Fanfic postada em: 06/06/2018

Prólogo

“이 넓은 바다 그 한가운데
(No meio da imensidão do oceano)
한 마리 고래가 나즈막히 외롭게 말을 해
(Uma baleia, sozinha, fala suavemente)
아무리 소리쳐도 닿지 않는 게
(O fato de que não importa o quanto ela grite, nada irá alcançar)
사무치게 외로워 조용히 입 다무네
(Torna-a tão gravemente solitária que ela silenciosamente se cala)”


Todos os verões, na imensidão do maior oceano da Terra, os fluxos migratórios de um ser especial ecoam um chamado incessante, porém sem resposta e sem paralelo em nenhum outro ponto do globo. O som é notadamente de uma baleia, mas sua frequência está a 52 hertz, muito mais alta do que o som emitido por todas as outras espécies conhecidas e catalogadas, o que a impede de ser ouvida durante todo o seu trajeto pelo Pacífico. Ela nunca foi vista, mas seus cantos curtos e frequentes vêm sendo captado pelos humanos desde o fim da Guerra Fria e sua história de incessante busca por um parceiro capaz de entendê-la em uma jornada visceralmente solitária tem capturado a atenção de outros milhares de corações humanos igualmente apartados.
A 52 Hz havia sido nossa inspiração para uma canção da parte dois da Hwayongyeonhwa era. achava que era uma boa metáfora para falar sobre a solidão moderna, aquela que aparece mesmo quando se está rodeado de pessoas, e para iniciar uma discussão sobre como se sentir diferente poderia impactar a vida de muitas pessoas em um mundo que prega a uniformidade e o padrão.
Por que a baleia solitária havia se cristalizado no imaginário humano desde sua descoberta? Certamente porque personificamos sua condição e humanizamos seu chamado. Cientificamente, seu sinal sonoro não contém nenhuma explicação que nos leve a ter certeza de que seja de fato um chamado ou que sua migração seja uma busca, mas como seres sociais, rejeitamos a solidão e abominamos a possibilidade de não sermos ouvidos ou compreendidos, logo, fazemos a narrativa do animal à nossa própria semelhança e a preenchemos com uma mensagem que queremos espalhar. A de que nossas vozes não precisam cessar mesmo quando achamos que não somos ouvidos, porque em algum lugar do oceano – ou da Terra – ela vai reverberar e isso pode fazer toda a diferença.


Capítulo Único

“어머니는 바다가 푸르다 하셨어
(Minha mãe disse que o mar é azul)
멀리 힘껏 니 목소릴 내라 하셨어
(Ela me disse: solte sua voz o máximo que conseguir)
그런데 어떡하죠 여긴 너무 깜깜하고
(Mas o que eu devo fazer? É tudo tão escuro e só existem baleias diferentes)
온통 다른 말을 하는 다른
(Falando palavras totalmente diferentes)”


