamente assim, até perder completamente o controle de tudo, mas aquilo era só um sonho, mais um, e não adiantava se abater ali também, durante seus minutos de conforto antes que o inevitável acontecesse e ele tivesse que acordar. Foi por isso que ele sorriu.
— Mudar a última palavra não faz com que o plágio seja menos plágio. — ele respondeu, piscando para ela, que o olhou de forma cínica antes de simplesmente lhe dar as costas, andando tranquilamente a sua frente.
— Pode ter certeza que eu entendo mais de plágio do que você. — devolveu e sabia que sim, já que ela, na vida real, trabalhava com isso, mas fingiu não saber.
— Ah, é? Não me parece. — debochou.
— Eu digo que você está errado. — respondeu ela, agora sendo sua vez de acelerar o passo para se colocar de frente para ele. parou ali e estendeu a mão, mas apenas olhou dela para seu rosto novamente, como se perguntasse se ela havia enlouquecido.
É claro que tinha sim entendido o que ela queria, mas ele simplesmente não podia tocá-la, de forma alguma, e por isso não o fez.
— Quer apostar? — insistiu em perguntar quando ele não respondeu, mas apenas desviou de seu braço estendido, continuando seu caminho.
— Não. — falou, já imaginando perfeitamente o pequeno surto que ela teria por isso, dramatizando totalmente o momento. Outra coisa que ele havia aprendido com o tempo de convivência com ela era que era naturalmente surtada e dramática, e por isso fazia escândalo mesmo quando o assunto não exigia um.
. — ela bateu o pé, e ele não conteve uma risada, o que a deixou apenas mais perplexa por ouvir. avançou para fazê-lo virar, mas ouvindo seus passos, se esquivou ainda entre risos, esquecendo-se momentaneamente de tudo que lhe afligia quando ela tentou uma segunda vez, fracassando exatamente como a anterior.
urrou e ele lhe mostrou a língua, então a garota para não ficar atrás lhe mostrou os dentes. riu, não se sentindo nem ligeiramente ameaçado, muito pelo contrário, apenas sentiu uma imensa vontade de apertar suas bochechas. Ela novamente avançou e assim como antes ele apenas se esquivou, mas como o destino não estava para brincadeira e nem a maldição, claramente, a garota se desequilibrou e por reflexo se colocou na frente para evitar que ela caísse. Era estúpido na verdade, já que estavam sonhando e não era possível que se machucassem ali, mas seu instinto falou mais alto e quando deu por si, já estava em seus braços.
sentiu o ar fugir de seus pulmões de imediato e respirou fundo, mas o perfume dela tão perto não o ajudou, muito menos o calor de seu corpo, já colado ao dele. , como de costume, não se afastou. Não importava a forma como aquilo acontecia, ela nunca se afastava porque queria aquilo tanto quanto ele, ansiava por seus lábios juntos, por seu toque, mas aquela era a maior proximidade que conseguiam um com o outro. A garota em seus braços olhou no fundo de seus olhos, e tudo ao redor dos dois desapareceu. O jardim de flores mortas, a neblina e até o frio. se esqueceu da maldição e de que não podiam fazer aquilo. Esqueceu-se de tudo. Ela se aproximou, e ele fez o mesmo, enfeitiçado pela respiração dela tão perto, inebriado com o seu perfume, tudo que o fazia amá-la ainda mais, como uma droga, como se ela fosse seu vício, mas não demorou muito para que a maldição agisse e o lembrasse do motivo de nunca poder tê-la.
O calor dela antes invadindo cada célula de seu corpo, de repente, passou a sumir. Seu corpo passou a sumir. Ela estava ali, ainda era capaz de vê-la, mas não podia mais sentí-la como antes. A dor invadiu seu peito de imediato, quase física depois de sofrer aquilo tantas vezes, e ignorando seus lábios já tão próximos, lábios que ele nunca tocaria, a abraçou, inclinando-se ligeiramente para esconder o rosto em seu pescoço. Sentiu quando se arrepiou com o gesto tanto quanto sentiu a confusão dela pela atitude, mas não teve tempo nem mesmo de sentir os braços dela ao seu redor antes que tudo desaparecesse e ele finalmente despertasse.
respirou fundo, mas não abriu os olhos mesmo após acordar. Ele sabia que pelo menos uma lágrima escorreria de seus olhos se ele o fizesse então apenas ficou ali, imóvel, como se nada tivesse acontecido, como se ele ainda estivesse dormindo, mesmo que sua mente já tivesse voltado a acordar.
Era como se, em sonhos, estivesse fadado a viver todos os dias o mesmo dia. Um ciclo vicioso no qual estava preso, sofrendo a mesma dor sempre que abria os olhos porque sabia que ela era real, ele que não podia alcançá-la.
Quando dormia, sabia quem ele era, mas não podia tocá-la. Acordado, podia tocá-la, mas jamais poderia saber quem ele era.

+++

— Cara, você está cada dia mais lamentável. — falou ao parar de frente para , do outro lado do balcão na livraria da qual era proprietário. desviou o olhar sem respondê-lo, mas se inclinou ligeiramente para frente, a fim de olhar para o amigo mesmo quando este tinha a cabeça baixa, para evitar que suas enormes olheiras fossem vistas.
— Obrigado, . — respondeu em tom irônico ao notar a atitude e espalmou a testa do rapaz para afastá-lo.
— Isso não foi um elogio. — devolveu de pronto, voltando a se endireitar e fazendo uma careta ao analisar . Conheciam-se há tempo o suficiente para que ele soubesse que havia algo de errado, mesmo que se esquivasse das perguntas.
— Isso também não foi um agradecimento. — devolveu apenas, colocando no carrinho ao seu lado alguns livros que haviam sido devolvidos mais cedo.
— Não? — perguntou, cínico. Até porque havia entendido muito bem que não havia sido nada mais do que uma resposta retórica e sarcástica, para combinar com a conversa. — "Obrigado" é um agradecimento. — falou, e limitou-se em encará-lo sem dizer nada, muito bem ciente de que havia entendido o ponto tanto quanto ele entendera a ironia nas palavras do amigo. — Você está cada dia mais chato também. — falou com um bico, sentando-se em um dos bancos ali ao desistir daquela conversa.
suspirou, agora sentindo-se culpado pela atitude, mesmo que não fosse nada demais. Ele estava descontando em seus dramas de vida, literalmente. Duas ou três respostas ácidas jamais seriam o suficiente para afetar , ou afastá-los, eram próximos demais para isso, mas ainda assim era errado. A maldição havia sugado tudo que costumava ser, toda a energia, toda a alegria, seus sonhos e vontade de fazer qualquer coisa e isso também afetava o amigo tanto quanto o afetaria se fosse o contrário. queria seu melhor, mas estava assistindo de camarote enquanto ele era consumido por uma dor que não era capaz de entender de onde vinha, ou porquê.
— Desculpa, eu só estou cansado. — mentiu ele, já que qualquer desculpa franca o colocaria direto em uma clínica psiquiátrica. Maldições, sonhos reais demais, estar apaixonado por alguém que ele não podia conhecer de verdade… Não julgaria ninguém que achasse aquilo bizarro.
— Tem dormido? — perguntou, verdadeiramente preocupado, e deixou de lado o livro em sua mão, suspirando no percurso.
— Na verdade, não. — respondeu, mas ciente de que aquela não era bem a verdade, continuou, decidindo ao menos tentar ser um pouco mais sincero com , ou o quanto era possível. — Quer dizer, sim, mas não muito bem.
— Você realmente parece doente, . Não estou dizendo só para provocar. Estou dizendo porque eu vejo, e sei que também está me escondendo algo. — falou e apenas ouviu sem dizer nada. — Me conta qual é o problema, o que te preocupa. É grave? Alguma doença, ou outra coisa? Me conta. Eu posso ajudar?
— Eu não estou doente, . — respondeu, mesmo sem saber se era possível tranquilizar o amigo. Até porque, era exatamente assim que se sentia, doente, e nem podia dizer com certeza que não estava, que a maldição não tinha nenhum sintoma físico, porque assim como , ele via o que aquilo fazia com ele. Podia ser apenas consequência, o cansaço o deixando esgotado, o desânimo levando sua vontade de comer e de viver. jamais poderia dizer ao certo.
— O que é então? Como eu posso ajudar?
— Não acho que possa, . — respondeu, arrependendo-se de ter dado a brecha que o amigo precisava para fazer perguntas. Agora precisaria criar desculpas que respondessem seus questionamentos. — Eu venho tendo sonhos ruins. E penso neles mais do que deveria durante o dia, é só isso. — explicou, evitando dizer algo que fosse totalmente mentiroso simplesmente porque sabia que notaria.
— E eles têm te deixado assim? — perguntou o outro, ainda um tanto quanto descrente, mas concordou.
— Eles impedem que eu durma direito e me chateiam durante o dia. — explicou, decidindo que aquele era o mais longe que poderia ir na conversa.
, se é só isso, eu tenho certeza que podemos resolver. Remédios para dormir, algum especialista em sonhos se isso não não for o bastante. Deve existir algum médico que cuide disso.
— Deve existir, mas são só sonhos, . — tentou dar àquilo menos importância do que tinha de fato, fingindo desinteresse no assunto, mas aquilo sequer seria assunto se não fosse realmente pertinente, se ele não parecesse muito mais como um morto-vivo do que uma pessoa adulta e saudável.
— Não são só sonhos se te deixam tão mal. — debateu o outro, fazendo com que imediatamente se arrependesse de ter iniciado aquela conversa. — Você até mesmo desistiu do seu livro, .
— Não foi bem isso, . — mentiu mais uma vez, tentando ignorar sua consciência que o acusava por isso. Agora não apenas ocultava fatos de , como também mentia sobre eles. Um grande progresso, claramente. E nem era como se fosse algo do qual se orgulhar. — Não foi isso que aconteceu.
— Então o que foi, ? Eu não consigo entender. Você finalmente conseguiu o que mais queria e então desistiu de tudo, menos de frequentar aquela mesma cafeteria em frente a editora todos os dias, como se namorasse um sonho que você nunca vai poder alcançar, exceto que conseguiu, mas desistiu. — falou de uma vez, aumentando o tom de voz em uma impaciência tão óbvia que deixou boquiaberto, chocado não só com o tom usado pelo amigo, que nunca havia levantado a voz para ninguém, quanto para o fato de que havia notado tudo aquilo. Não deveria ser surpresa na verdade, se parasse para pensar. Era , seu melhor amigo desde sempre, mas por algum motivo, nem havia passado pela cabeça de que tudo estivesse assim tão evidente.
— E… eu… — começou, mas se interrompeu sem saber muito bem o que dizer. Estava intimidado com a impaciência de e surpreso por ele saber tanto.
havia desistido do seu livro porque trabalhava na editora que o publicaria. E ia naquele mesmo café todos os dias porque também ia, sempre no mesmo horário, e daquela forma já haviam conversado algumas vezes, quando ele ia sem , mas todas as vezes tinha uma máscara cirúrgica no rosto, porque ela não podia saber quem ele era.
Não havia explicação lógica, não fazia sentido, mas sempre acontecia da mesma forma: Se usava a máscara, ela aparecia. Se ele não usava, mesmo que ela aparecesse, não se viam até que estivessem longe o suficiente para que ela não o reconhecesse.
E já tinha tentado de todas as formas dizer quem era, mas alguém sempre a chamava, ou o telefone tocava, ou algo explodia. Não tinha como fugir.
— Desculpa. — pediu ao notar a reação do amigo, mas negou com a cabeça porque apesar de sua fala, a insatisfação ainda estava ali e ele não conseguia esconder aquilo. — É que não faz sentido, . Nada que você faz tem sentido e independente do que esteja acontecendo, que eu não sei porque você não me conta, é evidente que você não está bem e eu não posso fazer nada.
— Mesmo que eu contasse não poderia, . — respondeu, receoso do que aquela fala poderia resultar, e exatamente como esperava se levantou de onde estava, negando novamente com a cabeça.
— Está bem. — falou, enquanto sentia seu coração apertar em conjunto com um arrepio que espremeu suas entranhas. era a única pessoa além de sua vó que ele ainda tinha na vida e como se não bastasse todo o sofrimento que já tinha com a maldição, ela ainda o afastava cada vez mais do melhor amigo, criava uma barreira entre eles, de coisas não ditas, de meias verdades, de mentiras. já se sentia sozinho em não poder compartilhar o que estava passando. Já se sentia mal em não poder ser sincero com a pessoa de quem nunca escondeu nada. Mas a possibilidade de perdê-lo foi pior o que tudo aquilo, ao ponto de fazer com que tudo ao redor deles parecesse se dissolver para . Ele queria gritar, queria poder falar o que estava acontecendo, mas a voz ficou presa em sua garganta, o ar lhe faltou, e ele só conseguiu ficar lá parado, em choque. — Eu vou embora, vou parar de falar isso, de te aborrecer.
… — falou, sem nem notar que o dizia. Sua fala era baixa, tão sem vida quanto se sentia, mas não pareceu se afetar por isso.
— Você entende que eu não posso só ficar parado, vendo você acabar assim? Eu não posso, . E se você não vai lutar, se você não vai tentar e nem me contar o motivo, eu não vou ficar. — e com essas palavras, virou as costas de uma vez, caminhando até a porta enquanto sentia o que restava de seu mundo se desfazer.
Solidão, era sobre aquilo que se tratava a maldição. E sobre ser tão feio por dentro que não conseguia se aproximar de ninguém.
O pouco de esperança que ainda tinha, se desfez ali. O pouco de conforto que ele tinha, foi embora e ele se deixou cair sentado na cadeira, abaixando a cabeça na mesa enquanto se controlava para não deixar cair mais uma lágrima ali.
sentia-se perdido, mas foi ali que ele tomou a primeira atitude. Não para salvá-lo daquela tristeza pois já havia tentado de todas as formas, mas para parar, pelo menos, de se torturar. Já que não podia ter , também não a veria mais. Ele tentaria viver sua vida, como seu pai havia feito. Mesmo que ele precisasse de tempo para descobrir como.
E ele precisaria. Essa era a única certeza que ele tinha.


