Capítulo Único

EM TOMBSTONE, como em qualquer cidade pequena do Arizona, as notícias corriam rapidamente. Não era surpresa para ninguém que, naquele final de agosto, os mil e trezentos habitantes só tivessem um assunto para fofocar nas varandas dos vizinhos: a garota nova na cidade.
Os habitantes da cidade estavam acostumados com os turistas, mas o motivo pelo qual alguém se mudaria para Tombstone era um verdadeiro mistério. Isto porque a cidade, perdida em meio à Rodovia 80, tinha parado no tempo, junto com suas ruas apenas recentemente asfaltadas e os fantasmas do Velho Oeste. Não havia absolutamente nada para uma jovem de vinte e poucos anos fazer ali, mesmo porque os sinais mais próximos de civilização podiam ser encontrados apenas em Tucson, a setenta milhas de distância. Os desafortunados que ali nasciam passavam a infância e a adolescência contando os dias para a faculdade, quando eles finalmente poderiam sair.
era duplamente desafortunado: primeiro, por ter nascido ali; depois, por não ter saído para a faculdade. Ao contrário, trabalhava como gerente do bar cujo dono era o pai. Na realidade, tratava-se de um saloon, exatamente como nos filmes de faroeste, onde os garçons vestiam-se de caubóis, e atores vestidos de xerifes simulavam brigas de bar, para divertimento dos turistas. E mais uma vez, estava ouvindo sobre a garota nova da cidade, dessa vez por Alex Sullivan, que também trabalhava no local:
– Ouvi dizer que ela é stripper – Alex declarou, enquanto ambos limpavam o balcão do bar, após o fechamento do bar. – E que está trabalhando no clube do Velho Samuel, mas apenas três vezes por semana.
– Sério? – perguntou, com uma risada rouca. – Eu ouvi falar que é garçonete, e que está prestes a roubar o seu emprego – ele rebateu, dando de ombros.
Alex parou de recolher as garrafas e encarou com perplexidade, até perceber a expressão zombeteira do amigo. Rindo, ele jogou uma das garrafas vazias na direção do outro, que desviou dela com facilidade.
– Filho da mãe! – berrou Alex, embora ainda estivesse rindo. – Se você der meu emprego para a tal , a amizade acabou.
– A amizade terá acabado antes, seu bastardo, se você não limpar essa bagunça que fez com a garrafa – o outro respondeu, alcançando a vassoura e jogando-a para Alex, que a segurou no ar pelo cabo.
Praguejando baixinho, mas ainda com um ar de riso, Alex afastou-se para varrer os cacos de vidro, deixando sozinho com seus pensamentos. O sorriso do garoto murchou, e ele voltou a pensar sobre como a memória da cidade podia ser tão fraca. Afinal, sabia, não era nenhuma forasteira – como poderia, se havia vivido em Tombstone durante os melhores seis meses da vida dele?
No entanto, ela realmente já fora a garota nova da cidade. Ninguém parecia se lembrar de cinco anos atrás, quando o casal e sua filha abriram na estrada o charmoso hotel, que levava o mesmo nome da família. Como tudo o mais na cidade, o hotel buscava reproduzir o passado sangrento da cidade no século XIX, por isso talvez não houvesse se destacado dos demais; mas , que não fora um hóspede, jamais se esquecera de cada detalhe do hotel, ainda que ele atualmente fosse apenas mais um prédio abandonado.
Quando conheceu , teve a impressão de que a garota sabia de tudo. Aos seus olhos, ninguém nunca pareceu tão centrada quanto a jovem de feições retas e olhar determinado, que ofegava enquanto descarregava caixas de um caminhão de mudanças, cuja placa indicava que vinha de Phoenix.

Era um dos verões mais quentes de que se recordava, no qual a temperatura facilmente chegava aos 100°F. Como estava de férias escolares, o pai requisitava o garoto que o ajudasse na administração do saloon. Como todo adolescente, procurava evitar trabalho o máximo possível, então balbuciou uma desculpa assim que conseguiu e correu para a sorveteria mais próxima, que ficava nos limites do centro histórico da cidade. Pediu um sorvete de flocos e sentou-se sob a sombra de uma tenda, ouvindo música – não country – no iPod.
