Finalizada em: 29/05/2017

Capítulo Único

Quando abriu os olhos, sentia frio. Um frio tão intenso que parecia prestes a dilacerar sua alma. Olhou ao redor, confuso. Não conseguia lembrar onde estava, como havia chegado lá ou mesmo de ter fechado os olhos, mas tudo ficou mais claro quando notou a confusão ao seu redor, os três carros destruídos no meio da avenida.
A neve caia intensa há dias, um cuidado redobrado era o mínimo que se esperava ao dirigir sob aquelas condições, mas nada impediu o motorista do Volvo de acelerar mais do que devia.
Apesar do frio que sentia, correu até o primeiro carro, pronto para socorrer o motorista, mas franziu o cenho ao não encontrar ninguém ali. Olhou para trás, para o Volvo, mas a frente totalmente destruída não lhe deu muitas esperanças de salvar alguém.
E foi então que olhou para o próprio carro. Lembrava-se de ter freado bruscamente, mas isso apenas fez com que seu carro derrapasse antes de ser atingido pelo Volvo que destruíra sua traseira. Não se lembrava exatamente de ter saído do veículo, mas a parte da frente estava intacta, apenas o parabrisa havia sofrido danos. Não entendia exatamente porque havia quebrado daquela forma, mas pela situação, conseguia entender porque havia sido o único a sair do veículo.
Ouviu o som de uma ambulância ao longe e então lembrou-se do hospital há algumas quadras. Ele precisava pedir ajuda. Buscou o celular em seu bolso e xingou. Havia esquecido em casa, não era a primeira vez que xingava por isso. Sem outra escolha, deu as costas para o acidente e correu. Minutos e até mesmo segundos eram cruciais para salvar a vida de alguém e quanto antes ele pedisse ajuda, antes viria o atendimento.
Os flocos de neve caiam em seu rosto, fazendo-o se arrepiar. Havia tirado a jaqueta ao entrar no carro e ligar o aquecedor, vestia apenas uma camisa branca de mangas compridas que nem de longe era o suficiente para protegê-lo do inverno londrino as vésperas do Natal.
Devido ao horário, não esperava realmente encontrar alguém na rua para socorrê-lo, mas quando viu o casal andando distraidamente até o carro, entre sorrisos, decidiu ir até lá pedir ajuda. Não era possível que não tivessem um aparelho celular.
- Ei! – gritou, um pouco mais a frente dos dois, do outro lado da rua, mas nenhum deles pareceu notá-lo. – Ei, ajuda! – insistiu, erguendo os braços dessa vez, mas continuaram entretidos um no outro, rindo de algo que o homem falara. Já mais próximo, bufou. – Teve um acidente há alguns metros, podem ligar para a emergência? – pediu, o tom mais alto do que o costume para chamar atenção. estava há apenas dez passos deles agora, mas não o ouviram mesmo assim, entrando no carro. – Não é possível. – reclamou, agora mais baixo, e correu para frente do carro. – Preciso de ajuda! – exclamou, mas para sua surpresa o homem apenas deu partida, acelerando em sua direção como se não o visse ali. – Teve um acidente mais pra frente, preciso de ajuda! – insistiu, mas vendo que o homem não pararia, foi obrigado a se jogar para que não fosse atropelado. – Mas que porra! – gritou, desacreditado. – Era só ligar para a emergência!
Revoltado, apenas negou com a cabeça e voltou a correr até o hospital. Sabia muito bem que não se podia confiar em qualquer estranho, mas ele não queria muito, eram apenas três números e um pedido de ajuda, mas talvez a sociedade só estivesse realmente perdida. Ninguém se importava com o próximo e aquilo nem mesmo era uma novidade realmente.
Quando finalmente avistou o hospital pouco mais adiante, sentiu-se aliviado e acelerou o passo. Estava sem fôlego, o ar gelado saia de sua boca conforme respirava e apesar da corrida, o frio ainda fazia seus ossos doerem de forma incomoda, mas continuou assim mesmo, entrando rapidamente pela emergência junto com uma ambulância que estacionava naquele mesmo instante.