Capítulo 02

havia decidido não procurar mais por , tampouco frequentar os lugares que ela frequentava, então imagine sua surpresa quando a mulher simplesmente parou ao seu lado em uma cafeteria totalmente diferente da qual conheciam, em um horário totalmente diferente também. Ela deveria estar no trabalho, do outro lado da cidade, mas ao invés disso estava ali e não pôde deixar de esconder a surpresa.
Ela riu ao notar, mas aquilo de forma nenhuma o ajudou a recuperar a compostura. O som da sua risada tinha um efeito totalmente calmante sobre ele, o fazia querer sorrir, ou rir junto, mas ainda assim, vê-la ali naquele lado, na vida real, era assustador de certa forma. Ela representava seus sonhos, era como vê-los acontecer diante de seus olhos e não importava quanto tempo passasse, imaginava que jamais se acostumaria com aquilo, até porque, a intimidade que tinham nos sonhos era muito maior, obviamente, já que lá ela sabia quem ele era. Ali ele podia até tentar, mas a sombra ao seu redor jamais permitiria que chegassem a tanto.
— Eu ia perguntar se estava me seguindo, mas pela sua surpresa mais parece que estava fugindo. — ela riu novamente, olhando para o painel com o cardápio de bebidas na parede pouco mais adiante. Quando não respondeu, no entanto, ela se voltou para ele, uma sobrancelha erguida como se perguntasse se era mesmo verdade, ele estava fugindo.
— Uhm… Um trabalho, aqui perto. — mentiu ele, já que sim, ele estava ali apenas porque ela não frequentava o local. — Você que não deveria estar aqui.
— Como não? — ela perguntou, e havia um certo tom de desafio em sua voz, fazendo com que ele imediatamente se desse conta de que ela nunca havia contado aquilo para ele. Sim, já haviam se visto mais de uma vez, e conversado, mas estavam sempre limitados em assuntos banais como tempo, atendimento do café, qualidade do local. Eram estranhos afinal, e sabia daquilo ainda melhor do que ele já que era quem conversava com ela em sonhos e não o contrário. — Não tem como você saber. — continuou, colocando ambas as mãos na cintura enquanto esperava uma resposta.
— Estamos longe da editora. — respondeu, decidindo que fingir que ela havia contado era a melhor solução. Já haviam se encontrado vezes o suficiente para que ela não pudesse ter certeza que de fato nunca havia dito.
— E como você sabe que eu trabalho lá? — ela questionou, exatamente como ele esperava.
— Você me disse. — respondeu sem vacilar, apesar da confusão que ela causava dentro dele, a euforia em seu peito. — Não é como se eu tivesse outra forma de saber.
— Não sei, seus trabalhos sempre envolvem rostos cobertos com máscaras. — disse ela, mas seu tom não denunciava real desconfiança. Ela falava mais como se fizesse um jogo e ficava satisfeito porque, bom, com aquilo ele podia lidar. — Você pode ser um maníaco me perseguindo.
Em provocação, puxou sua máscara sem tirá-la, mas apenas isso foi o suficiente para que o coração de viesse a boca. Não só pela possibilidade dela vê-lo de verdade, sem nada que escondesse quem ele realmente era, como também seu toque. Aquela era outra coisa com a qual não poderia se acostumar. Não quando algo de ruim sempre acontecia em seus sonhos quando ela o tocava, mesmo o menor dos contatos.
Como se notasse o constrangimento de com a atitude, ela riu, e ele desviou o olhar para o mesmo painel que ela olhava a pouco, para disfarçar.
— Mas eu cheguei primeiro. — respondeu sem encará-la, mas precisou fazê-lo novamente quando ela não respondeu. Apenas quando a olhou novamente, voltou a falar.
— Sabe o que eu acho, desconhecido mascarado? — ela começou, dando um passo em sua direção, mas ele recuou. Não precisava daquilo para tornar tudo ainda mais difícil para ele. Nem deveriam estar conversando, estar na presença dela deixava seu coração enlouquecido, em completa euforia e apenas faria com que a realidade fosse pior quando voltasse a se cair sobre ele. — Eu acho que você me segue sim. Mas não como um serial killer persegue sua vítima, está mais como um stalker que não tem coragem de se aproximar.
— E eu acho que sua autoestima está alta demais. — devolveu, e ela sorriu como se concordasse apesar de dar de ombros.
— Talvez. — confessou, antes de voltar a falar. — Sorte a sua porque já que você não me chama para um café, eu te chamo então. Mas aí você vai ter que tirar essa máscara e me dizer o seu nome.
foi de felicidade e esperança para um abismo escuro e doloroso. Por um lado, o convite e pelo outro as duas coisas mais difíceis que ela podia pedir. Era ali onde as coisas começavam a dar errado, onde eram impedidos por alguma força cósmica do além. E ele sabia que agora, graças aquele convite, doeria ainda mais saber que estavam fadados a distância. Se ele fosse uma pessoa normal, talvez tivesse chance, mas não era então aquele convite daria errado de alguma forma.
— Eu… — ele começou, pensando em uma desculpa que pudesse livrá-los de qualquer transtorno que poderia se seguir, mas ela novamente riu, como se achasse toda a sua confusão uma graça.
— Você nunca me falou seu trabalho. Agente da CIA? Por isso não diz seu nome e nem tira a máscara? — caçoou.
— Se você prefere acreditar que eu sou um stalker do que acreditar que você simplesmente me contou o que faz da vida, por que eu tenho que dizer?
— Por que sendo ou não stalker, sabe o meu. — ela respondeu, mas então parou por um instante, falsamente pensativa. — Por que eu te diria onde trabalho se nunca trocamos nomes?
— Foi só um assunto aleatório como todos os outros. Você não pergunta o nome de todo mundo que encontra por aí, só porque parou atrás deles numa fila.
— Pergunto quando paro todos os dias atrás deles em uma fila. — ela respondeu, e ele foi obrigado a rir com a insistência. — Esse sorriso foi um sim?
— Quem sorriu? — se fez de desentendido, e ela apenas ergueu uma sobrancelha.
— Não se faça de difícil, stalker. Essa é sua chance.
queria aceitar, obviamente. E seu coração dizia para fazê-lo antes de tentar dizer o nome ou tirar a máscara, já que essa parte sempre terminava com qualquer interação que estivessem tendo. Sua razão, no entanto, dizia para fazer algo que a afastasse, pedir para que parasse de puxar assunto, inventar que era casado, quem sabe, qualquer coisa que a mantivesse longe dele para que sua dor fosse menor, mas ainda tinha aquele lado que mantinha esperanças de que daquela vez ele conseguiria dizer, fazer com que ela ouvisse seu nome, o conhecesse, mas foi só abrir a boca para tentar dizer que tudo desandou.
Em um instante, as coisas estava bem, mas no outro a cozinha da cafeteria explodiu e o lugar foi tomado pela fumaça. O alarme de incêndio soou, as pessoas começaram a correr e , que em um instante estava ai, no outro simplesmente desapareceu no meio da confusão.
E nem precisava ser um gênio para saber que mesmo que a procurasse, não seria capaz de encontrá-la. Não ali.