Não demorou muito e reparou na movimentação do outro lado da rua, onde um casal e uma adolescente transportavam caixas de papelão, suados sob o sol escaldante. não reconhecia nenhum dos rostos, portanto concluiu que a família estava de mudança. Retirou os fones de ouvido para entender melhor a cena. Uma mulher esbelta coordenava as demais pessoas, dando ordens com um tom de voz não autoritário, mas prático. Aquele que supôs ser o esposo dela era um homem baixo e acima do peso, mas com rosto amável e paciente. A princípio, pensou que a adolescente não parecia com nenhum dos pais – não era elegante como a mãe, tampouco caricata como o pai – porém, aos poucos, começou a reparar que ela era uma mistura quase perfeita de ambos. Os cabelos da mãe, os olhos do pai; o maxilar delineado da mãe, mas o nariz pequeno do pai. provavelmente não se deu conta do quão intensamente estava observando, ou por quanto tempo encarou a família, e por isso se surpreendeu quando a garota o olhou de volta, apoiando o peso em um dos lados do corpo e descansando as mãos sobre a cintura.
Envergonhado pela atitude mal educada – ele podia ouvir a voz da mãe em sua cabeça: “Olhe os modos, garoto!” –, desviou o olhar rapidamente, imaginando que a garota estaria irritadíssima, ou quem sabe assustada, com sua indiscrição. Quando ergueu a cabeça, porém, descobriu que ela vinha em sua direção e, para seu espanto, carregava um sorriso no rosto. Ele não era facilmente impressionável, no entanto não podia negar: aquele era o sorriso mais bonito que alguém tinha lançado a ele.
Conforme ela venceu a distância entre os dois, repassou mentalmente tudo o que costumava falar para garotas bonitas, mas nada pareceu bom o suficiente para oferecer à dona do sorriso incrível. Quando ela o saudou com um aceno de mão, apenas sorriu de volta, esperando que fosse suficiente para que ele pudesse conhecê-la. O lado positivo de toda essa situação foi que a jovem não lhe deu espaço para falar, porque, antes mesmo de se apresentar, propôs:
– Que tal: você me ajuda com as caixas e eu te pago outro sorvete?
alternou o olhar entre a tigela vazia e o olhar atrevido da garota, riu e negociou:
– Que tal: eu te ajudo com as caixas, se você me deixar lhe pagar uma bebida.
– Você não tem idade para comprar bebidas – ela retrucou, cruzando os braços e erguendo uma das sobrancelhas. Sua expressão era divertida.
– Você tem razão, mas isso não importa muito quando se é o filho do dono do bar – ele observou, piscando um olho para ela. – Acho que isso significa que não vou lhe pagar nada, afinal de contas.
– Eu prefiro assim – ela garantiu. Em seguida, estendeu a mão em um gesto de cumprimento, como se estivesse em uma reunião de negócios. – Que tal: você me ajuda com as caixas, eu te acho muito gentil e fico interessada em te conhecer melhor em um jantar?
– Trato feito.

era insone desde a adolescência, mas, especialmente após o dia em que soube do retorno de , não conseguiu pregar os olhos. Após algumas horas em claro, afastou as cortinas que cobriam a janela e percebeu que o dia já havia amanhecido. Bufando de impaciência, declarou que o sono já estava perdido. Levantou-se da cama e arrastou os pés até o banheiro, para escovar os dentes.
Parou ao encarar o reflexo no espelho sobre a pia, insatisfeito com a aparência. Olhos avermelhados, olheiras escuras, lábios ressecados e todo o conjunto que compunha um homem cansado, que aparentava bem mais que os seus vinte e três anos. Imaginou se o reconheceria, e depois afastou o pensamento: não era como se fosse procurá-lo. Em seguida, teve a ideia que, uma vez pensada, não poderia ser afastada. Em voz alta, desafiou o próprio reflexo:
– Vou procurar .
A imagem no espelho pareceu descrente. “Não, não vai”, seu reflexo respondeu, e na sua cabeça, por alguma razão, a voz era bizarramente similar à de seu pai. “Até mesmo com a sua baixa autoestima, você pode ver que essa não é uma boa ideia.”
– Preciso saber por que ela foi embora – argumentou , irritado. – Permanecer sem respostas por puro orgulho seria burrice.
O no espelho não pareceu convencido. “Você nem ao menos sabe se ela quer falar com você. Talvez ela nem se lembre de você.”
– Não importa... Eu vou fazê-la lembrar. – E então se lembrou da sua vulnerabilidade perante aquela garota, e de como tudo desmoronou quando ela foi embora. Inseguro, completou: – Amanhã.

Quando entrou no saloon já era quase meia-noite. Alguns olhares se voltaram para ela, mas a maioria dos clientes se compunha de turistas, que não faziam a menor ideia se ela era nova na cidade ou mais uma das crianças nascidas e crescidas ali. Apesar de ocupado com o serviço, não demorou muito para avisar a garota, que esticava o pescoço sobre as pessoas à sua frente, como se estivesse procurando por algo. cruzou os braços, em um gesto de autopreservação, e se pôs a analisar as feições da garota.
