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03. Weird People



Finalizada em: 02/07/2017




Capítulo 1



e estão discutindo. Tal fato sozinho não traz consigo muita importância, afinal a) eles fazem isso todo dia e b) enquanto não houvesse desrespeito e baixaria tudo terminaria ok, mas a questão é que e estão discutindo sobre um assunto do qual não tenho a menor informação e agora querem que eu tome partido.
- Vai, . – insiste o loiro, sacudindo meu joelho com sua mão calejada. Suspiro e me ajeito debaixo da árvore na qual nos escondemos do sol impiedoso. , à esquerda, também me encara e ergue as sobrancelhas, buscando adesão.
- Vocês sabem que eu não tenho a mínima ideia disso aí. – resmungo após perceber que não iriam desistir. Ele suspira.
- Você é uma total vergonha para o mundo nerd.
- Talvez porque não queira fazer parte? – sugiro. O garoto abana a cabeça.
- Então só concorda comigo. Diz que eu tô certo.
- Não! – ela berra do nada e eu me sobressalto. – Deixe de ser idiota, , está muito claro quem tem razão aqui. Se você parasse de ser tão teimoso e me escutasse... – o conflito prossegue. Encolho o corpo mais próximo da árvore, desejando fugir daquela troca de farpas louca. Estava presa no meio de um vendaval provocado pelos meus melhores amigos; eles gesticulam, aumentam a voz e cortam um ao outro, dedicados a provarem seus pontos. E eu fico só observando e desviando dos esbarrões. Presa no sanduíche nerd de briguinha, um pouco imprensada, mas bem.
Porque eles fazem isso todo dia. E enquanto não houvesse baixaria e desrespeito, tudo acabaria ok.
- Me deixa explicar. – interrompe o outro no meio de uma fala. Em resposta, ele apenas bufa, apoiando as costas no tronco. Fito o rosto de minha amiga e percebo que o sol faz seu piercing brilhar. É um comentário totalmente bobo, desnecessário e aleatório, mas toma minha mente de repente e faz com que eu viaje nisso por alguns instantes. – Vou contar o porquê da briga de uma maneira simples, sem nerdices, e você pensa um pouco a respeito. Por favor. – une as mãos numa prece quieta quando faço menção de negar. – Ou acabarei esmagando a cabeça dele no chão.
Tal argumento ganha não só minha concordância como também um sorriso. Revirando os olhos, aquiesço e giro o corpo em noventa graus para conseguir fita-la.
explica. Contrariando as expectativas que nutri, a teoria fica realmente fácil e compreensível. Após uns cinco minutos de monólogo, levanta o queixo brevemente, indicando que agora é minha vez; eu reflito, reflito e reflito até obter uma solução.
- está certa.
Os dois explodem em barulhos e gestos. Ela, animada, realiza uma dancinha contida com as mãos; ele, bravo, ergue os braços e os deixa cair no colo com um baque, grunhido preso na garganta.
- Você... Não... Droga. – joga a mochila nas costas. – Traidora. – e, após apontar o dedo em riste, levanta e sai andando.
Desvencilho-me entre resmungos do abraço ladino que me tomba para o lado da garota e, reprimindo a vontade de rir, observo os diversos bottons agarrados na bolsa judiada que se afasta. Em um ano, a coleção mais do que dobrara. E muitos desses fui eu quem deu.

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Nome:
Apelido: Norris


O evento que deu início à minha amizade com ocorreu há cerca de um ano, mas ainda está fresco na memória de ambos.
Eu tinha feito uma aposta com meu irmão, afirmando que conseguiria arrumar trabalho antes do mês acabar. No dito momento, faltava apenas dez dias e o desespero começava a bater em minha porta. Aquela entrevista era uma das últimas oportunidades que teria antes de lançar a bandeira branca e admitir derrota – o que me deixaria com menos cem reais na mão, perda gravíssima, visto que estava super-hiper-mega lisa. Então era tudo ou nada para mim. Coisa de vida ou morte. Mas sem a parte dramática da coisa.
Passei um batom coral da minha mãe, que estava no seu armário fazia uns dez anos e já considerávamos da família. A roupa, previamente escolhida, fora cuidadosamente passada; meus cabelos estavam lavados, hidratados e penteados com muito esmero. Trinta minutos antes do horário previsto, adentrei a sala, já preenchida por alguns gatos pingados. era um deles. Usava uma blusa de cashmere mostarda horrorosa e parecia ter plena consciência disso, pois vira e mexe puxava a gola para baixo ou passava as unhas na calça jeans. Trocamos olhares. Não apenas uma vez. Eu tinha o achado bonitinho, mas o que realmente me fisgou foi a cara de cu enigmática ostentada pelo loiro. Acho que só fui notada por ele também por conta do número avantajado de segundos encarando ao tentar desvendar o que rondava sua mente.
Com o avançar da entrevista, caí no desânimo, além do nervosismo. Metade dos candidatos tinha feito algum curso – ou vários – enquanto eu era a típica criatura que sabia o que havia aprendido por contra própria. Não tinha chances. E pensava que o garoto da blusa cashmere horrorosa também se encontrava no mesmo beco sem saída, levando em consideração o leve desespero que o deixava cada vez mais desconfortável. De certa forma, saber que não estava sozinha naquele medo tangível de estar perdendo tempo por não estar à altura dos concorrentes me confortou. Ainda não éramos amigos, porém já estávamos unidos, cada um em seu canto, alimentando a própria insegurança – isso me fez adquirir súbito afeto por ele.
Acabei intensificando as olhadelas, como se pedisse por misericórdia ao estranho. me ignorou com êxito por maior parte do tempo. Até um momento específico. Quando seus olhos castanhos finalmente se fixaram em meu rosto por mais de cinco segundos, tive vontade de comemorar o fato de não estar mais sendo abandonada naquele momento de fragilidade imbecil – entretanto, quando começaram a arregalar e arregalar até se tornarem duas bolas preocupadas, todo o alívio escorreu de mim no mesmo instante. Tive certeza que havia algo de muito errado acontecendo. O que se confirmou assim que a entrevistadora, ao invés de prosseguir sua análise rotineira por todas as faces que compunham a sala, escolheu focar somente na minha.
- Ai meu Deus! – ela berrou, com sua voz aguda demais e puro horror no semblante. Eu juro, senti o coração perder uma batida antes de começar a ter uma crise epilética dentro da caixa torácica.
- O que foi, caralho? – deixei escapar, já berrando também pelo recente estado de pânico que se esgueirava. Todo o resto me encarou e não demorou muito até espelharem a reação dela. – O quê?!
- Sua boca... – apontou na direção dos próprios lábios antes de deixar a mão cair. Parecia sem rumo, chocado e aflito. Pela primeira vez, a expressão desinteressada sumira do rosto. Algo que seria bom caso a situação não fosse tão desfavorável.
- Ela está tendo um derrame?! – alguém tentou cochichar. Com a menção daquelas cinco palavras, não aguentei; o telefone que o rapaz à minha esquerda abandonara no colo após o recente escândalo rapidamente voou para minhas mãos. Sob seus resmungos, ergui e mirei de modo que pudesse encarar o reflexo espelhado. Então percebi. E cacete, tremi na base. Meu lábio inferior, especialmente na parte direita, tinha duplicado de tamanho e parecia só crescer diante da minha observação. Quis gritar de pavor, porém o impulso entalou na garganta. Ao invés disso, deixei o telefone tombar e, por alguma razão estranha, procurei o cashmere mostarda. Seu olhar demonstrava a tão esperada solidariedade que eu procurei outrora. Mas por um motivo meio diferente.
Quem conduzia a seleção, diferente de mim, continuou berrando; e as palavras são até hoje o que usa para me zoar nos dias em que se sente inspirado.
- Emergência! Alguém chame a emergência!
Cashmere foi quem discou.
Tinha algo naquele garoto.

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Por mais inacreditável que possa soar, peguei o emprego. E também. Foi assim que acabamos nos aproximando. A história da seleção, perdida entre tantas outras loucuras que vivenciamos juntos, virou para sempre uma piada interna que dificilmente explicávamos para outros – fato que enlouquecia por vezes –; apenas o início de algo que se mostrou uma das relações mais fortes e vantajosas que já tive na vida.
- Aqui está, chata. – ele volta de repente e entrega um cupcake perfeito nas mãos de minha amiga. Os olhos dela brilham. Antes que possa morder, roubo-o de suas mãos, admirando a camada de chocolate que cobre a massa do bolo e reflete luz do sol em pequenas quantidades.
- Por que nunca paga nossas apostas, mas as dela sim? – questiono, dividindo a atenção entre mirar a indignação no rosto pálido do garoto e fugir das investidas de , que pretende recuperar seu bolinho.
- Devolve isso! – berra em puro desespero. Existe apenas uma coisa que ama mais do que comida: gatinhos. Se entupir de alimento depois de passar horas rodeada por felinos devia ser a definição de paraíso dela.
Mesmo estando ocupada, consigo perceber, por um instante, algo como constrangimento cruzar a feição dele. É ligeiro, fugaz e tão fraco que poderia ter sido ilusão, mas estivera lá – sua bochecha ameaçou dar espaço ao vermelho e os lábios tremeram na costumeira demonstração de vergonha crônica.
- Bem, por mais que deteste admitir, a retórica dela é invejável. – retruca, cruzando os braços após apertar a ponta do nariz. Estreito os olhos. – Foi um prêmio merecido.
está concordando em tom de voz alto assim que tiro o primeiro pedaço. Revoltada, se lança sobre mim, mas uma vida inteira morando com Maurício, meu irmão mais velho, preparou-me para desviar de coisas muito piores. Não só consigo me desvencilhar como tiro outra mordida. Minha boca está cheia, suja e contendo o absurdo de bolinho delicioso que tentava enfiar com dificuldade, porém o sorrisinho ainda assim consegue erguer os cantos. E, notando isso, minha amiga grita. Seu rosto ficara tão vermelho que parecia prestes a explodir.
logo sente a gravidade da situação. Temendo o pior, ergue as mãos e assobia;
- Menos guerra, mais amor. – a rajada de fúria que as pupilas de enviam é intensa o bastante para que emende com pressa. – Ok, vou comprar outro. Vê se relaxa aí.
Observo-o sumir, desta vez sem bolsa, apenas portando o troco da última compra. Ali, filmando-o de longe, solidifico a certeza que começara a construir segundos antes. E mal posso esperar para confrontá-lo sobre isso.
- Talarica! – me desconcentra a garota. – Raspa canela!
Tomo cuidado ao voltar a posição de antes para que não corra o risco de receber um de seus famosos beliscões no braço.
- Eu sabia que ele ia comprar outro. – lambo os lábios antes de afundá-los outra vez no bolo. – Não ia te trair sem um plano.
continua me fitando com olhos de águia. Quero que acredite em mim, mas sei que só o fará depois, quando o cupcake tiver caído com excelência no estômago e eu botar em prática a minha retórica invejável. Também sei que, embora seja a criatura mais gentil e altruísta no meu círculo, há apenas duas coisas que ela não gosta de dividir: alimento e batom.
E amo tudo isso nela.

