05. Girl Next Door

Última atualização: 11/08/2017

Capítulo Único

There's something 'bout the girl next door
Something that I can't ignore



Alguma coisa nela eu não conseguia ignorar.


Canetas batendo contra a mesa. Respirações pesadas e cansadas. Stress a flor da pele.
Perto de o relógio atingir ás seis da tarde, como de costume de todas as sextas-feiras, ninguém mais suportava olhar para a cara um do outro no escritório. Homens e mais homens, causas perdidas, broncas do promotor, olhos rolando, e um bendito carro de som passando com alguma música tosca de rap.
Quando eu decidi seguir à carreira que meu pai sempre sonhou para o meu futuro, pensei muito antes de realmente levantar a bunda do sofá e ir estudar para conquistar aquilo, já que o sonho de ser lutador foi deixado par trás logo após o primeiro dente quebrado na primeira aula de boxe. O importante foi que o dentista conseguiu consertar o grande estrago.
Minha maior glória de todo fim de semana era chegar em casa, jogar os sapatos pretos engraxados em qualquer canto da sala, largar o paletó no sofá, a gravata que apertava meu pescoço a semana toda no armário da cozinha perto da geladeira, a camisa social branca ficava aberta até a hora do banho, ou até o dia seguinte.
Isso há uns dois meses.
Perto das seis horas da tarde, eu encarava a porta vermelha da casa ao lado. Eu imaginava como era a casa toda por dentro apenas pelo pouco que podia ver da janela do meu quarto, que era ridiculamente na direção do quarto dela.
Alguma coisa nela fazia com que eu me sentisse ridículo, estúpido. Um adolescente com a porra de um bando de borboletas inteiro no estômago. Um adolescente de vinte e sete anos.
Ela acenava para mim todas as manhãs quando eu saía para o trabalho e ela saía sabe-se lá para onde. Aquilo era tudo que eu tinha; um aceno pela manhã e a janela do meu quarto. Além do nome eu sabia nada sobre ela. A ânsia dentro de mim em poder saber tudo sobre ela aumentava gradativamente a cada dia, chegava a ser incômodo.
Por que me sentir assim? Com tanto trabalho para fazer, coisas para refazer, começar, livros para ler. Tanta coisa. Mas querer saber sobre ela, querer tirar a dúvida sobre o que ela tinha que me fez ficar preso era mais interessante e menos produtivo.

Aos fins de semana minha vida social eram as séries e filmes que eu tinha na netflix. Segundo Tristan, eu não me arrependeria jamais de ter assinado aquilo e gastar alguns dólares. Ele estava certo.
– Eu estou arrependido de ter te mandado assinar netflix, dude.
– Na próxima eu vou.
Era sábado, eu não queria sair, e provavelmente jogaria algumas desculpas bem ruins para Tristan justamente pra ficar em casa.
– Desde quando você troca cerveja gelada por netflix?
– Desde que você me fez assinar. Estou na última temporada de Orange is the new Black!
– Grande merda.
Eu continuei assistindo enquanto Tristan pensava em alguma coisa pra me fazer ir para o pub com ele e o pessoal todo.
– Por favor, ! Se você for e não achar nada de interessante, e a cerveja estiver quente, você volta para sua série e eu não perturbo mais.
A verdade era que nós dois, desde o colégio, éramos como duas garotas que não se largavam nem para ir ao banheiro. Nós fazíamos fofoca igual duas velhas fazendo tricô na cadeira de madeira na varanda.
Olhei a cena. Eu queria terminar logo de assistir e ir para a sacada meu quarto fumar um cigarro por pura ansiedade, talvez vê-la dentro do seu quarto, esperando que me visse e acenasse.
– Eu vou. Mas vou ficar pouco. Bem pouco. O mínimo que puder.
– Perfeito.
– Certo.
– Certo. Até as nove.
E ele desligou.
Restavam três episódios para eu terminar a série, mas até as nove eu não terminaria, e eu tinha que tomar banho e me trocar.


