Finalizada em: 14/05/2020

Capítulo Único

acordou com o som do alarme do celular. Apesar de já estar acostumada com a música, a mulher levou um susto, afinal, desde que assumira o posto de médica chefe da cirurgia geral, ela adquiriu o hábito de acordar antes mesmo do despertador tocar.
Não foi o que aconteceu naquela manhã, contudo.
E como se isso já não fosse suficientemente estranho, foi tomada por outra surpresa ao sentir um peso sobre a sua cintura. Virando-se devagar — uma para não acordar o estranho que ela sabia que estaria do seu lado, e outra porque o seu corpo doía demais por ter dormido no chão na noite passada — ela encarou o rosto de um garoto que, com certeza, teria, pelo menos, uns dez anos a menos que ela.
Fechou os olhos com força e reprimiu um gemido de arrependimento.
Tinha trinta e poucos anos nas costas e ainda não havia aprendido que não se deve tomar várias doses de tequila. O ideal, na verdade, seria não tomar nenhuma dose, muito menos incontáveis, uma seguida da outra.
O celular tocou novamente, mostrando que já havia passado os minutos da soneca. desligou o alarme depressa, morrendo de medo que o estranho acordasse e ela fosse obrigada a conversar com ele.
Por Deus, como esse menino se chama?, perguntou-se. Tentou se lembrar, mas as únicas memórias que vinham à sua mente eram a respeito da conversa que tivera com o estranho, e como ela havia caído nas cantadas baratas dele.
Virei uma adolescente agora?, pensou consigo mesma, irritada pela forma com que se deixou levar facilmente pelo papinho barato dele.
Lembrava-se dele falar sobre comemorar algo naquela noite, já que no dia seguinte ele teria um evento muito importante logo pela manhã, algo que poderia mudar a sua vida.
— Não vamos falar sobre isso. — ela disse a ele, interrompendo-o.
— E sobre o que você quer falar? — ele perguntou inclinando o corpo para frente, deixando claro suas intenções com ela.
— Sobre qualquer coisa, menos de nós dois.
Por que eu o interrompi quando ele falou isso, caramba?! Pelo menos eu teria um mínimo de informação dele agora!
Também se lembrava que quando ele perguntara se ela trabalhava no Hospital Memorial de São Paulo ela respondeu, simplesmente, que não queria falar sobre sua vida pessoal naquela noite. A verdade é que ela não queria arriscar descobrir se aquele garoto tão charmoso e galanteador era um paciente seu — afinal, não era muito raro ela encontrar ex-pacientes fora do hospital.
Fala sério, !, deu um tapa na própria testa. O que deu na sua cabeça?!
Ela não teve tempo de pensar na resposta, contudo. O rapaz ao seu lado começou a se mexer, dando sinais de que acordaria logo. Mais do que depressa, a mulher afastou o braço dele da sua cintura, delicadamente, e levantou-se do chão o mais silenciosamente que pôde. Tentou fugir para as escadas, com o intuito de se esconder no banheiro do seu quarto até que o estranho acordasse e se tocasse de que deveria ir embora sozinho. Seus planos, entretanto, não deram certo.
Quando estava com o pé no primeiro degrau da escada, ela ouviu a voz dele.
— Bom dia…
O garoto tinha a voz rouca, se de sono ou de ressaca, não sabia responder.
— Olá.
Apertou os lábios um no outro, sem saber como prosseguir dali em diante. Não estava acostumada com aquele tipo de situação. Quando saía com homens, fazia questão de ir para a casa deles, apenas para poder ir embora de fininho antes do dia amanhecer e evitar momentos constrangedores como aquele.
— Escuta… Eu tenho que ir trabalhar daqui a pouco, então…
Deixou a frase no ar, esperando que o estranho a completasse. O garoto parecia demasiado com sono para entender uma frase tão longa quanto a que ela acabara de falar.
— Então… — ele repetiu, esforçando-se a entender o que ela queria dizer.
— Então eu vou tomar banho agora. — ela disse e esperou mais alguns segundos para que ele entendesse as entrelinhas. Ele não entendeu ou, talvez, tenha fingido não entender. — E então você não vai mais estar aqui quando eu sair para trabalhar.
O estranho ainda demorou alguns segundos para mostrar algum sinal de clareza. E quando o fez, não tardou em se levantar. Afinal de contas, não queria atrapalhar a mulher.
— Você sabe onde está a minha cueca?
Não, não sabia onde estava a cueca do estranho que se encontrava em pé, nu e, aparentemente, muitíssimo confortável na sua sala.
— Tente procurar debaixo do sofá.
E sem mais delongas, correu para o andar de cima, prometendo a si mesma que nunca mais iria beber com estranhos em bares perto do hospital. Ou em bares longe do hospital. Ou em qualquer bar. Nunca mais iria beber tequila com garotos mais jovens que ela, nem mesmo trazê-los para a sua casa e deixá-los pelados na sua sala.
Seguiu até o banheiro e tirou a única peça de roupa que tinha no corpo: a camisa que usara para trabalhar no dia anterior. Sabia que teria problemas em encontrar a própria calcinha na sua sala mais tarde. Tomou um banho mais rápido do que o de costume, já que havia tido um contratempo naquela manhã, e não queria correr o risco de chegar atrasada no trabalho. Sete anos trabalhando naquele hospital, e nunca havia chegado um minuto após o seu horário de entrada, pelo contrário. Tinha fama de ser uma mulher viciada no trabalho e que moraria no hospital se fosse permitido, tudo isso porque ela chegava, todos os dias, vários minutos antes do seu horário.
Não que se importasse com os comentários. Dedicara uma década e meia da sua vida à medicina para chegar onde estava agora, a muito custo e abrindo mão de muita, muita coisa. E enquanto ela decolava na sua carreira, atingindo níveis cada vez mais altos, seus colegas de trabalho, que se prestavam a fazer apenas o mínimo para o qual foram contratados, continuavam estagnados no mesmo lugar.
Azar o deles.
Trocou-se olhando no relógio, querendo descer logo e entrar no carro, sabendo que enfrentaria o trânsito matinal. Ao mesmo tempo, todavia, enrolava o máximo que podia, dando tempo para que o estranho — que ela ainda não sabia o nome — fosse embora.
Desceu os degraus lentamente, sem fazer barulho, e espiou o andar de baixo. Se não fossem as suas roupas espalhadas no chão e as almofadas em cima do tapete, não encontraria nenhum sinal do que aconteceu na noite passada. O estranho tinha ido embora, e ela apenas desejava nunca mais encontrá-lo.
Mais tarde, contudo, iria se dar conta de que quando se quer alguma coisa, quando se quer muito alguma coisa, isso deve ser pedido mais alto, para se ter certeza de que o universo vai ouvir o seu pedido.
Isso porque, ao chegar no trabalho e ouvir as piadinhas de sempre, “caiu da cama de novo, ?”, “caramba, Dra. , chegando cedo assim todo dia pega até mal para gente”, foi recebida a notícia que iria mudar sua vida dali para frente.
, seu novo paciente já está no quarto. — Richard, diretor do hospital, disse a ela. Entregou à a ficha do paciente, e então, com um sorrisinho de lado, emendou — Não estrague tudo.
