04. Emperor’s New Clothes

Última atualização: 22/03/2018

Capítulo único

“Bem-vindo ao fim das eras
O gelo derreteu de volta à vida”

Era a festa dos fundadores de Rosemont, eu havia chegado pela madrugada e me isolei em casa o dia todo. A festa rolaria durante todo o dia. Durante a tarde, a diversão era das crianças e jovens. À noite, a diversão era dos adultos.
Diversão entre aspas, porque eu sempre considerei o jantar uma chatice. Preferia mil vezes passear pelas ruas com meus amigos e me divertir no parque de diversões montado especialmente para este dia. Mas depois que meus pais morreram, eu me tornei a última Wilkinson da família, e minha família era uma das fundadoras. Eu tinha o dever moral de pelo menos marcar presença, especialmente neste festival, porque era o primeiro desde a morte dos meus pais e eles os homenageariam durante a cerimônia, mas era claro que só fariam aquilo por causa do sobrenome.
A cidade era pequena, grande parte do comércio local era da família Wilkinson. Desde hotéis simples, perfeitos para homens de negócios se hospedarem, até uma pousada luxuosa na área rural, local perfeito para agarrar turistas. Sem contar alguns restaurantes e uma marca de roupas que minha mãe criou.
Agora tudo era meu. Uma advogada que não exercia a profissão, e que não sabia de forma alguma administrar nada, nem sequer os negócios da família.
É, eu me ferrava quanto à administração dos negócios, mas não queria pensar nestes meus problemas no momento.
Agora era hora de ficar linda e fingir interesse em tudo que vai acontecer no jantar. Era a primeira vez em dez anos que eu voltava à cidade e estava preparada para a enxurrada de bajulações e tentativas frustradas de fazer negócios. Sem contar com as conversas paralelas das senhoras fofoqueiras que com certeza vão querer me atualizar sobre tudo, e os homens que são incapazes de crescer na vida, que vão tentar ganhar alguma coisa a minhas custas.
De qualquer forma, eu estava excitada.
Eram quase oito da noite quando o Rolls-Royce Silver Cloud 3° geração azul marinho, dirigido por Jarbas, meu motorista, estacionou diante da enorme mansão Lockwood: o luxuoso e histórico lar do prefeito de Rosemont.
Jarbas abriu a porta para mim e me estendeu a mão. Desci do carro, agradecendo, e então subi as enormes escadas da frente, ignorando completamente os olhares curiosos dos que estavam do lado de fora, conversando e bebendo.
Adentrei o grande salão de entrada e esperei alguém me receber. Assim que me viu e me reconheceu, o prefeito Lockwood e sua esposa se aproximaram de mim com sorrisos congelados e um olhar surpreso no rosto.
– Senhorita Wilkinson. – o homem disse, estendendo a mão a mim.
– Olá. – o cumprimentei e também a sua esposa. – Quanto tempo.
– Nem me fale. Confesso que achei que não viria hoje.
– Meus pais gostariam que eu viesse.
– Com certeza. – a mulher respondeu. – Sentimos muito pelo que aconteceu com eles.
– Obrigada, eu também sinto. Foi há dois meses, mas parece que foi ontem, de tão recente. Talvez seja por isso que a policia de Rosemont não sabe o que aconteceu na noite do acidente. – fiz uma pausa. – Ainda não.
Ambos sorriram e assentiram, sentindo desconforto pelo silêncio que nos atingiu.
Acontece que apesar de eu não morar na cidade, meu pai sempre mantinha contato. Ele era uma boa pessoa, mas possuía inimigos como muita gente, seu acidente de carro podia muito bem não ser apenas um acidente. Conversei com meu advogado, amigo intimo da família, e ele me disse que meu pai tinha problemas com muitos poderosos da cidade. Ele havia discutido com o prefeito dois dias antes de morrer e, bem, não sobrou nada do carro que pudesse comprovar qualquer sabotagem, e eu não acredito que meu pai tenha sido o culpado pelo acidente – que foi exatamente a explicação dada pela polícia.
– Eu acho que o caso já foi encerrado, Srta. – o homem disse cordial. – O laudo diz...
– Eu sei o que o laudo diz, obrigada. Mas eu discordo.
Ele remexeu a cabeça, discordando e demonstrando ainda mais incomodo. Para mim, sinal de culpa.
– A policia de Rosemont é muito competente, Srta. A investigação foi rigorosa e tudo remete ao estado de embriaguez de Ben.
– Sim, concordo. Mas uma batida fraca contra uma árvore faria um carro explodir? Eu não sei, acho que ainda corre água por baixo dessa ponte.
Ele fez uma pausa e olhou para a esposa. Incomodado e disposto a deixar de lado aquele assunto, ele disse:
– Eu imagino como deve estar sendo difícil para você, é difícil aceitar as coisas como são, mas, com o tempo, os fatos serão mais aceitados.
Eu sorri, assentindo e concordando. Atrás de mim, a mulher viu que mais alguém havia chegado, isso foi o motivo perfeito para ambos pedirem licença e se afastarem.
Voltei a caminhar pelo salão, ignorando completamente os olhares curiosos e peguei uma taça de champanhe que um garçom exibia numa bandeja. Tomei um gole da bebida e me aproximei de uma janela. Olhei para o lado de fora, a noite estava agradável e silenciosa, bem diferente da Califórnia. Eu conseguia ver apenas as silhuetas das árvores da pequena reserva florestal que se espalhava por aquele lado, tornando a casa um tanto quanto isolada. Na verdade, tudo em Rosemont era isolado, principalmente nos bairros afastados do centro, que era onde eu morava.
Fiquei meia hora bebericando a mesma taça de champanhe, totalmente afastada dos outros que pareciam ter medo de conversar comigo – eu não tinha ideia do por que –, quando vi que todos se reuniam no jardim dos fundos, ao lado de um enorme chafariz. Mesas estavam espalhadas pelo local, havia uma banda de jazz e uma decoração digna de festa de casamento, porém tudo era mais rústico e formal, nada romântico.
Enquanto as pessoas se organizavam em seus lugares, o prefeito me chamou de canto, me dando instruções e me deixando a par do que aconteceria dali em diante. Eu tinha um lugar reservado na primeira fileira de mesas. Sentei-me ao lado da Sra. Lockwood e peguei mais uma taça de champanhe.
A cerimônia deu início. O prefeito começou contando a mesma balela de todos os anos: a história da cidade, e como nossa comunidade é importante para nós e o país – como se uma cidade de cinquenta mil habitantes fosse fazer alguma diferença para este país. Depois, cada líder da família dos fundadores contou sua importância na história de Rosemont, e essa seria minha deixa se o prefeito não quisesse se aparecer ainda mais e começar a homenagem a minha família. Palavras falsas de um falso amigo, mas eu não podia e não iria fazer barraco. A comida é mais saborosa degustada aos poucos.
– E ninguém melhor para falar sobre a família senão a própria herdeira do legado Wilkinson: Wilkinson.
Assim que ele me anunciou, eu ouvi uma salva de aplausos e me levantei. Sorri docemente e subi no palco. Diante do púlpito, olhei para a multidão, de um lado para o outro. Todos me olhavam curiosos, doidos para me ouvirem. Acima do púlpito, um microfone de mesa e meus cartões de apoio. Eu tinha feito um baita discurso, mas nenhuma daquelas palavras escritas veio do meu coração. Não era justo eu citar a importância da minha família para uma cidade da qual servia de moradia ao assassino livre dos meus pais, eu não faria aquilo. Então comecei com a importância da minha família para mim. Falei sobre meus pais, como eles se conheceram, se apaixonaram e como eles me educaram e como nunca deixaram de ser honestos e humildes mesmo diante de uma conta gigante no banco. Aos poucos, o clima foi ficando descontraído e juro que até mesmo consegui arrancar alguns risos.
– Eu nunca quis ser advogada porque meu pai era advogado. Eu quis porque ele me mostrou que lutar pela justiça sempre valeu a pena, e que enquanto houver pessoas dispostas a defender a verdade, então haverá esperança. E como era de se esperar, eles me apoiaram com um sorriso de orelha a orelha. – fiz uma pausa e passei mais uma vez os olhos pelas mesas. Não havia encontrado quem eu queria que também estivesse lá. Droga. – Eles sempre estiveram lá quando eu precisei. Nos melhores e nos piores momentos da minha vida. Principalmente nos piores. – e então eu vi. Olivia. Eu tinha certeza que era ela, mesmo vendo apenas sua sombra chegar de mansinho com alguém e sentar-se à mesa mais discreta do local. Conforme ela se sentava, pude ver a vela em cima da mesa iluminar parcialmente seu rosto branco e delicado como porcelana. Era mesmo ela. Desviei os olhos e disfarcei o sorriso. – Aos dezoito anos, me mudei para Filadélfia com minha melhor amiga. Vocês podem imaginar como foi excitante dividir um apartamento com uma amiga, ainda mais quando sua única preocupação era com as notas. Quando meu pai soube que eu teria que mudar para Fili, ele não foi contra, muito pelo contrário. Ele ficou feliz, tão feliz que a primeira coisa que fez foi me dar a chave do apartamento que tínhamos lá. Olivia pode dizer o quanto meu pai contribuiu com nossas festinhas e minhas notas não muito boas de vez em quando. – finalizei rindo e balançando a cabeça. – E ele sabia, mas me dava um crédito, afinal, eu estava aprendendo a me virar sozinha, e eu aprendi. Aprendi muito com as madrugadas acordada, me matando de tanto estudar para não reprovar. Minha mãe ensinou muito, também. Desde regras de etiqueta durante reuniões como esta, até mesmo como lidar com meus amigos e familiares. Sempre fui uma pessoa muito reservada, até mesmo antissocial, quem se lembra de mim, sabe. Minha mãe… Ela me ajudou a superar minha timidez. Ela me ensinou sobre amor-próprio depois de uma decepção amorosa, o perdão após uma apunhalada nas costas. Me ensinou a oferecer a outra face, e quando acabei levando dois olhos roxos fazendo isso, ela me ajudou a me reerguer e tirar a poeira dos meus ombros. Foi muito, muito difícil, mas eu consegui. Os meus primeiros meses na Califórnia também foram muito dificeis, cidades grandes me assustavam e eu estava na pior fase da minha vida, mas sobrevivi e graças a ela estou aqui. – disse olhando rapidamente para Olivia, que desviou o olhar e coçou a nuca, desconfortável. – E tudo que eu posso fazer agora, é ficar e honrar tudo que eles construíram, tudo que me ensinaram. – peguei a taça de champanhe e a ergui. O resto fez o mesmo. – À Sarah e Benjamin Wilkinson. – fiz o brinde e tomei um gole da bebida. Após os aplausos, eu desci do palco e voltei à minha mesa.
O resto da cerimônia aconteceu em um piscar de olhos. Em nenhum momento Olivia veio falar comigo. E eu notei que ela estava se esquivando de mim, enquanto conversava com as pessoas que perderam o medo de falar comigo. Eu fazia questão de estar no mesmo espaço que ela sempre que possível e, se ela não falasse comigo, então eu falaria. Seria menos divertido, mas daria no mesmo.
Enquanto conversava com a Sra. Walsh sobre a pousada da família, vi pela minha visão periférica que Olivia seguia para o pátio sozinha, depois de deixar o marido conversar com um desconhecido qualquer. E então contei mentalmente até dez. Depois, pedi licença e fui até lá. A noite havia esfriado, não tinha tanta gente como antes e a maioria que estava lá fumava. Olivia era uma delas.
– Fugindo de mim? – perguntei e escondi o sorriso quando a vi dando um pulinho de susto.
– Oh, não. Só estava fumando.
– E desde quando você fuma?
Ela me olhou desconfiada e depois respondeu:
– Há algum tempo. – eu apenas assenti e me calei propositalmente. Olivia havia acabado de acender o cigarro, não sairia dali tão cedo e eu queria mesmo que ela falasse qualquer coisa. Então eu estava até gostando do clima pesado. Pelo menos para ela, que apagou o cigarro e suspirou. – Olha, eu não fugi de você, só não sabia o que dizer.
Eu a olhei, cínica como nunca, porém havia treinado há muitos anos, ela não percebeu. Talvez fosse o nervosismo.
– Tudo bem, eu entendo. – ela me olhou e eu continuei: – Li a carta que me deixou quando foi embora.
Ela me olhou esperançosa, até surpresa.
– Leu?
– Sim… Eu li, reli, minha mãe leu, releu. – suspirei e desviei o olhar. – Olha, Liv – a chamei pelo apelido só para deixá-la ainda mais constrangida. – eu fiquei muito, muito mal com tudo que aconteceu.
– Olha, eu não consigo esquecer o que aconteceu. Eu e o...
– Não, eu não quero explicações. Não queria nem tocar nesse assunto, mas se for para você se sentir melhor, então tudo bem. – fiz uma pausa e mais uma vez, suspirei. – Eu falava sério naquele lance de perdoar e seguir em frente. Eu te perdoei, Liv. Te perdoei porque você era minha melhor amiga, você sempre esteve ao meu lado e sempre me ajudou em tudo... Eu perdi meus pais, estou sozinha e não quero continuar distante de você por algo que hoje não importa mais.
Ela me olhou por um bom tempo. Eu sustentei seu olhar me perguntando se ela havia engolido minha conversa fiada.
– Sinto muito pelos seus pais.
Engoliu.
Eu assenti, sorrindo tristonha. Nossos olhos se encheram de lagrimas, mas ela não demonstrou fraqueza. Eu, por outro lado, deixei uma lágrima escorrer sem querer, querendo.
– Eu vou ter o dia livre amanhã, podemos almoçar juntas, o que acha? – perguntei, secando a lágrima e mantendo a pose tranquila.
Ela meneou a cabeça.
– Eu não sei, preciso pensar. Isso tudo é muito pra mim.
– Eu entendo. De qualquer forma, foi bom te ver.
– Foi sim. Agora eu preciso ir.
Eu assenti.
– Tudo bem, até mais.
– Até.
Assim que ela se afastou, eu me aproximei do parapeito. Apoiei meus braços e fitei o horizonte. Tudo estava prestes a começar, eu podia sentir. Olivia ainda estava relutante, mas eu a conhecia bem demais para saber que alguma hora ela cederia. Minha informante, Jessica, me disse que ela estava maravilhosamente bem. Eu a reparei a noite toda, ela estava mesmo fisicamente bem: Magra como sempre, pele bem cuidada, cabelo impecável e com um marido muito bonito para exibir. Nada que eu pudesse detectar. Mas se fosse fácil, não teria graça.