+++

sabia que estava sonhando quando sentia o frio penetrar seus ossos. As vezes, ele nem se lembrava de ter dormido, mas então sentia o frio e sabia, entendia onde estava. Se dava conta de que aquela escuridão era o jardim escuro, coberto pela neblina.
Sentindo-se mais cansado do que nunca, suspirou. Nunca antes odiou tanto estar ali. Era normal ficar entre o repúdio e a expectativa, pois diferente da vida real lá ela ao menos sabia quem ele era. Mas era mera ilusão. Não passava de um sonho no qual ele se deixava acreditar, mas dessa vez nem mesmo pensar em vê-la conseguia acalmá-lo.
Vê-la doía e já vivia aquilo tempo o suficiente para saber que não tinha como fugir. Nada que ele fizesse mudava o quadro e mesmo que seu coração ficasse mais leve com cada sorriso dela, não compensava o que ele sentia quando estava longe ou pensava sobre isso. Estava fadado a viver dessa forma e não queria isso, queria tentar outra vida. Se aquela era a maldição da família, seu pai e seu avô conseguiram seguir adiante, afinal se casaram e constituíram outra família. Talvez continuassem sonhando com a pessoa deles, quem quer que fosse, mas viveram uma vida longe dela e ele precisava fazer o mesmo, ou tentar. Precisava fugir, ou enlouqueceria. E já sentia que estava enlouquecendo.
deu um passo à frente, mas não procurou o castelo dessa vez. o encontraria em qualquer lugar, ela o encontrava mesmo quando ele fugia ou não queria ser encontrado, não precisava fazer nada. Ele olhou ao redor, e pela primeira vez se perguntou o que significava aquele lugar, aquele jardim. Se é que tinha algum significado.
Mas não demorou para ouvir os passos, e iludindo-se como já fazia normalmente, tentou preparar o coração para ver a imagem dela a sua frente. Não podia voltar com a decisão que tinha tomado, mas sabia que vê-la o balançaria, o faria querer ceder.
Ela o fazia se sentir a pessoa mais masoquista da terra simplesmente porque não bastava que ela o torturasse, ainda a ajudava com isso constantemente. E bastou virar-se para ela para lembrar o motivo de tudo aquilo. estava tão apaixonado que podia sentir na pele. Não era tão simples quanto decidir se afastar. Tudo nela o puxava para si, não era possível ser racional. A razão simplesmente sumia quando ela aparecia e ele sabia que isso não era exatamente natural.
Com um audível "buh", praticamente se jogou sobre suas costas, abraçando-o por trás pelos ombros e fechou os olhos enquanto sentia tudo dentro dele fraquejar. Ele não se assustou ou vacilou, mas isso não impediu que algo dentro dele se revirasse com aquela proximidade, com seu toque.
Mas ela nunca havia feito isso porque ele se afastava ao ouví-la, porque sempre que estava ali ele se preparava para se afastar pois sabia que era naquele momento que ele voltava, acordava. E já estava acontecendo.
Seus braços ao redor dele, tão rápido quanto surgiram, passaram a sumir, e foi então que ele, em um momento súbito de coragem, segurou suas mãos já translúcidas e fez com que a garota o soltasse. Tão rápido quanto o fez, se virou de frente para ela e a puxou para perto, colando seus corpos. Não soltou as mãos de , e ainda pôde sentir o que restava do calor de seu corpo, aos poucos desaparecendo.
Estavam próximos um do outro, como já haviam estado mais de uma vez. Ele sentia a respiração dela contra seu rosto e aquilo também não era inédito, no entanto, diferente de todas as vezes que ela começava aquilo e ele congelava no lugar até que estivesse novamente em seu quarto, ele foi mais rápido, decidido a mudar aquela mesma cena que se repetia todas as noites. Antes que sumisse, aproveitou o que lhe restava de tempo e em uma última oportunidade, colou de vez seus lábios.
já havia decidido, iria para longe dela, a evitaria mesmo em sonhos, mas não antes de fazer aquilo, ele precisava sentir seus lábios ao menos uma vez nem que fosse ali, naquele mundo dos sonhos. Ele sentiu a surpresa de contra seus lábios, mas ela não tardou a fechar os olhos e abrir espaço para ele. Não tinham tempo, então agradeceu mentalmente por isso, mas só teve oportunidade para um roçar de línguas antes que tudo desaparecesse e ele estivesse de volta a sua cama vazia.
Sem abrir os olhos, permaneceu parado ali, imóvel. Pensou em tentar voltar para o mesmo sonho, queria, mas sabia que não era possível e, mesmo que fosse, que não podia. Estava feito, estava decidido. Não a veria mais, não se torturaria mais.
fechou os olhos, e virou-se para o lado. Não podia voltar a dormir porque sabia que voltaria a sonhar, mas seus olhos pesaram e ele até repensou a ideia. Antes de fechar os olhos como gostaria, no entanto, a claridade que entrava por sua janela lhe permitiu ver a flor azul sobre sua cômoda e se sentou confuso, pegando-a na mão sem tirar os olhos dela. Era uma rosa, a mais bonita que já tinha visto na vida, mas não tinha nenhum sentido que ela tivesse simplesmente surgido ali.
O rapaz olhou para os lados, mesmo certo de que não havia ninguém mais ali. Ele não sabia como, mas tinha certeza de que aquilo possuía alguma relação com o sonho embora não pudesse dizer o quê.
“O beijo poderia ter mudado alguma coisa?”, se perguntou, mas antes que pudesse pensar em uma resposta, a rosa desapareceu de sua mão, o fazendo questionar se não havia apenas imaginado.

+++

Com pesar, colocou em frente a sua livraria uma placa de “vende-se”. Ele não queria fazer isso, não queria se desfazer do seu negócio, mas era a única solução que ele via. A livraria havia começado com seu pai, quando este se mudou para a cidade, e sempre foi o porto seguro de . Já havia lido quase todos os livros ali, cresceu naquele lugar e queria poder cuidar dela pelo resto da vida, mas hoje entendia que o motivo para seu pai ter chego ali e aberto aquele negócio podia muito bem ter relação com a maldição, fugir dela exatamente como precisava fazer agora. Tinha certeza que seu pai entenderia.
Com a cabeça baixa e o coração pesado, voltou para dentro, sentindo um bolo na garganta pelo que estava prestes a fazer, mas ignorando a terrível sensação de pena antes mesmo de vender o local, se colocou a trabalhar, esgueirando-se pelas prateleiras a fim de guardar todos os livros que haviam sido devolvidos no dia anterior.
Ao longe, viu algo brilhar. Foi apenas um mero relance, mas ele deixou os livros onde estavam para se aproximar da prateleira em questão. Novamente, notou o brilho. Era um livro azul e ele sentiu o coração disparar, não podendo deixar de lembrar da misteriosa flor azul no seu quarto na noite anterior. Ela havia sumido, mas ele sabia que havia estado lá. Pôde sentir sua textura, lembrava dos espinhos e até mesmo de seu perfume. A flor havia existido, assim como podia ver aquele estranho livro azul brilhar. Um que ele nunca antes havia notado ali.
pegou o livro em mãos, e sentiu todo seu corpo gelar ao notar a rosa azul em alto relevo na capa do livro. Era exatamente igual a rosa da noite anterior e a fonte do brilho no livro de aparência antiga. E era um brilho inexplicável. Um brilho que nenhuma espécie de efeito holográfico poderia causar. Não era natural, não tinha como ser, e com o coração eufórico, já prestes a sair pela boca, abriu o livro fim de checar seu conteúdo, esperançoso de que ali houvesse alguma resposta.
Mas o livro não tinha título. Na primeira página, já envelhecida e amarelada pelo tempo, apenas um desenho, um jardim abandonado com um castelo ao fundo, se desfazendo, e imediatamente prendeu a respiração. Receoso, passou uma das mãos pela página, sentindo o relevo do papel. Imediatamente, sentiu o vento gelado e cortante que sentia apenas no jardim, como se penetrasse sua alma, mas não viu nada mais dentro da livraria se mover com o vento, como se apenas ele fosse capaz de senti-lo.
se perguntou o porquê daquilo agora, quando havia decidido deixar tudo para trás, ou se o fato de ter decidido aquilo que havia mudado algo, mas virou a página, deixado-se procurar por alguma pista que pudesse por fim naquele sofrimento.

“ Qual é o seu nome?
Você tem algum lugar para ir?
Oh, você poderia me dizer?
Eu vi você se escondendo neste jardim

E eu sei
Seu calor é real
Sua mão colhe as flores azuis
Eu quero segurá-la, mas...

Esse é meu destino
Não sorria para mim”


engoliu em seco com os versos contidos ali, sentindo cada palavra queimar dentro de si. Se identificava com elas mais do que gostaria. Viu nelas a maldição que o atormentava e com a mão tremendo, mas sedento por saber o que mais poderia ter escondido ali, virou outra página.
Novos versos surgiram, e com o estômago embrulhando e a pressão despencando, ele leu atentamente, buscando por qualquer pista que pudesse encontrar, sobre qualquer coisa. Toda informação era útil, visto que ele diariamente convivia com aquilo sem saber nada.

"Poderia a solidão, ter um fim?
O que fazer para se salvar da dor sem igual?
O desafio é lutar contra o destino
Ou descobrir como lutar

Não sorria para mim
Sua própria maldição nos impede de vencer
Sua própria maldição te impede de lembrar
Sonhos esquecidos
Dores são apagadas ao despertar"


— "Sua própria solidão". — repetiu, assustado com o que acabara de ler. O livro falava dela? Se a maldição dele era escrita em primeira pessoa, então só podia ser ela.
desejou, mais do que tudo, que o livro fosse escrito em texto e não versos. Ou que houvesse pelo menos um manual de instruções para que encontrasse a correta interpretação, mas até parece que qualquer coisa o envolvendo poderia ser fácil, jamais. E ele sabia que interpretar aquilo daria tanta dor de cabeça quanto todo o resto.
— "O desafio é lutar contra o destino." O que diabos isso deveria significar? — perguntou a si mesmo mais uma vez, e com o coração prestes a sair pela boca, virou mais uma página, torcendo para que a próxima fosse mais clara.

"Sim, há um fim”


— Céus… — se interrompeu ler a primeira frase, mesmo que houvesse mais naquela página. Ele arfou, e releu cada palavra incontáveis vezes para ter certeza de que havia entendido certo. "Sim, há um fim", e aquilo despertou nele a maior vontade que já havia tido de gritar, mas se obrigou a ler o resto.
Se tinha um fim ele precisava saber qual era e isso o motivou a continuar, mesmo que houvesse uma parte dele temendo se deixar ter esperanças graças a um livro que ele sequer sabia de onde havia saído.
E se o único propósito daquilo fosse machucá-lo ainda mais?
Mas ele não podia evitar acreditar e por isso continuou ainda assim, temendo a esperança que se instalou em seu peito mesmo contra a sua vontade.