Ela não tinha mudado muito nos últimos anos, exceto pelo cabelo, que estava mais curto, e pelo par de óculos sobre o rosto. O jeito de andar e de se vestir ainda era o mesmo, bem como o olhar curioso e intenso, atento, que naquele momento cruzava cada canto do bar, como em uma missão. não pôde deixar de pensar que, depois de todo aquele tempo, ela ainda era demais para ele. Subitamente, achou ridícula a ideia de tentar falar com ela.
Por outro lado, o que infernos ela estaria fazendo ali? não fazia tão pouco caso de si próprio, a ponto de acreditar que houvesse esquecido quem era o dono do saloon. E não era como se o bar tivesse muitas atrações para os poucos jovens residentes de Tombstone. não apenas se lembrava, mas também estava ali por ele, embora não fizesse a menor ideia dos motivos.
Confirmando suas suspeitas, o olhar de parou sobre o garoto e ali permaneceu, avaliando seu rosto. Ela sorriu de leve e acenou timidamente para ele, encaminhando-se vagarosamente até o balcão.
– Belo traje, – ela comentou, rindo, assim que se aproximou o suficiente para ser ouvida. Seu tom não era jocoso, mas agradável; ela não estava rindo dele, mas para ele.
Apenas naquele momento se deu conta que estava usando o uniforme do saloon: roupas de caubói, características do século XIX na América, dignas de ganhar um concurso de melhor fantasia de Cisco Kid. Suspirando, tirou da cabeça o chapéu arredondado, que mais parecia um sombreiro, e o apoiou no balcão.
– Nada agrada mais as forasteiras que encontrar o Robin Hood do oeste – gracejou ele, forçando o sotaque interiorano. esboçou outro sorriso, e se sentiu à vontade para continuar: – Embora ninguém tenha a menor ideia de por que os forasteiros vêm aqui.
– O motivo deve ser o mesmo pelo qual os nativos não querem sair... Tequila – ela concluiu, finalmente se sentando em um dos bancos do bar. – A quem eu preciso recorrer para conseguir uma margarita em Tombstone?
Margaritas eram a especialidade de , e disso sabia muito bem. Após pedir a Alex, em voz baixa, que segurasse as pontas no bar, ele abaixou-se para pegar as garrafas de tequila e licor, para então começar a preparar o coquetel. Trabalhou em silêncio, e permaneceu calado quando entregou a taça para a garota. Ela perguntou o preço da bebida, mas apenas deu de ombros:
– É por conta da casa.
– Não seja ridículo, – ela objetou, puxando a carteira da bolsa e lhe entregando uma nota de dez dólares. – Eu não voltei à cidade para ganhar bebidas de graça.
– Questão interessante – observou, devolvendo-lhe uma nota de cinco dólares, embora o coquetel custasse mais que isso. – Por que você voltou à cidade, ?
Ela não respondeu de imediato, mas ergueu a taça na altura da boca e, com a ponta da língua, brincou com o sal da borda. Parecia pensativa. Mais para ter o que fazer com as mãos que por qualquer outro motivo, devolveu as garrafas às prateleiras sob o balcão – não sem antes servir uma dose de tequila para si, por óbvio. Finalmente, ela tomou um gole do coquetel, fez um gesto de aprovação com a cabeça e respondeu:
– Obama pode falar o que quiser, mas ainda está difícil arrumar um emprego depois da faculdade nesse país – ela disse, com uma indiferença forçada, que claramente pretendia ser divertida. não achou graça, porque a explicação não fazia sentido. Um emprego?
– Então você se formou? – o garoto perguntou, interessado, mas não inteiramente surpreso. era inteligente e sofisticada, é claro que teria feito faculdade.
– Sim – ela confirmou. – Em Yale.
Ela pareceu perceber a expressão desnorteada de , porque logo explodiu em gargalhadas.
– Deus do céu, ! – ela exclamou, entre risadas. – Foi na Arizona State, em Literatura. Você realmente achou que eu teria me formado em Yale? – ela questionou, escandalizada.
acompanhou o sorriso da garota, mas uma parte dele sentiu-se incomodada com a descrença da garota. É claro, ele lembrava: os pais dela nunca teriam dinheiro suficiente para pagar um curso em Yale. Mas ela poderia ter conseguido uma bolsa de estudos, porque além das boas notas, participava de todo tipo de atividade extraclasse que podia lembrar. O descrédito de em si mesma atingiu o garoto, que se sentiu na obrigação de ser gentil:
– Bem, você poderia ter entrado em Yale, se quisesse – disse , franzindo a testa.
A expressão da garota endureceu.