March 12, 2017

O Honda Center começava a ficar silencioso, após cerca de uma hora do final de nosso segundo show em Anahein. O eco de uma arena vazia ajudava a baixar a adrenalina que costumava atingir seu pico enquanto nos apresentávamos em frente a multidões. Naquela noite em especial, se encerrava a nossa agenda pela América do Norte, aonde sessenta mil pessoas vieram nos assistir em cinco concertos consecutivos. Os ingressos estavam esgotados para todas as datas até meses antes. Sessenta mil pessoas. Enquanto espiava o trabalho da equipe de desmontagem dos equipamentos, sentado sobre uma das enormes e pesadas caixas arrumadas sobre o palco, ainda conseguia me espantar com os números.
Estávamos longe de casa, literalmente do outro lado do globo terrestre, sendo recebidos com curiosidade e carinho em nossa maior tour desde o debut. Horas antes, estávamos enérgicos enquanto a arena na região metropolitana de Los Angeles parecia tremer sob nossos pés e entoava coros conforme nossos comandos. Éramos como maestros. Louváveis mestres de cerimônias. Por que então, enquanto meus olhos vagueavam pelos espaços vazios onde antes alguém gritava enlouquecidamente versos que eu ajudei a compor, meu peito se apertava em uma mistura de angústia e ansiedade?
Havia um cansaço latente em meu corpo, completamente justificável diante de nossos compromissos e rotina, mas normalmente nós sete lidávamos bem com isso. Afinal, depois de algumas quedas você começa a enxergar o degrau oculto das dificuldades e instintivamente começa a driblá-lo, como em um treinamento. O viés físico sempre fora o menos complexo, porque quando o cansaço chegava à mente era sempre como um alerta de perigo ligado e, bem, o meu estava piscando sobre minha cabeça pesada há dias e dentre as coisas que se emaranhavam em meus pensamentos, o mais brilhante deles era que gostaria de estar em casa.
Los Angeles em nada ajudava. Enquanto estávamos em turnê, nos colocávamos sempre em grande evidência, possivelmente até tanto quando lançávamos algo de novo, então voar de um lado para o outro também envolvia receber todos os tipos de pessoas e sorrir para elas, mesmo quando elas diziam coisas absurdas e nos faziam perguntas completamente vazias. A América do Norte era foda nisso, pensei enquanto soltava um riso sem humor algum. Wings havia sido nosso mais promissor trabalho enquanto liricistas, enquanto produtores, enquanto músicos como um todo, mas vejam bem, as pessoas querem saber sobre nossas hipotéticas namoradas – unicamente no feminino –, sobre nossos celebrities crushes – e é bom que sejam todos norte-americanos porque não eles não conhecem os asiáticos – e silenciosamente perguntava a mim mesmo qual o ponto disso.
As pessoas me dirão que esse é o preço a ser pago pelo sucesso que o BTS alcançava, mas honestamente, aceitar isso é fazer a via reversa do que queríamos para nós mesmos enquanto artistas. É controverso pensar que pode haver autenticidade dentro da indústria musical e qualquer um, em algum ponto da carreira, vai ser sugado pela máquina, mas ainda somos seres humanos que podem fazer o seu melhor para ir contra isso. Estávamos prestes a começar uma nova era conceitual e nós sabíamos o que queríamos dizer, só não sabíamos se nossas palavras iriam reverberar do jeito que queríamos.
Esse era o provável ponto crucial em minha inquietude. Tínhamos um amor sem precedentes vindo de todas as direções e nem que vivêssemos eternamente poderíamos mostrar melhor nossa gratidão. Nossos versos e nossas melodias eram conhecidas e cantadas por um grupo de pessoas tão numeroso que ainda espantava. Apesar disso, ainda havia momentos como aquele, em que me esgueirava do camarim lotado para poder respirar. Ainda havia momentos como aquele, em que eu me sentia tão encurralado que preferia ficar sozinho. Ainda havia momentos como aquele, em que mesmo não estando sozinho, me sentia como o mais solitário entre todos.
Irritava-me profundamente a vulnerabilidade desses sentimentos. Eu racionalmente sabia que não havia problema em ser vulnerável às vezes e que é completamente normal que vez ou outra nossa persona se sentisse incompreendida e sozinha, mas havia uma parte de mim que achava tais sentimentos completamente infundados e até mesmo ingratos.
Você é venerado, seu bastardo! Acha que tem o direito de se sentir sozinho e infeliz?!
Mais um riso sem humor escapou de meus lábios e novamente me perdi em pensamentos ao observar a estrutura que utilizávamos no palco ser desmontada. Os trabalhadores gritavam um para o outro e a acústica perfeita da arena amplificava suas vozes de um jeito engraçado, fazendo com que elas parecessem mais fortes que o tom normal e que chegassem a quase todos os pontos do lugar sem necessidade de qualquer outro aparelho eletrônico de amplificação de som, por causa do vazio do recinto. A constatação de tal fenômeno fez minha mente metaforizar o momento.
A essência completamente social de nós seres humanos nos condiciona a buscas muito peculiares. Nossos sentidos, nossos sentimentos e nossas palavras sempre buscam por um reflexo, uma antítese para formar a síntese de nossa tese, um reverberar no outro, naquele que irá nos compreender em nossa totalidade e que não apenas pode nos ouvir, mas nos apreender. Por conta desse desejo, figuras carismáticas ao redor do mundo fizeram enormes estragos. Por conta dessa busca, inúmeros corações foram despedaçados. Por conta dessa obsessão, nós negligenciamos o silêncio e esquecemos nós mesmos para enxergar o outro. Buscávamos nosso amplificador natural mesmo que isso nos tornasse surdos.
