06. I Went Too Far

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Capítulo Único

Ele tinha ido embora. Sem mais nem menos, sem ao menos uma justificativa plausível para sua atitude. Sem me dizer adeus, ou sem comparecer ao compromisso que tinha marcado comigo.
Eu não conseguia entender o que estava errado, não conseguia compreender onde foi a minha falha. Talvez tudo o que eu já tivesse feito fosse pouco diante do que ele precisava. Mas não era como se eu não soubesse que nunca seria suficiente para . Nós nos conhecíamos desde que éramos bebês, na realidade, eu o conhecia desde dentro da barriga de sua mãe, quando eu ainda era muito pequena para saber distinguir qualquer tipo de sentimento que não fosse fome, sede, ou raiva quando algo me era negado.
Mas desde a notícia de que a melhor amiga de minha mãe estava grávida eu o reivindicava como meu, o bebê da minha tia era "meu" e não existia pessoa nesse planeta que fosse capaz de me convencer do contrário.
Posso dizer que eu sempre fui uma pessoa difícil para todos os outros, mas bastava que me pedisse alguma coisa, e esse pedido era atendido. Afinal de contas, crescemos juntos e ele era o meu melhor amigo, assim como eu era a melhor amiga dele, bem... Era assim que as pessoas viam. Era assim como via, mas eu não conseguia dizer que o amava como amava a qualquer um dos nossos amigos. Quando se tratava dele o sentimento era diferente, e eu sabia que seria capaz de fazer tudo o que estivesse ao meu alcance e muito mais para agrada-lo e faze-lo feliz.
Por isso eu ficava bem no meu papel de melhor amiga, por isso eu sorria enquanto via ele com outras garotas, por isso eu me contentava com o que eu poderia ter, afinal de contas, perder a amizade de era algo que eu não suportaria de forma alguma. Não saberia não dormir em sua casa aos finais de semana, muito menos ir para a escola sem os moletons que eu roubava dele e que me faziam sentir tão confortável, o sorriso que me dava de manhã e que eu considerava o meu sorriso, aquele que ele só poderia dar para a minha pessoa. Eu o amava, mas preferia faze-lo em silêncio para não estragar o que tínhamos.
me tratava como se eu fosse sua irmã mais nova, me levava ao parque quando eu pedia, ao cinema em alguns finais de semana, deixava que eu roubasse suas camisetas preferidas, me abraçava como se eu fosse a pessoa mais importante do mundo para ele e mesmo com tudo isso, eu queria mais. O que acabava me fazendo sentir um pouco ingrata, ele me dava o que podia dar, e eu me sentir mal por não estar satisfeita, por querer mais.
Mas as coisas começaram a ficar estranhas quando ele conheceu . Na realidade, eles se conheciam desde sempre, ele, capitão do time de futebol e ela, líder de torcida. Existia alguma coisa mais clichê do que isso? Os dois eram o casal de comercial de margarina. Seriam ainda melhores se eu não existisse, palavras da namorada dele.

Flashback

– Sabe , acho que essa sua situação com o é bastante desconfortável – suspirou assim que entrou no banheiro, apoiou a bolsa na pia e começou a procurar algo ali dentro.
– Por que? – perguntei sem entender, afinal, tudo estava como sempre foi – Aconteceu algo?
– Querida, não minta para você mesma e muito menos para mim – sorriu, pegando o batom em sua bolsa e pintando os lábios tranquilamente, fazendo-os ganhar um tom roxo – A escola toda sabe que você gosta de , consigo ver pela forma como você respira perto dele.
– Não , eu... – neguei com a cabeça, já que se aquela história se espalhasse, poderia ser o fim da nossa amizade, a última coisa que eu queria era que pedisse a para se afastar de mim – O só tem olhos para você, todo mundo sabe disso, não tem nada com o que se preocupar.
– Eu sei que não tenho com o que me preocupar – riu e negou com a cabeça, como se eu fosse uma tola por pensar que ela se preocuparia – Olha pra você – apontou em minha direção, e eu automaticamente olhei para o espelho, tentando encontrar algo de anormal ali – Você é gorda, você não se cuida, parece um moleque estúpido, não sabe se vestir, não sabe passar maquiagem. Você acha que iria querer alguma coisa com uma pobre coitada como você? A forma como ela me olhava fazia eu me sentir suja, indigna de estar no mesmo ambiente que ela. Subitamente a minha imagem no espelho me causou desgosto e tristeza.
– Eu sei que ele não iria! – concordei, meu tom de voz não passava de um pequeno sussurro, eu me sentia insignificante, e provavelmente era assim que me via.
– Ainda bem que sabe disso, mas... Eu não acho legal você roubar as roupas do meu namorado, se quer esconder essa banha pode comprar em lojas que tenham o seu tamanho, não precisa pegar as roupas de um menino para isso – as lágrimas estavam presas em meus olhos enquanto eu ouvia suas palavras, nada saia por minha boca, tudo o que eu consegui fazer foi concordar com a cabeça – Não precisa chorar – revirou os olhos impaciente – Eu estou sendo muito mais sua amiga do que essas garotas que andam com você. Vou mostrar que sou uma pessoa muito legal e te dar uma dica – juntou o dedo indicador e o médio e abriu a boca, indicando claramente o que eu deveria fazer – Espero que isso não chegue aos ouvidos do meu namorado, caso contrário, nós não vamos mais ser amigas, querida – sorriu e me deu dois beijinhos na bochecha, como se aquela conversa fosse algo casual.