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Nome:
Apelido: Cupcake


Eu pensava que nunca mais tiraria a sorte grande de conhecer um amigo como em situações anormais. Pensava, até me deparar com .
Já tinha ouvido falar na novata que chegara de supetão. Esse fora o assunto mais badalado do dia, inclusive porque, segundo os comentários – nojentos – dos garotos – babacas – do colégio, ela era gostosa pra porra; e isso, em seus cérebros minúsculos, parecia motivo para comentar e observar a garota o tempo todo como se estivesse num reality show. Juro, quis vomitar quando ouvi pela primeira vez. Depois de ter que aguentar por duas horas, minha barriga se habituou, mas a mente não. Ficava cada vez mais puta com as opiniões que hora ou outra chegavam até mim.
Razão pela qual estava discutindo com o idiota com o qual fora obrigada a fazer dupla.
- É patético. – cuspi, brava até o último fio do cabelo, mas me segurando pra não avançar em cima dele. As unhas da mão direita estavam afundadas na esquerda. Algo estranho, em tese, embora muito eficaz. Dor me ajuda a fincar os pés no chão.
- Vocês feminazis inventam cada merda... Agora a gente não pode mais só olhar?
- E você estava olhando, Fabio, ou fazendo comentários totalmente detestáveis com seu amiguinho? Não que olhar o que você considera “só olhar” seja melhor. Trata-se de uma pessoa, não um frango assado!
- Os dois. – bufou. – Quer mandar no que eu faço agora? Deixa de ser boba, . Quando se tornou tão chata assim? Não. – me cortou antes que pudesse começar. – Nem precisa responder. Eu já sei: quando essa modinha de “mulheres emporadas” começou.
- É empoderadas, imbecil, e nem vou comentar nada sobre seu “feminazi” porque já discutimos isso.
- A verdade é que o feminismo era importante antes, quando conquistou o direito de voto e tudo mais. Agora é só mimimi de gente mal comida reclamando de tudo. Falta louça pra lavar? – abriu um sorriso debochado. Intensifiquei o incômodo físico ao pressionar ainda mais a pele da palma. Não ganhe outra advertência, ; não acabe sendo suspensa por meter a mão na cara de outro machista de merda. – Vocês brigam por tudo. Querem ser como os homens, sendo que não dá. Implicam por besteira! Tudo é machismo, objetificação, bla bla bla... Até na porra da propaganda de cerveja querem mexer! Vão se foder, na boa.
Fechei os olhos. Achava que não ver sua face cheia de espinhas juvenis fosse me ajudar a ganhar calma, mas não precisei ir longe para notar que a voz, ainda ecoando em meus ouvidos, continuou despertando calafrios. Todos os dias, eu acordava e tentava me convencer de que pegar briga no colégio não valia a pena. A razão era óbvia: existia muito babaca matriculado lá e discutir com aquele tipo significava perda de tempo. Não valia a pena me irritar. Era preciso aprender a lidar com esse tipo de gente, que existia em massa no mundo, só esperando oportunidade pra cuspir o máximo de asneira possível. Mas como convencer minha mente, de fato? Como não ficar irada com tanta ignorância?
Abri os olhos e ao fazê-lo, me deparei com alguém atrás de Fábio. Logo a reconheci. , pivô do começo de tudo.
- Bem, se é necessário mostrar uma mulher semi nua como se ela fosse um tipo de objetivo que vem de brinde com a bebida, acho que tem algo de errado sim.
O garoto girou na cadeira para poder enxergar quem falou. Deparando-se com ela, sorriu de maneira suja, mesclando malícia e um tipo de deboche. Senti, mais uma vez, asco. E solidariedade. A novata notou o brilho estranho em suas orbes, mas por não conseguir explicar, ficou confusa – pude enxergar na maneira que franziu sua testa de leve. Querendo evitar que o embuste dissesse alguma merda, me adiantei:
- E o fato de você não perceber só mostra que o feminismo é muito necessário. Enquanto houver misoginia, violência, disparidade, estereótipo e afins, haverá luta. Reclame o quanto quiser, não vai fazer diferença.
- Arranja uma casa para arrumar, . – repetiu o grandíssimo “argumento”. Alguns nos olhavam, a essa altura do campeonato, e escutei risadinhas explodirem em cantos da sala.
- Vai você morrer numa guerra.
Agora a gargalhada foi geral. Concordando ou não, adolescentes gostam de rir feito hienas de qualquer coisa, especialmente caso sintam cheiro de treta no ar. Às vezes sinto que essa época entre a infância e a maturidade é uma verdadeira regressão mental. Deve ser por isso que adultos gostam tanto de se distanciar de quem foram em tal período; vergonha por tanta bosta feita e dita.
- De preferência agora, porque a professora mudou as duplas e quem vai ficar com ela sou eu. – completou. Busquei a citada com o olhar. Seu semblante demonstrava alívio porque as coisas não saíram do controle como da última vez.
Fábio soltou uma piadinha a qual não prestei atenção, pegou as coisas e foi se juntar com o grupinho de embustes. Relaxei os ombros, tensos há tantos minutos que começavam a doer. A garota acomodou-se ao lado. Senti-me ainda mais compadecida. Havia algo realmente gentil e puro no castanho de sua orbe.
Soube naquele exato instante que gostaria dela.
- Sou . – estendeu-me a mão.
- . É, como a flor. – concordei sem sequer dar tempo de falar. Ela riu.
Quando levei-a até no intervalo e meu amigo se apresentou falando “, tipo a fusão de e Andre, mas de preferência esqueça a última parte”, fazendo-a gargalhar outra vez, percebi duas coisas.
1. Seu riso era frouxo. Somente isso poderia explicar a graça inexistente que enxergou em ambas as falas;
2. Iria se encaixar bem conosco.
Eu estava certa nas duas percepções.
Tinha algo naquela garota.

