Finalizada em: 17/01/2018

Capítulo Único

“내 기억의 구석
(Em um canto da minha memória)
한 켠에 자리잡은 갈색 piano
(Um piano marrom encostado ao lado)
어릴 적 집 안의 구석
(No canto da minha casa de infância)
한 켠에 자리잡은 갈색 piano
(Um piano marrom encostado ao lado)”


Meus pés me guiaram preguiçosamente para dentro de casa e do meio de nossa pequena sala ainda conseguia ouvir o burburinho das vozes animadas de meus pais conversando animadamente com do lado de fora. Ambos estavam tão empolgados com sua presença que a tratavam como a maior novidade do feriado – mesmo que ela em si não fosse novidade alguma.
Um riso breve se soltou de minha garganta ao ouvir minha mãe dizer que o novo livro de seria o maior sucesso do próximo verão e eu me senti confortável em saber que ela era tão bem quista em meu lar.
Deixando minha bolsa no sofá à minha direita, vi Holly correr animado para dentro, os anunciando enquanto meu irmão vinha com a pequena mala de , que estava logo atrás e em meio a meus pais, que naquele momento pareciam elogiar sua cor de cabelo.
Minha risada aberta trouxe seus olhos para mim e ela sorriu genuinamente.
– Ei, parem de mimar a – apontei para os dois, soando mais sério de propósito –, vocês não sabem como ela vai ficar convencida depois!
Mamãe rolou os olhos e me diria mais tarde que sua expressão era idêntica a minha. Não poderia sequer discordar.
, ela acabou de chegar para nosso primeiro feriado em família! – a mulher mais velha argumentou, guiando a mais nova para o centro da sala enquanto lhe ajudava a tirar o sobretudo – Só quero deixá-la confortável.
O riso de se igualou ao meu e nossos olhares se encontraram novamente. Eu sabia que mesmo que estivéssemos nos divertindo com a situação, seus olhos me mostravam o quanto ela estava lisonjeada com o zelo.
– Eu estou mais do que confortável – adiantou-se em tranquilizar minha mãe, com a voz transmitindo uma serenidade que capturou todos os olhares de nossa sala –, a senhora não precisa se preocupar.
– Então me chame de sogra...
Balancei a cabeça, rindo, ao que gargalhou, ligeiramente envergonhada.
– Como a senhora quiser – levantou suas mãos, demonstrando que não fazia oposição a nada, porque para ela, eu sabia, palavras e honoríficos eram o de menos –, sogra.
Mamãe soltou uma exclamação divertida e rimos juntos. Podia facilmente sentir a atmosfera familiar me acolher com um abraço saudoso. Era sempre bom estar em casa e poder me sentir como antes.
– Sendo assim, deixo vocês por algumas horas – ela olhou para mim rapidamente antes de se voltar para –, ainda temos algumas encomendas para despachar no restaurante. Seu pai e seu irmão estarão comigo.
Assenti de imediato.
– Passamos por lá depois.
Busquei a feição de concordância de , mas ela estava absorta com os olhos curiosos para o outro lado da sala.
– Só tomem cuidado ao sair. – ouvi sua recomendação e balancei a cabeça sem muito prestar atenção, mas senti suas mãos em meus braços logo em seguida – Eu o limpei essa semana – sua voz demonstrava que sorria enquanto olhava na mesma direção que eu –, imaginei que fosse querer passar um tempo com ele.
Duas batidinhas em meu ombro e logo ela estava se despedindo de , assim como meu pai e irmão mais velho.
Quando o silêncio nos atingiu, eu ouvi a melodia de “Ode à Alegria” ser tocada de forma infantil e insegura em minha cabeça. A peça de Beethoven fora uma das minhas primeiras companhias quando eu minimamente aprendi a movimentar meus dedos sobre as teclas ocres.
– Finalmente... – parecia, como eu, divagar – É seu primeiro piano, certo?
Ela caminhou sem desviar os olhos do instrumento no canto esquerdo da sala. Ele agora parecia bem menor do que antes e bem menos brilhante também.
Meu olhar para ele era mais nostálgico do que de encantamento. Era como rever um velho amor. Um antigo e primeiro amor.
– Você não me disse que o da turnê era uma réplica. – ela sorriu, se aproximando e parecendo encantada com a descoberta.
Sorri junto e sentei-me no banquinho acolchoado que havíamos substituído há algum tempo, levantando a proteção das teclas e passando os dedos pela madeira gasta, com alguns arranhões à vista. Parecia bem mais amarelado do que o marrom vibrante de antes, mas continuava singelo.
Senti se posicionar bem atrás de mim, suas mãos pousando delicadamente em seus ombros enquanto eu posicionava meus dedos de forma automática, como aprendi quando menino.
– O que você quer ouvir? – perguntei, sentindo seu queixo repousar no topo de minha cabeça.
– Hmmmm – ela expressou sua dúvida, me fazendo soltar um riso breve –, que tal Stravinsky?
Seu tom convencido me fez rir novamente.
– Metida!
Meu resmungo fez sua risada reverberar, mas atendi seu pedido, logo sentindo fluir da ponta de meus dedos uma sensação de excitação que mesclava com conforto, dois sentimentos tão opostos que só podiam ser frutos do amor.
Diante de mim e ao meu redor, eu tinha dois. Um primeiro e de antes, que eu levaria para sempre, e um depois de muitos e de agora, que eu gostaria de levar comigo até onde o para sempre permitisse.