- Eu preciso de ajuda, teve um acidente lá na frente...! – voltou a falar, mas se interrompeu quando ninguém se voltou para ele, quando ninguém pareceu notá-lo. Havia pelo menos dez pessoas ali, mas nenhuma delas se voltou para ele apesar de seu tom claramente alarmado e parando no lugar ele olhou ao redor. Ninguém olhava para ele e apesar de não entender o que estava acontecendo, o porque daquela indiferença, um certo pânico cresceu em seu peito. Um medo que ele não podia explicar, como se o entendimento caísse sobre ele antes mesmo que ele fosse capaz de assimilar.
- ... - ouviu seu nome em um meio sussurro espantado e com uma pitada de esperança, virou-se imediatamente para trás, para a direção da voz. Ele conhecia muito bem a pessoa responsável por aquele tom, pensava nela todos os dias desde que voltara para sua cidade natal. Tentava não manter a esperança de encontrá-la novamente, sabia que as possibilidades eram imensamente remotas em um lugar tão grande, mas reconheceu a voz instantaneamente, não conseguindo controlar seu espanto ao realmente vê-la ali, a sua frente.
Os mesmos lábios vermelhos, os mesmos olhos azuis. Era ela, . Tão doce e tão real quanto ele se lembrava e como se o traísse, seu coração disparou da mesma forma como disparava antes, semelhante com o que ele costumava sentir. O mesmo carinho, a mesma ternura, o mesmo amor. Foi só vê-la e tudo estava lá novamente, mesmo que eles não fossem mais os mesmos.
deu um passo em sua direção, sentindo a expectativa prestes a parti-lo ao meio e foi então, só então, que notou. Ela falara seu nome, mas não era para ele que olhava. Era para a pessoa que desciam da ambulância. Deu mais alguns passos, agora com os olhos atentos na maca e sentiu o mundo desabar quando viu quem estava deitado inconsciente ali.
Era ele.
Assustado, caminhou para trás sem se dar conta do que fazia. Aquilo não era real, não podia ser real, mas contra sua vontade as peças começaram a se encaixar em sua mente, como se tentasse gritar para ele que sim, era real. Que ele não estava sonhando. Lembrou-se do casal que quase o atropelara. Não existia qualquer possibilidade de não escutarem sua suplica alarmada da distância que estavam dele, mas o ignoraram como se não o vissem ou ouvissem. Lembrou-se então dos carros no acidente, vazios. O único parabrisa quebrado era o dele, não tinha como o motorista ter voado para fora do veículo com o impacto e foi então, com esse pensamento, que tudo fez sentido.
O seu parabrisa era o único quebrado.
- Acidente na Star St. com a Sale PI. A vítima é um homem de vinte e cinco anos. Estava sem o cinto, foi encontrado há três metros do veículo. – falaram ao descer a maca com seu corpo, mas ele estava chocado demais encarando a si mesmo para ouvir o resto.
Aquilo não podia ser real, ele estava ali, parado. Estava de pé do lado de fora do hospital. Ele correra até lá, ele podia sentir o frio, o cansaço, a falta de ar devido a correria. Ele estava ali.
Mas foi no momento que deveria trombar com que a realidade caiu sobre ele com um baque avassalador. Ele passou direto por ela, como se não fosse mais feito de carne e osso, como se fosse apenas uma simples miragem.
- Não. – ele falou, em alto e bom som, mas novamente, ninguém pode ouví-lo. – Não. – falou mais alto, como se pudesse mudar alguma coisa com isso e, no instante seguinte, estava gritando. Gritou em plenos pulmões, gritou com toda força que possuía, mas foi totalmente inútil. – , . – ele se voltou novamente para ela, em uma última tentativa desesperada de encontrar algum sentido para o que estava acontecendo. Aproximou-se dela e ergueu a mão para tocar sua pele, as bochechas levemente coradas com o frio, mas ele não foi capaz de tocar o que via e deixou a mão cair novamente ao seu lado, aceitando a realidade ao seu redor mesmo que aquilo, de forma alguma, parecesse real.