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- Falei que ele ia comprar. – pisco para , já de barriga cheia, levando-a a erguer a vista para mim enquanto afasta e amassa o papel sujo onde seu cupcake estava. Certa fúria no olhar resiste por ali, porém bem menos flamejante. bufa.
- Você tem sorte. Estava com dinheiro sobrando.
- Anram. – rio pelo nariz.
A sobrancelha dele se ergue em resposta e vejo que detectara o sarcasmo por trás da voz, tão bem escondido que nem sonhou em perceber – se bem que a lerdeza dela também ajuda. Fui, alias, salva pela garota, que impede de iniciar qualquer tipo de questão ao começar outra briguinha nerd aparentemente relacionada à primeira. Satisfeita, apenas observo-os continuar o ritual da manhã, sempre longo porque chegávamos cedo ao colégio pra ter tempo de abastecer as energias com conversas triviais antes de encarar várias aulas seguidas. Não queria dialogar naquele momento, mas em um privado, no qual poderia coloca-lo contra a parede com jeito. E longe de . Definitivamente.
Abstenho-me da interação deles e desejo fervorosamente que não me metam mais em nenhuma decisão. Três músicas do novo álbum da minha banda favorita – cujo rock alternativo embalava todas as manhãs, especialmente o despertar, afastando a raiva que vinha por ser puxada do soninho – haviam vazado e embora eu soubesse que não deveria, desejava escutar. Sou humana também, afinal. E preciso alimentar meu vício.
Procurando ser discreta, quase sumindo de tão encolhida, retiro o celular da bolsa. Estou desenhando o polígono abstrato que criei de senha quando metade do reflexo do que se encontra atrás chama minha atenção. Paro e me viro.
A sensação é imediata. Não posso explicar em palavras, porém sinto-a flamejar – uma mistura de confusão e algo cutucando minha mente. Aquele menino... Eu o conhecia. Mas de onde?
Disseco-o pelo olhar, subindo dos coturnos negros de verniz até os jeans desbotados e folgados, depois pelo cinto elaborado, o moletom e o rosto. Ao alcançá-lo, o sentimento aumenta; está quase tampando minha garganta.
- Tem algo naquele garoto.
- Hein? – pausa a conversa e se estica para poder me olhar. , antes totalmente virada de costas, encosta o queixo no ombro pra fazer o mesmo. Sacudo a cabeça. Ambos se remexem e ajeitam, praticamente subindo por cima de mim no intuito de alcançar a lateral onde estou e enxergar também. – Merda, . Você tá mesmo falando do cara ao lado dos otários?
É um sinal ruim.
Deixe-me elaborar: toda escola tem um grupo de babacas. Por motivos estranhos que até a ciência desconhece, eles são os mais populares, na maior parte das vezes, e controlam a mente de alguns alienados que se recostam na sombra de tal fama. O da nossa escola não difere de nenhum por aí. Faz piadas jocosas e mal intencionadas, anda por aí como se fossem filhos do novo messias – bem, pelo menos dizem que são eleitores dele – e enche o saco de muita gente. Meu trio faz parte do último aspecto citado.
Se o estranho-não-tão-estranho-assim se relaciona com esse tipo de gente, definitivamente é um sinal ruim.
- Emergência, nem sonha. – sacode meu braço e me faz olhá-lo. – Nada de bom sai de lá.
- Você não pode ser tão preconceituoso. – intervém. Meu amigo abre a boca, injuriado.
- Eu? Como assim? Estou apenas declarando verdades que todos sabemos.
- Não o conhecemos. Com certeza é novato. – observa. – Pode só estar perdido por aí.
- Eu o conheço.
- Que? De onde? – ele coça a bochecha, meio impaciente. – Você não tá fazendo sentido nenhum, mulher.
- Essa é a grande questão... Eu não sei. – um menino do grupo detestável percebe o amontoado observador e a gente se joga para o lado de modo brusco, desabando na grama. Gastamos segundos nos ajeitando e recuperando a dignidade. Logo após, recosto-me ao tronco, respiro fundo e procuro organizar as palavras na mente. Não soava compreensivo nem pra mim. – Sabe quando você olha pra alguém e só tem a certeza de que já o viu em algum lugar? Momento? Mundo? Entendem o que to dizendo?
- Não. – responde. chuta a canela dele.
- Entendemos sim. Só não compreendemos.
Inicio um suspiro que se torna risada no final.
- Acho que tô maluca. – mas o tom sai pensativo e todos sabemos que não vou desistir disso porque é real, sim.
- Como você vai descobrir? – ela deita a cabeça no meu ombro.
- Tenho um método. – os dois estreitam os olhos ao mesmo tempo e, outra vez, organizo o que vou dizer para não parecer tão louca. Ou maldosa. – Não me levem a mal, ok? Eu meio que os separo em grupos.
- Elucide.
- Bem... Há vários tipos. Misteriosos, bad boys, geeks, engraçados... Eles se vestem, comportam e falam de jeito x. Quando me esqueço de algum, eu procuro na pasta, separo, divido, descubro, etc. É isso. – encolho os ombros.
- Você não é tão legal quanto considerava. – quem quebra o silêncio.
- Não é maldade! Admita, . Maior parte dos garotos que saímos não têm um jeito meio estereotipado?
Ela hesita por instantes sob o olhar fixo de nosso amigo, mas acaba concordando.
- Isso sim é preconceito. – agita o dedo na nossa direção. – Imagine se fosse com as duas.
- Mas é. Todo mundo faz isso, cala a boca. – reviro os olhos. – Enfim. Só preciso descobrir qual é a dele.
- Acho que será difícil, hein? Você viu aquelas roupas? – a menina comenta. Em seguida, nos calamos, acessando memórias; os coturnos e os acessórios, tais como pulseiras e anéis, me levariam a colocar no time ‘rockstar’, contudo a calça e o boné me levam a pensar no ‘meio funkeiro’. Suspiramos em uníssono.
- Não faça nada por enquanto. Se ele for do mesma estirpe que os otários, vai dar ruim. Se você acabar o confundindo, vai no mínimo estragar seus esquemas e dar ruim também. Precisamos de tempo pra observar. Ok? – silêncio. – Ok, ?
- Tá certo. – deixo escapar no exato instante que o sino toca. Tal barulho se sobrepõe à minha voz, minimizando, quase apagando por completo. Nos levantamos e seguimos para a sala.
É claro que não cumpro o prometido.




Capítulo 2



Rotular é uma merda que qualquer pessoa faz.
Damos bom dia a alguém, não ganhamos resposta – nossa, que mal educada. Ninguém se pergunta se ela apenas não está numa boa vibe ou sei lá, nem escutou.
Puxamos conversa, o outro não fez o mesmo esforço – nossa, que arrogante. Ninguém pensa na possibilidade de ser apenas timidez.
Eu vivo os dois lados desta moeda.
Sei que a maneira que divido os garotos pode parecer precipitada. Mal os conheço, afinal, dois encontros e uns beijos não definem alguém. Só que não faço por mal, crio piadas internas com meus amigos, os diminuo ou gero desconforto. Apenas procuro me nortear. Digamos que embora não fizesse tanto sucesso quanto , tivesse um bom número de crushs por aí. O faço somente com o intuito de me organizar, saber onde estou pisando e evitar confusão e esquecimento. Sou péssima com nomes. Organizar ajuda a criar lembranças.
A outra face envolve o rótulo que botam em mim. E isso tem a ver com o grupo dos otários, , e um bocado de situações ruins. Algo bem diferente.
