Finalizada em: Março de 2025

Capítulo 1


O campus da Universidade Estadual se erguia como um monumento à vida perfeita que null ansiava. As colunas de mármore do prédio principal refletiam o sol da tarde, lançando um brilho dourado sobre os grupos de alunos que riam e conversavam despreocupadamente.
A faculdade não era como null imaginava. Nos filmes, sempre havia aquela garota que entrava no campus e, como se fosse mágica, encontrava seu grupo, se destacava e, em poucos meses, se tornava a luz do lugar. Mas a realidade era muito diferente. null estava no segundo ano e não havia conquistado nenhuma experiência única ou memórias especiais. Ela ainda era a garota que tentava encontrar seu espaço, mas sem sucesso. O brilho dos grupos populares, os convites para festas exclusivas, as conexões naturais que pareciam se formar entre os outros alunos – tudo parecia distante.
Os murais, vibrantes com anúncios de festas e eventos exclusivos, pareciam zombar de sua existência discreta. O aroma doce e forte do café pairava no ar, misturando-se ao perfume caro dos alunos que passavam por ela. O som das risadas, como sinos alegres, ecoava pelos corredores, uma melodia que null não conseguia acompanhar. Ela se perguntava se havia algo de errado com ela. Talvez seu sorriso não fosse radiante o bastante, sua risada não fosse contagiante o suficiente, sua presença não fosse marcante o suficiente. Ela se sentia como uma nota desafinada em uma sinfonia perfeita, um borrão em uma pintura vibrante.
O desejo de popularidade não era apenas vaidade. Era a necessidade de provar para si mesma que ela era capaz de ser amada, admirada, desejada. Era a busca por um sentimento de pertencimento, a certeza de que ela era importante para alguém, para alguma coisa, qualquer coisa. Às vezes, sentia-se um personagem secundário na própria história, apenas observando enquanto os outros tinham as experiências inesquecíveis que ela tanto desejava.
Enquanto caminhava pelo campus, null avistou um grupo de alunos populares reunidos perto da fonte. A risada alta e descontraída deles ecoava pelo ar, e por um momento, ela se sentiu como se estivesse olhando para um mundo paralelo, um mundo onde ela nunca seria bem-vinda. Ela apertou os livros contra o peito, sentindo um nó se formar em sua garganta.
null foi educada em casa durante toda sua infância e adolescência, sem a experiência de um ambiente escolar tradicional. Ela nunca precisou lidar com a dinâmica de grupos sociais, nem com as interações diárias de um colégio comum. Sem festas de formatura, intervalos barulhentos ou almoços compartilhados na cantina, sua visão do mundo adolescente veio dos filmes e séries que assistia. Quando finalmente ingressou na faculdade, a realidade a atingiu como um choque: tudo parecia um grande jogo social cujas regras ela não entendia. Apesar de se considerar inteligente e até bonita, ela se sentia perdida, tentando desesperadamente compensar anos de isolamento social.
Ela não era invisível, mas também não era popular. Em um ano, havia tentado de tudo: mudar o jeito de se vestir, participar de eventos sociais, até criar uma persona online com stories misteriosos e legendas enigmáticas no Instagram. Tentou rir um pouco mais alto nas rodas de conversa, forçar sorrisos no momento certo, usar roupas que achava que atrairiam atenção. Mas tudo parecia artificial, um teatro que ninguém queria assistir. No fim do dia, ela continuava sendo só null—e aparentemente, isso não era o suficiente.
Seus melhores amigos, Nick, Dhalia e Leisha, eram sua zona de conforto. Eram normais. Não eram nerds, mas também não eram descolados. Passavam o tempo em cafeterias, riam de piadas internas e faziam maratonas de séries esquecidas dos anos 2000. Para eles, isso era o bastante. Para null? Nem tanto. Ela queria mais, queria ser reconhecida pelos corredores, ser chamada para festas sem precisar implorar, sentir que pertencia a algo maior. Mas por mais que tentasse, nunca parecia conseguir atravessar a linha invisível que separava os comuns dos populares.
Sempre ouvira que faculdade era a melhor fase da vida, mas até agora, tudo que tinha eram ataques de ansiedade tentando entender o que estava fazendo de errado.
null havia crescido com a ideia de que, na faculdade, tudo mudaria – que esse seria o momento em que se transformaria na versão mais confiante e incrível de si mesma. Mas, ao contrário do que esperava, ela continuava presa no mesmo padrão de sempre, dividida entre o desejo de pertencer e o medo de forçar algo que não era natural. Ainda não tinha certeza de quem era ou de quem queria ser, mas sabia que não queria mais se sentir deixada de lado.
Ao chegar em seu quarto, null se jogou na cama, sentindo as lágrimas quentes escorrerem pelo rosto. Ela se sentia insignificante, como se sua existência não fizesse diferença alguma. Queria encontrar seu lugar no mundo, ser reconhecida, ser amada. Mas como? Como ela poderia se tornar alguém que importava?