I feel your heart beating
Boom, boom. boom
Put in my cars keys and
Vroom. vroom, vroom
I smell your fragrance like flowers in full bloom
I savour your flavour like (uh-uh-uuh)



Eu senti minha cabeça começar a latejar depois de colocar os dois pés dentro do pub. No balcão, Tristan, Connor, Spears e Scott tinham as bebidas nas mãos e eu seria chamado de frouxo em pedir qualquer coisa sem álcool.
No palco tinham duas moças cantando embaixo do letreiro que piscava em azul e rosa Taylor Swift.
– Você só tem essa camiseta? Vamos juntar nossas moedas para te comprar roupas novas, .
– Já ouviu falar em máquina de lavar? Eu tenho uma em casa. E pelo menos mais seis camisetas iguais a essa.
– Pra que tanta roupa preta?
– Me chamaram pra falar da quantidade de camisetas pretas que tenho?
Puxei um banco para mais perto do grupo, e depois da discussão inicial que sempre acontecia, pelo mesmo motivo ou por outro tão inútil quanto, eu prestei atenção na única música que eu conhecia daquele repertório, We are never ever getting back together.
– TOCA BRITNEY! - Connor gritou para elas, e foi muito bem ignorado.
– Sem Britney para você hoje, Spears.
Às duas e três elas terminaram de tocar, e só restávamos nós no pub. Cada um foi seguindo para o carro de onde veio, e logo eu estava estacionando na minha garagem e voltando para frente da casa para finalmente dormir.


Wave at you through my window (oo-oo)
We act like we're just friends though (oo-oo)
These games, these innuendos
And I can't get out my mind
And I can't get you out



– Hey! ?
Da janela do quarto dela, ela mirava a lanterna na minha porta. A casa estava toda escura, sem luz alguma acessa.
– Hey. Tudo bem?
– Sim. Tem luz na sua casa?
Virei à chave toda na trinca, e depois de abrir a porta. Coloquei a cabeça e a mão para dentro até alcançar o interruptor, e perceber que não tinha luz.
– Nah. Sem luz. Faz tempo que estamos sem luz?
– Desde as dez. Com que frequência isso acontece?
– A falta de luz? Só quando resolvem consertar algum poste por perto. É raro. Tem medo?
– Tenho.
Aquele era o momento em que eu podia apenas dizer: eu sinto muito, logo volta ao normal, mas minha boca era muito perto do cérebro e não me dava tempo para pensar antes de falar qualquer coisa. Aquele era o momento em que eu podia ter entrado em casa e dormido até dizer chega.
– Quer que eu fique com você?
De tudo que eu poderia ter dito, eu disse o que eu menos deveria, mas o que mais queria. Era meu momento em mostrar interesse, o momento de subtrair a ânsia, qualquer regalia.
– Quero.

There's something 'bout the girl next door
Something that I can't ignore
She got me like (oo-oo)
She got me like (oo-oo)
There's something 'bout the girl next door
Something that I can't ignore
She got me like (oo-oo)
She got me like (oo-oo)


+++


Nós nos sentamos na varanda da casa dela, e engatamos assuntos tão toscos que talvez nós tivéssemos sido melhores amigos em algum momento passado. Assuntos sem pudor, sem decência, assuntos sérios de dois profissionais.
Aos vinte e um, ela se formou em literatura, aos vinte e três ela conseguiu um bom emprego em Doncaster, e por isso passamos a noite toda falando sobre nossas situações. Ela contou sobre como adorava lecionar, e eu contei como era estressante e deliciosa a sensação de passar a semana toda discutindo sobre os problemas alheios. Nossos assuntos foram até às nove da manhã, quando a luz voltou, e nós dois já estávamos deitados no chão da varanda conversando devagar e de olhos fechados.

+++


Domingo.
?