Enquanto o dia se arrasta, eu loto uma folha de rabiscos e nomes, tentando chegar a algum lugar. Rodo, rodo, rodo e não vou a nenhum – é frustrante e esquisito, porque alguém que se veste de modo tão mesclado no mínimo teria um grupo próprio. Um horário antes das aulas terminarem, me deparo com a educação física. Ciente de que já faltara demais, evito o impulso sair correndo. Estou soando feito porca – e desconfio que fedendo – quando o encontro novamente. Ainda rodeado por figuras do grupo, ele parece meio perdido. Quase nunca abre a boca, vaga o olhar pelo ginásio e se distrai com facilidade. Um pedido implícito escapava por seus poros: me salve. Não preciso ser nenhum “xeroque romes” pra perceber.
Por isso, quando os três babacas se ausentam, empurro o chamado de para o fundo de minha mente e sigo até ele. Não fico muito perto. Ainda estou com medo de não exalar odores agradáveis.
- Novo aqui? – apoio as mãos na cintura e tento recuperar o fôlego com classe.
A pergunta o desperta para minha aproximação. E o modo que me olha... Tremo na base. Literalmente. Caramba, realmente o conhecia. Estando tão próxima, quase sou abraçada pela aura de familiaridade, mas parece que perco a recordação na mesma medida em que a busco.
- Sim. Minha família se mudou há pouco tempo.
Como Diabos me relacionei com alguém que nem morava na cidade?
- E tá gostando? – apoio as costas na parede na qual ele deixa a sola do pé esquerdo descansar e corro o olhar pelos seus braços, sabendo que jamais poderia estar no grupo ‘atlético’. Não que chegasse a ser ruim. Ainda parecia um bom local pra deitar a cabeça.
- É, até que sim. Não tenho saído muito... – balança os ombros. – E você? Tá bem?
- Hm, tirando o fato de ter suor em todas as partes nomeáveis do meu corpo... – um sorriso ladino toma o rosto dele e fico me perguntando se beijei mesmo essa boca. Recuso-me a crer que teria apagado algo assim. Existe a possibilidade dele fazer o tipo ‘parece, mas não é’? Seria decepcionante caso lábios tão bonitos não fizessem bem o trabalho proposto. – Seus amigos te abandonaram?
- Não são meus amigos. – discorda suavemente. – Só não fiz muitos contatos ainda. Na verdade, acho que fora eles, você foi a primeira a vir falar comigo.
Sorrio abertamente e estendo a mão.
- Bem, considere-me sua salvadora.
O garoto ri.
- Tudo bem, Wonder Woman. – envolve nossos dedos.
- Não me decepcione, . – o melhor amigo de Fabio volta, acompanhado dos outros dois lacaios. Seu olhar traz deboche e desprezo na mesma medida enquanto para ao nosso lado. Torço o nariz, no entanto, apesar de detestar estar próxima dele, sinto-me grata pela parte em que proferiu seu nome.
Uma pontada acomete meu peito. Mas só. Continuo com o maldito apagão na memória.
- Por quê? – cruza os braços e abaixa o pé antes apoiado.
- Você sabe que amo todas as criaturas de Deus, especialmente as que vestem calcinha, mas feminazi não, cara. – cutuca quem está ao lado e ambos riem. Rolo os olhos. Nenhum músculo da face do meu quase conhecido se mexe. – Essas aí eu deixo para os perdedores.
- Você sabe quão babaca soa falando assim? – franze a testa.
Todos ficam quietos. Coço a ponta do meu nariz e contenho um sorriso com esforço.
- Como é?
- Pode amar todas as mulheres do mundo, mas dificilmente alguma vai corresponder, desse jeito.
- Não é verdade. – agora me fita diretamente nos olhos. Sei que algo ofensivo deixará sua boca no mesmo instante. Preparada, ajeito a postura e mantenho o contato visual, rosto sério e ligeiramente erguido. – A vadia até que gostou quando meti a língua nela...
Meu punho contrai automaticamente e preciso deixar os lábios partirem e puxarem um punhado de ar. Num segundo, toda a postura impassível desaparece, escorre pro ralo. Por mais que tente, nunca conseguirei esconder o ódio que me sobe ao ouvir esse nome. Endereçado a . Mesmo depois de tudo.
Faz tempo que não sinto uma vontade tão gritante de socar alguém.
nota, porque me surpreende ao levar o polegar até a pele do pulso fechado e acariciar de leve. Perco o passo e o encaro, enxergando uma paz profunda na imensidão de suas orbes. É intenso, arrebatador e de repente estou relaxada. Não sei se foi o choque, mas termina fácil assim. Ele me olha e pronto; parece que se formou na arte de trazer a racionalidade de volta para as pessoas prestes a fazerem merda.
Enquanto ainda estou tentando entender o ocorrido, o garoto se vira para Luan e, muito calmamente, finaliza:
- Dificilmente. – o outro ri pelo nariz e prepara uma contra resposta, com ares de impaciência, porém é interrompido. – Você só se convenceu disso porque na verdade se tem em conta alta. Quem fala muito faz pouco. E levando em consideração as coisas que disse antes, cara... “Tem que lamber que nem potinho de Danone”. – usa aspas para delimitar a fala e depois faz uma careta, curvando as mãos como se buscasse lógica.
Há um longo silêncio antes de risadinhas explodirem atrás de nós. Três meninas, que se esgueiravam perto do corredor e dividiam a atenção entre abastecer o corpo de água e escutar, mal podem fingir que não estão prestando atenção. Eu também sigo o exemplo, depois de digerir a informação devagar. Luan está lívido. Choca-me que ele não saiba quão ridículo aquilo é – mas provavelmente só ficou abalado porque não esperava que o menino com o qual conversava antes fosse referir-se a ele com tanto deboche. Para ser honesta, nem eu. Posso ter colocado na cabeça que descobriria a origem da sensação de reconhecimento, porém mantive expectativas baixas. estava certo ao dizer que a companhia influenciava nossa percepção.
Encontro-me perdida em sentimentos ambíguos. Devo colocar uma estrelinha no peito dele ou fico ainda mais desconfiada?
me guia para longe. Os xingamentos dos outros três vão sendo deixados para trás. No lado de fora do ginásio, novamente nos encostamos a parede, enquanto o sol, menos fumegante, toca nossa fronte.
Fecho os olhos e ergo o rosto, pondo em ordem minhas emoções. Lentamente, a ira regride e deixa de tampar a garganta. Consigo respirar fundo e sumir com a sede por agressão.
Quando volto ao mundo externo, o garoto está me encarando.
- Tudo bem?
Quero dizer muitas coisas. Essa é a primeira que escapa;
- Eles não transaram. Foi só beijo. Infelizmente, alias, porque não devia ter sido nada. – quase me sinto cansada ao proferir. – Sempre fazem parecer que foi mais.
Aquiesce devagar.
- Ok. – não parece fazer diferença em sua opinião, mas faz na minha, porque sei que pesa pra também.
- Ela confiou demais. Eles a enganaram.
- É sua amiga? Aquela que estava com você de manhã? – eu nem sabia que tinha nos visto. Fico um pouco surpresa, mas empurro pra longe e aceno.
- Para você ver as pessoas com as quais tava falando. – aponto na direção de onde viemos.
- Então obrigada, Wonder. – cruza os braços. – Honestamente, já sabia que não faziam o tipo descente, mas não tinha ideia de que eram tão idiotas.
Mordo o lado interno da bochecha, me perdendo em seu semblante. Parecia verídico. Eu deveria acreditar? Ou se tratava apenas de um jogo deles?
Sinto-me paranoica igual a . Mas tínhamos razão em ficarmos cabreiros.
Acreditar seria um tiro no escuro.
- Tem um papel aí? – olho na direção das calças folgadas e azuis do uniforme de educação física. parece confuso, porém não hesita antes de enfiar as mãos nos bolsos. Puxa o celular e entorta o lábio. – Pode ser. Anota um endereço. – e, lançando-me um último olhar de dúvida, faz o que pedi. Um barulho estridente indica o final da aula. Trocamos um sorriso pequeno, cheio de palavras e pensamentos ocultos. Depois me desencosto e saio.
Acabo de dar um tiro no escuro.