“Heróis sempre são lembrados
Mas você sabe que lendas nunca morrem”

Tudo começou há dez anos, quando peguei minha melhor amiga se esfregando com meu namorado na cozinha do restaurante que ele trabalhava como ajudante para sobreviver e estudar. Já passava da meia-noite e era meu aniversário. Eu só queria passar os primeiros minutos do meu aniversário de 21 anos com quem eu amava desesperadamente.
Nem preciso dizer como eu me senti. Eu queria muito sair dali e morrer de tanto chorar onde ninguém pudesse me ver ou ouvir, mas enquanto eu ia embora, meu celular começou a tocar e foi questão de segundos para Brian me seguir e tentar me explicar o que aconteceu. Àquela altura do campeonato, eu já não ouvia nada, uma dor excruciante invadia meu peito. Não conseguia olhar para Brian, nem via nada ao meu redor, meus olhos estavam embaçados. Eu não queria chorar, mas as lágrimas simplesmente escorriam.
Conforme eu tentava me esquivar dos toques do traidor, eu sentia o perfume exagerado de Olivia em seu corpo.
Nunca odiei tanto um Chanel.
Quando finalmente consegui me afastar de Brian (graças a um pouco de força bruta), eu corri para a saída. Entrei no carro e, poucos metros à frente, eu vi Olivia entrando num táxi. Pisei mais fundo no acelerador e segui para o apartamento que eu dividia com ela.
Tinha passado um dia agradável com meus pais em Rosemont, havia voltado há poucos minutos para Filadélfia, ainda estava com as malas no carro. Eu só queria dar um beijo em meu namorado e voltar para casa, dormir e depois comemorar mais um ano de vida, da qual ele e Olivia faziam parte.
Mas não mais.
Minha história com ela começou no jardim de infância e ganhou força na escola. Olivia era a minha melhor amiga, estava sempre disponível para mim e eu sempre estive disponível para ela. Mas claro que toda a amizade que eu tinha não significava nada para ela. Eu e Brian estávamos juntos há dois anos e, nesses dois anos, ela nunca demonstrou nenhum interesse por ele, muito pelo contrário.
Olivia sempre foi uma pessoa do tipo que a conta do banco valia mais do que o caráter, mesmo que ela tenha sido pobre durante a maior parte de sua vida. E o fato de Brian ter sido um ajudante de cozinha “órfão que não tinha onde cair morto” – palavras dela –, o diminuía a nada. Para mim, seu pensamento sobre Brian era o suficiente para eu nunca, jamais desconfiar de nada, afinal, ela mal olhava para ele. E por mais que Brian muitas vezes tenha se excluído do meu círculo de amigos por conta das nossas diferenças sociais – talvez fosse porque ele se sentia diminuído perto de mim –, com Olivia era diferente. Ele nunca fez questão de se dar bem com ela na minha frente e sempre evitava ficar perto dela.
Talvez fosse por ela ser tão esnobe e hipócrita por não aceitar conviver com alguém da mesma classe que ela, ou para eu não perceber o que eles faziam às minhas costas.
Por mais orgulhoso e egoísta que fosse, Brian nunca mentiu para mim, nunca escondeu o que era e o que fazia. Fosse com quem fosse, ele sempre era honesto. Mas, aparentemente, ser 100% honesto não se aplicava a mim. E foi isso que me fez não querer nunca mais saber dele, nem mesmo para ouvir sua versão da história, até porque, eu não saberia no que acreditar.
Muitas vezes ele me perguntou como eu podia ser amiga de uma pessoa que era totalmente o oposto de mim. Eu não sabia responder.
Eu não era cega. Eu via esse lado de Olivia. Ela era uma pessoa venenosa, ardilosa e muito, muito egocêntrica. Mas eu gostava dela desde criança. Ela me ajudava muito em questões sociais - eu podia contar nos dedos os meus amigos –, e eu a ajudava com as notas na escola – “aluna exemplar” estava fora de cogitação para ela. Talvez o fato de eu ter tido poucos amigos naquela época me tornou totalmente dependente da amizade e aprovação dela. Definitivamente, a culpa foi minha por tê-la deixado no centro da minha vida por tanto tempo.
Mas foi até aquele dia.
Assim que estacionei o carro ao lado do carro de Olivia, desci do veículo sentindo o ódio tomar conta do meu ser. Com as chaves de casa em minhas mãos, eu me aproximei do veículo dela e fiz o que veio primeiro à minha mente: risquei o capô e as portas de seu Porsche - carro que, aliás, meus pais deram a ela em seu aniverśario de dezoito anos - com vontade, sentindo um infortúnio enorme por não ter nada que causasse danos maiores em mãos.
Depois, entrei no elevador sentindo o sangue ferver em minhas veias. Não demorou quase nada para chegar ao segundo andar e adentrar o apartamento luxuoso que dividíamos. O único do andar, com vista para o parque central da Filadélfia, no bairro mais caro da cidade. Um presente do meu pai, para a filha que estava prestes a ser tornar uma grande advogada. Assim que acendi a luz, um uníssono descoordenado e animado dizendo ‘surpresa’ me levou ao paraíso por alguns segundos. Foi um susto e tanto quando vi meus amigos – que àquela altura, eu não sabia se eram mesmo amigos – da faculdade e da cidade começando a se aproximar de mim, me cumprimentando.
Eu não soube muito bem como reagir na hora, mas depois que descobri que Olivia havia planejado tudo e que estava chegando com uma “surpresa” – da qual eu já não considerava tanta surpresa assim – eu voltei a meu alter ego maníaco. Fui direto para a caixa de som, que havia sido ligada, e a desliguei. Todos pararam para me olhar. Em seus olhos eu podia ver que cada um deles esperava que eu fosse fazer algum discurso bonitinho, cheio de amor e agradecimento. Mas conforme viam lágrimas de dor e não de alegria tomarem meus olhos, e uma expressão não muito agradável, eles foram ficando preocupados.
Assim que Jessica me perguntou o que estava acontecendo, eu não pude mais me conter. Peguei todas as minhas fotos com Olivia, que estavam em porta-retratos na estante e comecei a jogar no chão. Um por um. Durante meu “surto psicótico”, me perguntavam o que estava acontecendo, até tentaram me segurar, mas eu saía correndo, me desvencilhando daqueles que queriam me privar do escândalo. E foi quando parei diante da porta, que vi Olivia adentrar o apartamento. Proferindo palavras não muito bonitas, eu taquei o ultimo porta-retratos em sua direção. Infelizmente, não acertei.
Olivia saiu correndo e eu corri atrás. Não foi muito fácil acalmarem o clima e me impedirem de torcer o pescoço daquela que eu considerava minha irmã.
Depois que esconderam Olivia em seu quarto, e mesmo sabendo que não deveria beber, eu peguei uma garrafa de champanhe que estava aberta em cima da mesa e me tranquei em meu quarto, deixando bem claro que queria ela fora da minha casa naquela mesma noite, junto daqueles que estavam ali.
Resumindo: depois de tudo aquilo, tanto Olivia quanto Brian me procuraram para se explicar. Eu, claro, não quis ouvir nenhum deles, tanto que assim que encontrei alguém que quis alugar meu apartamento, eu mudei de faculdade e fui embora da Filadélfia. Fui para Califórnia, me formei, trabalhei, construí minha carreira e agora, dez anos depois, resolvi voltar para Pensilvânia.
Jessica, minha informante, disse que depois que meus pais cortaram a ajuda de custo que davam a Olivia desde que sua mãe de criação morreu, quando ela tinha doze anos, ela sumiu e só apareceu em Rosemont há alguns meses, depois de anos na Europa, com um marido podre de rico e um filho. Ela estava realizada, eu sabia disso porque seu sonho de princesa era de se casar com alguém que pudesse sustentar seu padrão de vida luxuoso. Agora ela tinha tudo que sempre sonhou, sua vida estava completa. Brian, segundo a mesma fonte, nunca saiu da Filadélfia. Formou-se, virou chefe de cozinha, abriu seu tão sonhado restaurante, mas o negocio acabou falindo por algum motivo desconhecido. Soube que é separado, mora num apartamento minúsculo em cima de uma pizzaria – da qual ele trabalha atualmente.
Mas ele que se dane.
Olivia estava bem enquanto eu lidava com as consequências das coisas que eles me causaram. Nunca me senti tão sozinha em toda minha vida. Perdi meus pais, herdei praticamente Rosemont inteira e, ainda assim, me sentia pobre. Pobre de sentimentos bons, pobre de amor e amizade. Olivia conseguiu roubar não só a única pessoa que fui capaz de amar – que agora está pagando pelo que fez (acredito sim em carma) –, mas também a confiança que eu sentia nos outros, inclusive a educação que tive de "pagar o mal com o bem".
Eu não queria de volta tudo aquilo que ela roubou de mim, não seria vulnerável com ninguém, por ninguém, nunca mais. Ela conseguiu me tornar naquilo que ela foi um dia: uma vadia sem coração.
Eu vou descobrir a verdade sobre a morte dos meus pais, colocar o verdadeiro culpado atrás das grades e acabar de uma vez por todas com Olivia.
Eu quero vingança.

”E se você não sabe, agora sabe.”