mal pôde conter um gritinho de felicidade. Há meses disputava esse paciente com outros três médicos do hospital. O motivo era muito simples. O paciente participaria de um transplante de órgãos naquele dia. Mas não um transplante qualquer. Por conta de uma rara síndrome que o acometia desde o nascimento, seus órgãos vitais, especialmente o coração, envelheciam mais rápido que o restante do corpo, causando nele um envelhecimento precoce dos órgãos. Sem um transplante do coração, pulmões, rins e fígado, o rapaz não conseguiria chegar aos trinta anos.
Para conseguir entrar na lista de pacientes que esperam a doação de órgãos, contudo, ele precisou passar por um tratamento severo. Afinal, enquanto não controlasse sua síndrome do envelhecimento, ele não seria considerado apto para receber novos órgãos.
Ninguém conhecia a identidade desse paciente. Richard fez questão de manter sob sigilo quem ele era para evitar que outros médicos, cirurgiões, especialmente, pudessem ir atrás do paciente para tentar convencer sua família a deixá-los fazer a cirurgia do rapaz. Por se tratar de uma cirurgia complicada, e que dependia de vários cirurgiões trabalhando em conjunto, Richard decidiu que ele mesmo escolheria quem iria colocar as mãos naquele rapaz. O cirurgião que mostrasse maior aptidão, seria o escolhido.
E havia sido uma das escolhidas, surpreendendo um total de zero pessoas, já que não era segredo que a mulher dedicava toda a sua vida àquele hospital.
— Mas não pense que é só isso que eu tenho para você hoje.
mal havia virado as costas quando ouviu a voz de Richard.
Virou-se, já imaginando o que viria a seguir, e não economizou na careta de desgosto.
— Ah, não, Richard… Não, por favor!
Richard, por outro lado, não se comoveu nadinha com a indignação de .
— Os novos residentes de cirurgia já chegaram. Não os deixe esperando.
Dessa vez foi Richard quem não esperou por uma resposta da médica. A manhã mal havia começado e ele já tinha uma agenda cheia demais para lidar com as reclamações que ele sabia que faria — afinal, todo semestre era a mesma coisa, os novos residentes chegavam, um grupo era escolhido para acompanhar , enquanto ela deveria ensiná-los o máximo que conseguisse dentro de um curto período de tempo. E toda vez, toda vez, reclamava de precisar ensinar novos médicos.
— Ninguém te obrigou escolher trabalhar em um hospital-escola. — Richard lhe respondeu tantas vezes quantas ouviu reclamar dos novos residentes. Mas não dessa vez. Dessa vez Richard a deixou reclamando sozinha.
Se já odiava ter que perder seu tempo ensinando técnicas básicas para aspirantes a cirurgiões, ela odiava ainda mais o fazer sem ter tido a chance de reclamar com alguém antes. E como Richard não lhe deu a chance mais cedo, ela foi bufando até o quarto 408, onde seu paciente misterioso a esperava.
Enquanto esperava o elevador a levar para o quarto andar, encontrou George e Cristina.
George, que já foi residente de , e passou por maus bocados nos seis meses em que ficou sob a responsabilidade dela, e Cristina, sua melhor amiga e uma das enfermeiras mais inteligentes daquele hospital.
Cristina nem precisou perguntar o porquê do mal humor da amiga. George, por outro lado, por ter adquirido uma boa amizade com a mulher, depois de ter sobrevivido ao semestre mais cabuloso da sua vida, apenas riu da insatisfação dela.
— Hey, quem sabe você não tem sorte e encontra um residente promissor? — ele tentou animá-la antes de descer no terceiro andar.
— Residentes nunca são promissores. — ela respondeu encostada na parede, sem olhar para ele, concentrada demais na leitura da ficha do seu paciente misterioso.
— Hey! E quanto a mim?
revirou os olhos, mas não pôde conter um sorrisinho de canto dos lábios.
— Você era o menos promissor de todos. E foi o único que me surpreendeu por ter virado um bom médico, George.
não teve tempo de ouvir a resposta do médico, contudo. As portas do elevador se fecharam, apenas para se abrirem segundos depois.
Andou a passos largos e rápidos até o quarto 408, cumprimentando algumas pessoas ao longo do corredor. Viu um grupo de jovens médicos, excitados demais por finalmente estarem usando um jaleco dentro de um hospital de verdade, a esperando na porta do quarto do seu paciente favorito.
Novamente revirou os olhos. Aquela empolgação toda era o ingrediente perfeito para estragar o dia de trabalho de qualquer médico minimamente profissional e centrado no seu trabalho.
Mas não aquele dia. Não com ela. Não quando ela tinha uma cirurgia importantíssima para se preparar. Não quando ela daria outro passo grandioso na sua carreira.
Respirou fundo e foi até onde os novos residentes conversavam. Tossiu algumas vezes para chamar sua atenção, e então, com o melhor sorriso que pôde dar naquele momento, se apresentou.
— Olá. Eu sou a Dra. e serei a responsável por acompanhar e ensinar vocês ao longo desse semestre. — ela disse rapidamente. E sem dar tempo para que cada um do grupo se apresentasse, continuou. — As regras para trabalharem comigo são muito simples: falem quando tiverem permissão, fiquem quietos quando eu mandar. Façam perguntas pertinentes e não façam eu perder o meu tempo respondendo algo que vocês podem encontrar a resposta em um livro.
Apesar de a médica estar falando com a sua nova equipe de residentes, ela mal prestava atenção neles. Isso porque ela ainda lia a ficha do paciente misterioso, o mesmo que receberia uma cirurgia importantíssima nos próximos dias, cirurgia esta, que ela havia ganhado a oportunidade de participar.
— Como não temos tempo para apresentações no momento, vou pedir para que vocês me acompanhem, em silêncio, e prestem atenção no caso que vou apresentar em poucos instantes. Vocês estão prestes a participar de um caso raro, e se forem espertos como acham que são, vão absorver cada palavra que eu disser…
Uma garota abriu a boca para falar alguma coisa, mas a interrompeu.
— … Em silêncio. — ela disse depressa, repreendendo a residente com o olhar. — Primeiro observem, e depois perguntem.
Ela foi até a porta do quarto 408 e a abriu. Pediu licença para entrar, e deu passagem para que todos os seus seis residentes entrassem primeiro. Encostou a porta atrás de si, e então olhou para frente. E foi então que ela finalmente prestou atenção em que se encontrava à sua frente.
Na maca, deitado e com um humor realmente muito bom para quem estava prestes a passar por uma cirurgia de vinte horas, estava o seu paciente misterioso. Ao lado dele, estavam os seus residentes. E dentre eles, estava ele, o cara misterioso que esteve na sua casa naquela manhã.
O cara que ficou nu na sua sala.
O mesmo garoto que ela conheceu no bar na noite passada.
O rapaz que ela não quis saber o nome, tampouco quis saber detalhes da sua vida pessoal, porque tinha certeza de que nunca mais o encontraria.
Na sua frente estava…
— Meu nome é . — o médico residente disse. — E eu tenho uma pergunta.
, seu residente, com quem ela trabalharia junto pelos próximos seis meses, tinha o braço levantado, esperando permissão para fazer uma pergunta. Mas nem mesmo percebeu isso. Em sua mente tinha apenas um pensamento: puta que pariu, universo!