End Flashback

Daquele dia em diante as coisas ficaram estranhas entre nós dois. Eu não conseguia olhar para sem me sentir envergonhada, sem sentir que ele só falava comigo por pena. Não queria que ele achasse que deveria sentir pena de mim, e de certa forma, eu queria mostrar que ele poderia me enxergar como algo mais do que a filha da marinha dele e que por tabela acabou se tornando sua melhor amiga e irmã.
Eu queria que me enxergasse como uma mulher, e se eu tivesse que seguir os conselhos de para isso, bem, eu o faria.

Flashback

Minha garganta doía, talvez usar as unhas grandes não fosse uma boa ideia, ou talvez fosse, já que com a dor de garganta a probabilidade de eu conseguir ingerir sólidos era bem reduzida. Me joguei na cama e encarei o teto, era sábado, estava tendo um jantar na casa de para apresentar aos seus pais, eu tinha sido convidada, mas recusei. Era um momento deles e certamente odiaria me ver lá.
Olhei ao redor, tentando encontrar alguma coisa para me distrair, mas todos os meus livros estavam organizados, meus armários e gavetas se encontravam da mesma forma graças a mania de arrumação que minha mãe tinha.
Meus pais tinham saído para comemorar alguma coisa relacionada ao trabalho do meu pai e meu irmão deveria estar por ai, provavelmente com alguma amiga de , já que elas adoravam a parte masculina do sobrenome .
Talvez eu devesse fazer algumas abdominais para acelerar o processo. Assim que me levantei da cama a porta do quarto abriu, fazendo com que meu corpo inteiro tremesse pelo susto.
– Você não foi ao jantar, mas eu não poderia deixar de trazer o bolo de chocolate do meu pai pra você! – me estendeu o potinho quadrado e eu sorri sem jeito.
– Obrigada – deixei o pote de lado, afinal, eu precisaria dar um jeito naquele bolo antes que a minha gula sabotasse meu objetivo.
– Até agora eu não entendi porque você não quis ir – perguntou confuso e eu dei de ombros – E porque não foi jantar com seus pais também?
– Porque eu não quis, ué! – resmunguei irritada com seus questionamentos – Não existe um contrato que diga que eu sou obrigada a sair ou a fazer alguma coisa no final de semana. Quem precisa fazer isso é você, que namora e é popular! – coloquei uma das mãos na cintura observando-o sem entender o que fazia ali – Aliás, o que é que você está fazendo aqui? Não deveria estar com a sua namorada?
– Eita – arregalou levemente os olhos e colocou a mão para a frente como se quisesse se proteger – Eu te fiz alguma coisa? Deixei em casa e passei aqui. Ela sentiu sua falta no jantar! – falsa, era isso que era, eu queria gritar isso na cara de , mas não podia faze-lo.
– Não foi nada, desculpe! – Me sentei na cama e bati para que ele se sentasse ao meu lado – Eu só estou um pouco nervosa com as provas se aproximando!
– Você sabe que não precisa ficar nervosa – sorriu e se aproximou, me puxando para um abraço – É uma das garotas mais inteligentes do colégio, não existe ninguém que discorde disso.
– É, eu sei, mas é inevitável – de certa forma, suas palavras mesmo que fossem um elogio me machucaram, eu não queria ser a garota mais inteligente, eu queria ser a garota que ele gostava.