Capítulo 2


E então havia null Hurley.
null Hurley nunca tentou ser popular, e talvez esse fosse o grande segredo do seu sucesso. Ele não era o capitão do time de futebol, não postava fotos exibindo um estilo de vida badalado e, definitivamente, não se preocupava em impressionar ninguém. Mas, de alguma forma, tudo parecia girar ao redor dele.
null era aquele tipo de cara que parecia ter nascido com um gene especial que o impedia de se preocupar com a opinião dos outros. Ele era sociável, mas sem esforço. Simpático, mas sem exageros. Tinha um jeito preguiçoso e despretensioso de lidar com as coisas, como se nada no mundo pudesse realmente abalar sua paz.
E isso o tornava irresistível.
Enquanto null se preocupava com cada detalhe da forma como era vista pelos outros, null apenas ria e balançava a cabeça. Para ele, nada daquilo importava de verdade. Ele ia às festas porque era divertido, conversava com todo mundo porque gostava de conhecer pessoas, mas nunca fez nada pensando muito sobre. E talvez esse fosse o segredo de sua popularidade: ele não precisava dela.
Eles eram vizinhos desde a infância, o que significava que, mesmo que null não estivesse no topo da cadeia social, ainda assim tinha um passe livre para conversar com ele sem parecer uma completa estranha. Ele era o único popular com quem ela tinha uma conexão genuína, mas, infelizmente, popularidade não era contagiosa. null podia ir a todas as festas e ser o centro das atenções, mas isso não significava que bastava ficar perto dele para que a magia acontecesse.
— Como você faz isso? — null perguntou de repente, enquanto estavam sentados nos degraus da casa dela. Ele olhou para ela sem entender.
— Isso o quê?
— Ser popular sem esforço. Todo mundo gosta de você e você nem tenta. Eu, por outro lado, me esforço e nada acontece.
null riu, balançando a cabeça.
— Você se esforça demais. "Ser popular" não é tão legal quanto parece.
— Fácil falar quando se tem carisma natural. — Ela bufou, cruzando os braços. — Você poderia me ensinar?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ensinar a ser popular?
— Sim! Você sabe como funciona, então talvez possa me ajudar. Eu queria chamar a atenção, sabe? De uma maneira boa, ser incluída sem que fosse cansativo.
null ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse a ideia, então sorriu de lado.
— Tudo bem. Tem uma festa domingo. Vem comigo.
null arregalou os olhos.
— Uma festa? Você quer dizer, uma daquelas festas com gente bebendo em copos vermelhos, casais se pegando nos sofás e DJs tocando músicas aleatórias?
— Exatamente. — Ele sorriu, divertido. — Você quer ser popular? Então precisa entrar no jogo.
Ela hesitou. Estava prestes a entrar em um território completamente novo, onde cada passo errado poderia significar uma nova humilhação. Mas, ao mesmo tempo, era sua chance de finalmente entender o que estava fazendo de errado.
— Tá bom. — Ela respirou fundo. — Eu vou.
— Sério? — ele perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Tem certeza? Porque da última vez que eu te convidei para uma festa, você passou a noite inteira fingindo que estava mandando mensagens super importantes no celular, derramou bebida na camisa do capitão do time e, para coroar, fingiu uma ligação de emergência tão dramática que até eu quase acreditei.
— Aquilo foi um acidente! — null protestou, cruzando os braços. — Eu realmente estava conversando com a Keisha e eu só fingi a ligação porque a garota que organizou a festa me olhava como se eu fosse uma aberração. Você quer que eu tente de novo? Então me ensina a não parecer uma alienígena em um ambiente social.
null deu um tapinha em seu ombro, rindo.
— Vai ser divertido.
null não tinha tanta certeza disso.

Capítulo 3


Flashback on
null tinha 15 anos quando se mudou para aquele bairro. Tudo parecia novo demais, grande demais. As ruas estreitas ladeadas por árvores formavam um labirinto desconhecido, e cada rosto estranho reforçava a sensação de isolamento. Sentia-se como uma peça perdida de um quebra-cabeça.
Numa tarde quente, sentada na calçada em frente à nova casa, null rabiscava em seu caderno sem muita direção. O sol pintava o céu com tons alaranjados, e o murmúrio distante da cidade era como um zumbido constante em seus ouvidos. Ela suspirou, imersa em seus pensamentos.
— Ei — uma voz masculina a tirou de seu devaneio.
Ela levantou o olhar e viu null parado ali, as mãos nos bolsos do jeans surrado, os cabelos desalinhados caindo sobre a testa. Ele tinha um sorriso fácil, despretensioso.
— Você é a nova vizinha, né? — ele perguntou, inclinando ligeiramente a cabeça.
— Sou — ela respondeu, tentando não parecer surpresa. — null.
null — ele estendeu a mão, e ela a apertou hesitantemente. — O que você está fazendo?
Ela deu de ombros, olhando para o caderno aberto em seu colo. — Nada demais. Só desenhando.
Ele observou as páginas por um instante. — Você desenha bem.
Ela corou levemente. — Obrigada.
Após um breve silêncio, null apontou com a cabeça para a rua. — Sabe, eu costumo dar umas voltas por aí. Se quiser conhecer o bairro, posso te mostrar os lugares legais.
null hesitou. Ninguém havia se oferecido para incluí-la em nada desde que chegara ali. Havia algo no jeito relaxado dele que a deixava menos apreensiva.
— Claro, por que não? — ela disse, fechando o caderno e se levantando.
Enquanto caminhavam lado a lado, null apontava pequenos detalhes que ela não teria notado sozinha: a padaria com o melhor pão de queijo da cidade, o parque onde os artistas de rua se apresentavam aos domingos, a livraria escondida entre dois prédios antigos.
— Aquela sorveteria ali tem os sabores mais estranhos que você pode imaginar — ele disse com um brilho nos olhos. — Já experimentou sorvete de manjericão?
Ela riu, descrente. — Isso existe?
— Você ficaria surpresa. — Ele piscou.
Conforme a tarde avançava, null percebeu que estava rindo mais do que nos últimos meses. null contava histórias malucas, gesticulando exageradamente, arrancando dela gargalhadas genuínas.
— Você é tão bobo! — ela exclamou após uma de suas anedotas sem sentido.
— Ei, bobo não. Prefiro o termo 'extremamente encantador' — ele retrucou, fingindo ofensa.
Ela revirou os olhos, mas o sorriso permaneceu em seu rosto.
Em um momento de silêncio confortável, eles se sentaram em um banco de madeira no parque. O céu começava a se tingir de rosa e lilás, e uma brisa suave balançava as folhas das árvores.
— Mudar pode ser assustador — ele comentou, olhando para o horizonte.
Ela assentiu, surpresa pela percepção dele. — É como se eu não me encaixasse em lugar nenhum.
null virou-se para ela, os olhos cheios de sinceridade. — Talvez porque você esteja tentando demais. Às vezes, a gente só precisa deixar as coisas acontecerem.
Ela refletiu sobre isso, sentindo um peso se aliviar. — Você sempre filosofa com estranhos?
— Só com aqueles que parecem precisar ouvir alguma coisa — ele sorriu de lado.
Dias se transformaram em semanas, e os passeios se tornaram frequentes. Havia uma naturalidade entre eles que null não encontrara em mais ninguém. null a fazia sentir-se vista, ouvida, sem que ela precisasse se esforçar para ser alguém diferente.
Certa tarde, enquanto caminhavam sem rumo definido, null parou abruptamente em frente a uma cerca coberta de flores trepadeiras.
— Você já pensou sobre almas gêmeas? — ele perguntou, fixando o olhar em uma flor.
null arqueou as sobrancelhas. — De um jeito romântico?
— Não necessariamente. Digo, pessoas que entram na nossa vida e ficam, independente de qualquer coisa.
Ela cruzou os braços, contemplando a pergunta. — Acho que nunca pensei nisso. Mas talvez faça sentido. Algumas conexões parecem... diferentes.
Ele sorriu suavemente. — Também sinto isso.
Ela o observou, tentando decifrar o que se passava em sua mente. — E o que nós seríamos então?
null encontrou o olhar dela, uma intensidade inesperada em seus olhos. — Talvez duas pessoas destinadas a cruzar o caminho uma da outra.
O coração de null bateu um pouco mais rápido. Havia algo naquele momento, uma eletricidade silenciosa que ela não sabia nomear.
— Gosto dessa ideia — ela disse, a voz quase um sussurro.
Sem pressa, continuaram a caminhada, o silêncio preenchido por uma nova compreensão. Sem perceber, null ansiava por esses momentos compartilhados, encontrando em null um refúgio naquela nova realidade que antes parecia tão intimidante.
Flashback off