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- Você o quê?! – berra alto. Clientes nos olham, dividindo-se entre curiosidade, surpresa e certo desagrado. Empurro meu cotovelo nas costelas magras dele.
- Chamei para vir aqui hoje. – repito. O garoto para de limpar o balcão, mas mantém o aperto sobre o pano. Fita-me entre pura descrença e certa ira.
- Tá louca, louca?
- Qual é. – sacudo a cabeça para seu exagero. – Quanto mais consumo, melhor.
- É nosso espaço livre dos otários e você chama um deles. Sério, Emergência?
- Você acompanhou a parte em que eu disse que ele colocou Luan em seu devido lugar? – ajeito o lápis que mantém meu cabelo firme e preso, embora alguns fios caiam nas laterais do rosto, rebeldes.
- Isso não diz nada. – cruza os braços.
- Para mim, sim. Quero dar uma chance. No mínimo conhecê-lo mais e descobrir de onde o vi.
- Ainda acho que é coisa da sua cabeça. Ele nem morava aqui.
- Não significa que nunca tenha vindo visitar a cidade.
- Tá, mas aqui?
Suspiro. A relutância de pode parecer irritante, mas eu conheço seus motivos e me compadeço deles. Mais do que isso, compartilho os temores. Encarando-o, flashs dos dois acontecimentos se fundem e embaraçam no cômodo reservado para lembranças. Sangue, marcas, cicatrizes, olhos inchados, lágrimas, dor. Raiva. Bullying.
Ambos nos encontramos e compreendemos naquele contato visual. desmancha a carranca e volta a limpar o balcão. Eu termino de organizar o dinheiro na caixa.
- Se te chateia tanto...
- Não, esquece. Preciso parar de ser tão paranóico. Ou preconceituoso, como diz . – rola os olhos por um instante. – Às vezes me irrita quão boa ela pode ser.
Aceno. É uma das coisas que mais admiro nela, mas não raro me deixa extremamente preocupada. está sempre enxergando o lado bom das pessoas e coisas. Preciosa demais para esse mundo... Meu lado protetor berra.
Só que ela é forte. Muito mais do que eu, por sinal. Aguenta as porradas e segue em frente.
Ainda sendo gentil.
Simplesmente um espécime em extinção.
- Obrigada por me lembrar. – mexo no objeto de madeira novamente e ao sentir outro bocado de cabelo escapar, me irrito e tiro de vez, passeando os dedos pelas madeixas no intuito de ordenar. – Quero falar sobre ela.
- O quê? – afasta o pano úmido após ter finalizado seu trabalho. O rosto, antes calmo, fica dois tons mais sério. – O que aconteceu?
Dou lugar um sorriso vagaroso.
- Isso. – uso minha unha, cuja tintura azul descasca, para tocar no seu peito.
- Hein?
- Quando foi que se apaixonou por ela?
entra em choque. Abre a boca, mas nada sai; pisca os olhos e coça a ponta do nariz nervosamente. Em seguida, vira de costas, guarda o material de limpeza e clareia a garganta. Vou ticando à medida que todos esses gestos são realizados. Ele se entrega tão fácil... Acaba com a necessidade de uma confirmação verbal.
De qualquer jeito, ela não vem.
- Tá louca, louca? – repete, forçando uma risada que poderia convencer o cliente da mesa mais próxima que ouvia nossa conversa enquanto lia uma fanfic no celular. Nunca a mim. E por via das dúvidas, mexo a cabeça, formando um não discreto que o homem detecta porque lança uma olhadela bem na hora.
- Pare de mentir. – volto a focar no meu melhor amigo.
- Não sei do que tá falando. – coça agora a ponta da orelha.
- Quantos sinais de nervosismo vai me dar antes de desistir?
Parte do semblante de desaba. Esconder coisas de mim é uma missão tão impossível que eles já desistiram de empreender, exceto em poucas situações como a de agora. Não porque fico cercando, stalkeando e perseguindo em busca da verdade – eu só os conheço demais. Passamos por poucas e boas juntos, servindo de base sólida um pro outro. Intimidade vem de brinde. Era inevitável. Aquele ano, de tão intenso, parece na verdade uns 5.
Mas amizade não se trata apenas disso.
suspira.
- ...
- Deixa para lá. – afago o ombro dele antes de me virar para frente, pois enxergara pela visão periférica que o casal do fundo estava rumando de encontro a nós, mãos continuamente entrelaçadas. Passaram o tempo todo assim. Deveriam estar suando. Eca. – Não precisa falar.
Ele hesita pela mudança de comportamento.
- Sério?
- Bem, realmente quero saber, mas se não está pronto, ok. Eu percebi hoje e fiquei surpresa. Amo vocês, sabe disso, e só quero ajudar. Tá tudo bem. Diga quando se sentir pronto. – exponho um sorriso no fim, cumprimentando os dois com a cabeça. pega só metade do repuxar de lábios, no entanto sabe que foi para ele também. Espelha o ato e sussurra um ‘obrigado’ tímido e próximo da minha orelha antes de se afastar para realizar as outras obrigações.
Porque amizade também é paciência e privacidade. E nós tínhamos tudo isso.
Leva 20 minutos para dar o ar de sua graça. Surpreendentemente, vem acompanhada de , envolvida num diálogo denso a respeito de Grey’s Anatomy – série que ela ama, indica e não foi assistida durante muito tempo por seus dois melhores amigos. Posso ver na expressão de que a chegada de ambos lhe trouxe certo desconforto e me questiono se é por ciúmes ou receio em relação ao caráter dele. Talvez ambos. é linda, afinal, e está sempre interessada por algum boy magia. Isso nunca o incomodou, mas imagino que a partir de agora as coisas vão mudar e eu precisarei ter mais cuidado. Além do que, caso eu esteja errada e o novato for tão idiota quanto os demais, significa que nossa amiga pode sofrer novamente. O grupo de otários do São Thomaz tem uma infeliz capacidade de remexer suas feridas e fazê-las arderem outra vez. Coisa que evitamos a todo custo. Não queremos vê-la sangrando.
Não novamente.
De todo modo, supera o desagrado inicial, limpa a face de aflições. Após finalizarmos o expediente e passarmos nossos aventais para os colegas do turno da noite, nos sentamos à mesa deles com os alimentos previamente escolhidos – pão de queijo com milkshake para mim, salgadinho e café para ele.
- concorda conosco sobre MerDer e Calzona. Céus, ele shippa Slexie também! – comemora , eufórica. O sorriso em seus lábios é tão contagiante que logo todos compartilhamos.
- Como não? Trata-se do melhor casal daquilo tudo.
- Sim! Meu Deus, sim! – ela ergue as mãos. – Vocês precisam voltar a assistir.
- Claro, tá na minha lista... – desvio os olhos para o canudo que sugo, claramente enrolando.
- Assim que eu terminar OTH. – promete . Mas sabemos que ainda está na primeira temporada e já tem planos de iniciar outra.
bufa alto.
- Vocês são minhas decepções.
Olho na direção de meu melhor amigo e troco uma piscadela. dá risada, encarando diretamente a mim. Resolvo devolver, tendo muitos intuitos com isso – analisar sua face à procura do maldito episódio que não consigo recordar, procurar por vestígios de mal caratismo, admirar a beleza suave de seus traços... No fim, só me resta desviar novamente, porque a encarada tinha se tornado tão duradoura e intensa que o clima na mesa ficou palpável. Caso alguém levantasse os dedos, conseguiria senti-lo solidificado ali. E, contrariando todas as expectativas, eu fiquei constrangida. Algo que quase nunca acontecia. Pelo menos, não por causa de garotos. Mas tem algo nele.
É uma sensação que muito se assemelha àquelas que tive com os outros integrantes da mesa. Saber disso faz o frio se apossar do meu estômago.
- O sabe tocar bateria, galera. – limpa a garganta e puxa assunto. , concentrado em digitar uma mensagem utilizando apenas a mão livre de Doritos, ergue a cabeça tão rápido que desconfio ter ficado tonto.
- Sério? – agora o novato tinha ganhado por completo a atenção dele. – É o próximo instrumento que quero aprender. Eu sei tocar guitarra, teclado, piano e violão.
- E compõe. – emenda minha amiga.
- E dança. Pra caralho. – arregalo os olhos. – Tipo, muito mesmo.
- Você também sabe, Emergência, não diga como se fosse algo esplêndido. – sempre acaba envergonhado quando escolhemos listar os diversos aspectos nos quais é bom. Algo engraçado, fofo e que adoro rever.
- Emergência?
- Ah, desiste, os embustes nunca vão te contar essa história.
gargalha.
- Piada interna.
- E, só pra deixar claro, eu dançava bem quando criança. Um dia, eu subi no muro, caí e devo ter batido a cabeça, porque não danço como antes.
- Seu cu.
- Olha os modos! – imita a voz da mãe de e se estica pra estapear sua mão. Quando o faz, as cicatrizes de seu pulso escapam da camisa de mangas longas e ficam visíveis. Ela está tão distraída rindo com o loiro que não percebe. No entanto eu noto. E também. Sinto meus músculos tencionarem, fico temerosa de que faça alguma pergunta, porém o momento não vem. E, tão logo quanto chegou, a preocupação se esvai.
- Vocês precisam tocar juntos qualquer dia desses. – aponto na direção do palco no fundo do estabelecimento.
- Eu vou adorar. Por sinal, esse lugar é muito maneiro. – mastiga os últimos pedaços do salgado que pediu.
- Sabemos. E adoramos trabalhar meio período aqui. – passo meu braço ao redor do de e encosto a cabeça no ombro dele.
A conversa dura, dura e dura. Quando saímos, já está escuro, movimentado e totalmente engarrafado.
e , que moram para o mesmo lado, dividem um uber. Eu e , extremamente mãos de vaca, decidimos ir de ônibus. Passamos os primeiros trinta minutos em pé, esmagados e, por alguma razão, achando graça de tamanho azar – e do arrependimento que bateu por não termos pego um carro. O coletivo mal se locomove. Está tão abafado que estou suando feito uma porca pela segunda vez no dia. Assim que vagam dois lugares, a gente se joga neles, “quase sentando no colo” dos outros dois passageiros, que por sinal nos encaram com sobrancelhas arqueadas. Sem dar a mínima, rimos um para o outro, dividindo o mesmo êxtase que só quem já passou por tal situação consegue entender. Enquanto o som sai por nossos lábios e se perde no meio da barulheira do coletivo, deixo meu olhar vagar pelo rosto dele, focando na boca por fim.
Em que Universo nos encontramos? Foi numa festa, viagem, saída no shopping? Trocamos quantos sorrisos ou beijos?
Afinal, por que não consigo me recordar?
Desvio o rosto para frente, passeando a língua na ponta do lábio.
- O que foi? – questiona . Ainda sinto as duas orbes dele analisando meu semblante.
- Nada. – não há como esconder o leve tom de frustração rodeando a única palavra solta. Acho, na verdade, que o sentimento flui por todo corpo; escapando pelos poros e gerando uma grande aura chateada ao redor.
Porque quero saber a verdade. Preciso. Mas perguntar parece arriscado.
Resolvo que esta será minha última alternativa. Tentarei, primeiro, utilizar outros métodos.
Como o reconhecimento.
- Então... The Weeknd ou Maroon 5?
Volto a fita-lo. Ele ergue as sobrancelhas, surpreso com a pergunta jogada de modo tão casual, e ri baixinho.
- Slipknot.
Estalo a língua.
- Legal. – ajeito-me no assento, de modo que posso olhá-lo mais livremente. – Game of Thrones ou Greys Anatomy?
- Supernatural.
- Comédia ou terror?
- Suspense.
- Livro ou filme?
- Mangá.
- O vestido é dourado ou azul?
ri novamente, mais alto.
- Nem vi a foto.
- Não brinca. – sacudo a cabeça. – Você não usa a internet?
- Não com tanta frequência. Nem tenho mais Facebook.
Acho que estou olhando-o igual se encara uma aberração. O garoto ergue as mãos, num gesto de “o que posso fazer?”, e desliza centímetros no próprio banco até nossos ombros estarem encostados.
- Você é...
- Diferentão?
- Estranho. – sopro, olhos meio estreitos. – E curioso.
Sorri.
- Obrigado.
- Não foi um elogio.
- Bem, eu considero.
Recuo e bato o ombro no seu. Ele repete. Trocamos mais um olhar longo e então caímos no silêncio.
O ponto demora intermináveis 45 minutos. Enquanto me espremo para fora, tendo-o atrás de mim feito uma sombra, faço uma checagem rápida de todos os vizinhos que conheço, buscando sua face no meio do aglomerado. Só pra dar de cara com a parede. Novamente. Já se tornara um ritual.
O clima da rua é pacato, com poucas figuras espalhadas pela área. Caminhamos lado a lado, ainda sob influência da introspecção adotada no coletivo. aparenta estar sugado por alguma questão profunda de seu ser. Noto isso ao virar e encontrá-lo de cenho franzido, olhos no chão e mãos nos bolsos. Após pelo menos um minuto de observação, finalmente resolve devolver a atenção prestada por mim. E a mistura de seriedade e hesitação no rosto dele denuncia seus planos de avançar em um terreno delicado.
- As marcas no pulso de ... Ela...? – vacilo e paro. O garoto dá dois passos antes de se interromper também, girando sob os calcanhares no intuito de poder me olhar. – É, acho que seu silêncio já é resposta suficiente. – deixa os braços caírem ao lado. – Não precisa dizer nada. – minha garganta se aperta. Com frequência, tento me convencer de que estou bem, que estamos todos bem, mas é em momentos iguais a esses que me deparo com a verdade: ainda dói. Não feito o primeiro dia, por sorte, mas de maneira que me faz crer que nunca irá se curar. – Desculpe, . Eu não queria te chatear. – agora parece preocupado diante da falta de respostas.
- Eu sei. Tá tudo bem. – respiro fundo, retomando a caminhada devagar. – Só é... Recente, sabe? Toda a situação.
- Entendo. Não deveria ter perguntado.
- Sei que não fez por mal. Consigo perceber quando é uma questão de curiosidade maldosa, fofoca ou até julgamento. Já recebi muitas perguntas assim.
aquiesce num gesto tão suave que é quase imperceptível.
- Eu perdi alguém desse jeito. Meu amigo. – espreme os lábios. –Acredite, é uma dor que conheço.
O choque me faz congelar de novo, pega desprevenida pela força com a qual me atinge. Sinto vontade de abraçá-lo e, estranhamente, de chorar também. Aquela havia se tornado uma dor íntima que compartilhava somente com . Quando tecem comentários e opinam, as pessoas muitas vezes não têm muita noção do impacto que causam; ou como conseguem afetar quem está envolvido no problema. me entende. Ali, observando a tristeza obscura cruzar a expressão dele, percebo que também.
- Sinto muito. – sussurro. – Muito mesmo.
- Eu também. – passa um braço ao redor dos meus ombros, traz para junto de si e volta a nos movimentar pela rua tão silenciosa quanto nossas bocas e mentes no momento.