🏥

não poderia negar que os últimos meses haviam sido… Agitados.
Depois do sucesso da cirurgia do seu paciente que já não era mais misterioso, ela passou a ser muito requisitada não apenas para um maior número de cirurgias, mas também para dar algumas entrevistas. E enquanto a sua carreira decolava cada vez mais, ela só podia desejar uma coisa: que o universo a ajudasse a manter seus esforços e concentração inteiramente na sua carreira, como havia feito nos últimos quinze anos da sua vida.
Mas é claro que o universo não seria tão gentil com ela.
Nem .
O residente esperou apenas por uma oportunidade para encurralar em um corredor e conversar a sós com ela — exatamente o que ela vinha tentando evitar desde que o vira naquele maldito jaleco branco.
Ela havia conseguido se esquivar bem nos primeiros dois dias. Mas estava tão cansada no terceiro, que nem se deu conta de que não estava sozinha no quarto de descanso dos médicos.
— Hey, .
O susto se deu por dois motivos: o primeiro, por ter sido pega de surpresa ali dentro, em um quarto escuro; e o segundo, por reconhecer a voz de quem ela mais tentava evitar naquele hospital.
— O que está fazendo aqui? — ela perguntou. Percebeu, então, que sua voz até mesmo saíra mais alta que o planejado.
— Estou tentando falar com você há dias, mas nunca consigo te encontrar sozinha. — ele respondeu simplesmente.
tinha os olhos tão claros, que mesmo no escuro conseguia enxergá-los. E não era só isso que ela via ali no escuro. também tinha um sorriso leve, encantador… O mesmo sorriso que a conquistou naquela noite maldita no bar. Por mais que tentasse se convencer de que a culpa de ter dormido com seu residente — que até então ela não sabia quem ele era — fosse das tequilas, ela sabia que o que a havia levado a se entregar para ele tinha sido o jeito moleque dele. O sorriso leve. O olhar divertido. A postura relaxada. A voz que parecia sair cantada…
Mas é o quê?!
Deus… Ela realmente precisava dormir. Emendar plantões nunca era recomendado aos médicos, não só pelo cansaço extremo a que se submetiam, mas também pelas alucinações que seus cérebros podiam lhe causar, devido às várias noites sem sono. E era exatamente por uma dessas alucinações que estava passando naquele momento. Porque não havia outra explicação.
— Hm… É porque estou ocupada. — ela respondeu depressa. Tentou chegar até a porta, mas estava bloqueando a passagem.
— Mas não agora, não é? Agora você finalmente está livre para falar comigo.
Se o quarto não estivesse escuro, e ela preocupada demais tentando evitar contato visual com ele, teria visto o sorriso ladino que dava. Ele havia sim percebido que a mulher fugia dele como o diabo fugia da cruz. Mas em vez de ficar nervoso, ou mesmo chateado com a atitude dela, apenas se divertia. Especialmente quando se esforçava para não dirigir a palavra a ele, mas quando o fazia, ficava corada demais.
E isso encantava o Dr. .
Encantava-o observar e perceber o quão rápido ela conseguia se desligar do mundo ao seu redor e se concentrar unicamente no seu trabalho. Encantava-o as marcas de expressão que surgiam na sua testa enrugada quando ela não entendia alguma coisa, simplesmente porque odiava não saber alguma coisa. Encantava-o o fato de se dar ao trabalho de se manter afastada apenas porque ela, claramente, não queria misturar a vida pessoal com a vida profissional.
encantava de muitas formas mais. E era por isso que ele não se deu por vencido nas tentativas de aproximação.
— Hm… Sobre o que quer conversar?
— Não sei, sobre qualquer coisa… Sobre tudo. — ele respondeu. — Afinal, levando em conta que na noite de domingo nós não conversamos praticamente nada antes de…
— Ah! Olha só a hora! — ela disse apontando para o punho que não tinha relógio nenhum. — Está tarde, preciso ir!
Mas ela não foi.
Não apenas porque não tinha nenhum compromisso para aquela hora, mas também porque estava na frente dela. E se a médica quisesse chegar à porta, ela teria que pedir licença a ele. Ou se desviar dele. Ou então passar por ele. Ou todas as alternativas anteriores. também não foi porque ali, naquele quarto escuro, não havia nenhum olhar julgador, nenhum colega de trabalho curioso e nenhuma pessoa que pudesse ser testemunha do que viria a acontecer em seguida.
Quer dizer, é bem verdade que a médica se esforçava para manter a atenção no seu trabalho, e não no homem à sua frente. Mas o problema é que o homem à sua frente era parte do seu trabalho,afinal, era residente de e trabalhava dia após dia ao lado dela. Olhar para ele, portanto, era necessário. Sentir o seu perfume, inevitável. E se lembrar da noite em que passaram juntos… Isso era completamente involuntário e automático. Porque no momento em que ouvia a voz dele, ou sentia o seu cheiro, ou apenas sentia a sua presença — sim, o corpo da médica conseguia identificar quando se aproximava dela — qualquer tentativa de concentração nas fichas dos seus pacientes ia por água abaixo.
sentia como se a sua tentativa ridícula de se manter afastada de fosse exatamente o motivo pelo qual se sentia tão atraída por ele. Porque sim, ela se sentia atraída pelo seu residente. Muito mais do que atraída. Especialmente porque ela sabia muito bem o que ele podia oferecer a ela.
Então… Por que não?
Por que não acabar logo, de uma vez, com aquela tensão criada entre eles? Porque sim, existia uma tensão. Por que não dar um fim nos pensamentos dela, pensamentos estes que fantasiavam um remember do que viveram no último final de semana? Afinal, era só disso que precisava: de uma vez. Uma vez mais com , um beijo a mais dele, mais uma vez suas mãos percorrendo o corpo dela… Só mais uma vez. E então ela poderia voltar, finalmente, ao seu estado de espírito natural: centrada, controlada. Que prioriza o trabalho e que não se deixa levar por homens bonitos e gostosos vestindo um jaleco branco chamando-a de Doutora a cada cinco minutos.
Então… Por que não?
— Tem certeza de que precisa ir, doutora? — ele perguntou baixinho, como se quisesse que somente o ouvisse. Mas ele não precisava sussurrar, não ali. Afinal, eles estavam sozinhos.
ainda precisou de alguns segundos para se convencer da sua ideia maluca. Porque sim, era uma ideia completamente maluca. Impensável. Irresponsável. Inconsequente. jamais cogitaria a possibilidade de algo do tipo em outras circunstâncias.
Mas nas atuais circunstâncias…
— Não. — foi a sua resposta.
, como o rapaz inteligente que era — primeiro da sua turma de medicina, ficou entre os três primeiros selecionados do programa de residência do Hospital Memorial de São Paulo — não precisou de maiores explicações para entender o que a resposta da mulher significava.
Sua aproximação, contudo, foi impedida.
— Mas que fique claro que isso aqui — ela apontou para o espaço entre eles — nunca mais vai acontecer.