Capítulo 4


Seu corpo inteiro estava tenso, e a sensação de que todos iriam observá-la, julgá-la, rir de cada movimento errado, começava a dominá-la. Cada vez que pensava na possibilidade de tropeçar nas palavras ou errar um gesto, sua mente se enchia de cenários de humilhação iminente. Sua fobia social não era apenas um medo irracional; era um véu sufocante que a impedia de agir naturalmente, de se sentir parte do mundo ao seu redor.
O relógio marcava 21h47 quando null terminou de se olhar no espelho pela décima vez.
— Eu pareço desesperada? — perguntou, franzindo a testa para seu próprio reflexo.
— Você parece incrível. — Keisha, sua melhor amiga e única pessoa que não a fazia se sentir invisível na faculdade, deu um sorrisinho. — Mas, sim, um pouco desesperada.
null gemeu, jogando-se na cama.
— Eu sabia! Isso é um erro. Talvez eu só devesse dizer pro null que fiquei doente.
Keisha revirou os olhos.
— Ou… você pode ir, se divertir e provar para si mesma que consegue.
Fácil falar. Keisha sempre teve aquela confiança natural que fazia parecer que ela pertencia a qualquer lugar. Já null… bem, null era a rainha dos planos de fuga.
Mas desta vez seria diferente. Ela se forçou a levantar, pegou o telefone e digitou para null: "Estou pronta."
A casa da festa era exatamente como nos filmes: música alta, gente espalhada pela piscina, um grupo jogando beer pong na mesa de sinuca e, claro, a onipresença dos famosos copos vermelhos.
— Respira, novata. — null apareceu ao lado dela, segurando uma cerveja. — Você está encarando todo mundo como se tivesse entrado em um zoológico.
— É que… eu não sei o que fazer.
— Primeiro, para de parecer que foi sequestrada e trazida para cá contra a vontade. Segundo, aceita isso. — Ele lhe entregou um copo.
null hesitou, mas pegou. Não queria parecer infantil.
— Agora, vem comigo. — null a puxou pela mão.
Eles passaram pela multidão, cumprimentando pessoas que pareciam conhecê-lo há anos. null sentia-se uma turista sendo guiada por um nativo em território desconhecido.
null, certo? — Uma voz feminina a chamou.
Ela se virou e deu de cara com Bianca Morelli, a garota que praticamente comandava as festas mais disputadas do campus. Bianca usava um vestido justo e tinha um sorriso afiado, do tipo que parecia sempre estar avaliando as pessoas ao seu redor.
— Isso mesmo. — null tentou soar casual.
— Não te vejo muito por aqui. — Bianca inclinou a cabeça. — Você e o null são…?
— Amigos. — null respondeu rápido demais.
— Hmm. — Bianca soltou um risinho. — Bem, aproveita a festa.
Ela saiu andando antes que null pudesse dizer mais alguma coisa.
— Ok. Isso foi intimidante. — null murmurou.
null riu.
— Relaxa. Você sobreviveu ao primeiro contato com a rainha do baile.
Talvez tivesse sobrevivido, mas ainda sentia que estava apenas no começo de um teste complicado.
Uma hora depois, null começava a se soltar. A tensão inicial se dissipava enquanto ela se encontrava imersa em uma conversa animada sobre as últimas séries da Netflix, rindo genuinamente das piadas e tomando pequenos goles de sua bebida para manter a compostura. A música pulsava ao fundo, criando uma atmosfera vibrante que finalmente começava a contagiá-la.
Mas então, como um roteiro mal escrito de um filme adolescente, o desastre aconteceu.
Ao se virar para pegar um petisco na mesa, null trombou em alguém. Alguém alto, com ombros largos e um perfume que misturava especiarias e algo sutilmente doce. Alguém segurando um copo cheio de uma bebida âmbar. Alguém chamado Gabriel Denver.
O capitão do time de basquete. O garoto cujo sorriso era capaz de derreter a mais gélida das líderes de torcida. E agora, Gabriel Denver estava parado ali, sua camisa branca de algodão egípcio, que parecia ter saído diretamente de uma passarela de moda, agora manchada de cerveja, o rosto emoldurado por uma expressão que oscilava entre surpresa e uma pitada de irritação.
O silêncio ao redor foi imediato, como se alguém tivesse apertado o botão de "mudo" em um controle remoto gigante. Todos os olhares se voltaram para o centro do palco improvisado, onde null e Gabriel se encontravam.
— Ah, meu Deus, me desculpa! — null disparou, a voz embargada, pegando um guardanapo da mesa próxima e tentando freneticamente limpar a mancha na camisa de Gabriel.
Gabriel suspirou, um som que parecia mais resignado do que irritado, e pegou o pano da mão dela.
— Tá tudo bem. Só foi um acidente. — A voz dele era surpreendentemente suave, com um leve tom rouco que fez null sentir um arrepio na espinha.
Mas, é claro, o público da festa não ia deixar passar a oportunidade de um bom drama.
— Se jogar bebida no capitão fosse estratégia para conseguir atenção, eu teria tentado antes. — Bianca debochou, a voz carregada de sarcasmo.
— Cuidado, Gabriel, esse é um ataque calculado. Ela deve estar querendo uma cesta de três pontos no seu coração. — Outro riu, a voz ecoando pelo salão.
Os risos começaram a se espalhar como fogo em palha seca. null sentiu o rosto pegar fogo, a vergonha queimando suas bochechas. Ela queria cavar um buraco no chão e desaparecer.
E foi aí que null entrou na frente dela, erguendo uma mão em um gesto de "chega".
— Muito engraçado. Agora podem voltar às suas vidas insignificantes. — A voz de null era fria e cortante, como uma lâmina afiada.
A multidão dispersou, murmurando e rindo baixinho, mas null já tinha certeza: a noite estava arruinada, sua reputação social reduzida a cinzas.
— Ei, não foi nada. — null tentou tranquilizá-la, um sorriso gentil suavizando suas feições.
— Foi humilhante. — null murmurou, a voz embargada.
Ele deu um sorriso de lado, um brilho travesso nos olhos.
— Se serve de consolo, eu já passei por pior.
Ela o encarou, incrédula.
— Duvido.
Ele deu um gole na cerveja, o olhar fixo no dela.
— Me lembra de te contar depois sobre a vez em que fui parar em um vídeo viral.
E, por algum motivo, null riu. A tensão se dissipou, substituída por uma onda de alívio e uma pontada de curiosidade.
Talvez popularidade não fosse sobre nunca errar, mas sobre saber rir dos próprios erros, sobre ter amigos que te defendem quando você tropeça, sobre encontrar beleza nas imperfeições.
Enquanto a festa continuava ao redor deles, null se perguntou se talvez, apenas talvez, ela estivesse começando a entender o jogo da popularidade.
Gabriel, que havia se afastado para limpar a camisa, voltou para perto de null, com um sorriso gentil.
— Me desculpe pelo pessoal, eles adoram um drama. — Ele disse, a voz sincera. — A propósito, eu não peguei seu número ainda.
null sentiu o coração acelerar.
— Meu número? — Ela perguntou, surpresa.
— Sim, para te convidar para um jogo do time. — Gabriel respondeu, o sorriso se alargando. — E quem sabe, para tomar um café qualquer dia desses.
null, que observava a interação com um olhar curioso, pigarreou baixinho.
— E eu fico de vela ou ganho um café também? — null disse, com um sorriso divertido nos lábios. null o cutucou com o cotovelo sem o olhar.
Ela havia acabado de derrubar bebida no capitão do time de basquete, o garoto mais popular da escola, e agora ele estava pedindo seu número?
Sua mente entrou em colapso momentâneo: aquilo era um teste? Uma pegadinha? Ou, por algum milagre, ele realmente queria continuar aquela conversa? Tentando manter a compostura, ela piscou algumas vezes antes de balbuciar uma resposta. Talvez a noite não estivesse arruinada afinal. Talvez, ela estivesse apenas começando.