"Sim, há um fim
Mas os espinhos cobrem as flores azuis
Como a neblina cobre o jardim ao cair da noite
O destino é a solidão
A perseverança o obstáculo
E o amor o fardo"


— Mas que porra… — sussurrou, ainda mais perplexo do que antes simplesmente porque aquilo não fazia qualquer sentido. Existia um fim, mas seu destino era não encontrá-lo? O que aquilo deveria significar?
! – ouviu a voz de muito perto e pulou de susto, fechando o livro em um reflexo imediato. não havia notado que o espinho da flor na capa do livro também era em relevo e tampouco que era de fato pontiagudo como um espinho, assustando-se pela segunda vez ao cortar o dedo com a capa do livro. O objeto foi ao chão quando , também por reflexo, o soltou e o rapaz levou o dedo cortado até a boca a fim de sugar o filete sangue que passou a escorrer dali. – Você vai vender a livraria?! – continuou, mas , ainda ligeiramente atordoado pelo que havia lido, levou alguns instantes para entender do que se tratava.
Quando lembrou, deixou o queixo cair em um “ah”, tirando então o dedo da boca.
— Eu... Sim, eu vou. – falou, mas já não tinha mais tanta certeza. Se havia um jeito de quebrar a maldição, ele queria quebrá-la. Precisava tentar. Mas por outro lado, algo dentro dele se perguntava se não podia ser uma armadilha da maldição para mantê-lo ali. Podia ser paranóico de sua parte pensar isso, mas se tinha um jeito, como ninguém nunca havia descoberto?
Pensando sobre o livro, levou alguns instantes para se dar conta de que ainda esperava uma resposta. Algo mais esclarecedor que “sim”, pelo menos. Um motivo para aquilo, e chacoalhou a cabeça para tentar focar-se ali, naquele momento.
— E você pretendia me contar? — insistiu no assunto quando o outro não deu qualquer indício de responder. — Vender a livraria? De onde você tirou isso?! — se exaltou. — Esse lugar é a sua vida!
— Talvez eu precise começar outra. — respondeu simplesmente, mesmo que isso não fosse ter qualquer sentido para que não sabia a história completa.
— O quê? Por quê? , o que está havendo? – perguntou, mas já não sabia mais. Precisava de um tempo, e precisava ler aquele livro inteiro, do começo ao fim. Era só nisso que pensava, no livro. Tinha tanto para interpretar, descobrir. Deveria ter cerca de duzentas páginas. Alguma delas teria que ser útil.
, podemos... Conversar depois? — tentou, ciente de que aquela conversa agora não levaria a lugar nenhum. tinha a cabeça em outro lugar enquanto só queria gritar com ele, não que tirasse a razão do amigo.
— Conversar depois? ! – exclamou, chocado. – Você... Você pretendia ir embora sem dizer nada?
— Não é como se eu fosse vender hoje e ir embora amanhã, . — respondeu, agora também um pouco impaciente devido a insistência de .
— Então você pretendia me contar? – quis saber, mas a verdade era que nem tinha tido tempo em pensar nisso ainda, então, não. Mas , é claro, notou seu vacilo de imediato. – Você não ia?!
— Eu ia! Eu ia! – falou rapidamente, e não era mentira porque ele sabia que jamais faria aquilo, de simplesmente sumir sem dar satisfações logo para o melhor amigo.
— Então por que não parece?
eu só... Eu só não pensei em nada. Eu coloquei a placa há 5 minutos e entrei. Eu não tive tempo de pensar nisso. — tentou se defender, mas não pareceu convencido.
— De pensar o quê? Se valia a pena me contar? — dramatizou exageradamente, mas sabia que apesar do tom debochado, ele estava sim magoado. Aquele tipo de decisão, de vender o negócio mais importante da sua vida, era algo que normalmente discutiria com antes de fazê-lo, mas não foi o que fez e ainda teve que descobrir sozinho porque ele sequer ligou para contar.
não é isso! — tentou, mesmo sabendo que havia errado. — Será que você pode me escutar?
, escutar é o que eu mais quero, você que não está falando! A livraria é o seu lugar, porque você está vendendo?
— Por que não me sinto mais bem aqui! — explodiu, dizendo de uma vez o que sentia independente da confusão que sentiria por não estar ciente de nada daquilo. — Não na livraria, nesse lugar.
— Desde quando, e por quê?! — perguntou, já que repentinamente parara de conversar com ele. Contavam tudo um para o outro, dúvida, incertezas, inseguranças, mas de repente parecia não saber mais nada de sua vida e aquilo era tão frustrante para quanto ele sabia que era para .
queria poder contar para o melhor amigo, mas só não podia. Tinha medo que o achasse tão louco quanto aquilo soava para seus ouvidos quando era apenas uma história contada a ele por seu avô.
— E... eu... — começou, mas não sabia responder àquela pergunta. — , essa parte é complicada. Você não entenderia.
— Não entenderia? — questionou, parecendo muito mais decepcionado com a afirmação do que bravo ou ofendido. Sempre entenderam um ao outro, mesmo sem palavras. Sempre confiaram um no outro, e soube que não deveria ter dito aquilo imediatamente.
, não foi isso que eu quis dizer...
— Está tudo bem. — o cortou, e sorriu fraco para . Um sorriso triste, que partiu seu coração em pedacinhos. Um sorriso decepcionado, e se odiou por tê-lo decepcionado. — Eu não vou mais te pressionar a dizer nada se não quer contar. Eu te amo, te desejo toda sorte do mundo, então se quiser fazer isso, mesmo sem me contar porque, tudo bem. Vou aceitar. – falou ele, mas ao virar as costas para se afastar, deixou claro que aceitaria pela amizade que tinham um pelo outro, mas que não entendia ou ficaria do seu lado, até porque, não estava dando abertura para que ficasse.
Sem dizer nada, ficou ali, vendo se afastar, enquanto as últimas palavras que lera no livro ressoavam em sua mente “o destino é a solidão”.
engoliu em seco, temendo aquilo mais do que tudo, mas ao se voltar para o livro a fim de buscar nas páginas alguma forma de resolver seus problemas, notou que ele simplesmente não estava mais ali.
olhou rapidamente para os lados, assustado, mas não havia ninguém ali que pudesse pegar o livro e levá-lo embora. Assim como a flor, ele havia sumido, sua única esperança havia desaparecido e algo dentro dela já sabia que era para ser daquela forma. Que o livro jamais seria encontrado.


Capítulo 03

A chuva caia torrencialmente do lado de fora quando , sem guarda-chuva, saiu da livraria naquele final de tarde, após conversar com o corretor de imóveis que mostraria o local para o primeiro potencial comprador.
E se recusava estar lá para ver isso.
Não passava das 18h, mas estava escuro como se já fosse mais de 23h e quase cogitou a possibilidade do tempo estar refletindo seu estado de espírito.
Era como se só então ele tivesse notado que era real. Estava mesmo tentando vender sua livraria para fugir da maldição. A chuva lhe acompanhar até em casa parecia irrelevante perto disso.
não vira aquela tarde como sempre acontecia quando ele passava na cafeteria e também não atendeu o celular quando ligou. O livro que podia desfazer todo o mistério da sua vida, também não foi encontrado, mas aquela parte nem havia lhe surpreendido de fato. Fazia até mais sentido do que ter um livro, na verdade, afinal, agora ele sabia que tinha como quebrar a maldição, mas não tinha ideia de como e isso só era pior.
Agora ele tinha que escolher entre ir embora e viver sua vida, mesmo que talvez jamais fosse totalmente completo, e entre ficar ali e lutar para quebrar a maldição, mesmo que talvez ele nunca conseguisse quebrar e apenas terminasse por sofrer ainda mais.
Era uma escolha difícil, e ele não se sentia pronto para fazer. Mas não fazer significava ficar e indiretamente acabava sendo uma escolha também.
Distraído, não se deu conta de que seus pés o guiaram para a editora onde trabalhava até que trombasse em alguém, ironicamente, ela, já que tudo parecia conspirar contra ele, jogá-los um para o outro apenas para que sofressem com o fato de não poderem ficar juntos.
estava molhado, as roupas coladas no corpo mesmo que fossem pesadas: Um moletom três vezes maior que ele com um gorro sobre a cabeça. Jeans rasgados e coturno nos pés, isso tudo com a boa e velha máscara cobrindo seu rosto, como de costume, mas se perguntou se a encontraria se estivesse sem ela. Muito provavelmente não.
— O desconhecido mascarado. – falou com um sorriso assim que o reconheceu, bem humorada apesar da chuva forte caindo sobre eles. usava um guarda-chuva transparente, e cobriu também com ele, só depois notando que ele estava ensopado e deixando seu sorriso morrer por isso. – Céus, há quanto tempo está andando nessa chuva? Vai ficar doente!
Ela tocou seu braço, como se checasse o quão molhado ele estava, e precisou se esforçar para não recuar por reflexo, como fazia em seus sonhos a fim de não acordar.
— Está tudo bem, já estou perto de casa. – mentiu ele, tentando se afastar para voltar a andar e, principalmente, se por longe dela até que decidisse o que fazer, mas o impediu, segurando-o pelo braço e aproximando de volta o passo que ele deu para longe, evitando que saísse debaixo do guarda-chuva.
— Meu carro está logo ali, eu te dou uma carona, vamos.
— Não precisa, obrigado. – respondeu, tentando soar o mais calmo possível mesmo quando, obviamente, não estava. Especialmente estando novamente tão perto dela depois do último sonho. Isso e o fato de estarem ali logo quando queria se afastar, ou o de só conseguir pensar em arrancar aquela droga de máscara e roubar outro beijo, um de verdade, ali no meio da praça e embaixo da chuva. Será que conseguiria? Ali costumavam poder se tocar, mas sempre que ele tentava mostrar sua identidade, bom, algo ruim acontecia. Era difícil saber. E com a sorte dele, era capaz de cair um raio sobre eles. Era melhor nem arriscar. — Minha casa é realmente logo ali. — mentiu, mas ela não pareceu convencida apesar de soltá-lo.
— Você realmente está fugindo, não está? – ela quis saber, e não conseguiu esconder o choque de ser surpreendido com aquelas palavras. – Eu te convidei para tomar café e você sumiu. Também não me diz seu nome quando eu pergunto, ou tira a máscara. Eu sei que te reconheceria sem ela, seus olhos são familiares. – continuou, deixando-o totalmente perplexo com a afirmação. Ela estava sendo torturada por aquilo tanto quanto ele. Ela queria saber, queria se aproximar, e como prova, quando não se moveu ou disse qualquer palavra, apenas congelado no lugar, ergueu uma das mãos para a máscara que cobria seu rosto, e teria tirado se não a segurasse, impedindo que ela o fizesse. Ele fez com que ela abaixasse a mão, de volta para a lateral de seu corpo, mas não a soltou, entrelaçando seus dedos e ela não se importou em soltar, devolvendo o leve aperto de suas mãos. – Eu te conheço, não conheço? Já te vi antes sem a máscara, saberia quem você é sem ela, não saberia? Por que você está se escondendo e não me deixa saber?
— Você talvez já tenha me visto, mas com certeza já ouviu meu nome, só que não lembraria. – optou por responder, sentindo-se próximo dela como nunca antes havia estado com aquela conversa. Mais próximo do que se sentira ao beijá-la. Estavam no mundo real, não em um sonho. Suas mãos juntas, ambos próximos demais para se esconder embaixo de um pequeno guarda-chuva naquela chuva torrencial, mas nem o frio por estar molhado sentia mais. Ele só conseguia manter o foco em seus olhos, presos aos dele e cheios de curiosidade e melancolia, como se ela estivesse sofrendo tanto quando ele com tudo aquilo. — Não foi relevante. – disse ele, mas ela negou com a cabeça.
— Eu tenho certeza que foi. – respondeu, e tentou ignorar o que aquela afirmação fazia com ele. – Aceita a carona. – ela pediu, e ele quis aceitar, mais do que tudo, mas se perguntou o que aconteceria dentro do carro, sobre o que conversariam, ou o que ela perguntaria. Se teria como fugir, especialmente quando no fundo, nem queria, e como a maldição tentaria impedir. Da última vez a cozinha de um café explodiu. Pessoas poderiam ter se machucado, ela poderia ter se machucado, e dentro de um carro não tinha como ser melhor. E se ele tentasse dizer e terminassem em um acidente? E se ela perdesse a vida por isso? Ele não podia arriscar e por esse motivo soltou sua mão, negando com a cabeça sem esconder o pesar que sentia sobre os ombros.
— Não precisa. – respondeu, dando um passo para trás, e ela deixou seus ombros murcharem um pouco.
— Eu sei que não, mas a carona é só uma desculpa para perguntar seu nome outra vez. – ela respondeu com a voz um pouco mais baixa, decepcionada, mas ele não disse nada. — Você sabe disso. – continuou. – Eu quero saber como te chamar, porque não pode me dizer?
”, ele respondeu mentalmente, porque sabia que não conseguiria fazê-lo em voz alta. Era só uma palavra, era simples, mas se ele abrisse a boca, algo sairia de seu controle e o trovão que soou no céu pareceu fazê-lo apenas para relembrá-lo do perigo disso.
— Eu tenho que ir. – sussurrou ao invés de respondê-la, e viu a insatisfação em seu olhar. – Me desculpe. – pediu no mesmo tom, já dando mais alguns passos para trás, e ela não tentou se opor, apenas olhando para ele enquanto, passo a passo, tomava distância.
— Vamos continuar nos vendo? – ela perguntou, e ele foi obrigado a concordar porque sim, ele sabia que sim. Cruzavam o caminho um do outro mesmo quando não queriam cruzar. A maldição os acompanhava por todos os lugares. – E você vai dizer quem é algum dia? – tentou novamente, e dessa vez ele não pôde responder porque simplesmente não sabia.
— Tchau, . – ele disse apenas, antes de dar as costas para ela de uma vez, ciente de que ela se daria conta de que nunca havia dito o próprio nome para que ele soubesse.
— Eu vou descobrir, mesmo que você não me conte. Eu posso descobrir. – disse, levantando o tom de voz para ser ouvida sobre a chuva, e de todo coração torceu para que ela conseguisse.
Naquela tarde, voltou para a casa com a certeza de que sim, algo havia mudado. De que ela sentia algo, mesmo que talvez entendesse de onde vinha tanto quanto ele. voltou para a casa sem saber se deveria se sentir feliz por talvez ser correspondido ou ainda mais triste por saber que ela sofreria com a maldição também. voltou para a casa ainda mais confuso entre ir embora e ficar, para descobrir como reverter aquilo e também com raiva por ter que enfrentar uma maldição que ele não sabia nem ao menos de onde tinha vindo, ou porquê.