- Mas eu ainda... Eu ainda posso sentir. – falou ele, a voz soando cansada, desamparada.
- O paciente está com hipotermia e já fizemos duas reanimações... – a mulher voltou a explicar seu quadro. Na realidade, ela ainda falava, mas parara de prestar atenção em algum momento, só então voltando a fazê-lo.
Hipotermia. Era por isso que ele sentia tanto frio? Haviam feito duas reanimações. Era por isso que seu peito doía tanto?
Um médico se aproximou de sua maca, vestia uniforme e jaleco do hospital, mas como se finalmente caísse na realidade, se adiantou a frente, assumindo uma nova postura ao se aproximar de seu corpo.
- Eu cuido disso. – falou, firme, para o homem que vinha atendê-lo.
- , você já estava indo. Pode deixar que eu...
- Não, está tudo bem. – insistiu, prendendo o cabelo rapidamente com o elástico em seu pulso antes de aceitar a luva que a mulher na ambulância estendia a ela.
havia conseguido, afinal. Conquistava seu sonho, havia se tornado a médica que sempre aspirou e mesmo na condição da qual se encontrara, ficou feliz por ela. Jamais desejou algo diferente, mesmo após o término conturbado que tiveram há anos atrás.
A verdade era que, na época, eram jovens demais para saberem o que estavam fazendo, imaturos demais para uma relação sadia, mas ele a amava. Havia sido sua primeira namorada, sua primeira paixão e jamais havia sido capaz de deixá-la para trás. Pensava nela vez ou outra e acreditava, sinceramente, que era apenas por isso, por ter sido a primeira, mas então ali, vendo-a novamente depois de tanto tempo soube que não era por isso. Era porque, independente do tempo que havia se passado, ainda a amava de um jeito que não era capaz de explicar e desejou poder ter outra chance para fazer tudo certo.
Sabia que hoje, sendo quem era hoje, podia fazer as coisas funcionarem. Quando olhava para o passado, não tinha dúvidas de onde havia errado, de tudo que havia feito para contribuir com o fim e mesmo ciente de que podia dar certo agora, sentiu as esperanças se esvaírem ao olhar mais uma vez para seu corpo imóvel.
Saber o que fazer para dar certo era o suficiente? E se ele não vivesse? E se ele nunca mais fosse capaz de mudar o passado? E se ele estivesse fadado a acompanhá-la apenas como um telespectador?
Parecia ridículo estar preocupado justo com aquilo, dentre todas as coisas que estavam acontecendo. Ele havia sofrido um acidente de carro e, por algum motivo, estava fora de seu corpo como em um filme ruim. As pessoas se agitavam ao redor dele, e mais alguns médicos e enfermeiros tentavam socorrê-lo. Entre palavras difíceis que ele os ouvia dizer, não sabia se ficaria bem ou não. Se não fosse por toda a agitação, na realidade, acharia até mesmo que já estava morto, afinal, de que outra forma explicaria aquela experiência absurda? Por que aquilo estava acontecendo? Ele estava em coma e sua alma decidira que era um bom momento para dar uma volta? Se ele morresse, aquele novo eu morreria também ou ficaria ali, perdido para sempre?
A ideia de morrer não o apavorava tanto quanto a de ficar ali para sempre, a de ter que conviver todos os dias com tudo que havia feito de errado e que jamais poderia consertar. E ele não estava falando somente de , falava de tudo, de sua vida inteira. Vendo os médicos tentando salvá-lo ele só podia pensar no quão frágil era a vida humana. Estava bem em um instante e no outro, por um completo acaso, poderia não viver mais, poderia se perder completamente no esquecimento.
E parecia irônico que dentre todos os lugares terminasse logo ali, nas mãos do maior arrependimento da sua vida.
sentiu uma forte fisgada e curvou o corpo para frente, gemendo enquanto ouvia uma exclamação alarmada. As máquinas começaram a apitar de forma no mínimo assustadora e em meio a dor ele ergueu a cabeça em tempo suficiente para ver seu sangue jorrar na médica do outro lado da maca.