Capítulo 3



Alguns meses atrás vi um post interessante no Facebook. Seu conteúdo era simples, curto e direto: o que te fez virar feminista? Logo depois de ler, me pus a pensar.
A verdade é que não sei.
O incômodo por certas situações me acompanha há tanto tempo que parece ter nascido comigo, embora saiba, obviamente, não ser possível. Aquele almoço em família que sempre culmina em mulheres na cozinha arrumando tudo e homens esparramados no sofá; obrigações que apenas as meninas têm, enquanto os irmãos se livram de boas; diferença de brinquedos; até mesmo a criação é oposta. Para um pai, ver seu garoto namorando é uma pequena e pitoresca benção. Relacionamentos da filha, por outro lado, envolvem um bocado a mais de estresse. E nem tô falando do famigerado ciúme. Por que Maurício podia dormir com as namoradas – ou somente ficantes – em casa, mas eu não, sob hipótese alguma? Por que vê-lo na praça se atracando com uma menina era normal, porém eu não podia, correndo risco de ficar mal falada?
Os exemplos são diversos. Uns menores, outros maiores – todos igualmente importantes. Pois sou fruto de uma construção. Tudo em mim conta histórias, longas ou pequenas, felizes ou tristes. Então qualquer aspecto é relevante.
Contudo, se fosse necessário nomear apenas um momento, talvez o crucial diante de todos os outros, sei o que diria: eu amo jogar futebol. Um dia, ao notar que o time dos garotos camisados sofria por um desfalque, me ofereci, muito inocentemente, para substituir. Não apenas fui ridicularizada e massacrada por diversos risos debochados, como também recebi uma puta bolada na cara, dada pelo mais idiota do grupinho. E quando voltei para casa correndo, de rosto inchado e restos da redonda na mão – é claro que eu estraguei a merda toda para eles em troca de tamanha agressividade –, tive de ouvir que era minha culpa, afinal meninas não podem se meter com meninos. Lembro-me claramente de responder “isso não é justo. Um dia, garotos e garotas serão tratados de maneira igual. E eu farei parte disso”.
Bem, posso não ser uma grande líder em quem todos se inspiram, mas do meu modo, eu acrescento algo. Todas acrescentamos.
Tomar consciência do que me transformei ao longo do tempo abriu porta para outras percepções igualmente cruciais. Foi aí que me deparei com um conceito que mudou por completo minha forma de enxergar e portar em relação mundo.
“Bullyng: termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.”.

Já fui, mesmo que de forma indireta, participante de casos assim. Omissão também é violência. Omissão também machuca.

Hoje, vivo o outro lado da moeda.

Mas isso não é sobre como escreveram meu nome nas portas dos banheiros, acompanhados de xingamentos pelo fato de me auto declarar feminista. Tampouco a respeito dos comentários ofensivos e misóginos que vira ou mexe recebo em meu blog.

O relato exposto aqui remonta as duas mais revoltantes pelas quais passei; ambas, com sorte, tiveram um final feliz, apesar de toda a dor.


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Nome:
Rótulo: Bicha


Ao longo das três semanas que sucederam o episódio da Emergência, aprendi muitas coisas sobre . Sua bebida favorita é suco de laranja; a série, Ghost Whisperer; ama filmes em preto e branco; tem um cágado chamado João; detestou, de fato, a blusa mostarda escolhida por sua mãe para a entrevista; achou que havia sujado rosto durante o café da manhã pelo número de olhares que ofereci a ele no dia em que nos conhecemos. Cada uma delas, a seu modo, nos aproximou. Mas meu dia favorito foi aquele no qual descobri o maior dom dele: dançar.

Era final do expediente, ficamos incumbidos de fechar a lanchonete, juntamente com Henrique, o gerente. Disse-lhe que não passaria na saleta dos funcionários porque estava cansada e iria direto para casa. Só esqueci que tinha deixado a bolsa lá.
Ao buscar, me deparei com preenchendo todo o ambiente com seus passos perfeitamente calculados de ballet.

Fiquei tão encantada que congelei no umbral. Não importa quantas vezes o tenha visto dançar; aquela primeira sempre será minha favorita.

No meio de uma pirueta, ele percebeu. Então parou de imediato.

- Você disse que não viria. – surpresa recheava todas as palavras proferidas.

- Esqueci da bolsa. – adentrei o cômodo devagar, feito alguém que acaba de despertar de um sono profundo e muito bom. – Caramba, , isso foi...
- Eu pensei que você não viria. – sentou-se na cadeira, colocou o tênis de volta e recuperou a mochila tão rápido que mal pude acompanhar. Principalmente estando ainda sob efeito da beleza da coisa.
- Espera! – consegui fechar os dedos ao redor de seu cotovelo. – Por que está correndo? – respirou fundo e escolheu um ponto no chão para focar. – Só não lembrei de que precisava vir. Qual o problema?
A resposta demorou. Cheguei a pensar que ele iria deliberadamente me ignorar, lançando meu questionamento no lixo, mas depois de reunir o tanto de coragem necessária, finalmente prosseguiu:
- É segredo. Minha dança é segredo.
Larguei sua pele, mas o garoto não se moveu.
- Por quê?
- Ballet é coisa de menina. Macho que se preza luta, joga videogame ou faz porra nenhuma de um jeito cheio de testosterona. – debochou em tom seco. A raiva dali não estava endereçada a mim, apesar de ser a segunda voz daquela conversa. Entendi de imediato sua questão. E me senti inflamada também. – Um homem que dança ballet só pode ser gay.
- É ridículo. Estamos falando de arte, não sobre um pinto.
Ele ergueu o canto esquerdo do lábio.
- Pois é.
- , não penso feito os retardados que dizem isso.
- Eu sei. Não é por sua causa, Emergência, juro. Só... Evito falar a respeito. É mais fácil esconder, sabe? Fingir que nada acontece e fim. Somente minha mãe faz parte desta história. Ou assim era antes de hoje.
Rumo de encontro à minha bolsa, esquecida num cantinho da saleta. Ao voltar, noto que está me fitando ansiosamente, mesmo sem desejar isto; por fim, sorrio para ele e enrosco o braço no seu.
- Mas o que aconteceu hoje? Não lembro de nada.
Leva alguns segundos para entrar no clima, relaxar os ombros e me oferecer outra vez a visão de seus dentes.
- Obrigado.
- Por favor, não estou fazendo nada demais.
- Sou grato mesmo assim.
- Demonstre pagando um x-burguer.
- Não.
- Então engula esse sentimento aí.