End Flashback

E aparentemente o meu esforço gerou algum resultado. Conforme os quilos iam embora passou a reparar em mim de alguma forma, ele parecia sentir ciúmes algumas vezes, mas eu sabia que o ciúme era apenas coisa da minha imaginação. Afinal de contas, o relacionamento dele com estava cada vez mais sério e parecia cada vez melhor.
Mas talvez eu estivesse enganada a esse respeito.

Flashback

– Bem, se você multiplicar cruzado aqui consegue alcançar o resultado do problema com mais facilidade – sorri, largando o lápis em cima da mesa e observando a expressão no rosto de . Ele parecia tentar conectar os pontos relativos a matéria que eu explicava e logo sorriu também, como se a peça faltante do quebra cabeça tivesse acabado de se encaixar.
– Você é um anjo, – me abraçou apertado e eu fechei os olhos, aproveitando o contato de sua pele com a minha – Sério, eu nem sei o que faria sem você. – Nossos corpos se afastaram aos poucos, mas nossos rostos continuavam próximos. Eu conseguia sentir sua respiração colidir com a minha, meu corpo inteiro tremia em expectativa do que poderia vir, e assim que os lábios de tocaram os meus, o mundo inteiro parecia não existir ao nosso redor.
Bem, isso foi a forma como eu me senti, era o meu primeiro beijo e com o garoto por quem eu sempre fui apaixonada.
– Puta merda – interrompeu, levantando da cadeira e se afastando como se eu fosse tóxica – Você não pode contar isso para – pediu desesperado – Pelo amor de Deus , foi um erro terrível e não vai se repetir, eu não sei o que deu na minha cabeça – suas palavras saiam rapidamente, e no auge de seu desespero não percebeu a lágrima solitária que escapou por meu rosto – Por favor, eu confio em você ! – implorou e eu assenti – Preciso ir – me deu um beijo na testa e saiu rapidamente do quarto, me deixando para trás com os cacos que me restavam.

End Flashback

O "erro terrível que não iria mais se repetir" acabou se repetindo mais vezes do que eu poderia me orgulhar de contar.
deixava em casa depois de fazer algum programa com ela e depois ia para a minha casa, nós conversamos, riamos e acabávamos nos beijando, já era basicamente a nossa rotina. Eu sabia que não era certo, mas preferia tê-lo daquela forma do que não o ter mais.
Uma hora ele acabaria percebendo que ele e não tinham nada a ver, me enxergaria como a pessoa certa para ele, eu sabia disso. Sabia que o meu esforço seria recompensado, eu só precisava me empenhar mais.
E eu me empenhei, aprendi a me maquiar, investi em um corte de cabelo e dei uma nova tonalidade aos fios, mas bem, aquilo destruiu um pouco de quem eu era.
Minhas notas acabaram caindo, já que devido a fome que eu constantemente sentia eu não conseguia prestar muita atenção nas aulas, minha mãe não entendia o que estava acontecendo, meu pai já tinha tentado conversar comigo diversas vezes, mas eu não precisava da conversa deles, eu precisava de , precisava que ele me amasse e me enxergasse como uma pessoa que ele poderia namorar, alguém que ele não se envergonharia de dizer aos amigos que era a namorada dele.
Eu sabia que estava chegando perto disso, tão perigosamente perto que descobriu.