[♪]


Era o primeiro dos três dias de comemoração do Seollal, Ano Novo Lunar coreano. Depois de ajudarmos com as preparações das comidas para o dia seguinte, e eu nos arriscávamos em uma volta pela vizinhança. O frio e as tradições de se manter em casa em meio às preparações para o dia seguinte deixando as ruas vazias, o que nos mantinha minimamente confortáveis.
– Eles ainda vivem aqui? – ela perguntou, sentando-se em um banco na calçada em frente à praça deserta – Seus amigos e companheiros de crew?
Arrumei seu gorro, me colocando diante dela, e sorri para como seus cabelos pareciam bagunçados.
– Alguns sim – coloquei-me entre suas pernas, fazendo com que ela abraçasse minha cintura e apoiasse a cabeça em meu tronco –, alguns não. A maioria permaneceu no rap underground. Nem todo mundo tem estômago pra essa escalada, você sabe.
– O lugar que vocês costumavam se apresentar é longe daqui?
Olhei para o final da rua e ponderei a resposta, segurando o som da palavra enquanto tentava me lembrar.
– Umas três ou quatro estações de metrô daqui. Ainda fazem festivais musicais lá, mas no verão.
Ouvi seu resmungo antes dela voltar a falar.
– É uma pena, queria ir até lá.
– Não tem nada de mais, . – ri, sendo sincero com ela – Você já viu alguns muito melhores em Seul.
– Acredito em você – afastou-se para me olhar –, mas não é isso que importa, . É só... – olhou ao redor, parecendo capturar com seus olhos curiosos um novo cenário para suas estórias – É fascinante pra mim saber que tem um pouquinho de você por aqui. Suas histórias, seus amores...
– Você já conheceu o mais importante deles.
Meus lábios se esticaram em um sorriso pequeno quando ela me olhou, seus olhos convencidos ali novamente, sendo tão atraentes para mim como nada nunca fora.
– Eu sei, mas você sabe – enfiou suas mãos nos bolsos do meu casaco e não perdi tempo em entrelaçar seus dedos aos meus –, eu gosto de detalhes.
Eu sei – imitei seu tom de propósito –, leio seus livros enormes.
Gargalhei com a careta que tomou seu rosto e me adiantei para lhe roubar um beijo no instante seguinte.
– Mas sério – segurei seu queixo entre meus dedos para que ela continuasse a me olhar –, estou feliz por você estar gostando de ter vindo.
se levantou e eu coloquei um de meus braços ao redor de sua cintura quando começamos a caminhar de volta para casa.
– Estou amando, como amo tudo que envolve você.
Seu sorriso foi meu por alguns segundos antes dela voltar a encarar a rua, mas eu continuei a admirar seu perfil.
Uma das melhores coisas sobre e eu era o fato simples de como ela muito facilmente demonstrava seus sentimentos e eu me via instigado a fazer o mesmo. Não era segredo como eu me sentia em relação a demonstrações de afeto convencionais, mas tínhamos nosso próprio código e ele valia como ouro pra mim.
Quando chegamos em casa a maioria das luzes já estava apagada, apesar de não ser tão tarde, o que nos fez pensar que todos já haviam se recolhido, já que o dia seguinte, efetivamente Ano Novo, começava cedo com o charye – ritual de homenagem aos antepassados, uma forma tradicional de demonstrar gratidão às gerações anteriores a nossa.
– Acho que como somos os únicos acordados, você não precisa ir para o quarto de hóspedes. – meu sorriso sugestivo fez com que risse.
, não inventa. – mesmo tentando ser contra, seus olhos continuavam risonhos – Não quero aborrecer sua mãe.
– Eu acordo você antes dela acordar.
Agarrei-me ao seu corpo e comecei a conduzi-la pelo corredor e sorri convencido para como ela não fez qualquer objeção a nosso caminho até meu quarto. Beijei seu pescoço quando entramos e ela se encolheu com o carinho, me fazendo sorrir ainda mais.
– Quer ir para Hong Kong no último dia no ano?¹
!
se soltou dos meus braços ao exclamar, tapando a boca com as mãos logo em seguida, por ter falado alto demais.
– Tá maluco?! – sua voz se tornou um sussurro ao que fechei a porta e nos tranquei ali dentro.
– Quê? Você não quer? – agarrei sua cintura novamente, roçando meu nariz em seu rosto.
– Na casa dos seus pais?! – ela ainda parecia genuinamente chocada, mesmo que risse.
– E daí? Você sabe ser silenciosa que eu sei.
– Você é inacreditável... – afastou-se para me olhar nos olhos e caminhei com ela até a cama no canto esquerdo.
– Você sabe que sou e me ama por isso.
– Detalhes... – ela rolou os olhos, agarrando minha cintura também, assim que suas pernas roçaram no colchão da cama.
– Você adora detalhes.
– Especialmente os seus.
Mantive meus olhos na altura dos dela quando caímos silenciosamente em minha cama e sorri para ela ao perceber seus olhos esquadrinharem meu rosto com o carinho desejoso de sempre.
– Feliz último dia do ano, .