+++

Quando abriu os olhos estava no jardim e cruzou os braços em frente ao peito para evitar o frio. A neblina, como sempre, era alta, mas podia ver um ponto de luz um pouco mais a frente, próximo ao chão. Ciente de que, como todas as vezes, o encontraria onde quer que fosse, seguiu em direção a luz, curioso para ver o que quer que fosse aquilo, afinal, todos os dias ali eram noites iguais, mas nunca, desde que aquilo havia começado, vira qualquer luz no jardim, a não ser quando finalmente aparecia.
Sem saber para onde estava indo, seguiu a fonte de energia, não tardando em encontrá-la. Era uma flor, ele pôde ver mesmo ao longe, e como nada ali era simples coincidência ou natural de qualquer forma, ele soube, antes mesmo de se abaixar para pegá-la, que se tratava de uma rosa azul. Era sempre a rosa azul, mesmo que ele não soubesse o que significava aquela cor de rosa.
pegou a flor em sua mão e cuidadosamente, a tirou do chão, tomando a rosa para si. Ela estava cheia de espinhos, mas o rapaz cuidou de não se espetar em nenhum deles. A rosa azul era a flor mais linda que ele já havia visto e só pôde pensar em compará-la com . Tinham a mesma beleza, a mesma magia e acalmavam seu coração da mesma forma, independente de não poder explicar o motivo de tal tranquilidade ao olhar para a flor.
Com a flor ainda em mãos, buscou então o castelo de areia. Desejou poder presentear com aquela rosa, ali não seria estranho fazer isso, mas estranhou o fato de não encontrar o castelo de imediato. Levou alguns instantes para se dar conta de que a neblina estava mais forte do que o normal também e notar aquilo fez com que todos os pelos de seu corpo se arrepiassem. De alguma forma ele soube que algo estava errado. Não era só a flor que havia mudado, tinha algo mais, e sem pensar duas vezes, passou a caminhar em direção ao castelo.
! – ouviu um grito de socorro, e reconheceu a voz como sendo de sem qualquer dificuldade. Ela gritava e ele imediatamente esqueceu-se da rosa, deixando-a onde estava para correr em direção ao castelo.
! – ele gritou também, e ouviu um “socorro” em retorno, deixando-o apavorado. O que era dessa vez? O que mais estava errado? O jardim sempre fora seguro para ela, mesmo o castelo de areia, mas foi só chegar mais perto para que ele entendesse o que estava acontecendo.
O castelo estava se desfazendo, e estava no alto da última torre, gritando por ajuda.
! – ela repetiu, assustada, e ele olhou para os lados tentando pensar em alguma coisa, qualquer coisa, mas não havia nada ali além de folhas e plantas mortas. – . – ela repetiu, mas agora não soava mais como um grito, era como um chamado, e ele a encarou, não gostando nem de longe do olhar que encontrou em sua face.
— Não. – disse, mas ela negou com a cabeça.
— Se eu pular, a areia me soterra e se eu ficar, também. – falou, muito mais conformada do que deveria estar para alguém que falava da própria morte. – E não tem como tentar subir, porque a areia vai derrubar qualquer coisa no caminho. Não tem o que fazer.
— Tem que ter. — insistiu, não aceitando a ideia de vê-la partir mesmo em um sonho. Não podia dizer o quanto aquilo afetaria a realidade.
— Não tem. — ela negou. — Mas tudo bem.
— Como tudo bem?! — ele exclamou, perplexo demais. Aquela não sabia que era só um sonho, como poderia então simplesmente aceitar a própria morte, se não sabia que havia mais?
Mas foi com sua próxima resposta que tudo mudou:
— Eu me lembro. — disse ela, fazendo com que deixasse o queixo ir ao chão.
— O quê?! — respondeu em reflexo.
— Do beijo, eu me lembro. – explicou, com um sorriso. E nem era como se ele precisasse de mais para ficar totalmente sem fala. – Todos os dias foram iguais, até o beijo. E agora o castelo está se desfazendo.
— Do que você... — ele começou, mas ela o interrompeu ao negar com a cabeça, voltando a falar.
— Eu lembro, eu lembrei dos outros sonhos depois. E soube que era um sonho, só um sonho. — respondeu, tranquila como ele definitivamente não estava. — Algo mudou. Aquilo mudou, e tudo bem, porque é só um sonho.
Mas só dela dizer aquilo, fez com que o medo se alastrasse por todo o seu corpo. E se não fosse mais só isso agora que ela sabia? Sim, algo havia mudado e justamente por isso não tinha como saber o que viria agora. E se ela morresse também na vida real? Não tinha como imaginar as dimensões daquilo.
sentiu-se apavorado, sua garganta pareceu fechar, mas lutou para manter-se focado em quando esta voltou a falar.
— Você... Você ainda pode me encontrar na vida real, não pode? – ela perguntou, mas tinha lágrimas em seus olhos. Era uma despedida e céus, por mais que ele quisesse se despedir, não era daquela forma. Ele queria saber que ela estava bem, que estava feliz, que continuaria sua vida como se ele nunca tivesse existido, que seguiria em frente e teria saúde para isso. precisava que ela ficasse bem.
, eu não sei. — ele respondeu, vacilando ao notar sua própria voz embargada. — Eu... Você lembra, na vida real?
— Não sei, não me lembro de acordar, ou de vir pra cá, não sei se lembro, não sei… — respondeu, claramente confusa, e não saber o que aquilo significava apenas o perturbava ainda mais.
— Nós nos conhecemos, mas você não pode saber quem eu sou do outro lado. Não tem como. Faz parte.... disso.
— Ah, ... — ela falou em um suspiro melancólico, uma mistura de dor e pesar. — Por que isso? Por que acontece?
— Eu não sei. – respondeu, sincero. Saber que era uma maldição não explicava muita coisa na verdade. Ele não sabia porque existia, porque ele, ou como havia acontecido. Não sabia de absolutamente nada.
— Queria poder te beijar uma última vez antes de acordar. Te beijar de verdade, mas acho que isso também não tem como, certo? — perguntou com um sorriso triste, enquanto outra lágrima escorria de seus olhos.
— Não. — respondeu com a mesma tristeza, e sentiu quando uma lágrima escorreu de seus próprios olhos.
— É uma pena. — ela sussurrou.
E então, diferente do que esperavam com o desabamento do castelo, o que levou sua vida foi um raio caído direto do céu, o único, visto que não chovia ou trovejava até então. Ele veio solitário e tão repentinamente que só tiveram tempo de ver o brilho antes que tudo acontecesse. Em um segundo, ela estava ali, de pé sobre o castelo em ruínas e no outro, caia pela janela ainda inteira da torre. correu em sua direção, tentando segurá-la antes que se chocasse contra o monte de areia formado no chão, mas antes que se tocassem, ele acordou, diferente de todas as vezes em que isso era necessário para que ele acordasse.
despertou em um sobressalto, seu coração prestes a pular de seu peito, sua cabeça tão acelerada que tudo parecia girar. Sem sua permissão, lágrimas começaram a cair de seu rosto e só pôde imaginar que, se havia acordado antes de se tocarem, era porque ela havia morrido.
Sem pensar duas vezes, levantou da cama e calçou os chinelos. Precisava encontrá-la, precisava saber que aquilo havia acontecido somente em seus sonhos e que ela continuava viva e bem. Precisando de apoio para isso, ligou também para , sem se importar com o horário e torceu para que o amigo ainda estivesse disposto a ouvir o que estava acontecendo, pois independente de estar ou não bem, precisaria da ajuda do amigo e sabia, só podia contar com ele.