Flashback

A aula de história tinha acabado e um alívio de suspiro escapou por meus lábios, eu amava a senhora Robbinson, mas minha cabeça doía mais a cada palavra nova que ela dizia, pelas minhas contas, estava bem próximo do meu jejum terminar, o que significava que eu podia ir ao refeitório e pegar alguma fruta.
Coloquei o livro no armário e suspirei aliviada ao pensar em me alimentar, uma maçã não me faria mal e faria com que eu não desmaiasse a qualquer momento. me veria comendo e eu teria uma desculpa plausível para dar em casa. Tudo estava na mais perfeita ordem, bem, estava.
O estrondo do armário e a vertigem que me atingiram em seguida fez com que tudo ao meu redor parecesse negro.
– Eu te avisei , na realidade – a voz de parecia um zunido – Eu te ajudei! – gritou irritada, segurei meu pulso e observei o vergão roxo que apareceu na parte onde a porta do armário tinha acabado de atingir – E você tenta roubar o meu namorado?
– Você é louca? – perguntei irritada, a dor começando a dar espaço para a raiva – Olha o que você fez ! – apontei meu pulso, que nesse momento latejava e a garota deu de ombros.
– É para você aprender a não mexer com o namorado dos outros, para aprender a ser uma pessoa decente – neguei com a cabeça para suas palavras.
– Você acha que eu obriguei ele por acaso? – perguntei irritada e ela riu com deboche
– Certamente ele ficou com pena de todo o esforço que você estava fazendo para ele apenas te notar e resolveu te dar uma esmola! – eu não conseguia dizer o que doía mais, se eram as palavras de ou o meu pulso, aos poucos algumas pessoas começaram a se agrupar ao nosso redor, parecendo se divertir com o espetáculo que estava começando ali.
, o que é isso? – apareceu do meio das pessoas, seu olhar deixava claro que ele estava confuso diante da aglomeração e do nosso posicionamento – O que foi que você fez? – perguntou, se virando em minha direção com o dedo erguido.
– Eu? – esganicei, sem compreender como ele conseguia achar que eu era a responsável pelo circo que tinha se armado ali – A sua namorada que é doida! – repentinamente estava chorando, enquanto proferia palavras que eu não conseguia compreender devido aos soluços forçados que dava.
– Amor – se virou para ela e segurou seu rosto entre as mãos, avaliando sua integridade – Tá tudo bem – suspirou depois de alguns instantes, a puxando para um abraço carinhoso – Acabou o espetáculo – avisou aos que estavam ao redor, fazendo com que eles se dispersassem tão facilmente quanto tinham se aglomerado – Fica longe dela ! E de mim também!

End Flashback

E então, meu mundo ruiu, tudo ao meu redor pareceu perder a cor quando mandou que eu me afastasse, a comida não tinha mais gosto, o ar era pesado, as texturas não existiam, nem mesmo o meu pulso quebrado parecia doer tanto quanto o buraco que ele tinha feito em meu coração.
Tudo o que eu queria era que ele tivesse ficado ao meu lado, que o abraço que deu em tivesse sido meu, mas não foi o que aconteceu, ao contrário disso, ele pediu para que eu devolvesse suas roupas e que apagasse nossas fotos de redes sociais. Eu obedeci, numa tentativa de mostrar a ele que eu não era nenhum tipo de doida e que não queria prejudica-lo de alguma forma. Mas cada pedido que fazia parecia um novo corte em minha pele, e talvez, não houvesse mais espaço para cortar.
Foi assim que eu rompi.

Flashback

– meu pai suspirou cansado, já deveria ser o terceiro dia seguido que ele tentava se comunicar comigo e encontrava apenas o meu silêncio – Minha filha, eu já tentei de tudo – sussurrou – Do seu chocolate preferido até aquela viagem que você queria tanto! – fechei os olhos para não ver sua cara de desgosto ao receber meu silêncio como resposta. não merecia isso depois de ter me criado como sua própria filha e ter me feito sentir especial, mas eu não conseguiria falar nada naquele momento – A sua mãe tá arrancando os cabelos – tentou mais uma vez e eu me limitei a dar de ombros, estava preocupada, eu sabia disso, mas não tinha motivos para tanto – Tem dias que você não come, a gente tá vendo você definhar em baixo dos nossos olhos. No começo achávamos que sei lá, você estivesse apenas tentando mudar os hábitos para alguns mais saudáveis, mas você não parece nem um pouco saudável! – Eu não me importava com ser saudável, não quando não tinha ao meu lado – Se você não vai falar comigo ou com a sua mãe, eu vou ter que apelar e ligar para o seu tio para ele mandar aqui! – Tive vontade de desejar boa sorte a , já que provavelmente só com um milagre ele conseguiria fazer com que viesse ao meu encontro.

End Flashback.

E o milagre não aconteceu, a única coisa que fez foi me mandar mensagens irritadas, dizendo que o pai dele estava bravo com ele por causa do meu pai, e que eu deveria parar de ser tão infantil ao ponto de fazer com que os adultos se metessem naquela história. Lembro de olhar para o meu pulso e dar uma pequena risada ao ler sua mensagem, a última coisa que eu queria era que algum adulto se metesse naquilo e por isso eu inventei a história mais tosca possível para o ocorrido no corredor do colégio.