– Não é simples assim – ela retrucou categoricamente, de um jeito que fez entender que aquilo não se tratava de mera modéstia. – De qualquer forma – ela continuou, recompondo o sorriso prévio –, vou assumir algumas classes de inglês da Tombstone High.
quase se engasgou com a informação, deixando claro que por aquela ele não esperava.
– A nossa escola? – ele perguntou, mas era retórico: aquele colegial era a única opção da cidade.
– Ela mesma – confirmou, rindo. relaxou com a risada da garota, embora a notícia ainda fosse inacreditável. – Lar das vespas amarelas. Quem sabe eu dê aula para as gêmeas da sua tia?
– Não pegue leve com elas – advertiu, piscando um olho.
– Eu não pego leve com ninguém – garantiu . Permaneceu em silêncio por alguns instantes, mantendo o sorriso. Em seguida, apoiou o queixo em uma das mãos, suspirando. Era uma de suas expressões de que se lembrava melhor. – É muito bom te ver de novo, . Como estão as coisas?
considerou a pergunta. Um curta-metragem passou por sua cabeça, composto de flashes de memórias: havia música e bebida, mas também sangue e agulhas. Suor. Fios de cabelo. Hospital. Cemitério. Afastando as figuras diáfanas, se prendeu à imagem mais sólida que encontrou à sua frente: as íris dos olhos de , cujo gradiente de cores lembrava um pôr-do-sol. Contornando os detalhes, ele respondeu simplesmente:
– Já estiveram melhores.
A garota não pareceu preocupada, mas compreensiva, e assentiu com a cabeça.
– Quando estiveram melhores? – ela pressionou, aplicando uma força maior na taça com as mãos, fato que não passou despercebido por . Este, por sua vez, já sabia a resposta, mas precisou reunir toda a coragem para proferi-la:
– Você sabe... Antes de você ir embora. Quando ainda estávamos juntos.
mordeu o lábio inferior, puxando com os dentes a pele solta, um sinal de que estava angustiada. Concordou com a cabeça diversas vezes, mas demorou até falar:
– Para mim também. – não sabia o que dizer, mas não precisou se preocupar, porque logo continuou: – Escuta, , você tem um tempo livre qualquer dia desses?

prometeu se encontrar com em frente à casa do garoto na noite seguinte. Ele tentou não colocar muitas expectativas sobre a ocasião – afinal, não seria a primeira vez que deixaria de cumprir uma promessa – mas, ao primeiro sinal de laranja no céu, já estava completamente vestido e arrumado, olhando insistentemente para o relógio de pulso. Quando finalmente ouviu a buzina do lado de fora, suspirou, aliviado, mas logo percebeu que não havia motivos para comemorar: a noite estava apenas começando.
Sem rodeios, entrou no carro e sentou no banco do carona, avaliando a motorista. Ela usava uma camisa que ele lhe dera, tantos anos antes, e ostentava um sorriso enigmático – não estilo Mona Lisa, mas como o de uma criança que sabia um segredo. não pôde evitar sorrir de volta, com todos os dentes, porque, apesar de tudo, ele realmente se sentia confortável em estar ali. Os dois se encararam e riram, como se ainda fossem adolescentes tolos, e por alguns instantes permaneceram parados e em silêncio, como que querendo aproveitar o momento. Ainda sem proferir qualquer palavra, levantou a mão no gesto universal de “aguarde”, e deu a partida no carro.
Nem cinco minutos se passaram quando ela parou o veículo em frente a um prédio extremamente familiar para ambos.
– A escola? – ele perguntou, incrédulo e divertido. – Depois de todo esse tempo, você está me trazendo para a escola?
– Sim, , você veio para assistir minha aula sobre Fitzgerald – ela retrucou, ainda com a expressão divertida. Sem mais delongas, desafivelou o cinto de segurança e abriu a porta do carro, convidando-o, com um gesto, a acompanhá-la.
– Que pena para mim. Eu sempre preferi Salinger – ele disse, entrando na brincadeira, embora estivesse extremamente curioso diante da situação. Fechou a porta atrás de si, e pôs a caminhar junto à garota em direção aos portões do prédio.
– Eu lembro – ela confirmou, sonhadora. Em seguida, alertou o garoto a seu lado, que estava andando em direção ao portão principal: – Não, , não pelo pátio. – Ao observar seu olhar confuso, explicou: – A quadra.
A surpresa estava evidente no , fazendo soltar uma risada. Ela estendeu a mão para o ex-namorado, que a pegou sem hesitar, ainda que houvesse ficado deslumbrado com a própria atitude. pareceu satisfeitíssima, e conduziu pelas laterais do prédio, até chegar ao portão que dava acesso à quadra poliesportiva, que estava trancado. estava prestes a levantar essa observação, quando tirou do bolso traseiro da calça jeans a chave. Largou momentaneamente a mão do garoto para destravar o cadeado, puxando a corrente que fechava o portão consigo. Lançando um último olhar curioso para , ela deslizou por entre a fresta aberta da porta, chamando-o com a mão.