Eu não estava imune a essa busca e arrisco a pensar que nenhum de nós está, mas quando penso nesses conflitos internos entre a ânsia de ser ouvido sem interferências e a necessidade de encontrar alguém que me compreenda e que possa argumentar sobre minhas angústias, havia somente um rosto que serpenteava minha mente e que fazia meu coração vibrar naquela frequência única que poucas vezes encontrou um paralelo, a não ser nela. Não era incomum que nos momentos em que eu me sentia uma baleia solitária no vasto oceano, a minha mente bagunçada buscasse suas palavras e seu sorriso.
estava em algum lugar de naquele momento, provavelmente dormindo ou, considerando seus hábitos noturnos, lendo alguns de seus livros favoritos e escolhendo os melhores quotes para a sua coleção de epígrafes. Sua inteligência formidável sempre me acuou um pouco, desde quando nos esbarrávamos pelo bairro quando pequenos, mas nela eu havia encontrado uma resposta que nenhuma outra pessoa havia dado e que possivelmente nunca daria. Quando eu ainda não compreendia muitas coisas, sua concepção de mundo me assustava porque me deixava inteiramente conectado, e vivendo como eu vivia – sendo um jovem mais introspectivo do que o recomendado –, eu não estava muito acostumado a paralelos.
Pensar nela me fez buscar o aparelho de celular no bolso e checar o aplicativo de conversas instantâneas. Com o fim da parte americana da turnê, em poucos dias estaríamos de volta a Seul e não sabia se haveria tempo, mas gostaria muito de vê-la. O fato dela ainda viver em nossa cidade natal, na mesma casa de sempre, dificultava um pouco para mim, mas eu esperava que em nosso tempo de folga e entre os preparativos para próximo álbum e o retorno da parte asiática da tour, eu pudesse ir a para abater a necessidade ouvi-la e de acalmar minha angústia com nossas conversas mornas e cheias de metáforas que somente nós entendíamos.
Estar fora por tanto tempo me fazia um tanto alien de mim mesmo e dentre os sete, talvez eu fosse o mais sensível neste quesito. Nunca fui bom em simulações, então quando meu humor se tornava nebuloso eu era facilmente descoberto e com sorte conseguia ser poupado, como naquela noite em que me deixou escapulir para longe dos convidados em nossos camarins e nosso manager não deixou que ninguém fosse espiar o palco enquanto isso. Ao menos estaríamos em casa em breve e eu poderia, depois de um merecido descanso, aproveitar as memórias bonitas que os shows até ali nos proporcionaram.
-ah – a voz cautelosa de , rouca pelo esforço de entreter uma arena lotada por quase três horas, me fez voltar à realidade –, já somos somente nós. Você pode voltar e se trocar.
Seu sorriso carinhoso me fez sorrir de volta e aceitar a garrafa de água que ele me oferecia. Saltei da caixa e caminhei ao seu lado pelo backstage propositalmente mal iluminado, passando meu braço livre por seu ombro quando ele me abraçou de lado.
– Está melhor? – voltei a olhar para ele após tomar um generoso gole d’água e assenti – Já estamos indo para casa e você vai poder descansar. Quer conversar sobre o que está sentindo?
era sempre muito sensível e a sua forma de acolher qualquer um do grupo sempre que tínhamos qualquer problema ou falta de ânimo era ser mais afetuoso do que normalmente era, o que, quando não nos fazia ter crises de riso por embaraço, nos fazia um tanto sentimentais, o que era o meu caso no momento.
– Eu só estou cansado e isso me deixa impaciente, você sabe – ele assentiu – Por que diabos em Los Angeles os bastidores estão sempre lotados?
Minha indagação em forma de resmungo fez meu amigo rir abertamente, o que me fez acompanhá-lo em um riso breve.
– É o lugar das celebridades, oras! – deu de ombros, ainda rindo um pouco – Todo mundo parecer querer explorar um pouco mais sobre quem somos, mas quer saber? – ele me olhou quando entramos no corredor dos camarins – Eu acho que sei como você se sente às vezes. Incomoda a mim também ser a “peça exótica” do lugar.
Ele fez aspas ao se referir especialmente sobre como a imprensa ocidental nos tratava e nos incluía em suas pautas quase sempre nada interessantes. Talvez fôssemos audaciosos demais e estivéssemos esperando demais de algo que não é para ser muito profundo. É como se eles estivessem nos dizendo: Ei, nadem na superfície somente. Não queremos nos cansar indo longe demais. Por isso às vezes era entediante lidar com o frenesi midiático. Não tinha nada a ver com nossos fãs, mas com o que vinha com eles.
– Mas a gente sobrevive se conseguirmos passar nossa mensagem, né? – ele me perguntou, possivelmente relembrando as longas conversas que tínhamos sobre isso.
– É exatamente isso! – sorri para ele assim que paramos em frente à porta do camarim – Se alguém está recebendo o sinal, estamos no caminho certo.
Eu me agarrava àquela sentença porque conhecia o meu coração e o de meus amigos e sabia que não cantávamos em vão, então mesmo que por vezes eu me sentisse sozinho, eu sempre poderia voltar para aqueles que a vida havia me dado e só isso já fazia com que eu me sentisse mil vezes melhor. Isso valeria para aquelas seis pessoas que dividiam o palco e uma vida comigo, mas também para aquela que estava em minha mente e em meu coração mesmo que estivesse a milhas de distância.