- Precisa estancar o sangramento! – uma terceira voz falou, mas com a vista repentinamente embaçada, não conseguiu identificar a quem pertencia, só conseguiu pensar que era isso. Mesmo aquele eu, fora do corpo, morreria se assim seu corpo o fizesse. Só não sabia se deveria se sentir assustado ou aliviado com isso.
- É tarde, a pressão está caindo. – ouviu dizer em resposta, sua voz soando firme, porem calma de maneira invejável. Sabia que ela lidava com aquilo todos os dias, que estava acostumada e por isso permanecia inabalável, mas de alguma forma conseguia ver aquela certeza vacilar em seus olhos. Vacilar por ele, por ser ele. - Precisamos levá-lo para a cirurgia, agora. Chame o Doutor Blanche, peça para prepararem a sala seis. Estamos indo para lá.
Uma das enfermeiras fez o que ela pediu enquanto os outros, imediatamente, voltaram a se mover, agora levando seu corpo junto a maca. estava com eles e, com alguma dificuldade, ele os acompanhou, se arrastando pelos corredores atrás dela.
nunca teve medo de morrer, mas de repente, passou a ter. Não pela morte em si, mas por deixar tudo para trás, por não ter tido tempo de fazer tudo o que gostaria de ter feito e enquanto a dor se intensificava, fazendo com que sua respiração se tornasse tão escassa, se arrependeu também de todo o tempo perdido, de ter pensado tanto ao invés de agir.
As portas da sala de cirurgia se abriram a sua frente. Pessoas já o aguardavam ali mesmo que ele jamais pudesse dizer como haviam chegado tão rápido, mas ao invés de seguir junto ao seu corpo, seguiu para sala ao lado, precisando da familiaridade que ela lhe trazia. Tinha tantas coisas que ele queria dizer. Não só para ela, mas tê-la ali só deixava aquilo ainda mais claro, como se o destino o tivesse colocado logo ali de propósito, para jogar em sua cara tudo que ele tinha deixado de fazer, como ir atrás dela quando ainda tinha a chance.
- , se prepare. Você entra comigo. – falou o homem ali antes de entrar na sala de cirurgia e ela apenas concordou com a cabeça. Se fosse chutar, diria que ele era o Doutor Blanche, quem ela havia chamado, mas não saberia dizer, limitou-se em ficar ali, do lado de que naquele instante, ao finalmente se ver sozinha, apoiou-se na pia como se estivesse prestes a desabar, soltando a ar pela boca alto o suficiente para que fosse capaz de ouvir.
- Você não pode fazer isso comigo. – falou em voz alta, mas ela havia perdido totalmente a força e energia que expressava antes. Soava baixa, embargada, mas somente quando viu a lágrima pingar em suas mãos que se deu conta, ela chorava. – Você não pode aparecer de novo depois de anos só pra morrer nas minhas mãos.
segurou com mais força nas bordas da pia e só então, se deu conta. Aquele sentimento, aquele arrependimento, era recíproco, mas isso não fez com que fosse mais fácil suportar. Naquele momento, sem saber se viveria ou morreria, saber daquilo foi apenas pior. Ele quis gritar novamente, desejou, mais do que nunca, ser ouvido. Poder dizer o que sentia, o quanto se arrependia. Quis gritar que podiam dar certo agora porque não eram mais como costumavam ser, não eram mais tão imaturos para não saber o que era amar.
A porta for aberta repentinamente e pulou onde estava, afastando-se bruscamente da borda enquanto limpava as lágrimas, muito mais intensas do que ele esperava encontrar.
- você... – a mulher falou ao entrar, mas se interrompeu quando a viu chorar. – Você está chorando? – perguntou, espantada, e a outra apenas negou com a cabeça, mesmo que não fosse possível negar.
- Você precisa entrar no meu lugar. – falou simplesmente, mas a mulher, ao invés disso, aproximou-se dela, alarmada.
- Está tudo bem? O que houve...? – perguntou, tentando tocá-la, mas apenas a afastou, dando mais alguns passos para trás.