— Esta será a primeira e a última vez. — e diante da cara de desacreditado de , ela repetiu mais enfaticamente. — É sério! Primeira e última vez.
ainda pensou em que fazer uma piadinha e dizer que não, aquela não seria a primeira vez que eles transariam, já que a noite no apartamento da Dra. estava de prova de que uma noite pode render vários orgasmos. Mas preferiu guardar para si. Afinal, ele precisava fazer aqueles minutos valerem a pena se quisesse convencer a doutora de que aquela, além de não ser a primeira vez, definitivamente, não seria a última vez que transariam escondido.
E, de fato, não foi.
Porque apesar de tentar se convencer todos os dias que aquele dia seria o último, ele nunca era. era bom em convencê-la. Ele era bom com as palavras e… Com outras coisas mais.
Por causa disso, por causa dele, os últimos meses de haviam sido… Agitados.
Depois do sucesso da cirurgia do seu paciente que já não era mais misterioso, ela passou a ser muito requisitada não apenas para um maior número de cirurgias, mas também para dar algumas entrevistas. Somando a isso, ainda tinha que se preocupar com um aspecto da sua vida com o qual ela nunca dera atenção antes: o lado afetivo.
não era uma santa. Ela sempre tivera os seus paquerinhas e os garotos que beijava escondido no intervalo da escola ou após as provas na faculdade. Mas ela nunca havia namorado. Tampouco havia dado espaço para si mesma se permitir se envolver emocionalmente com alguém. Simplesmente porque um relacionamento era complicado, cansativo, e exigia atenção. Atenção esta que sempre foi inteiramente voltada para a sua carreira.
Ela nunca se arrependeu das escolhas pessoais que fizera. Priorizar sua vida profissional foi a melhor decisão que ela já poderia ter tomado, e tudo continuaria muito bem, se não tivesse aparecido na sua vida.
, está aí?
A médica levou um susto ao ouvir o seu nome. As batidas foram substituídas com o ranger da porta se abrindo. De trás dela, Richard a procurava com alguns documentos em mãos.
— Ah, você está aí. Desculpe, não queria atrapalhar o seu intervalo.
estava no quarto dos médicos, sentada em uma das camas disponibilizadas para um momento de descanso ao longo de um dia de plantão. Ela não se importou de ter sido interrompida, contudo. Afinal, desde que chegara ali ela fez qualquer coisa, menos descansar.
— Não tem problema, Richard. — ela respondeu. — O que houve?
— Estou terminando de montar o quadro de cirurgias da semana que vem e preciso saber se você vai trocar o seu plantão com o Dr. Sanches.
demorou alguns instantes para voltar à realidade. Sua mente estava nos acontecimentos das últimas semanas.

— Por que não posso dormir aqui no final de semana? — ele perguntou enquanto colocava suas roupas na mochila. Passar os finais de semana na casa de havia virado uma rotina, e já nem se incomodava mais em levar suas roupas embora.
— Já disse o porquê. — ela respondeu sem olhar para ele, enquanto arrumava as almofadas em cima do sofá e passava o pano úmido da mesa de centro.
— Eu sei, eu sei, mas… Por quê?
Ele foi até a frente dela, obrigando a mulher a olhar para ele.
suspirou antes de responder, procurando usar as palavras certas para deixar claro a sua posição, mas sem machucar .
— Porque… Porque meus pais e meus irmãos vão passar a semana toda na cidade, e vão ficar hospedados aqui em casa.
— E…
E… E por mais que estivesse aproveitando e
muito o tempo que passava ao lado de , ela não estava pronta para apresentá-lo à sua família, simplesmente porque ela sabia muito bem o que aquilo significaria. E não queria assumir nenhum tipo de relacionamento ou compromisso.
— E… Não acho que você queira conhecer a minha família.
— E por que não?
“Porque não quero apresentar você aos meus pais como sendo ‘o cara com quem eu transo todo dia’. Porque é isso que você é”, ela pensou. Mas não respondeu.
Não respondeu porque, primeiro, ela sabia que a resposta soaria muitíssimo mais ácida do que ela pretendia. E segundo… Porque ela já não sabia mais que como chamar . Quer dizer, apesar deles nunca terem rotulado a relação, sabia, no seu coração — e mesmo que não quisesse admitir — que há muito tempo assumira um posto na sua vida, sendo muito mais do que o cara com quem ela transava diariamente.
— Você quer conhecer os meus pais?! Pois muito bem, então, conheça-os!
A mulher bateu as mãos nas pernas, exaltada. O motivo, contudo, ela desconhecia. Não estava acostumada a perder o controle dos seus ânimos.
— Beleza, então! Só marcar o jantar!
E por mais que se esforçasse, foi inevitável acompanhar o sorriso fácil de . Porque sim, ele havia conseguido o que queria da forma que ele mais conhecia: insistindo, sempre com bom humor e leveza. E , que nunca havia sido uma pessoa leve e nem muito bem humorada, simplesmente se deixava levar por cada conversa barata dele.
Não que ela se importasse muito com isso.