April 10, 2017

O carro estava estacionado há quase uma hora e me distraía olhar a vizinhança tranquila através do vidro fumê do veículo em que estava. mudara bastante desde que havia ido para Seul, mas nosso bairro parecia o mesmo, exceto pela maior quantidade de fast-foods a cada esquina. A casa de , é verdade, mudara um pouco também, já que desde que seus pais tinham voltado para Jeju a fim de terem um fim de vida mais saudável e menos frenético, ela havia alugado o térreo para um jovem casal criar um ponto comercial de doces e vivia agora apenas no andar superior, porque sendo sozinha ela não precisava de muito espaço, era o que dizia.
Sua rotina tranquila, totalmente o oposto da minha, ajudou em minha tarefa de encontrar uma brecha na agenda com o grupo para ir até ela. Estar de volta ajudava, mas ainda preservava a inquietação que, eu sabia, só se dissiparia quando a visse de novo. Não se engane ao pensar que tínhamos um relacionamento amoroso, porque nunca chegamos a essa parte. Possivelmente a pulamos em algum momento de nossa juventude e àquela altura de nossas vidas não nos importávamos muito com isso. Às vezes, quando você passa grande parte de sua vida achando que vai ficar sozinho e não sendo compreendido por ninguém e depois você encontra em outra pessoa o seu eco, você pode perceber que nem sempre é sobre romance.
Eu não havia chegado a essa reflexão conclusiva sozinho e era por isso que ela sempre fora tão importante para mim.
Meus lábios se esticaram em um sorriso pequeno quando a vi dobrar a esquina, equilibrando uma sacola de papel em uma mão e uma pilha de livros em outra. Imediatamente abri a porta do carro e avisei ao meu manager que ele poderia voltar ao hotel sem se preocupar. Os olhos dela me capturaram muito rapidamente assim que deixei o carro, o que me fez sorrir, ainda que ela não pudesse ver por conta da máscara. parou em frente ao corredor que levava às escadas de sua casa e me esperou com um olhar que me trazia um aconchego familiar. Atravessei a rua sem pressa, já querendo prolongar nosso tempo juntos. Quando estive a um passo dela, sorriu para mim e indicou a escadaria com a cabeça, me fazendo assentir e pegar os três livros grossos de seu braço para ajudá-la a subir.
– Você esperou por muito tempo? – perguntou enquanto subíamos, sorrindo ao puxar o elástico de minha máscara para que pudesse ver meu rosto inteiro sem impedimentos, o que me fez rir.
– Por pouco mais de uma hora – ela abriu a boca em espanto e eu me adiantei em concluir –, mas não tem problema algum, afinal, você me disse o seu horário.
– Perdi alguns minutos ajudando uns alunos no final da aula – ela fez careta, virando-se para mim assim que chegamos em frente à sua porta –, mas perdi mais minutos esperando nosso jantar.
Ela sacudiu a sacola de papel e eu pude sentir o cheiro delicioso que escapou dali.
– Você vai ficar para jantar, certo? – seu tom era mais como uma afirmação do que de uma pergunta.
– Se você não me expulsar... – dei de ombros, entrando atrás dela quando a porta foi aberta e logo o aroma inconfundível de jasmim tomou conta de meus sentidos. Era seu incenso favorito.
, eu não fiz isso durante todos esses anos, por que faria isso agora? – ela riu ao ir tirar os sapatos e ir diretamente até a ilha da cozinha.
Sua indagação me fez perceber que, como uma peregrinação periódica, eu sempre acabava ali de frente para ela, vindo de onde quer que fosse para que pudesse estar em sua companhia e, honestamente, eu tinha sorte por ter aonde ir para achá-la, diferente de tantos outros que poderiam se sentir como eu, mas que ainda não haviam encontrado aquele ou aquela que capturasse seus sentimentos, pensamentos e anseios na mesma frequência. Quando eu estava com ela, era como se a 52 Hz achasse seu igual em meio a tantas baleias diferentes.
Sorri enquanto ia até ela, sentando-me em um dos bancos altos diante do balcão.
– Nunca se sabe... Eu sou um cara cauteloso.
Sua gargalhada me fez alargar o sorriso e ela virou para mim com os olhos brilhantes, tirando da geladeira duas latas de cerveja e escorregando uma pelo mármore, em minha direção.
– Quem mais vai me ouvir tagarelar sobre o nada com tanto interesse além de você? Nem meus alunos me aturam!
– Duvido! – estreitei os olhos para ela após tomar meu primeiro gole da bebida gelada – Você me disse que sua primeira turma lotou!