De primeira vista, não percebera a diferença no ambiente: parecia a mesma quadra de sua adolescência, onde matara aula tantas vezes e, tantas outras, abraçara o espírito de equipe e torcera para um péssimo time de basquete e outro de futebol, pior ainda. Mas então descobriu o que estava diferente: em um dos cantos da quadra, armara uma barraca de acampamento, sólida, grande e de estampa camuflada – a mesma usada na única viagem que fizeram juntos, para o Grand Canyon. Ele seguiu a garota até a barraca e, ao adentrar nela, ficou impressionado. Uma coisa não poderia negar: não medira esforços em transformar o espaço agradável. Estendera cobertores confortáveis sobre o chão, junto com uma série de almofadas e – para a perplexidade de – iluminação com velas. Ela preparara também uma baita refeição para os dois: mexicana, a favorita do garoto, servida em bandejas apoiadas em uma mesinha de centro, com uma bela garrafa de tequila entre elas. Parecia inacreditável que tivesse cozinhado para ele, mas a expressão satisfeita da garota não deixava dúvidas. Além de tudo, ela havia colocado música – não em um iPod conectado a um autofalante, mas em um rádio muito antigo, que tocava uma fita cassete dos Rolling Stones.
ficou impressionado com o trabalho duro a que se dispusera para deixá-lo confortável; ao mesmo tempo, suspeitou dele. Ele tivera planos para a noite, mas aquela era uma atmosfera romântica – velas ornamentais? –, e certamente não estava preparado para seja lá quais fossem os planos de . Não depois de todo aquele tempo de ausência sem explicações. Ainda assim, quando a garota sorriu e se jogou sobre uma das almofadas, chamando-o com o dedo para que copiasse seus movimentos, ele obedeceu, como se a reação automática de seu corpo fosse voltada para ela, independentemente da razão.
Ele também obedeceu prontamente quando ela indicou que se juntasse a ela para comer o chilli, mas finalmente teve bom senso ao recusar a dose de tequila, apelando para uma garrafa d’água que havia deixado ao lado do rádio. Apesar de perceber o quão ridículo aquilo parecia, não pode evitar o fascínio ao observar os trejeitos da garota comendo, falando, sorrindo, sendo . Ainda assim – ou talvez por causa disso – ele se sentia muito vulnerável perto dela, hipersensível e desconfiado. Quando ela tocou o seu braço, seus pelos se eriçaram, e a reação não passou despercebida de , que evitou novos contatos físicos – sem, entretanto, encerrar o anterior.
– Por que a quadra? – ele perguntou, após a janta, que incluiu trufas de chocolate como “sobremesa”.
– Ora, você sabe por quê – ela respondeu, rindo. Levou o polegar à boca e mordeu a pele do canto da unha, um sinal de que estava contemplativa. – Você deve se lembrar de tudo o que aconteceu aqui. Entre nós dois.
É claro que sabia do que a garota estava falando, mas evitava se lembrar daqueles momentos. Não eram lembranças ruins – ao contrário, eram excessivamente boas, maravilhosas, e insistir nelas era um erro. No entanto, impossível não as relacionar aos cantos da boca levemente curvados de , ao vermelho dos lábios e ao caimento dos fios do cabelo quando ela os afastava dos olhos. Era apenas excessivamente instigante.
– Ninguém nunca desconfiou – ele acrescentou, não escapando de adicionar detalhes à insinuação dela. – Afinal, o trabalho de todo mundo era impedir que as líderes de torcida transassem com os jogadores de basquete. Ninguém nunca pensou no mascote – completou, rindo.
Eu pensava no mascote da torcida – ela discordou, embora a expressão revelasse divertimento.
– Até que foi embora – observou, revelando na voz uma amargura muito maior do que pretendia.
A reação de foi a pior possível: o silêncio. Desconfortável, seu corpo instintivamente se afastou do dele, enquanto seu olhar se desviava para algum ponto fixo à sua frente – como se as tigelas vazias de chilli fossem muitíssimo interessantes.
– Eu não esperava pela sua partida – insistiu, teimando em obter alguma explicação. – O jeito que você falava e agia... Tudo o que você fazia me levou a acreditar que você se importava. Parecia que o que havia entre nós era amor.
– Bem, era amor, . Não é como se eu tivesse planejado ir embora – ela objetou, na defensiva. não se convenceu.