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Nem todo mundo tem a mesma noção – por isso que, no dia da apresentação para a qual ensaiava na saleta, foi filmado por um conhecido e horas depois teve sua cara estampada na internet.
A novidade se espalhou pelo colégio como uma epidemia. Às 10:30 da manhã, durante minha aula de álgebra, ganhei conhecimento da repercussão por meio do grupo de garotos que assistia – o dono do telefone, entre risadas, soltou um “bichinha louca” meio alto demais, de modo que a aula subitamente parou, silenciando a turma inteira. Nossa professora lhe lançou um olhar bastante irritado. Eu, com um gosto amargo no céu da boca, fiquei sem entender nada. Então ouvi Mariana, colega querida do meu trio, reclamar de seu assento “não fale assim do !”. E, sentindo o sangue ferver pela relação ao nome do meu amigo, levantei e tomei o celular da mão do garoto, só para dar de cara com a bela coreografia que vira de perto horas atrás – mas agora num vídeo com intuito claramente pejorativo.
A surpresa aos poucos deu lugar à revolta. Por isso explodi.
Nos dez minutos subsequentes, encontrei na sala do coordenador, postura baixa na cadeira de plástico.
- O que você tá fazendo aqui? – questionamos ao mesmo tempo, nossas vozes gerando um amontoado confuso no pequeno escritório do Sr. Fraga.
- Fui chamado porque liberaram um vídeo da apresentação de ontem na internet. – falhava ao buscar esconder a chateação que isso lhe causou.
- Bati duas vezes com o caderno em um garoto da minha sala que estava sendo idiota porque liberaram um vídeo da sua apresentação de ontem na internet.
Os dois homens ergueram as sobrancelhas para mim.
- Esse não é o modo correto de resolver as coisas, . – pigarreou o mais velho, ocultando o primeiro sentimento de incredulidade com o intuito de dar lugar à recriminatória.
- Bem, foi o modo que encontrei de calar aquela boca retardada. – cuspi.
- Por conta da sua atitude, vai levar uma suspensão. Sabe que “agredir” está no topo de atos proibidos. Valeu a pena?
- Ver a cara de bunda que ele fez não tem preço. Então, sim.
- Sabe que vamos ter que conversar mais tarde, depois que o pai do chegar. – adotou tom sério, crítico e profissional de quem vai me dar uma bela mijada, mas não tava nem ligando no momento. Ainda sentia o acúmulo de sentimentos fortes que me fez partir pra cima do babaca, misturado com a bela dose de êxtase por tê-lo feito passar vergonha na frente de todos. Não me arrependia nem por um segundo. Desconfiava, até, que jamais o faria.
- Meu pai vem?! – se fez ouvir em puro choque. Imediatamente sentou ereto na cadeira.
- Sim. Já deve estar chegando. – o outro deu uma breve encarada no relógio de pulso.
- Não quero estar aqui pra ver isso. Não, não, não. – o loiro ergueu sua mochila deixada aos pés da cadeira, jogou no braço e praticamente correu para fora. Fraga, inutilmente, chamou seu nome; recebeu em troca apenas a batida da porta. Segui meu amigo, também ignorando o coordenador enquanto me esforçava para segui-lo pelos corredores vazios. Nossos passos ecoavam alto o bastante para que todos dentro das salas pudessem ouvi-los.
- ! – pronunciei, quase sem respirar ao dar passos curtos e rápidos. Estava em desvantagem, visto que a perna dele parecia ter o dobro de tamanho em comparação com a minha. – Seu caralhudo, me espera!
Ele avançou mais uns cinco metros até parar. Alcancei-o instantes depois e pus a mão no sem ombro na busca por fôlego.
- Meu pai vai me odiar. – tinha olhos apertados e mãos em punho. – Evitei isso por tanto tempo, , para ter meu segredo escancarado por um idiota qualquer... Não era pra ser assim. Eu ia contar. Só não agora. Ele vai me odiar.
- Por quê?
- Quem quer ter um filho que faz coisa de mulher? De... Bicha?
- … - inclinei a cabeça centímetros para o lado, desenhando um semblante desaprovador que não vê.
- Eu sei que não é desse jeito, Emergência, mas é o pensamento de todos. Nossa família, amigos, conhecidos... Você sabe que ele conhece muita gente. As coisas que foram ditas nos comentários... Caralho, vai respingar na fama dele. Meu pai vai me odiar. – exalou forte. – Meu pai vai...
- .
Ambos olhamos aturdidos na direção de onde viemos há pouco. Parado no início do corredor, facilmente reconheci Márcio , tópico da conversa, de jeans e camisa de botões – a versão mais simples que vi naquele pouco tempo de amizade, porque o patriarca, nas outras vezes, fez escolhas tão formais quanto a própria maneira com a qual se referiu a mim. Cada aspecto dele exalava elegância e austeridade. Não me espantava que temesse sua reação com tamanha intensidade.
O rosto dele era sério e não transparecia muita coisa. Senti o garoto no qual me apoiava enrijecer – continuamos parados enquanto o patriarca vinha até nós. Quando chegou próximo o bastante para tocá-lo, imaginei se precisaria ficar entre eles, numa barreira humana fraca, porém necessária, mas fui interceptada pelos próximos gestos.
Porque Márcio o abraçou.
Vendo isso, larguei o ar que nem notara estar prendendo em um suspiro forte.
- Pai... – , que nunca gostava desse tipo de contato, superou o choque inicial bem rápido e correspondeu da maneira mais entusiasta de sua vida.
- Preste atenção no que vou lhe dizer, . – cortou. – Nunca mais esconda nada de mim. – assim que meu amigo fez menção de retomar a fala, ele o apertou mais, deixando óbvia a ordem por silêncio, e prosseguiu. – Não vou dizer que não fiquei surpreso com o vídeo. Você e sua mãe nunca comentaram nada. Mas nunca, meu filho, eu iria de julgar por tal razão. – encheu os pulmões de ar e recuou o bastante para poder fita-lo nos olhos. A força do momento aparentava preencher a atmosfera, tornando o ar denso, embora agradável. Se eu, mera coadjuvante na cena, já sentia o coração acelerar descompassado, imagina os dois? – Posso ser um cara fechado, sério, talvez meio conservador e de poucas palavras... Porém não nutro a crença de que o sexo masculino precisa ser e fazer determinadas coisas para impor respeito. Dançar não te faz gay, tampouco menos homem. Alias, nem a homossexualidade lhe faria; sei pouco a respeito, entretanto é bem óbvio que as escolhas afetivas de alguém não tem a ver com a identidade dessa maneira. Eu conheço o garoto que criei. Sei seus valores. E para mim isso basta. Tenho muito orgulho de você. Te amo. – pressionou os dedos no osso do ombro dele. À tal altura, meu amigo tremia, provavelmente pelo misto de sentimentos bons lhe acometendo. Eu não estava muito atrás. – Na verdade, você tem sorte de não ter puxado meu mau jeito para isso. A teoria da evolução é real, no fim das contas.
riu e me fez perceber que isso é o mais próximo de uma piada que Márcio seria capaz de proferir. Aliviada, contente e com a certeza de ser privilegiada por estar parada no corredor do colégio na companhia daqueles dois, eu cruzei os braços, mal contendo o sorriso na cara. Pai e filho se abraçaram novamente. Pareciam manter o aperto ainda mais firme e cheio de significados agora.
- Vou falar com um dos meus amigos advogados e ver com exatidão quais são nossos direitos. Não importa quem for, , vai pagar por tamanha exposição. Pode ter certeza.
- Não ligo, pai. Honestamente, só me importo com isso aqui. – deu dois tapinhas nas costas dele. – Seu apoio é a única coisa que me faltava.

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Nome:
Rótulo: Vadia


O segundo episódio ocorreu após meses, de modo que, embora não tivesse totalmente esquecido – pois sempre tem alguém pra desenterrar –, o vídeo de não possuía tanto impacto.
Ah, se soubéssemos o que viria...
acabou tomando conhecimento dos comentários que despertou ao chegar. Ficou, obviamente, desconfortável, mas era incapaz de guardar mágoa por algo que considerava “adolescente bobo fazendo homice”, então superou mais cedo do que eu. Aí está o problema. Não pelo fato de ela ser boa e evoluída; mas porque significou baixar a guarda. Eles se aproximaram.
Digamos que nós duas adoramos ter e esquecer crushs na mesma intensidade. Essa emoção de ficar envolvida por alguém a fez criar laços com Luan, do grupo de babacas que a recepcionaram daquele modo tão escroto. Ela me dizia, convicta, que o garoto não era autor de nenhum apelido – e eu acreditava, pois conhecia exatamente quem o fez. Isso não significa, porém, que não tivesse a parcela de culpa. Homem tem essa mania de se considerar um biscoito diferente dos demais dentro do pacote por não ser ativamente escroto. Bem, amigos, saibam que ao passar a mão na cabeça do coleguinha, você é culpado também. Era o caso de Luan. Mas eu me senti de mãos atadas. Considerava uma amiga, tinha certeza que era recíproco, porém também admitia que nos conhecíamos por um tempo curto. Minhas opiniões, por exemplo, não possuíam impacto feito agora. Precisava deixá-la viver. Talvez quebrar a cara. Embora amigos sempre queiram proteger uns aos outros, é preciso deixar o ente querido viver a experiência e colher os frutos para então gerar anticorpos.
Os dois saíram uma, duas, três vezes. Começava a relaxar minhas desconfianças quando terminaram de súbito, num episódio totalmente revoltante no qual ela disse ‘não’ para sua vontade de transar e o menino surtou. Já era ruim o bastante. Minha amiga se sentia péssima. Como piorar, então?
Criando boatos sobre o teor dos encontros e o porquê de terem terminado. Basicamente, a verdade que a maioria conhece é esta: abriu as pernas para ele desde o primeiro momento. Luan, um homem pica de ouro que gosta de garotas “se dando o valor”, cansou de comê-la tão fácil e decidiu partir pra outra.
Isso gerou a fama de que a novata era uma vadia. Mulheres, é claro, não podem jamais fazer sexo sem antes prenderem o affaire na teia e merecerem aquele ato tão único especial. É engraçado como homens querem tanto transar, mas julgam a ideia de liberar a boceta de cara. Leva-me a crer, portanto, que um mundo onde tal lógica poderia dar certo seria composto somente por relações homossexuais – coisa que, veja só, também é errada em várias óticas. Sentido, cadê?
A mentira tomou proporções gigantescas e absurdas – criou pernas, correu por toda a instituição e deixou para trás um terrível rastro de constrangimento e ofensas. Acompanhei a autoestima de se deteriorar sob minha vista. Por mais que eu e fizéssemos de tudo para melhorar, a coisa só avançava, avançava e avançava até ficar insustentável. Foi quando a tempestade explodiu.
Era fim de tarde de uma sexta abafada. Lembro-me claramente do dia porque tínhamos combinado de reservá-lo para nossos encontros sozinhas, somente aproveitando a presença uma da outra. Mas não apareceu. Tampouco deixou notícias. Depois de uma hora de atraso, resolvi ir bater na sua casa.
Percebi que havia algo de errado assim que o irmão mais novo abriu a porta com expressão abatida.
- Tom. – tentei sorrir, mas a perspectiva do perigo transformou o ato em algo nervoso e incerto. – Onde está ?
Ele piscou e engoliu a seco.
- No hospital Raimundo Morais.
Meu coração perdeu uma batida.
- Ela caiu? Se machucou? Passou mal.
Os olhos diante de mim marejaram.
- Tinha tanto sangue...
- Onde? Tom, o que aconteceu?!
Uma senhora mais velha que vi poucas vezes na rua surgiu. Após pedir para que ele voltasse à mesa e terminasse de comer, aguardou o menino sair e me encarou. Deveria estar com o semblante carregado, porque recebi, antes de mais nada, um olhar de pura piedade.
Estava considerando sacudir o corpo da mulher e berrar “me responde, caralho!”, contudo ela se fez ouvir antes.
- Você precisa ser forte. – aquelas quatro palavras despertaram vontade de vomitar. – A menina... Tentou se matar. Hoje. Faz umas duas horas. Susie está lá com ela...
Sabe a sensação de ver o mundo congelar?
Nada mais tinha sentido. A voz, gradualmente, perdeu seu volume até desaparecer. O mesmo aconteceu com cada elemento ao meu redor. Senti-me pequena, insignificante e tomada de uma dor tão profunda que precisei ofegar; a vizinha deu um passo a frente, amparando-me, e eu realmente achei que iria desabar nos seus braços. Mas não aconteceu.
Ao invés disso, fui tomada de súbito por adrenalina, virei de costas e simplesmente saí correndo na direção do ponto de ônibus.
Passei por todo o ciclo de mal estar durante aquele trajeto, respirando com dificuldade enquanto suava feito louca. Trinta minutos depois, deixei o coletivo e parti a mil na direção do enorme prédio. Acho que Verônica avisou Susana, porque a encontrei na recepção ao entrar. Seus olhos pequenos, vermelhos e inchados, iguais ao nariz, confirmou tudo. Não era mentira; tinha tentado acabar com a própria vida. De acordo com a narração de Tom, provavelmente cortou os pulsos. Imaginá-la em tal situação, gritando de dor, foi a gota d’água para que as lágrimas finalmente corressem livres. Elas deixavam marcas de destruição por onde passavam. Quanto mais eu chorava, mais queria me perder no pranto sentido.
Nos abraçamos tão forte que pensei, por um átimo, no ocorrido com . Então lembrei que precisava ligá-lo. E a ideia de precisar contar tudo gerou um rombo no meu peito.
- ... – sussurrei.
- Está lá em cima. A culpa é minha...
- Não diga isso, por favor. – desvencilhei-me dos braços, embora estivessem tão quentes e confortantes. Precisava encará-la nos olhos. – sempre comenta conosco quão amigas vocês são. Acredite, Sra. , seu amor é uma das coisas que a mantém firme em todos os momentos.
Diversos pingos caíam de seus olhos. Com a mão trêmula, Susie os limpou e apertou a ponta do nariz.
- Eu deveria ter notado. Deveria ter feito algo. Estava cozinhando, tão distraída, que mal percebi o silêncio. Quando subi, procurei em todos os cantos. Ela... Ela estava no banheiro. Caída. E havia tanto sangue... A poça vermelha manchou sua camisa e eu... Eu...
Toquei sua bochecha. A mulher mordeu o lábio com força e fechou os olhos.
- Céus. – lamentou. – Não posso perdê-la.
- Não irá. – mas o novo choro que se iniciou demonstrava quão amedrontada a perspectiva me deixava.
- Se minha filha sair dessa, prometo que serei melhor. Vou perguntar sobre o colégio, ouvir seus comentários a respeito das séries, levá-la pra ver filmes, ler os livros que pede. Melhorarei, eu juro. Por favor, Deus...
Apertei os braços ao seu redor novamente. Fincadas no meio do primeiro andar, com atenção e piedade dos outros voltada a nós, sei que compartilhávamos o sentimento de vazio e desespero na boca do estômago.
Foi aí que entendi porque Hazel guardou sua nota máxima de dor. Quando algo ruim acontece, temos mania de viver cada segundo da merda até a última consequência, tornando o problema maior do que é de fato – mas percebemos quão pequeno é assim que algo verdadeiramente ruim surge.
Aquele era meu 10.