Como eu já podia esperar, Olivia não apareceu no dia seguinte, nem nos outros em que eu a convidei para podermos conversar. Mas é claro que ela não daria o ar da graça tão facilmente, e obviamente, eu não desistiria.
Fazia dois meses que eu estava na cidade. Há um, eu recebi um convite para trabalhar no escritório de advocacia mais popular da cidade, o da família Rogers & Ferris, que por acaso era do irmão de Steev, o meu advogado. Provavelmente, o convite foi ideia dele, e eu poderia recusar, mas a verdade é que eu não estava fazendo nada na cidade, meus pés não cairiam se eu fosse até um escritório todos os dias para ajudar quem precisa.
A quem eu estou enganando?!
Eu descobri que Jeremy Caster, marido de Olivia recebera o mesmo convite, e segundo fontes confiáveis, vulgo Steven Rogers – favor, não confundir com o Capitão América –, ele havia aceitado a oferta de trabalho. E eu não poderia fazer diferente, eu precisava ser colega de trabalho dele.
E foi isso que eu passei a ser. Jeremy e eu nos demos bem logo de cara. E ele se dizia mega apaixonado pela esposa, e eu até poderia deixá-los em paz se não tivesse percebido que ele estava sendo apenas cauteloso, já que Olivia e eu nos conhecíamos. Ele era esperto, mas eu era mais.
Rosemont é uma cidade muito festiva, perdi as contas de quantas festas houveram desde que voltei, e eu compareci em todos os convites que me foram feitos. O objetivo: Olivia.
Eu comecei a sondá-la aos poucos, e foi questão de semanas para ela cair na lábia de que eu realmente só queria a amizade dela de volta. E quando eu concluí esta etapa do meu plano, eu fiquei ainda mais próxima de Jeremy. Ele era um ótimo advogado, muito experiente e nós dois trabalhávamos muito bem juntos. Eu percebi conforme o tempo passava, que ele estava bem mais a vontade comigo. Conversávamos muito sobre muitas coisas que eu fingia ter interesse em comum. E Olívia, por sua vez, dizia que o marido era frio e possessivo com ela. Ela não dava muitos detalhes sobre o estado do casamento, mas eu acho que ela queria recuperar o romance afetado.
Eu estava levando meu plano com calma, não queria apressar nada, afinal, não fazia muito tempo que Olivia e eu recuperamos os laços afetivos. Mas quando a oportunidade se mostrou antes do esperado, eu a agarrei.
Jeremy e eu estávamos em Seattle a trabalho, com outra advogada e um dos sócios do escritório. Eu me dava muito bem com todos, e do grupo, apenas ele era casado. Depois de dias focados no trabalho sobre a abertura de uma filial, nós resolvemos dar uma relaxada. Era sexta-feira, fomos a um bar e demos inicio a noite de bebedeira. Claro, Jeremy e eu pegamos leve com o álcool, até porque, éramos novos no escritório e nenhum de nós queria passar uma má impressão para o dono da bagaça toda, o que não foi o caso dele e da nossa colega. Ambos ficaram alegrinhos até demais e era por volta das três da manhã quando os dois resolveram voltar sozinhos para o hotel, era óbvio que havia rolado uma conexão entre eles, mas ninguém ousaria falar nada, eu menos ainda, aquela era minha porta aberta.
Jeremy e eu então continuamos a noite, mas não fomos longe demais, eu não queria ele bêbado. Uma hora e meia depois, foi nossa vez de voltar para o hotel. Estávamos rindo, ele me contava piadas ridículas, e eu ria só para não deixá-lo sem graça. O que Jeremy não sabia, era que eu era uma pessoa bem resistente à álcool, assim como ele, que fez questão de me deixar na porta do quarto. Aí eu me deixei levar, uma conversa mais leve aqui, um sorriso maroto ali e ele acabou me beijando. Foi fácil como atrair uma criança. Eu era o cara segurando um pirulito na van e ele era o banguelo que cheirava a terra e tinha pernas curtas.
Eu estava até gostando, levaria ele para o quarto, se eu não tivesse um objetivo com tudo aquilo. Eu não queria empatar com Olivia, eu queria ir além. E eu iria.
Depois de um tempo que eu achava o suficiente para deixá-lo querendo mais, eu me afastei dele, afinal, eu era amiga da sua esposa, e aquilo era errado. Jeremy me olhava desnorteado, querendo saber por que diabos eu havia quebrado o clima.
– Você não devia ter feito isso. – eu disse, desviando o olhar dele e torcendo para que minhas bochechas ficassem vermelhas.
– Me desculpe, eu agi sem pensar…
– Você é casado, Jeremy. Casado com alguém que eu considerava minha irmã, e você sabe que agora que eu recuperei a amizade dela, isso pode estragar tudo.
Ele balançou a cabeça, parecendo recobrar a consciência.
– Tem razão, me desculpe.
Eu assenti, com a expressão séria e até mesmo assustada.
– Esquece que isso aconteceu… Eu vou fazer o mesmo. – e quando ele assentiu e deu alguns passos cambaleantes para trás, eu adentrei meu quarto, não contendo meu sorriso satisfeito.
Mas com uma coisa eu não contava: Jeremy tinha uma consciência. Depois que voltamos para Rosemont, ele mudou comigo. Se distanciou e passou o feriado com a mulher na minha pousada, longe de tudo e de todos. Apenas os dois. Confesso que quando passou um mês, eu achei que tinha falhado, mas eu não desistiria tão fácil. Ele ter se afastado e se resolvido com a esposa, não me fez deixar tudo para lá. Eu queria Olivia sem o marido, sem a pessoa que eu sabia que ela amava porque sustentava seus gastos. E há dez anos, eu me prometi uma coisa: Nunca desistir.
Continuei vendo-o enquanto visitava Olivia, e na frente da esposa, ele era a simpatia em pessoa, e eu correspondia. Olivia até falava que Jeremy costumava agir daquela forma apenas com a irmã, que morava na Itália. Foi aí que notei que não estava tudo perdido para mim, e foi aí que eu comecei a jogar indiretas para ele. Eu disse que havia conhecido alguém e gostado dele sabendo que ele não era para mim, mas eu acabei me envolvendo, e agora que ele não me correspondia, eu manteria distancia.
Depois disso, aproveitando que ele me tratava com frieza, eu passei a tratá-lo da mesma forma, o que fez ele começar a pegar leve com o gelo que me dava, mas eu continuei investindo pesado. E quando pegamos um caso juntos, novamente, ele voltou a me tratar normalmente. Éramos o que eles chamavam de “dupla imbatível”, e o ego dele inflava toda vez que eu dedicava a ele nosso sucesso no trabalho.
Não passava daquilo, mas eu mantive a pose. Dias depois de encerrarmos um caso, fatalmente, ele veio conversar comigo sobre meu estranhamento com ele. Nós discutimos e então eu acabei deixando explícito meu interesse por ele, alegando ainda que aquilo era errado. Não deu outra, ele disse que também pode ter se interessado por mim, mas que tudo não se passava de um equivoco, e que como ele passou por cima desse desejo, eu deveria fazer o mesmo.
E o filho da mãe ainda me propôs uma amizade.
E claro que eu o mandei para o inferno. Discutimos feio e eu deixei bem claro que nossa relação seria estritamente profissional e nada além daquilo. Ri por dentro quando ele concordou com tudo e saiu.
Poucos dias depois, nós fomos convidados a um jantar em comemoração do aniversário de um dos sócios da empresa. Dessa vez, era o irmão de Steev, e como eu já conhecia o Tony – não o Stark –, eu já sabia que Jeremy e Olivia iriam, por isso, convidei Matt para ir comigo. Matt era um tenente do Corpo de Bombeiros e alguém com quem saí algumas vezes desde que me mudei. Eu o considerava um bom partido, se não fosse apenas um amigo e um meio de provocar Jeremy.
Não posso negar que me senti a mulher mais desejada do mundo quando vi a maneira que Jeremy se sentiu desconfortável quando me viu acompanhada. Durante todo o jantar, eu percebi os olhares sutis dele pousarem sobre mim, quase que me fulminando. E quando o jantar acabou, as mulheres se reuniram para conversar enquanto os homens se isolaram no jardim para beber e fumar charutos caros. Olivia ficou chocada quando cheguei com alguém e ela não sabia de nada. Eu, como a boa amiga que era, disse que não queria que ela criasse expectativa porque eu não sabia se aquilo iria para frente.
Eu juro que não sei o que se passou pela cabeça dela, mas Olivia achou que Matt era o que cara que eu me referia quando disse que me envolvi com quem não deveria. Eu não neguei, deixei ela me incentivar a lutar por ele, porque segundo ela, Matt era um cara incrível e sexy.

Depois que Matt me deixou em casa, claro que com segundas intenções, eu o dispensei, alegando não estar me sentindo bem. Eram onze da noite, e eu fiquei na biblioteca de casa, bebericando um bom e velho whiskey, na espera de Jeremy, que eu achava que me ligaria.
Mas ele não ligou, fez muito melhor que isso: me mandou uma mensagem, perguntando se eu estava disponível, porque precisava conversar comigo sobre trabalho, era urgente. Claro que eu não comprei seu peixe, mas disse que ele poderia me encontrar na casa da piscina.
Não levou nem uma hora para ele chegar em casa. Eu o esperava na sala de estar da casa quando Austin o levou até lá. Dispensei os serviços do meu mordomo e então servi Jeremy com uma dose de whiskey.
– E então, que assunto é tão urgente assim que não pode esperar até segunda? – eu perguntei como quem não queria nada, me servindo de whiskey também.
Após um gole da bebida, Jeremy bateu o copo com força contra a mesa de centro e se levantou, caminhando em minha direção. Eu nem tive tempo de perguntar novamente, o advogado loiro, bem afeiçoado me agarrou e atacou minha boca sem um pingo de sutileza. Eu correspondi, deixando o frio que desceu pelo meu estômago tomar conta do meu ser.
Eu havia sido surpreendida? Sim, havia. Eu estava gostando? Sim, também. Mas foi por pouco tempo. Quando me toquei da situação, eu o empurrei bruscamente e acertei um tapa em seu rosto. Não foi um tapa fraco, mas também não foi um forte. Eu não queria que seu belo rosto ficasse marcado, não era minha intenção.
– Quem você pensa que é? Quem você pensa que eu sou, Jeremy?
– Você pediu por isso! – ele respondeu rude, quase gritando.
– Eu pedi por isso? Eu não me lembro de ter te ligado ou mandado um cartão dizendo pra vir aqui me beijar!
– Não, mas deixou bem explicito o que queria quando apareceu com aquele otário!
Eu soltei um riso, com escárnio.
– Ah, me poupe. Você não achou mesmo que eu fiz isso só pra te provocar né?
– É, eu acho. Eu acho porque foi dias depois da gente ter discutido sobre nós.
– É, e eu me lembro muito bem que você disse que eu deveria passar por cima do desejo que sentia por você porque foi isso que você fez. Como queria que eu fizesse isso?
Ele bufou impaciente e me deu as costas. Eu sorri, ele estava mesmo com ciumes de mim. E eu tinha que aproveitar aquele momento de fraqueza dele, se eu quisesse sucesso.
Eu deixei o copo em cima do aparador atrás de mim e me aproximei dele, dizendo:
– Olha, eu não tenho culpa de estar seguindo em frente e você não tem o direito de vir reclamar comigo por uma ideia que foi toda sua.
– E você por acaso não apoiou essa ideia?
– Eu só apoiei porque era o que você queria!
– Não, não, não. – ele se virou para mim, estava muito bravo. – Não coloque a culpa em mim! Você disse que era errado por causa da Olivia.
– É, Jeremy, eu achava errado! E continuaria achando se fosse algo casual, mas não é! – aí eu dei as costas, sorrindo novamente ao notar que Jeremy se fechou no próprio silencio. O ouvi bufar.
– Eu sinto muito pelo que aconteceu.
Eu soltei um ar irônico, dando a entender que não aceitava o que ele dizia, e olhei para a janela, balançando a cabeça.
Jeremy suspirou e se aproximou de mim um pouco.
– Ouça, . Eu não queria dizer que a culpa foi sua, muito pelo contrário.
– É, porque você também é culpado. – eu o olhei cética, e Jeremy baixou a cabeça. Eu suspirei, fingindo arrependimento. – Eu amo a Olivia, você também a ama. Mas não acha que se o que você sente fosse só um equivoco, você não teria vindo aqui reclamar por eu estar seguindo em frente?
– O que tá querendo dizer?
Eu o olhei e então me senti perigosamente próxima dele. Jeremy me lançava um olhar cauteloso, mas no fundo pude perceber que ele estava sendo cauteloso para não fazer aquilo que sua carne pedia.
– Jeremy, eu não sou idiota… – me aproximei mais e coloquei a mão sobre seu peito. – A gente se dá bem, temos muito em comum e eu notei o jeito que me olha desde Seattle… E eu gosto disso. – subi a mão até seu rosto e alisei seu maxilar liso. A chama dos olhos de Jeremy pareceu se acender. – Não dá pra negar o que você tenta esconder quando olha para sua esposa dormindo na sua cama quando chega do trabalho. – eu me coloquei mais a sua frente, Jeremy nem se deu ao trabalho de sair. Com as duas mãos, eu toquei sua gravata, começando a afrouxá-la. – Quando a toca… – deslizei minhas mãos por seus braços e desci, passeando pelo cós de sua calça. Senti ele tocar meus braços, mas logo ele desistiu. Continuou sustentando meu olhar. – E quando a beija… – aproximei meus lábios dos dele, o suficiente para ele sentir meu hálito e o leve toque dos meus, enquanto eu dizia –... Tentando se lembrar o gosto que tem. – eu fechei os olhos e o beijei, começando lentamente. A princípio, ele pareceu hesitante, mas claro, não há homem casado que resista as investidas de uma mulher sexy e inteligente. Ele aumentou a intensidade do beijo quando me agarrou pela cintura, e tornou o beijo totalmente carnal e possessivo.
Sem o mínimo de delicadeza naquele beijo, o desejo que eu achava impossível sentir, tomou conta de mim. Deslizei minhas mãos pelos ombros dele e o abracei pelo pescoço, puxando-o para mais perto, se aquilo fosse possível.
Jeremy embrenhou uma mão em meus cabelos e escorregou a outra até meu quadril, fazendo qualquer espaço entre nós sumir. Nossas línguas se movimentavam numa sintonia perfeita e com a mesma agressividade, fazendo-me arfar. Fomos intensificando o beijo cada vez mais, até que senti meus lábios ficarem levemente dormentes e meu folego acabar.
Separei o beijo e não tive coragem de abrir os olhos. Eu recuperava meu folego e junto, tentava ter o mínimo de amor próprio e mandá-lo embora, achando realmente que eu havia perdido meus escrúpulos. É aquele ditado, era mais fácil falar do que fazer Eu queria me vingar de Olivia, eu queria tirar Jeremy dela, mas havia uma parte de mim – aquela parte da menina inocente e introvertida de cidade pequena que me dava uma lista infinita de razões pelas quais aquilo era errado – me dizia que a vingança nunca é plena, ela mata a alma e a envenena. Mas a outra parte, – aquela que tomava oitenta por cento do meu corpo, de uma malandra milionária criada a champanhe e caviar no meio do ninho de cobras na Califórnia, que me dava uma lista infinita de motivos para continuar –, me dizia que o que era bom, tinha que ser meu. E droga, Jeremy mandava muito bem, e eu queria ele dançando lambada na palma da minha mão.
E quando ele me abraçou pela cintura e me levantou do chão, eu tive que entupir a boca da garotinha antissocial que foi traída pela melhor amiga com a enorme lista que ela me citara, enquanto eu deixava o meu lado Vadia da Califórnia me dominar.
Foi automático. Envolvi minhas pernas em sua cintura e cambaleando um pouco, enquanto eu fazia questão de começar a bagunçar seu cabelo caprichosamente penteado, ele me sentou sobre a mesa de jantar ali próxima.
Tirei minhas pernas de sua cintura, mas logo senti suas mãos apertarem minhas coxas e deslizarem até ele posicionar novamente minhas pernas em volta de sua cintura.
– Eu não vou deixar você ir embora. – ele disse baixo, com a voz rouca, o que me fez arrepiar e voltou a me beijar, segurando minha cintura e a apertando contra ele.
Sem mais conseguir resistir, passei as mãos por debaixo da camisa elegante que ele vestia, tocando sua barriga quente. Seus músculos se contraíram e o ouvi gemer e me puxar para ainda mais perto, me fazendo sentir toda sua excitação da cintura para baixo.
Comecei a puxar sua camisa para cima, e ele se afastou de mim poucos segundos para tirar a peça completamente. Voltamos a nos beijar e Jeremy escorregou suas mãos geladas até minhas costas, me causando arrepios.
E então eu parti o beijo para tirar a blusa dourada que eu usava. Jeremy sorriu com os olhos pegando fogo de tanto desejo ao me ver só de sutiã e com a saia lápis preta que eu usava desde o jantar.
O puxei para um beijo e o senti me erguer e girar. Eu sabia que ele caminhava até um corredor que tinha depois da sala de jantar. Ele adentrou na primeira porta que viu, deu alguns passos e me jogou em na cama, acendeu a luz do abajur ao lado e voltou a atacar minha boca, descendo pelo pescoço, colo e barriga, me arrancando arfadas impacientes, de olhos fechados e com as costas arqueadas.
Ele mordeu com certa agressividade o pé de minha barriga e então o ouvi bufar e puxar minha saia para baixo, a mesma ainda estava com o zíper fechado, por isso desceu com mais dificuldade, levando minha calcinha junto. Joguei minha cabeça para trás quando ele apertou minha coxa com força e subiu, voltando a me beijar.
Eu aprofundei o beijo, me levantando aos poucos até que ele me girou, me fazendo ficar por cima. Finalizei o beijo, mordendo o lábio inferior dele com a mesma intensidade que ele mordeu o pé de minha barriga, e deve ter sido dolorido, já que o ouvi chiar. Mas eu nem liguei, e fiz o mesmo que ele fez comigo. Desci com beijos, lambidas e mordidas até o cós de sua calça social azul marinho e a abri com um sorriso muito do mal intencionado no rosto, e olhando para ele de vez em quando, que me olhava impaciente.
Abri devagar a peça, o que o fazia perder ainda mais a paciência. Assim que a peça foi parar no pé da cama, eu fui subindo com as unhas levemente fincadas em suas pernas, o fazendo chiar ainda mais e até contorcer levemente as pernas e então parei as mãos no cós de sua boxer branca.
O olhava enquanto puxava a peça, mas parei na metade, com um sorriso sapeca e indo de encontro a sua boca e o encaixando entre minhas pernas, conforme o beijava.
Eu não estava nem aí se ele tinha pressa, e que ele tinha que voltar para casa. Tínhamos algumas horas de diversão pela frente e eu queria aproveitar mesmo que meu objetivo fosse outro.
E quando eu estava há cinco meses na cidade, Jeremy passou a compartilhar uma comigo, esporadicamente.