– Seus pais fecharam o hotel – ele contestou, negando com a cabeça. – Você não disse para onde estava indo ou quando ia voltar... Não se despediu. Não atendeu às minhas ligações durante um mês, até que eu desisti de ligar. – Sua voz tremia de raiva, embora ele tentasse controlar a ira. – Fale o que quiser, , mas não me faça de tonto. Não minta para mim.
estreitou os lábios, apertando-os até que eles formassem uma linha. Não interrompeu o garoto nem tentou se defender, porém não deu qualquer sinal de culpa. Ao contrário, manteve a cabeça erguida.
– Não estou mentindo para você – ela garantiu, parecendo magoada, mas, ao mesmo tempo, orgulhosa. – Eu precisei me afastar por um tempo. De você. E isso não foi planejado.
Aquilo não era droga de explicação nenhuma, pensou, enquanto avaliava as palavras da garota. Sentiu-se claustrofóbico no ambiente, como se a presença dela, junto a ele, fosse demais para que pudesse processar.
– O que eu fiz para que você precisasse se afastar de mim? – ele exigiu.
refletiu por um momento, avaliando a pergunta e, principalmente, as palavras que compunham sua resposta.
– Não foi culpa sua – ela adiantou, contrariada. – Ou pelo menos, a culpa não foi apenas sua. Mas o que aconteceu me quebrou por inteiro, e eu não pude mais ficar.
Apesar de ainda insatisfeito com a falta de clareza nas respostas, foi tocado pelo tom de voz da garota. Ela obviamente não queria falar a respeito, e parecia que soltar o mínimo de informação já tomava toda a sua coragem. Aquilo serviu para diminuir a irritação de , mas não para saciar sua sede por esclarecimento.
– A sua partida me quebrou por inteiro – ele confessou, em um murmúrio. – Eu só espero que ela tenha sido por um bom motivo.
suspirou, encarando-o pelo que pareceram minutos. Apesar de respeitar o silêncio da garota, sabia que não conseguiria levar a noite adiante sem uma explicação razoável. Ele esperou por alguns momentos, mas – ante a quietude – desistiu de obter uma resposta. Sabendo que não tinha o direito de exigi-la, decidiu apenas ir embora. No entanto, quando se apoiou nas palmas da mão para se levantar, foi detido por um toque no braço e um pedido.
– Espera – disse , e apenas aquela palavra foi suficiente para paralisar . – É claro que foi por um bom motivo. – Inspirou profundamente e depois soltou as palavras calmamente, uma a uma: – ... Eu estava grávida quando fui embora.

Curiosamente, a reação de foi justamente evitar esboçar qualquer reação. Talvez o alcance de sua incompreensão – e de sua incredulidade – fosse tamanho que ele preferira pensar por um momento antes de definir o que sentia. Ele estava incerto do que aquilo significava – é claro, ele sabia quais eram as consequências naturais de uma gravidez, mas o que ela significaria para ele, especialmente após passados cinco anos?
Cinco anos. A percepção de que todo esse tempo passara, sem que lhe tivesse contado nada, foi o que definiu a sua reação. Decepção. Mágoa. Fúria.
– Não sei que tipo de jogo você está fazendo comigo, mas não pode estar falando sério – ele decretou, em negação. – Você está realmente me dizendo que eu sou pai de uma criança de quatro anos e não fui informado?
– Não! – interveio, franzindo o cenho e negando com a cabeça. – Não foi isso...
– Não? – interrompeu, irritado. Logo ele, que tanto queria explicações, resolveu que pouco se importava com o que queria dizer. – Então eu não sou o pai? Inferno, o que aconteceu nessa maldita cidade cinco anos atrás?
– Você seria o pai! – exclamou , defensivamente, alterando o tom de voz e parecendo ofendida com a insinuação. – Eu apenas... Eu escolhi não ter o bebê. Por isso tive que voltar para Phoenix.
Estava estampado no rosto da garota que aquele era um assunto sensível, mas ela falava a respeito com muita determinação e firmeza, como se não fosse uma revelação que alterava por completo a vida de . Porque, na verdade, pensou, não alterava. fizera questão de resolver tudo absolutamente sozinha. Maldição, ela era uma menina de dezoito anos, grávida, decidindo o futuro de três pessoas por conta própria.
– Por que você não falou comigo? – ele sussurrou, exasperado. – Eu sinto muito que tenha lidado com isso sozinha, mas você não precisava. Eu estaria lá por você.
– Eu sei que estaria – ela respondeu, forçando um mínimo sorriso, que se desfez quase instantaneamente. – Mas a decisão não era sua, era inteiramente minha, e eu precisava tomá-la sozinha... Eu sabia disso naquela época, e sei disso hoje.