[♪]


Não consegui acordar primeiro para que voltasse para o quarto de hóspedes antes de amanhecer, mas felizmente minha mãe foi sensata ao dispensar aquela formalidade na noite do primeiro dia do Ano Novo Lunar.
Após todos os típicos rituais, os fogos e balões vermelhos nas ruas, eu a tinha em meus braços enquanto falávamos sobre o último ano, nossas vidas e sobre o mundo.
Éramos incrivelmente bons em divagar.
– Eu sempre ouvi isso – ela respondia a uma das minhas divagações enquanto eu deslizava meus dedos por seus cabelos espalhados em meu peito –, mas detesto pensar que coisas ruins precisem acontecer para que pessoas aprendam lições ou para que possam dar maior valor ao que têm ou ao que podem conseguir. É tão cruel.
Eu podia ver sua careta mesmo que não pudesse ver seu rosto pela forma com que a tinha deitada em seus braços.
– O mundo é cruel.
– Não gosto quando você fala assim, mesmo que concorde.
Sorri com o olhar perdido em um canto qualquer do quarto.
– Sei o que você pensa sobre isso e sei que não gosta de relembrar meus momentos difíceis, mesmo que sequer estivesse em minha vida naquele tempo – porque se ela estivesse, eu sabia, tudo teria sido muito menos pesado –, mas foi como as coisas aconteceram e eu não tenho problemas em dizer isso. Não mais.
Senti-a se encolher em nosso abraço desajeitado e soube que aquela era a sua forma silenciosa de dizer que ela viveria tudo aquilo comigo se pudesse.
– Existem inúmeras maneiras em que Deus pode nos fazer solitários e que nos levam de volta a nós mesmos. Esta foi a maneira dele lidar comigo naquela época.²
Seu suspiro me fez apertar os braços ao redor de seus ombros e ela se aconchegou a mim ainda mais.
– Eu estive sozinho naquele tempo, mas não totalmente sozinho. Eu tinha a música, tinha meus versos e retirei dali as minhas maiores inspirações, acima de todo o medo e todos os traumas.
Ouvindo isso, se ergueu para mim até que nossos rostos estivessem na mesma altura. Logo meus lábios receberam carinho dos seus e envolvi sua cintura com meu braço esquerdo quando ela descansou a cabeça em meu ombro.
– Eu transbordo de orgulho de você por isso. Amo você por isso. Não quero que se esqueça.
Sorri novamente.
– Você nunca me deixa esquecer. Até sem dizer nada. Amo você por isso.
Repeti sua frase com o mesmo tom de carinho e admiração, porque ela havia me ensinado a caminhar por aquela via dupla do amor, onde antes eu apenas vagava de forma negligente. Eu havia amado antes, mas amá-la era como amadurecer e eu estava mais do que feliz por ela não ser meu primeiro amor.
– Vem comigo.