— Hm… Sim, vou substituí-lo. — ela respondeu.
— Certo… Depois preciso dar uma olhada melhor nas últimas escalas. Acho que você foi a médica que mais operou nos últimos meses.
— Sério? — perguntou surpresa.
— Sério… — ele respondeu com um tom de orgulho. — Seus meses têm sido muito ocupados, hein?
— Você não faz ideia…

— Ok, agora me fala… O que foi aquela cena?
tirou o casaco e colocou em cima do sofá de . Ele franziu a testa, já que não fazia ideia do que a mulher falava.
— Como assim?
ainda carregava a flor que ganhara mais cedo. Não usava um tom de voz nervoso, do tipo que não gosta de alguma coisa. Mas um nervoso… Confuso, ansioso.
— Por que você disse à florista que queria a rosa mais linda que ela tinha…
— … para dar à namorada mais linda que eu tenho? — ele terminou a frase rindo ao final. — Foi uma cantada péssima, eu sei, desculpe.
ainda ria quando se jogou no sofá e procurou pelo controle remoto. Jogou algumas almofadas para o lado, esperando que se sentasse do seu lado, mas a mulher continuou parada na entrada da casa, ainda segurando a rosa nas mãos e ainda com o olhar confuso.
tinha os lábios entre os dentes. Não sabia como colocar em palavras o que estava sentindo, não sabia como colocar para fora o que estava pensando.
— Por que você me chamou de namorada?
Foi a vez de ficar confuso.
— Hm… Sei lá… Porque não sabia que o nosso namoro era segredo. — ele respondeu rindo novamente, achando graça da própria piada.
Novamente mordeu os lábios, segurando o impulso de responder a primeira coisa que vinha na sua mente, mesmo que isso pudesse magoar os sentimentos de .
— Mas… Que namoro?
A mudança do clima era palpável. Em um instante, estava relaxado, com os pés em cima da mesinha de centro e os braços abertos no encosto do sofá, apenas esperando para abraçá-la nos ombros. No instante seguinte, ele estava sentado com a postura reta, os dedos das mãos entrelaçados e os lábios fechados, em uma clara feição de insatisfação.
— Certo… Acho que estou um pouco confuso aqui. — e então, ainda sentado, virou-se para ela. — É verdade que nós nunca conversamos sobre isso, mas eu achava que não precisávamos. Quer dizer, está bem claro que nós…
— Mas nós já conversamos. — ela o interrompeu. E como se suas ideias finalmente tivessem conseguido se alinhar, saiu do lugar e andou até onde estava, ainda de pé, ficando de frente para ele. — Nós já conversamos sobre relacionamentos, e
eu já disse que eu não me relaciono. Eu não vivo romances. Eu não tenho tempo para namorar, para me apaixonar… Simplesmente não tenho.
abriu a boca para responder àquilo, mas não saíram palavras dali. Por esse motivo, o rapaz abriu a boca novamente, e então a fechou de novo. Ao mesmo tempo que queria responder à , ele não sabia como o fazer, nem quais palavras usar. Era a vez dele de ter as ideias todas bagunçadas, um turbilhão de sentimentos o tomando, e ele sem saber como administrá-los.
Mordendo o lábio inferior, e sem saber como continuar aquela conversa, se levantou. Passou por — que ainda carregava a flor que ganhara há pouco — foi até onde deixou o casaco e o vestiu novamente. Quando estava próximo à porta, perguntou:
— Aonde você vai?! — ela estava aflita. Não queria que fosse embora. Suas perguntas ainda precisavam de respostas.
— Preciso pensar no que acabei de ouvir. E não quero pensar aqui com você me olhando como se esperasse que eu lhe desse respostas que eu não tenho.

— Bom, vou deixar você descansar, então.
Richard colocou os papéis embaixo do braço e saiu do quarto, deixando sozinha de novo, imersa nos seus pensamentos.
A mulher olhou a tela do celular: nenhuma mensagem não lida, nenhuma ligação não atendida. estava cumprindo sua palavra quando dissera que não iria incomodar mais , e aquilo doía. Doía de um jeito que nunca havia doído antes. Doía mais do que receber a reprovação do vestibular de medicina, mais do que ser negada para um projeto científico que valeria uma bolsa de estudos, até mais que o momento em que ela recebeu o seu primeiro — e único não — em um projeto de residência.
Doía muito não receber nenhuma palavra de . Machucava saber que ela poderia ter machucado ele. E era exatamente por isso que ela nunca quis entrar em um relacionamento.
Se preocupar com as próprias emoções, os próprios impulsos e as próprias obrigações já era demasiado cansativo. Seu tempo era inteiramente consumido com a sua dedicação aos estudos ao trabalho, tanto que nunca havia considerado a possibilidade de adotar um cachorro, por exemplo. E só decidiu adotar um gatinho anos depois, quando conseguira estabilizar um pouquinho a sua vida, até porque gatos são infinitamente mais independentes que cachorros, e não demandam de tanta atenção — atenção esta, que nunca poderia proporcionar.
A escolha de de se manter afastada de relacionamentos amorosos acabou lhe rendendo, ao longo dos anos, o apelido de “coração de gelo”. O apelido não pegou, contudo. Quando se mostrou perfeitamente à vontade com o apelidinho maldoso, as pessoas pararam de usá-lo. Isso porque nunca se importara em não ter um acompanhante nos jantares do hospital, nem mesmo achava ruim chegar sozinha em alguma reunião de família. Desde que a sua carreira continuasse decolando, o dinheiro continuasse entrando na sua conta, e o seu nome continuasse a ser cada dia mais conhecido, ela não se importava com mais nada.
nunca foi o tipo de garota que sonhava em encontrar um príncipe encantado, ou em ter um casamento típico de contos de fadas. Nunca teve a ambição de dividir um teto com o amor da sua vida, simplesmente porque ela não acredita que, um dia, teria um amor.
E tudo bem. Ela nunca quis amar alguém.
Até conhecer .