– Você achou que eu tentaria te dissuadir? – ele perguntou, ofendido. – Você não tinha que me perguntar. Você tinha que me informar, em vez de simplesmente ir embora, me deixando imaginar as piores coisas possíveis.
Ela não ponderou por muito tempo, mas pareceu concordar razoavelmente com o argumento.
– Pode ser que você esteja certo – ela concedeu –, mas espero que entenda que eu tinha outras preocupações quando decidi ir embora.
não entendia. Para ele, poderia ter mil e uma preocupações, mas não poderia ter negligenciado uma delas, não daquele jeito. Não poderia ter negligenciado .
– E quais eram as suas preocupações quando você voltou, ? – ele questionou, magoado. – Você sequer pensou em mim?
– Eu queria ajeitar as coisas entre nós! – justificou ela, apressadamente. Ajoelhou-se e virou para ele, aparelhando seus rostos. Tentou tocar sua bochecha, mas afastou a mão da garota.
– Você planejava me contar? – interrogou. – Se eu não insistisse, você teria me contado?
Um lampejo de fúria passou pelos olhos de , mas quando ela respondeu, sua voz estava calma e controlada:
– Não, claro que não. Eu precisei falar para meus pais à época, mas, desde então, nunca planejei contar para ninguém. Foi a escolha mais difícil que tive que fazer em toda a minha vida, e eu não preciso do julgamento de ninguém. Eu não preciso da sua aprovação, , mas pensei que pudesse ter seu respeito.
– Você tem o meu respeito – confirmou, com sinceridade. – Mas não tem a minha confiança.
Pela primeira vez na noite, pôde identificar tristeza nos olhos da . Não impaciência, não raiva, não culpa, mágoa ou ofensa. Mas uma tristeza pura, que poderia ser a reunião de todos os outros sentimentos, e que se traduzia em lágrimas acumuladas em seus olhos. era extremamente suscetível a ser alimentado por tristeza. Para que isso não acontecesse, desviou o olhar, levantou-se e, sem pensar duas vezes, foi embora.

Os sonhos de não eram inventados; eram memórias. ainda era uma adolescente risonha de dezoito anos, balançando pompons para toda uma comunidade que supervalorizava o atletismo estudantil. Ele ainda era o descolado garoto que se fantasiava de vespa amarela, para propositalmente derrubar a pirâmide de meninas durante a torcida de um jogo, fazendo todos rirem. Ainda assim, ele nunca deixou cair.
Ele tinha tantos amigos que talvez não pudesse considerar nenhum verdadeiro. Todos sempre sonhando em sair da cidade e nunca mais voltar, enquanto ele detestava até sair de Cochise County para fazer compras de Natal. Seus amigos lhe diziam, gargalhando, que ele era um vagabundo por não querer fazer faculdade. Seus professores lhe diziam que o futuro era muito maior que o Arizona. foi a primeira que disse que tudo bem se o futuro dele fosse em Tombstone. Não havia nada de errado com isso.
também era a rainha de todos os jogos, e não aceitava perder em nenhum deles. Futebol, ganhava. Pôquer, ganhava. Mortal Kombat, ganhava. Sorteios, ganhava. Ela se acostumou tanto a ganhar que transformou a vida em um jogo. Ela ganhou todas as discussões e todas as brigas. Ela ganhou quando quis viajar para o Grand Canyon, ganhou quando quis sorvete de flocos e ganhou quando decidiu virar à direita, não à esquerda. Ganhou elogios de todos os professores, ganhou uma maldita bolsa de estudos na Arizona State, ganhou um namorado idiota que não tinha nenhum lugar para ir e nada melhor para fazer do que esperá-la voltar.
No jogo de , sempre fez o papel do perdedor. Era um papel confortável, porque sem vitórias não há expectativas, e sem expectativas não há decepção. Todas as surpresas são positivas. Perder para era completamente compatível com a agenda de .
Por fim, era apaixonante e apaixonada, a mais intensa e incrível das amantes. Ainda que estivesse fadada a ganhar o jogo, ela nunca deixava de usar todas as suas armas. Parte da vitória envolvia fazê-lo extasiado, inebriado e satisfeito. Se ele a desafiasse a fazê-lo feliz, ela não descansaria enquanto não conseguisse. Antes de ir embora, ela era a que estava sempre presente.
acordou pensando que precisava ter em seus braços de novo. E se tudo fosse um jogo, que se danasse, ele adorava jogá-lo com ela.

Em Tombstone, como em qualquer cidade pequena do Arizona, não era tão difícil conseguir o endereço da garota nova na cidade.