Jeremy estava na minha mão e Olivia estava feliz da vida com o casamento – e foi graças a mim, já que disse a Jeremy que a esposa estava desconfiada que ele estava com alguém (o que era verdade).Ele voltou a tratar a esposa como a única mulher do mundo, e eu queria Olivia completamente feliz, em todos os sentidos, para que sentisse a queda com força, quando eu puxasse o tapete.
E quando Jeremy ameaçou pedir o divórcio para ficar comigo, eu não permiti que ele o fizesse. Conversei com ele e tirei essa ideia ridícula da cabeça do traidor, dizendo que nós deveríamos levar tudo com muita calma e sabedoria. Afinal, ele podia ainda nutrir alguma coisa real pela esposa, enquanto eu poderia ser só um caso qualquer.
Jeremy disse que não, de jeito nenhum eu era apenas um caso, e eu realmente percebi que ele estava levando nós a sério, mas não questionei nem reclamei. Ele só se separaria da esposa, se se apaixonasse realmente por alguém. Então deixa ele se iludir.
Além do mais, ainda era cedo para tirar Jeremy dela, eu queria que ela ficasse devastada, não que já imaginasse o que estava por vir.

“Reis mortais estão regendo castelos
Bem-vindo ao meu mundo de diversão”

Eu estava na Filadélfia para conversar com Steev, que morava lá, sobre os negócios da família. Eu odiava trabalhar para mim mesma, por isso ele ficava encarregado de tudo, desde que me mantivesse informada. E ele me mantinha, era inegável o quanto a família Rogers era fiel aos Wilkinsons desde que o vovô Rogers foi contratado pelo vovô Wilkinson. Fatalmente, ambos os netos cresceram juntos e Steven, além de meu advogado, era meu amigo, quase um irmão. Por isso ele sabia muito bem sobre o meu plano de vingança contra o prefeito Lockwood, e apesar de não querer se envolver, ele me deu algumas indicações.
Uma delas foi um primo distante, detetive particular. Depois de uma reunião, eu o contratei e a partir de então, ele ficou encarregado de descobrir tudo que o prefeito Lockwood escondia, ou pelo menos o máximo possível, com a maior descrição do mundo. Logo de cara, Bruce e eu nos demos bem, assim como eu me dava bem com toda a família Rogers.
Enquanto eu dirigia até a casa de Steev, eu resolvi dar uma volta pela Filadélfia. Era a primeira vez em meses que eu voltava lá e eu precisava saber como estava o túmulo dos meus pais na cidade – sim, eles foram enterrados na Filadélfia, e foi de propósito, só para causar desconforto entre as famílias dos fundadores de Rosemont –, e como estava o apartamento que há pouco foi devolvido. Depois de deixar flores no túmulo e uma breve conversa com meus vizinhos, eu me dirigi a casa de Steev, e como eu estava com o horário apertado, acabei por optar por um atalho do qual eu não conhecia. E claro que deu merda.
Me perdi na cidade que eu morei por três anos, que beleza. E para piorar, eu me perdi justamente no subúrbio, onde pessoas bem suspeitas de terem a ficha suja passavam olhando impressionados para o Mustang 69 que eu dirigia, meu Deus, eu tinha certeza que seria assaltada. Mas claro que eu não demonstrei meu desespero por não saber onde eu estava, continuei dirigindo como quem tivesse a enorme cidade desenhada na palma da mão e quando parei ao lado de uma viatura da policia, me senti mais aliviada. Perguntei para eles como eu chegava no bairro que Steev morava e me surpreendi com o quanto eu havia me distanciado. Eu estava no oeste da cidade, enquanto Steev morava no noroeste.
Voltei a dirigir e com mais noção de que rumo seguir, eu fui em paz, até voltei a ligar o rádio, apesar dos avisos de cuidado que recebi dos policiais. Claro que eles me aconselharam só porque obviamente eu tinha grana e uma cara de fresca, mas eu não era – ou não me considerava – fresca. Eu era bem de boa, e apesar ter medo de ser assaltada, eu sabia que o bairro que eu estava não era formado por bandidos, mas por pessoas humildes, trabalhadoras, e eu não tinha medo, muito menos preconceito, de pessoas de classes sociais diferentes, até porque, não precisa ser pobre para ser bandido e perigoso. É só você conviver com uns e outros de Rosemont que você saberia disso.
Parei diante um farol e então aumentei o volume do rádio. Estava batendo os dedos sutilmente no volante no ritmo da musica, enquanto eu me atentava à movimentação, o fato de não ter preconceito não me fazia confiar em todo mundo. Desviei o olhar de duas crianças que atravessavam a rua e olhei para um rapaz no outro lado do cruzamento, que atravessava a rua também. Estava de boné e uma mochila nas costas. Era branco, alto e tinha o braço direito todo tatuado. Vestia preto da cabeça aos pés e tinha barba. Eu estava distante, mas só pelo jeito de andar dele, que agora mexia no celular, eu pude reconhecer e sentir meu coração palpitar.
Era Brian. Eu tinha certeza.
O segui com o olhar até um prédio de dois andares. Ele adentrou a porta que levava para o andar de cima e sumiu do meu campo de visão. Aí eu ouvi buzinas atrás de mim, com o susto, olhei para o farol, estava aberto. Continuei dirigindo e olhei novamente para o prédio, notando que se tratava de uma pizzaria e segui meu caminho até a casa de Steev. Conversei com ele sobre quem eu havia visto e como resposta, recebi um sermão enorme dele me dizendo que eu já havia pagado com a mesma moeda e que deveria deixar tanto Olivia quanto Brian em paz. E claro que nós discutimos. Quanto a Olivia, eu não tinha dúvidas de que não iria deixar a situação do jeito que estava, agora com Brian, eu não tinha certeza.
Eu realmente não queria me envolver em nada relacionado a ele, o castigo que ele recebeu do destino para mim era o suficiente, afinal, ele é um chefe profissional, teve um restaurante de sucesso que faliu do nada e agora morava no subúrbio do subúrbio e pelo que eu vi, ainda trabalhava numa pizzaria. Mas eu também precisava ser justa: Olivia não foi a única que me traiu, Brian também tinha o direito de receber de mim o que merecia. Eu só não sabia ainda o que fazer.
Durante semanas, eu me empenhei em pesquisar tudo sobre Brian, mas ele era reservado. Não tinha redes sociais, eu não podia me aproximar de nossos amigos – que àquela altura eram apenas conhecidos – em comum, porque eu não poderia mostrar interesse por ele para ninguém, e minha única fonte, Jessica, só sabia o que eu já sabia, ou seja, não era muita coisa. E ela não estava na cidade.
Eu suspirei e peguei a chave do carro. Voltei à região oeste da Filadélfia e estacionei diante a pizzaria. Eu não tinha muito que fazer a não ser espionar. Fiquei horas diante o prédio. A pizzaria estava fechada, Brian não havia dado sinal de vida. Ou não estava em casa, ou não havia saído dela, e aquilo estava me tirando do sério.
Relaxei no banco do carro, sustentando minha cabeça com o braço que estava apoiado na porta do carro, eu estava muito entediada e por falta de ter o que fazer, eu acabei pulando a barreira que havia criado para não voltar ao passado e acabei me relembrando dos momentos que vivi com Brian, como na noite que estávamos em seu apartamento. Era nosso aniversário de um ano e ele havia planejando um jantar em casa. Claro que não era verdade, o fato era que ele não tinha dinheiro para bancar o restaurante que eu tanto queria visitar com ele, mas ele nunca falaria nada e eu nunca constataria também, o fato é que a noite foi maravilhosa, inclusive quando a luz foi cortada. O jantar foi a luz de velas, a gente querendo ou não. Depois, ele acendeu uma lamparina, o que me fez perceber que aquela não era a primeira vez que ele ficara sem luz, e fomos para a laje do prédio. A noite estava silenciosa, não estava quente, era o frio típico da meia-noite. Eu levei um cobertor e nós ficamos sentados lá, cobertos e criando teorias sobre a vida daqueles que conhecíamos e fazendo uma nossa.
Segundo Brian, dali dez anos, estaríamos casados. Teríamos uma casa ampla num bairro familiar da Filadélfia, ou em Rosemont, para que eu ficasse perto dos meus pais. Eu seria advogada, ele teria seu restaurante e nós dois teríamos dois filhos. Dois meninos com dois anos de diferença. E como ele queria uma mini eu para mimar, estaríamos planejando engravidar e ver se o destino nos presenteava com uma menina. E quando ela nascesse, adotaríamos um vira-lata e deixaríamos Carl e Brendon cuidar dele, para que não se sentissem desprezados por nossa falta de atenção por causa da recém-nascida.
Não posso negar que a partir daquele dia, eu sonhei com que essa teoria se tornasse uma realidade. Brian era a pessoa perfeita para mim e a cada dia que passava, eu tinha mais certeza que era com ele que eu passaria o resto da minha vida.
Balancei a cabeça. Ainda não conseguia entender o que havia dado errado em nosso relacionamento. Por que ele estragou tudo ficando com minha melhor amiga?
Só de pensar que os dois tiveram um caso bem debaixo do meu nariz e eu não percebi nada pelo excesso de confiança e uma paixão cega, eu senti meu rosto queimar e meus olhos arderem. Querendo ou não, aquilo ainda me afetava e machucava.
E era por isso que eu tinha que compartilhar com eles esse sofrimento.
E planejando inúmeras teorias de como acabar com Brian, eu o vi abrir a porta de entrada. Uma mulher loira saiu, com um copo descartável de café na mão e uma jaqueta de couro preta pendurada no ombro. Brian saiu logo atrás, usando pijamas. Os dois trocaram algumas palavras e depois de um selinho e um sorriso amarelo de ambas as partes, a mulher que usava um salto que eu mesma não teria coragem de usar de tão alto que era, Brian voltou para a casa.
Eu rolei os olhos e balancei a cabeça, sentindo novamente o sangue ferver, e voltei para casa, em Rosemont, já que estava com uma ideia na cabeça.
– Você o quê? – Steev me perguntou. Estávamos no lado externo da casa, e eu saía da piscina, enquanto ele estava parado com as mãos enfiadas nos bolsos da bermuda e me encarava sem acreditar.
– É, eu vou comprar o prédio e despejar o Brian. Me passa a toalha.
Steev bufou e me passou uma toalha para eu me secar.
– Pra quê quer tirar a casa do cara? O que vai ganhar com isso?
– Nada.
, não pode fazer isso.
– Quando eu oferecer o cheque pro proprietário, vamos ver se eu não posso.
Steven estalou a língua e arrumou os óculos escuros sobre a ponte do nariz.
– Bem, como não posso te impedir, eu posso te lembrar que não é só comprar o prédio e mandar ele embora, né?
– Sei. Relaxa, eu vou fazer tudo certinho.
– Você vai se arrepender por isso.
– Não vou.
E não me arrependi. Ofereci 780 mil por um prédio que não valia aquilo nem na China e nem precisei aumentar o valor, eu virei a proprietária da construção. Levou algumas semanas, mas fechei a pizzaria e ainda dei a ordem de despejo para Brian. Claro que foi Steev quem fez tudo para mim depois de muita insistência da minha parte. Eu teria que refazer o contrato de locação, mas optei por rescindir e nada de devolver a grana que ele havia pagado adiantado, afinal, descobri que Brian estava com o aluguel atrasado. Nem sabia disso, e acabou sendo um ponto a meu favor.
Não posso negar que senti uma peninha dele quando Steev me contou que ele queria falar de qualquer jeito com a proprietária para entrar num acordo, mas eu não dei o braço a torcer. Uma semana após a ordem de despejo, Brian estava fora do prédio. Se ele precisasse de algum lugar para morar, talvez a amiguinha Barbie dele pudesse ajudar.