Capítulo 5


A ressaca emocional do dia seguinte foi pior do que qualquer efeito do álcool. null acordou com a sensação de que todo o campus estava falando sobre o desastre da noite anterior. A cena de Gabriel Denver olhando para ela, a camisa manchada e o coro de risadinhas maldosas, estava gravada em sua mente como um pesadelo recorrente.
Ela rolou na cama e pegou o celular. Nenhuma mensagem nova, a não ser do grupo de amigos.
Keisha: "Quer que eu queime a casa da Bianca?"
Dhalia: "Você sobreviveu. Isso é o que importa."
Nick: "Podia ter sido pior. Podia ter sido sopa em vez de cerveja."
Ela sorriu de leve, mas logo suspirou. A mensagem que ela queria ver — de null — não estava ali. Depois de tudo, ele tinha se esforçado para ajudar, mas agora havia sumido.
Tomando coragem, decidiu sair do quarto. Ela precisava enfrentar o campus de qualquer jeito, então melhor resolver isso logo. Vestiu um moletom folgado, na esperança de se camuflar na multidão, e seguiu para a cafeteria da faculdade, um santuário onde ela poderia se esconder atrás de um cappuccino fumegante.
No caminho, ouviu sussurros.
— É ela?
— Sim, a garota do incidente da cerveja.
— Tadinha.
null sentiu as bochechas queimarem e apertou o passo. Já na fila do café, pegou o celular para fingir que não estava prestando atenção ao que acontecia ao redor. Mas então, ouviu uma voz familiar.
— E aí, desastrada. Sobreviveu?
Ela se virou e encontrou null, apoiado casualmente no balcão, segurando um café. O sorriso convencido dele estava ali, como sempre.
— Mal. Mas sim.
— Bom sinal. Se você ainda consegue sentir vergonha, significa que se importa. Mas já te disse, você se importa demais. — null disse, com um tom de voz que misturava sarcasmo e uma pitada de compreensão.
null bufou, pegando seu pedido — um café com leite e um muffin de mirtilo — da bancada da cafeteria.
— O que eu deveria fazer? Andar pelo campus fingindo que nada aconteceu? Como se não fosse oficialmente a piada da semana? — Ela perguntou, a voz carregada de frustração.
null deu de ombros, como se a opinião alheia não lhe causasse o menor incômodo.
— Funciona para mim. — Ele disse, com um sorriso de canto.
null revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso. O jeito despreocupado dele era irritantemente contagiante, como um vírus que se espalhava sem pedir permissão.
— Bianca me mandou uma mensagem. — null anunciou, a voz casual.
null arregalou os olhos, a curiosidade e a apreensão se misturando em seu estômago.
— O quê? Por quê? — Ela perguntou, a voz um sussurro.
Ele mostrou a tela do celular, revelando a mensagem: "A novata tem atitude. Gostei. Se quiser vir na próxima festa, me avisa." null não conseguiu evitar que seus olhos desviassem para a mensagem logo acima: "Você estava irresistível ontem. Não consegui tirar os olhos de você." O tom da mensagem, a forma como Bianca se referia a null, atingiu null com uma força inesperada. Não era ciúme, ela insistiu para si mesma, mas uma estranha mistura de desconforto e...? Por que a ideia de Bianca flertando com null a incomodava tanto? Eles eram amigos, apenas amigos. Ela precisou segurar a expressão para não entregar seu desconforto, mantendo a fachada de indiferença.
— Ela gostou de mim? Depois de tudo aquilo? — null perguntou.
null riu, um som divertido que ecoou pela cafeteria.
— Eu te disse. Popularidade não é sobre perfeição. Às vezes, é sobre como você lida com os desastres. Ou você apenas ser você mesma. — Ele disse, o olhar fixo no dela, como se estivesse tentando transmitir uma mensagem importante.
null ficou em silêncio por um momento, as palavras de null ecoando em sua mente. Talvez ele tivesse razão. Talvez tudo o que ela precisasse fazer era parar de tentar tão desesperadamente e apenas... viver.