Quando bateu à porta de , na tarde seguinte, ele já sabia o que fazer e o que dizer. Não era difícil, desde que uma premissa simples fosse aceita: quando se tratava dela, para ganhar, era necessário perder.
Ela atendeu à porta com a expressão determinada de sempre, uma máscara serena e imperturbável, os cantos da boca ligeiramente curvados. Pareceu genuinamente feliz e falsamente surpresa em vê-lo.
... O que está fazendo aqui? – ela perguntou docemente, atrapalhando-se com o copo que segurava e derramando água sobre o chão. – Céus, que desastre. Entra, vou buscar um pano para secar isso...
Ele seguiu a garota para dentro de sua casa, impressionado com a organização do ambiente, o que era incomum para alguém que havia acabado de se mudar. observou paredes e móveis brancos, mas não percebeu a impessoalidade da decoração. Ao contrário, apenas reparou no porta-retratos apoiado sobre a mesa de canto, na qual se encontrava um casal adolescente sentado na escada de uma escola. Não sorriam para a câmera, mas um para o outro, como se não pudessem se importar menos com a presença do fotógrafo. O fato de guardar essa lembrança fez o coração de apertar em seu peito.
– Vejo que você encontrou essa relíquia – ouviu dizer atrás de si.
– Eu gosto muito dessa foto – ele respondeu, virando e encontrando a garota a uma distância ínfima, sorrindo em concordância. Se ele esticasse o braço, poderia tocá-la. – Eu vim pedir desculpas por ontem. Fui um babaca insensível – ele disse, porque sabia que era o que ela queria ouvir.
– Para ser honesta, eu não esperava uma recepção muito diferente – ela concedeu, aproximando-se ainda mais. – , eu estava falando sério quando disse que queria acertar tudo entre nós. A cada dia que estive longe, senti saudades de você. Dentre as decisões que tive que tomar e o quão sozinha eu me senti nos últimos anos, existe pouco que você possa dizer que me faça deixar de te amar.
sentiu um nó na garganta. Ele podia entender o sentimento: ela o havia abandonado e ele não havia deixado de amá-la. Se grandes mentes pensam igual, corações comprometidos sentem o mesmo. E foi diante daquele entendimento mútuo que ele percebeu: a vitória de não precisava significar sua derrota. Ele era vitorioso apenas por ter a chance de vê-la ganhar.
– Obrigado por voltar – ele sussurrou. Em resposta, se adiantou para ele e o abraçou, apoiando o rosto em seu peito.
– Obrigada por me aceitar de volta – ela respondeu, confiante. Ergueu o rosto em direção ao dele e, quando os lábios se tocaram, percebeu que ele ainda não tinha se acostumado à sua ausência. Não conseguiu segurar um sorriso alegre quando percebeu que não teria de se acostumar.
sorriu de volta e, em questão de segundos, os dois estavam rindo, um do outro, um para o outro, para si mesmos.
– Acho que a gente tem muito assunto para colocar em dia – ela concluiu, ironicamente.
– Eu acho que a gente deveria começar tudo de novo – ele respondeu, sabiamente.
– Essa é uma ótima ideia – concordou ela, beijando-o novamente.




Fim.



Nota da autora: Olá, leitores! Parece que eu abandonei vocês por um tempinho... Mas, assim como a protagonista da história, cá estou de volta!
Primeiramente, eu queria desabafar sobre como foi difícil escrever para esse ficstape. Para começar, porque eu já tinha uma fanfic baseada em Into Your Arms e, como muito bem sabe quem já leu a primeira IYA, as histórias não se coincidem em absolutamente nada! Eu reconheço que, tentando criar algo original, eu posso ter me afastado do conceito original da música e, se foi o caso, peço desculpas. (Esse é meu eufemismo para "não me xinguem se acharem que ficou um cocô".)
No final de tudo, não tenho certeza se essa é uma história de romance. Com toda a certeza, é uma história sobre duas pessoas que se amam, no entanto, minha pretensão não foi a de criar personagens apaixonantes, mas realistas, dentre suas poucas qualidades e diversos defeitos. É muito apelativa, para mim, a mensagem de que pessoas imperfeitas conseguem encontrar amor; espero que a história tenha conseguido transmitir essa mensagem para vocês também.
No mais, eu só tenho a agradecer ao Fanfic Obsession pelo espaço, e à equipe, pelo convite para participar desse especial. Espero que tenham gostado, grande beijo!






Outras Fanfics:
Into Your Arms [Restrita – Finalizada]
Living Backwards [Challenge Interno #1]
My Apocalypse [McFly – Finalizada]
The Best Not Wedding [McFly – Finalizada]
Years Gone [Especial da Saudade]


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