+++

— Você acredita em mim? – perguntou a após contar toda sua história, a verdadeira história. Contou a maldição, os sonhos. Contou sobre tê-la perseguido por todo esse tempo ali também, na vida real, contou tudo enquanto esperavam por em frente ao prédio da editora, aguardando e torcendo para que ela chegasse logo para o expediente. Logo e em segurança, diferente do sonho que ele havia tido.
— Eu acredito que você acredite nisso, e sua família. – respondeu, e o simples fato dele não o encarar como se fosse louco, já acalmou, mesmo que ligeiramente, o coração de .
...
— Eu não vou julgar, nem discutir. Eu prometi que não iria, então não vou. Acredito que seja isso que te aflija e embora não acredite em uma maldição, estou do seu lado.
Não era a resposta que queria, mas era com certeza melhor do que ele esperava de fato, então apenas suspirou e aceitou aquela resposta como sendo a melhor reação que poderia ter imaginado.
— Entende porque eu tenho que ir então? — perguntou, e após suspirar, concordou com a cabeça.
— Eu entendo, mas vender a livraria, ? Posso cuidar dela pra você por um tempo se for necessário, mas vai se arrepender se vender. — tentou alertá-lo.
— Eu preciso ir embora, . Eu preciso me afastar. E se isso for um presságio? E se... E se aconteceu algo ou isso seja um indício de que vai acontecer se eu continuar? Não posso arriscar.
— Foi um sonho, eu tenho certeza que ela está bem, . Logo ela aparece, vamos ter fé.
— Mesmo que ela estiver bem, não posso continuar com isso, não posso deixar que ela me procure como disse que faria. Não sabemos o que isso pode custar a ela.
— E se não custar nada? E se essa for a intenção? Você não pode chegar até ela, mas e se for algo que dependa dos dois, ou que seja a vez dela de encontrá-lo? Não tem como saber.
— Exato, não tem. Por isso tenho medo de arriscar. — respondeu, mas a conversa foi interrompida quando desviou sua atenção para o outro lado da rua, para , que atravessava para o prédio da editora. imediatamente deixou o ar escapar de seus pulmões, totalmente aliviado por vê-la de pé e bem, com o mesmo sorriso de sempre no rosto.
— É ela? – perguntou, e ele concordou com a cabeça, sem tirar os olhos dela. conversava com uma amiga, e lembrar da despedida da noite anterior, no sonho anterior, no caso, quase o fez chorar de alívio. Ela estava bem, mesmo que o mal presságio que ele sentia ainda estivesse ali. – Ela me parece familiar. – disse , mas mal notou, ou sequer viu a expressão confusa no rosto do amigo.
— Você vai fazer, o que eu pedi? – voltou a chamar a atenção de , que desviou o olhar dela para se focar no amigo, mesmo que ainda estivesse um tanto quanto confuso. – O que foi? – perguntou, mas chacoalhou a cabeça.
— Nada, fala. – pediu, e então continuou.
— Você vai fazer? Vai cuidar da venda da livraria? — quis saber, mas ainda parecia relutante com aquela parte da idéia.
, vender o negócio, você vai mesmo fazer isso?
— Eu posso começar em outro lugar, . Eu preciso.
sabia que não concordava, mas como um bom amigo que sempre soube, ele era, concordou, permitindo que sorrisse aliviado.
— Pra onde você vai? — perguntou e o outro suspirou antes de falar:
— Para perto da minha vó por enquanto. – disse ele. – Depois eu penso no resto, eu só... Eu só preciso ir pra longe.
— Não entendo, nem concordo, mas eu ajudo, com o que precisar.
— Eu sei. — concordou, estendendo uma das mãos para que tocasse. — Obrigado. — agradeceu, e o outro aceitou sua mão.
— Pode contar comigo. — garantiu, mesmo que não precisasse dizer aquilo, sempre saberia.
Melancólico, abriu os braços e mesmo com uma careta totalmente fingida, se juntou a ele em um abraço.
— Eu tenho que ir agora, você precisa trabalhar e a livraria ainda não está vendida, então... Precisa abrir.
levou uma das mãos até a maçaneta na porta, e de costas para , não viu quando o amigo deixou o queixo cair, perplexo com algo.
. – ele chamou, e o outro se abaixou para olhar para dentro pela janela do carro. – Qual o nome dela? – perguntou, e franziu o cenho, sem entender o motivo da pergunta.
, por quê? – quis saber, e lutou para controlar a expressão de choque. Não que , com anos de convivência com ele, não tivesse notado. – Você tinha dito que ela era familiar, não tinha?
— Ahn, não... Foi... Engano, eu acho. O nome não é o mesmo. — desconversou, mas franziu o cenho.
— De onde achou que a conhecia? – quis saber, desconfiado, mas negou com a cabeça.
— Eu nem sei direito, na verdade. Acho que do escritório, mas não faz sentido também. Ela não teria porque ir lá.
concordou, e se afastou do carro para que pudesse dar partida. Soou estranho, mas decidindo que não tinha nada a esconder dele, apenas se afastou do carro, acenando para que ele pudesse partir.


Capítulo 04

Alguns dias longe e sentia-se à beira da morte. Ele sabia que a maldição o deixava doente, fisicamente doente, mas achava que era o contrário, que ficar perto e se torturar que o matava e que a solução fosse se afastar, mas aparentemente estava enganado, podia acrescentar aquilo na lista de coisas que não entendia sobre o que estava passando. Seu pai não parecia doente, mesmo longe da fonte de sua maldição, então talvez que estivesse fazendo algo errado. Quem sabe fosse o fato de não ter superado de verdade, ou então tê-la beijado. Desde que morreu em seus sonhos, jamais voltou a aparecer no castelo, mesmo que ele ainda o visitasse todas as noites. Ou pelo menos as ruínas que restaram dele.
desejou mais uma vez que tivesse um manual. Um manual de verdade, feito por seus familiares que viveram aquilo e não um livro misterioso com versos enigmáticos que desaparecia no ar. Algo real, como um caderno com palavras escritas a mão. Ou um arquivo em pendrive com tudo que se precisava saber.
Mas talvez ninguém nunca tivesse descoberto e deprimido ao pensar nisso, se remexeu na cama, ainda sem levantar, mas o som do telefone tocando do outro lado da porta chamou sua atenção. Não estava em sua própria casa e quem quer que estivesse ligando, com certeza não era para falar nada que ele devesse saber, mas sua curiosidade fez com que ele prestasse atenção no assunto quando sua avó atendeu o aparelho.
— Oh, sim. É aqui. – a mulher falou docilmente, como de costume. – Mas ele não pode atender, está se sentindo meio indisposto. Mas posso passar o recado, pedir que retorne.
Não precisava ser um gênio para saber que falavam dele, já que era a única outra pessoa na casa além de sua vó, então levantou da cama e calçou os chinelos. vestiu um moletom para se proteger do frio em Busan e por fim abriu a porta, ouvindo sua vó marcar um telefone de contato sem saber o motivo. chegou a sala ao mesmo instante que sua vó devolvia o telefone a base, a franziu o cenho ao se aproximar.
— Era para mim? – perguntou enquanto se aproximava da mulher com ambas as mãos escondidas no bolso do moletom e a mulher bateu no espaço ao seu lado no sofá, pedindo que se juntasse a ela.
— Sim, querido. pediu que ligasse, era um comprador para a livraria. – falou, puxando para se deitar com a cabeça em seu colo como se fosse um bebê. — Quer se encontrar com você para fechar o contrato. – explicou, e aceitando o mimo de sua vó, suspirou. Ouvir aquilo havia doído mais do que ele esperava. Não queria de verdade vender a livraria. Não queria se livrar do lugar que tinha tantas lembranças de sua família, o local que seu pai conquistou e fez prosperar com tanto esforço e, agora sabia, passando por cima de uma perda pessoal tão grande, que foi deixar para trás um amor tão forte quanto o que sentia por a fim de formar uma outra família.
— Você não quer vender de verdade, quer? – a mulher perguntou, e negou com a cabeça, não vendo motivos em negar. – Então por que vai fazer isso? – quis saber, enquanto mexia delicadamente nos cabelos de . – É a maldição? – falou, e imediatamente se sentou no sofá para encará-la, surpreso que ela soubesse sobre aquilo.
— Maldição? – perguntou, muito bem ciente do que se tratava, óbvio, mas que sentido tinha ela saber? – Como...?
— Seu avô e seu pai passaram por isso antes de você. Achou que eu nunca ia notar quando se repetisse?
— E... eu... Nunca imaginei que você pudesse saber.
— Claro que sim. – a mulher afirmou, antes de começar a contar a história. — Conheci a paixão de seu avô, éramos melhores amigos na época e acompanhei tudo de perto. Quanto percebi que estava apaixonada por ele a coisas ficaram mais difíceis, acreditei que jamais teríamos chance porque a maldição nunca permitiria. Ele era dela, estava fadado a sofrer por ela mesmo que nunca pudesse tê-la, mas com o tempo ele me enxergou, decidiu não se torturar mais por alguém inalcançável. Eu sempre soube que os sonhos ainda vinham às vezes, mas éramos felizes e nunca duvidei do quanto seu vô me amou. Sempre amou, mesmo quando éramos só amigos.
— Ele nunca descobriu como pôr um fim nisso? – perguntou, lembrando-se das palavras no livro. Sentiu as bochechas corarem logo depois, ao se dar conta de que perguntara a avó se ele nunca descobriu uma forma de ficar com outra mulher, mas ela apenas riu ao notar seu constrangimento, bagunçando seu cabelo sem parecer se importar com isso.
— Seu avô não, e acredito que nem tenha tentado tanto assim, não como seu pai.
— Meu pai? — perguntou, surpreso que ela soubesse tanto e, ao mesmo tempo, louco para saber mais.
— As tentativas o destruíram. Quanto mais você tenta, mais doente você fica. E a maldição é inteligente, não deixa que minta para você mesmo dizendo que desistiu. Você tem que desistir de verdade para conseguir superar e seu pai demorou muito para conseguir.
— Ele nunca me falou sobre isso, nunca tentou me alertar, por quê?
— Como dizer para um filho que amou tanto outra mulher que não a mãe dele? – a senhora questionou, e não pôde negar que fazia sentido. – Ele deixou isso para seu avô, mas acredito que não existam palavras o suficiente para explicar essa maldição, ou fazer com que acreditem nela sem vivenciá-la.
— Minha mãe nunca soube, da paixão do meu pai? — perguntou, tentando absorver o máximo que fosse possível, e a mulher negou.·
— Eu acredito que não, seu pai não contaria, ele tinha vergonha.
— Vergonha do quê?
— De amar tanto alguém, uma pessoa que ele nunca poderia ter e uma pessoa que não era a mãe de seu filho. Mesmo que ele não tivesse controle. – explicou. – Você entende hoje, que não é fácil de controlar, mas ele se sentia culpado por isso, sabia que era errado.
— Ele nunca superou de verdade. – deduziu pelas palavras da mulher, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha com medo de nunca superar também. – Então é isso? Estou fadado a isso e na melhor das hipóteses, posso ser como o vovô? Eles nunca descobriram o jeito? Eles, eles descobriram algo sobre o livro? – perguntou, e agora a mulher sorriu.
— O livro, você o viu? – perguntou, e bufou insatisfeito.
— Por dois minutos, antes daquela droga desaparecer.
— Você leu alguma coisa?
— Que existe uma solução, só isso. — novamente, a mulher sorriu, e dessa vez estreitou os olhos, se perguntando o motivo. – O que foi?
, o livro é a solução. — ela devolveu, como se aquilo fizesse todo o sentido, mas apenas o frustrou ainda mais.
— O livro que eu perdi?
— Não. – ela sorriu de novo. – Ter visto o livro mostra que você já fez algo certo.
— O quê? — perguntou, nem de longe levando fé naquilo. — Eu estou doente, o castelo desabou, ela sumiu dos meus sonhos, na vida real ela está me procurando e eu não sei como isso pode ser bom quando eu não posso nem cogitar dizer meu nome sem que algo exploda ao meu redor. Literalmente.
. – a mulher o chamou, e só então ele se deu conta de que havia falado tudo rápido demais, um tanto mais alto do que o necessário, e voltou a corar. – A maldição testa até onde você iria por amor, até onde você arriscaria contra todas as possibilidades, mesmo quando tudo vai contra vocês. A maldição é vencida pela persistência, e por isso seu pai descobriu como vencê-la. – falou, e quase se engasgou com a própria saliva ao ouvir.
— Meu pai... venceu? — perguntou, ajeitando a postura no sofá sem nem ao menos notar. — Como?
— Um beijo. Ele quebrou a maldição com um beijo. – ela explicou, e sentiu todo o calor fugir de seu corpo. – Ele nunca ficou com a garota, seu pai, pois já tinha outra garota. Ele pode não ter amado sua mãe tanto quanto amou a mulher da maldição, mas também a amou e seu pai era um homem digno. Ele foi criado para fazer o certo, para respeitar sua família, e ele fez isso. Ele fez uma escolha, mesmo após quebrar a maldição, e a escolha foi você. Mas ele quebrou a maldição.
— Isso... não faz sentido. – falou, não podendo deixar de lembrar do beijo que trocou com , mesmo que este tenha sido apenas um trocar de lábios.
— Ah, meu querido. Faz mais sentido do que você imagina. – ela respondeu, dando dois tapinhas na sua perna. – Se tudo na maldição está ali para evitar que um beijo aconteça, é de se esperar que ele também a quebre.
— Não é isso. – respondeu. A questão era que já havia beijado , mas nada havia acontecido.
— Eu sei. – a mulher respondeu, rindo, e apenas a encarou com uma confusão ainda maior. – Você deveria ligar para o comprador da livraria. – ela disse apenas, levantando-se ao invés de continuar a conversa.
— Para desistir da venda? – perguntou ele. – Não entendi.
— Ligue.
— Por quê? – insistiu, mas a mulher já havia dado as costas. – Vovó!
— Obedeça, . – ela falou apenas, e o garoto bufou ao se jogar de volta contra o sofá, sem atender ao seu pedido.