- Não foi nada, eu só preciso que entre no meu lugar. – insistiu e a outra concordou dessa vez.
- Você o conhece, não conhece? – questionou novamente e dessa vez, como se não pudesse aguentar mais a si mesma, deixou que as lágrimas voltassem, seu corpo vibrando com a intensidade delas. – ...
- Eu não posso estar lá dentro se ele morrer. Não posso ser responsável por isso. – falou entre as lágrimas enquanto ela lhe encarava com pesar, porém, sem saber o que fazer para consolá-la. – Céus... O que eu estou falando? Ele... Ele não pode morrer.
- Ele não vai morrer hoje, ... – tentou confortá-la, mas negou com a cabeça.
- Você não pode dizer isso, não pode garantir isso. – falou, mesmo que sua voz vacilasse em meio ao turbilhão de emoções. - Nem sabe... Nem sabe qual o estado dele.
- Mas confio nos nossos médicos.
- Eles ainda não fazem milagres. – devolveu inabalável, mas escondeu o rosto nas mãos no instante seguinte, sendo consumida pelas lágrimas. – Como eu queria um milagre...
- , quem é ele? Você nunca falou dele antes. – quis saber, curiosa ao ver tanto sofrimento por alguém que jamais havia sido mencionado.
- Namoramos no colégio. – explicou, mesmo com as lágrimas limitando consideravelmente sua fala. - E... Eu... Nem ao menos lembro como terminamos. – continuou, negando com a cabeça como se tentasse se recordar daquilo, puxar na memória enquanto ele ouvia, completamente angustiado, a dor em sua voz como se fosse sua.
Era sua, se deu conta. Era a mesma dor que ele sentia e saber que ela compartilhava só fazia doer mais. Se ele tivesse ido atrás dela antes, tudo seria diferente, mas ele deixou que aquele acidente ridículo fosse o responsável por juntá-los novamente.
- Foi tão estúpido... – voltou a falar, negando com a cabeça de forma a demonstrar sua inconformidade. - Eu só me lembro disso. Que foi totalmente estúpido. Éramos estúpidos naquela época.
- Você o ama. – a mulher afirmou e apenas concordou, escorando-se na parede. seguiu em sua direção para abraçá-la, sem lembrar de que não era possível, de que a atravessaria como antes e jamais poderia descrever a angústia que sentiu por isso. Era maior que a dor física, maior que o frio. Ele aceitaria morrer se pudesse, ao menos, abraçá-la uma última vez, mas não era como se alguém se importasse com isso. Ele morreria de qualquer forma, com ou sem abraço e só restaria aquele enorme fantasma no lugar do que eles haviam sido um dia e jamais voltariam a ser. Isso porque os dois se deixaram viver com aquele sentimento reprimido, cometendo mais uma vez o mesmo erro de antes, quando se calavam como se não se conhecessem após uma briga, quando deixavam a relação se desgastar contando as mesmas histórias que já haviam contato e deixavam de dizer o que realmente gostariam de dizer.
Novamente, não pode deixar de notar o quão cruel era o destino por fazer aquilo e se perguntou se era alguma espécie de castigo. Não conseguia lembrar de ter feito nada tão ruim que justificasse aquilo.
- ?! Cadê ela, mas que droga! – o médico do lado de dentro da sala chamou, exaltado e as duas se afastaram rapidamente. As máquinas voltaram a apitar como apitaram antes, os “bipes” aumentaram drasticamente em segundos e arregalou os olhos enquanto olhava para dentro através do vidro. Fez menção de entrar, mas a mulher com ela a impediu, a afastando da porta enquanto colocava rapidamente a roupa cirúrgica para entrar na sala.
- Você fica, eu cuido disso. – falou antes de entrar, mas os médicos do lado de dentro moviam-se apressados.
- Estamos perdendo ele! – ouviu do lado de dentro, mas ignorou a fala, parando ao lado de que olhava atentamente o que acontecia do outro lado, as lágrimas ainda escorrendo em seu rosto.