(…)

Foi no aniversário de um ano da morte dos meus pais que eu recebi notícias de Bruce, o detetive que havia contratado. Me encontrei com ele em seu escritório e ele me revelou que em dois meses, o prefeito Lockwood fez duas viagens sozinho até Nova Jersey, enquanto toda sua equipe estava trabalhando por ele em Nova York. Em todas as vezes, ele se hospedou em lugares diferentes e saiu de madrugada com seu segurança pessoal para o mesmo prédio num bairro reservado da cidade. O segurança deixava ele lá e o buscava no dia seguinte, durante a noite. Bruce não soube me dizer o que ele fazia lá, mas pedi que ele me desse mais informações. Naquele mesmo dia, eu fui ao cemitério, troquei as flores do túmulo e enquanto eu saía do local, ouvi alguém me chamar. Era Brian.
Eu queria fingir que não havia ouvido, mas eu percebi que ele correu atrás de mim, e antes que eu pagasse de fujona, eu me virei e senti um arrepio correr minha espinha quando o vi se aproximar.
– Oi, eu, eu sabia que era você.
– Oi, Brian. – respondi tentando controlar o nervosismo e mantendo a seriedade.
Ele por outro lado, sorriu sem graça e coçou a nuca. Estava desconcertado, eu sabia. Ele não era o único.
– Quanto tempo, não é?
– Sim.
Mais uma pausa para um silencio constrangedor.
– Como é que tá indo?
– Eu vou muito bem. E você?
– É, eu vou indo… Não tive mais notícias suas, achei até que nunca mais te viria.
– Eu também achei.
– Voltou pra Fili?
– Não. Estou morando em Rosemont, faz quase um ano.
– Seus pais devem ter ficado felizes quando resolveu voltar.
– Eles morreram.
Brian então empalideceu. Nunca conheceu meus pais, mas sabia o amor que eu sentia por eles.
– Sinto muito, eu não sabia.
– Imaginei que não. Hoje faz um ano.
– Por isso o cemitério.
– É.
Depois de coçar a nuca mais uma vez, ele disse:
– Sabe, a gente podia mar… Ei, campeão, trouxe o meu sorvete? – ele perguntou para alguém que estava atrás de mim.
Eu nem precisei me virar, um garotinho logo apareceu na minha frente, entregando um sorvete de casquinha para Brian e tomando um sundae cheio de M&M’s em cima. Eu não pude deixar de esconder meu espanto.
, esse é o Nick. Nick, essa é a , uma colega do papai.
O menino olhou para mim, sorrindo. Eu engoli em seco e abri um sorriso idiota no rosto.
– Oi, Nick.
– Oi. – respondeu sorridente, pressionando seu corpo contra o de seu pai.
– Bom, nós precisamos ir. Tchau, . Foi bom ver você.
Eu mal consegui responder. Fiquei com cara de idiota vendo pai e filho se afastarem.

– Como se sente tirando o teto de uma família? – Steve me perguntou e eu bufei, sabia que ele jogaria a besteira que eu fiz na cara.
– Eu não sabia que ele tinha um filho.
– E não te ocorreu que ele poderia ter família quando você viu aquela mulher sair da casa dele?
– Foi exatamente por isso que eu pensei que ele não tinha família. Steev, aquela mulher era uma qualquer. Além do mais, ele é divorciado.
– Tá, isso não importa agora. O que vai fazer?
– Nada.
– Como nada?
– Nada, Steev. Não vou mais me envolver na vida dele, não posso me redimir, mas também não quero mais atrapalhar.
– É o melhor que você pode fazer.

“Dinastia decapitada
Você pode ver um fantasma esta noite”

Eu parei de querer me vingar de Brian e ainda me sentia culpada por ter feito o que fiz por causa do garoto. Mas nem passou pela minha cabeça desistir de me vingar de Olivia e o prefeito.
Por falar nesse último, descobri que ele andava de casinho com uma antiga secretária e que ela estava gravida. Eu não podia deixar aquilo passar. Pedi para que Bruce arranjasse um jeito de instalar câmeras na casa dela e após um bom cheque, ele não pode negar. Depois, era só esperar, a qualquer momento, ele voltaria para Jersey.
E esse plano me deu outra ideia. Em uma noite com Jeremy, eu também o gravei pulando a cerca comigo. É, eu estava um pouco fora de mim depois de ouvir Olivia falar que estava vivendo a melhor fase com o marido. Mas depois do que fiz com Brian, eu fiquei meio mole. Não me senti em perfeito estado para destruir mais uma família.
Mas era questão de tempo para que esse momento de fraqueza passasse e eu mandasse tal vídeo a ela.

Foi numa bela manhã de domingo que eu tive duas novidades. A primeira foi que Brian foi preso por não pagar pensão alimentícia, e agora eu tinha em mãos o vídeo do prefeito dando um trato na ex-funcionária. Eu já tinha tudo gravado num pendrive, havia feito cópia e só para dar inicio ao inferno que eu faria na vida dele, eu mesma marquei um encontro com ele em seu escritório. Depois de uma breve conversa, eu mostrei a ele o vídeo. O semblante sorridente e simpático dele logo deu lugar a uma fúria jamais vista por mim.
– O que você quer? – ele me perguntou com o maxilar travado.
– Me certificar de que você não vai se eleger ano que vem.
– E por que você pensou que eu faria isso?
– Porque, prefeito Lockwood, essa não é a única carta que tenho na manga. – menti, no momento, era minha única carta sim.
O prefeito então se apoiou na mesa e pendeu para frente, próximo a mim.
– O que está tentando dizer? Sem cerimônias, Srta. Wilkinson.
– Eu estou dizendo que o senhor não é quem todos pensam que é. Essa cidade não merece se iludir achando que deposita a confiança em alguém de caráter.
– Saia do meu escritório.
– Não pense que é um blefe, prefeito. – eu me levantei da cadeira com uma paciência e um deboche que até me impressionou. – Eu...
– Saia daqui agora! – ele esbravejou, batendo sobre a mesa e me fulminando com o olhar.
Eu sorri de canto, se ele achava que eu estava com medo, ele estava muito enganado. Apontei para o pendrive conectado em seu computador e disse:
– Você pode se livrar desse, mas ele não é o único que tenho. – e dei as costas, mas antes de sair do escritório, ele me puxou pelo braço, quase dei de cara com a mesa, tamanha força usada.
– Cuidado onde pisa, Srta.
– Está me ameaçando?
– O que parece pra você?
– Parece que vai fazer comigo o que fez com meus pais.
– Eu não fiz nada com eles. Isso é calúnia, posso levar isso perante o juiz.
– Que é seu irmão, muito conveniente. – puxei meu braço de volta. – Mas acontece que antes mesmo que você faça isso, eu já vou ter as provas que te culpam em minhas mãos, Logan. Então tome cuidado onde pisa, você. O seu chão é de vidro, não o meu.
Dei as costas novamente, e antes de sair do escritório, disse:
– Você tem até o fim de semana pra anunciar sua aposentadoria.
E na sexta-feira, ele anunciou que não se candidataria nas próximas eleições. Mas, voltando para aquela segunda-feira, eu voltei para casa transtornada. Transtornada a ponto de Steev, que me esperava com novidades, perceber meu estado.
– Ele me ameaçou e agora eu não tenho ideia de como me defender, Steev. – eu disse após contar o que houve.
– Você deu um passo maior que a perna.
– E eu não sei?
– Mas talvez o seu anjo da guarda esteja do seu lado.
– O que quer dizer?
– Seu pai tinha marcado uma reforma no escritório, e a gente deu continuidade, já que ele tinha todo um projeto em mente na época.
– Sim, eu sei. E a reforma foi feita há meses.
– Pois bem. Nancy, a secretária dele, estava retirando todos os documentos da sala, inclusive uma pasta que estava escondida no fundo falso de uma gaveta.
– O quê?
– É. , eu andei pesquisando sobre o que tá aqui faz alguns meses e, segundo esses documentos, o prefeito é corrupto, ele tá envolvido em pagamento de comissões milionárias pelo favorecimento de empreiteiras em licitações de obras públicas de habitações populares.
– Isso é sério?
– Muito sério. Seu pai tinha isso contra o prefeito, e ele sabia. Existem gravações telefônicas da qual seu pai e ele conversavam e, pelo que entendi, o prefeito quis envolver seu pai no esquema, mas ele não aceitou. E sabemos como o Sr. Wilkinson era, ele juntou provas suficientes para mandar Lockwood pra cadeia.
– E foi por isso que ele se livrou do meu pai.
– Provavelmente, sinto muito.
Senti um ódio crescer dentro de mim. Eu já suspeitava de tudo, mas agora que eu tinha certeza, eu não poderia aceitar que Lockwood saísse impune.
– Ele tem até o fim de semana, Steev.
– Acha que ele vai aceitar sua chantagem?
– Não sei e não importa. Steve, faça algumas cópias desses documentos e me manda por e-mail.