Capítulo 6


O celular de null vibrou em cima da mesa enquanto ela terminava seu café. Ela olhou para a tela e seu coração deu um leve salto. Era uma mensagem de Gabriel.
Gabriel: "Ei, null. Queria te convidar para o jogo de sexta. Seria legal te ver lá. 😊"
Ela encarou a mensagem por alguns segundos, hesitando. Era estranho imaginar-se em um jogo do time da faculdade, cercada por pessoas que nunca pareciam notar sua presença. Mas talvez fosse uma oportunidade para mudar isso. Inspirando fundo, respondeu:
null: "Oi! Tudo bem. Obrigada pelo convite. Acho que vou sim. 😊"
Na sexta-feira à noite, o ginásio estava lotado. A energia no ar era eletrizante, com estudantes vestindo as cores do time e torcendo animadamente. null se sentiu deslocada no começo, mas logo percebeu que não estava sozinha. Dhalia e Nick haviam ido com ela, e Gabriel a cumprimentou de longe com um aceno antes do aquecimento.
null estava radiante, com o cabelo preso em dois rabos de cavalo adornados com lacinhos nas cores do time. Seu shorts combinava perfeitamente com seu cropped, e ela segurava dois pompons vibrantes nas mãos. Para completar o visual, havia pintado as iniciais do time no rosto com tinta colorida, dando um toque extra de entusiasmo.
Enquanto o jogo acontecia, null acabou conversando com algumas pessoas na arquibancada. Para sua surpresa, elas pareciam receptivas, incluindo-a nas conversas e até brincando sobre o incidente da festa sem maldade. Pela primeira vez, ela se sentiu parte do ambiente, sem precisar forçar nada.
Quando o jogo terminou com uma vitória do time, Gabriel veio até onde ela estava.
— Então, o que achou? — ele perguntou, sorrindo, ainda suado do jogo.
— Foi incrível. Vocês jogam muito bem. — null respondeu, genuinamente impressionada.
— Fico feliz que tenha vindo. A gente pode sair depois para comemorar, se quiser. — Gabriel sugeriu, e ela sentiu o rosto esquentar.
Antes que pudesse responder, ouviu risadas próximas. Seu olhar foi atraído para um canto do ginásio, onde null estava encostado na parede, rindo junto com Bianca. Os dois pareciam próximos, compartilhando uma conversa cheia de cumplicidade.
Um aperto estranho tomou conta do peito de null. Não era raiva, mas algo diferente, um incômodo que ela não sabia nomear. Bianca era popular, carismática e sempre parecia saber exatamente o que dizer. E null... ele parecia à vontade ali com ela.
null? — Gabriel chamou sua atenção, e ela piscou, voltando para a conversa.
— Ah, sim. Claro. — Ela sorriu, tentando ignorar a sensação incômoda que ainda persistia.
Talvez fosse apenas coisa da sua cabeça. Ou talvez estivesse sentindo algo que não queria admitir.

----


Enquanto saíam do ginásio, Gabriel manteve-se próximo a null, animado com a vitória. Eles se juntaram a um pequeno grupo que incluía alguns jogadores e outras pessoas que ela havia conhecido durante o jogo. Surpreendentemente, a conversa fluiu com naturalidade, e null sentiu-se parte do grupo pela primeira vez.
— Então, null, você sempre foi fã de basquete ou veio só para me ver jogar? — Gabriel brincou, lançando um olhar divertido para ela.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Digamos que foi uma ótima oportunidade para aprender mais sobre o esporte.
Eles continuaram conversando enquanto caminhavam até uma lanchonete próxima, onde a comemoração aconteceria. null se surpreendeu com o quanto estava gostando da noite. Parecia que, finalmente, estava vivendo a experiência universitária que sempre imaginou.
Mas, conforme se sentava ao lado de Gabriel e ouvia as histórias engraçadas que os jogadores contavam, sua mente voltava para o que havia visto anteriormente. Ela não sabia dizer o que a incomodava mais: o jeito que Bianca tocava o braço de null ao rir ou a forma como ele parecia confortável ao lado dela.
— Tudo certo? — Gabriel perguntou, notando sua distração.
null forçou um sorriso.
— Sim, só estava pensando em como essa noite foi inesperada. No bom sentido.
Gabriel sorriu de volta, erguendo seu copo para um brinde improvisado.
— A noites inesperadas, então.
Ela brindou com ele, mas seu coração ainda estava inquieto.