– Por isso mesmo! – ela voltou a rir abertamente – Eles ainda não me conheciam!
Fiz um bico ao bufar em descrença. havia começado a ministrar aula como monitora na universidade no último outono. Quando tivesse o título de doutora até o próximo verão, aí então poderia finalmente se candidatar ao posto de professora regular. O que ela facilmente conseguiria, eu tinha a mais absoluta certeza, porque mesmo que não entendesse nada de antropologia e outros termos culturais, eu sabia que ela tinha amor pelas teses que levantava, logo, eu sabia que ela faria seu melhor.
– Deixe de besteiras, você é genial.
rolou os olhos diante de mim e se sentou, apoiando os cotovelos na superfície que nos separava.
– Olha quem fala! – tomou um gole da sua cerveja, abrindo a caixinha de papel e revelando os cubinhos de frango frito que trouxera – Como vai o gênio ?
Franzi o nariz ao fazer uma careta, fazendo-a rir.
– Com saudades de você.
– Oh – ela fingiu espanto, mordiscando nosso aperitivo com ajuda do jeokkarak –, você está em crise.
! – elevei a voz, indignado, fazendo-a gargalhar tão alto, a ponto de acordar sua gatinha que dormia no canto da sala – Eu vou embora! Você fala como se eu só visitasse você quando não estou bem!
Ela continuou a rir, mas eu involuntariamente continuei com um bico nos lábios, não achando nem um pouco engraçado.
– Eu estou brincando com você, bobo! – ela ainda ria e esticou uma das mãos para apertar meu queixo – Senti sua falta. Como foi na América? – se levantou, segurando a caixa com a comida e sua cerveja – Vem, vamos para a sala. Você tem muito para me contar.
Eu mal via o tempo passar quando estávamos juntos. Contar sobre os meus dias longe era algo que eu fazia repetidamente, mas era sempre divertido fazer isso para ela. não viajava muito, então ela me enchia de perguntas, o que com o passar dos anos me fez começar a prestar atenção em outras coisas para além da rotina com o grupo só para que eu pudesse ter mais para contar.
– Só que você não estava bem há algumas semanas...
Ela se virou para mim no sofá, descansando sua cabeça no estofado e analisando minha expressão, depois de quase uma hora. Seu rosto sereno e jovial não negava sua idade próxima da minha, mas seus olhos... Eles sempre pareciam anos mais velhos, especialmente quando ela me olhava daquele jeito, como se soubesse cada palavra que eu fosse dizer e como se tivesse réplica para todas, mas que sabiamente me esperaria dizê-las, porque sabia que grande parte da satisfação em ser compreendido estava no prazer de ser ouvido, mesmo que outro saiba tudo sobre você.
– O que aconteceu?
Um riso sem humor se desprendeu de meus lábios e eu me aconcheguei ao seu lado, deitando minha cabeça em sua direção e a encarando de perto.
– Você lembra o que eu contei sobre o álbum novo? – ela assentiu sorrindo; costumava ter sua própria teoria filosófica para nosso conceito seguinte e nós chegamos a discutir sobre ele por horas – Às vezes eu acho que sinto dificuldade em assimilar minha própria mensagem. É como uma versão melancólica do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
riu e segurou minha mão na sua, como se me alertasse para que ela sabia o que eu estava dizendo e me incentivasse a continuar.
– Eu sei o que quero fazer, sei quem preciso atingir e tem sido tudo muito grandioso. Você sabe como essa porra toda é surreal – ela assentiu –, mas às vezes é bem difícil acreditar em tudo e ser otimista. Você entende o que quero dizer, não é?
Ela assentiu novamente e entrelacei nossos dedos, sentindo o carinho de seu polegar sobre o dorso de minha mão.
– seu suspiro tocou meu rosto como uma brisa, quase me fazendo fechar os olhos –, é completamente normal que você se sinta diferente do que escreve em alguns dos seus versos. Quando você escreve uma música e a lança, ela vai ser a mesma para sempre, mas nem sempre você vai se sentir da mesma forma como quando a escreveu. Você não precisa ficar puto por sentir como se sente.
Acabei rindo porque era exatamente assim que eu me sentia há dias trás. Puto por sentir e por achar que não seria compreendido.
– Eu sei que é idiota, mas-
– Nada do que você sente é idiota – ela foi rápida em rebater, me fazendo sorrir ternamente – Sei que você tem mais do que um dia poderia ter sonhado e isso é motivo para ser grato, mas você não é uma máquina de felicidade. Nenhum de nós é. Você está cansado também.