(…)

Duas semanas após o anúncio do prefeito, eu não tive mais noticias dele. Mas uma pessoa que me enchia o saco era Jeremy. Com o passar do tempo, ele se tornou uma pessoa grudenta e possessiva. Nossos encontros passaram a terminar a base de discussões, da qual eu era obrigada a expulsá-lo da pousada, que era nosso ponto de encontro. Até deixei de visitar Olivia e pedi demissão do trabalho, porque ele já não sabia mais disfarçar a obsessão que sentia por mim.
E eu já estava ficando de saco cheio daquilo. No nosso ultimo encontro, eu coloquei um ponto final no que ele achava que tínhamos. Ele me pediu n razões e eu só dei uma resposta: não queria mais, e pedi que ele me esquecesse e continuasse com sua vida, porque da minha parte, o fogo já havia apagado. Fui rude, mas eu não estava nem aí.
Tive que ameaçar chamar a policia para ele ir embora de vez.
E foi enquanto eu voltava para casa que notei que alguém me seguia. Eu dirigia pela estrada e uma Range Rover preta não saiu do meu pé desde a pousada. Eu não conseguia reconhecer o motorista, mas eu previa que aquilo não era um bom sinal.
Aumentei a velocidade, e a Range Rover também. E quando eu tive que tirar o pé do acelerador por conta de um trem que atravessava o cruzamento, o carro preto também diminuiu. Eu apertei o volante nervosa quando o motorista do carro, que estava todo vestido de preto, boné e óculos desceu do carro com um bastão de baseball na mão. Era noite e pelo tamanho da locomotiva a frente, eu percebi que não tinha muito que fazer. A Range Rover não me deixou espaço suficiente para sair, e eu não podia descer. Eu estava ferrada.
Com pressa, peguei meu celular na bolsa, mas antes que eu pudesse ligar para a polícia, o homem tentou abrir a porta e quando notou que estava trancada, ele começou a bater contra a janela.
Desesperada, eu consegui ligar para a polícia, e enquanto eu falava com a atendente, eu passava para o banco de trás. E quando eu ouvi o vidro estilhaçar, eu deixei o aparelho cair no assoalho. Com o coração querendo sair pela boca e me tremendo toda, eu ouvi enquanto tentava recuperar meu celular, e enquanto eu pedia socorro, o cara abrir a porta e então ele me puxou para fora do carro. Eu chorava, gritava, pedia socorro, mas a estrada era deserta àquela hora e eu não tinha chance de sair dali. O cara me arrastou para fora e me deixou caída no chão. Pegou seu bastão e o ergueu, eu aproveitei a abertura e chutei sua perna. Senti o salto perfurar sua perna e quando ele soltou o bastão e ajoelhou, tapando a ferida, eu me arrastei de volta para o carro, o trem já tinha saído e eu poderia ter tempo de fugir, mas ele segurou minha perna e me puxou de volta. Eu me segurei no banco do carro e chutei o rosto dele com toda força que eu tinha. O desconhecido voltou a me soltar e eu consegui entrar no carro, que já estava ligado, e eu pisei no acelerador, deixando o cara para trás.
Voltei desesperada para casa, Austin ficou assustado quando me viu naquele estado e eu pedi que ele ligasse para Steev, enquanto eu me trancava no quarto para me recuperar.
Quando Steev chegou, ele foi direto para o quarto, me encontrando em estado de choque, bebendo whiskey. Eu contei a ele o que aconteceu e ele me aconselhou a dar parte na polícia. Eu concordei, afinal, se eu não prestasse queixa, Logan acharia que eu estava assustada com ele. E eu não cederia.
Mas nem precisei ir à delegacia. Poucos minutos depois, a policia foi até minha casa depois de rastrearem minha ligação. Eu prestei minha queixa, mas não disse nada sobre o prefeito, afinal, eu não tinha provas contra aquele atentado.
Dias depois, em um restaurante, enquanto eu jantava com Olivia, nós recebemos uma garrafa de vinho de presente. Havia um bilhete assinado por Logan, e foi aquilo que me deixou furiosa.
No dia seguinte, eu fui até a prefeitura novamente, e ele me recebeu sem cerimônias, com um sorriso debochado no rosto.
– Você acha que eu me assustei com o que você fez? Você não me conhece, Logan.
– Não sei do que está falando.
– Sabe. – respondi nervosa. – Você sabe. Mas cometeu um erro, Logan. Não contratou alguém competente o suficiente pra me matar. Você fez sua jogada e agora é minha vez.
– Você tá me ameaçando?
– É, eu tô. E não pense que vou pegar leve com você. Acabou, Logan. Eu já tenho provas contra você, meu pai era um cara esperto. Não achou que ele não tinha garantia, né?
Logan travou o maxilar e respirou fundo.
– Você não sabe em quê está se metendo.
– Sei sim. Mas você sabe?
– Não pense que vou pegar leve com você na próxima vez, . Eu te dei um aviso, não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
– Ótimo, nem eu. E você pode fazer o que quiser comigo quando eu sair daqui Logan, eu não sou a única que sabe sobre seu trabalho sujo. – eu dei alguns passos para trás, e ele se levantou.
– Seu pai tinha a mesma marra que você antes de pagar com a própria vida suas ameaças. – eu me aproximei. Meus olhos ardiam de raiva. Logan abriu um sorrisinho satisfeito. – Ele se manteve firme, mesmo ajoelhado diante da morte. Mas sua mãe… Eu soube que ela implorou pela vida quando miraram a arma bem no meio da testa.
Eu não aguentei mais, ergui minha mão e antes que pudesse desferir o tapa, Logan segurou meu braço.
– Cuidado quando resolver andar por estradas desertas no meio da noite, Srta. Existem pessoas perigosas por aí.
– Você vai pagar pelo que fez atrás das grades. – foi tudo que consegui dizer e saí de seu escritório, ouvindo Logan me alertar que aquele era seu último aviso.
Assim que cheguei em casa, eu peguei o colar com o gravador que Bruce havia me emprestado e o mostrei o audio a Steev, que olhou para mim impressionado.
– Você matou dois coelhos com uma cajadada.
– Eu sei. E por mais que ele demore a responder pelo crime de corrupção, não vai demorar nada para ser preso por ter tentado me matar e matado meus pais.
– Sim.
Eu fiquei um tempo em silencio e perguntei:
– Acha que meus pais foram assassinados antes do carro explodir, ou ele disse isso pra me provocar?
– Ninguém se comprometeria tanto por uma mentira.
Balancei a cabeça, não havia sobrado corpo para uma autópsia mais precisa. Tudo que a policia de Rosemont pode comprovar foi que o carro pegou fogo e com a explosão não sobrou nada além de cinzas. Então eu nunca saberia se eles foram mortos antes de tacarem fogo no carro ou não.
– Meu conselho é que você leve essa gravação à polícia da Filadélfia. – Steev disse. – Tem nomes grandes envolvidos nesse esquema de corrupção e o prefeito pode fazer com que a justiça de Rosemont encubra a denúncia.
– É, eu já pensei nisso. Pode me dar uma carona pra Fili?
– Vai agora?
– Sim, não quero correr o risco de receber uma visitinha dos capangas dele essa noite.
E Steve e eu fomos para Fili, eu confesso que foi estranho voltar para aquele apartamento, mas era melhor do que ficar em casa.
No dia seguinte, eu segui para a delegacia. Já estava com tudo em mãos e quando fiz diz a denuncia de tentativa de assassinato, o delegado me instruiu a procurar a Procuradoria da República, assim que saísse dali para dar continuidade à denúncia de corrupção, para que assim, eles pudessem pegar o caso ao invés da polícia de Rosemont, que poderia estar corrompida.
Enquanto Steev se encarregava da denúncia, eu fui me encontrar com Jeremy que insistiu que queria me ver. Ele já estava me tirando do sério, e eu precisava acabar com aquilo de uma vez por todas, por isso, fui até o endereço que ele havia me dado, num edifício no centro. Aquilo era estranho devido o horário, mas eu precisava saber o que ele queria tanto comigo. Ainda mais depois de Steev ter me contado que Jeremy andou seguindo-o.
Chegando ao prédio, percebi que se tratava de um estacionamento que estava parcialmente interditado devido a obras. Eu subi o elevador de carros até o quarto andar e depois fui até o sétimo, que era onde ele me aguardava.
– Que droga, Jeremy, o que você quer? – eu perguntei, me aproximando dele que descia do carro.
– Falar com você, só isso.
– Falar o quê? Não temos o que falar.
– Claro que temos. Sobre nós.
– Não existe nós. O que aconteceu, já acabou. Eu não já disse isso pra você?
– Já, mas eu não aceito. – ele se aproximou de mim.
– Problema seu!
– A Olivia descobriu.
– Como é?
– Eu contei que estava apaixonado por outra pessoa e pedi o divórcio.
– Por que você fez isso? – perguntei furiosa. Se alguém tinha que acabar com o casamento dos dois, era eu, não ele.
– Porque eu te amo. – ele segurou meus braços. – , eu quero ficar com você.
Eu me soltei, bufando.
– Ama nada, isso é só uma obsessão doentia que você sente. Jeremy, me escuta, sinto muito que tenha desistido da sua família, mas não conte que vá rolar alguma coisa entre nós.
– Por quê?!
– Porque eu não quero!
– Mas eu quero!
– Problema seu, supere isso.
Ele passou a mão pelos cabelos e depois pela boca. Estava transtornado, com os olhos arregalados e inquieto.
– Você tá bem?
– Você tem outra pessoa?
– Quê? Não!
– Anda se esfregando com aquele patético que age como fosse sua sombra, não é? – me perguntou furioso, coçando o nariz.
– Eu não tenho nada com o Steev, e se tivesse, não seria da sua conta.
Ele se aproximou de mim a passos largos e desferiu um tapa em meu rosto. Confesso que fiquei até tonta.
Nem tive tempo de me recuperar, Jeremy me puxou pelo braço e me arrastou até se carro e abriu a porta do carona.
– Jeremy, pare! – eu pedi, tentando impedir ele de me colocar lá dentro, mas ele me deu outro tapa e conseguiu me jogar no banco.
Eu me sentei enquanto ele dava a volta no carro e vi uma pasta com uma carreira fina de pó sobre ela, em cima do painel. Jeremy usava drogas e eu nem tinha ideia daquilo. Me envolvi com um drogado obsessivo e mais uma vez enrolei uma corda em meu pescoço.
Tentei sair do carro, mas antes que eu pudesse por o pé para fora, ele adentrou o veículo, e me apontou uma arma. Eu paralisei no mesmo instante e voltei a fechar a porta.
Ainda me apontando o revólver com a mão esquerda, ele ligou o carro com a direita e deu partida, me mandando calar a boca e não me mexer.
Ele adentrou o elevador e enquanto ele estava distraído com os botões do elevador, eu desci do carro num pulo e saí correndo. Jeremy me xingou e disparou algumas vezes contra mim, errando em todas.
Eu continuei correndo e chamei o elevador de pessoal. Apertei algumas vezes o botão, mas nada. Ouvi Jeremy me chamar e correr, quando olhei para trás, o vi carregar a pistola e então, graças a Deus, o elevador abriu. Adentrei ele e apertei o botão diversas vezes, acelerando a porta. Vi Jeremy gritar e correr em direção à escada.
Eu precisava muito chegar ao meu carro ou então ir embora dali a pé mesmo. Mas o elevador não me ajudou muito. Em vez de descer, ele começou a subir até decimo e ultimo andar. Tirei os saltos pronta para correr escada abaixo, porque eu tinha em mente que Jeremy sabia que eu queria descer e pelo atraso do elevador, ele estaria me esperando em qualquer andar, se já não tivesse o chamando em determinado andar. A minha única saída era a escada e eu torcia firmemente para não dar de cara com ele.
Quando a porta se abriu, eu dei de cara com Brian, que pareceu surpreso ao me ver.
, o que faz aqui?
– Brian, me ajuda. – eu sai do elevador e segurei em seus braços.
– O que houve, eu tava trabalhando e ouvi tiros, o que aconteceu?
– Ele tá atrás de mim. – eu disse o puxando até o fundo do andar.
– Quem?
– O Jeremy.
– Por que esse cara tá atrás de você? – ele perguntou parando e segurando meu braço.
Eu o fitei. Estava desesperada, meu coração parecia uma britadeira e eu já nem me lembrava mais como era respirar direito. Tudo que eu queria era sair dali, e eu não tinha tempo de dar explicações.
– Eu, eu… Eu…
, se acalma.
E quando eu o ouvi me chamar de – como ele me chamava anos atrás –, eu senti uma descarga de nostalgia. Brian me olhava preocupado e por um instante, eu senti que ele era o mesmo de dez anos atrás, antes de me trair. E quando eu comecei a chorar e o abracei pedindo desculpas, eu senti que voltei a ser aquela garota insegura que havia adotado um ajudante de cozinha órfão que não tinha onde cair morto e marrento como porto seguro um dia.