Now I'm at your door
Knock, knock, knock


Nas três semanas depois de faltar luz, nós nos sentamos todos os dias em frente à porta vermelha da casa dela depois do trabalho, apenas por distração. Alguns dias eu chegava antes, outros ela já estava me esperando. Na quarta semana, ela não apareceu, em nenhum dos dias, nem mesmo no feriado de aniversário da cidade.
Agora, na quinta semana, eu estava batendo na porta dela.
Esperando alguma resposta, alguma rejeição, o que ela tivesse para me dar.
?
Eu a escutei se aproximar da porta. Logo a chave deu um giro completo e a porta foi aberta.
?
– Tudo bem?
– Sim, por que não estaria?
– Você sumiu na última semana. Eu fiquei esperando e você não apareceu. - Eu disse apontando para o chão da varanda e ela riu.
– Meu irmão disse que tinha um cara louco sentado na minha varanda.
– Meu Deus, !
– Eu passei a semana numa conferência de literatura com os alunos e alguns professores. Esqueci-me de avisar. Desculpe.
Estava estampada em meu rosto toda minha vergonha por estar passando por aquele momento, mas a boa parte era que pelo menos não teve rejeição alguma.
Perguntei se tinha sido muito idiota da minha parte ficar sentado esperando, e ela disse que não. Que não esperava isso de alguém, mas que eu, com certeza, tinha elevado todas as expectativas.
– Vamos nos sentar aqui ou...?
– Está com receio de sujar sua calça velha, ?
O sorriso zombeteiro dela estava presente mais uma vez e eu o adorei desde o primeiro momento em que o recebi.
– Não é velha.
– Tem três furos na sua coxa, e não me diga que isso está na moda, porque isso, não está. Se você quer impressionar uma garota, não é assim.
– Quem disse que quero impressionar uma garota? Não seja tosca, .
Sentei-me no chão e ela ficou em pé me olhando.
Eu sempre tive boas intenções, o Q da questão era como eu demonstrava e fazia as coisas acontecerem. Awkward. Um desastre total.
A primeira intenção foi: puxá-la para baixo, e ela se sentar ao meu lado como em todas as outras vezes, e assim, nós engataríamos algum diálogo tosco.
A segunda intenção foi a que aconteceu depois da primeira. Sem precisar manter a sequencia. Segundas intenções com seu significado popularmente conhecido.
Depois que a puxei para baixo, ela não se sentou de frente para a rua, e sim de frente para mim, e continuou me olhando até que eu virasse para ela.
– Sua última chance de me beijar é agora, bonitinho.

Now we're on the floor
You on top, top, top
We can be one body
C'mon let's rock, rock, rock
I'm dreaming, I'm fiending like (uhn-uhn)

I've seen you with no makeup (oo-oo)
So stoked that you my neighbour (oo-oo)
So close I can almost taste you
And I can't get out my mind
And I can't get out



A essência dela era o que eu não conseguia deixar de lado, impossível de ignorar. Não era questão dela ter o corpo perfeito. Inicialmente, talvez tenha sido isso com a junção da simpatia que a vizinhança toda comentava, sobre os sorrisos sinceros, mas depois da primeira noite, a essência dela aumentou. Era sobre ela ter opinião formada sobre tudo, e se não tivesse ela buscava e formava ali mesmo, era sobre ser mente aberta, sobre saber como conversar sem deixar perder as palavras, e quando elas faltavam ela cantarolava alguma coisa torta e nos fazia rir. E se a cada dia eu continuasse a me querer saber mais e conseguisse tirar mais, estaria tudo bem.
De uma forma ou de outra, ela sempre teria mais coisas para serem descobertas. Ela sempre teria alguma coisa que eu não conseguiria ignorar até desvendar por completo.


There's something 'bout the girl next door
Something that I can't ignore
She got me like (oo-oo)
She got me like (oo-oo)
There's something 'bout the girl next door
Something that I can't ignore
She got me like (oo-oo)
She got me like (oo-oo)



– E agora?
– O quê?
– Nós vamos continuar a conversarmos na varanda como amigos? Você ainda vai acenar para mim de manhã?
– Depende. Só se você se dispuser a ficar comigo quando faltar luz.
– Problema resolvido, garotinha.
– Você não é tão mais velho para me chamar de garotinha.
– Eu sei. Tem tantas coisas que eu quero saber sobre você.
– Se você for destemido o suficiente para conhecer meu irmão, não teremos problemas, apenas tempo.
– Então nós teremos tempo.


All day, got me goin' crazy
Can't shake the feeling that she gave me
All day, got me goin' crazy
Got me goin' crazy

(...)

There's something 'bout the girl next door
I'm talking 'bout the girl next door


Fim.



Nota da autora: Sem nota.


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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