- Me desculpa. – falou, mesmo que ela não pudesse ouvir e sentiu as próprias lágrimas embaçarem sua visão enquanto a certeza caia sobre ele. Não teriam outra chance, nunca. Haviam desperdiçado aquela oportunidade assim como desperdiçaram a que tiveram no passado.
Talvez não tivessem mudado tanto assim, afinal. Era o mesmo erro. As mesmas pessoas cometem os mesmos erros e eles haviam feito isso, cometido o mesmo erro.
- Eu queria tanto que você pudesse me ouvir. – sussurrou, passando uma das mãos pelos cabelos em nervosismo e se apoiou na pia exatamente como ela fazia, em um gesto totalmente impensado. Ergueu a cabeça para evitar as lágrimas, ficando de costas para a janela para estar cara a cara com ela, mesmo que também não fosse capaz de vê-lo ali, ou senti-lo. – Me desculpa por ter te deixado ir, me desculpa por nunca ter te procurado. – falou, procurando seu olhar mesmo que não pudesse tê-lo também. Era tarde para isso e ele só pode condenar a si mesmo por ter deixado que acontecesse. – Me desculpa por te deixar agora, para conviver com isso. Eu não queria... Não queria ter que ir sem que você soubesse o quanto eu te amei e como isso ainda é tão forte, mesmo hoje. – ele riu, sem humor, e deixou que algumas lágrimas caíssem de seus olhos. – Eu... eu nem tenho certeza se sabia que isso estava aqui ainda, mas estava e eu sei que você também sente, sei o quanto vai se culpar por isso quando eu partir. , por favor... – pediu, mas sua voz falhou no caminho, fazendo com que ele abaixasse a cabeça por alguns instantes enquanto as lágrimas caiam. – Não se culpe por isso, por favor. Você não pode... – suplicou, ciente de que era em vão. Ela não podia ouví-lo, estava fadada a culpa sem que ele pudesse fazer nada.
- Não, fica comigo, . – ela pediu baixinho, alheia a sua fala enquanto inclinava-se para tocar no vidro. Quando fez menção de se virar para ver o que ela via, no entanto, ele sentiu.
Era torturante, agonizante e curvar-se não foi o suficiente. A dor era física agora e ele gritou, segurando o peito enquanto caia de joelhos. As máquinas apitavam do lado de dentro da sala, mas de repente, o som parecia vir de dentro de seu cérebro, próximo demais para que ele conseguisse ignorar como fazia antes. O som fazia sua cabeça latejar, era alto demais e ele fechou os olhos enquanto sentia sua cabeça e seu peito explodirem na pior dor que já havia sentido.
não conseguia mais pensar. Mesmo parecia uma realidade distante demais para que ele pudesse se agarrar e quanto tudo aquilo foi demais para que ele pudesse suportar, sua consciência se perdeu e ele finalmente apagou, deixando-se desabar de uma vez enquanto via chorar uma última vez.
Ou pelo menos foi o que pensou ao finalmente fechar os olhos.


- Fizemos tudo que poderíamos ter feito. – disseram os médicos, que entenderam o porquê dela não ter entrado na sala de cirurgia assim que viram seus olhos vermelhos. – Acordar ou não, agora depende só dele.
sentiu o coração se afundar com as palavras, mas como uma piada de mau gosto, elas insistiam em se repetir em sua mente, minuto após minuto enquanto permanecia ao lado de sua cama. Ela já havia feito um plantão muito maior do que o recomendado e deveria estar em casa, aproveitando as poucas horas que tinha para descansar, mas sabia que não pregaria o olho se saísse do seu lado.
Mesmo naquela época, não tinha ninguém, apenas a tia que se fora em algum momento no passado. Ela ainda se lembrava de ter desejado ligar para saber como ele estava, mas não o fez. Agora, vendo o corpo inverte do rapaz na cama a sua frente, só conseguia pensar que deveria tê-lo.
Segurou a mão dele, implorando mentalmente que acordasse. Não poderia simplesmente ficar ao seu lado todos os dias, esperando que acordasse e doía saber que eventualmente, o teria que fazer se insistisse em se manter daquela forma. Pior, sentia um certo pânico em pensar no que seria dele, sem ninguém para impedir que os médicos desligassem os aparelhos e simplesmente desocupassem o leito.