Sua outra mão foi até meus cabelos, tirando-os de minha testa como um carinho.
– E quanto às suas mensagens – ela sorriu –, tenho certeza que muitas pessoas estão ouvindo você e os outros rapazes.
– Será que vamos fazer a diferença com isso? – eu voltei a divagar, pensando nas coisas que perambularam em minha cabeça em nosso último show na América – Acho que todos nós estamos pensando sobre como não seremos engolidos pela máquina e acabaremos só reproduzindo sons.
Fiz mais uma careta, o pensamento me assustando mais quando verbalizado. O mundo tinha essa mania de uniformizar e capitalizar e ainda que estivéssemos inseridos no sistema por meio da indústria, não queríamos ser iguais, queríamos atingir pessoas reais como nós.
– Bem – ela riu –, você não vai fazer a revolução com música pop, certo? – ela gargalhou e eu rolei os olhos; ela sempre falava isso – Só que você tem noção do quanto tem ampliado visões de mundo com o seu sucesso? Você acabou de voltar da América! Tem gente branca aí revendo seus preconceitos porque amam vocês. , isso é algo enorme.
Seu sorriso e o brilho em seus olhos reviravam meu estômago e me faziam sentir vivo, como eu estava precisando.
– Você e seus amigos certamente não vão mudar o mundo, mas o que vocês fazem é arte e, querido, a arte é a ferramenta mais subversiva do mundo. Você certamente mudou o mundo de alguém.
Ela parecia emocionada agora e não pude deixar de sentir meus olhos queimarem um pouco com suas palavras sinceras.
– Não tem problema em fazer isso dando diversão às pessoas. Se no final do dia você deixa alguém feliz com a sua música, em um mundo que às vezes é tão cruel, você já faz sua parte. Você entende isso?
Assenti devagar, sentindo uma enorme vontade de abraçá-la e como se lesse meus pensamentos, se arrastou pelo sofá e deslizou o corpo até que pudesse envolver meu tronco com seus braços e deitar a cabeça em meu peito. Suspirei em alívio. Era como estar em casa. Era como encontrar meu lar no meio do Pacífico. Imediatamente coloquei meus braços ao redor dela também, sorrindo.
– Sabe Le Guin? – ela citou a escritora cuja obra serviu de inspiração para a arte conceitual de Spring Day – Preparei uma aula sobre ela para o próximo módulo de Antropologia Cultural¹.
Franzi a testa em confusão, não sabendo se ela havia mudado de assunto, mas ainda assim estranhando uma autora de ficção científica em suas aulas.
– O pai dela era Antropólogo como eu e isso com certeza a influenciou como escritora – fiz um som de compreensão, começando a mover meus dedos sobre seus cabelos – Só que lendo um pouco mais sobre ela para fazer a biografia da aula, encontrei algo muito interessante em uma de suas últimas entrevistas². O entrevistador contou a ela que estava escrevendo um livro, mas que estava complicado por achar que as coisas nele estavam começando a ficarem muito complexas, sabe? Discussões profundas e tudo mais. Sabe o que ela respondeu?
Neguei, começando a entender onde ela queria chegar e já sorrindo em antecipação. nunca falhava em ser meu paralelo.
– Que não existe problema nenhum em entreter as pessoas, mas ela perguntou a ele: o que fará com que elas pensem?
Dizendo isso, levantou a cabeça para me encarar, sorrindo. Ela havia chegado ao exato ponto de minhas divagações internas.
– O entrevistador então disse que algumas pessoas escolhem um livro do gênero que ele escrevia para se divertir, talvez não estivessem esperando teses filosóficas.
– E o que ela respondeu? – perguntei ao que ela novamente deitou em meu colo.
– Que a gente nunca sabe verdadeiramente o que estamos procurando e que nunca se deve dar às pessoas o que elas esperam apenas por que esperam. O trabalho dos artistas, de qualquer categoria, é surpreender, sacudir, mudar as perspectivas, fazer as pessoas pensarem.
deixou um beijo terno em meu peito e eu me senti emocionado, beijando o topo de sua cabeça logo depois.
– Continue usando sua voz com o coração, , e você estará fazendo o que deve fazer. Me prometa isso.
Sorri ao olhá-la em meus braços na penumbra de sua sala, sentindo meu coração leve como eu sabia que ficaria depois de vê-la. Vibrávamos na mesma frequência.
– Eu prometo.
Tive certeza de respondê-la como se falasse eu te amo, porque sabia que ela entenderia. Pelo resto daquela noite, eu sabia que não estava sozinho e que com ela em meus braços ou não, eu jamais estaria.