+++

pesquisava sobre rosas azuis quando seu celular tocou, quase o derrubando sobre o rosto com o susto que tomou. Era , e ele atendeu depois de xingá-lo algumas vezes, após uma pequena batalha para recuperar o aparelho em meio aos lençóis da cama onde estava.
— Oi. – falou ao atender, mas ignorou as formalidades para ir direto ao assunto:
— Você não ligou para o comprador. - disse ele, em um tom que demonstrava certo descontentamento, mas sabia que , apesar disso, não estava surpreso.
— Boa tarde, . Como você está, tudo bem? — Jungkook simulou sozinho uma conversa educada entre ele e o amigo. — Sim, estou ótimo, e você?
— Você não está ótimo, está acabado e doente, consigo imaginar sua cara desprezível daqui, . — o outro respondeu, direto, e fez uma careta. Não que estivesse ofendido.
— Ouch! — resmungou. — Obrigado pela delicadeza.
— Já ligou para o comprador? — insistiu, já muito bem ciente da resposta, e Jungkook deu-se por vencido para finalmente responder.
— Não, eu... — mordeu o lábio inferior, pensativo. Ainda não muito certo do que pretendia. — Não sei se quero vender. — explicou, mas teve que tirar o telefone do ouvido para não ficar surdo com os palavrões proferidos por . Apenas quando ele parou, voltou com o aparelho para perto do ouvido.
— Achei que você ia ficar satisfeito. — falou, após o surto. — Também não queria que eu vendesse.
— Você sabe que eu estou cuidando da livraria para você enquanto tira férias, e que tenho estado atrás de um comprador, não sabe?
— Deixa de ser dramático, meu corretor está atrás de um comprador, e ele já tinha alguém em vista. — falou para o amigo, e o ouviu resmungar mais uma vez antes de respondê-lo.
— Exato, . E ela fechou. — explicou, fazendo com que Jungkook imediatamente se concentrasse no telefonema. Jamais podia pensar que seria não rápido e definitivamente não estava pronto pra isso. — Ela precisa só falar com você para decidir os detalhes do contrato. — disse ele, mas sem fala, o outro sequer respondeu. — , me ouviu?
— Eu… Ahn…? — perguntou simplesmente, afinal, não, ele não havia escutado. Parou de ouvir no "ela fechou". Havia mesmo vendido a livraria?
! — insistiu, e ele chacoalhou a cabeça para tentar se situar.
— Ela? — perguntou a primeira coisa que lhe veio em mente, mesmo que nem tivesse reparado no pronome feminino antes de repetí-lo.
— Isso, ela. — devolveu impaciente, e Jungkook pôde até mesmo imaginá-lo do outro lado da linha, revirando os olhos. —Agora desliga esse telefone e liga pra ela.
, eu não sei se eu quero vender, eu preciso de um tempo para descobrir. – falou, jogando-se para trás na cama após suspirar. – Eu tive uma conversa com minha vó, sobre o que está acontecendo. Ela me deixou ainda mais confuso na verdade, mas talvez tenha um jeito, para a maldição. E se tiver, de verdade, eu acho que quero tentar...
. – interrompeu, e monossilábico, ele respondeu com um “uhm?” – Liga para a porra do comprador!
, eu estou tentando te dizer o motivo para não ligar agora.
— Se for o caso, você precisa pedir que ele espere. Não quer que eu faça isso por você, quer? É o seu compromisso, agora liga logo antes que eu vá ai só para meter um murro na sua cara. — ameaçou, e mesmo que ele não pudesse ver, Jungkook ergueu uma das mãos como se tentasse se render.
— Está bem, está bem. – se deu por vencido, mesmo que ainda não satisfeito, e disse algo como “acho bom”. – Quando você ficou tão chato? — quis saber, e Jimin soltou algo como uma risada debochada.
— Ah, eu? — fez-se de cínico. — Você quer mesmo falar sobre isso?
— Melhor não, tenho que ligar para o comprador. – respondeu Jungkook rapidamente, apenas para fugir da conversa, e o xingou novamente.
— Babaca trapaceiro.
— Também te amo. – respondeu antes de desligar, sem dar tempo para que o respondesse, mesmo que fosse para mandá-lo para o inferno mais uma vez.
respirou fundo, e então pegou o pedaço de papel dado por sua tia e deixado na móvel ao lado da cama. Digitou os números do visor do celular, esperou um pouco mesmo antes de apertar o “discar”, considerando o que dizer.
Se era verdade que um beijo quebrava a maldição, tinha uma chance e se tivesse, não precisava vender a livraria. A venderia apenas para ficar longe de e queria isso porque acreditava que era impossível ter um chance com ela. Se tinha, ele queria aproveitar, queria descobrir. Vendo aquela certa esperança, sentiu-se forte para tentar, ele queria tentar.
Finalmente tendo uma decisão, apertou o botão verde no celular e esperou que a pessoa do outro lado atendesse. Não venderia a livraria e se preparou para dizer isso quando o potencial comprador atendeu.
— Boa tarde, quem fala é , proprietário da livraria na rua doze...
— Eu prefiro "estranho mascarado". – a voz mais do que conhecia falou do outro lado da linha ao interrompê-lo, fazendo com que derrubasse o celular com a surpresa do que havia escutado.
Era . Ele havia dito seu nome, e ela soube quem era. Ela o associou ao cara mascarado, ela sabia, e perplexo como estava, apenas ficou ali, congelado, encarando o celular caído no chão com a ligação ainda em andamento.
Ele havia escutado direito, era mesmo a voz de ? Só ela o chamava daquela forma, então era. Mas como era? havia feito algo? A procurado? Mas como conseguiu? Como conseguiu dizer o nome sem que o celular explodisse?
A menos que a maldição já tivesse quebrada e ele não soubesse. Era isso?
jamais saberia dizer quanto tempo ficou parado ali, encarando o celular no chão, até se dar conta de que ela o chamava, podia ouvir o barulho através do alto falante e correu para pegar o aparelho novamente.
? – ele sussurrou para a pessoa do outro lado, mas jamais poderia confundir a risada que ouviu. Era mesmo ela, e ele fechou os olhos com o misto de emoções que tomaram conta dele. Agora ela sabia seu nome, mesmo ali, na vida real, ela sabia seu nome.
— Achei que tivesse desmaiado de emoção. – ela respondeu, em tom de gozação. – Ou quem sabe fugido já que eu finalmente descobri sua identidade secreta. – ela riu novamente, e ele não foi capaz de dizer nada, deixando-se levar pelo som de sua voz. – , ou senhor mascarado. Dono de uma livraria e não um agente da CIA. O mesmo rapaz que simplesmente desistiu de publicar um livro conosco há alguns meses, sem nem aparecer pessoalmente na editora para se explicar. Passei dias te xingando por isso, mas ainda tenho sua foto nos arquivos do meu computador, para a biografia do autor que nunca foi para a capa do livro.
— Você lembrou. — falou ele, ainda impactado com a enorme surpresa que sentia.
— Eu disse que era relevante. – ela respondeu, e mesmo que não pudesse vê-la, ele ainda podia sentir o sorriso em sua voz, satisfeita por tê-lo encontrado. – Agora o que eu quero saber é... Podemos finalmente tomar aquele café, sem máscaras? Se eu for comprar sua livraria, acho que precisamos nos encontrar. Mesmo que for pra você voltar atrás da mesma forma como fez com o livro.
— Ahn... — ele suspirou. Tinha isso. — Eu...
— Amanhã, às 15h, na sua livraria. — ela voltou a interrompê-lo. — Você me faz um café e conversamos. – disse apenas, não esperando pela resposta de antes de simplesmente desligar, deixando-o totalmente confuso com o aparelho encostado no ouvido, se perguntando o que tinha acabado de acontecer e se não era somente imaginação da sua mente, lhe pregando mais uma peça.