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Apesar de já ter uma boa noção sobre o que é certo ou errado, aprendi lições valiosas depois de tudo que passei. Por isso, sempre que possível, deixo o apelo; não sejam cuzões. Independentemente de qual verdade vivam, não queiram impor a outras pessoas. Respeitem. Tolerem. Separem ‘opinião’ de ‘discurso de ódio’. Tem merda demais na sociedade. Procure fazer a diferença.
O que muda na sua vida se João ama Maurício e Priscilla quer ficar com Marilia?
Por qual razão Vitória não pode beijar quantas bocas deseja numa festa sem ter de ser esculachada?
Pedro não pode gostar de moda, pois é “coisa de mulher”? Quem define isso?
Seja livre pra viver. Deixe os demais serem também.
Não fode o mundo, porra.




Capítulo 4



Às vezes eu paro, olho ao redor e me sinto verdadeiramente agraciada pelo Cosmos. Acontece muito quando estou com e – mesmo quando os dois estão discutindo horrores e me imprensando no meio da loucura.
Estou num desses momentos. E agora faz parte.
Embora o conheçamos há pouco, a gente confia nele. É incrível como seus gostos casam um pouco com cada um de nós. Seja tocando com , falando de Greys acompanhado por ou apenas jogando papo fora comigo, ele se sai bem. E não posso esquecer de quão honesto foi. Logo no dia após o encontro na lanchonete, se juntou ao nosso grupo, debaixo da árvore, e jogou os fatos – era primo de Fábio e por isso tava andando com aquele bonde no início. Ficamos desconfiados, sim, mas passou. Porque ele é diferente.
- Tá, cansei de dançar. – anuncia, juntando os fios no alto da cabeça no intuito de refrescar a nuca. Se tivesse qualquer brisa naquele lugar super amontoado, é claro.
- É. Chega de chamar atenção só porque não estamos fazendo coreografias ritmadas e sim curtindo a onda. – brinca. Lanço o braço em ambos.
- Estamos apenas fazendo o que viemos fazer. Somos pessoas estranhas na pista de dança e amamos isso! – minha pequena declaração desperta gritinhos dos dois. está bêbado; só é empolgada pra caramba mesmo.
- Vem, Norris, vamos pegar algo pra molhar a garganta. – a garota segura na mão do loiro e foca em mim, o que é bom, pois assim não percebe a cara de boboca feita por ele. – Suco pra você e refrigerante pro ?
- Sim. Laranja pra mim, câncer pra ele.
sai gargalhando e reboca . Vou com o que sobrou na direção de um local menos apinhado, onde podemos sentar e descansar.
Sinto-me relaxada, feliz e completa ali.
- ?
- Hm?
- Posso te fazer uma pergunta?
- Não.
- Estive pensando nisso por muito tempo. – ignorou. – E considerei deixar pra lá, mas não consigo... – passei as unhas no joelho dele, deixando claro que agora precisava finalizar. – Você realmente não lembra de mim?
O choque é imediato. Viro a cabeça com tanta rapidez que fico tonta.
- Você sente também? Melhor: sabe de onde nos conhecemos?
levanta as sobrancelhas.
- Bem, nem todos apagamos da memória momentos como aquele. – está brincando, porém me atinge mesmo assim. Afinal, é o . Ele é divertido, gato e interessante pra caralho. Deveria lembrar!
- Sinto-me uma merda.
- Não precisa, Emergência. Tô só zoando você.
- Não, sério... – aprumo a postura e suspiro. – Eu queria lembrar. Tentei desde a primeira vez que nos vi, mas não tive êxito! Olha que separo os garotos em grupos exatamente no intuito de não passar por isso.
- Quê?
- Vasculhei a mente toda e não saí do lugar. Sei que é meio chato pedir, mas será que pode me ajudar? Por favor?
Ele olha demoradamente para meu rosto. Uno as mãos numa prece.
- Mansplaining. – sopra.
- Hã?
- Mansplaining. No seu blog. No privado do Facebook. Enchendo o saco…
- Até eu te bloquear.
Minha mente clareia. Quase posso ouvir um ‘clic’ quando tudo entra em perspectiva; as memórias vêm em flash, ligeiras, mas precisas. Mansplaining.
Arregalo os olhos.
- Caralho, viado! – bato a mão na sua coxa. – É isso! – forço um pouco mais. –Lembro que vi algumas fotos suas e lamentei um cara tão bonito falar tanta bosta. Por isso algo cutucou meu cérebro quando te vi! Faz o que, três anos? Quatro?
Dá de ombros.
- Algo assim.
- São tão frequentes que não guardo todos. Alias, uma das coisas com as quais mais lido na vida é homem tentando me diminuir por algo.
- Culpado. – o semblante se contorce. – Eu era assim.
- Não se parece com você.
- Porque não sou mais desse jeito. – e agora está sério. – Devo isso a nossa conversa. Foi longa, desgastante e nada legal, mas as coisas que você me disse ficaram na minha cabeça. E, droga, eu detestei saber que estava certa. Odiei aquela blogueira da porra que me botou no meu devido lugar. Cerca de um mês depois, meu amigo se suicidou. Ele era gay e nosso grupo, mesmo sem ter conhecimento disso, o fazia sentir mal a cada merda que soltava. A partir daquele momento, quis mudar. A culpa quase me devastou. Precisei fazer terapia. Então você ficava voltando, voltando, voltando... Pensei muito em ti. Comecei a ler seu blog frequentemente. Acho que posso fazer um top 10 dos melhores textos. – enche o pulmão de ar. Continuo lívida, estática e tocada pelo relato todo, praticamente sem respirar direito. – O que quero dizer com tudo isso é que mudou minha vida. Quando te vi, no colégio, pensei em falar, mas travei. Por várias razões. Obrigada, . E desculpa. Se hoje sou um cara mais esclarecido, devo uma parcela disso a você. Queria que Tiago pudesse me ver agora.
A vontade de abraçá-lo percorre meu corpo e nos une, como se houvesse magnetismo entre as peles. Sinto o cheiro de suor, colônia masculina e cigarro alheio deixando a pele dele – pode não parecer atraente, porém naquele instante, sei que poderia beijá-lo.
- Nem consigo responder. Espere até amanhã, pois estarei recomposta e pronta pra te arrasar nas palavras de novo. – ele ri e o ar entrando em contato com meu ouvido causa arrepios. – Obrigada, .
- Sou eu quem precisa agradecer.
- Parem de se agarrar! – o berro de nos faz estremecer e bater o ombro um na boca do outro. Meu amigo gargalha, todo alegrinho, enquanto revira os olhos e nos entrega os respectivos copos. Ficamos todos espremidos no sofázinho. Os três retomam o debate a respeito do assunto que embalou grande parte da noite, antes que eu sugerisse uma pausa pra dançar. Prossigo ali, meio imprensada, mas bem.
Porque eles fazem isso todo dia. E enquanto não houvesse baixaria e desrespeito, tudo acabaria ok.

+++
Nome:
Apelido: Mansplaining
Rótulo: Nenhum. E espero que continue assim.




Fim.



Nota da autora: GENTE, eu tô muito feliz por ter terminado! Fiquei bastante satisfeita com o resultado da história. Quando vi a proposta do ficstape, considerei pegar Lightning, segunda musica favorita do álbum, mas a letra de Weird People me pegou. Soube que poderia falar de coisas muito importantes e legais com ela. Então aqui estou eu. Espero que gostem!




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