Capítulo 7


null passou o fim de semana tentando ignorar a sensação estranha que sentiu ao ver null e Bianca juntos. Não havia motivo para isso, certo? null era apenas seu amigo. Sempre fora. Ainda assim, sempre que a imagem dos dois rindo e conversando voltava à sua mente, ela sentia um incômodo difícil de explicar.
Nos últimos dois anos, null sempre estivera por perto. null nunca prestara muita atenção a isso, pelo menos não conscientemente. Ele era apenas... null. O garoto com quem crescera, o vizinho que se intrometia nas suas decisões, o amigo presente quando ninguém mais estava.
Mas agora, ao observá-lo ao lado de Bianca, rindo de algo que parecia extremamente engraçado, algo dentro de null se remexeu. Uma mistura de calor e desconforto espalhou-se por seu peito, como se tivesse engolido algo que não descia bem. A sensação era inédita e a pegou desprevenida.
Sentada na cafeteria do campus, o aroma doce de canela e café recém-passado envolvia o ambiente, mas null mal notava. O leve burburinho dos estudantes parecia abafado, como se ela estivesse submersa em água. Em frente a ela, Keisha mexia distraidamente na borda do copo, observando-a com curiosidade.
— Você está estranha — Keisha comentou, quebrando o silêncio.
null desviou o olhar da janela. — Não estou estranha.
Keisha arqueou uma sobrancelha, um sorriso malicioso surgindo. — Ah, claro. Ficar encarando o nada por dez minutos é super normal.
Ela suspirou, apoiando o queixo nas mãos. — Você já olhou para alguém e, de repente, percebeu algo que sempre esteve ali, mas que nunca notou de verdade?
Keisha piscou lentamente. — Se você está falando sobre o fato de eu ter pintado o cabelo e você ainda não ter elogiado, então sim.
null revirou os olhos, soltando um riso breve. — Desculpa, seu cabelo está incrível. Mas não é sobre isso.
— Então sobre o que é?
null hesitou, mexendo na tampa do copo. — É sobre o null. Quer dizer... sobre mim. Só que eu não sei.
Keisha inclinou-se para frente, interessada. — O que tem o null?
— Comecei a pensar em todas as vezes que ele esteve por perto. E agora, quando vejo ele com a Bianca, sinto que algo está... Errado. Como se eu estivesse vendo algo que não deveria acontecer.
Keisha sorriu, divertida. — Espera aí, você está me dizendo que só agora percebeu que o null é, tipo, totalmente afim de você?
— Não! — null protestou, sentindo as bochechas queimarem. — Quer dizer, talvez? Eu não sei!
Keisha riu, balançando a cabeça. — Amiga, até as paredes dessa cafeteria sabem disso. Você realmente estava em outro planeta.
As lembranças vieram em ondas, inundando sua mente.
Flashback
Antes das suas primeiras festas universitárias, numa noite que deveria ter sido emocionante, null estava diante do espelho, ajustando o vestido vermelho que abraçava suas curvas de um jeito que a fazia se sentir diferente—mais confiante, talvez. O glitter salpicado em seu rosto refletia sob a luz do quarto, e seus cabelos ondulados caíam sobre os ombros de forma elegante. A maquiagem destacava seus olhos, dando-lhe um brilho que ela raramente ousava exibir. Pela primeira vez, sentia-se verdadeiramente pronta para enfrentar uma grande festa universitária.
null a havia convidado, insistindo que seria divertido e que ela merecia se soltar um pouco. Determinada a superar suas inseguranças, ela aceitara. Mas agora, minutos antes de sair, a ansiedade a consumia como uma onda crescente, prestes a engoli-la.
A campainha tocou. Ela desceu as escadas com o coração disparado.
Quando abriu a porta, null estava ali, casual como sempre, de jeans e camiseta, mas os olhos dele contavam uma história diferente. Ele a olhou de cima a baixo, prendendo a respiração por um instante. A forma como seus olhos brilharam, como se vissem algo precioso, fez um calor subir pelo peito de null.
— Uau — ele finalmente disse, um sorriso puxando os cantos de seus lábios. — Eu sabia que você ia ficar bonita, mas... você está deslumbrante.
Ela tentou sorrir, mas o peso da noite a pressionava.
— Obrigada.
Mas, ao encarar a porta aberta atrás dele, a realidade a atingiu com força. O peso da expectativa, a ideia de entrar em um lugar lotado, cercada por desconhecidos, sentindo-se deslocada... Era avassalador.
— Eu... eu não consigo ir — ela disse abruptamente, recuando um passo.
null franziu a testa, a expressão se suavizando em preocupação. Ele não riu, não fez piadas. Apenas a observou com um olhar atento, como se soubesse exatamente o que estava acontecendo dentro dela.
— Tudo bem. — Sua voz era baixa, firme. — Me conta o que está passando na sua cabeça.
Ela balançou a cabeça, os olhos ardendo. — É estúpido. Eu passei horas me arrumando, e agora... Agora parece que tudo foi um desperdício. Eu não sei lidar com festas, null. Eu vou ficar lá parada, sem saber o que dizer, enquanto todo mundo se diverte. — Sua voz falhou. — Eu só queria conseguir ser como todo mundo.
Ele suspirou, inclinando-se levemente para mais perto. — Você já pensou que talvez todo mundo quisesse ser como você?
Ela soltou uma risada curta e incrédula. — Agora você está inventando coisas.
— Não estou. — Ele sorriu suavemente, os olhos fixos nela com uma intensidade incomum. — Você tem essa coisa... essa maneira de existir que é só sua. Não tenta ser como os outros, e é exatamente isso que te faz especial. E honestamente? Acho que o mundo precisa de mais pessoas como você.