A discussão já rolava há quase uma hora. Por mais que tentasse não alterar o tom de voz, era quase impossível se manter no controle. , por outro lado, não fazia questão de esconder seus sentimentos. Não tinha problema nenhum deixar claro que ele não estava gostando nem um pouco daquela conversa e que não, ele não estava feliz com o resultado daquilo. Aumentava o tom de voz quando sentia que precisava, e sussurrava quando estava cansado.
— Eu não sei como chegamos a esse ponto… — passou os dedos nas têmporas. Sua cabeça latejava e os olhos começaram a arder.
— Acho que tenho uma ideia de como chegamos até aqui. — respondeu quase em um tom de deboche. — Vamos ver se consigo resumir, hm… Ah, sim, começou com algumas tequilas no bar, e então nós viemos parar aqui, nessa sala. Então você me expulsou da sua casa, e depois passou uma semana fugindo de mim quando descobriu que trabalharíamos juntos. Nós começamos a sair, eu comecei a dormir aqui e você passou a deixar algumas roupas suas no meu apartamento. E então aconteceu de você não querer que eu conhecesse os seus pais…
— Não foi bem assim…
— … você ficou meio estranha no começo, mas depois as coisas voltaram ao normal. Aparentemente eu passei no teste do sogrão e fui, oficialmente, aceito pela sua família. Então nós passamos a jantar fora mais vezes — mas só quando você não estava cansada demais por conta dos seus plantões no hospital! — e então… O que foi mesmo? Ah sim! Eu te dei uma rosa e você, simplesmente, surtou!
— Você disse que eu era sua namorada na frente daquele monte de gente, !
Pronto, ali estava a descontrolada, falando mais alto do que o necessário.
— Eu não sabia que era um segredo!
— Não era um segredo, simplesmente porque não existia namoro nenhum ali para você contar para alguém!
E aquilo foi o bastante para calar . Ele tinha as bochechas vermelhas e respirava pesadamente, e pensou que nunca o tinha visto tão bonito.
— Caramba, … Você sabe mesmo como acabar com um relacionamento. — ele riu irônico.
sentiu os olhos arderem de novo e então ela entendeu o motivo: as lágrimas eram a causa da ardência.
— Eu nunca quis fazer parte de nenhum tipo de relacionamento.
Aquilo era verdade. nunca quisera viver um lindo romance ao lado de alguém que ela pudesse chamar de amor. Simplesmente porque, no seu plano de vida, não havia espaço para mais ninguém além dela própria.
E, se fosse sincera consigo mesma, sabia que jamais se daria bem se relacionando, por um longo tempo, com a mesma pessoa. Quer dizer, ela se conhecia bem demais. Sabia das suas limitações, dos seus defeitos como ser humano, da sua arrogância quando o assunto era sua profissão. Sabia que não era uma pessoa fácil de se lidar e por isso,
por isso, ela sabia que nunca encontraria alguém que a amasse do jeitinho que ela era: imperfeita e cheia de erros, como qualquer outro ser humano.
Então, somado ao fato de que ela priorizava sua carreira acima de tudo, tinha o fato de que ela não queria entrar em um romance, receber juras de amor, se apaixonar para, em seguida, quebrar a cara e ser largada por um cara que, simplesmente, não soube lidar com ela.
Não, obrigada.
Algumas pessoas poderiam chamá-la de insegura, mas preferia o termo “precavida”.
— Acho que eu deveria ter sido informado sobre isso antes de me apaixonar por você, então.
A ardência nos olhos de aumentou.
— Parabéns, você conseguiu o que queria. — e com um riso irônico, ele completou. — Você sempre consegue.
pegou as chaves do carro e partiu em direção à saída. Antes dele fechar a porta, contudo, já começou a sentir as bochechas ficando úmidas pelo choro.