¹ A referência para esta aula foi retirada deste artigo de Philip W. Scher.
² É possível ler a entrevista completa em inglês aqui. Usula Le Guin é autora do conto “Aqueles que se afastam de Omelas”.


Fim.



Nota da autora: Eu precisei pensar bastante para tentar traduzir Whalien 52, afinal, é a minha música favorita da minha era favorita do BTS. Ainda que eu pensasse mais, tenho a absoluta certeza que não iria conseguir fazer o que essa música merece, nem conseguiria prosear a profundidade poética dela. Então pensei comigo mesma o que eu gostaria de dizer a meus sete garotos sobre essa música e sobre o que eles vêm fazendo. O resultado vocês leram por aqui e acreditem, o meu coração estava nos dedos em cada palavra escrita.
O que o BTS vem fazendo tem a ver com uma imersão que vai muito além da música e começou na era desse álbum que estamos celebrando. A Hwayongyeonhwa era foi o começo dessa discussão espetacular sobre nossos medos, nossas tentativas de nos encaixar no mundo e as nossas falhas nesse percurso, mas apesar de tudo, sobre a nossa busca incessante sobre fazer dar certo e ter com quem compartilhar.
Espero de coração que vocês tenham gostado e mesmo que essa não seja uma fanfic convencional, que ela tenha chegado para aquelas que amam esses rapazes como eu. Muito obrigada por lerem!
ARMY, believe in your hertz! <3

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Aproveitem as outras fanfics do álbum do século!
xx
Thainá M.





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