Flashback

Ok, eu precisava de um médico, a fome que eu sentia a alguns instantes tinha sumido, a dor de cabeça também, mas em compensação meu pulso parecia prestes a cair.
Ligar para minha mãe não me parecia uma boa opção, para o meu pai menos ainda, eu precisava encontrar alguém que pudesse me ajudar a sair dessa situação, e a única pessoa que me veio em mente foi Derek, o meu desajustado e enlouquecido irmão. Ele saberia a mentira perfeita para contar a , na realidade, ele conseguiria formular detalhes tão específicos sobre a mentira, que era impossível questiona-lo, era um profissional na arte de inventar histórias convincentes.
– Derek – choraminguei assim que ele atendeu a chamada e pude ouvi-lo bufar do outro lado da linha, era um fato, nós não éramos irmãos de sangue, nos conhecemos grandinhos, mas nos tratávamos como se estivéssemos na vida um do outro desde sempre.
– Que cara? – perguntou impaciente, já que para ele a minha vida inteira era um drama – No que você se meteu agora? Foi o namoradinho pau no cu ou o que? – se eu pudesse vê-lo, teria a certeza de que ele estava revirando os olhos.
– Aconteceu uma coisa e eu preciso da sua ajuda – murmurei, me sentando em um dos bancos da escola – Me meti em uma confusão e meu pulso tá doendo muito – no mesmo instante a respiração de Derek ficou mais pesada, porém ele parecia prestar mais atenção no que eu dizia – Não posso contar pra mamãe e pro papai! Você está na escola? – era uma pergunta idiota, já que desde que resolveu fazer um mestrado e dar aulas para a faculdade Derek dificilmente ia as aulas.
– Claro que não – resmungou, confirmando minhas suspeitas – Eu tô indo te buscar e você me explica essa história ai direitinho no caminho pro hospital – avisou – Me espera do lado de fora, arruma uma desculpa ai! – a ligação foi finalizada sem uma despedida, mas eu sabia que as coisas seriam resolvidas.

End Flashback

E foi assim que meu pai brigou com Derek por quase uma hora inteira, dizendo–lhe sobre a responsabilidade de um homem quando brincava com uma mulher, e que ele deveria ser mais delicado e não incentivar brincadeiras de lutinhas, já que aquilo tinha ocasionado em uma ida ao hospital.
Foi assim também que eu tive que fazer a lição de casa de Derek por um mês inteiro. Já que eu tinha me recusado a contar o que de fato aconteceu, e segundo ele, era mais caro me acobertar quando eu não podia lhe dizer a verdade.
Mas no fundo eu sabia, que se dissesse a Derek o que tinha acontecido, não teria desavença no mundo capaz de segura-lo quando ele partisse para cima de , já que mesmo que Derek insistisse em manter uma postura de 'puro ódio de irmãos', eu sabia que ele me amava, do jeito torto e estranho dele, mas ele me amava.
As coisas com pareceram piorar consideravelmente quando seu pai brigou com ele, já que agora ele tinha me excluído de todas as redes sociais e sempre inventava alguma desculpa para não comparecer aos jantares que nossos pais davam.
Os jantares mensais dos nossos pais sempre foram nossos preferidos, tocava violão, enquanto eu tentava de forma desafinada cantar alguma música que ele dedilhava.

Flashback

– Não, – resmungou, não conseguindo conter um riso e deixando o violão de lado – Às vezes eu acho que você faz de proposito, sabia? – perguntou e eu me fiz de inocente, fingindo não entender sobre o que ele estava falando.
– Eu? Fazer o que de propósito? Eu só adaptei a música para uma versão muito melhor! – joguei os cabelos e empinei o nariz, em uma postura completamente convencida – Você precisa aceitar que eu sou melhor compositora do que a maioria desses cantores meia boca que você curte!
– Ah sim, porque legal mesmo é aquela boy band lá que você gosta! – provocou – É, aquela mesma, que tá em hiatos a sei lá quanto tempo – continuou o deboche, fazendo com que eu fechasse a cara pela forma como se referia aos meus ídolos.
– Você é um escroto! – grunhi e me levantei de onde estávamos sentados, eu sabia que poderia parecer exagero da minha parte, mas a banda em questão era realmente muito importante para a minha pessoa e vê-lo debochando daquela maneira me irritou.
– a voz de apareceu logo atrás de mim – Não precisa ficar ofendida! Eu peguei pesado, assumo – murmurou manhoso, passando os braços ao redor de minha cintura e me fazendo fechar os olhos ao sentir seu toque – Se me perdoar eu te levo para ver aquele filme que você me pediu semana passada! – chantageou, sem saber que não precisava de chantagem para me convencer a fazer o que ele queria, seus braços ao meu redor eram mais do que o suficiente para que ele tivesse a minha concordância.
–Tudo bem, mas você paga a pipoca, o algodão doce, o chocolate e o refrigerante! – exigi e ele assentiu com a cabeça, sabendo que naquele aspecto não adiantaria uma negociação – Você é o melhor !