Brian me abraçou com firmeza, estava todo sujo de tinta e cheirava ao produto, mas eu não me importava porque o abraço dele me trouxe a segurança que eu precisava no momento.
Depois de ter conseguido me acalmar um pouco, eu me afastei e sequei as lágrimas.
– Ele tá drogado e armado.
Ele assentiu e não quis insistir em perguntar quem era, só me perguntou em qual andar o sujeito estava.
– Eu não sei, a gente tava no sétimo, mas quando eu peguei o elevador, ele foi para as escadas. Brian, ele deve ter visto que o elevador subia e agora ele tá atrás de mim.
Brian suspirou, parecia pensar e enquanto olhava para o elevador, ele pegou o celular.
– O que tá fazendo?
– Ligando pra polícia.
– Não. – e segurei sua mão. – Por favor, não envolva a polícia nisso.
Ele me olhou curioso. Eu não queria a polícia envolvida no caso por causa de Jeremy. Eu nem queria que Brian soubesse do que estava acontecendo, que dirá a autoridade. Ainda mais depois de eu já estar envolvida numa denuncia contra o prefeito. Seria muito fácil o mesmo se livrar das provas que ainda não haviam sido entregues à Procuradoria da República, e me fazer parecer louca e problemática por ter me metido com um drogado.
Brian suspirou e guardou o celular, eu não sabia por que, mas agradeci mentalmente por isso.
– Eu não quero nem saber o que você aprontou, .
– Obrigada. - disse num suspiro.
Brian pegou minha mão e nós corremos até o elevador, era para ele estar ali, mas alguém o havia chamado.
– Droga! – ele me puxou até a escada e assim que começamos a descer, ouvimos alguém subi-la correndo. Brian ia na frente, e ele voltou num salto quando eu ouvi um disparo. – Corre, corre, corre. – ele me empurrou e eu corri até a laje.
Brian fechou a porta de acesso e eu corri até um pilha de madeira velha que fora trocada na reforma e peguei uma tora grande, usando ela de sustentação contra a maçaneta da porta. Assim que ouvimos a arma ser destravada, Brian se afastou rapidamente da porta e me puxou. Nós dois nos deitamos no chão e dois disparos atravessaram a porta de ferro que se mostrou não ser de muita qualidade.
Então os chutes contra ela começaram a ser ouvidos. Brian se levantou e me ajudou a me levantar. Nós dois ficamos ao lado da porta, recostados à parede, no lado das dobradiças.
– Eu preciso ligar pra polícia. – ele me sussurrou. – Essa porta não vai aguentar muito tempo.
Eu não queria admitir, mas nós dois estávamos correndo um sério risco de vida. Por isso, eu assenti. E quando Brian ia pegar o celular, Jeremy conseguiu arrombar a porta, que só não nos acertou porque ele mesmo a segurou.
Brian aproveitou que Jeremy estava de costas, nos procurando com a arma apontada para o vazio e o imobilizou. A arma foi disparada três vezes seguidas acidentalmente, e Brian tentava do jeito que podia, desarmá-lo, conseguindo quando ele bateu o braço do drogado contra a quina porta.
O revólver caiu no chão e Brian empurrou Jeremy para o outro lado, e acertou um soco em seu rosto. Jeremy deu alguns passos para trás e quando viu que o nariz começou a sangrar, ele se zangou ainda mais e partiu para cima de Brian, que não se acanhou. Num piscar de olhos, os dois estavam rolando no chão, trocando socos e pontapés. Eu não tinha nada que pudesse ajudar, então torcia com toda minha alma que Brian levasse a melhor.
Mas quando o vi sobre Jeremy sem reação, eu não tive tanta certeza de que terminaria tudo bem. Jeremy o empurrou e Brian caiu ao seu lado com a mão ensanguentada sobre o flanco direito. Jeremy segurava um canivete que pingava sangue e se aproximou de mim, sorrindo feito um maníaco.
Eu nem pensei duas vezes. Peguei o revólver que estava no chão e apontei para Jeremy, que parou estático, ficando sério e depois voltando a sorrir.
– Você não tem coragem.
– Não pense que não. – eu respondi. O fato é que eu não tinha coragem mesmo. Tanto que ele percebera porque eu tremia de medo.
– Tem? Então atira!
– Não me obrigue a chegar a esse ponto. – eu disse, começando a caminhar para trás.
– Você não vai atirar. Não sabe atirar. Dá pra ver em seu rosto.
E como resposta, eu apenas destravei o revólver. E Jeremy começou a rir e limpou o nariz, que escorria sangue.
– Vai ter sangue frio a ponto de matar um pai de família?
– Eu não quero te matar, Jeremy.
– Mas você só sai viva daqui se o fizer. Atira!
– Não. – eu continuei andando para trás, enquanto ele me seguia.
– Atira!
– Não. – e então senti que havia chegado ao limite do prédio. Minhas canelas tocaram o relevo do muro e eu parei em choque.
Jeremy se aproximou ainda mais, a ponto de segurar o cano do revolver e levá-lo à testa, para provocar.
– Atira! – esbravejou e se curvou um pouco para frente, me fazendo curvar para trás e ficar com as costas para fora dos limites do prédio. Se eu me desequilibrasse, se Jeremy desse um só passo para frente, eu poderia ter uma queda livre contra a calçada. Jeremy segurou minha blusa, na altura da gola e a apertou. – Atira!
E quando ele gritou, eu fechei meus olhos e puxei o gatilho. Mas nenhum tiro foi ouvido. Abri os olhos novamente e vi que Jeremy ria. Em menos de dois segundos, ele me puxou e me jogou no chão. Senti uma forte dor no quadril, mas passou quando o vi empunhar o canivete para baixo, na intenção de me acertar.
– Jeremy… – eu disse num sussurro, o último ato de alguém desesperado e mesmo com os olhos embaçados pelas lágrimas, pude ver Brian segurar o braço que ele segurava o canivete e o puxar para trás, fazendo Jeremy ficar de frente para ele.
Brian o acertou um soco no nariz e Jeremy se desequilibrou. Tentou se agarrar à Brian, mas foi tarde demais. Ouvi seu grito ficar cada vez mais baixo conforme ele despencava os dez andares.
Eu me levantei imediatamente, olhei para baixo e vi o corpo de Jeremy estatelado na calçada e as poucas pessoas que caminhavam pela calçada se aproximar para ver. Olhei para Brian e percebei que ele estava em choque e se desequilibrava também, devido à ferida em sua barriga. Eu o segurei pelo braço e o ajudei a se sentar.
Olhou para mim e e pensou em me dizer alguma coisa, balbuciou algumas palavras, mas acabou por perder a consciência.
Aí, não teve jeito. Eu tive de ligar à polícia e junto dela, veio os paramédicos. Nós dois fomos direcionados ao hospital e a polícia pegou meu depoimento, já que Brian não podia falar. Eu falei a verdade, evitando apenas o que Jeremy e eu tivemos num passado não tão distante.
No dia seguinte, a polícia conseguiu o depoimento de Brian, e Steev se prontificou em nos ajudar com o que a gente precisasse, afinal, aconteceu um homicídio. Nós dois, como advogados, sabíamos muito bem que eu e Brian estávamos encrencados, e que apesar de tanto eu quanto Brian termos contado a mesma versão da história, um homicídio em legítima defesa tem seus poréns, e nós dois teríamos que responder pelo ocorrido. Brian por ter feito Jeremy se desequilibrar e eu porque era a vítima.
Eu só não sabia o que contar à polícia.
– Sinto muito, mas é melhor você contar a verdade. – Steev me disse num suspiro.
– Steev, eu não posso contar que era amante dele.
– Por quê? Como se não fosse exatamente isso que você faria pra atingir Olivia.
– Sim, mas o Jeremy morreu, Steev. A culpa é minha, foi eu quem o matei.
– E eu não te disse que você estava indo longe demais? Eu não te falei, , que era melhor você deixar toda essa história de vingança de lado?
– Se eu tivesse deixado, acha que Lockwood seria investigado por corrupção?
Ele suspirou e balançou a cabeça.
– Eu te apoio no caso do prefeito e você sabe disso, ele tem o sangue dos seus pais nas mãos. Mas por uma coisa que aconteceu dez anos atrás, você tem o sangue de alguém que até então era inocente, ! Você não vê isso?
Uma lagrima solitária rolou e Steev suspirou mais uma vez, se sentando ao meu lado no sofá.
– Olha, eu sei que você amava o Brian, eu não tenho ideia de como é ser apunhalado pelas costas por duas das pessoas que você mais amava na vida, mas todo mundo já foi traído uma vez na vida, .
Eu sequei a lágrima que rolava e funguei. Steev não sabia de toda a verdade daquela época. Eram poucos que sabiam, apenas eu e meus pais. Havia um motivo pelo qual eu tinha tanta raiva de Olivia e Brian e para mim era algo doloroso.
. – ele me chamou preocupado e só então percebi que soluçava de chorar.
Ele me abraçou de lado e eu comecei a chorar ainda mais.
, o que aconteceu? … Olha pra mim. – ele ergueu o meu rosto e me entregou o lenço que estava em seu bolso. – Eu vou buscar água.
Steev foi até a cozinha e voltou com um copo de água. Eu tomei a metade de uma única vez e respirei fundo, para me acalmar.
– Tudo bem?
Eu assenti.
– O que aconteceu?
Eu olhei para Steev e suspirei. Juntei forças para responder, e disse:
– Naquela noite, durante o meu jantar de aniversário em casa…
– Eu sei, estava lá, lembra?
– Sim. – funguei mais uma vez. – Eu passei mal durante a noite. Meus pais me levaram a um hospital e então eu descobri que estava grávida.
Steev me olhou perplexo, eu aproveite seu silencio para continuar:
– Meus pais estavam comigo quando o médico deu a notícia e eu fiquei sem chão. Brian… Nós não planejávamos filhos tão cedo. Não enquanto ele não abrisse seu restaurante. Eu não queria aquela criança, Steev.
– Se acalma. – ele disse colocando a mão sobre meu braço quando notou que eu voltava a querer chorar.
Eu assenti, respirei fundo e continuei:
– Eles ficaram tão felizes com a notícia e conversaram comigo. Minha mãe abriu minha mente de uma forma que eu nem sei como explicar. Então eu percebi que aquele bebê não se era uma pedra de tropeço em nossas vidas. Ele era uma benção que chegou antes do esperado. Um presente entregue antes da hora, e eu não via a hora de ver a cara do Brian quando ele soubesse que seria pai. Pedi que eles guardassem segredo até Brian saber, e meu pai nunca ficou tão ansioso para conhecer um namorado meu quanto ficou para conhecer Brian. Aí eu voltei na noite seguinte pra Filadélfia, e aconteceu o que você já sabe. Depois que Olivia foi embora desse apartamento, eu fiquei sozinha. Não tinha a quem pedir socorro e depois que percebi que havia alguma coisa errada com a gravidez, um taxista me levou ao hospital… O médico disse que sofri um aborto espontâneo devido à “fortes emoções” que posso ter sofrido.
Depois de um minuto inteiro de silencio para assimilar o que acabara de ouvir, Steev me disse:
– Eu não sabia disso, por que não me contou?
– Porque eu não quis que ninguém soubesse. Me mudei pra Califórnia, passei por psicólogos e minha mãe passou meses comigo, me ajudando a passar por cima disso. Meu pai queria ir atrás de Brian ou Olivia, mas a meu pedido, ele deixou quieto. Eu queria deixar quieto, esquecer tudo e perdoar. Mas eu não consigo, Steev. – e voltei a chorar.
Steve me abraçou e eu me desmanchei em seus braços.
– Olha, aqui vai um conselho: – ele se posicionou de modo que ficasse de frente para mim e eu olhasse em seus olhos. – Você se vingar de quem realmente merece, é compreensível. Mas logo mais, o Lockwood estará na mão da justiça. Olivia não mereceu perder o marido dessa forma, Brian não mereceu perder a casa, emprego e ser preso, nem você mereceu o que aconteceu no passado… Agora me responda: agora que você conseguiu se vingar dos dois, você se sente mais leve?
Eu neguei com a cabeça e ele suspirou.
– Eu só acho que você tá perdendo tempo e o caráter que seus pais te ensinaram a construir.
E então alguém começou a bater na porta.
– Esperando alguém? – ele me perguntou e eu neguei.
Steve foi atender a porta e adentrou a sala com Olivia, que estava com os olhos inchados. Quando a me viu, veio em minha direção, me abraçando. Eu retribuí, olhando para Steev, que me deu um olhar bem significativo e se despediu, nos deixando a sós.
– Eu sinto muito pelo que aconteceu. – Olivia disse enquanto se setava no sofá.
Eu me sentei ao seu lado, secando os resquícios de lágrimas que havia marcado meu rosto.
Como ela podia sentir muito quando era seu marido que havia sido morto?