voltou à realidade com o som do celular tocando. Na tela do aparelho, o nome de Cristina piscava, junto de uma foto que as duas tiraram no último aniversário de .
— Alô?
Foi nesse momento que percebeu que sua voz estava rouca. E que culpa disso era o choro preso que tinha na garganta.
— Ei, onde você está?!
— Estou…
— Não importa, você tem que vir para cá agora! — interrompeu a amiga.
Por instinto, e já imaginando que o pior pode ter acontecido com algum dos seus pacientes, se levantou rápido demais. Tão rápido, que ficou tonta, e precisou de alguns segundos para se recuperar.
— Qual paciente? O que houve? — ela perguntou depressa, já seguindo para a saída do quarto dos médicos.
— Houve que está indo embora e eu ainda não vi você pedindo para ele esquecer que você é uma vaca de coração gelado, nem dizendo que o ama e que quer que as coisas voltem a ser como antes.
quase tropeçou nos próprios pés. Estava correndo pelo corredor quando Cristina terminou de falar, e aquilo foi o bastante para que estancasse ali mesmo, no meio da passagem, atrapalhando o movimento dos médicos apressados, das enfermeiras preocupadas e dos pacientes doentes.
Espera… Como é que é?
— Hm?
Cristina bufou do outro lado da linha.
— É sério, , você vai continuar com essa palhaçada até quando?
estava realmente muito confusa.
— Do que você…
— Muito bem, vamos lá. — Cristina disse do outro lado da linha. — Acho que depois de você mesma, eu sou a pessoa que mais te conhece. E como pessoa que mais te conhece, eu posso afirmar que você está apaixonada.
— Eu não…
— Ei! Eu não disse que você podia me interromper. — Cristina respondeu depressa, logo voltando ao seu raciocínio inicial. — Você vai querer negar, você vai querer espernear e falar que não está, mas você, minha amiga, que nunca se apaixonou antes, está sofrendo dos sintomas de um amor mal resolvido.
ainda estava parada no meio do corredor, mas já não prestava atenção nos xingamentos dos pacientes e nos olhares feios dos enfermeiros.
— Você viveu tanto tempo sozinha, preocupando-se apenas em fazer planos para a sua carreira, que nunca se ligou de que quando se trata dos assuntos do coração, não existe plano nenhum que possa ser seguido. Você se apaixona e bum! não tem mais volta. E tudo bem se apaixonar. Tudo bem se importar com outra pessoa. Tudo bem priorizar os seus sentimentos, afinal, a sua carreira vai continuar te esperando. Tudo bem deixar alguém te amar.
não soube o que responder. Ela nunca havia tido aquele tipo de conversa com Cristina. Quer dizer, por mais próximas que elas fossem, Cristina era uma romântica incurável e se apaixonava por um cara novo a cada semana e, por conta disso, mal tinha tempo de sofrer pelo último amor. , por outro lado, nunca viveu nada parecido com um relacionamento amoroso, motivo pelo qual ela nunca precisou passar por aquele tipo de conversa.
— Você pode falar agora.
piscou várias vezes seguidas a fim de voltar à realidade.
E, sendo sincera consigo mesma, a realidade era apenas uma: ela estava sim completa e perdidamente apaixonada por .
Pela primeira vez, seus planos foram ignorados e sua vida deu um jeito de seguir de forma completamente diferente do que ela pretendia.
, pela primeira vez, tinha seus sonhos divididos entre sua carreira profissional e um homem mais novo, seu residente, que estava indo embora e, provavelmente, nunca mais iria querer falar com ela depois da última discussão que tiveram.
— Meu Deus… está indo embora?
A informação lhe caiu como um balde de água fria.
— Está. E se eu fosse você, não perderia meu tempo ficando parada no meio de um dos corredores mais movimentados do hospital, enquanto o amor da sua vida vai embora.
, então, olhou para frente e viu sua melhor amiga parada no final do corredor segurando o celular nas mãos.
Tomada por um ímpeto de coragem, desligou o aparelho e correu. Correu muito rápido, ainda com o celular na mão, sem se importar em guardá-lo. Correu pelos corredores como quem corre para salvar a vida de um paciente. Desviou-se de algumas pessoas e pediu desculpas por ter esbarrado em outras. Chegou na recepção tão depressa, que nem percebeu que Richard e a maior parte da equipe de cirurgia do hospital estava ali conversando. Seus olhos corriam de um lado para o outro sem prestar muita atenção no que viam, procurando por uma pessoa em específico.
Onde você está?
O som da porta automática se abrindo foi o que lhe chamou a atenção. Seguindo para a saída, com o celular nas mãos — provavelmente chamando por um táxi — estava com o jaleco dobrado em um dos braços e a mochila nas costas.
Meu Deus, ele está indo embora…!
A porta automática abriu-se novamente quando alguém chegou ao hospital, e foi então que tomou uma atitude impensada, a qual lhe traria consequências mais tarde.
Foda-se as consequências.
!
O grito saiu mais alto que o planejado, e prova disso foram todos os olhares que ela recebeu. Mas a mulher não se importou. Não quando estava indo embora.
Correu até onde ele estava, mal esperando a porta automática abrir toda.
Com os cabelos bagunçados, a testa suada e as bochechas coradas, ela tomou ar algumas vezes enquanto um confuso a olhava de cima abaixo.
— Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou calmamente.
— Aconteceu.
puxou o ar mais algumas vezes antes de falar e então… Travou. As palavras — bagunçadas, confusas — estavam na ponta da língua. Mas da sua boca aberta não saía nada.
— E então? — ele perguntou novamente, esperando por uma resposta.
— Eu… Eu…
Tentou formular uma frase coerente, afinal, não queria despejar nele tudo o que tinha em mente. Eram muitas coisas. A maioria nem fazia sentido. O amor, em si, não fazia sentido nenhum para ela, mas queria mostrar para ele que, mesmo não entendendo nada sobre isso, ela queria viver aquele amor com ele — seja lá o que aquilo significava.
— Eu…
olhou mais uma vez para o celular, provavelmente checando se o seu táxi estaria muito longe dali, o que significava que tinha pouco tempo de falar antes que ele se fosse.
— Eu sei que sou uma pessoa difícil. Sei disso. Me conheço melhor do que ninguém, e sei que sou complicada e difícil de se lidar. E é por isso que eu preferi me manter afastada de qualquer pessoa que pudesse se envolver emocionalmente comigo… Porque sou difícil.
pareceu querer falar alguma coisa, mas foi mais rápida e voltou a falar, mais rápido do que antes.
— E com isso eu nunca me permiti me apaixonar por ninguém. Somado ao fato de eu ser meio impossível, tem também o fato de que a minha carreira sempre tomou todo o meu tempo e espaço. E eu sempre fui muito centrada. Sempre soube o que eu queria e sempre batalhei por isso. Não deixei que nada e nem ninguém ficasse no meu caminho e… E não me arrependo.
O celular de emitiu um som, e ficou com medo de que isso significasse que ele iria embora e ela perderia a chance de falar tudo o que ela estava sentindo.
Ela não podia perder aquela chance.
— Mas então eu conheci você. E uma tequila leva a outra… Uma noite leva a outra… E você… , você…
Era agora. O momento que ela estava esperando. Ela só tinha que dizer as palavrinhas mágicas.
, você virou a minha vida de cabeça para baixo. E isso me assustou, me assustou muito. Porque eu pensava que… Que se eu me apaixonasse por você eu nunca iria me recuperar. Se eu me apaixonasse por você eu nunca mais seria a mesma. E isso me assustava, porque eu sempre soube quem eu era e quem eu queria ser.
suspirou e franziu a testa. No fundo, ele tinha plena consciência do medo de se envolver que tinha.
— Mas agora eu não tenho mais medo. — ela disse depressa, surpreendendo a e a ela mesma. — Quer dizer, eu ainda tenho medo, mas… Mas eu quero muito amar alguém. Quero me apaixonar e me deixar levar. Quero amar você e quero que você me ame de volta. Quero… Eu quero viver isso. — ela apontou para a espaço que separava os dois. — Mesmo eu não sabendo o que isso significa. Quero me deixar levar e quero que você me leve até o fim. Eu quero… Eu quero você. E também quero nós.
suspirou novamente. Precisou respirar fundo algumas vezes para ganhar tempo de absorver tudo o que tinha ouvido. Caramba… Era informação demais despejada em cima dele de uma só vez.
— Caramba, … Você é tão difícil de se entender.
— Eu sei… Eu…
— Eu não sei nem por onde começar. Confesso que estou um pouco perdido.
passou a mão nos cabelos, bagunçando-os do jeito que ela mais gostava, ignorando completamente a chamada que recebia pelo celular.
— Não sei o que te dizer, para ser sincero.
mordeu o lábio inferior, apreensiva. Será que havia perdido a sua chance? Demorou tanto para cair em si que havia perdido a chance de reconquistá-lo?
— Eu penso em você todos os dias, sabe… E isso é bem complicado para mim. Não sei muito bem como lidar com isso. Com esse… Calor que eu sinto no peito e com esse frio que eu sinto na barriga todas as vezes que penso em você. E eu sei que talvez você não acredite no que eu digo, já que o nosso histórico não é muito positivo para o meu lado, mas eu prometo que, se você me der mais uma chance, eu vou te amar sem medo. E, em troca, eu apenas peço para que você me ame hoje e não me abandone amanhã, porque eu, simplesmente, não sei se saberia lidar com a sua falta.
, que ainda mantinha o semblante confuso, foi aliviando as linhas de expressão. Aos poucos, o olhar preocupado deu lugar a um olhar doce, satisfeito. Satisfeito com que ouvia. E os seus lábios, que antes estavam travados em uma linha reta, se transformaram em um lindo sorriso.
— Você esperou uma semana inteira para se dar conta de que não quer continuar vivendo uma vida longe de mim, e escolheu o meu momento de ir embora para me falar isso? Confesso que não sei o que fazer agora, .
A pontinha de alívio que começou a sentir foi por água abaixo.
Ela então juntou todas as suas forças, alinhou a postura e deu um passo para frente, ficando cara a cara com ele. Pegou nas mãos de , e então disse:
— Eu estou bem na sua frente, pedindo para você ficar, . Você deveria ficar.
Aquele era o momento decisivo. Dependendo da resposta que ela recebesse, tudo mudaria. Só dependia de agora.
… Eu não posso ficar.
Imediatamente sentiu como se duzentos quilos tivessem sido colocados sobre os seus ombros. A respiração ficou mais pesada, os olhos, mais ardidos. O peito começou a doer e ela só queria encontrar um buraco para se esconder…
— Quer dizer, meu novo turno de plantão começa em duas horas e eu preciso ir embora para casa para tomar banho e comer alguma coisa. Não aguento mais comer a comida da cantina do hospital. Na boa, não comenta nada com a dona Cidinha, mas — ele soltou um assobio — ela precisa começar a maneirar no sal. Estamos em um hospital, afinal de contas…
— Espera!
sempre se orgulhou da sua rápida percepção auditiva. Raramente pedia para algum paciente repetir os sintomas, ou os nomes dos remédios que comprou sem receita médica, simplesmente porque nunca teve dificuldades em entender o que as pessoas queriam dizer. Mas não daquela vez.
— O que foi que você disse? — perguntou confusa.
Com os lábios repuxados para o lado, demonstrando insatisfação, explicou:
— Pois é, eu também não entendendo quem é que faz as nossas escalas no hospital. Quer dizer, eu acabei de sair de um plantão, e daqui a pouco já começo outro… Fala sério, não é?
E foi então que entendeu.
— Mas… Cristina disse que você estava indo embora.
— E eu estou mesmo. Quer dizer, eu estava. — ele olhou para o celular e viu que o táxi que chamara mais cedo tinha cancelado a corrida. — Agora vou ter que chamar outro táxi… Será que vão me cobrar a corrida só porque eu ignorei o motorista?
E então começou a rir. Começou com uma pequena risadinha, que acabou virando uma gargalhada alta o bastante para que até mesmo os médicos, que observavam a cena de dentro do hospital, da recepção, ficassem surpresos.
— Você não está indo embora!
— Eu estou, . Acabei de falar que preciso voltar em duas horas…
— Da cidade! Você não está indo embora da cidade!
fez uma careta confusa.
— Por que eu iria embora da cidade?
continuou rindo, dessa vez de si mesma. Como pôde interpretar a conversa com Cristina tão errado? Não que ela se importasse com isso agora. A vergonha pela declaração que fizera viria mais tarde. Agora ela só tinha uma preocupação em mente.
— Então… Estamos bem?
Ainda que não estivesse mordendo o lábio inferior, já tinha uma resposta na ponta da língua.
— Acho que sim… Quer dizer, você demorou uma semana inteira para me procurar. Não sei se devo aceitar as suas desculpas tão rápido ou se devo me fazer de difícil um pouco.
riu de novo, dessa vez aliviada.
— O que você quer que eu faça? — ela perguntou.
estreitou os olhos e então segurou nas mãos dela.
— Fica comigo essa noite. — disse em quase um sussurro.
— Mas você disse que está de plantão.
— E eu estou. — ele se aproximou mais dela, entrelaçando os seus dedos. — Mas eu sempre consigo fugir para o quarto dos médicos. Você sabe, para descansar ou…
— Eu fico. — ela disse depressa. — Mas também vou precisar de um banho antes de passar a noite toda aqui. Então… Que tal você parar de enrolar e chamar logo um novo táxi para irmos para a sua casa?
não pôde segurar a risada. flertando era tão boa quanto cozinhando. E era um terror na cozinha.
Ainda com os dedos entrelaçados, eles seguiram para a ponta da calçada, onde o novo táxi já estava parado. e entraram no banco de trás, já sabendo que, ao voltar para o hospital, receberiam uma bela bronca pelo atraso que eles sabiam que teriam. Afinal, não se mata a saudade de uma longa semana em apenas duas horas debaixo do chuveiro.