Ele tentava, há horas, evitar mais lágrimas, mas elas surgiram novamente em seus olhos, fazendo-os lacrimejar.
- , por favor... – implorou mais uma vez. Ele não podia ouvir, sabia disso, mas não importava. Esperança era a única coisa que ela tinha no momento e se apegou a isso com todas as suas forças, desejando que suas palavras tivessem algum efeito. – Você precisa acordar. – insistiu, deixando algumas lágrimas caírem.
Mas ela no fundo sabia quão raro era um paciente acordar naquelas circunstancias. Via aquilo dia a dia. Poucas chances havia quando acordar ou não dependia do paciente. Ela só rezou, em silêncio, que ele tivesse o suficiente para ser aquela exceção. Não podia acreditar que o reencontraria apenas para vê-lo morrer.
abaixou a cabeça ao seu lado na cama, fechando os olhos por um instante sem se atrever a soltar sua mão. Ela sentia aquela angustia no peito, aquela aflição desesperadora com a qual não sabia lidar, mas um fraco movimento ao seu lado fez com que abrisse imediatamente os olhos, se perguntando se havia imaginado, se não havia caído no sono, sonhado.
Com medo de ter sido, de fato, um sonho, permaneceu imóvel onde estava, a cabeça apoiada na cama, mas então ela sentiu, um fraco apertar em sua mão.
Com o coração martelando descompensadamente em seu peito, ela ergueu finalmente a cabeça, temendo que a esperança se desfizesse ao ver que fora apenas imaginação, culpa do desejo tão profundo de que ele acordasse de fato. Mas quando buscou em seu rosto algum sinal, o que encontrou foram seus olhos, abertos mesmo que de forma mínima.
O alívio que lhe atingiu foi maior do que ela podia expressar e dessa vez nem mesmo se importou com as lágrimas, ou que ele as visse cair. Não se importou com a possibilidade de que ele, diferente dela, tivesse superado o que haviam tido um dia, não se importou com absolutamente nada, não depois de acreditar que nunca mais veria seus olhos novamente.
- ... – falou, em meio a um sussurro enquanto ele a encava atentamente, sem dizer nada. Era difícil lê-lo estando entorpecido com tantos remédios diferentes, mas sorriu quando os lábios dele o fizeram, com certa dificuldade.
- Eu acho... – ele começou, sua voz soando muito mais rouca do que ela se lembrava. – Eu acho que sonhei com você. – falou e ela apenas riu aliviada, o fazendo sorrir mais da forma como podia, os olhos prestes a se fechar novamente. Não que ela ligasse para aquilo também.
Ele estava de volta afinal e talvez nem tudo estivesse perdido. Talvez ainda tivessem uma chance e, talvez, não tenha sido apenas crueldade do destino, apenas um susto, sua forma um tanto quanto drástica de fazê-los lhe ouvir, perceber que o tempo estava passando, a vida, e que estavam desperdiçando tudo que podiam ter. Um amor que poucos teriam a chance de conhecer.
não podia dizer quanto a ainda, mas sabia. Não deixaria aquela chance passar, nunca mais. Não depois do que haviam sido as últimas horas com aquele medo absurdo de perdê-lo.
Graças a ele havia acabado de lembrar como era ter seu coração batendo e não pretendia se deixar esquecer outra vez.



Fim.




Nota da autora: Ninguém esperava um final "feliz" para essa música, eu sei. Já me disseram isso, mas eu sou sempre do contra, faço finais tristes em finais felizes e agora um feliz no triste, me julguem. Essa sou eu haushuashuhsu
Enfim, espero sinceramente que tenham gostado desse ficstape tanto quanto eu. Acho que é meu favorito até agora, então me digam o que acharam, pls! Quero saber!
Um beijão a todas e se tiverem interesse, estou deixando abaixo links de outras histórias que escrevi.





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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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