Ela desviou o olhar, tentando conter a emoção. null então estendeu a mão para ela, como se estivesse prestes a levá-la para algum lugar especial.
— Esse vestido é incrível demais para ser desperdiçado na porta de casa. Que tal fazermos outra coisa?
Ela franziu o cenho. — Outra coisa? Assim, vestida desse jeito?
Ele abriu um sorriso largo. — Exatamente assim. Confie em mim.
Antes que pudesse protestar, ele a conduziu para fora. Em vez de irem à festa, pararam na lanchonete 24 horas da esquina—um daqueles lugares simples, iluminados por letreiros neon, quase vazios àquela hora da noite.
Sentaram-se em uma mesa próxima à janela. null notou os olhares curiosos lançados em sua direção—uma garota em um vestido glamouroso, ao lado de um rapaz de jeans e camiseta, como se fossem de mundos opostos.
— Um hambúrguer especial para a dama — null anunciou, fazendo uma pequena reverência ao entregar o cardápio.
Ela riu, a tensão se dissipando aos poucos. — Você é bobo.
— E você está radiante. — Ele a encarou por um instante, sem desviar. — Sério, deveria se vestir assim mais vezes. — Sua voz carregava algo a mais. Algo que ela não soube identificar na época.
Conforme a noite avançava, eles conversaram sobre tudo e nada. null contou histórias engraçadas, arrancando gargalhadas genuínas dela. O medo e a autocrítica deram lugar a uma sensação calorosa de pertencimento. Pela primeira vez naquela noite, null não queria estar em outro lugar.
Quando terminou o milkshake, percebeu que null ainda a olhava. Dessa vez, seu olhar não era apenas de diversão. Havia algo ali, algo profundo e incontestável.
— Obrigada por isso — ela disse suavemente, olhando para ele através das luzes suaves da lanchonete.
— Por que está agradecendo?
Ela hesitou antes de responder, sentindo uma estranha honestidade se instalar dentro dela. — Por me entender. Por tornar tudo mais fácil.
null segurou o olhar dela por um instante. A intensidade em seus olhos fez seu estômago revirar levemente.
— Me sinto feliz em ser útil — ele respondeu, a voz mais baixa do que antes.
Na época, null interpretou aquilo como algo que um amigo diria. Mas agora, relembrando cada detalhe—o jeito que ele a olhou, a suavidade na voz, a forma como parecia estar guardando um segredo—começava a questionar se havia algo mais. Algo que ela foi cega demais para perceber.
Fim do Flashback
— Teve a vez em que eu quase surtei na véspera daquela apresentação — null murmurou, olhando fixamente para a superfície espelhada do café. — Ele apareceu do nada na minha casa com um café e ficou me escutando falar sem parar. Não disse nada. Só ficou lá, até eu me acalmar.
Keisha a observava atentamente, um brilho compreensivo nos olhos. — E como você se sente sobre isso?
null fechou os olhos por um momento, tentando organizar o turbilhão de emoções. — Confusa. Quando vejo ele com a Bianca, sinto um aperto estranho. Como se meu coração estivesse se torcendo de um jeito esquisito.
— Isso se chama ciúme, querida. Você nunca sentiu?
Ela suspirou, rendendo-se à evidência. — Tá bom, talvez seja um pouco de ciúme. Mas não faz sentido! Nunca pensei no null desse jeito.
— Até agora — Keisha completou com um sorriso sagaz.
null ficou em silêncio, deixando as palavras da amiga ecoarem em sua mente. Será que realmente era isso? Depois de tanto tempo tentando se encaixar no mundo universitário, só agora percebia que null já fazia parte dele? E que, talvez sem perceber, ele já tivesse um lugar especial em sua vida?
Ela mordeu o lábio inferior. — Talvez eu tenha preferido não enxergar. Mudar as coisas me assusta. E se eu estiver interpretando tudo errado? E se estragar nossa amizade?
Keisha alcançou sua mão sobre a mesa, apertando-a gentilmente. — Às vezes, arriscar é a única maneira de descobrir coisas boas.
null suspirou. — E o Gabriel? Onde ele entra nessa história?
Keisha inclinou a cabeça, pensativa. — Boa pergunta. Como você se sente em relação a ele?
— Eu gosto dele. Ele é bonito, divertido, interessante. Mas agora tudo está confuso. Como se meu coração estivesse dividido e eu não soubesse mais o que é real.
Keisha sorriu suavemente. — Parece que você tem algumas decisões a tomar.
O aroma de café finalmente atingiu os sentidos de null, trazendo-a de volta ao presente. Sentia-se como alguém que passou a vida inteira olhando para um mapa de cabeça para baixo, apenas para perceber que o destino que procurava sempre esteve bem diante de si.
Ela respirou fundo. — Talvez você tenha razão.
Antes que pudesse continuar refletindo, seu celular vibrou. Uma nova mensagem de Gabriel iluminava a tela.
Gabriel: "Bom dia, campeã de torcida! Vamos almoçar hoje? 😉"
Ela sorriu levemente. Talvez, em vez de se preocupar tanto com null e Bianca, fosse melhor focar no que estava acontecendo com Gabriel. Ele era legal, engraçado, bonito e claramente interessado nela. Então por que sua mente ainda voltava para null?
— Quem é? — Keisha perguntou, espiando curiosa.
— Gabriel — null respondeu, mordendo o lábio. — Ele quer que eu vá no jogo dele sexta.
— E você vai?
Ela hesitou por um segundo antes de assentir. — Sim. Vou.