– Se eu soubesse que tudo chegar a esse ponto, eu teria impedido. – e continuou a chorar.
Eu a olhei intrigada.
– Como assim?
Olivia engoliu o choro e respondeu:
– Eu e Jeremy não estávamos bem. Não completamente. Ele me paparicava demais, me tratava bem demais e ele nunca foi assim. E quando ele deixou de ser tão possessivo comigo, eu não pude deixar de desconfiar. – ela me olhou. Olivia sabia do meu caso com Jeremy. – Notei no dia do jantar que você levou o bombeiro, meses atrás. Conheço meu marido quando ele fica… ficava incomodado. E eu não sou cega, . Jeremy te adorava, vocês se davam bem e tinha o jeito como ele te olhava… Ele era obcecado por você. – aí, eu fiquei perdida. Olivia sabia ou não de nós dois? – Eu pensei em te alertar, mas eu fiquei com receio de que você acharia que eu tivesse falando aquilo achando que você era uma ameaça. Me desculpe. – ela voltou a chorar. – Eu acabei confundindo você comigo e olha no que deu.
– Olivia, eu…
– Me deixa falar, por favor. – ela fungou. – Eu sabia do vício do Jeremy, mas não esperava que ele fosse atrás de você. Me perdoe.
E eu fiquei sem palavras. Olivia secou algumas lágrimas e depois de pigarrear, disse:
– Eu fui interrogada pela polícia hoje de manhã. Não pude deixar que você e Brian passassem por mais transtornos e então eu contei sobre esses… Transtornos do Jeremy.
Eu fiquei chocada. Balancei a cabeça algumas vezes e perguntei se Olivia queria alguma coisa para beber.
Ainda chocada, fui à geladeira e peguei dois copos de suco de laranja e voltei à sala. Olivia estava de coração partido, eu sabia. Mas eu estava achando muito estranho a forma com que ela falava.
– Aqui. – a entreguei o suco e me sentei. – Obrigada por ter falado com a polícia e nos ajudado a provar que foi em legítima defesa.
Ela assentiu e baixou a cabeça. Eu me senti incomodada.
– Como está o Peter?
Ela meneou a cabeça.
– Ele é um garoto esperto. Já sabe que o pai não está mais entre nós e está desolado.
– Eu sinto muito. – até eu me surpreendi com minha sinceridade. Mas também não deixei de me surpreender pela pontinha de frieza que sentia na voz dela.
– Obrigada. Eu acho que vou passar uma temporada na Itália quando o caso for resolvido. Peter não precisa ficar recebendo olhares das pessoas da cidade.
– É uma boa ideia.
Ela assentiu e nós duas ficamos num silencio constrangedor.
– Então o Brian foi seu cavaleiro de armadura brilhante… Isso é…
– Ele foi só alguém que estava no lugar errado na hora errada.
– No lugar certo na hora certa, você quis dizer. Ele salvou sua vida.
– E está internado no hospital agora, então o azar é todo dele. – e tomei um gole de suco.
Olivia fez o mesmo e depois de mais um minuto inteiro de silencio, ela disse:
– Olha, provavelmente você não vai querer falar sobre o que aconteceu há dez anos…
– É, não tem o que falar. Fui protagonista da trama e não perdi nenhum capítulo.
Ela soltou um riso sem graça e continuou:
– Você não leu a carta que te escrevi.
– Por que diz isso?
– Porque eu te conheço, . É impulsiva e deve ter se livrado dela quando viu minha letra.
Eu estalei a língua, me mantendo fria.
– Eu preciso saber de alguma coisa além do fato que minha amiga de infância teve um caso com meu namorado?
– Eu não tive um caso com o Brian.
– É claro que não.
– Eu tô falando sério, . Olha pra mim, eu tô em estado de ficar inventando historinha?
E eu me calei. Olivia continuou:
– Eu tinha brigado com o Willy pouco antes de ir buscar o Brian pra sua festa.
– Ele sabia onde era minha casa, Olivia.
– Era uma festa surpresa e a gente nem se falava, . Ele não sabia o que eu tinha planejado. Por isso eu fui até o restaurante, e droga, eu devia ter falado sobre a festa, porque ele acabou ficando atolado com o trabalho, e provavelmente não teria tempo de chegar antes de você. Se bobeasse, ele nem teria chance de ir. E enquanto eu esperava ele impaciente, a gente acabou conversando um pouco sobre você. Eu nunca admitiria isso na época, mas o Brian era um cara legal.
– E descobriu isso só naquela noite? Olivia, você tratou ele como um nada todo o tempo que estivemos juntos!
– Eu sei, ! Mas a verdade era que eu era uma pessoa que via qualidade onde havia dinheiro. E o Willy e eu estávamos em crise na época, enquanto você e o Brian estavam bem. Eu tinha inveja do seu relacionamento, . Eu sentia inveja toda santa vez que você dizia que eu deveria dar uma chance ao Brian porque ele era diferente dos caras que a gente conhecia. Naquele restaurante eu coloquei isso a prova, e nossa, o Brian era completamente louco por você.
– Não a ponto de evitar que sua língua invadisse a boca dele.
Olivia suspirou e ignorou meu comentário.
– Ele pediu minha opinião sobre uma coisa.
– Ele queria saber se beijava bem?
– Ele me mostrou o anel de noivado que tinha comprado pra você. Ele ia te pedir em casamento, .
Eu desviei meu olhar e fitei o chão. Eu não conseguia acreditar no que acabara de ouvir. Me levantei e me afastei de Olivia, estupefata.
– Eu o beijei , agi por impulso.
– Não. – eu a interrompi e senti meus olhos se enxerem de lágrimas. – Não fala nada.
– Eu tenho certeza que Brian te procurou pra te contar a verdade, mas eu soube que você não quis ouvi-lo também.
– E eu não quero te ouvir agora.
Ela baixou a cabeça e sussurrou:
– Me desculpe.
Eu segurei dentro de mim a raiva que estava transpirando e respirei fundo. Como eu pude ter me arrependido do que aconteceu com Jeremy por um momento?
Eu a olhei e notei que ela estava de cabeça baixa. Aí eu tentei me lembrar quantas vezes Olivia pediu desculpas por alguma coisa.
Ela nunca fez isso.
– Vai embora daqui.
– Eu tentei te procurar , eu tentei te explicar tudo, mas você se escondeu. – ela disse se aproximando de mim.
– Sai daqui.
– Me perdoe, por favor,
! Meu nome é , e não venha me pedir perdão mais uma vez senão eu juro que vou perder os bons modos que meus pais me ensinaram. – eu me aproximei lentamente, com os olhos em fúria e a obriguei a me olhar. – Você não merece o meu perdão porque você nunca quis o meu perdão. Sabe porque você nunca conseguiu alguém que te ame de verdade? Porque você é a última pessoa do mundo que alguém quer ter por perto. E você sabe disso desde que sua mãe te deu pra um orfanato.
E como resposta, Olivia não fez nada menos que dar um belo tapa na minha cara. Ela continuou me encarando e eu pude sentir um lampejo em seu olhar. A velha Olivia ainda estava viva.
– Ah, olha só quem voltou. – eu respondi com a mão no rosto.
– E olha só quem está tentando ser o que não é. Essa sua pose de mulher firme, confiante, não me engana. Você nunca foi nada além de uma poeira na sola do meu sapato, . Graças a mim, você se tornou o que é hoje. Já imaginou o que seria de você se não tivesse me conhecido?
– Eu continuaria sendo a menina timida e sem amigos que eu era. Mas pelo menos não teria cometido o erro de achar que uma pessoa baixa e falsa como você, gostava de mim de verdade. Mas quando me livrei de você, foi como se uma luz se acendesse, Olivia. Você nunca nutriu nenhum sentimento bom por ninguém. Você sempre teve inveja de mim, inveja da vida que eu levava e você só fingia gostar de mim, por causa do luxo que eu te proporcionava.
Ela sorriu com escárnio.
– Eu entendi seu joguinho desde que chegou aqui, . Você quer se vingar porque eu te desiludi, não é? Fiz a princesinha do reino de cristal acordar e ver a realidade...
– Você é uma tremenda vadia!
– Se beijar Brian me tornou uma vadia, o que se esfregar com meu marido por meses faria de você? – ela me fez a pergunta e abriu um sorriso cínico. – Você só não está sendo escandalizada agora porque me fez um favor se livrando daquele imprestável. Mas a cortesia acaba por aqui. E espero que seu atrevimento de se meter com minha vida também.
– Do que você tem medo? – perguntei após alguns segundos e ela me lançou um olhar confuso. – Não existe outra razão pra você estar com a guarda tão armada a não ser medo.
– Eu não tenho medo de uma mal amada com sede de vingança.
– Você não tem medo de mim. Tem medo do que eu possa descobrir sobre você.
– Eu não tenho nada a esconder.
– Não era o que seu marido dava a entender enquanto estava na cama comigo. – joguei um verde para saber se ela tinha algum segredo.
Olivia me deu um olhar ameaçador, mas não me respondeu. Me deu as costas e pegou sua bolsa em cima do sofá.
– Eu te vejo por aí, .
Soltei um riso pelo nariz e a segui com o olhar até a porta.
– Com certeza.
E Olivia saiu do meu apartamento. Eu fui até a janela e fitei a rua, esperando ela aparecer, enquanto resolvi pensar no último ano.
Olivia foi muito receptiva depois de minha insistência, o que de fato, eu já esperava, mas não podia deixar de desconfiar. Além do que, ela não era idiota. Olivia era muito mais experiente do que eu em detectar malícia e certamente ela não apenas captou a obsessão de Jeremy por mim, como também sabia de nós dois. Eu só não sabia porque ela ainda não havia feito barraco…
Talvez fosse para não chamar atenção, é claro. Pessoas como Olivia não gostam de se envolver em escândalos de jeito nenhum. Ela não queria ser o foco... Ou não queria que o holofote de mulher traída e sofredora iluminasse também algo que ela não quisesse mostrar.
Ela pareceu muito tranquila quando falou sobre o marido que ela alegava tanto amar, e não parecia transtornada nem envergonhada quando citou as drogas.
E então, quando a vi atravessar a rua e adentrar seu novo Porsche, eu não pude deixar de ficar com uma pulguinha atrás da orelha. Peguei meu celular e liguei para Steev, que não demorou muito para aparecer, e contei minha conversa com Liv, e não precisei falar mais para ele perceber o que eu tinha em mente.
– Você acha que ela anda escondendo alguma coisa?
– Sim. – respondi pensativa. – Deve existir uma razão muito boa pra ela ter se fingindo de boazinha pra cima de mim e ter tentando me comprar com aquele papo do Brian.
– Acha que ela mentiu?
– Não sei, mas ela queria me testar, ver se eu tinha alguma intenção além de ter a amizade dela de volta. Ou ela queria ver se o Brian ainda é minha fraqueza. Ela é esperta, Steev. Ela tem medo que eu descubra alguma coisa obscura dela nesse meu plano de vingança… Ou ela anda tramando alguma coisa e quer que eu passe pro lado dela.
– O que você tem que ela não tem?
– Inteligencia, perfeccionismo, carisma. A lista é infinita e nem tô sendo modesta.
– Eu tô ficando confuso.
– E eu, curiosa.
Senti o olhar analítico de Steev me julgar.
– Você não tá pensando em se envolver nisso, né?
Eu não respondi, e ele continuou:
– Eu preciso te avisar que isso vai dar merda?
– Steev…
– Duas tentativas de assassinato contra você não foram suficientes?
Eu o olhei com desdém.
– Eu sei, dei mole, coisa de principiante. Mas eu não vou mais bobear. Só vou esperar uma temporada pra começar a cavar esse quintal. Liga pro Bruce, pergunte se ele tem a agenda livre daqui algumas semanas. Se não tiver, então mande-o desmarcar qualquer compromisso para os próximos meses.
– Por quê?
Eu o olhei com uma sobrancelha erguida. Aos poucos, o sorriso foi se formando em meu rosto.
– Porque ele vai passar uma temporada na Itália.

“Eu estou pegando a coroa de volta
Todo vestido e nu
Vejo o que é meu e tomo posse
A coroa, tão perto que eu posso prová-la
Vejo o que é meu e tomo posse
(Quem acha guarda, quem perde chora)
Oh, sim”



Nota da autora:

Eu nem estava no meu juízo perfeito quando vi essa música disponível, eu só peguei e comecei a escrever. Claro, não saiu tudo como eu imaginava na minha mente fértil, até porque, se assim fosse, ela seria uma long. Mas eu gostei do resultado final e espero que vocês também. Eu queria um final trágico mas eu simplesmente fiquei com pena de escrever algo assim, e confesso que acabei achando que ENC não combinava com o enredo, mas depois que finalizei, eu realmente não consegui associar a fic à qualquer outra música.
Como vocês podem ver, o final é bem sugestivo, e isso é porque eu não sei se vou me conter, ou se vou dar continuidade a fic, vamos ver.
É isso aí, obrigada por ler, galera!

Xx



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