+++

sentia-se prestes a vomitar e não aguentava mais andar de um lado para o outro. , como o bom traidor que era, o deixara sozinho, a sua própria sorte e ansiedade, para esperar por . A livraria estava fechada, de modo a não receber nenhum cliente, então aquilo era tudo o que lhe restava, esperar, mesmo quando ele não tinha ideia do que deveria estar esperando.
, era ela, mas estava sem máscara e nunca se encontravam daquela forma, não importava o quanto tentassem. Ela havia marcado com ele ali, mas tantas coisas podiam acontecer para evitar que ela chegasse... não conseguia parar de pensar nas possibilidades e com certeza já a teria vestido se não tivesse levado embora todo seu estoque.
Pensar no amigo e na discussão que tiveram antes do outro lhe abandonar fez bufar. não parava de rir do seu desespero, até porque, não tinha noção da magnitude que aquele evento representava.
Enquanto pedia a máscara, só repetia que ela apareceria sem aquilo. repetia que tudo já tinha mudado, que ela já sabia seu nome, já sabia seu rosto, mas era mais forte que . Foram anos de agonia, não dois dias. tinha medo de se permitir ter esperanças e ela nunca aparecer porque na verdade, seu pai nunca quebrou nada, porque o beijo não era a solução ainda, ou simplesmente porque aquilo que estava vivendo era seu sonho que só havia mudado de cenário.
Era terrível não saber o que pensar, mas pelo menos as possibilidades o mantiveram ocupado o suficiente até que o sino tocasse e , que até então andava de um lado para o outro, parasse no lugar, olhando para a porta com a maior expectativa que já havia colocado em qualquer coisa. Ele teve medo, tanto quanto sentiu quando a viu cair do castelo em seu sonho, mas então ela entrou. Ela de verdade, , e inconscientemente prendeu a respiração enquanto a mulher avançava para dentro, ainda sem vê-lo, mas nada jamais poderia se comparar com o que ele sentiu quando ela finalmente o encarou, exatamente como era e sem nada para impedir que visse seu rosto, ou quem ele era.
Ela sorriu, mas o impacto de tê-la de verdade ali, pouco mais a frente e o encarando, impediu que fizesse o mesmo. Era como ver o sol pela primeira vez, como ser tocado pela luz pela primeira vez. Ela estava mesmo ali, e mesmo que ele quisesse dizer algo, jamais seria capaz de pensar no que dizer.
— Eu disse que te encontraria, não disse? – falou primeiro, parando há pouco mais de cinco passos de distância. – Espero que tenha aprendido não duvidar mais de mim.
— Como? – perguntou apenas, mesmo que não fizesse sentido aquela pergunta a ela. Para , era apenas um cara mascarado que ela encontrava vez ou outra na rua. Ela não sabia tudo que estava envolvido, tudo que conspirava contra eles, os impedia de estarem no mesmo cômodo daquela forma, tão livres e em uma conversa que poderia ser tão franca, mas foi então que, para a surpresa de , ela ergueu o livro azul. O mesmo da profecia, e olhou espantado do objeto na mão dela para a mulher a sua frente. – O livro... – ele sussurrou, perplexo, e deu um passo para frente, em direção a ele, mas parando no entanto ao notar uma lágrima que para sua surpresa, escorreu pelo rosto de . – O quê?
— Eu lembrei. – ela sussurrou também, e sentiu seus olhos arregalarem contra sua vontade. – Quando a torre desabou, lembrei disso ao acordar e de todos os outros sonhos onde você esteve. Foi ali que eu soube seu nome, foi ali que eu soube seu rosto, e foi ali que encontrei o livro junto com a flor azul.
Sem poder se conter diante da afirmação, eliminou a distância entre eles e a puxou para seus braços, contrariando todas as recomendações que havia criado para si mesmo em se tratando da maldição, contrariando tudo o que vinha sendo sua realidade há tempo demais. Sim, ele podia abraçá-la em vida, mas era um limite que ele nunca pensou que um dia avançaria, não com aquele muro invisível entre eles, os impedindo de ficarem juntos.
sentiu os braços dela o envolverem, antes de esconder o rosto em seu pescoço, como se esperasse por isso tanto quanto ele e por reflexo, a segurou com mais força, como se sua vida dependesse disso, como se ela pudesse escapar de seus braços a qualquer momento simplesmente porque era aquilo que acontecia sempre que estavam tão próximos. Mas dessa vez não, aquilo era real, e mesmo que já tivesse acontecido algumas vezes, que ele já tivesse vivido aquilo em seus sonhos, nada se comparava com o fato de ser real, de que o perfume adocicado invadindo suas narinas era mesmo o dela, e não algo que poderia ser meramente fruto de sua imaginação, idealizado por sua mente. Tudo ali, agora, era real e escondeu o rosto em seus cabeços relutante em ter que soltá-la.
E se aquilo fosse uma forma desesperada da maldição de iludi-lo apenas para destruí-lo mais uma vez? E se fosse um ato desesperado porque sabia que o estava perdendo, que estava pronto para desistir?
— Eu estou mesmo aqui, . E não vou a lugar nenhum dessa vez. – ela falou como se lesse sua mente, finalmente se afastando, embora não o tivesse soltado. Seus corpos ainda estavam juntos, ainda sentia o calor de seu corpo no dele, mas agora podia olhar em seus olhos enquanto ela falava, e sabia que era exatamente isso que queria. – Eu só posso imaginar como foi difícil para você, viver o mesmo dia todos os dias ao fechar os olhos, mas nós vencemos, e eu vou ficar bem aqui.
Incapaz de responder qualquer coisa, apenas tocou seu rosto com uma das mãos, e ela sorriu ao gesto, deixando que ele o fizesse enquanto segurava a mão dele na sua.
— É difícil acreditar que eu ainda não acordei. – ele respondeu, como se falasse consigo mesmo, e a garota ainda sorrindo finalmente afastou a mão dele de seu rosto, fazendo com que a abaixasse. entrelaçou seus dedos juntos, e aproximou-se um pouco mais, independente de já haver muito pouco espaço entre eles. sentiu seu coração vacilar, e quando ela riu, desconfiou que de alguma forma ela pudesse ouvir mesmo que fosse impossível.
— Você não vai acordar porque não está sonhando. – ela disse, seu rosto tão próximo que era capaz de sentir sua respiração. se aproximou um pouco mais, um centímetro, e desviou o olhar para sua boca sem que pudesse se controlar. Ela fez o mesmo em um gesto rápido, embora não o suficiente para passar despercebido, mas a forma como sorriu em seguida o deixou desconfiado para o fato de ter sido totalmente proposital, o que sua frase seguinte apenas comprovou. – Mas não pense que será fácil, . Vai ter que cortejar a garota de novo, desde o início. – provocou ela, e ele riu, tão leve que até mesmo soou estranho para seus ouvidos, já desacostumados para aquele som. Fazia muito tempo, aliás, que não se sentia daquela forma, tranquilo, esperançoso de verdade, mas por maior que fosse seu medo do que viria agora, se é que algo viria, ele pelo menos teria o conforto de saber que ela estaria ao seu lado ou, pelo menos, que procuraria por ele se algo acontecesse. Agora ela sabia de tudo, mas por maior que fosse sua vontade de beijá-la, ele apenas mordeu seu próprio lábio inferior antes de intensificar ligeiramente o aperto em sua cintura.
— Eu acho que posso conviver com isso. – respondeu ele, nenhum pouco incomodado em saber que teria aquela oportunidade, agora de verdade, sem qualquer máscara ou maldição no caminho.
Seu avô, no final, sempre esteve certo, e ele não pôde deixar de lembrar. "Está no seu destino, se apaixonar por alguém que nunca vai poder ter até que ela morra, ou você". Em sonhos, morreu, mas apenas para por fim naquele pesadelo fantasiado. Ela morreu, mas para que finalmente pudessem viver e era isso que ele finalmente faria. Começaria a viver.
Máscara Cirúrgica são de uso muito comum no dia-a-dia dos asiáticos. É tão popular que chega, inclusive, a ser utilizada como simples acessório. Sabe quando você sai na rua por necessidade, mas quer mesmo se esconder? Lá eles o fazem com o uso dessas máscaras.
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Fim.



Nota da autora: Yeeey, mais uma! E aposto que ninguém esperava um final feliz (minha fama me persegue) Hahaha.
Enfim, enfim, espero que tenham gostado! E s gostaram, comentem, pls <3
Xx
Mayh.

Edit na N/A para os agradecimentos:
Primeiro a coleguinha Larys por ajudar essa fic a sair no prazo XD. Sério, sem você eu nem teria postado aushsuhsuhahaushua. Obrigada pelo apoio com TTU, fiquei muito mais segura com ela depois dos seus comentários. Obrigada por revisar e dar um louco de beta (eu sempre explorando alguém) e por panfletar o neném por ai <3 Te lovius. Foi minha salvação (mas eu já lovius de antes há!)
E leiam a fic dela, o hino 05. Paradise. Vlw flw

Segundamente, mas não menos importante, para as coleguinhas Jozy e Lobato (nenhuma novidade nesse parquinho) pela ajuda com o plot e por aguentar os surtos e quase desistências e gritos e eu no geral sempre aos surtos (mais nenhuma novidade) porque a fic não queria sair. Lovius as duas tbm e não me gritem pela coleguinha de cima pq tem amor pra todo mundo. Vlw, flw



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» 02. 1 of 1 [Shinee - Ficstape/Finalizada]
» 02. DNA [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 02. Complicated [Avril Lavigne - Ficstape/Finalizada]
» 03. It's You [Zayn - Ficstape/Finalizada]
» 03. My Hair [The Maine - Ficstape/Finalizada]
» 03. Somebody To You [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 04. Raining Spell For Love [Super Junior - Ficstape/Finalizada]
» 04. Two Ghosts [Harry Styles - Ficstape/Finalizada]
» 05. You Gotta Not [Little Mix - Ficstape/Finalizada
» 05. Love Is Not Over [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 06. Heart Attack [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 06. Skit: Billboard Music Awards Speech [BTS - Ficstape/Finalizada
» 06. This Is Love [Super Junior - Ficstape/Finalizada]
» 06. Shades On [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 07. Hot [Avril Lavigne - Ficstape/Finalizada]
» 07. Trauma [Seventeen - Ficstape/Finalizada]
» 07. Reflection [BTS - Ficstape/Finalizada]
» 08. Yeah, I Said It [Rihanna - Ficstape/Finalizada]
» 09. Honest [Shawn Mendes - Ficstape/Finalizada]
» 09. Secret [Maroon 5 - Ficstape/Finalizada]
» 10. Rocket [Seventeen - Ficstape/Finalizada]
» 10. Crazy [Shawn Mendes - Ficstape/Finalizada]
» 12. They Don't Know About Us [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 12. Too Much to Ask [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» 12. She Was The One [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 14. Lovestruck [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 15. Smile [The Vamps - Ficstape/Finalizada]
» 17. Like I Would [One Direction - Ficstape/Finalizada]
» Mixtape: Don't Cry [Mixtape: Classic Rock/Finalizada]
» Mixtape: Na Sua Estante [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
» Mixtape: Cartas Pra Você [Mixtape: Brasil 2000/Finalizada]
» MV: A Million Pieces [Music Video/Kpop - Kyuhyun]
» MV: I Need U [Music Video/Kpop - BTS]
» MV: Mansae [Music Video/Kpop - Seventeen]

SHORTFICS
» [After]Life [Seventeen/Finalizada]
» Survive The Halloween [Originais/Finalizada]
» Boy [One Direction/Finalizada]
» By Our Hearts [Super Junior/Finalizada]
» Shout About It [The Vamps/Finalizada
» My Dirty Secrets [Restritas (One Direction)/Finalizada
» Father's Little Girl... or not [Restritas (One Direction)/Finalizada


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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