End Flashback

Os jantares dos nossos pais continuaram acontecendo, mas ao invés de ter a companhia de , seu violão e nossas risadas, tudo o que eu fazia durante os jantares era encarar a água da piscina, já que eles geralmente aconteciam do lado de fora e o papo dos adultos era absurdamente entediante.
Um desses jantares acabou sendo um dos dias mais tensos que eu já tinha vivido, ainda me lembro dos gritos da minha mãe, do desespero do meu pai e dos meus tios.

Flashback

não vem mais aos jantares, sentimos falta dele – comentou, fazendo com que meu estomago embrulhasse ainda mais, não bastava a comida em meu prato desempenhando a função, mamãe tinha que ajudar.
– Ele anda ocupado com a namorada, sabe como são garotos nessa fase – a resposta de minha tia deixou claro que seria impossível me manter naquela mesa de alguma forma. A imagem de e em minha cabeça fazia com que a pressão aumentasse em meu estômago.
– Eu.. Vou ali – apontei para dentro, antes que mais alguém resolvesse se pronunciar e eu acabasse surtando na frente de todos eles. Deixei a mesa com o prato ainda repleto de comida, o truque de espalhar tudo pelo prato e depois separar os alimentos por cores ou tipo funcionava bem.
– Pode trazer a sobremesa querida? – assenti com a cabeça para o pedido de minha mãe, o olhar que me lançava deixava claro que sabia o quanto eu estava chateada com a atual situação da minha amizade com , afinal de contas, ela sempre brincava que acabaria se tornando sogra do meu melhor amigo e nós riamos sem jeito, enquanto negava que aquilo aconteceria no futuro.
Apoiei a bandeja na pia de mármore e comecei a retirar os potinhos com mousse de chocolate da geladeira. Era a minha mousse preferida, na realidade, o meu doce preferido. Mas eu sabia que uma colherada dele seria o suficiente para que a minha barriga estufasse, e eu não queria isso, no dia seguinte teríamos um car wash na escola, com o objetivo de arrecadar fundos para uma instituição que cuidava de idosos desamparados, e pela primeira vez na vida, eu queria participar, sentia que me encaixava nos padrões para estar lá, junto com as outras garotas. Teriam outras mousses de chocolate no futuro, essa poderia passar.
A bandeja parecia mais pesada do que costumava ser, mas provavelmente isso se devia a quantidade de flexões e polichinelo que eu tinha feito logo cedo. A dor muscular ainda me incomodava um pouco. Não sei exatamente como aconteceu, mas assim que eu avistei meus pais sentados no quintal de trás junto com os meus tios a minha vista ficou turva, gritou alguma coisa enquanto correu em minha direção, e foi a última coisa que eu consegui ver.

End Flashback

Bem, isso foi a última coisa que eu vi antes de acordar em um hospital, ouvindo os soluços da minha mãe e as palavras de conforto que meu pai tentava lhe dizer, mas que pareciam não surtir nenhum efeito.
De certa forma, eu me senti ainda pior por causar isso aos dois, principalmente depois de tudo o que eles já tinham passado na vida, ser a responsável pela tristeza de minha mãe não era uma das melhores coisas.

Flashback:

– Meu bem – papai sussurrou – Ela vai ficar bem, nós vamos procurar algum tratamento para ela, é forte, é uma garota incrível, você não tem motivos para se culpar de nada !
– Claro que eu tenho, olha só para ela – seu tom de voz apesar de baixo era desesperado – Pele e osso, bem em baixo dos meus olhos e eu não percebi! Não percebi os casacos grossos, não percebi a falta de interesse pelos lanches, eu não percebi nada disso! – um soluço escapou por seus lábios e partiu meu coração
– Nenhum de nós percebeu ! – o suspiro do meu pai deixava claro o quanto ele estava angustiado com a situação – Eu também não percebi, sou tão culpado quanto você, não pode se culpar por isso, eu não vou deixar! Principalmente depois de tudo o que você faz e já fez por , não pode carregar a culpa por ela ter mudado bruscamente.
Fingir estar dormindo e ouvir suas palavras estava se tornando cada vez mais difícil, então, abri os olhos e a imagem que eu vi não era melhor do que as palavras que eu escutava, o rosto de era pura preocupação, enquanto o de deixava claro que ela se culpava por cada grama que eu tinha perdido ao longo dos últimos meses.
– Filha! – mamãe se aproximou da cama rapidamente e segurou em minha mão – Meu amor, você deu um susto enorme em nós dois! – seus lábios tocaram minha testa, num misto de beijo e tentativa de confirmar que eu não tinha febre.
– Está tudo bem mamãe – sorri, apertando sua mão levemente para tentar tranquiliza-la – Eu só me senti um pouco mal! Desculpa! – meus olhos encontraram os de meu pai, que me olhava de forma analítica, ele parecia analisar cada palavra que eu dizia, e eu soube ali, que ele não acreditava em meia virgula que saia por minha boca.
– Olha só para você – me observou com mais cuidado, as lágrimas retornando aos seus olhos – , o que foi que você fez consigo mesma? – perguntou, me fazendo franzir as sobrancelhas em confusão com suas palavras, eu estava normal.
... – papai sussurrou, apoiando uma das mãos em seus ombros – Calma meu bem! – pediu, sentando ao seu lado na ponta da cama – Minha filha – seu tom de voz era baixo e sério – O que está acontecendo? Você pode se abrir com a gente, nós somos seus pais, amamos você. Só queremos que você fique bem.
– Nada aconteceu! – me ajeitei na cama, sentindo certo estranhamento na forma como falavam, parecia que os dois estavam vendo a morte diante de seus olhos – Eu só cansei de vestir números enormes enquanto todas as minhas colegas vestem 36! – ergui os ombros – Não tem motivo para tanto desespero! Eu tô bem!
– Você surtou? – mamãe perguntou desesperada, me olhando como se eu fosse algum ser de outro mundo – Por qual motivo resolveu isso? Desde quando se tornou alguém que se importa com número de roupas mais do que com a sua própria saúde?
– Mãe – revirei os olhos, cansada de todo aquele discurso que parecia ter sido milimetricamente ensaiado para me comover – Estar acima do peso também não é saudável, sabia? – de uma coisa eu tinha certeza, se pudesse me matar com os olhos ela o faria, então agradeci aos céus por seus olhos não conseguirem desempenhar tal função.
... – a voz de começou e eu sabia que um sermão estava por vir pelo olhar que me lançava. Mas a porta do quarto foi aberta e interrompeu o discurso.
– Ei – sorriu colocando apenas a cabeça para dentro do quarto e um suspiro aliviado escapou de , já que ela sabia muito bem que era a única pessoa capaz de me convencer a fazer as coisas de forma diferente do que eu planejava.
– Querido, vamos deixar os dois conversarem – sussurrou para papai e segurou em sua mão antes de se levantar e o puxar para fora do quarto.
– Você veio – Não consegui conter um sorriso, já que tinha alguns dias que não nos víamos.
– Claro que eu vim! – ao contrário do esperado, a voz de não era calma, ou suave – Meus pais praticamente me obrigaram a vir aqui ver essa sua palhaçada! – apontou em minha direção e o sorriso sumiu de meu rosto.
... – sussurrei, sentindo um nó se formando em minha garganta. Eu não tinha planejado parar em um hospital, não queria causar problemas para ninguém, principalmente para ele.
– Cala a boca, ! – murmurou irritado, parecendo temeroso em chamar a atenção dos meus pais – Eu vou falar e você vai ouvir, ok? – assenti com a cabeça e mordi o lábio inferior – Eu não aguento mais essa insistência, essa sua palhaçada para chamar atenção, só vim aqui porque os meus pais me forçaram, porque por mim, tanto faz como tanto fez o seu estado! Meus pais têm me enchido a muito tempo com essa sua "tristeza" – fez aspas com os dedos enquanto continuava a usar seu melhor tom irônico – É isso que você quer? Que todo mundo sinta pena da pobre coitada que você é?
– Não – sussurrei enquanto tentava prender as lágrimas em meus olhos – Não fiz de propósito e nem queria que seus pais te obrigassem a vir aqui! , eu amo você. Você é meu melhor amigo desde sempre, acha que eu faria alguma coisa para te prejudicar?
– Já está fazendo, não está vendo? Porra! – esbravejou, enquanto embrenhava os dedos nos cabelos – Está prejudicando meu namoro com , minha relação com os meus pais, tudo! – gesticulou ao redor, como se eu fosse a responsável por destruir o mundo dele. Me deixando ainda mais despedaçada.
– O que você quer que eu faça? – perguntei baixinho – Eu sinto a sua falta.
– Não sei o que você tem que fazer, só quero que pare de ficar pelos cantos como se eu fosse o culpado pela forma como você está! Se não está feliz, finge! – assenti com a cabeça, eu sabia que seria difícil fingir não sentir sua falta.
– Posso te pedir só uma coisa? – maneou com a cabeça como se quisesse saber qual era o meu pedido – Você pode só me dar um abraço? – sua risada ecoou pelo quarto antes dele se virar de costas e sair pela mesma porta por onde tinha entrado.