FIM!



Nota da autora: Mais um ficstape no ar, meninaaas! ️ Para quem pegou as referências de Grey's Anathomy - muito bem, vocês têm bom gosto. Para quem não pegou - sério, assistam Grey's Anathomy, haha. Falando sério agora, espero que tenham gostado dessa fanfic, porque eu AMEI escrever ela. 
Deixem um comentário cheio de amor, e recomendem a fanfic para todas as suas amigas que também são lindas e perfeitas ️
Beijos de luz
Angel




Outras Fanfics:
Finalizadas:
Ainda Lembro de Você

Em andamento:
It’s Always Been You

Shortfics:
21 MonthsAccidentally in Love IAccidentally in Love IIAinda Lembro de NósBabá TemporáriaBeautifuly DeliciousBecause of the WarCafé com ChocolateElementalGive Love a TryO Amor da Minha VidaO Conto da SereiaO Garoto do MetrôReencontro de NatalRefrigerante de CerejaRumorShe Was PrettySorry SorrySuddenly Love ISuddenly Love IIWelcome to a new wordWhen We Met

Ficstapes:
02. Cool 05. Paradise 06. Every Road 07. Face 10. What If I 11. Woke Up in Japan 12. Epilogue: Young Forever 15. Does Your Mother Know

MVs:
MV: Change MV: Run & Run MV: Hola Hola

Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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