Entrelacei nossos dedos e arrastamos nossos chinelos até sala escura. ligou um abajur e eu me sentei ao piano, começando a dedilhar uma música que eu sabia que ela conhecia. Seu sorriso de segundos depois me mostrou que eu estava certo.
Eu conheço esta, continue tocando... E você me conta o que eu sei e o que não. – ela repetiu a introdução da cantora e eu continuei tocar.
Sua voz, tímida e baixa, me acompanhava em Up The Ladder³, trilha sonora de uma de nossas séries preferidas.
Come with me and we will shall run across the sky and illuminate the night…
Toquei como costumava tocar as primeiras músicas que aprendi, como se descobrisse algo incrivelmente inédito. A sensação era de ter no mesmo cenário meus dois maiores amores, junto à certeza de que eu os teria em meu caminho para sempre. Literalmente ou não, o importante era como nos sentíamos no momento.
Eu me sentia tão bem.
Sabia que ela compartilhava aquilo comigo, porque mesmo que os versos cantados fossem tristes, seu sorriso lindo não deixava seus lábios e eu me sentia sortudo pelo meu amor de agora ser tão afinado ao meu primeiro.
Eu me sentia incrivelmente bem.

”너는 내 손을 놓지마
(Então, nunca solte a minha mão)
두 번 다시 내가 널 놓지 않을 테니까
(Eu não vou soltar sua mão outra vez nunca mais)
나의 탄생 그리고 내 삶의 끝
(Desde meu nascimento e o fim de minha vida)
그 모든 걸 지켜볼 너일 테니까
(Você estará lá para cuidar de tudo)”


¹Levar alguém para Hong Kong pode significar, em linguagem popular, levar alguém ao clímax durante o sexo oral. Fonte: Urban Dictionary. Yoongi faz uso da expressão em seus versos em “Cypher pt.3 (Killer)” e “Agust D”.
²Tradução literal do verso retirado de Wings Short Film #4.
³Up The Ladder, trilha sonora da série The Get Down.




Fim.



Nota da autora: Dizer que First Love é minha música favorita desse álbum é uma obviedade. Yoongi e sua trajetória sempre vão me capturar muito mais facilmente e intensamente do que qualquer outra coisa. Queria ter feito aqui além do que fiz, mas mesmo que não tenha conseguido, fica a intenção de demonstrar o meu apreço e orgulho por esse solo e por esse homem.
Além disso, é uma honra escrever e organizar um ficstape desse álbum que foi um marco tão importante na carreira do BTS. O significado por trás do conceito nunca pareceu tão vivo pra mim, que tenho tido a honra de dividir esse amor por eles com tanta gente maravilhosa.
Em tempo, quero agradecer à Larys pela capa da fic que é um carinho em imagem e também à Mayh, por ser sempre tão paciente comigo. <3
Espero que tenham gostado!
E não se esqueçam, you never walk alone, right?
Aproveitem as outras fics! <3
xx
Thainá M.





Outras Fanfics:
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Mixtape: Listen To Your Heart (Awesome Mix: Volume 1: “80/90’s”)
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