End Flashback

A minha relação com os meus pais piorou gradativamente após o dia do hospital. Eu os afastava tanto quanto eu podia, e fiz uma nova melhor amiga: A Vodka.
Já que eu não conseguiria fingir felicidade em estar longe de sozinha. Eu contava com a ajuda das garrafas para me fazer sentir leve e mais tranquila, doía menos quando eu bebia, a cada gole a dor diminuía um pouco mais.
Na realidade, a vodka era a minha única amiga, já que agora não havia espaço para mais nenhuma das outras na minha vida. Minhas amigas só queriam saber de sair para comer e eu não tinha uma genética que me permitia acompanha-las sem que a balança gritasse na próxima vez que eu subisse nela.
O céu estava estrelado e as estrelas me faziam companhia, já que não tinha comparecido ao nosso encontro.

Flashback

! – chamou assim que eu botei o pé no corredor, me causando uma pequena risada já que a cada dia que passava as minhas alucinações ficavam melhores.
– Diga lá, senhor – gracejei, pegando o cantil em minha bolsa e dando um gole na bebida – O que teremos para hoje?
– Você tá bêbada? – perguntou estranhando e franziu as sobrancelhas, me analisando por alguns instantes.
– Claro, eu tô sempre bêbada, senão você não estava falando comigo – revirei os olhos como se fosse óbvio.
– Eu não tô falando com você por isso, tô falando porque eu quero falar – ergueu os ombros de uma forma que só ele sabia fazer e eu repliquei seu ato de maneira desengonçada, já que para estar se movendo daquela forma só poderia ser mesmo, mas eu não conseguia imaginar o que ele queria comigo – Queria saber se nós podemos nos encontrar hoje à noite.
– Claro! Meu quarto, como sempre, né? – ri baixinho e ele negou com a cabeça – Seu quarto? – negou novamente, me causando uma ruguinha de confusão na testa.
– Eu passo para te buscar as 20 – sorriu tranquilo e eu concordei com a cabeça ainda sem saber o motivo pelo qual desejava me encontrar – Fica bem bonita, hoje vai ser uma noite ótima.

End Flashback

E foi assim, meus amigos que eu acabei parada na pracinha perto da minha casa, vestindo um Versace e acompanhada pela minha fiel companheira. Não me perguntem porque não compareceu, eu não fazia a mínima ideia do motivo pelo qual ele me deu um bolo. Eu só podia dizer que bolo caia melhor com vodka, e bem... Eu não podia abrir mão da minha melhor amiga em função dele, não é? Aos poucos o céu ia clareando e a escuridão dava lugar aos primeiros raios de sol, que pelo horário ainda não eram muito incômodos.
– Give me some love, give me some love and hold me – murmurei no ritmo da música, inclinado meu corpo levemente para cima e bebendo um gole da bebida no gargalo, o líquido desceu ardendo, me causando um pequeno engasgo.
Subitamente meu corpo foi virado de lado, enquanto a tosse saia de minha boca me impedindo de protestar contra a pessoa que me mantinha na posição desconfortável.
– Pelo amor de Deus, respira devagar! – a voz masculina entrou por meus ouvidos e eu segui seu conselho, conseguindo parar de tossir em alguns instantes me virando para o garoto que não parecia ser mais velho do que eu. A primeira coisa que eu reparei foi em seus olhos, uma tonalidade que parecia mudar a cada raio de sol que batia em seu rosto.




Fim.



Nota da autora: Sem nota.





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