------


O ginásio fervia com a energia do jogo, um caldeirão de gritos e torcidas. Gabriel corria pela quadra, ágil e confiante, cada cesta um grito de vitória, cada lance uma demonstração de sua habilidade. A multidão explodia em aplausos, e null se pegava tentando acompanhar o ritmo, tentando sentir a emoção que todos ao seu redor pareciam sentir. Mas algo estava errado, uma nota dissonante em meio à sinfonia de entusiasmo.
Gabriel olhou para a arquibancada e sorriu para ela, um sorriso que tantas garotas desejavam, um sorriso que deveria fazê-la sentir-se especial. Mas tudo o que null sentiu foi… nada. Absolutamente nada. Um vazio que se estendia como um abismo, separando-a da emoção do momento.
O tempo pareceu congelar, o barulho das arquibancadas se tornando um murmúrio distante. Seu coração, que deveria acelerar, manteve o mesmo ritmo tranquilo, como se soubesse de algo que ela ainda não compreendia. E, naquele momento, a verdade a atingiu como um raio: ela estava no lugar errado, com a pessoa errada.
Sem hesitar, null se levantou, a mochila escorregando por seu ombro, e correu pelas escadas da arquibancada. Alguém gritou algo sobre ela estar indo na direção errada, mas ela não se importou. Seus pés se moviam sozinhos, guiados por um instinto que a levava a um destino inevitável.
null.
O estacionamento estava silencioso, a brisa noturna sussurrando entre os carros estacionados. O vento bagunçava seus cabelos, mas ela mal percebia, seus olhos varrendo o local até encontrá-lo, encostado no capô do carro, digitando algo no celular.
Ele levantou o olhar, as sobrancelhas franzidas em surpresa ao vê-la, como se não acreditasse que ela ainda estivesse ali. null, por sua vez, não acreditava que ele não tivesse ido embora. Sem pensar, correu até ele, jogando os braços ao redor de seu pescoço, apertando-o com força, como se temesse que ele desaparecesse.
— Você ainda tá aqui… — ela murmurou, sem fôlego, a voz embargada pela emoção. — Um minuto antes e eu teria te perdido.
null deu uma risada baixa contra o cabelo dela, um som que misturava alívio e diversão. — Bom saber que sou tão insubstituível assim.
Ela se afastou, revirando os olhos, mas um sorriso tremia em seus lábios. — Para de ser convencido.
— Você que veio correndo como se tivesse percebido o sentido da vida. — Ele cruzou os braços, aquele meio sorriso provocador surgindo em seus lábios. — E aí, o que foi? Cansou do time vencedor?
null respirou fundo, tentando organizar os pensamentos que se atropelavam em sua mente. — Eu tava lá, assistindo o Gabriel. Ele sorriu pra mim e… — Ela fez uma pausa, tentando encontrar as palavras certas para descrever o vazio que sentiu. — E eu não senti nada. Absolutamente nada. Como se eu tivesse lido um livro inteiro de cabeça pra baixo e só agora tivesse entendido a história.
null arqueou a sobrancelha, um brilho curioso em seus olhos. — E eu sou o quê? O enredo certo?
Ela riu nervosa, um som que ecoou no silêncio do estacionamento. — Você sempre foi, mas eu tava ocupada demais tentando ser a protagonista errada.
O sorriso dele vacilou por um segundo, seus olhos dançando pelo rosto dela, procurando algo. E então ele riu, balançando a cabeça, como se estivesse aliviado por ter encontrado a resposta.
— Sabe, eu nunca me importei pelo fato de você ser um desastre social. Na verdade, cada vez que eu via você tentando superar sua ansiedade, eu ficava orgulhoso. Só não esperava que isso fosse chamar a atenção do Gabriel também. — Ele soltou um suspiro exagerado, como se estivesse se rendendo. — Difícil competir quando o cara tem torcida organizada.
— Bobão. — null bateu de leve no braço dele, mas seu sorriso tremia, a emoção transbordando em seus olhos. — E é por isso que eu te amo, null. Porque enquanto todo mundo via minhas falhas, você sempre viu minhas tentativas.
null arregalou os olhos, a surpresa estampada em seu rosto. O silêncio pairou entre os dois, denso e carregado de emoção. O coração de null deu um salto, como se estivesse tentando escapar de seu peito.
Ele deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles, a voz rouca e hesitante. — Você me ama?
— Sim. — Ela engoliu em seco, a garganta seca pela tensão. — E se você fizer piada com isso, eu juro que vou embora e nunca mais…
null segurou seu rosto entre as mãos, interrompendo qualquer pensamento, seus olhos intensos e brincalhões ao mesmo tempo, fixos nos dela.
— Eu esperei isso por tanto tempo… — Ele sussurrou, a voz carregada de emoção.
— Esperou o quê?
— Você perceber. — null se aproximou, e de repente, ele estava tão perto que ela podia sentir o calor de sua respiração. — Que eu sempre estive aqui, null. Sempre. Só esperando você olhar pra mim do jeito que eu olho pra você.
— E… como exatamente você olha pra mim?
null sentiu um calor tomar conta dela, um rubor que se espalhou por suas bochechas. Ele nunca se importou com suas inseguranças, nunca tentou mudá-la, nunca a pressionou a ser alguém que ela não era. E talvez fosse exatamente por isso que ela o amava. null sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto e aqueceu o coração de null.
— Como a pessoa certa para mim. — Ele sussurrou, antes de beijá-la.
Foi um beijo que desarmou qualquer insegurança, forte, quente, sem espaço para dúvidas. null não estava apenas correspondendo—ele estava provando um ponto, reafirmando um sentimento que sempre esteve ali. E null se entregou, rindo contra os lábios dele porque, é claro, null tornaria até mesmo um momento como aquele em uma provocação.
Quando se afastaram, ela ainda estava tonta, a cabeça girando com a intensidade do momento. Ele sorriu, um sorriso que irradiava felicidade.
— Isso foi… — Ela começou, a voz falhando, as palavras presas na garganta.
— Perfeito. — Ele murmurou, um sorriso brincando em seus lábios, como se estivesse saboreando cada segundo.
Ela riu, um som que ecoou no silêncio do estacionamento, leve e feliz.
null entrelaçou seus dedos nos dela, a mão quente e firme na sua, e puxou-a para um abraço, um abraço que a envolvia em segurança e amor. — Então, agora que finalmente chegamos ao final do clichê, o que vem depois?
null sorriu, encostando a cabeça no ombro dele, sentindo-se completa. — Os créditos finais?
null balançou a cabeça, um brilho travesso em seus olhos. — Nah. Acho que agora vem a sequência.
E com isso, ele a beijou de novo, um beijo que celebrava o início de uma nova história, enquanto o vento soprava ao redor deles e o estacionamento da universidade se transformava, por uma noite, no cenário perfeito de uma história de amor inesperada e completamente imperfeita.
Mas, ainda assim, perfeita.



Fim.



Nota da autora: Nota da autora: Oiii queridos, obrigada por lerem até aqui. Podem comentar o que acharam da história e até se quiserem talvez uma parte 2 mais elaborada. (Escrever em uma semana realmente é um desafio, tive que cortar algumas partes e ajustar outras.
Obrigada por acreditarem na minha escrita, até a próxima fic!!! Se quiserem ser mutuals no insta: @larissaastellan



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.